ISSN: 1808-589X REVISTA MOSAICUM FACULDADE DO SUL DA BAHIA / FASB Volume 1 Número 2 Ago./ Dez. 2005 FACULDADE DO SUL DA BAHIA / FASB NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO, PESQUISA E EXTENSÃO - NUPPE REVISTA MOSAICUM Revista Teixeira de Mosaicum Freitas/BA v. 1 n. 2 p. 1 - 174 2005 FUNDAÇÃO FRANCISCO DE ASSIS Presidente: Lay Alves Ribeiro FACULDADE DO SUL DA BAHIA - FASB INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO DO SUL DA BAHIA - ISESB Diretor-acadêmico: Valci Vieira dos Santos Diretor-administrativo: Sélcio de Souza Silva COORDENAÇÃO DO NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO, PESQUISA E EXTENSÃO: Wilbett Rodrigues de Oliveira Whelligton Renan da Vitória Reis CONSELHO EDITORIAL: Sélcio de Souza Silva Valci Vieira dos Santos Wilbett Rodrigues de Oliveira REVISÃO: Sélcio de Souza Silva Valci Vieira dos Santos CAPA: Leandro Oliveira Cruz Wilbett Rodrigues de Oliveira DIAGRAMAÇÃO: Caroline Duarte S. Zôrzo COLABORAÇÃO: Gustavo Aveiro de Araújo REVISTA MOSAICUM É uma publicação do Núcleo de Pós-graduação, Pesquisa e Extensão da Faculdade do Sul da Bahia e do Instituto Superior de Educação do Sul da Bahia. Os artigos apresentados são de inteira responsabilidade de seus autores. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Biblioteca Santa Clara da Faculdade do Sul da Bahia, BA, Brasil) R454 Revista Mosaicum – Faculdade do Sul da Bahia Ano 1, n.2 (ago/dez, 2005). – Teixeira de Freitas, BA. 176p. Semestral ISSN: 1808-589X 1. Cultura – Periódicos. I. Faculdade do Sul da Bahia. CDD 050 Revista Mosaicum Rua Graciliano Viana, 79 - Bela Vista - 45995-050 - Teixeira de Freitas, BA (73) 3292 4820 - Fax (73) 3292 4819 E-mail: [email protected] APRESENTAÇÃO Os textos apresentados, neste segundo número da Revista Mosaicum, confirmam a idéia primeva da Faculdade do Sul da Bahia – FASB de ver reunidos, numa única coletânea, trabalhos de diversas áreas do conhecimento, com o firme propósito de contribuir para a produção científica dos nossos docentes, no exercício pleno de um dos pilares – pesquisa - que fazem o Ensino Superior acontecer. Este número atende a mais um dos nossos desejos, qual seja o de estabelecer diálogos entre instituições de Ensino Superior no campo da pesquisa e das discussões intelectuais, haja vista a essencial troca de experiências entre profissionais de educação, sobretudo quando estes transitam livremente pelo mundo acadêmico institucional, tornando-se possível a sintonia entre as práticas educacionais do ensino superior público e privado. Dessa forma, participam também desta publicação artigos de professores do campus X, da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, da Universidade de Santa Cruz – UESC e aluno do Mestrado em Administração de Empresas da Faculdade Cenecista de Varginha - FACECA. Assim, faz parte do corpus desta publicação o primeiro texto intitulado “Desenvolvimento regional: a opção pelo eucalipto no extremo sul da Bahia”. Nele, seus autores apresentam um panorama do processo de implantação dos empreendimentos florestais da região. Pretendem, ainda, enriquecer o debate sobre questões alusivas às atividades silviculturais e industriais, ligadas ao setor de produção de madeira, celulose e papel. Em “Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade”, a autora enfatiza diversas concepções que o termo infância carrega, quando essas ultrapassam o sentido de um período da vida humana que se inicia no nascimento até a puberdade, sob a ótica dos olhares da modernidade e pós-modernidade. Já o terceiro artigo, “Reestruturação da economia cacaueira do sul da Bahia pela adoção de novas tecnologias”, aborda a decantada crise que assolou a região cacaueira do sul da Bahia. Para tanto, desenvolveu-se uma pesquisa, a qual apontou possibilidades para a reestruturação dessa atividade econômica. A educação indígena ganha espaço especial nesta publicação. O tecido “Políticas públicas e a educação escolar indígena” quer dá conta de apresentar, panoramicamente, a história da educação indígena no Brasil. Discute, outrossim, as reivindicações das organizações indígenas e indigenistas em prol do reconhecimento de seus direitos. “Uma reflexão sobre o trabalho e a evolução do modelo de acumulação capitalista” discute as transformações do trabalho privado no seio das profundas transformações socioeconômicas que campeiam num mundo capitalista, desde os idos do século passado. Por outro lado, pretende também apontar possíveis soluções às incertezas que o homem moderno enfrenta. Com o artigo “O ministério público e a educação em direitos humanos”, o mosaico de textos se amplia em função da presença do campo do direito, com suas discussões jurídicas e sociológicas. A proposta do autor é evidenciar um assunto que considera de extrema importância – direitos humanos –, os quais acham-se inseridos nos direitos elementares das pessoas. Destaca a figura do Ministério Público como um grande aliado na defesa dos interesses sociais, contribuindo, pois, para a melhoria de qualidade de vida da população. O ato da escrita volta a ser mote nesta publicação, dada a sua importância no processo de comunicação entre as pessoas. Em seu artigo “A liberdade da escrita na/da internet: características lexicais do dialeto internetês”, o autor tem por objetivo analisar a liberdade da escrita dos seus usuários, uma vez que esse modelo escriturário permite-lhes não se prenderem aos padrões formais e normativos da escrita linear, aproximando a escrita cada vez mais da oralidade. Em seguida, a filosofia política do pensador francês Jean-Jacques Rousseau, a respeito dos princípios democráticos do Estado, ganha espaço no artigo “J.- J. Rousseau e o referendo popular”, ao discutir sobre a questão da legitimidade das ações públicas, especialmente as legislativas. No artigo “A importância do serviço ao cliente e o desempenho da empresa”, faz-se abordagem sobre a relevância do serviço a ser prestado ao cliente como diferencial, além de assegurar a competitividade das empresas. Apresenta alguns métodos de mensuração do desempenho desse serviço. A análise de textos literários volta a ser evidenciada nesta edição. Em “O entrecruzamento histórico e ficcional em História, Coração e Linguagem, de Carlos Drummond de Andrade”, o autor busca discutir a relação entre História e Ficção, a partir da leitura da obra A Paixão Medida, do poeta itabirano. Temáticas ambientais fazem parte também do rol de textos que dão forma a esta Revista. A autora do artigo “Caracterização de pesquisas focalizando as questões ambientais” o constrói com base no resultado de um estudo realizado em oitocentos e noventa artigos publicados em Coletâneas e Anais de Encontros de Ensino de Biologia, com ênfase nas questões de ordem ambiental. “A poética desnuda em A Rosa do Povo” é outro texto que denuncia a presença da análise literária na coletânea. Seu autor pretende analisar aspectos semânticos na obra drummondiana e considera o contexto sóciopolítico em que a poesia se acha inserida. O último artigo “Arranjos produtivos locais: uma estratégia para o desenvolvimento regional” aborda como estratégia de desenvolvimento regional, a sustentabilidade de processos de aprimoramento, com fulcro em aglomerados produtivos, com destaque para os arranjos produtivos locais. Enfatiza, ademais, a importância de participação de vários atores no processo de desenvolvimento regional. Agradecendo a Fundação Francisco de Assis o incentivo às publicações do corpo docente da Faculdade do Sul da Bahia-FASB e de professores convidados, e ao Núcleo de Pós-graduação, pesquisa e extensão-NUPPE, pela diagramação e empenho constante, para a concretização deste trabalho, reconhecemos ser de suma importância disponibilizar à comunidade acadêmica espaço para a sistematização de suas idéias, como meio de intervenção social e política. Prof. Ms. Sélcio de Souza Silva Prof. Ms. Valci Vieira dos Santos SUMÁRIO 1 Desenvolvimento regional: a opção pelo eucalipto no extremo sul da Bahia, 9 Antonio Genilton Sant’Anna e Marcelino Serreti Leonel 2 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade, 25 Bernardina Maria de Sousa Leal 3 Reestruturação da economia cacaueira do sul da Bahia pela adoção de novas tecnologias, 45 Francisco Mendes Costa 4 Uma reflexão sobre o trabalho e a evolução do modelo de acumulação capitalista, 65 George Henrique Merino Rodolfo 5 Políticas públicas e a educação indígena, 71 Helânia Tomazine Porto Veroneze 6 O Ministério Público e a educação em direitos humanos, 91 José Dutra de Lima Júnior 7 A liberdade da escrita na/da internet: características lexicais do dialeto internetês, 103 Sélcio de Souza Silva 8 J. J. Rousseau e o referendo popular, 119 Sílvio Murilo Melo de Azevedo 9 A importância do serviço ao cliente e o desempenho da empresa, 127 Vagner Rodrigues de Souza 10 O entrecruzamento histórico e ficcional em História, Coração e Linguagem, de Carlos Drummond de Andrade, 137 Valci Vieira dos Santos 11 Caracterização de pesquisas focalizando as questões ambientais, 143 Vania Rita Donadio Araújo 12 A poética desnuda em A Rosa do Povo, 153 Wilbett Rodrigues de Oliveira 13 Arranjos produtivos locais: uma estratégia para o desenvolvimento regional, 159 Wilson Alves de Araújo Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 7 1 DESENVOLVIMENTO REGIONAL: A OPÇÃO PELO EUCALIPTO NO EXTREMO SUL DA BAHIA Antônio Genilton Sant’Anna* Marcelino Serretti Leonel** RESUMO O objetivo deste trabalho é apresentar um panorama do processo de implantação dos empreendimentos florestais no extremo sul da Bahia, analisando as ações e medidas que foram tomadas ao longo do mesmo. Vale ressaltar que a análise aqui encetada toma como base uma perspectiva histórica e busca colaborar para o perfeito entendimento dos impactos sobre a estrutura socioeconômica e cultural da região. Espera-se, assim, enriquecer o debate acerca das atividades silviculturais e industriais, ligadas aos setores de produção de madeira, celulose e papel, bem como contribuir para a opção na tomada de decisão no que concerne à implantação de novos empreendi-mentos e na mudança de atividade daqueles setores tradicionais, a pecuária principalmente, que se veêm diante de um dilema, ante à avalanche representada pela chegada dessa indústria na região. Palavras-chave: Empreendimentos; silviculturais; madeira; celulose; papel. Introdução “O apagão verde está chegando” (SOUZA, 2005). Com este título, começa o artigo que analisa o setor madeireiro, publicado na revista EXAME, em sua parte integrante: Guia Exame 2005 - Agronegócio, do mês de agosto. A reportagem nos informa que antes do final da década, o Brasil deverá passar de exportador a importador de madeira reflorestada, apesar da abundância de terras agricultáveis e que, nos anos noventa e no início desta década, o Brasil cortou mais árvores do que plantou. Em 2002, derrubou 500.000 hectares de florestas e plantou só 300.000. Na mesma revista, na reportagem seguinte, intitulada “O avanço dos estrangeiros” (HAMA, 2005), as seguintes informações adicionais são veiculadas no artigo: O Brasil atrai multinacionais e caminha para tornarse um pólo mundial de celulose. Em setembro ganha uma fábrica de 1,2 bilhão de dólares na Bahia. A vantagem brasileira decorre de suas * Antônio Genilton Sant’Anna é bacharel em Administração Pública, especialista em Gestão Empresarial e Docência Superior, supervisor de EaD da UNITINS e professor da FASB. ** Marcelino Serretti Leonel é licenciado em Matemática, especialista em Fundamentos da Matemática, Informática em Educação e Matemática e Estatística, professor da UNEB e da FASB. Antonio Genilton Sant’Anna e Marcelino Serreti Leonel condições ambientais. Aqui, um eucalipto precisa de sete anos para crescer, enquanto as florestas de outras regiões da América do Sul demoram 12 anos. Em países como Portugal e Espanha, as árvores levam 15 anos para entrar em produção. O Brasil tem a segunda maior extensão territorial coberta por florestas do mundo, mas só 1% corresponde a árvores cultivadas, utilizadas para exploração comercial. O extremo sul da Bahia, o norte do Espírito Santo e o nordeste de Minas Gerais são regiões altamente propícias ao cultivo do eucalipto. Conforme podemos constatar na figura 1, esta região está compreendida geograficamente nas mesmas coordenadas em que o eucalipto se originou. Equador 10 º 30º s di an gr E. 20º E. urophylla Figura 1 - Regiões propícias ao cultivo do eucalipto. Fonte: SOUZA (2003). Ante tal cenário e dadas as condições de excelência que o extremo sul da Bahia apresenta, a silvicultura aparece como uma forte opção de investimento na região. Assim, projetos florestais de eucalipto têm sido implantados e novas opções e modalidades se apresentam. A análise dos fatores que permitem definir a melhor localização da indústria tem levado os estudiosos do assunto à formulação de teorias capazes de quantificar as diversas influências exercidas pelo espaço geográfico sobre as atividades econômicas. Essas teorias visam, em primeiro lugar, a dar resposta exata, tanto quanto possível, a perguntas como: “Onde produzir?”, “O que produzir?”, “Para quem produzir?”, “Quanto produzir?” e “Como produzir?”. Esses aspectos, juntamente com a localização ótima de um empreendimento (definida como a que assegura a maior diferença entre custos e benefícios, privados ou sociais, ou que permite a mais alta taxa de rentabilidade), devem, também, ser usados no setor florestal, como, por exemplo, na localização econômica de reflorestamentos, de fábricas de papel e celulose, de carvoarias e na melhor utilização dos diversos tipos de solos (REZENDE, 2001, p. 47 ). Neste contexto, surgem novas formas de abordagens, tipologias, 10 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Desenvolvimento regional: a opção pelo eucalipto no extremo sul da Bahia modelos e arquiteturas organizacionais que têm como proposta a contextualização a esse novo ambiente. Uma destas novas abordagens organizacionais é a formação de redes interempresariais, baseadas na parceria, cooperação e complementaridade, partindo do princípio de que nenhuma empresa é independente ou auto-suficiente (CÂNDIDO; ABREU, 2000). O entendimento deste contexto passou a ser importante na implementação de políticas de desenvolvimento regional. O extremo sul da Bahia está inserido em uma destas redes interempresariais na área de madeira, especificamente de eucalipto, constituído de empresas, como: fábricas de papel e celulose, viveiros de mudas, empresas de limpeza de terrenos e plantio de eucalipto, transporte, carvoarias, fábricas de móveis, serrarias e outras que competem e cooperam entre si, além das imensas florestas de eucalipto, que suprem a demanda gerada por esse complexo industrial, com todas as implicações econômicas, políticas e ambientais decorrentes. Daí porque buscar entender a maneira como esta tem impactado o desenvolvimento da região, haja vista a capacidade que o setor tem de alavancar esse desenvolvimento, atraindo e agregando empresas de outros setores, como hotéis, instituições de ensino, hospitais, supermercados e outras atividades comerciais, industriais e de serviços. Como conseqüência, esse complexo multiempresarial tem atraído muitos profissionais especializados, como engenheiros, administradores, economistas, advogados, médicos, odontólogos, farmacêuticos e profissionais de outras áreas, que acabam implementando o desenvolvimento regional e elevando o nível de renda da população. Madeira: uma vocação regional Delimitada ao Norte pelo rio Jequitinhonha, ao Sul pela divisa com o Espírito Santo, a Leste pelo oceano atlântico e a Oeste pela divisa com Minas Gerais, a região conhecida por extremo sul da Bahia certamente não é uma região qualquer. Foi ali que há pouco mais de quinhentos anos, a esquadra de Pedro Álvares Cabral lançou suas âncoras. É ali que, ainda hoje, podemos encontrar importantes áreas remanescentes da mata atlântica, com sua grande biodiversidade e ecossistema único. É ali, também, que se encontram dois dos mais importantes parques nacionais: o Parque Marinho de Abrolhos e o Parque de Monte Pascoal. Integram esta região, vinte e um municípios, a saber: Belmonte, Itapebi, Itagimirim, Eunápolis, Porto Seguro, Santa Cruz de Cabrália, Guaratinga, Itabela, Itamaraju, Prado, Jucuruçu, Vereda, Alcobaça, Caravelas, Teixeira de Freitas, Itanhém, Medeiros Neto, Lagedão, Ibirapuã, Mucuri e Nova Viçosa, que aparecem em destaque no mapa do Estado da Bahia, representado na figura 2. A vocação regional do Extremo Sul da Bahia, para a produção de madeira, remonta à época do descobrimento: Desde os primeiros instantes após o descobrimento, travaram-se relações entre os colonizadores e os indígenas. Os primeiros, numericamente inferiores, necessitavam de trabalhadores para o escambo do pau-brasil, enquanto os outros submetiam-se ao árduo trabalho de derrubada das árvores, em troca de objetos de pouco valor, tais como, colares, tecidos, facas,etc (KOOPMANS, 1997). Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 11 Antonio Genilton Sant’Anna e Marcelino Serreti Leonel A partir da década de cinqüenta, do século XX, impulsionado principalmente pelos incentivos do recém-criado Banco do Nordeste, começa um processo de desmatamento sistemático na região para a criação de gado e lavoura. Porém, é no início da década de setenta, com a inauguração, em 22 de abril de 1973, do trecho que liga Vitória no Espírito Santo a Salvador na Bahia, da rodovia BR-101, que a extração de madeira ganha uma escala avassaladora. A abundância de madeiras consideradas nobres, aliadas aos incentivos fiscais, atraiu, para a região, grandes madeireiros do norte de Minas Gerais e, principalmente, do Espírito Santo. A região foi devastada. No lugar da floresta nativa de mata atlântica, surgiram grandes pastagens e a lavoura, destacando-se a produção de curcubitáceas e mamão. Figura 2 - Mapa do Estado da Bahia. Fonte: SEI-BA (2005). Com adaptações No final da década de 60, leis de incentivos fiscais para plantio florestais fizeram com que surgissem projetos de plantio de eucalipto, perfeitamente adaptados às condições de solo e clima do Extremo Sul da Bahia. Entre 1974 e 1982, iniciam-se as plantações de eucaliptos feitas pela Flonibra - Florestas Rio Doce, subsidiária da Cia. Vale do Rio Doce, com o intuito de fornecer matéria prima para a Cenibra – Celulose NipoBrasileira S.A. O projeto da nova fábrica aproveitava os plantios realizados pela antiga Flonibra, feitos para implantação de duas fábricas (uma no norte do Espírito Santo e outra no sul da Bahia), que após negociações políticas resultou na implantação da Cenibra em Minas Gerais e no abandono do projeto inicial. (FLORIANO, 2004) 12 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Desenvolvimento regional: a opção pelo eucalipto no extremo sul da Bahia Com a decisão de implantação da planta industrial em Belo Oriente – MG, distante, portanto, das florestas, este projeto foi abandonado e, em seu lugar, em 1987, foi fundada a Bahia Sul Celulose S.A, hoje Suzano Papel e Celulose, que incorporou as florestas até então implantadas (inicialmente a Cia Vale do Rio Doce foi sócia do projeto) e, após a constituição da empresa, passou a realizar novos plantios, a partir de maio de 1988. As atividades de colheita foram iniciadas em meados de 1990 e o transporte de madeira para a nova fábrica, no começo de 1992 (INSTITUTO DE MANEJO E CERTIFICAÇÃO FLORESTAL E AGRÍCOLA, 2006). A Vale possuía na região uma grande reserva para reflorestamento. Queria aproveitar a menor distância com a Europa e criar uma companhia vocacionada para a exportação. Foram investidos US$ 1,5 bilhão na nova empresa, a Bahia Sul, um dos maiores projetos do Brasil na época, As obras começaram em 1987 e a fábrica entrou em operação em 1992. Depois de enfrentar anos difíceis de crise no mercado e endividamento, a Bahia Sul abriu asas potentes, com alto grau de qualidade e eficiência que lhe garantiram, em 2001, a conquista do Prêmio Nacional da Qualidade. Foi também a primeira empresa produtora de papel e celulose no mundo a obter a certificação ISSO 14001, comprovante da excelência na preservação do meio ambiente. E, como dado encorajador para o futuro, tem a possibilidade de ser até triplicada, já que a região é bastante ampla. (CONY, 2002) A Unidade fabril iniciou a produção de celulose em março de 1992 e, em fevereiro de 1993, entrou em operação a máquina de papel. Em junho de 2001 a Cia. Suzano de Papel e Celulose adquiriu a totalidade das ações da Cia. Vale do Rio Doce na Bahia Sul Celulose S.A. Vale ressaltar que a cultura do eucalipto tem ocupado áreas já desmatadas, principalmente pastagens degradadas, provocando melhorias ambientais em relação ao uso anterior, visíveis em um curto espaço de tempo. Floriano (2004) assegura que os cultivos florestais são menos impactantes do que as pastagens, sendo que apresentam maiores vantagens durante os períodos em que o coberto arbóreo é fechado. Segundo o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (2006), a Suzano Papel e Celulose S.A. – Unidade Mucuri - é uma empresa privada responsável por uma UMF – Unidade de Manejo Florestal com área total de 168.794 ha no extremo sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Essa UMF mantém plantações florestais de eucaliptos em 92.651 ha, uma área de 8.862 ha disponíveis para plantio (áreas em reformas e implantação) e ainda, 58.560 ha com áreas dedicadas à recuperação e conservação de ecossistemas naturais. O projeto da Bahia Sul Celulose, do Grupo Suzano, é responsável por 3,9 mil empregos diretos (próprios e de terceiros) e pelo menos 15 mil indiretos, nos seus projetos florestal e industrial (ASSESSORIA GERAL DE COMUNICAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA, 2005). O impacto da Unidade Mucuri, nessa região, é realmente notável, resultado de um planejamento eficiente e de uma postura responsável com a comunidade e com o meio ambiente. A Cidade de Mucuri, sede do município onde a indústria foi implantada, era apenas uma vila de pescadores à beira mar com uma só rua calçada, sem saneamento básico, sem hospitais, sem escolas secundárias, com acesso à BR-101 por uma estrada de terra mal conservada de 40 km. Durante a implantação da fábrica o Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 13 Antonio Genilton Sant’Anna e Marcelino Serreti Leonel acesso à Cidade foi asfaltado, próximo à fábrica foram construídos um campo de pouso para jatos de médio porte, uma vila residencial, um excelente hospital e uma ótima escola de 1º e 2º graus e foi instalado um posto telefônico. Hoje, há, na Cidade, um posto de saúde bem aparelhado, as ruas foram calçadas, o saneamento vem melhorando dia a dia e as demais escolas do município foram melhoradas e equipadas (FLORIANO, 2004). Paralelamente, 1991 marca o início de atividades da Veracruz Florestal Ltda., em Eunápolis, BA, como subsidiária da Odebrecht. A empresa realiza suas primeiras aquisições de terras no sul da Bahia, entre elas a Estação Veracruz. Em 1992 tem início o plantio de eucaliptos. Após a ocorrência de uma associação entre a Odebrecht e Stora, uma empresa sueca, em 1998 dá-se a mudança da razão social para Veracel Celulose S/A e têm início os estudos de viabilidade da fábrica. Em 1999 ocorre a fusão entre a Stora e a Enso, finlandesa, formando a Stora Enso, que confirma interesse no projeto. O ano 2000 é marcado pelo ingresso da Aracruz celulose no empreendimento e pela redução da participação da Odebrecht. Em 2001 tem início a construção do Terminal Marítimo de Belmonte – TMB, assim como se iniciam, também, as operações de colheita florestal nos cerca de 60 mil hectares plantados. Com a entrada em operação do Terminal Marítimo de Belmonte, propiciando o início das operações de transporte de madeira, 2002 marca o início da fase operacional, com a venda de madeira para a Aracruz. Finalmente, no ano de 2003, é finalizado o estudo de viabilidade do projeto industrial. A Odebrecht vende a sua participação aos outros sócios e é tomada a decisão sobre o início das obras, culminando, em 2005, com o início das operações industriais. A Veracel Celulose S.A. é um empreendimento orçado em US$ 1,25 bilhão, que será a maior e mais avançada fábrica de celulose em linha única do mundo. A partir de 2005, estará produzindo 900 mil toneladas por ano de celulose branqueada de eucalipto ECF, exclusivamente a partir de plantios sustentáveis. Sediada em Eunápolis, no extremo sul do Estado da Bahia, a Veracel é um projeto agro-industrial integrado, controlado por duas grandes empresas de porte internacional: a brasileira Aracruz Celulose e a sueco-finlandesa Stora Enso. Para produzir a matéria-prima a ser utilizada na produção de celulose, a Veracel desenvolve um avançado programa de manejo florestal que hoje se estende por 70 mil hectares de terras em nove municípios do Sul da Bahia. Quando totalmente implantado, o programa implica na ocupação média de 50% dos 147 mil hectares de terras que pertencem à Veracel. Quase a totalidade das áreas restantes está sendo recoberta por reservas de Mata Atlântica, num programa ambiental que visa a recuperar e preservar os remanescentes deste que é um dos mais importantes ecossistemas florestais do Brasil. A Veracel hoje lidera um importante ciclo de desenvolvimento econômico na região: a empresa gera impostos, empregos e renda, compra serviços e produtos de fornecedores locais, investe em projetos sociais e ambientais e de infra-estrutura urbana e rural. (VERACEL, 2005) Para atingir a produção de 900 mil toneladas/ano de celulose, será necessária uma área complementar de 23 mil hectares de eucaliptos. Para isso, a Veracel está implementando um Programa de Fomento Florestal junto aos proprietários de terra na região. As empresas do setor de papel e celulose, com a necessidade de assegurar o abastecimento de matéria prima (eucalipto), e usando as políticas públicas dos anos 70 e 80 até os anos 90, se tornaram grandes proprietárias de terras para o plantio do eucalipto, com participação 14 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Desenvolvimento regional: a opção pelo eucalipto no extremo sul da Bahia relativamente pequena dos produtores rurais no plantio de florestas comerciais. A concentração fundiária é uma realidade, haja vista as enormes propriedades rurais das empresas, necessárias aos plantios que as tornam auto-suficientes em matériaprima para cumprimento da legislação vigente (Instrução Normativa IBAMA nº 001/ 80). Uma das formas de evitar problemas mais graves é a limitação do percentual por município que pode ser dedicado à atividade. (FLORIANO, 2004) A expansão de seus plantios deverá, cada vez mais, ter, também, a participação de programas de fomento, viabilizando aos produtores rurais do extremo sul da Bahia uma possibilidade de diversificação de produtos nas áreas que até então eram ocupadas pela pecuária ou agricultura, esta última em franca decadência na região, em virtude da enorme quantidade de doenças de difícil erradicação, principalmente na cultura do mamão. Desta forma, a madeira consolida-se, na região, como principal atividade econômica e a força, da histórica vocação regional, parece, finalmente, ter-se estabelecido peremptoriamente. Fomento florestal O termo fomento é utilizado para caracterizar atividades centradas na promoção do desenvolvimento rural, tanto na área florestal como na agropecuária. Assim, os programas de fomento florestal das empresas que atuam na região disponibilizam aos proprietários de terra a oportunidade de atuarem como parceiros no cultivo de eucalipto. Pelo programa, os produtores rurais podem plantar eucalipto em terras de sua propriedade, hoje não utilizadas, contando com assistência técnica das empresas e garantia da compra da produção. O fomento florestal é uma atividade vantajosa para todos: para as empresas, pois garante o suprimento de madeira para a produção de celulose e para os proprietários rurais por constituir-se em uma fonte de renda adicional na propriedade. Nestas condições, o programa de fomento florestal é visto como uma possibilidade de retorno do investimento em matéria-prima, a custos compatíveis, e também uma forma de propiciar uma melhoria em sua imagem com as parcerias formadas (OLIVEIRA, 2003). Um dos mecanismos de combate à pobreza que a FAO quer estimular com o código de boas práticas é o fomento florestal. Nessa modalidade de plantio, pequenos e médios agricultores passam a cultivar eucalipto a partir de mudas e apoio técnico oferecidos pelas empresas. Depois, tornam-se fornecedores de matéria-prima para a indústria. O fomento florestal está tomando força e se revela uma eficaz alternativa de geração de renda no meio rural, além de ser estratégico para as empresas, que passam a investir menos na aquisição de novas terras para a silvicultura. Criado em 1990, o Programa Produtor Florestal da Aracruz atualmente abrange cerca de 3 mil contratos e alcança 131 municípios, sendo 67 do Espírito Santo, 40 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 15 Antonio Genilton Sant’Anna e Marcelino Serreti Leonel de Minas Gerais, 14 da Bahia e 10 do Rio Grande do Sul. Conta com cerca de 71 mil hectares contratados, dos quais 62 mil hectares já plantados com eucalipto, com a área média por contrato de 23,5 hectares. (ARACRUZ, 2005) A Suzano iniciou o Programa de Fomento de Madeira no ano 1992, na unidade Mucuri, na Bahia. Esta prática impulsionou a formação de florestas de eucalipto em áreas de terceiros, totalizando atualmente uma área de 29 mil hectares na Bahia. Atualmente, a madeira que a companhia compra de fomentados totaliza 2 % do volume anual consumido pela Fábrica de Mucuri. A meta é que a participação da madeira de terceiros no abastecimento industrial alcance até 25% do total demandado por esta unidade. (SUZANO, 2005) Devido ao crescimento populacional e econômico de muitos países, há um aumento no consumo de papel, levando a um consumo de madeira da ordem de 1,6 bilhão de metros cúbicos/ano, havendo projeções para 2050 de 2 a 3 bilhões m³/ano, com um aumento aproximado de 60 milhões m³/ano. Atender à demanda futura sem degradar as florestas naturais somente poderá ser conseguido se aumentarmos a eficiência e eficácia da produção, da exploração e da conversão da matéria-prima (CAMPANHOLA1 , 2004). Segundo Lima2 (2004), mesmo com este cenário promissor, o setor madeireiro, que fornece matéria-prima para vários setores, como no nosso caso – Papel e Celulose, encontra um sério entrave, já apontado pelo Ministério do Meio Ambiente: após 2004, parte da indústria brasileira processadora de madeira terá que importar matéria-prima, pois a expansão do plantio florestal está limitada pela ausência de financiamentos adequados, principalmente com o fim do Fundo de Incentivo Setorial (FISET), em 1987. Hoje, o BNDES figura como a principal alternativa de financiamento para o plantio de florestas. Com a crescente demanda por madeira, em face da expansão das empresas produtoras de papel e celulose, torna-se necessário que sejam encontradas alternativas adequadas a esse novo contexto. As empresas de papel e celulose, instaladas na região norte do Espírito Santo e extremo sul da Bahia, criaram e implementaram programas de fomento florestal adaptados à região. No extremo sul da Bahia, região com vocação florestal devido aos fatores já citados, nada impede de se fazer a Reposição Florestal, que é o conjunto de ações desenvolvidas que visam estabelecer a continuidade do abastecimento de matéria-prima florestal aos diversos segmentos consumidores, através da obrigatoriedade da recomposição do volume explorado, mediante o plantio com espécies florestais adequadas. A reposição florestal deve ser feita seguindo orientação do órgão competente – IBAMA. Este estabelece que: Os pequenos e médios produtores rurais podem fazer a Reposição Florestal com a finalidade de produzir matéria-prima através da execução ou participação em Programa de Fomento, sob a administração de pessoa física e jurídica registrada no IBAMA, nas categorias de Empresa Administradora, 1 Clayton Campanhola é pesquisador e diretor-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa. 2 Lupércio Barros Lima é Presidente da Tora S.A. e membro do Conselho Florestal do Movimento Espírito Santo em Ação. 16 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Desenvolvimento regional: a opção pelo eucalipto no extremo sul da Bahia Especializada, Associação Florestal ou Cooperativa Florestal (IBAMA, 2004). Cabe à empresa responsável pela Administração do Fomento Florestal fornecer ao proprietário rural as mudas para o plantio, replantio e assistência técnica. Aos proprietários rurais cabe realizar manutenção e conservação do povoamento. O fomento florestal está se transformando, para algumas empresas, em importante instrumento para indução do desenvolvimento sustentável no meio rural. Na medida em que a plantação florestal entra na propriedade como atividade complementar e, adotando-se moderna tecnologia, obriga, naturalmente, o produtor rural a refletir a respeito da ocupação e de todo o processo produtivo de sua propriedade. Dados do Programa Nacional de Florestas (PNF) do governo federal apontam para um aumento da área de plantios fomentados no ano passado. A área destinada ao plantio de florestas no País inteiro foi de 465 mil hectares. Destes, 85 mil hectares originaram-se de programas de fomento, coordenados por empresas e outras instituições, geralmente em pequenas e médias propriedades (CELULOSEONLINE, 2005). Para Cornacchioni3 (2005), um dos grandes méritos do fomento é socializar o plantio do eucalipto, de modo que este não se concentre em grandes propriedades. O programa de fomento contribui para não haver o êxodo rural, ou seja, evita que o proprietário rural venda a sua terra e migre para as cidades, estimulando o proprietário a permanecer no campo ao incentiválo a utilizar as suas terras, geralmente ocupadas por pastagens naturais degradadas. Diversifica, assim, a sua produção e, conseqüentemente, gera uma renda adicional. A atividade de fomento florestal, através da qual a produção de matéria-prima para a indústria de papel e celulose passa a ser de forma integrada com o produtor rural, é uma estratégia empresarial que reduz ou elimina a necessidade de compra de terras, tendo como principal objetivo promover a implantação de florestas econômicas de baixo custo, através do estabelecimento de uma parceria entre a empresa e o proprietário rural (SOCIEDADE BRASILEIRA DE SILVICULTURA, 2005). Para Valverde (2000), o setor florestal no Brasil tem se mostrado de extrema importância para o desenvolvimento socioeconômico, seja na geração de empregos diretos e indiretos, rural e urbano, seja na arrecadação de impostos, no pagamento de salários, na geração de divisas e na formação do Produto Interno Bruto (PIB). As empresas produtoras de papel e celulose, instaladas na região do extremo sul da Bahia, não aplicam um modelo único de fomento. Assim sendo, para cada região e para cada indústria há sempre uma solução mais adequada que visa compatibilizar o interesse da empresa com o do proprietário rural. 3 Luiz Cornacchioni, gerente de Recursos Naturais da Suzano. Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 17 Antonio Genilton Sant’Anna e Marcelino Serreti Leonel Considerações sobre o eucalipto Do grego eu = boa e kalyptós = cobertura (que neste caso refere-se ao solo), o eucalipto, uma árvore australiana muito bem adaptada ao Brasil, está se tornando a principal alternativa de suprimento de matériaprima destinada aos mais diversos setores industriais de base florestal. Segundo Nahuz et al. (1998), o eucalipto foi introduzido no Brasil, no início do século XX e a expansão da eucaliptocultura brasileira devese ao trabalho desenvolvido pelo Dr. Edmundo Navarro de Andrade e pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Inicialmente, foi utilizado para a produção de madeira para lenha e carvão. Em seguida, passou a ser utilizado como poste de energia e de telefonia e também como moirões para cercas. Até o início dos anos 60, a celulose de eucalipto só era produzida em laboratório e o eucalipto era classificado pela literatura científica como imprópria para a fabricação de papel de imprensa ou de escritório. Em meados dos anos 50, porém, Max Feffer, filho mais velho de Leon Feffer, fundador da Cia. Suzano de Papel e Celulose, inicia estudos que irão mudar esta realidade: Após as pesquisas conclusivas, conduzidas por ele próprio nos laboratórios da Universidade da Flórida, na cidade de Gainsville, foi possível obter papel de qualidade com 100% de celulose de eucalipto. Os estudos duraram seis anos, de 1955 a 1961, e o novo produto passou a ser fabricado no moderno parque industrial adquirido em 1956 no município de Suzano, próximo a São Paulo, razão pela qual o nome da empresa havia mudado para Companhia Suzano de Papel e Celulose. Os rolos e resmas saídos das máquinas da Suzano mudariam não apenas a história da empresa, mas de todo o setor de celulose e papel do País. O eucalipto cresce em seis ou sete anos, enquanto as árvores mais usadas para a fabricação de papel no resto do mundo, o pínus, por exemplo, demoram de 15 a 25 anos. Com a posterior adoção da celulose de eucalipto por outras indústrias nacionais, o Brasil, que sempre acusara déficit na balança de custeio do setor, virou exportador altamente competitivo no mercado internacional. Em 1978, pela primeira vez o País registrou superávit na área. (CONY, 2002) Assim, o eucalipto passa, também, a ser matéria-prima para as indústrias de celulose e papel, posteriormente para chapas e madeira aglomerada e, mais recentemente, para as indústrias de MDF e de móveis. As espécies mais utilizadas no Brasil são: Eucalyptus grandis, E. saligna, E. urophylla, e E. viminalis (SOUZA, 2003). Dentre as espécies do gênero, o Eucalyptus grandis, uma das espécies mais plantadas no mundo, é considerado uma das madeiras mais versáteis e indicada para múltiplos usos. Esta espécie apresenta boa adaptação em todas as regiões do Brasil, com elevado potencial para plantios em larga escala. A opção pelo E. grandis no Brasil está relacionada à excelente resposta silvicultural da espécie, boa forma e rápido crescimento, além de propriedades desejáveis para usos múltiplos. O efeito da floresta de eucalipto sobre a água do solo é semelhante ao de outras culturas com alta produtividade, com algumas vantagens sobre culturas anuais, conforme a Revista da Madeira (set./2001). As espécies de Eucalyptus cultivadas em solo brasileiro são tão eficientes na economia da água que retiram do solo como outras espécies florestais e 18 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Desenvolvimento regional: a opção pelo eucalipto no extremo sul da Bahia mais eficientes que a maioria das culturas anuais. Segundo Floriano (2004), o plantio de eucalipto não aumenta as chuvas, mas também não conduz à desertificação; sua atuação sobre o solo é benéfica, diminuindo o processo de erosão, melhorando as condições de infiltração, de armazenagem de água e as propriedades químicas e físicas do solo. A maior área de floresta plantada de eucalipto, do mundo, está no Brasil. Graças à variabilidade de espécies de eucalipto introduzidas no país, base das pesquisas de melhoramento florestal, este detém, também, expressiva participação mundial no desenvolvimento científico do gênero. Conclusões e recomendações No que concerne aos aspectos ambientais, a análise do aglomerado produtivo madeireiro, especificamente quanto ao plantio do eucalipto, existente no extremo sul da Bahia, conduz, resumidamente, à conclusão de que essas plantações não são incompatíveis com a preservação do meio ambiente. O conhecimento até então disponibilizado pela ciência, e amplamente utilizado na prática dos empreendimentos florestais da região em questão, tem permitido utilizar sistemas de produção que conservam, em grande medida, os mecanismos de regulação ecológica. Da mesma forma, os princípios de desenvolvimento sustentável, que norteiam as práticas de plantio, como, por exemplo, o cultivo mínimo, que possibilita que as plantações interfiram minimamente nas características físicoquímicas do solo, além do plantio em mosaico, onde os talhões de eucalipto são entremeados por mata nativa, geralmente coincidindo com a existência de nascentes, córregos e rios. As florestas de eucalipto, ao ocuparem áreas degradadas, ou mesmo ao substituírem o capim das pastagens, vão além da mera conservação. Estas, ao criarem espaço para a preservação da vegetação nativa, coisa que os pecuaristas raramente fazem, acabam criando e ampliando as condições favoráveis à recomposição da qualidade dos recursos abióticos (água e solo), além de promoverem melhores condições para várias espécies da flora e da fauna. Quanto aos aspectos socioeconômicos e culturais, conclui-se que as atividades ligadas à indústria madeireira, no Extremo Sul da Bahia, interferem, significativamente nestes, implicando em profundas alterações, haja vista que esse processo funciona como um poderoso atrativo populacional e de investimentos, alterando configurações de poder. Conseqüentemente, isso tudo leva a profundas alterações nesse quadro, que passa a ser muito diferente daquele vigente até então. Desde o início de sua implantação, a estrutura econômica e social da região tem passado por profundas transformações. À medida que projetos voltados para o plantio do eucalipto e para a produção de celulose eram implantados na região, foi-se melhorando a infra-estrutura, notadamente aquela inter-relacionada com os projetos, como a ampliação e a melhoria da malha viária, o reforço das linhas de transmissão de energia elétrica, investimentos em saneamento básico, incluindo- se a ampliação dos sistemas de abastecimento de água, melhoria dos sistemas de limpeza urbana, inclusive aumentando o maquinário e a frota utilizada na coleta de lixo e, sobretudo, implantando-se alguns aterros sanitários controlados, além de alguns investimentos, ainda que incipientes, na rede de coleta e de tratamento de efluentes domésticos, o que contribuiu, de uma certa Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 19 Antonio Genilton Sant’Anna e Marcelino Serreti Leonel forma, para incentivar o turismo. (DIAS, 2001) Em Mucuri, a Suzano mantém projetos sociais que refletem, em grande medida, a preocupação com o desenvolvimento social da comunidade: a Associação Comunitária Golfinho e o Centro Cultural Golfinho. Também são disponibilizadas duas escolas no município, da educação infantil ao segundo grau, além de um hospital e uma clínica. Fora isso, a empresa promove, na região em que atua, programas de alfabetização de adultos e de educação ambiental, bem como promove e apóia inúmeros eventos sócio-culturais. No entanto, nem tudo são benesses. A conseqüência ruim, mais visível desse processo, é o crescimento populacional desordenado dos centros urbanos. Estes, além de receberem um contingente populacional de migrantes, atraídos à região pelo crescimento econômico e pela falta de mão-de-obra qualificada, recebem também, aqueles que são expulsos da terra onde se empregavam. Constituem-se, em sua maioria, de profissionais ligados à pecuária bovina, de leite e de corte, nascidos e criados na zona rural, geralmente analfabetos, e que têm sob dependência direta, várias pessoas – esposa, filhos e outros agregados, também analfabetos ou com baixíssimo grau de escolaridade. Estes não encontram nenhuma oportunidade no ambiente urbano, vindo a se constituírem excluídos do processo e, pior, da sociedade, passando a fazer parte de um contingente de miseráveis, que tem crescido assustadoramente na região. Decorrência disso é o forte processo de favelização que vem ocorrendo, acompanhado de um sensível aumento nos índices de violência, fatos que ocorrem principalmente nos municípios de Teixeira de Freitas, Itamaraju, Eunápolis e Porto Seguro. Cabe, portanto, ao poder público, investir na formulação de programas que visem à inserção social desses indivíduos. Aliás, existe mesmo a exigência legal para tanto. A lei nº 8742/93, conhecida como LOAS – Lei Orgânica da Assistência Social, em seu capítulo IV, seção VDos projetos de enfrentamento de pobreza, art. 25, dispõe: Os projetos de enfrentamento da pobreza compreendem a instituição de investimento econômico-social nos grupos populares, buscando subsidiar, financeira e tecnicamente, iniciativas que lhes garantam meios, capacidade produtiva e de gestão para melhoria das condições gerais de subsistência, elevação do padrão da qualidade de vida, a preservação do meio-ambiente e sua organização social. Paralelamente a programas de médio e longo-prazo, deve-se cuidar emergencialmente da situação no presente. Assim, medidas que visem garantir a alimentação da população, sem o conseqüente aumento no custo de vida, devem ser tomadas. Uma forma de encaminhamento desta questão seria garantir áreas destinadas à agricultura, o que reduziria a pressão por importação de alimentos de outras regiões, fato que encarece os produtos. Cabe a cada município reservar, legalmente, uma parcela de seu território para esse fim, assim como é feito para as reservas naturais. Problema igualmente preocupante diz respeito à moradia. Devese investir em programas habitacionais, devidamente acompanhados de saneamento básico. Vale lembrar, no entanto, que soluções simplistas neste campo, como, por exemplo, programas que se assemelham à doação de casas populares, podem redundar em outro tipo de problema. Encontram-se, na região, moradores, desempregados, 20 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Desenvolvimento regional: a opção pelo eucalipto no extremo sul da Bahia agraciados com esse tipo de benefício, que não conseguem pagar suas contas de energia elétrica e água, tendo esses serviços interrompidos pelas concessionárias, bem como casas em franco processo de deterioração por falta de manutenção. Assim, soluções preventivas nesse sentido devem ser encaminhadas, paralelamente a esses programas. Novamente pode-se reportar à lei 8742/93, que no seu art. 26 dispõe: “ incentivo a projetos de enfrentamento da pobreza assentarse-á em mecanismos de articulação de diferentes áreas governamentais e em sistema de cooperação entre organismos governamentais, não governamentais e da sociedade civil”. Desta forma, uma alternativa seria a implantação de programas de capacitação profissional da população, com subsídios para a criação de cooperativas ou com a implantação de incubadoras de negócios, de preferência ligadas à indústria madeireira, por aproveitar a matéria-prima (eucalipto), e, para atender às necessidades básicas, programas ligados às indústrias alimentícia e de vestuário. ABSTRACT The objective of this work is to present a view of implantation process of the forest enterprises in the Bahia Extremity South, analyzing the actions and measures that had been taken on the long of it. It’s valid to point out that the analysis here started takes as base a historical perspective and tries to cooperate for the perfect understanding of the impacts on the social-economic and cultural structure of the region. It is expected, thus, to enrich the debate concerning the silviculturais and industrial activities, related to the sectors of wooden, cellulose and paper production, as well as to contribute in the decision about the implantation of new enterprises and in the change of activity of those traditional sectors, predominantly the cattle raising, that are up against a quandary, in front of the avalanche represented for the arrival of this industry in the region. Keywords: Enterprises; silviculturais; wooden; cellulose; paper REFERÊNCIAS ARACRUZ. Contém informações institucionais, financeiras, sociais e técnicas. Disponível em: <http://www.aracruz.com.br/pt/index.htm>. Acesso: em 21 ago. 2005. ASSESSORIA GERAL DE COMUNICAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA – AGECOM. 2005. 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Tese (doutorado em Ciência Florestal) Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 2000. Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 23 2 OS ENTRE-TEMPOS DA INFÂNCIA (A INFÂNCIA ENTRE A MODERNIDADE E A PÓS-MODERNIDADE) Bernardina Leal * Encontrar a emoção da criança... Na verdade, é “uma” criança. A criança que “eu” fui não quer dizer nada. Mas eu não sou apenas a criança que fui, eu fui “uma” criança entre muitas outras. Eu fui “uma criança qualquer”. E foi assim que eu vi o que era interessante e não como eu era a tal criança. Gilles Deleuze O tempo principiador da Infância A infância, marco inicial da vida humana, período principiador de saberes, metáfora da inauguração de um processo de aprendizagem e ensino, exige, por força destes sentidos que abarca, uma investigação cuidadosa sobre o tempo. Início, princípio, inauguração, aprendizagem e ensino são, afinal, formas substantivas de demarcação temporal. Tempo e infância imbricam-se e, inseridos em nossos esquemas interpretativos da realidade, passam a consubstanciar imagens de nossa compreensão. Nossa compreensão, por sua vez, altera-se no próprio tempo de sua elaboração, nos tempos diversos que a possibilitam, no exercício do pensar que fazemos e nos afetos que acompanham nossas formas de pensar. Daí tempo e infância serem compreendidos de diferentes formas ao longo de uma cronologia que os saberes científicos legitimaram como conhecimento histórico. Por conseguinte, instaura-se a necessidade e, ao mesmo tempo, a dificuldade em situarmos a infância sobre a qual intentamos investigar. As diferentes concepções que o termo infância incorpora ultrapassam o sentido de um período da vida humana inaugurado no nascimento e prolongado até a puberdade, alcançando sentidos figurais diversos que convergem para a idéia de um período inicial de existência. A infância poderia então ser concebida como o prólogo da vida humana, no sentido em que marca o seu início; uma etapa a ser seguida por outras, a ela posteriores, dela derivadas. Considerada em seus diferentes aspectos, poderia ser abordada do ponto de vista fisiológico a partir de mecanismos peculiares oriundos de exigências biológicas próprias. Sob o olhar psicológico, poderia ser analisada em subordinação às leis do pensar, do sentir, do interpretar e do agir. Enquanto corpo social, também poderia ser compreendida no âmbito da vida grupal, em conformidade a ela. Finalmente, poderia ser problematizada através de um processo filosófico que rigorosamente a investigasse. Cada uma destas abordagens * Bernardina Leal é mestre em Educação pela UnB, professora da FASB e da UNEB. Bernardina Maria de Sousa Leal interpretativas avaliaria a infância de maneira distinta, mas parece improvável que qualquer uma delas se opusesse à dimensão principiadora na qual ela se insere. Concepções costumeiras sobre o início identificam-no com a falta de experiência, com a necessidade de ajuda, com aquilo do qual não se pode muito esperar, com algo destituído de maior potencialidade, com o desencadeamento de uma seqüência previamente determinada, com a parte de um todo já delineado, ou ainda com algo do qual não se espera mais que o cumprimento do seu papel. A estas concepções de início a infância também é associada. Afirma-se que a criança carece de experiência, que necessita do auxílio adulto, que não se deve sobre ela criar expectativas grandiosas, que dela não se pode exigir mais que do que seu papel permita realizar. Há também quem considere a infância um período de ausência de responsabilidades, de falta de autonomia, de não-seriedade. Há ainda quem julgue a criança incapaz de compreender ou fazer-se compreensível pela não-incorporação de um repertório lingüístico considerado apropriado, como se só se pudesse falar com uma única linguagem. Quantas vezes a criança é recriminada por perguntar insistentemente, como se a pergunta denunciasse apenas a falta do saber. Falta, incompletude e carência são idéias comumente associadas ao início que a infância traz consigo. Mas este valor negativo agregado à idéia de início só faz sentido em um contexto que vislumbra neste início apenas a realização de etapas posteriores seqüencialmente estabelecidas rumo a um fim de antemão conhecido. Outro caráter poderia ser percebido se pensássemos o início enquanto possibilidade da emergência do novo, do diferente, daquilo que ainda não está determinado e, portanto, inaugura acontecimentos. A infância em sua dimensão principiadora estaria, assim, a dar início a ocorrências novas, distintas do habitual. Este tempo inaugural da infância poderia ser, então, compreendido como uma abertura para a pluralidade. No entanto, o novo traz consigo o risco do desconhecido, daquilo que não se permite antever, do que não pode ser previamente alcançado. Por conseguinte, a angústia, a dúvida e a situação incomodamente problematizadora que só o novo pode provocar, emergem. Esta inquietude propiciará sua chegada. Mas como percebê-la? Pode ser que o novo já esteja presente naquilo que consideramos familiar, no que se apresenta como óbvio. Talvez ele nem se mostre como novidade. Pode ser ainda que estejamos tão seguros de conhecermos tudo, que ocupemos o espaço necessário para que o novo se evidencie. Será preciso desvincularmo-nos de nossas certezas e predispormo-nos à insegurança do não-saber. Enfim, abrirmo-nos ao encontro. Se isto acontecer, deixarnos-emos guiar não pelo desejo da conquista que um encontro poderia suscitar, mas pelo desafio de não temermos o que ainda não conhecemos. Se neste encontro percebermos a infância como algo a ser preenchido por tudo aquilo que o universo adulto imagina ser necessário, poderíamos ser levados a pensar que os adultos já teriam atingido um estado de completude, que nada lhes faltaria. Seríamos tão pretensiosos? Por outro lado, se concebermos a infância como único espaço de tempo capaz de redimir os males do mundo, poderíamos ser conduzidos à idéia de que as crianças, antecipadamente, teriam alcançado a perfeição. Estaríamos desde cedo tão determinados? Talvez seja necessário pensar a infância e seus entre-tempos dentro do espaço deixado por estas duas 26 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade margens. Como em um rio que nos desafia a atravessá-lo, elas se colocam. Tanto faz estarmos de um lado ou do outro. O que importa mesmo é a travessia, nos diria Guimarães Rosa. E nesta travessia talvez percebamos a existência de outras margens, de fluxos de água que provocam movimentos ondulantes e variados que acabam por deslocar os pontos referenciais de saída e de chegada. A infância pensada fora dos costumeiros referenciais desenvolvimentistas reclama um pensar detalhista, atento aos pequenos espaços e tempos dos acontecimentos que a atravessam. Os relatos generalizantes e totalizadores, a pretensão de representar o pensamento universal sobre as coisas e a idéia de um domínio científico legitimador de saberes têm sofrido certa dissolução. É preciso pensar a noção de infância neste novo contexto. A contemporaneidade, marcada pela crise de formas filosófico-narrativas da modernidade coloca em questão o conceito “Infância”. A infância reclama para si maior atenção à sua condição singular de evento. A infância não mais precisa ser constatada, inscrita e catalogada em manuais de ensino. A infância precisa ser experienciada por crianças e adultos. Esta abertura a outros eventos, entre os quais figura a infância, possui uma dimensão teórico-prática que a contemporaneidade exige. Os termos modernidade e pós-modernidade apresentam-se como indicadores de tipos distintos de compreensão sobre a infância e o tempo, embora esta terminologia antecipe uma certa contradição na linha de pensamento que queremos seguir. O emprego destas expressões parece-nos arbitrário no sentido em que ilustra muito mais um anseio por identificar origens e situar cronologicamente idéias do que referências propiciadoras de aprofundamentos investigativos. Estudiosos do pós-modernismo, entre os quais Fredric Jameson (1994) discutem o problema da conceitualização destes termos mediante a dificuldade em se descrever as características fundamentais de um e outro período. Visões de história diferenciadas avaliam de modos distintos o momento social no qual estamos inseridos e complexificam o sentido de originalidade histórica que a cultura atual teria que afirmar em contraposição a um momento anterior. Contudo, como afirma Jameson, posições prévias anti-moderno / pró-pós-moderno, e pró-pós-moderno / anti-pósmoderno se caracterizam por uma aceitação do novo termo, o que é equivalente a um acordo quanto à natureza fundamental de uma ruptura decisiva entre os momentos moderno e pós-moderno, seja como forem avaliados (1994, p. 31). Não nos interessa precisamente demarcar os tempos nos quais a infância foi compreendida de um ou outro modo e, sim, investigá-la naquilo que compreendemos ser sua temporalidade própria, em sua característica instauradora, na diferença que propicia e, portanto, naquilo que escapa a distinções categorizantes. A infância assim pensada tem o sentido de uma experiência que carrega consigo algo de surpresa e risco, da qual não se pode antecipar resultados. Este modo de pensar a infância provoca, desde já, um conflito com a idéia pedagógica da antecipação, controle e avaliação de um pressuposto desenvolvimento infantil. O controle pedagógico da infância rivaliza Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 27 Bernardina Maria de Sousa Leal com a idéia de experiência da infância aqui sugerida e contextualiza nosso interesse em buscar os significados e sentidos que os conceitos tempo e infância adquirem no âmbito educacional e nossa gana em revê-los. É, portanto, entre os tempos que queremos investigar a infância. A infância em seus entre-tempos. A temporalidade atribuída à Infância Infância – o que nos é comum e, simultaneamente, singular. Todos nós, adultos, tivemos infância. Cada um de nós, entretanto, teve sua própria infância. Teremos todos tido infância, ou será que tivemos, cada qual a seu modo, uma única infância? Ou mesmo, haverá uma infância indeterminada, inapropriável, sem pertencimento? Estas questões nos remetem àquilo que julgamos saber sobre a infância pelo fato de já termos sido crianças e, portanto, possuirmos uma história pessoal de infância que nos é própria. Mas tais questões também nos colocam diante do conceito infância na multiplicidade de sentidos que evoca e que extrapolam o âmbito da vivência particular e privada de cada um. Neste caso a infância poderia ser concebida como um estado de coisas, uma instância instauradora de novos sentidos e significados. Este entendimento inauguraria um outro conceito de infância? Os conceitos, sabemos, não são naturais. Eles não nascem, espontaneamente, em determinada época ou lugar. Conceitos são criados, construídos histórica e culturalmente. Quando idéias, estudos e posicionamentos constituem-se e são colocados diretamente sobre as questões com as quais se lida, os conceitos começam a configurar-se. São as práticas sociais que os incorporam e solidificam. Gilles Deleuze (2000), filósofo contemporâneo, cuja obra apresenta várias possibilidades de interface com temáticas educacionais, em seu último texto intitulado “O que é a filosofia?” investiga a produção de conceitos e a relação que a filosofia possui com a criação dos mesmos. A filosofia é, para ele, “a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos”. Essa ação criadora se opõe à passividade diante das coisas e se constitui em uma intervenção no mundo. Assim sendo, criar conceitos é uma forma de transformar o mundo, além de ser um modo de contribuir com aqueles que deles podem dispor para realizar críticas e instaurar novas idéias. Estas novas idéias, por sua vez, tomadas de outros de forma criativa, inauguram conceitos novos na medida em que operam apropriações, mas também transformações naquilo que é apropriado. No diálogo que intentamos estabelecer com Deleuze a fim de investigar o conceito “infância”, já de início nos apoiaremos nesta idéia, no sentido de resgatar algumas acepções que o termo possui no cenário pedagógico contemporâneo. Queremos, a partir destas idéias, tomandoas criativamente, aventurarmo-nos em um exercício de pensar a infância de outros modos e, quem sabe, alcançar novos conceitos a seu respeito. Afinal, no âmbito da problemática educacional esse tem sido um conceitochave, um marco inicial com o qual o projeto educativo assume seu caráter perspectivo. Educamos projetivamente, sempre tendo em vista um alcance futuro, seja ele próximo ou distante. Há metas, objetivos, planos traçados para uma execução sempre posterior, sempre futura. São percursos a serem realizados, previsões a serem confirmadas, 28 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade antecipações desejadas. É neste sentido que, subjacente à idéia de educar, encontra-se sutilmente a idéia de um estado infantil das coisas, um vir-a-ser próprio de cada um que nasce, uma situação de porvir que consubstancia a necessidade da educação. Assim compreendida, a infância perpassa qualquer intenção educativa na medida em que representa uma instância fecunda, geradora de possibilidades. Não parece ser este, porém, o sentido que o termo “infância” tem recebido nos ambientes educativos. A questão que se interpõe primordialmente diz respeito, então, aos atributos que o conceito “infância” tem carregado consigo ao longo dos processos educativos historicamente constituídos. Que sentidos este termo incorporou ao longo das idéias pedagógicas até estruturar-se na forma de um conceito tal como é utilizado hoje? Identificados estes sentidos, talvez possamos criar novos conceitos, produzir diferentes pensamentos, chegar a entendimentos sobre a infância ainda não alcançados ou mesmo não tratados cuidadosamente no âmbito educacional. Desnaturalizado, o conceito “infância” pode nos revelar as expectativas adultas relativas às crianças nele embutidas em processos educacionais diversos. Os discursos dele decorrentes sobre a infância podem, por conseguinte, dimensionar os tipos peculiares de relação entre a infância e a adultez engendradas nos âmbitos sociais, familiares e educativos. Os aspectos constitutivos destas relações podem também evidenciar-se. Investigar a infância é, deste modo, também buscar o conceito de “adultez ” que nela se identifica enquanto par contrastante. Só podemos nos referir à infância em oposição a uma não-infância, isto é, a um estado ou condição adulta. Este estado não tem gerado tantos estudos e investigações quanto a infância provoca. Isto torna a possibilidade de investigação ainda mais instigante. Preocuparmo-nos tanto com a infância, organizarmos tão diverso conhecimento a seu respeito e, ao mesmo tempo, não questionarmos nossa condição de adultez pode indicar problemas não contemplados em nossas investigações. Mesmo porque as perspectivas e os valores atribuídos a um e outro conceito comumente balizam os projetos educacionais em diferentes tempos e lugares. Estas reflexões reforçam a necessidade de revermos a infância, de olharmos a infância com diferentes olhos, de abordarmos a infância com outras perspectivas e reconceitualizá-la de modo mais abrangente. Por conseguinte, há que se fazer o mesmo em relação à adultez, mantida por muito tempo insuspeita. Contudo, a abrangência aqui proposta não se refere a pensar os conceitos de infância e adultez na forma de grandes categorias. Não nos parecem imprescindíveis quaisquer divisões que possam levar-nos a interpretações dicotomizadas do ser. Não se trata de buscar a negação da infância na adultez ou o contrário, de reforçar na adultez a existência dialética da infância, tampouco evidenciar a complementaridade entre uma e outra. Interessa-nos pensar a infância em sua multiplicidade de sentidos e ocorrências, nas variações temporais que incorpora, na diferença que impõe enquanto expressão do novo. Nas palavras de Deleuze, cada conceito remete a outros conceitos, não somente em sua história, mas em seu devir ou suas conexões presentes. Cada conceito tem componentes que podem ser, por sua vez, tomados como conceitos. [...] é próprio do conceito tomar os componentes inseparáveis nele: distintos, heterogêneos e todavia não separáveis, tal é o estatuto Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 29 Bernardina Maria de Sousa Leal dos componentes, ou o que define a consistência do conceito, sua endo-consistência. É que cada componente distinto apresenta um recobrimento parcial, uma zona de vizinhança ou um limite de indiscernibilidade com um outro”.(2000, p. 41 ) Contudo, para que esta complexa construção do conceito de infância já estabelecida possa nos conduzir à experiência de pensar a infância que nos propomos realizar, será preciso reconstituir, pelo menos em parte, a trajetória realizada por este conceito até os dias atuais. Intentamos realizar um trabalho de pensamento que, articulando conceitos já estabelecidos, possa levar-nos a intuir, em termos deleuzeanos, novos conceitos. A modernidade constitui o marco referencial de nossa problematização e intensifica nosso questionamento a respeito da temporalidade da infância. Afinal, conforme estudos realizados por Sandra Corazza (2002), ao relacionar infância e educação, nem todos os historiadores concordam com a perspectiva de negação da infância na época pré-moderna. No entanto, quase todos concordam que, com a publicação do livro de Rousseau, “Emílio”, as novas idéias sobre a infância ganharam força e contribuíram substancialmente para a consolidação da idéia de família fundamentada no amor materno e no cuidado com a criança. Do interior desta nova família constituída nas classes mais favorecidas econômica e socialmente é que emerge uma preocupação explícita com a criança, uma posição adulta afetuosa orientada para sua educação e para o reconhecimento de sua importância. A criança passa a ser objeto de estudo, referência para a organização de conhecimentos, alvo de controle, atenção e proteção adultas. Entretanto, alerta-nos Corazza (2002, p. 120), ao comentar estudos realizados por Guiraldelli Jr. no campo da filosofia da educação: se a modernidade foi a época da infância, da maternidade, da puericultura, tendo tecnizado os cuidados com as crianças que encontraram sua legitimação na ‘ciência’, foi a escola que constituiu uma linguagem, um saber e uma técnica para lidar com ‘a vida de criança’, de modo a bem dirigir esta vida, mas também de acabar com ela, de fazê-la chegar a seu termo. Compreendida desse modo, a relação paradoxal estabelecida na modernidade entre escola e infância por intermédio dos conhecimentos instituídos pela ciência determinou o início da infância, mas também seu fim. Sobre o desaparecimento da infância na pós-modernidade discutem alguns autores. Postman (citado por CORAZZA, 2002), é um deles. A autora destaca, em seus estudos, o enfoque na denominada “perda de infância” ou o fim da infância a partir de meados do século XX. A invenção da infância teria sido superada e se constituiria apenas em uma referência convencional para discussões contemporâneas. Estaríamos, então, acompanhando uma pós-infância surgir? De que modo situa-se contemporaneamente a escola em relação à infância? As instituições educativas continuam a legitimar os saberes constituídos sobre a infância na modernidade em tempos pós-modernos? Enfim, entre a modernidade e a pós-modernidade, onde situa-se o tempo de criança, ou seja, a infância? Longe de querermos dar um termo a estas perguntas respondendoas, vamos nelas nos apoiar para dar início a um processo de busca de entendimento das problematizações que as transformam em questionamentos. Comecemos pelo cuidado com as crianças decorrente da gama de conhecimentos científicos gerados no período moderno. Tais 30 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade conhecimentos, produzidos em diferentes áreas do saber, tensionaram as verdades preconizadas sobre a infância e ampliaram os enfoques interpretativos sobre a mesma. A partir das ciências naturais, a infância foi identificada como uma etapa constitutiva do desenvolvimento biológico humano. A corporeidade de cada novo ser humano, sua altura, peso, constituição muscular e óssea, entre outros aspectos, evidenciaram, nas crianças, a condição inicial do seu desenvolvimento físico. Esta fisiologia tornava a infância delimitada e perfeitamente verificável do ponto de vista científico. Claramente situada, pontualmente classificada, a infância, nestes termos, passou a designar uma etapa constitutiva do desenvolvimento humano. Desde então a infância configura o período etário de vida compreendido entre 0 (zero) e 06 (seis) anos de idade ou entre o nascimento e a puberdade. Nas áreas médica e biomédica, bem como na psicologia e na pedagogia, estes têm sido os parâmetros indicadores da infância. Assim compreendida, a infância integra os saberes constituídos pela ciência e demarca um campo de atividades onde estes saberes são aplicados. Há profissionais especializados em diferentes áreas do saber que se dedicam exclusivamente ao estudo da infância. Há também uma quantidade crescente de categorias profissionais dedicadas ao atendimento das necessidades infantis das mais diversas ordens, seja na forma de produtos, seja por meio de serviços prestados à infância. Delimitada por sua característica temporal cronologicamente medida por meio de dias, semanas, meses e anos, a infância tem se tornado foco de inúmeras investigações. Desde os primeiros sinais de concepção de vida, nas sucessivas fases do desenvolvimento embrionário, ao longo de todo o processo de gestação até o nascimento, a infância tem se tornado conhecida. Esse período é cuidadosamente marcado por meio de processos quantificadores que possibilitam seu minucioso acompanhamento, registro e verificação. O crescimento biológico da criança é controlado por meio de tabelas, gráficos e prontuários que dão o caráter científico a este tipo de atenção. Desde então, meses e anos de vida adquirem o status definidor de descobertas, aprendizados, comportamentos e desenvolvimento biofísico, afetivo, cognitivo e social. Cada ano de vida, marcador da sucessiva e ordenada passagem do tempo, é indicado pelo calendário no qual os meses seguem-se uns aos outros. Esta regulação cronológica orienta o ritmo, a cadência e o rumo da vida. Em nossa cultura, principalmente durante os primeiros anos de vida, a cada doze meses, ou seja, a cada ano, a data é celebrada e festivamente comemorada. Seguidamente este ritual se repete e reforçadamente impõe uma forma de entendimento sobre a temporalidade da vida a partir da infância. Esta forma, unidirecional e inequívoca, fundamenta-se na ordem, na seqüência e medida com as quais linearmente entendemos o tempo e sua relação com a vida. O tempo e sua voraz irreversibilidade tornam-se ditames e conformam nossos modos de entender e valorar tanto a infância quanto a adultez. O tempo determina, assim, a infância comum a todos nós – uma etapa constitutiva da vida, compreendida entre o nascimento e os primeiros anos de vida – um período inicial de existência, desde o nascimento até a puberdade. As evidências físicas que diferenciam as crianças dos adultos, incontestavelmente presentes em todos nós, explicadas em bases científicas, conformam uma série de sentidos arraigados no conceito Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 31 Bernardina Maria de Sousa Leal “infância”. Entretanto, pensando com Lyotard (1989) sobre a concepção instrumental do saber que a ciência instituiu a fim de legitimar-se, podemos nos questionar a respeito daquilo que ainda não sabemos sobre a infância e mesmo sobre o que sabemos ou poderíamos saber de modo não científico. Teríamos, pois, que diferenciar o que a ciência nos informa sobre a infância na forma de conhecimentos sistematizados daquilo que sabemos ou podemos chegar a saber da infância a partir dela mesma. “O saber em geral não se reduz à ciência, nem mesmo o conhecimento”, afirma o autor e continua: O conhecimento seria o conjunto dos enunciados suscetíveis de serem declarados verdadeiros ou falsos, que denotam ou descrevem objetos, com exclusão de todos os outros enunciados. A ciência seria um subconjunto do conhecimento. Constituída também de enunciados denotativos, a ciência tem de impor duas condições suplementares para a sua aceitabilidade: que os objetos a que se referem sejam acessíveis recursivamente, portanto, em condições de observações explícitas; que se possa decidir se cada um destes enunciados pertence ou não a linguagem considerada como pertinente pelos peritos (1989, p. 46). Nestes aspectos, a infância é conhecida naquilo que o critério de verdade estabelecido pelo conjunto de enunciados que a linguagem científica exige a seu respeito, afirma. Porém, esta forma de legitimar alguns tipos de saberes acaba por excluir outros saberes que não são submetidos aos critérios de cientificidade que a modernidade trouxe consigo. Seja por não causar interesse junto à comunidade científica, seja por não se adequarem a este tipo de estabelecimento de verdades, o certo é que saberes subjacentes ao fazer, ao viver, ao escutar diários não são contemplados em nossos estudos sobre a infância. No consenso sobre as formas científicas de constituição da verdade é que firmaram-se as distinções entre o professor e o aluno, entre a criança e o adulto e, analogamente, os processos de ensino e aprendizagem. Tais distinções, além de legitimadas pelo patamar científico que adquiriram, assumiram também valores morais hierarquizados que passaram a orientar as práticas pedagógicas institucionalizadas. O desenvolvimento infantil intermediado pela educação em direção a uma adultez situada ao final de uma escala evolutiva ilustra bem esta questão. A adultez almejada só pode ser conquistada mediante um esforço metódico, gradual e ininterrupto. A legitimação do saber na forma de conhecimento científico faz coincidir o alcance da idade adulta com a possibilidade de se conhecer as coisas. O conhecimento, ou pelo menos, o conhecimento mais profundo ou mais verdadeiro torna-se restrito ao adulto e, mais restritivamente ainda, ao adulto escolarizado, formado nos moldes científicos, possuidor, portanto, de um repertório informacional e lingüístico que o permite organizar seus conhecimentos no interior de uma linguagem científica, muito distante do linguajar infantil. Podemos perceber o modo pelo qual as acepções que a ciência, o conhecimento e o saber adquirem em nossas práticas sociais e educativas circunscrevem os sentidos que a infância incorpora na modernidade e parece continuar a possuir na contemporaneidade. A criança, destituída do vocabulário necessário para a articulação argumentativa das idéias nos moldes que a linguagem científica determina, incapaz de apropriarse do conhecimento científico construído sobre ela mesma, alheia aos critérios de julgamento da verdade, encarna as idéias de falta, carência e 32 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade incompletude destinadas a ela nos espaços educativos. Este conceito negativo da infância, subjacente ao processo educacional a ela destinado, justifica uma série de práticas pedagógicas inibidoras do potencial criador da infância. Neste caso, características como falta, carência e incompletude denunciam falta de saber legitimado e, portanto, inferiorizam as crianças nas relações com os adultos. O poder adulto aparece, nestas circunstâncias, fortalecido pela autoridade legitimada tanto pela ciência quanto pelas relações sociais que ela determina. A autoridade adulta exercida sobre a criança assenta-se no poder do saber que o adulto possui e que é inacessível à criança. Ainda mais quando este saber é um saber sobre a própria infância. Além de saber sobre a infância, o adulto detém, ainda, um saber sobre as formas de enunciá-lo como verdade. A superioridade do adulto fica assim assegurada tanto pela distância cronológica marcada pelo continuum temporal de vida já vivida, quanto pelo conhecimento cumulativamente apropriado nesta quantidade maior de tempo. A informação, a velocidade exigida para sua aquisição e o método necessário para seu alcance caracterizam o tipo de conhecimento valorizado na atualidade e contribuem substancialmente para a consolidação dos conceitos de infância e adultez polarizados e solidificados nas imagens do professor e do aluno, no que se pensa sobre ensino e aprendizagem. A partir dos critérios científicos determinantes de verdades e dos meios construídos para quantificar, classificar e categorizar as coisas, infância e adultez passam a integrar os jogos identificados por Lyotard como “jogo de investigação” e “jogo do ensino”. O objeto de investigação, submetido às regras de cientificidade, torna-se, em seguida, objeto de ensino. Estes jogos determinam a aceitabilidade dos enunciados enquanto ciência e conferem às idéias colocadas um patamar de legitimidade, uma vez aceitas e após terem sido julgadas verdadeiras conforme avaliação prévia. Este padrão científico e adulto de estabelecimento de verdades exclui a criança e coloca o adulto no centro das decisões sobre a infância. O território adulto, delimitado pelo poder do conhecimento e pelo modo de enunciação do mesmo, deixa de fora a criança. Embora alvo de atenção, cuidado, proteção e controle adultos, cercada por uma infinidade de produtos e serviços resultantes dos saberes legitimados sobre a infância, a criança continua sem voz, sem fala, infante, diria Lyotard. A centralidade adulta inserida no projeto da modernidade de ordenação, sistematização e controle afasta a infância de si. O que está fora do centro, aquilo que é ex-cêntrico, é tomado como estranho. Nesta lógica adultocêntrica cabe tornar a criança conhecida, parte dos saberes constituídos cientificamente e controlável por peritos, até não mais ser considerada outra coisa que não um vir-a-ser adulto. A infância é vista apenas como uma etapa necessária a uma vida adulta. Esta, sim, uma situação madura e estável. Mas ainda é possível pensar na possibilidade de se alterar esta lógica de entendimento das coisas. Incluir a criança para que ela não fique mais do lado de fora não implica, necessariamente, em inverter a posição da adultez e da infância. Inserir a criança no âmbito adulto da vida exige apenas que o adulto saia do centro. Sem troca de lugares, o que pode haver é uma certa desterritorialização, ou seja, a não fixação de lugares onde os sujeitos criança e adulto costumam localizar-se. Isto significa, é Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 33 Bernardina Maria de Sousa Leal claro, mudar também a relação que se tem com o saber, alterar as formas de legitimação dos saberes, aceitar possíveis falhas na forma de entendimento das coisas. Tudo isso causa incômodo na medida em que pressupõe interrupções, deslocamentos e multiplicidade de ocorrências onde se imaginava haver comodidade, inteireza, estabilidade, bipolaridade e linearidade. Este incômodo, porém, parece ser um dos traços identificadores da contemporaneidade. O incômodo pode ser, inclusive, o prenúncio da mudança. A Temporalidade própria à Infância A estabilidade dos conhecimentos erigidos em base estritamente científica tem cedido lugar à mobilidade dos conceitos em planos, problemas e contingências. A extensão cronológica do tempo tem sido vista em concomitância com a intensidade do tempo experienciado, com a potência do tempo que irrompe ou se detém na vivência que evoca. A idéia de razão, definidora de um tipo de racionalidade considerada único meio de chegar à verdade tem sido oposta a racionalidades múltiplas capazes de abarcar diferentes modos de entendimento da vida. As noções de espaço e tempo têm sido alteradas por força da compreensão que estas instâncias têm sofrido. As oposições claramente identificadas em seus campos antitéticos esticam-se a fim de abarcar todas as diferenças hoje percebidas. Mesmo no campo acadêmico a permeabilidade entre campos e áreas do saber diferencia este de outros momentos. Enfim, diante de tantas alterações, no interior destas contingências, como continuar a pensar a infância e a adultez no espaço estrito de uma escala temporal cronologicamente medida? Como insistir em submeter a infância a um critério de verdade que exige comprovação quando podemos pensar a infância na dimensão do sentido, portanto, da similitude ou verossimilhança? Deleuze, citado no início deste texto, volta a nos acompanhar e nos auxilia a pensar a infância com base em outros tipos de entendimento. É ele quem afirma que um conceito se alimenta das mais variadas fontes, sejam elas filosóficas ou não. É ele, também, quem destaca a arte como produtora de afetos e percepções. É, ele, ainda, quem chama a atenção para a não discursividade do conceito. O conceito, em seu entendimento, não é proposicional. Esta seria uma característica da ciência, não da filosofia, tampouco da arte. Pensando com as idéias de Deleuze, podemos retomar o termo “Infância” e nele buscar não o que este conceito aponta como verdade, já que não é propositivo enquanto conceito filosófico, mas o que ele nos provoca a pensar. Não vamos mais nos situar no início ou no final de um curso cronológico para falar da infância ou da adultez. Pensemos no “tempo filosófico” identificado por Deleuze como um “tempo de coexistência”, que não exclui o antes e o depois, mas os superpõe numa ordem estratigráfica. Em vez de imaginá-lo em uma escala sucessiva e linear, pensemos o tempo na forma de camadas que se sobrepõem umas às outras, que podem ressurgir abrindo espaço entre as formações, podendo atingir, inclusive, a camada atual. Estas superposições, variáveis, alteram a ordem de suas posições, deslocam-se, coexistem em planos não sucessivos. Pensar a infância desde modo significa renunciar a um conceito de 34 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade origem situada de forma evidenciada em algum ponto definido. Este critério de cientificidade é aqui abandonado. Neste caso, estaríamos pensando a infância enquanto princípio no sentido de uma condição de possibilidade, na forma sugerida por Agamben (2001, p. 64). Evitaríamos, assim, procurar a origem histórica e temporal da infância. Pensaríamos a infância como um princípio que explica e, portanto, não possui uma origem historicizada, posto ser historicizante (2001, p. 68). Retomaríamos aquelas idéias iniciais da infância enquanto instância instauradora, profícua, enquanto estado de um vir-a-ser. Pensar a infância enquanto princípio como sugere Agamben e neste tempo filosófico proposto por Deleuze implica em pensar a temporalidade da infância fora de um eixo cronológico progressivo. Implica também pensar a infância de um modo descontínuo. Imaginá-la inserida em uma temporalidade desordenada, desmedida, abrupta e intensa, sem cadeias ou elos previamente instituídos. É preciso, ainda, pensar a temporalidade não na extensão do tempo mensurável, mas na intensidade potencial do tempo vivificado. Sem medida comparável ou comum a qualquer outra grandeza, esta é a temporalidade da infância que irrompe. Este é o tempo da infância que acontece em qualquer idade da vida. Nas palavras de Deleuze, este seria o conceito de infância “produtor de acontecimentos” infantis, posto ser o conceito aquilo que recorta o acontecimento, que o torna possível. É pela criação do conceito que um acontecimento é erigido, que um estado de coisas se constrói. Este conceito de infância, criado a partir da sensibilidade ao acontecimento da infância, implica na desconfiança em relação a um conceito de infância já estabelecido, sem assinatura do seu criador. “Toda criação é singular, e o conceito como criação propriamente filosófica é sempre uma singularidade”, alerta-nos novamente Deleuze (2000, p. 15). Deste modo, a criação de um novo conceito de infância exige uma construção sobre um plano que lhe dará uma existência autônoma. Pensar a infância enquanto acontecimento implica, enfim, em uma construção conceitual que pode suscitar desdobramentos lingüísticos, estéticos, éticos, políticos e educacionais. É possível que este ato criador demande novas linguagens, novas palavras para designar o conceito em devir. Afinal, alguns conceitos “exigem uma palavra extraordinária, às vezes bárbara ou chocante que deve designá-los...”(2000, p. 16). Não se trata, neste caso, apenas da alteração de um tipo de vocabulário, mas de uma outra sintaxe que possa alcançar o sublime, a beleza. Esta é, enfim, a dimensão auto-poiética pela qual um novo conceito é reconhecido. A infância enquanto algo que acontece, surge, então, em qualquer tempo. Trata-se de uma experiência que requer intimidade e intensidade para se fazer presente. Uma infância que se percebe, mas não se deixa medir ou quantificar. Esta infância não é objetificável e verificável, mas insubordinada e assistemática. Esta infância resiste à adultez, nos acompanha e nos obriga a acompanhá-la na medida em que coexiste na adultez. A infância compreendida como algo que não sabemos, algo que escapa a nossas verdades, reveste-se de novos sentidos. Sua polissemia, suas múltiplas possibilidades interpretativas faz com que a infância seja, a uma só vez, multifacetada e única para quem a experiencia. Trata-se, Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 35 Bernardina Maria de Sousa Leal portanto, de uma vivência particular, íntima e irrepetível. Longe de parecerse com uma categoria ou classificação, fora de qualquer demarcação teórica peculiar a determinada área do saber, a infância, assim entendida, faz-se experiência. Há que se procurá-la. Sim. Buscar a infância. Não aquela infância pretensamente guardada em um canto quase esquecido de nossas vidas. Não a infância idealizada de forma paradisíaca, imaculada e ingenuamente feliz. Tampouco aquela infância matriz de todos os traumas e tropeços adultos a ser refeita, consertada e ajustada às demandas de uma adultez solidamente constituída e madura. Não qualquer conceito previamente organizado no qual a infância a ser encontrada tenha que se encaixar. Buscar a infância com a disposição de encontrar algo desconhecido. Sem pertencimento. Sem lugar. Sem tempo. Buscá-la não como uma memória, mas como uma desmemória. Não buscar a infância particularizada na vida familiar e privada de cada um. Procurar a infância por meio de invenções, a partir de recriações do passado. Uma infância que não pertença a um ou outro particularmente. Uma infância indeterminada, desapropriada e, portanto, de qualquer um. Esta uma infância poderia ser compreendida com base no que Gilles Deleuze nos faz pensar a partir de seu instigante abecedário. Em uma intrigante entrevista a Claire Parnet (1997), Deleuze, sempre avesso a aparecer na mídia, altera o modo convencional de conceder entrevistas. Já com a saúde fragilizada, a voz quase inaudível, ele propõe falar sobre os conceitos que o inquietam na ordem alfabética das letras iniciais das palavras que os expressam. Deste modo, ao chegar à quinta letra do alfabeto, a letra E, de “Enfance”, infância, em francês, Deleuze inicia uma abordagem muito peculiar deste conceito. Já de início recusa-se a referirse à sua própria infância e mesmo desqualifica este tipo de menção. Para ele não há nada de interessante na descrição de qualquer infância particular, de quaisquer fatos que constituam a história privada da vida de quem quer que seja. Interessa-lhe a infância desapropriada, a infância desprendida da memória, a infância deslocada da reconstituição de fatos passados. Deleuze afasta a idéia de infância da idéia de pertencimento a histórias privadas de vida. Ele atrela infância, literatura e escrita à idéia de instauração do novo. A literatura e a escrita, partes da vida do escritor, levariam-no a buscar a infância de modo que o passado pudesse ser reativado, mas não pela memória. Ao contrário, o passado seria afastado da memória a fim de que o devir-criança pudesse ocorrer. Deste modo, o escritor se afastaria de sua própria infância e alcançaria a infância enquanto um estado anterior às palavras já ditas, ao discurso já pronunciado. Apenas assim a “boa literatura” se tornaria possível. Uma literatura que não se reduziria à reconstituição de dados históricos ou mesmo ao detalhamento de vidas privadas. Uma escrita capaz de levar o escritor a tornar-se criança através do ato mesmo de escrever. Ele, o escritor, tornar-se-ia criança e, assim, tocaria a infância. Não a sua infância ou a de quem quer que fosse, mas a infância do mundo, a infância do dizer. Esta literatura seria capaz de levar a linguagem até seu limite, até sua extremidade, naquele momento anterior ao falar aprisionado do discurso, antes da fala, infantilmente. “Escrever é gaguejar na língua”, afirma Deleuze (2000, p. 64). Uma infância assim, sem pertencimento, sem lugar, onde qualquer um poderia encontrar-se, indefinidamente... 36 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade Esta é a imagem que poderíamos criar com Deleuze. Seria preciso, no entanto, nos desprendermos das formas possessivas com as quais temos nos referido à infância. Teríamos que acatar a sugestão de Deleuze e substituir o enunciado “a criança que eu fui” pela afirmação “eu fui uma criança”. Isto significa despojamento, indeterminação, desapropriação. A multiplicidade semântica do termo infância exige tudo isso. Uma criança, neste sentido, é muito mais do que esta, aquela, ou qualquer outra criança. Uma criança, assim compreendida, é ainda muito mais do que todas as crianças juntas. Nesta desmemória, naquilo que nunca soubemos, no que nunca havíamos pensado, naquilo que violenta nossas lembranças está a experiência da infância. A infância que nos atravessa e, de modo enigmático e intenso, nos força a interpretá-la é a infância que nos ensina. Com ela aprendemos. Na forma de um som, um cheiro, uma sensação forte, ela nos interpela, nos invade e nos impele a decifrá-la. A Intimidade da Infância Aprender com a infância. Procurar, na intimidade com a infância, o que ela tem a nos ensinar. Tornar parte do aprendizado adulto a experiência de uma infância. Este é um exercício que exige, além do esforço da busca de novos sentidos, o desprendimento da concepção arraigada, determinante e cronológica do tempo. Aprender, neste caso, não resulta do ensinar. Este é o aprendizado que prescinde de explicações, pois relaciona-se a algo novo, nunca sabido. Um aprendizado que não decorre de pressupostos ou derivações, posto saber-se inventivo. “Tudo o que não invento é falso” (BARROS, 2003, p. 61). Esta é a declaração que dá início às memórias de Manoel de Barros, poeta contemporâneo, remetendo-se a uma infância vivida em terras pantaneiras. Em suas memórias inventadas, Barros nos convida a visitar uma infância sem data, sem saudosismos ou rancores. Uma invenção. Pouco usual nas narrativas de infância, longe das convenções do que se considera infantil, em “Manoel por Manoel”, a introdução do livro, o autor afirma que “em vez de peraltagem fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto”. Esta infância, constitutiva das memórias inventadas de Manoel de Barros, “sem comparamentos”, parece ilustrar o que Deleuze dizia sobre a boa literatura. Nela encontram-se memória, infância e escrita de tal forma imbricadas que tudo se apresenta novo. Novas são as palavras. Novos são seus sentimentos. Novo é o jeito de expressar a infância. Nesta auto-ficção narrativa, de modo assumidamente inventivo, o poeta afirma que quando criança “[...] tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão [...]” (BARROS, 2003, p. 72). Esta visão comungante com a qual nos provoca Manoel de Barros opõe-se claramente à perspectiva analógica e distintiva do pensamento hierarquizado, ordenado e disciplinar ao qual a infância tem estado atrelada. Gilles Deleuze, citado anteriormente, também a ele se contrapõe. Ambos, Barros e Deleuze, nos levam a pensar sobre a intimidade necessária para que a experiência da infância possa nos perpassar. Cada um a seu modo, ambos reforçam a idéia de sermos infantis para sabermos a infância. Há que se ser criança – é como se pudéssemos ouvi-los nos dizer. Há que Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 37 Bernardina Maria de Sousa Leal se ter a intimidade com as coisas que a criança possui a ponto de sê-las. Na infância se é o herói, o bandido, o rio, a pedra, o bicho, a flor... “Agora eu era...”, afirma a criança e, a partir de então, passa a ser. A criança inventa. Ela sabe que inventa e, mais do que isto, sabe que, ao inventar, torna-se aquilo que inventa. Esta ruptura, esta descontinuidade, este sem-sentido da infância desestrutura o raciocínio lógico exigido pela normatividade da língua. A concordância verbal exigida não é atendida. A subversão à gramática coloca a expressão “agora eu era...” no âmbito infantil da invenção. Lá, onde os sentidos decorrentes de uma criação afirmam-se e passam a ser verdade. Esta instância instauradora de sentidos, própria à infância de todos e de tudo, requer intimidade. Trata-se de alcançar um estado em que se possa criar. Isto se torna possível por meio da fuga da identidade, do deslocamento do eu pela criação de um outro ou de outros. É essa dissolução do eu, esse deviroutro que assemelham Barros e as crianças em suas experiências de metamorfose. A obra do poeta pantaneiro trata de puros acontecimentos, efeitos de superfície e paradoxos muito próximos das atitudes infantis. São os acontecimentos, os efeitos de superfície que o poeta transmuta pela ação do devir nas sensações duráveis de seus versos. Os movimentos e as interações entre elementos, ou seja, as relações, são captadas empiricamente pelo poeta que as transporta para a linguagem através do processo de criação estética. O autor não se dirige por concepções racionais pré-concebidas, por teorias classificatórias e hierarquizantes ou por previsões. Sua escrita se espalha horizontalmente na terra e na sintaxe disposta a fruir as surpresas do mundo-linguagem. Não há julgamentos ou preceitos moralistas. O espírito lúdico-inocente do poeta toma os objetos do mundo e subverte-lhes a ordem. Os objetos são retirados do senso comum e transformados nos objetos “desúteis” da linguagem poética. Esta subversão alcança as normas sintáticas e as classificações ideais, cria novas sensações através da linguagem e consubstancia as brincadeiras poéticas de Manoel de Barros. Neste sentido, a experiência poética de Manoel de Barros contempla e ratifica o conceito deleuzeano de obra de arte, bem como a concepção deleuzeana de literatura. O cruzamento entre a filosofia de Gilles Deleuze e a poesia de Manoel de Barros, a partir da sintonia entre suas obras, foi realizado por Mariano David (2003) em um instigante trabalho investigativo. Nele, o olhar poético de Barros é equiparado ao estado empírico-transcendental identificado por Deleuze. A comunhão com as coisas realizada por Barros não é percebida como em geral, pela busca do sentido original das mesmas, mas pela comunhão no plano da imanência, pelo exercício de exterioridade que caracteriza o olhar do poeta. O universo transitivo apresentado por Barros distancia-se da busca pelas essências. É a sensibilidade ao acontecimento, o olhar empírico imanente às coisas enfocadas que possibilita ao poeta extrair as puras intensidades dos contextos natural e cultural. A inclinação barroseana ao ritornelo, ou seja, ao aspecto musical da linguagem, faz com que o poeta ressalte, em seus poemas, o gorjeio dos pássaros, seus rituais de canto, sua linguagem pré-lingüística. Daí a intenção de Barros de buscar uma linguagem primitiva, oriunda do agenciamento de forças e devires da terra e da língua. A imperiosa necessidade de subverter a língua, de alterar a sintaxe e a semântica 38 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade representa a conseqüente necessidade de constituição de um novo mundo verbal. Sua poética aponta, assim, para as ambigüidades, para as obscuridades, enfim, para o delírio explícito. Este delírio pode ser compreendido como uma linha de fuga que leva ao esvaziamento do eu lírico, ao esfacelamento de uma subjetividade orgulhosamente inflada. Deste modo a invenção prepondera na obra de Barros, nela “a invenção demanda menos saber, mais aprendizagem, menos facilidade técnica, mais experimentação”, explicita David. Os atos de Barros, no campo poético, aproximam-se, assim, das investigações filosóficas de Deleuze. “O poeta faz poesia como Deleuze pensa a poesia”, afirma David. Na poesia de Barros também possui similitudes com as invenções comuns às crianças em suas transmutações em objetos, coisas e animais. Expressas verbalmente, tais invenções demandam palavras novas, diferentes sintaxes, outros sentidos. É assim que o trabalho artesanal de Barros e o emaranhado de sons, cores e odores presentes nas falas infantis criam a intimidade comungante pueril. Interioridade em vez de exterioridade. Intensidade em vez de extensão. Desapego em vez de apropriação. Uma das grandes dificuldades em alcançarmos o estado infantil das coisas talvez situe-se exatamente neste ponto. A privacidade com a qual a criança tem sido supostamente protegida dos males do mundo pelos adultos seja no âmbito familiar, seja nas instituições escolares ou mesmo nos locais de convivência infantil paradoxalmente vulnerabiliza a infância. Submetida ao controle e vigilância dos adultos, a infância das crianças passa a eles pertencer. A infância perigosamente passa a ser considerada propriedade privada do adulto, já que sobre a criança ele exerce o poder de posse e guarda. Diversos são os tipos de poder exercidos. Desde o pátrio poder legitimado pela relação biológica entre pais adultos e filhos crianças ao poder moral e psicológico, a relação de forças é marcadamente desigual. “[...] podemos desdobrar sentidos camuflados do verbo ter utilizado em expressões que explicitam nossas relações com as crianças, tais como: quantos filhos vocês têm? ; temos três crianças; tenho muitas crianças em sala de aula, entre outras. Tais expressões dimensionam o sentido das apropriações subjacentes ao verbo empregado. Ter é o mesmo que possuir, apropriar-se”[...] (LEAL, 2004, p. 84). As noções de proteção e guarda associadas à idéia de privacidade têm desviado as relações entre infância e adultez do âmbito da intimidade para o âmbito da privacidade. O contato entre o adulto e a criança embora seja, em muitos casos, repleto de confidências, não chega a ser íntimo. Para que a intimidade seja alcançada, faz-se imprescindível a presença da confiança. “Y donde no hay confianza no hay intimidad. [...] los confidentes (como los confesantes) nunca dicen la verdad acerca de si mismos (y eso, la verdad acerca de si mismo, es precisamente la intimidad (PARDO, 1996, p. 14). Uma criança que se vê impelida a confessar ou confidenciar a um adulto algo de si – situação comum à vida intra-familiar ou intra-escolar – não está, necessariamente, sendo verdadeira. Sua conduta, ao contrário, pode ser resultante de um aprendizado sobre o nível de mascaramento exigido pelas relações sociais nas quais percebese inserida. Neste caso, o ambiente privado do lar ou da escola afasta a criança de si mesma e também da possibilidade de qualquer relação de intimidade com sua própria infância e com a adultez alheia. A intimidade Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 39 Bernardina Maria de Sousa Leal não indica possessão nem propriedade, não estabiliza ou conforma. A intimidade provoca tensão, desequilíbrio e inquietude, nos alerta Pardo. Acontece que, nós, adultos, ansiosos por ensinar a criança, ainda que bem intencionados, insistimos em tentar assegurar sua aprendizagem por meio da privacidade. Precisamos estar atentos e sensíveis a uma infância indeterminada e inapropriável. A temporalidade infantil requer intimidade. A intimidade de uma infância, por ser intensa e abrupta, requer sensibilidade. A infância, em sua singularidade, agrega-se a um tempo que se interpõe em qualquer momento da vida. Um tempo que permanece. Um tempo que não vai ou fica, mas recria-se e recria a própria infância. Uma infância inventada no passado. Uma infância inventivamente presente. Lyotard (1989), ao investigar a condição pós-moderna na qual estamos inseridos, retoma o tema da infância, não em sentido literal, na acepção biológica ou mesmo psíquica. O autor recupera a idéia de infância no sentido metafórico de um constante recomeçar, do reconhecimento da incompletude do projeto inacabado do pensamento, isto é, da infância do pensamento. Este pensar principiador, inaugurador de sentidos e, portanto, criador de conceitos é metaforizado como uma infância, um estado anterior à fala, no instante em que o que acontece ainda não é exprimível pela linguagem. A infância é assim associada à linguagem inacabada, ao raciocínio não-linear e aos lapsos do pensamento que o movem (1989, p. 124). Incompletude e inacabamento, neste caso, não agregam ao conceito “Infância” aquele valor negativo apontado anteriormente. Nesta perspectiva, a dimensão cronológica determinante de uma escala que situa a infância em um início quantificadamente menor que a adultez localizada ao fim estaria completamente deslocada. Este conceito de origem, calcado nas bases de um modelo que as próprias ciências naturais já abandonaram, apresenta-se inadequado e inutilizável nas ciências humanas. Na acepção em que Lyotard emprega o termo Infância, ele representa um constante recomeço motivado por outras idéias e percepções da realidade, pelo uso de diferentes vocábulos e pela necessidade de constituição de um linguajar fugidio, capaz de exprimir o diferenciado. Este exercício interrupto, não-linear e acidental, consistiria, enfim, no próprio filosofar. Filosofia e Infância encontram-se, deste modo, no desejo de saber presentes nos dois conceitos. A infância do pensamento com a qual se confrontam aqueles que se dispõem ao filosofar demanda o desejo de saber, característico da filosofia. Contudo, nas situações escolares atuais, este desejo tem se manifestado, segundo Lyotard, de forma rarefeita e simplificadora. Este modo de manifestação em nada auxiliaria os estudantes a pensar o tempo presente e a complexa realidade que se estabelece sob a condição pós-moderna. Esta resistência a pensar aprofundadamente o tempo presente se constituiria, no entendimento do autor, numa forma de resistência política às exigências da pós-modernidade e à rarefação do desejo de saber manifesta na atitude de muitos estudantes que freqüentam a escola e que parecem não mais se dispor ao trabalho do filosofar. Este trabalho exigiria o constante recomeço, o reconhecimento da incompletude e da insuficiência das palavras para exprimir a realidade pensada e os sentimentos experimentados. O esforço exigido pela postura autodidata própria do filosofar não é compatível com a idéia de dependência e 40 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade incapacidade atribuída à infância e, conseqüentemente, ao aluno, no âmbito escolar. Ao contrário, o exercício do pensar requer o retorno à infância do pensamento naquela acepção principiadora, inaugural e profícua. A atualidade ou a pós-modernidade, caracterizada por Lyotard como o momento do declínio dos “grandes relatos”, carrega consigo, no entendimento do autor, uma crescente descrença nos grandes sistemas provedores de sentido. As fissuras da razão totalizadora têm, neste sentido, desacreditado também as formas de legitimação das verdades estabelecidas no âmbito da cientificidade positivista. Padronização, uniformidade, homogeneidade e regularidade, algumas das características preponderantes nas ciências modernas, acabaram por impossibilitar o reconhecimento da diferença, a aceitação da multiplicidade de eventos, a diversidade da vida. A lógica da exclusão, própria de um tipo de entendimento pretensamente universalizador, coloca-se em oposição à alteridade da figura do outro. O outro, representante da ameaça ao mesmo, símbolo do confronto à regra, representa a desordem, a transgressão. Nesta lógica o outro precisa ter sua diferença reduzida até deixar de ser diferente e passar a ser igual ou, então, ser eliminado, silenciado. Igual, não será notado. Sem voz, não será ouvido. Estes modos de exclusão, tão presentes na contemporaneidade, resultam em certa desconfiança nas formas de entendimento totalizante. A incredulidade diante do dispositivo metanarrativo de legitimação de verdades leva a fragmentações, a pequenos relatos, a participações menores nas quais as vozes divergentes se fazem ouvir. Os espaços marginais deslocam-se através de mecanismos de reterritorialização, de modo que as minorias passam a ocupar lugares anteriormente nãoexistentes e a exigir um compromisso político com a alteridade, com os excluídos do discurso moderno. A antiga tentativa de universalização de um modelo de homem branco, ocidental, adulto, heterossexual, normal e educado excluiu por muito tempo a mulher, o negro, o oriental, o homossexual, o doente mental, o nativo, a criança. Nesta crítica à dominação é que reside o apelo ao respeito à diferença, a reinvindicação da alteridade, a particularidade da infância. A criança enquanto outro, diferente do adulto, reclama o reconhecimento da importância do seu micro-espaço experiencial. Seguindo a abordagem lyotardiana, tenderemos a abandonar os metarrelatos universalizantes relativos à infância rumo a uma micrologia da infância, em direção aos pequenos relatos infantis, a uma linguagem própria da infância em sua contingência e mutabilidade, na intensidade e resistência que possui. A infância enquanto espaço utópico que traz em si o que não pode ser assimilado pelo sistema – a corporalidade, o figural, o desejo, a intuição, a surpresa – representa a possibilidade da divergência, o perigo do novo. Este poder transgressor da infância em sua alteridade inassimilável pelo adulto consubstancia uma sugestiva metáfora do indeterminado. A infância assim entendida aponta para a criação, para o que ainda não existe. Esta figura paradigmática da infância criada por Lyotard nos faz pensar as relações conflitivas entre modernidade e pós-modernidade. A infância como singularidade, como evento, não pode ser considerada simplesmente como uma etapa a ser abolida. Ela representa, ao contrário, Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 41 Bernardina Maria de Sousa Leal um ponto de resistência a forças totalizadoras. Deste modo, pode e deve continuar no adulto, representada por uma força contrassistêmica, um sentimento de estranheza e contínua perplexidade ante a complexidade da vida. Nesta perspectiva de não-distanciamento entre infância e adultez é que falar sobre a infância só se faz possível a partir da infância. Daí a necessidade do rompimento com as divisões temporais, ordenadas hierárquicas e sucessivas. Daí a necessária ruptura com os processos dicotomizadores que colocam de um lado a adultez, o saber e o ensino e do outro lado, a infância, o não-saber e a aprendizagem. Em vez do distanciamento, a intimidade. Deleuze nos leva a pensar sobre as limitações estreitas que as oposições impõem. O filósofo nos alerta para aquilo que as dicotomias ocultam: um “formigamento de diferenças, um pluralismo de diferenças livres, selvagens ou não-domadas” que resistem às simplificações dualistas. Neste sentido, é preciso desconfiar das oposições professoraluno, infância-adultez, ensino-aprendizagem. Estes dualismos reduzem a multiplicidade do evento a representações falseadas que derespeitam as singularidades. Tais oposições não conseguem esconder as diferenças latejantes. “Os pares, as polaridades, supõem feixes, redes; as oposições organizadas supõem irradiações em todas as direções”. Pensando com Deleuze, podemos refletir sobre a quantidade de variações, de pequenos fragmentos não observados que compõem a infância e quão ramificada é sua constituição. Fixar a infância em uma determinada cronologia poderia nos levar a desconsiderar esta série infinita de atos infantis que acompanham a vida adulta. Os limites entre criança e adulto, pensados desta forma, não parecem claros. Em vez de localizar crianças e adultos em estágios diferentes dentro de uma seqüência de desenvolvimento rumo a um ponto final fixo, como se houvesse um padrão imutável válido para a avaliação desta seqüência, é preciso pensar estes conceitos no plano da coexistência. Assim, a relação adulto-criança conformaria o ambiente intersubjetivo no qual os sujeitos se constituiriam. Este ambiente configuraria a alteridade e o respeito à diferença. Esta mudança de perspectiva ocasiona implicações imediatas na educação, uma vez que nela ser assenta o trabalho de base para relações pedagógicas menos hierarquizadas e lineares, mais respeitosas e móveis. A unidade deste tipo de relação e a intimidade que pode possuir é que permitirá o reconhecimento da diferença dos sujeitos envolvidos. O descentramento do adultismo implica no entendimento de que a criança ocupa uma perspectiva das coisas não completamente acessível aos adultos. Esta perspectiva diferenciada, fruto da diferença orgânica da criança, mas também do seu posicionamento no mundo social e de suas relações de poder, escapa ao controle adulto. O reconhecimento desta diferença, da possibilidade do não-controle, desdobra-se em direção a outras rupturas nas construções epistemológicas objetivistas ocidentais que revelam saberes de sujeitos marginalizados. Deste modo, manifestações multiculturais ganham visibilidade e deslocam a estrutura dominante do conhecimento. A noção de um conhecimento unificador é problematizada e conecta a cultura da infância a outras culturas silenciadas, sem voz. O medo da liminaridade entre o adulto e a criança revela também o receio da perda da própria identidade adulta e mesmo de outras identidades. O compartilhamento de espaços de múltiplos 42 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Os entre-tempos da infância: a infância entre a modernidade e a pós-modernidade devires, impensável em um contexto adultocêntrico, é o que o reconhecimento da infância em sua alteridade nos faz pensar. A abertura da criança a outras espécies e formas de vida, sua atenção aos outros, a forma cooperativa de lidar com as coisas, revelam um modo flexível e sensitivo de viver e de lidar empaticamente com coisas, objetos e animais. É como se a criança possuísse uma certa razão intuitiva que a aproximasse de tudo e de todos em conjunto e não por contraste, separadamente, como ocorre com o adulto. Esta intimidade comungante com coisas, seres, objetos, animais e pessoas aproxima a infância tal qual a entendemos da poesia de Manoel de Barros e da filosofia de Gilles Deleuze. Esta intimidade nos leva, ainda, a buscar, no estado infantil do pensar, um outro jeito de entender o ato educativo. O reconhecimento de que há saberes pertencentes às crianças, assim como há saberes pertencentes aos adultos, se contrapõe à lógica hierárquica linear progressiva que cria a noção de deficiência teóricoepistemológica da infância. Este reconhecimento pode nos levar ao encontro de outros entendimentos a respeito da educação e, mais especificamente, a respeito da educação das crianças. Afinal, nos entretempos situam-se problemas conectáveis, conceitos que se superpõem, contornos indefiníveis de idéias, conexões entre diferentes componentes conceituais, enfim, inúmeras variações que configuram a multiplicidade do acontecimento comumente denominado “Infância”. REFERÊNCIAS AGAMBEN, Giorgio. Infância e história. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2001. BARROS, M. de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Record, 2003. CORAZZA, Sandra Mara. Infância e Educação – Era uma vez – Quer que conte outra vez? Petrópolis, R.J: Vozes, 2002. DAVID, Mariano. Arte e literatura no pensamento de Gilles Deleuze. Dissertação de mestrado em Literatura Brasileira. Programa de Pósgraduação em Letras- Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ2003. DELEUZE, Gilles.L’Abécédaire Gilles Deleuze. Paris: Editions Montpainasse, 1997. Vídeo. Sublinhado em português pelo MEC, TV Escola. ______. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34, 2000. JAMESON, Fredric. Espaço e imagem. Rio de Janeiro, UFRJ, 1994. Texto digitado. KOHAN, Walter O. (Org.) Lugares da infância: filosofia. Rio de Janeiro: DP& A, 2004 LEAL, Bernardina; LÓPEZ, Maximiliano; GÚZMAN, Maria José; KOHAN, Walter. Filosofia, pensamento e experiência: a transformação de si. Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 43 Comunicação oral apresentada no VII Encontro de Pesquisa em Educação da Região Sudeste. 12 a 15 de junho. Belo Horizonte, MG. LYOTARD, Jean-François. A Condição pós-moderna. 2. ed. Tradução: José Navarro. Gradiva, Lisboa, 1989. PARDO, José Luis. La intimidad. Valencia, Espanha: Pré-textos, 1996. 44 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 3 REESTRUTURAÇÃO DA ECONOMIA CACAUEIRA DO SUL DA BAHIA PELA ADOÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS Francisco Mendes Costa* RESUMO A grave crise que assolou a região fez emergir o desemprego que atingiu quase totalidade dos trabalhadores da cultura, intensificando o êxodo rural, o esvaziamento do campo e o arrefecimento de setores cuja dinamicidade dependia funda-mentalmente do cacau. Este trabalho visa contribuir para o debate na busca de soluções para o problema da cacauicultura baiana. A pretensão é avaliar quantitativamente o impacto da utilização de tecnologia agrícola na cultura sobre a geração de emprego e renda, bem como seus reflexos socioeconômicos na região. Para analisar os resultados da pesquisa, foram utilizados modelos econométricos de regressão que demonstraram os impactos e as relações entre as variáveis selecionadas. A investigação identificou a capacidade geradora de riqueza do produto durante três décadas, bem como a sua distribuição entre os habitantes da área selecionada. O estudo dimensionou o impacto da agropecuária nos setores industrial e de serviços. Finalmente, o estudo sugere a intensificação da pesquisa em engenharia genética para a criação de clones de alta produtividade, permitindo a retomada da atividade econômica na região a partir da cacauicultura. Palavras-chave: Produção de cacau; tecnologia; desenvolvimento econômico; mercado internacional; competitividade. Introdução As transformações no mundo contemporâneo ocorrem numa profusão e rapidez dantes nunca experimentadas pela humanidade, através de novos procederes e novos produtos. A informação se dissemina em fração de segundos e, em igual tempo, pode-se decidir e empreender algo. É a aproximação das nações, possibilitada pelo avanço da tecnologia, ou seja, a sistematização de um conjunto de conhecimentos aplicáveis à produção e comercialização de bens e serviços. Este cenário de mudança tende a se intensificar quando a crise se instala no percurso. Nesta situação, proliferam-se as idéias em torno de soluções alternativas que possibilitem o equilíbrio da superação das dificuldades. A Região Cacaueira do Sul da Bahia se transforma e vivencia, a seu turno, situação semelhante. Inserida no universo capitalista, a crise passa * Francisco Mendes da Costa é mestre em Economia e professor da UESC. Francisco Mendes Costa a ser um componente contumaz em sua trajetória de crescimento. No final da década de 80, a crise se agrava ainda mais em seus desdobramentos. A doença Vassoura de Bruxa pôs termo a grandes empreendimentos que, na cacauicultura, depositaram as suas esperanças econômicas, por um longo tempo. Pretende-se mostrar que, em função da introdução de novos processos de produção do cacau, e fundada em uma tecnologia genética da clonagem do referido produto, o pacote tecnológico, constituído de insumos básicos, volta a dar sustentação à cultura cacaueira num contraponto à forma tradicional da produção de cacau, que foi uma constante na vida do cacauicultor regional. Mesmo mantendo o cacau como monocultura, há uma grande possibilidade de que a nova tecnologia seja o grande indutor do aumento da produtividade do cacau, aumentando a renda do produtor e, por conseguinte, o alavancador das atividades econômicas da região. O desenvolvimento da região ainda terá no cacau a sua grande alternativa para se dinamizar. Ele constituir-se-á na elevação de uma região, que se beneficiou do produto, mas o deixou sucumbir por falta de amparo tecnológico. A função tecnológica no mecanismo de retomada da lavoura cacaueira se tornará uma peça fundamental na sustentação do desenvolvimento de outras atividades econômicas, estabelecendo sinergias para permitir o soerguimento de todo o sistema econômico regional. Metodologia A região selecionada é apresentada como a mais importante produtora de cacau do Estado da Bahia e do Brasil. Foram analisados, em conjunto, os municípios que compõem a microrregião Ilhéus/Itabuna, por apresentar características geo-econômicas semelhantes e concentrar 2/3 da produção brasileira de cacau. O ponto de partida da metodologia é a estimativa de Contas Regionais para os anos de 1970 a 1996, segundo as unidades municipais da microrregião e macro setores econômicos. Os dados básicos ali contidos referem-se ao Produto Interno Bruto a custo de fatores. Portanto, todas as estimativas resultantes da metodologia proposta seguem o mesmo agregado. Modelos de Análises Bonelli (2001, p. 8) estabeleceu parâmetros para se determinar estudos a partir da base de dados construída para a pesquisa que é o de investigar em que medida associa-se o PIB agropecuário (ou renda agropecuária) e aquele gerado pelos demais setores (indústria e serviços). A análise pode avançar para elucidar em que medida a renda nãoagropecuária é “determinada” pela renda agropecuária. Ou, ainda, em que medida a renda primária determina a dinâmica dos demais setores no longo prazo. O PIB não-agrícola, ou urbano, é obtido deduzindo-se do PIB estadual total a parte devida à renda da Agropecuária. 46 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Reestruturação da economia cacaueira do sul da Bahia pela adoção de novas tecnologias Os referidos modelos são conhecidos como modelos ad hoc, onde o estudo utiliza artifício estatístico para representar matematicamente determinadas análises, obtendo-se, assim, mais representatividade prática na apresentação dos dados, amenizando explicações teóricas muitas vezes de mais difícil exposição. Para tanto, os dados devem se submeter a um rigor estatístico para confirmar se a metodologia aplicada está concernente aos objetivos estabelecidos. Dentro deste contexto, Bonelli utilizou modelo similar para explicar que a Renda Agropecuária é indutora da Renda nãoagropecuária nos cognominados Eldorados brasileiros1 . Na dissertação, foram adaptados dois modelos econométricos, com base em Bonelli, sendo, respectivamente: Modelo 1 - Impacto da renda agropecuária sobre a renda nãoagropecuária2 Este modelo trata do Impacto da Renda Agropecuária (YA) sobre a Renda Não-Agropecuária (YÑA) para verificar se a cacauicultura apresentase como agricultura de realce e se houve preponderância sobre os demais setores da economia regional, sendo testado a partir de dados crosssection, levando em conta os anos de 1980, 1990 e 1996. O modelo a ser testado é o da equação seguinte: YÑA = b0 + b1 YA onde: YA = Renda Agropecuária YÑA = Renda da indústria somada à Renda do setor terciário b0 = Parâmetro linear b1 = Coeficiente angular das variáveis Modelo 2 – Impacto da tecnologia na produção de cacau Este modelo analisa o Impacto da Tecnologia na produção de cacau, verificando se as relações do crescimento da cacauicultura foram impulsionadas pela tecnologia. Foi testado a partir de série temporal, que levará em conta o período total dividido pelas seguintes décadas: 197079, 1980-89 e 1990-99. O modelo a ser testado é o da seguinte equação: Yc = b0 + b1 L + b2 W + b3 T onde: YC = Produção de cacau (em arrobas) 1 Regiões onde a Agropecuária alcançou índices de desenvolvimento tecnológico que as transformou em verdadeiros nichos de riqueza e desenvolvimento sócio econômico. Sobre o assunto ver Bonelli, 2001. 2 Para a estimação do modelo foi utilizada a Ferramenta de Análise-Regressão, que faz parte da planilha Excel. Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 47 Francisco Mendes Costa L = Área plantada de cacau (em hectares) W = Trabalhadores na lavoura cacaueira (em unidades) T = Índice de tecnologia aplicado à lavoura (em %) b0 = Parâmetro linear b1, b2, b3 = Coeficientes angulares das variáveis Os dados alusivos às variáveis L e W foram coletados nas publicações da CEPLAC e para o cálculo de T foi estabelecida a seguinte fórmula: T = [HaAd.tAd] + [HaIns.tIns] + [HaFung.tFung] +[HaClone.Prod.Clone] x 1 tAd + tIns + tFung + HaClone Área (Colocar em modelo matemático) onde: T3 = índice de tecnologia tAd = volume de adubo aplicado em toneladas tFung = volume de fungicida aplicado em toneladas tIns. = volume de inseticida aplicado em toneladas HaAd = área de aplicação de adubo em hectares HaClone= área de implantação de cacaueiro clonado HaFung = área de aplicação de fungicida em hectares HaIns = área de aplicação de inseticida em hectares Prod.Clone= produtividade (produção) do Clone Especificações econométricas Os cálculos das especificações econométricas são realizados com base nos modelos clássicos de regressão, através do método dos mínimos quadrados. Tratando-se de modelos de regressões ad hoc, faz-se mister enfatizar as relações de causalidade entre as variáveis explicativas e as explicadas nos correspondentes cálculos. A esta relação, sendo de natureza estocástica, incorpora-se a variável aleatória (e), que evidencia a relação de causalidade funcional, desde quando a distribuição de probabilidade da variável explicada não seja a mesma para todos os valores das variáveis explicativas. Os cálculos das funções propostas nos modelos anteriormente indicados serão efetuados através de funções matemáticas, sendo que o modelo 1 foi calculado com base na regressão do tipo linear simples de 3 Para o calculo dos índices de tecnologia, o pesquisador utilizou um artifício matemático para estabelecer percentuais de cada insumo aplicado na lavoura no período estudado. Calculou-se uma média ponderada da área de aplicação dos insumos em ha, tendo o volume sido aplicado em toneladas com os seus respectivos pesos que multiplicados pela área de cacaueiros clonados e sua produtividade estabelecerá a produção total de cacau. Ver Quadro 7. Como fica claro, o índice é dado pela razão entre essa média ponderada e a área total plantada, fornecendo a intensidade global de utilização desses insumos. 48 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 Reestruturação da economia cacaueira do sul da Bahia pela adoção de novas tecnologias produção para testar a dinâmica da economia cacaueira, tentando destacála pela importância que exerceu na geografia regional. Este modelo teve um tamanho amostral de 28 observações, que correspondem aos municípios da microrregião Itabuna/Ilhéus com 2 variáveis explicativas. Modelo 1: YÑA = b0 + b1 YA + e onde: YA = Renda Agropecuária YÑA = Renda da Indústria somada à Renda do setor terciário b0 = Parâmetro linear b1 = Coeficientes angulares das variáveis e = Erro aleatório n = 28 (números de municípios) t = 3 (anos 1980/1990/1996) Quanto ao modelo 2, foi estimado, através de uma função linear múltipla de produção para determinar se as relações do crescimento da cacauicultura estiveram impulsionadas pela tecnologia. O referido modelo é composto de uma amostra regional com dados de valor da produção, área, mão-de-obra, preço e índice de tecnologia, alusivas ao período de 1970/1999, que, para a sua analise, utilizou-se apenas 3 variáveis, consideradas mais importantes. Yc = b0 + b1 L + b2 W + b3 T + e onde: YC = Produção de cacau (em arrobas) L = Área Plantada de cacau (em hectares) W = Trabalhadores na lavoura cacaueira (em unidades) T = Índice de Tecnologia Aplicado à Lavoura (em %) b0 = Parâmetro linear b1, b2, b3 = Coeficientes angulares das variáveis e = Erro aleatório n = 30 (número de anos observados) Os modelos propostos de relação renda e de tecnologia, adaptados para este trabalho, visam testar a significância de variáveis básicas relacionadas ao processo de desenvolvimento da Microrregião Cacaueira do Sul da Bahia, determinada na classificação geográfica do IBGE como Microrregião Ilhéus/Itabuna, vinculadas à questão da tecnologia. Desta forma, a exposição dos modelos envolve a definição de seus objetivos, o significado econômico das variáveis selecionadas, e as suas especificações econométricas. Para estabelecer mais consistência ao método estatístico, far-se-á testes de avaliação dos cálculos, através de instrumento econométrico para consolidar a eficiência dos resultados. Além dos testes regulares Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005 49 Francisco Mendes Costa instituídos nos cálculos de regressão, também os testes de heterocedasticidade e de Durbin Watson para confirmarem a inexistência de colinearidade e autocorrelação das variáveis. Origem dos dados e procedimentos adotados O período escolhido para a análise é o de 1970-1999, devido à disponibilidade de informações estatísticas. Uma base de dados de âmbito regional foi especialmente construída para os propósitos da pesquisa a partir das necessidades e orientações da CEPLAC, IBGE, IPEA e SEI, instituições que disponibilizaram os dados. Ela contém, essencialmente, informações sobre o PIB total por município; PIB em nível municipal desagregado pelos três macro setores (Agropecuária, Indústria e Serviços) e, valor da produção. O PIB agropecuário foi calculado pela ótica da renda a partir das informações dos Censos Econômicos Agropecuários de 1980, 1990 e 1996 — ou seja, ele é dado pela soma das remunerações dos fatores de produção (terra, trabalho, capital). Isso é particularmente vantajoso para os propósitos do estudo, pois representa a renda efetivamente gerada no espaço geo-econômico considerado. É de se esperar que isso afete o bem estar das populações locais, embora seja possível pensar em situações em que a renda é gerada num município, mas apropriada por outro(s). Itabuna e Ilhéus são exemplos de absorvedores da riqueza gerada por seus pares. Os dados de renda utilizados foram coletados nos Censos Econômicos do IBGE de 1970/1980/1996. A variável renda no Censo Econômico é demonstrada através do PIB Total em relação à população da área estudada. No caso presente, foi estudado o PIB Total da referida região, disponibilizado pelo IPEA e SEI em relação aos 28 municípios que a compõem. Análise dos resultados - Desempenho do PIB Regional Os resultados práticos da metodologia podem ser vistos nas análises seguintes, tomando como base os Quadros 1e 2 a seguir, que apresentam dados sobre o PIB regional evidenciada pelo envolvimento de todos os macros setores econômicos para o período 1980-1996, cuja demonstração gera estimativas bastante realistas. À exceção de Ilhéus e Itabuna, que tiveram variações positivas no período, nos demais municípios da microrregião a variação do PIB no longo prazo é negativa, exclusive Lomanto Júnior, Camacã, Canavieiras, Gandu, Ibirataia e Una, que tiveram tímida ascensão entre 1990-1996, graças a algumas iniciativas de pioneirismo na execução de políticas de diversificação agropecuária ou de atração da nova tecnologia de clonagem do cacaueiro, que determinaram rápida retomada do crescimento econômico municipal. O Quadro 1 demonstra um cenário que representa uma realidade numérica, traduzindo o grau de dificuldade que a referida área experimentou nesse período de crise. 50 Revista Mosaicum - N°2 - Ano I - Ago. / Dez. 2005