ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 DANÇA E EDUCAÇÃO: A EXPERIÊNCIA EM DANÇA NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO DE SENSIBILIDADE Barbara Muglia Rodrigues (USP) Barbara Muglia Rodrigues. Aprovada no mestrado em Educação (FE/USP). É bacharel e licenciada em Educação Física pela Universidade de São Paulo – USP e foi bolsista da PRCEU-USP durante dois anos com os projetos: “Liberte sua Dança: O corpo expressivo do adolescente no contexto da escola estadual de ensino médio” e “A corporeidade e suas expressões: as múltiplas faces de um corpo”. Formada em Ballet Clássico, Dança Moderna e Contemporânea no Ballet Natura Essência (Santos/SP). Atualmente, coordena o Núcleo de Dança do Laboratório Experimental de Arte-Educação & Cultura (FE/USP) e integra o Grupo de Estudos Gesto, Expressão e Educação (FE/USP), onde investiga acerca das experiências artístico-corporais. E-mail: [email protected] Resumo O presente trabalho apresenta um referencial teórico-metodológico possível para o estudo das experiências em dança na perspectiva de uma educação de sensibilidade, composto por obras de autores como: Maurice Merleau-Ponty, Michel Maffesoli, Edgar Morin, Humberto Maturana, Rogério de Almeida e Marcos Ferreira Santos, Jorge de Albuquerque Vieira, Christine Greiner, Helena Katz e Jussara Setenta. A partir das leituras, compreendemos arte, ciência e filosofia como formas complementares de conhecimento que nos permitem compreender os fenômenos relativos à vida. Nesse sentido, procurar-se-á refletir e aprofundar a discussão acerca do corpo e das experiências em dança sob o olhar da educação de sensibilidade, enquanto uma visão de educação que transcende a noção de escolarização e que vai discutir a formação humana como fenômeno complexo que percebe uma razão sensível inerente à experiência do viver que precisa ser mais valorizada enquanto fenômeno educativo. Palavras-chave: Dança, Educação, Educação de sensibilidade DANCE AND EDUCATION: THE EXPERIENCE OF DANCE FROM THE PERSPECTIVE OF EDUCATION OF SENSIBILITY Abstract The aim of this research is to present a possible theoretical-metodological references to study the experiences of dance from the perspective of education of sensibility. This references consist of authors such as: Maurice Merleau-Ponty, Michel Maffesoli, Edgar Morin, Humberto Maturana, Rogério de Almeida e Marcos Ferreira Santos, Jorge de Albuquerque Vieira, Christine Greiner, Helena Katz, and Jussara Setenta. By taking those authors as references, we recognize art, science and philosophy as complementary forms of knowledge which let us understand the phenomena related to life. In this sense, the focus of our reflection will rest on the discussion regarding the body and the experiences of dance from the point of view of education of sensibility, as an approach of education which transcends the notion of schooling and which will http://portalanda.org.br/index.php/anais 1 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 discuss the human development as a complex phenomenon which perceives a sensible rationality inherent in the experience of life, which needs to be more valued as an educational phenomenon. Keywords: Dance, Education, Education of sensibility. Introdução Empiricamente, é possível perceber um aumento significativo na busca por atividades em que o foco esteja sobre as experiências corporais em artes, jogos, esportes, lutas, ginásticas, tanto na formação de professores quanto em comunidades específicas com as quais pude estagiar ou realizar projetos como escolas públicas e privadas e instituições de educação informal que ofertam essas atividades a comunidades com vulnerabilidade social. Uma simples pesquisa na internet em sites de escolas e ONGs, projetos sociais e outras instituições de ensino informal nos mostrarão a enorme quantidade de discursos e slogans representando o objetivo final de suas atividades educativas – “educação para a cidadania”, “educação para a inclusão”, “educação para a terra”, “educação para crescer”, “educação para a ciência”, “educação para o trabalho”, etc. – ou ainda demonstrando os meios pelos quais se quer “adquirir” educação – “educação pela arte”, “educação pelo esporte”, “educação pela dança”, “educação pelo teatro”, “educação pelo cinema”, entre outros. Essa visão utilitária tanto da educação quanto da arte, do esporte, da dança, do teatro e do cinema, por exemplo, é reforçada cada vez mais pelo paradigma clássico (cartesiano) de conhecimento e educação que ainda é bastante presente nas práticas educativas e reforçado, inclusive, pela legislação vigente (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 1). As diversas frentes teórico-filosóficas contemporâneas apresentam ideias como a “complexidade” (Edgar Morin), o “saber da experiência” (Jorge Larrosa Bondía), a “razão sensível” (Michel Maffesoli), a ciência como invenção e criação (Boaventura de Souza Santos), a corporeidade (Maurice Merleau-Ponty), a fenomenologia como forma de olhar as coisas tal como elas são (Merleau-Ponty, Gaston Bachelard e Michel Maffesoli) e, com elas, vêm inspirando muitos estudos nas mais diversas áreas acadêmicas. Apesar disso, o paradigma cartesiano ainda paira sobre nós. 1 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm. Acessado em 25 de março de 2012. http://portalanda.org.br/index.php/anais 2 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Há uma enorme dificuldade em se construir processos de formação cuja ruptura entre poesia e ciência, sujeito e objeto, sujeito e corpo, teoria e prática não se faça presente nem se cristalize como única forma de leitura de mundo, pois é assim que aprendemos a pensar no decorrer de nossas vidas, deixando de lado uma forma de saber que é inerente à experiência e que é valiosíssimo, mas muito pouco valorizado e incentivado em todos os âmbitos de formação, e incluo aqui a família. Bondía (2002) explica que este saber da experiência não é aquele que surge quando se passa a estar informado de algo, mas aquele que se constrói quando algo nos toca e nos acontece. É preciso valorizar as experiências vividas como processos formativos e compreender que experiência e educação (processo de formação humana) só o são se unidos em complementaridade no âmbito da vida. Portanto, espera-se, com o trabalho contribuir para maior compreensão acerca das experiências em dança enquanto momentos de formação, no sentido de que toda experiência apresenta essa possibilidade. No caso das experiências artísticas relacionadas à dança, refletiremos sobre as possibilidades de formação sensível, propulsionando a apreensão do corpo-sujeito (MERLEAU-PONTY, 2011) que somos, eternamente incompletos e em formação durante toda a vida. Referenciais teórico-metodológicos O filósofo Edgar Morin (1999) explica que o paradigma “clássico” de ciência, predominante na modernidade, “é um paradigma de simplificação” (p.329) que se caracteriza por princípios como o de generalidade, de redução e de separação. Já o paradigma de complexidade aponta para um conjunto de princípios de inteligibilidade que poderiam determinar condições de uma “visão complexa de universo” por estarem sempre “ligados uns aos outros”. Assim sendo, sem que haja uma mudança paradigmática, não é possível voltar o olhar de forma complexa para a dança, compreendendo a ligação entre arte-ciência e experiência-conhecimento como possíveis. Fazendo esse movimento de união de noções aparentemente divergentes e separadas, o autor explica que “a teoria não é nada sem o método, a teoria quase se confunde com o método ou, melhor, teoria e método são os dois componentes indispensáveis do conhecimento complexo” (p.337). A partir dessas ideias, apresentaremos um referencial teórico-metodológico que permite olhar para a dança sem determinar um único método e princípio de http://portalanda.org.br/index.php/anais 3 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 organização e compreensão, mas buscando a superação dos, comumente encontrados, limites na realização de pesquisas orientadas pelo pensamento científico moderno. Essa posição considera que o sujeito-pesquisador participa e se relaciona com seu(s) objeto(s) de estudo, entendendo o conhecimento como organização e o método como “emprego das qualidades do sujeito” (MORIN, 1999; p.338). As artes do corpo e as experiências artístico-corporais Não é ao objeto físico que o corpo pode ser comparado, mas antes à obra de arte. Maurice Merleau-Ponty O termo e área acadêmica “artes do corpo” surgiu oficialmente em 1999 com a criação do curso de graduação Comunicação das Artes do Corpo, do Departamento de Linguagens do Corpo da Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP, o qual busca um tratamento interdisciplinar e intersemiótico às artes contemporâneas, principalmente àquelas propostas que possuem o corpo como obra de arte. O curso possui corpo docente formado por doutores, em maioria, com estudos na área de Comunicação e Semiótica da própria PUC/SP e, entre os autores e obras que são referências na área estão: Katz e Greiner (2004), Greiner (2005), Vieira (2008) e Setenta (2008). É possível perceber em escritos dos autores acima citados uma compreensão de corpo como sede do ato de comunicação. Considera-se que o corpo não é um depósito de informações ou ainda um lugar pelo qual as informações passam num movimento de recepção e transmissão de informação, mas um organizador de suas mediações e relações com o mundo, onde opera tanto a regularidade quanto o acaso (SETENTA, 2008). O corpo é visto como estado provisório, produtor de signos e significados, enunciando e interpretando todo o tempo num permanente fluxo de transformação. Nesse sentido, o corpo se torna “mídia de si mesmo” (GREINER, 2005, p.131). Maurice Merlau-Ponty (2011), por um viés fenomenológico, traz uma valiosa contribuição aos estudos sobre corpo fazendo uma crítica à visão de corpoobjeto – que vê o corpo como uma máquina comandada por um espírito ou alma – e introduzindo a noção de corpo-sujeito, sob a perspectiva da corporeidade, do corpo em http://portalanda.org.br/index.php/anais 4 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 movimento. Diz o filósofo que, não possuímos um corpo como se este fosse objeto para um pensar, para um agir através dele, como se pensássemos com uma mentalidade/espírito que está inserida numa máquina que se move de acordo com seus comandos, somos um espírito com um corpo no espaço. A experiência revela sob o espaço objetivo, no qual finalmente o corpo toma lugar, uma espacialidade primordial da qual a primeira é apenas invólucro e que se confunde com o próprio ser do corpo. Ser corpo (...) é estar atado a um certo mundo, e nosso corpo não está primeiramente no espaço: ele é no espaço. (p.205) Mas eu não estou diante de meu corpo, estou em meu corpo, ou antes sou meu corpo. (p.207) Jorge Larrosa Bondía (2002), a partir de uma pesquisa etimológica do palavra experiência em vários idiomas, explica que ela pode ser definida como aquilo “que nos passa, que nos acontece, que nos toca”. Impulsionados pelo estudo de Bondía, podemos dizer que o sujeito da experiência se aproximaria de algo como um “território de passagem”, “ponto de chegada” e “espaço onde têm lugar os acontecimentos”, simultaneamente. Dessa forma, podemos pensar nas experiências como aquilo que nos toca enquanto seres que somos corpo e, por assim sê-lo, ele se confunde com as nossas próprias experiências. Nesse sentido, se toda experiência humana é corporal, como definir – a princípio – o que estamos chamando de “experiências corporais”, ou melhor, “experiências artístico-corporais”? Na epígrafe desta introdução, vemos Merleau-Ponty afirmando o corpo como obra de arte, ao invés de objeto físico, pois entende as diversas formas artísticas – desde o romance e o poema até um quadro e uma peça musical – como indivíduos, seres em que a expressão e o expresso são indistinguíveis, possuindo um sentido somente acessível através de contato direto e uma significação irradiada a partir do não abandono de seu lugar temporal e espacial. O corpo “é um nó de significações vivas e não a lei de um certo número de termos co-variantes” (p.210); sua linguagem é sensível e poética. Gaston Bachelard, em a Poética do Espaço (1993), explica que “a poesia é um compromisso da alma” e que “numa imagem poética a alma afirma sua presença” 2 (p.6). Desse modo, compreendemos a poiesis (criação, ação, construção) 2 Apesar de falar em alma, é importante ressaltar que o filósofo não entende alma e corpo separadamente, mas em sinergia o tempo todo. http://portalanda.org.br/index.php/anais 5 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 de imagens poéticas como ato de linguagem que ressoa e repercute em sentimentos e emoções que se enraízam em nó, sendo a nossa expressão aquilo nos torna nós mesmos, ou seja, “a expressão cria o ser” (p.8). Por esse caminho, podemos considerar experiências artísticas aquelas imersas em momentos de poiesis de imagens poéticas, construindo um corpo poético, cuja linguagem é poética. No caso das experiências em dança, assim como no teatro e na performance, elas surgem, especificamente, no corpo-sujeito e nele se manifestam, transformando a si mesmo em obra artística., sendo impossível a contemplação da obra por outrem senão no tempo-espaço em que as experiências acontecem para o artista-criador. O corpo se torna protagonista da obra tanto como artista-criador, quanto como obra artística em construção ou final. Vivemos um momento em que a definição de estilos artísticos têm se tornado cada vez mais fluida, com elementos estéticos que se mesclam entre si, rompendo barreiras entre cada um. Portanto, encontramos bastantes dificuldades em observar e analisar uma obra e dizer: “Isto é teatro!”; “Isto é dança!”; “Isto é performance!”; “Isto é arte visual!” e, assim, nos deparamos com uma pergunta muito semelhante àquela que foi o pivô de discussões e embates teóricos no campo da filosofia da arte: “O que é arte e o que não é?”. Compartilho, neste trabalho, da visão de Morriz Weitz (1956) quando ele, apesar de considerar a existência de inúmeras teorias da arte, afirma que nenhuma dessas teorias dá conta de apresentar critérios que categorizem o que é e o que não é arte e, a partir desse referencial, usando sua própria expressão, Weitz “advoga” uma rejeição desse problema, visto que a busca por um conjunto de propriedades, características, encontraria uma incoerência que limitaria a própria definição de que só se faz arte com liberdade de criação. Assim, embora compreendamos que arte é algo, a princípio, desprovido de limites, as definições de estilos artísticos serve meramente para conglomerarmos obras que possuem elementos estéticos semelhantes numa “unidade” comum, a partir da qual se possa pensá-las e estudá-las mais aprofundadamente, não as isolando de uma noção de arte e de dança que extrapola qualquer tentativa de definição por meio de palavras. Estamos tratando de uma possibilidade criativa humana que, apesar de ser intraduzível, diz e enuncia algo que remete à sensibilidade, a uma razão sensível inerente à experiência do viver. http://portalanda.org.br/index.php/anais 6 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Mas, afinal, de que educação estamos falando? Ainda hoje, quando se fala em educação, logo se pensa em ciclos de escolarização, nas péssimas condições que professoras e professores enfrentam em seus cotidianos, na porcentagem ideal do PIB que deve ser dedicada à educação, no vestibular, na necessidade da formação de cidadãs e cidadãos preparados para o exercício da cidadania e qualificados para o mundo do trabalho. A legislação aponta que “a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” e que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Constituição de 1988 3). Notemos que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 4) e muitos dos discursos idológicos contemporâneos (MATURANA, 2002; FETIZÓN, 2002; BONDÍA, 2003; ALMEIDA & FERREIRA SANTOS, 2011) apresentam uma noção de educação que transcende os processos de escolarização e acontece na convivência humana. No entanto, a mesma legislação ainda reproduz uma postura que reforça cada vez mais as práticas educativas calcadas numa perspectiva instrumental, utilitarista e pragmática de educação voltada enfaticamente ao desenvolvimento de habilidades e competências e no acúmulo de conhecimento. Nesse sentido, se perde a ideia fundamental e primeira de educação que vem do latim educere (ex-ducere), ou seja, conduzir ou levar para fora, para o exterior, trazer à tona, ajudar a parir algo de mais profundo, interno e específico das pessoas, algo que caracteriza, como explicam Ferreira-Santos & Almeida (2011), uma “humanidade potencial” (humanitas) que há nelas, aquilo que mais nos diferencia uns dos outros, mas que nos torna uma unidade comum: a nossa singularidade. A partir dessa perspectiva, não é possível uma educação que seja meio para finalidades instrumentais como as citadas anteriormente, mas aquela cujo fim está em 3 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm. Acessado em 23 de fevereiro de 2012. 4 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm. Acessado em 23 de fevereiro de 2012. http://portalanda.org.br/index.php/anais 7 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 si mesma, em promover, baseados nas ideias da educadora e filósofa Beatriz Fetizón (2002), a autoconstrução da humanidade das pessoas e das suas individualidades num educar, o qual Humberto Maturana (2002) define que se constitui na convivência com o outro e se transforma espontaneamente de maneira recíproca. Essa noção de educação é iluminada pela lógica de um paradigma emergente de ciência e saber que repensa o lugar da razão como único acesso ao conhecimento. (...) ao nos declararmos seres racionais vivemos uma cultura que desvaloriza as emoções, e não vemos o entrelaçamento cotidiano entre razão e emoção, que constitui nosso viver humano, e não nos damos conta de que todo sistema racional tem um fundamento emocional. (MATURANA, 2002, p. 15) Humberto Maturana, a partir de sua perspectiva biológica, explica que as emoções são responsáveis por estabelecer uma ação humana como tal e torná-la possível enquanto ato, ou seja, toda ação implica o desejar, o querer; se encontramos limitações que nos impedem de fazer algo, elas estão na impossibilidade do desejo de realizar essa ação e não nos argumentos que se organizam como justificativas racionais para não fazê-lo. Dessa forma, podemos entender a emoção como base biológica que instaura a ética, o modo de ser humano, não a apartando de uma noção de educação que se faz na convivência por meio das relações e o tempo todo. O pensamento complexo de Edgar Morin (1999) traz uma noção de totalidade aberta e de complexidade enquanto aquilo que é tecido em conjunto, sendo o total diferente da soma das partes; sendo o homem, por exemplo, não a soma de natureza e cultura, mas 100% natureza e 100% cultura e o conhecimento, não limitado pela razão e pela ciência, mas espargido também na literatura, na poesia, nas artes. A partir do paradigma da complexidade (MORIN, 2006), entende-se que o conhecimento não está limitado à ciência e que há um conhecimento profundo em cada obra de arte expresso em linguagens bastante particulares. Encontramos, com certo destaque, permeando essas linguagens, o ato criativo, presente em toda leitura de textos escritos, pintados, esculpidos, montados, coreografados, encenados, etc. Severino Antônio (2002), falando de poemas, explica que a ler é reescrever e que a leitura é cocriação e invenção, visto que, no ato de ler, se cria novos caminhos para o poema, os quais, muitas vezes, não foram previstos pelo poeta. Enquanto isso, num sentido bastante semelhante, Boaventura de Sousa Santos (1988) afirma que todo conhecimento científico é uma forma de autoconhecimento, pois o objeto estudado não passa de uma http://portalanda.org.br/index.php/anais 8 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 continuação do sujeito por outros caminhos, assim, “a ciência não descobre, cria” (p.67). Portanto, ciência e arte são formas de conhecimento eminentemente criativas que expressam formas de leitura e compreensão do mundo e da vida, de maneira que não faz sentido se distinguir arte de ciência e vice-versa. Morin (1999) considera que a condição humana extrapola a noção de sapiens e compreende que somos duplos, contraditórios, com polaridades antagônicas e complementares. Com isso, “o homo sapiens reintegra-se à sua parcela demens e, na constatação dos limites da razão, redescobre a sensibilidade como vetor de conhecimento”, como percebem Almeida & Ferreira-Santos (2011, p.184). O sociólogo Michel Maffesoli (1998) traz uma compreensão convergente nas noções de “sensibilidade intelectual” e de “razão sensível”, as quais permitem a compreensão da relação e vínculo entre o entendimento e as sensações, não havendo distinção entre o intelectual e o sensível, o corporal e o espiritual, a natureza e a cultura e sim os entrelaçamentos entre si, inseparáveis que são. (...) o sensível não é mais um fator secundário na construção da realidade social. Numerosos são os indícios que, ao contrário, acentuam seu aspecto essencial. O sensível não é apenas um momento que se poderia ou deveria superar, no quadro de um saber que progressivamente se depura. É preciso considerá-lo como elemento central no ato do conhecimento. (MAFFESOLI, 1998, p.189) Maffesoli aponta o sensível como aspecto essencial da realidade social, assumindo uma “dialética entre o conhecimento e a experiência dos sentidos” (p.192), de forma que o mundo da experiência vivida seja o da interação simbólica e o intelectual encontre um modus operandi que permita transcender da abstração para a imaginação e o sentimento, aliando o inteligível ao sensível e integrando a experiência sensível espontânea. Desse modo, encontramos um sentido para o processo educativo que está no contexto da vida, da experiência, daquilo que se passa conosco e que se internaliza espontaneamente com o viver, que valoriza a criatividade e a expressão do sensível, não negando a razão, mas visualizando-a como uma das potencialidades humanas. Esta noção de educação sensível é que chamamos de “educação de sensibilidade”. É importante ressaltar aqui que não podemos compreendê-la como uma receita a ser reproduzida, nem como um processo único pelo qual todos devemos passar, mas http://portalanda.org.br/index.php/anais 9 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 como inúmeros processos singulares repletos de momentos complexos, contraditórios, antagônicos e complementares. A fenomenologia como um olhar possível para a dança. Maurice Merleau-Ponty e Michel Maffesoli nos ajudarão a compreender e agregar elementos fenomenológicos que nos auxiliarão embasando, tanto a observação, quanto o ato de descrição. Por esses autores, a fenomenologia é vista enquanto uma filosofia que busca descrever a experiência tal como ela é, sem explicações causais ou gnosiológicas. Dessa forma, poderemos estudar as experiências em dança a partir da busca de sua essência. A fenomenologia é o estudo das essências, e todos os problemas, segundo ela, resumem-se a definir as essências (...). Mas a fenomenologia é também uma filosofia que repõe as essências na existência. (MERLEAU-PONTY, 2011; p.1) Maffesoli (1998) apresenta como possibilidades heurísticas de investigação e análise três instrumentos: a descrição, a intuição e a metáfora. O autor explica que a descrição busca dar conta da interelação entre diversos elementos (que podem ser até contraditórios e antagônicos), visto que, “pondo em jogo metáforas, analogias, poderá ser um vetor de conhecimento” (p.128). A intuição é vista como forma de apreensão do “retorno da experiência cotidiana” (p.147), com a qual se coloca em jogo uma “visão central” que está profundamente enraizada na própria coisa, nutrindo-se e, portanto, dela fruindo. Maffesoli explica que “a intuição está no oposto do sistema conceptual que se apropria das coisas a partir do exterior” (p.135). A metáfora, segundo ele, “contentando-se com descrever, ela auxilia a compreensão sem, por isso, pretender à explicação. (...) A metáfora não indica, de maneira inequívoca, qual é o sentido das coisas, mas pode ajudar a perceber suas significações” (p.148). Nesse sentido, é possível trazer à tona toda a amplitude dos fenômenos, permitindo pensar e elaborar uma razão sensível. http://portalanda.org.br/index.php/anais 10 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Considerações finais O II Congresso Nacional de Pesquisadores em Dança discutirá teorias do corpodança. Observando o título e o cenário contemporâneo da dança no Brasil, podemos perceber que a dança, enquanto área acadêmica na busca por maior reconhecimento e compreensão de sua identidade, vive um intenso processo de reflexão sobre si e (re)construção de sua epistemologia, estudando e buscando embasamento nas mais diversas áreas do conhecimento. O presente trabalho buscou apresentar o referencial teórico-metodológico da educação de sensibilidades, muito estudada na Faculdade de Educação da USP, como uma das possibilidades de se olhar para a dança como linguagem artística e promissora área do conhecimento. Cabe ressaltar que o fato de utilizarmos um referencial advindo da Educação, não significa que só falamos dos processos criativos acontecidos dentro da escola regular, de escolas de dança, centros artísticos e outros inúmeros lugares possíveis de se “experienciar” a dança. Ao contrário disso, ao compreender que a educação acontece na convivência humana, entendemos que todas as relações e experiências humanas que vivemos participam ativamente do processo formativo de nosso “humanitas”. Assim, o olhar para a dança e suas experiências a partir do pensamento complexo, da razão sensível, da educação de sensibilidade, da fenomenologia como método de pesquisa possível é pertinente tanto para os pesquisadores em dança, quanto para a professora e o professor, o coreógrafo, o bailarino, o ator, até mesmo para se compreender a relação e os processos criativos do artista e do público que interage com as obras. Dessa forma, espera-se poder contribuir para as discussões e reflexões do II Congresso Nacional de Pesquisadores em Dança, participando, criando, ampliando e questionando os rumos da dança enquanto área de pesquisas acadêmicas e coreográficas ou tudo junto e misturado num sistema bastante complexo, como o é. Referências ANTÔNIO, Severino. A utopia da palavra: linguagem, poesia e educação: algumas travessias. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. ALMEIDA, Rogério de; FERREIRA-SANTOS, Marcos. Antropolíticas da Educação. 1ª ed. São Paulo: Képos, 2011. http://portalanda.org.br/index.php/anais 11 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi; revisão da tradução: Rosemary Costhek Abílio. São Paulo:Martins Fontes, 1993. BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre o saber e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, Abr 2002, n.19, p.20-28. GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos (in)disciplinares. São Paulo: Annablume, 2005. FETIZÓN, Beatriz. Sombra e Luz: o tempo habitado. São Paulo: Editora Zouk, 2002. KATZ, Helena; GREINER, Chistine. Corpomídia: a questão epistemológica do corpo na área de comunicação. Revista Húmus, n.1. Caxias do Sul: Secretaria Municipal de Cultura, 2004. MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Tradução de Albert Christophe Migueis Stuckenbruck. Petrópolis:Vozes, 1998. MATURANA R., Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Tradução de José Fernando Campos Fortes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 4ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011. MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. - Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1999. _____________. Introdução ao pensamento complexo. Tradução de Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2006. WEITZ, Morris. The Role of Theory in Aesthetics. Journal of Aesthetics and Art Criticism, v.15, n.1, p.27-35, 1956. SETENTA, Jussara Sobreira. O fazer-dizer do corpo: dança e performatividade. Salvador: EDUFBA, 2008. SOUZA SANTOS, Boaventura. Um Discurso sobre as Ciências na Transição para uma Ciência Pós-Moderna. São Paulo: Revista Estudos Avançados, USP, v.2, n.2, p.44-71, 1988. VIEIRA, Jorge de Albuquerque. Teoria do Conhecimento e Arte: formas de conhecimento – arte e ciência: uma visão a partir da complexidade. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2008. http://portalanda.org.br/index.php/anais 12