Escapada riberão preto
A beer sommelière Bia
Amorim; e, na pág. ao
lado, o ambiente do
Weird Barrel
Se não
tem mar,
vamos
para o bar
Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, é a casa das cervejarias Colorado,
Invicta, Lund, Weird Barrel, Walfänger e Pratinha, produtoras artesanais
que transformaram a cidade num destino essencial para quem
quer conhecer (e beber) alguns dos melhores rótulos do país
Por Rafael Tonon fotos carol gherardi
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REVISTA GOL 119
Escapada riberão preto
Ribeirão Preto, a quase 400 quilômetros
do mar, pode não parecer o lugar mais
adequado para se construir um baleeiro.
Mas a Walfänger (baleeiro, em alemão)
do empresário Augusto Balieiro, 54
anos, não é uma embarcação feita para
perseguir os admiráveis mamíferos, e
sim uma cervejaria dedicada a seguir a
Reinheitsgebot, a lei da pureza alemã que
só permite o uso de água, malte, lúpulo e
levedura na fabricação da bebida. Se não
tem mar, vamos para o bar, como diz a
máxima ribeirão-pretana.
Inaugurada no fim de junho, a
Walfänger se junta à frota da cerveja
artesanal da cidade, formada pelas
fábricas Colorado (comprada recentemente pela Ambev), Lund, Invicta e o
brewpub Weird Barrel. Ainda este ano,
recebem o reforço da cervejaria Pratinha, prestes a ser inaugurada.
A cidade abriga fábricas da bebida
desde 1911, quando se instalou aqui
a Companhia Cervejaria Paulista, e
é casa do tradicional bar Pinguim,
aberto em 1937. Por isso mesmo, ficou
conhecida como capital do chope. No
entanto, até o surgimento dessa esquadra, capitaneada pela pioneira Colorado, muitos dos bebedores de cerveja
da cidade se preocupavam mais com a
temperatura (afinal, mesmo no inverno
de agosto a média máxima é de 27,6 ºC)
do que com o sabor da bebida.
“Acabou aquela história de cerveja gelada e barata. As pessoas querem beber
bem, comer bem e ter uma boa experiência”, diz Diego Lattaro, 29, parte da
tripulação de Augusto Balieiro ao lado
dos filhos Raoni, 30, e Caio, 27; do amigo
Thiago Gui Pereira, 27; e do mestre
cervejeiro Reynaldo Fogagnolli.
No espaço da Walfänger são produzidos por mês cerca de 15 mil litros das
três versões de chope da casa: Helles
(lager leve, claro e dourado), Weizen
(feito de trigo) e Doppel Bock (escuro e
encorpado, com paladar rico em malte). As canecas de 355 ml custam R$ 7
ou R$ 8 e casam bem com o cardápio,
que tem opções como os bolinhos de
carne suína acompanhados de chucrute de repolho roxo (R$ 27 a porção).
Tour da cerveja
A Walfänger é uma das paradas do
Tour Cervejeiro, roteiro de 9 horas
que leva, a cada saída, 14 interessados
pelas cervejarias artesanais da cidade. Durante as visitas, os participantes degustam pelo menos três estilos
produzidos por cada cervejaria e veem
na prática os processos que transEm sentido horário, a partir da foto acima: o casal Antônio e
Larissa; os tonéis da Walfänger; sanduíches servidos no Weird
Barrel; Diego Lattaro, sócio da Walfänger; chope da Pratinha
direto da fonte; e o malte da Colorado pronto para uso
120 REVISTA GOL
O Tour Cervejeiro foi criado depois
de Carla perceber que a cidade era
cada vez mais procurada por pessoas
como Larissa e Leandro. “Resolvi organizar toda a logística para facilitar a
vida de quem viesse a Ribeirão”, conta.
Há pouco mais de um ano em operação, o passeio já recebeu mais de cem
visitantes. São cinco saídas ao ano (as
próximas são em 15 de agosto, 3 de outubro e 5 de dezembro), por R$ 350 por
pessoa, o que engloba o transporte em
van com wi-fi, degustações e o almoço
no bar Casimiros.
Os grupos também são acompanhados por um beer sommelier, como Bia
Amorim. “A cerveja virou um símbolo
de Ribeirão. Perdi a conta de quantas
vezes fiz para amigos e conhecidos listinhas de onde ir beber na cidade”, afirma
ela, que também guia a Rota da Cerveja,
passeio focado em onde tomar a bebida.
Esse tour (a R$ 180 por pessoa) começa
na fábrica da Lund e, de lá, segue para o
Cervejarium, bar da Colorado.
formam malte, lúpulo e leveduras no
líquido que gostam de beber. O clima
é descontraído, com um tom que está
mais para o passeio entre amigos do
que para aulas técnicas. Depois dos
primeiros goles, a turma se solta, faz
perguntas, brinca.
Alguns rejeitam certos rótulos.
“Desse eu não gostei não”, diz, com sinceridade, se referindo a uma pale ale
(dourada, com amargor entre médio e
alto) da Invicta, Makário Luiz Orozimbo Junior, que veio de Anápolis (GO).
O público é formado basicamente por
casais ou amigos, e a quantidade de mulheres é quase igual à de homens. “Elas
estão se interessando cada vez mais pela
bebida. Todas as turmas têm mulheres
cervejeiras”, diz a relações-públicas
Carla Valentim, criadora do tour.
O casal paulistano formado pela
administradora Larissa Oliveira, 27,
e o metalúrgico Antônio Leandro, 34,
fez parte de um dos grupos. “Adoramos Ribeirão porque, além de ter uma
grande quantidade de cervejarias, as
fábricas são muito preparadas para
receber. Aprendemos muito aqui.”
A próxima grande viagem dos dois é à
Bélgica, país que é uma das principais
escolas cervejeiras do mundo.
“Acabou aquela história de cerveja gelada
e barata. As pessoas querem beber bem, comer
bem e ter uma boa experiência”
Diego Lattaro
REVISTA GOL 121
EscapadaA riberão preto
Em sentido horário, a partir da
foto ao lado: cervejas e petiscos no
Biergarten; costelinha de porco no
bar Casemiros; e Rodrigo Silveira,
da Invicta
Ao lado, degustação no Weird
Barrel; e Marcelo Carneiro,
criador da Colorado
Depois, a turma vai para o restaurante Fritz, rede que tem uma cervejaria
própria baseada em Monte Verde (MG),
e termina na fábrica da Invicta. Há
degustações em todos os pontos de parada e as saídas são feitas toda última
quinta-feira do mês. Grupos com pelo
menos oito pessoas podem agendar
visitas particulares.
É só abrir a torneira
Em abril, Ribeirão ganhou um moderno brewpub, o Weird Barrel, cujo
modelo de negócio foi pesquisado com
afinco pelos cinco sócios, que visitaram dezenas de bares semelhantes
em lugares como Montreal, Delaware,
Paris, Amsterdã e Bruxelas.
A minifábrica de cerveja fica atrás
dos balcões e das torneiras de chope
e produz 2.500 litros por mês para
atender somente quem vem até aqui.
“Não engarrafamos as nossas cervejas e queremos oferecê-las o mais
frescas possível. Nós não somos uma
cervejaria que tem um bar, somos
um bar que fabrica suas próprias
cervejas”, diz Rafael Moschetta, 32,
um dos fundadores.
Atualmente, ele e os sócios produzem sete cervejas, algumas com um
ou outro ingrediente incomum nas
receitas, como gengibre e pitanga (os
chopes variam de R$ 6,90 a R$ 16,90,
dependendo do estilo e tamanho). “Fazemos as nossas receitas. Cansamos
de ter que ter regras pra criar cervejas”, diz ele. A ideia da fábrica pequena
é poder testar receitas. “Se uma ideia
der errado, a gente pode jogar fora. Ou
beber aqui”, diz Moschetta. O plano
do Weird Barrel é se tornar, no futuro,
uma cadeia de franquias de brewpubs
espalhada por outras cidades.
Foi por meio da Colorado, que
começou como um bar nesses moldes,
que, em 1996, Ribeirão zarpou em
Iguatemi
Ribeirão Preto
9
direção a uma cerveja com mais
qualidade e sabor. “Eu achei que seria
muito mais fácil, mas não foi. Quando
fizemos a primeira india pale ale
(IPA) do Brasil, ninguém aqui sabia o
que era o estilo”, conta Marcelo Carneiro, 54, fundador da Colorado. “Era
uma coisa sem pé nem cabeça”, ri.
A Colorado se espalhou pelo país a partir de 2007, quando as cervejas passaram
a ser engarrafadas. “A garrafa fez a marca
crescer e ajudou a difundir a Colorado em
todo o Brasil e até em outros países, para
os quais passamos a exportar. Também
ajudou muito o fato de termos conquistado medalhas e prêmios em concursos do
mundo todo. Ficou provado que eu não era
um louco total, né?”, brinca. Não só não é
louco como, prestes a completar 20 anos,
sua cervejaria foi comprada recentemente pela Ambev, braço brasileiro da maior
cervejaria do mundo, em transação de
valor não divulgado.
O negócio, ambas as partes garantem, não mudará em nada a forma
como a cerveja é feita. O que vai mudar
é o lugar, já que a empresa passará em
breve para uma fábrica – em frente à da
Ambev – com estrutura para produzir
130 mil litros, o dobro de hoje. Para
visitar a fábrica da Colorado é preciso
agendar com antecedência.
Três é demais
O especialista em cervejas e mestre em estilos Maurício
Beltramelli escreveu um livro elegendo as cem
Melhores Cervejas Brasileiras. A pedido da GOL, ele
seleciona suas três preferidas de Ribeirão Preto
SP-322
logomarca de suas cervejas”, explica
Gustavo Giubelini, gerente da fábrica,
que em breve também será substituída por uma maior. A cervejaria é
administrada pela esposa de Yussif,
Dalva Ali Mere, e recebe visitantes
com agendamento prévio.
Além das cervejarias, dezenas
de bares e dois eventos anuais em
Ribeirão Preto se estabeleceram no
calendário cervejeiro nacional: o
Slow Brew, feira de negócios que
reúne cervejarias artesanais de todo
o país e mais de 160 rótulos (neste
ano, acontece nos dias 31 de outubro
Av. do Café
1
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Av. Dr. Francisco
Junqueira
SP-322
1 - Invicta; 2 - Colorado; 3 - Weird Barrel; 4 -Casimiros; 5 - Cervejarium;
6 - Biergarten; 7 - Lund; 8 - Joe Beer; 9 - Empório Santa Therezina
122 REVISTA GOL
O processo desencadeado pela
Colorado engrenou nos últimos cinco
anos, quando começaram a surgir
outras cervejarias, como a Lund, a
segunda mais antiga da cidade.
A fábrica, com cinco rótulos em
produção e 30 mil litros por mês, foi
criada a partir da paixão do médico
Yussif Ali Mere Júnior, que durante
uma especialização na cidade de Lund,
na Suécia, teve maior contato com as
cervejas artesanais e resolveu montar
sua pequena fábrica quando voltou ao
Brasil. “Ele decidiu batizar a microcervejaria em homenagem à cidade e escolheu o símbolo de Lund, o leão, como a
123 REVISTA GOL
COLORADO
INDICA
INVICTA IMPERIAL
INDIA PALE ALE
LUND
HEFE-WEIZEN
“O aroma perfumado dos
lúpulos resinosos é delicioso.
Na boca, explode em lúpulo,
malte levemente tostado e um
leve doce. O final é longo e
seco, valorizando a drinkability
[facilidade de tomar, sendo
palatável para a maioria] e
implorando um novo gole.”
“No nariz, percepções
harmoniosamente
balanceadas entre
maltes levemente
caramelados e toques
herbáceos e cítricos
dos lúpulos.
Na boca, amargor e
potência alcoólica.”
“Refrescância é o
lema desta breja!
Com trigo em sua
composição, apresenta
suaves aromas frutados
(lembrando banana)
e condimentados
(semelhantes
ao cravo).”
REVISTA GOL 123
Onde beber
Walfänger R. Carlos Ribeiro
Souza, 115, Bonfim Paulista.
Tel.: (16) 3325-3660.
www.walfanger.com.br.
Weird Barrel R. Altino Arantes,
1.854. Tel.: (16) 3101-5285.
www.facebook.com/WeirdBarrel.
Lund R. José Roberto Vitorazzi,
325, Nova Aliança. Tel.: (16) 36215915. www.cervejarialund.com.br.
Invicta Av. do Café, 1.365,
Vila Tibério. Tel.: (16) 3236-1365.
www.cervejariainvicta.com.br.
Colorado R. Minas, 394, Campos Elíseos. Tel.: (16) 3441-5090.
www.cervejariacolorado.com.br.
Casimiros R. Casimiro de Abreu,
944, Vila Seixas. Tel.: (16) 36108558. www.sejacasimiro.com.br.
Cervejarium Av. Indepêndencia,
3.242, Campos Elísios.
Tel.: (16) 3441-5090.
www.coloradocervejarium.com.br.
Biergarten Av. Lygia Latuf Salomão, 605, box 83, Novo Mercado
Municipal. Tel.: (16) 3237-0722.
www.emporiobiergarten.com.br.
Voos para ribeirão preto (rao) — GOL
ORIGEM
saídachegada
São Paulo (CGH)
07h05
08h05
Curitiba (CWB)
15h12
18h58
Porta Alegre (POA)
14h12
18h58
Maringá (MGF)
05h00
08h05
Rio de Janeiro (SDU)
16h06
18h58
Acesse www.voegol.com.br para mais opções de voos ou consulte
seu agente de viagens. Voos sujeitos a alteração sem aviso prévio.
A partir da foto no alto: ambiente
do Biergarten; torneiras de chope
do Cervejarium; e garrafas à venda
no Empório Santa Therezinha
124 REVISTA GOL
e Lund, também está de mudança para
uma nova fábrica.
“Nós já prevíamos no plano de
negócios o crescimento e a mudança
de fábrica. Mas a nossa projeção, que
era pra 2016, precisou ser antecipada”, explica Silveira. “E, com o fato de
estarmos recebendo mais visitantes,
é bom deixar a casa mais bonita, né?”
joe beer Av. Lygia Latuf Salomão, 605, box 99, Novo Mercado
Municipal. Tel.: (16) 3237-3970.
Empório Santa Therezinha
Av. Luiz Eduardo de Toledo Prado,
900, Shopping Iguatemi.
Tel.: (16) 3904-3665.
Quem leva
Tour Cervejeiro
www.tourcervejeiro.com.br.
Rota da Cerveja Livre Acesso
Turismo. R. Marcondes Salgado,
1.134, sala 6. Tel.: (16) 3941-3086.
www.livreacesso.tur.br.
Onde ficar
Oásis Tower Hotel R. Maurílio
Biaggi, 2.955. Tel.: (16) 3878-3000.
www.hoteisoasis.com.br. Diária
para casal, com café da manhã,
a partir de R$ 220.
Ideali Hotel R. José Roberto
Vittorazzi, 80. Tel.: (16) 3234-0373.
www.idealihotel.com.br. Diária para
casal, com café da manhã, a partir
de R$ 170.
Arco Hotel Ribeirão II Av. Braz
Olaia Acosta, 1.920. Tel.: (16)
3877-0400. www.arcohotel.com.
br. Diária para casal, com café da
manhã, a partir de R$ 192.
Alugue um carro
Localiza Aeroporto de Ribeirão
Preto. Av. Tomaz Alberto Whatley,
s/n, Leite Lopes. Tel.: (16) 36262266. www.localiza.com.br.
agradecimentos bia amorim, carla valentin, ana rocha, gerente geral hotéis oásis
e 1º de novembro), e o IPA Day (marcado para 22 de agosto), voltado apenas a
rótulos nacionais e internacionais do
estilo de alto amargor que é o queridinho dos cervejeiros: india pale ale.
A cidade também forma novos cervejeiros. A sede da cervejaria Invicta, por
exemplo, tem uma sala na parte superior da fábrica, onde acontecem cursos
de formação. “Temos uma parceria
com a Jornada Cervejeira, do Senai. De
três turmas que tivemos, já foram montadas cinco fábricas”, afirma Rodrigo
Silveira, um dos fundadores da Invicta,
que, assim como as já citadas Colorado
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Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, é a casa das cervejarias