XV ENCONTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DO NORTE E NORDESTE e PRÉALAS BRASIL
04 a 07 de Setembro de 2012
UFPI, Teresina-Piauí
GT19-Juventudes, territorialidades e identidades
Pelo rio, pela ponte e pelo asfalto: notas sobre trajetórias juvenis na Vila
da Barca em Belém-Pa
Deylane Corrêa Pantoja Baía
Universidade Federal do Pará
[email protected]
Ao final da década de 1960, alguns estudos antropológicos com foco na
urbanização e grilagem de terra no contexto da cidade de Belém vinham sendo
empreendidos por estudantes e pesquisadores do Museu Paraense Emílio
Goeldi (MPEG)1. Entre outros aspectos, a ocupação de áreas ditas “periféricas”
da cidade constituía ponto de partida para pesquisas referentes à migração de
populações rurais e o surgimento de lugares como a Vila da Barca.
Segundo Lourdes Furtado & Maria da Conceição Santana (1974), o
surgimento da Vila da Barca remonta a década de 1940. Após trinta anos de
seu surgimento, era constituída por 152 “prédios habitados”, dividida em vielas
e becos onde a circulação dos moradores se fazia através de “estivas” 2. Sua
localização às margens da Baía do Guajará esteve, e ainda está sujeita, às
influências das marés, não somente no aspecto físico, mas também na própria
relação de proximidade estabelecida com o rio que difere daquela de outros
moradores da cidade. Morar às margens do rio é estar imerso em outras
práticas, em outro tempo, me arrisco a dizer.
A origem dos moradores no local acompanha um movimento observado
em diversos centros urbanos do país a partir dos anos de 1950, que
corresponde à migração de pessoas oriundas de outras regiões da própria
capital, de outros municípios do Pará, ou até mesmo de outros estados do
Brasil para Belém (FURTADO & SANTANA, 1974). Como atesta Eunice
Durham (2004), a constituição das cidades brasileiras dentro de um movimento
de crescimento tem no surgimento das periferias um processo constante. Para
ela, ao chegar à cidade a população mais pobre tende a se localizar nas
fímbrias da área urbanizada marcadas pela ausência de serviços como luz,
água, iluminação, calçamento e esgoto, o que em certa medida colabora para o
barateamento do solo, tornando-o acessível.
1
O Estudo sobre grilagem em Belém, coordenado pelo antropólogo Eduardo Galvão no MPEG,
teve início em 1969. (Furtado & Santana, 1974).
2
Compreendo que as “estivas” referidas pelas autoras sejam as pontes de madeira que até
hoje podem ser encontradas na Vila, mesmo após o início das obras de urbanização da área.
Os interlocutores dessa pesquisa se referem a elas como pontes. Sendo para alguns deles
uma importante referência da vida no local, capaz, inclusive, de fazê-los rememorar muitos
momentos de infância. Esta constatação também não me impede de dialogar com moradores
mais antigos a fim de comparar as possíveis diferenças destas denominações ao longo do
tempo.
As famílias que na Vila se estabeleceram, imprimiram marcas físicas e
simbólicas de suas origens e modos de fazer. É comum no período de férias
letivas, ao perguntar sobre alguns dos jovens moradores, receber como
resposta às ausências o fato de estarem no interior, passando férias na casa
de algum parente. Isto pode indicar relações muito marcadas pelo contínuo
campo-cidade, ao ponto de atingirem até mesmo jovens nascidos na capital,
mas que acabam tendo algum tipo de circulação nos demais municípios do
estado.
Hoje, a Vila está situada na parte leste da cidade, às margens Baía do
Guajará ao longo Avenida Pedro Álvares Cabral - importante via de acesso ao
centro de Belém e corredor de escoamento de produtos que entram e saem da
cidade através dos rios – iniciando na Rodovia Artur Bernardes até a Rua
Djalma Dutra. Embora esta localização seja mais abrangente, é possível dizer
que a Vila propriamente dita, compreende o trecho posterior a Rua Nelson
Ribeiro, definida pelos jovens como a Vila da Barca. Para Solange Silva Souza
(2006), que desenvolveu em sua dissertação de mestrado reflexões sobre o
processo de implementação do projeto de urbanização da Vila da Barca, o
desenvolvimento da zona portuária figura como principal fator de ocupação da
área na época de seu surgimento.
O Umarizal, bairro vizinho à Vila, ajuda a marcar uma paisagem
contrastante. De um lado, a crescente verticalização e o luxo de um bairro
nobre de Belém e, de outro, um cenário tipicamente periférico da cidade com
equipamentos urbanos precários. No meio desses contrastes sociais, completa
o quadro um espaço de lazer denominado “Ver-o-Rio”, cujo propósito inicial era
“abrir as janelas” de Belém para o rio, ainda que o grau de refinamento de tais
janelas destoassem das suas vizinhas, as janelas da Vila.
A próxima fotografia (foto 1) corresponde à perspectiva que temos da
porta de uma das casas, de onde é possível avistar os edifícios do bairro do
Umarizal. O registro da imagem foi feito após a conclusão de uma entrevista
iniciada na beira do rio, mas que com a chuva acabou tendo que continuar na
casa da avó do interlocutor, localizada ainda na entrada da Vila, entre as
primeiras casas construídas pelo projeto de urbanização Nova Vila da Barca3.
3
A proposta do projeto prevê como um de seus objetivos construir no lugar das palafitas,
prédios de dois andares com apartamentos populares de 65m².
Fotografia 1 - Vista da sacada de Dona Dulce, ao fundo, o bairro do Umarizal
Fonte: Deylane Baía, 2012
Segundo Souza (2006), o Projeto de Habitação e Urbanização da Vila da
Barca figurou como principal demanda reivindicada pelos moradores,
principalmente no início da organização comunitária na década de 1970, mas
os primeiros sinais só foram dados a partir de algumas iniciativas pontuais com
ações do Governo Federal, executadas pela prefeitura de Belém, na época da
gestão de Edmilson Rodrigues, do Partido dos Trabalhadores (PT), na segunda
metade da década de 1990. Após amplo processo de negociação, apenas no
início dos anos 2000, definições para a implementação do projeto foram
estabelecidas ainda na gestão daquele prefeito.
Dan Rodrigues Levy (2008), que trabalhou em sua pesquisa o direito de
morar no contexto de implementação do referido projeto, aponta que após a
mudança de prefeito e um longo período de indefinições, a Prefeitura de
Belém, sob a gestão de Duciomar Costa, entregou em dezembro de 2007
(após o prazo estabelecido) 136 unidades habitacionais construídas na área de
um antigo curtume na entrada da Vila. Como a obra ainda não foi concluída é
possível perceber uma grande parte de casas em seu formato original, além de
um número significativo de moradores que foram remanejados, mas que
continuam morando de aluguel na própria Vila ou fora dela.
A imagem de satélite na página seguinte (imagem 1) apresenta a vista
aérea da Vila e a divisão do espaço após a conclusão da primeira fase do
projeto. É importante destacar que estou em fase de construção do croqui a ser
utilizado no trabalho, e o mesmo deve conter importantes colaborações dos
interlocutores. Isto porque a referida imagem não apresenta todas as vielas e
becos ainda existentes, por onde certamente os interlocutores circulam e
conhecem melhor do que eu.
Imagem 1 - Mapa aéreo da Vila da Barca após a conclusão da primeira fase do projeto
Fonte: Google Maps
A linha azul na imagem corresponde à Avenida Pedro Álvares Cabral,
onde se observa ampla circulação de automóveis, veículos de carga e linhas
de ônibus que por ela cruzam a cidade. Perpendicularmente, está a Travessa
Coronel Luís Bentes, principal rua de entrada à Vila; e, paralela à Pedro
Álvares Cabral, está a Rua Nelson Ribeiro. Ambas são constituídas de
paralelepípedos, sendo que nesta última se localiza a Fundação Curro Velho
(FVC) e a Unidade Municipal de Saúde da Vila da Barca, marcadas
respectivamente pelas letras “A” e “B”. A Associação dos Moradores da Vila da
Barca está situada em um prédio que fica aos fundos da Unidade de Saúde. As
três principais passagens, a Praiana, a Padre Julião e a Cametá, são
entrecortadas por muitas pequenas passagens que só poderão ser
visualizadas no croqui.
É importante destacar que a parte mais próxima do rio abrange, além
das casas, dois trechos de terra batizados pelos jovens de prainha ou beira,
onde é possível ver crianças, jovens e adultos tomando banho na maré. Essas
duas áreas são marcadas pela presença de empresas que deixam atracadas à
margem da baía alguns barcos e balsas – estas são espaços para as
brincadeiras dos meninos mais novos, como foi possível perceber no dia em
que registrei a fotografia dois.
Fotografia 2- Balsas às margens da Vila
Fonte: Deylane Baía, 2012
Segundo um dos interlocutores, a primeira dessas beiras figura como
importante ponto de encontro dos jovens da Vila e diz que quando um deles
está triste e não é visto em sua casa, pode facilmente ser encontrado sentado
na beira do rio. No entanto, este mesmo local foi se tornando pouco
frequentado por eles no momento em que adolescentes, jovens e adultos
passaram a utilizar o local para o consumo de drogas.
Além das embarcações das empresas, é possível visualizar pequenas
embarcações4, canoas de propriedade de moradores ou utilizadas por eles em
atividades como a pesca, a exemplo da fotografia três.
Fotografia 3 - Embarcações dos moradores ancoradas às margens da beira
Fonte: Deylane Baía, 2012
4
Essas pequenas embarcações são chamadas de “pôpôpôs”- onomatopeia em referência ao
ruído emitido pelo motor - e, depois das canoas (com ou sem motor), se configuram como as
principais embarcações utilizadas para o transporte de passageiros em pequenas e médias
distâncias nos rios da Amazônia.
No início da passagem Praiana está o campinho, também muito utilizado
pelos moradores, sobretudo pelas crianças e jovens, para a realização de jogos
e torneios de futebol5. Ao lado deste local encontra-se a área dos primeiros
apartamentos construídos pelo projeto de urbanização e ao centro deles, uma
praça que também se configura como ponto de encontro de meus
interlocutores.
Fotografia 4 – O campinho, espaço de lazer dos moradores
Fonte: Deylane Baía, 2011
As imagens cinco e seis apresentam um cenário onde parte das casas
continua da forma original e parte foi construída pelo projeto de urbanização
em sua primeira fase6. As famílias de alguns dos interlocutores foram
contempladas nessa primeira fase, havendo casos de famílias que continuam
nas casas antigas e famílias que foram remanejadas, mas que não receberam
o novo apartamento. De uma maneira geral, a parte “antiga” continua sendo
muito frequentada pelos jovens que dela já saíram, pois sua circulação não
ficou restrita à parte urbanizada - o que denota uma forte ligação com outros
jovens ainda residentes nesta parte, bem como um vínculo com as pontes e
suas disposições, como me disse Iran Saldanha, 15 anos.
5
O torneio deste ano de 2012 teve início no mês de janeiro e acontece sempre aos finais de
semana.
6
As fotografias cinco e seis foram capturadas em julho de 2010, por meu amigo Gilson Dias,
então estudante do curso de geografia, com o intuito de construir um trabalho para uma
disciplina de seu curso. Na ocasião já havia estabelecido a Vila como espaço de pesquisa, mas
ainda não possuía equipamento fotográfico para fazer nenhum registro.
Fotografia 5 – As pontes e casas da parte antiga da Vila Fotografia 6 – A praça e as novas
Casas do projeto de urbanização da PMB
Fonte: Gilson Dias, 2010
Segundo Furtado & Santana (1974), na época em que realizaram a
pesquisa, 23,7% da população da Vila da Barca era constituída por pessoas
oriundas dos distritos de Mosqueiro, Icoaraci e do bairro de Val-de-Cans. O
percentual restante correspondia aos moradores provenientes de outros
municípios (47,3 %) e de outros estados (10,5%), mais especificamente, das
zonas rurais do Amazonas e do Maranhão. As razões que impulsionariam tais
movimentos se justificavam em grande parte por questões econômicas,
educacionais, familiares ou afetivas (juntar-se a parentes ou amigos) ou
mesmo mudanças dentro do próprio local de moradia - a cidade de Belém.
A Vila, hoje, compõe um cenário dentro da cidade que nos remete, ao
mesmo tempo, à vida ribeirinha e à vida urbana. Nesse sentido, pode-se dizer,
a partir dessas autoras que a presença da população rural na cidade é passível
da “manipulação de hábitos rotulados rurais, quer seja a vida doméstica, no
tratamento da saúde à base de remédios caseiros, ou mesmo no linguajar
caboclo.” (FURTADO & SANTANA, 1974, p. 52). Entre as crianças e jovens da
Vila pude escutar expressões que ouvia com frequência entre meus familiares
mais velhos – oriundos da cidade de Igarapé-Miri, no Baixo Tocantins. Uma
delas, “Mas porém...” (seguida do nome da pessoa para quem se fala), era
usada pelos interlocutores quando estavam admirados com a atitude de
alguém. Na minha infância, quando passava as férias escolares naquela
cidade, era comum escutar esta e outras expressões. O que me instiga, no
caso dos interlocutores, é que mesmo tendo nascido na capital, eles utilizem
estas construções frasais, o que pode indicar um tipo de socialização e um
modo de falar característico de alguns municípios do Pará, que suponho, sejam
os locais de origem de suas famílias.
Ao dividir a população da Vila da Barca em dois grupos - o da cidade e o
do campo - as autoras constataram que o percentual de pessoas oriundas do
campo equivalia a 81,5% dos moradores. Acompanhando um processo visto
em diversas capitais brasileiras, de crescimento desordenado frente ao
processo de urbanização das cidades, uma série de condicionantes pode ser
listada como responsáveis por tal fenômeno, entre eles, a especulação
imobiliária, o desemprego e o subemprego, as altas taxas de serviços urbanos
com IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), água, energia elétrica etc.
Tudo isso, obriga, direta ou indiretamente, os indivíduos a se tornarem agentes
ou co-agentes das ocupações irregulares, invasões, ou nas palavras das
autoras, “grilagens”.
Tais razões também são narradas em um documentário produzido pelo
cineasta paraense Renato Tapajós no ano de 19647. Intitulado “Vila da Barca”,
o vídeo produzido com apenas uma câmera de 16mm, mostra o cotidiano dos
moradores da Vila da Barca enquanto são narradas características do lugar. As
informações contidas com relação ao número de moradores na década de
1960 destoam do número apresentado por Furtado & Santana (1974), no
entanto, é possível destacar diversos elementos que, resguardando seu lugar
na história, se coadunam também com as falas dos interlocutores de minha
pesquisa. No trecho abaixo, que inicia o documentário, um homem fala, com
voz compassada e carregada de sofrimento, da vida diária na Vila dos anos de
1960:
Vim para cá, pelo menos junto do Rio eu fico. A patroa trabalha na
castanha, quando tem safra, mas ela voltou e não pode mais esse
ano. Nem pagaram nada os homens. Direito tinha. E então pergunto:
pobre tem direito algum? Compro a fruta na maré e depois vendo na
7
Primeiro filme documentário de curta metragem do cineasta e cientista social Renato Tapajós,
produzido nos anos de 1964 e 1965 sobre a Vila da Barca em Belém. O filme ganhou prêmio
de melhor documentário do Festival Internacional de Filme de Curta Metragem em Leipzig
(então
Alemanha
Oriental)
no
ano
de
1968.
Disponível
em:
http://www.youtube.com/watch?v=dRGIdSeefoQ Acesso em: 08 de Janeiro de 2012.
feira, pago licença para a prefeitura assim, senão proíbem. Direito
nenhum da gente (Vila da Barca, 1964).
Neste trecho é possível perceber que as aptidões e capacidades
descritas por Furtado e Santana (1974) também se apresentam no off do vídeo,
a exemplo dos ofícios de pescadores, vendedores ambulantes, jornaleiro,
peixeiro, calafateiros, biscateiros, servente de obras, carregador, pedreiros e
ajudante de pedreiro (e outros ligados à construção civil), balconista de
mercearia e carregador - no caso dos homens. Já as atividades envolvendo
mulheres eram marcadas por sua presença no emprego doméstico, sobretudo
para as mulheres que antes não trabalhavam.
As formas como as famílias que na Vila se estabeleceram no início de
sua ocupação, são apresentadas por uma dupla possibilidade de entrada, a
direta e a indireta. Na direta, os moradores foram os responsáveis pela primeira
ocupação da área, sendo designados por Furtado & Santana (1974) como
indivíduos que ocuparam a área sem intermediários; enquanto que a entrada
indireta revela a intermediação de terceiros no processo, alugando ou
vendendo casas no local. Para as autoras, este fato configura a Vila da Barca
como um espaço de grande flutuação populacional, revelando a situação de
transição característica desses aglomerados urbanos.
Embora isto deva ser considerado, respeitado o período em que as
autoras realizaram a pesquisa, é possível dizer também que muitas dessas
famílias que entraram pela via direta, ou seja, chegaram, ocuparam a área e
construíram suas próprias casas; permanecem até hoje residindo na Vila e são
responsáveis pelo delineamento de uma complexa rede de parentesco que
pode ser observada desde os sobrenomes de seus moradores até o fato de os
jovens que dizem que ser primo de alguém na Vila é algo frequente.
As motivações educacionais também podem ser descritas como
definidoras desse contínuo campo-cidade. Segundo Raimundo Farias Júnior
(2006), a sua própria trajetória é exemplo disso, uma vez que seus pais vieram
do município de Cametá, cidade que dá nome a uma das três principais
passagens da Vila, no intuito de proporcionar aos filhos a escolarização. Os
meandros dessa história são contados pelo autor, nascido e ainda residente na
Vila da Barca, nos agradecimentos de sua dissertação de mestrado sobre a
realidade educacional do local.
A partir do levantamento socioeconômico realizado pela Prefeitura de
Belém no ano 2003, visando a implementação do projeto Nova Vila da Barca,
Souza (2006) destaca que grande parte dos moradores da Vila da Barca possui
baixo
poder
aquisitivo,
em
grande
medida
determinado
pela
pouca
escolaridade que se somam a fenômenos estruturais oriundos da política
neoliberal implementada no país nos últimos anos, a exemplo da crise do
emprego.
Os jovens da Vila, suas escolhas e os campos de possibilidades
Para Regina Novaes (2006), além dos marcadores sociais como raça,
classe, gênero, local de moradia, entre outros; temos que considerar, no caso
das juventudes brasileiras, as disparidades entre regiões e entre o campo e a
cidade. O que também é corroborado por Stella Maria Olyntho et al. (2008)
quando indica que mesmo que se considere a juventude como uma categoria
social composta de sujeitos que compartilham a mesma faixa etária, à medida
que nos aproximamos da realidade social, percebemos que tais clivagens
aumentam, mesmo no interior dos próprios grupos étnicos ou classes sociais.
Para Pierre Bourdieu (1983), é importante sempre lembrarmos que as
divisões entre as idades são arbitrárias e que tais limites, entre juventude e
velhice, por exemplo, vêm sendo historicamente objeto de disputas em todas
as sociedades. Para ele, a representação ideológica contida em tal divisão,
estrutura também um tipo de relação marcada pelo poder, ou melhor, nessa
divisão lógica entre jovens e velhos se estabelece a repartição desse poder.
“As classificações por idade (mas também por sexo, ou, é claro, por classe...)
acabam sempre por impor limites e produzir uma ordem onde cada um deve se
manter, em relação à qual cada um deve se manter em seu lugar” (Bourdieu,
1983, p.2)
O autor lembra que a juventude e a velhice não são dados
simplesmente, mas se situam na ordem do social, onde são construídas na
própria luta entre os jovens e velhos. Desse modo, pode-se dizer que as
relações entre a idade social e a idade biológica são de uma complexidade
extrema. Ele acredita que os diferentes campos possuem leis específicas de
envelhecimento, ou seja, para que se conheça um pouco mais sobre os
recortes entre as gerações é necessário identificar as leis específicas de
funcionamento de cada campo. Embora para o próprio autor isto pareça algo
sem importância, possibilita mostrar que a própria idade é um dado biológico
socialmente manipulado e manipulável. Destaca que já se constitui uma
manipulação evidente o próprio fato de se falar dos jovens como uma unidade
social, “um grupo constituído, dotado de interesses comuns, e relacionar estes
interesses a uma idade definida biologicamente” (p.2). É importante analisar as
diferenças entre as juventudes.
Para ele, é possível compararmos sistematicamente entre dois jovens
com a mesma idade biológica, suas condições de vida, sua inserção no
mercado de trabalho, o “orçamento do tempo” etc. Ou entre aqueles que já
trabalham e os que são apenas estudantes. Encontra-se aí, segundo Bourdieu
(1983), diferenças análogas em todos os domínios da existência desses
jovens. No caso de um jovem trabalhador teríamos um cenário de coerções do
universo econômico real, que seriam atenuadas pela solidariedade familiar,
enquanto que no caso do jovem estudante, sua
existência estaria
profundamente marcada pelas facilidades “de uma economia de assistidos
quase-lúdica fundada na subvenção, com alimentação e moradia” (p.3) e
outras benesses do caso francês analisado por ele.
Ao destacar a entrada dos “adolescentes” das classes populares no
mercado de trabalho em detrimento de sua permanência na escola, Bourdieu
(1983) evidencia que eles são movidos por um único desejo, o de poder
usufruir com mais brevidade possível, do estatuto de adulto e as supostas
capacidades econômicas a ele associadas.
Ter dinheiro é muito importante para se afirmar em relação aos
colegas, em relação às meninas, para poder sair com os colegas e
com as meninas, portanto para ser reconhecido e se reconhecer
como um „homem‟. (Bourdieu, 1983, p.3).
Este é um ponto importante porque desconstrói a visão de que os
“adolescentes” que querem trabalhar, no caso brasileiro, são movidos pela
pobreza. Embora seja necessário resguardar as especificidades do caso
descrito, a perspectiva de Bourdieu (1983) auxilia a desconstruir também a
ideia de que os jovens fazem escolhas desorientadas.
Simone Monteiro (1999) ao analisar as experiências sociais do gênero e
da sexualidade de jovens moradores da favela de Vigário Geral, na cidade do
Rio de Janeiro, aponta que a literatura que confere à evasão escolar entre as
camadas populares apenas uma necessidade de contribuição para a
subsistência familiar parece um tanto reducionista. A motivação para o trabalho
está, muitas vezes, associada às ofertas do mercado de trabalho, ao sentido de
liberdade que tal inserção pode trazer ao jovem que desde cedo começa a
trabalhar, à autonomia e certa mobilização para o „consumo de símbolos
juvenis‟, entre outros aspectos. Considerando esse eixo de análise, posso dizer
que no caso dos jovens da Vila da Barca essa inserção é também baseada em
critérios mais complexos do que sua simples relação com a condição
econômica desses jovens.
Por outro lado, Bourdieu (1983) fala de instituições que manipulam as
aspirações dos jovens, uma delas é a escola. E destaca que:
A escola, sempre se esquece disto, não é simplesmente um lugar
onde se aprende coisas, saberes, técnicas, etc., é também uma
instituição que concede títulos, isto é, direitos, e, ao mesmo tempo,
confere aspirações (Bourdieu, 1983, p. 4).
Do mesmo modo, Novaes (2006) aponta que as pesquisas tem revelado
que os jovens das camadas populares não mais se iludem com, ou melhor, não
embarcam, no „mito da escolaridade‟. A escola então deixou de ser vista com
instrumento de garantia de emprego futuro, pois mesmo com o ensino médio,
estes jovens esbarrarão em candidatos com curso superior nos processos
seletivos e concursos. Segundo a autora, são muitos os jovens que tem
consciência de que a escola é um importante passaporte de entrada ao
mercado de trabalho, contudo, não o garante a todos.
Segundo ela, a questão da inserção dos jovens no mercado de trabalho
se apresenta como um conflito instalado entre pais e filhos tantos nas camadas
populares quanto nas médias. A autora ressalta que a incerteza com relação à
entrada no mundo do trabalho pode ser comparada à importância que a
questão sexual teve, sobretudo entre as mulheres, nas gerações passadas.
Monteiro (1999) destaca que a importância conferida à educação formal
e ao investimento que é possível dar a ela não exclui, no caso dos jovens, o
valor dado ao trabalho para aquisição de uma autonomia e de bens de
consumo. Esta é uma estratégia adotada pelos jovens nos cursos noturnos,
onde é possível, em alguma medida, conciliar trabalho e estudo. Mas segundo
a autora, é o cansaço e desestímulo com o sistema de ensino que muitas
vezes levam estes jovens a definirem por um dos dois. No caso estudado por
ela, os rapazes escolhiam uma função que fosse capaz de lhes gerar algum
recurso, enquanto que as meninas solteiras tendiam a compatibilizar o estudo
com as tarefas domésticas; e aquelas que dedicavam seu tempo à vida
conjugal, em geral, pouco conseguiam manter-se na escola.
Além disso, a autora chama atenção para o fato de que a percepção e a
trajetória escolar dos jovens com os quais ela trabalhou revelou que o fracasso
no ensino formal dos jovens de camadas populares não deve ser reduzido aos
problemas individuais de cada aluno. Ao contrário, deve-se ter em mente as
consequências causadas pela deficiência das políticas publicas para a
educação e as dimensões relacionadas aos valores culturais de casa aluno, a
exemplo das diferenças assinaladas entre a experiência social feminina e
masculina.
Beaud & Pialoux (2006) destacam que as rebeliões urbanas na França8,
sobretudo a ocorrida um ano antes, estavam inscritas em uma „ordem das
coisas‟ que os remetiam a fenômenos estruturais que produzem ao longo do
tempo uma violência social. Tais fenômenos podem também ser considerados
no contexto brasileiro, na medida em que França e o Brasil são acometidos
pelo desemprego dos jovens com baixa escolaridade; pelo agravamento da
segregação urbana; pelo fracasso escolar de determinados grupos sociais,
seguida da pauperização e a desestruturação das famílias de setores
populares – dos conjuntos habitacionais HLM (Habitação de Locação
Moderada) no caso francês aos inúmeros espaços populares do Brasil, entre
eles, a Vila da Barca.
O que os autores procuram evidenciar a partir disso é que as juventudes
das periferias devem ser encaradas como um universo social diferenciado, que
quando observados de perto, tendem a contradizer as representações
correntes a seu respeito. E que, mesmo constituindo um grupo de camada
popular, apresenta clivagens9 dentro de si mesmo.
8
Após constatar que ao contrário do discurso oficial na França, os jovens participantes das
rebeliões compunham um grupo de jovens „comuns‟ que pertenciam meios populares e que em
sua maioria ainda estudava ou havia terminado os estudos, outros faziam bicos em empregos
temporários, atuavam como vendedores ou ajudantes de cozinha. Isto indicava aos autores
uma contradição à cômoda tese de que as rebeliões eram comandadas pela „ralé‟ – termo
imputado por Nicola Sarkozy aos „deliquentes‟ e „arruaceiros‟ responsáveis por tais
acontecimentos.
9
Tais clivagens, também em grande medida observadas no grupo dos dez jovens interlocutores
de minha pesquisa, se apresentam no contraste entre os estudantes bem situados em busca
de diplomas e os jovens desempregados ou aqueles que estudam em cursos que não
escolheram nas escolas profissionais francesas que não apresentam perspectiva de futuro.
No universo da Vila da Barca, é possível observar clivagens entre os
jovens que anseiam a continuação dos estudos em nível superior, os que
concluíram o ensino médio, mas que almejam trabalhar tão logo seja possível e
os jovens com atraso no fator idade-série, desestimulados para frequentarem a
escola, com outros interesses e inserção no crime. E ainda os que nutrem
profundo interesse pelas artes, como a música, a dança e o teatro.
Os anseios dos interlocutores com relação ao futuro ora se relacionam
com a educação escolar ora apenas com o mundo do trabalho. Alguns
pretendem concluir o ensino médio e trabalhar, procurando qualificar-se por
meio de cursos como operador de caixa, encanador, soldador, etc.; em outros
casos, os jovens têm aspirações diretamente relacionadas à educação formal,
a exemplo de cursos superiores, ou mesmo profissões relacionadas às artes.
Até o momento nenhum possui emprego formal, embora um número reduzido
tenha atuado (ou atue) em algum tipo de ocupação que gere renda,
trabalhando
como ajudantes de pedreiro,
vendedores de lanches e
quentinhas10 em empreendimentos familiares, entregador de panfleto, atriz,
entre outras. Também há relatos do exercício de atividades ilícitas, tais como o
comércio de drogas em pequena escala, além da atuação em ações dos ratos
d’água11. Além disso, uma parte significativa almeja seguir carreira no meio Hip
Hop12.
Souza (2006) também destaca que ainda hoje os laços de parentesco
figuram como fator importante nas relações entre os moradores. As festas são
realizadas coletivamente, a exemplo do período de carnaval quando muitos
moradores se mobilizam para participar do desfile nas alas e alegorias da
Associação Carnavalesca “Unidos da Vila da Barca”. As redes de solidariedade
se intensificam quando os moradores passam por momentos de muita
dificuldade, como é o caso de doenças.
10
O termo quentinha corresponde à forma utilizada em Belém para designar uma refeição que
é vendida em um pequeno recipiente descartável de alumínio. Outras denominações
conhecidas são marmita, marmitex, entre outros.
11
Ratos d’água, categoria êmica utilizada para designar quadrilhas de assaltantes de
embarcações nos rios da nossa região. Na Vila da Barca, essa prática é facilitada pela
localização do local às margens da Baía do Guajará.
12
Novaes (2006) aponta que “(...) o rap (com seus DJs e MCs), o break e o grafite compõem a
trilogia de um fenômeno social que é chamado, pelos próprios participantes, de movimento, ou
de cultura hip hop. O hip hop não é um movimento orgânico que produz grupos homogêneos.
Ao contrário, existem várias correntes, linhas e ênfases que diferenciam o rap feito em países,
cidades, bairros e grupos específicos” p. 116.
Clarice Ehlers Peixoto (2000) indica que uma boa parte dos estudos
sobre as relações familiares tem o fator proximidade geográfica como
fundamental para o estabelecimento de solidariedade familiar e a criação de
laços afetivos, o que não se configura como regra absoluta, já que em seus
estudos constata a existência de tais sentimentos entre avós e netos que
residem distantes uns dos outros.
Na Vila, as redes de solidariedade permanecem, ainda que os parentes
se mudem para outros bairros da cidade. Tal característica também pode
indicar o motivo pelo qual algumas famílias – na ocasião do remanejamento por
parte da Prefeitura de Belém visando a continuidade do projeto de urbanização
- tenham procurado encontrar estratégias de manutenção dessas relações.
Uma forma que pude identificar foi o aluguel de casas dentro da própria Vila,
pago com o recurso destinado pela prefeitura, de oitocentos reais a cada dois
meses, enquanto as novas casas são construídas.
Em conversa no ano de 2010 com Iran Saldanha, hoje com 15 anos,
constatei que sua família havia sido remanejada há pouco tempo e a opção de
seus pais foi permanecer próximo à Vila, mesmo tendo a possibilidade de
alugar uma casa em outro ponto da cidade. Ao ser indagado sobre o fato, Iran
me dizia que ele e sua família não gostariam de sair do local, visto que ele e
seus irmãos haviam nascido e crescido ali, tinham amigos de longa data e não
se acostumariam em outro lugar. Atualmente, a família mora em uma casa
alugada em uma rua próxima, porém fora da Vila, mas não deixou de estar no
local com alguma frequência, visto que para lá voltará quando seu apartamento
for entregue.
Esse mesmo sentimento foi manifestado por outros jovens em
entrevistas ou mesmo em conversas. Recordo-me de palavras ditas por eles
sobre nunca imaginarem sair da Vila - lugar onde nasceram, foram criados e
querem morar pelo resto de suas vidas. Nesse sentido, falar dos jovens da Vila
sem falar de suas famílias e de seu local de moradia, é desconsiderar a ampla
rede de parentesco existente e também afastar toda e qualquer chance de
reflexão acerca de suas trajetórias - principalmente no que diz respeito aos
aspectos referentes à educação e ao trabalho - e, mais do que isso, é
empobrecer seu universo.
Longe de padrões estabelecidos do que venha ser uma família, as dos
interlocutores raramente são compostas somente do pai, da mãe e dos filhos.
Do mesmo modo, não se enquadram no padrão oposto de famílias
desestruturadas que, aliás, tem sido historicamente vinculado às camadas
populares também dentro do discurso da desestruturação. Até agora foi
possível ter referências das famílias de meus interlocutores apenas a partir das
conversas realizadas com eles próprios, com exceção de Dona Dulce
Saldanha, avó de Iran, que me recebeu em sua casa e me contou algumas
histórias de sua família. Mas meu interesse também reside no fato de que para
se alcançar uma visão mais aprofundada dos contextos familiares nos quais
eles estão inseridos, se faz necessária a aproximação junto aos seus parentes
também.
Os grupos familiares dos jovens da Vila podem ser classificados como
extremamente heterogêneos, ao passo que cada caso deve ser detidamente
exposto para, a partir disso, se inferir qualquer tipo de análise. Desse modo, é
possível dizer que dos dez jovens com os quais estou em contato, parte mora
com pais e irmãos, enquanto outros residem em casas onde a constituição é
absolutamente diversa, sendo composta por avós, tios, cunhados, “chegados”,
agregados, sobrinhos e primos. Há casos em que habitam até quinze pessoas
em uma mesma residência, sendo possível identificar situações onde ela é
transformada em mais de uma, com divisões nos próprios cômodos ou divisão
do terreno em que está assentada.
Segundo Souza (2006), a Vila da Barca, desde o início de sua
ocupação, esteve associada à pobreza, à prostituição e à violência, mas isto
também se apresenta como uma visão equivocada da realidade da Vila. Para a
autora, os meios de comunicação ocupam um duplo papel no momento em que
instigam o poder público a implementar políticas sociais, mas também sendo
responsáveis pela promoção de ações no sentido contrário, ao divulgar
imagens que podem comprometer a relação que os próprios moradores tem
com o lugar.
A noção de “comunidade de experiência” adotada por Beaud & Pialoux
(2006) se apresenta aqui como importante instrumento de análise do contexto
dos jovens da Vila. No caso francês, eles dizem:
Esses rapazes cresceram juntos nos mesmos locais de moradia e
partilham uma comunidade de experiência que cria laços muito fortes
entre eles („para toda a vida, até a morte‟). Comunidade de
experiência vivida frequentemente na forma de gangues, marcada
pela mesma privação material, pelas mesmas humilhações derivadas
de uma pobreza endêmica e associada a cor da pele (controles
pessoais reiterados cada vez mais agressivo e brutal com os negros
e os árabes, que são a grande maioria dos moradores dos conjuntos
habitacionais na região parisiense” (p. 40).
A partir desta noção, me proponho a analisar nesse conjunto de
narrativas, as trajetórias sociais de dez jovens moradores da Vila da Barca nove rapazes e uma moça, procurando identificar quais as estratégias
utilizadas para que tenham acesso ao lazer, à educação escolarizada, ao
emprego formal, a relacionamentos afetivos, entre outros, a partir de suas
redes de sociabilidade e relações de troca na cidade de Belém. Ou seja, que
escolhas estes jovens fazem para que suas experiências sociais sejam
delineadas desta ou daquela maneira. Objetivo analisar suas trajetórias
escolares e aspectos familiares, especialmente no que diz respeito à educação
e ao trabalho, além de seus anseios com relação ao primeiro emprego,
buscando pensar como tais elementos convergem para a definição de um
presente incerto ou para o delineamento de um futuro promissor. Além disso,
busco investigar a construção de sentimentos de pertencimento com a Vila a
partir de saberes, práticas e representações construídas nas trajetórias e
vivenciadas em seu cotidiano. Procurando, entre outras coisas, evidenciar sua
presença na urbe e suas visões sobre o espaço urbano e o espaço rural 13,
sobre a própria Vila e a cidade em sua totalidade.
Além disso, penso ser importante destacar a necessidade de considerar
as diferenças internas dentro do grupo e quais as posições ocupadas na
relação com outras gerações. Interessa-me quais os conflitos existentes e
como eles contribuem para a construção do “ser jovem” na Vila, pois como
destaca Stella Maria Olynthon et al. “a vivência dessa fase também envolve
comportamentos antagônicos diante do controle e de determinações do „outro‟
13
A perspectiva de também se pensar o rural no caso dos interlocutores pode, em certa
medida, se justificar pela própria relação que eles estabelecem com o rio. Tomando os devidos
cuidados para não romantizar a questão, suponho que os jovens da Vila, apesar de estarem
inseridos na cidade, trazem consigo, a partir de suas práticas, elementos que poderiam estar
muito mais ligados ao universo do campo. Um exemplo prático é a pesca na Vila, onde desde
muito cedo as crianças são socializadas e aprendem, por consequência, a nadar com muita
presteza e a reconhecer o tempo das marés.
externo – entendido aqui não apenas como os pais, mas também com todos
os adultos que representam figuras de autoridade (...)” (2008, p. 98.).
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