VIII ENCONTRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA ECOLÓGICA 5 a 7 de agosto de 2009 Cuiabá - Mato Grosso - Brasil INDICADORES DE VULNERABILIDADE SÓCIO-AMBIENTAL DAS FAVELAS DE RIBEIRÃO PRETO COMO SUBSÍDIO PARA PROCESSOS DE REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA Vera Lucia Blat Migliorini (Faculdades COC) - [email protected] Arquiteta e Urbanista (FAUUSP). Doutora em Engenharia e Planejamento Urbano (EPUSP). Professora dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e de Engenharia Ambiental; e Coordenadora do Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo das Faculdades COC Fabiana Carlucci Palazzo (Faculdades COC)Graduanda em Arquitetura e Urbanismo (Faculdades COC) Lívia Gonçalves Viana (Faculdades COC)Graduanda em Arquitetura e Urbanismo (Faculdades COC) INDICADORES DE VULNERABILIDADE SÓCIO-AMBIENTAL DAS FAVELAS DE RIBEIRÃO PRETO COMO SUBSÍDIO PARA PROCESSOS DE REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA Resumo O trabalho define e apresenta alguns indicadores de vulnerabilidade ambiental e social que podem ser aplicados na avaliação de núcleos de favela para subidiar o desenvolvimento de políticas públicas que envolvam processos de regularização fundiária. Como estudo de caso são avaliadas as favelas da cidade de Ribeirão Preto, SP, que é contextualizada procurando evidenciar os fatores que contribuiram para a consolidação de seus assentamentos informais. Em seguida são apresentados os indicadores utilizados para a avaliação destes assentamentos, bem como os critérios definidos para este fim e suas relações com as intervenções físicas decorrentes dos processos de regularização fundiária. Após a apresentação e discussão dos resultados da pesquisa, são indicadas algumas recomendações para o seu aprimoramento futuro. Palavras chave: 1. Indicadores ambientais / 2. favelas / 3. política habitacional / 4. regularização fundiária / 4. meio ambiente urbano. Abstract This paper studies social and environmental vulnerability indicators applied in slums settlements analysis as cooperative instruments in housing policy development associated to upgrading slum process. The analysis is applied to all slum quarters located in Ribeirão Preto City, SP, evidencing the factors related to the consolidation of these informal settlements. The indicators applied to this evaluation are presented, as well as the used criteria. These criteria are then judged according to the physical interventions derived from the property-title regularization. The results discussion leads to recommendations for subsequent studies. Key words: 1. environmental indicators / 2. Slum quarters / 3. housing policy / 4. propertytitle regularization / 5. urban environment 0 1. Introdução Sede do maior pólo sucro-alcooleiro do mundo, a cidade de Ribeirão Preto ostenta na paisagem dos setores mais nobres e, via de regra, mais novos de seu território, a riqueza produzida na região. Com um mercado imobiliário forte e em permanente expansão, multiplicam-se os empreendimentos destinados às camadas mais favorecidas da população e mesmo aos produtores rurais de outras localidades que encontram ali boas oportunidades de investimento. Porém, de modo similar ao que ocorre em outras regiões prósperas do país, a desigualdade social e territorial é marcante. Paralelamente à incorporação dos luxuosos residenciais fechados, esvaziam-se regiões antigas e mais centrais da cidade, e proliferam os bolsões de pobreza, na forma de loteamentos subsidiados pelo poder público distantes das áreas mais equipadas e, em meio deles, precários assentamentos habitacionais clandestinos. Segundo a Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão Pública de Ribeirão Preto – SEPLAN-RP, existem na cidade trinta e quatro núcleos de favelas, compostos por cerca de quatro mil barracos, para os quais estima-se uma população pouco superior a dezoito mil habitantes, o que representaria algo próximo de 3,6% da população total do município. Uma primeira leitura mais cuidadosa sobre a grandeza representada por tais números, principalmente ao considerarmos a situação de metrópoles brasileiras como São Paulo e Rio de Janeiro, onde a presença de domicílios inadequados supera a casa dos 15% (CAVALLIERI e OLIVEIRA, 2006), talvez viessem a miminizar a importância desta questão. O que impressiona, no caso de Ribeirão Preto, é a velocidade vertiginosa a partir da qual multiplicam-se tais assentamentos. Dados de 1990, também disponíveis na SEPLAN-RP, apontavam a existência, naquela data, de dezessete núcleos de favela, que juntos somavam 1.884 barracos, abrigando uma população estimada de 5.575 habitantes. Assim, observa-se que num período de dezoito anos, dobrou o número de núcleos de favelas e praticamente quadriplicou o número de barracos e a população ali residente, apesar da implementação de algumas iniciativas isoladas que levaram à remoção de alguns dos núcleos mais antigos, que será comentada adiante. Contribui para esta situação o estigma da Califónia Brasileira, amplamente divulgado pelos veículos de comunicação em massa e patrocinado pelos próprios empresários agrícolas da região que, fartos das reivindicações dos trabalhadores rurais paulistas já sindicalizados, buscam nos estados mais pobres da nação a mão-de-obra barata necessária ao corte da cana. 1 Agravando este quadro, é preciso destacar que o Município de Ribeirão Preto nunca contou com um Secretaria da Habitação, assunto cujas atribuições são de responsabilidade da Companhia Regional de Habitação de Riberão Preto – COHAB-RP, que, como órgão inicialmente vinculado ao extinto BNH – Banco Nacional de Habitação, tem suas ações mais pautadas pelo mero gerenciamento de empreendimentos subsidiados pelo Estado do que pela definição e implementação de uma política habitacional. Como se nota, o processo de favelização na cidade de Ribeirão Preto constitui um quadro que se agrava dia a dia, entretanto de solução relativamente simples se comparado a outras grandes cidades do país, considerando os números envolvidos. A aprovação do Estatudo da Cidade e a implantação do Ministério das Cidades representam hoje fatores que podem contribuir para a erradicação deste problema, oferecendo instrumentos e formas de financiamento passíveis de serem aplicados em Ribeirão Preto, caso o município defina e desenvolva uma política habitacional coerente com seus objetivos e pressupostos. Neste sentido, a pesquisa apresentada neste trabalho tem como principal objetivo oferecer alguns subsídios para a definição de uma política pública para a regularização fundiária das favelas de Ribeirão Preto, através da definição e identificação de indicadores de vulnerabilidade ambiental e social que permitam verificar as situações onde as condições do meio reúnem condições que garantam, além de unidades habitacionais seguras e salubres, o adequado atendimento pelas redes de infra-estrutura e serviços urbanos. A definição e análise de indicadores como contribuição para o estudo da qualidade dos espaços urbanos tem aparecido com freqüência crescente em pesquisas no campos do urbanismo, da geografia e principalmente das ciências ambientais. No caso específico das favelas, indicadores já foram utilizados como instrumento para verificação da salubridade ambiental de assentamentos já urbanizados (ALMEIDA e ABIKO, 2000) e também para subsidiar a tomada de decisões referentes a processos específicos de intervenção urbanística para fins de regularização fundiária (ROCHA et al., 2002). Herculano (2000) salienta que estudos sobre indicadores aplicados à escala intra-urbana podem ser úteis na formulação de políticas locais voltadas à minimização de desigualdades sócio-econômicas, definindo alocações de recursos e mesmo apontando a necessidade de ações de caráter preservacionista. Face ao exposto, acredita-se que a identificação de indicadores de vulnerabilidade sócio-ambiental possa ser aplicada para subsidiar a definição de políticas públicas municipais que envolvam a regularização de assentamentos precários, identificando tanto as formas de intervenção mais adequadas quanto áreas prioritárias em termos de investimento. 2 2. Definindo alguns indicadores de vulnerabilidade social e ambiental Alves (2004, p. 1), define vulnerabilidade sócio-ambiental como “a coexistência ou sobreposição espacial entre grupos sociais muito pobres e com alta privação (vulnerabilidade social) e áreas de risco ou degradação ambiental (vulnerabilidade ambiental)”, manifesta pela combinação destas duas dimensões. É com base neste entendimento que é realizada a seleção e a construção dos critérios de avaliação dos indicadores utilizados nesta pesquisa, que além de procurar manter uma abordagem multidisciplinar, fundamentou-se nas recomendações de Romero et al. (2004) 2.1 Retomando alguns conceitos Para melhor entendimento do procedimento metodológico utilizado nesta pesquisa, é necessário buscar alguns conceitos relacionados à questão dos assentamentos precários e dos processos envolvidos em sua regularização. Vários autores já apresentaram definições para o termo favela, que na maioria das vezes enfatizam a precariedade das habitações e a falta de melhoramentos públicos. De qualquer forma, em todas estas definições estão presentes três dimensões que podem ser consideradas como identificadoras da favela: a arquitetônica, que se manifesta na construção improvisada, com materiais e condições de salubridade inadequadas; a urbanística, que se refere justamente à inexistência das redes, serviços e equipamentos urbanos e a jurídica, caracterizada pela irregularidade na posse da terra. A origem da favela é inerente ao intenso processo de urbanização, que se manifesta no Brasil principalmente a partir da década de 60. Os anos 80, com a recessão, trouxeram o empobrecimento acelerado e uma violenta redução dos investimentos públicos e privados em urbanização. Contraditoriamente, neste quadro, a população urbana passou, no final da década, a representar 70% da população total do país. Com a exclusão social, a maioria destes habitantes se vê forçada a encontrar formas alternativas de moradia para garantir sua sobrevivência, e, neste contexto, a “produção informal de habitações e assentamentos surge como uma estratégia de acesso à cidade.” (CAVALLIERI e OLIVEIRA, 2006, p. 4) A favela, para alguns, é a solução da moradia, e materializa a luta pela sobrevivência e pelo direito a uma parcela do solo urbano. Para Smolka (2002), a favelização não é apenas conseqüência da desigualdade social e da pobreza, mas também sua causa, sendo assim responsável por sua reprodução e aprofundamento. Esta situação de exclusão extrapola as condições físicas em que vivem e estende-se à uma outra que seus moradores sofrem tanto no 3 mercado de trabalho, como nas relações sociais, grande parte deles apresentando problemas psicológicos desde os relacionados à convivência social até à forma com que se vêem inseridos na cidade, passando a desacreditar de suas capacidades. Os processos de regularização das favelas surgem como possibilidades de recuperação e reconhecimento legal destas áreas, e envolvem algumas formas de intervenção para o equacionamento da situação física representada pelo meio natural, pelas condições de acesso e mobilidade, pela qualidade das habitações e dos espaços de uso comum. Estas formas de intervenção podem apresentar-se mediante três processos não excludentes entre si: a remoção ou erradicação, recomendada apenas em situações onde as condições natuais do sítio representam riscos à população; a urbanização da favela, aplicável em casos onde o meio é favorável e a condição das unidades habitacionais pode ser solucionada mediante orientação e assistência técnica; e a reocupação, adequada a localizações ambientalmente adequadas, mas a condição das moradias é extremamente precária e requer sua substituição. Nas duas últimas alternativas, a população permanece na área inicialmente ocupada. Os programas de regularização fundiária são então lentamente incorporados às práticas de planejamento urbano na medida em que a questão habitacional passa a ser inserida como parte dos direitos humanos. A Conferência de Istambul (1996) amplia o conceito do direito à moradia, nele incluindo o direito à cidade, e conseqüentemente aos serviços, redes e equipamentos urbanos, ao transporte, lazer, e mesmo ao comércio e à prestação de serviços. Seguindo esta lógica, a Emenda Constitucional n.º 26 (2000), que altera o artigo 6º da Constituição Federal, insere a moradia no rol dos direitos sociais e “obriga o Poder Público a atuar para sua plena concretização e não apenas reconhecê-lo, mas respeitá-lo e protegê-lo.” (CAVALLIERI e OLIVEIRA, 2006, p. 4) 2.2 Ribeirão Preto e suas favelas Ribeirão Preto localiza-se na região Nordeste do Estado de São Paulo, a 313 km da capital, à qual se liga através da Rodovia Anhanguera, que também conecta o município ao Triângulo Mineiro. Esta, juntamente com um conjunto de outras cinco rodovias constituem um entroncamento que permite fácil acesso a diferentes regiões do país. O Censo de 2000 contabilizou um total de 504.923 habitantes no município, situando-o entre os maiores do Estado e também do Brasil. As três dimensões do Índice Paulista de Responsabilidade Social – Riqueza, Longevidade e Escolaridade, divulgados pela Fundação SEADE, posicionam Ribeirão Preto no Grupo 1 - Municípios com nível elevado de riqueza e bons níveis nos indicadores sociais. 4 Paralelamente a estas qualidades, observa-se na cidade os efeitos do grande fluxo migratório decorrente da produção canavieira e o conseqüente aumento da demanda habitacional. Suprir esta demanda é responsabilidade da COHAB-RP, cuja atuação esteve sempre voltada à incorporação de conjuntos habitacionais nas franjas da cidade, apresentando produção de destaque principalmente na década de 70. Tais empreendimentos, entretanto, foram majoritariamente destinados às faixas da população com renda superir a três salários mínimos, deixando à população mais pobre a irregularidade como única opção. Os primeiros registros oficiais sobre a existência de núcleos de favela na cidade datam de 1977, mas é apenas na década de 90 que se iniciam alguns programas de desfavelamento. Como o próprio nome denuncia, praticamente todas as iniciativas públicas neste sentido envolveram processos de remoção1, alguns bem sucedidos, outros parcialmente, e outros resultaram em novas invasões. É importante destacar que boa parte destas remoções ocorreu em núcleos localizados nas regiões mais nobres da cidade, fruto das pressões exercidas pelo mercado imobiliário e mesmo pelos representantes do Poder Público ali residentes, a revelia do que define o próprio Plano Diretor Municipal, que ao tratar da política habitacional, em seu artigo 105º preconiza em seus objetivos “Amenizar o fenômeno da segregação econômicosocial, especialmente no que se refere ao acesso à moradia e ao uso do espaço urbano, estimulando a integração física e humana no processo de desenvolvimento das funções sociais da cidade conforme diretrizes da Lei 10.257 de 1º de julho de 2001 chamado Estatuto da Cidade”, e neste contexto insere ainda a necessidade de promover intervenções nas favelas existentes. Há que se considerar também a atuação do Ministério Público, que através das Promotorias do Meio Ambiente e do Urbanismo – com base na Constituição Estadual, sempre colocou-se frontalmente contra qualquer iniciativa que resultasse na urbanização de núcleos localizados em áreas verdes, o que representa a grande maioria dos casos em Ribeirão Preto, como pode ser observado na Tabela 01. Apenas após a Emenda Constitucional Estadual de n.º 23, aprovada em 31/01/07, que altera o artigo nº. 180 da Constituição Paulista, e passa a permitir a desafetação de áreas verdes para a regularização de áreas de uso público ocupadas por moradia de interesse social, que a urbanização passou a ser admitida, pelos defensores públicos, como alternativa viável para a questão das favelas. Atualmente, encontram-se em desenvolvimento na cidade dois processos destinados à regularização de núcleos de favelas – o do complexo Aeroporto/da Mata e o de Monte Alegre. 5 Região Denominação Destinação da área 1 Norte Simioni - Magid Simão Trad 2 Norte Simioni - Brejo 3 Norte 4 Norte 5 6 Norte Norte Simioni-V Norte Simioni - Usina de Reciclagem Aeroporto Jóquei Clube Sistema de Lazer / Institucional Área Institucional /Sist. de Lazer Área Verde 7 Norte Da Mata 8 Norte 9 10 11 12 Norte Leste Leste Norte 13 Norte 14 Norte 15 Norte 16 Norte 17 Norte 18 Norte 19 Norte 20 21 Norte Norte 22 Norte 23 Norte Leão - Leão Itabirite Adamantina Anhanguera I Anhanguera II Salgado Filho Salgado Filho R. Nuporanga Transerp Jd. Jandaia Torre Jd. Jandaia Igreja Jd.Jandaia – V.Norte Jd. Jandaia Japurá Valentina Figueiredo Avelino Palma Vila Elisa Coca-Cola - Vila Augusta Córr.Tanquinho Área Total (m²) Barra cos (un.) Pop. Est. (hab) Densidade Pop. Est. (hab/ha) 36570,60 512 2560 700,02 19349,00 150 750 387,62 s/inf. 300 1500 s/inf. Área Institucional 24334,00 120 600 246,57 Área Verde (praça) Área Verde Área Particular / Área Verde 27942,30 6690,00 170 45 850 225 304,20 336,32 99867,60 413 1612 161,41 Área Particular 110401,00 34 140 12,68 Área Verde (Praça) Área Verde (Praça) Área de rua Área Verde (Praça) 13610,60 3773,20 793,30 5437,50 98 26 s/inf. 86 490 130 s/inf. 430 360,01 344,54 s/inf. 790,80 Área Verde (Praça) 10659,00 60 300 281,45 Praça 10087,60 70 350 346,96 Praça 6223,00 54 270 433,87 Praça/Sist. Recreio 5749, 0000 39 195 339,19 Praça 4203,00 44 220 523,44 Sist. de Recreio 4603,70 72 360 781,98 Área Institucional / Sist. de Recreio Sist. de Recreio Área Verde 8557,00 44 220 257,10 22573,50 7381,00 183 27 915 135 405,34 182,90 Praça 5952,00 50 250 420,03 Área desapropriada 23007,60 110 550 Áreas de APP / desapr. de s/inf. s/inf. s/inf. 24 Norte Vila Zanetti sist. viário 25 Norte Flórida Paulista Sist. de Recreio 12716,30 12 28 26 Oeste Jd. Itaú Praça / A. Verde 25918,00 36 120 Monte Alegre - Área Institucional / Praça 51197,00 418 1354 27 Oeste SBT / s/inf. 28 Oeste Mangueira Sistema de Praça 42687,00 345 1171 29 Oeste Rio Pardo Área de Via Férrea 15268,15 190 950 30 Oeste Av. Andradas Área verde 45985,00 32 128 31 Leste Jd. Zara Praça 14604,12 94 349 32 Leste Jd. do Trevo Praça 12877,50 150 750 33 Sul Faiane - Bonfim Área de Via Férrea 4998,45 43 133 34 Sul Lagoa Área Verde 6121,00 12 s/inf. TOTAL 8616595,72 4039 18035 Tabela 01: Quadro síntese da situação das favelas de Ribeirão Preto em maio de 2008 Fonte: Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão Pública 239,05 s/inf. 22,02 46,30 264,47 274,32 622,21 27,84 238,97 582,41 266,08 s/inf. 20,93 6 O primeiro é decorrente da internacionalização do Aeroporto Leite Lopes, e se vale dos efeitos negativos da proximidade a este equipamento para mais uma vez optar pelo processo de remoção – já que as favelas, assim como boa parte de conjuntos habitacionais regularmente promovidos pela COHAB-RP, situam-se na zona de ruído imprópria para usohabitacional, segundo as recomendações do DAESP – Departamento de Aviação do Estado de São Paulo. O segundo é fruto da mobilização da comunidade local, que aproveitou-se dos debates decorrentes do caso Aeroporto para alavancar o primeiro processo de urbanização de favelas que deverá ser implantado na cidade. A tabela 01 apresenta uma síntese da situação atual das favelas existentes em Ribeirão Preto. Como já colocado, são trinta e quatro núcleos, localizados majoritariamente, do ponto de vista fundiário, em áreas verdes e sistemas de lazer. Apresentam densidades populacionais que variam desde as extremamente baixas, como a observada no núcleo 08 – LeãoLeão/Itabirite, às relativamente altas, que superam os 700 habitantes por hectare, representadas por núcleos mais antigos como os de n.º 01 – Simioni/Magid Simão Trad e de n.º 17 – Jardim Jandaia/Igreja. De forma diferente do que ocorre nas favelas metropolitanas, em Ribeirão Preto, boa parte das unidades habitacionais apresentam quintais, onde muitas vezes se produzem frutas e hortaliças ou se criam animais como porcos e galinhas. Pode-se intuir, numa primeira leitura, que tal situação seja favorável à implementação de programas de urbanização. 2.3 Desenvolvimento da pesquisa empírica A pesquisa empírica procurou identificar as condições ambientais naturais e antrópicas e também sociais presentes nos núcleos de favela e suas imediações, procurando associá-las a cada um dos três processos de intervenção física inerentes à regularização fundiária já apresentados. Assim, num primeiro momento, foi feita uma leitura mais geral da localização dos núcleos de favela, tendo em vista condicionantes ambientais naturais inclusive já considerados no próprio macrozoneamento definido no Plano Diretor de Ribeirão Preto, mais especificamente na Lei n.º 2157/07, que trata do Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, ilustrada no Mapa 01. Este macrozoneamento aponta duas situações de vulnerabilidade ambiental. A primeira é constituída pelas áreas definidas como Zona de Proteção Máxima – ZPM, compostas pelos remanescentes de vegetação nativa e pelas várzeas e aluviões dos cursos 7 d’água, onde é proibido qualquer tipo de ocupação. A segunda é representada pela Zona de Urbanização Restrita – ZUR, gelologicamente composta pela Formação Botucatu-Pirambóia, onde ocorre o afloramento e recarga do Aqüífero Guarani, sendo assim bastante vulnerável do ponto de vista de ocupações que levem à impermeabilização excessiva do solo e à contaminação por resíduos sólidos e líquidos. Mapa 01: Localização dos núcleos de favelas em Ribeirão Preto sobreposta ao Macrozoneamento definido pela Lei n.º 2157/07 (Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo) Elaborado a partir de mapas fornecidos pela Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão Pública Face a estas considerações, numa primeira interpretação do Mapa 01, pode-se sugerir que os núcleos localizados na ZPM deveriam ser objeto de programas de remoção, enquanto aqueles localizados na ZUR poderiam ser regularizados mediante programas de urbanização com remoção parcial, dependendo da densidade populacional e ocupacional observada em cada um deles, tendo em vista a manutenção de áreas permeáveis significativas.2 A leitura 8 deste mapa também permite relacionar o processo de favelização em Ribeirão Preto com a consolidação de uma “periferia da periferia”, tal como Alves (2005) identifica na metrópole paulistana. A definição dos indicadores a serem analisados também procurou associa-los aos processos de intervenção necessários à regularização fundiária. Neste sentido, foram definidos dois grupos de indicadores, um destinado à identificação da vulnerabilidade natural e antrópica e outro à da vulnerabilidade sócio-ambiental. No primeiro grupo foram reunidos os aspectos passíveis de “quantificar” o potencial para programas de urbanização e/ou reocupação dos núcleos analisados, envolvendo estabilidade do características solo, declividade e tanto do meio natural, tais como vulnerabilidade ambiental, quanto do meio antrópico, como ocupação de área de preservação ambiental, e presença de resíduos e escoamento de águas servidas. Para esta quantificação, foram atribuídas notas de 1,0 a 5,0 a cada um dos indicadores, de modo que quanto mais favorável fosse a situação à urbanização e/ou à reocupação, maior seria a pontuação. Os indicadores de vulnerabilidade ambiental natural e antrópica, bem como sua finalidade e critérios utilizados para sua pontuação estão sintetizados na Tabela 02. Já os indicadores de vulnerabilidade sócio-ambiental, foram um pouco além, procurando qualificar as características dos assentamentos para programas apenas de urbanização. Neste grupo foi analisado um número menor de indicadores, que além de considerar características físicas do núcleo, tais como pavimentação das vias e estado das unidades habitacionais, procurou avaliar as características gerais do entorno tendo em vista sua compatibidade com o uso residencial, tais como condições de mobilidade e usos do solo predominantes. De modo similar ao grupo anterior, também foram atribuídas notas de 1,0 a 5,0 aos indicadores de vulnerabilidade sócio-ambiental, de modo que quanto maior a pontuação, mais próximo o núcleo estaria de programas que envolvessem exclusivamente processos de urbanização. Tais indicadores, assim como sua finalidade e critérios utilizados para sua pontuação encontram-se sintetizados na Tabela 02. Para a identificação dos indicadores e preenchimento das planilhas de campo, foram realizadas visitas aos trinta e quatro núcleos de favelas existentes na cidade. Vale ressaltar que, em alguns casos, principalmente naqueles localizados nas regiões mais periféricas, houve certa dificuldade em reconhecer os limites de cada um dos núcleos, já que a situação das habitações construídas nos lotes “regulares” era bastante similar à das áreas invadidas. 9 VULNERABILIDADE AMBIENTAL NATURAL E ANTRÓPICA FINALIDADE CRITÉRIOS DE PONTUAÇÃO Avaliar a adequação do solo Verifica-se a porcentagem de superfície de solo considerando as obras de estável considerando a área total: urbanização e edificação. ● 76 a 100% estável – 5,0 ● 75 a 51% estável – 4,0 ● 50% estável – 3,0 ● 26 a 49% estável – 2,0 ● 0 a 25% estável – 1,0 Declividade predominante Avaliar a declividade do Verifica-se a declividade predominante em pelo terreno considerando as menos 80% da área total: obras de urbanização e ● até 7% – 5,0 edificação. ● de 8 a 15% – 4,0 ● de 16 a 20% – 3,0 ● de 21 a 29% – 2,0 ● acima de 30% – 1,0 Avaliar a localização da Verifica-se a porcentagem da área ocupada Vulnerabilidade a favela considerando a localizada abaixo das cotas de inundação em inundações presença de cursos d’água relação à área total: no entorno. ● 76 a 100% inundável – 5,0 ● 75 a 51% inundável – 4,0 ● 50% inundável – 3,0 ● 26 a 49% inundável – 2,0 ● 0 a 25% inundável – 1,0 Ocupação de Área de Avaliar a localização da Verifica-se a porcentagem da área ocupada considerando a localizada em APP em relação ao total: Preservação Permanente favela ocupação de áreas ● 76 a 100% da área total – 5,0 (APP) protegidas pela legislação ● 75 a 51% da área total – 4,0 ambiental. ● 50% da área total – 3,0 ● 26 a 49% da área total – 2,0 ● 0 a 25% da área total – 1,0 Presença de cobertura Avaliar a presença de áreas Presença avaliada como elemento qualificador arborizadas nos espaços de dos espaços comunitários: vegetal uso comunitário. ● muito significativa – 5,0 ● significativa – 4,0 ● razoável – 3,0 ● pouco significativa – 2,0 ● insignificante – 1,0 avaliada como elemento Deposição irregular de Avaliar a presença de Presença resíduos sólidos descartados desqualificador dos espaços comunitários: resíduos sólidos nos espaços de uso ● insignificante – 5,0 comunitário. ● pouco significativa – 4,0 ● razoável – 3,0 ● significativa – 2,0 ● muito significativa – 1,0 avaliada como elemento Escoamento in natura de Avaliar a presença de Presença escoamento in natura de desqualificador dos espaços de circulação: águas servidas águas servidas nos espaços ● insignificante – 5,0 de circulação. ● pouco significativa – 4,0 ● razoável – 3,0 ● significativa – 2,0 ● muito significativa – 1,0 Tabela 02: Apresentação e descrição dos indicadores de vulnerabilidade ambiental natural INDICADOR Estabilidade do solo 10 VULNERABILIDADE SÓCIO-AMBIENTAL FINALIDADE CRITÉRIOS DE PONTUAÇÃO Avaliar a presença de ● vias externas e internas – 5,0 pavimentação nos espaços ● vias externas e parte das internas – 4,0 de circulação internos e ● apenas nas vias externas – 3,0 externos. ● em parte das vias externas – 2,0 ● sem pavimentação – 1,0 Avaliar aparência externa ● muito bom – 5,0 Predominância do estado das unidades habitacionais. ● bom – 4,0 geral das unidades ● regular – 3,0 habitacionais ● ruim – 2,0 ● péssimo – 1,0 Verificar o material utilizado ● 76 a 100% alvenaria – 5,0 Material predominante 4,0 nas unidades habitacionais na maioria das unidades ● 75 a 51% alvenaria – habitacionais: alvenaria ● 50% alvenaria e outros materiais – 3,0 versus outros materiais ● 51 a 75% outros materiais – 2,0 impróprios à construção. ● 75 a 100% outros materiais – 1,0 Avaliar a proximidade do ● transporte coletivo até 500m – 5,0 Condições de Mobilidade acesso a transporte coletivo ● transporte coletivo até 1000m – 4,0 e a disponibilidade de outros ● transporte coletivo além de 1000m – 3,0 meios de circulação. ● apenas transporte individual – 2,0 ● apenas a pé ou de bicicleta – 1,0 Uso do solo predominante Avaliar o uso do solo ● residencial ou misto com comércio e serviços presente no entorno e sua complementares – 5,0 na vizinhança compatibilidade com o ● residencial misto com comércio e residencial. serviços pouco conflitantes – 4,0 ● residencial misto com comércio e serviços conflitantes – 3,0 ● residencial misto com industrial – 2,0 ● predominantemente industrial – 1,0 Tabela 03: Apresentação e descrição dos indicadores de vulnerabilidade sócio-ambiental INDICADOR Pavimentação das vias 3. Discutindo alguns resultados A interpretação dos resultados expostos a seguir sem dúvida dariam margem a especulações e recomendações mais aprofundadas e detalhadas. Entretanto, devido às limitações de tamanho, são apresentadas neste trabalho algumas reflexões de caráter mais geral. Os resultados obtidos para os indicadores de vulnerabilidade ambiental natural e antrópica, sintetizados na Tabela 04, mostram que a maioria dos núcleos de favela obteve uma nota mediana (entre 2,9 e 3,5) com relação à média entre os vários indicadores avaliados, sugerindo que estariam qualificados para programas de urbanização e/ou reocupação, mas ainda apresentam alguns aspectos que, se analisados isoladamente, não o qualificariam totalmente para tal. Este resultado pode ter sido induzido pela avaliação do indicador que verificou a presença de cobertura vegetal. Ainda que tal presença realmente represente uma maior aptidão a programas de urbanização ou reocupação, a inexistência da mesma, a 11 MÉDIA DO NÚCLEO Escoam. "in natura" de águas servidas Dep. Irreg. de resíduos sólidos Presença de cobertura vegetal Presença de APP Vulnerabilidade a inundações Declividade Estabilidade do solo Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 Nome Simioni Magid Simão Trad 5 2 3 5 3 5 4 3,9 Simioni - Brejo 3 2 2 2 4 4 4 3,0 Simioni - Via Norte 1 3 2 3 3 5 5 3,1 Simioni 1 3 2 3 3 5 5 3,1 Aeroporto 5 2 1 4 4 3 1 2,9 Flórida Paulista 4 3 3 3 4 4 4 3,6 da Mata 5 2 1 5 4 3 1 3,0 Leão-Leão Itabirite 4 5 2 3 2 5 5 3,7 Adamantina 3 2 2 5 2 4 4 3,1 Anhanguera I 5 2 1 5 2 1 1 2,4 Anhanguera II 4 2 1 5 1 4 1 2,6 Salgado Filho 4 3 2 5 2 2 2 2,9 Salgado Filho Nuporanga 3 4 2 4 2 4 3 3,1 Transerp 3 3 2 5 2 4 3 3,1 Jardim Jandaia - da Torre 3 3 2 5 3 4 3 3,3 Jardim Jandaia - Igrejas 5 4 2 5 2 2 2 3,1 Jardim Jandaia -Via Norte 5 4 2 5 1 3 1 3,0 Jardim Jandai - Japurá 3 3 2 5 3 2 5 3,3 Valentina Figueiredo 4 3 2 3 4 3 4 3,3 Avelino Palma 5 2 1 5 2 4 2 3,0 Vila Elisa 5 1 1 5 2 3 2 2,7 Coca-cola 5 3 1 5 2 3 4 3,3 Corrego do Tanquinho 5 1 2 1 2 3 2 2,3 Vila Zaneti 5 2 5 1 2 2 2 2,7 do Jóquei Clube 3 3 2 5 3 2 3 3,0 Jardim Itaú 5 3 4 3 5 5 5 4,3 Monte Alegre 5 3 1 5 1 4 5 3,4 Mangueira 5 5 3 5 2 5 5 4,3 Rio Pardo 5 3 1 5 1 5 5 3,6 Av. dos Andradas 5 2 1 4 4 1 5 3,1 Jardim Zara 3 4 1 5 1 5 5 3,4 Jardim do Trevo 3 3 1 5 1 4 5 3,1 Faiane 5 3 1 5 5 3 5 3,9 Da Lagoa 5 3 2 2 5 1 5 3,3 Média Geral 4,1 2,8 1,9 4,1 2,6 3,4 3,5 3,2 Tabela 04: Quadro síntese dos indicadores de vulnerabilidade ambiental natural 12 MÉDIA DO NÚCLEO Uso do solo predominante na vizinhança Condições de mobilidade Material predom. nas unid. habit. Estado geral das unid. habit. Pavimentação das vias Nº Nome Simioni Magid Simão Trad 4 3 5 4 5 4,2 2 Simioni - Brejo 3 2 3 2 5 3,0 3 Simioni - Via Norte 3 1 2 1 5 2,4 4 Simioni 3 1 2 1 5 2,4 5 Aeroporto 4 1 2 3 2 2,4 6 Flórida Paulista 1 1 1 3 3 1,8 7 da Mata 1 1 2 3 2 1,8 8 Leão-Leão Itabirite 4 1 2 3 2 2,4 9 Adamantina 5 2 3 3 2 3,6 10 Anhanguera I 5 1 1 3 5 3,0 11 Anhanguera II 1 1 1 2 5 2,0 12 Salgado Filho 3 3 3 4 5 3,6 13 Salgado Filho Nuporanga 3 2 4 4 4 3,4 14 Transerp 5 4 3 5 5 4,4 15 Jardim Jandaia - da Torre 5 2 3 5 5 4,0 16 Jardim Jandaia - Igrejas 5 4 5 5 5 4,8 17 Jardim Jandaia -Via Norte 5 3 5 5 5 4,6 18 Jardim Jandai - Japurá 5 3 2 5 5 4,0 19 Valentina Figueiredo 4 4 5 5 5 4,6 20 Avelino Palma 3 5 5 4 5 4,4 21 Vila Elisa 3 2 4 3 5 3,4 22 Coca-cola 3 2 4 4 4 3,4 23 Corrego do Tanquinho 3 1 1 3 5 2,6 24 Vila Zaneti 3 1 2 3 5 2,8 25 do Jóquei Clube 5 4 1 4 4 3,6 26 Jardim Itaú 1 2 3 2 5 2,6 27 Monte Alegre 3 3 3 5 4 3,6 28 Mangueira 3 3 3 5 2 3,2 29 Rio Pardo 1 2 3 5 2 2,6 30 Av. dos Andradas 3 4 3 4 5 3,8 31 Jardim Zara 4 1 1 3 4 2,6 32 Jardim do Trevo 3 1 1 3 4 2,4 33 Faiane 1 2 3 2 3 2,2 34 Da Lagoa 3 2 1 3 5 2,8 Média Geral 3,3 2,2 2,7 3,5 4,5 3,2 Tabela 05: Quadro síntese dos indicadores de vulnerabilidade ambiental natural 13 princípio, não desqualificaria o núcleo para estes programas, aspecto que acabou negligenciado quando da definição dos critérios para a atribuição das notas. Cinco núcleos de favelas apresentaram média de indicadores superior a 4,0, evidenciando condições bastante favoráveis a programas de urbanização e/ou remoção, e outros cinco dos núcleos avalidados, de acordo com a média dos indicadores – entre 2,3 e 2,7, deveriam estar enquadrados em programas que envolvessem a parcial ou completa remoção da favela. Já a análise dos indicadores de vulnerabilidade sócio-ambiental colabora para demonstrar que a maioria dos núcleos de favela é passivel de intervenções que envolvam majoritariamente o processo de urbanização. Dezenove, entre os trinta e quatro núcleos analisados obtiveram nota 3,0 como média dos indicadores avaliados superior, sendo oito delas superior a 4,0. Apenas dois núcleos apresentaram média em relação à vulnerabilidade sócio-ambiental inferior a 2,0. A leitura dos indicadores que avaliam o entorno mostra que a localização da maioria dos núcleos de favela é compatível com o uso residencial e oferece condições no mínimorazoável de mobilidade. Já com relação à situação física interna, houve bastante variação na avaliação dos indicadores. Para melhor visualização dos indicadores avaliados foi realizado um mapeamento, aqui ilustrado fragmentado em quatro partes, procurando sintetizar a situação observada em cada uma das regiões da cidade. Foram definidos ícones para cada um dos indicadores que receberam cores associadas às notas atribuídas nas avaliações. Assim, quanto mais próximo do verde, maior a nota, ou seja, mais adequado para a urbanização, sendo a situação contrária destacada pela cor vermelha. O amarelo representa o valor “neutro” – 3,0. A região Norte, ilustrada no mapa 02, abriga os bairros mais pobres e boa parte dos conjuntos habitacionais da cidade. É nela também que se localiza a grande maioria dos núcleos de favela de Ribeirão Preto. Observa-se, neste mapa, que os indicadores que receberam as piores avaliações em termos de vulnerabilidade ambiental natural foram observados nos núcleos de favela localizados em áreas de fundo de vale. Deve-se destacar também a presença do Aeroporto Leite Lopes nesta região, que desqualifica os indicadores de compatibilidade com o uso residencial de quatro dos núcleos de favela ali situados. Ainda sim, os tons de verde predominam, o que indica que a maioria deles é passível de programas de urbanização ou de reocupação parcial. O Mapa 03 ilustra a região oeste da cidade, que pode ser caracterizada pela presença mista de bairros tradicionais de classe média-alta, média, média-baixa, baixa, além de abrigar 14 um grande conjunto habitacional, isolados entre si pelo Campus da USP e pela Fazenda Experimental do Estado. Nela localizam-se apenas quatro núcleos de favela, sendo dois deles, os mais antigos da cidade – o da Mangueira e o de Monte Alegre. De modo geral, todos apresentam indicadores favoráveis à urbanização e/ou à reocupação. Mapa 02: Indicadores avaliados nos núcleos de favela da região norte de Ribeirão Preto O núcleo de n.º 29, denominado Rio Pardo, apresenta-se como uma “continuidade” do núcleo de Monte Alegre, sendo difícil a diferenciação visual dos limites de cada um deles e como localiza-se ao longo de uma linha férrea sua urbanização pode considerada imprópria. Ressalva também deve ser feita ao núcleo de n.º 26 – Jardim Itau – cuja localização é 15 praticamente desvinculada da malha urbana consolidada da cidade, já que o bairro imediatamente próximo encontra-se ainda praticamente desocupado, além de metade deste núcleo ocupar área de fundo de vale. Mapa 03: Indicadores avaliados nos núcleos de favela da região oeste de Ribeirão Preto A região leste da cidade, ilustrada no Mapa 04, representa parte da periferia mais recente da cidade. Nela ocorre o afloramento do Aqüífero Guarani e a presença da Rodovia Anhanguera atrai usos industriais e atacadistas. Os quatro núcleos de favela ali localizados receberam indicadores bastante variados, tanto do ponto de vista da vulnerabilidade ambiental natural e antrópica, como da sócio-ambiental, demandando estudos mais aprofundados para 16 uma recomendação mais fundamentada em termos de programas de intervenção para sua regularização fundiária. Mapa 04: Indicadores avaliados nos núcleos de favela da região leste de Ribeirão Preto A região sul é a mais valorizada da cidade, onde se encontra a maioria dos bairros e residenciais de alto padrão, e a que mais sofre a pressão do mercado imobiliário para a expansão urbana. Nela localizam-se atualmente apenas dois núcleos de favela, uma vez que os outros que ali se instalaram já sofreram programas de remoção, que apresentam a maioria dos indicadores favoráveis a programas de urbanização. Um deles é mais antigo – o da Faiane – localizado nas proximidades do distrito de Bonfim Paulista, e apesar de sua pequena dimensão, hoje representave entrave significativo para a instalação de empreendimentos como o Alphaville, em processo de licenciamento. O segundo é bastante recente e apresenta condições físicas internas relativamente precárias, indicando a necessidade de um programa que envolva a reocupação. 17 Retomando algumas colocações de caráter mais geral, é importante colocar a questão da situação fundiária de grande parte do núcleos da cidade, representada por áreas verdes ou sistemas de lazer. Deve-se ressaltar que a perda de áreas verdes em favor da urbanização pode representar reflexos negativos sobre os bairros adjacentes e mesmo sobre a qualidade de vida na cidade como um todo. No caso de Ribeirão Preto, por outro lado, tais áreas podem ser facilmente substituídas pelas áreas de fundo de vale, que recortam praticamente toda a área urbana, como pode ser observado no Mapa 01, e transformadas em parques lineares, o que levaria também ao cumprimento de uma das principais diretrizes que fundamentam a Mapa 05: Indicadores avaliados nos núcleos de favela da região sul de Ribeirão Preto 18 estruturação do território definida pelo Plano Diretor Municipal. Já a ocupação de áreas ambientalmente frágeis decorre da sua desvalorização imobiliária por serem públicas ou de preservação ambiental (ALVES, 2005), e por estarem abandonadas, situação agravada pela própria legislação ambiental que restringe e em alguns casos impede o direito de uso das mesmas pelos proprietários. Em Ribeirão Preto, observa-se a presença de alguns núcleos de favelas em áreas de preservação permanente constituídas pelas várzeas dos cursos d’água e, portanto, sujeitas a inundações periódicas. Como já colocado, os mesmos deveriam ser removidos, uma vez que, além do caráter de risco, representam situações isoladas envolvendo números relativamente baixos em termos de barracos e moradores, acrescentando-se que em suas proximidades encontram-se áreas desocupadas adequadas à urbanização que poderiam ser desapropriadas para este fim, evitando-se os custos sociais inerentes a transferências para regiões distantes. Deve-se ainda considerar, em qualquer que seja o programa de regularização fundiária que se pretenda implementar, seus efeitos adversos sobre o mercado imobiliário, muito bem avaliados por Smolka (2002). Neste sentido, considera-se relevante também, para a implementação de processos de regularização fundiária, unir as necessidades físicas de seus moradores a um apoio psicológico para sua reinserção na sociedade, através do desenvolvimento de um projeto articulado, inclusive do ponto de vista econômico, que garanta um retorno maior dos investimentos e traga mais benefícios para seus moradores. 4. Considerações Finais O trabalho procurou evidenciar a importância do desenvolvimento de políticas públicas que promovam a regularização física e fundiária de assentamentos precários e avaliar de maneira mais específica a situação das favelas existentes em Ribeirão Preto. Os indicadores de vulnerabilidade ambiental natural e antrópica e sócio-ambiental avaliados até o momento, apesar de mostrarem algumas fragilidades quando da análise dos resultados, foram capazes de apontar recomendações aplicáveis que deveriam ser consideradas na definição de um plano de ações voltadas à regularização fundiária na cidade. Um próximo passo neste sentido seria analisar separadamente cada um dos núcleos existentes, aprofundar o estudo de alguns dos indicadores, talvez definindo ainda outros, que possam determinar inclusive, os níveis de satisfação dos moradores, e refinar sua avaliação mediante a utilização de sistemas de informação geográfica. 19 Encerrando, é preciso alertar que enquanto se finalizava a redação deste trabalho, novas invasões ocorriam na cidade, evidenciando ainda mais a importância desta pesquisa e da implementação efetiva de uma política habitacional para a cidade de Ribeirão Preto. 5. Referências bibliográficas ALMEIDA, A. P. de; ABIKO, A. K. Indicadores de salubridade ambiental em favelas localizadas em áreas de proteção aos mananciais: O caso da Favela Jardim Floresta. Boletim Técnico da Escola Politécnica da USP BT/PCC/264. São Paulo, 2000. ALVES, H. P. da F. Vulnerabilidade sócio-ambiental na metrópole paulistana: uma análise das situações de sobreposição espacial de problemas e riscos sociais e ambientais. In: Anais do XI Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR). Salvador, 2005. CAVALLIERI, F.; OLIVEIRA, S. A melhoria das condições de vida dos habitantes de assentamentos precários no Rio de Janeiro: uma avaliação preliminar da Meta 11 dos Objetivos do Milênio. In Rio Estudos n.º 234. Coleção Estudos da Cidade. Rio de Janeiro, 2006. HERCULANO, S. C. A qualidade de vida e seus indicadores. In: Qualidade de vida e Riscos Ambientais. Niterói: Eduff, 2000. ROCHA, R. de F.; CARVALHO, C. S.; MORETTI, R. S. Procedimentos para tomada de decisão em programas de urbanização de favelas. In: Inserção Urbana e Avaliação PósOcupação (APO) da Habitação de Interesse Social. Coleção Habitare ANTAC – vol. 1. São Paulo, 2002. P.p.: 294-317. ROMERO, M. A. B. et al. Indicadores de sustentabilidade dos espaços públicos urbanos: aspectos metodológicos e atributos das estruturas urbanas. In: Anais do Seminário A questão ambiental urbana: experiências e perspectivas. Brasília, 2004. SMOLKA, M. O. Regularização da ocupação do solo urbano: a solução que é parte do problema, o problema que é parte da solução. In: Planejamento e Território – Ensaios sobre a desigualdade. Rio de Janeiro, IPPUR / DP&A Editora, 2002. P.p.: 207-225. 1 A urbanização foi realizada apenas no bairro hoje conhecido como Jardim Progresso, inicialmente parte do Horto Municipal, invadida por um grupo de “sem teto” e ocupada segundo um plano de parcelamento e arruamento prévio, diferente dos outros núcleos caracterizados pela simples edificação das unidades. 2 A Lei Complementar n.º 2157/07 determina, para fins de parcelamento do solo, a reserva de 35% da gleba como área verde na Zona de Urbanização Restrita. 20