Composição da riqueza em Ribeirão Preto (1870-1920)
Carlo Guimarães Monti1
RESUMO
O Trabalho visa estudar a trajetória e a composição da riqueza em Ribeirão nos anos
de 1870-1920, com o objetivo de analisar as estratégias que possibilitaram a
composição e manutenção destas fortunas. A conciliação e o direcionamento do capital
cafeeiro para com outras atividades econômicas também serão analisados.
Palavras chaves – História Econômica, Ribeirão Preto, Capital Cafeeiro; Composição
da Riqueza; Testamentos.
ABSTRACT
The work aims to study the history and composition of wealth in Ribeirão Preto in the
years 1870-1920, aiming to analyze the strategies that allowed the composition and
maintenance of these fortunes. The application of the capital obtained from the coffee in
other economic activities will also be analyzed.
APRESENTAÇÃO
A formação de capitais possibilitada, em especial, pela atividade cafeeira e a
posterior formação de um complexo produtivo será estudada por meio da vida material.
Em meio ao estudo do acúmulo de capitais, pretende-se investigar sujeitos históricos,
que representam a dinâmica local. Algumas famílias ou indivíduos e as relações
construídas por estes no desenrolar dos anos e décadas nos darão elementos para
compreendermos a construção, manutenção e dispersão dos bens econômicos,
demonstrando características locais.
A pesquisa tem como foco a história econômica do espaço que era representado
pela então Vila de São Sebastião do Ribeirão Preto, que hoje são os atuais municípios
de Ribeirão Preto, Sertãozinho e Cravinhos, estes emancipados em 1896 e 1897.
Neste trabalho, pretende-se estudar o período compreendido entre 1870 e 1916, com
foco no atual município de Ribeirão Preto.
1
Carlo Monti é Mestre em História pela USP. Doutorando pela FHDSS/UNESP. Professor do CEUBM
nas graduações de História, Turismo e Jornalismo. Coordena os Cursos de Especialização em História,
Cultura e Sociedade e de Didática do Ensino Superior. Pesquisa escravidão, demografia e economia
regional entre 1870 e 1920. É autor do livro AEAARP 60 anos - História e Conquistas, 2009.
No decorrer deste conjunto de anos, o espaço abordado saiu de uma economia
agropastoril, ajustada ao consumo interno, e deslocou-se para uma economia
exportadora de grandes dimensões, apoiada na atividade cafeeira, a ponto do
município chegar a ser o principal produtor de café no Brasil, quando esse produto era
o principal item de comércio exterior do país.
Boa parte da historiografia que se debruça sobre o tema ora apresentado
concorda com uma série de pontos, todavia, algumas questões estudadas não
demonstram concordância, por serem refratárias aos métodos utilizados, ou, por não
terem sido abordadas de forma central nas pesquisas realizadas.
A trajetória da composição da riqueza em Ribeirão Preto ainda está por ser
estudada, quando pensada por meio de uma vertente temporal, em que a construção e
transmissão dos patrimônios dos representantes mais expressivos de cada fase sejam
estudadas à luz das experiências individuais e coletivas. Tal estudo teria o intuito de
responder às ocorrências sobre as quais a historiografia não conseguiu interpretações
passíveis de serem confirmadas.
Os atuais estudos que privilegiam a história econômica, pautados na teoria da
história regional, já demonstram o contexto social e econômico de Ribeirão Preto, com
o auxílio de um processo de verticalização, sem, contudo, abordarem o fluxo e refluxo
das mais significativas experiências econômicas. Aliado a isto, o fato de que as
relações
mútuas
entre
os
capitais
ainda
estão
por
ser
consideradas.
O
desenvolvimento e construção das abordagens, indicadas acima, visam iluminar e
ascender o debate em torno dos pontos sobre os quais a historiografia ainda não se
debruçou.
Para além dos pontos elencados, temos outros que já foram estudados, mas,
para os quais, não se construiu uma concordância. Como é o caso da ocorrência ou
não do tal propagado rush, promovido por compradores de terras em direção a
Ribeirão Preto, entre os anos de 1870 e 1890. Esse assunto encontra-se em um nível
de estudo em que as suposições se anulam. Há também que se demonstrar o papel de
grupos autóctones, o de migrantes na composição e manutenção da riqueza. Outro
ponto sobre o qual, o atual estágio dos estudos carece de respostas é o câmbio entre
as atividades cafeeira, comercial, de crédito e aquelas relativas aos imóveis urbanos, e
a trajetória destes vários investimentos na composição na riqueza em Ribeirão Preto.
A cidade recebeu investimentos e mão de obra de fora, que ajudaram a
caracterizar e a construir uma nova vertente econômica regional que, por sua vez,
acreditamos, não rompeu com as estruturas estabelecidas anteriormente. A junção e
arranjos entre o antigo capital e os que chegaram é que vão moldar as novas
atividades representadas em especial pelo café, mas não só por ele. Esse diálogo
entre os novos capitais e os antigos já estabelecidos, entre a primeira forma de mão de
obra, que era a escrava, e a assalariada, que aos poucos vai se enraizando, é o que
justifica o trabalho ora proposto, que pode ser desvendado sob a ótica da história
econômica.
A problemática que se propõe: é como pode Ribeirão Preto ter passado por um
período de modernidade, sem mudar as bases econômicas representadas pelo café e
os sujeitos que as controlavam?
A baliza temporal que delimita os anos a serem estudados tem o seu início em
1870, com a instalação das atividades públicas, passando pela época de início e
crescimento da cultura cafeeira. Ao trabalharmos com este período poderemos analisar
a utilização e freqüência da mão de obra escrava utilizada nas fazendas de café.
A baliza final busca demonstrar os momentos de crise provocados pela geada
de 1918, pela superprodução por ocasião da 1ª Guerra Mundial, e a provável
transferência dos dividendos do café para outras atividades. O ano de 1920 dá conta
de acompanhar o declínio na produção cafeeira, que era de 2,4 milhões de arrobas em
1903, e passa a 1,6 milhões em 19292. Depois disto, só com os subsídios o café
conseguirá se sustentar, como foi o caso do programa de valorização da saca de café
de 1917, que levou ao aumento da produção3. O conjunto de mudanças pelas quais
Ribeirão Preto vinha passando foi extensivo a várias outras cidades produtoras de café,
como é o caso de Franca; para lá também o ano de 1920 demonstrou-se significativo
como marco final de pesquisa4.
A escolha do período a ser estudado foi pensado com o intuito de abordar três
momentos distintos da composição da riqueza em Ribeirão Preto. O primeiro recorte
busca estudar as mudanças políticas pelas quais o Brasil passou entre 1870 e 1890 e,
em especial, as mudanças econômicas sucedidas em Ribeirão Preto, que acabaram
por levar a um conjunto de alterações nos padrões de riqueza e na organização do
espaço urbano, com a chegada da estrada de ferro, o fausto agenciado pela atividade
cafeeira desabrochou em uma propagada modernidade5.
2
SANTOS, Jonas Rafael dos. As transformações da riqueza em Ribeirão Preto entre 1920 e 1951. Estudos de História, Franca, v. 13, n. 2, pp. 267295, 2006.
3
MARCONDES, Renato Leite. O Café em Ribeirão Preto (1890-1940). História Econômica & História de Empresas, v. 10, pp. 171-192, 2007.
4
OLIVEIRA, Lélio. Heranças guardadas e transições ponderadas; história econômica do interior paulista – 1890-1920. Franca: UNESP-FHDSS;
FACEF, 2006. p. 26-71.
5
PAZIANI, Rodrigo Ribeiro. Outras leituras da cidade: experiências urbanas da população de Ribeirão Preto durante a Primeira República. Tempo, v.
10, n. 19. jul. dez. 2005.
Representação que entre os anos de 1891 e 1911 levaram a uma maior
complexidade do urbano e o aumento da produção cafeeira em uma sucessiva
retroalimentação dos capitais aplicados. Anos que conceberam uma significativa
concentração das unidades produtivas, a terra, em grandes proporções, passa a ser
controlada por poucos proprietários e companhias que tinham no cultivo dos cafeeiros
os meios de concentração de riquezas 6. As fortunas geradas foram tão expressivas
que foram reconhecidas tanto no cenário estadual como nacional, possibilitando ações
que extrapolaram os referenciais econômicos, adentrando em atuações políticas7.
É a última seleção de anos escolhida para análise desta pesquisa (1912-1916)
que dará conta de uma fase em que o cultivo da preciosa rubiácea dava sinais de
empobrecimento, graças à junção de fatores climáticos, econômicos e agrícolas,
ocasionando uma realocação de parte dos investimentos, até então, quase que
exclusivamente focados no cultivo do café8.
Entender a trajetória da dinâmica econômica que teve vez em Ribeirão Preto,
desde a época das primeiras fazendas de gado, passando pelo período áureo do café
e posterior redução do significado econômico desta atividade é o objetivo deste
trabalho.
A trajetória econômica será estudada por meio da identificação das principais
riquezas constituídas entre 1870 e 1916 e por intermédio de análise, classificação e
identificação dos maiores cabedais constituídos no período indicado. Procuraremos
entender como se deu a constituição e manutenção destes patrimônios em face às
diferentes atividades que se sucederam na região. Com isto, construímos a temática
deste trabalho, que é a busca dos detalhes pelos quais passaram os protagonistas de
uma determinada formação econômica, sociocultural e, no limite, política.
Destarte, o objetivo geral é o estudo da trajetória econômica dos principais
proprietários e produtores de café em Ribeirão Preto e a sua trajetória linear, como os
casamentos contraídos, dotes, heranças, compra e venda de imóveis, achegando a
nossa análise a algumas famílias, que serão abordadas por alcance das riquezas
constituídas por meio das grandes propriedades cafeeiras do século XIX.
A comprovação da origem dos possuidores das maiores riquezas e manutenção
destas em mãos dos seus descendentes, além das estratégias utilizadas para isto,
6
OLIVEIRA, Henrique C. As transações imobiliárias em Ribeirão Preto de 1874-1899. Dissertação de mestrado apresentada a UNESPAraraquara, 2003. p. 150-172.
7
PERISSINOTTO, Renato M. Estado e Capital Cafeeiro: burocracia e interesse de classe na condução da política econômica (1889-1930). São
Paulo: Fapesp/ Campinas: IFCH/Unicamp, 1999.
8
OLIVEIRA, Jorge Henrique Caldeira de; MARCONDES, Renato Leite. Negociantes de imóveis durante a expansão cafeeira em Ribeirão Preto
(1874-1899). Tempo, v. 8, n 15, pp. 111-133, 2003. Para os níveis de produção de café e mudanças, veja: MARCONDES, Renato Leite. O Café em
Ribeirão Preto (1890-1940). História Econômica & História de Empresas, v. 10, pp. 171-192, 2007.
assim como as práticas que possibilitaram o acúmulo de tais economias são elementos
que objetivamos esclarecer neste trabalho.
Acreditamos que a busca do perfil de acumulação nesta sociedade passou pela
junção de experiências entre elementos locais e oriundos de outras regiões ou países.
A junção destes grupos pode ser percebida na construção de um espaço urbano que
espelhava a modernidade, atrelada ao comércio e a atividade cafeeira.
Assim sendo, a nossa hipótese de trabalho é que em Ribeirão Preto ocorreu
uma modernização aplicada ao espaço urbano e não uma modernidade nas relações
para com o capital e o trabalho. A busca por esta trajetória pode demonstrar as
particularidades manifestas no caso de Ribeirão Preto, em que, a modernidade não
chegou a trazer a modernização9.
DESENVOLVIMENTO
Essa pesquisa esta apoiada na história regional e na história econômica, a
escolha destes modelos teóricos foi motivada como forma de responder as discussões
historiográficas.
A história regional contribui para o estudo ora proposto, auxiliando na construção
da base temporal e espacial. Atentando para o conceito de região na construção do
processo histórico, ajudando na organização da estrutura e conjuntura que serão
estudadas na busca de construções „superpostas e de conexas espacialidades‟10.
A história econômica tem vez neste estudo por possibilitar a análise do problema
da distribuição das riquezas que é uma forma importante para auxiliar na busca pelo
establishment. Este tipo de método ao ter um objeto específico, um lugar específico,
representado pelo processo cultural de produção e distribuição de bens materiais nos
auxiliará na reconstrução da trajetória da riqueza em Ribeirão Preto e na composição
desta11.
O conjunto documental que se pretende trabalhar dá condições da criação de
séries com as quais algumas compreensões poderão ser estudadas sobre o
comportamento econômico da sociedade, em questão. Os dados obtidos com a análise
da massa documental, unidos a literatura selecionada vão permitir a observação de
referenciais no campo político e social.
9
Sobre estes conceitos Cf.: CAMPOS, Candido Malta. Os rumos da cidade; urbanismo e modernização em São Paulo. São Paulo: Senac, 2002. p.
17-100.
10
Cf. SILVA, Marcos A. (coord.) República em Migalhas. História Regional e local. São Paulo: Marco Zero/CNPq, 1990.
11
Cf. FRAGOSO, João. Homens de Grossa Aventura. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1998. FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O
Arcaismo como projeto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
A análise qualitativa dos dados deve sobrepor se as análises quantitativas.
Os documentos selecionados estão depositados no Arquivo Público de Ribeirão
Preto, Arquivo do Estado de São Paulo e no 1º Tabelião de notas de Ribeirão Preto, os
documentos indicados abaixo não serão pesquisados em sua totalidade, será feita uma
seleção pautada por alguns nomes sobre os quais se quer compor a trajetória da
riqueza.
Os documentos concernentes ao arquivo do Estado são para: o Fundo Privado
Coronel Joaquim da Cunha tem por função demonstrar os elos entre economia, política
e investimento em outras atividades que não somente o café. O documento Juízes de
Direito será usado para analisar os primeiros tempos da ocupação local. Os
Documentos Negócios Eleitorais, vão servir auxiliar na composição das famílias e
fortunas.
Os documentos do Arquivo Público de Ribeirão Preto: o Fundo Maria
Emerenciana Junqueira, vai possibilitar a reconstrução das relações sociais e familiares
de época.
Os Jornais micro filmados, serão documentos utilizados em uma fase posterior
para esclarecerem algumas questões que se fizerem pertinentes.
Processos Antigos, neste conjunto temos, uma gama grande de documentos
dos mais variados de funcionamento do fórum, a sua ordem é organizada por nomes e
anos, além de informações sobre a escravaria.
Inventários post-mortem permitem o acompanhamento das trajetórias de
acumulação de pais, filhos, netos e até bisnetos.
1º Tabelião de Notas de Ribeirão Preto, Livro de Notas do Primeiro Ofício Civil
de Ribeirão dará informações sobre contratos de imóveis, negócios, contratos de
trabalho e café, além de informações sobre a escravaria.
Sobre o ordenamento do espaço urbano, lugar privilegiado para analisar as
relações sociais, uma base documental como os inventários e testamentos vem auxiliar
nessa parte do estudo.
O espaço a ser estudado nesta pesquisa tem como centro as antigas terras da
então fazenda de Ribeirão Preto, onde foi constituído um patrimônio de São Sebastião
do Ribeirão Preto, com capela assentada e curada em 186912. Os entrantes mineiros
12
SANTOS, Plínio Travassos dos. Principais dados históricos de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto: Prefeitura Municipal, 1942. p. 4-7.
foram os ocupantes iniciais da área, em muitos casos, eram posseiros; a constituição
do patrimônio auxiliou na manutenção das terras13.
Em 1870, foi criado o distrito; no ano seguinte, o município; mesmo assim,
muitas disputas por terras levaram a conflitos pessoais e jurídicos. Quando em época
da transferência da sede da Comarca de São Simão para o Termo de Ribeirão Preto, o
primeiro Juiz a assumir o posto alegava que “as paragens eram violentas e dadas ao
banditismo”, necessitando de lei e organização14.
É por volta de 1870 que plantações de café localizadas em São Simão chamam
a atenção pela produtividade e lucro, deste modo, novas empreitadas são arranjadas
em direção a Ribeirão Preto, possuidor de um solo com ótimas características para o
cultivo agrícola15. Em época, homens de grossa aventura, envoltos pela idéia de uma
pátria paulista, alardearam um conjunto propagandístico das novas paragens,
representadas pelo Novo Oeste Paulista16.
A ocupação no entorno da então vila de Ribeirão Preto começa a se adensar
com a formação de áreas destinadas ao plantio do Café, quadro este que vai até 1890,
quando um conjunto de agricultores proprietários de imóveis já se denominam
cafeicultores e esboçam um cabedal de significativa monta17.
Trabalhando este período que a produção histórica sobre Ribeirão Preto tem seu
início, com alguns autores locais realizando estudos nos anos 50 a 70. Estas obras
são, em alguns casos, descrições de documentos, rol de datas que representam
grandes acontecimentos. São obras descritivas e narrativas, com muitos fatos
históricos grandiosos ao gosto do IHGB. De qualquer forma, criaram tradição com
relação a abordagem de alguns acontecimentos históricos sobre a localidade18.
Algumas destas tradições são representadas pela figura do imigrante como
sendo a primeira mão de obra usada na atividade cafeeira, o café como a primeira
atividade econômica ocorrida nestas paragens e como criador de um espaço urbano
moderno e modernizante “[...] a belle epoque (sic) não deixou por menos...aquilo que
poderia ser apelidado por ciúmes de outras urbes contra Ribeirão Preto que marcou
13
LAGES, José Antônio Corrêa. Ribeirão Preto: da figueira à Barra do Retiro – o povoamento da região pelos entrantes mineiros na primeira
metade do século XIX. Ribeirão Preto: VGA, 1996. p. 139-160.
14
Arquivo do Estado de São Paulo. Juízes de Direito - 1878-1891. Co 4804.
15
LOPES, Luciana Suarez. Sob os olhos de São Sebastião. A cafeicultura e as mutações da riqueza em ribeirão Preto, 1849-1900. Tese de
doutorado apresentada a USP, 2005, pp. 68-88.
16
Cf. ADDUCI, Cássia Chrispiniano. A “Pátira Paulista”; o separatismo como resposta à crise final do império brasileiro. São Paulo: Arquivo do
Estado/Imprensa Oficial, 2000.
17
OLIVEIRA, Henrique C. As transações imobiliárias em Ribeirão Preto de 1874-1899. Dissertação de mestrado apresentada a UNESPAraraquara, 2003. p. 31-45.
18
Cf. CIONE, Rubem. História de Ribeirão Preto. 1ª Ed. V. II. Ribeirão Preto: Editora Legis Summa, 1992. LAURIANO, João Monsenhor.
Apontamentos sobre a fundação de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto: cúria metropolitana, 1973. MIRANDA, Pedro José. Breve Histórico do Café
em Ribeirão Preto. Ribeirão Preto: Memória Monográfica, 1980. PRASTES, Prisco da Cruz. Relembrando o Passado. Ribeirão Preto: Gráfica
Bandeirantes, 1976. PRASTES, Prisco da Cruz. Ribeirão e os seus homens progressistas. Ribeirão Preto: Copiadora off-set Rossi, 1981.
SANTOS, Plínio Travassos dos. O centenário de Ribeirão Preto (1853-1953). Revista do IHGB de São Paulo, v. LII, 1953. SANTOS, Plínio
Travassos dos. Principais dados históricos de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto: Prefeitura Municipal, 1942.
uma época de poderio em muitos sentidos”19. Assim, a escrita da história de Ribeirão é
iniciada com o compromisso de demonstrar um passado glorioso, recheado de belos
acontecimentos. Na ocasião, da escrita destas obras, a cidade já não contava com
tanta pompa, o café tinha deixado o posto de principal referencial econômico, sem ter
um substituto à altura. O que restou foi um passado de grandes feitos e muitos contos,
que amenizou um presente de poucos cruzeiros. Em época, José Pedro Miranda
apontava que “[...] a atuação do café que forçou a emancipação de nosso município
político e economicamente [...]”20.
Com a pesquisa de Ernesta Zamboni, iniciamos com as obras acadêmicas que
estudaram Ribeirão Preto. A temática trabalhada foi a organização e formação da rede
fundiária entre 1974 e 1900; as fontes foram os registros de imóveis, e a teoria marxista
esteve presente na sua análise em história econômica.
Algumas tradições cunhadas pelos autores memorialistas são perpetuadas no
trabalho, “Nesse momento, penetra o cafeicultor, o homem já experimentado em outras
áreas. Para aí se dirigem o homem enérgico, de iniciativa, especulador...como que do
dia para a noite, crescem imensos cafezais”21. Ao que demonstra, o homem dinâmico
veio de fora e aos montes. Mais a frente, continua, ao indicar que também foram
introduzidos por eles processos mecânicos de beneficiamento, ao contrário dos
processos rotineiros existentes no Vale do Paraíba. Eram empreendedores e
capitalistas, “A hipoteca aparece na agricultura quando esta se encontra em fase de
expansão, isto é, a procura de capital cresce com o desenvolvimento da lavoura[...]” 22.
Ao lançar mão da teoria do “tipo ideal”, remonta a cadeia dominial das fazendas
Lageado e Laureano, que compunham a região. No caso da Fazenda Lageado,
comprada dos Junqueiras em pedaços por Martinho Prado Júnior, aponta que: “O
capital dos Junqueiras, obtido basicamente com a acumulação de terras e negócios de
gado, não se compara, na época, com a dos Prado.”23, no encontro das
representações entre o arcaico e o moderno prevalece o segundo. O primitivo latifúndio
é retalhado e aglutinado pela frente pioneira do café, que causa na região um rush,
pela procura de novas terras para o cultivo da preciosa rubiácea.
Em 2003, Jorge C. Oliveira pesquisou os efeitos dos cafezais no mercado
imobiliário de Ribeirão entre 1874 e 189924. Lançando mão da história econômica, em
19
MIRANDA, Pedro José. Breve Histórico do Café em Ribeirão Preto. Ribeirão Preto: Memória Monográfica, 1980. p. 6.
MIRANDA, Pedro José. Op. Cit., p. 7.
21
ZAMBONI, Ernesta. Op.. Cit., p. 51.
22
ZAMBONI, Ernesta. Op.. Cit., p. 51.
23
ZAMBONI, Ernesta. Op.. Cit., p. 51.
24
OLIVEIRA, Henrique C. As transações imobiliárias em Ribeirão Preto de 1874-1899. Dissertação de mestrado apresentada a UNESPAraraquara, 2003.
20
uma análise bem focada, buscou construir séries temporais e índices dos valores
imobiliários transacionados, trabalhou com os dados dos compradores, vendedores e
daqueles que tratavam dos bens negociados. O período abordado focou a época de
mudança entre as economias de subsistência e agroexportadora.
Usa as mesmas fontes que Zamboni e chega a conclusões diferentes.
Demonstra que 67% das escrituras registradas no período foram rurais e 33%,
urbanas, com mais transações registradas em 1885. No período entre 1887 e 1890, o
valor médio das transações rurais subiu consideravelmente, mais de 100%, o valor da
terra teve o seu ápice em 1896.
A maior parte das terras negociadas era de fazendas de café com mais de 100
alqueires somando 46,75%, justamente as terras que mais tinham valorizado, enquanto
que a compra e venda de pequenas propriedades ocorriam em grande número, o que
leva o autor a afirma que “A riqueza monetária não nos pareceu estritamente ligada à
posse da terra, apesar dela ser um meio para a ascensão financeira no meio rural de
Ribeirão Preto, mediante o cultivo de cafezais.”25
As transações urbanas ficam significativas após 1893; “Do total de negócios
efetuados em Ribeirão Preto, rurais e urbanos, tão somente 15,3% dos compradores
foram identificados como sendo de fora de Ribeirão Preto”26. Do total de compra e
venda, 60% dos negociantes eram da cidade; os negociantes de fora em maior
quantidade eram de São Paulo, “Portanto, o maior volume de compras da capital da
província de São Paulo foi efetuado por poucos compradores”27. A grande quantidade
de compradores de imóveis e cafeicultores vindos de outras regiões, causando um rush
que fora alardeado em outros trabalhos, é descartada por esta pesquisa. A maior
quantidade de compradores de fora era de São Paulo e foram representados por um
grupo específico.
Jorge acredita que alguns compradores adquiriram pequenas propriedades,
agregando terras com baixos valores para formar sua grande propriedade. Afirma isto
pautado nos documentos, pois observou um maior número de vendedores do que de
compradores. Ainda salienta que:
[...] fica nítido que os maiores negociantes de todo período
compraram e venderam tanto fazendas e chácaras quanto casas
e terrenos...notamos que os negociantes se aventuravam a fazer
25
OLIVEIRA, Henrique C. Op. Cit. . 95.
OLIVEIRA, Henrique C. Op. Cit., 123.
27
OLIVEIRA, Henrique C. Op. Cit. p.132.
26
transações imobiliárias na cidade e no campo foram pessoas mais
abastadas, sendo que a maior parte dos fazendeiros com um
patrimônio mediano, aparentemente, não se mostravam muito
propensos a mudar-se para o centro urbano em formação, ou
simplesmente
não
achavam
interessante
fazer
negócios
urbanos.28
Sobre os imigrantes italianos, nos negócios de compra e venda, chegaram a
23% das transações em 1896, mas tais negócios eram pequenos, somando valores
não muito significativos.
Com sua pesquisa, o autor revê tanto o propagado rush, como a ocupação da
cidade por um aglomerado de cafeicultores. Sobre aqueles que fizeram negócios em
Ribeirão, entre 1874 e 1899,
[...] observamos que a maior parte residiu no próprio
município ou em região próxima, enfraquecendo um pouco a idéia
de rush de outras regiões para Ribeirão Preto, no período em
estudo[...]29
Já em seu doutorado utilizando inventários post-mortem, Luciana Suarez,
influenciada pelos trabalhos de Alcântara Machado, Alice Canabrava e João Fragoso
aponta que:
As atividades
que
mais
proporcionaram
enriquecimento foram a cafeicultura e a atividade mercantil, com
destaque para a atividade mercantil combinada com a criação de
gado e a agricultura de gêneros nos primeiros períodos e para a
cafeicultura nos últimos.30
Sobre o café salienta que:
28
Ibid. , p. 165.
OLIVEIRA, Jorge Henrique Caldeira de; MARCONDES, Renato Leite. Negociantes de imóveis durante a expansão cafeeira em Ribeirão Preto
(1874-1899). Tempo, v. 8, n 15, pp. 11-133, 2003. p. 132.
30
LOPES, Luciana Suarez. Sob os olhos de São Sebastião. A cafeicultura e as mutações da riqueza em ribeirão Preto, 1849-1900. Tese de
doutorado apresentada a USP, 2005. p. 248.
29
Sua influencia foi tão grande que não ficou restrita aos
seus produtores, atingindo também os demais moradores da
localidade, quer pela valorização das terras e dos imóveis
urbanos quer pela possível super-avaliação de seus bens.31
Todavia, a autora não indica quem poderiam ser os compradores de bens tão
valorizados. Com a análise dos inventários, demonstra que, entre 1870 e 1879, aqueles
que indicaram riqueza acima de 5.000 libras eram 6,9% dos inventariados e detinham
56% da riqueza; já entre 1889 e 1900, 15,9% detinham 89,% da riqueza e todos eram
cafeicultores, apontando para uma concentração da riqueza nas mãos dos
cafeicultores.
Para o período de 1920-1951, posterior ao estudado pelos outros autores, Jonas
Santo, ao trabalhar com inventário de cafeicultores, demonstra que muitos imigrantes
eram cafeicultores, como resultado do processo de fragmentação de algumas
propriedades, o que ocorreu antes e depois de 192932. No período estudado por ele,
59,3% dos cafeicultores eram sitiantes e não mais fazendeiros.
O conjunto das riquezas mais significativas, orquestradas entre os anos de 1870
e 1916, pode nos permitir várias análises, cingindo, assim, esta parte da história que
está dispersas por vários grupos de documentos; assim como a bolha de ar fica presa
no gelo, esta parte da nossa história espera por ser quitada.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CIONE, Rubem. História de Ribeirão Preto. 1ª Ed. V. II. Ribeirão Preto: Editora Legis
Summa, 1992. LAURIANO, João Monsenhor. Apontamentos sobre a fundação de
Ribeirão Preto. Ribeirão Preto: cúria metropolitana, 1973.
FRAGOSO, João. Homens de Grossa Aventura. Rio de janeiro: Civilização Brasileira,
1998. FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O Arcaismo como projeto. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
LAGES, José Antônio Corrêa. Ribeirão Preto: da figueira à Barra do Retiro – o
povoamento da região pelos entrantes mineiros na primeira metade do século XIX.
Ribeirão Preto: VGA, 1996.
31
Ibid.
SANTOS, Jonas Rafael dos. As transformações da riqueza em Ribeirão Preto entre 1920 e 1951. Estudos de História, Franca, v. 13, n. 2, p. 267295, 2006.
32
LOPES, Luciana Suarez. Sob os olhos de São Sebastião. A cafeicultura e as
mutações da riqueza em ribeirão Preto, 1849-1900. Tese de doutorado apresentada a
USP, 2005, pp. 68-88.
MARCONDES, Renato Leite. O Café em Ribeirão Preto (1890-1940). História
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Composição da riqueza em Ribeirão Preto (1870