Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Leilah Assumpção: para além dos limites do palco André Luís Gomes1 Quando analisamos as dramaturgas que se encontram nas prateleiras de grandes livrarias, notamos que as publicações são, geralmente, fruto de grandes sucessos de bilheteria ou da atuação e visibilidade das escritoras nos meios de comunicação. Neste sentido, a publicação do volume Onze peças de Leilah Assumpção está certamente ligada ao sucesso de bilheteria e de crítica das montagens teatrais dos textos da dramaturga. Esse sucesso deve-se também ao fato do elenco das montagens serem encabeçado por atrizes conhecidas do grande público graças ao trabalho na televisão como Irene Ravache, Elizabeth Savala, Marília Pêra entre outras. É importante ressaltar ainda que Leilah Assumpção transita em outras formas de autoria: “em 1973 escreveu Venha ver o sol na estrada, uma telenovela para a TV Record de São Paulo dirigida por Antunes Filho e dois casos especiais para a TV Globo, Revira volta, em 1974, e, no ano seguinte, O remate, estrelado por Odete Lara. Mais tarde escreveu episódios da série Malu Mulher, estrelada por Regina Duarte e assinou com Daniel Más a primeira minissérie brasileira: Avenida Paulista, de 1982, dirigida por Walter Avancini.” (GUIMARÃES: 2010, 13) Quando o Grupo de estudos em Dramaturgia e Crítica Teatral (GDCT) finalizou pesquisa sobre a publicação de textos teatrais em 2009, Laura Castro Araújo constatou que “pelo menos no que se refere às dramaturgas, o reconhecimento por parte da crítica teatral nem sempre repercute no mercado editorial. Leilah Assumpção, por exemplo, umas das dramaturgas brasileiras mais reconhecidas no cenário teatral do país, autora de treze peças, encenadas entre o período de 1969 a 2001, tem apenas quatro peças publicadas, sendo três delas – “Fala Baixo Senão eu Grito” (1969), “Jorginho, o Machão” (1970) e “Roda Cor de Roda” (1975) – parte de uma antologia de 1977, Da Fala ao Grito, lançada pela Editora Record, que não está 1 Doutor em Literatura Brasileira (FFLCH-USP). Professor Adjunto do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília (UnB). e-mail: andrelg.unb@gmail. com Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura mais disponível em catálogo e “Lua Nua”, publicada pela Editora Scipione, na mesma condição” (2010, 120). Apesar da visibilidade teatral e midiática de Leilah Assumpção, do número considerável de peças montadas, elogiadas pela crítica especializada e de grande sucesso de público; só no final de 2010 chega às livraríamos uma publicação de grande porte, reunindo onze peças selecionadas pela dramaturga: “Vejo um vulta na janela, me acudam que sou donzela”; “Fala baixa, senão eu grito”; “Jorginho, o machão”; “Roda cor de roda”; “Kuka – o segredo da alma de ouro”; “Boca molhada de paixão calada”; “Lua nua”; “Adorável desgraçada”; “O momento de Mariana Martins”; “Intimidade Indecente” e “Ilustríssimo filho da mãe”. Das onze peças reunidas na edição da Casa da Palavra, vamos nos deter, nesse artigo, ao texto “Intimidade Indecente”, que estreou em 2001 com Irene Ravache e Marcos Caruso2 sob a direção de Regina Galdino, para tratarmos de algumas características relativamente constantes, mas sempre trabalhadas de forma extremamente criativa, no trabalho dramatúrgico de Leilah Assumpção. O título surpreende por qualificar certa “intimidade” como “indecente”, ou seja, há uma ruptura no campo da expectativa, uma vez que o termo “íntimo” define aquilo que deveria ser, segundo definição de dicionário, muito cordial e afetuoso, mas é descaracterizado pelo adjetivo que, entre outros significados, pode ser considerado “desonesto, inconveniente, indecoroso”. Ao aproximar, portanto, o substantivo feminino “Intimidade”e o adjetivo “indecente”, o título já esboça a relação do casal, protagonista da peça, formado por Roberta e Mariano. Poderíamos atribuir cada um dos termos do título a cada uma dessas personagens, afinal é a “intimidade” de Roberta que será exposta e tratada de forma, diria, inconveniente, por Mariano. Apesar de sete personagens no total, cinco são apenas citadas pelas duas personagens, Roberta e Mariano, casal que conduz as cenas em 2 Intimidade Indecente ficou em cartaz por mais de sete anos. Durante a primeira temporada Vera Holtz substitui Irene Ravache e, em 2007, o casal, Mariano e Roberta, passou a ter como intérpretes Otávio Augusto e Lucinha Lins.. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura diálogos rápidos e em trechos monologais. O cenário, segundo indicação de rubrica, compõe-se de uma “sala de visitas de família de classe média alta” e uma trajetória de 40 anos é sumarizada em quatro quadros. Esses elementos estruturais já formam um esboço das características da escrita dramatúrgica de Leilah Assumpção: textos que discutem relações entre casais em que as “dores e ansiedades das mulheres de sua geração”se sobressaem, resultando num “teatro feminino no pleno sentido da palavra, porque o feminino é humano” como afirma Carmelinda Guimarães no texto de apresentação da antologia . Em “Intimidade indecente”, além da mulher madura no início do século XIX retratada na personagem Roberta, o que se observa são as dificuldades do homem, representado por Mariano, de se adequar às alterações comportamentais que surgiram com essa nova mulher. No primeiro quatro, Roberta e Mariano já estão com “quase 50 anos” e a rubrica já evidencia uma mudança comportamental: Roberta se insinua sexualmente para Mariano, enquanto ele a ignora e continua lendo o jornal. Como Roberta é recusada pela marido, ela resolve discutir a relação e Mariano evita discuti-la, mas, após insistência da esposa, confessa: MARIANO: (...) eu não sei explicar direito, Roberta, eu ainda te amo. Mas não sinto mais tesão por você. (541) A confissão a deixa atordoada, principalmente, quando ele tenta explicar porque ele não tem o mesmo tesão de antigamente e afirma que transa com ela por obrigação, pois lhe falta “o tugor, o viço da pele jovem” e compara a evolução física da mulher e do homem: MARIANO: (...) Deus foi injusto com vocês, mulheres. Nós temos a mesma idade, mas vc está muito mais acabada do que eu”. (542) O tom cômico ganha espaço na peça justamente através de um jogo construído pelas perguntas de Roberta cheias de expectativas românticas Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura e das respostas frias e diretas de Mariano que, obviamente, as frustram e a faz concluir: ROBERTA: (...) Malvado criador que conserva meu marido, esse coroa, de pé, enquanto eu despenco, eu emagreço e engordo feito uma sanfona enquanto ele se mantém no peso; o cabelo, se eu não pinto, vão achar que sou avó dos meus filhos, enquanto nele, cabelo grisalho é um charme, por que não nasci homem, por quê? (542) Ainda nesse primeiro quadro, Mariano confesso que está transando com Rejane, a melhor amiga de Alice, filha do casal. Roberta fica indignada, mas afirma que sua analista, Léa, já havia dito que Mariano sentia atração pela filhinha Alice. O texto explicita ou deixa evidente vários jargões psicanalíticos, “complexo de Édipo”, “negação”, “sadismo””, e a DR ( o “discutir a relação”) configura-se como uma sessão de análise do casal. E ficamos sabendo que Mariano já fez análise e que Roberta continua fazendo terapia com Léa, que é odiada por Mariano. O que se discute durante todo o texto são as mudanças comportamentais da sociedade e a relação de um casal em crise, devido à longa convivência, ao interesse sexual e as alterações físicas e biológicas que o envelhecimento naturalmente acarreta. No segundo quadro, o casal já está quase com sessenta anos e se evidencia, logo nas primeiras falas, uma inversão na relação entre ambos: Mariano entra e elogia a aparência física de Berta e admite que ele também não tem o “turgor da pele”. Roberta não titubeia e, numa forma de revanche, afirma: ROBERTA: “E ficou mais careca. Como Deus foi injusto com vcs, deu a vocês, e não a nós, a careca. Fora a “obrigação”de funcionar. Que tortura. Obrigada, eu Deus. Obrigada. (548) Numa típica virada do jogo, Roberta fica sabendo que Rejane aban- Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura donou Mariano, pois foi embora com o professor de tênis, que era um “az na cama e tinha 25 anos menos” e em uma fala longa resume o que aprendeu com a separação: ROBERTA: (...) eu sempre fui independente economicamente, Mariano, mesmo sendo uma educadora, você sabe que sempre ganhei legal. Mas descobri que nunca fui autônoma que sempre vivi circulando em volta de você e das crianças. Aí, com a separação, me estruturei em cima de mim mesma. Foi uma alegria, meu Deus! Como é bom poder respirar sem o ar dos outros, sem balão de oxigênio, sem transfusões de sangue da família, que é como eu vivia com vc. (...) (549) A inversão do jogo se acentua quando Mariano admite que quer voltar para casa e viver novamente com Roberta, mesmo sabendo que ela está dividindo o apartamento com Léa e, para surpresa de mariano, Berta diz que Léa não está só dividindo o apartamento com ela, mas que está casada com Léa. Com a revelação, o conservadorismo de Mariano vem à tona e ele afirma perplexo: MARIANO: Você está querendo me dizer que vocês duas viraram fanchonas sapatonas?! Você está querendo me dizer que as duas transam na cama uma com a outra????!!!!! Hein? Vocês são sapatonas? (551) Com naturalidade e uma certa ironia Roberta o corrige: ROBERTA: Sapatonas, não. Somos as “sandalinha e salto sete” (551) As falas de Mariano se acumulam de preconceitos e ofensas e ele tenta ironizar essa “nova relação homossexual no novo século ponto com br”, mas Roberta responde em tom explicativo: ROBERTA: “Com a Léa, Mariano, eu sou uma sanfona Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura feliz! Ela não deixa de me amar só porque me nasceu uma espinha na cara. Por que acabou o “tuuurgor” da pele. Ela continua passeando pelo meu corpo com aquela mão macia, passeando com intimidade porque o corpo dela é igual, então ela sabe muito bem onde me tocar para me acordar o prazer... Onde me acariciar e beijar como se eu fosse uma jóia rara.... Onde deslizar o seu rosto suave e liso onde não tem um pelo espetado sequer me cutucando grosseiro com a barba por fazer. (552) A fala-discurso de Roberta explica essa nova relação do novo século através de modos de agir e perceber e tocar o outro, evidenciando que essa nova mulher apenas se dá o direito de vivenciar aquilo que alguns anos atrás deveria ser reprimido, não admitido, ou seja, a novidade está em um passado que ficou adormecido e ela, agora, como mulher moderna admite e se vangloria do prazer que sente e de suas escolhas, enquanto ele, conservador, não admite o novo e põe à tona o que ficou no passado reprimido. O quadro se encerra com um longo monólogo de Roberta que, segundo rubrica, deve se dirigir ao público, como se estive tornando pública não só a relação homossexual com Leá, mas principalmente suas descobertas, seu prazer, sua intimidade, mesmo quando essa intimidade é considerada por alguns como indecente. Através de um discurso direto e ao mesmo tempo poético, Roberta descreve para os espectadores como é sua relação com Léa e a descrição não esconde suas intimidades e seus desejos : ROBERTA: (...) Cozinhar eu gosto mais que ela, mas às vezes ela me prepara uma lasanha light com amor... Nossos filhos nem desconfiam de nós duas. Será? Agora, o mais importante é que foi com a Léa que eu descobri como a minha xoxota é bonita! A minha xoxota é cheia de altos e baixos, sombras, sobe e desce, pétalas, reentrâncias e profundidades. Parece um coração de um figo.O Mariano nunca me disse nada disso. Não, Mariano me falou um dia que o meu púbis parecia um capô de fusca. Que horror, que falta de romantismo! A Léa me disse que o meu púbis, Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura o meu monte de Vênus, é muito muito mais alto e isso é muito sensual. Agora eu só vou comprar saias agarradas que marquem bem esse montinho aqui, de Vênus, para enlouquecer os homens. É... os homens... Eu gosto muito de Léa, mas, às vezes... Às vezes me dá uma saudade daquele abraço grandão e forte do Mariano me apertando no peito dele.... É... Miinhas amigas “homo” acham pênis dispensável, acham um estorvo enorme, que machuca e tudo... Mas eu... A Léa é quase perfeita, “quase”, por... Ah... se além de tudo o que ela é: companheira, solidária, se além de tudo o que ela tem também tivesse ....o pau do Mariano!!!! (554) No quadro três, Roberto e Mariano, com mais ou menos 70 anos, encontram-se para um chá. Roberta mora sozinha com seu cachorro Max e Mariano vem visitá-la e, de início, já implica com o Max. Durante o chá, começam a relembrar cenas do passado e percebem que algumas dúvidas ainda permanecem. Mariano, por exemplo, questiona: MARIANO: “Será que quando a gente tinha 50 anos eu não perdi o tesão por você porque você perdeu antes o tesão por mim? Só me procurava por hábito? Quem disse que você não engordou tudo o que você engordou só para me afastar de você?” (559) Aos 70 anos, eles ainda discutem e assumem suas diferenças e não sabem lidar com elas. Aos 90 anos, no quadro quatro, a solidão é evidenciada na primeira fala de Roberta, construída na forma de um grande monólogo interior, que revela o quanto sua filha e as enfermeiras não a entendem. Sozinha sentada no sofá, Roberta relembra seu cachorro e companheiro, mas chega à conclusão que só lhe resta rezar. Roberta espera por sua filha Alice, mas quem chega é Mariano, que lhe traz doce de leite. Começam a conversar e relembrar o passado e comentam sobre Rejane, que se casou justamente com o viúvo de Léa. Até que Mariano chega à seguinte conclusão: MARIANO: A gente nunca deveria ter se separado. Eu Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura deveria apenas ter tido um caso com a Rejane, você com seu personal trainer e com a Léa, que eu detesto, nenhum contava nada pro outro, tudo passaria logo e teríamos continuado juntos e companheirinhos até hoje. (566) E Roberta conclui: ROBERTA: Mas isso é o que faziam os nossos avôs! Logo em seguida, ao comentar sobre Alice, Roberta lhe conta que a filha está tendo um caso secreto com o psicanalista e que não vai contar nada para o marido e Roberta chega a uma outra conclusão: essa é nova geração. Leilah Assumpção, assim, leva ao espectador/leitor um questionamento sobre as gerações: uma nega a anterior para reafirmar que aquela que antecedeu a anterior, num jogo cíclico e alternativo de negação e afirmação de valores. Na última cena, em lados opostos do palco, estão Mariano e Roberta e temos o seguinte diálogo: ROBERTA: Ué, você não vem? MARIANO: Não, por aí não, nós não precisamos mais de portas, Roberta. ROBERTA: Como assim? MARIANO: Agora nós podermos atravessar as paredes.. ROBERTA: As paredes MARIANO: É, podemos atravessá-las, Roberta. Grande pausa, eles se olham profundamente. ROBERTA: Mariano, me responde uma coisa: por que você veio me buscar, heim? MARIANO: Ora, Roberta... Porque você é o grande amor de minha vida. (573) É preciso repensar a metáfora da “porta” ou “das portas” que Berta e Mariano escolheram para atravessar para, aos 90 anos, descobrirem que podiam ultrapassar paredes e, assim, conviverem com intimidades, até mesmo, com as mais indecentes. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Bibliografia Peças teatrais ASSUMPÇÃO, Leilah. “Intimidade Indecente” em Onze peças de Leilah Assumpção. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010. ______. Da fala ao Grito - Fala Baixo Senão Eu Grito. Jorginho, o machão. Roda Cor de Roda. 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