Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) O que faz o verdadeiro historiador – José Honório Rodrigues e a historiografia dos anos 1950 Mariana Rodrigues Tavares “O sabor do arquivo passa por gesto artesão, lento e pouco rentável, em que se copiam textos, pedaço por pedaço, sem transformar a sua forma, sua ortografia, ou mesmo sua pontuação. Sem pensar muito nisso. E pensando o tempo todo. Como se a mão, ao fazê-lo, permitisse ao espírito ser simultaneamente cúmplice e estranho ao tempo e a essas mulheres e homens que vão se revelando. (...) O arquivo copiado à mão em uma página em branco é um fragmento de tempo capturado; só mais tarde separam-se os temas, formulam-se as interpretações.” (FARGE, 2009:23)1 Quarta-feira, manhã de sol na cidade do Rio de Janeiro. Mais um dia que começa, pessoas trabalham, estudam e também pesquisam. A porta da Biblioteca Nacional é aberta logo no começar do dia e tão rapidamente passam pela recepção, os pesquisadores destinamse ansiosos para o universo de informações que os aguardam. Ao adentrar o setor de periódicos, faço o pedido de uma coleção de documentos organizados em formato de livro. Deparo-me com temas dos mais variados tipos e principalmente com a ação engajada de um historiador que supervalorizava os arquivos. Surpreendo-me com esse instigante trabalho e nas próximas linhas, tento narrá-lo. Guiada por esse propósito, a presente narrativa objetiva-se tratar da reativação da Série Documentos Históricos da Biblioteca Nacional expressa por meio da recuperação do trabalho com fontes inéditas desenvolvido no decorrer da gestão de José Honório Rodrigues, à frente da Divisão de Obras Raras e Publicações da Instituição. Nas palavras desse diretor, “o verdadeiro historiador é aquele que se documenta, pesquisando e selecionando os manuscritos inéditos para depois interpretá-los e expô-los.”(RODRIGUES, 1951:114)2. É o que veremos a seguir. Mas antes de tratar desse processo de reativação, cabe aqui apresentar um pouco da trajetória profissional desse intelectual. Graduanda em História pela Universidade Federal Fluminense e bolsista PIBIC/CNPq sob o projeto intitulado Disputas Intelectuais, Monumentalização e Apropriação da Produção Histórica da Primeira República nos anos 50 e 60, orientado pela professora Giselle Martins Venâncio. Email: [email protected]. 1 FARGE, Arlette. Milhares de Vestígios. In: O Sabor do Arquivo. Tradução de Fátima Murad. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009, pp.9-23. 2 RODRIGUES, José Honório. A Historiografia brasileira em 1945. In: Notícia de Vária História. Livraria São José, 1951, pp.113-142; 1 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) “Um historiador à moda antiga” – A trajetória de José Honório Rodrigues Nascido na cidade do Rio de Janeiro em 1913, local em que desenvolveu sua carreira acadêmica e profissional, José Honório Rodrigues como boa parte de outros contemporâneos, cursou a Faculdade de Direito, bacharelando-se em 1937. Da formação em Direito passou aos corredores do Instituto Nacional do Livro para trabalhar como assistente técnico de Sérgio Buarque de Holanda, então diretor da Seção de Publicações do Instituto na década de 1940. Neste ofício permaneceu entre os anos de 1939 a 1944, saindo apenas em razão de uma bolsa da Fundação Rockfeller para curso na Universidade de Colúmbia. Afastado do Brasil entre os anos de 1943-1944 e retornando em 1945, José Honório assumiu o cargo de bibliotecário do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Seus trabalhos de História começaram a vir a público em 1942. Publicou diversos artigos a respeito da trajetória da economia açucareira na Revista do IAA – Brasil Açucareiro -, mas não reunidos no formato de livro. Mais tarde, a publicação saiu sob o título de Capítulos de História do açúcar e nas palavras de Iglésias, “mesmo depois de 40 anos de sua elaboração, é um importante volume na bibliografia da história econômica.” (IGLÉSIAS, 1988:57)3 Mas a sua trajetória não se restringiu apenas aos conteúdos referentes ao Brasil dos tempos do açúcar. De 1946 a 1958 foi diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, período em que retomou duas das mais célebres publicações da Instituição – a Documentos Históricos e os Anais da Biblioteca Nacional, editando em uma 40 e na outra nove volumes, entre os anos de 1946 e 1955. Em paralelo ao trabalho de diretor institucional, José Honório Rodrigues iniciou a carreira docente. Entre os anos de 1946 a 1956 lecionou no Itamarati num curso para a formação interna de pessoal, além disso, permaneceu na seção de pesquisa do mesmo instituto, entre 1949 e 1950, trabalhando no arquivo do Ministério das Relações Exteriores. No entanto o cargo de maior relevância que ocupou na administração pública foi o de diretor do Arquivo Nacional, de 1958 a 1964. A frente da Instituição realizou uma grande 3 IGLÉSIAS, Francisco. José Honório Rodrigues e a Historiografia Brasileira. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.1, 1988, p.55-78. 2 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) reforma, organizando os acervos e conferindo uma nova fase ao Arquivo Nacional. Após essa fase áurea de administrador, José Honório exerceu fundamentalmente o magistério e se dedicou a produção de livros, sendo as suas publicações mais expressivas nesse momento, Brasil, período colonial (1957), Historiografia Del Brasil. Siglo XVI (1957) e Siglo XVII (1963). Depois disso, ingressou na Academia Brasileira de Letras (ABL) além de atuar no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 6 de abril de 1987. De modo geral, José Honório Rodrigues foi um historiador que imerso num período de reconfiguração do campo intelectual. Entre os anos 1950-60 vivia-se a primeira fase de publicação dos trabalhos oriundos das Universidades criadas nos anos 1930. A partir dessa época, a legitimidade do discurso histórico estava migrando da rege dos Institutos Históricos para as Universidades. As regras do jogo estavam mudando e com elas a lógica do campo. José Honório ocupava os dois mundos e operava nas duas lógicas. No entanto a sua atuação nos arquivos e Institutos Históricos sempre foi muito mais expressiva do que nas Universidades onde esteve algum tempo como professor visitante4. Certamente essa característica lhe conferiu um menor destaque no mundo universitário do que o adquirido por outros intelectuais. Mas apesar de certa inexpressividade de Honório Rodrigues, no mundo das academias universitárias, não há como ocultar a sua gestão como diretor dos centros arquivísticos e seu intenso trabalho de resgate de documentação histórica. É o que veremos nas próximas linhas. Os documentos contam a História – Coleção Documentos Históricos da Biblioteca Nacional na fase “Honoriana” “Deus não é dos mortos, mas dos vivos, porque, para ele, todos são vivos. A história também não é dos mortos, mas dos vivos, pois ela é a realidade presente, obrigatória para a consciência, frutífera para a experiência. (...) O historiador, lembra Oliveira França, lida com defuntos não para conhecer a morte, o passado, mas para conhecer 4 A conferência se intitula José Honório Rodrigues: historiógrafo erudito, historiador combatente. Conferencista: Leslie Bethell, Acadêmico: Alberto Venâncio Filho. Data: 16 de julho de 2013. 3 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) a vida; é nela que ele pensa; é o mistério da vida que ele persegue.” (RODRIGUES, 1969:27)5 A definição de José Honório Rodrigues para a História se inscreve na perspectiva de um historiador que supervalorizava a o trabalho com as fontes documentais, estas últimas responsáveis por oferecer sentido ao ofício do historiador e a própria História. Mas Honório Rodrigues não foi o primeiro a trabalhar nessa corrente. Há muito os historiadores da Primeira República já discutiam a importância dos documentos para compor o discurso histórico e se engajavam na tentativa de recuperar a História através das fontes. Nesse ínterim se inscreve a Série Documentos Históricos da Biblioteca Nacional. Criada pelo diretor Mario Behring6 que esteve à frente da Instituição entre os anos de 1924 e 1932, a Série Documentos Históricos foi inicialmente editada pelo Arquivo Nacional em 1928. A responsabilidade da edição pelo Arquivo Nacional durou até o segundo volume de edição. Durante os oito anos de gestão de Mario Behring a série contou com dezenove volumes publicados. Para Behring por meio desta série, “começam a ser publicados os mais antigos manuscritos que neste estabelecimento existem (...) constantes de volumosos códices que raríssimas pessoas tem até aqui consultado”. (BEHRING, 1929: 09)7 Na gestão seguinte a da Behring, Rodolfo Garcia8 assumiu a direção da Biblioteca Nacional e a Documentos Históricos atingiu a marca de setenta volumes publicados de 5 RODRIGUES, José Honório. Os problemas da história e as tarefas do historiador. In: RODRIGUES, José Honório. Teoria da História do Brasil – Introdução Metodológica. São Paulo, Companhia Editora Nacional, Coleção Brasiliana, 1969, pp.27-45. 6 Mario Behring (1876-1933) nasceu na cidade de Ponte Nova, Minas Gerais. Cursou o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e formou-se engenheiro agrônomo pela Escola Agrícola da Bahia, em 1896. Uma vez concluídos os estudos na cidade do Rio de Janeiro, voltou a sua cidade natal em Minas Gerais onde exerceu o cargo de Diretor de Obras no Município e fundou o Externato Pontenovense. Além disso, criou o jornal Tupinambá para servir de órgão de crítica ao governo. Em 1903 ingressou na Biblioteca Nacional, assumindo a direção em 1924. Em paralelo a atividade como administrador foi um colaborador dos Jornais do Comercio e das Revista CineArte, Fon Fon e Kosmos. Para maiores esclarecimentos ver: SANTOS, Renata Soares da Costa. O “culto moderno”: um espetáculo notociado. Puc-Rio. 7 BEHRING, Mario. Apud. ANDRADE, Rosane Maria Nunes. A edição de documentos históricos do acervo da Biblioteca Nacional. XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE, 2 a 6 de setembro de 2011, pp. 1-12. 8 Rodolfo Garcia (1873-1949) nasceu na cidade de Ceará-Mirim e faleceu no Rio de Janeiro. Formado pela Faculdade de Direito do Recife e mais tarde radicou-se no Rio de Janeiro, onde conheceu Capistrano de Abreu e se tornou seu amigo e seguidor. Dedicou-se a escrever as notas da obra História Geral do Brasil de Adolfo de Varnhagen. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 4 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) documentos inéditos9 para os historiadores. Mas a fase “áurea” da Série viria mais tarde nos anos 1946 a 1958 sob a administração de José Honório Rodrigues. Coordenada por Honório Rodrigues, diretor da Divisão de Obras Raras e Publicações da Biblioteca Nacional, a série foi reativada e atingiu o número de 110 volumes publicados, após uma interrupção de 42 anos sem publicações periódicas. O formato da série possui uma encadernação em brochura vermelha escura e a dimensão de 23cm x 16cm, concentrando em cada volume cerca de 300 páginas de documentos. (ANDRADE, 2011:10)10 No entanto mais do que o ressurgimento de uma coleção de fontes documentais, a série Documentos Históricos representa um traço característico da “era” de José Honório à frente das Instituições de guarda de acervos e do seu plano de recuperar uma dada forma de escrever a História que se compunha pela incansável interpretação de fontes. Em meados da década de 1940 e ao longo dos anos 1950, o historiador José Honório Rodrigues esteve como administrador das principais instituições arquivísticas do país. Dentre estas podemos enumerar a Divisão de Obras Raras e Publicações da Biblioteca Nacional, a seção de pesquisa e história do Itamaraty e o Arquivo Nacional, onde permaneceu até 1964 e foi sua última e mais importante atuação administrativa, como já indicamos. Já apontamos aqui que nesse momento o campo dos estudos históricos estava passando por um processo de reconfiguração, redefinindo-se os cânones e principalmente as regras que conformavam a lógica de funcionamento do mesmo. Ao assumir a direção de uma das seções da Biblioteca Nacional, logo após a sua saída do quadro de funcionários do Instituto Nacional do Livro11, o primeiro passo de José Honório Rodrigues foi catalogar a documentação existente na Instituição a fim de possibilitar meios ao pesquisador meios para a escrita da História. Uma das suas justificativas dadas por Honório Rodrigues para a necessidade de resgatar os documentos e principalmente organizálos, 9 Foram publicados os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, além dos Anais da Biblioteca Nacional. 10 Ibidem. 11 A conferência se intitula José Honório Rodrigues: historiógrafo erudito, historiador combatente. Conferencista: Leslie Bethell, Acadêmico: Alberto Venâncio Filho. Data: 16 de julho de 2013. 5 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) “É a falta de catálogos e, portanto, o não conhecimento completo do acervo, da Biblioteca que explica a escolha arbitrária dos códices divulgados, sem respeito ao assunto e à data, e as constantes variações cronológicas e frequentes mudanças da matéria dos volumes já publicados. (...) A organização de um plano de publicações de documentos históricos depende, portanto, da catalogação e do conhecimento do acervo. Este seria o único caminho certo em relação a escolha dos textos. Todavia, pelo fato de não conhecermos todos os documentos e, portanto, de não podermos justificar a nossa escolha, não se desencaminhará a publicação. Esta, durante mais algum tempo não será ordenada sistemática, cronológica, mas procurará atender à esta exigência agora que de novo se cataloga e se conhecem milhares de peças, e à segunda norma de uma edição de documentos históricos – que é a de reproduzi-los autenticamente.” (RODRIGUES, 1949)12 Quatro anos mais tarde, em 1953, José Honório destacava novamente a importância de recuperar os documentos relativos ao pré-nacional da História do Brasil que, segundo o autor, se caracterizava no ano de 1817. Nas palavras do autor, “Inicia a Biblioteca Nacional, neste volume 101, a nova série de documentos relativos ao período nacional ou pré-nacional. Até agora dedicamos 100 volumes à história colonial e muito especialmente aos documentos do Conselho Ultramarino que possuíamos em cópias do século passado, vindas de Lisboa. Esta orientação, que encontramos em 1946, quando a coleção atingia o volume 70, foi seguida nestes últimos 30 volumes, no empenho de oferecer aos estudiosos da história colonial fontes indispensáveis de consulta existentes na Biblioteca Nacional. Fica ainda a ser publicada muita matéria merecedora de tanta atenção dos editores e dos estudiosos quanto a que já se imprimiu. A história propriamente nacional encontra no movimento de 1817 um marco de extraordinária significação, pelo revigoramento do espírito nacional e pela iniciativa prática que lhe coube na preparação da Independência. A Revolução de 1817 não foi um momento local, mas nacional, que só não vingou porque foi temporânea, porque faltou ao povo, ou melhor, à maioria de todas as partes do Brasil, educação para compreendê-la e defendê-la conscientemente, como já assinalou Oliveira Lima. Não foi o ódio contra os portugueses, nem contra os reinóis prepotentes a causa imediata da rebeldia, como parece crer grande parte de nossa historiografia, baseada na ordem do dia 4 de março de 1817 e na interpretação contemporânea de Muniz Tavares, o cronista da Revolução.” (RODRIGUES, 1953)13 12 Série Documentos Históricos – Pernambuco e outras Capitanias do Norte – Cartas e Ordens (1717-1727). Vol. LXXXV, 1949. 13 Série Documentos Históricos – Revolução de 1817, vol., CI, Biblioteca Nacional – Divisão de Obras Raras e Publicações, 1953. 6 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) Para além das fontes que estavam sendo recuperadas alguns historiadores da Primeira República voltavam a cena pelas páginas dos Documentos Históricos. Por trás da atuação de José Honório estava a intenção de recuperar os trabalhos iniciados por Ramiz Galvão e mais tarde retomados por Rodolfo Garcia. Nas palavras de Honório Rodrigues na nota de abertura dos Anais da Biblioteca Nacional, vol.68, “Quando, porém, não houver inventários preparados, serão impressos manuscritos preciosos da casa, ou de outras instituições nacionais ou estrangeiras de grande interesse para a nossa história, retornando-se ao plano de Ramiz Galvão, que incluía também a informação bibliográfica e iconográfica. Já é da tradição deste repertório acolher documentos vindos de vários acervos públicos e particulares, estrangeiros ou nacionais. O único interesse dominante é contribuir para o esclarecimento do passado brasileiro.” (RODRIGUES:04)14 Quanto à Rodolfo Garcia, José Honório não foi menos elogioso e exaltador. Garcia foi considerado por Honório um como “discípulo” de Capistrano de Abreu juntamente com Afonso Taunay. Mais do que isso. Nas palavras de Honório “Varnhagen, Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia15 formavam a trindade bendita da historiografia brasileira.”(RODRIGUES, 1970: 155)16. Seus métodos e formas de trabalho deveriam ser recuperados e valorizados pelas gerações dedicadas aos estudos históricos. E foi essa a maior contribuição de José Honório a frente dos Institutos e da Série Documentos Brasileiros. Seu plano compreendia mais do que a recuperação de fontes históricas, mas sim, o resgate de uma tradição historiográfica que estava ficando relegada a segundo plano em tempos de mudança como o eram nos anos 1950. A legitimidade da História mudara de curso, mas para José Honório nossos primeiros mestres jamais deveriam ser esquecidos. Considerações Finais 14 Anais da Biblioteca Nacional, vol.68. 15 Um fato curioso a respeito da retomada de Rodolfo Garcia por José Honório Rodrigues se deve a enorme expressividade do primeiro na Sociedade Capistrano de Abreu. José Honório Rodrigues, como visto, além de um admirador do trabalho de Capistrano, foi o responsável pela publicação de suas correspondências. Para maiores esclarecimentos ver: SILVA, Ítala Byanca Morais da. Les morts vont vite: a Sociedade Capistrano de Abreu e a construção da memória de seu patrono na historiografia brasileira (1927-1969). Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS, 2008, dissertação de mestrado. 16 Para maiores detalhes ver: RODRIGUES, José Honório. Rodolfo Garcia. In: História e Historiografia. Petrópolis, Editora Vozes, 1970, pp. 155-163. 7 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) Conforme procuramos mostrar, a redefinição que o campo intelectual histórico vinha sofrendo no decorrer dos anos 1950-60 estava influenciando o valor atribuído aos documentos e ao trabalho dos historiadores, valorizando-se formas mais interpretativas, e criticando-se as análises de cunho mais empírico. No entanto, alguns historiadores aferrados a tradição dos primeiros mestres historiógrafos ainda supervalorizavam o trabalho com as fontes e a recuperação destas pelos Institutos arquivísticos. Nesse processo, se inscrevia José Honório Rodrigues e a sua atuação à frente dos centros de documentação mais importantes do país, em especial a Biblioteca Nacional, local onde permaneceu desde os tempos de revisor técnico do Instituto Nacional do Livro. Ao longo de sua gestão, uma das mais notórias características fora a recuperação da escrita da História do Brasil pelas páginas da série Documentos Históricos, criada por Mario Behring e continuada por Rodolfo Garcia. Concluímos que por meio desta coleção, José Honório Rodrigues além de tornar o passado tangível aos pesquisadores através das fontes, trazia à tona novamente a importância da organização dos arquivos e dos seus acervos, demonstrando que as respostas para as questões históricas careciam de “pesquisa, pois de outro modo o historiador se tornaria tendencioso e sem categoria científica.” (RODRIGUES, 1969: 36)17 Referências Bibliográficas BEHRING, Mario. Apud. ANDRADE, Rosane Maria Nunes. A edição de documentos históricos do acervo da Biblioteca Nacional. XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE, 2 a 6 de setembro de 2011, pp. 1-12; FARGE, Arlette. Milhares de Vestígios. In: O Sabor do Arquivo. Tradução de Fátima Murad. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009, pp.9-23; FREIXO, André de Lemos. A mansão brasileira na “casa de Clio”. In: A arquitetura do novo: ciência e história da História do Brasil em José Honório Rodrigues. Rio de Janeiro: UFRJ/PPGH, 2012, pp. 320-331. IGLÉSIAS, Francisco. José Honório Rodrigues e a Historiografia Brasileira. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.1, 1988, p.55-78; RODRIGUES, José Honório. A Historiografia brasileira em 1945. In: Notícia de Vária História. Livraria São José, 1951, pp.113-142; 17 Ibidem. 8 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) RODRIGUES, José Honório. Rodolfo Garcia. In: História e Historiografia. Petrópolis, Editora Vozes, 1970, pp. 155-163; SANTOS, Renata Soares da Costa. O “culto moderno”: um espetáculo notociado. Puc-Rio. SILVA, Ítala Byanca Morais da. Les morts vont vite: a Sociedade Capistrano de Abreu e a construção da memória de seu patrono na historiografia brasileira (1927-1969). Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS, 2008, dissertação de mestrado. Fontes: Série Documentos Históricos – Pernambuco e outras Capitanias do Norte – Cartas e Ordens (1717-1727). Vol. LXXXV, 1949; Série Documentos Históricos – Revolução de 1817, vol., CI, Biblioteca Nacional – Divisão de Obras Raras e Publicações, 1953. Anais da Biblioteca Nacional, vol.68, 1948. 9 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) 10