Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
O que faz o verdadeiro historiador – José Honório Rodrigues e a historiografia dos anos
1950
Mariana Rodrigues Tavares
“O sabor do arquivo passa por gesto artesão, lento e pouco rentável, em que se
copiam textos, pedaço por pedaço, sem transformar a sua forma, sua ortografia, ou
mesmo sua pontuação. Sem pensar muito nisso. E pensando o tempo todo. Como se
a mão, ao fazê-lo, permitisse ao espírito ser simultaneamente cúmplice e estranho ao
tempo e a essas mulheres e homens que vão se revelando. (...) O arquivo copiado à
mão em uma página em branco é um fragmento de tempo capturado; só mais tarde
separam-se os temas, formulam-se as interpretações.” (FARGE, 2009:23)1
Quarta-feira, manhã de sol na cidade do Rio de Janeiro. Mais um dia que começa,
pessoas trabalham, estudam e também pesquisam. A porta da Biblioteca Nacional é aberta
logo no começar do dia e tão rapidamente passam pela recepção, os pesquisadores destinamse ansiosos para o universo de informações que os aguardam. Ao adentrar o setor de
periódicos, faço o pedido de uma coleção de documentos organizados em formato de livro.
Deparo-me com temas dos mais variados tipos e principalmente com a ação engajada de um
historiador que supervalorizava os arquivos. Surpreendo-me com esse instigante trabalho e
nas próximas linhas, tento narrá-lo. Guiada por esse propósito, a presente narrativa objetiva-se
tratar da reativação da Série Documentos Históricos da Biblioteca Nacional expressa por meio
da recuperação do trabalho com fontes inéditas desenvolvido no decorrer da gestão de José
Honório Rodrigues, à frente da Divisão de Obras Raras e Publicações da Instituição. Nas
palavras desse diretor, “o verdadeiro historiador é aquele que se documenta, pesquisando e
selecionando os manuscritos inéditos para depois interpretá-los e expô-los.”(RODRIGUES,
1951:114)2. É o que veremos a seguir. Mas antes de tratar desse processo de reativação, cabe
aqui apresentar um pouco da trajetória profissional desse intelectual.
Graduanda em História pela Universidade Federal Fluminense e bolsista PIBIC/CNPq sob o projeto intitulado
Disputas Intelectuais, Monumentalização e Apropriação da Produção Histórica da Primeira República nos
anos 50 e 60, orientado pela professora Giselle Martins Venâncio. Email: [email protected].
1
FARGE, Arlette. Milhares de Vestígios. In: O Sabor do Arquivo. Tradução de Fátima Murad. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo, 2009, pp.9-23.
2
RODRIGUES, José Honório. A Historiografia brasileira em 1945. In: Notícia de Vária História. Livraria São
José, 1951, pp.113-142;
1
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
“Um historiador à moda antiga” – A trajetória de José Honório Rodrigues
Nascido na cidade do Rio de Janeiro em 1913, local em que desenvolveu sua
carreira acadêmica e profissional, José Honório Rodrigues como boa parte de outros
contemporâneos, cursou a Faculdade de Direito, bacharelando-se em 1937. Da formação em
Direito passou aos corredores do Instituto Nacional do Livro para trabalhar como assistente
técnico de Sérgio Buarque de Holanda, então diretor da Seção de Publicações do Instituto na
década de 1940. Neste ofício permaneceu entre os anos de 1939 a 1944, saindo apenas em
razão de uma bolsa da Fundação Rockfeller para curso na Universidade de Colúmbia.
Afastado do Brasil entre os anos de 1943-1944 e retornando em 1945, José Honório assumiu
o cargo de bibliotecário do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA).
Seus trabalhos de História começaram a vir a público em 1942. Publicou diversos
artigos a respeito da trajetória da economia açucareira na Revista do IAA – Brasil Açucareiro
-, mas não reunidos no formato de livro. Mais tarde, a publicação saiu sob o título de
Capítulos de História do açúcar e nas palavras de Iglésias, “mesmo depois de 40 anos de sua
elaboração, é um importante volume na bibliografia da história econômica.” (IGLÉSIAS,
1988:57)3
Mas a sua trajetória não se restringiu apenas aos conteúdos referentes ao Brasil
dos tempos do açúcar. De 1946 a 1958 foi diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca
Nacional, período em que retomou duas das mais célebres publicações da Instituição – a
Documentos Históricos e os Anais da Biblioteca Nacional, editando em uma 40 e na outra
nove volumes, entre os anos de 1946 e 1955. Em paralelo ao trabalho de diretor institucional,
José Honório Rodrigues iniciou a carreira docente. Entre os anos de 1946 a 1956 lecionou no
Itamarati num curso para a formação interna de pessoal, além disso, permaneceu na seção de
pesquisa do mesmo instituto, entre 1949 e 1950, trabalhando no arquivo do Ministério das
Relações Exteriores.
No entanto o cargo de maior relevância que ocupou na administração pública foi o
de diretor do Arquivo Nacional, de 1958 a 1964. A frente da Instituição realizou uma grande
3
IGLÉSIAS, Francisco. José Honório Rodrigues e a Historiografia Brasileira. Estudos Históricos, Rio de Janeiro,
n.1, 1988, p.55-78.
2
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
reforma, organizando os acervos e conferindo uma nova fase ao Arquivo Nacional. Após essa
fase áurea de administrador, José Honório exerceu fundamentalmente o magistério e se
dedicou a produção de livros, sendo as suas publicações mais expressivas nesse momento,
Brasil, período colonial (1957), Historiografia Del Brasil. Siglo XVI (1957) e Siglo XVII
(1963). Depois disso, ingressou na Academia Brasileira de Letras (ABL) além de atuar no
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 6
de abril de 1987.
De modo geral, José Honório Rodrigues foi um historiador que imerso num
período de reconfiguração do campo intelectual. Entre os anos 1950-60 vivia-se a primeira
fase de publicação dos trabalhos oriundos das Universidades criadas nos anos 1930. A partir
dessa época, a legitimidade do discurso histórico estava migrando da rege dos Institutos
Históricos para as Universidades. As regras do jogo estavam mudando e com elas a lógica do
campo. José Honório ocupava os dois mundos e operava nas duas lógicas. No entanto a sua
atuação nos arquivos e Institutos Históricos sempre foi muito mais expressiva do que nas
Universidades onde esteve algum tempo como professor visitante4. Certamente essa
característica lhe conferiu um menor destaque no mundo universitário do que o adquirido por
outros intelectuais. Mas apesar de certa inexpressividade de Honório Rodrigues, no mundo
das academias universitárias, não há como ocultar a sua gestão como diretor dos centros
arquivísticos e seu intenso trabalho de resgate de documentação histórica. É o que veremos
nas próximas linhas.
Os documentos contam a História – Coleção Documentos Históricos da Biblioteca
Nacional na fase “Honoriana”
“Deus não é dos mortos, mas dos vivos, porque, para ele, todos são vivos. A história
também não é dos mortos, mas dos vivos, pois ela é a realidade presente, obrigatória
para a consciência, frutífera para a experiência. (...) O historiador, lembra Oliveira
França, lida com defuntos não para conhecer a morte, o passado, mas para conhecer
4
A conferência se intitula José Honório Rodrigues: historiógrafo erudito, historiador combatente. Conferencista:
Leslie Bethell, Acadêmico: Alberto Venâncio Filho. Data: 16 de julho de 2013.
3
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
a vida; é nela que ele pensa; é o mistério da vida que ele persegue.” (RODRIGUES,
1969:27)5
A definição de José Honório Rodrigues para a História se inscreve na perspectiva
de um historiador que supervalorizava a o trabalho com as fontes documentais, estas últimas
responsáveis por oferecer sentido ao ofício do historiador e a própria História. Mas Honório
Rodrigues não foi o primeiro a trabalhar nessa corrente. Há muito os historiadores da Primeira
República já discutiam a importância dos documentos para compor o discurso histórico e se
engajavam na tentativa de recuperar a História através das fontes.
Nesse ínterim se inscreve a Série Documentos Históricos da Biblioteca Nacional.
Criada pelo diretor Mario Behring6 que esteve à frente da Instituição entre os anos de 1924 e
1932, a Série Documentos Históricos foi inicialmente editada pelo Arquivo Nacional em
1928. A responsabilidade da edição pelo Arquivo Nacional durou até o segundo volume de
edição. Durante os oito anos de gestão de Mario Behring a série contou com dezenove
volumes publicados. Para Behring por meio desta série, “começam a ser publicados os mais
antigos manuscritos que neste estabelecimento existem (...) constantes de volumosos códices
que raríssimas pessoas tem até aqui consultado”. (BEHRING, 1929: 09)7
Na gestão seguinte a da Behring, Rodolfo Garcia8 assumiu a direção da Biblioteca
Nacional e a Documentos Históricos atingiu a marca de setenta volumes publicados de
5
RODRIGUES, José Honório. Os problemas da história e as tarefas do historiador. In: RODRIGUES, José
Honório. Teoria da História do Brasil – Introdução Metodológica. São Paulo, Companhia Editora Nacional,
Coleção Brasiliana, 1969, pp.27-45.
6
Mario Behring (1876-1933) nasceu na cidade de Ponte Nova, Minas Gerais. Cursou o Colégio Pedro II, no Rio
de Janeiro, e formou-se engenheiro agrônomo pela Escola Agrícola da Bahia, em 1896. Uma vez concluídos os
estudos na cidade do Rio de Janeiro, voltou a sua cidade natal em Minas Gerais onde exerceu o cargo de Diretor
de Obras no Município e fundou o Externato Pontenovense. Além disso, criou o jornal Tupinambá para servir de
órgão de crítica ao governo. Em 1903 ingressou na Biblioteca Nacional, assumindo a direção em 1924. Em
paralelo a atividade como administrador foi um colaborador dos Jornais do Comercio e das Revista CineArte,
Fon Fon e Kosmos. Para maiores esclarecimentos ver: SANTOS, Renata Soares da Costa. O “culto moderno”:
um espetáculo notociado. Puc-Rio.
7
BEHRING, Mario. Apud. ANDRADE, Rosane Maria Nunes. A edição de documentos históricos do acervo da
Biblioteca Nacional. XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE, 2 a 6 de setembro
de 2011, pp. 1-12.
8
Rodolfo Garcia (1873-1949) nasceu na cidade de Ceará-Mirim e faleceu no Rio de Janeiro. Formado pela
Faculdade de Direito do Recife e mais tarde radicou-se no Rio de Janeiro, onde conheceu Capistrano de Abreu e
se tornou seu amigo e seguidor. Dedicou-se a escrever as notas da obra História Geral do Brasil de Adolfo de
Varnhagen. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
4
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
documentos inéditos9 para os historiadores. Mas a fase “áurea” da Série viria mais tarde nos
anos 1946 a 1958 sob a administração de José Honório Rodrigues.
Coordenada por Honório Rodrigues, diretor da Divisão de Obras Raras e
Publicações da Biblioteca Nacional, a série foi reativada e atingiu o número de 110 volumes
publicados, após uma interrupção de 42 anos sem publicações periódicas. O formato da série
possui uma encadernação em brochura vermelha escura e a dimensão de 23cm x 16cm,
concentrando em cada volume cerca de 300 páginas de documentos. (ANDRADE, 2011:10)10
No entanto mais do que o ressurgimento de uma coleção de fontes documentais, a série
Documentos Históricos representa um traço característico da “era” de José Honório à frente
das Instituições de guarda de acervos e do seu plano de recuperar uma dada forma de escrever
a História que se compunha pela incansável interpretação de fontes. Em meados da década de
1940 e ao longo dos anos 1950, o historiador José Honório Rodrigues esteve como
administrador das principais instituições arquivísticas do país. Dentre estas podemos
enumerar a Divisão de Obras Raras e Publicações da Biblioteca Nacional, a seção de pesquisa
e história do Itamaraty e o Arquivo Nacional, onde permaneceu até 1964 e foi sua última e
mais importante atuação administrativa, como já indicamos. Já apontamos aqui que nesse
momento o campo dos estudos históricos estava passando por um processo de reconfiguração,
redefinindo-se os cânones e principalmente as regras que conformavam a lógica de
funcionamento do mesmo.
Ao assumir a direção de uma das seções da Biblioteca Nacional, logo após a sua
saída do quadro de funcionários do Instituto Nacional do Livro11, o primeiro passo de José
Honório Rodrigues foi catalogar a documentação existente na Instituição a fim de possibilitar
meios ao pesquisador meios para a escrita da História. Uma das suas justificativas dadas por
Honório Rodrigues para a necessidade de resgatar os documentos e principalmente organizálos,
9
Foram publicados os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, além dos Anais da Biblioteca Nacional.
10
Ibidem.
11
A conferência se intitula José Honório Rodrigues: historiógrafo erudito, historiador combatente.
Conferencista: Leslie Bethell, Acadêmico: Alberto Venâncio Filho. Data: 16 de julho de 2013.
5
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
“É a falta de catálogos e, portanto, o não conhecimento completo do acervo, da
Biblioteca que explica a escolha arbitrária dos códices divulgados, sem respeito ao
assunto e à data, e as constantes variações cronológicas e frequentes mudanças da
matéria dos volumes já publicados.
(...)
A organização de um plano de publicações de documentos históricos depende,
portanto, da catalogação e do conhecimento do acervo. Este seria o único caminho
certo em relação a escolha dos textos. Todavia, pelo fato de não conhecermos todos
os documentos e, portanto, de não podermos justificar a nossa escolha, não se
desencaminhará a publicação. Esta, durante mais algum tempo não será ordenada
sistemática, cronológica, mas procurará atender à esta exigência agora que de novo
se cataloga e se conhecem milhares de peças, e à segunda norma de uma edição de
documentos históricos – que é a de reproduzi-los autenticamente.” (RODRIGUES,
1949)12
Quatro anos mais tarde, em 1953, José Honório destacava novamente a
importância de recuperar os documentos relativos ao pré-nacional da História do Brasil que,
segundo o autor, se caracterizava no ano de 1817. Nas palavras do autor,
“Inicia a Biblioteca Nacional, neste volume 101, a nova série de documentos
relativos ao período nacional ou pré-nacional. Até agora dedicamos 100 volumes à
história colonial e muito especialmente aos documentos do Conselho Ultramarino
que possuíamos em cópias do século passado, vindas de Lisboa. Esta orientação, que
encontramos em 1946, quando a coleção atingia o volume 70, foi seguida nestes
últimos 30 volumes, no empenho de oferecer aos estudiosos da história colonial
fontes indispensáveis de consulta existentes na Biblioteca Nacional. Fica ainda a ser
publicada muita matéria merecedora de tanta atenção dos editores e dos estudiosos
quanto a que já se imprimiu.
A história propriamente nacional encontra no movimento de 1817 um marco de
extraordinária significação, pelo revigoramento do espírito nacional e pela iniciativa
prática que lhe coube na preparação da Independência. A Revolução de 1817 não foi
um momento local, mas nacional, que só não vingou porque foi temporânea, porque
faltou ao povo, ou melhor, à maioria de todas as partes do Brasil, educação para
compreendê-la e defendê-la conscientemente, como já assinalou Oliveira Lima. Não
foi o ódio contra os portugueses, nem contra os reinóis prepotentes a causa imediata
da rebeldia, como parece crer grande parte de nossa historiografia, baseada na ordem
do dia 4 de março de 1817 e na interpretação contemporânea de Muniz Tavares, o
cronista da Revolução.” (RODRIGUES, 1953)13
12
Série Documentos Históricos – Pernambuco e outras Capitanias do Norte – Cartas e Ordens (1717-1727).
Vol. LXXXV, 1949.
13
Série Documentos Históricos – Revolução de 1817, vol., CI, Biblioteca Nacional – Divisão de Obras Raras e
Publicações, 1953.
6
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
Para além das fontes que estavam sendo recuperadas alguns historiadores da
Primeira República voltavam a cena pelas páginas dos Documentos Históricos. Por trás da
atuação de José Honório estava a intenção de recuperar os trabalhos iniciados por Ramiz
Galvão e mais tarde retomados por Rodolfo Garcia. Nas palavras de Honório Rodrigues na
nota de abertura dos Anais da Biblioteca Nacional, vol.68,
“Quando, porém, não houver inventários preparados, serão impressos manuscritos
preciosos da casa, ou de outras instituições nacionais ou estrangeiras de grande
interesse para a nossa história, retornando-se ao plano de Ramiz Galvão, que incluía
também a informação bibliográfica e iconográfica. Já é da tradição deste repertório
acolher documentos vindos de vários acervos públicos e particulares, estrangeiros ou
nacionais. O único interesse dominante é contribuir para o esclarecimento do
passado brasileiro.” (RODRIGUES:04)14
Quanto à Rodolfo Garcia, José Honório não foi menos elogioso e exaltador.
Garcia foi considerado por Honório um como “discípulo” de Capistrano de Abreu juntamente
com Afonso Taunay. Mais do que isso. Nas palavras de Honório “Varnhagen, Capistrano de
Abreu
e
Rodolfo
Garcia15
formavam
a
trindade
bendita
da
historiografia
brasileira.”(RODRIGUES, 1970: 155)16. Seus métodos e formas de trabalho deveriam ser
recuperados e valorizados pelas gerações dedicadas aos estudos históricos. E foi essa a maior
contribuição de José Honório a frente dos Institutos e da Série Documentos Brasileiros. Seu
plano compreendia mais do que a recuperação de fontes históricas, mas sim, o resgate de uma
tradição historiográfica que estava ficando relegada a segundo plano em tempos de mudança
como o eram nos anos 1950. A legitimidade da História mudara de curso, mas para José
Honório nossos primeiros mestres jamais deveriam ser esquecidos.
Considerações Finais
14
Anais da Biblioteca Nacional, vol.68.
15
Um fato curioso a respeito da retomada de Rodolfo Garcia por José Honório Rodrigues se deve a enorme
expressividade do primeiro na Sociedade Capistrano de Abreu. José Honório Rodrigues, como visto, além de um
admirador do trabalho de Capistrano, foi o responsável pela publicação de suas correspondências. Para maiores
esclarecimentos ver: SILVA, Ítala Byanca Morais da. Les morts vont vite: a Sociedade Capistrano de Abreu e a
construção da memória de seu patrono na historiografia brasileira (1927-1969). Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS,
2008, dissertação de mestrado.
16
Para maiores detalhes ver: RODRIGUES, José Honório. Rodolfo Garcia. In: História e Historiografia.
Petrópolis, Editora Vozes, 1970, pp. 155-163.
7
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
Conforme procuramos mostrar, a redefinição que o campo intelectual histórico
vinha sofrendo no decorrer dos anos 1950-60 estava influenciando o valor atribuído aos
documentos e ao trabalho dos historiadores, valorizando-se formas mais interpretativas, e
criticando-se as análises de cunho mais empírico. No entanto, alguns historiadores aferrados a
tradição dos primeiros mestres historiógrafos ainda supervalorizavam o trabalho com as
fontes e a recuperação destas pelos Institutos arquivísticos. Nesse processo, se inscrevia José
Honório Rodrigues e a sua atuação à frente dos centros de documentação mais importantes do
país, em especial a Biblioteca Nacional, local onde permaneceu desde os tempos de revisor
técnico do Instituto Nacional do Livro. Ao longo de sua gestão, uma das mais notórias
características fora a recuperação da escrita da História do Brasil pelas páginas da série
Documentos Históricos, criada por Mario Behring e continuada por Rodolfo Garcia.
Concluímos que por meio desta coleção, José Honório Rodrigues além de tornar o passado
tangível aos pesquisadores através das fontes, trazia à tona novamente a importância da
organização dos arquivos e dos seus acervos, demonstrando que as respostas para as questões
históricas careciam de “pesquisa, pois de outro modo o historiador se tornaria tendencioso e
sem categoria científica.” (RODRIGUES, 1969: 36)17
Referências Bibliográficas
BEHRING, Mario. Apud. ANDRADE, Rosane Maria Nunes. A edição de documentos
históricos do acervo da Biblioteca Nacional. XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da
Comunicação – Recife, PE, 2 a 6 de setembro de 2011, pp. 1-12;
FARGE, Arlette. Milhares de Vestígios. In: O Sabor do Arquivo. Tradução de Fátima Murad.
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009, pp.9-23;
FREIXO, André de Lemos. A mansão brasileira na “casa de Clio”. In: A arquitetura do novo:
ciência e história da História do Brasil em José Honório Rodrigues. Rio de Janeiro:
UFRJ/PPGH, 2012, pp. 320-331.
IGLÉSIAS, Francisco. José Honório Rodrigues e a Historiografia Brasileira. Estudos
Históricos, Rio de Janeiro, n.1, 1988, p.55-78;
RODRIGUES, José Honório. A Historiografia brasileira em 1945. In: Notícia de Vária
História. Livraria São José, 1951, pp.113-142;
17
Ibidem.
8
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
RODRIGUES, José Honório. Rodolfo Garcia. In: História e Historiografia. Petrópolis,
Editora Vozes, 1970, pp. 155-163;
SANTOS, Renata Soares da Costa. O “culto moderno”: um espetáculo notociado. Puc-Rio.
SILVA, Ítala Byanca Morais da. Les morts vont vite: a Sociedade Capistrano de Abreu e a
construção da memória de seu patrono na historiografia brasileira (1927-1969). Rio de
Janeiro: UFRJ/IFCS, 2008, dissertação de mestrado.
Fontes:
Série Documentos Históricos – Pernambuco e outras Capitanias do Norte – Cartas e Ordens
(1717-1727). Vol. LXXXV, 1949;
Série Documentos Históricos – Revolução de 1817, vol., CI, Biblioteca Nacional – Divisão de
Obras Raras e Publicações, 1953.
Anais da Biblioteca Nacional, vol.68, 1948.
9
Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do
7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e
história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013.
(ISBN: 978-85-288-0326-6)
10
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O que faz o verdadeiro historiador – José Honório Rodrigues e a