17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas
Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis
Liberação de humores artísticos: paixões da diferença
Humors artistic liberation: difference´s passions
Paola Zordan – UFRGS
Mayra Martins Redin – UFRGS (Capes)
Resumo: Apresenta-se a composição e as primeiras realizações de um pequeno coletivo,
denominado MATILHA, envolvido com as Artes e com o eixo temático Paisagens Plásticas
da linha de pesquisa Filosofia da Diferença do PPGEDU/UFRGS. Trata-se de um
movimento ligado ao DIF: artistagens, fabulações e variações, grupo de pesquisa (CNPq)
que busca criar novos sentidos para a escrita acadêmica, procurando trazer arte para
procedimentos até recentemente calcados em métodos científicos. O trabalho inspira-se na
literatura e no pensamento de Nietzsche e Gilles Deleuze. O que se quer com as
experimentações descritas é liberar humores artísticos no espaço institucional, de modo
que o trabalho e ensejo produtivo sejam sempre movidos por intensas paixões.
Palavras-chave: happening, escrita acadêmica, artistagens, humores.
Abstract: Introduces the first realizations and the composition of a small group, named
MATILHA, which involves Arts and the theme "Plastics Landscapes" of research line
Differences' Philosophy by Education Post-graduation Program in Federal University of Rio
Grande do Sul state. It is a movement relationed with DIF, research group (CPNq)
that searches new senses for the academical writing, trying to bring art to procedures
formerly over scientific methods. The work counts with a suport from Nietzsche and
Deleuze thinking's. What is desired is to work with experimentations in a role to liberate
artistic humors at the institutional space, with an intention that this work and productive call
may be always moved by passions.
Key-works: happening, academicals writes, artistagens, humors.
Movimento
Ao se reunirem orientadora, mestrandos e alunos de Iniciação Científica em
torno de uma pesquisa, numa linha legitimada para isso, considera-se que há
motivações mais amplas do que o motivo de pesquisar certo campo, procurar
problemas, delimitar temáticas, escolher uma gama de demonstrações, criticar
emblemas e produzir um texto com essas ações. Motivados em experimentar o
novo, em ativar o sentido de sua prática cotidiana, alunos e orientadores trabalham
juntos ao perspectivismo nietzschiano para afirmar uma Vontade de Arte, exercer
potências e fazer valer forças salutares em uma instituição. Assim, para designar
encontro de intensidades entre pessoas destinadas a estudarem e pesquisarem
juntas, cria-se o Movimento Apaixonado Trabalhando Incansavelmente para
Liberação de Humores Artísticos (MATILHA). Mais do que o encontro formal de
uma Prática de Pesquisa em Educação, esse movimento compõe mestrandos em
Educação juntamente com graduandos de Iniciação Científica e por vezes
estagiários do curso de Licenciatura em Artes Visuais. Os membros podem ou não
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possuir uma prática artística sistematizada, podem, ou não, estar atuando em sala
de aula, podem, ou não, estar dentro dos circuitos das artes. Na composição atual
há um pedagogo, duas psicólogas, sendo que uma é também aluna do curso de
Artes Visuais, um licenciado em Educação Artística e uma atriz, diretora bacharel
em Artes Cênicas. Todos componentes, incluindo a coordenadora, estão de
alguma maneira envolvidos com textos literários e musicais, apenas um não canta
ou toca algum instrumento musical, embora seja leitor cênico de voz grave e
marcada. A miscigenação dos sons e das palavras produzidos no grupo se coloca
em função dos espaços corporais ocupados nos locais prosaicos escolhidos para o
happening: salas de aula, salas usadas para acontecimentos formais, locais de
passagem para estas salas. Embora exista a possibilidade de ocupar outros
espaços, o grupo intenciona uma mudança de humores nesses ambientes estéreis,
ascéticos, que um prédio na Universidade proporciona para aqueles que nela
trabalham.
A coordenação da MATILHA não se mistura com o trabalho de orientação
em pesquisa, atua apenas agregando estudantes em torno de eventos que,
embora estejam ligados aos temas e conceitos estudados, extrapolam análises e
investigações de cunho científico. Os acontecimentos criados pela MATILHA
acompanham
também
as
performances
de
um
grupo
maior,
que
tem
desestabilizado as fronteiras das teorias do currículo e da produção pedagógica, o
DIF: artistagens, fabulações, variações, criado em 2002 pelos professores Sandra
Mara Corazza e Tomaz Tadeu. Trata-se de coletivos que atuam ora junto, ora
separados, na proliferação de uma nova escrita educacional. O intuito é fazer
poesia onde outrora existiam prescrições. Oferecer grafia e planos pictóricos onde
apenas a superfície escrita seria admitida. Provocar os examinadores e o público a
pensar imagens que não aquelas já vistas, conhecidas e significadas.
Paixões
Com Nietzsche, o movimento do grupo, seja em pesquisas individuais, seja
nos happenings, é o do amor fati. Assumir seus fados e fazer dele motivo para arte
leva a pesquisa para pontos nevrálgicos da educação contemporânea, em suas
implicações ecológicas, estéticas e psíquicas. Os atuais temas do grupo versam
sobre o corpo, o amor, os fluxos sanguíneos, a água, a terra, as mulheres, a
feminilidade e a escrita. Tanto pelo pensamento da Diferença como pela escolha
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de temas que podem ser tomados como desprezíveis, é preciso mostrar o embate
desta
perspectiva
dionisíaca,
matriarcal,
maníaca,
com
as
prescrições
educacionais estritamente normativas, de modo que fomos conduzidos a estudar a
genealogia da moral, o masoquismo institucional e o pathos trágico. As paixões
que nos são destinadas, por mais assustadoras que sejam, mostram as
experiências adquiridas pelos corpos, instrumentos e aparelhos que antes de
qualquer discurso, vivem para fazer da vida, arte. Uma paixão acontece quando
algo fatalmente arrebata o corpo de tal modo que o corpo, afetado, padecendo
daquilo que lhe é estranho, nunca mais se torne o mesmo.
Entendendo que mostrar as dores e o horror da passionalidade humana é
ato político, o grupo prima pela conjunção de vozes, pela interação de espaços,
junção de desenhos e marcas colocadas nas superfícies. Antes de constituir um
texto estritamente crítico, trabalha-se com o non sense contemporâneo no texto
teatral, desestabilizando discursos instituídos e instituintes.
Desdobrando a
pesquisa em variadas poéticas, grafias aleatórias, diários de bordo, livros de notas,
impressões de chuva, canções, poemas, fragmentos e aforismos, as produções do
grupo fazem uma incursão virtual junto a séries de sentido que se perdem. Afirmase o processo ao invés do resultado, a experimentação no lugar da conclusão, a
marca ao invés da representação. Junto aos conceitos filosóficos dos autores da
filosofia da Diferença, tenta mostrar um traçado rizomático, testar gravuras, extrair
dos fatos algum registro, problematizando a permanência do texto pedagógico com
a força micropolítica da arte. Percorre-se o minimalismo neo-concreto para saber
como dar conta de problemas políticos pela via da arte. Não com textos teóricos,
mas com aqueles eminentemente literários. Nesses estudos conjuntos de ordens,
corpos, vozes e acasos, Roland Barthes e Michel Foucault trazem ferramentas
para se pensar os problemas da técnica, da composição e da expressão envolvidos
na criação de projetos artísticos que não perdem o cunho didático: a ação poética
ensina. É por este viés que as pesquisas se ocupam com experimentos literários,
poéticas visuais, escrita cênica e as forças que movem o processo criativo. O que
esse Movimento traz é uma paixão alegre na formação de mestres-professoresautores, autores artistas, autorartistas, que encontram, junto ao aprimoramento
acadêmico, a satisfação do criar, do aprender e ensinar, melhor ainda se for
dançando, cantando, pintando.
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O trabalho incansável
Poderia ser muito cansativo, visto ser algo além do que se espera de
orientandos e orientador, num Programa de Pós-Graduação, além dos movimentos
usuais da pesquisa, preparar happeningsi e espetáculos. Mas vencer o cansaço e
ultrapassá-lo tem se mostrado o modus operandi do DIF em todas as instâncias.
Sem esse corpo maior, o pequeno coletivo da MATILHA já realizou dois eventos e
prepara mais um. O primeiro foi a conclusão do Seminário Avançado Ano Zero:
Rosto de Giz, em dezembro de 2006, com elaboração de painel sobre cartolina,
performances, a coreografia do Dragão feita pela bailarina Susana França, a
projeção do vídeo Mayã, de Cassiano Stahl, exposição de desenhos de Mayra
Martins Redin, distribuição de panfletos de criação coletiva (que foram sendo
dobrados de diversas maneiras ao longo da tarde) e queima de ervas e papéis com
nome dos conceitos estudados ao longo do semestre no saguão do quinto andar
da Faculdade de Educação. Os professores que davam aula naquela tarde foram
avisados do barulho, da fumaça, cheiros e demais intervenções que aconteceriam
no espaço ao longo de três horas seguidas. Alguns reservaram salas longe do
happening, outros terminaram suas aulas e passaram indiferentes. Os alunosparticipantes, quase mascarados, ficaram surpresos com a dificuldade dos
transeuntes em aceitar os panfletos distribuídos. Era surpreendente ver o elevador
abrir no quinto andar e, acredita-se que devido a fumaça, nenhuma pessoa sair,
embora este estivesse lotado. A relação com o espaço institucional, em especial
em função das pessoas que nele circulam, procura uma liberação de afetos que
jamais produzem indiferença. Essa intervenção no espaço podia ser sentida por
quem não a via. Os que podiam vê-la, em seu aspecto desestabilizador do espaço,
ocupado por ações, recitações e imagens que não pertenciam ao contexto, muitas
vezes evitam circular por ali. Talvez julgassem que o saguão estivesse ocupado e
não mais pertencesse ao público. Importa era que havia a sensação de que, fosse
por um pingo de tinta preta, pelos aromas estranhos, pelo homem de cartola, pelas
pessoas de preto mascaradas, alguma coisa poderia se contaminar.
Em função da receptividade do público, o evento seguinte foi fechado para
convidados especiais, que assinavam um contratoii ao entrarem na sala onde as
intervenções se deram. Pensado em função do término do Seminário Avançado
Vênus das peles: eficácia literária e pedagogia do contrato, em que estudamos a
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Reapresentação de Sacher-masoch de Gilles Deleuze, o evento foi denominado
Furs Meeting e a MATILHA contou com a participação dos alunos da disciplina
como anfitriões. Com a exibição de vídeos simultâneos e performances literárias
(leituras), esse evento envolveu a desestabilização da sala das defesas
acadêmicas e palestras. Envolvia radical transformação do espaço com
modificação da mobília e inserção de novos elementos (tapetes, toalhas, vidros,
aquários de gelo), transformação do temperatura (o uso do ar condicionado para a
ambientação de clima gelado para também dar sentido ao uso das peles),
apresentação de vídeos (televisão e telão simultâneos com imagens distintas),
sons,
performances
musicais,
oferecimentos
culinários
obtusos
e
jogos
estabelecidos pelo contrato assinado na porta. Embora a atividade fosse aberta ao
público, não houve maiores divulgações a fim de evitar que o número de pessoas
não excedesse a capacidade da sala. Desterritorializar o palquinho das defesas,
tirar o balcão da banca para fazer de bar, usar a mesa dos candidatos para
assinatura do contrato (perto da porta), empilhar todas as cadeiras com exceção
das poltronas da banca, que ficaram num cantinho com meia-luz, foi recriar o
espaço dos rituais acadêmicos, áridos, num ambiente uterino, sensual, provocador.
Os tapetes de pele foram dispostos no tablado de madeira onde normalmente é
situada a banca. Perto dos tapetes, ao lado do armário com a TV, foi colocado um
spot, a LUZ DA LEITURA, onde os participantes, mediante as regras do contrato,
cantaram e declamaram poemas. Além do contrato, circulou pela sala um caderno
intitulado Distrato, superfície de inscrições coletiva e desregulada. As beberagens
oferecidas foram dispostas em garrafas sem rótulos, com conteúdos diversos
(licores, sucos, chás, água, aguardente) de modo que quem se servia pela primeira
vez de uma garrafa, nunca tinha certeza do que iria beber. Não se tratava de matar
sede ou fome, mas estimular os sentidos SEM SACIAR. As pessoas se serviram
em copinhos de plástico transparente com os mais diversos formatos, dispostos,
junto com as garrafas e com castanhas em recipientes também transparentes,
sobre o balcão forrado com astracan, pele sintética, à esquerda da porta, de modo
que quem estivesse fora da sala não enxergasse essa mesa de oferecimentos. As
cadeiras pretas da audiência foram empilhadas de cinco em cinco e dispostas
formando um corredor entre a porta de entrada e o ambiente onde as cenas
transcorriam. Só poderia ver, beber e sentir a obra quem dentro dela penetrasse.
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Para o final dos seminários que versaram sobre as dissertações de
Nietzsche sobre a moral, planeja-se uma intervenção na ampla sala de aula
ocupada no primeiro semestre de 2008. Esse trabalho, ainda em fase de
elaboração, brincará com as máximas morais de O pequeno príncipe, de SaintExupéry, imagens ditas sacras e temas tomados como obscenos. O plano de uma
ponte entre as janelas do terceiro andar e a ágora em frente ao prédio será
apresentado, como possibilidade para futuras intervenções arquitetônicas,
instalações hiperbólicas no prédio moderno, de linhas retas e ângulos exatos da
Faculdade.
Liberação
Quando intencionamos liberar humores artísticos, não queremos libertar
nada, visto que ninguém é escravo dentro de uma instituição. Ninguém está preso,
qualquer um tem a liberdade para sair dela. Toda ação expressa vontades
deliberadas, que volvem forças instintivas onde, de praxe, instintos são
desmotivados a se colocar. Liberar, muito longe de libertar, não é soltar as
amarras, os liames institucionais que prendem professor e alunos, pesquisa e
pesquisadores, a linha nas suas produções. Liberar é ação volitiva dos corpos,
suas emissões, seus derramamentos, emanações. Os textos são liberações de
pensamentos. As pinturas, obras de arte, liberação de sensações. Pensamentos e
sensações consistem num plano de imanência no qual conceitos filosóficos
coadunam com os perceptosiii da arte. As liberações da MATILHA acontecem
também nos espaços onde atuam seus membros: escolas, ONGs, projetos,
exposições, palcos, sítios cibernéticos, eventos científicos. Na pesquisa da
coordenadora, Potências das Artes Visuais em Sala de Aula (relatório em fase de
conclusão), uma cartografia de projetos pedagógicos dos estágios docentes do
curso de Licenciatura em Educação Artística estende a liberação desses humores
em salas de aula das redes de Ensino em escolas da Grande Porto Alegre. Ao se
envolver com a criação de intervenções efêmeras em algumas escolas estaduais e
municipais e instalações permanentes no Colégio de Aplicação da UFRGS, essa
pesquisa aponta a necessidade da comunidade escolar, em especial o corpo
discente, intervir nos espaços de convívio, pensando as marcas que os corpos
inferem no patrimônio e definindo, a partir de estudos das Artes Visuais e da
Arquitetura, obras coletivas na instituição. Tal conclusão conduz a uma nova
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pesquisa, com projeto em fase de elaboração, denominada Artistagensiv do espaço
institucional. Trata-se de um mapeamento de obras de arte que interagem com
espaços institucionais diversos e público espontâneo para implantar uma
pesquisaZaçãov com intervenções artísticas coletivas. O campo planejado para as
primeiras ações é o Colégio de Aplicação. Os estudos iniciais apontarão projetos a
serem desenvolvidos junto à equipe de Artes Visuais, articulados com diagnósticos
e sugestões do serviço de Apoio Pedagógico, a fim de que alunos e professores
pensem, junto com artistas em formação, e transformem o espaço onde convivem,
a fim de efetivar uma apropriação estética do patrimônio que os pertence.
Uma ação de extensão, disparada pela obra Teia, rede de crochê que a
coordenadora tece desde 1995, também está sendo planejada. Serão Encontros
Fiandeiros, onde os participantes travam diálogos em torno de uma obra coletiva
produzida durante silêncios, audições e conversas com as linhas e agulhas que
trouxerem. Outras ações poderão vir. Novas ações poderão ser criadas. É preciso
vencer o cansaço para fazer as coisas acontecerem no tempo. Em ritmos e
materializações bastante variadas. O que vale é o movimento ativo, alegre, que faz
existir momentos de luminosidades e sonoridades aprazíveis, que potencializam o
organismo e as organizações e colocam a alma a dançar.
Humores artísticos
Essa animação do corpo, essa expressão daquilo que o atravessa, que se
interessante, por mais estranho e triste que seja, é o que entendemos por humor.
Fluxo que carrega as forças das quais um corpo padece, o humor é bem mais do
que os humores coléricos, sanguíneos, fleumáticos e melancólicos descritos pela
medicina medieval, os fluídos do corpo relacionados aos elementos, como teorizou
Empedócles. Conceito pré-socrático, o humor, a bile, coloca o estado transitório
dos órgãos, aquilo que neles é expelido em função daquilo que o corpo digere. Sua
existência, tipo, afecções, não passam de fruto do acaso. Da sorte dos alimentos
conseguidos, os humores exprimem a natureza dos encontros. Um determinado
humor expele a ação de um dado elemento. Ígneo, aquoso, aéreo ou telúrico, cada
humor mostra a qualidade de um devir. Cada tipo de humor é uma espécie de
corpo que move partes e pedaços, entes distintos que se deixam afetar entre si. O
que pode ser construtivo, desastroso ou somente artístico.
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Humor artístico é gozo. Mesmo na pressão agônica que obriga a produzir,
mesmo sob a má-digestão das grades de horário e agendas apertadas.
Enfrentando a necessidade de apresentar resultados, no dever cerceador exigido
pela máquina institucional, também é possível gozarmos da arte. Mesmo sem
possibilidade de fuga, o humor artístico traz lampejos criativos, potencializadores,
que dão gosto para a produção acadêmica. Além do padecimento que todo
trabalho traz, além da paixão que arrasta a pesquisa para campos que dela
prescindem, ama-se aquilo que somos capazes de produzir. Força que emerge
para um corpo provar aquilo que o faz vida, o humor não se separa do amor que
todo corpo vivo, cada qual da sua maneira, sente. É só pelo amor que um corpo
esvazia-se de seus significados: “é o amor, o amor extremo” (Barthes, 1984, p. 25).
Para Deleuze, são as decepções do amor que desenvolvem a arte. O amor
não é fácil e exige dos corpos força incansável. Precisa ultrapassar lassidões,
depressões e suplícios para extrair beleza das flechadas fatídicas que a vida traz.
É o punctum que nos fala Barthes (1984), não se trata de gosto, mas de amor, que
nos arrebata como um raio flutuante: “é certeiro e no entanto aterissa em uma zona
vaga de mim mesmo; é agudo e sufocado, grita em silêncio. Curiosa contradição: é
um raio que flutua” (p. 83). Sem amor, somos indiferentes, mortos. Morremos de
amorvi, por amores que valem o sacrifício das horas e o deixar-se atravessar até
por aquilo que pode ser suspeito. Quando se ama, nunca cansamos do que
amamos, por mais incertezas que esse amor ponha em nosso coração. Surto
epidêmico, visto que contagia todos que por ele são tocados, o amor pega. Todos
querem amar, mas poucos aceitam a dificuldade de entregar-se apaixonadamente,
sem trégua ou troca, sem ganhos, apenas a graça. Toda paixão amorosa conduz
ao humor artístico, fluxo onde as matérias se compõem de movimentos,
velocidades, variações, sem juízos, sem males.
O mal do amor acontece quando esse não trabalha o suficiente para virar
arte. Mas tal trabalho precisa de um tanto de insistência, a repetição que leva ao
mesmo, a mesma absurda situação, aquilo que absurdamente se repete, mesmo
no pior dos desconfortos, na dor que todo amor implica. Por mais difícil que seja,
por mais digno que seja um sentimento, quem ama se submete a fatos que a lógica
não apaixonada jamais consegue compreender. Amar torna-se completamente
ridículo. Somente um humor masoquista, com seus escravos patéticos, ironiza a
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irracionalidade bestial do desespero que as dores de amor são capazes de
provocar. Os humores fazem o amor.
Hoje, o senso comum entende que humor seja a capacidade de produzir
riso. A maneira como se provoca alegria não é importante, o que vale são risos,
genuínos e incontrolados, que se tornar ciente do absurdo dá. Rir é entrar na
consciência idiota do nonsense, na falta de tino que certas vivências dos fatos
trazem. Por essa possibilidade do humor como fluxo vivo da falta de sentido, que o
MATILHA procura os métodos patafísicosvii, a anarquia coroada de Artaudviii, assim
como as experimentações dadaístas que deram propulsão à arte contemporânea.
O contemporâneo é fato. Viver neste fato, viver com este fado é afirmar a
vida como ela é. As produções que do contemporâneo advém manifestam a falta
de sentindo da existência, mas, como afirmou Nietzsche, de nada adianta negar a
vida que temos em nome de um ideal. A potência está justamente em aceitar a
existência em todas as suas formas, fazendo do fardo, dos fados, faires, criação.
Viver o contemporâneo buscando afirmar os humores artísticos que impulsionam o
MATILHA é resistir ao cansaço, a falta de inspiração e as pressões institucionais.
Isso tudo para que a tensão vire entrega extasiada capaz de superar os entraves
que impedem corpos acadêmicos produzirem de maneira apaixonada.
i
O termo happening, enquanto categoria artística, foi usado pela primeira vez pelo artista Allan Kaprow, em
1959. Tem como propósito o acontecimento, événement, que leva a arte para além das telas, museus e
espaços culturalmente legitimidados. Acontece em ambientes diversos não preparados previamente para seu
fim. Além de lidar com as imprevisibilidades, os happenings envolvem a participação do público, direta ou
indiretamente.
ii
CONTRATO PARA ENCONTRO DE PELES: Convidados especiais, por sua palavra de honra, interam o
desejo de participar deste encontro de livre vontade para gozar dos atos estéticos e formais aqui expressos.
Em concordância, devem esperar as ações dos anfitriões sem reclamação ou dolo, aproveitando o que esses
oferecem como melhor os aprouver. Comprometem-se, para tanto, suspender e suprimir palmas e movimentos
no espaço, gestos e falas sempre que um anfitrião ou seus convidados colocarem-se oralmente ou
corporalmente no foco da luz localizada perto das peles. Cada negligência desse compromisso, colocada em
ações de anfitriões e convidados contra o perfeito transcorrer de audições, performances e outros atos sob a
luz, são passíveis de sanção. Entre os anfitriões estão permitidos acordos de um para outro, tratados a cada
situação particular. É permitido ao anfitrião afrontado e seus convidados particulares punirem convidados e
anfitriões infratores de acordo com a natureza de seu crime. Ao mexer-se pela sala durante uma execução sob
a luz do ato: banco humano, pelo tempo e no local designados pelo punidor, proprietário que permite ou proíbe
quem nele pode sentar. Ao gesticular, terá suas mãos amarradas pelo punidor ou carrasco por ele designado,
durante o tempo que o punidor mandar. Ao falar, o punidor ou carrasco por esse escolhido, amarra um lenço
em sua boca, ficando amordaçado pelo tempo que a punição exigir. A qualquer outra atitude julgada
perturbadora caberá ao anfitrião, ou convidado por ele designados, fazer valer uma sanção: fingir-se de
cachorro ou urso, atrelar as pernas nas mãos do carrasco para ser feito carrinho etc. A cada risada que um
anfitrião ou, convidado em particular, julgar inconveniente terão estes o direito de aplicar, naquele incapaz de
controlar o riso, uma chibatada. Esse contrato será extinto ao término desse encontro, na noite de terça-feira,
dez de julho de 2007, Faculdade de Educação da UFRGS, cidade de Porto Alegre. Assino, em confirmação:
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iii
Para Deleuze e Guattari, Em O que é a filosofia?, os perceptos, são sensações produzidas pela arte,
percepções intensas que se sustentam por si mesmas e que são anteriores ao homem, ou seja, são devires
incorporais que se desenrolam num plano virtual de composição.
iv
Termo criado por Sandra Corazza (2002) para dizer da criação enquanto potencialidade para uma escrita em
Educação que se quer nova. Para artistar a escrita é necessário que bebamos de fontes vivas e que tomemos
partido contra escritas acostumadas e redentoras, indo em busca de uma maquinação que quer ser produtiva e
não expressiva ou representativa, maquinação que persegue a invenção.
v
A grafia com Z para designar esse tipo de pesquisa expressa os ziguezagues apreciados por Deleuze, o
“´zzzzz´ da mosca” e os devires imperceptíveis dos insetos. O Z é o traçado linear cheio de irregularidades do
raio, chispa vivificante que corta a superfície escura do ainda indiferenciado, onde aparece como marca de
diferenciação. Ao contrário do que a pesquisa-ação apontava, a pesquiZação não tem nenhum caráter
militante, não configura uma ação informativa e conscientizadora, tampouco propõe modelos de eficiência. A
pesquiZação ocupa-se com a deliberação de funções que não se estruturam na elucidação de objetivos, e sim
nas tramas subjetivas do campo que analisa.
vi
Como no conto “A noite” de Guy de Maupassant (2004) onde o personagem-narrador caminha pela noite,
apaixonado por ela, mas, de repente, começa a se perder pelas ruas e pelos trajetos tão bem conhecidos por
ele e já não encontra mais as antigas referências que o faziam percorrer com tranqüilidade aquele caminho.
Ele vai dizer então: “Aquilo que amamos com violência acaba sempre nos matando” (p. 03).
vii
Inventada por Alfred Jarry, a patafísica é uma ciência que estuda a exceção, a diferença, o Fora. O Colégio
Patafísico, criado em 1948, surge como uma sociedade douta que se afirma inútil ao dedicar-se a soluções
sempre imaginárias.
viii
A anarquia coroada surge no texto de Artaud sobre o imperador romano Heliogábalo. Deleuze explora esse
paradoxo para afirmar em sua obra filosófica o que Artaud mostra como “imensa febre de espírito” sedenta por
emoções, “movimentos, deslocamentos, dominada por um amor pela metamorfose, a qualquer preço e
qualquer risco” (1983).
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Referências bibliográficas
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Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de
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Civilização Brasileira, 1998.
______. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Trad. Paulo César de
Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
______. Aurora. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
______. Genealogia da moral: uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998.
______. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César de
Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
______. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Trad. J. Guinsburg. São
Paulo: Companhia das Letras, 1992.
REDIN. Mayra Martins. Impressões, anotações e distrações. Porto Alegre:
UFRGS/FACED. Proposta Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008.
ZORDAN, Paola. Arte com Nietzsche e Deleuze. Educação & Realidade. Porto Alegre,
jul/dez 2005, vol. 30, no 2, p.261-272.
REDIN, Mayra; STAHL Cassiano; ZORDAN, Paola. PesquiZação no ensino das Artes
Visuais. V Congresso Internacional de Educação – Pedagogia (entre) lugares e saberes.
Programa de Pós Graduação em Educação da UNISINOS. Integrante do Simpósio
temático: Currículo, cultura e Identidade Institucional. De 20 a 22 de agosto de 2007, na
UNISINOS, em São Leopoldo/RS. CD-ROM.
Currículos Resumidos:
Paola Zordan é bacharel em Desenho e Licenciada em Artes Plásticas, Mestre e Doutora em
Educação pela UFRGS, membro do grupo DIF: artistagens, fabulações e variações ligado ao
Departamento de Ensino e Currículo e Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS,
onde leciona.
2025
17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas
Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis
Mayra Martins: Psicóloga pela UNISINOS; Estudante de Graduação do curso de Artes Visuais da
UFRGS, Mestranda em Educação também pela UFRGS na linha de pesquisa Filosofias da
Diferença e Educação, integrante do coletivo MATILHA. Participou de exposições coletivas, sendo
selecionada para o 19o Salão Jovem Artista 2006 com a fotografia “Tenso”. Participa do grupo de
intervenções “Música de Nanquim”.
2026
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Liberação de humores artísticos: paixões da diferença Movimento