PAULO CEZAR GOMES CARRILHO PROJETO ESTRATÉGICO GUARANI Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientador: Prof. Ricardo Azevedo. Rio de Janeiro 2014 C2014 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG _________________________________ Assinatura do autor Biblioteca General Cordeiro de Farias Carrilho, Paulo Cezar Gomes. Projeto Estratégico Guarani / Coronel Paulo Cezar Gomes Carrilho. Rio de Janeiro : ESG, 2014. 47 f.: il. Orientador: Professor Ricardo Azevedo. Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), ano 2014. 1. Pesquisa e Desenvolvimento. 2. Projeto Estratégico Guarani. 3. Produto de Defesa. 4. Indústria de Defesa.. I.Título. Dedico este trabalho de pesquisa aos meus pais Renatoϯ & Sileny, exemplos de amor, dedicação e carinho. Ao meu tesouro e motivo de minha vida: Amanda. A minha gratidão especial ao meu querido pai que deixou um legado de muito orgulho, além da nobre mensagem de que somente através do trabalho intelectual um homem consegue vencer os desafios conquistando sociedade. que um a vida lugar apresenta, digno na AGRADECIMENTOS Aos meus professores de todas as épocas por terem sido responsáveis por parte considerável da minha formação e do meu aprendizado. Aos estagiários da melhor Turma do CAEPE pelo convívio harmonioso de todas as horas. Ao Corpo Permanente da ESG pelos ensinamentos e orientações que me fizeram refletir, cada vez mais, sobre a importância de se estudar o Brasil com a responsabilidade implícita de ter que melhorá-lo. Ao orientador deste trabalho monográfico, professor RICARDO AZEVEDO, um exemplo admirável de profissional, que tornou possível a realização desta jornada, através do estímulo e das orientações seguras, decorrentes de sua vasta experiência de docência. Agradeço sensibilizado ao Coronel ARMANDO MORADO FERREIRA, Gerente Técnico do Projeto Estratégico Guarani, e ao Tenente Coronel EDUARDO GOMES FERREIRA PINTO, seu adjunto, por suas valiosas e inestimáveis contribuições durante todas as fases desse trabalho. E ao Ministério da Defesa/Exército Brasileiro, por proporcionar-me mais essa privilegiada oportunidade de aprimoramento profissional. O importante na vida não é descobrir quem você é, mas construir quem você quer ser. Bernard Shaw RESUMO Esta monografia aborda a Pesquisa e Desenvolvimento de Produtos de Defesa no contexto do Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército Brasileiro, mais especificamente a realizada no Projeto Estratégico Guarani. Para tanto, inicialmente é levantada a fundamentação teórica sobre o assunto, a qual servirá de alicerce para o referido trabalho, bem como é apresentado o Projeto Estratégico Guarani. Em seguida são feitas considerações sobre os contratos realizados pelo Exército Brasileiro com a empresa FIAT/IVECO para fins de desenvolvimento da Viatura Blindada de Transporte Pessoal – Média de Rodas, e com a Financiadora de Estudos e Projetos como forma de aporte financeiro para o referido Projeto. Neste contexto são feitas considerações sobre o contrato firmado entre a FIAT/IVECO e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, para fins de viabilizar a construção de uma planta da fábrica italiana no Brasil. Este trabalho discute, ainda, a forma como este Projeto Estratégico impactou na Base da Indústria de Defesa, englobando aspectos como fomento industrial e tecnologias desenvolvidas pela indústria nacional. Aborda a influência dos resultados obtidos até a fase atual do projeto sobre o Quadro de Engenheiros Militares, considerando temas como perspectivas de carreira e motivação em participar no desenvolvimento de projetos dentro do Exército. Por último, faz considerações sobre a situação atual do projeto, aspectos gerais sobre a avaliação realizada na viatura, e a inclusão deste projeto no Plano de Aceleração do Crescimento para Defesa. Conclui com a apresentação do modelo de Pesquisa e Desenvolvimento seguido no Projeto Estratégico Guarani. Finalmente, sugere um modelo básico geral para a atividade de pesquisa e desenvolvimento a ser seguido para os futuros projetos de Produtos de Defesa. Palavras chave: Pesquisa e Desenvolvimento. Projeto Estratégico Guarani. Produtos de Defesa. Base Industrial de Defesa. Financiadora de Estudos e Projetos. RESUMEN Esta monografía aborda la investigación y el desarrollo de productos para la defensa en el contexto del Sistema de Ciencia y Tecnología del Ejército Brasileño, más específicamente la realizada en el Proyecto Estratégico “Guaraní”. Por lo tanto, inicialmente se elaboró la fundamentación teórica del asunto la cual servirá para asentar las bases del trabajo y también son presentadas un boceto del Proyecto Estratégico “Guaraní”. A continuación se realizan consideraciones sobre los contratos realizados por el Ejército Brasileño con la empresa FIAT/IVECO para los fines del desarrollo del Vehículo Blindado de Transporte de Personal-Mediano de Ruedas, y con la Financiadora de Estudio de Proyectos como medio de financiamiento para el referido proyecto. En este contexto se realizan consideraciones sobre el contrato firmado entre la FIAT/IVECO y el Banco Nacional de Desarrollo Económico y Social a los fines de viabilizar la construcción de una planta de la fábrica italiana en Brasil. Este trabajo discute, también, la forma como este proyecto estratégico impactó en la Base de la Industria de Defensa, englobando aspectos como el fomento industrial y las tecnologías desarrolladas por la industria nacional. Aborda la influencia de los resultados obtenidos hasta la fase actual del proyecto sobre el Cuadro de Ingenieros Militares, considerando temas como perspectivas de carrera y la motivación en participar en el desarrollo de proyectos dentro del Ejército. Por último, hace consideraciones sobre la situación actual del proyecto, aspectos generales sobre la evaluación realizada al vehículo, y la inclusión de este proyecto en el Plan de Aceleración del Crecimiento para la Defensa. Concluye con la presentación del modelo de Investigación y Desarrollo seguido del Proyecto Estratégico Guaraní. Finalmente, sugiere un modelo básico general para la actividad de investigación y desarrollo a ser seguido para los proyectos futuros de Productos de Defensa. Palabras clave: Investigación y Desarrollo. Proyecto Estratégico Guaraní. Productos de Defensa. Base Industrial de Defensa. Financiadora de Estudios y Proyectos. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 Exposição da Viatura Guarani na Fábrica da FIAT/IVECO ..............23 FIGURA 2 Viatura Guarani com a metralhadora 7,62mm REMAX. ...................26 FIGURA 3 Viatura Guarani com o canhão automático 30mm UT30BR ............27 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS 1ª RD Primeira Reunião Decisória BID Base da Indústria de Defesa BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social C&T Ciência e Tecnologia CAEx Centro de Avaliações do Exército CIBld Centro de Instrução de Blindados DCT Departamento de Ciência e Tecnologia EME Estado-Maior do Exército EPEx Escritório de Projetos do Exército FINEP Financiadora de Estudos e Projetos IME Instituto Militar de Engenharia LED Lote de Experimentação Doutrinária MEM Material de Emprego Militar NEGAPEB Norma para Elaboração, Gerenciamento e Acompanhamento de Projetos do Exército Brasileiro NFBR Nova Família de Blindados de Roda ODS Órgão de Direção Setorial P&D Pesquisa e Desenvolvimento PAC DEFESA Programa de Aceleração do Crescimento na Defesa PEE Projeto Estratégico do Exército PND Política Nacional de Defesa PRODE Produto de Defesa RDEsp Reunião Decisória Especial SCTEx Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército SIPLEx Sistema de Planejamento do Exército VBTP-MR Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Média de Rodas SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................................................... 10 1.1 ANTECEDENTES.......................................................................................... 11 1.2 METODOLOGIA............................................................................................. 13 2 MARCO REGULATÓRIO.............................................................................. 2.1 LEGISLAÇÕES DO SISTEMA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO EXÉRCITO..................................................................................................... 14 15 2.1.1 Sistema de Planejamento do Exército........................................................ 16 2.1.2 Instruções Gerais Sobre o Ciclo de Vida dos Materiais de Emprego Militar (IG 20-12)............................................................................................ 16 2.1.3 Normas para Elaboração, Gerenciamento, e Acompanhamento de Projetos no Exército..................................................................................... 18 2.1.4 Instruções Reguladoras para o Gerenciamento de Projetos de Pesquisa e Desenvolvimento na Área de Materiais e Emprego Militar (IR 13-04)....................................................................................................... 2.1.5 19 Regimento Interno do Departamento de Ciência e Tecnologia (EB80RI-07.001)....................................................................................................... 20 3 PROJETO ESTRATÉGICO GUARANI.......................................................... 22 4 CONVÊNIOS E CONTRATOS....................................................................... 28 4.1 CONVÊNIO COM A FINEP............................................................................ 4.2 EMPRESA PARCEIRA................................................................................... 30 4.2.1 Processo de Escolha da Empresa Parceira............................................... 31 4.2.2 Contrato com a FIAT/IVECO........................................................................ 4.2.3 Contrato entre a FIAT/IVECO e o BNDES................................................... 34 5 IMPACTOS DO PROJETO ESTRATÉGICO GUARANI............................... 5.1 SOBRE A INDÚSTRIA DE DEFESA.............................................................. 36 5.2 SOBRE O QUADRO DE ENGENHEIROS MILITARES................................. 37 5.3 SOBRE O PROCESSO DE AVALIAÇÃO DA VIATURA................................ 38 5.4 SOBRE A ÁREA POLÍTICA (PAC DEFESA)................................................. 39 6 CONSIDERAÇÕES GERAIS......................................................................... 40 6.1 SITUAÇÃO ATUAL DO PROJETO................................................................ 40 6.2 OS PROJETOS DO EXÉRCITO E A METODOLOGIA.................................. 41 28 32 36 7 CONCLUSÃO................................................................................................ 43 REFERÊNCIAS.............................................................................................. 46 10 1 INTRODUÇÃO “A coisa principal na vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz.” Talmude Os diferentes tipos de ameaças presentes no cenário mundial produziram alterações significativas nas relações internacionais, aumentando uma conjuntura internacional caracterizada pela incerteza e complexidade. O acelerado desenvolvimento tecnológico, em particular o da tecnologia da informação, gerou mudanças profundas nos meios de comunicação, nas suas características específicas no trato das informações, tais como: maior velocidade, maior confiabilidade e menor custo de transmissão e armazenamento de dados. Devido à globalização de mercados, os países mais desenvolvidos perderam espaço na economia mundial para os países emergentes, dentre eles o Brasil. Desta forma, com maior circulação de riquezas, maior participação na economia global e maior capacidade para enfrentar e solucionar problemas internos, o Brasil passou a fazer parte da nova relação de forças de mercado, criando condições para que, em um futuro bem próximo, assuma posição de maior relevância no cenário internacional. Como consequência destas mudanças iniciadas no final do século passado e acentuada no início do atual, o Estado Brasileiro se conscientizou de que deveria estar preparado para enfrentar as pressões e ameaças internacionais de diversas ordens. Nesse sentido, cabe, dentre outras ações, adequar as Forças Armadas para o desafio vislumbrado para o futuro. Para tanto, foi elaborada a Estratégia Nacional de Defesa, em 2008, em decorrência da qual o Exército Brasileiro deu início a um processo de transformação. Tal processo tem como principal objetivo dotar a Força Terrestre de maior poder dissuasório. Para isto, deve equipar-se e adestrar-se para obter resultados eficazes nas operações, seja pela capacidade de pronta resposta, seja pelo adequado e eficiente emprego do poder de combate. O Exército deverá utilizar meios que carreguem em si os conceitos de letalidade seletiva, mobilidade, flexibilidade e elasticidade. Para viabilizar a referida transformação foram concebidos sete Projetos Estratégicos do Exército (PEE), os quais serão os vetores do Processo de 11 Transformação da Força. Um destes Projetos é o da Nova Família de Blindados de Rodas (NFBR), denominado de Projeto Estratégico Guarani. 1.1 ANTECEDENTES O Exército, por motivos conjunturais, não priorizou o Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército (SCTEx) até meados da década de 2010. Com isso, a pesquisa e o desenvolvimento (P&D) de novos Produtos de Defesa (PRODE) caracterizaram-se por vícios inerentes àquele momento do Exército, no tocante à Ciência e Tecnologia (C&T). Os mais frequentes eram: projetos idealizados e conduzidos por um determinado engenheiro militar, falta de alinhamento com os interesses do Exército, escassez de recursos financeiros e humanos, e projeto desenvolvidos exclusivamente pelo Exército (sem parcerias com empresas), dentre outros. Normalmente se chegava a resultados insatisfatórios, principalmente em termos de não cumprimento de prazos e de custos acima dos previsto. Com base no fato de ter formação no Instituto Militar de Engenharia (IME) e trabalhando no Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército, mais especificamente na área de avaliação técnica e operacional, e mais recentemente, fazendo parte do EME, no acompanhamento de diversos projetos do Exército, discordo do processo como eram realizadas a P&D dos PRODE, uma vez que resultavam em projetos com longa duração, custos elevados, inúmeras não conformidades técnicas e operacionais. No desenvolvimento deste trabalho torna-se necessário abordar as ações/estratégias que viabilizaram o projeto da NFBR, a saber: - criação do DCT como fato marcante para o sucesso do citado projeto; - escolha da empresa parceira do Exército para este projeto como forma de desenvolver o produto; - captação de recursos financeiros junto à FINEP como forma de viabilizar a P&D; - parceria com empresa nacional como alternativa para o desenvolvimento do projeto; - fomento na Base da Indústria de Defesa como consequência da P&D do projeto; e 12 - capacitação técnica de Engenheiros Militares como um dos resultados do projeto. Fruto da unificação do Sistema de Tecnologia da Informação com o Sistema de Ciência e Tecnologia, foi criado em 2005, o Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT)1, que de imediato projetou-se perante a Força, creditando relevância a esse Departamento quando comparado com os outros Órgãos de Direção Setorial (ODS). Para o êxito desta situação, o Alto Comando do Exército foi convencido de que no mundo de hoje não existe guerra sem C&T, bem como não existe Exército com poder de dissuasão sem C&T. O orçamento desta área passou a ocupar patamares de maior relevância quando comparado a de outros ODS, ano após ano. Além disso, o assunto C&T passou a fazer parte da agenda do Alto Comando do Exército, fazendo com que a P&D entrasse em uma nova época. Ainda nesse rastro foi criado em 2012 o Escritório de Projetos (EPEx) dentro do EstadoMaior do Exército (EME) e o Exército apontou, por meio do Sistema de Planejamento do Exército (SIPLEx), suas necessidades em termos de PRODE. Desse modo, a sistemática de Pesquisa e Desenvolvimento passou a se reorganizar, realizando parceria com empresas nacionais e/ou estrangeiras, fomentando a Base da Indústria de Defesa (BID), assinando contratos com a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) para aporte de recursos financeiros, focando os estudos para o desenvolvimento de tecnologias consideradas fundamentais para o Exército, dentre outros aspectos. O método utilizado para a pesquisa e desenvolvimento do Projeto Estratégico Guarani se, por um lado possibilitou a realização de parcerias com empresas nacionais ou estrangeiras, bem como o aporte de recursos financeiros, por outro lado fomentou a indústria nacional de defesa e o desenvolvimento de tecnologias consideradas sensíveis. Este trabalho apontará qual a implicação do Projeto Estratégico Guarani na sistemática de Pesquisa e Desenvolvimento de Produto de Defesa, a partir da criação do Departamento de Ciência e Tecnologia, e se a metodologia adotada para a Pesquisa e Desenvolvimento deste Projeto foi adequada e oportuna, e se deve ser empregada na P&D de novos sistemas. 1 O General de Exército IVAN MENDES CARDOSO foi o primeiro Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia. 13 1.2 METODOLOGIA A bibliografia mostra pouco material tratando de P&D de PRODE. As Instruções Gerais para gerenciamento do ciclo de vida de materiais, e as Normas de Gerenciamento de Projetos, dentre outras existentes, tratam de forma tangencial este assunto. Por isso, há necessidade de realização de estudos sobre P&D de PRODE. A pesquisa desenvolvida será do tipo qualitativo e analítico. A obtenção dos dados necessários para a pesquisa ocorrerá por meio de pesquisa bibliográfica e por investigação documental. A monografia conta com a seguinte estrutura: Seção 1 – introdução contendo o objetivo, a justificativa, o problema, a hipótese, o marco teórico, a metodologia, e a estrutura das Seções; Seção 2 – apresentação do Marco Regulatório sobre o tema P&D dentro do Exército, mais especificamente o alinhamento do Projeto Estratégico Guarani com a Política Nacional de Defesa (PND), a Estratégia Nacional de Defesa, o Livro Brando Nacional de Defesa, o Plano Básico de Ciência e Tecnologia, e o Sistema de Planejamento do Exército. Será abordado ainda aspectos referentes às Instruções Gerais e Reguladoras, Normas de Gerenciamento de Projetos e Regimento Interno do DCT; Seção 3 – exposições das particularidades do Projeto Estratégico Guarani; Seção 4 – apresentação dos critérios utilizados para se escolher a empresa parceira do Exército para a P&D do material, bem como o contrato firmado entre as partes, além dos aspectos sobre o convênio realizado entre o Exército BrasileiroFINEP e FIAT/IVECO-BNDES; Seção 5 – abordagem dos impactos que o Projeto Estratégico Guarani causou na base da indústria de defesa, e no Quadro de Engenheiros Militares; Seção 6 – apresentação das considerações gerais em relação à situação atual do projeto, avaliação da viatura e inclusão do PEE Guarani no Programa de Aceleração do Crescimento de defesa (PAC Defesa); e Seção 7 - conclusão com uma análise das questões apresentadas ao longo do trabalho, com as devidas reflexões. 14 2 MARCO REGULATÓRIO “O tempo conquista tudo e nós lhe devemos obediência”. Pope –“Pastorais”. O capítulo II, artigo 142 da Constituição Federal (BRASIL, 1988) preceitua que as Forças Armadas são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. Desta forma, o enquadramento com a Constituição Federal, com a Política Nacional de Defesa, com a Estratégia Nacional de Defesa, e com o Livro Branco Nacional de Defesa, encontra respaldo legal para o desenvolvimento do Projeto Estratégico Guarani. De acordo com a Política Nacional de Defesa (BRASIL, 2013) um dos itens necessários para se conquistar os Objetivos Estratégicos é estruturar as Forças Armadas em torno de capacidades, dotando-as de pessoal e material compatíveis com os planejamentos estratégicos e operacionais. Ainda segundo a PND em caso de agressão externa, o País deverá empregar todo o Poder Nacional, com ênfase na expressão militar, na defesa dos seus interesses. Nesse contexto, consta na PND que para a solução de conflitos a ação diplomática vem acompanhada com uma estratégia militar da dissuasão. Assim, torna-se importante desenvolver a capacidade de mobilização nacional e a manutenção de Forças Armadas modernas, integradas e balanceadas, operando de forma conjunta e adequadamente desdobradas no território nacional, em condições de pronto emprego. Consta na Estratégia Nacional de Defesa (BRASIL, 2013) que as Forças Armadas devem ser organizadas sob a égide do trinômio monitoramento/controle, mobilidade e presença. Do trinômio resulta a definição das capacitações operacionais de cada uma das Forças. Em particular, o Exército Brasileiro deverá ter como base os conceitos estratégicos de flexibilidade e de elasticidade para fins de cumprir sua destinação constitucional e desempenhar suas atribuições, na paz e na guerra. 15 O entendimento da mobilidade tem implicações para a evolução dos blindados, harmonizando dos mesmos e dos meios mecanizados, características técnicas de proteção e movimento. Consta no Livro Branco de Defesa Nacional (BRASIL, 2012) que para atender às demandas estratégicas, constatou-se a necessidade de que o Exército não apenas se adapte e se modernize, mas adote conceito de transformação, conceito este que significa desenvolver capacidades diferenciadas para cumprir novas funções, sejam elas decorrentes do atual ambiente operacional, ou funções ainda não identificadas. Nesse sentido, o Exército deverá dotar suas Brigadas com meios de transporte, equipamentos, armamentos e suprimentos, de modo a adequar as capacidades operativas à demanda e ao nível de modernização desejados. Assim, o Projeto Estratégico Guarani é um dos projetos prioritários do Exército que servirá para tal fim. 2.1 LEGISLAÇÕES DO SISTEMA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO EXÉRCITO Desde a década de 80 o Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército vive em crise, e isso se dá dentre outras coisas, por uma gestão deficiente de projetos, falta de cultura de C&T no Exército, e por uma baixa priorização estratégica do Sistema de C&T. Com relação a este último fator pode-se dizer que embora existisse uma sensibilidade do Exército sobre as questões de C&T, ainda era baixo o comprometimento com este assunto, refletindo nos recursos destinados a projetos que sempre representavam a menor parcela dentre os demais ODS. Visando reverter este quadro, e com o intuito de conduzir as atividades científicas e tecnológicas relacionadas com um determinado PRODE, mais especificamente no tocante ao planejamento, orientação, coordenação, controle e execução, no âmbito do Comando do Exército, foram elaboradas as Instruções Gerais para o Funcionamento do Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército (BRASIL, 1994). O sistema de Ciência e Tecnologia do Exército possui cinco macroprocessos bem característicos: Pesquisa Científica, Desenvolvimento Experimental de Sistemas Militares, Assessoramento Científico-Tecnológico, Aplicação Conhecimento e das Tecnologias Dominadas, e Obtenção de Recursos Humanos. do 16 Todos os macroprocessos citados acima tem relação, com maior ou menor intensidade, com este trabalho, porém, o primeiro é o que causa maior impacto. A Pesquisa Científica é composta pela Pesquisa Básica, ou seja, o processo de busca de conhecimento sem se ter previamente uma aplicação, e pela Pesquisa Aplicada, ou seja, o processo de busca de conhecimento relacionado a um objetivo prático específico. Entretanto, as estratégias utilizadas desde a pesquisa científica até um produto acabado ainda não estão perfeitamente mapeada, verificando pesquisas que se desenvolviam sem um padrão metodológico. Nesse contexto, e buscando alinhamento com a Constituição Nacional, a Política nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco Nacional de Defesa, algumas legislações foram elaboradas e/ou adequadas, quais sejam: Sistema de Planejamento do Exército, Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército (IG 20-11), bem como as Instruções Gerais para o Modelo Administrativo do Ciclo de Vida dos Materiais de Emprego Militar (IG 20-12), sobre as Normas para Gerenciamento de Projetos do Exército Brasileiro (NEGAPEB), sobre as Instruções Reguladoras para o Gerenciamento de Projetos de Pesquisa e Desenvolvimento na Área de Materiais de Emprego Militar (IR 13-04) e sobre o Regimento Interno do Departamento de Ciência e Tecnologia (EB80-RI-07.001). 2.1.1 Sistema de Planejamento do Exército Segundo o SIPLEx (BRASIL, 2010) pode-se afirmar que o Projeto Estratégico do Exército Guarani está vinculado ao Objetivo Estratégico de “Contribuir com a Dissuasão extra regional”, que por sua vez está ligado à Estratégia de “Ampliação da Capacidade Operacional da Força”, e esta a Ação Estratégica de “Mecanizar a Força Terrestre (Grandes Unidades, Unidades e Subunidades) e Rearticular e Reestruturar as Forças Blindadas”. 2.1.2 Instruções Gerais Sobre o Ciclo de Vida dos Materiais de Emprego Militar (IG 20-12) O preparo e o emprego da Força Terrestre são os pilares da transformação pretendida no Exército, e demandam materiais, os PRODE, cada vez mais eficazes, que permitirão ao Exército Brasileiro cumprir sua missão constitucional. O aumento 17 da eficácia desses materiais está relacionado à aplicação em larga escala da tecnologia no seu desenvolvimento. Como consequência, em geral, os PRODE se tornam sistemas complexos e de elevado custo. A alta complexidade desses sistemas exige o uso constante de ferramentas que proporcionem o gerenciamento de todas as atividades e eventos decorrentes ao longo de seus ciclos de vida: pesquisa e desenvolvimento (concepção, projeto, desenvolvimento, fabricação), operação e manutenção. Até a concepção de um protótipo, muitas etapas devem ser vencidas mas, se não houver um planejamento contemplando metodologia, critérios e estratégias, dificilmente se chegará a resultados satisfatórios de prototipagem. Desse modo, foram elaboradas as Instruções Gerais para o Modelo Administrativo do Ciclo de Vida dos Materiais de Emprego Militar, com vistas a facilitar o gerenciamento do ciclo de vida e regular o processo de obtenção de seus PRODE (BRASIL, 1994). Segundo o previsto na Portaria acima citada, a IG 20-12 tem por finalidade ordenar e descrever as principais atividades e eventos que ocorrem durante o Ciclo de Vida do Material de Emprego Militar, fixando a ordem e os órgãos responsáveis pela sua execução. As IG 20-12 utilizam a nomenclatura “Material de Emprego Militar (MEM)”, em que pese nos dias atuais o termo mais adequado ser “Produto de Defesa”. Segundo a IG 20-12, os materiais são classificados quanto ao Tipo de MEM. Entretanto, neste trabalho vale destacar o “MEM Tipo A”, que é classificado como o material novo a ser pesquisado e/ou desenvolvido, no país ou no exterior, pelo Exército ou por empresa nacional ou por empresa estrangeira ou por conjunto dessas organizações, mediante convênios, contratos ou acordos de cooperação com o Exército; Os objetivos do Modelo Administrativo do Ciclo de Vida são estabelecer uma sistemática para as atividades e os eventos que ocorrem durante o Ciclo de Vida dos MEM; e atribuir responsabilidades aos diversos órgãos envolvidos nas atividades e nos eventos do Ciclo de Vida dos MEM. O referido Modelo está representado por Blocos de Atividades e Eventos que devem ser executados pelos diferentes órgãos do sistema de C&T. Os Blocos correspondentes às suas atividades estão agrupados nas fases de Levantamento das Necessidades e Formulação Conceitual, Planejamento e Programação, 18 Pesquisa e Desenvolvimento, Produção ou Aquisição, Utilização e Alienação. No caso específico da fase de pesquisa e desenvolvimento a mesma é subdividida nas subfases de Pesquisa e Desenvolvimento do Projeto, Avaliação do Protótipo, Produção e Avaliação do Lote-Piloto. Remetendo para a temática deste trabalho, ou seja, a fase de Pesquisa e Desenvolvimento de PRODE, destaca-se a procura para se obter um protótipo e depois um lote-piloto com as características técnicas e operacionais desejadas e determinadas nos requisitos técnicos e operacionais, e nas especificações técnicas do fabricante. Já na subfase de P&D do Protótipo pode ser efetivada no âmbito do DCT ou da empresa. Os contratos de P&D de protótipo deverão seguir normas do EME, adequadas à legislação vigente para licitação e contratos no âmbito do Governo Federal, com cláusulas de participação técnicas e de certificação da qualidade, ambas a cargo do Centro Tecnológico do Exército (CTEx). A subfase termina com a obtenção do protótipo. Pode-se notar que o Modelo Administrativo do Ciclo de Vida de Materiais de Emprego Militar (IG 20-12) preconiza que a obtenção de um determinado produto pode se dar por compra direta ou por desenvolvimento. No segundo caso, a P&D pode ser realizada exclusivamente pelo Exército, ou em parceria com empresas nacional e/ou estrangeira. Entretanto, não estabelece procedimentos específicos quanto a estas ações. 2.1.3 Normas para Elaboração, Gerenciamento, e Acompanhamento de Projetos no Exército Brasileiro Tendo em vista que os PEE serão os vetores da Transformação do Exército, foi criado, no âmbito do Estado-Maior do Exército, o Escritório de Projetos do Exército (BRASIL, 2012) O Escritório tem por finalidade difundir e consagrar a “cultura de projeto” dentro da Força, bem como permitir a gestão dos projetos estratégicos do Exército. Nesse esforço, e sob a responsabilidade do EPEx, foram criadas as Normas para Elaboração, Gerenciamento e Acompanhamento de Projetos no Exército Brasileiro (BRASIL, 2013). Essas Normas têm por finalidade regular os procedimentos a serem adotados para a elaboração, gerenciamento e acompanhamento de projetos no 19 Exército Brasileiro, permitindo o gerenciamento de todos os Projetos Estratégicos do Exército, sendo o Guarani um destes projetos. Segundo as NEGAPEB pode-se dizer que um projeto nasce de uma necessidade, que pode ser operacional ou administrativa. Pode, também, ser fruto de um planejamento estratégico, necessariamente contido no Sistema de Planejamento do Exército, e conduzindo à conquista de um objetivo organizacional, provocando uma mudança, inovação ou transformação. Elas têm como objetivo: - estabelecer as missões e atribuições do Escritório de Projetos; - atribuir responsabilidade ao gerente e ao supervisor do projeto; - estabelecer os requisitos a serem considerados na designação do gerente e do supervisor do projeto; e - operacionalizar a metodologia constante das Instruções Provisórias para a Elaboração e Gerenciamento de Projetos, no que se refere à confecção de documentos relativos aos projetos. As NEGAPEB preconizam, ainda, a elaboração de um Estudo de Viabilidade, o qual deverá fornecer as informações necessárias à decisão da autoridade, sobre começar ou não o projeto. Para sua elaboração os Órgãos de Direção Setorial podem ser solicitados a emitirem estudos relativos às suas áreas de atuação. Ao final, o EPEx consolida todos os estudos em um só documento, gerando o referido Estudo de Viabilidade. Quando se tratar da obtenção de um PRODE por meio de P&D, informações mais específicas sobre o tema deverão estar contidas no Estudo de Viabilidade. Entretanto, as informações não conterão um nível de detalhamento em termos de procedimentos de como desenvolver a P&D do produto. 2.1.4 Instruções Reguladoras para o Gerenciamento de Projetos de Pesquisa e Desenvolvimento na Área de Materiais de Emprego Militar (IR 13-04) Esta Instrução reguladora foi elaborada pela então Secretaria de Ciência e Tecnologia, hoje Departamento de Ciência e Tecnologia. Foi criada com a finalidade estabelecer as atribuições e os procedimentos relativos ao gerenciamento de projetos de pesquisa e desenvolvimento na área de materiais de emprego militar. Este gerenciamento possibilita cumprir os prazos e garantir a qualidade dos projetos, 20 visando otimizar o emprego dos recursos financeiros, materiais e humanos, bem como regular a participação dos órgãos envolvidos nos projetos. Segundo a IR 13-04 (BRASIL, 1997) um projeto de C&T abrange, dentre outras fases, a de pesquisa e desenvolvimento, a qual procura obter o protótipo e depois o lote-piloto, com as características técnicas e operacionais previamente estipuladas. Nesta Instrução Reguladora são definidas as atribuições de todos os órgãos envolvidos no projeto. A do órgão responsável pela execução propriamente dito cabe, dentre outras, a atribuição de realizar as licitações, os contratos e os convênios necessários à P&D do projeto. Percebe-se na IR 13-04 que, embora sejam citados instrumentos úteis para a execução de um projeto como “contratos” e “convênios”, detalhes dos mesmos não são especificados, como por exemplo, propriedade intelectual e aporte financeiro de contrapartida por parte do Exército. Em relação a este último aspecto, nota-se que pelo fato desta Instrução Reguladora ter espectro de atuação restrito ao DCT, não alcança o órgão orçamentário do Exército tão fundamental na questão de contrapartida financeira do Exército. 2.1.5 Regimento Interno do Departamento de Ciência e Tecnologia (EB80-RI07.001) Para fins de se estruturar organizacionalmente, o Departamento de Ciência e Tecnologia elaborou seu Regimento Interno (BRASIL, 2014) apresentando sua organização geral, as competências e as atribuições. De um modo geral compete ao DCT planejar, organizar, dirigir e controlar as atividades científicas e tecnológicas de pesquisa e desenvolvimento, nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, dentre outras, relacionada a sistemas, produtos, tecnologias e serviços de defesa de interesse da Força, com foco principal nos PRODE. Neste Regimento encontra-se a orientação de se estimular e promover a participação de entidades públicas ou privadas em projetos de Ciência e Tecnologia de interesse do Exército. Neste sentido parcerias com a FINEP, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Ministério de Ciência, Tecnologia e 21 Inovação passaram a ser enxergadas como uma excelente estratégia para a execução de projetos. Outro aspecto de grande relevância constante neste Regimento Interno é a preocupação em se coordenar as atividades de proteção do conhecimento e de propriedade intelectual das criações e inovações, de transferência de tecnologia e de ganhos econômicos. Este assunto é tratado por meio de estudos técnicos que analisam as propostas de instrumentos de parceria e contratos a serem celebrados pelo DCT, verificando sua eficácia e sua abrangência. Por fim, este Regimento tem como um de seus principais objetivos promover a fabricação, adaptação, transformação, modernização e nacionalização de sistemas, tecnologias, serviços e produtos de Defesa de interesse do Exército. O Projeto Guarani se encaixa perfeitamente a este objetivo, pois se pretende que ao final do projeto o Exército Brasileiro tenha atingido os objetivos acima citados. 22 3. PROJETO ESTRATÉGICO GUARANI “Nas coisas grandes e duvidosas, a maior dificuldade está no princípio”. Cervantes O projeto da Viatura Blindada de Transporte Pessoal Média de Rodas (VBTP-MR) tem por objetivo transformar as Organizações Militares de Infantaria Motorizada em Mecanizada e modernizar as Organizações Militares de Cavalaria Mecanizada. Atualmente, o Exército Brasileiro utiliza as viaturas EE – 9 CASCAVEL e as EE – 11 URUTU nos Regimentos de Cavalaria Mecanizada, Esquadrão de Cavalaria Mecanizada, Esquadrão de Cavalaria da Brigada de Cavalaria Mecanizada, Companhia de Comunicações Mecanizada, Companhia de Engenharia de Combate Mecanizada, Batalhão Logístico da Brigada de Cavalaria Mecanizada e em diversos estabelecimentos de ensino do Exército. Segundo o Anteprojeto da NFBR (BRASIL, 06) as viaturas CASCAVEL e URUTU foram concebidas na década de 70, e quando comparadas com as viaturas que compõem os diversos Exércitos, verifica-se que possuem características inferiores, principalmente no que diz respeito à mobilidade tática. Por existirem há mais de 30 anos encontram-se no final do seu ciclo de vida. A NFBR prevista no Sistema de Planejamento do Exército visa substituir as viaturas CASCAVEL e URUTU. Além disso, a Nova Família de Blindados de Rodas do Exército Brasileiro foi concebida para dotar as unidades/subunidades mecanizadas, considerando todas as modificações introduzidas no combate das unidades mecanizadas no final do século passado e incorporando as novas tendências para o desenvolvimento de viaturas blindadas de rodas. O projeto teve como base os elementos de definição de um PRODE, a saber: Condicionantes Doutrinárias e Operacionais, Requisitos Operacionais Básicos, Requisitos Operacionais Técnicos, Anteprojeto e Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica. Nestes elementos estão contidas todas as características técnicas e operacionais necessárias ao projeto da viatura. 23 Figura 1: Exposição da Viatura Guarani na Fábrica da FIAT/IVECO. Fonte: Gerência do Projeto Para o desenvolvimento do projeto foram seguidas as seguintes etapas: elaboração do projeto do veículo, constituído pelos desenhos e estudos de engenharia, pertencentes ao pacote técnico; construção e avaliação de um protótipo e; produção e avaliação de um lote-piloto. A família de blindados foi baseada em dois “chassi”, um leve e um médio, originando duas subfamílias de blindados: - Subfamília MÉDIA: “chassi” único, preferencialmente do tipo 6 x 6 (podendo ser 8 x 8 para algumas versões), com boa mobilidade através campo, baixa silhueta, sobre o qual serão desenvolvidos os diversos tipos de viaturas médias integrantes da família. - Subfamília LEVE: “chassi” único, preferencialmente do tipo 4 x 4, de elevada mobilidade em estradas e boa mobilidade através campo, baixa silhueta, sobre a qual serão desenvolvidos os diversos tipos de viaturas integrantes da família. Fazem parte da Família MÉDIA as seguintes viaturas: 24 - Viatura Blindada de Reconhecimento Média de Rodas - Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Média de Rodas - Viatura Blindada de Combate, Morteiro Média de Rodas - Viatura Blindada Especial, Socorro Média de Rodas - Viatura Blindada Especial, Posto de Comando Média de Rodas - Viatura Blindada Especial, Comunicações Média de Rodas - Viatura Blindada Especial, Central Diretora de Tiro Média de Rodas - Viatura Blindada Especial, Oficina Média de Rodas - Viatura Blindada de Transporte Especializado, Ambulância Média de Rodas Fazem parte da Família LEVE as seguintes viaturas: - Viatura Blindada de Reconhecimento Leve de Rodas - Viatura Blindada de Combate Anticarro Leve de Rodas - Viatura Blindada de Combate, Morteiro Leve de Rodas - Viatura Blindada Especial Radar Leve de Rodas - Viatura Blindada Especial, Posto de Comando Leve de Rodas - Viatura Blindada Especial, Observação Avançada Leve de Rodas - Viatura Blindada de reconhecimento Leve de Rodas - Viatura Blindada de reconhecimento Leve de Rodas Em 2006, por ocasião da realização da 1ª Reunião Decisória2 (1ª RD) contando com a participação de integrantes do Alto Comando do Exército, ficou estabelecido em ATA (BRASIL, 2006) que o Projeto da Nova Família de Blindados de Rodas seria iniciado pelo desenvolvimento da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Média de Rodas utilizando plataforma 6x6, e que deveria ser considerado como plataforma base para as demais versões da NFBR. Além disso, deveria ser classificado como projeto prioritário para o Exército Brasileiro. Ainda na 1ª RD ficou deliberado que a viatura seria classificada, sob a luz da IG 20-12, como MEM Tipo A3, e que deveria obter a viatura por desenvolvimento autônomo pelo Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército em parceria com empresa nacional ou consórcio. 2 Ocasião em que o Exército faz a escolha entre as possíveis alternativas para a obtenção de material de Emprego Militar. 3 Material novo a ser pesquisado e/ou desenvolvido, no país ou no exterior, pelo Exército ou por empresa nacional ou por empresa estrangeira ou por conjunto dessas organizações, mediante convênios, contratos ou acordos de cooperação com o Exército. 25 Por fim, ficou estabelecido que o projeto deveria prever a fabricação de 01 (um) protótipo e 16 (dezesseis) viaturas para o lote-piloto, tendo 04 (quatro) anos de prazo para a conclusão da VBTP-MR (protótipo e lote-piloto fabricados e avaliados). O custo do projeto foi estimado em R$64.000.000,00 (sessenta e quatro milhões de reais). O projeto é caracterizado pela multidisciplinaridade, uma vez que contempla a concepção de diversos subsistemas, são exemplos: blindagem, comunicação embarcada, monobloco, suspensão-direção-freio, trem de força e transmissão, sistemas de armas (canhão automático calibre 25mm e/ou metralhadora calibre 7,62mm). Não se pode ignorar que a integração de todos os subsistemas foi uma tarefa extremamente complexa, uma vez que conjugar espaço físico, peso, e o desejo de grande mobilidade foram usados como fatores decisivos para o resultado final. Em 2012, por ocasião da Reunião Decisória Especial4 (RDEsp), ficou estabelecido que deveria ocorrer uma Experimentação Doutrinária da VBTP-MR na Infantaria Mecanizada, ainda na fase de P&D do Ciclo de Vida da viatura. Conforme quantidade de dotação de uma Brigada de Infantaria Mecanizada, o Lote de Experimentação Doutrinária (LED) foi estipulado em 112 (cento e doze) VBTP-MR. Somando a quantidade de viaturas previstas no lote-piloto com a estipulada no LED totalizou um número de 128 (cento e vinte e oito) unidades da VBTP-MR Guarani. Vale ressaltar que as viaturas correspondentes ao lote-piloto foram incorporadas ao LED. Para fins de Experimentação Doutrinária foi acionada a 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada, com sede em Cascavel-PR. O desenvolvimento do protótipo se deu em um período de seis anos, de janeiro de 2008 a dezembro de 2013, e o EB pagou à IVECO para P&D, fabricação de 01 (um) protótipo e Lote-piloto com 16 (dezesseis) viaturas o valor de R$40.902.692,92 (quarenta milhões, novecentos e dois mil, seiscentos e noventa e dois reais e noventa e dois centavos), incluindo o Pacote de Dados Técnicos e a Propriedade Intelectual gerada durante a execução do objeto do contrato. A VBTP-MR pode ser equipada com dois tipos de sistema de armas: um que utiliza a metralhadora calibre 7,62mm, que por sua vez pode ser na configuração 4 Outra forma de Reunião Decisória que ocorre de acordo com a IG 20-12 26 PLATT5 ou REMAX6, a um custo de R$2.787.530,78 (dois milhões, setecentos e oitenta e sete mil, quinhentos e trinta reais e setenta e oito centavos) cada, incluindo pacote logístico e impostos; e outro que utiliza o canhão automático calibre 30mm, na configuração UT30BR, no valor de R$2.992.221,01 (dois milhões, novecentos e noventa e dois mil, duzentos e vinte e um reais e um centavo) cada, incluindo pacote logístico e impostos. Com o primeiro sistema de armas serão produzidas 102 (cento e duas) e com o segundo, 10 (dez) viaturas. Figura 2: Viatura Guarani com a metralhadora 7,62mm REMAX. Fonte: Gerência do Projeto 5 6 Torre sem estabilização Torre estabilizada 27 . Figura 3: Viatura Guarani com o canhão automático 30mm UT30BR. Fonte: Gerência do Projeto Cabe lembrar que o nome “GUARANI”, escolhido após uma pesquisa contando com a participação de integrantes do Exército, militares e civis, é o nome fantasia apenas da VBTP – MR, não se referindo ao Programa da Nova Família de Blindados de Rodas como um todo. 28 4. CONVÊNIOS E CONTRATOS “Se você encontrar um caminho sem obstáculos, ele provavelmente não leva a lugar nenhum.” Frank Clark Nas décadas de 80 e 90 a maioria dos projetos não obteve sucesso, alguns sendo interrompidos e outros sendo até mesmo cancelados. O motivo destes insucessos era a pequena adesão dos órgãos superiores, mais especificamente no tocante a falta de previsão orçamentária. Para evitar os problemas de outrora o DCT selou um convênio com a Financiadora de Estudos e Projetos (BRASIL, 2008) tendo como objeto o aporte financeiro para o desenvolvimento de um protótipo da viatura e a fabricação de um lote-piloto, este último para fins de avaliação. Outro problema que se verificava frequentemente naquela época era a pretensão do Exército de desenvolver o projeto exclusivamente com seu pessoal. Assim, as equipes de desenvolvimento eram compostas de um número reduzido de pessoas, que na maioria das vezes não possuíam experiência suficiente, além de não contar com estrutura laboratorial e de equipamentos. Dessa maneira, com o intuito de se evitar também estes fatos o DCT contratou, após criteriosa escolha, a empresa FIAT/IVECO (BRASIL, 2007) para ser a parceira do Exército. O contrato tinha como objeto desenvolver um protótipo da viatura e fabricar um lote-piloto composto de 16 (dezesseis) unidades. O convênio e o contrato citados acima, na sua conjugação, teve caráter inovador no processo do desenvolvimento, de construção de protótipo, e de fabricação de lote-piloto. Esta estratégia permitiu que o projeto sofresse pouca interferência com os constantes cortes ou contingenciamentos no orçamento do Exército. 4.1 CONVÊNIO COM A FINEP O executor do projeto foi o Comando do Exército, através do Departamento de Ciência e Tecnologia, que por sua vez utilizou a Fundação Ricardo Franco como convenente. A concedente foi a Financiadora de Estudos e Projetos. 29 O convênio teve como objeto a transferência de recursos financeiros, pela concedente à convenente, para a execução do Projeto da Viatura Blindada Transporte de Pessoal Média de Rodas. Segundo o convênio a FINEP deveria aportar o valor total de até R$10.445.852,24 (dez milhões, quatrocentos e quarenta e cinco mil, oitocentos e cinquenta e dois reais e vinte e quatro centavos), sendo R$10.130.000,00 (dez milhões, cento e trinta mil reais) destinados à Fundação Ricardo Franco por meio de aporte direto, e R$315.852,24 (trezentos e quinze mil, oitocentos e cinquenta e dois reais e vinte e quatro centavos) destinados a Bolsas de Desenvolvimento Tecnológico, a serem transferidos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico. Em contrapartida o Executor, no caso o Comando do Exército/DCT, tendo a frente a Fundação Ricardo Franco, obrigou-se a empenhar o valor de R$12.000.000,00 (doze milhões de reais) sob a forma de recursos financeiros e R$3.000.000,00 (três milhões de reais) sob a forma de recursos não-financeiros. Esse tipo de contrato (recursos da FINEP e contrapartida do Exército) é extremamente vantajoso para a execução do projeto. Se por um lado a gerência recebe um aporte financeiro da FINEP, aliviando o orçamento do Exército com os custos do projeto, por outro lado cria um compromisso por parte do Comando do Exército em investir um valor como contrapartida. Este compromisso obriga o órgão responsável pelo orçamento da Força a prever uma reserva orçamentária para fins de cumprimento do convênio. Outro fator que o convênio levou em consideração foi o prazo de execução do projeto. Em projetos do passado, os prazos não eram fixados, o que causava fraco compromisso com a entrega do produto. No caso em tela, o aporte de recursos por parte da FINEP, bem como da contrapartida do Exército, ficaram condicionados ao atingimento das etapas estipuladas previamente pela gerência de projeto. O prazo de vigência do convênio foi de até 28 (vinte e oito) meses, a partir da data da assinatura do mesmo. Foi prevista a prorrogação de prazos, caso fosse necessário, entretanto, deveria seguir as formalidades constantes no convênio. Outro fato que nas décadas passadas ocorria frequentemente era a falta de definição da propriedade intelectual do produto, principalmente quando o Exército utilizava uma empresa parceira para desenvolver todo o projeto ou parte dele. 30 Dessa forma o convênio forçou o Exército a definir esta questão, quando ficou estipulado que os direitos de propriedade intelectual sobre os resultados dos projetos e a confidencialidade das informações e conhecimentos adquiridos na execução das atividades deveriam ser definidos entre as instituições que participassem do projeto, caso o Exército o desenvolvesse em parceria com uma ou mais empresas/instituições. Entretanto, no caso de transferência, licença, ou cessão da propriedade intelectual do projeto a terceiros, a FINEP deveria ser consultada. 4.2 EMPRESA PARCEIRA Nos projetos desenvolvidos pelo Exército nas décadas de 80 e 90 acreditava-se que a Força teria condições de executar o projeto de modo autóctone. Na avaliação dos responsáveis pela pesquisa e desenvolvimento dos produtos os laboratórios e equipamentos eram suficientemente adequados para tal empreendimento. Na questão de recursos financeiros apostava-se que uma vez concebido um protótipo e havendo uma demonstração sobre seu desempenho, as autoridades competentes se sensibilizariam e aportariam verbas para o término do projeto. Já na questão envolvendo recursos humanos havia uma crença de que as pessoas envolvidas no projeto eram capazes de executá-lo, independente da multidisciplinaridade exigida para este tipo de atividade. Eram ações amadoras que normalmente ensejavam em fracasso. Por outro lado, existia a corrente que apostava na execução de um projeto por meio de parceria com empresa nacional. Entretanto, a escolha das mesmas era realizada de modo amadorístico, não levando em consideração aspectos fundamentais, como experiência em projetos similares, tempo de existência da empresa no mercado, capacitação de seus integrantes, capital de giro, laboratórios e equipamentos, dentre outros aspectos. Com empresas estrangeiras o quadro se agravava consideravelmente. Este tipo de parceria era extremamente danoso para a condução do processo, tendo em vista a falta de profissionalismo da empresa contratada e muitas vezes a inexistência de cláusulas mais rigorosas no caso de não atingimento das metas pré-estabelecidas. Visando neutralizar estes aspectos pouco profissionais o Departamento de Ciência e Tecnologia mudou o enfoque dado ao desenvolvimento de um PRODE e passou a exercer um papel de grande gerente (técnico, financeiro e administrativo), 31 não esquecendo de itens como a capacitação de recursos humanos do Exército, prioritariamente engenheiros militares, bem como o domínio de tecnologias críticas. Nesse sentido, o DCT elaborou um criterioso processo para se escolher a empresa que seria responsável pela execução da tarefa de desenvolver e fabricar o protótipo e o lote-piloto. O método utilizado observou absoluto profissionalismo. Na sequência foi celebrado um contrato entre o Exército Brasileiro e a empresa parceira. Este item do trabalho tem por objetivo apresentar o processo de escolha da empresa, bem como descrever o contrato que selou a parceria, sinalizando dessa forma, um modelo de sucesso para contratação da empresa parceira. 4.2.1 Processo de Escolha da Empresa Parceira Após estudos detalhados a Gerência Técnica chegou ao entendimento de que o modelo de inovação a ser seguido para a obtenção da viatura seria aquele que combinasse a possibilidade de fomento pela FINEP, por meio de ação conjunta dos Ministérios da Defesa e da Ciência, Tecnologia e Inovação, para o desenvolvimento do Protótipo, com uma contrapartida do EB que se estendia até a produção de um Lote Piloto, proporcionando um mínimo de entrega para o EB e a viabilidade econômica da empreitada para a empresa parceira. Destaca-se que esse arranjo, com aportes da FINEP e do EB, foi pioneiro naquele momento, encontrando pequenas semelhanças apenas no contemporâneo Projeto do Radar Saber M60. Do ponto de vista técnico, o modelo de inovação elaborado reservava ao EB o conceito da viatura, a ser revisado e detalhado pela empresa parceira, que se encarregaria de incorporar as soluções de mercado e à qual caberia a fabricação, sob acompanhamento cerrado do EB e por uma Equipe de Absorção de Conhecimentos e de Transferência de Tecnologia residente na empresa e diretamente ligada à Gerência Técnica. A seleção da empresa parceira era de importância central para o sucesso do modelo de inovação do Projeto de P&D da VBTP-MR, tendo se valido de um mecanismo novo à época, a dispensa de licitação por alta complexidade tecnológica e interesse da Defesa Nacional, introduzido na Lei de Licitações e Contratos, como inciso XXVIII (originalmente XXVII) do Art. 24. 32 Confirmada a hipótese de dispensa de licitação por comissão especificamente designada pelo Comandante do Exército, procedeu-se um criterioso processo de seleção, com base em critérios objetivos, vinculados às diretrizes e premissas do Projeto, conduzido pelo DCT a partir de propostas da Gerência Técnica, porém com representantes do EME e de diversos órgãos setoriais. O processo, em si inovador, culminou com a seleção da proposta mais vantajosa da Fiat SA, que designou a sua divisão IVECO para a execução do contrato, também em si inovador por refletir o modelo de inovação elaborado, e cuja confecção igualmente contou com o aporte de diversas áreas do EB. Para a escolha das empresas foram utilizados indicadores que serviram para classificar as empresas durante a fase de Solicitação de Propostas, ou “Request For Proposals - RFP”. Seguem abaixo os indicadores utilizados: - Orçamento: analisados temas como valor e consistência do orçamento, desembolso inicial para se começar o projeto, percentual da diferença entre o desembolso e o valor orçado até a entrega do protótipo, e consistência do cronograma de desembolso. - Risco: analisadas questões como: média dos percentuais anuais dos valores das exportações em relação aos valores dos faturamentos nos últimos 05 (cinco) anos, média do retorno sobre investimento nos últimos 05 (cinco) anos, e percentual do valor da proposta financeira relativo ao valor médio do faturamento dos últimos 05 (cinco) anos. - Logística: analisados temas como o percentual do número de peças diferentes do tipo 37, e percentual do número de peças diferentes importadas do tipo 28. - Desenvolvimento Científico-Tecnológico: considerado o índice de nacionalização do projeto em termos de preço. 4.2.2 Contrato com a FIAT/IVECO O Comando do Exército, através do Departamento de Ciência e Tecnologia, que por sua vez utilizou a Fundação Ricardo Franco, conveniada com a Financiadora de Estudos e Projetos, efetivou a contratação da FIAT Automóveis S.A. 7 8 Peça Tipo 3 – projetada e fabricada especificamente para o Guarani, notadamente as peças da carcaça. Peça Tipo 2 – de prateleira como motor e caixa. 33 – Divisão IVECO FIAT Brasil, também denominada de FIAT/IVECO, como coexecutora do projeto de desenvolvimento e fabricação de lote-piloto da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Média de Rodas. O contrato teve como objeto o desenvolvimento da VBTP-MR e a fabricação de um lote-piloto de 16 (dezesseis) viaturas, para o Exército Brasileiro, com base no Projeto Básico, incluindo dentre outras atividades, o gerenciamento do projeto e a transferência de tecnologia para o EB. Vale destacar um aspecto de grande relevância contido neste contrato, qual seja a preocupação na transferência de tecnologia de tudo que viesse a fazer parte do desenvolvimento. Este fato tem como objetivo principal fornecer ao EB uma posição de domínio sobre as tecnologias necessárias para a fabricação deste tipo de viatura, condição fundamental para a conquista da independência tecnológica no setor. No sentido de se atender o objetivo do contrato, a FIAT/IVECO deveria fornecer ao EB um Plano de Gestão do Projeto, que deveria ser aprovado pelo Gerente Militar do Projeto; 01 (um) protótipo da VBTP-MR, incluindo todos os sistemas e equipamentos especiais integrados; 01 (um) lote-piloto de 16 (dezesseis) VBTP-MR, conforme especificação estabelecida; um pacote de dados técnicos composto por todas as informações geradas durante o desenvolvimento da VBTPMR e dos processos de fabricação, bem como todas aquelas necessárias e suficientes à operação e ao suporte logístico da viatura; e um conjunto do ferramental de produção especificamente desenvolvido para a execução do objeto do contrato, permanecendo sob a guarda do Exército para utilização em produções futuras. Para fins de atribuição de responsabilidades, foi atribuição da FIAT/IVECO assistir a Gerência Militar do Projeto no acompanhamento das atividades técnicas desenvolvidas e das avaliações técnica e operacional do protótipo da VBTP-MR, operando às suas custas e com oportunidade, as correções e reparações no protótipo decorrentes dos resultados dos testes. Ficou ainda estipulado que a FIAT/IVECO, na condição de fabricante, deveria garantir dor 02 (dois) anos os 16 (dezesseis) veículos constitutivos do lote-piloto. De grande relevância e com total clareza, o contrato estipulou que os direitos de Propriedade Intelectual resultantes da execução do projeto seriam considerados Propriedade Intelectual Adquirida e seriam exclusivos do EB. De acordo com a 34 legislação vigente, o Exército Brasileiro licenciaria, por um prazo de 20 (vinte) anos, a FIAT/IVECO para produção no Brasil, e comercialização no Brasil ou no exterior, dos bens relativos aos direitos de propriedade intelectual eventualmente gerados na execução do projeto, mediante o pagamento de “royalties”. Visando eliminar erros frequentes ocorridos no passado quanto a prazos e custos, o Exército Brasileiro teve uma preocupação especial no tocante a estes aspectos. Assim o contrato estipulou vigência de 48 (quarenta e oito) meses, a partir de sua assinatura, podendo ser prorrogado por meio de celebração de termos aditivos. Além disso, pela execução do objeto do contrato o Exército Brasileiro deveria pagar à FIAT/IVECO o valor de R$32.722.231,00 (trinta e dois milhões, setecentos e vinte e dois mil, duzentos e trinta e um reais) nele inclusos todos os custos, inclusive quanto a tributos e encargos sociais, trabalhistas e previdenciários, relativos aos empregados por ela utilizados, bem como quanto aos materiais, a serem empregados no desempenho das obrigações. 4.2.3 Contrato entre a FIAT/IVECO e o BNDES Por sua iniciativa, mas em consonância com os objetivos do Projeto de P&D, a IVECO decidiu implantar uma fábrica dedicada aos blindados Guarani. Desse modo, a FIAT/IVECO fez um contrato de financiamento com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social com vistas a obter recursos financeiros necessários para montar uma planta industrial na cidade de Sete Lagoas, Minas Gerais, Este assunto obteve destaque recentemente na edição da Revista Verde Oliva (Abril, 2014), cujo preâmbulo sintetiza o feito: “A inauguração da fábrica IVECO, em Sete Lagoas (MG), torna realidade o sonho do Exército Brasileiro de desenvolver e produzir uma nova família de blindados de rodas, com todas as suas versões, o que leva, cada vez mais, à maior adequação ao Processo de Transformação da Força Terrestre e contribui para o crescimento da indústria nacional de defesa”. Nestas instalações se deu a produção do Lote Piloto, inicialmente 04 (quatro) unidades de mesma configuração do Protótipo em linha de produção provisória e, posteriormente, as 12 (doze) unidades restantes, estas já na nova linha 35 de produção, mas todas incorporando correções e oportunidades de melhoria verificadas no desenvolvimento. Também nesta moderna fábrica são produzidas as demais viaturas do Lote de Experimentação Doutrinária e, em breve, face à inclusão do Projeto Estratégico Guarani no PAC Defesa, deve se iniciar a produção seriada da VBTP-MR. Com capacidade instalada que pode chegar a 140 (cento e quarenta) viaturas por ano, a nova fábrica gerará “royalties” e divisas ao atender também às Forças Armadas de Nações Amigas, tendo-se como exemplo o interesse manifestado pelo Ministério da Defesa da República Argentina e considerando-se também a repercussão positiva que a VBTP-MR Guarani encontrou em feiras, como as últimas edições da Eurosatory 2012, em Paris, e a da LAAD-Defense & Security 2014, no Rio de Janeiro, ocasiões em que foram prontamente reconhecidas as características de simplicidade, baixo custo e capacidade operacional. 36 5. IMPACTOS DO PROJETO ESTRATÉGICO GUARANI “Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.” “Mahatma Gandhi” 5.1 SOBRE A INDÚSTRIA DE DEFESA O PEE Guarani impactou a BID com o envolvimento de algumas empresas no desenvolvimento de tecnologias específicas, cumprindo um papel de fomento às empresas e de criação de tecnologias nacionais. Os principais desenvolvimentos de tecnologias foram na área de proteção balística; pode-se citar o aço balístico desenvolvido pela empresa USIMINAS (www.usiminas.com) e as blindagens não metálicas desenvolvidas na empresa ALLTEC (www.allteccomposites.com.br). Na verdade, no Projeto Guarani houve transferência de tecnologias para o Brasil, em diversas áreas. Isso se deu, principalmente porque o projeto, por questões de prazos, derivou para o desenvolvimento, deixando a pesquisa em segundo plano. Com isso, aconteceu maior incidência da produção local de componentes oriundos do exterior, o que caracterizou o processo de nacionalização. Espera-se que, progressivamente, o Brasil desenvolva mais tecnologias locais, mas, para isso, precisa-se de investimentos específicos em pesquisa de PRODE. Seguem abaixo exemplo dos mais importantes casos de absorção de tecnologia ocorrida: - EUROAR (www.euroar.com.br): realização de projeto e capacitação de engenheiros em desenvolvimento de componentes eletro/eletrônicos para aplicações militares, mais especificamente na área de sistema de ventilação e ar condicionado. - EURO ELECTRA do BRASIL (http://www.euroelectra.it/eng/military-cableharnesses): montagem de chicotes elétricos e centrais elétricas do veículo Guarani, sendo realizada a capacitação de operários na Itália. - CEMAÇO (http://www.cemacobr.com.br/br/): nacionalização dos componentes metal mecânicos da carroceria e chassi do veículo, gerando crescimento da indústria de Minas Gerais. Capacitação de técnico dentro da planta da IVECO/Itália nos processos de corte, conformação e usinagem de aços balísticos. 37 5.2 SOBRE O QUADRO DE ENGENHEIROS MILITARES Vale a pena observar que o PEE Guarani causou impacto nos engenheiros militares no campo motivacional, pelo fato de a Engenharia Militar ter conseguido, com sucesso, entregar para a tropa um produto acabado e de excelente desempenho operacional. Não é possível se avaliar a intensidade do impacto, uma vez que ocorre de forma intangível, entretanto, vem provocando mudanças na forma de pensar e agir dos integrantes do QEM. O PEE Guarani foi capaz de motivar e provocar maior comprometimento dos engenheiros militares de gerações mais antigas. Este contexto favoreceu a transmissão da experiência angariada através do tempo, baseada em sucessos e fracassos, aos engenheiros militares mais novos. O projeto também gerou uma intensa interação do engenheiro militar com as indústrias, nacionais e/ou estrangeiras, como é o caso da FIAT/IVECO, EUROAR, EURO ELECTRA do BRASIL, CEMAÇO, ALLTEC e USIMINAS, provocando a internação de engenheiros militares nestas indústrias. Esta forma de integração permitiu uma oxigenação do engenheiro militar em termos de contato com novas tecnologias e capacitação pessoal, seja no país ou no exterior. O PEE Guarani transmitiu aos engenheiros militares um sentimento de profissionalismo na concepção de projetos. Além disso, e talvez o mais importante aspecto, é o sentimento transmitido a estes militares de que o engenheiro militar é um ator importante na operacionalidade da Força, e que o Exército não pode abrir mão do QEM se quiser possuir poder de dissuasão perante outros países, com o emprego de um Exército forte que utiliza equipamentos de alto valor tecnológico agregado. Além disso, houve uma aproximação extremamente positiva entre o engenheiro militar e o pessoal combatente, valorizando o trabalho da engenharia militar. As percepções de aproximação e valorização ficam evidenciadas quando se observa alguns depoimentos de alguns combatentes: - Da tropa que foi para a Missão de Paz no Haiti e teve contato com a viatura Guarani: “...a gente vai mesmo naquele URUTU, quando se tem uma viatura como o Guarani...” - Do Comandante do Batalhão da Força de Paz que participou da avaliação operacional da viatura: “...é uma Ferrari...” 38 - Do Comandante do 33º Batalhão de Infantaria Mecanizada: “...é um Fórmula 1...” Do Comandante do Centro de Instruções de Blindados: “...a viatura é Excelente..."; Do Comandante Militar do Sul: "...para a tropa é excelente, top de linha..." O sucesso da viatura está tão presente no dia-a-dia da tropa que até na Revista Recrutinha, edição da semana do Exército de 2014, apresenta um blindado Guarani para as crianças recortarem e montarem. O PEE Guarani reacendeu a chama da vontade contida em cada engenheiro militar, encheu de orgulho todos os integrantes do QEM, e demonstrou que esses engenheiros são fundamentais para o emprego da Força. 5.3 SOBRE O PROCESSO DE AVALIAÇÃO DA VIATURA Cumpre destacar a atuação do Centro de Avaliações do Exército, Órgão do Exército Brasileiro responsável pela avaliação técnica-operacional de PRODE. O CAEx, na rigorosa observância da conformidade aos requisitos, e na aplicação de técnica esmerada na condução do processo de avaliação, contribuiu sobremaneira para a evolução do produto e levou a um minucioso conhecimento do complexo sistema que é a VBTP-MR. O CAEx recebeu, além de grande conhecimento gerado, muitas melhorias na sua infraestrutura em função das avaliações da viatura. Além dos testes conduzidos no Brasil, o CAEx acompanhou testes realizados no exterior, tais como: - Certificação da proteção balística e antiminas da VBTP-MR. Por contrato, a IVECO realizou os referidos testes no IBD, localizado em Schrobenhausen, Alemanha. - Certificação da integração do sistema automático de detecção e extinção de incêndio da VBTP-MR. Por contrato, a IVECO realizou os citados testes na empresa MARTEC, localizada em Mãntua, Itália. - Testes preliminares da FIAT/IVECO: o CAEX acompanhou os testes preliminares na VBTP-MR que a FIAT/VECO realizou na Itália, tais como navegação anfíbia, compatibilidade eletromagnética e de desempenho da viatura. Após capacitação de seu pessoal nestes testes, os mesmos foram reproduzidos no CAEx. O acompanhamento serviu, entre outros objetivos, para trocas de experiências com 39 outros centros de testes fora do Brasil. A IVECO também realizou testes preliminares no Campo de Provas da RANDON, localizado em Caxias do Sul-RS. O CAEx, para cumprir sua função de avaliação, teve que assimilar experiências inéditas, seja na execução de testes complexos, seja na reestruturação de seus laboratórios. 5.4 SOBRE A ÁREA POLÍTICA (PAC DEFESA) Em termos de projetos de grande vulto na área de defesa, o contingenciamento de verbas por parte do governo sempre foi uma ameaça para as Forças, tendo em vista possíveis interrupções no cronograma de desenvolvimento de um projeto. Como exemplo, em 2013, o Ministério da Defesa sofreu um corte de R$4,1 bilhões (22,4%) dos R$18,7 bilhões previstos. Para fins de garantir fluxo financeiro para os projetos mais importantes no âmbito da Força, o Comando do Exército fez gestões junto ao Ministério da Defesa, que repassou o pleito ao Ministério do Planejamento, para que alguns projetos estratégicos da Força fizessem parte do Programa de Aceleração do Crescimento na Defesa. Tendo como objetivo estimular a economia brasileira com a ampliação dos investimentos, e gerar emprego e renda, o governo federal incluiu três projetos estratégicos do Exército no PAC Defesa, sendo um deles o PEE Guarani. Desta forma foram disponibilizados recursos financeiros equivalentes à fabricação de 40 (quarente) viatura Guarani. A estratégia adotada pelo Exército para garantir o fluxo de caixa para os projetos foi determinante para a execução do projeto em tela, minimizando riscos de contingenciamentos financeiros. 40 6. CONSIDERAÇÕES GERAIS “Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.” William Shakespeare 6.1 SITUAÇÃO ATUAL DO PROJETO Durante o ano de 2013, intensificaram-se os trabalhos de desenvolvimento da capacitação de pessoal e do suporte logístico integrado, em estreita colaboração com a Organização Militar que apoia logisticamente o projeto, ou seja, o Centro de Instrução de Blindados (CIBld), com efetiva participação da empresa parceira, possibilitando formação inicial de motoristas, comandantes de carro e mecânicos, fundamentais para o bom uso da viatura. A utilização das VBTP-MR experimentais está coberta por um Pacote Logístico que contempla a utilização de cada viatura por 22.500km ou 1.000 horas, até julho de 2017, e que abrange também o desenvolvimento da capacidade de manutenção do sistema logístico da Força em 1º e 2º escalões e de diagnose em 3º escalão. Até o momento foram produzidas 16 viaturas do lote-piloto que foram incorporadas ao LED, e mais 50 (cinquenta) viaturas do LED que serão assim distribuídas: 04 (quatro) no CIBld, 13 (treze) no 33º Batalhão de Infantaria Mecanizada, 10 (dez) no 34º Batalhão de Infantaria Mecanizada, 16 (dezesseis) em recebimento e 7 (sete) no Centro de Avaliações do Exército (CAEx) participando de testes diversos e que serão redistribuídas futuramente. Vale notar que 05 (cinco) viaturas do 33º Batalhão de Infantaria Mecanizada estão sendo empregadas na Operação São Francisco na comunidade da Maré, na cidade do Rio de Janeiro/RJ. As restantes serão entregues ao longo do ano de 2014. A Subfamília Média da Família de Blindados Guarani prevê outras configurações além da VBTP-MR, a serem desenvolvidas conforme planos do EME: Reconhecimento; Morteiro; Central Diretora de Tiro; Socorro; Oficina; Comunicações; Posto de Comando; Ambulância; Engenharia; Desminagem; Lançadora de Pontes; Defesa Antiaérea; Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear; e Escola. Atualmente, está em curso o desenvolvimento da Viatura Blindada de Reconhecimento Média de Rodas, em configuração 8x8, a partir da plataforma base 41 da VBTP-MR, com previsão de receber sistema de armas de calibre 105mm, e seguindo o mesmo modelo de inovação com sucesso comprovado. 6.2 OS PROJETOS DO EXÉRCITO E A METODOLOGIA A metodologia apresentada acima foi aplicada integralmente no Projeto Estratégico Guarani. Entretanto, para a pesquisa e desenvolvimento do Radar SABER M60, o CTEx utilizou de modo precursor esta sistemática, ainda que de modo incompleto. O SABER M60 é um radar de busca e vigilância para defesa antiaérea de baixa altura (até 5.000 m), com alcance de 60 km. Sua pesquisa e desenvolvimento foram objetos da 1a fase do projeto Radar, concluída em 2007 com parceria da empresa Orbisat da Amazônia e financiada pela FINEP, que contemplou também a pesquisa e o desenvolvimento de um protótipo experimental do radar (SABER X60) e do Centro de Operações Antiaéreas automatizado. Com recursos do Programa de Reaparelhamento e Adequação do Exército foi implementada uma linha de produção em escala industrial, nas instalações do Arsenal de Guerra de São Paulo, que foi concluída e entregue em maio de 2010. A partir da linha de produção implantada, a Orbisat produziu e entregou ao Comando Logístico do Exército outros 9 (nove) Radares SABER M60. A Equipe de Projeto do Radar Saber M60 contou com a participação de forma integral de 14 (quatorze) Oficiais Engenheiros Militares (sendo 3 Doutores, 10 mestres e 1 Eng), 02 (dois) servidores civis do CTEx (doutores) e 02 (dois) Of Combatentes (01 Art e 01 Especialista em Guerra Eletrônica). Vale destacar que todos os oficiais do QEM permanecem na ativa e quase todos ainda atuam no Grupo Especial Radar do CTEx, no desenvolvimento de outros projetos do Programa Radares de Defesa. Desse modo, as idéias fundamentais para se executar um projeto de grande porte foram utilizadas na P&D do Radar SABER M60, sendo aperfeiçoadas e empregadas de modo mais abrangente no Projeto da Nova Família de Blindados de Rodas. Hoje, praticamente todos os projetos desenvolvidos no CTEx, e particularmente os estratégicos, utilizam a metodologia utilizada no Projeto 42 Estratégico Guarani, ratificando esta sistemática e indicando que é o caminho a ser seguido para a conquista do êxito. 43 7. CONCLUSÃO “Algo só é impossível até que alguém duvide e resolva provar ao contrário.” Albert Einstein O Brasil vem conquistando destaque no cenário mundial, principalmente no campo político e econômico. Detentor da sexta economia global, começa a despertar a atenção de países mais desenvolvidos. Não obstante a essa questão, o Brasil possui uma riqueza natural incomensurável, realçada pela presença da floresta amazônica, de grandes reservas hídricas e de recursos minerais. Recentemente, com a descoberta do pré-sal o Brasil tomou lugar de destaque como possuidor de uma gigantesca reserva de petróleo e gás na plataforma continental. Esses fatos fazem com que o Brasil seja alvo de cobiça e, ao mesmo tempo, se afirme como “player” mundial. Esta projeção direciona o país para ações que visem preparar suas Forças Armadas como fator de dissuasão perante as outras nações. Assim, foram criados o Livro Brando de Defesa Nacional, a Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa, dando orientações para um processo de transformação das Forças Armadas. No âmbito do Exército Brasileiro, o Projeto Estratégico Guarani se caracterizou como um dos indutores da citada transformação. Alinhado com os documentos citados acima ganhou força dentro da Força Terrestre como substituto dos antigos e ultrapassados carros de combate URUTU e CASCAVEL. O Exército não possui tradição de realização de pesquisa e desenvolvimento de produtos de defesa, ainda mais no porte da referida viatura. Por vários motivos os projetos outrora iniciados normalmente eram fadados ao fracasso. Em uma conjugação positiva entre a criação do Departamento de Ciência e Tecnologia, em 2005, e a criação do Escritório de Projetos, em 2012, o Projeto Estratégico Guarani pôde aplicar um modelo de pesquisa e desenvolvimento que convergiu para um enfoque profissional. Sabe-se que existem diversos documentos no âmbito do Exército abordando o assunto de pesquisa e desenvolvimento, como as IG 20-12, as NEGAPEB, Instruções Reguladoras e Regimentos, entretanto, nenhuma trata nos detalhes, ou deixa orientações precisas sobre o que deve ser feito. 44 Dessa forma, o PEE Guarani foi inovador em todos os aspectos, utilizandose de estratégias que possibilitou sua execução. O primeiro aspecto relevante a considerar foi a decisão de coexistir dois tipos de gerentes. O primeiro é o Gerente do Projeto, integrante do Escritório de Projetos do Exército, inserido no Estado-Maior do Exército, cujas atribuições estão no nível estratégico. O segundo é o Gerente Técnico, integrante do Departamento de Ciência e Tecnologia, responsável pela condução técnica, atua em um nível tático. Ambos os gerentes se comunicam e conduzem o projeto de modo harmonioso. A segunda característica de destaque foi a decisão, oriunda de Reunião Decisória conduzida no Estado-Maior do Exército, de que o projeto seria executado por uma empresa nacional com grande experiência no assunto, e que algumas condições seriam impostas a essa empresa, são elas as mais importantes: - a empresa seria escolhida por um processo rigoroso em que fossem levado em conta diversos aspectos técnicos, econômicos e mercadológicos; - toda a tecnologia desenvolvida pela empresa seria repassada para os técnicos do Exército, caracterizando-se como uma transferência de tecnologia; - engenheiros do Exército, civis e militares, seriam internados na fábrica para absorção da tecnologia desenvolvida; - o contrato estipularia prazos, valores, condições de entrega, e vincularia os pagamentos às entregas; e - a propriedade intelectual do projeto seria na totalidade do Exército. O terceiro aspecto relevante foi a assinatura de um convênio com a FINEP para desenvolver um protótipo e o lote-piloto. Este convênio gerou por parte do Exército uma contrapartida, que serviu como artifício para comprometer o Órgão orçamentário do Exército a desembolsar recursos para o projeto, gerando continuidade dos trabalhos. O quarto item inovador foi o contrato assinado entre a empresa FIAT/IVECO com o BNDES para a instalação de uma planta em território nacional necessária para a execução do projeto, gerando empregos, impostos e internação de diversas tecnologias. O quinta aspecto relevante foi a gestão realizada por membros do Alto Comando do Exército junto ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão 45 para que o PEE Guarani fosse incluído no chamado PAC Defesa, de modo a garantir o aporte de recursos e a consequente continuidade dos trabalhos. A sexta característica de importância foi o impacto que o PEE Guarani gerou na indústria de defesa. Foi observado que algumas empresas desenvolveram novas tecnologias e outras absorveram tecnologias, fazendo movimentar a indústria ao redor de tecnologias envolvendo este tipo de Produto de Defesa. O sétimo aspecto de grande relevância, talvez o de maior destaque, foi o impacto causado pelo PEE Guarani no Quadro de Engenheiros Militares. O projeto foi conduzido de forma metódica e criteriosa, envolvendo o alto nível do Exército, culminou com a entrega para a tropa de um produto com grande qualidade. Além disso, o militar combatente, devido ao método de trabalho adotado, ladeou o engenheiro militar em todas as fases do projeto. Em consequência, o militar combatente passou a valorizar o trabalho do engenheiro militar, e a cúpula do Exército mudou seu modo de pensar acreditando que nos dias atuais um Exército forte tem que, necessariamente, investir na ciência e tecnologia. Face ao exposto, fica comprovada a hipótese deste trabalho de que o PEE Guarani impactou na sistemática de pesquisa e desenvolvimento de PRODE, uma vez que foi conduzida de forma metódica e inovadora. “Legado para o futuro” Pode-se afirmar que para a pesquisa e desenvolvimento de outros Produtos de Defesa é conveniente a utilização deste modelo, no qual explora convênios e contratos com órgãos públicos, contrata empresas nacionais e/ou estrangeiras para serem corresponsáveis do projeto, e faz gestões junto ao alto nível do governo federal, aproveitando a conjuntura nacional, como forma de garantir o aporte de recursos financeiros, sua continuidade, e a independência tecnológica no segmento. 46 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Maria do Rosário Guimarães (Org.). Manual para elaboração de trabalho científico. São Luís: UFMA, 2002. 42 p. ______. Apresentação de resumos: norma brasileira registrada n. 6028. Caderno de Pesquisa, São Luís, v. 13, n. 1, p.9-13, jan./jun. 2002. ANDRADE, M. M. de. Introdução à metodologia do trabalho científico: elaboração de trabalhos na graduação. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1999. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6027: informação e documentação: sumário: apresentação. Rio de Janeiro, 2003. ______. NBR 6028: informação e documentação: resumo: apresentação. Rio de Janeiro, 2003. ______. NBR 6024: informação e documentação: numeração progressiva das seções de um documento escrito: apresentação. Rio de Janeiro, 2003 ______. NBR 14724: informação e documentação: trabalhos acadêmicos: acadêmicos: apresentação. Rio de Janeiro, 2002. 6 p. ______. NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de Janeiro, 2002. 24 p. BLANCHARD, Benjamin S. System Engineering Management. 2. Ed. New York: John Wiley & Sons, 1998. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de1988. Porto Alegre: OAB, 1988. BRASIL. Ministério da Defesa. Livro Branco Nacional de Defesa. Brasília, DF, 2013. ______ Política Nacional de Defesa. Brasília, DF, 2013. ______ Estratégia Nacional de Defesa. Brasília, DF, 2013. BRASIL. Ministério da Defesa. Comando do Exército. Estado-Maior do Exército. IG 20-11: sistema de ciência e tecnologia do Exército (SCTEx). Brasília, DF, 1994. ______ IG 20-12: modelo administrativo do ciclo de vida dos materiais de emprego militar. Brasília, DF, 1994. BRASIL. Ministério da Defesa. Comando do Exército. Estado-Maior do Exército. Normas para Elaboração, Gerenciamento, e Acompanhamento de Projetos no Exército Brasileiro. Brasília, DF. 2013 ______ R 173: Regulamento do Estado-Maior do Exército. Brasília, DF, 1994. 47 BRASIL. Ministério da Defesa. Comando do Exército. Portaria nº 111, EME, de 22 de outubro de 2001. Normas para o gerenciamento de projetos. Brasília, DF, 2001. BRASIL. Ministério da Defesa. Comando do Exército. Departamento de Ciência e Tecnologia. IR 13-04: instruções reguladoras para o gerenciamento de projetos de pesquisas e desenvolvimento na área de materiais de emprego militar. Brasília, DF, 1994. ______ R 55: Regulamento do Departamento de Ciência e Tecnologia. Brasília, DF, 1994. ______ Ministério da Defesa. Comando do Exército. Plano Básico de Ciência e Tecnologia do Exército Brasileiro 2004 – 2007. Diagnóstico Sintético do Sistema de Ciência e Tecnologia. Brasília, DF, 2004. BRASIL. Ministério da Defesa. Comando do Exército. Estado-Maior do Exército. 1ª Reunião Decisória. Brasília, DF, 2006. ______ Reunião Decisória Especial. Brasília, DF, 2012. BRASIL. Ministério da Defesa. Comando do Exército. Departamento de Ciência e Tecnologia. Contrato nº 01/2007 - FRF: entre FRF e FIAT Automóveis S.A. – Divisão Iveco Fiat Brasil. Brasília, DF, 2006. ______ Contrato nº 01/07/0623/00: entre FRF e FINEP. Brasília, DF, 2012. ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (Brasil). Manual para Elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso: monografia. 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