2012/04/15
COMO
SAIRÁ A
COREIA DO NORTE
DA HUMILHAÇÃO POR QUE PASSOU?
Alexandre Reis Rodrigues
As expectativas de melhoria do relacionamento entre os EUA
e a Coreia do Norte, na sequência do acordo que assinaram
a 29 de fevereiro, não duraram mais do que duas semanas.
Foi o período que Pyongyang deixou passar para anunciar
que lançaria um satélite de observação em meados de abril,
retomando a postura de desafio com que encara o seu
relacionamento internacional. Nem os apelos do secretáriogeral da ONU lembrando as restrições que o regime deve
observar nessa área, em função de anteriores Resoluções
do Conselho de Segurança, nem as pressões que a
comunidade internacional exerceu, tiveram qualquer efeito.
Em fevereiro, Pyongyang tinha-se comprometido a autorizar
o regresso dos inspetores da Agência Internacional de
Energia Atómica e suspender todos os testes de nucleares
e de lançamento de mísseis em troca de 265 mil toneladas
de ajuda alimentar a fornecer pelos EUA. Na sua perspetiva,
não violou o compromisso porque a moratória sobre o
lançamento de mísseis não abrange a colocação de
satélites em órbita, para fins pacíficos. No entanto, nunca foi
esse o entendimento internacional, muito menos dos EUA
que sempre o deixaram claro. Aliás, a Resolução 1874
(2009) do Conselho de Segurança proíbe qualquer
lançamento usando tecnologia de mísseis balísticos
(«Demands that the DPRK not conduct any further nuclear
test or anylaunch using ballistic missile technology»).
Compreende-se porquê; não existem diferenças relevantes entre as tecnologias usadas em
mísseis para colocação de satélites em órbita e mísseis balísticos para transporte de armas.
A administração americana deixou-se enganar de novo, malgrado o historial de promessas não
cumpridas. Sabia-se que as expectativas de progresso eram baixas e estava à vista que os passos
dados pelo regime norte-coreano eram não só modestos como também pouco transparentes.
Mesmo assim, o Presidente Obama decidiu dar luz verde para avançar com o acordo; talvez a
mudança de líder tivesse alterado a postura. Não alterou literalmente nada. Agora, não resta aos
EUA senão suspender a ajuda que começariam a fornecer dentro em breve, segundo calendário que
se encontrava já desenhado, e preparar-se para uma agudização das relações.
Tornou-se claro que algo falhou na avaliação de eventuais mudanças na atitude do regime nortecoreano. Não foram tidas em devida conta as ambições do regime para comemorar “em grande
estilo” o centésimo aniversário do nascimento do fundador da atual Coreia do Norte, Kin Il Sung, avô
do jovem Presidente que tem hoje a liderança do País. As comemorações, que vinham sendo
preparadas há talvez mais de dois anos, deveriam ter uma vertente interna, com iniciativas de
melhoria das condições de vida da população, onde se inseria a obtenção de ajuda alimentar que
quebrasse as fomes sucessivas por que têm passado. A vertente externa incluiria um evento que
projetasse a Coreia do Norte internacionalmente, algo ao nível das potências tecnologicamente
mais avançadas. O lançamento de um satélite “encaixaria” perfeitamente nessa estratégia, como um
ato não essencialmente agressivo; serviria também para mostrar que a Coreia do Norte conservava
o essencial da sua autonomia, apesar de algumas cedências para obter ajuda alimentar.
Pyongyang acabou por falhar nas duas frentes. Já não vai conseguir a ajuda alimentar de que
precisava e, em vez, da “glória”, que o lançamento de um satélite lhe proporcionaria, o que tem pela
frente é a tarefa impossível de sair airosamente da humilhação por que passou ao não conseguir,
mais uma vez ter sucesso no lançamento de um míssil de longo alcance. Calcula-se que a Coreia
do Norte tenha desta forma desperdiçado quase mil milhões de dólares num investimento falhado
(450 milhões no míssil e satélite e 400 milhões na renovação/modernização das infraestruturas de
lançamento), tanto quanto o necessário, segundo alguns peritos, para alimentar a sua população
esfomeada, durante um ano.
Já tinha falhado em 1998, 2006 e 2009, embora o regime, contra todas as evidências, tivesse
reclamado sucesso. Desta vez, o míssil voou apenas dois minutos e não atingiu sequer um terço da
altitude requerida para colocar o satélite em órbita (94 milhas em vez de 310). A diferença para as
anteriores situações é que desta vez, o falhanço foi assumido. Pode parecer uma mudança de
atitude, mas não é. Depois de ter convidado órgãos de comunicação social internacionais e
observadores internacionais para o lançamento e para uma visita ao centro de comando, seria negar
o óbvio.
Falhanços técnicos são um acidente de percurso relativamente normal; os EUA que o digam. No
entanto, este caso da Coreia do Norte é diferente; não se tratava de fazer um ensaio de lançamento
mas sim da colocação de um satélite em órbita, o que pressupõe que a tecnologia do míssil de
lançamento esteja dominada. Pelos vistos não está, nem nunca esteve, conforme nos dizem as
anteriores tentativas. Isto mostra que afinal a Coreia do Norte não tem as capacidades que reclama
ter. Perdeu, assim, o benefício da ambiguidade de que desfrutava até então sobre a consistência
dos seus programas de mísseis balísticos.
É um revés importante que o regime procurará minimizar. Alguns dos passos que estavam previstos
para a comemoração do sucesso que, acabou por não acontecer, não deixaram nem por isso de ser
dados. Ainda no próprio dia da tentativa de lançamento, malgrado o desfecho desastroso, Kim Jong
Un fez 70 promoções ao posto de oficial general e foi nomeado, pelo Parlamento, Presidente da
poderosa Comissão de Defesa, cargo que estava entregue a um seu tio, por decisão de Kim Yong Il,
durante o processo de preparação da sua sucessão. É uma forma de tentar dizer ao mundo que
afinal está tudo bem na frente interna.
Muitos receiam, no entanto, que o regime queira ir mais longe e tomar outras iniciativas que
compensem a perda de afirmação internacional por que acaba de passar e o que ocorre, neste
contexto, é um teste nuclear. É uma possibilidade que se alinha com os indícios que vêm sendo
recolhidos de remoções de terra que sugerem a preparação de um túnel para um ensaio nuclear
subterrâneo. Se for para a frente, a explosão não deixará de ser registada e avaliada através da rede
de sensores sísmicos que cobrem o mundo, alguns dos quais são específicos do International
Moratorium System for the Comprhensive Test Ban Treaty. O mundo ficará a saber um pouco melhor
afinal em que ponto está o programa nuclear coreano - o que é um novo risco que o regime vai correr
- mas não conseguirá ficar a saber tudo.
Nos dois ensaios anteriores mostrou capacidades modestas; uma explosão equivalente a 900
toneladas de explosivo em 2006 e a 4600 em 2009. No primeiro ensaio dos EUA, em 1945, a
explosão teve uma dimensão equivalente a 21000 toneladas. No entanto, a menor dimensão dos
testes feitos não é necessariamente uma boa notícia. A Coreia do Norte pode visar precisamente a
construção de engenhos de menor potência que são mais fáceis de colocar num míssil embora
mais difíceis de construir. Vai permanecer pelo menos esta preocupante dúvida. Isto, junto com a
perícia que o regime demonstra em seguir, apesar de tudo, uma bem-sucedida estratégia de
sobrevivência, não vai permitir abrandar os motivos de preocupação que a Coreia do Norte
representa para todo o mundo.
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