NOÇÕES DE PSICOLOGIA DA CRIANÇA: ESTUDO SOBRE UM MANUAL DIDÁTICO DE THEOBALDO MIRANDA SANTOS Rodrigo Augusto de Souza - UFPR [email protected] RESUMO O trabalho apresenta uma reflexão sobre o estudo da psicologia infantil com base na obra Noções de Psicologia da Criança de Theobaldo Miranda Santos (1904-1971). O manual didático foi publicado como parte da coleção Curso de Psicologia e Pedagogia, da Companhia Editora Nacional. O intelectual, autor de inúmeros manuais didáticos, investigou as concepções de infância presentes nos ensinamentos dos maiores psicólogos do século XX, segundo sua compreensão. Em seu manual didático, analisou as ideias de infância presentes na obra de autores como: Claparède, Piaget, Wallon, Vermeylen, Bühler e Stern, entre outros. Este estudo utiliza das contribuições da análise do discurso para identificar a importância da psicologia da criança na referida obra de Theobaldo Miranda Santos. Palavras-chave: Discurso Pedagógico; Psicologia da Criança; Theobaldo Miranda Santos. Introdução O uso da psicologia no campo da educação permite situar o intelectual Theobaldo Miranda Santos (1904-1971) entre os renovadores educacionais do movimento pela Escola Nova. A reconhecida identificação de Theobaldo como um intelectual católico não significa afirmar que o personagem ignorou as contribuições das ciências humanas e sociais, especialmente a psicologia, aplicadas à pedagogia. Sem abrir mão de seus princípios católicos, o intelectual forjou um discurso pedagógico que aliava a renovação do pensamento católico com a utilização de algumas ciências, entre elas, a psicologia. Outro elemento a ser investigado será a concepção de infância presente no manual didático. A noção de psicologia manipulada pelo intelectual será problematizada a fim de permitir a compreensão dos seus fundamentos. As diferentes fases do desenvolvimento da psicologia infantil serão questionadas. Os conflitos de concepções de infância entre os autores manipulados por Theobaldo serão expostos. As ideias antagônicas sobre a infância apresentadas no manual didático receberão uma análise pormenorizada. A inserção da psicologia no currículo da formação de professores demonstra um ideário renovador no campo da educação. A concepção psicológica da criança e da infância será investigada no presente trabalho. O manual didático que analisamos no presente trabalho procurou demonstrar o surgimento da “psicologia da criança” como uma disciplina autônoma no currículo da formação de professores. A intenção de Theobaldo Miranda Santos era que a obra fosse utilizada nas “Escolas Normais, Institutos de Educação e Faculdades de Filosofia”. Trata-se, portanto, de um manual destinado à formação docente. A dedicação do livro foi para o intelectual José Barreto Filho, que por certo tempo, foi professor dessa disciplina na Universidade Católica do Rio de Janeiro. Assim, fica evidente, o intento de Theobaldo Miranda Santos de subsidiar o trabalho docente daqueles que estavam responsáveis pela formação de novos quadros para o magistério brasileiro. Como característica da obra, percebemos o estilo do autor em privilegiar a compilação das principais tendências e teorias da psicologia infantil. Não deixa, porém, de oferecer sua interpretação às ideias pedagógicas advindas dessas teorias. No seu estilo peculiar, Theobaldo Miranda Santos ofereceu amplo destaque aos temas relacionados com a História e a Filosofia. Identificou, por exemplo, o surgimento da psicologia entre os filósofos da Grécia antiga, nesse sentido, divergindo da consideração comum entre os historiadores de que a psicologia como ciência só teria surgido na Alemanha, no século XIX, com base nos estudos de Wilhelm Wundt (1832-1920). O intelectual divergiu dessa concepção, mostrando inclusive, a presença da psicologia na Idade Média (SANTOS, 1965, p.57). Esse exercício de anacronismo mostrou as nuances do discurso pedagógico de Theobaldo Miranda Santos. Outro aspecto relevante é o surgimento da criança como sujeito no sentido psicológico no campo da educação. A criança apareceu como um sujeito psicológico com implicações diretas sobre a prática pedagógica. Nesse sentido, as ideias pedagógicas de Theobaldo participaram do ideal de renovação educacional do movimento pela Escola Nova. A Organização do Manual Didático O manual didático integra um conjunto de 274 páginas, divididas em 10 capítulos. A primeira edição do livro remonta ao início da década de 1950. No ano de 1951, o manual já se encontrava na sua segunda edição, chegando à quinta edição em 2 1957. As tiragens dos livros didáticos de Theobaldo Miranda Santos são realmente surpreendentes. O livro foi publicado como o volume 16 da coleção Curso de Psicologia e Pedagogia, da Companhia Editora Nacional. A referida coleção foi destinada exclusivamente às publicações de Theobaldo. Durante esse processo de sucessivas edições, o manual não passou por alterações significativas no seu conteúdo. Apenas mudanças na forma e não no conteúdo, como a inserção de fotografias e gravuras no corpo do texto e mudanças na capa e contracapa. Apresentaremos a organização do manual quanto à disposição dos capítulos. Capítulo Capítulo I: Psicologia da Criança Conteúdo I. Evolução histórica. A) Período filosófico. B) Período descritivo. C) Período experimental. II. Concepção da infância. A) A Concepção otimista. B) A Concepção pessimista. C) A Concepção realista. IIII. A criança e o adulto. A) A criança como miniatura do adulto. B) Autonomia da personalidade infantil. IV. Problemas e exercícios V. Referências bibliográficas. Capítulo II: Métodos e Técnicas I. Caracteres gerais. A) O problema do método. B) Classificação dos métodos. II. Aplicação dos métodos. A) Observação. B) Experimentação. III. Problemas e exercícios. IV. Observações e experiências. A) A Ordenação dos métodos da psicologia da criança. B) Métodos de laboratório. C) Classificação geral dos testes. V. Referências bibliográficas. Capítulo III: Desenvolvimento Pré-Natal I. Caracteres gerais. A) O período prénatal. B) A vida intrauterina. II. Desenvolvimento fetal. Desenvolvimento sensorial. A) B) 3 Desenvolvimento motor. III. Problemas e exercícios. IV. Observações e experiências. Variação das proporções do corpo humano durante a vida fetal. V. Referências bibliográficas. Capítulo IV: Desenvolvimento do Recém- I. Caracteres gerais. A) Situação vital do Nascido recém-nascido. B) Trauma do nascimento. II. Vida psíquica do recém-nascido. Sistema nervoso do recém-nascido. Sensações do recém-nascido. Movimentos do recém-nascido. Estados afetivos do recém-nascido. A) B) C) D) III. Problemas e exercícios. IV. Observações experiências. A) Métodos de estudo do recém-nascido. B) Concepções atuais do recém-nascido. V. Referências bibliográficas. Capítulo V: O Crescimento Físico I. Caracteres gerais. A) Natureza do crescimento.B) Ritmo do crescimento. C) Fatores do crescimento. II. Estádios evolutivos. A) Fases do crescimento.B) Normais pedagógicas. III. Problemas e exercícios. IV. Observações e experiências. Variações das proporções do corpo humano a partir do nascimento. V. Referências bibliográficas. Capítulo VI: O Desenvolvimento Mental I. Caracteres gerais. A) Natureza do desenvolvimento. B) Teorias do primado dos fatores internos. C) Teorias do primado dos fatores externos. D) Teorias da interação dos fatores. II. Estádios evolutivos. A) Fases do desenvolvimento mental. B) Normas pedagógicas. III. Problemas e exercícios. 4 IV. Observações e experiências. Variações das proporções do corpo humano a partir do nascimento. V. Referências bibliográficas. Capítulo VII: A Primeira Infância I. Caracteres gerais. A) A primeira infância. B) Evolução dos interesses. II. Organização sensório-motora. A) As percepções. B) Os movimentos. C) Linguagem. III. Vida afetiva. A) As tendências. B) As emoções. IV. Problemas e exercícios. V. Observações e experiências. A) As fases do desenvolvimento motor da criança. B) Avaliação do desenvolvimento mental da primeira infância. 1. Testes de Izard-Simon. 2.Testes de Kuhlmann. VI. Referências. Capítulo VIII: A Segunda Infância I. Caracteres gerais. A) A segunda infância. B) Evolução dos interesses. II. Organização da atividade objetiva. A) A curiosidade. B) A imitação. C) As atividades espontâneas. 1. O jogo. 2. O desenho. D) As funções de aquisição. E) A atenção. F) A memória. G) A associação. III. Problemas e exercícios. IV. Observações. A) Métodos de do desenho infantil. B) experimental de atenção. C) experimental da memória. D) experimental da associação. Estudo Exame Exame Exame V. Referências bibliográficas. Capítulo IX: A Terceira Infância I. Caracteres gerais. A) A terceira infância. B) Evolução dos interesses. II. Organização da atividade intelectual. A) Formação do pensamento. B) A abstração e a generalização. C) As noções 5 abstratas. D) Do juízo e do raciocínio. E) Evolução do pensamento infantil. 1. O pensamento artístico. 2. O pensamento pré-lógico. 3. O pensamento lógico. F) A imaginação e a invenção. G) A sugestibilidade e a mentira. H) A criança e o mundo. I) A criança e o sonho. J) A criança e os contos de fadas. L) A criança e a sociedade. III. Problemas e exercícios. IV. Observações e experiências. Exame experimental da imaginação infantil. 1. Teste de Bine-Simon. 2. Teste de Ebbinghaus. 3. Teste de Whippie. V. Referências bibliográficas. Capítulo X: Adolescência I. Caracteres gerais. A) A adolescência. B) Evolução dos interesses. II. Organização da personalidade. A) Estrutura da personalidade. B) Personalidade do adolescente. C) Fases da adolescência. D) Vida Afetiva do adolescente. E) Vida intelectual do adolescente. F) Vida imaginativa do adolescente. G) Vida sexual do adolescente. H) Vida social do adolescente. I) Vida moral e religiosa do adolescente. III. Problemas e exercícios. IV. Observações e experiências. Exame experimental da personalidade do adolescente. Psicodiagnóstico de Rorschach. V. Referências bibliográficas. A organização do manual didático de Theobaldo Miranda Santos evoca certa similitude com a teoria de Jean Piaget para a compreensão da criança. Piaget (1967) dividiu o desenvolvimento infantil em quatro fases: I. O recém-nascido e o lactente; II. A primeira infância: de dois a sete anos; III. A infância de sete a doze anos e IV. A 6 adolescência. A lógica seguida por Theobaldo em seu livro aponta para aquela que foi desenvolvida por Piaget. O pensador suíço foi citado pelo autor na obra (SANTOS, 1951, p. 23). No entanto, essa não é a referência fundamental do livro, outros autores também são manipulados pelo intelectual. O aspecto didático está muito presente no manual de ensino. Há em todos os capítulos sugestões de exercícios, experiências, testes e referências bibliográficas destinadas aos alunos. Para Theobaldo (1951), a infância estava dividida em três fases: a primeira infância, que compreenderia a organização sensório-motora da criança; a segunda infância, momento das operações objetivas; a terceira infância seria o período do desenvolvimento intelectual. Na sequência, viria a adolescência que levaria a termo a infância. Não há originalidade em suas ideias quanto às fases do desenvolvimento da criança. O intelectual parece recolher o consenso entre os psicólogos que apontam para as diferentes fases da infância. Desse modo, fica evidente como a psicologia alcançou um status importante no campo da educação, segundo o pensamento de Theobaldo Miranda Santos. As Noções de Psicologia e de Infância A respeito das noções de psicologia e de infância, encontramos nas obras Noções de Psicologia da Criança, Noções de Psicologia Educacional e Manual de Psicologia, fontes privilegiadas para a abordagem do tema no pensamento de Theobaldo Miranda Santos. Cabe pontuar que o Manual de Psicologia fez parte da coleção Curso de Filosofia e Ciências, diferindo nesse sentido, quanto ao seu projeto editorial, da coleção Curso de Psicologia e Pedagogia. De acordo com a definição de Theobaldo, a psicologia compreenderia a “totalidade da vida psíquica”. O intelectual afirmou que há diversos pontos de vista sobre o assunto, no entanto, sua opinião estaria em considerar a psicologia pela perspectiva da totalidade da vida psíquica. Desse modo, ela viria a se ocupar da “consciência”, que seria o “foco de irradiação e de convergência da vida psíquica”, do “inconsciente e subconsciente”, que formariam “infraestruturas psíquicas em permanente interação com a consciência”, dos “gestos, atitudes e linguagem”, que tratariam das “diversas formas de conduta” e por fim, dos “produtos objetivos da vida 7 psíquica”, como as “realizações concretas da consciência”. Theobaldo insistiu na ideia de que a psicologia é uma ciência. Primeiro definiu-a como “ciência da conduta ou do comportamento exterior e interior” e depois como uma “ciência descritiva”. Em última análise, definiu “a psicologia como a ciência da vida psíquica, esta considerada em sua realidade total”. O objeto da psicologia seria ocupar-se de “descrever, explicar e compreender os fenômenos psíquicos, quer na sua atividade interna, quer nas suas manifestações externas e realizações concretas” (SANTOS, 1965, p. 20-21). Do ponto de vista histórico, a psicologia da criança foi divida em três períodos de desenvolvimento: período filosófico, período descritivo e período experimental. O período filosófico foi estabelecido porque de acordo com Theobaldo, “os filósofos foram os primeiros a se interessar pelo estudo da psicologia da criança”. Os filósofos procuraram estudar a “alma da criança”, para saber se as ideias eram inatas ou adquiridas na interação com o mundo. Entre os filósofos citados por Theobaldo estão Locke, Vives, Montainge e Comênio. Esses pensadores estudaram a “vida espiritual da criança”. Há também menção ao nome de Fénelon. Um destaque especial foi oferecido ao pensamento de Rousseau. Entre as obras importantes citadas por Theobaldo estão: “Pensamentos sobre a Educação”, de Locke, “Tratado sobre a Educação dos Jovens”, de Fénelon e o “Emílio”, de Rousseau. Na visão do intelectual, essas seriam obras capitais para a psicologia da criança no período filosófico (SANTOS, 1951, p. 13-14). Para Theobaldo (1951, p.14-15), seria preciso distinguir os enfoques literários e filosóficos, da elaboração científica que foi realizada por Piaget. A epistemologia genética de Piaget teria dado cientificidade à psicologia da criança, de acordo com o autor. O período descritivo foi iniciado por Pestalozzi e remonta a 1770, quando ele iniciou seu diário com base na observação do comportamento de seu filho. Esse período se ocupou da “evolução psíquica da criança”. Theobaldo citou a obra de Darwin, “Biographical Sketch of an Infant” (Esboço biográfico de um bebê). Entre as muitas obras e autores mencionados pelo intelectual, encontramos nesse período a “elaboração da ciência da criança”. A respeito do período experimental, sustentou que “com o interesse crescente [da psicologia] pelos problemas educacionais, começou a sentir-se a necessidade de se penetrar mais profundamente nas questões relacionadas com a natureza psíquica da 8 infância”. Esse seria o período dos testes psicológicos relacionados com os estudos sobre a criança. Os testes começaram a surgir, segundo Theobaldo, em 1890, nos Estados Unidos, com o psicólogo Terman. Esse movimento de testes teria contribuído para o estudo da “personalidade infantil”. Assim, a psicologia infantil teria ganhado “foros de ciência autônoma”. Entre os autores citados estão Vermeylen, Decroly, Descoeudres, Claparède, Thorndyke, Koffka, Bühler, Piaget e muitos outros (SANTOS, 1951, p. 16). Como demonstra a imagem abaixo, Theobaldo Miranda Santos utilizou-se dos estudos da epistemologia genética de Jean Piaget para investigar a formação da criança na vida intrauterina. Procurou compreender o desenvolvimento normal do “feto”, desde a sua concepção. Seguiu, dessa forma, uma perspectiva marcadamente biológica próxima do evolucionismo. Figura 1: Variação das proporções do corpo humano durante a vida fetal. Fonte: SANTOS (1951, p.45). A psicologia da criança, de acordo com o pensamento de Theobaldo expresso no manual didático, reforçou os papéis sociais ligados às representações de sexo e de gênero. Por exemplo, quando tratou da importância dos jogos no desenvolvimento infantil, o autor ressaltou a que a boneca seria um brinquedo muito importante para a 9 criança, uma vez que assim ela já começaria a experimentar as suas responsabilidades da vida de adulto. No caso, ficou evidente a afirmação do papel social da mulher como mãe e esposa. A mulher deveria ser educada para assumir esses mandatos sóciosimbólicos: ser esposa e mãe. A boneca é o mais importante dos brinquedos infantis. Nenhum brinquedo exerce maior influência sobre a alma da criança. Não há menina que não ame sua boneca. Brincando com a boneca, as crianças, dentro do seu mundo lúdico e mágico, preparam-se, sem o saber, para os futuros encargos da maternidade, derivam para a ficção as atividades que não podem exercer na realidade e têm a ilusão de um poder e de um domínio que compensa o seu sentimento de inferioridade (SANTOS, 1951, p. 181). Figura 2: Meninas brincam com suas bonecas. Fonte: SANTOS (1951, p.181). A afirmação de Theobaldo Miranda Santos dá margem para compreendermos a educação da mulher como forma de preparação para a maternidade. Pensemos na boneca como símbolo da educação feminina para a maternidade. As diferenças entre os brinquedos das meninas e dos meninos demonstram a afirmação das representações sociais construídas na época em torno das compreensões de feminilidade e masculidade. 10 Se considerarmos as imagens que apareceram em seus manuais didáticos como discursos, podemos compreender a afirmação de uma representação social sobre aluno, como ficou evidente na figura a seguir. Theobaldo procurou demonstrar as características do bom aluno. Figura 3: O “bom aluno” tem atenção voluntária. Fonte: SANTOS (1951, p. 233). A atenção voluntária, como a deste escolar, só aparece na terceira infância por influência da aprendizagem. Nesta idade não são apenas os interesses imediatos que solicitam a atenção da criança. Vários estímulos de ordem social e moral se tornam agora móveis da atenção: noção do dever, desejo de agradar aos pais ou aos professores, aspiração de tirar boas notas ou de aparecer como bom aluno, etc. (SANTOS, 1951, p. 233). O intelectual apontou para duas concepções antagônicas de infância: a concepção otimista e a concepção pessimista. Ambas as visões ao tratarem da “natureza espiritual da criança” possuem análises divergentes. A visão otimista seria representada por Rousseau e acreditaria na “bondade inata da criança”. Essa ideia teria sido disseminada nos “sistemas pedagógicos” mais generalizados. No entanto, para Theobaldo, “a concepção otimista de Rousseau colide a todo o momento com a 11 realidade e é desmentida pela mais elementar experiência”. Sustentou que “é falso que a natureza humana seja essencialmente boa”. Mais adiante afirmou que a doutrina católica do “pecado original” demonstraria que o homem não é bom por natureza. A concepção pessimista estaria apoiada na “antropologia dos calvinistas e dos jansenistas”. Segundo essa compreensão, “a criança é essencialmente má e somente tomará hábito se for educada por métodos severos”. Trata-se de uma “pedagogia trágica e angustiada” e que teria apoio na obra de Nietzsche, com “um pessimismo antropológico doloroso e sombrio”. Para Theobaldo, a concepção realista seria a mais adequada: “considera a criança como um ser onde se entrechocam tendências boas e tendências más”. Entendeu que “segundo a concepção cristã, o pecado original não tornou a natureza humana substancialmente corrompida” (SANTOS, 1951, p. 17-19). Figura 4: Variação das proporções do corpo humano após o nascimento. Fonte: SANTOS (1951, p. 72). Em uma perspectiva linear e evolucionista, Theobaldo Miranda mostrou o crescimento “normal” e “sadio” do corpo humano. A preocupação com as “proporções” exatas do corpo revelam uma preocupação minuciosa com o “desenvolvimento” do corpo humano. 12 Observações Críticas Autores como Santos (1951, 1958 e 1965), Fontoura (1973), Castiello (1958), Foulquié (1952), entre outros, demonstram a formação de um discurso pedagógico católico que se utilizou intensamente das contribuições da psicologia no campo da educação. A pedagogia “católica” desses intelectuais incorporou consigo os conhecimentos provenientes de variadas correntes da psicologia e da psicanálise. Desde o seu artigo publicado na Revista A Ordem, Santos (1938) já demonstrava interesse pelos estudos psicológicos e psicanalíticos. Suas obras são polissêmicas e suscitam o diálogo com inúmeros estudiosos do tema. O destaque está na sua interloução com autores estrangeiros, sobretudo europeus e norte-americanos. Isso não significa afirmar que autores brasileiros e latino-americanos foram ignorados em suas obras. Foucault (2011, p.198-199) tratou das diferenças entre os termos criança e infância. Para o pensador francês, o “problema das crianças (quer dizer de seu nascimento e da relação natalidade – mortalidade) se acrescenta o da infância (isto é, da sobrevivência até a idade adulta, das condições físicas e econômicas desta sobrevivência)”. Ainda para Foucault, a infância seria um período de “desenvolvimento” da criança. Desse modo, a noção de criança estaria ligada ao aspecto quantitativo, ao passo que a infância, por sua vez, seria a dimensão qualitativa, ou seja, a criança em seu processo de desenvolvimento humano. Segundo o filósofo, surgem responsabilidades no “cuidado” com as crianças, “obrigações de ordem física (cuidados, contatos, higiene, limpeza, proximidade atenta); amamentação das crianças pelas mães; preocupação com o vestuário sadio; exercícios físicos para assegurar o bom desenvolvimento do organismo: corpo a corpo permanente entre adultos e crianças”. A criança precisaria ser elevada ao “estado de maturidade”. Lembra Foucault que “desde o fim do século XVIII, o corpo sadio, limpo, válido, o espaço purificado, límpido, arejado, a distribuição medicamente perfeita dos indivíduos, dos lugares, dos leitos, dos utensílios, o jogo do ‘cuidadoso’ e do ‘cuidado’, constituem algumas leis morais essenciais da família”. Essa seria a instância da família medicalizada para cuidar da criança. Os estudos de Freud (1996, p. 71) sobre a infância evidenciam a definição dos seguintes períodos: “a sedução, aos três anos e um quarto”, logo após viria o “período 13 da alteração em seu caráter” [da criança], até o sonho de ansiedade (quatro anos de idade) “e o terceiro seria o período da neurose objetiva, baseada no ‘medo de animais’ e na ‘iniciação religiosa’, época posterior aos dez anos”, por exemplo. Temos, portanto, os períodos da sedução, da alteração do caráter e da neurose objetiva. Esses seriam os correspondentes das fases oral, anal e fálica. Na medida em que, a criança como sujeito psicológico, foi objeto de testes, mensurações e também deveria receber a iniciação religiosa, de acordo com Theobaldo Miranda Santos, podemos sustentar que seu manual didático serviu para produzir o neurótico. O inculcar moral e religioso da criança pelos educadores, pais e agentes religiosos leva inevitavelmente à neurose. O livro Noções de Psicologia da Criança ao defender a sedução da criança, pelo brincar e os jogos, a alteração do caráter por meio dos testes psicológicos e da educação, e a iniciação religiosa e a formação moral encaixa-se na análise freudiana. O manual didático de Theobaldo Miranda Santos, do ponto vista freudiano, seria um instrumento da produção de neuróticos. Considerações Finais O manual didático de Theobaldo Miranda Santos mostrou a emergência da criança como sujeito psicológico no âmbito da educação brasileira. Desse modo, participou do projeto educacional do Movimento pela Escola Nova. Ao defender a psicologia da criança como um elemento importante da educação, Theobaldo integrouse a um ideário pedagógico renovador. O diálogo do autor com as mais variadas vertentes da psicologia educacional é marcante ao longo de toda a obra. Amplo destaque foi oferecido ao pensamento de Piaget, que perpassa todo o livro. Freud também foi citado. Há uma conciliação das contribuições da psicologia da criança com a renovação do pensamento católico. A posição de Theobaldo como um intelectual católico incorporou elementos significativos da psicologia, que foi defendida por ele como ciência da vida psíquica. Com base na análise de Foucault, podemos compreender esse manual didático, como um jogo do “cuidadoso” e do “cuidado” em relação à criança. A preocupação em garantir o “desenvolvimento” da criança, isto é, a sua infância, apareceu munida de práticas de saúde e de moralização. A criança precisaria receber “cuidados”, 14 medicamentos, ser acompanhada de perto pelo adulto (família) e moralizada, para que a sua infância seja garantida. O jogo contemplaria o “cuidadoso”, que seria atribuição do adulto (professores, pais e familiares) e o “cuidado”, que constitui as práticas de saúde, de escolarização e de moralização das crianças. Já do ponto de vista da psicanálise de Freud, a psicologia da criança, tal como foi apresentada no livro de Theobaldo Miranda Santos, pode ser entendida com um mecanismo da produção do indivíduo neurótico. Por inculcar a religião e a moral na criança, através da sedução e da alteração do caráter, a educação desenvolvida nesses pressupostos, levaria de modo categórico ao aparecimento do neurótico. REFERÊNCIAS CASTIELLO, Jaime. Uma Psicologia Humana da Educação. Rio de Janeiro: Agir, 1958. FONTOURA, Afro do Amaral. Psicologia Educacional. Rio de Janeiro: Aurora, 17.ª ed., 1973. FOUCAULT, Michel. A Política da Saúde no Século XVIII. In: ______. Microfísica do Poder. São Paulo: Graal, 2011, p. 193-207. FOULQUIÉ, Paul. As Escolas Novas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1952. FREUD, Sigmund. Uma Neurose Infantil e outros trabalhos (1917-1918). Rio de Janeiro: Imago, 1996. PIAGET, Jean. Seis Estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense, 1967. SANTOS, Theobaldo Miranda. 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