As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Reabilitação Urbana As Sociedades de Reabilitação Urbana e as Novas Perspectivas na Requalificação de Centros Históricos Por João Lacerda Tavares Dissertação apresentada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa para obtenção do grau de Mestre em Ordenamento do Território e Planeamento Ambiental Orientador: Professora Doutora Maria do Rosário Partidário Lisboa 2008 1 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Agradecimentos Agradeço à minha mulher e aos meus filhos À Professora Rosário Partidário pela orientação Ao Professor João Farinha pela amizade e pelo apoio. 2 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ “Nenhuma restauração se deve empreender, nem se deve autorizar, sem que previamente se defina, precisa e bem nitidamente, qual o fim de utilidade social a que esse trabalho se consagra (…)” Ramalho Urtigão, 1896 Arte Portuguesa, Lisboa, Livraria Clássica Editora 1896 (reedição de 1943) pág. 230 3 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ RESUMO Nos últimos anos os centros históricos tornaram-se num elemento central para a análise da dimensão urbana. A imagem da cidade antiga é transmitida através do centro histórico transferindo identidade e cultura para os nossos dias. É um objecto que permite a comparação entre a cidade imaginada e a sua reabilitação para uma segunda vida. As novas políticas de reabilitação urbana ganham cada vez mais espaço nos discursos políticos e atenção da política de ordenamento do território. Os resultados de uma intervenção urbanística que privilegiou outros territórios teve por consequência o abandono e desleixo de muitos centros históricos das cidades portuguesas. Em contraposição com outros países, as estratégias de reabilitação tem por cenário um conjunto de centros históricos com problemas estruturais graves que provocaram perdas de atractividade. Fazer uma reflexão sobre o que devem ser esses territórios e a criação de condições sobre a sustentabilidade das soluções, é pressuposto de qualquer intervenção. O que se questiona ao longo desta dissertação é a concretização de uma reabilitação integrada que recupere identidade e cultura mas que concretize um novo modelo de centro histórico de acordo com as necessidades actuais: Uma cidade imaginada com a construção de cenários que potencie actividades de turismo e cultura ou a recuperação do existente e a criação de um museu ao céu aberto. Verificar o papel das Sociedades de Reabilitação Urbana na revitalização dos centros históricos, os resultados obtidos e as expectativas na comunidade é fundamental para a avaliação das próximas medidas. Sob pena de se tornar regra os regimes de excepcionalidade como aqueles que caracterizam em Portugal as principais intervenções urbanísticas. 4 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ ABSTRACT In the last years, historical centres have become a central element for the analysis of urban dimension. The image of the old town is transmitted by the historical centre and transfers identity and culture into our days. It is an item that allows the comparison between the city of imagination and its rehabilitation for a second life. The new policies of urban rehabilitation are gaining more and more importance in political speeches and in spatial development policies. The result of an urban intervention that gave privilege other territories was the abandoning and neglection of many historical centres of Portuguese cities. In contrast to other countries, the rehabilitation strategies are founded on a scenery which consists of various historical centres with severe structural problems, leading to the loss of attraction. A prerequisite for any type of intervention is the reflection on what these territories should be like and how conditions for sustainable solutions can be created. The topic underlying this dissertation is the implementation of an integrated rehabilitation, being able to regain identity and culture, however defining a new model of the historical centre, that corresponds to modern needs: A city of imagination with the construction of sceneries, which strengthens activities related to tourism and culture or the recreation of existing constructions and creation of a open-air museum. For the evaluation of the measures that are to be taken, it is of fundamental importance to verify the role of the Sociedades de Reabilitação Urbana (Societies for Urban Rehabilitation) in revitalizing the historical centres, the results achieved as well as the expectation of communities. Otherwise, the ruling of exceptions will be the system used in Portugal for the most important urban interventions. 5 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Índice Agradecimentos……………………………………………….....…………………..…… II Sumário………………………………………………………........................…………... IV Abstract…………………………….…………………………………………………...... V Índice................................................................................................................................... VI Índice de figuras................................................................................................................ VIII Listagem de abreviaturas..................................................................................................... 1. IX Introdução………………………...…………………………………………...…….. 1 1.2 Objectivos e pressupostos de trabalho…………………………....….....……… 1 1.3 Metodologia e estrutura…...……………………………………………...…….. 2 Os Conceitos e o "estado da arte"..………………………………………………….. 5 2.1 Recuperar e Renovar............................................................................................. 5 2.2 Renovação Urbana.………….........……………………...…...………………… 6 2.3 Reabilitação Urbana..................................................................................….…… 8 2.4 Requalificação Urbana..............................................................................….…… 11 2.5 Revitalização Urbana................................................................................…….… 12 2.6 Os Centros Históricos.................................................................................…....... 15 2.7 Património.............................................................................…........................… 19 2.8 "O estado da arte"................................................................................................... 23 3. Compreensão das dinâmicas do espaço urbano............................................................ 28 2. 3.1 As dinâmicas históricas da política de revitalização urbana................................ 29 3.2 Os desafios da revitalização urbana..................................................................... 36 3.3 Sustentabilidade da Reabilitação Urbana............................................................. 38 6 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 4. A renovação urbana no seio das políticas urbanas....................................................... 43 4.1 Modos de intervenção.......................................................................................... 43 4.2 Uma categoria de urbanismo................................................................................ 44 4.3 Uma política pública............................................................................................ 47 4.4 Políticas de revitalização urbana......................................................................... 48 4.5 Os actores............................................................................................................ 51 4.6 Os instrumentos jurídicos mobilizáveis.............................................................. 54 4.7 Os instrumentos financeiros................................................................................ 57 4.7.1 Modos de financiamento da renovação urbana…....................................... 58 4.7.2 Financiamento, incentivos e programas…………………………...……... 60 5. As sociedades de reabilitação urbana........................................................................... 63 5.1 Um novo ciclo de interacção................................................................................ 65 5.4 Reabilitação sem SRU´s....................................................................................... 68 5.4.1 A reabilitação urbana do Centro Histórico de Guimarães........................... 68 Reabilitação com SRU's....................................................................................... 73 5.5.1 A Sociedade de Reabilitação Urbana - Porto Vivo, SA............................. 73 5.5 5.6 Comparação entre soluções....................................................................................... 79 As expectativas para a 2ª geração das SRU`s ......................................................... 82 6.1 Novos modelos de investimento ............................................................................ 86 Conclusão…………………………………………………………………………..... 87 Bibliografia………………………………………………………………………………. 90 6. 7. 7 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Índice de figuras Fig. 2.1 Dimensões de intervenção da revitalização urbana 14 Fig. 2.2 Países com maior número de bens incluidos na lista 21 do património mundial Fig. 2.3 A evolução da construção em Portugal 24 Fig. 2.4 Tipologia dos edifícios da Baixa de Coimbra 26 Fig. 3.1 Investimento em construção na Europa 33 Fig. 3.2 Quadro lista património mundial 39 Fig. 5.1 Imágem do centro histórico de Guimarães 69 Fig. 5.2 Zona de intervenção prioritária do Porto 77 8 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Listagem de Abreviaturas AECOPS Associação das Empresas de Construcção e Obras Públicas AUGI Áreas Urbanas de Génese Ilegal BEI Banco Europeu de Investimento CMVM Commissão dos Valores Mobiliários CRP Constituição da República Portuguesa DGOTDU Direcção-Geral do Ordenamento de Território e do Urbanismo EEE Espaço Económico Europeu GTL Gabinete Técnico Local do centro histórico de Guimarães INH Instituto Nacional de Habitação IPPC Instituto Português de Património Cultural JESSICA Joint European Support for Sustainable Investment in City Areas LBPOTU Lei de Bases da Política de Ordenamento do Território e Urbanismo NRAU Novo Regime de Arrendamento Urbano PCH Projecto de Recuperação do Centro Histórico de Sintra PDM Plano Director Municipal PNPOT Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território PP Planos de Promenor PRAUD Programa de Recuperação de Áreas Urbanas Degradadas PRID Programa de Recuperação de Imóveis Degradados PROCOM Programa de Apoio à Modernização do Comércio PROHABITA Programa de Financiamento para Acesso à Habitação PROREABILITA Apoio à Rehabilitação de Edifícios PU Plano de Urbanização QREN Quadro de Referência Estratégia Nacional 9 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ RECRIA Regime Espacial de Comparticipação na Recuperação de Imóveis Arrendados RECRIPH Regime Espacial de Comparticipação e Financiamento na Recuperação de Predios Urbanos em Regime de Propriedade Horizontal REHABITA Regime de apoio à Recuperação Habitational em Áreas Urbanas Antigas SOLARH Programa de Soliedaridade e Apoio à Recuperação de Habitação SRU Sociedade de Reabilitação Urbana URBAL Programa da Comissão Europeia para locais europeus e latino-americanas para a difusão, aquisição e aplicação das melhores práticas no domínio das políticas urbanas. URBCOM Sistema de Incentivos a Projectos de Urbanismo Comercial 10 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 1. Introdução Porquê reabilitar? O declínio de um território não é mais do que o resultado da sua falta de atractividade. Então porquê inverter os ciclos próprios de uma cidade que, espontaneamente, desloca o seu centro de gravidade em função das exigências humanas? Deveremos fazê-lo em nome de qualquer nostalgia do passado, da sua identidade ou impulso reformador? A que preço se propõe a criação e renovação de um centro que já não aproxima as actividades e que, por reacção, as expulsou? Como compreender o centro histórico e operar a intervenção de conservação que lhe devolva a atractividade? 1.2. Objectivos e pressupostos do trabalho Reconhece-se, com relativa facilidade, os factores que concorreram para o declínio dos centros das cidades e da consequente desqualificação dos espaços. Porventura, entender-se-á com maior dificuldade, o preço elevado que a inversão desse cenário e a procura de novos modelos de ocupação de espaço acarreta. Manter a incoerência das funções económicas, políticas e institucionais, quando as mesmas já não se associam nem se reconhecem nesse espaço, parece difícil de entender. Este trabalho procura certificar um conceito de intervenção urbanística cuja concretização não apresenta ainda resultados finais. Na diversidade de respostas, as Sociedades de Reabilitação Urbana (SRU’s) parecem estar a conseguir articular e desenvolver modelos de concretização e a alavancar recursos e mobilizar meios. Mas outros modelos de intervenção também têm representado experiências positivas sem a utilização destes mecanismos específicos para a gestão e valorização de espaços a reabilitar. 11 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ O objectivo global desta dissertação será efectuar uma abordagem da relação entre os centros históricos e os seus novos usos, tendo por base o contexto de mudança de recursos e o novo paradigma da vontade política em reabilitar os centros das cidades. Revela-se, deste modo, oportuno contextualizar os conceitos e verificar as experiências em reabilitação urbana, pretendendo-se, no fim, responder à pergunta de investigação: será que os centros históricos devem ser reabilitados para criar cidade viva? 1.3 Metodologia e Estrutura Após o enquadramento da problemática e da exposição dos seus objectivos, apresenta-se, agora, a metodologia a seguir para atingir esses objectivos e responder à questão colocada. A abordagem adoptada enfatiza a importância da reabilitação urbana e verificar a oportunidade da intervenção em centros históricos e se sabemos que projecto final se pretende. Na senda da abordagem inovadora iniciada pela UNESCO assente no reconhecimento da realidade dos locais e formas diversas de expressão e práticas culturais que constituem o património cultural imaterial, a análise valoriza as dimensões imateriais e subjectivas do património que constitui os centros de cidades antigas e que se convencionou designar por centros históricos. No sentido de conhecer a forma como as reacções à reabilitação urbana tem sido implementadas nas operações actualmente em curso procurou-se, in loco, percepcionar a forma de intervenção, os resultados da acção na comparação com os objectivos e a diferença de experiências. Em Guimarães e no Porto discutiu-se com os promotores da intervenção urbana e avaliou-se, na rua e com os destinatários. Partindo de quadros de referência e valores diferenciados, procurou-se analisar e comparar as experiências na perspectiva crítica de um ponto de vista de ordenamento do território. 12 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Por essa razão se valoriza mais os processos de identificação, de contextualização e de comparação de acordo com esquemas de reconhecimento de validade que a formação do dissertante alcança. Pretende, sobretudo realçar o estado e razões de uma degradação imparável dos centros históricos e destacar o potencial das novas ferramentas da reabilitação urbana. Tal como se pode observar a partir do esquema seguinte (figura 1.1) a presente dissertação encontra-se estruturada em torno de cinco temas principais, correspondentes aos capítulos 2, 3, 4, 5 e 6. Os Conceitos e o “ estado da arte” Compreensão das dinâmicas do espaço urbano A renovação urbana no seio das políticas urbanas As Sociedades de reabilitação urbana As expectativas para a 2.ª geração de SRU’ s No Capítulo 2 é feita uma breve caracterização do tema reabilitação urbana, a identificação dos conceitos, evolução histórica e actual estado dos centros históricos. Depois, é apresentado no Capítulo 3 as dinâmicas do espaço urbano, com os modos de intervenção no edificado, os desafios da revitalização urbana e como tornar um centro histórico sustentável após a intervenção de reabilitação. 13 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ No Capítulo 4 procura-se avaliar a renovação urbana sob a perspectiva das políticas públicas de urbanismo e a revitalização como ponto de partida de uma acção de reabilitação. O que se tem feito e quem o realiza, os actores que são chamados a intervir, abordando, ainda, os instrumentos jurídicos e financeiros mobilizáveis e. Apresenta-se no capítulo 5 a perspectiva de recuperação do edificado e a necessidade de operadores especializados para o objectivo de revitalizar um centro histórico. Faz-se a avaliação das experiências em reabilitação, as sociedades de reabilitação urbana, enquanto modelos institucionais especializados. Projectam-se as expectativas em reabilitação e a necessidade de um novo ciclo de interacção público-privado. No Capítulo 6 as expectativas para a 2.ª geração de SRU’s estudando os modelos com base em experiências europeias de novos produtos financeiros de suporte às intervenções. Por último, expõem-se as conclusões considerando as razões da excepcionalidade do regime da reabilitação urbana mencionadas ao longo do trabalho e a falência dos modelos de intervenção da política geral de urbanismo e de ordenamento do território. O objecto de análise dos casos práticos visa, sobretudo, verificar a validade e actualidade de projectos de intervenção de recuperação, reabilitação e revitalização bem como os modelos de recurso como são as Sociedades de Reabilitação Urbana. Esta apresentação foi fruto de uma pesquisa de diversos modos de ver a reabilitação urbana, tendo como referência o interesse da abordagem dos modelos e o seu potencial contributo para a concepção de novos conceitos globais de intervenção. É, necessariamente, uma abordagem com uma perspectiva jurídica que é a área de formação do mestrando. Uma visão de um jurista mas também de um autarca que verificou que o planeamento do território é cada vez mais a atribuição de quem tem a possibilidade de contribuir para a gestão de um território. 14 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 2. 2.1. Os conceitos e o “estado da arte” Recuperar e Renovar Uma aproximação ao conceito tema impõe, desde logo, a definição das designações que escolhemos para definir reabilitação urbana e que, à primeira vista, nos parecem antagónicas. Recuperar assenta, sobretudo, numa perspectiva de conservação do edificado. Por sua vez, renovar parece apelar a uma actuação de modernização, se não mesmo de demolição e posterior substituição do mesmo. Uma ideia comum neutraliza uma eventual destrinça: A necessidade essencial de intervenção no existente.1 E poderíamos ainda juntar muitos outros termos com significado idênticos ou complementares que, consubstanciando políticas de ordenamento do território e de urbanismo, pretendem promover a conservação do património edificado. Falamos, então, em reconversão, requalificação, revitalização, expressões todas elas que representam reabilitação em diversas incidências e níveis Todavia, independentemente da designação que seja dada a esta política de intervenção urbana o que se pretende alcançar com reabilitação é a reanimação de um aglomerado urbano cuja vitalidade original se pretende recuperar e adaptar a novas exigências da vida social e económica. Se quisermos, numa visão mais economicista, o objectivo da reabilitação é dar sustentabilidade à gestão de um território mas com observância de novos parâmetros que resultarem das opções estratégicas adoptadas. Esta visão faz realçar a expressão relativamente recente de centros históricos que só ganha autonomia e relevância face à proeminência e à centralidade de novos espaços citadinos que caracteriza a vida urbana. Expressão que, como verificaremos mais à frente, mais do que 1 A maioria dos autores usa indistintamente os termos em referência para as operações de reabilitação urbana e a própria legislação não tem uma denominação usual. 15 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ remeter para um espaço ou objecto, converte-se em representação de qualquer coisa de que necessitamos, de acordo com os parâmetros de hoje, de recuperar e renovar. Alves Correia (2004) afirma que a reabilitação urbana constitui […] um processo sistemático de intervenção no tecido urbano existente com o objectivo de adequar ao fim pretendido. (informação verbal).2 Neste processo de intervenção é tentado recuperar tudo aquilo que representamos nesse centro histórico, incluindo tudo aquilo que, provavelmente, não existiu nesse espaço. Por isso, também, a necessidade de fazer uso de várias disciplinas cientificas para representar as referências identitárias para a recuperação da cidade que se procura. Também como veremos, um projecto de intervenção urbana deve promover a cidade e permitir responder aos objectivos da coesão social, económica e territorial de competitividade, desenvolvimento, desenvolvimento e sustentabilidade.3 Reabilitação é, sobretudo, um conceito dinâmico com uma evolução de actuações que justifica a diferenciação de concepções que passaremos a descrever: 2.2 Renovação Urbana O conceito de renovação urbana é marcado pela ideia de demolição do edificado e consequente substituição por construção nova, com diferentes características em resultado das novas actividades económicas. As mudanças urbanas são marcadas pela evolução da cidade que requer novos usos e que se adapta às solicitações dos seus utentes. Os efeitos sociais que este tipo de política impõe tiveram implicações no princípio do século XX em diversas cidades em função da reocupação das zonas centrais pelas actividades económicas terciária e expulsão da função residencial. 2 Alves Correia, Fernando, Faculdade de Direito, Universidade de Coimbra, curso de Direito do Ordenamento do Território, Urbanismo e Direito do Ambiente, (CEDOUA) 2004 3 Documento final da conferência “Le Sommet des Villes” Out 2004 16 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ A renovação urbana tem uma perspectiva de actuação substitutiva de edificado e de espaços públicos. Mas a sua promoção foi muitas vezes aproveitada para a renovação do tecido social com a expulsão de camadas sociais que, por força do crescimento das cidades, passaram a ocupar áreas centrais. Se é certo que o elemento que caracteriza muitos centros históricos é a degradação do edificado resultado de focos de pobreza, são muitos os exemplos que marcaram a renovação urbana na vertente de renovação social. Em Portugal, este tipo de intervenção foi aplicado extensivamente na época do Estado Novo – Martim Moniz, Alta de Coimbra –4onde se procedeu a massiva substituição de tecidos antigos em nome de um política de planeamento de renovação. Nesse sentido, e sob pretextos higienistas ou de necessidade viária, considerou-se o tecido antigo como caduco, insalubre, sem valor patrimonial e, sobretudo, impeditivo da modernização. Foi com base neste princípio que se arrasou a Alta de Coimbra, de um extenso e antigo edificado urbano para dar lugar a um conjunto de novos edifícios e avenidas do campus universitário. Nos planos de urbanização, os tecidos antigos passam a ser preservados em formol 5 ou esventrados para dar visibilidade aos monumentos e pontos de interesse. Assim se posicionaram no centro das cidades os principais edifícios de instituições de âmbito nacional como forma de reforçar a imagem dos valores e poder do Estado Essas mudanças abrangiam 3 dimensões básicas: Desde logo, a dimensão morfológica que condicionou decisivamente a forma da cidade e o seu aspecto físico, dos seus edifícios e redes viárias. Depois, a dimensão funcional, com a substituição das actividades económicas por outras de maior dimensão e capacidade financeira, fazendo desaparecer o pequeno comércio tradicional. Por último, a dimensão social com as implicações sociológicas decorrentes da substituição de residentes ou visitantes por outros com níveis de rendimento ou instrução social diferentes e que escolhem viver no centro. 4 Centros das cidades e políticas de requalificação urbana, Observações etno-metodológicas e notas sociológicas sobre a Baixa de Coimbra. Carlos Fortuna, Centro de Estudos Sociais, Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra 17 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Apesar de caracterizarem muitas operações urbanísticas do início do Séc. XX, o certo é que muitas das operações de renovação dos anos 80 ou 90 fizeram avançar as políticas de reabilitação urbana com operações de grande escala, marcadas pelo carácter zonal, a que se intitulou áreas de renovação ou sectores de renovação6. As operações de renovação urbana pressupunham, essencialmente, substituição, e se no passado visaram dar reflexo à renovação das actividades da cidade, hoje são operações de recuperação de território que se ressuscita garantindo a continuidade da imagem da cidade antiga. Essencialmente, as operações de renovação faziam substituir cidade. Uma renovação do edificado e, por consequência do tecido social e económico, que a nova abordagem sobre intervenção urbana fez, definitivamente, passar à história e fazê-lo substituir por conceitos que preservavam a imagem, ou identidade, da cidade. 2.3 Reabilitação Urbana Se a renovação faz uso de modelos de substituição do tecido edificado – e por consequência do tecido social e económico - a reabilitação utiliza uma metodologia de habilitação. Tendencialmente, apelidamos de reabilitação toda a actividade de recuperação de edificados, mas na verdade esta é somente uma forma de intervenção sobre edificado existente. Como verificámos atrás, a reabilitação urbana concentra em si mesmo o conceito de acção sobre a cidade. Um conceito englobante definido por um processo integrado de reanimação de parte da cidade com intervenções que, por consequência, revitalizam a actividade da cidade. “[…a reabilitação significa a substituição da estima pública. Sendo o seu objectivo criar condições para que as pessoas não só possam viver e sobreviver em condições consideradas 5 Processo de folclorização e institucionalização do património. Como exemplos, a City londrina nos anos 80, a renovação de Berlim reunificado no início dos anos 90 ou a frente marítima de Barcelona desde os anos 80 6 18 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ adequadas, mas, também, criar condições de maneira a que estes núcleos ou essas cidades constituam núcleos estimados pela sociedade e a colectividade” (Arq. Alcino Soutinho in 2.º Encontro dos Programas Urban e Reabilitação Urbana, 1998:48) Em concordância com esta posição, a reabilitação não significa a eliminação do tecido existente mas antes a sua habilitação. E habilitar apela a conceitos de readaptação a novas situações em termos de funcionalidade urbana. O objecto de intervenção é o mesmo: edificado degradado ou disfuncional e a necessidade de criar atractividade. Por isso, as soluções a preconizar devem privilegiar a readaptação a novas situações em termos de funcionalidade urbana. Trata-se de diagnosticar para readequar o tecido urbano agora desadequado às funções pretendidas. A reabilitação privilegia a adaptação. Se o edificado é essencialmente residencial então a adaptação faz apelo às intervenções que permitam continuar a promover esse usos. Nesse sentido, a reabilitação utiliza metodologias diferenciadas resultado da percepção da utilidade do edificado. A intervenção não é necessariamente igual em todos os quadrantes. Aqui e ali o restauro de alguns edifícios, noutros a sua demolição e construção de novos. Do mesmo modo, reabilitar um edifício pode implicar a demolição de alguns elementos e a construção de novos. Por outro lado, a reabilitação necessita de parâmetros de aparência e estética: os elementos de visibilidade, as fachadas, o espaço público são os adereços da intervenção de conjunto. É um processo que concilia intervenções na medida em que a operação de reabilitação surge, a maior parte das vezes muitas vezes associada a actuações privadas. De facto, a parte exterior de um edifício, a sua fachada, é tão público como o espaço público, fazendo com que a transição seja algo conciliado. Razão para que seja dado especial ênfase ao processo de reabilitação uma vez que nele concorrem diversos factores importantes para o êxito de uma operação. 19 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Em finais dos anos 80 assiste-se em Portugal às primeiras experiências em reabilitação urbana 7 com mais de uma década de atraso relativamente às realizadas em muitas cidades europeias. A necessidade de manter população no centro das cidades perante a atractividade das coroas peri-urbanas, é um dos factores que determina a promoção de uma nova política de intervenção urbanística. Foram pioneiras as experiências na Ribeira do Porto, em Évora e Guimarães, com a criação de instrumentos específicos e dotados de meios próprios para a reabilitação de uma zona eleita. Os GTL’s8 deram um contributo importante para o desencadear de operações planeadas de intervenção sendo percursoras das futuras sociedades de reabilitação urbana. Os seus resultados, como no caso de Guimarães, foram objecto de estudo pelo significado das operações de reabilitação invertendo um quadro de degradação que caracterizava o edificado e o espaço público. Apesar disso, a maioria das experiências acabou por ter um peso muito exclusivo sobre a dimensão física da reabilitação, dissociada de intervenções no tecido económico e social, características daquilo a que mais tarde se denominou de revitalização urbana. A dimensão social era o mais frágil vértice da reabilitação urbana, aquele que mais dificilmente se conseguiria atingir sem uma específica preocupação de integração. Na verdade, a preocupação passava agora por uma estratégia de reabilitar sem provocar processos de expulsão dos habitantes e substituição destes por outras camadas sociais. Um território reabilitado cria nova centralidade provocando uma mudança do seu valor tanto na dimensão económica como na dimensão cultural e social. 9 A valorização do património começa, no entanto, pela vertente social ainda antes da intervenção no edificado, invertendo todo o conceito que marcou a fase da renovação urbana. 7 Algumas experiências na zona ribeirinha do Porto nos anos 70 não são enquadráveis no processo de reabilitação urbana como agora definimos. 8 A criação de Gabinetes Técnicos Locais (GTL) em 1985 em 37 cidades portuguesas. 9 A Área da Nova Centralidade de Barcelona após a intervenção posterior aos Jogos Olímpicos. 20 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ De facto, como refere Jorge Gaspar,10 a evolução do conceito ao longo dos últimos 25 anos e a cada vez maior complexidade e visão integradora dos programas e projectos de reabilitação urbana, tem levado a esbater o antagonismo original entre reabilitação e renovação. Se hoje ninguém defenderá intervenções do tipo das que marcaram muitas cidades nos anos 50 e 60, ao mesmo tempo se tem apagado algum fundamentalismo preservacionista que por vezes imperou. 2.4 Requalificação Urbana A autonomização do termo requalificação surge mais tarde para caracterizar intervenções suficientemente abrangentes nas cidades mas rapidamente é sinónimo de políticas de intervenção urbanística no edificado antigo. Opera como instrumento para a melhoria das condições de vida das populações, promovendo a construção e renovação de equipamentos e infra-estruturas sem esquecer a valorização do espaço público. Nesse sentido, não se afasta dos objectivos prosseguidos nas outras terminologias referidas. A diferença é a promoção de medidas de dinamização social e económica que a operação no edificado esquecia, sendo por essa razão muitas vezes apelidada de política de centralidade urbana. A requalificação urbana tem um carácter mobilizador, acelerador e estratégico. Mobilizador porque pretende coordenar e articular actuações para a construção de novos cenários que sejam o resultado da vontade de todos. Acelerador no sentido de provocar a mudança e promover objectivos cuja sustentabilidade seja assegurada através de políticas estruturais com preocupações de integração social. Estratégico porque voltada para o estabelecimento de novos padrões de organização e utilização do território. As grandes acções de recuperação de áreas urbanas degradadas são necessariamente diversificadas, também, pela especificidade e necessidade de cada centro histórico objecto de intervenção. Com esta abrangência, a operação de requalificação pretende a valorização do 10 Garpar, Jorge, CEDRU, artigo “Reabilitação e Valorização Económica”. 2.º Encontro dos Programas Urban e Reabilitação Urbana 21 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ território mas esta valorização vem por via da intervenção no património. A necessidade de dar novos usos a espaços que se perderam com funcionalidades ultrapassadas são o objectivo principal das operações de requalificação urbana esperando que essas intervenções potenciem a resposta a outras preocupações da cidade, nomeadamente aquelas que se prendem com preocupações de integração social. Assume esta política a acção e o efeito acelerador que possam provocar no todo. Valorizar o território procura melhorar o cenário, reintegrando todos os elementos cénicos, fazendo reanimar os espaços, incentivando actores para a criação de um novo guião para a cidade. 2.5 Revitalização Urbana Herdeira das políticas de intervenção urbana já referidas, a revitalização urbana é suficientemente distante e autónoma para a delimitação de um novo conceito. E essa distância surge pelo dinamismo do conceito de recuperação urbana que ao longo das últimas décadas foi sofrendo alterações de acordo com as estratégias de actuação. Na verdade, redimensionar um conceito integrado de intervenção tem sido o objectivo que cada uma das políticas caracterizadas tem pretendido alcançar. A revitalização urbana integra os conceitos já apresentados e é fruto de experiências em diversas cidades realizadas durante quase um século. Os diferentes modelos de intervenção, nem sempre claramente distintos, apelavam a intervenções mais físicas que integradoras. Mas também a forma de gestão dos processos nem sempre corresponderam às expectativas que faziam prever, frequentemente conflituais, e sem o recurso a mecanismos de participação e concertação que começaram a dar os primeiros passos apenas na década de 90. Se na renovação a actuação parece fazer recurso a políticas de substituição e na reabilitação a processos de readaptação já na requalificação pretende-se a afirmação da dinamização social e económica. No caso da revitalização urbana associa-se todos os conceitos anteriores para 22 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ integrá-los numa intervenção mais vasta. A palavra-chave é integrar: integrar dimensões de intervenção, integrar parceiros e recursos. Nesse contexto, a revitalização assenta na implementação de um processo de planeamento estratégico capaz de identificar e reconhecer os valores pretendidos adaptando-se, assim, ao estipulado no projecto de intervenção. Isto é, uma política de revitalização diferencia-se de outros tipos de intervenção urbanística sobretudo pela capacidade de promover vínculos entre territórios, actividades e pessoas. Assumindo-se como uma política englobante, a revitalização urbana não significa a soma de projectos ou de programas introduzidos num dado território. Bem pelo contrário, assume-se como uma operação sustentável com interdependências nas intervenções físicas e implementações de projectos. Nesse sentido, a revitalização urbana tem consequências directas no território, com responsabilidades na melhoria na qualidade do ambiente urbano, nas condições sócio-económicas e na melhoria da qualidade de vida. 11 Uma visão global do território a intervir obriga a modelos flexíveis adaptados às realidades territoriais, coordenando e adaptando os recursos existentes e potenciais, públicos e privados. E é sobre esta relação que se baseia o potencial do processo de revitalização sendo as pessoas e as entidades co-autoras desse processo. Uma cooperação que caracteriza o próprio conceito de revitalização que se pretende integrador de forma a garantir a sua própria sustentabilidade. A perspectiva de sustentabilidade da intervenção é, efectivamente, pressuposto do sucesso da intervenção. Baseia-se, sobretudo, nos opportunity projects, na colaboração privado/público e na relação com as comunidades. Centra a sua atenção em objectivos de sustentabilidade dos usos da cidade e talvez essa seja a principal vocação da cidade. Ser sustentável, sustentar as suas actividades e ser sustentada pelas suas próprias valências. Na verdade, a valorização económica é, talvez, a maior dificuldade de qualquer operação de reabilitação urbana, uma 11 Operação sustentada que faz uso de mecanismos próprios: “economic viability”; environmental responsibility” e “social and cultural equity” 23 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ vez que, como diz Álvaro Domingos12, as áreas-problema que são objecto de intervenção, correspondem, de facto, a territórios e grupos sociais onde as diversas vertentes da valorização económica se defrontam com sérios problemas sociais A revitalização urbana enquanto processo integrador tem, de facto, um objectivo principal: trazer (de novo) vida à cidade. Falamos, então, em conceitos de atractividade ou dinâmicas perdidas que desenvolvem um projecto orgânico de planeamento. Um projecto complexo em que os instrumentos de revitalização abrangem muitas vertentes. Dimensões de Intervenção da Revitalização urbana Território, Ambiente e Mobilidade Competitividade, Conhecimento e Inovação Governação Urbana Qualidade de Vida, Coesão Social e Bem-Estar Cultura e Lazer Urbanos Figura 2.1 – Dimensões de Intervenção da Revitalização Urbana Fonte ISCTE Lisboa 12 Domingos, Álvaro, comunicação em artigo “Reabilitação e Valorização Económica”. 2.º Encontro dos Programas Urban e Reabilitação Urbana 24 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ A abordagem da revitalização urbana surge, então, como uma evolução das noções de renovação, reabilitação ou requalificação. Ela é, essencialmente, uma abordagem pró-activa em consideração os factores potenciadores de novos dinamismos. Mas sendo uma política de planeamento urbano alberga, também, outras noções que se julgava serem características exclusivas de outras políticas como sejam a coesão social, ambiente e conhecimento e inovação. 2.6 Os centros históricos “A pedra encerra em sim a memória e a cultura de um povo”13 Na verdade, é unânime considerar que o espaço urbano é um espaço de identidade e cidadania e que para ela confluem as principais actividades humanas. A produção da cidade resulta, precisamente, da soma de identidades, das suas tensões, confrontações, pressões, negociações e compromissos entre diferentes actores que procuram a satisfação das suas necessidades. […]“Uma paisagem urbana é uma realidade física integrada por edificações, equipamentos, elementos da natureza e espaços livres, formando um conjunto que pode ser percebido em detalhes ou como um todo pelos habitantes e usuários da urbe."[…] (WILHEIM, Jorge. Intervenções na paisagem urbana de São Paulo) A expressão urbano, visa, essencialmente, referenciar o meio citadino. Uma cidade é sempre uma criação, um elemento fundamental da organização de espaço, num complexo e intercalado sistema de relações estabelecidas voluntária ou espontaneamente. É um conceito que varia, necessariamente, da perspectiva disciplinar de análise: Uma aproximação simplista definiria como uma reunião num espaço mais ou menos vasto, mas muito denso, de um grupo de indivíduos que aí vivem e produzem. 13 conferência “A cidade para o cidadão! – Ordem dos Arquitectos 2006 – Declaração de Política de Arquitectura 25 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ As cidades são, desde sempre, uma realidade em mutação constante com um conjunto de actividades variadas indissociáveis do modo de vida dos seus habitantes. Em 1990 a Comissão Europeia descreve cidade no Livro Verde do Ambiente Urbano como “[…] uma aglomeração mais ou menos regular de edifícios e vias públicas, onde as pessoas possam viver, trabalhar e, também onde há actividades, sociais, culturais e tem pelo menos 100 habitantes […)”14. Esta definição, apesar de parecer demasiado simplista, é suficientemente abrangente e esclarecedora por envolver as várias temáticas de ocupação de espaço. Integrando a cidade, os centros históricos constituem um elemento central do espaço urbano. São o seu espaço privilegiado, aquele onde se deu o início da cidade e de onde ela partiu para os seus espaços circundantes. Mas a noção de centro histórico é relativamente recente e só ganha sentido face à centralidade e proeminência de novos espaços citadinos. É uma expressão que adquiriu lugar nos discursos políticos e técnicos, mas também no público em geral, e que identifica no lugar de referência, uma ideia abstracta do ideal de cidade, face ao movimento de transformação e desenvolvimento urbanístico. Na verdade, quanto mais evidentes se tornam as fragilidades da cidade nova, mais acentuada parece ser a sensibilidade para uma ideia tipificada15, mas abstracta, de património que os centros históricos vivificam, como espaços harmoniosos onde um passado se terá desenrolado e que hoje se perdeu. Como referem Ashworth e Tunbridge, 2000,16 “[…] a consciência patrimonial que subjaz à expressão centro histórico revela que os núcleos urbanos antigos são um reflexo do nosso presente e do nosso futuro mais do que do nosso passado”[…]. A consciência patrimonial característica das novas políticas urbanísticas e opções de actuação estratégica no ordenamento do território manifesta-se como um mecanismo de reacção contra o risco de desaparecimento de uma realidade tangível. O património está presente, como detectáveis são as dinâmicas da cidade que tal património sustentou. 14 48% da população mundial vive em aras urbanas e prevê-se que em 2030 o número atinja os 61%. (referência dos números) 15 Como demonstram o crescimento de inúmeras associações de defesa do património ASHWORTH, G.J. e TUNBRIDGE, J. E. (2000), The Tourist-Historic City – Retrospect and Prospect of managing the Heritage City, Amsterdam 16 26 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Mas a ideia de uma cidade sustentável, uma cidade com interacções e identidade, é constituída por um ponto de vista actual, e de acordo com a avaliação que hoje temos. À luz dos actuais indicadores de sustentabilidade, a cidade histórica, provavelmente, nunca chegou a ser uma cidade sustentável, ao contrário do que projectamos ao analisamos o período anterior ao declínio da actividade dos centros históricos. Uma ideia artificial fundada, é certo, numa consciência patrimonial com base na memória de espaços comuns. Contudo, esses espaços são uma oportunidade e um instrumento para analisarmos a dialéctica urbana da permanência e da mudança, e nesse sentido elas são também um desafio. A cidade foi, e é vista como um espaço onde se potenciam oportunidades de vida, expressas em torno de conceitos como progresso, desenvolvimento e modernidade. Mas é também nas cidades, e concretamente, nos seus centros históricos que se agudizam e cristalizam problemas como desigualdades territoriais, económicas e sociais. As transformações económico-sociais das cidades fazem parte das dinâmicas próprias de um território instável mas com evoluções próprias, sobretudo, como actualmente, em que lhe são impulsionados dinamismos concertados. É comum referir-se existir um certo número de características nos centros urbanos que permitem apelidar de centro histórico em oposição às zonas novas, suburbanas e onde habitam a maior parte das pessoas. Um factor de atracção aos centros históricos é a sua diversidade, o facto de ser uma amálgama de épocas distintas e a aparente harmonia que se consegue depreender do conjunto. O seu carácter orgânico cria a aparência de uma cidade afectiva de que se consegue empatia: as ruas sinuosas, as praças ortogonais, a individualidade de cada monumento mas também de cada edifício. Também o estado de conservação das construções originais, muitas vezes frágeis e toscas, fazem acentuar o carácter singular e retratar de forma mais genuína a imagem. Por fim, a forma opulenta com que se apresentam os edifícios institucionais ou 27 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ relegiosos que marcam, efectivamente, a grandiosidade da histórica de um determinado centro histórico. Mas mais do que qualquer característica específica, o que resulta é o conjunto. É a soma das referidas identidades que faz criar o centro histórico. E a vantagem da afectividade é o elemento diferenciador da cidade nova. De facto, a massificação da construção nas novas zonas habitacionais determinou um repetitismo e estandardização que não se verifica nos centros históricos. A densidade e a mistura de usos, que hoje percebemos que é em si mesmo, indutora de qualidade de vida, foi claramente afastada do novo planeamento, preferindo-se os zonamentos com todas as desvantagens que hoje se demonstra. Contudo esta política pode determinar que o centro histórico hoje, também, pode resvalar para um novo zonamento resultante das suas novas funções ou das funções que restaura com o abandono da função habitacional. Mas a sua cultura de proximidade permite recriar novos usos e utilizações que hoje damos novamente importância e que preenchem os novos indicadores de qualidade de vida: O favorecimento do uso pedonal, a possibilidade de pequeno comércio de qualidade ou a simples vivência da cidade. É claro que os centros históricos não concentram apenas características positivas. Como grande parte das suas áreas não nasceu de projectos concretos, não houve lugar a desenho urbano. Em resultado, a opção de utilização do automóvel encontra constrangimentos muito sérios, e que conflituam com a possibilidade de desfrutar do centro. Também as dificuldades resultantes de uma maior exigência de regras de salubridade e funcionalidade das habitações são outros constrangimentos da cidade antiga, que sofre as patologias decorrentes da sua idade, como a degradação dos edifícios. Este facto tem modificado a vivência de um centro histórico criando um efeito de bola-deneve: Os habitantes com mais posses abandonam estas zonas, procurando condições mais favoráveis nas zonas novas da cidade. Os preços da habitação descem e estas zonas passam a ser ocupadas apenas pelos escalões mais baixos da sociedade e como estes não têm possibilidade de proceder à recuperação dos edificados acabando por deixar os prédios 28 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ degradarem-se ainda mais. Mas a estes juntam-se as pessoas mais idosas, com poucas posses, que se mantendo no centro histórico por razões financeiras não criam interactividade ou novas dinâmicas para o centro históricos. Razões para se perceber que o importante na preservação dos centros históricos não são as suas características formais mas o seu carácter humano. A sua identidade é o conjunto de pessoas, e tudo aquilo que emprestaram à vivência na cidade. Por isso, também a caracteriza o somatório de diferentes épocas, de diversas interacções. Todos os centros históricos sofreram alterações mais ou menos marcantes ao longo da sua história: uma intervenção contemporânea é apenas mais uma. 2.7 Património O centro histórico é, por norma, o núcleo mais antigo, ou mais monumental da cidade. A sua definição depende de critérios diversos que não são necessariamente os requisitos que, por exemplo, a UNESCO sugere para uma classificação.17. No entanto, o património mostra-se determinante para o reconhecimento de uma identidade e a classificação. “[…] A identidade e o estilo de uma cidade ou de uma região são, hoje em dia, definidos, de um modo visível, pela valorização ou invenção de um património. […]” Paulo Peixoto, 2002.18 Poderíamos, assim, considerar que a sua definição depende somente da essencialidade que um conjunto edificado, com determinada história e antiguidade, tem para a cidade. O edificado de uma cidade, o seu núcleo mais antigo que esteve na génese do nascimento de uma cidade, transporta um conjunto de valores históricos, culturais ou religiosos que se mostra essencial para o desenvolvimento da mesma. É também por isso que o centro de uma cidade atrai: Atrai o seu visitante que se dirige para o centro à procura do património, daquilo 17 A UNESCO define cidades históricas vivas […] as que, pela sua natureza, foram e continuam a ser levadas a evoluir sob o efeito de mutações sócio-económicas e culturais […]. 29 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ que a distingue e que lhe dá singularidade. Atrai a actividade económica, outrora o comércio, hoje o turismo. Atrai quem procura autenticidade e história. Mas esta atractividade é, também, resultado de uma conciliação entre marketing de cidade e património. A “imagem de marca” de um centro histórico está condicionada pela boa manutenção do seu objecto de promoção mas também pela imagem de autenticidade do conjunto das actividades oferecidas. Efectivamente, os centros históricos citadinos procuram assegurar as certificações internacionais que os possam identificar com a marca de autenticidade, como seja a denominação de Património da Humanidade19. A questão da autenticidade, passou a ser encarada como um factor importante para a competitividade dos centros históricos e factor de concorrência. Nessa medida, os centros histórico passaram a concorrer entre si na disputa dos seus usos actualmente mais procurados e aquele que lhe pode dar sustentabilidade: a actividade turística. O património passa a ser o elemento diferenciador na procura de autenticidade e um dos campos preferenciais das industrias culturais urbanas. […]”No campo simbólico em que se joga o prestígio e se difundem imagens que realçam o potencial competitivo das cidades, o espírito de lugar e os símbolos que o representam tornaram-se campos privilegiados de transformação das identidades urbanas” […] (Cf. Peixoto, 2000) Parece evidente que a denominação património mundial como imagem de marca de lugares que visam tornar-se competitivos, passou a delinear os objectivos de todos aqueles que pretendem promover o património. Mas só com a Carta de Veneza20 é que o conceito de património passa a englobar, para além dos edifícios individuais com valor monumental, os conjuntos construídos e o tecido urbano: cidades, bairros e centros históricos fazem 18 Paulo Peixoto (obr. citada) Convenção do Património Mundial aprovada pela Conferência Geral da UNESCO de Paris, em 1972 que criou o comité responsável pela gestão dos processos de candidatura de bens patrimoniais à Lista do Património Mundial. Esse comité criou um documento base onde impôs o conhecido “teste da autenticidade”como um dos critérios para o exame, avaliação e qualificação dos bens patrimoniais na Lista do Património Mundial. 19 20 Segunda Conferência Internacional para a conservação dos monumentos históricos, 1964 30 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ desenvolver uma concepção do património que levaria mais tarde, à ideia de um património urbano. A inclusão de bens culturais na noção de património mundial confere ao património todo o seu sentido, constituindo-se este como um fundo que não é apenas legado, mas que é também intencionalmente ampliado por via de uma acumulação contínua de bens. A distinção simboliza importantes políticas de marketing urbano e da gestão dos fluxos do turismo patrimonial. Esta instrumentalização do património pela industria turística não anula as intenções de uma política de atractividade das cidades com centros históricos: A relação directa entre os números de inscrições de bens na Lista do Património Mundial durante a década de 90 e o consequente aumento na hierarquia de turismo. Figura 2.2 Países com maior n.º de bens incluídos na Lista Património Mundial Fonte: UNESCO, 2000 O facto de a Lista Património Mundial ser claramente dominada pela presença dos chamados bens culturais em detrimento dos bens naturais não deixa de ser revelador da importância do património enquanto recurso das industrias culturais urbanas. É neste contexto que as chamadas cidades históricas encontraram no genius loci um triunfo para fazer face à erosão do seu tecido económico e à perda de competitividade. 31 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ O aumento da procura do estatuto de património mundial resulta da pressão que os lugares foram sentindo para se tornarem competitivos. O recurso ao património para a promoção da cidade torna a estratégia de renovação urbana muito condicionada à imagem e apresentação estética pretendida pelo consumidores do bem e perigosamente dependente da engenharia cultural que transforme o local na estilização solicitada e não o resultado genuíno da história do centro histórico. Em termos nacionais há muito que a protecção do património é uma realidade. Um conceito cultural, um valor de civilização e, por consequência, tem a necessária previsão legal. A Constituição Portuguesa determina que o Estado deve […] proteger e valorizar o património cultural do povo português […] (Art. 9.º alínea f) da CRP). A Lei do Património Cultural considera Património como “[…] todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização.” (Art. 2.º da Lei n.º 107/01 de 8 de Setembro). Na definição de património cabem, naturalmente, os bens patrimoniais edificados – monumentos, edifícios, lugares históricos – que são, aliás, aqueles que melhor significado dão à classificação de património. Apesar disso, a lei de bases do património não integra qualquer doutrina ou retórica sobre o urbanismo como valência cultural autónoma. Não prevê o património urbanístico e as suas dinâmicas atribuindo-lhe os níveis de protecção que o edificado individualizado possa ter. Ao nível da União Europeia a inserção da política de reabilitação do património como “política comum” sucedeu ao projecto “Modelos de Gestão de Reabilitação em Centros Históricos” integrado no Programa URBAL21 que definia por património construído ”[…] não só os monumentos, ou edifícios do património histórico e os centros históricos, como também os núcleos urbanos mais antigos, os conjuntos urbanos e as estruturas urbanas que constituem o ambiente urbano.” 21 Progama implementado em 1995 juntou mais de 650 autoridades locais em torno de projectos de planeamento de cidades. 32 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ A atenção das políticas comunitárias e nacionais insere-se numa preocupação que, sendo relativamente nova, inverteu toda uma prática que caracterizou a renovação das cidades. Na verdade, a face de qualquer centro de uma cidade sofreu sucessivas alterações, algumas delas, construindo sobre os escombros da cidade antiga abandonada ou arrasada, para dar lugar a um espaço com novos usos resultantes de maiores exigências da cidade. Hoje as novas tendências reconhecem a importância da preservação do património em resultado de um desenvolvimento cultural que caracterizou o Séc. XX dando ênfase ao facto do património ter-se tornado num recurso passível de exploração quer a nível cultural, político e económico. O património ganha progressivamente importância enquanto expressão de cultura. Pela sua autenticidade, em “[…] resultado de várias transformações que ocorreram ao longo do tempo […]” e pela sua identidade entendo-se esta como “[…] a referência comum de valores presentes, gerados na esfera de uma comunidade, e os valores passados identificados na autenticidade do monumento […]”. (Carta de Cracóvia 2000) 22 2.8. “O estado da arte” A reabilitação urbana é um tema recente em Portugal e em resultado disso são pouco expressivas as experiências neste domínio. Os indicadores estatísticos demonstram isso mesmo: Em média a reabilitação urbana na Europa representa cerca de 33% da produção do sector da construção civil. Em Portugal estima-se que este número não seja superior a 10%.23 Cidades como Lisboa e Porto e Coimbra perderam uma parte significativa dos seus habitantes nas últimas quatro décadas, provocando a progressiva desertificação das zonas mais antigas e o consequente abandono das cidades. 22 Carta de Cracóvia assinada em 2000 por 51 países, incluindo Portugal -Declaração de Princípios para a Conservação e Restauro do Património Construído. 23 Dados da Associação dos Municípios com Centro Histórico 33 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Figura 2.3. A evolução da construção em Portugal Fonte INHRU Para esta situação terão contribuído as sucessivas alterações do regime de arrendamento urbano, desajustadas da realidade do mercado e a oferta de habitação pouco adaptada aos padrões de conforto e bem-estar actuais. Não é novidade nem necessita de muitos estudos a avaliação de que os centros urbanos das cidades portuguesas, na sua maioria, encontram-se em estado de avançada degradação das condições de habitabilidade, de salubridade, de estética e de segurança. De igual modo, o panorama social dos centros urbanos é devastador na medida em que a população que aí reside está maioritariamente envelhecida, sem poder de compra e, consequentemente, sem possibilidade de reabilitar as suas habitações e dinamizar o comércio local. Os centros históricos, outrora as zonas nobres das cidades, deixaram de o ser, constituindo, hoje em dia, um verdadeiro pesadelo urbanístico e social. A degradação urbanística e social é visível no mau estado de conservação, também dos edifícios públicos, na ausência de 34 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ funcionalidade dos mesmos, na má qualidade do comércio existente e no incipiente e degradado património habitacional. A falta de respostas da administração pública adequando os modelos de estruturas públicas nos centros históricos é, também, revelador da falta de capacidade de prever mas, sobretudo, de adequar: mercados municipais, terminais de transportes e serviços da administração pública continuam a funcionar nos centros das cidades ao invés de se transferirem para a periferia das mesmas onde poderão mais facilmente ser acedidos. Por outro lado, os “resistentes” dos centros históricos tentam adequar-se à procura que ainda subsiste, perante a falta de alternativas, contribuindo, também, para que os centros se tornem locais de passagem durante o dia e vazios urbanos durante a noite e fins-de-semana. A exemplo de outros países assiste-se em Portugal a uma tomada de consciência para a importância deste assunto, no sentido de devolver às cidades a vida de que outrora gozaram. Um conjunto de situações contribui para esta mudança de atitude: A insegurança de pessoas e bens nas zonas abandonadas motivada pela marginalidade e a ruína da construção, a degradação do comércio e o facto da maioria destes locais constituírem patrimónios arquitectónicos únicos, alguns classificados, que urge preservar. Por outro lado, para muitas famílias viver próximo do centro constitui um objectivo difícil de concretizar. Estamos, assim, perante um aparente paradoxo: Uma oferta ao abandono e uma procura não satisfeita. Dada a dimensão do problema, agravado às vezes por aspectos sociais complicados, seria impensável pensar numa solução sem um inequívoco envolvimento do poder público. A baixa de Coimbra é exemplo de uma cidade em que o centro histórico perde habitantes numa velocidade vertiginosa. Ao ponto de se equacionar se a cidade tem, efectivamente, um centro, porque o seu centro tradicional se encontra num processo de esvaziamento e declínio. A percepção do espaço urbano é feito por um conjunto de referenciais: habitações, serviços, 35 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ espaços comerciais. Esta heterogénea configuração urbana é a característica de uma cidade viva e os números de Coimbra são realidades incontornáveis. Tipologia dos edifícios da Baixa de Coimbra Formas de ocupação Total % Exclusivamente residencial 66 7,9, Principalmente residencial 196 22,7 Residencial e não residencial em igual proporção 108 12,9 Principalmente não residencial 123 14,7 Exclusivamente não residencial 274 32,7 Devolutos 77 9,1 Total 838 100,0 Fig. 2.4 Projectos de investigação “Dinâmicas de recomposição sócio-económica dos centros históricos: o caso de Coimbra – 2004 A realidade urbana portuguesa recebeu nos últimos anos estímulos de crescimento resultante de transformações rápidas e profundas na estrutura de ocupação do território. Os fluxos migratórios tardios e dramáticas alterações na estrutura económica e social provocaram um crescimento explosivo das áreas metropolitanas e dos seus subúrbios, com a saída da população para as periferias e a proliferação de áreas urbanas fisicamente desqualificadas. Em consequência, o crescimento do parque habitacional que o transforma num dos mais novos da Europa, com 75% dos alojamentos construídos nos últimos 40 anos. Mas o crescimento habitacional não foi acompanhado de um adequado investimento em equipamentos, em espaços públicos e infra-estruturas, o que fez provocar o aumento de carências ao nível da qualidade do ambiente urbano com a degradação acelerada da paisagem, escassez de espaços verdes e de espaços públicos qualificados. Os centros históricos das principais cidades apresentam, assim, um quadro similar de degradação que alguns projectos sustentáveis tentam inverter: O despovoamento é a marca transversal que provoca degradação e envelhecimento populacional mas o esvaziamento das funções económicas e socias tradicionais parece determinar uma dificuldade de reanimação. 36 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ O resultado é o crescente abandono e degradação do parque habitacional antigo e a dificuldade em criar dinâmicas de reanimação. 37 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 3. Compreensão das dinâmicas do espaço urbano Os centros históricos das cidades são pontos de consolidação das raízes culturais e sociológicas de uma comunidade. A sua identidade estará gravada no espaço público, na arquitectura de um edifício, nas soluções e criações que a cidade vai fazendo. Esses espaços assistiram às realizações económicas e políticas da cidade e são a expressão da solidificação do tecido institucional e das relações comerciais. O lugar geográfico dos centros históricos, com um património arquitectónico legado pelas anteriores gerações, seria incompreensível sem recorrer à sua história. Representando a memória colectiva a sua evolução está directamente ligada às dinâmicas da cidade, ao seu apogeu ou declínio, às suas fatalidades e adversidades. Em consequência, será expectável que o círculo de vida de um centro de uma cidade, dependente da sua própria atractividade, sofra, ao longo dos tempos, de períodos de apogeu e de retorno. Será ainda usual que as suas próprias condicionantes relativamente às dinâmicas da actividade económica releguem o centro histórico para a condição de periferia. As sociedades contemporâneas são caracterizadas pela urbanização. A vivência humana é cada vez mais realizada na cidade onde se concentram algumas das tensões que atravessam as dinâmicas históricas do espaço urbano. A cidade é o centro da acumulação, o lugar da riqueza, do poder, do conhecimento, a expressão do espaço histórico. Mas se o espaço urbano espelha as representações sociais mais nobres da civilização não deixa de reproduzir relações sociais de desigualdade. As clivagens sociais estabelecem-se nele, com os efeitos próprios dos seus condicionamentos e as suas limitações. Por isso, a cidade é lugar de coexistência de contrários, da abundância e da privação relativa, do uso dos bens e da sua incapacidade de fruição, da liberdade e da opressão. O habitat urbano tende a ser desenraizado causando fragilidades em elementos essenciais da vida em sociedade. Em consequência a protecção da vida subjectiva com o exacerbamento do individualismo provoca mobilidades internas intensas, circulando os seus habitantes pelos diversos sectores da cidade, residindo, indiferentemente, de lugar em lugar. Sem raízes que 38 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ produzam estabilidade também não se desenvolve memória e identidade tendendo, por consequência a promover desintegração da habitação e guetização de determinados grupos sociais A dinâmica do espaço urbano confunde-se com a existência da cidade. A exclusão do urbano seria negar a cultura e fazer excluir as mecânicas próprias da sociedade. Seria fazer negar a cidadania e a própria existência humana. A percepção das dinâmicas da cidade implica a identificação dos diversos actores que nela actuam, das lógicas que lhes são próprias e dos dinamismos desenvolvidos em ordem à sua apropriação e vivência. Por isso, o espaço citadino também obedece a dinâmicas políticas porque para além de ser formado e modelado pela acção humana espontânea, obedece a estratégias de diversos actores, por vezes em confronto. Inventadas para refúgio e satisfação dos homens, as cidades actuais correm o risco de se tornarem ambientes de insegurança e de desequilíbrio. Se é normal nela se encontrarem conflitos, como, aliás, ao longo da sua história, as cidades necessitam de ser repensadas para que a sua dinâmica de exclusão não atinja tão directa e gravemente a maioria das pessoas que nela habita e possam constituir, apesar das contradições, espaços criados para a vivência humana. 3.1 As dinâmicas históricas da política de revitalização urbana O pós-guerra 1945-1975 e a recuperação económica dos territórios urbanos devastados modelaram as novas políticas públicas de urbanismo. Durante 30 anos, a necessidade de responder às necessidades básicas de uma população fragilizada pelos efeitos da guerra foram favoráveis à criação de modelos de crescimento económico em que a vertente social estruturava as principais respostas. Desenvolveu-se um modelo económico de estruturação dos Estados Providência, onde a política social do Estado edificou uma reconstrução económica e social, à qual as cidades não escaparam, vivendo um intenso crescimento económico de matriz fordista. 39 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Os centros de grandes cidades rapidamente foram reconstruídos ressuscitando as principais actividades económicas e potenciando a recuperação económica.24 Em poucos meses grandes espaços comerciais substituíram a cidade antiga destruída permitindo a reactivação económica e social, a que se denominou mais tarde de milagre económico. Evidentemente que a reabilitação dos centros urbanos teve por marca uma intervenção de renovação rápida, sem preocupações principais de desenho arquitectónico mas de funcionalidade. A necessidade de criação de espaços comerciais e habitacionais criou um urbanismo de características únicas também pela oportunidade de criar novas cidades com mais espaços públicos e preparadas para as respostas de uma nova economia. E nesse sentido, o urbanismo de renovação dos anos 50 e 60 foi a resposta adequada às necessidades das cidades e da sua população e preparam as futuras políticas de dimensão social das intervenções urbanas. Em consequência destes 30 anos de reconstrução intensa, as cidades apresentam rapidamente novas necessidades de renovação. As respostas urbanas alcançaram os seus objectivos de reconstrução económica e social mas as cidades perderam identidade ou características próprias. Um 2.º ciclo de renovação iniciava-se nos anos 80 para recuperar as marcas da sua história ou para fazer substituir as velhas actividades económicas que já se tornavam obsoletas. Mas também a necessidade de espaço para a cidade, foram determinantes para o alargamento das cidades que procuram novos espaços circundantes às cidades. A necessidade de reordenar os espaços, situar os recursos e criar as estruturas básicas de suporte as cidades maiores fez criar um novo ciclo de renovação urbana. Na verdade, as necessidades de renovação e revitalização das cidades colocaram-se com mais insistência com o rápido envelhecimento de zonas de construção massiva do pós-guerra ou com o declínio das velhas zonas industriais e portuárias características das fases de industrialização pesada. Apesar das diferentes experiências europeias de intervenção em 24 Cidade de Hamburgo teve uma recuperação do edificado quase total na tentativa de rapidamente recuperar o seu lugar estratégico na economia do norte da Europa. 40 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ zonas destruídas e as políticas que as suportaram terem sido inúmeras e diferenciadas, o conceito de política de renovação tinha a mesma matriz: recuperar para devolver cidade. Essa devolução centrava-se agora na necessidade de ancorar a recuperação física a políticas sociais, promovendo o fortalecimento do Estado Providência da 2.ª metade do Séc XX. O compromisso social do Estado junto das populações desfavorecidas das grandes cidades recupera os movimentos reformistas urbanos do início do século XX. Apesar de não ter o grau de destruição que atingiu as cidades da Alemanha, foi em Inglaterra que se produziram inovadores programas de reabilitação com base em estratégias de renovação social das cidades25. O primeiro governo de Margaret Thatcher em 1979 é o ponto de partida para este novo cenário de tipo neoconservador enquanto preocupação de centralizar no Estado a gestão do território em atenção às suas múltiplas funções. A política urbana e territorial passou a ser algo de negociado e negociável entre o sector público e os agentes privados, com específicas medidas de ajuda à regeneração.26 A evolução para um espectro de economia global acentuava, por seu lado, as exigências de preocupação pela criação de sustentáveis territórios locais que só o Estado poderia salvaguardar perante a competitividade que a globalização criava. A racionalização das medidas de ajuda à regeneração 27 e a criação já em 1997 de uma unidade dedicada exclusivamente à exclusão social28 marcam o percurso evolutivo de uma dinâmica de revitalização dos centros urbanos em Inglaterra. Em França, os métodos de intervenção foram enriquecendo com as experiências de terreno mas é apenas com a Lei Malraux de 1962 que surge a preocupação pública na preservação do habitat do centro das cidades francesas.29 De facto, é desde período que se desenvolvem amplos debates e transformações sobre o modo de pensar e fazer a própria revitalização. Políticas orientadas para a reabilitação dos centros urbanos mas, sobretudo, para as zonas 25 Neighbourhood Renewal Strategy Single Regeneration Budget Programme (1994) 27 Single Regenaration Budget Programme 28 Social Exclusion Unit 26 41 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ onde se concentravam bairros sociais de construção massiva do pós-guerra. Mas também, políticas com especiais preocupações de integração social estruturadas em princípios de experimentação e de avaliação suportadas por um Estado forte e interventor. 30 As experiências do final de século XX já caracterizavam as operações urbanas a que se denominava de revitalização urbana. No contexto do planeamento estratégico das cidades esta política foi decisiva para inverter o declínio das áreas centrais mantendo a cidade em constante renovação e procura de factores que potenciassem a sua competitividade e inovação. As políticas territoriais têm uma dinâmica idêntica a restantes políticas sociais não ficando, por isso, à margem da tendência generalizada de globalização da economia. E nos últimos anos, a política de revitalização absorve outras dimensões como seja o desenvolvimento sustentável e a consolidação de dinâmicas ambientalistas que a transformam, definitivamente, numa política integrada e global. A dinâmica de uma cidade está, naturalmente, ligado aos modelos de desenvolvimento e crescimento. A Europa do pós-guerra foi obrigada a antecipar mudanças em matéria de planeamento das cidades, diferente daquelas que resultariam da sua própria dinâmica. A destruição integral de muitas cidades foi, apesar de tudo, uma oportunidade para a reestruturação dos seus centros e a recuperação da actividade económica. A necessidade de torná-las novamente habitáveis, fez desenvolver conceitos de cidade mais adequáveis aos novos desafios. Em Portugal, foi nos anos 70 que se iniciou um movimento de construção das cinturas urbanas da cidade, e para isso concorreram um conjunto de condições muito favoráveis: Mobilidade interna, tercialização do sector produtivo e uma política urbanística desligada da política de ordenamento do território. A actividade imobiliária assentava em dois negócios: a urbanização de terrenos resultante da transformação do terreno rústico em urbano, com o inerente direito de construção valorizado. Depois, com a construção de edifícios nos lotes 29 Politique de la Ville A recente Lei da Solidarité et Renouvellement Urbains tem as suas bases na política de intervenção deste período. 30 42 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ construídos. A obtenção destas mais-valias recolhia integralmente ao seu promotor, tornando extremamente vantajosa a actividade de especulação imobiliária e impulsionando o boom da construção até ao final dos anos 90. No final da década de 60, verifica-se uma grave carência habitacional mas entre 1970 e 2001 foi registado um acréscimo de 68% no número de fogos destinados a habitação permanente. Fig. 3.1 Investimentos em construção na Europa Até 1974 cerca de 50% da construção de habitações era destinada ao mercado de arrendamento e o congelamento das rendas, acompanhado de uma elevada inflação, gerou a falta de confiança dos agentes do mercado, determinando a ausência de fogos, e a preferência em manter as habitações vagas, mas a valorizarem-se. Estima-se que existissem mais de 500.000 habitações não utilizadas31. A gradual retirada destas habitações do mercado contribuiu para aumentar a pressão urbanística e, em consequência, a classificação do solo rústico em urbano e a crescente valorização deste. 43 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Da fase de estabilização do solo, no que concerne ao direito do urbanismo e da construção em que a administração pública detinha o monopólio da urbanização, centralizada na Direcção Geral da Urbanização passou-se, gradualmente, a partir de meados da década de 60, à abertura à iniciativa privada regulada pelos municípios e desregulada pela falta de instrumentos de gestão do território, sendo que os Planos Directores Municipais só são aprovados no final dos anos 90 e por pressão da Administração Central.32 A situação de desregulação era também reconhecida pelo próprio Estado que admitia a falta de controlo do mercado de habitação. A legislação que aprovou os novos regimes de licenciamento fazia ênfase a esta situação. Em 1965 o preâmbulo do Dec.-Lei n.º 46.673, relativo à concessão às autoridades administrativas dos meios legais para licenciar operações de loteamento urbano, referia: “Em várias regiões do País em que se processa intenso desenvolvimento urbanístico, tem sido verificada com frequência crescente actividade especulativa de indivíduos ou empresas, visando o aproveitamento indiscriminado de terrenos para a construção urbana.” Em 1970 foi publicado o Dec.-Lei n.º 576/70 do qual se podia ler no seu preâmbulo: “O encarecimento dos terrenos conduz a soluções técnicas e socialmente inapropriadas, tais como a implantação de bairros em zonas afastadas, que origina inconvenientes de vária ordem, desde o desordenado crescimento de infra-estruturas urbanísticas e dos equipamentos sociais, até ao excessivo afastamento dos locais de trabalho dos habitantes […] também os elevados valores atingidos pelos terrenos levam ao seu máximo aproveitamento, ultrapassando os limites adequados na densidade de ocupação do solo”. Por ausência de planos de ordenamento nos diversos níveis, a utilização das operações de loteamento avulso, sem enquadramento em planos de urbanização e de pormenor, vieram, gradualmente, a descaracterizar a paisagem e a concentrar urbanizações sem que a 31 Instituto Nacional de Estatística “censos 2001, Portugal, Lisboa 2002 44 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Administração Pública pudesse acompanhar o crescimento das cidades com a realização das necessárias infra-estruturas de base. Neste quadro avulso, o acto administrativo passou a ser um bem valioso. Embora a formulação dos Planos Directores Municipais tenha aparecido em 1979, a sua concretização só teve lugar no final da década de 90. Para agravar a pressão urbanística, a lei das finanças locais veio conceder aos municípios os impostos resultantes da actividade imobiliária, designadamente, a sisa e a contribuição autárquica. Quanto mais se construísse maior seria a receita fiscal pontual e a renda vitalícia sob a forma de imposto sobre o património. Este conjunto de medidas só podia funcionar como incentivo à construção nova, porque do interesse de todos: da autarquia aos construtores, a construção fez nascer cidades onde anos antes não existia sequer uma povoação. Em sentido contrário, a falta de incentivos para a reabilitação só poderia ter por consequência o desmoronamento de muitos edifícios nos centros históricos e a desagregação do sistema social que os caracterizava. Em vez de se centralizar as operações de licenciamento para as intervenções de reabilitação ou de conservação, apoiando e incentivando a procura para esses mercados, foram facilitados e favorecidos os mecanismos de promoção à construção nova. Noutra vertente, as intervenções em zonas históricas foram penalizadas com o ónus sobre os proprietários à realização de pesquisas arqueológicas, com todos os encargos e sem linhas de apoio, tendo como resultado, o abandono desses imóveis, muitos deles no centro das zonas históricas. A tendência dos últimos anos tem sido de legislar no sentido de agilização do licenciamento e da procura de mecanismos facilitadores do investimento em construção nova. Continuar a fazer depender a reabilitação das iniciativas das entidades públicas, sem concretizar mecanismos reais de concertação público-privada, nem modificar os sistemas de incentivo ou de organização, provocará uma continuação da apatia na reabilitação urbana, que uma procura maior do produto em centro histórico não é suficiente para fazer inverter. 32 A atribuição de fundos estruturais da Comunidade Europeia às Autarquias foi condicionado à aprovação dos respectivos Planos Directores Municipais 45 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 3.2. Os desafios da revitalização urbana A reabilitação urbana visa recuperar a cidade e neste objectivo deve privilegiar escolhas que promovam a preservação e a conservação do património nos centros históricos potenciando a recuperação da sua centralidade e multifuncionalidade. Mas essa centralidade, na maior parte dos casos, não pode ter por alicerces os mesmos factores que outrora motivaram a sua importância. Recuperar a atractividade de um centro histórico é procurar outros instrumentos que possam promover usos novos para esse território de acordo com as necessidades dos seus actuais habitantes e daqueles que se quer atrair. Mas se o tecido social já não é o mesmo, também o território está diferente. Os centros históricos estão mais degradados, decadentes e, sobretudo, com problemas decorrentes da desadequação com as necessidades das cidades. Na verdade a estrutura populacional está mais envelhecida e com problemas de pobreza e solidão ou é composta por novos habitantes que se instalaram em habitações que não oferecem boas condições de habitabilidade mas apenas custos reduzidos e que acentuam a estagnação dos centros históricos.33 Por consequência, as causas da estagnação têm por motivo a falta de atractividade decorrente da desadequação das actividades económicas ou das condições básicas de habitabilidade. Na verdade, os centros históricos apresentam poucas condições para satisfazer a maior parte das necessidades de uma população contemporânea.34 Propor uma visão qualificadora do centro histórico que não se restrinja a monumentos ou edificado antigo, mas antes se alargue à preservação de outros valores, é o objectivo de uma correcta política de reabilitação urbana. É essencial fazer uso de políticas de miscigenação social atraindo novas gerações é fomentar a integração social dos centros, e no fundo, garantir que a cidade viva.35 Outros centros de cidades, pela nova atractividade resultante da actividade do turismo, desenvolveram projectos comerciais apenas em parte dos edifícios 33 70% das habitações em centros históricos não tem concluídos as ligações ao saneamento básico – Dados da Associação Nacional de Municípios. 34 De acordo com os indicadores de referência para demonstração de parâmetros de qualidade de vida 35 Revitalização urbana e as novas estratégias de política social 46 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ votando as restantes habitações ao abandono em função da especulação imobiliária que o turismo veio originar. Mas se estes objectivos indirectos são fundamentais para uma política de reabilitação urbana, a vertente de requalificação do edificado não pode deixar de ser a intervenção de fundo. Sem ela não há imóveis para serem habitados, comércio para ser reactivado, serviços que ancorem a actividade da cidade. Sem a melhoria destes vectores não é possível garantir a atractividade dos centros históricos. Por outro lado, se a reabilitação for apenas a requalificação de imóveis, os centros históricos correm o risco de se tornarem áreas artificiais sem vida, um museu aberto, sem outros valores que os façam retomar como um centro da cidade. Atingir resultados satisfatórios em qualquer intervenção urbana parece ser o maior óbice, pois essa política deverá assentar os seus pilares na promoção de uma sustentabilidade económica, social e ambiental mas com efectiva intervenção de renovação e adequação do equipamento social e das infra-estruturas públicas, na promoção de energias limpas, criação de espaços verdes, mobilidade e acessibilidades. Um conjunto de variáveis com especial complexidade de execução cujos resultados são um factor a equacionar em muitas das intervenções de requalificação urbana em curso. A revitalização urbana deverá ser entendida sobretudo como uma estratégia e um processo, distinguindo-se a generalidade dos programas urbanísticos que, com excepções em países que privilegiaram o planeamento,36 não contemplavam políticas de integração. Nesse sentido a revitalização urbana desenvolve estratégias e promove um processo como carácter inclusivo, promovendo actuações e provocando iniciativas. Deverá até ser entendida como um instrumento de gestão colectiva do território, potenciador de projectos e iniciativas privadas, mas com capacidade para utilizar como recursos próprios programas urbanos de cariz social, económico ou cultural. 47 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Razões para destacar quatro grandes desafios fundamentais para a revitalização urbana essenciais nas estratégias de intervenção urbana: desde logo, a promoção de eficiência no sistema urbano com atenção pela coesão social; depois, a dinamização da sociedade civil para a exigência da qualidade de vida na cidade; em 3.º lugar a promoção de usos sustentáveis de energia, considerando as questões ambientais na gestão da cidade; por fim, contribuir para a racionalização, modernização e responsabilização da gestão da administração das áreas urbanas. Os quatros desafios referidos são, sobretudo, quatro vectores essenciais na gestão dos processos de organização das intervenções urbanas e que caracterizará a nova política de revitalização urbana. 3.3. Sustentabilidade da Reabilitação Urbana Enquanto bem cultural, os centros históricos suscitam hoje grande procura contribuindo, por indução, para a preocupação pela sua protecção. Expressa história e tradição e tais valores são hoje mais requeridos, representando um factor económico poderoso pela dinamização turística que desenvolve. A exteriorização de cultura e a representação de identidade são hoje o principal factor de decisão na actividade turística que torna o património num bem extremamente valioso. Razão para entendermos que a revitalização do património é muito mais do que organizar os espaços para viver, trabalhar ou fruir. Hoje, a revitalização de um centro histórico deve fazerse de molde a atrair a actividade económica que crie sustentabilidade e que pode passar, estrategicamente, pelo turismo. Construir ou melhorar uma imagem comercializável, promovendo um património poderá ser a melhor forma de reabilitar os centros históricos. 36 O crescimento de algumas cidades da Holanda tiveram alvaliações prévias sob os efeitos do seu crescimento antecipando políticas de planeamento que viriam apenas mais tarde acolhimento no resto da Europa 48 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ A cidade, e particularmente, os seus centros históricos, assume-se com o principal destino à escala europeia, concentrando 50% do turismo37. A procura na área do turismo tem-se acentuado no turismo histórico e patrimonial, muito dependente de cenografias e estilos que a indústria turística e de lazer consegue promover e em que o património é garantia de procura. A partir dele, é possível reforçar o centro histórico com elementos estetizados e mobilização de outras ferramentas culturais que acentuam o processo de marketing da cidade. Figura 3.2 Quadro Lista Património Mundial Fonte: UNESCO Com efeito, e fazendo uso do seu património, cada vez mais os centros históricos adquirem a estatuto de produto e que, nos casos de sucesso de marketing, são vendáveis em grande escala, como é o exemplo de Veneza. A criação de eventos atractivos e o embelezamento de fachadas criam, certamente, uma cultura urbana, mas baseada no usufruto do espaço público por actividades de lazer que asseguram a sustentabilidade do centro histórico em termos de produto comercial. Transformar o centro histórico e o património que ele representa em equipamento cultural é fazer a opção de uma encenação em detrimento da requalificação urbana, da representação do espaço habitado, para além da visita turística. 37 Dados do Word Tourism Office. 49 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Nesse sentido, a questão parece centrar-se em resolver, se um espaço preferencialmente utilizado pela actividade turística e com enfoque na criação de cenários que potenciem consumo em detrimento das actividades quotidianas permite ao centro histórico tornar-se sustentável, ou, se pelo contrário, a recriação de uma nova centralidade urbana, com o conjunto das suas actividades clássicas, é suficiente para dar vida ao centro histórico. O debate à volta da cidade tem sido, também, sobre a sua sustentabilidade. Muitas vezes é referenciado como critério delimitador da qualidade da cidade a qualidade de vida dos seus habitantes. A qualidade de vida urbana ganhou nos últimos anos preponderância no debate sobre o planeamento da cidade, tornando-se um dos principais tópicos de debate ao nível das políticas locais. Esta nova atitude reflecte o facto de as necessidades básicas da população, saneamento, transportes, educação e saúde estarem gradualmente a serem satisfeitas. Razões para a eleição da sustentabilidade urbana como parte do glossário político.38 Entendendo-se as cidades como um recurso, o ordenamento do território e o planeamento ambiental surgem como ferramentas essenciais para a sua sustentabilidade. Gerir este recurso pressupõe uma racionalização da utilização dos meios com utilizações eficientes e prudentes que permitam combater as pressões resultantes do crescimento das cidades. Deste modo, o desenvolvimento sustentável urbano pressupõe a aplicação de práticas sustentáveis que estão longe de serem característica de um centro histórico. O processo de gestão urbana sustentável requer uma série de instrumentos orientados para as dimensões ambiental, social e económica, alguns deles extremamente variados, a que o Relatório da União Europeia acerca do projecto “Cidades Europeias Sustentáveis” desafia os órgãos locais da Administração Pública a aderir.39 38 Sobre a Gestão Local para a Sustentabilidade – a implementação dos compromissos de Aalborg aprovado pela Conferência Aalborg +10 39 Relatório “Cidades Europeias Sustentáveis 50 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ O Relatório “Cidades Europeias Sustentáveis” tem definidas seis áreas de intervenção: 1. Recursos naturais, energia e recursos 2. Desenvolvimento sócio-económico 3. Acessibilidade 4. Ordenamento do território 5. Regeneração urbana 6. Património Cultural, lazer e turismo urbano Relativamente ao panorama português, várias são as cidades que procuram a sustentabilidade como ponto estratégico na gestão urbana, mas com resultados ainda muito aquém das expectativas e dos objectivos concertados. A Rede Civitas, Centro de Estudos sobre Cidades Sustentáveis, ainda com um número diminuto de municípios aderentes40, desenvolve estratégias integradas de acompanhamento à implementação pelos municípios de projectos ou planos de acção seguindo a metodologia das agendas 21 locais.41 O crescente zonamento dos tecidos urbanos, com a consolidação de zonas residências, comerciais, industriais ou turísticas tornam a cidade especializada em função dos seus usos. Criam-se, assim, zonas onde se dorme, onde se produz, onde se fazem compras, onde se usufrui da paisagem, compartimentando-se a vivência humana a zonas pré-confinadas. O planeamento urbano deverá, assim, promover a coabitação entre os cidadãos e as várias actividades, desde que compatíveis, numa mesma zona, de modo a diminuir os fluxos de tráfego e os guetos urbanos. Na verdade, a cidade sustentável utiliza os seus recursos, dando resposta às suas necessidades correntes enquanto assegura que estes permanecerão disponíveis para serem empregues pelas gerações futuras.42 40 41 Janeiro de 2007 – 61 membros Agenda 21 Local e a transição para a sustentabilidade, Cap.28, 1992 42 Cada geração não dispõe do património arquitectónico senão a título transitório, e é responsável pela sua transmissão às gerações futuras (Carta Europeia do património Arquitectónico) 51 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Adiar o investimento em reabilitação urbana tem, a longo prazo, efeitos na criação de bolsas de pobreza localizadas e desvalorização de zonas urbanas que, mais tarde, exigem investimentos muito mais avultados. Para isso, foram criados instrumentos novos na área da reabilitação urbana orientados para a promoção da excelência territorial, da inovação e revitalização dos centros históricos.43 Inovar nas soluções para a qualificação urbana, promovendo as que se orientem por princípios de sustentabilidade ambiental, de eficiência e reutilização de infra-estruturas, em detrimento da construção nova são, por exemplo, os objectivos operativos da Política de Cidades Polis XXI44. Esta dimensão de intervenção coloca o enfoque em espaços intraurbanos específicos e visa a coesão e coerência do conjunto da cidade e das várias comunidades que a constituem, dando ênfase à qualificação dos factores determinantes da qualidade de vida da população. Envolve a articulação de diferentes componentes (habitação, reabilitação e revitalização urbanas, coesão social, ambiente, mobilidade, etc.) no quadro de operações integradas de regeneração urbana. A Política de Cidades Polis XXI pressupõe a celebração de contratos de parceria que traduzirão a convergência de diversos actores públicos e privados e de fontes diversificadas de financiamento. Serão, essencialmente, parcerias para a regeneração urbana que correspondem a programas de acção orientados para a revitalização integrada de espaços intra-urbanos, tendo como suporte uma estrutura de parceria local integrada (município, serviços desconcentrados da Administração Central, ONG, empresas, etc. 43 “Innovation Hub, iHub” – conceito de cidades do conhecimento e inovação. Instrumento de revitalização e criatividade urbanas para a competitividade e a sustentabilidade 52 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 4. A renovação urbana no seio das políticas urbanas 4.1 Modos de intervenção Qualquer intervenção, qualquer política de requalificação, assenta em alguns vectores cuja verificação faz depender o sucesso da operação de renovação urbana pretendida. Apelidemos de estratégias de intervenção, porque, efectivamente, são prévias à execução e marcam decisivamente toda a operação. Designam-se, provavelmente, com maior correcção, como verdadeiras condições de eficácia da intervenção urbanística. Um urbanismo de cariz regulamentar como aquele que caracteriza e delimita o ordenamento do território patente em todo o edifício jurídico da política de ordenamento, impossibilita a implementação dos propósitos de uma política de requalificação urbana. Na verdade, esse edifício jurídico está assente no binómio urbanismo-ordenamento do território, que faz pender para o primeiro a plenitude da delimitação do território. Este pendor não se detecta só na regulamentação mas na prática. Aquilo a que alguns chamam o território dos outros45. A demissão em planear por parte das autoridades competentes dá lugar ao planeamento dos outros sempre que solicitam aprovação de uma urbanização sem que esteja pensado o território. E algumas dessas operações urbanísticas têm tal dimensão que condicionam esse e outros territórios pelas externalidades que criam. Novas traves-mestras do edifício jurídico são necessárias definindo os seus contornos e fortalecendo as intervenções baseadas em planeamento. No programa Nacional da Política de Ordenamento do Território prescreve “[…] Um país bem ordenado pressupõe a 44 A Política de Cidades POLIS XXI integra-se nos objectivos da Estratégia de Lisboa (PNACE) e da Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável (ENDS) 45 Artigo de Opinião Paulo Peixoto, O reencantamento da cidade (2002) 53 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ interiorização de uma cultura de ordenamento por parte do conjunto da população.[…]” (Introdução do PNPOT)46 O ordenamento do território depende da vontade dos políticos e dos técnicos mas também do contributo de todos os cidadãos. E neste momento, não existem dúvidas que a reabilitação urbana é uma política de ordenamento do território, uma política especial pela necessidade de intervenção global e integrada fazendo uso de instrumentos alargados de participação. 4.2 Uma categoria de urbanismo Para além de uma política de ordenamento do território, a reabilitação urbana é também uma operação urbanística. A criação de uma estratégia para um centro histórico para além do planeamento, pressupõe actividade urbanística, desde o licenciamento à intervenção. Necessariamente, a reabilitação urbana é urbanismo. Raymond Ledrut afirmava que “[…] o urbanismo é, ao mesmo tempo, ciência e arte, técnica e política, poesia e filosofia. Ele exige o conhecimento dos ligames essenciais e das estruturas globais […]”. Nesta abordagem, o urbanismo é avaliado como uma disciplina generalista tão integrante quanto possível e tão abrangente quanto específica. 47. Escolhendo uma modalidade de urbanismo, uma sociedade determina a sua forma de existência, a sua maneira de se integrar e de se desenvolver. Falamos em urbanismo de proximidade para definir uma gestão do território recorrendo a instrumentos de intervenção e de identificação dos problemas. A verificação das potencialidades, respeitando a diversidade e especificidade do seu tecido urbano e social é característica de um urbanismo a ser concretizado em áreas tão específicas como os centros históricos. A orientação do discurso político para a reabilitação dos centros históricos não teve o necessário reflexo no aumento da actividade da construção na reabilitação urbana, que 46 Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território – Introdução, Capitulo 0, Relatório do PNPOT 54 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ ainda está na expectativa de criação de condições. A falta de investimento privado não aconteceu por incapacidade ou falta de vontade. Simplesmente, por dúvidas em serem alcançadas rendibilidades que contrariem o circuito tradicional de investimento na construção que dura há mais de 40 anos. Perante este facto, torna-se evidente que cabe às autoridades encontrar os mecanismos regulamentares e financeiros possibilitando condições que potenciem o investimento privado e criem condições para a atractividade necessária à sustentabilidade do centro histórico. É através de um urbanismo de proximidade que se podem criar condições e mecanismos novos de intervenção. Que faz criar o conceito de quarteirão enquanto espaço de intervenção da Sociedades de Reabilitação Urbana, um conceito clássico agora adaptado em unidade de execução. Mas também é com este conceito de urbanismo de proximidade que se encontra a matriz dos conceitos de divisão de dividendos das políticas de planeamento com a concretização progressiva, apesar de cautelosa, de mecanismos de perequação. Falamos, depois, em urbanismo de concertação para definir um planeamento esclarecido e interessado. Que cria novos mecanismos de interacção, apelando a ferramentas características de outros sistemas e com um grande campo de acção no ordenamento do território. Hoje, já serão indeclináveis conceitos como participação e direito à informação48. E progressivamente esta matriz vai fazendo nascer um urbanismo de contratualização em que se acordam soluções entre os interesses dos diversos agentes das operações urbanísticas programadas49. Já são muitos os exemplos de planos de ambiente, Agendas 21 locais e outros, em que o projecto é o resultado da convergência dos interesses privados e públicos em presença e que reflectem essa concertação. Falamos, também, em urbanismo promocional quando a integração de políticas várias, não necessariamente concorrentes, deverão conciliar-se com finalidades mais amplas que entram nos domínios social, económico e ambiental, tendentes, sobretudo, ao fomento da 47 48 Raymond Ledrut, Sociologie Urbaine, Paris, PUF, 1973, p 6 Art. 5.º e 6.º do Dec.-Lei n.º 380/99 de 22 de Setembro 55 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ atractividade e dinamização da área de intervenção. Conjugar a reabilitação com uma política de marketing e divulgação50, nomeadamente pela criação de uma imagem de marca, são opções que deverão merecer grande ponderação, sobretudo porque dela decorrem sensíveis consequências quanto ao modo de intervenção e aos objectivos a atingir. Se estes forem a captação de investimento privado anterior à própria intervenção deverão, necessariamente, avaliar os impactos com outros objectivos, como a recuperação de valores tradicionais ou políticas de manutenção da estrutura social original. Apesar dos riscos, o campo do marketing de cidade é uma das áreas a reforçar atenção nos próximos tempos, talvez mesmo o mecanismo essencial para o reforço da nova atractividade das cidades e, em concreto, dos centros históricos. Falamos, por último, em urbanismo integrado com a promoção da interligação da política de renovação urbana com todos os objectivos que a mesma comporta. A integração, quer ao nível dos objectivos quer ao nível dos procedimentos, tem por pressuposto que os intervenientes falem e coordenem51. A constituição em grupos de trabalho servirá essencialmente como mecanismo de amortização de efeitos, sobretudo, quando a Administração pública faz uso do seu poder de decisão.52 Um projecto de renovação urbana é, acima de tudo, um projecto em que o esforço de coordenação de actuações díspares e de objectivos múltiplos é muito elevado. Por isso distinguem-se, as diversas categorias de urbanismo, com características tão transversais como os instrumentos jurídicos que se tem que fazer uso: o que fazer quando os requisitos de habitabilidade dos edifícios já não respeitam as actuais exigências das construções; como modificar usos e implementação de novas actividades económicas quando existirem 49 A contratualização é uma ferramenta normal no direito do urbanismo espanhol em que, prévia à aprovação de uma operação de planeamento poderá ser contratualizado com privados a utilização de usos específicos e do interesse para o plano 50 A promoção de centros históricos com utilização de linguagem promocional deverá ter especiais cuidados com os valores de autenticidade e da identidade urbana que assumem grande relevo. 51 A previsão em diversos estatutos das SRU’s de Conselhos Consultivos é a face mais visível da integração de políticas, destinando-se estes a acompanhar o desenrolar da operação ou produzindo sugestões auxiliando o processo no seu relacionamento com a sociedade. 52 Em consonância com a consideração do urbanismo em geral, e da reabilitação e revitalização dos centros históricos em particular, como uma função pública (art. 4.º e art. 6.º n.º1, alínea h) da Lei n.º 48/98 de 11 de Agosto. 56 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ mecanismos legais que determinam tipologias de actividade; em que medida poderão ser derrogados importantes mecanismos legais como seja as regras de contratação pública em nome de da execução dos ditames de um plano de reabilitação. Mostra-se fundamental a interligação de todas as características de urbanismo que possam fazer nascer um novo tipo de urbanismo que melhor se adapte e dê resposta às necessidades que a reabilitação urbana dos centros históricos actualmente necessita. 4.3 Uma política pública A problemática da renovação urbana tem sido encarada em Portugal de uma forma parcelar e fragmentária, uma vez que não existe legislação que a considere de forma autónoma mas antes como um capítulo especial do direito do urbanismo. A LBPOTU, elege-a como um dos fins da política de ordenamento do território e de urbanismo.53 Nesse sentido, é uma função pública que impende sobre o Estado enquanto promotor de políticas activas de ordenamento. Mais, trata-se de um dever do Estado no âmbito das suas funções. Contudo, da mesma forma que se impõe aos poderes públicos a promoção de acções estruturadas no âmbito da renovação urbana, reconheceu o legislador a necessidade de estas medidas serem tomadas de forma articulada54. Na verdade, a actividade de planificação cometida institucionalmente às entidades públicas para a concretização da reabilitação urbana, tem, cada vez mais, mecanismos privados que foram sendo introduzidos no direito do ordenamento e do urbanismo. A passagem de um urbanismo de matriz regulamentar e impositivo para um urbanismo com preocupações operacionais tem marcado algumas das operações de revitalização dos centros históricos e está na génese da legislação que cria as Sociedades de Reabilitação Urbana.55 53 54 Art. 3.º alínea f) e art. 6.º alínea h),i) e j) da LBPOTU Art. 4.º n.º1 da LBPOTU 57 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ De facto, para além do direito à participação dos particulares e da obrigação de ponderação de interesse público e privado, têm vindo a afirmar-se mecanismos de eficiência na actuação administrativa que apelam para a obtenção do maior nível de consenso, de exequibilidade e de adesão às soluções urbanísticas projectadas. Razões para se entender que as matérias em que a tutela do interesse público urbanístico é uma responsabilidade do Estado, como é o caso do desenvolvimento económico, a melhoria das condições de vida ou a luta contra a exclusão social, só poderão ser conseguidas através da associação com entidades privadas. Envolver os particulares, saber o que pretendem para os seus territórios, comprometendo-os a encontrar soluções urbanísticas coerentes e consensuais são a única via possível. Não tendo a renovação urbana conquistado em Portugal nível de autonomia no ordenamento jurídico, é encarada de uma forma parcelar e fragmentada na medida em que não existe legislação que a considere de forma expressa e decidida como uma política global ou mesmo como um capítulo especial do direito do urbanismo56. Não obstante tem sido aceite a sua inclusão como política especial de urbanismo. 4.4 Políticas de revitalização urbana A falta de planeamento do território, a incapacidade crónica de prever, não é apenas sintoma de falta de organização mas, sobretudo, condicionante de desenvolvimento e crescimento. A aprovação dos planos directores municipais ocorreu muito tarde, no final dos anos 90, mas foi possível ter aprovado por quase todo o país o instrumento básico de planeamento do território. A ameaça de corte a candidaturas a financiamento no âmbito do II. Quadro Comunitário de Apoio, foi determinante para as decisões municipais serem aceleradas e comprometer-se o poder político às regras a que voluntariamente se sujeitou. 55 O Dec. Lei 104/04 tinha por pressuposto de intervenção a articulação com os privados na política de reabilitação urbana 56 A lei 48/98 de 11 de Agosto que estabelece as bases da política de ordenamento do território e de urbanismo, determina no art. 3.º alínea f) que constituem fins desta política a “racionalização, a reabilitação e a modernização dos centros urbanos” 58 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Volvidos cerca de 10 anos não existe razão para grande optimismo na capacidade de previsão e regulação dos planos que, na verdade, começam e terminam o seu papel na legalização das obras dos particulares. Mais, o que o planeamento tinha de maior virtude - a sua capacidade reguladora – ficou condicionada pela omissão do dever de planear por parte do poder público, demitindo-se de uma das suas dimensões mais importantes. Não fazendo uso dos instrumentos de gestão territoriais de maior proximidade, PU’S e PP, o território concedido pelos PDM é um território dos outros, como já referido. Dos outros, que solicitando o licenciamento de urbanizações, são os fazedores de território, sem terem as condicionantes de um planeador público. Assim, nem o Estado nem as Autarquias foram capazes de planear ou de desenhar o que se impunha: Em resultado, as periferias não oferecem ainda urbanidade e os centros não oferecem já centralidade. É neste campo que a reabilitação urbana se torna numa evidência consensual. E o equívoco é tanto maior quanto se entende a reabilitação como solução para várias falhas (de mercado e de política). Como os resultados da cidade expansiva foram insatisfatórios em muitos dos campos em que a qualidade de vida pode ser mensurada, reinventou-se o termo reabilitação urbana transformando-o em revitalização. Mas privilegiar a cidade histórica corresponderá, por outro lado, a um desinvestimento na cidade real, aquela onde vive grande parte das população e onde existem problemas de coesão social desde a sua criação. O discurso sobre o ocaso da cidade e os esforços para encontrar um método capaz de eliminar a expansão, conduziram a uma espécie de ideologia, um discurso favorável à cidade central histórica, com o reinvestimento para fazer regressar a ela os habitantes. Sobretudo, novos habitantes, porque toda a operação de reabilitação, a ser assegurada pela simples equação de retorno de investimento, terá um reflexo de gentrificação57. Na verdade, a base do referido retorno de investimento tem por substrato a atractividade de privados para a reabilitação. Ficam assim atractivas a requalificação dos centros para o lazer, para os escritórios, para o turismo e, naturalmente, para o habitat sofisticado e de qualidade, uma vez 57 Substituição de grupos sociais residentes 59 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ que o centro histórico terá novas respostas e portanto valorizando imóveis e, em consequência, estreitando a capacidade de aquisição a um pequeno grupo de pessoas. Assim, os interesses financeiros podem beneficiar de um património valorizadíssimo, com acesso à cultura e aos benefícios da proximidade com a história, mas dificilmente fará regressar os habitantes que, por razões várias, foram abandonando a cidade histórica. E ao mesmo tempo, faltam intervenções de reabilitação para a cidade não histórica, com necessidades de renovação urbana para completar o processo artificial em que foi criada. Para esta os novos problemas são relacionados com sinais de novos estilos de vida e de uma sociedade com mais problemas do que aquelas existentes no centro histórico. A alternativa entre reabilitar os centros ou criar novas centralidades nas periferias correspondem, em face dos constrangimentos financeiros, a várias estratégias possíveis, nomeadamente a articulação de vários centros. As novas políticas urbanas terão ainda de ser formuladas e experimentadas, de forma a corresponder a essas diferentes estratégias. Mesmo não havendo consensos, o termo novas centralidades periféricas induz a criação de pólos de actividade, de elementos singulares, de corredores verdes e acessibilidades, de preenchimento de vazios urbanos, etc.58 A tónica será na melhoria da vida das pessoas a partir do existente e nas referências do que o território deveria ser, em termos de imagem e de qualidade do ambiente urbano. O facto de se ter assistido nos anos 60 e 70 a processos de urbanização muito acelerados, fez reflectir sobre a ocupação e qualidade do território assim como sobre os espaços urbanos, sobretudo detectar os efeitos nefastos de um política de urbanização sem planeamento. Na verdade, o urbanismo sem planeamento foi o possível e o que deu resposta às mudanças sociais. De facto, um sistema que não promovia a criação de habitações, não só fez impulsionar a construção clandestina, como deu oportunidade aos especuladores imobiliários de aproveitarem a grande procura de habitações resultante das migrações que o Estado não soube prever, quanto mais planear. Não se adaptando à evolução da sociedade, o Estado levou mais de 25 anos a gerir o resultado desse processo e a ajustar-se a essas mudanças. 58 Arq. Pedro Brandão, - Secretário Geral da Europan Portugal 60 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Este processo determinou políticas de habitação impossíveis de gerir pelas autarquias das Áreas Metropolitanas, que não estavam estrutural e financeiramente adaptadas a fazer face a falhas de políticas nacionais e que foram chamadas a enfrentar a resolução deste ajustamento da sociedade ao território e do território à sociedade. Por outro lado, e em resultado das dificuldades de adaptação a novos regimes e a novas regras de planeamento, a não resolução teve por causa, e por desculpa, os preconceitos do que se não poderá fazer e das limitações do próprio sistema. E quando se quer realmente fazer algo então criam-se regras de excepção: Foi a Parque Expo, são os Polis, e outros regimes específicos que se qualificou de importância estratégica nacional. Ou seja, o regime geral obrigou à criação de regras e condições de excepção para se tentar dar passos em frente. Para haver mudanças significativas, para conseguir implementar medidas efectivas, implicou, no caso da Expo, a criação de medidas de excepção, convergência de esforços, simplificação de procedimentos, burocracias. Razões para se entender como falha do próprio sistema de planeamento e gestão urbanística que necessita de regimes excepcionais para poder fazer excluir regras que, comprovadamente, não funcionam. E tal avaliação é comprovada, justamente, pelo sistema de gestão urbanística que vigorou durante os últimos anos. 4.5 Os actores A constatação de que a política de renovação urbana implicam a consideração das especificidades locais tem determinado que o nível de intervenção mais adequado é, precisamente, o local. Porém, a administração central não se encontra arredada da política de renovação urbana, assumindo, ao invés, um papel insubstituível, de colaboração com as autarquias, articulando programas de reabilitação, renovação e requalificação urbanas através de contratos programa. No entanto, o operador privilegiado não pode deixar de ser o município, que pode actuar directamente, como criar empresas, institutos ou associações para o efeito. De facto, nos instrumentos tradicionais de renovação urbana como as áreas críticas de recuperação e 61 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ reconversão urbanística, o município assume uma posição que se pode apelidar de dirigista uma vez que é ele que concretiza os poderes que a lei dos solos lhe confere, sem qualquer colaboração dos particulares. Porém, esta rejeição inicial da colaboração dos particulares e da sua consideração como operadores idóneos no domínio da renovação urbana tem vindo a ser, progressivamente, colocada em causa. O mecanismo da associação da administração com os particulares previsto no Capítulo V da Lei dos Solos e o Dec.-Lei n.º 15/77 de 18 de Fevereiro, veio inverter a tendência inicial, embora de forma um pouco ténue, uma vez que a administração central continua a ser o actor principal. A lei das AUGI permite o impulso dos particulares para a celebração de um contrato de urbanização entre a câmara municipal e a comissão de administração, mas não mais do que esse impulso. A mudança de perspectiva é também visível na nova legislação sobre instrumentos de gestão territorial59 com a previsão de três sistemas de execução dos planos: O sistema de compensação, em que a iniciativa pertence aos particulares; o sistema de cooperação, em que a iniciativa de execução pertence ao município com participação dos particulares interessados; e o sistema de imposição administrativa, em que a colaboração dos particulares é arredada. O percurso tem sido feito no sentido da institucionalização de modelos de co-determinação público-privados com execução em parceria. E as experiências já demonstram a possibilidade de modelos ainda mais cúmplices na gestão do território entre sector público e os privados, como a criação de unidades empresariais para a gestão das unidades de execução de quarteirão, que congregue todos os interessados, proprietários, comerciantes e entidades públicas. Este tipo de entidades, dotadas de personalidade jurídica própria e constituídas para a realização de específicas finalidades urbanísticas e de promoção do ordenamento do território, não tiveram ainda acolhimento no regime das sociedades de reabilitação urbana, apesar de inicialmente terem sido dados passos para que tal previsão fosse uma realidade. Volvidos 4 anos sobre a criação do regime jurídico das sociedades de reabilitação urbana, e a iminência da sua revisão para breve, tem havido sensibilidade e condições, à semelhança do 59 Art. 118.º e segs. do Dec.-Lei n.º 380/99 de 22 de Setembro 62 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ que aconteceu com o programa Polis, para que esta matéria venha a conhecer a formação de uma figura institucional especificamente direccionada para a efectivação das suas prescrições. Contudo, o modelo de uma empresa municipal ou de uma sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos é aquele que está vigente e que institucionaliza um regime público por excelência.60 De facto, e se se pretender que a constituição de uma entidade seja composta, maioritariamente por capitais privados, até porque a principal responsabilidade pela conservação dos edifícios continua a impender, justamente, sobre os particulares, então a figura institucional terá que ser diferente. Em referência à participação dos particulares na reabilitação, parece de todo adequado, nomear os titulares de direitos reais de gozo, como os que possuem um direito ao arrendamento ou de um direito de usufruto, como os principais dinamizadores e responsáveis pela conservação dos edifícios na ausência de uma actuação pronta dos seus proprietários. Essa pessoa colectiva teria que ser constituída em moldes empresariais à semelhança da matriz das actuais SRU’s no que respeita ao capital social e à existência de um conselho de administração. No entanto, as SRU’s vão buscar parte do modelo ao esqueleto das entidades públicas com as prerrogativas de imposição e autoridade, sobretudo quando esgotado as hipóteses de conciliação e coordenação. A contradição deste modelo causa alguma perplexidade uma vez que o projecto de decreto-lei sobre as sociedades de reabilitação urbana, na sua versão preliminar, tinha por fundamento a necessidade de promoção do investimento privado. Pretendia-se naquele projecto envolver equitativamente todas as partes interessadas, determinando-se que as “[…] sociedades de reabilitação urbana sejam sociedades anónimas de capitais exclusivamente públicos, mas que possam ser também subscritas por outras entidades a definir, caso a caso.” (art. 1.º Dec.Lei n.º 104/2004 de. Se a transposição para um modelo mais privado não aconteceu terá sido pelo receio de transferir para essas entidades privadas verdadeiros poderes que caracterizam entes públicos. Veja-se a dificuldade de transmitir para privados quando solicitam operações do poder de 60 __ 63 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ delimitação do território, condicionando-o em termos definitivos. Será aceitável transmitir o exercício de poderes de autoridade, como o caso do poder de planificação ou outras prorrogativas típicas de entidades públicas licenciadoras, como excepções ao regime legal ao nível de licenciamentos? Só assim tem sentido que no objecto das SRU’s seja utilizada a expressão “planear, viabilizar, implementar e executar o processo de reabilitação de uma determinada área critica de recuperação ou reabilitação ou revitalização de centros históricos”61. Ainda que as SRU’s possam ser os autores materiais dos planos estratégicos, fica a dúvida sobre a vontade e intenção de delegar poderes para tratar do território como pretendia o diploma legal. 4.6 Os instrumentos jurídicos mobilizáveis A definição jurídica do conceito de reabilitação urbana, é determinante para a definição dos instrumentos jurídicos a utilizar. De facto, assente que a noção de reabilitação urbana é mais abrangente que as noções de recuperação e renovação, que apelam para actuações pontuais centradas no imóvel e que esquecem a criação ou valorização de infra-estruturas, equipamentos e espaços públicos envolventes, então os instrumentos serão necessariamente outros, seguramente mais abrangentes. Mas o problema é que o legislador ainda não os criou. E de acordo com o princípio da tipicidade dos instrumentos de gestão territorial62, apenas aqueles planos que correspondam a um modelo legal determinado, podem produzir os efeitos jurídicos para que tendem. Assim, e fazendo uso dos instrumentos previstos, a reabilitação urbana necessita de utilizar o instrumento mais adequado para o tipo de intervenção no território e que são, necessariamente, os planos de pormenor de salvaguarda63. Sob a designação de Planos Especiais de Salvaguarda e Valorização ou de Planos de Renovação Urbana, foram 61 Dec-Lei n.º 104/2004 de 7 Maio Dec.Lei n.º 380/99 63 Na terminologia do art.53.º do Dec.-Lei n.º 107/2001 de 8 de Setembro. 62 64 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ reconduzidos, sob pena de violação do princípio da tipicidade dos planos de territoriais, à figura dos Planos de Pormenor. Definem estes a ocupação e usos prioritários, as áreas a reabilitar, os critérios de intervenção nos elementos construídos e naturais e as linhas estratégicas nos planos económicos, social e de requalificação urbana e paisagística. A alternativa, caso não haja a obrigação da sua elaboração decorrente da concomitante classificação de monumentos ou sítios, nos termos da Lei do Património Cultural64, será a da elaboração de um plano de pormenor na modalidade simplificada de plano de conservação, recuperação ou renovação do edificado65. O paradigma da intervenção estruturada na requalificação de um território urbano degradado surgiu, concorde-se ou não com os efeitos positivos dessa política, com as operações integradas no Programa Polis, mas mais uma vez recorrendo à figura do Plano de Pormenor.66 Este programa insere-se numa das mais complexas operações de coordenação e mobilização na política de renovação urbana visando a requalificação urbana e a valorização ambiental das cidades.67 Visou responder à necessidade de intervir física e económicosocialmente nas cidades, reinventando o espaço urbano por intermédio de intervenções urbanísticas e ambientais, centradas em objectivos de desenvolvimento de operações integradas de requalificação urbana com uma forte componente ambiental. O objectivo era claro: A revitalização de centros urbanos que promovesse a sua multifuncionalidade.68 A principal responsabilidade pela tarefa de gestão do programa foi entregue a uma figura empresarial criada para esse fim, nos moldes já anteriormente experimentados na preparação da Exposição Mundial de Lisboa (EXPO 98) e apelava a uma ampla participação e coordenação de entidades. Estas sociedades de capitais exclusivamente públicos, Estado e municípios, apelavam a regras específicas para o procedimento de elaboração dos planos urbanísticos. E na verdade, excepcionar o regime geral foi a única 64 Lei do património cultural Art. 93.º, n.º2, alínea c) do Dec.-Lei n.º 380/99 de 22 de Setembro. 66 Art. 87.º do Dec.-Lei n.º 380/99 de 22 de Setembro. 67 Resolução do Conselho de Ministros n.º 26/2000 de 15 de Maio de 2000 68 Decreto-Lei n.º 119/200 de 4 de Julho e Decreto-Lei n.º 330/2000 de 27 de Dezembro. 65 65 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ forma de realizar as intervenções tão abrangentes como aquelas que foram promovidas pelos Programas Polis, grande parte com sucesso. Uma estratégia de requalificação urbana promove necessariamente a sua redinamização. E isto deve ser assim, na medida em que a mera recuperação física e urbanística não resolve, por si só, o problema da descaracterização do seu tecido social e produtivo69. Nesse âmbito, o Sistema de Incentivos a Projectos de Urbanismo Comercial (URBCOM)70 visava intervir em áreas limitadas dos centros urbanos com características de alta densidade comercial, centralidade e multifuncionalidade e a necessitar de desenvolvimento económico, patrimonial e urbano. Servia os objectivos de revitalizar o mais possível as zonas comerciais dos centros históricos, evitando a sua degradação progressiva e contribuindo, ainda que de forma indirecta, para a consecução dos objectivos da política de renovação urbana. Outro instrumento que já se pode apelidar de específico, uma vez que estabelece um quadro normativo singular, é o das áreas críticas de recuperação e reconversão urbanística, figura especificamente destinada à recuperação do parque habitacional quer de centros históricos quer de zonas degradadas71, cuja situação só por intermédio de uma actuação expedita e firme por parte da administração pode ser revertida de forma eficaz.72 Como efeito imediato da delimitação e declaração destas áreas como sendo de recuperação e reconversão urbanística, existia a possibilidade da declaração de utilidade pública de expropriação dos imóveis de que a administração necessitasse para a execução dos trabalhos de reconversão, bem como a faculdade de tomar posse administrativa de imóveis para a realização das obras de beneficiação ou reparação que revestissem carácter urgente.73 Para 69 A diminuição acentuada do número e envelhecimento de idosos e o desaparecimento de actividades tradicionais ou a sua transferência para a periferia da urbe. 70 Portaria n.º 317-B/2000 de 31 de Maio. 71 Situação de muitas cidades cuja situação de tal modo precária e gravosa afastava os habitantes para a periferia por falta de infra-estruturas urbanísticas, de equipamento social, de áreas livres e espaços verdes, ou deficiências dos edifícios existentes. 72 Art. 41.º do Dec.-Lei n.º 794/96 de 5 de Novembro – Lei dos Solos. 73 Competência das Assembleias Municipais ainda que a declaração, por decreto, seja da competência do Governo, nos termos da alínea c) do art. 29.º da Lei n.º 159/99 de 14 de Setembro e art. 53.º n.º3, alínea b) da Lei n.º 169/99 de 18 de Setembro. 66 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ além desses mecanismos o Estado tinha ao dispor a possibilidade do despejo administrativo e do direito de preferência nas transmissões a título oneroso, fechando assim o leque de prorrogativas da administração beneficiária da declaração da área crítica de recuperação e reconversão urbanística. Na definição ampla de renovação urbana ainda se poderão incluir os mecanismos de reconversão de áreas urbanas de génese ilegal e construção clandestina, enquanto solução normativa adaptada à especificidade dos problemas, criando mecanismos de excepção que viabilizassem a legalização impossível à luz das regras aplicáveis.74 Na verdade, tais políticas inscreviam-se numa clara preferência por medidas que permitissem a reconversão urbana dessas zonas versus a sua legalização, desde que tal fosse aceitável sob o aspecto do ordenamento do território e o respeito pelas condições mínimas de habitabilidade. Na sequência destas medidas surgiu o regime excepcional para a reconversão urbanística das referidas áreas75. O processo poderia ser da iniciativa dos particulares através de uma administração conjunta, por intermédio da assembleia de proprietários ou comproprietários, utilizando a figura do loteamento, ou por iniciativa da câmara municipal mediante operação de loteamento ou elaboração de um plano de pormenor. Com este instrumento foram simplificados procedimentos de legalização por atenuação do grau de exigência relativo a parâmetros, índices urbanísticos e tipologias de ocupação fixados no regime jurídico aplicável aos loteamentos ou no PDM, sempre que o cumprimento estrito destes parâmetros pudesse inviabilizar a operação de reconversão. Por fim, os mecanismos da reabilitação urbana que as sociedades de reabilitação urbana vieram dar corpo e do qual será dado desenvolvimento no capítulo próprio. 4.7 Os instrumentos financeiros 74 O Decreto-Lei n.º 804/76 de 6 de Novembro alterado pelo Decreto-Lei n.º 90/77 de 9 de Março, estabelecia as medidas a aplicar na construção clandestina, bem como nas operações de loteamento clandestino. 75 Lei n.º 91/95 de 2 de Setembro alterada pela Lei n.º 169/99 de 14 de Setembro 67 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 4.7.1 Modos de financiamento da renovação urbana A renovação urbana, apesar de ser uma responsabilidade eminentemente pública é resultado, em grande parte das vezes, de comportamentos ou omissões dos particulares que se furtam ao cumprimento das obrigações legais que sobre eles impendem. Nestes termos, a renovação urbana não é um encargo financeiro da administração. Se as despesas com a actuação subsidiária da administração ao nível da execução de obras coercivas de conservação correm por conta do infractor76, também nas operações complexas de renovação urbana o princípio geral é idêntico77. Contudo, a concertação de intervenientes mobiliza mais meios que deverão ser partilhados pelos privados e a administração. Na verdade, as operações de renovação urbana são realizadas frequentemente em zonas caracterizadas por uma grande debilidade económica e social e têm que ser comparticipadas por todos em função da utilidade ser também da comunidade. Além disso, há muito que existem outros programas financeiros que acabam por ter um reflexo muito positivo na consecução dos objectivos da renovação urbana na medida em que combatem a degradação do parque habitacional urbano ainda que se centrem na recuperação de imóveis individualmente considerados. A preocupação com o financiamento da reabilitação urbana surgiu com o programa especial para reparação de fogos ou imóveis em degradação (PRID)78 onde se reconhecia que os custos elevados decorrentes das operações de reabilitação constituíam um impedimento à sua realização e dificilmente assumidas na íntegra pelos proprietários. Apenas com a criação do regime especial de comparticipação de imóveis arrendados (RECRIA)79 é que a preocupação com o financiamento da reabilitação assumiu mais operatividade, enquanto mecanismo passível de evitar ou atenuar a progressiva degradação do património habitacional das 76 Art. 108.º Dec.-Lei n.º 555/99 de 16 de Dezembro Art. 44.º n.º3 da Lei dos Solos 78 Decreto-Lei n.º 704/76 de 30 de Setembro 79 Decreto-Lei n.º 329-C/2000 de 22 de Dezembro e pela Portaria n.º 56-A/2001 de 29 de Janeiro 77 68 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ cidades, através de comparticipação a fundo perdido80. Este programa permitiu a recuperação durante alguns anos de um número significativo de imóveis. Outros programas de âmbito mais limitado também exercem alguma influência nesta matéria como acontece com o RECRIPH81 destinado ao financiamento de condóminos proprietários na realização de obras nas partes comuns e fracções autónomas. Por outro lado também os imóveis usados para habitação própria seriam, obviamente, objecto de apoio através de outro programa o SOLARH82 que estabelece um regime de concessão de empréstimos sem remuneração de capital. No que especificamente se refere aos núcleos urbanos históricos declarados áreas críticas de recuperação e conversão urbanística foi aprovado um regime de apoio à recuperação habitacional em áreas urbanas antigas (REHABITA)83. O financiamento destes instrumentos está assegurado nos programas operacionais do QREN. Entre os programas de financiamento suportados pelo orçamento de Estado são de destacar o PROHABITA (acesso a habitação, incluindo soluções de reabilitação de fogos mobilizados para o efeito) e o PROREABILITA (Apoio à reabilitação de edifícios) e os que resultarem da revisão em curso dos programas PRAUD e Equipamento Urbanos de Utilização Colectiva, geridos pela DGOTDU. Entre os recursos públicos comunitários, realça-se o Mecanismo Financeiro EEE e em particular o BEI. Adicionalmente o Estado procurará novas fontes de financiamento, quer no quadro de parcerias público-privadas, quer criando condições para um maior envolvimento de fundos privados. 80 Financiamentos a suportar em 60% pelo INH e 40% pelo município, ou financiamento do valor das obras não comparticipadas por instituição de crédito a juros bonificados. 81 Decreto-Lei n.º 106/96 de 31 de Julho 82 Dec.-Lei n.º 7/99 de 8 de Janeiro, revogado pelo Dec.-Lei n.º 39/2001 de 9 de Fevereiro com as alterações introduzidas pelo Dec.-Lei n.º 25/2002 de 11 de Fevereiro. 83 Dec.-Leis n.º 197/92 de 22 de Setembro e 105/96 de 31 de Julho com as alterações introduzidas pelo Dec.-Lei n.º 329-B/2000 de 22 de Dezembro 69 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 4.7.2 Financiamento, incentivos e programas A necessidade de rever a legislação sobre as SRU’s resulta da vontade em desbloquear os constrangimentos financeiros que actualmente impendem sobre as autarquias de menores recursos para o desenvolvimento de projectos integrados de reabilitação. A participação de fundos imobiliários poderá transformar-se num mecanismo que possa suprir as carências financeiras dos municípios que, por falta de verbas tiveram suspensas intervenções de reabilitação urbana. Além disso é fundamental atribuir empréstimos a fundo pedido para que a reabilitação não fique tão dependente dos empréstimos bancários aos proprietários, muitos deles descapitalizados. Adicionalmente deverá haver uma ruptura com o sistema actual em que dinheiros públicos apoiam apenas a recuperação de um fogo por prédio, investimento que não é sustentável. A intervenção do Estado não pode ser numa lógica de gastar dinheiro hoje para gastar outra vez no mesmo prédio. Tem de haver uma justificação económica para a intervenção, ou seja, o prédio apoiado tem de ser sustentável. Isso passa, por exemplo por conceber um projecto que permita ao proprietário de um prédio gerar receitas que possibilitem a manutenção autónoma, como a simples construção de um elevador ou de um espaço de parqueamento, que elevam o valor das rendas ou das vendas. Mas também os apoios à reabilitação não devem contemplar apenas as despesas de obras mas também as relativas aos projectos de arquitectura e prever a contratualização externa de técnicos para vistorias. Não é apenas por se enunciar um desejo de mudança que o mercado irá automaticamente reagir. Neste sentido, são positivas as decisões políticas que potenciem a concretização destes objectivos, nomeadamente, a alteração do regime fiscal da sisa e da contribuição autárquica, a constituição das sociedades de reabilitação urbana e, mais recentemente, a alteração da lei do arrendamento. Alguns municípios estudam esquemas de engenharia financeira em que a autarquia entra com um conjunto de prédios urbanos a recuperar como capital e o restante é assegurado por 70 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ fundos públicos. Depois de avaliado o conjunto de prédios pela CMVM, exclusivo para fundos de investimento. Estes celebram posteriormente um contrato de arrendamento com a autarquia que fica livre de despesas de manutenção. E a Câmara pode subarrendar a preços de mercado ou, ao fim de um período determinado, ter opção de compra. Com o rendimento obtido na operação, a autarquia pode optar por aplicá-lo em novas políticas de habitação social. As maiores exigências prendem-se com a necessidade de autarquias terem gabinetes técnicos sofisticados e com dimensão suficiente para atraírem fundos imobiliários.84 O programa Proreabilita e o novo regime de apoio à recuperação de edificado também traz novidades. Este programa permite certificar as obras de recuperação de imóveis conferindo, no final, o acesso à actualização das rendas no âmbito do Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) a todos os senhorios que as tenham realizado nomeadamente com o apoio a este financiamento. Além disso, deverá ainda apoiar as obras de recuperação das casas de agregados familiares carenciados que tenham sido intimados a fazer obras. O Prohabita vai substituir todos os programas à reabilitação urbana e gerir subsídios a fundo perdido e empréstimos sob tutela do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana. Outro mecanismo para o financiamento da reabilitação urbana é a iniciativa Jessica85, que permite utilizar verbas atribuídas no âmbito dos Fundos Estruturais, designadamente o FEDER, para programas de reabilitação urbana criando fundos de desenvolvimento regional. A reabilitação urbana precisa de novos modelos de financiamento e os fundos do FEDER podem ser mobilizados de forma mais atractiva para o envolvimento de privados na reabilitação urbana. A iniciativa Jessica é desenvolvida pela Comissão Europeia e pelo Banco Europeu de Investimento em colaboração com o Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa. Ao financiamento no âmbito da Jessica poderão candidatar-se programas nas áreas das infra-estruturas urbanas de transportes, água, saneamento ou energia, na área do património histórico ou cultural da requalificação de zonas. 84 os constrangimentos da reabilitação urbana – Artigo de opinião Fernando Santo. Bastonário da Ordem dos Engenheiros – 15.02.05 71 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Nos termos do Dec.-Lei n.º 104/2004 consagra-se a possibilidade de as SRU, na sequência de um concurso público com vista à escolha de um parceiro privado, celebrarem com estes um contrato de reabilitação urbana por intermédio do qual o parceiro privado se obriga a executar determinadas tarefas de reabilitação que podem incidir sobre um quarteirão, uma rua, pátio ou sobre um edifício de particular interesse público Mas este contrato, sobretudo quando tem por objecto um edifício, tem algumas fragilidades: De acordo com o diploma, como contrapartida pelo investimento a efectuar pelo parceiro privado, o parceiro público obriga-se a transferir para aquele os direitos de superfície ou de propriedade sobre os bens intervencionados. No entanto, essas contrapartidas são escassas e insusceptíveis de captar investimentos privados. A razão de ser do contrato de reabilitação urbana de edifícios é apenas uma: obter financeiro privado para as obras públicas que os municípios não podem custear. Como se disse, esse contrato não é de per se suficiente para atrair os promotores imobiliários ao ponto de os fazer desviar a sua atenção de projectos lucrativos, tais como a implementação de projectos comerciais ou habitacionais. O investimento em edifícios públicos não é lucrativo e não é a mera promessa de transmissão do direito de superfície ou de propriedade que vai atrair os financiamentos de que os promotores imobiliários necessitam para custear os seus projectos. Na verdade, uma vez efectuadas as obras de reabilitação, os investimentos não têm retorno significativo na medida em que os edifícios intervencionados não podem, na maior parte dos casos, ser afectados aos usos geradores de receitas, isto é, ao comércio, à habitação e aos serviços, limitando-se a ser arrendados às entidades públicas interessadas, os municípios, sendo que essa renda apenas cobrirá, e a muito longo prazo, o pagamento do financiamento utilizado. 85 JESSICA 72 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 5. As sociedades de reabilitação urbana Como se verificou, a requalificação urbana dos centros históricos das cidades é objectivo público que uma adequada política do ordenamento do território deve prosseguir. Não obstante esta tutela ser do interesse público urbanístico, é sobre os proprietários que impende a obrigação de promover a reabilitação dos imóveis. Nessa medida, parece natural que este desiderato seja conseguido através da associação com entidades privadas. Os centros históricos assumem-se como espaços de referência mercê da herança sóciocultural e patrimonial. O reconhecimento do valor cultural do centro histórico é a sua actual atractividade. Mas um espaço geográfico que não se vive, torna-se um desperdício, um custo social e económico, facto que se agrava quando se trata de um espaço de memória que se perde. É no sentido de inverter este quadro que surgiram as sociedades de reabilitação urbana, entidades dotadas de personalidade jurídica própria e constituídas para a realização de específicas finalidades urbanísticas e de promoção do ordenamento do território. Surgem por imperativos públicos e em resposta à efectiva degradação das condições de habitabilidade, de salubridade, de estética e de segurança de zonas urbanas históricas, e nalguns casos, de abandono de todo uma zona cuja centralidade já só tem enquanto coordenada geográfica. Esta obrigação pública consubstancia, primeiramente, uma responsabilidade dos municípios86 que tem de se dotar de meios que permitam uma efectiva intervenção, ponderando os direitos e obrigações dos direitos dos proprietários. Através de um modelo de constituição de uma empresa municipal ou de uma sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos, determina o diploma um conjunto procedimental que permite promover as operações de reabilitação com outra celeridade e utilizando mecanismos de entes públicos. Assim, e contrariando a tendência dos últimos anos relativamente à admissibilidade de uma participação de particulares na gestão urbanística, este diploma faz 73 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ retroceder esse movimento e torna efectivamente mais longe um propósito assumido por muitos dos instrumentos jurídicos já anteriormente criados e que já promoviam as parcerias público-privadas. Na verdade, este regime é, na sua essência, contraditório: desde logo, porque ao justificar e fundamentar a criação das sociedades na necessidade de promover o investimento privado 87, envolvendo equitativamente todas as partes interessadas, determina, excluindo os capitais privados, que o controlo de todo o processo de reabilitação seja assegurado por empresas municipais e, em situações excepcionais, por sociedades anónimas de capitais exclusivamente públicos. De facto, e em jeito de crítica ao modelo adoptado, expectativas existiam para que na organização destas entidades existisse maioritariamente capitais privados, uma vez que continua a ser da responsabilidade dos particulares a normal conservação dos edifícios 88. Nesse sentido, a pessoa colectiva a criar deveria ser maioritariamente de capitais privados em que o município participaria de forma supletiva89. Porém a falta de legislação específica que definisse os contornos da actuação dos privados, relegou o exercício da actividade destes para instrumentos supletivos decorrentes da celebração de contratos administrativos. Qualquer actividade que implica o exercício de poderes de autoridade, como seja a planificação ou o estabelecimento de dispensas de aplicação do regime legal, nomeadamente, a nível de licenciamentos e loteamentos, estariam vedadas aos particulares com o argumento final de que a função urbanística é, por excelência, uma função pública. A procura de novos instrumentos de planeamento faz criar novas soluções urbanísticas e novos modelos de gestão em áreas de atribuições que são públicas: O dever de ordenar o 86 Introdução do Dec. lei 104/04 Ver preâmbulo do DL 88 “ (…) se reafirma o princípio geral de que é aos proprietários que cabe promover a reabilitação dos seus imóveis. 89 A Lei 159/99 de 14 de Setembro, prevê expressamente essa possibilidade pela admissão de que os municípios criem ou participem em empresas de âmbito municipal ou intermunicipal para a prossecução de actividades de interesse público ou de desenvolvimento regional e local, sem se referir ao estatuto, público ou privado, das mesmas. 87 74 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ território. No modelo da SRU transferem-se verdadeiros poderes públicos, como o poder de expropriar ou de licenciar. Projectam-se mecanismos de apoio financeiro que serão sempre insuficientes para a enorme empresa de reanimar um parque habitacional degradado superior a 800.000 mil habitações. Acresce o facto de as soluções de celeridade procedimental bem como os meios efectivos de intervenção passarem necessariamente pela transferência de bens de pequenos para grandes proprietários que suportarão financeiramente os custos de reabilitação. Na procura de soluções há que fazer experiências e avaliar as consequências depois da sua implementação. Contudo, desde já, uma das fragilidades do sistema está já detectada. Os sujeitos do urbanismo, os cidadãos com interesses reflexos, ficaram de fora do quadro de participação institucional do modelo adoptado. Participam, nos termos do art. 16.º do diploma legal, na elaboração do documento estratégico. Continuam, porém, a serem meros destinatários da actividade pública do urbanismo. 5.1 Um novo ciclo de interacção A reabilitação urbana corresponde a uma vontade política. O programa do XXVII Governo assim o refere. As novas políticas urbanísticas assim o impõem. O mercado torna tal desígnio como um processo decisivo para o futuro das nossas cidades. Faz parte da nossa vivência em sociedade criarmos centros de confluência onde se vive a identidade de uma sociedade e onde os diversos actores têm um papel determinante em fazer a evolução em colectivo. Mas a requalificação urbana é também uma equação económica viável para os promotores imobiliários, para o mercado que procura a criação de condições, e que, no caso da requalificação urbana, são determinantes. Qualquer política, mesmo que carregada de fundos e meios, não decreta a revitalização de um centro histórico se os privados, os promotores imobiliários, não intervirem em resposta às necessidades do mercado. O contributo do Estado e a vontade política são uma parte importante do processo, se os esforços se concentrarem em facilitar o investimento privado. 75 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Mas também o processo de requalificação tem âncoras de intervenção necessariamente públicas por o Estado ser o único actor investido de prerrogativas de intervenção no espaço público ou nos procedimentos que determinem soluções de inexistência de acção por parte dos proprietários privados. A requalificação do espaço público, incluindo arruamentos e ordenamento da circulação, estacionamento ou soluções de mobiliário urbano são condições essenciais para impulsionar o investimento privado. A vontade política em criar uma agenda em torno da reabilitação urbana é igualmente importante, dando aos agentes económicos e na sociedade um sentimento de inevitabilidade da renovação urbana.90 O desbloquear de entraves ao licenciamento da actividade imobiliária nos centros históricos tem por barreiras a subsistência das competências de um grande número de serviços descentralizados do Estado. Para além disso, a burocracia sobre as operações urbanísticas nos centros históricos, a acrescer aos maiores custos que a construção pode acarretar, continuam a afastar os privados da decisão de investimento. Não será possível coadunar a vontade de investir com intermináveis processos de avaliação por múltiplas entidades e competências. As sociedades de reabilitação urbana visaram ser um factor aglutinador das entidades que intervêm no licenciamento, acelerando a aprovação das intenções de investimento e enquadrando as diferentes intervenções duma estratégia de centro de cidade. Em simultâneo, as SRU’s podem impedir, com a utilização dos mecanismos de expropriação, o bloqueamento causado por meros especuladores. Ao assumirem o seu papel de facilitadores de investimento privado, essencialmente na celeridade da apreciação do licenciamento, podem ser a via para destruir as últimas barreiras para uma requalificação em larga escala. Significa que um dos factores mais críticos da promoção imobiliária, o tempo, estará em princípio facilitado. No entanto, outras situações poderão encravar todo o processo, nomeadamente o decorrente de eventuais acções de despejo ou de expropriação. Mas dada a falta de experiência, ainda é cedo para se concluir sobre a eficácia destas sociedades, na resolução destes obstáculos. 90 O incentivo da redução do IVA para 5% na reabilitação urbana é também um factor muito positivo, com efectivo impacto na rentabilidade da operação imobiliária. 76 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ É fácil reconhecer a importância da reabilitação dos nossos centros históricos. São fundamentais para um melhor ordenamento e funcionamento das nossas cidades, para o turismo e para o nosso bem-estar. Uma boa reabilitação, numa boa localização, é de facto um produto pelo qual o mercado está disposto a pagar um prémio, uma vez que é muito difícil de produzir. O objectivo primeiro de uma intervenção de reabilitação integrada é olhar para um centro histórico como um bem público que deve oferecer boas condições para as actividades económicas se instalarem, espaços públicos e residenciais apelativos para habitantes e visitantes. Mas é também reforçar o perfil cultural da cidade e criar uma qualidade urbana distinta. Para tal é crucial estabelecer parcerias público-privadas fortes. Porque cumprir estes objectivos exige um papel importante do sector privado, mas também uma intervenção estruturada da iniciativa privada. Isto porque ao sector público cabe proporcionar as infraestruturas e sentido social da intervenção, estabelecendo contextos adequados ao envolvimento dos actores privados do mercado. Por outro lado estes objectivos não poderão ser atingidos sem a actuação de privados, sob pena de a estratégia de reabilitação não ser correctamente implementada. A estratégia da cidade deve ser compatível com o interesse do sector privado e não apenas do público. Um posicionamento desta natureza permite reduzir os requisitos financeiros de entrada de privados no projecto, aumentando o número de investidores privados de larga escala. Um exemplo de que a estratégia público-privada deve ser pensada em conjunto passa pela concordância sob os diferentes usos a dar aos imóveis a reabilitar e sob a forma como se irão colocar os produtos habitacionais no mercado. Requerer aos promotores que integrem habitações nos seus produtos não implica, necessariamente, que tenham de ser habitações de baixo custo ou de habitação social. Pelo contrário, uma melhor interacção entre os dois blocos de actores da reabilitação permite criar uma estratégia para vender produtos residenciais nas diferente zonas91, dispor de espaços comerciais atractivos, e uma boa intervenção no espaço público que permita fazer fruir os outros usos. 91 Juergen Bruns-Berentelg – experiência em Hafen City em Hamburgo 77 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 5.4 Reabilitação sem SRU’s 5.4.1 A reabilitação urbana do Centro Histórico de Guimarães No essencial da experiência de conservação do património urbano de Guimarães resulta uma ideia fundamental. A reabilitação pode ser bem sucedida se conjugar a conservação das qualidades formais já sedimentadas com a integração de novas oportunidades. E o resultado da mais antiga experiência de implementação de conservação do património urbano em Portugal92 é, por todos reconhecida, de grande valor, fruto do empenho e qualidade da equipa do gabinete municipal, que soube instaurar um processo de gestão urbana baseada numa prática de projecto e desenho contra um planeamento rígido baseada num urbanismo regulamentar, que já feita referência93. O panorama de intervenção da equipa camarária era um centro histórico, quase todo intramuros, e com inúmeros monumentos que limitavam e condicionavam qualquer operação por prevalência das áreas de protecção legais94. As condicionantes técnicas eram muitas em função do crescimento espontâneo da cidade sem planeamento ou controlo do processo de urbanização. Nesse quadro é criado o GTL (Gabinete Técnico Local),95 o gabinete do centro histórico de Guimarães. Como pressuposto de operacionalidade desse gabinete, procedeu-se à transferência sucessiva de poderes administrativos próprios do município. O GTL sustenta o seu projecto no estabelecimento de regras que se viriam a demonstrar essenciais para a duração e sucesso do projecto de reabilitação e que se baseavam em princípios e normas claras de gestão relativamente aos licenciamentos. Preconizava uma articulação forte com os particulares na procura de soluções por estes solicitadas, interditando o demolição para reproduzir em betão. Havia uma opção clara pela recusa ao 92 1985 Capitulo 2 94 Servidões Administrativas e outros ónus sobre o património 95 Criado em Março de 1985. 93 78 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ fachadismo96 que caracteriza muitas intervenções na reabilitação urbana. Um conjunto de protocolos com as entidades com responsabilidades sobre o território, como o então IPPC97 permitiram o necessário acompanhamento técnico e obviar os tempos de apreciação de processos, dando coerência à gestão patrimonial integrada. Mais complexas foram as relações com a DGRU, uma vez que esta não cedia as competências próprias na área de realização de planos de pormenor, cujas execuções na altura estavam reservadas à referida Direcção. Figura 5.1 Imagem do Centro Histórico de Guimarães Fonte: Gabinete Técnico Local de Guimarães, 2000 As primeiras actuações do GTL foram de efectiva execução. Recusando intervenções com excesso de projecto, este gabinete privilegiou uma progressiva adaptação do núcleo urbano histórico, conservando a sua identidade. Para além da arquitectura, era vital manter a população residente. Foi assim, que logo no início do projecto era possível ver obra, uma vez que se iniciou uma sistemática recuperação e beneficiação das habitações, reabilitando, também, os pequenos espaços públicos. 96 Fachadismo – O termo encontrado para definição de uma política de intervenção de reabilitação urbana com recuperação apenas da parte externa dos edifícios disponibilizando-se o interior para usos diferentes podendo ser alterados interiores. 97 Protocolo celebrado entra a Câmara Municipal de Guimarães e o Instituto Português do Património Cultural em 1983 79 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Ou seja, em termos estratégicos, as linhas de intervenção do gabinete eram claras: Uma beneficiação das habitações e infra-estruturas, como estratégia indutora ou revivificadora do interesse privado. Essa opção, recusava a ideia de um forte intervencionismo público, de intervenções em quarteirão, ou o uso de prerrogativas que resultassem na expropriação ou posse administrativa legal98. Também recusava a abertura desmesurada a actuações privadas e a captação dos capitais privados para a concretização do projecto. A lógica de intervenção nos edifícios privados visava, essencialmente, um restauro de prevenção e de criação de condições de habitabilidade e salubridade dos edifícios, evitando a renovação excessiva. Criando mecanismos de facilitação para a reabilitação pelos proprietários, apoiando com cautelas a beneficiação, resultou numa operação de reabilitação de grande escala, que apenas o era, por somar as inúmeras intervenções de beneficiação em curso. Actuando lote a lote, prédio a prédio, o município não se substituiu à iniciativa privada, não se tornou proprietário, nem mesmo gestor de um parque habitacional. O GTL visava apenas ser facilitador e integrador das operações de reabilitação do centro histórico, naturalmente centrada no plano integrado de reabilitação. Só que os privados tinham a iniciativa e o empreendimento. Com esta política evitou-se a alteração da tipologia parcelar condicionando as possibilidades de aumento volumétrico. Garantiu-se desta forma, um processo de continuidade do existente, de manutenção e não de substituição. O grau de intervenção nas edificações particulares, na perspectiva da sua reabilitação, faz-se na dependência do estado de conservação do imóvel e da capacidade de investimento do proprietário. Nessa reabilitação, verifica-se não uma substituição dos usos dos edifícios mas antes uma manutenção da lógica económica e arquitectónica que mobiliza os privados, um a um. Nas intervenções no espaço público a lógica de intervenção é a mesma. Recusando os mecanismos de financiamento estatal de grande envergadura, privilegiam-se as actuações em 98 Como seja a intervenção marcadamente intervencionista da reabilitação urbana no Porto 80 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ espaços urbanos unitários, potenciando unidades coerentes de projecto urbano, com certas praças e alguns eixos prioritários, mas na medida exacta da sua recuperação sem projectar soluções de futuro para o crescimento da cidade. No âmbito dessas obras no espaço público, que muitas das vezes se aproximava de restauro urbano, a GTL cria cursos de formação em construção tradicional, reduzindo os efeitos das carências de saberes nas actividades de construção e criando equipas municipais de operários para executar intervenções prioritárias. A preocupação pelo traço nas actividades de reconstrução dos edifícios seria matriz das intervenções no centro histórico, apelidando-se estas intervenções como o regresso da arquitectura à cidade histórica.99 A própria sede do GTL foi objecto de uma intervenção absolutamente simbolizada na recuperação integral de um edifício centenário, adaptando o seu uso ao edificado, e não apenas na reabilitação da sua fachada, tendo sido premiada como exemplo de referência europeia.100 A reabilitação do centro histórico de Guimarães marcou, mesmo em termos internacionais101, uma estratégia de actuação que lhe deu projecção e marcou a contínua presença de visitantes de universidades e equipas de recuperação de outros centros históricos. Tudo isto porque a decisão de reabilitação centrou a sua actuação numa estratégia de intervenção sobre o centro histórico que deveria propiciar uma reanimação funcional articulada com o processo de requalificação urbanística do restante território. Entendeu-se a reabilitação do núcleo histórico como uma acção indutora da requalificação formal e funcional de um contínuo urbano, procurando propagar qualidades, e induzir, como definiu Alexandra Gesta 102, “[…] por contágio e pelo carácter exemplar […]” processos similares na periferia, tornando de novo a cidade histórica como um núcleo de referência. A instituição de um processo de gestão urbana marcadamente preocupado com o desenho das operações e que controla toda a fase de licenciamento e de execução é um traço que 99 1997 II Congresso Histórico de Guimarães 1998 Encontro (Re)habitar Centros Antigos 100 Prémio Europa Nostra pelo projecto de Fernando Távora 101 Prémio Nacional de Arquitectura à equipa do GTL pela melhor obra de conservação e Prémio da Real Fundação de Toledo 102 Primeira Directora do GTL 81 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ identifica e dá marca ao projecto de reabilitação do centro histórico de Guimarães. Da macro à micro-escala, a verdadeira escala do projecto terá sido a opção pela conservação, por projectar com a realidade. E nesse sentido, foi o projecto que conquistou o apoio da população que se envolveu e aceitou as regras, captando o seu interesse pela capitalização dos resultados. A percepção dos objectivos por parte da população facilitou, por sua vez, a gestão participada, reforçando a negociação, sem recurso a falsas intenções de fazer participar as populações. A gestão em tempo real, como se apelidava no GTL, conquistou as populações para a bondade do projecto e fez crer nos seus responsáveis que se seguiam os passos certos. Na verdade, a experiência de Guimarães era pioneira em Portugal e como tal não houve tempo para esperar pela adopção de metodologias ou experimentação de métodos de actuação. Havia que projectar e obter resultados, avaliando-os, corrigindo métodos e aprender. Mas houve, sobretudo, o engenho de garantir adequadas bitolas de qualidade nas intervenções, exigindo-se a sua transposição quer para os projectos privados quer para os projectos públicos. Nesse sentido, fez associar qualificados arquitectos portugueses, como Sisa, Távora ou Portas, para que essas intervenções se revestissem de um carácter exemplar nos espaços da sua competência.103 O financiamento de todas as operações foi conseguido com acesso aos programas financeiros mobilizáveis, como o PRID, depois com PRU, com o PRAUD, mais recentemente com o PROCOM e às várias gerações do RECRIA. O GTL de Guimarães teve a cargo não só a vasta tarefa de controlo das alterações urbanísticas e funcionais ao nível urbano mas também foi responsável pela gestão dos licenciamentos, pelo controlo e fiscalização em obra das intervenções concretas e pela própria obra no espaço público. Verdadeiras atribuições do município foram transferidas para 82 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ este gabinete que, de uma forma expedita, actuou num território tão importante e com recurso a diminutos meios. A experiência de Guimarães na requalificação do seu centro histórico deu provas de solidariedade institucional e congregou vontades e competências organizadas num grupo de trabalho técnico de valia. Resultou numa reabilitação exemplar e na demonstração de uma metodologia de actuação com excelentes resultados nestes 20 anos de trabalho. 5.5 Reabilitação com SRU’s 5.5.1 A Sociedade de Reabilitação Urbana – Porto Vivo, SA A Porto Vivo, SRU foi constituída em em Novembro de 2004, tendo como accionistas o Estado, através do INH com 60% do capital e a Câmara Municipal do Porto detentora dos restantes 40%. Desde logo, a justificação de tal repartição do capital, de maioria da Administração Central, com a dimensão e complexidade da operação de reabilitação do Porto. De facto, a importância da cidade do Porto no contexto nacional e ibérico, a sua longa tradição enquanto metrópole de uma vasta zona e a progressiva perda de atractividade para as cidades limítrofes, bem como a importância turística da zona ribeirinha do Douro, encaminham a solução de reabilitação para soluções em que o Estado central assume claras responsabilidades. A esta decisão não são alheias, também, a complexidade e elevado preço que as operações urbanísticas impõem, o que justifica a anuência da autarquia na posição de charneira que assume na sociedade. Em todo o caso, a instituição de uma sociedade de reabilitação urbana é, desde logo, uma transferência temporária de algumas competências municipais para entidades de capital exclusivamente público, como, aliás, determina o art. 3 do Dec. Lei n.º 104/2004 de 7 de Maio. 83 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Mas, sobretudo, a oportunidade na criação da Porto Vivo, SRU, prende-se com a necessidade de inverter uma situação que caracteriza os últimos 25 anos. Os parâmetros sócioeconómicos demonstravam a tendência negativa na revitalização da cidade: a população mais jovem procurava os concelhos vizinhos para habitar; o comércio perdia clientelas para as grandes superfícies fora da cidade e as empresas mudaram as suas sedes para locais longe do centro. Restava o turismo que apresentava padrões de qualidade muito abaixo do que a importância da cidade exigiam. Monitorizada a situação do parque habitacional e do espaço público, promoveu a nova sociedade de reabilitação urbana a operacionalização de uma estratégia mobilizadora de meios e tão integradora quanto possível. Os objectivos impostos e que resultaram do Masterplan da sociedade eram absolutamente claros: voltar a reabitar a Baixa, fomentando a residência, o comércio e os serviços. Em princípio, nada de novo na estratégia de actuação que distinguisse esta operação urbanística de qualquer outra política de reabilitação. De facto, a definição dos vectores de desenvolvimento não traziam novidades ao eleger a habitação como pilar de uma área urbana viva, os negócios como oportunidade de afirmação da cidade, o comércio como factor determinante na revitalização, o turismo ou a cultura como forças intrínsecas e a reabilitação do espaço público. Mas a novidade do Plano de Acção, concretizado no Masterplan, era a profunda inventariação e conhecimento dos dados relativos aos mais variados aspectos da área a intervir. De facto, ao longo de 2005, desenvolveram-se os trabalhos que conduziram à realização do Plano estratégico de reabilitação urbana que enquadrava todo o processo e no qual foram vertidas as políticas de uma reabilitação sustentável: Fazer integrar para fazer intervenção era a novidade da primeira experiência de sociedade de reabilitação urbana e que marcava as referências das outras experiências de SRU’s em outras cidades. Para além disso, o plano estratégico trazia outra novidade: A celebração de um verdadeiro contrato de cidade. A conceptualização e implementação de um contrato de cidade que 84 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ oriente que gere e intervém, vincule as entidades tutelares e comunique uma estratégia aos investidores, cidadãos e agentes. Dada a complexidade e diversidade da zona a intervir foi definida, através de uma análise multicritérios, uma Zona de Intervenção Prioritária (ZIP) onde a Porto Vivo, SRU centraliza os seus esforços. Integrando as quatro freguesias do centro histórico, bem como uma parte substancial dos territórios que representaram a expansão urbana dos séculos XVIII e XIX, o Masterplan enquadra todo o processo de reabilitação e no qual estavam vertidas as políticas de uma reabilitação sustentável e a sua aplicação territorializada. A par das definições das prioridades e dos vectores de desenvolvimento, já se previa no modelo de operacionalização a necessidade de actuar em parceria. De facto a consciência da plenitude dos meios, foi uma das marcas da Porto Vivo, SRU que desde cedo assumiu a necessidade de a operação de reabilitação a empreender ser realizada por todos. No Masterplan a concretização da estratégia referia que a tipologia dos problemas poderiam ter características que só uma actuação da administração central resolveria e outros em que a actuação municipal seria suficiente. Mas para além disso, haveria actuações que caberiam, naturalmente, à Porto Vivo, SRU implementar ou gerar e outras que dependiam essencialmente de terceiros. Integrar, agilizar e criar condições pareciam ser as ferramentas da estratégia de actuação da Porto Vivo, SRU que não escondia a possibilidade de desenvolver acções de lobbying junto da Administração Central no sentido de melhorar o regime de arrendamento urbano, criar incentivos à reabilitação, promover a promulgação de programas financeiros de apoio, etc. Mas é na constituição de parcerias que a Porto Vivo, SA mais apostava, de acordo, até, com a génese do diploma da reabilitação urbana que previa um envolvimento directo dos particulares nas sociedades de reabilitação urbana. De facto, a constituição de parcerias com entidades de raiz público e privado mostrava-se fundamental para a implementação, e sucesso, da operacionalização do Masterplan. Parcerias que concretizassem a partilha de experiências e competências, com dinâmicas fortes de actuação e execução de acções 85 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ concertadas. O domínio destas era transversal a toda a actividade da Porto Vivo, SA: projectos tecnológicos, recursos energéticos e ambientais, estruturas dinamizadoras de actividades económicas e sociais, instrumentos para a mobilidade e, não menos importante, as parcerias para a reabilitação física. E seria precisamente nesta última componente para a concretização de parcerias – a reabilitação física sobre o parque edificado – que foram constituídos os principais eixos de actuação através da estruturação de programas cuja implementação rápida e eficaz emprestou credibilidade ao projecto de reabilitação: O VIV’A BAIXA, o ConVIVER NA BAIXA, o PORTO COM PINTA, foram programas que estruturam resposta de apoio célere e desburocratizado ás populações, servindo, também, como mecanismo integrador dos cidadãos na operacionalização de reabilitação da cidade. Todos estes sistemas de incentivos foram congregados numa ferramenta que facilitasse e mobilizasse as intervenções dos proprietários e dos promotores privados, através de um modelo simples que representasse o front-office da Porto Vivo, SA: A loja da reabilitação urbana. Um balcão que fosse simultaneamente um local onde se fornecesse e trabalhasse a informação para quem quisesse reabilitar, residir, trabalhar e investir na Baixa. Funcionaria, assim, como o local onde se encontravam os agentes, onde se conhecessem os apoios, as oportunidades e as condições de agilização de projectos. Para além dos grandes vectores de actuação, já referidos, entendeu-se ainda eleger um conjunto de medidas de excepção de abrangência transversal e pluri-sectorial a que se designou de Acções Estratégicas e funcionariam como âncoras de outras acções mas suficientemente importantes para alavancar outras intervenções: A criação de um parque da inovação, a reabilitação da frente ribeirinha, a reconstrução da avenida da ponte, a recuperação do mercado do bolhão e a instalação da rede de eléctrico. A operacionalização territorial da estratégia para um período que mobilizasse recursos e valores – 2006-2011 – determinou a escolha de dois eixos estratégicos que induzissem fortes dinâmicas de reabilitação: um eixo norte-sul conformado com o desenvolvimento da cidade ao longo dos tempos e um eixo este-oeste onde se cruzam as dinâmicas económicas e sociais, 86 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ dando lugar à definição de 6 Áreas de Intervenção Prioritária. 104. Nestas 6 AIP envolviam-se mais 2000 edifícios correspondentes a aproximadamente 1.300 000 m2 de área bruta construída. Fig. 5.2 Zona de Intervenção Prioritária dp Porto Fonte: Marterplan Porto Vivo, 2005 A operacionalização da operação de intervenção exigia uma regulamentação de grande clareza e objectividade que potenciasse a adesão mas que obedecesse ao normativo legal previsto. Assim, para cada Área de Intervenção Prioritária foi definido um programa geral de intervenção com base no levantamento mais “fino” de cada edifício, dos seus proprietários e ocupantes, das suas funções e da sua morfologia, do enquadramento da área do território a nível económico, social e monumental, e das suas carências infra-estruturais, desde estacionamento a espaço público, tratamento de resíduos a abastecimentos energéticos. Posteriormente, é esta proposta de estratégia para a área submetida remetida para decisão da Câmara Municipal, com a prorrogativa de esta decidir ou dispensar a elaboração de plano pormenor105. Após esta fase, é que se inicia o trabalho mais envolvente com os 104 105 Infante, Sé/Vitória, Aliados, República, Carlos Alberto, Poveiros/S. Lázaro Conforme Dec.-Lei n.º 104/2004 87 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ proprietários,106 efectuando-se as primeiras reuniões onde se explica o enquadramento estratégico e a totalidade dos passos a dar até à reabilitação integral do quarteirão, onde se inserem os seus prédios, sendo-lhes claramente transmitida a irreversibilidade e a obrigatoriedade do processo, bem como o papel facilitador e de dinamizador da SRU, bem como os poderes excepcionais de planeamento, licenciamento, execução, expropriação e de fiscalização de que dispõe. Apesar de possuírem todos estes poderes, as SRU só os podem exercer após a aprovação do documento estratégico, que é o documento onde se plasma o exaustivo diagnóstico físico, social e funcional dos edifícios, se descreve a estratégia de intervenção no quarteirão, as obras de reabilitação para cada um dos edifícios e a respectiva estimativa orçamental. A abordagem social do quarteirão inicia-se com a realização pormenorizada de vistorias a todas as fracções, estabelecendo-se as primeiras linhas de intervenção, ouvindo os inquilinos e os senhorios, que acompanham todo o levantamento nos termos da lei. A proposta base do documento estratégico é então submetida à crítica e à recolha de sugestões de todos os interessados por um período de vinte dias úteis. Após esta fase e depois de ponderados os contributos recebidos procede-se à aprovação do Documento Estratégico, que será, notificado a cada um dos proprietários, os quais deverão celebrar um contrato de reabilitação com a SRU no prazo de 60 dias. Caso não o façam, a SRU pode substituir-se a proprietário na execução das obras, podendo, sempre que necessário, expropriar o prédio. A Porto Vivo estabeleceu uma zona prioritária de intervenção prioritária (ZIP) para a área delimitada como de maior degeneração económica, social e urbana e que representa uma parcela importante da intervenção global. Sendo uma área consolidada do ponto de vista do tecido urbano e do valor arquitectónico, congrega um conjunto de características essenciais para a escolha de prioridade de intervenção, como a centralidade e a atractividade comercial. 106 De acordo com a legislação é aos proprietários que cabe, em primeiro lugar, executar a reabilitação dos edifícios, Dec.-Lei n.º 104/2004 88 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Por fim, a Porto Vivo estabeleceu como prioridade a implementação de estratégias de gestão com a criação e o lançamento da figura do gestor da área urbana para articulação entre população, empresários e instituições e as respectivas acções de reabilitação. 5.6 Comparação entre soluções As duas intervervenções descritas tiveram vários elementos que as distinguem, antes de mais pelas metodologias e mecanismos de intervenção utilizados. Mas os objectivos têm alguns pontos comuns, sobretudo os objectivos gerais de intervenção global no centro histórico de cidades pese embora as distâncias de dimensão entre as mesmas. O objectivo geral da reabilitação do centro histórico do Porto foi, principalmente, agilizar o funcionamento do mercado privado e contribuir para a produção de fogos qualificados com um misto de tipologias que permitissem diferentes usos.107 A mesma agilidade para os próprios modelos de habitação que se pretendia serem tão flexíveis relativamente ao uso final como evolutivos, com áreas e e fins mais contemporâneos e inovadores de residir. Já na intervenção de Guimarães os objectivos centravam-se em fazer desenvolver a existência de zonas protagonizadas pela presença de inúmeros monumentos religiosos, igrejas, mosteiros, mas também restos de muralhas, cuja significativa concentração compõe uma paisagem urbana bem distinta de outras e com necessidade de intervenção muito cuidadosa e exigente. Pretendeu-se em Guimarães intervir, mas principalmente acompanhar as intervenções dos privados, aconselhando, verificando e trabalhando em conjunto cada uma das intervenções. No Porto, um plano estratégico, apelidado de Masterplan, marcava a globalidade da intervenção possibilitando uma visão futura da totalidade da operação urbanística, característica, aliás, das intervenções das SRU’s. Em Guimarães, o instrumento mais 107 Objectivos gerais do Masterplan 89 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ regulador que foi constituído cingiu-se a um regulamento de intervenção no centro histórico108 complementando a regulamentação nacional a este nível. Em Guimarães o empenho e a estruturação de equipas multidisciplinares foi suficiente para empreender a reestruturação, passo a passo, dos edifícios degradados, apoiando tecnicamente os projectos individuais apresentados a licenciamento. Exemplar a exemplar, a reestruturação foi sendo realizada sem calendarizações ou projectos afectados a usos programados. Com importantes prerrogativas transferidas da autarquia o Gabinete Técnico Local chamou a si o acompanhamento e licenciamento das obras e, numa segunda fase, as intervenções no espaço público que acompanhavam a reabilitação dos edifícios privados. Pelo contrário, no Porto e com o modelo de intervenção centralizado na SRU, a lógica intervencionista determinou um plano geral para as intervenções a realizar. Para isso, foi escolhido a medida quarteirão como área ideal de intervenção a realizar e ensaiados modelos de interacção com os particulares. A celebração de um contrato de urbanização com quem possa ter dimensão para realizar a intervenção integrada, torna a operação centralizada e de carácter global, muito diferenciada da intervenção que caracterizou Guimarães. É certo que a comparação destes dois modelos não tem parâmetros de qualificação idênticos: a dimensão das cidades, a centralidade e atracção dos seus centros, o período que cada intervenção já prossegue e até mesmo os mecanismos financeiros à disposição. Todos estes pontos tem parâmetros tão diferenciados que uma comparação sobre o êxito de cada uma das operações tem que ser compartimentada em função do conjunto de factores específicos de cada uma das cidades. O número de fogos intervencionados ou a área pública reabilitada são vectores que não são possíveis de referenciar na comparação de modelos. Em todo o caso, é possível, como já foi referido, realçar o êxito da intervenção de Guimarães e o resultado do modelo escolhido. Esse facto já foi reconhecido em vários fórum académicos e exemplo para muitas intervenções em outros centros históricos. Não necessitou de um modelo muito pesado ou estrutura organizacional autónoma como aquela que 108 RICUH – Regulamento que conciliava as intervenções nas habitações do centro histórico 90 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ caracteriza as sociedades de reabilitação urbana, nem sequer aguardar por sistemas de comparticipação financeira para as operações a realizar. Interagindo com particulares, principais detentores do património do centro histórico, fez depender o sucesso da operação especialmente dessa relação e de equipas de trabalho competentes. Por seu lado, a experiência do Porto, com muitos menos anos na operação integrada de reabilitação, tem sabido nesta primeira fase, ser disciplinada no cumprimento dos calendários que a si mesmo estabeleceu na realização dos planos de reabilitação, na execução dos projectos previstos no Masterplan, bem como na criação de mecanismos de participação pública, o que só por si classificaria de positiva a experiência do modelo de reabilitação. A SRU Porto Vivo trouxe à operação de reabilitação do Porto organização e método que outras experiências dos anos 80109 não tinham alcançado. Contudo, e em comparação com Guimarães, a reabilitação do Porto tem um problema de sustentabilidade que pode prejudicar toda a operação. A intervenção em toda a sua extensão necessita de um enquadramento financeiro absolutamente excepcional que, ao contrário do inicialmente previsto, não contará com verbas tão relevantes da administração central. Restalhe encontrar junto de outros mecanismos financeiros, alguns deles bem exóticos110, as soluções para o financiamento das operações programadas o que não é empresa fácil. 109 Reabilitação da zona ribeirinha do Porto 91 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 6. As expectativas para a 2.ª geração das SRU’s A vocação das SRU’s teve, efectivamente, expectativas altas. Como foi anteriormente referido, o modelo de interacção público-privado apenas foi equacionado na fase de criação do diploma, mas não se transferiu para o corpo da lei que criou das SRU’s. Neste aspecto e noutros111, é unânime considerar que os quatro anos de implementação do diploma das SRU’s não tiveram o êxito esperado, com excepção de uma ou outra experiência.112 O facto de a regulamentação das SRU’s não ter potenciado sinergias com privados pela desconfiança destes relativamente aos mecanismos previstos, contribui para a pouca receptividade ao investimento na reabilitação.113 Razões para que a legislação sobre as SRU’s esteja a ser objecto de reflexão por parte do legislador, aguardando-se novidades, sobretudo, em áreas para as quais o actual diploma não deu resposta. Em face dos actuais problemas, deverão ser considerados, essencialmente, três aspectos: Por um lado, o governo deverá substituir o conceito de reabilitação pelo de revitalização.114 Não se trata somente de uma mera terminologia, com mais ou menos idêntico sentido, mas uma mudança de matriz. Como já referido, a reabilitação física do edificado deve ser apenas um meio para atingir o verdadeiro objectivo que é revitalizar tecidos urbanos, do ponto de vista funcional e social. Ou seja, emerge a distinção entre os dois conceitos para a necessidade de centrar a actuação urbana nos indivíduos e no enquadramento social e cultural em lugar do enfoque nas dimensões físicas do edificado e das formas urbanas. 110 O financiamento das operações através da comercialização de direitos de participação sobre os imóveis reabilitados. 111 O diploma será revogado brevemente. 112 Como por exemplo a do Porto Vivo que apresenta resultados importantes … 113 Nº de investimentos em reabilitação 114 O conceito de revitalização coloca em evidência as situações ou factores de desvitalização mas, em comparação com reabilitação tem uma abordagem pró-activa. 92 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ Depois, será importante equacionar o papel dos proprietários e das próprias sociedades é outro dos aspectos a ser revisto no processo de reabilitação. À luz da actual legislação tornase fundamental garantir uma participação mais activa dos privados, focalizando a intervenção da SRU na dimensão de planeamento e gestão das operações. Para isso, deverão ser criados mecanismos compensatórios e pacotes de incentivos específicos para criar a necessária atractividade ao investimento. Também deverá ser considerado uma modificação do valor e da força reivindicativa aos documentos estratégicos elaborados pelas SRU’s que enquadram as intervenções de reabilitação. O objectivo deve ser o de reduzir os encargos públicos hoje muito elevados, devido às acções de expropriação. A sustentabilidade financeira das SRU’s é um ponto a atingir. Relativamente ao contrato de reabilitação urbana esse só será verdadeiramente útil se o seu conteúdo abranger a vertente da requalificação, atribuindo ao parceiro privado o poder de desenvolver uma estratégia urbana para o edifício intervencionado e criando assim outras perspectivas de negócio e de exploração de obra. Por exemplo, a intervenção de reabilitação de um mercado municipal poderá ser atractiva para um promotor imobiliário se poderem ser desenvolvidos outros usos não contemplados inicialmente, tais como, o comércio, os serviços e a habitação. Nesta hipótese, os promotores teriam a garantia de que o retorno do investimento resultaria da exploração da actividade comercial ou da alienação das fracções habitacionais. Concomitantemente, os municípios também sairiam a ganhar na medida em que, no âmbito do referido contrato de reabilitação e requalificação urbana, veriam as obras públicas executadas, participariam nos lucros gerados pelo parceiro privado. Simultaneamente, a requalificação urbana atrairia comerciantes, consumidores e novos residentes contribuindo para a revitalização económica e social dos espaços urbanos. Do exposto resulta que o contrato de reabilitação urbana de edifício de particular interesse público terá que ser repensado. Não poderá ser concebido como um mero mecanismo de 93 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ financiamento externo das autarquias locais, antes devendo ser pensado como um instrumento de requalificação e revitalização urbana. Para tal, o diploma legal deverá alargar o seu âmbito de intervenção, atribuindo ao parceiro privado mais meios. Do mesmo modo deverá conceber mecanismos céleres e transparentes de alteração e flexibilização dos instrumentos municipais de ordenamento do território de forma a possibilitar a reafectação dos usos de certos edifícios a outros inicialmente não previstos. Renovar sem exclusão é outro tema chave das SRU de segunda geração. Para promover uma renovação urbana inclusiva, deverão ser tomadas garantias para que a renovação não implique a expulsão dos proprietários. A revitalização das cidades é uma das ideias chave da nova politica de cidades. Uma politica de cidades intersectoriais inclui três dimensões de intervenção: a revitalização sóciourbanística, a competitividade e a diferenciação e integração regional. O sucesso nas intervenções de qualificação urbana depende em grande medida da implementação de estratégias que valorizem a união entre a história e o conteúdo em permanente articulação com os comportamentos sociais e tendo como objectivo não apenas o espaço físico imediato, mas a obtenção de múltiplas sinergias em termos sociais, culturais e económicos. É hoje reconhecido que os impactos sociais das intervenções urbanas devem ser objecto de particular atenção. Com efeito, as intervenções urbanas devem possuir uma forte componente de âmbito social que possibilite resolver, ou pelo menos atenuar, os problemas existentes. Reconhecendo-se115 a variedade actual de modos de vida e as expectativas sobre a eficácia funcional da cidade, emerge a necessidade da valorização do seu uso colectivo como uma vertente fundamental a promover para alcançar objectivos de qualificação urbana. As intervenções urbanas não devem apenas contemplar a melhoria das condições de vida das populações locais, mas antes perseguir objectivos mais ambiciosos que impliquem uma expressiva modificação da composição dos grupos sociais que habitam e visitam determinada 115 Vasquez, Isabel Breda (1996) – “Algumas reflexões acerca da qualificação urbana” 5.ª Conferência Nacional sobre a Qualidade do Ambiente, vol. 1, Aveiro, pp. 615-622 94 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ cidade. Procura-se intencionalmente atrair a população jovem e dinâmica com bom nível cultural e económico, enquanto, simultaneamente, de forma explícita ou camuflada, se potencia, o afastamento das populações residentes de fracos recursos. Este movimento de apropriação indicia também a revalorização das urbes, e particularmente os núcleos centrais, centros históricos, como locais, de novo, económica e socialmente bem aceites para habitar e trabalhar. Esta situação é reforçada com sinais evidentes de práticas sociais conhecidas por nimbismo116 de que podem ser exemplo os condomínios fechados, traduzindo-se numa clara diminuição da coesão social e do sentido de solidariedade humana. De facto, os ganhos em eficiência económica das intervenções humanas, são confrontados, muitas vezes, com perdas do sentido de colectividade e têm consequências directas em termos sociais no aumento dos excluídos e marginalizados. Este processo é, nalguns casos, fortemente segregador travando muitos dos esforços realizados para encontrar a adesão das populações aos projectos urbanos. Nesta perspectiva, é função do planeamento fomentar o interesse pela participação dos cidadãos ao longo das operações de transformação urbana mas não basta planear para as pessoas, é também necessário planear com as pessoas. Reconhece-se, todavia, que a construção da cidade implica um permanente ajustamento da vida económica às escalas e às métricas espaciais. Só que a dinâmica urbana é sempre mais rápida do que os ajustamentos político-administrativos e institucionais, daí resultando desequilíbrios constantes entre a construção de cidade e os processos de equidade social necessários. A reabilitação urbana tem uma importância acrescida para a contenção da expansão dos perímetros urbanos e para o reequilíbrio entre o passado e o futuro das cidades. Assim sendo, a qualificação dos espaços públicos implica a adopção de políticas pró-activas por parte da administração local, que desempenha um papel insubstituível no planeamento, regulamentação e fiscalização da construção urbana. É fundamental que as autarquias 116 Designa-se por nimbismo o sistema que surgiu da expressão not in my back yard e que corresponde a uma prática de actuação corporativista que tende a afastar a população de estratos inferiores (considerados indesejáveis) do convívio ou vizinhança com outros grupos sociais, potenciando situações de segregação social e de falta de solidariedade. 95 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ compreendam que a gestão urbanística tem um reflexo directo na qualidade de vida das populações e na criação de cidades cativadoras de fixação de população e de investimentos.117 Reabilitar é assegurar o essencial e estruturante da imagem da velha cidade com uma funcionalidade correspondente a exigências que eram impensáveis há meio século, mas que são parte do processo reabilitador da história e da nova cultura urbana. As novas redes de mobilidade, as exigências ambientais e até a fibra óptica, geram modelos vivenciais bem diferentes daqueles que deram origem ao corpo construído e arquitectónico existente, determinando novos padrões culturais de organização e de usufruto do espaço, no particular ou colectivo. Qualquer operação de reabilitação é complexa e não pode sustentar-se no modelo exclusivo da intervenção pública para as redes infra-estruturais deixando aos privados a reabilitação dos seus edifícios decadentes. Esta dicotomia pode conduzir a impasses de calendário difíceis de resolver e a modelos de reordenamento social e económico selectivos e desconformes com a diversidade humana e cultural que deve ter a cidade. Manter a cidade é um desafio simultâneo que comporta dois tempos de conciliação, um de carga histórico-cultural e outro de inovação modernizadora. Conseguir esta tarefa conciliadora é, no essencial, o grande desafio que se coloca à política de reabilitação. 6.1 Novos modelos de investimento 117 Rosa Pires (1995) Teoria e Método em Planeamento, Universidade de Aveiro 96 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ 7. Conclusão As dinâmicas de reabilitação urbana são uma variável sempre presente na evolução dos espaços urbanos. Os valores e as necessidades de cada época determinaram quais as vertentes da reabilitação que se afirmavam e de que forma condicionaram o formato da cidade. Só no século XX é que o valor patrimonial da cidade se afirma e se impõe a preocupação com a personalidade histórica dos lugares. A segmentação das funções urbanas e a saída de muitas actividades que a cidade realizava acentua a sua desurbanização, sobretudo quando os habitantes também optam por migrarem. O esvaziamento da cidade tem por contraponto a valorização da mesma enquanto espaço de memória e a assunção de um novo paradigma que é a cidade-património do presente. A conservação e recuperação desse bem vai tornar-se objectivo estratégico para muitas cidades, não só pela sua valorização enquanto memória colectiva mas também enquanto produto comercializável no mercado do turismo dito cultural. Surge então o conceito de centros históricos para definir o sentido do centro urbano que a dinâmica urbana rejeitou e para justificar a intenção de conservação da estrutura urbana que já não tem coerência com as novas necessidades. Nesse sentido, a expressão centros históricos tem sido apreendida e utilizada abusivamente, já que na maior parte dos casos, não significa nem centralidade nem objecto histórico. Efectivamente, o centro histórico só existe por comparação com a cidade nova e enquanto representação de características ausentes nessa urbe, como espaços de vivência pública e de proximidade, conceitos que se tenta a todo o custo recuperar para a cidade. Mais, idealiza-se nesse centro histórico uma vivência de uma cidade cultural, social e economicamente sustentável, cuja dimensão, provavelmente, esse centro nunca teve ao longo dos tempos. O discurso para a reabilitação urbana tem como argumento recorrente que o desaparecimento dos centros históricos faz desaparecer a nossa memória colectiva e que a sua preservação é recuperar identidades. Na verdade, a necessidade identitária de lugares memória tem 97 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ incentivado a investigação sobre as memórias colectivas, assegurando os requisitos da identidade local, permitindo a reabilitação de acordo com esses parâmetros fundamentais. A referida consciência patrimonial funcionará como uma invenção cultural com a atribuição de uma segunda vida a um passado que dificilmente terá a configuração que hoje idealizarmos. De facto, as estratégias de intervenção podem variar entre a recriação do centro de acordo com os parâmetros que, supostamente, julgamos conhecer, ou através de invenção de novas funções dando ao centro histórico a oportunidade de criar cidade viva. Neste contexto, quando se fala em reabilitação urbana deverá remeter-se para a preservação do património edificado e a sua valorização enquanto imagem. Mas reabilitação é muito mais do que valorizar património. A recuperação do edificado é uma parcela do conceito de intervenção de reabilitação que apela agora para a dimensão de integração de funções urbanas. Por isso a mudança para um novo conceito que aborda a habilitação das intervenções. A revitalização faz agora parte do léxico, numa abordagem que assenta na implementação de um processo de planeamento estratégico que contempla a coesão social, a sustentabilidade física e ambiental e a viabilidade económica e financeira. Baseando-se numa visão global, actuando de forma integrada e concertando um grande número de variáveis, a revitalização desenvolve-se numa perspectiva de sustentabilidade da intervenção. As experiências portuguesas em reabilitação tem demonstrado o quanto está por fazer. A realidade urbana demonstra que algumas experiências com resultados positivos apenas excepcionam o quadro geral de dramatismo que caracteriza os centros das cidades. E as primeiras experiências com sociedades de reabilitação urbana encontram os entraves de uma situação que caracteriza a gestão urbanística em Portugal. Só os regimes excepcionais permitem ultrapassar uma situação de bloqueio provocado por entraves burocráticos e dificuldades em acreditação de parcerias. As sociedades de reabilitação urbana poderão ser entendidas como um instrumento fundamental de gestão colectiva do território, potenciador de projectos e iniciativas privadas, 98 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ e com capacidade para utilizar como recursos próprios programas urbanos de cariz social, económico ou cultural. Mas o excesso de procedimentos burocráticos, elevada dependência de políticas e apoios públicos, para além da sobreposição de competências com as autarquias e outras entidades públicas, faz com que não estejam ainda alcançadas as condições para que estas estruturas assumam todas as atribuições que foram pensadas delegar. A relação das sociedades de reabilitação urbana com os privados estará na base do sucesso destas estruturas. A compreensão das expectativas próprias dos privados enquanto investidores e a credibilidade que estas estruturas de gestão souberem transmitir ao mercado são determinantes para o sucesso das operações de revitalização urbana. Nesse sentido, é sentida a necessidade de reestruturar o diploma que institui as SRU’s atribuindo a estas novas dinâmicas que potenciem as referidas sinergias, mas também de novos mecanismos de financiamento que recolham de outras experiências europeias os elementos necessários para potenciar os investimentos. A sustentabilidade dos novos centros históricos tenderá a ter uma dimensão financeira, uma dimensão ecológica e uma dimensão social. Saber gerir estas dinâmicas será saber gerir os objectivos, as prioridades e as próprias operações. Nessa altura poderão ser feitas as opções sobre o fim a que se destinam os centros históricos: A refuncionalização da cidade antiga ou a reinvenção do passado que traga uma dimensão prioritária aos centros históricos e, talvez, o factor decisivo para a sua sustentabilidade: A dimensão cultural. A intensificação da patrimonialização e a concepção de dinâmicas culturais são hoje determinantes para cidades que competem nos mesmos mercados. A certificação dos bens tornados património mundial tornou-se hoje alvo da perseguição estratégica das cidades com identidade histórica e onde se localizam os principais destinos turísticos. O paradigma da reabilitação dos centros históricos é, comprovadamente, a procura de uma identidade simbólica conseguida com a obtenção do estatuto de património mundial e que funcionará como imagem de marca de um lugar que procura a sua nova atractividade e, por consequência, recuperar a sua competitividade. 99 As Sociedades de Reabilitação Urbana e as novas perspectivas na revitalização de centros históricos _________________________________________________________________________________ BIBLIOGRAFIA AGUIAR, J, Guimarães. Re(habitação) e conservação do património urbano, em ReHabitar Centros Antigos, Guimarães, em Actas do 2.º Congresso Histórico de Guimarães, Vol 7 ASHWORTH, G.J. e TUNBRIDGE, J. E. (2000), The Tourist-Historic City – Retrospect and Prospect of managing the Heritage City, Amsterdam. BRANDÃO, Pedro, 2007, Artigo de Opinião, De que é feita a qualidade urbana? 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