Teu quer contas de todos do "escândalo da mandioca~~ Maria Teresa Cardoso Brasília - "Produto que exige financiamentos mais elásticos e oferece condições mais favoráveis para negócios fraudulentos, tendo o resgate prazo mais dilatado". Esse novo conceito de "mandioca", planta leitosa de largo emprego na alimentação do brasileiro, não consta evidentemente de nenhum dicionário em lingua portuguesa. Está no relatório em que o Ministro Mário Pacini - diretor do Banco do Brasil no Governo GeiseI - submeteu ao julgamento do Tribunal de Contas da União o desfalque de Cr$ 1 bilhão 430 milhões 30 mil praticado contra a agência do Banco do Brasil em Floresta, cidade pernambucana. Da denúncia desse desfalque, resultou o assassinato no dia 3 de março do procurador Pedro Jorge de MeIo e Silva, que representou a União no processo instaurado pela Policia Federal de Pernambuco. Depois de 3h30min de julgamento, o TCU náo só transformou o processo em assunto de caráter extraordinário como, numa decisão inédita, resolveu estender sua fiscalização sobre todos os envolvidos nas irregularidades praticadas, mesmo os individuos sem vínculo com o serviço público. Com isso, o Tribunal exigirá contas do ex-gerente da agência do Banco do Brasil em Floresta, Edmilson Soares Lins; do seu substituto, Palmério Olímpio Maia; de todos os funcionários da agência e da Emater de Pernambuco, além de todos os beneficiados com os empréstimos fraudulentos, fazendeiros, empresários, políticos, militares etc., denunciados por Pedra Jorge. Teto-limite Outra decisão do Tribunal: converter o julgamento em diligência para que o Banco do Brasil e o Banco Central transmitam informações como: 1) A agência de Floresta estava sujeita ao teto-limite para as aplicações de recursos de custeio do Proagro?; 2) Positiva a resposta, esse teto foi ultrapassado?; 3) Quem, em tal caso, autorizou o repasse de recursos alêm do teto, quando, em que volume e exercicio? O Tribunal mandou juntar as peças da denúncia às contas de 1980 do Banco do Brasil, para exame em conjunto; advertiu que todas as providências adotadas não devem prejudicar as medidas penais e administrativas já iniciadas em Pernambuco; e determinou que cópias do relatório de Mário Pacini e de todos os votos proferidos no julgamento sejam encaminhados ao. Ministro da Fazenda, Emane Galveas. Fixou ainda o prazo de tj O Pacini emocionou-se no julgamento 30 dias para que- o Banco Central e o Banco do Brasil prestem as informações exigidas. O julgamento, interrompido às l7h15min para o lanche dos ministros, foi pródigo em criticas. "De fato me surpreende a cómoda posição de mero espectador em que se coloca o Banco Central", reclamou o Ministro Mário Pacini, ao comentar que a própria instituição financeira admite que desvios de recursos, não com a mesma dimensão do "Escándalo da Mandioca", estejam ocorrendo em outras regiões. Funcionário do Banco do Brasil durante 37 anos, o ministro emocionou-se mais uma vez: "Até mesmo pelo ineditismo da situação - o conluio criminoso de menos de duas dezenas de funcionários do banco, com grande parte da comunidade local - o episódio Floresta não pode, de forma alguma, permancer como mácula indelêvel sobre o banco". "Em apenas dois anos de atividade, pois a agência de Floresta foi instalada em abril de 1979, todo esse extenso quadro de falcatruas, da mais variada espêcie, foi minuciosamente planejado, urdido e executado", exaltou-se o Ministro Ewald Pinheiro, seguido pelo procurador-geral, Ivan Luz: "Foi tudo isso que causou repugnãncia à consciência moral da Nação assaltada e, sendo tanto, foi ainda pouco para a audácia da delinqüência cujo braço longo armou-se para dar morte a quem não titubeou no cumprir o dever que lhe impunham as funções, assumidas, do Ministêrio Público". Referia-se a seu colega, Pedro Jorge de MeIo e Silva, cuja morte, amanhá, completa quatro meses. o