48 ANO VIII / Nº 14 Fortaleza de Santo Antônio de Ratones PAULO ROBERTO RODRIGUES TEIXEIRA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Fortaleza de Ratones, como popularmente ficou conhecida, era um dos vértices do triângulo de segurança que protegia a baía de Santa Catarina, contra a ameaça espanhola. Contaremos, nesta reportagem, a sua história, características e peculiaridades, desde a sua construção, em 1744, até os dias atuais FOTO: ALBERTO BARCKERT | ACERVO: WWW.FORTALEZASMULTIMIDIA.COM.BR ANO VIII / Nº 14 49 Planta da Fortaleza de Ratones (à direita), de autoria do Engenheiro Militar José Custódio de Sá e Faria, em 1764. A reação da Espanha foi imediata. A Colônia sofreu vários ataques oriundos de Buenos Aires. O suporte logístico provinha do Rio de Janeiro. Era muito difícil mantê-lo, principalmente depois que os espanhóis apoderaram-se de Montevidéu. Os portugueses tentaram, então, restabelecer seu domínio, contudo, não conseguiram. A Ilha de Santa Catarina, estrategicamente, oferecia excelentes condições para ser transformada em uma base naval, militar e logística. Era preciso fortificá-la. Em 1738, foi criado o Governo militar de Santa Catarina, desvinculando a região de São Paulo e subordinando-a ao Rio de Janeiro. O primeiro governador nomeado, em 1739, foi o Brigadeiro 50 FOTO: ALBERTO BARCKERT ACERVO DO ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO – RJ A A história registra que, no ano de 1680, Portugal fundou a Colônia do Sacramento, atual República do Uruguai, em frente a Buenos Aires. O objetivo econômico era partilhar as riquezas que se encontravam na Bacia do Rio da Prata, dali, destinavam-se à Espanha. Por outro lado, havia, também, a visão geopolítica, cujo interesse era assegurar e apoiar a integração, por água, do centro do poder do Brasil Colônia com o Mato Grosso, atingido pelos bandeirantes paulistas, no período da união das coroas de Portugal e Espanha, de 1580 a 1640. José da Silva Paes, hoje considerado o fundador do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Silva Paes transferiu o Governo de Laguna para a ilha, transformando-a em centro da vida catarinense. Erigiu uma igreja, dotando-a de repartições civis, e criou um regimento de Infantaria, entre outras benfeitorias. No período de 1739 a 1741, construiu quatro fortalezas com o intuito de transformar a ilha em poderosa base portuguesa.Com as de São José da ANO VIII / Nº 14 Ponta Grossa, Santa Cruz e Santo Antônio, fechouse a entrada da Baía Norte, um triângulo de defesa para impedir o acesso dos navios estrangeiros. No sul da ilha, a fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, ou de Araçatuba, fechava a entrada da Baía Sul. História A Fortaleza de Santo Antônio de Ratones foi projetada e construída pelo engenheiro miliANO VIII / Nº 14 tar, Brigadeiro José da Silva Paes, primeiro governador da Capitania de Santa Catarina, entre 1739 e 1745. Sua construção iniciou-se em 1740 e foi concluída em 1744. É um dos vértices do triângulo defensivo que protegia a barra da baía e o canal norte da Ilha de Santa Catarina, integrado, ainda, pela Fortaleza de Anhatomirim e pela Fortaleza de São José da Ponta Grossa. Para maior eficácia do sistema defensivo, Silva Paes iniciou a construção, em 1742, da Fortaleza de Araçatuba, 51 Rampa de acesso à porta de entrada. FOTO: ADEMILDE SARTORI Ao lado, guarita da entrada. na barra da Baía Sul. Juntas, estariam consolidando o sistema de defesa, oferecendo proteção contra as investidas estrangeiras, principalmente espanholas, e constituindo-se de base estratégica para a manutenção do domínio português sobre a disputada Colônia do Sacramento. Em 1760, por determinação do Marquês de Pombal, o Governador do Rio de Janeiro, Capitão-General Gomes Freire de Andrade, enviou o engenheiro militar, Tenente-Coronel José Custódio de Sá e Faria, do Real Corpo de Engenheiros, para realizar um levantamento das defesas da Ilha de Santa Catarina. Pertencem a essa época as primeiras iconografias da fortaleza. A exemplo das demais, realizaram-se pequenos reparos e acresceram-se várias peças de artilharia. Em 1777, por ocasião da invasão espanhola, chefiada pelo General D. Pedro 52 FOTO: ADEMILDE SARTORI | ACERVO: WWW.FORTALEZASMULTIMIDIA.COM.BR Acima, canhão colonial em posição. Ao fundo, a baía de Santa Catarina. ANO VIII / Nº 14 FOTO: ALBERTO BARCKERT FOTO: ALBERTO BARCKERT FOTO: ADEMILDE SARTORI ANO VIII / Nº 14 de Ceballos Cortés y Calderón, a guarnição da fortaleza abandonou as instalações e os espanhóis apossaram-se da ilha. Em 1778, pelo Tratado de Santo Ildefonso, acordo ainda assinado em 1777, a Espanha cedeu a Portugal a Ilha de Santa Catarina, recebendo em troca a Colônia do Sacramento. A ocupação espanhola perdurou um ano e cinco meses; após isso, os portugueses ocuparam novamente a fortaleza. Em meados do século XIX, já desativada, algumas instalações foram adaptadas e convertidas em enfermarias para tratamento de epidemias de cólera e de outras doenças contagiosas, funcionando, também, como lazareto ou leprosário até o início do século XX. Em 1893, durante a Revolução Federalista, à qual se juntaram os integrantes da Revolta da Armada, foi ocupada pelos rebeldes, que ali instalaram dois canhões raiados, um de calibre 70, outro Krupp, de calibre 8 e, ainda, um canhão Whitworth, de alma sextavada, que permanece até hoje nas proximidades do ancoradouro. Em 1938, foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Nessa época, a fortaleza encontrava-se em precárias condições de conservação, abandonada e em ruínas. Várias tentativas sucederam-se com o propósito de preservar o patrimônio. Estas efetuaram-se nas décadas de 1950, 1960 e 1980, todavia permaneceria em péssimas condições. A partir de setembro de 1982, uma grande campanha pública mobilizou 53 No alto, casa dos oficiais. Ao centro, bateria da fortaleza. Abaixo, canhão Whitworth de alma sextavada, próximo ao ancoradouro. FOTO: ADEMILDE SARTORI Porta de entrada da casa do comandante. Ao lado, acesso ao aqueduto, que une a casa do Comandante ao alojamento e que fazia parte do sistema de captação das águas pluviais. empresários, universitários, professores, entre outros voluntários, que, durante um ano, em todos os finais de semana, realizaram a limpeza das instalações da fortaleza e de seu entorno. Essa cruzada culminou, entre os anos de 1990 e 1991, com o início de um novo projeto de restauração, em cooperação com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atualmente, o Projeto Fortalezas da Ilha de Santa Catarina, uma iniciativa elaborada pelo Iphan e pela UFSC, vem resgatando o valioso 54 patrimônio histórico. A universidade gerencia e administra a fortaleza. A Fortaleza Está localizada na Ilha de Ratones Grande, na Baía Norte, em frente à Praia de Sambaqui. Sua denominação deve-se ao explorador espanhol D. Álvaro Núñes, dito Cabeza de Vaca, que, em 1541, batizou-a Ratones, por considerála semelhante a um enorme rato – ou ratón, em espanhol. É, provavelmente, entre as fortalezas ANO VIII / Nº 14 FOTO: ADEMILDE SARTORI ANO VIII / Nº 14 FOTO: ALBERTO BARCKERT FOTO: ADEMILDE SARTORI FOTO: ADEMILDE SARTORI idealizadas por Silva Paes, a que menos sofreu modificações posteriores. Assim como as outras edificações similares construídas no século XVIII, no Brasil, Santo Antônio de Ratones possui traços de influência renascentista. Apresenta planta poligonal orgânica, com os seus edifícios erguidos em linha sobre o terrapleno, protegidos, à retaguarda, pela encosta e voltados para o mar, quase todos localizados em único platô, guarnecido por uma muralha de pedra, que se desenvolve ao norte, em formato curvo, seguindo retilineamente para sudoeste. O Paiol de Pólvora foi construído em local que oferece maior segurança à guarnição da fortaleza. Está localizado em ponto proeminente do terreno e estruturado em dois pisos. As instalações e as muralhas que a protegem foram construídas em alvenaria de pedra, com argamassa e revestimento à base de cal. O material de construção de rocha do tipo riólito foi extraído da própria ilha, fazendo-se exceção aos elementos de cantaria do portal de entrada, na Fonte de 55 Na foto maior, alojamento da guarnição. Ao fundo, a guarita, com domínio de vistas sob toda a frente. Abaixo, salão no interior do alojamento, hoje usado para exposições temporárias. FOTO: ALBERTO BARCKERT Acima, pórtico principal, lavrado em granito rosa. O acesso a ele efetuava-se através de uma ponte levadiça sobre um fosso. FOTO: ALBERTO BARCKERT Ao lado, casa do comandante, alojamento e casa dos oficiais. FOTO: ALBERTO BARCKERT Abaixo, a fonte de água que supria toda a guarnição. Obra de singular beleza e arrojada concepção arquitetônica. 56 Água e nos degraus da escadaria que dá acesso ao Paiol de Pólvora. Todas as alvenarias, inclusive as das muralhas, foram rebocadas e caiadas. O Pórtico Principal, lavrado em granito rosa, emoldura o acesso a um pequeno túnel com teto abobadado. É decorado com um frontão triangular de influência clássica. O acesso efetua-se através de uma ponte levadiça sobre um fosso. A Fonte de Água é uma obra de singular beleza e arrojada concepção arquitetônica. De água pura e cristalina, supria toda a guarnição, que tinha um cuidado todo especial com ela. O aqueduto, que une a casa do comandante aos aquartelamentos, fazia parte do sistema de captação das águas pluviais, provenientes dos telhados dos edifícios principais, e que complementava o suprimento proveniente da Fonte de Água. ANO VIII / Nº 14 Curiosidade “Em 1990, durante as obras de restauração da fortaleza, a empresa contratada para a obra estava realizando uma escavação para instalar as fossas sépticas dos sanitários públicos da fortaleza. Esses trabalhos ocorriam junto à bateria sudoeste de canhões, nos fundos da Casa dos Oficiais, edifício que estava sendo restaurado naquele momento com a participação de vários operários. Logo no começo daquela escavação, a poucos centímetros de profundidade, foram encontradas duas ossadas humanas. Um grande alvoroço ocorreu entre os operários da obra, que acorreram ao local, curiosos sobre a descoberta. Ficaram muito assustados com a presença daquele sepultamento, cuja razão da existência naquele local era desconhecida. Os operários dormiam na fortaleza de segunda a sexta-feira. No período noturno eram poucos os que se arriscavam a sair do alojamento, localizado junto à fonte da fortaleza, portanto bastante distante do temido local, e absolutamente nenhum deles subia até a parte superior da fortaleza antes de a luz do sol surgir. Por superstição ou puro medo, todos os operários da obra recusavam-se a dar continuidade aos trabalhos que vinham realizando naquela Casa dos Oficiais, em função da proximidade do edifício com as “assustadoras” ossadas. Sem outra alternativa para dar seqüência às obras, a empresa de restauração necessitou contratar novos operários, que, desconhecendo o sepultamento, já agora coberto e aguardando uma futura prospecção arqueológica após o término das obras, puderam dar seqüência às obras. Posteriormente, durante a investigação arqueológica dessas ossadas, com base nos vestígios encontrados e na pesquisa documental, comprovou-se que se tratavam de dois entre onze sepultamentos ali ocorridos em meados do século XIX, quando a fortaleza foi utilizada como lazareto, para isolamento de doentes com cólera. Em razão da possibilidade de contágio, os onze sepultamentos ocorreram na própria fortaleza, em covas rasas, às pressas, e com todos os pertences pessoais dos mortos. As duas ossadas em questão foram retiradas juntamente com os artefatos, estudadas e documentadas. Os outros nove sepultamentos aguardam por uma futura investigação arqueológica.” ANO VIII / Nº 14 FOTO: ADEMILDE SARTORI ROBERTO TONERA Arquiteto e coordenador do Projeto Fortalezas Multimídia www.fortalezasmultimidia.com.br 57 FOTO: VICENZOBERTI.COM.BR | AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO DA UFSC Panorâmica da Fortaleza de Ratones. Observa-se à esquerda, painéis solares, para captação de energia que abastece a ilha. Encerramento Ao encerrarmos, sintetizando sua história, lembramos que a construção da Fortaleza de Ratones iniciou-se em virtude da ameaça crescente dos espanhóis contra as terras da Colônia portuguesa. Era uma área de grande importância estratégica e que impunha um arrojado esquema de defesa para impedir o acesso do inimigo a uma região que serviria, pela sua localização, de base logística e militar, para ações futuras. O Brigadeiro José da Silva Paes foi o personagem que comandou o desenrolar das medidas de defesa da Ilha de Santa Catarina. Várias fortificações foram construídas, e Ratones foi uma delas, que, juntamente com Anhatomirim e Ponta Grossa, formavam um triângulo de proteção 58 que impedia o acesso à Baía de Santa Catarina. Ao longo da história, nunca entrou em combate. Os espanhóis tomaram posse da fortaleza em 1777, após o abandono dos portugueses. Com a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso, em 1778, aqueles tiveram que devolvê-la. A ocupação estendeu-se por um ano e cinco meses. Dessa época até os dias de hoje, poucos fatos históricos ocorreram, ainda que, na Revolução Federalista, haja sido tomada pelos rebeldes. Transformou-se, no século XIX, em hospital, cujos espaços das instalações destinaram-se ao atendimento de uma epidemia de cólera. Funcionou mais tarde, também, como leprosário e, em 1938, foi tombada pelo Iphan, iniciando-se um intenso trabalho para sua restauração e conANO VIII / Nº 14 FOTO: ADEMILDE SARTORI FOTO: ALBERTO BARCKERT servação. Atualmente, totalmente recuperada, são realizadas exposições temporárias em seu interior. É muito bem administrada pela UFSC, que desenvolve o Projeto Fortalezas Multimídia e conduz todas as atividades de manutenção e aproveitamento turístico da fortaleza. As visitas podem ser realizadas diariamente, com o apoio de serviços de escunas, que ofere- cem passeios marítimos na região, partindo de diferentes pontos da cidade e proporcionam aos visitantes a oportunidade de desfrutarem desse belíssimo patrimônio histórico. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ PAULO ROBERTO RODRIGUES TEIXEIRA – Coronel de Infantaria e Estado-Maior, é natural do Rio de Janeiro. Tem o curso de Estado-Maior e da Escola Superior de Guerra. Atualmente é assessor da FunCEB e redator-chefe da revista DaCultura. REFERÊNCIAS CORREIA, João Rosado (Coord.). Fortificações portuguesas no Brasil. Monsaraz: Centro de Estudos Patrimoniais Lusófonos da Fundação Convento da Orada, 1998. FROTA, Guilherme de Andrea. Quinhentos anos de História do Brasil. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2000. O EXÉRCITO na História do Brasil. Rio de Janeiro: BIBLIEX; Salvador: Odebrecht, 1998. 3 v. SIQUEIRA, Ricardo. Fortes e faróis. Rio de Janeiro: R. Siqueira, 1997. 183 p. SOARES, João Batista. Ilha de Santa Catarina, fortificações históricas, memórias (palestra). TONERA, Roberto. Fortalezas multimídia. Florianópolis: Projeto Fortalezas multimídia/ Editora da UFSC, 2001. (CD-ROM) ANO VIII / Nº 14 59 Escuna trazendo os turistas que, diariamente, visitam a fortaleza. Acima, muralha de pedra que protege a bateria de tiro com os seus canhões coloniais.