URI - UNIVERSIDADE REGIONAL INTEGRADA DO ALTO URUGUAI E DAS MISSÕES PRÓ-REITORIA DE ENSINO DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA, LETRAS E ARTES CAMPUS DE FREDERICO WESTPHALEN – RS MESTRADO EM LETRAS - ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: LITERATURA AFETOS E ESTRANHAMENTO EM O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS DENISE DE QUADROS Frederico Westphalen, agosto, 2008 DENISE DE QUADROS AFETOS E ESTRANHAMENTO EM O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre em Letras na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e as Missões, Campus de Frederico Westphalen, pelo Departamento de Lingüística, Letras e Artes. Orientador: Prof. Dr. Robson Pereira Gonçalves Frederico Westphalen, agosto, 2008 Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões Pró-Reitoria de Pesquisa, Extensão e Pós-Graduação Departamento de Lingüística, Letras e Artes Campus de Frederico Westphalen – RS Mestrado em Letras - Área de Concentração: Literatura A Comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação de Mestrado AFETOS E ESTRANHAMENTO EM O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS elaborada por DENISE DE QUADROS como requisito para obtenção do grau de Mestre em Letras COMISSÃO EXAMINADORA ___________________________________________ Prof. Dr. Robson Pereira Gonçalves – URI/FW (Orientador) ___________________________________________ Prof. Dr. Maria Luiza Ritzel Remédios ___________________________________________ Membro Prof. Dr. Ada Maria Hemilewski Frederico Westphalen, agosto, 2008 AGRADECIMENTOS A meus familiares, pelo incentivo, carinho e compreensão. Em especial a minha filha Eduarda, companheira e amiga de todas as horas. Ao Prof. Dr. Robson Pereira Gonçalves, pela orientação segura, inteligência, confiança e paciência. Aos professores do curso de Mestrado em Letras da URI, pelos conhecimentos passados e estímulo. A todos que emprestaram sua luz e que me acompanharam no cumprimento desta trajetória. Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer Brilho sem luz e sem arder, Como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quere. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... (Mensagem – Fernando Pessoa – 10/12/1928) IDENTIFICAÇÃO Instituição de Ensino/Unidade URI – Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões Campus de Frederico Westphalen Direção do Campus Diretor Geral: Prof. César Luís Pinheiro Diretora Acadêmica: Prof. Dra. Edite Maria Sudbrack Diretor Administrativo: Nestor Henrique de Cesaro Departamento/Curso Departamento de Lingüística, Letras e Artes – Chefe: Rosane Vontobel Rodrigues Curso de Mestrado em Letras – Coordenadora: Prof. Dr. Ada Maria Hemilewski Disciplina: Dissertação de Mestrado Linha de Pesquisa Literatura, História e Imaginário Orientador: Prof. Dr. Robson Pereira Gonçalves Orientando(a): Denise de Quadros RESUMO Autor: Denise de Quadros Orientador: Dr. Robson Pereira Gonçalves O presente estudo objetiva propor uma leitura do romance O ano da morte de Ricardo Reis atendo-se à relação que vai se estabelecer entre Fernando Pessoa, trazido à vida pelo romancista, e Ricardo Reis, heterônimo de Pessoa. O enredo transcorrerá em nove meses; neste entremeio José Saramago vai mostrar às personagens o espetáculo da vida. Os diálogos travados entre os poetas e a relação de Reis com Lídia e Marcenda, musas das odes e agora personagens da trama, servirão de subsídio para a compreensão da obra. O que se pretende é observar e analisar o comportamento de Pessoa e Reis frente às situações em que são expostos. Para esse fim, serão relevantes os estudos de Sigmund Freud e Jacques Lacan no campo dos afetos, do estranhamento e do duplo. Ainda será de interesse observar como José Saramago constrói em torno de Pessoa a indicação de um pai literário, relacionando aos estudos de Lacan sobre o Nome-do-Pai. Palavras-chave: Literatura – Psicanálise – Duplo – Estranho – Afeto – Nome-do-Pai ABSTRACT This study aims to propose a reading of the novel O ano da morte de Ricardo Reis keeping to the relation that is going to be established between Fernando Pessoa, brought to life by the novelist, and Ricardo Reis, Pessoa´s heteronym. The plot will happen in nine months, at this time Jose Saramago will show to the characters the spectacle of life. The dialogues between the poets and the relationship of Reis with Lidia and Marcenda, muses of the odes and now plot characters, will provide a subsidy for the understanding of the work. The aim is to observe and analyze Pessoa´s and Reis´s behavior toward to situations in which they are exposed. To this, will be relevant the studies of Sigmund Freud and Jacques Lacan in the field of affection, strangeness and the double. It will also be of interest to observe as Jose Saramago builds around Pessoa the indication of a literary father, matching to the studies of Lancan about the Name of the Father. Key words: Literature - Psychoanalysis - Double - Strange - Affection - Name of the Father 9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 10 1. NA ESTEIRA DAS PERSONAGENS........................................................................................... 15 1.1 ALBERTO CAEIRO .......................................................................................................................... 23 1.2 ÁLVARO DE CAMPOS ..................................................................................................................... 25 1.3 RICARDO REIS................................................................................................................................ 26 2. LITERATURA E PSICANÁLISE................................................................................................. 30 2.1 SOBRE LITERATURA ...................................................................................................................... 30 2.2 PSICANÁLISE E SUBJETIVIDADE .................................................................................................... 35 2.3 NA ESTEIRA DE LACAN .................................................................................................................. 39 2.4 NOME-DO-PAI ................................................................................................................................. 49 2.5 O ESTRANHO .................................................................................................................................. 52 2.6 O DUPLO ......................................................................................................................................... 57 2.7 AFETOS ........................................................................................................................................... 59 3. SARAMAGO E A CENA ROMANESCA .................................................................................... 62 3.1 NA TRAMA DE SARAMAGO ............................................................................................................ 71 3.2 O POETA DAS ODES E DAS MUSAS .................................................................................................. 73 3.3 EM QUESTA DE UM PAI ................................................................................................................... 95 3.4 AFETOS EM PROSA E VERSO ........................................................................................................ 101 3.4 UMA ESTÉTICA DO ESTRANHAMENTO ........................................................................................ 105 CONCLUSÃO ................................................................................................................................... 110 BIBLIOGRAFIA............................................................................................................................... 114 10 INTRODUÇÃO Este trabalho compreende uma proposta de análise da obra O ano da morte de Ricardo Reis. O objetivo é reconhecer as conotações subjetivas do texto e o entrelaçamento entre as personagens de José Saramago com o poeta Fernando Pessoa e o heterônimo Ricardo Reis. Aliada à Teoria da Literatura, a Psicanálise, com os estudos de Sigmund Freud e Jacques Lacan, auxiliará nesse processo de descobertas. Fernando Pessoa sagrou-se no cenário literário moderno português como um dos casos mais complexos e perturbadores. O poeta não só assimilou o passado lírico, herança de Camões, como refletiu em seus textos as grandes inquietações humanas do século passado. Sua obra evoluiu do Saudosismo para o Paúlismo e daí para o Interseccionismo e Sensacionismo, revelando um poeta multifacetado. Seu desdobramento interior fez surgir um poliedro de personalidades, o que o habilitou a ver e sentir o mundo das mais diversas formas – o resultado é o surgimento dos heterônimos, arquétipos com comportamentos e produções literárias individuais. Ainda que essas personalidades representem visões do mundo que partem de um mesmo ponto, fato é que a elas o poeta deu uma vida, gostos, tradições, data de nascimento e, até mesmo, um mapa astral. Heterônimos e ortônimo fundem-se em um único ser, metaforicamente múltiplo. A heteronímia serviu como máscara que aos poucos revelou um ser Pessoa. Após a morte do poeta, suas obras e textos passam a ser publicados e estudados. Em 1984, ano que antecedia o cinqüentenário de seu falecimento, o escritor contemporâneo José Saramago remexe no passado literário e lança uma obra que traz como personagens principais Ricardo Reis e Fernando Pessoa. Das inúmeras faces reveladas por Pessoa, é Reis o escolhido pelo romancista para deslumbrar-se com o espetáculo da vida. Ambientada no final de 1935 e em 1936, a 11 trama revela um Ricardo Reis médico que deixara Portugal fugindo da ditadura salazarista, refugiando-se no Brasil por quinze anos, e que volta a terra natal após a morte do amigo Fernando Pessoa. Ao regressar, instala-se num hotel e conhece a criada Lídia – musa de suas odes e agora personagem de Saramago. Entre lembranças e indagações, conversava com Fernando Pessoa, que volta e meia visita-o, mesmo morto. Na obra, Pessoa aprende a deixar de viver, vai esquecendose dos caminhos, não sabe mais ler; enquanto Reis aprende a viver, salta da cadeira de expectador para desfrutar da posição de dono de si. No entanto, não suporta a pressão e opta por, junto com Pessoa, deixar a vida. Os traços estóicos e neoclássicos compõem o poeta do romance; assim como nas odes, seu viver revelase efêmero, como também a fugacidade de sentimentos. Nascido no Ribatejo, 1922, José Saramago representa um dos grandes romancistas do atual cenário literário. Sua sagacidade em observar as distintas épocas da história portuguesa e retratá-las num misto de ficção e história vem envolvendo os leitores em textos como Memorial do Convento (1980), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a Cegueira (1995). Essas são considerações preliminares discutidas no capítulo primeiro, as quais conduzirão a um estudo das áreas literária e psicanalítica, com vistas a compreender as relações subjetivas, as investidas de afeto e a intersubjetividade na estruturação do Nome-do-Pai. O segundo capítulo, destinado à fundamentação teórica, discute as inúmeras acepções do termo literatura. Durante séculos, muitas foram as tentativas para defini-lo: literatura é uma obra imaginária, está intimamente ligada a questão estética, é tomada como uma ânsia de evasão, de imortalidade; para os formalistas a melhor definição seria associá-la ao som, imagens, ritmo, sintaxe..., Todorov a vê como um sistema de signos. Mas talvez esteja em Aristóteles o princípio para uma melhor definição do termo. Num primeiro instante, o filósofo grego diz que não se pode confundir arte – literatura – com história, já que esta carrega a visão do que realmente aconteceu. A literatura é o que brota da imaginação de seu criador, cria um universo e faz surgir um heterocosmo particularizado. Mesmo sendo fruto do espírito do autor, a cena literária não surge do nada, é na realidade que o escritor 12 vem buscar inspiração. Daí a importância dos conceitos gregos como mimese e verossimilhança. Esse construir literário envolveu e envolve os mais variados campos do saber. Sigmund Freud já se revelava um admirador da arte e mostrava-se propenso a discutir o processo criativo, uma vez que compreendia que para este ato há o direcionamento de uma carga de energia muito intensa: pulsão. Em Escritores Criativos e Devaneio, texto em que o tema central gira em torno do fazer literário, Freud relaciona o trabalho do escritor criativo ao brincar da criança. Destaca, assim, as lembranças infantis da vida do escritor como material originário de sua obra, supondo que a obra literária, como o devaneio, é uma continuação, ou substituto, do que foi o brincar infantil. Afirma que, tanto no brincar, como na criação literária, haveria a criação de um mundo próprio, com o rearranjo dos elementos da realidade para que esta se conformasse ao desejo de seu criador. Aponta, ainda, que a antítese do brincar e, portanto, da obra do escritor criativo, não é o sério, mas sim, o real. Ambos, criança e artista, criam um mundo de fantasia impulsionados por desejos insatisfeitos, que buscam, assim, sua plena realização, mesmo que de maneira disfarçada, efetuando, para tanto, uma correção da realidade insatisfatória. Freud com seus estudos ligados ao inconsciente impulsionou grandes avanços na prática de análise literária, direcionando a compreensão da obra de arte como sintoma a ser descoberto. Ora concordando, ora discordando, Jacques Lacan aprofunda a teoria psicanalítica e no campo estético lança mão do conceito de Coisa (das Ding), que irá ordenar a função da sublimação1 – o termo já está em Freud e Lacan o retoma como um conceito que designa o que aparece como estranho e alheio no ponto inicial do psiquismo. A Coisa será sempre representada por um vazio, afirma Lacan ao teorizar sobre a sublimação. O autor retoma a proposta de Freud de que uma neurose obsessiva seria a caricatura da religião, um delírio paranóico um sistema filosófico distorcido e a histeria uma obra de arte deformada – e propõe, em toda forma de sublimação, o vazio como índice da Coisa, sendo 1 Sigmund Freud conceituou o termo em 1905 para dar conta de um tipo particular de atividade humana (criação literária, artística, intelectual) que não tem nenhuma relação aparente com a sexualidade, mas que extrai sua força da pulsão sexual, na medida em que esta se desloca para um alvo não sexual, investindo objetos socialmente valorizados. Termo derivado das belas-artes (sublime) (...) serve para designar uma elevação do senso estético (...) um mais além da consciência. Cf. ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998, p. 734 13 determinante, permanecendo no centro: sublimar é elevar o objeto à dignidade da Coisa. Lacan indica que há três modos diferentes de sublimação, três maneiras distintas de se relacionar com o vazio: o da religião, da ciência e da arte. A arte, para Lacan, caracteriza-se por um certo modo de organização em torno do vazio. Antes do que é escrito pelo autor, o que se tem é um papel vazio. Ele não tem problemas em concordar que as obras de arte imitam os objetos que elas apresentam, porém, explica que elas imitam sem representá-los, elas fazem outra coisa do objeto. Para melhor explicar essa afirmação lembra Cézanne e suas maçãs. Quando ele as pinta, faz bem mais do que imitar maçãs, não deixa de presentificá-las, mas ao mesmo tempo ausentifica-as como maçãs, as tornando outra coisa. O artista ao criar, renova a relação da arte com o real, faz surgir o objeto em uma renovada dignidade. Ainda no entorno do estético e fundamentado nos estudos de Freud, Lacan reconhece uma estruturação em termos de linguagem do inconsciente. Conhecedor da lingüística, lança mão de termos como significante e significado para explicitar as leis da linguagem que caracterizam o inconsciente. Defende a idéia de que o inconsciente revela-se e estrutura-se através da linguagem – é a partir dessa concepção lingüística que passará a trabalhar a metáfora e a metonímia. Termos como real, simbólico e imaginário também são discutidos pelo psicanalista: embora o imaginário tenha uma conotação precisa em literatura e que a teoria freudiana lhe tenha dado a dimensão da fantasia, ainda que abrindo para a noção de ilusório, é com Lacan que este conceito é elaborado com rigor como registro fundamental da estrutura mental a par do real e do simbólico, constituindo a inscrição da ilusão e da identificação. A importância do imaginário aparece ligada à fase do espelho – fase que, estruturante do imaginário e do eu, revela a complexidade das relações deste com o eu (je), sujeito do inconsciente, e da fala. Também servindo como apoio aos estudos literários, surge a questão dos afetos, intimamente ligada à linguagem e suas manifestações. O afeto é a adesão por outrem; um estado moral; disposição de alma; agrado e desagrado; emoção: enfim, um estado limitado no tempo e qualidade essencial de uma emoção – expressão qualitativa e quantitativa de energia das pulsões. No Seminário V, Lacan discute as formações do inconsciente e desenvolve um conceito que se tornaria fundamental: o significante Nome-do-Pai, que amplia e eleva a função de pai no Édipo freudiano à condição de metáfora paterna. A 14 presença desse significante enquanto operador diz respeito à possibilidade de simbolização do falo, retirando o sujeito do contexto imaginário e inserindo-o na lógica fálica. O Nome-do-pai funciona de forma a integrar o sujeito, promovendo uma amarração pulsional. A simbolização da castração, ao delimitar o campo do Outro, apaziguaria o sujeito frente à voracidade do desejo materno. O significante Nomedo-Pai é então o que vem suceder o desejo da mãe; ordenar o discurso na medida em que circunscreve o campo do desejo e gozo. Ainda na esfera da psicanálise, consideraram-se os estudos relativos ao estranho (The unheimlich), tendo em mente que “a literatura é a representação exacerbada da experiência humana”.2 Freud desenvolveu um considerável estudo acerca do tema, tendo a literatura como exemplo de suas afirmações. Salientou que “o estranho da ficção merece de fato especial atenção. Antes de tudo, é muito mais rico que o estranho da experiência...”3 Ligado ao estranhamento estão temas como o animismo, a cena dentro da cena, o sentimento de estranheza e, o mais relevante para este trabalho, a questão do duplo. Também é o estranho que desperta sensações: medo, insegurança, surpresa... dentre tantas outras, tema bastante afim com a poesia sensacionista de Pessoa. Os aspectos aqui mencionados, tanto no que diz respeito à Teoria da Literatura, quanto à Psicanálise, são o sustentáculo para análise da obra – terceiro capítulo. É pertinente salientar que o texto de José Saramago não foi submetido a uma análise psicanalítica, o que se almejou foi utilizar a Psicanálise como apoio na compreensão, de modo a penetrar na essência das personagens e assim ver a obra em toda sua amplitude. 2 OTTE, George apud PORTUGAL, Ana Maria. O vidro da palavra: o estranho, literatura e psicanálise. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 14 3 FREUD, Sigmund apud PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 33 15 1. Na esteira das personagens Neste primeiro capítulo, as atenções estarão voltadas à produção literária portuguesa. Na poesia o destaque é para Fernando Pessoa, enquanto na prosa a atenção dirigir-se-á a José Saramago. Ambos, com suas obras, são a base de estudo do presente trabalho. Com relação a Fernando Pessoa, merecerão destaque três de seus heterônimos, sendo o foco principal a vida e textos de Ricardo Reis. Em Saramago, foram selecionados seis romances, sobre os quais organizou-se um pequeno panorama, já que a ênfase ficará em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Compreender os caminhos traçados pela literatura portuguesa exige que se debruce, num primeiro momento, à poesia daquele país, uma vez que a influência de autores lusitanos pode ser vista em muitos escritores contemporâneos. O primeiro grande poeta foi Camões. Seus textos são o resultado da observação de cenas da vida diária, da angústia: seguindo na esteira de Platão, o poeta considera-se caído no plano humano, o mundo sensível, esmagado pelas reminiscências do mundo inteligível, onde moram as idéias, a verdadeira realidade de que as coisas 4 deste mundo são apenas lembranças ou sombras. Temas como mulher, pátria, vida, Deus e o próprio “eu” compuseram a obra desse poeta – nunca o particular, sempre o universal. Como resultado dessa sondagem da alma humana surgem textos que são quase que uma autobiografia, não restrita a datas, mas aos sentimentos mais recônditos do ser. Assim, à proporção que avança em sua peregrinação interior, “o poeta vai desintegrando o próprio “eu” a fim de erguer o retrato do “Eu”, ou do “Nós”, isto é, composto da soma de todos os eu-individuais alheios que lhe ficaram impressos na inteligência e na 4 MOISÉS, Massud. A literatura portuguesa. São Paulo: Cultrix, 1977, p. 68 16 sensibilidade”.5 Camões marcou a literatura de seu país, abrindo caminho para a construção da história de Portugal a partir da visão de seus grandes escritores. Séculos mais tardes, os ventos modernistas – efetivamente instaurado em 1915, com a publicação do primeiro número da revista Orpheu – fazem surgir em Portugal outro grande poeta – Fernando Antônio Nogueira Pessoa. O país foi palco de um movimento que pretendia, através da poesia, dar forma a um conjunto de impulsos interiores, vagas aspirações, reminiscências e estados da alma, até então inexpressos. A revista Orpheu – só saíram dois números, mas mesmo assim revolucionou o meio literário da época e influenciou toda a poesia portuguesa – tinha um programa que se traduzia na necessidade de renovação do fundo e da forma da poesia – almejava criar uma poesia viva. A renovação que se buscava era principalmente um ato de revolta contra a estagnação da vida intelectual da época. A oposição a uma literatura acadêmica e a necessidade de criar novas formas constituíram a base dos intelectuais de Orpheu. A revista revelou muitos nomes, o mais significativo, sem dúvida, é Fernando Pessoa, quer pela multiplicidade de sua obra, quer pelo significado e projeção da mesma. Fernando Pessoa é o caso mais extraordinário das letras portuguesa. Tem o poder de exteriorizar a língua em que se exprimiu, tornando-a um instrumento musical sensível ao mais abstrato toque, não se limitou a viver a sua personalidade: desdobrou-se em outras diferentes, mas igualmente 6 poderosas, realizando assim a obra de quatro poetas igualmente geniais. É com Pessoa, e todos seus heterônimos, que as Letras Portuguesas no século XX reavivam problemáticas de sentidos diversos e questionantes: Alberto Caeiro, o naturalista da percepção aparentemente ingênua dos objetos, Ricardo Reis, clássico e estóico, Álvaro de Campos, espetacular e futurista, dentre vários outros. Além deles, Fernando Pessoa, ele-mesmo, é, só por si, um grande poeta do simbolismo e do modernismo, pela temática da evanescência, indefinição e insatisfação das coisas e dos seres, e pela inovação praticada por entre diversas sendas de formulação do discurso poético (sensacionismo, paúlismo, interseccionismo, etc.). Assim, serão estes os poetas abordados, dentre a vasta criação heteronímica, uma vez que se encontram em consonância com os objetivos 5 MOISÉS, Massud. 1977, p. 69 TÂNGER, Manuel. et al. Situação atual da literatura portuguesa – situação atual da poesia portuguesa. Coimbra: Livraria Almedina, 1972, p. 51 6 17 de Fernando Pessoa, em Ficções do Interlúdio, aparecendo sob o signo de sensações. Com Fernando Pessoa, a quem se deve também o enigmático volume de poemas a Mensagem, que transcende em muito a simples glorificação do passado mítico português (e sem falar da sua produção teatral, ou dos poemas ingleses), a literatura portuguesa encontra a equacionação lírica de questões fundamentais da existência humana, de timbre filosófico ou de avulsa emergência quotidiana, numa escrita fundadora dos pilares em que verdadeiramente se afirma a modernidade. A literatura portuguesa ganha novos matizes com a obra criada por Pessoa, uma vez que se fixa como clássico contemporâneo, torna-se o eixo da cena crítica cultural, sendo traduzida e estudada em muitos países. Sinônimo de modernismo, o poeta luso deve ser entendido como “aquele que decididamente buscou a compreensão do sujeito – do eu profundo da poesia”.7 Nascido em Lisboa, aos cinco anos perde o pai e algum tempo depois mudase para a África do Sul com a mãe e o padrasto. Lá permanece por algum tempo, voltando a Portugal em 1901 para passar as férias. Foi nessa época, aos 14 anos, que se tem notícia de seu primeiro poema. (...) Quando eu me sento à janela, P´los vidros que a neve embaça Julgo ver a imagem dela 8 Que já não passa... não passa Dois anos mais tarde, o jovem ingressa na Universidade do Cabo, cursando apenas um ano. Esse período faz aflorar algumas das personalidades poéticas que acompanharão Pessoa durante sua vida. De alguma forma, “começava a se delinear aquilo que faria de Fernando Pessoa um poeta como nenhum outro no mundo: um poeta que, sendo um, era muitos poetas”.9 A vida de Pessoa segue com alguns percalços – perdas e mudanças são uma constante –, é em 1912 que conhece Mário de Sá Carneiro, amigo importante que marcará sua carreira. A estréia na literatura se dá com artigos publicados na 7 GONÇALVES, Robson Pereira. Da pulsão ao ato poético e desassossego na empresa Pessoa Anotações de Aula feitas pelo professor. p. 67 8 PESSOA, Fernando. Obra Poética. Volume único. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, p. 103 9 TUTIKIAN, Jane in PESSOA, Fernando. Mensagem: obra poética I. Organização, introdução e notas Jane Tutikian. Vol. 487. Porto Alegre: L&PM, 2006, p. 11 18 revista Águia, cujo editor é o também poeta Teixeira de Pascoais. Seus artigos provocam polêmica junto à intelectualidade portuguesa. Neles Pessoa anuncia para Portugal a chegada de um poeta maior do que Luís de Camões – um supraCamões. Tais palavras mexem com o povo em geral e com a crítica. No ano seguinte, o poeta produz textos importantes, como Epithalamium (poema erótico em Inglês), Gládio (que usará na Mensagem) e a peça de teatro O Marinheiro. Ainda no mesmo ano, publica na revista Águia um texto chamado Floresta do Alheamento, que mais tarde comporá o Livro do Desassossego. Mas nada foi igual a 8 de março de 1914, como o próprio autor define: um dia triunfal. Nesta data surgiram os heterônimos mais famosos: Caeiro é dito o primeiro e o mestre dos outros. O próprio Pessoa conta como se deu o surgimento de suas personalidades poéticas (dada a riqueza e importância desse ato, optou-se por manter o texto do escritor). (...) Foi em 8 de Março de 1914 - acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera 10 em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. Ao surgimento de Caeiro, seguiu-se o nascimento de seus discípulos Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir - instintiva e subconscientemente - uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos - a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.11 Cada um dos heterônimos é descrito física e psicologicamente: assim, enquanto Caeiro é um rapaz loiro, olhos azuis, ariano, com um olhar inocente e meio bucólico; Campos é engenheiro naval e vanguardista, magro e com tendência a 10 PESSOA, Fernando. Obras em prosa. Volume único. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974, p. 96 11 PESSOA, Fernando. 1974, p. 96 19 curvar-se, tez entre branca e morena, cabelo liso, repartido ao meio, cara raspada e monóculo. Reis, por sua vez, é médico, de um vago moreno mate e viveu por um tempo no Brasil. Embora sendo criações suas, Caeiro, Campos e Reis são poetas diferentes de Fernando Pessoa, já que “cada um tem uma maneira diferente de estar no mundo e transformar este estar em verso”.12 O ano de 1915 não foi menos importante: surge a revista Orpheu, que revoluciona a criação literária portuguesa. Fundada por Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e Luís de Montalvor, torna-se o marco inicial do Modernismo em Portugal. As produções deixadas por Pessoa mostram que ele conseguiu superar e enriquecer a velha herança legada pelos poetas portugueses. E a tal ponto procedeu na superação e no enriquecimento das matrizes poéticas que alcançou realizar um feito semelhante ao de Camões: enquanto este começou um ciclo poético que acabou recebendo o epíteto de camoniano, em Fernando Pessoa principia o ciclo Pessoa, evidente nas novidades que vem revelando seja de conteúdo, seja de forma poética.13 Da mesma maneira que o ciclo camoniano se caracterizou por uma série de termos próprios e expressivos, assim o ciclo pessoano corresponde ao encontro de novos horizontes poéticos. Pessoa não só assimilou o passado lírico de seu povo como refletiu em si as inquietações humanas. Sua poesia é uma busca pela ordenação e reconstrução do mundo.14 Por isso, anseia atingir, pela análise ordenadora da caótica relatividade em que vive, o plano dum qualquer absoluto, isto é, de qualquer verdade capaz de resistir à sua impressão de desintegração total, ou de superar a 15 inconstância relativa de tudo. Pessoa almeja, num esforço contínuo, conhecer o Universo, como um absoluto possível e para além da contingência individual. 12 TUTIKIAN, Jane. 2006, p. 16 MOISÉS, Massud. 1977, p. 296-297 14 MOISÉS, Massud. 1977, p. 298 15 MOISÉS, Massud. 1977, p. 298 13 20 Em suma, era preciso ser todos que existiram, existem e existirão, aprender a sentir como eles, ser um eu-cidade, um eu-Humanidade, “uma série de contas-entes ligadas por um fio memória”, ou, como afirma pela voz de Álvaro de Campos: “Multipliquei-me, para me sentir, / Para me sentir, 16 precisei sentir tudo, / Transbordei-me, não fiz senão extravasar-me”. O projeto dos heterônimos – marca da poética de Pessoa – pode ser tomado como a “mais elevada forma de dramatização na literatura ocidental.”17 A dramatização vai ocorrer no centro da abstração, no campo da criação, vindo, assim, a pluralizar as ficções e dialogar com um mundo paralelo. É fundamental entender que os traços de humanidade do projeto Pessoa são divididos entre os autores vários cuja obra é executada pelo poeta. Trata-se da mais eloqüente aposta num projeto literário: o grau elevado de despersonalização remete a uma dramatização a partir do poema, da produção literária (...). A dramatização é originária, isto é, funda ficções, 18 diálogos, obra. É em meio à abstração que a heteronímia ganha vida. Para Pessoa, os heterônimos são a totalidade fragmentada. O que se encontra na obra do poeta luso é uma tragédia, “aquela da ausência do eu, e da impossibilidade de sair de si.”19 Produto de um mundo em crise, os heterônimos registraram a impossibilidade de sustentação de uma visão absoluta da realidade, assim como a habilidade de um artista que transforma a poesia em reflexo do que vê e sente. A chave para adentrar a este mundo nos é dada por Bréchon quando afirma que: No início, então, há Fernando Pessoa ‘ele-mesmo’: uma consciência poética dolorosa, nostálgica, sonhadora, pudica, atormentada por uma inquietação inexplicável, que se manifesta pelo sentimento de uma total irrealidade do mundo e de si mesmo. Seu drama é que não há drama. Nada 20 se passa. O que acontece é que a produção de Fernand Pessoa é resultado de um fingir, de um enredar-se em máscaras, de uma encenação. No entanto, o poeta que 16 MOISÉS, Massud. 1977, p. 299 GONÇALVES, Robson Pereira. Anotações de Aula. p. 76 18 GONÇALVES, Robson Pereira. Anotações de Aula. p. 76 19 BRÉCHON, Robert. Fernando Pessoa: o anjo exterminador. Anotações de Aula feitas pelo professor Dr. Robson Pereira Gonçalves. p. 3 20 BRÉCHON, Robert. Anotações de Aula. p. 3 17 21 finge é também o poeta que tem plena consciência de seus projetos e da construção de sua poesia, é alguém que soube construir como ficção a sua verdade. A pluralidade e multiplicidade do ‘eu’ foi declarada por Álvaro de Campos, em seu manifesto Ultimatum (1917), quando dizia que: "Só tem o direito ou o dever de exprimir o que sente, em arte, o indivíduo que sente por vários".21 A fragmentação age de maneira curiosa e genial: ele divide-se para conquistar o envolvimento total com o todo. Pode-se comprovar essa busca pelo envolvimento total com o que afirma Fernando Pessoa: Devemos pois operar a alma, de modo a abri-la à consciência da sua interpretação com as almas alheias, obtendo assim uma aproximação 22 concretizada do Homem-Completo, Homem-Síntese da Humanidade. Através do desdobramento do eu, cria textos que dialogam entre si e no interior das mentes dos leitores, produzindo assim a “progressão geométrica” da sensibilidade. Na obra Fernando Pessoa Obras em Prosa o autor inicia o capítulo Os Outros Eus com um texto em que fala de sua consciência plural. NÃO SEl QUEM SOU, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros). Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenha. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço. 23 Sê plural como o universo! Quem é Fernando Pessoa? É a soma de todos seus heterônimos, da ficção em seu grau mais profundo. Para Lélia Parreira Duarte, 21 PESSOA, Fernando apud TELLES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Moderna e Modernismo Brasileiro. Petrópolis/RJ, Editora Vozes, 1982, p. 256 22 PESSOA, Fernando apud TELLES, Gilberto Mendonça. 1982, p. 259 23 PESSOA, Fernando. Obras em prosa. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974, p. 81 22 como ficção, cada um dos seus ‘eus’ pode fingir ou dar-se uma consistência ontológica, uma coerência, um sentido, que o sujeito poético corresponde ao eu real que não pode provar, porque ele mesmo Pessoa é 24 ficção, assim como cada um de seus ‘eus’. A estudiosa entende que “para as ficções heteronímicas haverá um mundo, e esse mundo as torna reais. Mas essa aparente autonomia não é senão figura de um único sujeito, o do eu-ficção”.25 Em carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de janeiro de 1935, Fernando Pessoa caracteriza os seus heterônimos como só ele poderia fazer e diz de sua experiência em escrever em nome desses ‘outros’. Como escrevo em nome desses três?… Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular o que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas cousas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis - ainda inédita - ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso).26 Os heterônimos foram uma das marcas da obra pessoana; para eles o poeta deu vida, desejos, uma personalidade. No seu texto em prosa descreve cada um a partir do ponto de vista dos outros heterônimos e vai criando um mundo próprio, enlevado de ficção, mas não menos real. 24 DUARTE, Lélia Parreira. Ironia e humor na literatura. Belo Horizonte: Edit. PUC Minas, Alameda, 2006, p. 239 25 DUARTE, Lélia Parreira. 2006, p. 239 26 PESSOA, Fernando. 1974, p. 98 23 1.1 Alberto Caeiro Alberto Caeiro da Silva, o mestre, em torno do qual se determinam os outros heterônimos, nasceu em abril de 1889 em Lisboa, mas viveu grande parte da sua vida numa quinta no Ribatejo, onde viria a conhecer Álvaro de Campos. A sua educação cingiu-se à instrução primária, o que combina com a simplicidade e naturalidade de que ele próprio se reclama. Louro, de olhos azuis, estatura média, um pouco mais baixo que Ricardo Reis, é dotado de uma aparência muito diferente dos outros dois heterônimos. É também frágil, embora não o aparente muito, e morreu precocemente (tuberculoso), em 1915. O mestre é aquele de cuja biografia menos se ocupou Fernando Pessoa. A sua vida foi os seus poemas, como disse Ricardo Reis: “A vida de Caeiro não pode narrar-se pois que não há nela mais de que narrar. Seus poemas são o que houve nele de vida. Em tudo o mais não houve incidentes, nem há história”.27 Aparece a Fernando Pessoa, em 1914, de forma aparentemente não planejada, numa altura em que o poeta se debatia com a necessidade de ultrapassar o paúlismo, o subjetivismo e o misticismo. É nesse momento conflituoso que aparece, de rompante, uma voz que parece rir desses misticismos, que reage contra o ocultismo, nega o transcendental, defendendo a sinceridade da produção poética, um ser manifestamente apologista da simplicidade, da serenidade e nitidez das coisas, um ser dotado de uma natureza positivo-materialista e que rejeita doutrinas e filosofias. É o mestre, como é chamado, que escreve, de uma única vez, O Guardador de Rebanhos. Alberto Caeiro é também quem dá voz ao paganismo. Segundo Fernando Pessoa, “a obra de Caeiro representa uma reconstrução integral do paganismo, na 27 PESSOA, Fernando. 1974, p. 115 24 sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer”.28 Apresenta-se como o poeta das sensações; a sua poesia sensacionista assenta na substituição do pensamento pela sensação. Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos 29 E os meus pensamentos são todos sensações. Alberto Caeiro é o poeta da natureza, o poeta de atitude antimística. Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o. Sou místico, mas só com o corpo. A minha alma é simples e não pensa. O meu misticismo é não querer saber. 30 É viver e não pensar nisso. É o poeta do objetivismo absoluto. Ricardo Reis afirma que “Caeiro, no seu objetivismo total, ou, antes, na sua tendência constante para um objectivismo total, é frequentemente mais grego que os próprios gregos.”31 Fernando Pessoa deixou um texto em que explicita o valor de Caeiro e a mensagem que este poeta deixou, o que pode servir de base para a compreensão da sua obra. A um mundo mergulhado em diversos gêneros de subjetivismo vem trazer o Objectivismo Absoluto, mais absoluto do que os objectivistas pagãos jamais tiveram. A um mundo ultracivilizado vem restituir a Natureza Absoluta. A um mundo afundado em humanitarismos, em problemas de operários, em sociedades éticas, em movimentos sociais, traz um desprezo absoluto pelo destino e pela vida do homem, o que, se pode considerar-se excessivo, é 32 afinal natural para ele e um correctivo magnífico. Caeiro foi a ruptura com o pós-simbolismo português e a antítese da poesia metafísica e religiosa que vinha produzindo. Foi mais poeta que pensador, embrenhado no seu especial sensualismo, que é, precisamente, e não os seus raciocínios, o que o leva a escrever seus versos admiráveis e inovadores poemas, que o faz mestre das outras personagens. 28 PESSOA, Fernando. 1974, p. 115 PESSOA, Fernando. 2007, poema IX, p. 203 30 PESSOA, Fernando. 2007, poema XXX, p. 220 31 PESSOA. Fernando. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Lisboa: Ática, 1966, p. 365 32 PESSOA. Fernando. 1966, p. 375 29 25 1.2 Álvaro de Campos Nascido em Tavira, em 15 de outubro de 1890 (às 13h30min), Álvaro de Campos estudou no liceu e formou-se engenheiro naval. Em férias, tendo viajado ao Oriente, escreveu Opiário. Alto, magro, cabelos lisos, cara rapada, ao estilo judeuportuguês. Álvaro de Campos surge quando Fernando Pessoa sente um impulso para escrever. O próprio Pessoa considera que Campos se encontra no extremo oposto a Ricardo Reis, apesar de ser como este um discípulo de Caeiro. Campos é o filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte. O eu do poeta tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir. Este heterônimo aprende de Caeiro a urgência de sentir, mas não lhe basta a sensação das coisas como são: procura a totalização das sensações e das percepções conforme as sente, ou como ele próprio afirma: “sentir tudo de todas as maneiras”. Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é configurado biograficamente por Pessoa como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este seu perfil particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso. Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente sentir de tudo, de todas as maneiras, seja a força explosiva dos mecanismos, seja a velocidade, seja o próprio desejo de partir. Poeta da modernidade, Campos tanto celebra a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino, adaptando sempre o ponto de vista do homem da cidade. Em sua obra podem ser identificadas três fases. Num primeiro momento, em o Opiário, há o poeta decadente, que exprime o tédio, enfado, cansaço e abatimento, que reclama de novas sensações. Em busca destas, Campos traduz a falta de um 26 sentido para a vida e a necessidade de fugir à monotonia. Superado este momento, o poeta ingressa em uma fase futurista/sensacionista, em que celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna. Sente-se nos poemas uma atração pelas máquinas, símbolo da vida moderna. Campos apresenta a beleza dos maquinismos em fúria e da força da máquina por oposição à beleza tradicionalmente concebida. Seus poemas Ode Triunfal ou Ode Marítima são bem o exemplo desta intensidade e totalização das sensações. Em um terceiro momento de sua obra, Campos apresenta-se cansado, desiludido, numa mistura de revolta, dispersão, angústia e desânimo. O poeta sentese incapaz e incompreendido, mergulhando em um momento de frustração total: incapacidade de unificar em si pensamento e sentimento; mundo exterior e interior. Há uma dissolução do “eu”, uma dor de pensar e uma nostalgia da infância irremediavelmente perdida - “Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!” (Aniversário).33 Perante a incapacidade das realizações, traz de volta o abatimento, que provoca “Um supremíssimo cansaço, / Íssimo, íssimo, íssimo, / Cansaço...”.34 O drama de Álvaro de Campos concretiza-se num apelo dilacerante entre o amor do mundo e da humanidade; é uma espécie de frustração total feita de incapacidade de unificar em si pensamento e sentimento, mundo exterior e mundo interior. Revela, como Pessoa, a mesma inadaptação à existência e a mesma demissão da personalidade íntegra, o cepticismo, a dor de pensar e a nostalgia da infância. 1.3 Ricardo Reis Dentre todas as faces de Fernando Pessoa, aquela que mais interessa é a que compõe Ricardo Reis, uma vez que o romance O ano da morte de Ricardo Reis, 33 34 PESSOA, Fernando. 2007, poema 473, p. 379 PESSOA, Fernando. 2007, poema 496, p. 393 27 como o próprio nome remete, traz o heterônimo como uma das personagens principais. Ricardo Reis nasceu – “dentro da minha alma” – no dia 29 de janeiro de 1914, “pelas 11 horas da noite”. Médico de profissão, monárquico, fato que o levou a viver emigrado alguns anos no Brasil, educado num colégio de jesuítas, recebeu, pois, uma formação clássica e latinista e foi imbuído de princípios conservadores, elementos que são transportados para a sua concepção poética. Domina a forma dos poetas latinos e proclama a disciplina na construção do texto. Ricardo Reis é marcado por uma profunda simplicidade da concepção da vida, por uma intensa serenidade na aceitação da relatividade de todas as coisas. É o heterônimo que mais se aproxima do criador, quer no aspecto físico – é moreno, de estatura média, anda meio curvado, é magro e tem aparência de judeu –, quer na maneira de ser e no pensamento. É adepto do sensacionismo, que herda do mestre Caeiro, mas ao aproximá-lo do neoclassicismo manifesta-o, pois, num plano distinto como refere Fernando Pessoa: Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Ricardo Reis tem outra disciplina diferente: as coisas devem ser sentidas, não só como são, mas também de modo a integrarem-se num certo ideal 35 de medida e regras clássicas. Associa-se ainda ao paganismo de Caeiro e suas concepções de mundo vai procurá-las no estoicismo e no epicurismo. A sua forma de expressão vai buscá-la nos poetas latinos, de acordo com a sua formação, e afirma, por exemplo, que “deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Horácio”36. Reis é um escritor clássico, da serenidade epicurista, que aceita, com calma e lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas. Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio, Prefiro rosas, meu amor, à pátria ou Segue o teu destino são poemas que mostram que esse discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses enquanto disciplinadora das emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade relativa alcançada pela indiferença à perturbação. 35 36 PESSOA. Fernando. 1974, p. 350 PESSOA. Fernando. 1974, p.393 28 A filosofia de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer do momento como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranqüilidade. Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do epicurismo e uma filosofia estóica: Carpe diem, aproveitar o dia, a vida em cada instante, como caminho da felicidade; buscar a felicidade com tranqüilidade (ataraxia); não ceder aos impulsos dos instintos (estoicismo). Reis, que adquiriu a lição do paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase divinas que habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina; considera a brevidade, a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é efêmero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante do poder e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria da vida é viver de forma equilibrada e serena, sem desassossegos grandes. Não desejou mais que viver conforme a natureza, liberto de paixões, indiferente às circunstancias e aceitando voluntariamente um destino involuntário. A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e da estética epicuristas e estóicas ou à tranqüila resignação ao destino, são marcas do texto erudito de Reis. Poeta clássico da serenidade, privilegia a ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica, favorecem o ritmo das suas idéias lúcidas e disciplinadas. Constrói um texto carregado de um sentimento de fugacidade da vida, ao mesmo tempo em que há uma serenidade na aceitação da relatividade das coisas e da miséria da vida: esta é tomada como algo efêmero e o futuro imprevisível. O que Reis procura é viver com o mínimo de sofrimento. Sendo epicurista, defende o prazer com moderação e afastado da dor. A apatia, ou seja, a indiferença, apresenta-se como seu ideal ético, já que há necessidade de viver com calma e tranqüilidade. Procura alcançar a quietude e a perfeição dos deuses, desenhando um novo mundo à sua medida, que se encontra por detrás das aparências. Fernando Pessoa é o poeta dos heterônimos; o poeta que se desmultiplica ou despersonaliza na figura de inúmeros heterônimos e semi-heterônimos, dando forma por esta via à amplitude e à complexidade dos seus pensamentos, conhecimentos e percepções da vida e do mundo; ao dar vida às múltiplas vozes 29 que comporta dentro de si, o poeta pode expressar as diferentes formas do universo, das coisas e do homem. Os heterônimos podem ser vistos como a expressão de diferentes facetas da personalidade de Fernando Pessoa e como a manifestação de uma profunda imaginação, criatividade e ficção que desde cedo se revela no poeta. Às personalidades mais conhecidas – Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis – Fernando Pessoa desenhou uma cuidadosa biografia, um horóscopo, um retrato físico completo, traçou as suas características morais, intelectuais, ideológicas. Três imagens diferentes, cada qual com uma atividade literária distinta, personagens que se conhecem e interagem, três facetas de um mesmo homem que da dispersão parece ter feito condição de encontro consigo próprio. 30 2. Literatura e Psicanálise 2.1 Sobre Literatura Para se falar das subjetividades, os olhares estarão voltados para questões ligadas à literatura e à psicanálise – campo teórico que auxiliará na compreensão da obra O ano da morte de Ricardo Reis. É importante lembrar que as relações entre estes dois campos de estudo não devem ser tomadas como uma psicanálise da obra ou como um psicanalizar do autor, nem tampouco como uma psicanalização dos efeitos de recepção da obra de arte. O que se pretende é partir de estudos realizados por Sigmund Freud e Jacques Lacan, que indicam para um conceito de ato poético, o qual será a base de leitura para o entendimento do romance de José Saramago. Nessa medida, discutir-se-á alguns aspectos literários – como o entendimento do termo Literatura –, questões estéticas relacionadas a mímesis e verossimilhança, às concepções dos formalistas russos sobre a arte literária e à visão dos gregos sobre a produção escrita. Após, os olhares voltar-se-ão ao campo da psicanálise: as teorias de Freud e Lacan serão observadas de um modo geral e sucinto, destacando os pontos relevantes para a análise do romance, tais como a questão do sujeito, dos afetos e do estranhamento. A teoria psicanalítica, antes de tudo, propõe a noção de ato poético que é aquele nó, próprio da arte/literatura que sobrevém das noções de saber e conhecimento. É pelo ato poético que se pode perceber a dimensão do sujeito (nível mais profundo do inconsciente), dos afetos que respondem pelas ligações e atos das personagens numa obra literária e, por principal, dos estranhamentos que são identificadores na linguagem literária de tudo aquilo de saber e conhecimento que 31 nos traz uma boa obra literária. Pelo e a partir do ato poético é que se poderiam conjugar as noções de estético, de belo e beleza e, nessa esteira, de sublimação. A princípio, o destaque fica por conta da expressão Literatura, uma vez que o termo leva a muitas acepções. Para alguns, a literatura é uma obra imaginária, utópica; para outros, o que o artista escreve são reflexos de suas experiências afetivas; há ainda os que entendem que a obra literária é um relato da realidade social, como guerras, descobrimentos, documentos históricos, etc. Talvez seria mais elucidativo caracterizar a literatura como a arte de compor escritos artísticos; o exercício da eloquência e da poesia; como o conjunto de produções literárias de um país ou de uma época. A compreenção do termo está comumente associada à idéia de estética, ou melhor, da ocorrência de algum procedimento estético. Um texto é literário, portanto, quando consegue produzir um efeito estético, ou seja, quando proporciona uma sensação de prazer e emoção no receptor. A própria natureza do caráter estético, contudo, reconduz à dificuldade de elaborar alguma definição verdadeiramente estável para o texto literário. Para simplificar, pode-se usar como exemplo uma comparação entre um texto científico e um texto artístico: o texto científico emprega as palavras sem preocupação com a beleza, o efeito emocional, mas, pelo contrário, essa será a preocupação maior do artista. Não se deve esquecer que também o escritor busca instruir, procura perpassar ao leitor uma determinada idéia; só que, diferentemente do texto científico, o texto literário une essa necessidade de instruir à necessidade estética que toda obra de arte exige. O texto literário é aquele que pretende emocionar e que, para isso, emprega a língua com liberdade e beleza, utilizando-se do sentido conotativo ou metafórico das palavras. Cada tipo de arte faz uso de certos materiais. A pintura, por exemplo, trabalha com tinta, cores e formas; a música utiliza os sons; a dança os movimentos; a arquitetura e a escultura fazem uso de formas e volumes. E a literatura? De uma forma simples, pode-se dizer que a literatura é a arte da palavra. É possível afirmar, ainda, segundo o poeta norte-americano Ezra Pound, que a literatura é a linguagem carregada de significado, uma vez que a "grande Literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível". 32 Para o estudioso Proença Filho,37 a literatura deve ser tomada como ânsia de evasão, ânsia de imortalidade, atividade lúdica e compromisso com o inerente ao indivíduo e sua vivência. A literatura é a arte da palavra. Um romance é feito de palavras, logo é literatura. O artista transforma sua arte da palavra em texto utilizando-se da língua. Assim, a expressão literária é arte, ato de criação que por meio da palavra cria um universo diferente, de estranhamento. Em Teoria da Literatura: uma introdução, Terry Eagleton levanta a questão e lembra que ao longo dos anos as tentativas para definir literatura foram incessantes. O autor faz uma volta à Inglaterra e à França no século XVII, em que ensaios, sermões, autobiografias eram consideradas como obra literária. Eagleton estabelece um questionamento entre ficção ou fato na escrita, uma vez que não existe uma definição para ambos, mas logo conclui que tal distinção – entre fato e ficção – não parece ser útil na busca por um conceito à literatura. Para o autor, a resposta viria em uma abordagem diferente: “talvez a literatura seja definível não pelo fato de ser ficcional ou ”imaginativa“, mas porque emprega a linguagem de forma peculiar”.38 As mudanças no campo literário iniciaram na década de 1920 com os formalistas russos aplicando os conhecimentos da lingüística em suas pesquisas. Observaram que o importante não é o fato ou a ficção e sim a estrutura da língua aplicada no texto literário. Passou-se a perceber que a literatura transforma e intensifica a linguagem comum e, ao mesmo tempo, distanciando-se da fala cotidiana. Como bem definiram os lingüistas, na literatura há uma desconformidade entre os significantes e significados. Assim, a literatura caracteriza-se por utilizar a linguagem de maneira a atrair a atenção. Os formalistas russos destacaram-se por rejeitar as doutrinas simbolistas quase místicas que haviam influenciado a crítica literária até então e, imbuídos de um espírito prático e científico, transferiram a atenção para a realidade material do texto literário. Eagleton lembra que: à crítica caberia dissociar arte e mistério e preocupar-se com a maneira pela qual os textos literários funcionavam na prática: a literatura não era uma pseudo-religião, ou psicologia, ou sociologia, mas uma organização 39 particular da linguagem. 37 PROENÇA FILHO, Dominício. Estilos de época na literatura. Rio de Janeiro: Liceu, 1969, p. 3338 38 EAGLETON, Terry. 2003, p. 2 39 EAGLETON, Terry. 2003, p. 3 33 Essa organização chamava atenção para o uso de artifícios como o som, imagens, ritmo, sintaxe, métrica e técnica narrativa, o que faziam da literatura uma obra peculiar e o que esses elementos tinham em comum era o seu efeito de estranhamento ou desfamiliarização. “A especificidade da linguagem literária, aquilo que a distinguia de outras formas de discurso, era o fato de ela deformar a linguagem comum de várias maneiras”.40 Esse estranhamento fugia da linguagem cotidiana, transformando-a violentamente em uma linguagem mais trabalhada, intensificada, cheia de formas, reduzida, ampliada, invertida. Como disse Roman Jakobson, a literatura é uma "violência organizada contra a fala comum", ou seja, a literatura era considerada uma nova forma de linguagem, a qual mantinha um contraste com a usada no dia-a-dia. Dessa maneira os desvios na linguagem passaram a ter grande importância na língua literária e os textos cheios de formas considerados literatura. Todorov, em sua obra As estruturas narrativas,41 argumenta que a literatura é um sistema de signos, um código, análogo aos outros sistemas significativos, tais como a língua articulada, as artes, as mitologias, as representações oníricas, etc. Para o estudioso, ela constrói-se com a ajuda de uma estrutura: a língua; que é, pois, “um sistema significativo em segundo grau, por outras palavras, um sistema conotativo”.42 O autor compreende que todos os elementos presentes em uma obra carregam uma significação que pode ser entendida à luz do código literário. Para Chklóvski, “a obra é inteiramente construída. Toda sua matéria é organizada”.43 Assim, a organização é intrínseca ao sistema literário. Eichenbaum escreve que “nenhuma frase da obra literária pode ser, em si, uma expressão direta dos sentimentos pessoais do autor, ela é sempre construção e jogo”.44 Este jogo que a escrita literária propicia não foi analisado apenas pelos formalistas, as origens estão na Grécia, com os primeiros filósofos. O interesse pela literatura surgiu com Platão, que compreendia a arte como cópia da realidade. Coube a Aristóteles introduzir aos estudos ligados à literatura o conceito de mímesis (imitação). Na teoria aristotélica da arte poética o conceito de 40 EAGLETON, Terry. 2003, p. 5 TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. São Paulo: Editora perspectiva, 1970, p. 31 42 TODOROV, Tzvetan. 1970, p. 32 43 CHKLÓVSKI apud TODOROV, Tzvetan. 1970, p. 32 44 EICHENBAUM apud TODOROV, Tzvetan. 1970, p. 32 41 34 mímesis é fundamental. Para o autor, o ato de “imitar é congênito no homem”. Ao longo da descrição de sua concepção das artes poéticas, Aristóteles observa duas grandes divisões nos modos de imitar, sobre as quais todas as outras espécies de imitar se reúnem: o modo de imitar por meio da narrativa e o modo de imitar por meio de atores. Dessa maneira, fica reservado ao poeta a narrativa dos acontecimentos, mediante as personagens ou a narração dos acontecimentos, sendo ele próprio a personagem a representar a ação. Assim, mimesis é a imitação da ação. Atrelada à teoria da representação está o conceito de verossimilhança. Atributo necessário ao trabalho artístico, em literatura o termo designa a idéia de que aquilo que é narrado se assemelha à realidade. Isso não quer dizer que o autor só pode contar coisas que poderiam acontecer de fato, mas coisas que poderiam ocorrer de acordo com a verossimilhança. Como bem lembra D´Onófrio, “a obra de arte, por não ser relacionada diretamente com um referente do mundo exterior, não é verdadeira, mas possui a equivalência da verdade, a verossimilhança, que é a característica do poder ser, do poder acontecer”.45 Em um texto construído artisticamente, uma possibilidade pode parecer mais provável do que uma possibilidade improvável, lembra Aristóteles. Surge daí a primeira distinção entre a Arte – que tem a visão do impossível acontecer – e a História – que só tem a visão das coisas realmente acontecidas. O poeta, diferente do historiador, não objetiva escrever o que aconteceu, mas o que poderia acontecer. É imprenscindível que literatura é ficção, e, portanto, é: imaginação de algo que não existe particularizado na realidade, mas no espírito de seu criador. O objeto da criação poética não pode, portanto, ser submetido à verificação extratextual. A literatura cria o seu próprio universo, semanticamente autônomo em relação ao mundo em que vive o autor, com seus seres ficcionais, seu ambiente imaginário, seu código ideológico, sua própria verdade (...). Mesmo a literatura mais realista é fruto da imaginação, pois o caráter ficcional é uma prerrogativa indeclinável da obra literária. Se o fato narrado pudesse ser documentado, se houvesse perfeita correspondência entre os elementos do texto, teríamos então não arte, mas 46 história, crônica, biografia. Vê-se que a obra literária, devido ao uso especial da linguagem, cria um heterocosmo contextualmente fechado. Porém, essa realidade nova não deixa de ter 45 D´ONÓFRIO, Salvatore. Teoria do texto: prolegômenos e teoria narrativa. São Paulo: Ática, 1995, p. 120 46 D´ONÓFRIO, Salvatore. 1995, p. 120 35 uma ligação com o real. “Ninguém pode criar a partir do nada: as estruturas lingüísticas, sociais e ideológicas fornecem ao artista o material sobre o qual ele constrói o seu mundo de imaginação”.47 É claro que a teoria da arte como mimese da vida é válida, quer se compreenda a arte como imitação do mundo real, quer como imitação de um mundo ideal ou imaginário; mas se está, certamente, conscio de que não se trata do mundo ou da vida real. De um modo geral: a obra de arte literária é a organização significativa da experiência interna e externa, ampliada e enriquecida pela imaginação e por ela manipulada para sugerir as virtualidades desta experiência. A modalidade específica do discurso literário, emocional, imaginativo, ambíguo, irônico, paradoxal, alusivo, metafórico, etc, tende a fazer da obra uma estrutura de significados autônoma que diverge profundamente do discurso científico, referencial, 48 racional, cognoscitivo e puramente instrumetal. Cabe, então, à arte o papel de ampliar e enriquecer a visão de seus espectadores, tanto do mundo exterior, quanto do mundo interior. De suscitar a sensibilidade e a imaginação, despertando por meio da fruição estética o prazer. 2.2 Psicanálise e Subjetividade Desde os primeiros escritos freudianos houve uma relação estreita entre a psicanálise e a arte, sobretuto com a arte literária. Nas últimas décadas muitos psicanalistas e teóricos de literatura ampliaram as relações entre psicanálise e literatura, o que pode ser comprovado pelo aumento significativo de publicações associando estes dois saberes. Assim, será a psicanálise o segundo ponto de apoio teórico para fundamentar o trabalho em torno da interpretação da obra O ano da morte de 47 D´ONÓFRIO, Salvatore. 1995, p. 120 ROSENFELD, Anatol. Estrutura e problemas da obra literária. São Paulo: Perspectiva, 1976, Col. Elos, p. 53 48 36 Ricardo Reis. No campo psicanalítico, far-se-á um apanhado geral da obra de Sigmund Freud e dos estudos posteriores desenvolvidos por Jacques Lacan; a enfâse será em questões ligadas à constituição do sujeito, ao processo de estranhamento, simbólico, real e imaginário, à área dos afetos e à construção do Nome-do-Pai. Freud, mentor dos estudos psicanalíticos, sempre buscou inspiração nas artes, principalmente na literatura, no transcorrer de sua construção teórica. Ele atribuía aos poetas um saber que os outros mortais desconheciam, uma vez que, para ele, os poetas e literatos tinham a facilidade de expressar sentimentos, traduzir emoções de forma admirável, estética. Reconhecia neles uma capacidade peculiar de perceber e traduzir a alma humana. Freud sempre se mostrou propenso a discutir o processo criativo e destacou que grande parte das pessoas consegue direcionar boa parte das forças resultantes da pulsão sexual para a atividade profissional. Isso se deve ao fato de que a pulsão sexual é dotada de uma capacidade de sublimação, quer dizer, possui a “capacidade de substituir seu objetivo imediato por outros desprovidos de caráter sexual e que possam ser mais altamente valorizados”.49 Na busca de compreender a sublimação, o pesquisador vienense a associou ao ato de brincar da criança. No entanto, não deixou uma teorização sistematizada desse conceito. Ele destaca que a psicanálise elucida alguns problemas ligados às artes e aos artistas, enquanto outros lhe escapam por completo. Freud crê na arte como uma atividade voltada a apaziguar desejos não gratificados, primeiro do próprio artista, segundo dos seus espectadores. Acredita que as forças motivadoras dos artistas são as mesmas que, transformadas em conflitos, impulsionam outras pessoas à neurose. Lembra que toda e qualquer modalidade estética tem um caráter infantil, o que confere à arte uma proximidade com as formações sintomáticas. “O objetivo primário do artista é, através da comunicação de sua obra a outros, libertarse e consequentemente também libertar os outros de seus desejos recalcados,”50 na verdade, o artista representa seus desejos mais pessoais como realizados. No entanto, essas fantasias só se tornam obra de arte após uma transformação que 49 FREUD, Sigmund. Leonardo Da Vinci e uma lembrança de sua infância. (1910 [1909] ) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. V. IX, p. 72 50 MENDES, Elzilaine Domingues e PRÓCHNO, Caio César Souza Camargo. A ficção e a narrativa na literatura e na psicanálise. Pulsional – Revista de psicanálise. Ano XIX, nº 185, março/2006, p. 43-51 37 atenua o que nelas é ofensivo, obedecendo às leis da beleza e seduzindo outras pessoas com uma gratificação poderosa. Além disso, para Freud,51 o escritor, quando exerce sua função, cria um mundo de fantasia no qual investe muita emoção, como a criança quando brinca, porém o escritor mantém uma separação nítida entre suas fantasias e a realidade. Desse modo, pode-se pensar a psicanálise como uma área que ajuda a compreender a ficção e seus desdobramentos no campo da interpretação, auxiliando os estudos da Teoria da Literatura. Para Emilio Mira y Lopes,52 psicanalista e filósofo, os estudos desenvolvidos por Freud podem ser fragmentados em seis partes. Num primeiro instante, o pai da psicanálise direcionou os esforços à compreensão da catarse.53 Nessa fase, a psicanálise voltava-se para uma técnica em que através da verbalização das situações que motivavam problemas de histeria os pacientes se desafogassem, revivendo suas reações euforiantes. Freud deixou de lado a hipnose e passou a valer-se do interrogatório coativo. Mais tarde, abandonou esses métodos, concluindo que as fantasias auto-eróticas e os devaneios imaginativos podiam substituir reais traumas sexuais na patogenia real sintomática da histeria. O segundo momento, Freud dedica-se ao pan-sexualismo interpretativo, onde a neurose é tomada como o negativo da perversão – o neurótico não o é pelo simples fato de ter problemas libidinosos, mas por se negar a solucioná-los conforme seus impulsos. Poder-se-ia definir como a disputa entre o desejo e o dever. Com relação à teoria da libido, Freud afirma que a libido é uma energia capaz de deslocar-se de umas zonas corporais para outras. É também nesse período que surge um dos conceitos mais fundamentais da teoria freudiana – o inconsciente. Em seu trabalho, Freud demonstrou que o conteúdo da mente não se reduz ao consciente, mas que, pelo contrário, a maior parte da vida psíquica se desenrola em nível inconsciente. Ali se encontram principalmente idéias (representações de impulsos) reprimidas, às quais é negado o acesso à consciência, mas que têm grande influência na vida consciente. Estas idéias reprimidas aparecem de forma disfarçada nos sonhos e nos sintomas neuróticos principalmente e é através do seu 51 FREUD, Sigmund. 1910, p. 73 LOPES, Emilio Mira y. Avaliação crítica das doutrinas psicanalíticas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1964 53 Palavra grega utilizada por Aristóteles e retomada por Sigmund Freud e Josef Breuer, que nos Estudos sobre histeria chamam de método catártico o procedimento terapêutico pelo qual um sujeito consegue eliminar seus afetos patogênicos e então ab-reagi-los, revivendo os acontecimentos traumáticos a que eles estão ligados. Cf. ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 107 52 38 conhecimento que se pode, geralmente, chegar até o conflito neurótico durante um processo terapêutico. Na terceira fase surgem os estudos sobre a interpretação dos sonhos, fundamentais e responsáveis por uma grande gama de conhecimento, em que foi utilizada a técnica de livre associação. O interesse pela área iniciou em Freud com a análise de seus próprios sonhos. A teoria dos sonhos como realização de um desejo inconsciente foi estendida à elaboração das fantasias e ao aparecimento dos sintomas. Há uma distinção entre conteúdo manifesto (relatado quando o sonhador está acordado) e o conteúdo latente (que é revelado através da análise).54 Os sonhos são sempre carregados de um caráter simbólico. Num quarto instante, Freud dedica-se à concepção tripartida do aparelho psíquico, quando designa os modelos para explicar a organização e o funcionamento da mente. Para isso ele propôs algumas hipóteses, como a hipótese econômica – que concerne essencialmente à quantidade e ao movimento da energia na atividade psíquica –; e a hipótese topográfica – que tenta localizar a atividade mental em alguma parte do aparelho, que ele divide em consciente, pré-consciente e inconsciente. Há, ainda, a hipótese estrutural – na qual a mente possui três instâncias funcionais: Id, Ego e Superego, atribuindo a cada uma delas uma função específica. Buscando compreender um pouco a hipótese estrutural, tem-se que o Id opera em nível inconsciente e contém os impulsos instintivos que se originam na organização somática, ganhando expressão psíquica e também idéias e recordações que por serem insuportáveis ao indivíduo foram reprimidas. É considerado como um reservatório de energia, com a qual alimenta também as outras instâncias. É regido pelo princípio do prazer, que busca sempre a satisfação, ignorando as diferenças e contradições e sem a capacidade de considerar espaço e tempo. Já o Ego é a parte organizada desse sistema que entra em contato direto com a realidade externa e através de suas funções tem capacidade de atuar sobre 54 O conteúdo manifesto é uma deformação do conteúdo latente, o que equivale a dizer que o conteúdo latente dissimula-se por trás do conteúdo manifesto. Essa deformação é a marca de uma defesa contra o desejo veiculado pelo sonho (...) Efetua-se no sonho uma censura inconsciente e uma noção de desejo: quanto mais severa é a censura, mais completo é o disfarce. O conteúdo manifesto é uma deformação do conteúdo latente, o que equivale a dizer que o conteúdo latente dissimula-se por trás do conteúdo manifesto. Essa deformação é a marca de uma defesa contra o desejo veiculado pelo sonho (...) Efetua-se no sonho uma censura inconsciente e uma noção de desejo: quanto mais severa é a censura, mais completo é o disfarce. Cf. ROUDINESCO, Elisabeth. 1998, p. 394 39 esta numa tentativa de adaptação. Por isso, estão sob o domínio do Ego as percepções sensoriais, os controles e habilidades para atuar sobre o ambiente, a capacidade de lembrar, comparar e pensar. Por fim, o Superego – formado a partir das identificações com os genitores, dos quais ele assimila as ordens e proibições – assume uma espécie de auto-consciência moral. Após, num quinto momento, Freud passa a discutir a luta entre Eros e Tanatos. Já tendo apresentado a pulsão sexual, a qual é classificada como responsável pela permanente tarefa de unir a vida orgânica (Eros), Freud apresenta o que considera o antípoda à pulsão da sexualidade, que é a existência de uma pulsão de morte (Tanatos), a qual opera igualmente na vida orgânica, só que no sentido contrário ao de Eros, relacionando-se com este em um permanente e incansável conflito. São estas forças constitutivas do ser humano que têm movido, e movem, a humanidade ao longo do desenvolvimento de toda a civilização. Para Freud, a luta e o conflito incessante destas duas forças poderosas da natureza humana têm sido o verdadeiro motor da história. Por fim, Lopes coloca na sexta fase os mecanismos de defesa, que nada mais são que processos subconscientes que permitem à mente encontrar uma solução para conflitos não resolvidos ao nível da consciência. Freud mostrou diferentes tipos de manifestações que as defesas do ego podem apresentar, já que este não se defronta só com as pressões e solicitações do Id e do Superego, pois aos dois se juntam o mundo exterior e as lembranças do passado. Dentre as defesas do Ego estão a sublimação, repressão, racionalização, projeção, deslocamento, identificação, regressão, isolamento, formação reativa, substituição, fantasia, compensação, negação e introjeção. 2.3 Na esteira de Lacan A partir das conclusões deixadas por Freud, Jacques Lacan aprofunda a teoria psicanalítica, ora aproximando-se de Freud, ora distanciando-se. O que o psicanalista francês fez foi colocar em questão a lógica e as ciências humanas, 40 assim como toda psicanálise, através de uma releitura da obra de Freud – uma vez que para Lacan esta foi desvirtuada por seus discípulos.55 Ele compreende que a atenção de Freud não está no homem, como alguns pensam, mas no inconsciente, por isso a necessidade de retornar a Freud, (re) observando suas interpretações. Sua primeira intervenção é para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do estádio do espelho. O Eu é situado no registro do imaginário, juntamente com fenômenos como amor, ódio, agressividade – enfim, os afetos. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do sujeito do inconsciente, que é uma instância simbólica. Lacan reafirma, então, a divisão do sujeito, pois o inconsciente seria autônomo com relação ao Eu. E é no registro do inconsciente que, conforme Lacan, deve situar-se a ação da psicanálise. O sujeito do inconsciente é um conceito que nasce com Lacan. Tendo por base os textos freudianos, Lacan serve-se da sua teoria metapsicológica para situar ali onde Freud revela as manifestações inconscientes, sobretudo os sonhos, a emergência do sujeito. Dentro dessa perspectiva, Lacan evidencia que há um maisalém do enunciado – a sua enunciação. Priorizando-a, ele indica que para além dos ditos, há um dizer inconsciente, há uma verdade que está referida a uma falta, e por isso mesmo é recoberta pela fantasia. Assim, a psicanálise refere-se à ética do bemdizer, que comporta a singularidade de um sujeito ético – e não ôntico, pois não se reduz ao eu (moi), instância imaginária, mas ao [Eu] sujeito do inconsciente. Freud trata o inconsciente através do campo das representações. Diferentemente dele, Lacan postula a primazia da linguagem, ou seja, a primazia do significante, campo ao qual o sujeito estará para sempre referido. Em A Ciência e a Verdade, Lacan diz que o inconsciente é linguagem. Para ele o sujeito do inconsciente se constitui a partir do seu assujeitamento à linguagem. No lugar onde Freud sublinhava a preeminência das associações livres, das palavras, ele vai tecer a sua tese de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Sendo o inconsciente o discurso do Outro, nele o sujeito se encontra com sua mensagem, mas de forma invertida – por isso, quando falamos em discurso do Outro, estamos nos referindo ao próprio sujeito do inconsciente. Essa análise é da ordem do simbólico, é o campo da linguagem, do significante. Lévi-Strauss afirmava que "os 55 MILAN, Betty. Entrevista concedida ao Jornal da Tarde, São Paulo, em 24 março 1979. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/bettymilan/psicanalise/01retor.htm> 41 símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”, no que é seguido por Lacan. Verifica-se aqui a autonomia da função simbólica – este é o grande Outro que antecede o sujeito, que só se constitui através deste – o inconsciente é o discurso do Outro, o desejo é o desejo do Outro. A área de atuação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se manifesta, através de atos falhos, esquecimentos, chistes e do relato dos sonhos; enfim, naqueles fenômenos que Lacan nomeia como formações do inconsciente. A isto se refere o aforismo lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Para isso, Lacan buscará recursos na lingüística. A partir da sua base antropológica é que irá estabelecer com essa outra disciplina – a lingüística – uma interlocução e o fará tomando por princípio o ensinamento de Ferdinand de Saussure. O lingüista centra sua atenção no signo lingüístico, apresentando-o como referência central à lingüística. O signo compõe-se de duas partes: o significado e o significante. O signo lingüístico diz respeito à relação estabelecida entre um conceito e uma imagem acústica e une o significado ao significante. Assim, o significado tem para Saussure uma arbitrariedade, ou seja, não existe uma relação necessária entre um e outro, entre o significado e o significante. Isto não pressupõe que haja uma simples escolha por parte de quem fala, mas a constatação de que não há um laço natural com a realidade, é algo nãonatural. Lacan, a partir do seu estudo antropológico, inverte essa representação do signo lingüístico saussuriano, estabelecendo a autonomia do significante, que na verdade é também a autonomia do simbólico. Para Saussure, o signo é uma unidade indissociável constituída entre o significado e o significante. Diferentemente dele, Lacan separa o significante e o significado por uma barra indicando que há aí duas ordens distintas. A estas ele interpõe uma barreira resistente à significação e que, por conseguinte, quebra a unidade do signo. Assim, caberá à cadeia significante ser a produtora dos significados, fornecendo o substrato topológico ao signo lacaniano, onde nenhum significante poderá ser pensado fora de sua relação a outro significante. Para Lacan o significante não tem por função representar o significado: ele o precede e o determina. A partir da concepção lingüística ele passará a trabalhar com a metáfora e a metonímia do desejo, figuras da lingüística que substituem respectivamente a condensação e o deslocamento. 42 O simbólico é o registro em que se marca a ligação do desejo com a lei e a falta, através do complexo de castração, operador do Complexo de Édipo. Para Lacan, "a lei e o desejo recalcado são uma só e a mesma coisa". Lacan pensa a lei a partir de Lévi-Strauss, ou seja, da interdição do incesto que possibilita a circulação do maior dos bens simbólicos, as mulheres. O desejo é uma falta-a-ser metaforizada na interdição edipiana, a falta possibilitando a deriva do desejo, desejo enquanto metonímia. Lacan articula neste processo dois grandes conceitos, o Nome-do-Pai e o Falo. É na década de 1970 que dará cada vez mais prioridade ao registro do real: em sua tópica de três registros, Real, Simbólico e Imaginário – RSI. Ao Real cabe aquilo que resiste à simbolização, “o real é o impossível”, “não cessa de não se inscrever”. Na tentativa de fazer a psicanálise operar com este registro, Lacan envereda pela topologia, pelo Nó Borromeano, revalorizando a escrita, constrói uma lógica da sexuação. Se grande parte de sua obra foi marcada pelo signo de um retorno a Freud, Lacan considera o Real, junto com o objeto ausente, suas criações. Uma rápida observação das teorias de Freud e Lacan leva a perceber o quanto compreender e analisar o imaginário e o simbólico, remetendo à questão do sintoma, não é algo simples. E é por meio de uma teoria complexa que essa área de estudos busca conhecer o funcionamento da mente humana, suas necessidades, complexos, traumas e tudo o mais que possa vir a perturbar o psiquismo. Nos estudos realizados por Jacques Lacan, o psicanalista trabalha com a premissa de que o inconsciente estrutura-se como uma linguagem – e os fundamentos para tal afirmação encontram respaldo em estudos desenvolvidos por Freud, assim como nos estudos antropológicos de Lévi-Strauss. Em A interpretação dos sonhos, o pai da psicanálise passa a dar vida a uma teoria sobre o inconsciente e suas manifestações. Para ele, o sonho é revelador de como funciona o psiquismo humano e constitui-se na via régia para o inconsciente; na verdade, o sonho é tomado como uma formação do inconsciente que está diretamente relacionada ao desejo. A interpretação dos sonhos possibilitou avanços ao estudo do inconsciente, fazendo com que anos mais tarde Lacan, seguindo o caminho deixado por Freud, desenvolve-se uma teoria em que afirmava que o inconsciente tinha “a estrutura radical da linguagem”, que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” e, 43 ainda, que “a linguagem é condição do inconsciente”.56 A idéia lacaniana de uma primazia da linguagem repousa no dado primordial de que o indivíduo não aprende a falar, mas é instituído como sujeito pela linguagem.57 Se o indivíduo estrutura-se como linguagem, e se essa linguagem é manifestação do inconsciente, é válido, então, tomar dos conhecimentos da psicanálise para compreender e interpretar as manifestações literárias, uma vez que como já foi mencionado, Freud muito se interessou pela arte – um exemplo seria a teoria de Édipo, baseada em uma tragédia grega. Freud escreveu, em 1908, que: a nós, os leigos, sempre deu imenso que pensar – como ao cardeal que fez a pergunta a Ariosto – como é que esse estranho ser, o poeta, obtém o seu material. O que é que o habilita a que o sigamos, de tal maneira enlevados, e a despertar em nós emoções de que não pensávamos, talvez, ser capaz 58 sequer? Compreender o poeta e sua arte, buscar conhecer as manifestações que constituíram a obra, desvendar a vida inconsciente da fantasia e do simbolismo sempre envolveu e fascinou muitos estudiosos. E é o campo literário, talvez, o mais profícuo. É a escrita que caracteriza o significante em sua materialidade – a materialidade é uma literariedade (o significante no seu aspecto material não é considerado somente no momento fônico, mas também no gráfico).59 E é com o fim de interpretar os campos subjetivos criados pela literariedade que literatura e psicanálise juntam esforços. Em Outros Escritos, Lacan lembra que a letra (traço distintivo do sujeito, remetendo sempre à questão do sintoma) “não é litoral”, para o psicanalista “a fronteira, com certeza, ao separar dois territórios, simboliza que eles são iguais para quem a transpõe, que há entre eles um denominador comum” – por isso, o sintoma dá-se a conhecer através da fala, assim como da escrita. E continua afirmando que “resta saber como o inconsciente que digo ser efeito de linguagem, por ele pressupor a estrutura desta como necessária e 56 É importante lembrar que Lacan deixa claro que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e não pela linguagem 57 ROUDINESCO, Elisabeth. 1998, p. 445 58 SEGAL, H. Uma concepção psicanalítica da estética. In: Temas de psicanálise aplicada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1969, p. 97 59 VALLEJO, Américo; MAGALHÃES, Ligia. Lacan: operadores da leitura. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 73 44 suficiente, comanda essa função da letra”.60 É a letra o instrumento apropriado à escrita e fonte de organização do inconsciente, “em outras palavras, o sujeito é dividido pela linguagem como em toda parte, mas um de seus registros pode satisfazer-se com a referência à escrita, e o outro com a fala”.61 Podemos entender que quando uma pessoa constrói um significado e o internaliza ele adquire o estatuto da letra que se estabiliza como um traço mínimo onde o sujeito está situado. Este conceito trabalhado por Lacan no final de sua obra coloca a letra como a face material do significante (do conceito formado) o que dá sustentação para o significante, ficando oculta tanto na fala como na escrita. Podemos então considerar o advento da linguagem como a entrada no mundo simbólico. Com relação ao campo do simbólico, no seminário sobre A carta roubada, Lacan afirma que “é a ordem simbólica que é constituinte para o sujeito, demonstrando-lhe numa história a determinação fundamental que o sujeito recebe do percurso de um significante”.62 E é essa verdade, conforme afirma o autor, a que possibilita a própria existência da ficção. Na realidade, o estudo do texto de Edgar Allan Poe serviu como subsídio para sustentar que incidências imaginárias, mesmo distantes de representarem o essencial de nossa experiência, nada fornecem que não seja inconsciente, a menos que sejam relacionadas à cadeia simbólica que as liga e orienta.63 Desde Freud, os estudos psicanalíticos partem da premissa de que o inconsciente é um saber falado, sendo assim efeito da linguagem, de um discurso que fundamenta a realidade do indivíduo. Também Lacan reitera que a escrita lhe é importante, uma vez que, “historicamente, foi por pequenos pedaços de escrita que se penetrou no real, a saber, que se cessou de imaginar”.64 Claro é que a letra por si só, mesmo contendo um efeito de discurso, é vazia de significado. É a palavra que carrega a dimensão imaginária e, portanto, contem e proporciona uma elaboração de significações, uma construção de sentidos. Como letra, ao mesmo tempo em que representa o sujeito no seu nascedouro, possibilitando uma identificação simbólica, traz a memória de um gozo perdido, que inaugura o processo de repetição 60 LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003, p.18-19 LACAN, Jacques. 2003, p. 24 62 LACAN, Jacques. 2003, p. 14 63 LACAN, Jacques. 2003, p. 13 64 LACAN, Jacques. Seminário 22 - RSI. Inédito (CDROOM – Obra de Jacques Lacan – somente leitura) 61 45 característico do movimento inconsciente. Há, portanto, uma escrita primordial que marca o sujeito na sua singularidade, onde se articulam letra e gozo. O sujeito “só inventa” o significante a partir de alguma coisa que já está lá para ser lida.65 No intuito de penetrar no significante, articulando relações com o real, no texto Joyce, o Sintoma, o escritor esquematiza o modelo do inconsciente, tomado como um conjunto de letras, no qual estamos atrelados por meio do sintoma, o que prevê uma ligação estreita entre sintoma e o real do inconsciente. No texto RSI, Lacan propõe uma escritura que suporta um real: a do nó borromeano (igual ao símbolo do brasão da família Borromeu). Essa compreensão repousa sobre a materialidade mesma do nó, na qual o simbólico fica seguramente ligado ao real e ao imaginário, mas, principalmente, não totalmente preso ao real. Assim, o real não é jamais redutível ao simbólico. Ele é, pois, parte constitutiva do nó borremeano, fazendo parte da tópica o simbólico e o imaginário. Essa aliança, que é suporte do sujeito,66 possibilita vislumbrar o sujeito sem imagem, apenas como constitutivo da letra – este seria o mito do sujeito enquanto real. Porém, o mito perde-se à proporção que se estabelece uma falha, verificação que encaminha Lacan a um quarto elo, que serviria como ponto de amarração – o sintoma. Para o autor: é impossível, por exemplo, não qualificar de falso furo o conjunto constituído pelo sintoma e pelo simbólico. Mas, por outro lado, é por estar enganchado na linguagem que o sintoma subsiste, ao menos se julgamos poder modificar alguma coisa no sintoma pela manipulação dita interpretativa, isto 67 é, jogando com o sentido. O autor ainda frisa que real, simbólico e imaginário devem ser tomados como instâncias separadas, não devendo ser confundidos. O sentido, continua Lacan, implica em saber qual é o nó e emendá-lo bem.68 Quando chamamos de imaginário um elemento da cadeia, um outro de real, e o terceiro de simbólico, o sentido (...) está no campo entre o imaginário e 65 RINALDI, Dóris. Artigo disponível em: <http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/art142.htm> LACAN, Jacques. Seminário 23 – O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2007, p. 52 67 LACAN, Jacques. 2007, p. 39 68 LACAN, Jacques. 2007, p. 71 66 46 o simbólico. Não podemos esperar colocá-lo em outro lugar, pois nos 69 limitamos a imaginar tudo o que pensamos. Para isso, a identificação e interpretação do sintoma são essenciais. E “é na medida em que o sintoma volta a se ligar ao inconsciente e o imaginário se liga ao real que lidamos com alguma coisa da qual surge o sintoma”.70 Na obra literária as pistas para a decifração do sintoma serão dadas pela letra, organizando-se o inconsciente através de pistas – materializadas pela escrita – que remetem à história do sujeito. Para Lacan, o sintoma também é tomado como substituição, ou seja, metáfora.71 Ele entende que “usamos a linguagem de um modo que vai mais longe do que o que é efetivamente dito. Sempre reduzimos o alcance da metáfora como tal. Ou seja, ela acaba reduzida a uma metonímia”.72 Por isso, cabe salientar que o sintoma estrutura-se metaforicamente, firmando-se como um retorno da verdade. A respeito da verdade, o psicanalista, no Seminário 23 – O sintoma, trata da diferença entre o verdadeiro e o real. E inicia destacando que em Freud a diferença é patente. “Com efeito foi assim que ele se orientou – o verdadeiro dá prazer, e é isso que o distingue do real. O real não dá, forçosamente, prazer. É claro que, nesse âmbito, distorço alguma coisa de Freud. Procuro ressaltar que o gozo é do real”.73 Para ele, o real se consolida como uma ek-sistência, a qual suporta o real, uma vez que o real vem do sintoma. Para Jacques Lacan, as relações entre simbólico e real em Freud são ambíguas: Nesse ponto a questão da crítica do verdadeiro é levantada. O que é o verdadeiro, senão o verdadeiro real? (...) O real encontra-se nos emaranhados do verdadeiro. Foi o que me levou à idéia do nó, que provém de que o verdadeiro se autoperfura devido ao fato de que seu uso cria 69 LACAN, Jacques. 2007, p. 89 LACAN, Jacques. 2007, p. 53 71 Para compreendermos o valor da metáfora é importante transcrevermos o que Lacan, em seu Seminário 23, afirma: “A metáfora só indica o seguinte, exceto por existir, prova que a relação sexual é tomar o que reluz por ouro (...), isto é, o que melhor se pode dizer para exprimir uma confusão. O que reluz pode ser ouro, mas é preciso que se tenha, por exemplo, o fogo de uma lanterna para que se possa constatá-lo, uma vez que reluzir não basta para alguma coisa ser ouro. De onde vem o fogo? O fogo é o real. O real põe fogo em tudo. Mas é um fogo frio. O fogo que queima é uma máscara, se assim posso dizer, do real. O real é para ser buscado do outro lado, do lado do zero absoluto. De um modo ou de outro, chegamos a isso. Não há limite para o que podemos imaginar como alta temperatura. Por ora, não há limite imaginável. A única coisa que há de real é o limite de baixo. É o que chamo de uma coisa orientável. É por isso que o real o é”. LACAN, Jacques. 2007, p. 117 72 LACAN, Jacques. 2007, p. 41 73 LACAN, Jacques. 2007, p. 76 70 47 integralmente o sentido, na medida em que ele desliza, que é aspirado pela imagem do furo corporal de onde é emitido, a saber, da boca enquanto 74 suga. O próprio autor lembra que as idéias de inconsciente estudadas por Freud “não supõe obrigatoriamente de modo algum o real de que me sirvo”, uma vez que compreende que “o verdadeiro é dizer conforme a realidade”. Neste caso, “a realidade é o que funciona, funciona verdadeiramente”. Porém, esse verdadeiro nada tem a ver com o que ele chama de real. “É uma suposição completamente precária que meu real (...) condicione a realidade, aquela, por exemplo, da audição de vocês”.75 O próprio autor deixa claro o quanto a definição de real é, de certa forma, precária: Falo do real como impossível na medida em que creio justamente que o real (...), o real é sem lei. O verdadeiro real implica a ausência de lei. O real não tem ordem. É que quero dizer dizendo que a única coisa que chegarei talvez um dia a articular diante de vocês é alguma coisa concernente ao 76 que chamei de um pedaço de real. Buscar respostas na obra de arte é ir de encontro à realidade presente neste objeto, no entanto é preciso questionar-se que nível de real há ali? Em um texto literário, objeto de experiência de um leitor, é necessário que se compreendam os símbolos que ali florescem, para isso não há mecanismos prontos destinados à análise, o que resulta, na maioria das vezes, em um número de dificuldades e impasses. Isso direciona a um certo número de opacidades que se opõem àquilo que está explícito. É claro que em uma análise literária tudo caminha para convergir em um sentido: em respostas, por isso a atenção está voltada aos pensamentos mágicos das personagens, às falas que revelam desejos e posições de forma sutil. O que se tenciona é observar e procurar respostas para como aquela experiência se materializou, ou não, de como seu deu a passagem do consciente para o inconsciente, que forças proporcionam certa existência ao equilíbrio, configurando um princípio de prazer. O que acontece é que “o sujeito alucina seu mundo. As satisfações ilusórias são evidentemente de ordem diversa das satisfações que 74 LACAN, Jacques. 2007, p. 83 LACAN, Jacques. 2007, p. 128 76 LACAN, Jacques. 2007, p. 133 75 48 encontram seu objeto no real puro e simples”.77 Para Lacan, as satisfações não estão ligadas a fatores orgânicos, embora uma parte deva-se a eles, mas a uma categoria que ele qualifica como imaginário, “a partir daí, é fácil ver que essa ordem de satisfação imaginária só pode ser encontrada nos registros sexuais”.78 A compreensão de imaginário que Lacan nos dá é que “um comportamento pode se tornar imaginário quando sua orientação a partir de imagens, e seu próprio valor de imagem para um outro sujeito, o torna suscetível de deslocamento fora do ciclo que assegura a satisfação de uma necessidade natural”,79 a partir daí cabe ao analisante da obra atenção aos comportamentos, falas, desejos recônditos. É ao simbólico que são creditadas a maior parte das funções imaginárias: quer se trate de sintomas reais ou atos falhos, ou o que quer que seja que se inscreva no que encontramos e reencontramos incessantemente, e que Freud manifestou como sendo sua realidade essencial, trata-se ainda e sempre de símbolos, e de símbolos organizados na linguagem, portanto funcionando a partir da articulação do significante e do significado, que é o 80 equivalente da própria estrutura da linguagem. A leitura possibilita a configuração de imagens como se fosse um sonho, daí como compreender uma superposição de símbolos, trocadilhos, imagens... e tudo da ordem e do registro da linguagem. É relevante compreender como Lacan via a linguagem, não em sua complexidade, mas em sua dualidade. Num primeiro instante, o estudioso entende a palavra como senha: Pensem na palavra que serve como senha. Escolhi propositalmente esse exemplo porque a miragem, quando se fala da linguagem, consiste em acreditar sempre que sua significação é aquilo que ela designa. Mas não, não. Claro que ela designa alguma coisa, que cumpre determinada função nesse plano. Mas a senha tem essa propriedade de ser escolhida de forma 81 completamente independente de sua significação. Também, segundo ele, é possível meditar sobre a função da linguagem a partir dos afetos, como o amor, em que os apaixonados em um estado de êxtase passam a nomear os parceiros de termos comuns ou até mesmo estranhos. Nos 77 SAUSSURE, Raymond de apud LACAN, Jacques. Nomes-do-pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2005, p. 16 78 LACAN, Jacques. 2005, p. 17 79 LACAN, Jacques. 2005, p. 20 80 LACAN, Jacques. 2005, p. 23 81 LACAN, Jacques. 2005, p. 24-25 49 dois casos – da senha e do amor – a linguagem é quase que desprovida de significação. Agora, no texto literário a linguagem ganha uma roupagem mais trabalhada, ao autor cabe a função de organizar seu enredo, de camuflar, de criar no leitor sensações, é aí que a linguagem é explorada em sua amplitude. O que não existia passa a existir, o que não tinha voz, passa a carregar-se de sentido, a linguagem deixa de ser apenas uma mediação entre texto e leitor para tornar-se realidade. A partir disso, como afirma Lacan, a questão da interpretação está sempre inscrita em uma relação a três. 2.4 Nome-do-pai Um dos tópicos para compreender a teoria freudo-lacaniana está em compreender o pai. Aprofundar-se no tema é buscar a verdade em relação ao sujeito – questão fundamental de sua existência. Para Freud, a verdade entra na vida do homem por meio da significação da idéia de pai, realidade sagrada em si mesma, a não ser pela via do a-histórico, mítica, da inserção do homem na origem da sua história.82 Através do mito freudiano do pai da horda primitiva, a psicanálise pode pensar a questão originária do incesto e da instituição de sua interdição e o mito do Édipo, tentativa de explicar como se opera o inconsciente, determinante da posição do sujeito com a alteridade e da sua forma de se relacionar com a cultura. Lacan, por sua vez, através do aforismo: o inconsciente estruturado como uma linguagem, coloca o Édipo como uma armadura significante mínima que permite a entrada do sujeito no mundo simbólico. Toma como referência o falo, não como uma castração via pênis, mas como referência ao pai, cuja função é mediatizadora da relação da 83 criança com a mãe e da mãe com a criança. A criança é determinada pela estrutura de linguagem, que a antecede e define seu lugar no discurso. Lacan coloca em relevo o signo lingüístico, desmembrado em significante e significado para embasar seu pensamento de que o sujeito constitui-se em uma estrutura de linguagem, já que é a partir dessa premissa que o homem pode firmar-se como sujeito. Todos nós já nascemos marcados pela 82 RAMIREZ, Heloísa Helena Aragão e. Introdução à metáfora paterna. Revista Mental – Ano II – nº 3 - Barbacena - nov. 2004 - p. 89-105 83 RAMIREZ, Heloísa Helena Aragão e, 2004, p. 90 50 linguagem, “pela razão primeira de que a linguagem, como sua estrutura preexiste à entrada de cada sujeito num momento de seu desenvolvimento mental”.84 Entendese, assim, que a criança torna-se sujeito a partir da operação da metáfora paterna e de seu mecanismo o recalque originário que se desenvolve com base numa substituição significante, onde um significante novo tomará o lugar do significante originário do desejo da mãe, 85 que recalcado em benefício do novo vai se tornar inconsciente, o que prevê uma renúncia da criança de seu objeto de desejo primeiro. A metáfora paterna se inscreve no campo do simbólico, viabilizando o entendimento desta como um significante que toma o lugar de outro significante - o Nome-do-Pai passa a substituir o falo enquanto objeto de desejo da mãe. Este período localiza-se na vida psíquica da criança, fase que Lacan chamou de Estádio do Espelho – momento que há uma identificação importante na relação de alienação específica com a mãe. “Neste processo de identificação fundamental, a criança apreende sua própria imagem, antes esfacelada, como uma totalidade unificada, o que lhe permitirá promover a estruturação do Eu”.86 O acesso da criança na ordem do simbólico se dará por meio da mãe a partir do instante que esta passa a prover esse novo ser de suas necessidades básicas, a mãe passa a ser a mediatizadora para a realização do desejo, tornando-se assim o Outro. Num primeiro instante, este outro é o outro real, de uma relação dupla de dependência, no campo do imaginário. Para Lacan fica claro que o Outro não pode ser confundido com o sujeito que fala no lugar do Outro, nem mesmo pela voz: “O Outro, se é o que digo, o lugar onde isso fala, só pode colocar uma espécie de problema, o do sujeito anterior à questão”.87 E o pai? Qual seu lugar nesse processo de construção do sujeito? Lacan entende que o pai só pode ser compreendido miticamente. O pai primordial é o pai anterior ao interdito do incesto, anterior ao surgimento da Lei, da ordem das estruturas da aliança e do parentesco, em suma, anterior ao surgimento da cultura. Eis por que Freud faz dele o chefe da horda, cuja satisfação, de acordo com o mito animal, é irrefreável”.88 84 LACAN, Jaques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998, p. 196 RAMIREZ, Heloísa Helena Aragão e, 2004, p. 91 86 RAMIREZ, Heloísa Helena Aragão e, 2004, p. 91 87 LACAN, Jacques. 2005, p. 72 88 LACAN, Jacques. 2005, p. 73 85 51 No nível do pai é colocada uma outra função, que é a função do nome próprio – “O pai é de fato o genitor. Mas, antes que o saibamos de fonte segura, o nome do pai cria a função do pai”.89 O nome é uma marca aberta à leitura – “eis por que ela será lida da mesma forma em todas as línguas – impressa sobre alguma coisa que pode ser um sujeito que vai falar, mas que não falará de modo algum obrigatoriamente”.90 Instaura-se aí, através da linguagem, a dialética da presença e da ausência. Através da palavra a coisa é presentificada em sua ausência, a própria palavra ou qualquer signo que venha substituí-la, tem que estar imediatamente presente, mas também, se 91 ousamos dizê-lo ausente de sua presença. Com este pensar, percebe-se que a criança abriu mão de sua identificação primeira de ser o falo para a posição de ter o falo, uma vez que ela deixa de ser o objeto que satisfaz o desejo do outro e pode, aí, canalizar seu desejo para objetos alternativos em relação ao perdido. É através da metáfora paterna e de seu mecanismo fundamental, o recalque originário, que a criança efetuará uma substituição significante, colocando um novo no lugar do significante originário do desejo da mãe. À medida que o significante originário é substituído pelo novo, automaticamente, ele é recalcado, passando para o inconsciente, o que permite de fato à criança efetivar a renúncia ao objeto inaugural de desejo, 92 tornando inconsciente o que antes o significava. Quando a criança percebe que a ausência da mãe representa sua presença junto ao pai ela estará pronta para nomear o pai, num primeiro momento como um objeto fálico rival, e depois como o ser que detém o falo. A partir daí, o que ocorre é uma elaboração da relação significante, onde a criança pode designar e nomear a causa das ausências da mãe, invocando a referência do Pai. Dito de outra maneira, ela estará nomeando o pai por aquilo que ela supõe ser o desejo da mãe. Ela associa o novo significante Nome-do-Pai (S2) ao significado falo (s1). A entrada do significante Nomedo-Pai substituindo o significante falo fará com que o falo torne-se 93 inconsciente. 89 LACAN, Jacques. 2005, p. 47 LACAN, Jacques. 2005, p. 74 91 WAELHENS, Alphonse de. A psicose: ensaio e interpretação analítica e existencial. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1990. 92 RAMIREZ, Heloísa Helena Aragão e, 2004, p. 92 93 RAMIREZ, Heloísa Helena Aragão e, 2004, p. 92 90 52 Ao final da substituição metafórica, o pai será sempre referido ao falo como um puro significante. Produzindo o Nome-do-Pai, a criança estará nomeando, metaforicamente, o objeto fundamental do seu desejo, embora sem o saber, já que o significante originário foi recalcado. “Assim também fica esclarecido o jogo intrínseco ao complexo de Édipo, no qual a metáfora do Nome-do-Pai vem testemunhar a atualização da castração, que intervém sob a única forma em que é inteligível: a castração simbólica. O falo aparece, com efeito, ao final do Édipo, como perda simbólica de um objeto imaginário”.94 Desta maneira, é possível dizer que o Pai na formação do desejo pressupõe o falo no campo do Outro, pondo um fim no incestuoso – um basta. No Seminário Livro III,95 Lacan toma a aproximação da linguagem ao inconsciente e propõe pensar a linguagem fora da cena da enunciação e a língua como um sistema de signos e articula o falo ao Outro, dando à idéia Nome-do-Pai a função de ponto de basta. O Nome-do-Pai não indica apenas a morte da coisa, mas indica a morte de toda significação perdida em nome de uma morte anterior. Neste sentido, a finalidade da teoria Nome-do-Pai é mostrar a relação da função de ponto de estofo e o lugar do Outro, além de pensar como o sujeito pode articular estas duas funções. Mas este processo é passível de falha na estrutura simbólica e implica na foraclusão do Nome-do-Pai. Este acidente ressoa sobre a estrutura imaginária, dissolvendo-a e conduzindo-a à estrutura elementar, provocando a desestruturação imaginária. 2.5 O Estranho As idéias psicanalíticas desenvolvidas e problematizadas por Freud atingiram todas as áreas do saber, inclusive o campo estético. A partir dos estudos realizados e de afirmações como “o inconsciente é a base geral da vida psíquica. O 94 DOR, Joël. A psicose lacaniana: elementos fundamentais da abordagem lacaniana das psicoses. In: BIRMAM, J. (org.). Sobre a psicose. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1999, p.7588. 95 LACAN, Jacques. O Seminário Livro III: As psicoses. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. 53 inconsciente é a esfera mais ampla, que inclui em si a esfera menor do consciente”,96 os trabalhos no âmbito do estético seguiram novos rumos. Freud já dizia, em 1919, que: o analista opera em outras camadas da vida mental e pouco tem a ver com os impulsos emocionais dominados, os quais, inibidos em seus objetivos e dependentes de uma hoste de fatores simultâneos, fornecem habitualmente o material para o estudo da estética. Mas acontece ocasionalmente que ele tem de interessar-se por algum ramo particular daquele assunto; e esse ramo geralmente revela-se um campo bastante remoto, negligenciado na literatura especializada da estética. O tema do estranho é um ramo desse 97 tipo. O estranho, ou The unheimlich, compreende o que Freud afirmava em “a estética não é só beleza, mas teoria das qualidades do sentir”.98 Direcionando os estudos para o campo literário, é imprescindível tomar o estranho pelo sentido da palavra, assim como pelas propriedades que despertam em nós o sentimento de estranheza. Mas o que é o estranho? “O estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito tempo familiar”.99 Com relação ao campo literário, o estranho está nas obras que desafiam nossa imaginação, que nos imbricam pelo campo do suspense, do enigmático, despertam em nós sensações, afetos muitas vezes antes não experimentados, tudo com o aval do autor, com a intenção de criar nos leitores uma espécie de incerteza, fazendo com que surja a dúvida “se nos está conduzindo pelo mundo real ou por um mundo puramente fantástico, de sua própria criação”100 – não podemos esquecer que “algo tem que ser acrescentado ao que é novo e não familiar para torná-lo estranho”.101 É preciso ficar claro que o estranhamento “está dentro da gente, dentro da própria casa. Ele não é algo exterior, algo estranho, mas algo ‘entranho’ que nos heimsucht – nos assombra e nos persegue, que, literalmente, nos ‘procura em casa’”.102 Resumindo, há no “estranho” e seus derivados a idéia de afastamento por um afeto, de censura, de desconfiança, de não-conhecimento, de admiração, de mistério. Mas, ao mesmo tempo, há uma aproximação 96 FREUD, Sigmund. A interpretação de sonhos. (1900). In: ESB. V. IV - p. 554 FREUD, Sigmund. O estranho. (1919) Op. cit. v XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 273 98 FREUD, Sigmund. 1919, p. 273 99 FREUD, Sigmund. 1919, p. 274 100 FREUD, Sigmund. 1919, p. 276 101 FREUD, Sigmund. 1919, p. 273 102 OTTE, Georg. In PORTUGAL, Ana Maria. O vidro da palavra: o estranho, a literatura e psicanálise. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 14 97 54 inquieta, atraída pelo que se censura, pelo que não se espera e não se conhece, tocando no que é suspeitamente familiar (...) Com isso, o estranho é indicador de um limite que desperta o sujeito de seu sonho alienado no 103 Heim (na casa), marcando algo ‘fora’, com o qual ele tem de se haver. A proximidade dos termos estranho e estranhamento remete uma vez mais ao campo Estético. Em 1917, o formalista russo Viktor Chklovski publicava o ensaio A arte como processo. O conceito surge como oposição à idéia defendida por Aleksander Potebnia de que “as imagens não têm outra função senão permitir agrupar objetos e ações heterogêneas e explicar o desconhecido pelo conhecido”.104 Para Chklovski, o contrário é que é válido, pois “a finalidade da arte é dar uma sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização [ostraniene] dos objetos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objeto, aquilo que já se ‘tornou’ não interessa à arte”. 105 O estranhamento seria então esse efeito especial criado pela obra de arte literária para distanciar (ou estranhar) em relação ao modo comum como se apreende o mundo, o que permitiria entrar numa dimensão nova, só visível pelo olhar estético ou artístico. O que acontece é que a obra de arte distancia-se do cotidiano, da fala comum, e volta-se para si mesma, “exibindo sua existência material, sendo a obra uma reunião de ‘artifícios’: som, imagem, ritmo, sintaxe, métrica, técnicas narrativas, com o efeito comum de ‘estranhamento’ ou de ‘desfamiliarização’”.106 A literatura tem por característica ‘deformar’ a linguagem de várias maneiras: intensifica, reduz, amplia, inverte, e, graças a esse processo de estranhamento e desautomação, o cotidiano se torna ‘não-familiar’. Com isso, os formalistas não pretendiam definir a literatura, mas a ‘literariedade’ do texto, supondo que todo elemento presente numa obra traz uma 107 significação passível de ser interpretada dentro do código literário. 103 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 20 CHKLOVSKI, Viktor. In TODOROV, Tzvetan. Teoria da Literatura I: Textos dos Formalistas Russos. Lisboa: Edições 70, 1999, p.75 105 CHKLOVSKI, Viktor. In TODOROV, Tzvetan. 1999, p.82 106 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 21 107 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 21 104 55 O termo literariedade refere-se à idéia de significante que Lacan, na interpretação dos textos de Freud, remete aos estudos lingüísticos de Saussure. Para o lingüista, a palavra – signo lingüístico – possui duas instancias: significado e significante, ambas da ordem psíquica. Assim, prevê-se a linguagem como condição do inconsciente. A idéia de Lacan é de que há uma autonomia do significante em relação ao significado: e postula o inconsciente condicionado ao fato de que um significante possa repetir-se, insistir no discurso de um sujeito, sem, no entanto, estar associado à sua significação. Um exemplo é o sintoma psíquico, que diz algo de maneira indireta e inaudível, sendo considerado como um 108 significante de significado inacessível para o sujeito. Assim, o significante deixa de ter a função de apenas imagem acústica, ele passa a representar “o sujeito para outro significante oculto, recalcado, e, por este fato, também o determina como sujeito do inconsciente”.109 A questão do estranhamento está diretamente ligada às sensações. Freud compreendia que: o estranho, tal como é descrito na literatura, em histórias e criações fictícias, merece na verdade uma exposição em separado. Acima de tudo, é um ramo muito mais fértil do que o estranho na vida real, pois contém a totalidade deste último e algo mais além disso, algo que não pode ser encontrado na vida real. O contraste entre o que foi reprimido e o que foi superado pode ser transposto para o estranho em ficção sem modificações profundas; pois o reino da fantasia depende, para seu efeito, ao fato de que o seu conteúdo não se submete ao teste da realidade. O resultado, algo paradoxal, é que em primeiro lugar, muito daquilo que não é estranho em ficção sê-lo-ia se acontecesse na vida real; e, em segundo lugar, que existem muito mais meios de criar efeitos estranhos na ficção, do que na vida real. O escritor imaginativo tem, entre muitas outras, a liberdade de poder escolher o seu mundo de representação, de modo que este possa ou coincidir com as realidades que nos são familiares, ou afastar-se delas o 110 quanto quiser. Mais uma vez é reiterada a estreita ligação entre o literário e as áreas que exploram e procuram desvendar a mente e suas manifestações. O campo artístico mostra-se profícuo a uma série de análises, uma vez que “oferece mais 108 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 21 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 21 110 FREUD, Sigmund. 1919, p. 14 109 56 oportunidades para criar sensações estranhas do que aquelas que são possíveis na vida real”.111 O que acontece é que: o ficcionista tem um poder peculiarmente diretivo sobre nós; por meio do estado de espírito em que nos pode colocar, ele consegue guiar a corrente das nossas emoções, represá-la numa direção e fazê-la fluir em outras, e obtém com freqüência uma grande variedade de efeitos a partir do mesmo 112 material. A proximidade onde o literário e o inconsciente fazem fronteira parece ser o ponto de encaixe de Freud sobre o estranho. E isso muito interessa, uma vez que estabelece os enlaces do inconsciente com a ficção, ou da psicanálise com a literatura, relações que fundamentam o trabalho. O estudo da ficção sobre o estranho acrescenta quando um escritor consegue produzir a sensação de estranheza, o que se experimenta é certa divisão externa/interna, e, ou o deslocamento para o autor, que passa a ser considerado estranho, e fica-se na dúvida sobre a consistência de sua trama, ou então se é possuído pelos mais puros efeitos do inconsciente.113 Com relação ao estudo do estranho, Freud chegou a algumas conclusões, como a de que o estranho da ficção é que o escritor encontra dificuldades em atenuá-lo ou desfazê-lo quando se dá a equivalência entre o estranho (das Unheimliche) e o inconsciente (das Unbewusste), pois o prefixo un-, comum a ambos, é a marca do recalque. No entanto, Freud lembra que, de fato, nem toda presença do inconsciente provoca estranheza, uma vez que o sujeito pode acomodar-se com os sintomas e esquecer os sonhos e lapsos, como algo sem grande importância ou sentido.114 Por outro lado, é preciso delinear o estranho dentro do que é angustiante, detectando nas coisas, pessoas, impressões, vivências e situações que o despertem um núcleo comum: o recalque.115 111 FREUD, Sigmund. 1919, p. 15 FREUD, Sigmund. 1919, p. 15 113 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 47 114 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 71 115 FREUD, Sigmund. 1919, p. 276 112 57 2.6 O duplo No texto em que Freud trata do estranho, o duplo é listado como um tema que tem origem na infância. O estudioso faz referência ao trabalho desenvolvido por Otto Rank (1914), lembrando que “ele penetrou nas ligações que o duplo tem com reflexos em espelhos, com sombras, com os espíritos guardiões, com a crença na alma e com o medo da morte”. Destaca que, originalmente, o duplo era uma segurança contra a destruição do ego (...), provavelmente, a alma imortal foi o primeiro duplo do corpo. Essa invenção do duplicar como defesa contra a extinção tem sua contraparte na linguagem dos sonhos, que gosta de representar a castração pela duplicação ou 116 multiplicação de um símbolo genital. Freud apresenta o duplo em três níveis: duplicação, divisão, troca ou confusão. São situações em que surgem personagens tomadas como idênticas, ou nas quais há uma acentuada semelhança nos processos mentais que saltam telepaticamente para outrem, ou ainda quando o sujeito duvida a 117 respeito de si mesmo, deixando-se encarnar por um estranho. Agora, quanto ao desenvolvimento do eu, as três formas de duplo remetem aos trabalhos deixados por Lacan: o imaginário, o real e o simbólico, já discutidos anteriormente. Para o psicanalista, “o inconsciente é o discurso do Outro”.118 Esse discurso permite inserir um quadro em outro quadro, uma ficção em outra ficção. O que ocorre é a cena dentro da cena, que “tem um lugar privilegiado entre os procedimentos fundamentais da literatura fantástica, que são o duplo, a contaminação da realidade pelo sonho, a cena dentro da cena e a viagem no tempo”.119 116 FREUD, Sigmund. 1919, p. 8 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 82 118 LACAN, Jacques. Escritos – Seminário sobre a Carta Roubada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998, p. 18 119 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 92 117 58 Não são raros os momentos em que a sensação de estranheza nos toma conta, por vezes até mesmo uma velha lembrança nos desperta para tal afeto. Lacan deixa um exemplo bastante claro a respeito do corriqueiro que passa a ser estranho. Você anda de rua em rua, mas um dia acontece que, sem saber por quê, você atravessa alguma linha, invisível a seus olhos, e acaba em uma praça onde jamais esteve e que, no entanto, você reconhece como sendo exatamente aquela praça onde se lembra de já haver estado. Estava lá, em sua memória, como uma ilhota à parte. Este lugar lembra alguma coisa não percebida. Ele não tem nome, mas se distingue pela estranheza de seu cenário, por aquilo que Freud aponta tão bem como o lugar da indefinição que constitui o campo do Unheimlich. Eis aí uma palavra que nos permite tocar a identidade entre o direito e o avesso, este lugar que chamamos 120 Outra cena. O que ocorre é que se presume uma existência real a todo local nomeado, que ganhou um lugar no discurso, o que inclui até locais que só existem na ficção. Inversamente, não há praça cuja existência real não seja precedida e organizada pelo significante. “O espaço do estranho corresponde, em certa medida, ao deslocamento entre o real e o simbólico que normalmente funcionam soldados pelo imaginário”.121 Para Lacan: a estrutura de linguagem é capaz, não exatamente de uma adequação absoluta entre a linguagem e o real, mas de introduzir no real tudo o que nos é acessível de forma operatória. A linguagem entra no real e cria a estrutura. Nós participamos desta operação e, dela participando, somos nela incluídos, implicados numa topologia rigorosa e coerente que faz com que toda porta forçada num ponto desta estrutura não exista sem 122 referência, indicação estrita do ponto onde está a outra abertura. O sentido do mundo é garantido por um espaço imaginário que une real e simbólico, assim o local da estranheza é adentrar neste campo, que é um lugar ambíguo, e passar por circunstâncias especiais a se revelar como espaço de dimensões próprias e perigosamente elásticas. Lacan indica que se pensa a alma, o espaço psíquico, como um mundo fechado, a partir de uma concepção do universo também como espaço fechado. O Unheimlich seria, então, o sentimento proveniente de um 120 LACAN, Jacques. S X - sessão de 06/12/6, p. 27 VIEIRA, Marcus André. A ética da paixão: uma teoria psicanalítica do afeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001, p. 211 122 LACAN, Jacques. S X - sessão de 06/12/6, p. 27 121 59 momento de apreensão do infinito que insiste entre estes dois mundos e 123 que os desesferiza. Percebe-se que neste ponto a representação esférica do eu está como que suspensa, paralisada em sua função. O estranho se articula a uma vacilação desta imagem totalizante, engendrando a sensação de despersonalização angustiante que lhe é característica. Esta vacilação implica, forçosamente, uma vacilação do duplo que a imagem do eu se constitui.124 Assim, o estranho é o local das incertezas, principalmente no eixo eu-outro. 2.7 Afetos A questão do estranhamento está ligada à área dos afetos. De um modo sutil, Freud tratou do assunto sem, no entanto, deixar uma teoria específica a respeito. Uma visão mais detalhada para o assunto foi dada por Lacan, que lista quatro termos-chave: afeto, paixão, emoção e sentimento. Aqui apenas interessa o afeto e suas manifestações, principalmente com relação ao estranhamento. “O afeto é, assim como a fantasia, encenação, espelhamento imaginário da irrupção do real. ‘Deve-se representar’ ou ‘deve-se salvar o fenômeno’ é o que ele diz”. Devemos tomá-lo como o sujeito na cena da fantasia. “Neste teatro, sendo, entretanto, ele próprio fala. Expressa a incorporação de um roteiro significante, incluindo-se aí a possibilidade de uma rota de encontro com o real”.125 É importante salientar que o afeto não está no inconsciente, tampouco na pulsão, ele é visível enquanto fenômeno. Podemos dizer que o afeto é a marca fenomênica do comparecimento do sujeito. Freud já dizia que a literatura constitui-se na melhor fonte de formação para os estudos psicanalíticos. Anos depois, Lacan alarga a reflexão sobre psicanálise no confronto com outras disciplinas - da antropologia à lógica, à matemática e à 123 VIEIRA, Marcus André. 2001, p. 212 VIEIRA, Marcus André. 2001, p. 212 125 VIEIRA, Marcus André. 2001, p. 238 124 60 topologia –, no entanto, é a arte em geral e a literatura em especial que recebem sua maior atenção. O papel da literatura foi sempre tão importante nos trabalhos de Freud que em 1895 o estudioso admira-se de que as suas histórias de doentes se leiam como romances e que, de certo modo, não apresentem o caráter sério da ciência. Constata que os métodos científicos utilizados em medicina não têm qualquer valor para o estudo da histeria, enquanto que uma apresentação aprofundada dos processos psíquicos, seguindo a maneira dos poetas, permite uma certa inteligência do desenrolar daquela patologia. Aquilo de que se trata é da forma e do conteúdo. Nos escritos freudianos é a ficção que, como o material recalcado, retorna no real do sério científico, não só porque ela é objeto de análise, mas porque lhe dá a forma. É a partir de uma relação interna com a literatura que a psicanálise vai auxiliar, e vice-versa, na compreensão dos processos psíquicos. Foi no campo das letras que Freud foi buscar o conteúdo e a forma da psicanálise: ele lê a cura como um romance, ouve os lapsos, ironias, atos falhos e sonhos como um texto literário. Reciprocamente, a escrita da “ficção” analítica ensina a ler a literatura. O texto literário é como que um jogo, um espaço em que se combinam e se experimentam as práticas sutis da relação do eu com o outro. Ao apoiar-se na retórica da literatura Freud devolve ao texto literário o estatuto de ficção teórica que permite reconhecer e produzir os modelos necessários a qualquer explicação histórica e subjetiva. Julia Kristeva lembra que ao esquema da comunicação lingüística a psicanálise substitui um modelo que postula que qualquer ato de linguagem implica um sujeito falante, mas também desejante. Sujeito que não é, mas que se produz no trabalho discursivo. Nessa medida, a atenção do crítico tem de dirigir-se ao ato de narração e não ao seu objeto. É enquanto narração que se dirige ao outro que o texto literário faz surgir para aquele que o lê as suas próprias emoções enterradas fazendo dele um sujeito desejante.126 A psicanálise representa no estudo da Teoria da Literatura uma ferramenta capaz de auxiliar no entendimento da obra literária. E é com a ajuda das teorias 126 CEIA. Carlos. Dicionário de termos literários – crítica psicanalítica. ISBN: 989-20-0088-9, 2005, PASSIM 61 desenvolvidas por Freud e Lacan que se buscará compreender alguns dos aspectos mais relevantes da obra de José Saramago – O ano da morte de Ricardo Reis. 62 3. Saramago e a cena romanesca Enquanto Fernando Pessoa povoou e povoa a mente de seus leitores com poemas profundos, atuais e inquietantes, com uma personalidade múltipla, por vezes assustadora, mas sempre sedutora; o escritor José Saramago também tem conquistado o público com romances que remexem o passado português e que tentam, de uma certa maneira, reconhecer as cenas e personalidades que marcaram a construção de seu país. Saramago é considerado por muitos o maior romancista português vivo; ou, conforme José Paulo Paes, aquele que faz a melhor prosa de ficção da Língua Portuguesa de nossos dias. A literatura de Saramago embasa-se no Neo-Realismo difundido em Portugal a partir de 1938. Essa corrente literária traz como característica principal uma nova visão da realidade portuguesa, de certa maneira análoga à da Geração de 70, mas que critica o elitismo pedagógico, uma vez que visa a conscientização e dinamização de classes sociais mais amplas. Influenciado, portanto, pelo Neo-Realismo (e também pelo RealismoNaturalismo), mas buscando a todo tempo dar contornos peculiares ao seu texto, Saramago encontrou um estilo bastante pessoal na literatura atual: suas parábolas são muito criativas e nem sempre de fácil intelecção; os sinais de pontuação são todos substituídos por vírgulas ou pontos finais; a organização sintática lembra o conceptismo barroco; o vocabulário é repleto de termos eruditos; o diálogo com outros textos importantes da língua é freqüente. Ainda assim, Saramago foi consagrado pelos leitores, que normalmente preferem textos mais acessíveis. O sucesso espanta o próprio autor, que pergunta: “Sugiro uma investigação nesse sentido: por que livros que realmente não são de leitura fácil tiveram e continuam a ter tantos leitores, sendo tão evidente que o autor não faz concessões de qualquer espécie?” Ele mesmo dá sua resposta: “Ouso pensar que os leitores encontrem 63 nesses livros, não digo uma resposta, mas os ecos das suas próprias inquietações e, sendo assim, não permitem que as dificuldades os vençam”.127 O Mundo Literário de José Saramago é constituído por quatro elementos fundamentais : Primeiro, a dúvida do homem moderno numa dupla lógica de assumir uma posição crítica sobre o passado e, ao mesmo tempo, aprender com o passado. Segundo, a introdução dos elementos sobrenaturais, ou seja, fantásticos, não se distanciando, no entanto, do mundo real. Terceiro, a tentativa de uma nova linguagem que altera a sua expressão gráfica e pontual, respeitando a sintaxe da narrativa comum. Por último, a viagem não só no mundo real, mas também no interior do Homem através da imaginação. Com estes elementos de 'tempo', 'sobrenatural', 'torrencialidade da narrativa' e 'a viagem' que se interpenetram as suas obras procuraram a utopia através de alusões alegóricas, críticas e 128 éticas. Assim, Saramago tem buscado, nas obras publicadas desde Levantado do Chão, a harmonia entre a realidade e a imaginação através de trabalhos que pretendem unir numa só empreitada os planos expressivos da fala, do pensamento e da escrita. Por isso, uma relação de quase simbiose entre o narrador e a matéria narrada, o discurso interior e as tensões internas do discurso narrativo são importantes na compreensão de suas obras. O que se denota facilmente nos seus romances é o espírito renovador e experimental em procurar um estilo muito pessoal. Não é só o elaborado trabalho de linguagem que chama a atenção, Saramago aborda profundamente os problemas do Portugal contemporâneo e da identidade do povo lusitano – além de apresentar o rumo que Portugal deverá seguir e sua visão de mundo, o escritor procura a identidade do homem perdida na sociedade moderna. A grandeza das obras de Saramago reside no esforço de evocar a História e a identidade da 'pátria perdida', juntamente com a procura de uma nova linguagem literária em que se afirma o seu espírito experimental. A bibliografia do escritor é vasta, composta de poemas, teatro, crônicas, diário, roteiro turístico e romances. E é com o romance que Saramago destaca-se no cenário lusitano e mundial como escritor de renome. Para muitos, seus melhores 127 CALBUCCI, Eduardo. Saramago: um roteiro para os romances. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999, p. 14 YONG-JAE, Kim. Saramago no cenário português - O Mundo Literário de José Saramago. Departamento de Português da Universidade de Pusan. Coréia do Sul – Instituto Camões. Disponível em: <http://www.instituto-camoes> 128 64 textos estão em Memorial do Convento (1982), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) e Ensaio Sobre a Cegueira (1995). Saragamo começou a publicar em 1947 (Terra do Pecado), mas é a partir de Memorial do Convento (1982), logo após o sucesso de Levantado do Chão (1980), que sua literatura firma-se com traços singulares de estilo. Em Memorial do Convento apresenta a história de Portugal através da construção do Convento de Mafra por D. João V, assim como a história do amor entre Baltazar Sete-Luas e Blimunda Sete-Sóis, envolvidos na construção da passarola, uma máquina de voar idealizada e projetada pelo padre Bartolomeu Dias. A primeira história, irônica e crítica, revela episódios sobre a construção do Convento de Mafra, um grandioso monumento construído pelo rei D. João V, que persuadido pelo clero oferece a obra a Deus para que a rainha engravide e lhe dê um herdeiro. A construção do convento envolve o sacrifício da população pobre, fazendo muitas vítimas no carregamento da grande pedra para o pórtico. Saramago satiriza e ridiculariza os hábitos da realeza, desnudando o poder exercido pela elite e pelo clero sobre o povo oprimido. A segunda história, com a qual a primeira se entremeia, é do amor entre Blimunda e Baltazar; pessoas humildes do povo que se unem ao padre Bartolomeu Lourenço em seu sonho de voar, através da construção de uma máquina, a qual chamam de passarola. Blimunda tem poderes especiais, consegue ver as pessoas por dentro e se torna a responsável por captar as vontades das pessoas moribundas. As vontades são recolhidas e servem de combustível para a passarola, uma espécie de metáfora de liberdade. Padre Bartolomeu, Baltazar e Blimunda conseguem fazer com que a máquina voe, porém o padre idealizador passa a ser perseguido pela inquisição e foge para Toledo, onde acaba morrendo tempos depois. Baltazar e Blimunda cuidam da passarola que foi escondida. Baltazar durante a manutenção da máquina acaba voando nela e não mais voltando; Blimunda procura-o por nove anos por todas as partes do país, até que em Lisboa, durante um auto de fé, reconhece Baltazar a caminho da fogueira. Quando Baltazar está para morrer, sua vontade se desprende e é finalmente recolhida dentro do peito de sua amada Blimunda. No romance A Jangada de Pedra (1986) o leitor depara-se com uma história um tanto insólita, quando um abalo de terra que nenhum sismógrafo registrou abre 65 uma fenda enorme na crosta terrestre ao longo da fronteira entre Espanha e França. Aos poucos, a Península Ibérica parte à deriva, como uma jangada de pedra. Em outra obra, o autor trata da independência política de Portugal, que se constituiu sempre em uma dúvida entre estudiosos da área, já que nunca houve unanimidade quanto à data deste fato. O motivo está relacionado a um processo de independência que se deu durante todo o século XII – envolvendo a monarquia castelhana e uma disputa territorial constante com os mouros. O processo de independência passou por inúmeras revoltas, até que, com o aval da Santa Fé, foi reconhecida a nova monarquia. No entanto, os problemas não findaram, em 1140, sob a égide de Afonso Henriques, Portugal ainda sofria uma forte influência de Castela e muitas cidades do país, inclusive Lisboa, ainda estavam tomadas pelos mouros, de modo que a soberania lusitana permanecia ameaçada. Para os portugueses, a retomada dessas cidades tornou-se símbolo da afirmação nacionalista. José Saramago, em um romance de raízes históricas, explora em História do Cerco de Lisboa a retomada da capital portuguesa em 1147. A obra, no entanto, não se passa apenas na Idade Média, e sim em pleno século XX, quando um revisor de textos – Raimundo Benvindo Silva – depara-se com uma incrível e nova versão do cerco de Lisboa. No romance, o autor explora os espaços da literatura e da história. O Novo Testamento é composto de quatro evangelhos, escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João; juntamente com O Ato dos Apóstolos constituem-se em livros históricos que narram a vida Jesus. Dos quatro evangelistas, apenas João conheceu Jesus, sendo até mesmo seu apóstolo, os outros textos são posteriores à crucificação. Certamente outros escritos houve, textos que até serviram de base para os livros que hoje compõem a Bíblia, mas foram pouco valorizados, tendo sido chamados de evangelhos apócrifos. Em seu evangelho, Lucas afirma que mesmo sem ter sido testemunha dos acontecimentos que narra, julga-se no direito de ser um porta-voz da doutrina cristã; tomando a idéia de Lucas, muitos outros aventuraram-se em narrar sobre Jesus. Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos, resolve fazer o seu evangelho, onde Jesus é um menino, que cansado da estupidez do céu católico, abandona a Trindade para viver como camponês. Ao final do poema, diz: Esta é a história do meu Menino Jesus. 66 Por que razão que se perceba Não há de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam 129 E tudo quanto as religiões ensinam? Partilhando da idéia de Pessoa e amparado pelo evangelista Lucas, Saramago escreve O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Seu livro abre com a epígrafe: Já que muitos empreenderam compor uma narração dos fatos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investido cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que 130 reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído. Em Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago perfaz uma verdadeira desconstrução, num movimento que é a um só tempo irônico, paródico e metaficcional. A essência do Evangelho saramagueano é o mesmo do Evangelho cristão; no entanto, o modo de narrar, os expedientes de que se vale, as inversões que consuma subvertem a grande história bíblica, anunciando uma nova ordem – a solidificação de um Cristo humano e de um homem divinizado. Na obra fica bastante evidente que o romance é o gênero que permite todos os processos de metaficção, de paródia, de intertextualidade, dentre outros. Também é o gênero em que a transgressão tem farto campo, como bem demonstra o autor, através da completa liberdade com que passeia pelo terreno da História e da ficção, fazendo de sua obra o espaço de todos os possíveis — literários, humanos e divinos. Publicado em 1995, Ensaio Sobre a Cegueira vai muito além de um simples ensaio, como o título sugere. Nas palavras do próprio autor é possível perceber a profundidade do enredo: Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da 129 130 PESSOA, Fernando. 2007, poema VIII, p. 212 SARAMAGO, José. Evangelho Segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 11 67 escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos 131 coragem para reconhecer isso. Tudo começa com a cegueira repentina de um homem ao estar parado no sinal vermelho. A luz verde acende, o carro continua parado e o buzinaço atrás dele anuncia o pandemônio que está por vir. O homem apavorado dentro do carro começa a gritar que está cego e ninguém entende o que está acontecendo. Sua cegueira é branca, um mar de leite – é como ele a descreve. Congestionamento, xingamento, curiosidade e pena são somente algumas das reações à inexplicável cegueira daquele indivíduo. Neste ponto, Saramago apresenta o que o leitor vai perceber aos poucos e confirmar no final do livro: as reações do ser humano às necessidades, à incapacidade, à impotência, ao desprezo e ao abandono. O cego no semáforo é ajudado por outro homem, que o leva em casa e rouba-lhe o carro. Mas o ladrão não tem tempo para usufruir da nova aquisição, porque a cegueira também o atinge. O médico que atende o cego, também cega, assim como cegam todos os seus pacientes presentes na sala de estar no momento em que o primeiro cego chega. E uma cadeia sucessiva de cegueira vai se formando. Uma cegueira diferente, uma treva branca. O governo não demora a perceber que se trata de uma epidemia e toma providências. O mundo dos cegos está criado e também a luta pela sobrevivência. Alguns cegos, inicialmente isolados pela doença, conseguem se organizar; assim o poder, a obediência, a ganância, o carinho, o desejo, a vergonha e outras características do ser humano vão se destacando. O sentimento, a ação e a atitude de cada indivíduo passam a ser suas identidades, pois as personagens não têm nomes. Este mundo não distingue os animais, pois os racionais passam a se guiarem mais pelo instinto. O mundo tende à extinção. Felizmente, tão de repente como veio, a cegueira se vai, restando a contemplação. Não se pode negar que a arte romanesca do escritor é profunda e inquietante. Saramago invoca a tradição, buscando (re) escrever páginas da história e, o mais importante, procura dar a seu povo referências. Na área literária, campo de estudo e base de idéias desse trabalho, vê-se florescer em O Ano da Morte de Ricardo Reis a referência a um pai literário, aquele que, não sendo reconhecido em vida, fez por Portugal o que nenhum outro escritor fez. 131 SARAMAGO, José. Em apresentação pública de seu romance Ensaio sobre a Cegueira. Disponível em: < http://www.crmariocovas.sp.gov.br/ntc_l.php?t=0100> 68 Em carta a Adolfo Cais Monteiro, no ano de 1935, Fernando Pessoa afirma que Reis e Caeiro surgiram praticamente ao mesmo tempo, do desejo que Pessoa teve de inventar um poeta pagão. Nesta mesma carta, Pessoa faz uma descrição do heterônimo, dando-lhe data de nascimento – 1887, “não me lembro do dia e do mês, mas tenho-os algures”.132 Assim como Álvaro de Campos, Ricardo Reis tem apenas data de nascimento. Valendo-se desse descuido de Pessoa, José Saramago narra o último ano da vida do médico como se ele realmente existisse e não fosse mais uma máscara poética. Os fatos narrados são contados a partir da morte de Fernando Pessoa, 30 de novembro de 1935, centrando-se no clássico Reis. O romance inicia com a chegada de Reis a Lisboa, dezesseis anos após terse mudado para o Brasil. O motivo é claro: um amigo chamado Fernando Pessoa morreu, fato que ficou sabendo graças a um telegrama do também amigo Álvaro de Campos. Reis hospedasse no Hotel Bragança, seu quarto fica de frente para o Tejo, paisagem que está sempre a contemplar. Um dia vai ao cemitério visitar o túmulo do amigo e sente remorso por ter ficado tanto tempo longe. Certa noite, ao voltar para o quarto percebe uma luz acessa – “Ricardo Reis repara que por baixo da sua porta passa uma réstia luminosa, ter-se-ia esquecido”133 – qual não é sua surpresa ao deparar-se com o amigo Fernando Pessoa: Sentado no sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente apesar de não o ver há tantos anos, e não pensou que fosse acontecimento irregular estar ali a sua espera Fernando Pessoa, disse Olá, embora duvidasse de que ele lhe responderia, nem sempre o absurdo respeita a lógica, mas o caso é que respondeu, disse Viva, e estendeu-lhe a mão, 134 depois abraçaram-se. Para Eduardo Calbucci, o lado fantástico desse diálogo é evidente: um fantasma conversando com um sujeito que nunca existiu. Porém a naturalidade das falas dá um tom suave à fantasia, e o leitor consegue tranqüilamente aceitar os encontros 135 entre Reis e seu criador. Esta ligação entre Reis e Pessoa dura aproximadamente nove meses. Saramago conduz o leitor através de uma idéia inovadora: demora-se nove meses 132 PESSOA, Fernando. 1974, p. 97-98 SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 76 134 SARAMAGO, José. 1988, p. 76 135 CALBUCCI, Eduardo. 1999, p. 40 133 69 para chegar ao mundo, e demora-se o mesmo tempo a deixá-lo. É um processo de transição, durante o qual o morto vai esquecendo o que foi estar vivo, os caminhos percorridos, os sentimentos vividos. Descobre que nada importa. Nada do que se vive importa. Chegado ao fim desse tempo, o morto está pronto para partir. Neste entremeio, Reis se envolve em questões amorosas. Conhece no hotel duas moças com quem tem casos: Lídia,136 uma arrumadeira, e Marcenda, uma hóspede. Aqui os aspectos intertextuais com a obra de Pessoa tornam-se mais fortes, uma vez que Lídia e Marcenda são musas dos poemas de Ricardo Reis. Várias falas de Reis estão fundamentas em recriações de versos do heterônimo pessoano. As musas são rebaixadas no plano literário de figuras idealizadas e sublimes a personagens humanas, com virtudes mas também com defeitos. Lídia chega a engravidar, Reis sugere que ela faça um aborto. Porém, apesar da indiferença de Reis, ela opta por enfrentar sozinha a gravidez e a criação do filho. Marcenda, por sua vez, a mulher bem educada, rica, que tem a mão esquerda paralisada, evoca sentimentos mais líricos por parte de Reis. O poeta chega a lhe propor casamento, mas ela já não mais se hospedando em Lisboa manda uma carta rompendo o relacionamento. Fernando Pessoa, conhecendo os amores mundanos de Reis, ironiza o fato de que os amores reais de Reis pouco ou quase nada têm a ver com as suas musas idealizadas. Grandes nomes da literatura universal aparecem no texto de Saramago, como Dante, Bernardin Ribeiro, Cervantes, Camões e Virgílio. E no entanto este também é poeta, não que do título se gabe, como se pode verificar no registro do hotel, mas um dia não será como médico que pensarão nele, nem em Álvaro como engenheiro naval, nem em Fernando como correspondente de línguas estrangeiras, dá-nos o ofício o pão, é verdade, porém não virá daí a fama, sim de ter alguma vez escrito, Nel mezzo del camon di nostra vita, ou, Menina e moça me levaram da casa de meus pais, ou, Em um lugar de la Mancha, de cuyo no quiero acordar-me, para não cair mais uma vez na tentação de repetir, ainda que muito a propósito, As armas e os barões assinalados, perdoadas nos sejam as 137 repetições, Arma uirumque cano. 136 Na literatura portuguesa, Lídia está intimamente associada à poesia de Ricardo Reis. Os três nomes femininos que surgem nas odes de Ricardo Reis – Lídia, Neera e Cloe – provêm da poesia de Horácio, e constituem elementos textuais significativos, pois são nomeadas muitas vezes, cabendo a Lídia o maior número de referências. 137 SARAMAGO, José. 1988, p. 71 70 Percebe-se, assim, que a intertextualidade é marca forte em O Ano da Morte de Ricardo Reis, essa multi-referencialidade que perpassa o livro o transforma num romance que transcende a si próprio, posicionando-o numa tradição literária simultaneamente clássica e moderna, portuguesa e internacional. Entre passeios, lembranças e conversas com Pessoa, Reis passa os dias. Seus amores, Lídia e Marcenda, não o preenchem, e o médico sente-se só. Sobre a solidão, Pessoa diz que: a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que 138 isso, solitário estar onde nem nós próprios estamos. Os meses passam, numa tarde ao voltar para casa depois de ter saído para procurar Lídia e não encontrá-la, Ricardo ouve baterem à porta, vai abrir e vê diante de si Fernando Pessoa. Os dois conversam, Ricardo percebe que o poeta está mais abatido; em seguida ouve o tilintar de um relógio, acha estranho nunca ter reparado na existência de tal objeto. O poeta levanta-se e diz que seu tempo ali acabou. Ricardo então arruma a gravata e pega o livro que ainda não acabara de ler, pois sempre algo o interrompe, por isso ainda não conseguiu sair desse Labirinto de Deus (The god of labirinty). Estranho é que a mesma sensação o domina quando anda pelas ruas de Lisboa, está a refletir sobre isso quando o poeta o interrompe em seus devaneios e pergunta-lhe por que está segurando aquele livro, como se o fosse levar consigo; Ricardo diz que agora terá muito tempo para ler, o poeta o adverte sobre a primeira perda que se tem, quando se vai para o outro lado, que é a capacidade de ler. Ricardo abre o livro, vê sinais inelegíveis, mas mesmo assim decide por levá-lo junto. Pessoa diz: “Então vamos (...) Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera”.139 Tomar Ricardo Reis como ponto de partida e como personagem principal da obra foi desafiador, uma vez que Reis foi dotado de um físico preciso, de uma 138 139 SARAMAGO, José. 1988, p. 227 SARAMAGO, José. 1988, p. 428 71 biografia e de um mestre pensador – Alberto Caeiro. Publicado originalmente em 1984, O Ano da Morte de Ricardo Reis situava-se em um contexto favorável a uma recepção atenta da obra, visto ser o cinqüentenário de morte do poeta. O romance de Saramago faz-se beirando as fronteiras do real e da ficção, mas também a fronteira da palavra. A obra é uma negação das categorias de verdadeiro e falso, de esvaziar as noções do seu conteúdo. Como bem lembra Pessoa: “não tenho nenhuma prova de que Lisboa tenha também existido, ou eu que escrevo, ou qualquer outra coisa noutro lado qualquer”. Assim como Fernando Pessoa guiou sua vida e obra para a concretização de um projeto: elevar ao máximo grau a poesia, sentindo e vendo em todos os lugares e cantando sua terra. Também José Saramago constrói sua obra a partir de um projeto: revelar aos olhos portugueses aquilo que ficou esquecido, relegado a segundo plano, aos que apenas tinham olhos e ouvidos para o passado. Os dois autores constroem uma literatura Moderna, que discute situações do sujeito diante dessa modernidade. Saramago, em O ano da morte de Ricardo Reis vai a fundo na questão literária de seu país, não é a toa que resgata Pessoa e Reis para construir o enredo do romance. Fernando Pessoa é o poeta que discute a multiplicidade do sujeito da Modernidade e a identidade deste sujeito, por isso Saramago se vale de suas idéias estéticas e de suas multifacetas para levar ao povo lusitano uma outra proposta de ver o país, seus feitos, seus escritores, sua história. Para tanto, chama à vida dois poetas importantes e lhes mostra o espetáculo de 1936. Mas o leitor não deve concentrar sua atenção apenas no relato histórico, porque, como já foi mencionado, o cenário serve apenas para revelar a grandiosidade da vida. Por trás disso há uma intenção maior: discutir a questão da identidade poética em Portugal, apontando Fernando Pessoa não só como uma referência literária, mas como um pai literário. 3.1 Na trama de Saramago 72 O romance O Ano da Morte de Ricardo direciona o leitor ao mundo de Fernando Pessoa e dá vida a um de seus heterônimos mais conhecidos – Ricardo Reis –, fazendo-o personagem principal de uma trama que envolve poesia, sentimentos e remete a um cosmos de subjetividade e expectativa. Saramago valeu-se da produção heteronímica de Fernando Pessoa, uma vez que o próprio poeta personalizou suas criações dando-lhes uma biografia e autonomia. O romancista criou uma ficção, que como qualquer ficção, não esgota os processos de criatividade, mas viabiliza a compreensão e interpretação. Além disso, deu a Ricardo Reis a data de sua morte; porém, como afirmou o escritor, fê-lo regressar a Portugal, para residir em Lisboa durante vários meses, até o momento em que ele mesmo decide reunir-se pela morte ao poeta seu criador primeiro. A produção heteronímica na obra do poeta português figura como um diálogo entre Pessoa em relação a si próprio e ao mundo, na busca de maneiras de existência, onde se processariam as alteridades entre o subjetivo e o objetivo, entre a sensibilidade e o pensamento.140 Sendo assim, a análise da obra será direcionada sob dois eixos: de um lado será enfocada a subjetividade, considerando o campo dos afetos como profícuo para a compreensão do que o romancista, associado às idéias do poeta, busca desenvolver. Vale salientar que a melancolia perpassa as odes de Reis e reflete no romance: é um olhar para o passado, lembranças de heroísmo, de descobrimentos. Por outro lado, a resposta a esta áurea de saudade só parece ser uma: a invenção sobrevive à morte, à perda, é ela quem dá esperança ao espetáculo da vida. Vê-se que lembranças, heroísmos, descobrimentos, não resolvem a vida e viver de passado não serve para alimentar o corpo, muito menos a alma. São necessárias novas estratégias e investimentos em outros afetos – para tanto, Saramago aponta o campo da cultura como saída para essa vida de apenas recordações: surge, então, a figura simbólica de Fernando Pessoa, a qual a obra encaminha para a identificação com um pai literário. A obra tem início com um intertexto de Camões – “Aqui o mar acaba e a terra principia”141 – remetendo ao término do trajeto percorrido por Reis do Brasil a Lisboa, e encerra com uma variante – “Aqui, onde o mar se acabou e a terra 140 GONÇALVES, Robson Pereira. O sujeito pessoa: literatura e psicanálise. Santa Maria: Ed. UFSM, 1995, p. 36 141 SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 7 73 espera”.142 As duas referências indicam uma concepção de circularidade – começo e fim. Saramago vai escolher como sustentáculo de seu romance um expatriado, um dos heterônimos para o qual Pessoa não previu um fim. O retorno de Ricardo Reis a Portugal deu-se no ano em que Fernando Pessoa morre – 1935. A personagem é trazida de volta à pátria após 16 anos e aí se depara com Pessoa, com Lídia e Marcenda. Reis busca em Portugal o reconhecimento de um pai, esta não é uma busca apenas para si, mas para sua própria terra natal. Desse modo, criar um ambiente crível entre ficções reunidas no romance foi um dos desafios de Saramago. O escritor português trouxe à vida um poeta já falecido e seu heterônimo, além de personagens das odes de Reis. A teia que envolve o enredo foi muito bem trançada, dando lugar a uma trama perturbadora e questionadora – quem somos? Quais nossas origens? Quem é nosso pai? No processo de escritura, o autor não se preocupou apenas com as personagens, com o Portugal de 1935, mas carregou sua obra de pistas acerca dos poemas de Fernando Pessoa e Ricardo Reis. As correntes estéticas são uma forte presença, como o sensacionismo, que eleva à última potência o sentir. Neste campo, discutiremos questões ligadas à teoria psicanalítica do afeto, com o intuito de melhor compreender a obra O ano da morte de Ricardo Reis. 3.2 O poeta das odes e das musas O romance O ano da morte de Ricardo Reis é permeado de citações de textos poéticos. Saramago constrói sua obra utilizando como fio narrativo a retomada de um dos heterônimos de Fernando Pessoa quando vale-se das odes criadas por Reis para caracterizar seu personagem. Nascido em 19 de setembro de 1887, conforme indica seu mapa astral, possuía uma forma própria e uma pessoa estética, tendo recebido, nas palavras de Fernando Pessoa, “toda minha disciplina mental, vestida da música que lhe é 142 SARAMAGO, José. 1988, p. 428 74 própria“.143 Pessoa afirma que Ricardo Reis apareceu-lhe dentro da alma em 29 de janeiro de 1914, às 11 horas da noite.144 Conforme descreve, no dia anterior estivera ouvindo discussões acerca da arte moderna e seus excessos – ”segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reação momentânea”145 – e refletindo sobre o que ouvira e vira percebeu que estava dando início a uma teoria neoclássica. Sua opinião era a de que: Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adoto nem aceito. Ocorreu-me a idéia de a tornar um neoclassicismo científico [...] reagir contra as duas correntes – tanto contra 146 o romantismo moderno, como contra o neoclassicismo à Maurras [...] Desta maneira, surgem as primeiras características de Ricardo Reis – poeta descrente das idéias que vinham emergindo acerca do romantismo e de um classicismo piegas. A obra de Reis resume-se num epicurismo triste, resultado de uma filosofia que defende o prazer do momento como caminho da felicidade, sem no entanto ceder aos impulsos do instinto – apesar do prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranqüilidade. Acredita que todos devem viver a própria vida, isolando-se dos outros e procurando apenas, dentro de uma sobriedade individualista, o que lhe agrada e apraz. Dos prazeres violentos é preciso desviar sem, no entanto, fugir às sensações dolorosas que não sejam extremas. O que se busca é um mínimo de dor, indo de encontro à calma, tranqüilidade, abstendo-se do esforço e da atividade útil. Para Frederico Reis, uma das tantas personalidades criadas por Pessoa: Esta doutrina, dá-a o poeta por temporária. É enquanto os bárbaros (os cristão) dominam que a atitude dos pagãos deve ser esta. Uma vez desaparecido (se desaparecer) o império dos bárbaros, a atitude pode 147 então ser outra. Por ora não pode ser senão esta. Se a calma não está ao alcance, que ao menos se tenha a ilusão de tê-la, assim como a liberdade e felicidade, uma vez que tais sentimentos são inatingíveis. 143 PESSOA, Fernando. Obras em prosa. 1ª ed. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974, 144 PESSOA, Fernando. 1974, p. 139 145 PESSOA, Fernando. 1974, p. 139 146 PESSOA, Fernando. 1974, p. 139 147 PESSOA, Fernando. 1974, p. 140 75 Com relação à liberdade, crê que nem os próprios deuses a têm; “quanto à felicidade, não a pode ter quem está exilado da sua fé e do meio onde a sua alma deveria viver”.148 Frederico ainda comenta a respeito dos textos de Reis que: Quanto à calma, quem vive na angústia complexa de hoje, quem vive sempre à espera da morte, dificilmente pode fingir-se calmo. A obra de Ricardo Reis, profundamente triste, é um esforço lúcido e disciplinado para 149 obter uma calma qualquer. Todas estas idéias que permeiam a poesia de Reis embasam-se em uma crença nos deuses da Grécia antiga. Sua fundamentação helenista conota à poesia um tom rigoroso, voltado à forma. Seguindo os passos daquele a que chama “mestre” (Caeiro), o poeta procura o prazer nos limites do ser humano frente ao destino e à brevidade da vida. Crê que a sabedoria real é viver de maneira equilibrada e serena, sentimento que não é perturbado pelo medo da morte, já que todo bem e todo mal se encontram na sensação, e a morte é a ausência de sensibilidade, portanto de sofrimento. Para ele, nunca nos encontraremos com a morte, porque quando nós somos, ela não é, e quando ela é, nós não somos mais. Apreciador da cultura clássica, Ricardo Reis constrói uma poesia bucólica e pastoral, baseada em pensamentos elevados e neoclassicismo científico, segundo descrição de Pessoa. fundamentada em um A intemporalidade das suas preocupações, a angústia da brevidade da vida, a inevitável morte e a interminável busca de estratégias de limitação do sofrimento que caracteriza a vida humana fazem com que o poeta busque disfarçar o sofrimento resultante da consciência aguda da precariedade da vida. O entendimento da vida dá-se influenciado por idéias epicuristas e estóicas, com vistas a garantir ao homem o bem supremo, a serenidade, a paz e a apatia, assim como a filosofia do carpe diem. A respeito do epicurismo, filosofia moral de Epicuro (341-270 a.C.), defendia o prazer como caminho da felicidade. Para que a satisfação dos desejos seja estável é necessário um estado de ataraxia, isto é, de tranqüilidade e sem qualquer perturbação. O poeta romano Horácio seguiu de perto este pensamento de defesa do prazer do momento, ao considerar o carpe diem (aproveita o dia, colhe o momento) como necessário à felicidade. No epicurismo não 148 149 PESSOA, Fernando. 1974, p, 140 PESSOA, Fernando. 1974, p. 140 76 se trata do prazer imediato, como é desejado pelo homem vulgar; trata-se do prazer imediato, refletido, avaliado pela razão, escolhido prudentemente. É preciso dominar os prazeres e não se deixar por eles dominar. O prazer espiritual diferencia-se do prazer sensível, porquanto o primeiro se estende também ao passado e ao futuro e transcende o segundo, que é unicamente presente. Seu objetivo acima de tudo era libertar as pessoas do medo da morte, pois não se pode fugir do destino, devendo tirar o melhor partido da única vida que se tem – desfrutando dos prazeres com moderação. Já o estoicismo considera ser possível encontrar a felicidade desde que se viva em conformidade com as leis do destino que regem o mundo, permanecendo indiferente aos males e paixões, que são perturbações da razão. O ideal ético é a apatia, que se define como a ausência de paixão permitindo a liberdade, mesmo sendo escravo. Dado que a natureza é governada por princípios racionais, há razões para que tudo seja como é. Não se pode ter o desejo de mudar isso, pois a atitude perante a mortalidade, ou o que nos parece ser uma tragédia pessoal, deve ser de serena aceitação. A vida ideal que aspira à liberdade e à paz como bens supremos consiste na renúncia a todos os desejos possíveis, aos prazeres positivos, físicos e espirituais; e, por conseguinte, em vigiar-se, no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento, da emoção, da paixão. Não ser perturbado no espírito, abnegando os desejos, visto ser o inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade, que é precisamente liberdade e paz. O poeta busca estar longe de paixões e rejeita o apego às coisas intensas da vida – filosofia que resulta da disciplina da razão, a qual é colocada acima das sensações. Assim sendo, para enfrentar o medo da morte, é preciso viver cada instante que passa, sem pensar no futuro, numa perspectiva epicurista do carpe diem. No entanto, essa vivência do prazer de cada momento tem que ser feita de forma disciplinada, digna, encarando com grandeza e resignação esse destino de precariedade, numa perspectiva que tem raízes no estoicismo. As poesias de Reis deixam transparecer que o único bem é o prazer, como o único mal é a dor; nenhum prazer deve ser recusado, a não ser por causa de conseqüências dolorosas, e nenhum sofrimento deve ser aceito, a não ser em vista de um prazer, ou de nenhum sofrimento menor. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte, pois todo mal e todo bem se acham na sensação, e a morte é a ausência de sensibilidade, portanto, de sofrimento. Reis procura o prazer nos limites do ser 77 humano face ao destino e à brevidade da vida. Faz a apologia da indiferença solene diante do poder dos deuses e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria da vida é viver de forma equilibrada e serena, sem desassossegos grandes. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente 150 E sem desassossegos grandes. Neste trecho do poema Vem sentar-te comigo Lídia... se preconiza uma filosofia de vida que consiste em recusar, renunciar voluntariamente ao prazer momentâneo, evitando os amores, os ódios, as paixões, as invejas, os cuidados. É que, com eles ou sem eles, o destino final é o mesmo: passar, ir para o mar muito longe, para o pé do Fado. Basta amarem-se com tranqüilidade, pensando que se quisessem poderiam “trocar beijos e abraços e carícias”, conforme segue a ode. Mas que “mais vale estar sentado tranquilamente ao pé um do outro”, completa, colhendo flores que suavizem o momento. No campo formal, a poesia de Ricardo Reis revela um estilo trabalhado, rigoroso e clássico. A sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica, favorece o ritmo das idéias disciplinadas. A precisão verbal, os latinismos, o uso de formas estróficas (a ode, a epigrama e a elegia) e métricas (verso decassilábico) de influência clássica e o emprego de arcaísmos vocabulares são marcas do classicismo erudito de Reis. Conforme Álvaro de Campos, no texto Louvor e Crítica a R. Reis: O nosso Ricardo Reis teve uma inspiração feliz (...) quando reduziu a seis linhas a sua arte poética: / Não a arte poética, mas a sua. Que ele ponha na mente altiva o esforço só da “altura” (seja isso o que for), concedo, se bem que me parece estreita uma poesia limitada ao pouco espaço que é próprio dos píncaros. Mas a relação entre a altura e os versos de um certo número de sílabas é-me mais velada. (...) Não concebo, porém, que as emoções, nem mesmo as do Reis, sejam universalmente obrigadas a odes sáficas ou alcaicas, e que o Reis, quer diga a um rapaz que lhe não fuja, quer diga que tem pena de ter que morrer, o tenha forçosamente que fazer em frases súditas que por duas vezes são mais compridas e por duas vezes mais curtas, e em ritmos escravos que não podem acompanhar as frases súditas senão em dez sílabas para as duas primeiras, e em seis sílabas as duas 151 segundas, num graduar de passo desconcertante para a emoção. 150 151 PESSOA, Fernando. Obra poética. Volume único. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, poema 315, p. 256 PESSOA, Fernando. 1974, p. 141 78 Campos reitera o que já é sabido: a poesia de Reis é constituída de um pensamento compactante e métrico e sua inspiração é densa, permeada de uma emoção real – claro que à moda Ricardo Reis. Em Obras em Prosa, Álvaro de Campos escreve a Reis tratando de idéia, emoção e ritmo. Para Campos, a poesia é tida como uma forma de prosa em que o ritmo é artificial – tal idéia é defendida uma vez que o poeta cria artifícios, como pausas especiais e antinaturais, e escreve o texto em linhas separadas, denominadas versos. Estes procedimentos dão uma sugestão rítmica, de cada verso por si mesmo, como “pessoa independente, e uma sugestão acentual, que incide sobre a última palavra do verso, onde se pausa artificialmente, ou sobre a única palavra se há uma só, que assim fica em isolamento”. Ele compreende que esse criar artificialmente um ritmo envolve a questão da emoção, já que a emoção intensa não cabe na palavra: “tem que baixar ao grito ou subir ao canto”.152 Prossegue afirmando que: E como dizer é falar, e se não pode gritar falando, tem que se cantar falando, e cantar falando é meter a música na fala; e, como a música é estranha à fala, mete-se a música na fala dispondo as palavras de modo que contenham uma música que não esteja nelas, que seja pois artificial em relação a elas. É isto a poesia: cantar sem música. Por isso os grandes poetas líricos, no grande sentido do adjetivo “lírico”, não são musicáveis. 153 Como o serão, se são musicais? Em contrapartida, opondo-se às opiniões de Álvaro de Campos, Ricardo Reis deixa claro o que entende por poesia: é música que se faz com idéias, e por isso com palavras. Ricardo Reis compreende que é importante: Considerai que será o fazerdes música com idéias, em vez de com emoções. Com emoções fazeres só música. Com emoções que caminham para as idéias, que se agregam idéias para se definir, fareis o canto. Com idéias só, contendo tão-somente o que de emoção há necessariamente em todas as idéias, fareis poesia. E assim o canto é a forma primitiva da 154 poesia, porque é o caminho para ela, 152 PESSOA, Fernando. 1974, p. 142 PESSOA, Fernando. 1974, p. 142 154 PESSOA, Fernando. 1974, p. 142-3 153 79 Fica clara a concepção que o poeta tem de poesia e ritmo e assim entendese a produção de suas odes e sua posição com relação à emoção – sentimento efêmero. Como já mencionado, Reis é um poeta que busca em Horácio155 uma identidade no que se refere às odes, uma vez que apenas com elas dialoga, renegando as sátiras e epístolas, mesmo que adapte as odes horacianas, baseadas na sílaba longa e breve, aos métodos métricos e rítmicos da língua portuguesa, diferentes do latim clássico – mantém a forma estrófica em sua essencialidade. Enquanto nos poemas de Horácio percebe-se a prática do bem para evitar o mal, em Ricardo Reis o que fica evidente é a indiferença. Em Horácio, vê-se que o fruto é mais importante que a flor; já em Ricardo Reis frutos e flores, colhidos ou não, pouca diferença têm, como se percebe nos poemas Dia após dia e Flores: Colhido, o fruto deperece; e cai Nunca sendo colhido. (...) Flores que colho, ou deixo, 156 Vosso destino é o mesmo. Se em Reis o sentimento é de indiferença, em Horácio há a responsabilidade diante do mundo. O heterônimo abdica da moral, da vida – tudo é inútil, como mostra no poema Flores; Ah, não consegues contra o adverso muito Criar mais que propósitos frustrados! Abdica e sê 157 Rei de ti mesmo Apesar de não ter predileção pela poesia épica, Horácio põe sua lira a serviço do saneamento e da recuperação do Império, exerce um patriotismo crítico, procura agradar e instruir. Detesta a guerra, ama a paz que propicia a realização da prosperidade e do festim, mas crê que se deve lutar quando se trata de uma guerra 155 Quinto Horácio Flaco, filho de um escravo liberto e mãe desconhecida, nascido em 65 a.C. e morto oito anos antes do nascimento de Cristo, viveu num período de paz e prosperidade após a solução dos conflitos sucessórios gerados pelo assassinato de César. 156 PESSOA, Fernando. 2007, poema 352, p. 275 157 PESSOA, Fernando. 2007, poema 368, p. 280 80 justa, o que revela em um de seus mais famosos versos: É doce e belo morrer pela Pátria. Ricardo Reis, por sua vez, só se inquieta se o rei de marfim do jogo de xadrez corre perigo, mesmo que “caiam cidades, sofram povos”, a “ele pouco pesa na alma que lá longe / Estejam morrendo filhos”. Quando escreve “Prefiro rosas, meu amor, à pátria”, pergunta: “Que importa àquele a quem já nada importa”; e responde: “Nada, salvo o desejo de indiferença/ E a confiança mole/ Na hora fugitiva”. No fundo, Horácio aconselha que se faça amor, não a guerra, enquanto Ricardo Reis não aconselha nem uma coisa, nem outra – “Vê de longe a vida. Nunca a interrogues”, pois nada vale a pena. Um traço que Reis mantém de Horácio é o uso de três nomes femininos: Lídia, Neera e Cloe. As musas constituem elementos textuais significativos, já que são nomeadas muitas vezes, cabendo a Lídia o maior número de referências. No entanto, enquanto Horácio ama sem culpa, Reis não deseja ser amado, porque requer uma retribuição que ele não poderia dar – “Não quero, Cloe, teu amor, que oprime/ Porque me exige amor. Quero ser livre”.158 Em Horácio prevalece a idéia de que enquanto houver vida deve haver amor; para Reis, ninguém ama o outro, mas o que há de si no outro - “Ninguém a outro ama, senão que ama/ O que de si há nele”.159 Em Horácio ocorrem todas as manifestações do amor: beijos, carícias, enlaces. Ricardo Reis reconhece que também poderia haver tais coisas entre ele e Lídia – “podíamos,/ Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias –, mas conclui que “não vale a pena cansarmo-nos”.160 O único beijo possível é o de despedida, à hora da morte, quando “já nos toque/ No ombro a mão, que chama/ À barca que não vem senão vazia”.161 Prevendo Reis a possibilidade de uma relação com Lídia – “podíamos,/ Se quiséssemos” – Saramago vale-se da deixa e traz à vida uma das musas das odes e dos poemas de Horácio. Em O ano da morte de Ricardo Reis o heterônimo surpreende-se quando se depara com a criada Lídia e logo lembra de seus poemas e da musa cantada em versos. 158 PESSOA, Fernando. 2007, poema 393, p. 285 PESSOA, Fernando. 2007, poema 411, p. 288 160 PESSOA, Fernando. 2007, poema 315, p. 256 161 PESSOA, Fernando. 2007, poema 361, p. 278 159 81 Lídia, diz, e sorri. Sorrindo vai buscar à gaveta os seus poemas, as suas odes sáficas, lê alguns versos apanhados no passar das folhas, E assim, Lídia, à lareira, como estando, Tal seja, Lídia, o quadro, Não desejemos, Lídia, nesta hora, Quando, Lídia, vier o nosso outono, Vem sentar-te 162 comigo, Lídia, à beira-rio, Lídia, a vida mais vil antes que a morte. A recordação das odes dedicadas a Lídia deixam-no a pensar sobre a mulher de seus versos e a criada com que acabara de se deparar. Diferente dos poemas, em que apenas sussurros e desejos contidos invadiam os corpos, no romance Saramago projeta uma relação entre as duas personagens. O primeiro passo foi a identificação e a ligação de Lídia às odes escritas por Reis; a referência à musa fez despertar no poeta os desejos expressos em seus textos e ver a possibilidade de surgir uma relação: para sossega-la pusera-lhe a mão no braço, sentia a cetineta da manga, o calor da pele, Lídia baixou os olhos, depois deu um passo para o lado, mas 163 a mão acompanhou-a, ficaram assim alguns segundos”. Os contatos iniciaram sutis, primeiro são pequenas investidas e declarações: Lídia, disse Ricardo Reis, ela pousou a bandeja (...) repetiu, Lídia, depois, quase num murmúrio, atrozmente banal, sedutor ridículo, Acho-a muito 164 bonita, e ficou a olhar para ela por um segundo. Também Lídia vê-se atraída por aquele homem tímido, que lhe trata com educação e carinho. Até que uma noite os galanteios do médico recém chegado do Brasil têm uma resposta. Entrou no quarto, e, não advertindo que fazia este movimento antes de qualquer outro, olhou a cama. Não estava aberta como de costume, em ângulo, mas por igual dobrados lençol e colcha, de lado a lado. E tinha, não uma almofada, como sempre tivera, mas duas. Não podia ser mais claro o 165 recado, faltava saber até que ponto se tornaria explícito. 162 SARAMAGO, José. 1988, p. 45 SARAMAGO, José. 1988, p. 86 164 SARAMAGO, José. 1988, p. 94 165 SARAMAGO, José. 1988, p. 95 163 82 Naquela noite, Reis, hóspede do hotel Bragança, esperou que Lídia fosse fazer-lhe companhia, não como em suas odes, mas como um homem aguarda uma mulher, deixando de ser apenas um espectador do mundo. Levantou-se bruscamente (...), foi soltar o trinco da porta, depois encostou-a devagar, parece fechada e não está, basta que apoiemos nela sutilmente a mão. Tornou a deitar-se, isto é uma criancice, um homem, se quer uma coisa, não a deixa ao acaso, faz por alcançá-la (...) aberta foi a porta deste quarto, em silêncio, fechada está, um vulto atravessa tenteando, pára à beira da cama, a mão de Ricardo Reis avança e encontra uma mão gelada, 166 puxa-a, Lídia treme, só sabe dizer, Tenho frio. Reis acolhe em seus braços um misto de musa e mulher, deixa de ver a vida e passa a participar. Esta foi a primeira de muitas outras noites em que Reis e Lídia dividem a cama e juntos esquentam-se. Porém, ele compreende que a Lídia, criada do hotel, sempre prestes a atender as ordens dos clientes, não é a mesma Lídia, musa de seus poemas e de Horácio: (...) colocou uma das mãos sobre as mãos de Lídia (...), como retinha aquela mão castigada de trabalhos, áspera, quase bruta, tão diferente das mãos de Cloe, Neera e a outra Lídia, dos afuselados dedos, das cuidadas unhas.167 Para Reis está claro que o nome é apenas uma coincidência. Às musas não se pede que falem, apenas que sejam, Neera, Lídia, Cloe, veja lá o que são coincidências, eu há tantos anos a escrever poesias para uma Lídia desconhecida, incorpórea, e vim encontrar num hotel uma criada 168 com esse nome, só o nome, que no resto não se parecem nada. Enquanto Reis encara Lídia como apenas uma coincidência, Saramago provoca um jogo com o poeta, assim como com o leitor. Em ambos é inevitável a comparação e a ligação entre a personagem Lídia das poesias e a do romance – já que nos dois cenários ela revela-se inspiração e desencadeia paixões. Neste ponto, o que interessa é perceber que enquanto à Lídia das odes cabe tão somente o papel de musa, no romance sua função é ampliada – a de chamar Reis para o mundo, para as sensações, de fazê-lo envolver-se e deixar o lugar de espectador. Tanto 166 SARAMAGO, José. 1988, p. 95-6 SARAMAGO, José. 1988, p. 166 168 SARAMAGO, José. 1988, p. 302 167 83 que, mesmo não sendo a Lídia de suas inspirações, a relação entre os dois ultrapassa as paredes do hotel. Quando Ricardo Reis deixou o Bragança, Lídia o acompanhou como sua “mulher-a-dias”, fazendo os trabalhos de limpeza. Nos dias de folga, a empregada, que antes visitava a mãe nesses momentos, passa a dedicar suas horas de descanso às tarefas da casa de Ricardo Reis e aos carinhos do amante. Estes dias são bons. Lídia está em férias do hotel, passa quase todo o tempo com Ricardo Reis, só vai dormir as noites na casa da mãe por uma questão de respeito (...). A casa vive seu sábado de aleluia, o seu domingo de páscoa, por graça e obra desta mulher, serva e humilde (...), abençoada seja Lídia entre as mulheres (...). Porém não há bem que dure para sempre. Acabaram as férias de Lídia, tudo voltou ao que dantes era, passará a vir no 169 seu dia de folga, uma vez por semana. Os dias bons não duram muito, Reis não se mostra estável em seus sentimentos, enquanto em um momento descobre-se feliz com a relação e seguro, no instante seguinte torna-se arredio e distante com a criada. Sua característica poética de estar alheio reflete-se em seu comportamento com Lídia, principalmente quando a criada lhe dá a notícia de que está grávida. Ricardo Reis procura as palavras convenientes, mas o que encontra dentro de si é um alheamento, uma indiferença, assim como se, embora ciente de que é sua obrigação contribuir para a solução do problema, não se sentisse 170 implicado na origem dele, tanto a próxima como a remota. Reis não encontra razão de ser em sua relação amorosa, comportamento também demonstrado em seus poemas: Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. 171 Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Vê-se claramente um sentimento de fugacidade da vida e a inevitabilidade da morte. A passagem do tempo está associada à contenção das emoções, sendo que o poeta deixa transparecer a indiferença e serenidade frente à morte. 169 SARAMAGO, José. 1988, p. 365-6 SARAMAGO, José. 1988, p. 363 171 PESSOA, Fernando. 2007, poema 315, p. 256 170 84 Quando encontra o gozo e propõe-se com mais convicção ao envolvimento: Cada dia sem gozo não foi teu 172 Foi só durares nele logo desvela-se novamente passivo: reflexo do sol ido na água 173 De um charco. Reis mostra-se cético em suas crenças e na efemeridade da vida – tudo é passageiro e sem grande importância. A relação dos dois segue os traços das odes do heterônimo, sentimentos fluídos e sem consistência. Cansada de um companheiro evasivo e distante, uma tarde, após concluir os trabalhos de limpeza, Lídia olha Reis dormir e o enxerga como um estranho, “vai a pensar, Não volto mais, mas a certeza não tem”.174 Depois desse dia houve outro encontro, momento em que levou a chave do apartamento para devolver. Na despedida, Ricardo Reis acompanhou Lídia até o patamar – “ela olhou para cima, ele fez-lhe um gesto de aceno, ambos sorriram, há momentos perfeitos na vida, foi este um deles, como uma página que estava escrita e aparece branca outra vez”.175 Foi assim que se viram pela última vez. Reis ainda pensou em Lídia e em ir vê-la, porém sua vontade não foi suficiente para impeli-lo à ação. É essa mulher que conduzirá Ricardo Reis pelo mundo real. Lídia é responsável por sujar as mãos do poeta na concretude da vida, fazendo-o deixar o papel contemplativo de espectador do espetáculo do mundo para assumir o papel de agente. Embora na maior parte da narrativa Lídia seja dita pelo narrador, isso não quer dizer que não seja ela mesma ativa e que não se afirme em momentos críticos do romance. É ela quem fala: O senhor doutor é uma pessoa instruída, eu sou quase uma analfabeta, mas uma coisa eu aprendi, é que as verdades são muitas e estão umas 172 PESSOA, Fernando. 2007, poema 416, p. 289 PESSOA, Fernando. 2007, poema 416, p. 289 174 SARAMAGO, José. 1998, p. 404 175 SARAMAGO, José. 1998, p. 418 173 85 contra as outras, enquanto não lutarem não se saberá onde está a 176 mentira. É no embate dessas múltiplas verdades que a força dessa personagem se mostra dando coragem ao receoso Reis, diferentemente de Marcenda. Enquanto Lídia faz parte dos dias de Reis em Portugal e de alguns de seus pensamentos, cabe à personagem Marcenda preencher o coração do poeta. Logo no começo do livro, Ricardo Reis, na sala de jantar do Hotel Bragança, enquanto observava os hóspedes, tem sua atenção desviada para uma moça de cerca de vinte anos, delgada, que entra no salão acompanhada de um homem de meia-idade – mais tarde viria saber que era o pai da tal rapariga. Reis não desvia o olhar dos dois, ficando atento a tudo. Percebe que os pratos já vêm arranjados da copa, limpos de espinhas de peixe, cortada a carne, descascada e aberta fruta. Para sua surpresa, percebe que a moça não mexe uma das mãos. Então Ricardo Reis, surpreendido pela sua própria descoberta, repara que desde o princípio aquela mão estivera imóvel, recorda-se de que só a mão direita desdobrara o guardanapo, e agora a esquerda e vai pousá-la sobre a mesa, com muito cuidado, cristal fragilíssimo, e ali a deixa ficar, ao lado do prato, assistindo à refeição, os longos dedos estendidos, pálidos, 177 ausentes. Tal paisagem atravessa a figura estável do heterônimo, fascina-o e faz com que sucumba às dores da moça: Marcenda é uma rapariga cujas visitas pontuais a Lisboa ritmam a existência de Reis. Dona de uma inexplicável e incurável doença, que lhe permite o movimento de apenas um dos braços, conquistou a simpatia de Ricardo Reis. Médico de profissão – pode-se ver aqui uma trágica ironia – Reis não é capaz de viver, de se definir, de se encontrar, é, a um tempo, muitos e nenhum. A deficiência de Marcenda traduz fisicamente essa incapacidade, ontológica, aquela que é também para Reis a única possibilidade de 178 existência. 176 SARAMAGO, José. 1998, p. 400 SARAMAGO, José. 1988, p. 23 178 ZÉKIAN, Stéphane. Prosadores Portugueses – José Saramago. Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas. Número 3, outubro-dezembro de 1998. Disponível em: <http://www.institutocamoes.pt/revista/prosdorsportgjs.htm> 177 86 O envolvimento entre os dois vai resultar em pequenos encontros. No primeiro a moça fala do problema de saúde e conta parte de sua vida. A intimidade vai crescendo e novos encontros acontecem: Amanhã, entre três e três e meia, passarei no Alto de Santa Catarina, se quiser conversaremos um pouco. Uma donzela de Coimbra marca, em 179 furtivo bilhete, encontro com o médico de meia-idade que veio do Brasil. Dos encontros nasce um pequeno romance – a rapariga burguesa que padece de misteriosa paralisia do braço esquerdo desperta em Reis um amor platônico, sublime e nunca concretizado. A Marcenda, Reis dedicará poemas como outrora à Lídia de suas odes. O nome da personagem, que significa emurchecer, revela seu caráter insípido e sua inatingibilidade: a uma flor murcha não se toca sob a pena de se desfazê-la. E colho a rosa porque a sorte manda. Marcenda, guardo-a; murche-se comigo Antes que com a curva 180 Diurna da ampla terra. Assim como o poema foi o amor de Marcenda e Reis, guardado a um canto acabou por murchar como uma rosa, a qual se tem o medo de tocar. Marcenda representa no romance um contraponto à imagem da personagem Lídia, que pode ser associada à distância, ao desenlace – suas mãos frias, seu braço sem vida remete à improbabilidade de um relacionamento; enquanto a Lídia de Saramago é cheia de vida e capaz de arriscar seu emprego por Ricardo Reis em visitas furtivas durante a noite. Tal personagem revela-se ousada e distante dos poemas do heterônimo, sendo cheia de vontades e decisões, completamente envolta às maravilhas e mazelas do mundo. Em uma entrevista, Saramago é questionado acerca das figuras literárias de Lídia e Marcenda e onde foi buscar corpo e tiques para caracterizá-las. A resposta é direta: Marcenda não é uma “personagem literária” de Reis, não é sequer um nome feminino com presença nos vocabulários onomásticos. A palavra 179 180 SARAMAGO, José. 1988, p. 178 PESSOA, Fernando. 2007, poema 427, p. 292 87 aparece na ode Saudoso já deste verão que vejo designando uma rosa emurchecida. Achei que estava a caráter com a minha personagem. Quanto a Lídia, uma vez que me tinha proposto mostrar a Ricardo Reis o espetáculo do mundo, pensei que seria uma boa partida dar a uma criada 181 de hotel o nome de uma das suas quase incorpóreas musas. Saramago encontra a dica de que precisa para caracterizar Marcenda, como ele mesmo afirma, no poema: Saudoso já deste Verão que vejo. Lágrimas para as flores dele emprego Na lembrança invertida De quando hei-de perdê-las. Transpostos os portais irreparáveis De cada ano, me antecipo a sombra Em que hei-de errar, sem flores, No abismo rumoroso. E colho a rosa porque a sorte manda. Marcenda, guardo-a; murche-se comigo Antes que com a curva 182 Diurna da ampla terra. Além de Lídia e Marcenda, que servem como elementos que ligam o heterônimo à realidade, Saramago inclui ao convívio de Ricardo Reis o poeta Fernando Pessoa, responsável pelo caráter subjetivo da obra. Criador e criatura são colocados frente a frente. Pessoa aparece no romance por meio de notícias de jornal que divulgam sua morte, às quais Reis tem acesso um dia após sua chegada. A obra joga com a distinção entre o Ricardo Reis heterônimo – expatriado, residente no Brasil, exercendo o ofício de médio – e o Ricardo Reis personagem – que acabara de desembarcar em Lisboa e instalara-se no Hotel Bragança. Na identificação do hotel responde às perguntas do gerente, ficando sua ficha com os seguintes dados: (...) nome Ricardo Reis, idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, última residência Rio de Janeiro, Brasil, donde procede, viajou pelo Highland Brigade, parece o princípio duma confissão, duma autobiografia íntima, tudo o que é oculto se contém nesta 183 linha manuscrita, agora o problema é descobrir o resto, apenas. 181 SARAMAGO, José. Entrevista concedida ao jornal O Público por ocasião do relançamento de O ano da morte de Ricardo Reis. Quarta-feira, 29 de maio de 2002. Disponível em: <http://www.geocities.com/marco_lx_pt/sarentrevista.htm> 182 PESSOA, Fernando. 2007, poema 427, p. 292 183 SARAMAGO, José. 1988, p. 17 88 Esse resto a que se refere a personagem é uma busca por si, é a construção de um poeta, não mais um heterônimo, um simples espectador, mas o desejo de uma identidade a ser erigida não apenas como um nome, mas como parte de uma sociedade, um ser representativo numa esfera social – Portugal. A presença de Pessoa e Reis trazem a lume a força da poesia em terras lusitanas, a lembrança de uma tradição: terra de grandes poetas. Para Saramago, este é o momento de (re) acender nos corações portugueses o orgulho e de retomar um lugar de destaque, não pelas navegações que elevaram o nome do país outrora, mas pelo legado e necessidade de reconhecimento de um de seus maiores poetas: Fernando Pessoa. Reinventar a independência em relação ao seu criador faz com que Ricardo Reis torne-se uma personagem autora de si mesma.184 Os embates entre ele e o escritor-fantasma Fernando Pessoa são testemunhos de sua auto-suficiência. Fernando Pessoa, pelos olhos, sentimentos e sensações de sua personagem, continua a apreender o mundo concreto. É em Reis que Pessoa estabelece permanência, é em Reis que Pessoa se faz espectador e agente no espetáculo do mundo, embora seja esta uma relação prenhe de conflitos: o autor não se contenta 185 em estar morto. Reis é o drible à morte, a jogada de Pessoa. As cenas criadas por José Saramago que envolvem as personagens Fernando Pessoa e Ricardo Reis exploram a questão do duplo, tema discutido, a partir de textos literários, por Sigmund Freud. Em 1919, o psicanalista escreve Das Unheimliche, texto em que afirma que o duplo - apesar de nos parecer algo de estrangeiro, estranho a nós-mesmos - sempre nos acompanhou desde tempos primordiais do funcionamento psíquico, estando sempre pronto a ressurgir e provocando-nos uma sensação de inquietante estranheza (uncanniness). Pode-se dizer que o duplo é um Outro que observa o sujeito sem nada falar, apenas fazendo com que se interrogue sobre o que queres de mim? No romance, por diversas Reis questiona-se acerca de quem é: Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim 184 BAHKTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes,1992, p.18. VERUNSCHK, Micheliny. De Lisboa à Budapeste Os Universos Paralelos de O Ano da Morte de Ricardo Reis e Budapeste. Disponível em: <http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=2159> 185 89 vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não 186 sejam ou tenham sido ou venham a ser. ... se tomássemos todas as palavras à letra, passaria primeiro Ricardo Reis, 187 porque é inúmeros, segundo o seu próprio modo de entender-se. A dúvida quanto à identidade é parceira de Reis no transcorrer do enredo, sendo que o poeta deixa transparecer sua fragilidade enquanto entidade romanesca. Durante o desenrolar dos fatos, o leitor vai em busca de um Reis já conhecido das odes, o heterônimo de Fernando Pessoa, poeta horaciano; no entanto, o que encontra é uma personagem debatendo-se entre um mundo que não é o seu, que ora o chama, ora o repele. Reis, máscara, ficção de Pessoa, heterônimo que traz à tona as idéias epicuristas e estóicas de seu criador, passa a ser, em O ano da morte de Ricardo Reis, ficção de José Saramago. O poeta neoclássico, em seu regresso a Portugal, vai à procura do pai, aquele que lhe deu, pela primeira vez, o sopro de vida e que representa, de alguma forma, uma esperança que ainda não lhe está bem clara. O encontro entre criador e criatura, possibilitado graças à genialidade de Saramago, dá-se no quarto do Hotel Bragança. E é então que Ricardo Reis repara que por baixo da sua porta passa uma réstia luminosa, Ter-se-ia esquecido, enfim, são coisas que podem acontecer a qualquer, meteu a chave na fechadura, abriu, sentado no sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente apesar de não o ver há anos, e não pensou que fosse acontecimento irregular estar ali à sua espera Fernando Pessoa, disse Olá, embora duvidasse de que ele lhe responderia, nem sempre o absurdo respeita a lógica, mas o caso é que respondeu, disse Viva, e estendeu-lhe a mão, depois abraçaram-se (...) Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante, reparou que Fernando Pessoa estava em corpo bem feito (...) Olham-se ambos com simpatia, vêse que estão contentes por se terem reencontrado depois da longa ausência, e é Fernando Pessoa quem primeiro fala, Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo Reis respondeu assim, Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse, Por 188 enquanto saio. A conversa que os dois travam dá-se entre amigos que há tempos não se vêem. Falam da morte de Pessoa, de Álvaro de Campos, de como as coisas estão 186 SARAMAGO, José. 1988, p. 24 SARAMAGO, José. 1988, p. 27 188 SARAMAGO, José. 1988, p. 76-7 187 90 em Portugal e do retorno de Reis. Fernando Pessoa explica que pode sair do cemitério e “circular à vontade” por oito meses. Diz que o tempo tem relação com o período de gestação, se levamos nove meses para nascer, nove meses é o tempo para morrer – tempo que é dado a Reis para nascer ou morrer definitivamente – “o romance oferece-lhe, na verdade, a chance de se criar para sempre, ou de mergulhar para sempre no ficcional”.189 Saramago oferece, através de sua narrativa, a possibilidade de Reis habitar o mundo de forma concreta, de ser alguém que define seus próprios passos; na verdade, a chance de deixar o posto de expectador para passar ao de dono de si mesmo. Este primeiro encontro revela os caminhos que o romance irá seguir: um jogo em construção, com duração de oito meses (um mês já havia se passado desde a morte de Fernando Pessoa). Nesse primeiro contato, Reis explica porque regressou: recebera de Álvaro de Campos a notícia da morte de Fernando Pessoa. (...) agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal. Ricardo Reis tirou a carteira do bolso interior do casaco, extraiu dela um papel dobrado, fez menção de o entregar a Fernando Pessoa, mas este recusou com um gesto, disse, Já não sei ler, leia você, e Ricardo Reis leu, Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos, quando recebi 190 este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever. O que se percebe é que Pessoa, no romance de Saramago, não é dono de um espaço próprio – surge sempre, e apenas, na relação com Ricardo Reis. “A morte invertera os valores e é como se fosse ele o heterônimo, uma parte e não o todo que coordena e aciona os cordéis de seu drama em gente”.191 É por meio de Reis que aparece nos inúmeros encontros que se dará ao longo da narrativa: “a morte lhe roubara a possibilidade de ser no mundo, além de desligá-lo daquilo que lhe permitiria continuar vivo – ‘Já não sei ler’. Não lê o telegrama, já não lê o mundo”.192 Seu conhecimento restringe-se ao passado. Presente e futuro “tem a onisciência dos que ficaram para sempre feitos, sem a possibilidade de mudar. Conhecendo a morte, experimentando-a, desvendara o fundo do poço, encontrara a saída definitiva do labirinto em que se debatera por toda a vida”.193 No entanto, tal 189 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. José Saramago entre a história e a ficção: uma saga de portugueses. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 170 190 SARAMAGO, José. 1988, p. 79 191 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. 1989, p. 172 192 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. 1989, p. 172 193 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. 1989, p. 172 91 conhecimento não lhe permite agir no presente, muito menos no futuro. É agora para sempre espectador: e, tendo-se descoberto, por vezes, incoerente, inexato, falso, nada pode fazer para alterar a imagem que já não lhe pertence, posto que se perdeu como sujeito, para transformar-se em objeto do olhar do outro – ‘Fernando Pessoa já não é Fernando Pessoa, e não porque esteja morto, a grave e decisiva questão é que não poderá acrescentar mais nada ao que foi e ao que fez, ao que viveu e escreveu, se falou verdade no outro dia, já nem é 194 capaz de ler, coitado’. Os encontros que acontecem entre eles revelam sentimentos de vida e amor ao fantasma de si mesmo, ao homem entre vida e morte que é o poeta das odes. Mas para além dessa chamada à vida, dessa conversão de Ricardo Reis ao mundo, seu trabalho e seus êxtases, o mais importante nessa ficção é a ficção no interior da ficção, do encontro de Ricardo Reis com o seu irmão criador, Fernando Pessoa, vivo na sua morte. O que acontece não são apenas encontros de ficção, são momentos míticos entre dois criadores no horizonte de uma mesma cultura – um marcou para sempre com o selo de uma inquietude sem exemplo, o outro transfigurou em epopéia. Nos momentos em que passam juntos, Saramago possibilita não só a construção do Ricardo Reis personagem, como também uma nova estratégia em que o inverossímil beira o campo do maravilhoso: Pessoa e Reis ganham corpos individualizados, esteja um morto e o outro no contexto romanesco, pouco importa. Um terceiro encontro acontece no quarto de hotel. Reis está absorto na leitura de um livro quando se dá conta de que a sua frente, sentado, está Fernando Pessoa. Logo põe de lado o livro, pensando que aquele não era um bom momento para visitas inesperadas – a qualquer momento Lídia poderia entrar pela porta e que susto não levaria ao ver ali sentado um fantasma. A saída foi apelar para a cumplicidade masculina: “Não vamos poder conversar por muito tempo, talvez me apareça aí uma visita”.195 Pessoa parece não reconhecê-lo. Tão duvidoso como existir, de facto, o poeta que escreveu as suas odes. Esse sou eu, Permita-me que exprima as minhas dúvidas, caríssimo Reis, vejo-o aí a ler um romance policial, com uma botija aos pés, à espera duma criada que lhe venha aquecer o resto, rogo-lhe que não se melindre com a crueza da linguagem, e quer que eu acredite que esse homem é aquele 194 195 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. 1989, p. 172 SARAMAGO, José. 1988, p. 114 92 mesmo que escreveu Sereno e vendo a vida à distância a que está, é caso 196 para perguntar-lhe onde é que estava quando viu a vida a essa distância. Nos diálogos travados vão-se organizando questionamentos acerca de quem é Ricardo Reis e de quem é Fernando Pessoa. Alternam-se as personalidades ficcionais entre heterônimo das odes e personagem de Saramago, entre poeta modernista e entidade com uma sobrevida de nove meses. Nesse dia não são só os amores de Reis que fazem parte da conversa. Discutem o conceito de fingimento, em que Pessoa põe em dúvida o verso “o poeta é um fingidor”, o que antes parecia resolvido: Alarga-o, agora, do fingir do poeta para o fingir do homem, pela simples razão de que a morte, revelando-lhe o outro lado, deu-lhe a ciência inútil de si mesmo, inútil porque já agora petrifica-se e só é na imagem que os 197 outros fazem de si O diálogo prossegue num tom inquisidor: “(...) primeiro que tudo, você nem sabe quem seja, E você alguma vez o soube, Eu já não conto, morri, mas descanse que não vai faltar quem dê de mim todas as explicações”.198 A procura por respostas e os questionamentos entre criador e criatura avultam-se. Como desvendar-se – ator ou espectador? Nesse jogo de identidades o espelho mostra-se um elemento revelador: Ricardo Reis baixa o jornal, olha-se no espelho, superfície duas vezes enganadora porque reproduz um espaço profundo e o nega mostrando-o como mera projeção, onde verdadeiramente nada acontece, só o fantasma exterior e mudo das pessoas e das coisas, árvore que para o lago se inclina, rosto que nele se procura, sem que as imagens de árvore e rosto o perturbem, o alterem, lhe toquem sequer. O espelho, este e todos, porque sempre devolve uma aparência, está protegido contra o homem, diante dele não somos mais que estarmos, ou termos estado (...). Assim é o espelho, suporta, mas, podendo ser, rejeita. Ricardo Reis desviou os olhos, muda de lugar, vai, rejeitador ele, ou rejeitado, virar-lhe as costas. Porventura 199 rejeitador porque espelho também. Para a teoria psicanalítica, aliada à compreensão de textos literários, a constituição do eu toma lugar durante o estágio do espelho e começa com o 196 SARAMAGO, José. 1988, p. 118 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. 1989, p. 174 198 SARAMAGO, José. 1988, p. 119 199 SARAMAGO, José. 1988, p. 49 197 93 reconhecimento da identidade própria do eu através da imagem especular em um jogo paradoxal, de oscilação entre o eu e o outro. Senhor e servo do imaginário, o ego se projeta nas imagens em que se espelha: imaginário da natureza, do corpo, da mente, das relações sociais. Buscando por si mesmo, o ego acredita se encontrar no espelho das criaturas para se perder naquilo que não é ele. Esta situação é fundamentalmente mítica. É uma metáfora da condição humana, uma vez que se está sempre ansiando por uma completude que não pode jamais ser encontrada, infinitamente capturada em miragens que ensaiam sentidos onde o sentido está sempre em falta. Lacan, em sua teoria a respeito do estágio do espelho, ressalta que qualquer identificação é imaginária em todas as ocasiões. Identificar é obliterar a distinção entre o sujeito e o objeto da identificação. É dissolver as fronteiras que poderiam distinguir e separar o ego do outro. A identificação corresponde, portanto, a um estado monádico que almeja a totalidade, completude e auto-suficiência. O imaginário é uma mônada que se alimenta da miragem do outro, uma miragem na iminência da dissipação e da perda. Ser eu, sendo, ao mesmo tempo, o outro é idílico, mas também mortífero, pois um dos pólos dessa pretensa unidade está sempre à beira do desaparecimento.200 Saramago toma a personagem Ricardo Reis, antes reflexo de Pessoa, e a transforma no romance como aquele que reflete Fernando Pessoa, é a procura por uma identidade, por uma realidade que no espaço do romance faz-se distante das personagens. A menção ao espelho e ao seu reflexo apresenta seres unívocos e múltiplos ao mesmo tempo, numa alternância de posições – “(...) aqui está Ricardo Reis, no fundo do espelho, um dos inúmeros que é, mas todos fatigados”.201 Nos encontros que acontecem enquanto Reis está hospedado no Bragança há uma espécie de simbiose – Reis volta a Lisboa, sente-se só, encontra Pessoa, seu único conhecido, com quem trava longas conversas, fato que ocorre com freqüência. Com o tempo, Reis passa a criar relações com outros indivíduos, envolve-se com Lídia e Marcenda, tem uma ficha com seus dados no hotel e outra na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (P.V.D.E.), aluga uma casa e passa a exercer a medicina. Assim, a relação com Pessoa que em outros tempos mostrou-se 200 BRAGA. Maria Lucia Santaella. As três categorias peircianas e os três registros lacanianos. Depto. de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica / Psicologia USP. São Paulo: Psicol. USP vol.10 n.2 / 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103> 201 SARAMAGO, José. 1988, p. 24 94 fundamental começa a perder a importância. Essa vida social conquistada representa um ponto de apoio – uma consciência humana e não apenas poética – Reis passa a construir uma imagem a ser projetada no espelho, trava uma busca por si mesmo. Pessoa vai encontrar Reis já instalado na nova casa. Na conversa entram em cena as carências de cada um: a fragilidade de Reis e a solidão na figura de Pessoa. “Mais uma vez é esse o tema definitivo, a questão crucial. A vida é, enfim, a possibilidade de transformar-se, a morte a falência final. A solidão e a fragilidade de Reis são passíveis de mudança, pois não são definitivas”.202 No romance o autor busca essa possibilidade de transformação, da construção de um ser e não mais de apenas uma personagem. Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a 203 raiz. Fernando Pessoa sente o gosto do irremediável. Para Teresa Cerdeira, neste trecho vê-se que “solidão e inutilidade são conceitos que diferem de um ponto de vista para outro, porque entre os dois – Reis e Pessoa – medeia uma experiência ‘última, final e derradeira’, que é a experiência da morte”. É possível vislumbrar um “contemplar materno e solitário nos gestos de Pessoa, maternidade que lhe resta da lembrança da criação, solidão que nasce do abismo entre aquele que é feito e aquele que faz”.204 Pessoa é o pai, genitor de inúmeras personalidades, seres autônomos que desde o momento do nascimento ganharam asas e ocuparam seus espaços. Para a concepção criadora de Saramago, com Reis não seria diferente, pois Pessoa não é responsável por aquela entidade poética enquanto ficção de outrem, já que seus heterônimos não só são livres, como comungam do direito de levar adiante seus próprios ideais – a Pessoa fica apenas a função de instrumento, gerador de poetas livres. Outras tantas discussões vieram, alternando-se os temas entre natureza metafísica e natureza política, entre o humor de Pessoa ao defrontar-se com a 202 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. 1989, p. 178 SARAMAGO, José. 1988, p. 226 204 SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. 1989, p. 178 203 95 independência de Reis frente à amante e as questões que envolviam a morte. No último encontro, Pessoa bate à porta de Reis. Os dois trocam umas poucas palavras e ficam sentados em silêncio até a noite chegar. Fernando Pessoa tinha as mãos sobre os joelhos, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha para uns meses, Lembro-me, Pois é isso, acabaram-se. Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa-de-cabeceira buscar The god of the labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo (...) Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo 205 Reis. Ricardo Reis deixa o mundo, há um retorno da personagem de Saramago para o heterônimo de Pessoa. O poeta faz sua escolha, deixa de existir e une-se definitivamente à imagem composta por outrem. Ricardo Reis volta à heteronímia, funde-se à morte não apenas porque Pessoa - seu criador - está morto, mas porque sua opção foi a ausência de liberdade. 3.3 Em questa de um pai A partir das idéias iniciadas por Freud e aprofundadas por Lacan, depara-se com a possibilidade de discutir situações literárias fundamentadas na teoria psicanalítica. Em O ano da morte de Ricardo Reis, Saramago instiga o público leitor com uma situação intrigante: trazer à vida um poeta no ano que antecede seu cinqüentenário de morte. Não se pode deixar de mencionar que em vida Pessoa publicou apenas uma obra (Mensagem – 1934) e que Portugal não o reconheceu como grande personalidade poética que é antes de 1935, ano em que faleceu. Durante toda a vida, debateu-se entre meio a uma sociedade que não o olhava, nem o escutava. Seus poemas publicados em revistas não repercutiam como esperava, a participação em alguns concursos apenas o frustrara. O reconhecimento e a 205 SARAMAGO, José. 1988, p. 427 96 publicação das obras ocorreram após 1935. De lá para cá, a grandiosidade e o brilhantismo de seus textos são unanimidade entre a crítica. Saramago ao resgatar poeta e heterônimo não segue à contra-mão; pelo contrário, o prosador busca em sua obra frisar, de modo mais profundo, a importância desse escritor para sua terra e para a arte poética. No romance, a voz do narrador deixa clara a relevância de Pessoa: (...) Fernando Pessoa, poeta, de crimes de morte inocente, Duas palavras sobre o seu trânsito mortal, para ele chegam duas palavras, ou nenhuma, preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve e ele e a nós, que é da estatura do seu espírito, com ele está bem o que está perto de Deus, mas também não deviam, nem podiam os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir as linhas definitivas da eternidade, sem enunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida, não podiam os seus companheiros de Orfeu, ante os seus irmãos, do mesmo sangue ideal da sua beleza, não podiam, repito, deixa-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado sobre a sua morte gentil o lírio branco do seu silêncio e da sua dor, lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodígio do seu convívio e da graça da sua presença humana, somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e seu poder criador, a esses deu-lhes o destino uma estranha formosura, que não morre, o resto é com o gênio de Fernando Pessoa. Vá lá, vá lá, felizmente que ainda se encontram excepções nas regularidades da vida, desde o Hamlet que nós andávamos a dizer, O resto é silêncio, afinal, do resto quem se encarrega é o gênio, e 206 se este, também outro qualquer. Saramago não só se posiciona com relação a Fernando Pessoa no cenário literário, como afirma que desde Shakespeare havia um silêncio, a ausência de uma personalidade poética, silêncio quebrado pelo gênio Pessoa. É possível afirmar, assim, que José Saramago aponta Fernando Nogueira Pessoa para o rol dos grandes escritores, exercendo, principalmente junto a Portugal, a posição de um pai literário. Conforme o próprio Saramago define: há três escritores que representam o espírito do nosso século, o século que está a terminar. Um deles é Kafka, porque nos avisou do que vinha aí. O outro é o nosso Pessoa. Eu, pelo menos, escolho-o. Veio dizer aquilo que já se sabia antes mas veio dizê-lo de uma forma única, de uma maneira tão exacta e tão completa como não tinha nunca sucedido antes. E depois é o Borges que inventou aquilo a que me dá vontade de chamar, enfim, a 207 literatura virtual. 206 SARAMAGO, José. 1988, p. 33-4 SARAMOGO, José. Uma voz contra o silêncio. Entrevista, 1998. Disponível em: <http://www.geocities.com/marco_lx_pt/index.html> 207 97 É possível perceber a grandiosidade e importância do poeta português e o porquê do romance resgatar justamente Pessoa. Saramago vê em Fernando Pessoa uma referência no campo da literatura mundial e em O ano da morte de Ricardo Reis procura lembrar isso a todos. Ele ainda vai mais além, seu desejo é o de nomear o pai literário de uma terra presa a grandes feitos, mas esquecida daquele que cantou Portugal. A questão do pai foi enfocada por Jacques Lacan, que formulou um avanço na teoria psicanalítica a partir de um retorno a Freud. O estudioso redefiniu, com uma perspectiva estruturalista e lingüística, muitas categorias psicanalíticas conhecidas, ao mesmo tempo em que criou muitas outras. Dentre as discussões levantadas pelo pesquisador está a questão do Falo, compreendida como uma metáfora do Nome-do-Pai. Antes de discutir as idéias de Lacan e suas possíveis aplicações na obra de José Saramago, é importante deixar claro que o termo Falo não remete ao órgão sexual masculino – pênis. A referência à castração não é, segundo Bleichmar, uma alusão à privação do órgão genital masculino. Estabelece, na verdade, uma relação com a função do pai, como mediador da relação entre a mãe e a criança. “Essa função paterna se interpõe na relação diádica, imaginária, especular, que é verificada entre o bebê e a mãe. É isto a castração”.208 O que acontece é que para intermediar o vínculo diádico, ao pai cabe a função de transmitir a Lei, fato que se atualiza por ser o portador do nome. Assim, quem nomeia o filho é o pai, e esse ato simboliza que ele é possuidor do falo – da Lei. Num momento seguinte, o indivíduo, já tendo deixado o estágio do espelho, anseia por ser o desejo da mãe. Isso implica ser o que a mãe não possui: o falo. É neste momento que este ser passa a uma etapa identificatória – a identificação com o desejo do outro. O problema enfrentado neste momento é o de ser ou não ser o falo, o que possui a temática da castração; ou melhor, se possui, ou não, o falo. No romance, há uma metaforização da construção da subjetividade, que se vai processando na relação de um si mesmo com o outro. Pessoa viveu no imaginário a experiência da figura paterna, exerceu sobre os seus a Lei do Pai e experimentou a realidade angustiante do confronto de si mesmo diante do Outro: 208 BLEICHMAR, Noberto M. BLEICHMAR, Célia Leiberman de. A psicanálise depois de freud. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992, p. 153 98 E as pessoas nem sonham que quem acaba uma coisa nunca é aquele que a começou, mesmo que ambos tenham um nome igual, que isso só é que 209 se mantém constante, nada mais. A experiência de “ser tantos em um” e, às vezes, em nenhum, faz com que Pessoa viva mais intensamente as diferenças, a diversidade, e com que busque através de seu diálogo literário recuperar as possíveis perdas daí advindas. É por meio de Reis que o poeta estabelece uma ponte com o mundo real, percebe aí a possibilidade de afirmar um dos seus heterônimos – uma divisão entre a interioridade e o concreto, entre criador e criatura, pai e filho. A interioridade dividida é marca da personagem Ricardo Reis no romance, uma vez que seus questionamentos acerca de quem é perduram até o desfecho da história: (...) quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou 210 qual, quem (...) Vai sentar-se à secretária, mexe nos seus papéis com versos, odes lhes chamou e assim ficaram, porque tudo tem de levar seu nome, lê aqui e além, e a si mesmo pergunta se é ele, este, o que os escreveu, porque 211 lendo não se reconhece no que está escrito (...) Reis traça um caminho de procura, de uma busca por si e pela Lei, o responsável pela castração. A referência à figura de um pai não é apenas o objetivo de Reis, mas de José Saramago. O autor indica à nação portuguesa o maior dos poetas após William Shakespeare: Fernando Pessoa. O pai literário de um país que vive do passado de glórias nas conquistas marítimas. A resposta e a indicação para este pai é dada logo no começo do romance: Aqui o mar acaba e a terra principia.212 A frase que abre o texto refere-se à estrofe XX, Canto Terceiro, da obra Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões. Eis aqui, quase cume da cabeça De Europa toda, o Reino Lusitano, Onde a terra se acaba e o mar começa 209 SARAMAGO, José. 1988, p. 48 SARAMAGO, José. 1988, p. 20-1 211 SARAMAGO, José. 1988, p. 225 212 SARAMAGO, José. 1988, p. 7 210 99 E onde Febo repousa no Oceano. Este quis o Céu justo que floreça Deitando-o de si fora; e lá na ardente África estar quieto o não consente. A referência ao poema não serve apenas para marcar o fim do caminho marítimo percorrido pelo navio que trouxe Ricardo Reis do Rio a Lisboa, é, sim, a chave para a compreensão do romance, que abre a narrativa e há de fechá-la em variante sinônima: “Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera”.213 Com um discurso narrativo circular, o verso épico Onde a terra se acaba e o mar começa contraria a ideologia da expansão marítima e tece o fio ideológico que atravessa e conduz o sentido pluridimensional da obra. Pode-se afirmar que o romance dá conta de uma das linhas mestras da narrativa portuguesa contemporânea: a busca de uma nova identidade para um país órfão da sua História de portugueses-marinheiros, durante séculos aprisionado em sonhos de grandeza passada e mitos que a Literatura ajudou a consolidar, ou que ela mesma instituiu. Em O ano da morte de Ricardo Reis Saramago define o mundo e especialmente Lisboa da seguinte forma: Falta a Ricardo Reis um cãozito de cego, uma bengalita, uma luz adiante, que este mundo e esta Lisboa são uma névoa escura onde se perdeu o sul e o norte, o leste e o oeste, onde o único caminho aberto é para baixo, se um homem se abandona cai a fundo, manequim sem pernas nem 214 cabeça. O sentido de caos está delineado, cabe, agora, dar passo a um novo imaginário português que repense Portugal, adotando variados percursos, cuja variante deve ser o diálogo com as tradições nacionais, literária e histórica, no sentido de uma esperança nova que se quer enraizada no espaço metropolitano.215 E é Saramago quem indica um futuro com novos olhares ao país que vive de lembranças. Este é o momento, passados cinqüenta anos, de olhar para Fernando Nogueira Pessoa e reconhecer neste grande escritor a lei, a referência e constituição de um pai, de um norte a seguir. Em seu discurso quando do 213 SARAMAGO, José. 1988, p. 428 SARAMAGO, José. 1988, p. 87 215 ALMEIDA, Leonor Simas. Do Rio a Lisboa com Saramago e Ricardo Reis. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 25, nº 3, p. 75-84, setembro de 1990. Brown University - USA 214 100 recebimento do prêmio Nobel, em 1998, José Saramago diz, sobre O ano da morte de Ricardo Reis, que: atreveu-se a escrever um romance para mostrar ao poeta das “odes” alguma coisa do que era o espetáculo do mundo nesse ano de 1936 em que o tinha posto a viver os seus últimos dias: a ocupação da Renânia pelo exército nazista, a guerra de Franco contra a República espanhola, a criação por Salazar das milícias facistas portuguesas. Foi como se estivesse a dizer-lhe: “Eis o espetáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do ceptismo elegante. Desfruta, goza, contempla, já que estar sentado é a tua sabedoria...” O ano da morte de Ricardo Reis terminava com umas palavras melancólicas: “Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera”. Portanto, não haveria mais descobrimentos para Portugal, apenas como destino uma espera infinita de futuros nem ao menos inimagináveis: só o fado do 216 costume, a saudade de sempre, e pouco mais... Saramago não só reinventa o passado de 1936, como também o faz com o presente, uma vez que inventar o presente é saber olhar o mundo de outra perspectiva, é saber que tudo é falso e verdadeiro ao mesmo tempo. Inventar o presente é trabalhar com a ficção, com ficções. “Aqui, onde o mar acaba e a terra espera”: é a terra de Portugal a que o autor se refere. Para isso, guia o leitor por um universo ficcional, espaço privilegiado para seu trabalho de reinvenção de um passado, porque o entende como de possibilidade para a realização de um desejo. É por meio desse espaço ficcional que se torna possível recuperar as esperanças, os sonhos, as aspirações. O que poderia ter sido. Onde seja possível resgatar o que não pôde ter voz em outras apreensões do passado. Mas o assume, principalmente, porquanto nele é capaz de esgarçar as versões legitimadas de outros discursos, de outras invenções.217 Há o confronto do Ricardo Reis epicurista, de formação estóica, melancólico, com o Ricardo Reis inebriado dos afetos terrenos: alegria, amor, esperança, liberdade. Vislumbrando a possibilidade de superar os eus que o compõem, de tomar para si seu destino. O autor encerra o trecho de seu discurso sobre O ano da morte de Ricardo Reis com a expressão “um pouco mais...”, referente ao que pode Portugal esperar do futuro. A resposta para as reticências usadas está no livro: há muito mais para se olhar, há muito que se descobrir, e esse muito, futuro de glórias, está na literatura, 216 SARAMAGO, José. Discurso perante a Academia Sueca: De como a Personagem Foi Mestre e o Autor Seu Aprendiz. Disponível em: <http://www.secrel.com.br/jpoesia/1saramago5.html> 217 MARGATO, Izabel. Lisboa Reinventada n´O Ano da Morte de Ricardo Reis. Revista Via Atlântica n. 5 out. 2002, p. 140-151 101 esquecida, relegada a um canto. Este é o momento – 1984 – de acender novos orgulhos, de acordar a todos para esse diálogo dos tempos. Não seria isso o que apregoava Pessoa na sua Mensagem? Como se não bastasse, Saramago reitera a necessidade de transpor o passado, de reconhecer que a grandiosidade de seu povo pode ser encontrada em outras paragens: Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de 218 doença, e é por isso que a um morto custa tanto a aceitar a sua morte. No excerto acima, diálogo entre Pessoa e Reis, transparece o que o poeta ortônimo quis fazer em toda a vida: dramatizar seus poemas e os seus heterônimos, de modo a apontar a Portugal um novo horizonte, não de grandes batalhas travadas no mar, mas de batalhas ganhas em outros campos, no caso, naquilo que melhor produzia a alma portuguesa – a poesia, representando a transcendência da morte pela arte. 3.4 Afetos em prosa e verso Fernando Pessoa dedicou parte de sua obra a pensar a arte, demonstrando preocupação em teorizar o fazer poético. Em suas idéias estéticas está o sensacionismo, que, conforme afirma, tem o princípio primordial da sensação, uma vez que esta é a única realidade para o sujeito. Saramago foi sensível e fiel às idéias de Pessoa e transpôs para seu romance um dos heterônimos mais relevantes. Ricardo Reis mostra-se um poeta sensacionista equilibrado, que intelectualiza suas 218 SARAMAGO, José. 1988, p. 144 102 emoções – “Senti o beijo como o mar deve sentir a onda, se fazem algum sentido estas palavras, mas ainda é dizer o que sinto agora, não o que senti então”.219 Fernando Pessoa construiu sua poesia a partir de uma estética que visa a descentralização da expressão egóica, culminando na “abolição do dogma da individualidade artística”.220 Adepto da liberdade da arte, ao propor o sensacionismo resumiu o fazer poético em duas regras: sentir tudo de todas as maneiras e ser síntese de tudo. Cabe ao poeta sensacionista multiplicar sua personalidade e com isso ampliar o acesso à realidade – esta seria a única maneira de sentir tudo, não apenas segundo sua percepção, mas de todas as maneiras. Desta forma, coube ao heterônimo Reis o papel de revelar-se em seus textos um poeta de emoções e sentimentos disciplinados, com o fim de encontrar uma felicidade relativa, a qual é alcançada pela indiferença à perturbação. Sensações, emoções, sentimentos tornam-se sinônimos que trazem em seu significado uma enorme carga semântica, a qual aumenta quando inseridos na literatura. Estudos acerca das sensações procuram descrever como o sujeito se sente, isto é, o sentir como primeiro ato de captação pré-cognitiva pelo qual se elaboram os simulacros passionais, pelos quais o sujeito se percebe e pelos quais vê o outro, na relação intersubjetiva que o define como sujeito. Na psicanálise as sensações estão inseridas no campo de estudos dos afetos. Pode-se dizer que o afeto indica a posição do sujeito em relação a algo, ou alguém; porém, é difícil de ser situado, já que é o conceito limite de uma experiência subjetiva também limite. As fronteiras que se estabelecem entre afeto e desejo, afeto e pulsão, afeto e gozo, afeto e inconsciente, afeto e ser são tênues. A dificuldade em situar o afeto instaurase no fato de que não existe um sujeito dos afetos.221 É pertinente lembrar que o afeto, entendido através de uma tradição psicológica como simples descarga quantitativa de energia, sofre um remanejamento por conta da própria existência do inconsciente. O que ocorre, assim, é que a psicanálise coloca em evidência uma discrepância entre o afeto e sua representação, uma vez que o afeto é sempre deslocado, um pouco desviado em relação a seus motivos aparentes. Contudo, sem qualquer autonomia energética 219 SARAMAGO, José. 1988, p. 250 PESSOA, Fernando. 1974, p. 518 221 BARROS, Romildo do Rego apud VIERIA, Marcus André. A ética da paixão: uma teoria psicanalítica do afeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, ed. 2001, p. 10 220 103 com relação ao discurso, o afeto não pode se libertar nem do pensamento nem da linguagem.222 Lacan ressaltava sua preferência pela expressão “ser afetado” e recusava uma teoria geral dos afetos. Trata-se, com efeito, de que “afeto, só há um, a saber, o produto da tomada do ser falante em um discurso, na medida em que esse discurso o determina como objeto. O que é preciso dizer, é que 223 este objeto não é passível de nomeação”. A fenomenologia sempre tratou esse “vivido”, que não é linguagem, todavia a sensação do desejo do Outro, de modo especial no registro da teoria das emoções. Deve-se à psicanálise, notadamente a Lacan, a partir do recurso a uma grande variedade de afetos, a delimitação destas diferentes posições do sujeito com relação ao ser.224 Desse modo, a proposta sensacionista de Pessoa revela e enaltece afetos das mais variadas formas e intensidades. Comungando da proposta, Saramago propicia a Ricardo Reis, poeta de características estóicas e epicuristas, um período de grandes emoções, de afetos confusos e intensos. Ao regressar do Brasil, num primeiro momento, mostra-se cansado, confuso: “(...) compreendeu, por estes pensamentos, que estava muito cansado, era o que sentia, uma fadiga muito grande, um sono da alma, um desespero”.225 Revela-se um ser em conflito, envolto a sensações que não sabe a quem pertence: “(...) que pensamento e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser”.226 No romance, Saramago fez questão de frisar em muitas passagens os sentimentos – afetos – do heterônimo que se propunha a ser um mero espectador do mundo. Revelou e deu voz a sensações encobertas: No mesmo instante se lhe encheram os olhos de lágrimas, estranho sucesso foi ter este efeito aquela causa, ou terá sido do enterro do anjinho que passou em sua carreta branca, um Fernando que não viveu bastante para ser poeta, um Ricardo que não será médico, nem poeta será, ou talvez que a razão deste chorar seja outra, apenas porque lhe chegou a hora. As coisas da fisiologia são complicadas, deixemo-las para quem as conheça, 222 VIERIA, Marcus André. 2001, p. 11 VIERIA, Marcus André. 2001, p. 12 224 VIERIA, Marcus André. 2001, p. 12 225 SARAMAGO, José. 1988, p. 14 226 SARAMAGO, José. 1988, p. 21 223 104 muito mais se ainda for preciso percorrer as veredas do sentimento que existem dentro dos sacos lacrimais, averiguar, por exemplo, que diferenças químicas haverá entre uma lágrima de tristeza e uma lágrima de alegria 227 (...) O distanciamento de Reis com relação às cenas do mundo é minimizado no texto de Saramago. No trecho é possível perceber que o que antes era censurado – o envolver-se – dá lugar a uma articulação questionante: por que os olhos encheram-se de lágrimas? A resposta vem de imediato, não apenas uma, mas várias. Sabe-se que não só as palavras transpõem o afeto, descarregando-o, mas as lágrimas, sorrisos, feições, são indícios dos sentimentos que um sujeito leva consigo. A externalização das dores de Reis aparece de formas sutis, pequenas tristezas, alegrias, esperanças. Afetos e sensações das mais variadas ordens e intensidades, como quando, em um diálogo com Pessoa, Reis discute a solidão: Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz (...) olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário estar onde nem nós 228 próprios estamos. Pessoa, único e muitos outros, e Reis, único e ligado a tantos outros, revelam a dor profunda da solidão, não a solidão de viverem sós, porque como bem sabem nunca estão sós, há sempre um outro a lhes guiar as idéias e a pena, falam de estar na multidão e de não serem notados, de escreverem e não serem lidos, de gritarem e não serem escutados, de olharem a si mesmos e não se reconhecerem. Para Lacan, o afeto encontra-se nas relações do sujeito com o Outro. Assim, pode-se dizer que ele se relaciona com aquilo que determina o sujeito como tal, o objeto. Ele é “o produto da tomada do ser falante em um discurso, enquanto este discurso o determina como objeto”.229 No caso de Ricardo Reis, a personagem vive às voltas com o Mestre (Caeiro), com Fernando Pessoa, com as musas Lídia e Marcenda e com um mundo que muito pouco mereceu sua atenção. 227 SARAMAGO, José. 1988, p. 38 SARAMAGO, José. 1988, p. 227 229 VIERIA, Marcus André. 2001, p. 46 228 105 Mesmo tendo por filosofia um epicurismo triste e defendendo a idéia de que o caminho da felicidade está em não ceder aos impulsos dos instintos, Reis admite que as sensações lhe invadem o ser: (...) há ocasiões assim, acreditamos na importância do que dissemos ou escrevemos até um certo ponto, apenas porque não foi possível calar os sons ou apagar os traços, mas entra-nos no corpo a tentação da mudez, a fascinação da imobilidade, estar como estão os deuses, calados e quietos, 230 assistindo apenas. Tentação, fascinação, sentimentos incontidos, transpostos para os poemas, para a vida, para o romance de Saramago. 3.4 Uma estética do estranhamento Não são raros os momentos em que se é atravessado pelo estranhamento em O ano da morte de Ricardo Reis. O que acontece é que supõe-se uma existência real a tudo o que é nomeado, àquilo que está inserido no discurso e, até mesmo, ao que só existe na ficção – processo de verossimilhança. O espaço do estranho encontra-se no deslocamento entre o real e o imaginário. Esta dimensão revela o que qualquer lembrança, qualquer sentido, percepção, tem de construção, de colagem entre um lugar e um nome. Na experiência da estranheza, o imaginário perde sua função de cimento de articulação entre o real e o simbólico e abre-se espaço ao infinito.231 Para Lacan: A estrutura da linguagem é capaz, não exatamente de uma adequação absoluta entre a linguagem e o real, mas de introduzir no real tudo o que nos é acessível de forma operatória. A linguagem entra no real e cria a estrutura. Nós participamos desta operação e, dela participando, somos nela incluídos, implicados numa topologia rigorosa e coerente que faz com que toda porta forçada num ponto desta estrutura não exista sem referência, indicação estrita do ponto onde está a outra abertura. Aqui é fácil 230 231 SARAMAGO, José. 1988, p. 38 VIERIA, Marcus André. 2001, p. 211 106 evocar a passagem de Virgílio, as duas portas do sonho: a porta de marfim e porta de chifre, que nos abrem o campo daquilo que há de verdadeiro no 232 sonho. Fazendo uma analogia do que Lacan disse, é possível compreender as duas portas como entradas do simbólico e do real. O que acontece é que entre o meio a essas duas aberturas, como se fosse um corredor, está o sentido do mundo, aquele espaço imaginário que possibilita o funcionamento das portas de maneira unívoca, como se fossem uma só, e que garante que entre as coisas e seus nomes haja uma conexão aparentemente natural e necessária.233 O lugar da estranheza corresponderia a mergulhar neste corredor, neste espaço ambíguo do entre-duas portas, que normalmente é um espaço virtual e que passa em algumas circunstâncias especiais a se revelar como 234 espaço de dimensões próprias e perigosamente elásticas. Conforme Lacan, o estranho (Unheimlich) se articula a uma paralisia, já que no espaço entre as duas portas não há ação possível. Assim, se toda a ação humana é regulada e definida pela relação entre as coisas e seus nomes e se a cola que a fixava – as duas portas – está perdida; quando se está imerso nesta dimensão do entre-dois, como lidar então com o real? Nessa medida a metáfora do entre-dois indica com clareza a inércia do imaginário.235 Percebe-se que o estranho é um campo de incertezas, principalmente no que se refere à relação eu-outro. Esse estranhamento encontra-se no campo do duplo, já que é a partir deste duplo que a imagem do eu se constitui. A partir disso fica mais claro identificar as esferas de estranhamento no texto de Saramago. Quem primeiro é tomado por este sentimento – mais uma vez a presença da sensação, do afeto – é Pessoa: “Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou, É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele”.236 Como explicar, senão pela definição de estranhamento, a situação que envolve Pessoa. Há na questão do estranho a idéia de afastamento por um afeto, de censura, de desconfiança, de não-conhecimento, de admiração, de mistério. Ao 232 LACAN, Jacques apud VIERIA, Marcus André. 2001, p. 211 VIERIA, Marcus André. 2001, p. 211 234 VIERIA, Marcus André. 2001, p. 211 235 VIERIA, Marcus André. 2001, p. 211 236 SARAMAGO, José. 1988, p. 79 233 107 mesmo tempo, num sentido inverso, vê-se uma aproximação, atraída pelo que se censura, pelo que não se espera e não se conhece, beirando o que é suspeitamente familiar. Pessoa passa na frente do espelho e se olha, sabe que deveria estar ali, enxerga-se mentalmente, no entanto não vê a imagem duplicada, este outro escondido que não se quer revelar traz uma impressão estranha. Pode-se afirmar que o estranho é o indicador de um limite que desperta o sujeito de um sonho alienado no Heim (casa), marcando algo fora, com o qual ele tem de se haver.237 No romance, Pessoa e Reis vivem a se encontrar e a se estranhar. Numa das visitas do poeta ao heterônimo, a personagem viu-se envolta ao medo: Estava a sonhar, e assim parecia, que outro rumor não se ouviu durante um minuto, Talvez haja fantasmas na casa, por isso a não tinham conseguido alugar, tão central, tão ampla, outra vez bateram, truz, truz, truz, segredamente, para não assustar. Levantou-se Ricardo Reis, enfiou os pés nos chinelos, envolveu-se no roupão, atravessou pé ante pé o quarto, saiu ao corredor a tiritar, e perguntou olhando a porta como se ela o ameaçasse, Quem é, a voz saiu-lhe rouca e trêmula, pigarreou, tornou a perguntar, a resposta veio num murmúrio, Sou eu, não era nenhum fantasma, era 238 Fernando Pessoa. O mistério neste ponto girou em torno do suspense, das palavras trêmulas, efeito que por alguns instantes ilude leitor e personagem – talvez haja fantasmas –, mas logo Reis percebe que é Pessoa, e não um fantasma. Saramago cria, nesta e em outras passagens, um grau de ficção profundo: Reis, heterônimo, surge como protagonista de uma história em que seu criador, já morto, vem lhe fazer visitas freqüentes. O processo de estranhamento dá-se em todos os sentidos. Freud, em seu texto O estranho, chega a três conclusões a respeito da ficção e o estranhamento: 1. A ficção é mais rica na produção do estranho, sendo o da experiência mais reduzido. O autor literário, na posição de um diretor de cena, pode escolher à vontade seu mundo de representação, e o aproxima ou o afasta da nossa realidade familiar. 2. A ficção consegue desfazer o efeito do estranho através de alguns recursos: a atmosfera fantástica, a realidade poética e o cômico. 3. O estranho proveniente de complexos recalcados é o mais resistente a ser desfeito ou modificado pelo autor ficcional. Entre estes estão os temas da castração, a repetição, algumas questões que tocam a crença animista, 239 o duplo e a relação com o pai. 237 PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 20 SARAMAGO, José. 1988, p. 226 239 FREUD, Sigmund apud PORTUGAL, Ana Maria. 2006, p. 35 238 108 Discutir a questão do estranhamento é remeter ao campo dos afetos, das sensações defendidas por Pessoa. É adentrar em um mundo repleto de seres e espaços conhecidos, mas que conforme a disposição surpreendem, instaurando as mais diferentes reações, ora de surpresa, ora de felicidade, ora de angústia. O ano da morte de Ricardo Reis resgata as idéias estéticas de Fernando Pessoa e as combina com um novo Ricardo Reis, chacoalhando-o de uma mansidão, de um não se envolver. Os poetas vêem-se duplicados, esse duplo não diz respeito apenas a dois seres – Pessoa e seu heterônimo – mas a muitos outros que Saramago faz surgir: Pessoa e Reis alternam-se em quereres, por isso é hora de tirar a máscara e dizer quem é e a que veio. O alicerce deste romance está nas falas e troca de olhares, na comunhão entre presente e passado. Na interlocução dos discursos que sustentam a narrativa: odes de Ricardo Reis e romance O ano da morte de Ricardo Reis. É a psicanálise com os estudos sobre o afeto que melhor auxilia na interpretação do texto de José Saramago. Na ficção, tornam-se mais claros os papéis, já que o afeto é, assim como a fantasia, encenação, espelhamento imaginário da irrupção do real. Por isso, Saramago trabalha no romance com as possibilidades de reação dos dois poetas frente a um tempo que não viram, a situações que não viveram. É uma busca para decifrar palavras, sentimentos, atitudes. O afeto é essa pantomima do sujeito na cena da fantasia. Neste teatro, Pessoa e Reis compõem o movimento de cenas, num primeiro momento, aparentemente fora da fala, entretanto, eles próprios são a fala. Expressa a incorporação de um roteiro significante, incluindo-se aí a possibilidade de uma rota de encontro com o real, não só dos poetas, mas, principalmente, do leitor. Neste ponto, o afeto encaminha para um dualismo de essências: primeiro, faz crer no corpo como substância autônoma, assim como na oposição deste corpo à alma. Seria o mesmo que dizer que as associações são inevitáveis – Pessoa e Reis de Saramago x Pessoa e Reis, um só. Isso leva a crer que o significante seria oposto ao corpo, algo que o causa desde o exterior. O Ricardo Reis de Pessoa e de Saramago caminham juntos ao final do romance, ambos entregam-se à morte, não a da alma, mas do corpo; entregam-se voluntariamente a um destino involuntário. O que restará agora que o poeta das 109 odes deixa o mundo? O que fica é a terra a esperar e deixa-se de lado “onde o mar acaba”, é momento de olhar para a terra, para o povo dessa terra, de compreender o que o poeta multifacetado já queria dizer a mais de cinqüenta anos: é preciso encontrar uma identidade, construir uma nova história – saber compreender o espetáculo do mundo. A frase final de Saramago é clara: não resta mais descobrimentos para Portugal, apenas um destino de espera, espera do que pode vir: fica a saudade e a certeza de que as respostas para o futuro poderão ser encontradas no poeta dos heterônimos. O campo das subjetividades direciona a leitura e compreensão do romance. Saramago joga com a figura simbólica de um pai para o entremeio literário. São marcas do texto, assim como dos poemas dos poetas-personagens, afetos melancólicos, resquícios de uma cultura calcada em lembranças heróicas, em descobrimentos – sentimentos centrados no passado e que por isso mesmo não constroem a identidade de um povo. O caminho é seguir as pegadas de Pessoa: somente as invenções, das mais variadas ordens, possuem o poder de resistir ao tempo e à morte; a perda é responsável, ou pelo menos deveria ser, pela luz da esperança, a quem cabe iluminar o espetáculo da vida. 110 CONCLUSÃO Com um romance erigido sob a égide da ficção, O ano da morte de Ricardo Reis abarca no campo do simbólico e desestrutura as linhas mestras da lógica. Fruto de um escritor contemporâneo, a obra estrutura-se como ficção da ficção, num nível profundo de subjetividade e estranhamento. A trama que gira em torno do regresso de Ricardo Reis a Lisboa, depois de um longo exílio no Brasil, revela uma personagem não mais poética, mas romanesca. Envolto a uma imensa melancolia, o heterônimo, protagonista da história, contracena com Fernando Pessoa morto e com si mesmo: “Lembra-se de ali se ter sentado em outros tempos, tão distantes que pode duvidar se os viveu ele mesmo, Ou alguém por mim”.240 O texto vai desdobrando-se em diálogos entre Reis e o poeta ortônimo, entre Reis e Lídia e Reis e Marcenda. José Saramago cria um jogo de ilusões no qual as imagens transpostas nem sempre representam o que deixam transparecer. As musas horacianas, personagens marcantes nas odes ressurgem como provocações às opacidades do poeta. Dentre as leituras possíveis do texto, não passa despercebida a intenção de Saramago em chamar à vida aquele cujo propósito era manter-se isolado das provocações mundanas. O envolvimento entre Ricardo Reis, Lídia e Marcenda e os longos diálogos com Fernando Pessoa, assim como o espetáculo do mundo descoberto pela personagem protagonista, vão sustentar a narrativa. No livro, tornam-se latentes alguns pontos, como o sintoma da obra escrita por Saramago. Partindo da premissa de que na obra de arte as pistas para compreensão do sintoma são dadas pela letra e de que o sintoma é visto como uma metáfora, é importante frisar que, principalmente na obra de arte, a linguagem diz muito mais do que aquilo que está exposto. No romance, vai-se trabalhando a questão metafórica em diferentes pontos. 240 SARAMAGO, José. 1984, p. 30 111 Um desses pontos é o duplo. Sua constituição e funcionamento compreende um outro de si mesmo - incógnito como tal e reconhecido pela sensação de estranhamento que é capaz de causar. A literatura explora o tempo todo a forma do duplo e Saramago vale-se dessa opção já indicada pelo jogo heteronímico criado na obra de Fernando Pessoa. Não são raras as passagens em que Reis se questiona de quem é, ou de quantos é. O duplo é um Outro que olha o sujeito sem lhe dizer nada, apenas faz com que se interrogue: “... de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem”241, “...esses inúmeros que em mim vivem, escrevendo eu”.242 A noção de duplo designa uma representação do Eu que pode tomar diversas formas, no caso da obra os graus de ficção criados por Saramago remetem a uma tripla duplicação: Reis, ficção de Pessoa, retorna como ficção de Saramago, que também torna Pessoa ficção de seu romance. O duplo assume nessa instância aquilo que Freud designava como “inquietante estranheza”, que é essa “variedade particular do pavoroso que remonta para além que é desde há muito tempo conhecido, desde há muito tempo familiar”, mas que se tornou pavoroso porque corresponde a algo recalcado que retornou. A criação do duplo está ligada a um conflito psíquico, reflexo de uma desordem íntima externada por Ricardo Reis em seus pensamentos: “quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser”,243 “... ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar em que se pensa ou sente”.244 O duplo é ao mesmo tempo idêntico ao original e diferente. É sempre figura fascinante para aquele que ele duplica, em virtude do paradoxo que representa (ele é ao mesmo tempo interior e exterior, está aqui e lá, é oposto e complementar): “E agora, perguntou, E agora, Ricardo, ou lá quem és, diriam outros”.245 Mesmo que Reis busque as respostas acerca de quem sente, pensa ou deseja por ele, não deixa transparecer sua vontade de compreender essa falta no Outro, uma vez que remete a sua própria falta e, assim, à experiência de castração. Esse duplo que constrói Ricardo Reis está no lugar deste Outro, que reflete o que o (des)conhecimento não se cansa de negar: Outro como sendo o objeto – que já se constitui, de uma 241 SARAMAGO, SARAMAGO, 243 SARAMAGO, 244 SARAMAGO, 245 SARAMAGO, 242 José. 1984, p. 20 José. 1984, p. 272 José. 1984, p. 21 José. 1984, p. 20 José. 1984, p. 42 112 determinada maneira, perdido, construindo no poeta das odes a causa do desejo, do gozo, da castração. No romance, o retorno do duplo, antes de Pessoa, agora de Saramago, não chega ao grau de pavoroso como mencionava Freud, mas adentra ao campo do estranho, intimamente ligado ao duplo. Em seu texto datado de 1919, Das Unheimliche, Freud afirma que o duplo - apesar de parecer algo de estrangeiro, estranho a nós-mesmos – sempre nos acompanhou desde tempos primordiais do funcionamento psíquico, estando sempre pronto a ressurgir e provocando-nos uma sensação de inquietante estranheza. Assim, a dúvida de quem é acompanha Reis por todo romance, ora de forma mais enfática, ora mais sutil. Outra questão que remete ao sintoma, à metáfora, está ligada ao poeta das odes. Ricardo Reis se debate entre um passado estóico e epicurista, a ele é dado o prazo de nove meses para deslumbrar-se com o espetáculo desfolhado pelos anos de 1935 e 1936. Com a inversão dos papéis: Reis está vivo e Pessoa morto, a cena passa a correr ao ritmo ditado por Ricardo Reis. Mas é nas conversas propiciadas pelos encontros dos dois poetas que as personagens fazem-se conhecer e abremse à interpretação. Discorrem acerca de quem é Reis e de quem é Pessoa, do que é estar só, de quantos neles vivem; por vezes confundem-se e discutem embreados em suas idéias: “... você nem sabe quem seja, E você alguma vez o soube...”.246 A constituição do eu vai sendo trabalhada durante o romance, mesmo que apresentando oscilações entre o eu e o outro. Metáfora da condição humana, que está sempre em busca de um eu completo, os poetas do romance procuram por uma identidade, a construção de um espaço não no romance, mas talvez a possibilidade de ultrapassar essa fronteira – é bom recordar que Saramago oferece a Reis a possibilidade de permanecer no mundo, opção que foi rejeitada. A presença de personagens como Ricardo Reis e Fernando Pessoa não são fruto do acaso ou de simples conhecidência. Na obra Saramago deixa claro o quanto “... lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodígio do seu convívio e da graça da sua presença humana”.247 E no ano que antecede o cinqüentenário de morte do poeta traz uma obra que vem reiterar não só a dor da perda mas a grandiosidade do que Pessoa construiu, já que “desde Hamlet 246 247 SARAMAGO, José. 1984, p. 119 SARAMAGO, José. 1984, p. 33 113 que nós andávamos a dizer, O resto é silêncio, afinal, do resto quem se encarrega é o gênio”.248 A retomada de Fernando Pessoa e de sua poesia, com o uso do heterônimo Ricardo Reis, revelam a intencionalidade de Saramago: é hora de mostrar a todos que o poeta português, com uma genialidade que não era vista desde Shakespeare, é aquele que deve servir de referência, o que possui a Lei. A construção da metáfora paterna – o Nome-do-Pai – não é apenas um elo subjetivo que une Reis e Pessoa, é, antes, uma indicação à genialidade de Fernando Pessoa e a sua importância no cenário literário mundial. As pistas que apontam Pessoa como esse pai literário são dadas por Saramago no romance: o texto inicia por uma inversão dos versos de Camões e encerra da mesma maneira; no entanto, enquanto o poeta dos Lusíadas indica o mar como campo de batalhas e conquistas, Saramago aponta a terra como contraponto – basta de trilhar o presente com o rosto direcionado ao passado, faz-se momento de virar para frente, para a terra, e ver que as glórias estão no que há de concreto, como a poesia de Fernando Pessoa. Ao Reis heterônimo que se declarava simples expectador, Saramago propunha uma vida mais intensa, envolta a sentimentos, a amores. Lídia e Marcenda foram as responsáveis por injetar em Reis uma boa dose de emoção, desse modo o distanciamento às cenas do mundo foram minimizadas no romance. Surge, assim, uma gama de afetos que Reis vai desenvolver durante a trama: “... entra-nos no corpo a tentação da mudez, a fascinação da imobilidade...”.249 Por mais que deseje a imobilidade, sente a tentação, chega a derramar lágrimas ao pensar em Pessoa morto, quer casar com Marcenda e sofre pelo amor rejeitado, embriaga-se com as noites que passa com Lídia, assim como sofre com a solidão e dúvidas que o atormentam. A obra de Saramago exemplifica a afirmação de Lacan de que o afeto encontra-se nas relações do sujeito com o Outro. Embrenhar-se no campo do simbólico para desvendar as faces do afeto e do estranhamento, assim como a construção do Nome-do-Pai, foram a tônica que moveram a análise da obra O ano da morte de Ricardo Reis, romance que revela a face enigmática e profunda de Saramago, um autor atento às situações de sua terra. 248 249 SARAMAGO, José. 1984, p. 34 SARAMAGO, José. 1984, p. 45 114 BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Leonor Simas. Do Rio a Lisboa com Saramago e Ricardo Reis. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 25, nº 3, p. 75-84, setembro de 1990. Brown University – USA BRAGA. Maria Lucia Santaella. As três categorias peircianas e os três registros lacanianos. Depto. de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica / Psicologia USP. São Paulo: Psicol. USP vol.10 n.2 / 1999. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103 BLEICHMAR, Noberto M. BLEICHMAR, Célia Leiberman de. A psicanálise depois de freud. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992 BRÉCHON, Robert. 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