Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014
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ENCHENTES EM RIBEIRÃO PRETO: UMA ABORDAGEM BIOLÓGICA E
HISTÓRICA ATRAVÉS DA UTILIZAÇÃO DE ESPAÇOS E ATIVIDADES NÃO
FORMAIS DE ENSINO
Marcelo Pereira (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto-USP)
Fontes financiadoras: Governo Federal, Caixa Econômica Federal e Prefeitura Municipal de
Ribeirão Preto.
Palavras-chave: Espaços não formais de ensino, educação não formal, matas ciliares,
projetos socioambientais.
Resumo:
O presente trabalho relata uma experiência didática que fez parte de um conjunto de Projetos
de Trabalho Técnico Socioambiental (PTTS), associados à execução de obras antienchentes
na região central de Ribeirão Preto, Brasil. Realizada com alunos de escolas localizadas no
entorno das obras, a ação teve como objetivo discutir o problema das enchentes na área,
explorando aspectos biológicos e históricos. Para discutir as causas das enchentes, a
experiência contou com a utilização de atividades e espaços não formais de ensino. Uma
maquete interativa, especialmente desenvolvida para o projeto, foi utilizada para simular a
dinâmica das enchentes em áreas urbanas assim como a importância da preservação das matas
ciliares e áreas verdes em sua prevenção.
Introdução
Ribeirão Preto, localizada no interior do estado de São Paulo, tem sua história
muito ligada à água. A cidade, entre 1879 e 1881, foi chamada de Vila Entre Rios justamente
por ter se formado em terras localizadas no encontro do córrego Retiro Saudoso com o
ribeirão Preto. É do ribeirão, aliás, que a cidade atualmente toma emprestado o seu nome.
Com o desenvolvimento e crescimento da área urbana, no entanto, os córregos e sua
área de encontro acabaram sofrendo alterações. Atitudes como a ocupação da área de várzea e
a impermeabilização do solo decorrente da urbanização acabaram fazendo com que as
enchentes fossem cada vez mais incorporadas à história da cidade. Registros históricos
relatam a ocorrência de enchentes desde as primeiras intervenções nos córregos, já no início
do século XX.
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As enchentes na área central e em parte da vila Virgínia acabaram se tornando um dos
problemas sociais e ambientais mais graves de Ribeirão Preto. Muitas tentativas pontuais para
tentar controlar o problema foram realizadas no decorrer das décadas, mas a gravidade da
situação exigiu a elaboração de um plano de macrodrenagem que acabou resultando no maior
conjunto de obras da história da cidade. Iniciadas no ano de 2008 e encerradas em 2013, as
obras foram financiadas pelo Governo Federal, através da Caixa Econômica Federal, com
contrapartida da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.
O Governo Federal definiu a exigência de desenvolvimento de Projetos de Trabalho
Técnico Socioambiental – PTTS – quando ocorrem repasses financeiros aos municípios. Os
PPTS devem ser compostos por ações socioeducativas que propiciem a compreensão e a
manifestação da população diretamente atendida a respeito das intervenções, além de
favorecer a correta apropriação e uso das melhorias implantadas por meio de atividades de
educação sanitária, ambiental e patrimonial.
Os PTTS desenvolvidos para acompanhar as obras antienchente consistiram em um
conjunto de atividades voltadas principalmente à população das áreas do entorno do
empreendimento. O presente relato refere-se a um dos projetos que fez parte dos PPTS
associados às obras antienchente realizadas em Ribeirão Preto.
Justificativa
As enchentes na área urbana infelizmente são hoje um dos principais problemas
ambientais enfrentados pelos municípios do Brasil. A maior parte dos problemas ambientais
que enfrentamos é resultado de intervenções e comportamentos mal planejados ou indevidos
no ambiente, sendo as enchentes em áreas urbanas exemplos desses problemas.
Para a redução dos impactos negativos que as modificações do ambiente possam
exercer sobre a sociedade é necessária a preparação de cidadãos com conhecimentos que os
habilitem a apresentar um posicionamento crítico frente a estas alterações. O ensino de
Ciências Naturais possui, portanto, papel essencial no processo de formação de cidadãos.
Os educadores em Ciências Naturais têm como desafio a preparação de pessoas
com conhecimentos que os habilite a compreender a sociedade, a natureza e analisar como
podem colaborar para a redução dos impactos que as atividades humanas possam exercer
sobre o ambiente (CHASSOT, 2003).
O papel do educador neste processo é essencial, porém, desafiador. A prática
pedagógica deve possibilitar, além da mera exposição de ideias, a discussão das causas dos
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fenômenos, o entendimento dos processos em estudo, a análise acerca de onde e como aquele
conhecimento apresentado em sala de aula está presente nas vidas dos sujeitos e as
implicações destes conhecimentos na sociedade e no ambiente. Para atingir estes objetivos o
ensino de Ciências deve mais do que promover a fixação de conteúdos; devem ser
privilegiadas situações de aprendizagem que possibilitem ao aluno a formação de sua
bagagem cognitiva (BIANCONI e CARUSO, 2005).
A aprendizagem de Ciências, assim como de outras áreas do conhecimento, pode
ocorrer de diferentes formas. Essas diferentes formas de ensino são classificadas na literatura
como: educação formal, educação não formal e educação informal (GOHM, 1999; COLLEY,
HODKINSON e MALCOLM, 2002). A educação formal pode ser resumida como aquela que
está
presente
no
ensino
escolar
institucionalizado,
cronologicamente
gradual
e
hierarquicamente estruturado. A educação informal é aquela na qual qualquer pessoa adquire
e acumula conhecimentos, de forma espontânea, através de experiência diária em casa, no
trabalho e no lazer. Já a educação não formal pode ser definida como qualquer tentativa
educacional organizada e sistemática que, normalmente, se realiza fora dos quadros do
sistema formal de ensino.
Os espaços como parques e museus de ciência, se apresentam como espaços
educativos alternativos ao ambiente formal da escola. Nestes locais podem ser desenvolvidas
atividades formais e não formais de ensino que possibilitam a ampliação do conhecimento
científico e cultural dos estudantes além de estabelecer relações interdisciplinares entre os
conhecimentos que estão sendo trabalhados concretamente em aula (VIEIRA, BIANCONI e
DIAS, 2005). A utilização de técnicas e espaços alternativos proporciona dois ganhos para a
escola: os conteúdos de aula se tornam mais dinâmicos e o aluno percebe diferentes formas de
articulação entre os temas abordados (MARANDINO, 2001).
As atividades realizadas por meio de observação, experimentação e vivências
aumentam a curiosidade, o senso de observação, a criatividade e o interesse pelo assunto
estudado (LORENZETTI e DELIZOICOV, 2001). O contato com ambientes, seres vivos,
áreas em construção, máquinas em funcionamento, possibilita observações de tamanho,
formas, comportamentos e outros aspectos dinâmicos, dificilmente proporcionados pelas
observações indiretas (BRASIL, 1997). O desafio se torna mais fácil se forem utilizados
técnicas e espaços alternativos que ofereçam um aprendizado mais envolvente, criativo e
motivador (GERMANO e KULESZA, 2007). Estes espaços alternativos externos ao
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estabelecimento formal da escola, onde pode ser realizada uma atividade educativa, são
conhecidos como espaços não formais de ensino (JACOBUCCI, 2008).
Atividades desenvolvidas em espaços não formais vão além de uma simples aula
prática. Dependendo de como são organizadas, podem permitir com que o aluno elabore suas
próprias interpretações dos conteúdos envolvidos e que reflita sobre e através dos fenômenos
naturais, com a vantagem adicional e diferencial de estar no ambiente a ser estudado (RISSI e
CAVASSAN, 2013).
Ao utilizar um espaço não formal o estudante é levado a um pensamento sistêmico e
passa a ter percepção em relação ao ambiente e suas inter-relações (QUEIROZ et al., 2011).
A utilização de espaços não formais de ensino pode ser, portanto, excelente recurso para
trabalhar a fragmentação dos conteúdos e as distorções que possam ocorrer durante o
processo de ensino e aprendizagem em Ciências (RISSI e CAVASSAN, 2013). A utilização
destes espaços leva o educador em Ciências a trabalhar de forma interdisciplinar e não linear,
mostrando alternativas de se trabalhar os conteúdos de forma mais global e menos
departamentalizada (CHAPANI e CAVASSAN, 1997).
A experiência relatada nesse trabalho utilizou uma abordagem não formal para tratar
da questão das enchentes em Ribeirão Preto, explorando aspectos biológicos e históricos. Ela
contou com atividades como a utilização de trechos de mata ciliar como espaços não formais
de ensino e também com o uso de uma maquete interativa, especialmente desenvolvida para o
projeto, que permitia simular a dinâmica de uma enchente em área urbana além da
importância da preservação das áreas verdes na prevenção do problema.
Objetivo e Público-alvo
O objetivo do projeto foi discutir com os alunos o problema das enchentes na área do
encontro do ribeirão Preto e do córrego Retiro Saudoso.
As atividades do projeto foram realizadas entre os anos de 2012 e 2013 com 245
alunos de 5os a 7os anos do ensino fundamental de cinco escolas da rede municipal de ensino
localizadas no entorno das obras.
Planejamento e Preparação das atividades
O projeto descrevendo as ações educativas foi inicialmente apresentado ao grupo
gestor dos PTTS ligados às obras antienchente.
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O plano inicial da maquete passou por sugestões de um especialista convidado pelo
grupo. Cálculos de custos da maquete foram então realizados e a proposta foi encaminhada a
uma equipe da Caixa Econômica Federal, designada para avaliar o financiamento dos projetos
encaminhados ao grupo gestor. O projeto foi aprovado e a confecção da maquete ficou a
cargo de uma empresa especializada.
Outra fase da preparação das atividades foi o contato com a Secretaria Municipal de
Educação de Ribeirão Preto. A equipe técnica pedagógica aprovou o projeto e autorizou sua
aplicação em cinco escolas localizadas no entorno da área das obras antienchente, além de
financiar o transporte dos alunos nas saídas a campo.
O próximo passo foi entrar em contato com as diretoras e a coordenação das escolas
escolhidas, assim como com os professores das turmas envolvidas. No caso das turmas de
sexto e sétimo anos, foram convidados a participar do processo professores de Ciências,
História e/ou Geografia. Os professores que concordaram em atuar no projeto passaram por
encontros de capacitação.
Para o planejamento das atividades que envolviam informações históricas sobre as
enchentes foi realizado um levantamento de dados através de consultas a documentos e fotos
do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto.
Informações mais detalhadas sobre as obras de macrodrenagem foram obtidas por
meio de entrevistas com engenheiros responsáveis pelas obras.
A maquete interativa
Com dimensões de 100 centímetros de largura, 90 cm de comprimento e 60 cm de
altura, a maquete foi confeccionada em acrílico e plástico.
No interior da maquete era simulada a calha de um córrego, ao centro, ladeada por
duas margens. Uma das margens era composta por uma placa de acrílico perfurada recoberta
por material absorvente, simulando uma área verde ou de mata ciliar. Já a outra margem era
composta por estruturas de acrílico simulando uma área urbana com ruas, prédios e casas.
Essa placa possuía poucas perfurações, simulando bueiros ou “bocas de lobo”, que eram
ligadas a pequenos canos que chegavam até a calha do córrego, simulando um sistema de
drenagem pluvial.
A calha do córrego era dividida em duas por uma parede, ficando uma metade em
contato com a margem que simulava a área verde enquanto que a outra metade ficava em
contato com a margem que simulava a área urbana.
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Uma caixa rasa era colocada na parte de cima da maquete, sobre ambas as margens.
Essa caixa apresentava perfurações que ficavam posicionadas sobre as margens. Quando a
água era despejada sobre a caixa, as perfurações simulavam chuva sobre as margens. Na
margem que simulava uma área verde, a água era absorvida e pouco dela ia para a calha. Já na
margem que simulava a cidade toda água despejada acabava sendo direcionada para a calha
do córrego que, com o tempo, transbordava e inundava a área urbana. O alagamento era
potencializado quando os simuladores de bueiros eram obstruídos.
A água podia ser despejada sobre a maquete tanto de forma manual como por um
sistema que trazia o líquido de um reservatório por meio de bombeamento. A maquete
contava com um sistema de drenagem para escoar a água após as demonstrações, a qual podia
ser reaproveitada para novas demonstrações.
Metodologia e relato das atividades
A questão problematizadora utilizada para estimular a participação dos alunos nas
atividades do projeto foi: “Por que as enchentes são tão frequentes na região onde está
localizada a minha escola?”.
Para discutir essa questão, foi elaborada uma sequência de seis encontros. Os três
primeiros encontros foram planejados para trabalhar informações sobre as enchentes, suas
principais causas e a influência de intervenções humanas, ao longo da história, em sua
ocorrência. No quarto e o quinto encontros foram planejadas atividades que utilizaram como
recursos visitas a espaços não formais e a utilização da maquete interativa. Já o sexto encontro
foi dedicado à exposição de conclusões dos alunos.
Os encontros tiveram duração média de uma hora, com exceção da atividade de
campo, que durava em média quatro horas, e do sexto encontro, que durava cerca de duas
horas.
O primeiro encontro com as turmas era aberto com uma breve apresentação do projeto
e das pessoas envolvidas em sua execução na escola. Após esse momento, a problematização
era lançada tinha início o trabalho do primeiro tema: as principais causas das enchentes em
áreas urbanas. Após sondagem das concepções prévias dos alunos, o tema foi trabalhado por
meio da projeção de fotos e infográficos relacionados a enchentes em áreas urbanas. Apesar
de esse primeiro encontro ser trabalhado de uma forma mais expositiva, em muitas ocasiões
ele foi enriquecido por relatos de alunos que vivenciaram situações de enchentes na região.
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O segundo encontro tinha como tema as principais intervenções humanas na área
central e Vila Virgínia, ao longo da história, que contribuíram para a ocorrência de enchentes
na região. O tema foi trabalhado com os alunos por meio da comparação de fotos antigas e
atuais da área central e Vila Virgínia, principalmente próximo às margens do córrego Retiro
Saudoso e do ribeirão Preto. A grande maioria, inclusive, não sabia a nome de nenhum dos
córregos e não imaginava que o nome da cidade se devia ao ribeirão Preto.
Durante a comparação das fotos os alunos eram estimulados a apontar diferenças e
discutir se essas alterações ao longo tempo podiam ter alguma relação com as enchentes. As
alterações mais notadas pelos alunos eram a diminuição da vegetação, o surgimento de ruas
asfaltadas e o rápido crescimento da cidade. Os alunos também ficavam impressionados
quando notavam que, já no final do século XVI, as margens dos córregos não apresentavam
vegetação e que, no começo do século XX, iniciou-se a canalização dos córregos.
O recurso utilizado que mais despertou a atenção dos alunos nesse segundo encontro
foi a sobreposição de fotos antigas e recentes de um mesmo local durante as projeções.
Muitos alunos disseram que “era como fazer uma viagem no tempo”.
O terceiro encontro tinha como tema as obras de macrodrenagem. Esse tema foi
trabalhado por meio da apresentação de fotos e infográficos. Após a apresentação, os alunos
eram convidados a discutir o objetivo das obras e quais as suas limitações. Nessas discussões
as opiniões mais recorrentes eram que as obras deixaram a cidade mais bonita, mas não
aumentavam a quantidade de árvores e não resolviam a questão da falta de mata ciliar na beira
dos córregos.
No quarto encontro era realizada a visita a uma área remanescente de mata ciliar às
margens do ribeirão Preto (Figura 1). No local era retomado o conceito de mata ciliar e as
discussões sobre a importância dessas áreas para a absorção da água da chuva e na contenção
do assoreamento do córrego pela queda de solo das margens. Os alunos puderam também
observar uma área de vazante do córrego e discutir sua importância para o córrego.
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Figura 1- Visita a trecho de mata ciliar.
A importância das matas ciliares para a manutenção da vida dentro e nas margens do
ribeirão também era discutida. A quantidade de aves, insetos e pequenos mamíferos
despertava muito a atenção dos alunos.
Os alunos eram estimulados a utilizar binóculos nas suas observações e também a
fazer registros por meio de escrita, desenhos e/ou fotografias, essas por meio de máquinas
fotográficas ou celulares.
Outra atividade realizada contava com a utilização de termômetros para medir a
temperatura dentro e fora da mata ciliar. Os alunos participaram ativamente das medições e,
ao comparar os dados, achavam interessante o fato do interior da mata apresentar uma
temperatura mais amena. As razões para essa diferença de temperatura eram discutidas entre
os alunos assim como a importância dessa característica para os animais que utilizavam a
mata como abrigo.
Para também discutir os objetivos das obras de macrodrenagem, as atividades do
quarto encontro eram estendidas a uma vista aos locais de duas das principais intervenções: a
que alterou do encontro dos córregos na região central, tornando-o mais suave, e a que
aumentou a calha e canalizou o ribeirão Preto na área da Vila Virgínia.
Ao retornar à escola, era realizada uma discussão geral com os alunos sobre a visita.
Na maior parte das ocasiões, os alunos concentravam as discussões nas observações que
fizeram sobre a mata e, principalmente, sobre os animais que eles avistaram. Uma afirmação
comum dos alunos foi que não imaginavam que o córrego e a mata atraiam tantos animais.
Outra constatação frequente era a quantidade de lixo nas margens e até mesmo dentro do
córrego. Os alunos também notavam o lixo na área intervenções, principalmente obstruindo
os bueiros.
No quinto encontro os alunos eram apresentados à maquete interativa (Figura 2). Uma
simulação de situação de chuva forte em uma área urbana e em uma área de permeável
mostrava as diferentes consequências para ambos os lados. Antes da simulação os alunos
eram questionados sobre o que eles acreditavam que iria ocorrer nas duas margens, baseado
nos seus conhecimentos até então. As hipóteses dos alunos eram rediscutidas após a
simulação.
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Figura 2- Atividade com a
maquete interativa.
Muitos alunos aproveitavam a oportunidade para obstruir os “bueiros” da maquete
para simular os efeitos do acúmulo de lixo nos bueiros reais.
O sexto encontro era dedicado à discussão geral do projeto com os alunos. Nesse
encontro eles tiveram a oportunidade de apresentar suas conclusões sobre a questão
problematizadora. As conclusões, organizadas em textos que foram elaborados em sala de
aula e com o auxílio dos professores das turmas, eram expostas oralmente aos colegas. Essa
fase mostrou que os alunos apresentavam dificuldades de organizar suas conclusões,
principalmente na forma escrita.
As conclusões mais frequentes apresentadas pelos alunos para explicar as enchentes na
sua região eram a falta de mata ciliar e áreas verdes, a invasão das áreas de vazante dos
córregos e a impermeabilização do solo devido ao aumento da cidade. O entupimento dos
bueiros também era muito lembrado como um fator agravante.
Para muitos dos grupos, as obras de macrodrenagem seriam importantes na redução da
ocorrência das enchentes, mas não iriam resolver em definitivo o problema já que muitas das
causas não haviam sido resolvidas.
A maioria também destacava a importância da correta destinação do lixo pelas
pessoas. Segundo os alunos, além da evitar a poluição dos córregos, a mudança de hábito
contribuiria para a redução do entupimento dos bueiros e, portanto, da ocorrência de
enchentes.
Avaliação do projeto
Como um dos principais pontos positivos do projeto pode-se destacar o fato de ele ter
proporcionado uma série de situações que os alunos ainda não haviam vivenciado.
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A visita aos espaços não formais foi a primeira experiência de trabalho de campo dos
alunos assim como também de muitos professores. As atividades de registro de dados, por
meio de anotações ou fotografias, tiveram grande aceitação pelos alunos. A utilização de
instrumentos como binóculos para facilitar observações e de termômetros para comparar
temperaturas em diferentes situações também foi muito apreciada pelos alunos.
A utilização da maquete interativa também proporcionou a primeira experiência para
alunos e professores de trabalharem questões ambientais por meio de simulações.
As possibilidades de discutir e apresentar conclusões também agradaram os alunos.
Apesar de apresentarem uma dificuldade natural para organizar suas apresentações,
principalmente de forma escrita, foi marcante a dedicação dos alunos nesse processo.
Trabalhos posteriores de alguns professores com suas turmas resultaram em textos coletivos
mais elaborados e até em apresentações por meio de painéis em situações como feiras
científico-culturais nas escolas.
Outro ponto positivo do projeto foi estimular o interesse pela observação de animais e
relação deles com o ambiente em que eles eram observados.
A observação do entorno da escola também foi outro aspecto estimulado pelo trabalho.
Alguns dos professores participantes do projeto relataram que os alunos passaram a notar
situações como acúmulo de lixo em áreas indevidas, desmatamentos e queimadas, trazendo
essas questões para discussão em sala de aula.
Ainda de acordo com o relato de alguns professores, em alguns casos foi notado o
aumento do interesse dos alunos pela história de Ribeirão Preto e por fotos antigas.
A aprovação dos alunos às atividades do projeto também foi confirmada quando eles
expressaram sua opinião ao responder uma pergunta feita ao final das atividades com as
turmas. A pergunta feita foi: Você achou a forma de trabalho desenvolvida nos encontros
interessante ou desinteressante? Por que?
Algumas das respostas foram as seguintes:
“Interessante, pois nunca tinha feito uma aula de ciência em uma mata. Eu me senti
um cientista.”
“Foi legal. Gostei de visitar a mata e gostei da maquete. Deu para entender melhor as
enchentes com ela.”
“Foi muito legal. Não achava que o córrego tinha tanta vida. Apesar de sujo e fedido,
ele atrai muitos bichos.”
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“Foi interessante, pois vi que as pessoas jogam lixo no córrego e no bueiro e depois
reclamam da enchente.”
Considerações finais
O projeto relatado neste trabalho foi uma atividade organizada de ensino cujo objetivo
foi proporcionar um aprendizado mais envolvente e proporcionar aos alunos envolvidos a
oportunidade de elaborar suas concepções a respeito das enchentes em áreas urbanas,
interligando conhecimentos científicos e históricos.
As atividades do projeto buscaram estimular os alunos a desenvolverem competências
típicas da cultura científica como trabalhar com informações, levantar e testar hipóteses,
assim como elaborar e apresentar conclusões.
Dentre estas atividades podem ser destacadas a utilização de uma maquete interativa,
que permitiu o teste de hipóteses através de simulações de situações dinâmicas como a
ocorrência de enchentes em uma área urbana.
Outra atividade que pode ser destacada foi a utilização de espaços alternativos ao
espaço escolar para o desenvolvimento de ações planejadas com o objetivo de permitir ao
aluno refletir sobre a questão das enchentes em Ribeirão Preto. Esta atividade permitiu que os
alunos estivessem nos locais diretamente ligados ao fenômeno das enchentes e que tivessem
uma visão mais dinâmica sobre o tema enfocado, um dos objetivos que se espera da utilização
de espaços não formais de ensino.
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