UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ CENTRO DE EDUCAÇÃO Vera Educação Volume 11, N. 1 e 2 Janeiro/dezembro 2005 BELÉM ISSN 1413-1498 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 1-252, Jan/dez 2005 Título e texto amparados pela Lei N° 5988, de 14 de dezembro de 1973 Copyright@ dos autores – 2005 ISSN 1413-1498 Edição de Texto: Marcelo Quintino Galvão Baptista e Rudiane Aline da Silva Mesquita Revisão dos originais: José dos Anjos Marcelo Quintino Galvão Baptista Terezinha Fátima Andrade Monteiro dos Santos Frederico R. Corrêa Rudiane Aline da Silva Mesquita Projeto gráfico: Destaque-se Editora Consultor ad hoc para este número: Cristiano Pinto da Silva Periodicidade: Semestral Tiragem: 500 exemplares Consultores ad hoc. para este número: Cristiano Pinto da Silva (UEPA/UNAMA) William Lee Berdel Martin (UFPA) Luis A. Pérez-Gonzáles (Universidade de Oviedo-Espanha) Correspondência: Universidade Federal do Pará Centro de Educação Campus Universitário - Setor Profissional CEP: 66075-110 - Belém/PA Fax: (091) 3201-7648 - Fone: (091) 3201-7705 CATALOGAÇÃO: Biblioteca do Centro de Educação Ver a educação. v. 11, n.1 e 2 (jan./dez. 2005). - Belém: UFPA/ Centro de Educação, 2005 - Semestral. 1. Educação - Periódicos CDD. 370.5 Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme Decreto N. 1825, de 20 de dezembro de 1907. Ver a Educação SUMÁRIO PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: UMA PROPOSTA DE REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO NA EDUCAÇÃO Vera Maria Vidal Peroni FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO Raimundo Sérgio de Farias Junior 11 25 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 47 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENTRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 75 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo UMA ESCOLA PARA TODOS: PERSEGUINDO A UTOPIA Ilda Estela Amaral de Oliveira OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DA PESQUISA EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70, 80 E 90 Laura Maria Silva Araújo Alves 97 109 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC Janaina Specht da Silva Menezes 133 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL BRASILEIRO: A RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO Liany Tadaiesk; Darlene Ferreira; Suellen Nobre e Rosângela da Silva Almeida 159 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER¬FAZER DOS PROFESSORES(AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 185 Albêne Lis Monteiro; Ana Kelly Martins; Emmanuel Ribeiro da Cunha; Nilda de Oliveira Bentes e Tânia Regina Lobato dos Santos A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETORIA HISTÓRICA Rosângela da Silva Almeida e João Gomes Tavares Neto OPINIÕES DE MÃES SOBRE O ATENDIMENTO NAS CRECHES MUNICIPAIS DE BELÉM Celi da Costa Silva Bahia; Celina Maria Colino Magalhães e Fernando Augusto Ramos Pontes 209 233 EDITORIAL Mais uma edição de Ver a Educação ao dispor dos leitores! Um esforço materializado no Volume 11, que comporta dois fascículos. Os artigos que dão corpo a este volume revelam, desde o título, a importância do seu conteúdo. Vera Maria Vidal Peroni analisa no trabalho "Programa dinheiro direto na escola: uma proposta de redefinição do papel do Estado na educação?", o processo pelo qual ocorreu a implantação do programa na rede municipal de ensino de Porto Alegre. Teve início em 1995, como "Programa de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental". Em 1977, passou a haver, em seu âmbito, a obrigatoriedade de repasse de recursos diretamente para as unidades executoras. A autora aponta a existência, por um lado, de uma postura centralizadora da União ao retirar a autonomia dos municípios para a construção de seus processos de gestão democrática e, por outro lado, um avanço na passagem das políticas públicas para o público nãoestatal. No artigo "Filosofia da Educação: contribuições e limites para o processo de esclarecimento", Raimundo Sérgio de Farias Junior trata das contribuições e limites do ensino das disciplinas correlatas à matéria Filosofia da Educação, do Centro de Educação da UFPA, para verificar a possibilidade do processo de esclarecimento do ambi¬ente cultural próprio das sociedades altamente administradas, marcadamente autoritárias e antidemocráticas. Para isso, o autor parte do conceito de ideologia, sob a perspectiva dos teóricos da Escola de Frankfurt. Ivanildo do Socorro Mendes Gomes objetiva no artigo "A educação de jovens e adultos no Brasil: espaço de lutas, rupturas e cadencias", identificar os embates travados na busca pela definição, organização e consolidação de um melhor atendimento edu¬cacional aos jovens e adultos pouco ou não escolarizados, na perspectiva da sociedade civil brasileira e de alguns organismos internacionais. Uma das constatações do autor é que mesmo com o movimento de renovação da EJA no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, em prol de uma educação pública popular, os interesses do Estado, marcado por orientações internacionais, conseguiram sobressair. Em "Marcos históricos da descentralização pela via da municipalização na educação brasileira", Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo discorre a respeito de como as discussões sobre as modificações e os novos desafios para a educação, decorrentes do processo de descentralização pela via da municipalização do ensino ao longo da história do pensamento educacional brasileiro, se configuraram no campo jurídico-constitucional e nas normas legais que dispõem sobre a educação. A autora examina os aspectos determinantes para a materialização da política de descentralização e sua relação com aspectos de ordem social, política, cultural e econômica. Ilda Estela Amaral de Oliveira apresenta o artigo "Uma escola para todos: perseguindo a utopia", como decorrente de um trabalho desenvolvido no Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Pará, na Disciplina Didática e Formação Docente em que, além de outras atividades, se inseriu uma visita de estudo realizada à Escola da Ponte em Portugal. A autora aponta os desafios pelos quais passa essa escola, inclusive o de ser fechada pelo governo, pelo fato de ser rotulada como "transgressora do instalado", em termos de proposições de educação. Também incentiva a todos quantos ousam engajar-se em prol de mudanças, no sentido da construção de uma sociedade melhor. O artigo "Os caminhos epistemológicos das pesquisas em Psicologia da Educação no Programa de Pós-Graduação da PUC de São Paulo nas décadas de 70, 80 e 90", de Laura Maria Silva Araújo Alves, desenvolveu-se no âmbito da discussão sobre a influência epistemológica do empirismo lógico, do materialismo histórico e da crítica contemporânea exercida nas pesquisas e nas teorias, nessa área do saber. A discussão norteou a produção do artigo como um texto com a pretensão não somente de reunir alguns elementos que compõem as perspectivas a partir das quais muitas pesquisas em psicologia nos últimos anos foram norteadas, mas, principalmente, de investigar empiricamente os reflexos das principais correntes epistemológicas no contexto da produção do conhecimento na Psicologia da Educação. Janaina Specht da Silva Menezes busca sistematizar e analisar como ocorreu "O processo de formulação do Fundef: um estudo a partir da perspectiva de integrantes do MEC" e o que esteve envolvido no mesmo, a partir da perspectiva oficial, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. O trabalho revela que, dentre outros aspectos, o Fundef levou a uma reforma tributária a favor da educação e se constituiu numa política educacional pública precursora da associação de uma responsabilidade legal ao recebimento de parte dos recursos constitucionalmente transferidos. O artigo “Aspectos relevantes do contexto educacional: a relação professor - aluno", de Liany Tavares Tadaiesk, Darlene Cardoso Ferreira, Suellen Martins Nobre e Rosângela da Silva Almeida, é relato de uma pesquisa que objetivou observar a interação professoraluno em salas de aula de 1º e 2° séries de uma Escola Pública de Ensino Fundamental e realizar oficinas baseadas nas demandas encontradas, para promover melhorias nas relações entre educadores e alunos. A pesquisa apontou a importância de utilização dos conhecimentos oferecidos pela psicologia para uma melhor compreensão do desenvolvimento infantil e melhoria das relações sócio-afetivas em sala de aula. Albenê Lis Monteiro, Ana Kelly Martins, Emmanuel Ribeiro da Cunha, Nilda de Oliveira Bentes e Tânia Regina Lobato dos Santos apresentam em "Saberes docentes: reconstrução do saber ser e do saber fazer dos(as) professores (as) das escolas de Ensino Fundamental de Belém", alguns resultados de um trabalho que investigou os saberes docentes construídos por 25 professoras que também participaram do processo de formação continuada oferecido pelo ''Projeto Sócio Educacional Integrado -PROSEI". Os resultados apontam transformações significativas na forma de pensar, sentir e agir das professoras, consideradas de forma contextualizada, para atender aos desafios atuais, oriundos do saber, de saber-ser e do saber-fazer reconstruídos no processo formativo. No artigo ''A educação especial no Estado do Pará e as perspectivas de inclusão: análise de uma trajetória histórica", Rosangela da Silva Almeida e João Gomes Tavares Neto apresentam a Educação Especial como parte do sistema educacional regular, inserida nas ações da Secretaria Executiva de Educação do Estado do Pará, com enfoque em três períodos: 1) As Primeiras Iniciativas da Educação Especial, cul¬minando com a criação do Centro de Educação Especial - CEDESP, de 1953 a 1972; 2) A Estruturação e Organização do CEDESP, em seus aspectos físicos e políticos, e a transformação deste em Departamento de Educação Especial- DEES, de 1972 a 1989; 3) A Educação Especial e o Processo de Construção de uma Escola Inclusiva, de 1990 a 2006. O trabalho revela uma mudança na concepção de atendimento: o assistencialismo e o paternalismo presentes nas ações iniciais, sua superação progressiva e a emergência de uma concepção que privilegia a pessoa e valoriza as diferenças, lançando fundamentos para a criação de uma escola inclusiva no Pará. Celi da Costa Silva Bahia, Celina Maria Colino Magalhães e Fernando Augusto Ramos Pontes apresentam o artigo "Opiniões de mães sobre o atendimento nas creches municipais de Belém" como resultado de uma pesquisa cujo objetivo foi levantar os fatores que levam as mães de baixa renda a deixarem seus filhos na creche, além de conhecer suas opiniões acerca do atendimento oferecido às suas crianças, e identificar, no relato das mães, os aspectos que precisam de melhorias nesse espaço. Os resultados demonstraram ser a sobrevivência o principal motivo pelo qual as mães deixam os filhos na creche. Na avaliação das mães, a creche foi considerada boa e/ou excelente, mas foi ressaltada a necessidade de melhoria na sua estrutura física e material. Na ocasião da publicação anterior, previmos que a Revista Ver a Educação passaria a ser anual, deixando de ter uma periodicidade semestral, mas a presente edição contraria aquela previsão. Também, explicitamos, naquela ocasião, a necessidade de repensar outras formas de materializar o nosso periódico, além da forma impressa. Esta é, entretanto, a que ainda permanece. Gostaríamos de frisar que os esforços dos Editores e de todos os colaboradores diretos e indiretos, somados ao imprescindível apoio da Direção do Instituto de Ciências da Educação e da Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Educação, tornaram possível a edição deste Volume 11. Assim, demos, sem dúvida, um passo adiante, rumo à meta tão almejada - a regularidade da publicação e, com isso, a geração de outras conseqüências positivas. Continuamos contando com a colaboração de todos. Os Editores, Marcelo Q. Galvão Baptista e Terezinha Fátima Andrade Monteiro dos Santos PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: UMA PROPOSTA DE REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO NA EDUCAÇÃO? Vera Maria Vidal PERONI1 Resumo: Este trabalho é parte da pesquisa Programa Dinheiro Direto na Escola: Uma Proposta de Redefinição do Papel do Estado na Educação? 2 que buscou analisar o Programa Dinheiro Direto na Escola no contexto da reforma educacional brasileira, como uma das expressões da redefinição do papel do Estado e sua conseqüência para a gestão da educação. O objetivo do trabalho é apresentar como se deu o processo de implantação deste Programa na rede municipal de Porto Alegre. Como procedimentos, foram realizadas entrevistas e análise de documentos. O atual Programa Dinheiro Direto na Escola iniciou em 1995, como Programa de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (PMDE). Em 1997, iniciou a obrigatoriedade de repasse diretamente para as unidades executoras. A unidade executora, pela exigência de CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica), é uma entidade de direito privado e deve arrecadar outros recursos além daquele repassado pelo Programa, guardando proximidade com a lógica do "público não estatal", apresentado no documento de Reforma do Estado brasileiro. Portanto, quando analisamos a obrigatoriedade de todas as escolas terem unidades executoras para receberem os recursos da União, verificamos que, por um lado, há uma centralização por parte da União, retirando a autonomia dos municípios de construir seus processos de gestão democrática, como observamos no relato de Porto Alegre e, por outro lado, um avanço no processo de implantação de organização social, que é parte da passagem das políticas públicas para o público não-estatal. Palavras-chave: Programa Dinheiro Direto na Escola. Gestão Democrática. Estado. Educação. PROGRAM MONEY STRAIGHT IN SCHOOL: A PROPOSAL OF REDEFINITION OF THE ROLE OF STATE IN EDUCATION? Abstract: This work is part of the research program money straight in school: A proposal, of redefinition of the role of state in Education? that aims to analyze the program money straight in school in the context of the Brazilian educational reform, as one of the expressions of redefinition of the role of the state and it's consequences to the management of education. The objective of the work is show how happened the Professora da universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutorada em Educação. E-mail: [email protected] 2 Pesquisa Nacional envolvendo todas as regiões brasileiras, coordenada pela autora. 1 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 Vera Maria Vidal Peroni 12 process of implementation of this program in the municipal system of Porto Alegre. As procedures, were realized interviews and documental analysis. The current program money straight in school started in 1995, as a program of maintenance and development of the elementary teaching ( PMDE ). In 1997 started a compulsory revise straight to the executioner unities. The executioner unity by demand of the CNPJ (National cadastre of juridical organizations), is an entity of private law and must levy other funds besides the ones passed by the program, keeping approach with the logic of the "public not from the state", presented in the document of reform of the Brazilian State. Therefore, when we analyze the obligatority of all schools have executioner unities to receive the resources Erom the confederation, we verify, that there is a centralization by the confederation, withdrawing the autonomy of the municipalities of constructing it's process of democratic management, as we observed in the Porto Alegre report and, on the other hand, an advancement in the process of implementation of social organization, that is part of the passing of the public politics to the public not originally from the state. Key words: Program Money Straight in School Democratic Management. State. Education. Introdução Este trabalho é parte da pesquisa: PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: uma proposta de redefinição do papel do Estado na educação? que visa a analisar o Programa Dinheiro Direto na Escola no contexto da reforma educacional brasileira, uma das expressões da redefinição do papel do Estado, e suas conseqüências para a gestão da educação. O objetivo, neste momento, é apresentar como ocorreu o processo de implantação deste Programa na rede municipal de Porto Alegre, enfocando principalmente o embate jurídico ocorrido para a transformação dos conselhos escolares em unidades executoras, como exigido pelo FNDE para que as escolas recebessem o dinheiro do Programa. A coleta de dados foi realizada em documentos e entrevista com uma Procuradora do Município. O atual Programa Dinheiro Direto na Escola iniciou em 1995, como Programa de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (PMDE). A Resolução n° 12, de 10 de maio de 1995, (BRASIL, 1995c) considera necessário agilizar a assistência financeira do FNDE aos sistemas de ensino dos Estados, Distrito Federal e municípios, em consonância com a política e diretrizes para a educação, por meio desse Programa. O documento cita o art. 211 da Constituição Federal que, em seu § 1°, estabelece que a União, Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: UMA PROPOSTA DE REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO NA EDUCAÇÃO? 13 além de financiar o sistema federal de ensino, "prestará assistência técnica e financeira aos Estados, Distrito Federal e aos Municípios para o desenvolvimento dos seus sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade obrigatória". (BRASIL, 1995a). Em 1995, já estava colocada a possibilidade de repasse para a unidade executora, mas não era obrigatório. O dinheiro poderia se repassado para a Secretaria Estadual ou Municipal de Educação ou para a unidade executora das escolas. Os recursos para financiar esse programa são provenientes do SalárioEducação e distribuídos pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), e o critério de distribuição é a matrícula no ensino fundamental. As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste recebem um valor maior do que as regiões Sul, Sudeste e o Distrito Federal. Os recursos inicialmente eram destinados apenas ao custeio das despesas das escolas e poderiam ser usados na manutenção e conservação do prédio escolar, aquisição de material necessário ao funcionamento da escola, capacitação e aperfeiçoamento de profissionais da educação, avaliação da aprendizagem, implementação do projeto pedagógico, aquisição de material didático/pedagógico e desenvolvimento de atividades educacionais diversas. Em 1997, quando ainda se chamava PMDE - Programa de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental, iniciou a obrigatoriedade de repasse diretamente para as unidades executoras. O Programa visa repassar diretamente às escolas públicas de ensino fundamental e organizações nãogovernamentais sem fins lucrativos, que atuem com educação especial, dinheiro para manutenção e custeio das atividades escolares. (BRASIL, 1997 a). Para terem acesso ao Programa, as escolas devem criar, obrigatoriamente, uma unidade executora, a qual, segundo a Resolução 03/97 (BRASIL, 1997c, p. 11), é uma "entidade de direito privado, sem fins lucrativos, representativos da comunidade escolar (caixa escolar, conselho escolar, associação de pais e mestres, etc.), responsável pelo recebimento e execução dos recursos financeiros recebidos pelo FNDE (...)". Conforme o art. 70 da Resolução 03/97, os recursos serão liberados diretamente às unidades executoras. De acordo com o manual de orientação: A Unidade Executora tem como função administrar recursos transferidos por órgãos federais, estaduais, municipais, advindos da comunidade, de entidades privadas e provenientes da promoção de campanhas escolares, bem como Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 Vera Maria Vidal Peroni 14 fomentar atividades pedagógicas da escola. (BRASIL, 1997b, p. 11, grifo nosso). Portanto, a unidade executora deve arrecadar outros recursos além daquele re-passado pelo. Programa, guardando proximidade com a lógica do "público não estatal", apresentado no documento de Reforma do Estado brasileiro (BRASIL, 1995b). Em 1997, a verba já se divide em capital e custeio. Com esse dinheiro, a escola pode adquirir material permanente, fazer sua manutenção e conservação, capacitar e aperfeiçoar os profissionais da educação, contratar setores para elaborar processos e indicadores de avaliação da aprendizagem, implementar seu projeto pedagógico e desenvolver atividades pedagógicas diversas (BRASIL, 1997c). A Resolução 03/CD/FNDE, de 27 de fevereiro de 2003, em vigor atualmente, é uma reedição das resoluções anteriores. (BRASIL, 2003). Verificamos que, desde 1997, não houve nenhum reajuste no valor destinado às escolas. A Resolução 12/95 (BRASIL, 1995c) apresentava apenas os valores totais; a partir da Resolução 03/97, os valores monetários passam a ser divididos entre despesas de custeio e de capital, e o critério continuou o mesmo: número de alunos matriculados no ensino fundamental e a região do país. Portanto, no caso das regiões Sul, Sudeste e do Distrito Federal, por exemplo, para uma escola de 1.501 a 2000 alunos receber R$10.000,00, significa R$ 5,00 aluno/ano, se ela tiver 2.000 alunos, e, ainda, desde 1997 sem reajustes. Como esse valor chega apenas uma vez por ano, e normalmente no final do ano, as escolas o batizaram em Porto Alegre de "décimo terceiro". Não chega a ser insignificante, dada a penúria em que vivem as escolas, mas é quase um valor simbólico, tanto pelo montante quanto pelo tempo sem reajuste. O que nos leva a pensar que, mais do que o repasse de dinheiro para a escola, o Programa objetiva, ou objetivou no mo¬mento em que iniciou a obrigatoriedade das unidades executoras, a montagem de uma estrutura paralela ao estabelecimento para a captação de recursos, o que pode vir a se adequar à proposta de organizações públicas não-estatais do Programa de Reforma do Estado. (BRASIL, 1995b). O PDDE em Porto Alegre Para chegarmos até o processo de implantação do PDDE em Porto Alegre, julgamos necessário apresentar um breve relato de como o município Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: UMA PROPOSTA DE REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO NA EDUCAÇÃO? 15 vem construindo a descentralização financeira como parte de seu projeto de gestão democrática da educação. A descentralização financeira nas escolas municipais de Porto Alegre passou por um processo que é parte do projeto de gestão democrática, o qual, desde 1989, tem avançado na concepção de um planejamento e orçamento participativos. Em 1989, foi implementado o adiantamento de numerários para despesas urgentes e de pequena monta. Em 1994, foi incluída a entrega de um kit básico remetido bimensalmente aos estabelecimentos, com material que, freqüentemente, era solicitado pelo conjunto das escolas. Em 1995, houve uma adequação da listagem (kit) às peculiaridades de cada unidade. Já em 1996, houve um aperfeiçoamento do processo, com a implantação do Sis-tema de Crédito Escolar Trimestral, tornando-se o repasse de recursos diferenciado, de acordo com a característica de cada escola. Esse sistema caminhou rumo à descentralização pretendida, mas ainda mantinha centralizada a gerência dos recursos. Com o Decreto n° 11.600/96 (PORTO ALEGRE, 1996a), a comunidade escolar - representada pelos segmentos do Conselho Escolar - tornou-se habilitada para gerir seus recursos financeiros, passando a ter conta própria, com o CNPJ da Prefeitura. Para viabilização do Decreto, houve a implantação do Projeto de Repasse Trimestral de Recursos às escolas municipais. Em 1998, houve um novo aperfeiçoamento do processo, com a inserção do Planejamento e Orçamento Participativo Educacional Regionalizado. Portanto, além dos recursos do Repasse Trimestral, foi alocada uma verba a mais e, para receberem os recursos, as escolas elaboram projetos, que são selecionados de acordo com critérios pré-acordados. Durante esse processo de descentralização programática e físicofinanceira dos recursos, o Governo Municipal foi surpreendido pela Resolução n° 3, de março de 1997, MEC/FNDE (BRASIL, 1997c), que passava a transferir os recursos da União diretamente às unidades executoras. Isso estaria de acordo com o processo de gestão democrática implantada pela SMED, não fosse a exigência de CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica), o que transforma a unidade executora em entidade de direito privado. A SMED insistiu, junto ao MEC, para que o dinheiro fosse repassado utilizando-se a organização funcional e administrativa existente, o que foi negado, obrigando a Secretaria a se adaptar às normas determinadas pelo MEC, para que as escolas não deixassem de receber os recursos a que tinham direito. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 Vera Maria Vidal Peroni 16 O trâmite jurídico Para descrevermos como se deu o processo de implantação do PDDE no que se refere às discussões jurídicas, buscamos os documentos pertinentes e realizamos entrevista com a Procuradora do Município, Vanesca Prestes, que participou do processo de discussão sobre a passagem dos Conselhos Escolares para Unidades Executoras. Em fevereiro de 1996, a Secretaria Municipal de Educação fez uma consulta à Procuradoria-Geral do Município sobre a viabilidade do "repasse de verbas públicas aos conselhos escolares disciplinados na LC. n° 292/933, como forma de aplicabilidade do disposto no § 2°, art. 183, LOM4, que assegura autonomia de gestão financeira às escolas públicas municipais". O que, conforme a Secretaria, é inviável, já que o "repasse pressupõe personalidade e capacidade jurídica do recebedor, características inexistentes nos conselhos escolares, órgãos de cooperação governamental e de auxílio à administração". (PORTO ALEGRE, 1996b). O parecer da Procuradora do Município, Ana Cristina Tópor, fornecido por meio de entrevista, em resposta à consulta da SMED, é de não ser possível, juridicamente, os Conselhos Escolares receberem e gerenciarem verbas públicas, sejam elas repassadas pelo Município, sejam elas repassadas pelo MEC, tendo em vista que: a Lei 4320/64 aboliu a transferência de "verbas públicas" e adotou a expressão dotação e créditos orçamentários, o que faz com que o recebedor tenha que ter personalidade jurídica, que é a aptidão para adquirir direitos e contrair obrigações, e assuma o compromisso da prestação de contas. A pessoa jurídica, neste sentido, poderia receber e gerenciar verbas públicas. Mas, conforme o parecer, a questão é se os Conselhos Escolares podem ser considerados pessoas jurídicas. Após citação do que caracterizaria a pessoa jurídica, a Procuradora conclui que os conselhos escolares: [...] não se coadunam, s.m.j, com a natureza de pessoa jurídica, por faltar-lhes, no modo de constituição, a manifestação de vontade exclusiva dos membros, nos atos praticados para esse fim, uma vez que todo o processo de criação desses órgãos já encontra-se minudentemente disciplinado por lei municipal, bem como suas atribuições e finalidades, restando aos eleitos somente a submissão 'as normas da LC n° 292/93. 3 4 Lei Complementar nº 292/93, rege o Conselho Escolar ( Porto Alegre, 1993) Lei Completar Orgânica Municipal ( LOM) (Porto Alegre, 1990). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: UMA PROPOSTA DE REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO NA EDUCAÇÃO? 17 Os membros ou sócios, se fosse realmente uma associarão, só atingem esse ''status'' através de processo eletivo, também esse orientado pela norma municipal, o que força à conclusão que só a manifestação de vontade dos mesmos não basta para a constituirão do colegiado. Assim sendo, tais conselhos não preenchem o terceiro elemento caracterizador da pessoa jurídica, enumerada pela doutrina citada, qual seja, a capacidade jurídica reconhecida pela norma [...] Os conselhos, portanto, são órgãos de cooperação governamental, de auxílio à administração na interpretação, orientação, planejamento e julgamento da matéria que lhe compete [...]. (PORTO ALEGRE, 1996c). O impasse jurídico continuou, já que a Secretaria de Educação precisava organizar o repasse trimestral e também o governo federal já anunciava que repassaria o dinheiro do PMDE diretamente às unidades executoras. Em junho, a Coordenadora de Assuntos Jurídicos da Procuradoria Geral do Município, Vanesca Prestes, que participou de várias reuniões na SMED para encontrar solução para o impasse, elabora uma minuta de projeto de Lei e emite o seguinte parecer: Em síntese, será aberta uma conta em nome de cada escola municipal (em nome do Município porque não possuem personalidade jurídica própria), para que as verbas sejam recebidas e geridas. A competência para definir a aplicação dos recursos é exclusivamente de cada Conselho Escolar (grifo da autora). Porém as responsabilidades quanto a todo o controle registrário, quanto à ordenação da despesa e à movimentação da conta corrente são da Junta Administrativa composta por funcionários municipais, ficando expressa a impossibilidade da Junta liberar recursos sem a autorização do Conselho Escolar. Destarte, desta forma entendemos que mais uma vez o Município de Porto Alegre estará inovando ao demonstrar a viabilidade de compatibilizar o ordenamento jurídico vigente com a efetiva participação popular, vez que garante a comunidade escolar a deliberação, fiscalização, enfim o controle sobre as verbas da escola, ao mesmo tempo atribui a responsabilidade burocrática e executiva a funcionários municipais que pela própria situação funcional devem respeito às normas legais vigentes. (PORTO ALEGRE, 1996d). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 Vera Maria Vidal Peroni 18 Desta discussão jurídica é que surge o Decreto n° 11.600 de 22 de novembro de 1996 (PORTO ALEGRE, 1996a) que dispõe sobre o repasse de recursos para a rede municipal. Dentre os considerandos estão: a proposta de democratização da escola - Escola Cidadã, a transferência de recursos financeiros para as escolas como processo de descentralização da tomada de decisões e da gestão e, também, o Programa de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental, que visa à transferência de recursos para a escola. Conforme o Decreto, os recursos destinados às unidades de ensino do município serão geridos pela comunidade escolar, por meio do conselho escolar, e o diretor e o vice-diretor serão os ordenadores de despesa. As unidades deverão apresentar um plano de aplicação dos recursos financeiros. Ao conselho escolar compete deliberar quanto à aplicação de recursos financeiros, fiscalizar o trabalho da direção da unidade, inclusive convocar os membros para prestar esclarecimentos quando julgar necessário, apreciar e aprovar a prestação de contas. A direção da unidade deve submeter à apreciação prévia da SMED o plano de aplicação de recursos financeiros, movimentar os recursos financeiros em conta específica, cumprir o plano de aplicação, submeter a prestação de contas ao Conselho escolar e apresentar à SMED a prestação de contas com a apreciação do conselho. À SMED compete, entre outros, orientar, estabelecer procedimentos operacionais, analisar o plano de aplicação e a prestação de contas. A nãoconformidade de aplicação dos recursos repassados com o plano de aplicação acarretará o cancelamento dos repasses subseqüentes. A Procuradora esclareceu na entrevista qual foi o teor do Decreto nº 11.600/96: Nós propúnhamos que fosse como são os demais conselhos de toda a gestão, que toda a liberação de recursos fosse feita pelo conselho, mas que a execução fosse de um funcionário público. Porque uma de nossas preocupações é que toda essa tarefa burocrática consome muito e a gente viu vários conselhos subsumidos na burocracia, esquecendose de discutir a política. Era um alerta que se fazia muito seriamente, primeiro porque tem toda uma questão da verba pública e é uma burocracia necessária porque é recurso do contribuinte [...]. [...] é bem como funciona o Conselho da Criança e da Assistência Social, eles discutem o pleno do conselho, o presidente se preocupa Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: UMA PROPOSTA DE REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO NA EDUCAÇÃO? 19 com as deliberações e quem vai aplicar é a junta administrativa. Quer dizer, eles têm a responsabilidade para dizer que a verba é para isso ou para aquilo e depois verificam se foi executado. (PRESTES, 2002). Portanto, com o Decreto nº 11.600/96, o conselho escolar deliberava sobre os recursos e a direção da unidade de ensino executava as decisões. Mas, no caso do PMDE, a verba não era passada direto para as unidades escolares, o município era intermediário do repasse. Conforme a procuradora Vanesca Prestes, [...] esta formula apesar de respeitar a autonomia política dos conselhos escolares, à medida em que tornou cogente o cumprimento das deliberações do conselho, combinando os preceitos de direito público com a descentralização das ações e decisões, não foi considerada suficiente pela União. (PORTO ALEGRE, 1998b). A Resolução n° 03, de 04 de março de 1997, institui que o repasse da verba da União direto para as escolas será através das unidades executoras e impossibilita que ocorra via Secretaria Municipal. A Procuradora assim comenta o fato de os municípios serem retirados do processo: A República Federativa do Brasil tem três entes. Mas, há uma dicotomia da administração federal, alguns vêm os municípios como meramente unidades executoras e daí é bem complicado porque não somos mais unidades executoras, somos formuladores de políticas e projetos distintos. (PRESTES, 2002). Para adaptar-se à nova sistemática do PMDE/FNDE, o Poder Público municipal institui o Decreto nº 11.952, de 15 de abril de 1998 (PORTO ALEGRE, 1998), que dispõe sobre o repasse de recursos financeiros aos conselhos escolares das escolas municipais. Conforme a Procuradora Vanesca: [...] os Conselhos Escolares foram constituídos como Associações Civis, na forma da Lei dos Registros Públicos, fazendo surgir uma pessoa jurídica distinta do Município. Em que pese essa não ser a solução juridicamente mais adequada [...], atendeu a exigência federal para repasse dos recursos. Como essa solução é exigida pelo governo federal e a verba oriunda da União é imprescindível para as escolas municipais cabe a nós, dentro do âmbito de competência, Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 Vera Maria Vidal Peroni 20 estabelecendo regras gerais, dispor sobre as normas de utilização destes e outros recursos pelos. Conselhos escolares. É isto o que faz o Decreto n° 11.952, combinado com o Decreto n° 11.600. Da leitura de ambos verifica-se que o Município, gestor e responsável pela execução da política pública, não deixa de fiscalizar a utilização direta do recurso, pois o pleno de aplicação é previamente submetido à SMED, assim como tem por obrigação orientar e assessorar a unidade executora quanto a execução e o controle da política pública. (PORTO ALEGRE, 1998b). Este controle do poder público originou-se por meio, entre outros, do Plano de Aplicação de Recursos, proposto no Decreto n° 11.600/96 (PORTO ALEGRE, 1996a), e no Decreto 11.952/98 (PORTO ALEGRE, 1998), que dispõe sobre a aplicação de recursos e prestação de contas dos convênios da Administração Direta e Indireta do Município com entidades nãogovernamentais. Com este Decreto, é possível perceber que o debate sobre o repasse de dinheiro público para entidades não-governamentais já estava ocorrendo na administração democrático-popular de Porto Alegre. O Decreto apresenta a necessidade de unificar os procedimentos relativos aos convênios com entidades não-governamentais de caráter comunitário, educativo ou assistencial, não lucrativo (o que se convencionou chamar de "público não-estatal"), e as normas para elaboração do Plano de Trabalho, Plano de Aplicação de recursos e as normas e procedimentos de aplicação de recursos e de prestação de contas. Vanesca Prestes, Procuradora do Município, que participou de todo este debate e emitiu os pareceres à SMED: Nós temos toda uma regulamentação para prestar contas dos recursos, porque é muito séria esta questão da participação da população, cria um compromisso. [...] Nesses últimos tempos, nós fomos passando por vários processos de participação da população na execução direta das tarefas públicas, [...] era projeto político a execução de forma partilhada. E nós não tínhamos e não temos no arcabouço jurídico a fôrma de participação popular efetiva da população nas tarefas públicas na perspectiva de colaborador e não desonerador. [...] foi uma demarcação da prefeitura de Porto Alegre, inclusive contrapondo a Reforma Administrativa que veio subseqüentemente. (PRESTES, 2002) Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: UMA PROPOSTA DE REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO NA EDUCAÇÃO? 21 Relação entre a Reforma do Estado e as unidades executoras Analisaremos a relação entre o diagnóstico neoliberal de que o "responsável" pela crise é o Estado, e a conseqüente estratégia proposta pelo Plano de Reforma do Estado no Brasil (BRASIL, 1995b) de passagem das políticas sociais para o setor público-não estatal. Para a teoria neoliberal, não é o capitalismo que está em crise, mas o Estado. A estratégia, portanto, é reformar o Estado ou diminuir sua atuação para superar a crise. O mercado é que deverá superar as falhas do Estado, portanto a lógica do mercado deve prevalecer, inclusive no Estado, para que ele possa ser mais eficiente e produtivo. O diagnóstico neoliberal é de que o Estado entrou em crise, tanto porque gastou mais do que podia para se legitimar, já que tinha que atender as demandas da população por políticas sociais, o que provocou a crise fiscal, quanto porque ao regulamentar a economia, atrapalhou o livre andamento do mercado. As políticas sociais, para a teoria neoliberal, são um verdadeiro saque à propriedade privada, pois são formas de distribuição de renda, além de também atrapalharem o livre andamento do mercado, pois os impostos oneram a produção. O papel do Estado para com as políticas sociais é alterado, pois, com este diagnóstico, duas são as prescrições: racionalizar recursos e esvaziar o poder das instituições, já que as instituições democráticas são permeáveis às pressões e demandas da população, além de serem consideradas como improdutivas, pela lógica de mercado. Assim, para os neoliberais, a responsabilidade pela execução das políticas sociais deve ser repassada para a sociedade por meio da privatização (mercado) ou público não estatal (sem fins lucrativos). É o caso do projeto de reforma do Estado no Brasil em que políticas sociais são consideradas serviços não-exclusivos do Estado e, assim sendo, de propriedade pública não estatal ou privada. Portanto, quando analisamos a obrigatoriedade de todas as escolas terem unidades executoras para receberem os recursos da União, verificamos que, por um lado, há uma centralização por parte do ente federativo União, retirando a autonomia dos municípios de construir seus processos de gestão democrática, como observamos no relato de Porto Alegre e, por outro, um avanço no processo de implantação de organização social, que é parte da passagem das políticas públicas para" o público não-estatal. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 Vera Maria Vidal Peroni 22 Referências bibliográficas BRASIL. Ministério da Educação. Manual de Procedimentos operacionais relativos às transferências de recursos as escolas das redes estadual e municipal de ensino fundamental. Brasília, 1995a. BRASIL. Ministério da Administração e Reforma do Estado. Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado. Brasília, 1995b. BRASIL. Ministério da Educação. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Conselho Deliberativo. Resolução n° 12, de 10 de maio de 1995. Brasília: FNDE, 1995c. BRASIL. Ministério da Educação. Dinheiro na escola: procedimentos operacionais. Brasília, 1997a. _______. Ministério da Educação. Manual de orientação para constituição de unidades executoras. Brasília, 1997b. _______. Ministério da Educação. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Conselho Deliberativo. Resolução n° 03, de 04 de março de 1997. Brasília: FNDE, 1997c. _______. Ministério da Educação. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Conselho Deliberativo.Resolução n° 3 de 27 de fevereiro de 2003. Brasília: FNDE, 2003. PORTO ALEGRE. Lei Orgânica do Município de Porto Alegre. Porto Alegre: CORAG, 1990. PORTO ALEGRE. Lei Complementar n ° 292, de 15 de janeiro de 1993. Dispõe sobre os Conselhos Escolares nas escolas públicas municipais, 1993. PORTO ALEGRE. Decreto n° 11.600, de 16 de outubro de 1996. Dispõe sobre o repasse de recursos para as unidades de ensino da rede municipal. 1996a. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 PROGRAMA DINHEIRO DIRETO NA ESCOLA: UMA PROPOSTA DE REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO NA EDUCAÇÃO? 23 PORTO ALEGRE. Procuradoria Geral do Município. Oficio n° 02/96 - G. S. SMED. Repasse de verbas aos Conselhos Escolares, 1996b. PORTO ALEGRE. Parecer n° 939/96, de 26 de fevereiro de 1996, em resposta ao ofício n° 02/96 - G. S. SMED, 1996c. PORTO ALEGRE, Procuradoria Geral do Município Oficio nº 02/96 - G. S. SMED. Repasse de verbas para os conselhos escolares. 1996d. PORTO ALEGRE. Decreto n° 11.952, de 15 de abril de 1998. Dispõe sobre o repasse de recursos financeiros aos Conselhos Escolares das Unidades de Ensino Municipal. 1998. PORTO ALEGRE. Assessoria Jurídica do Gabinete do Prefeito. Processo Administrativo n° 01.046528.98.9. Prestação de assistência Jurídica aos Conselhos Escolares. 1998b. PRESTES, Vanesca Buzelato. [Entrevista]. Porto Alegre, 2002. Entrevista concedida a Vera Peroni em14 de Nov. 2002, na FACED/UFRGS, Porto Alegre. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 11-23, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO Raimundo Sérgio de Farias JÚNIOR1 Resumo: O presente artigo tem como objetivo verificar as contribuições e limites do ensino das disciplinas correlatas à matéria Filosofia da Educação - do Instituto de Ciências da Educação da UFPA - para o processo de esclarecimento. A importância deste estudo relaciona-se à tentativa de contribuir para esclarecer o ambiente cultural de nossa sociedade, marcadamente autoritária e antidemocrática. Havendo esclarecimento, é possível então haver intervenção mais qualificada no mundo administrado em que vivemos, como assim designa Adorno à moderna forma de organização da sociedade, que tudo administra, tudo controla, tudo planeja para a reprodutibilidade da lógica do capital e da sociedade de classes. O objeto de investigação desta pesquisa tomou, como ponto de partida, o conceito de ideologia, para verificar - sob a perspectiva dos teóricos da Escola de Frankfurt - a possibilidade, por meio do ensino da Filosofia da Educação, de esclarecer o ambiente cultural próprio das sociedades altamente administradas, tendo em vista o fortalecimento da resistência às condições objetivas e subjetivas nelas predominantes. Palavras-chave: Esclarecimento. Ensino de Filosofia da Educação. Escola de Frankfurt. PHILOSOPHY OF EDUCATION CONTRIBUTIONS AND LIMITS TO THE PROCESS OF ENLIGHTEMENT Abstract: The present article aims to verify the contributions and limits to the teaching of subjects related to the Phi1osophy of Education - from the Center of Education (UFPA) - to the process of enlightenment. The importance of this study is related to the attempt of contributing to the enlightenment of the cultural environment of our society, clearly authoritarian and antidemocratic. Having clarification is possible so happen a more qualified intervention in the managed world that we live, as assigns Adorno to the modern way. of societies organization, that administrates everything, controls everything, plans everything to the repraduction of the money logic and the classes society. The object of investigation of this research started fram the concept of ideology, to verify - over the perspective of the Frankfurt School authors - the possibility of clarifying through the teaching of Philosophy of Education, the cultural Discente do Mestrado Acadêmico em Educação da Universidade Federal do Pará. E-mail: [email protected] 1 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 26 environment that is peculiar in the highly administrated societies, focusing the strengthening of the resistance to the objective and subjective conditions prevalent to them. Key words: Philosophy of Education Teaching. Frankfurt School. Enlightenment. Introdução A hostilidade que reina hoje em dia na opinião pública a qualquer teoria se orienta na verdade contra a atividade modificadora ligada ao pensamento crítico. Se pensamento não se limita a registrar e classificar as categorias da forma mais neutra possível, isto é, não se restringe às categorias indispensáveis à práxis da vida nas formas dadas, surge imediatamente uma resistência. Para a grande maioria dos dominados prevalece o medo inconsciente de que o pensamento teórico faça parecer como equivocada e supérflua a acomodação deles à realidade, o que foi conseguido com tanto esforço. Da parte dos aproveitadores se levanta a suspeita geral contra qualquer tipo de autonomia intelectual (HORKHEIMER, 1975, p. 155). De agosto de 2000 a julho de 2001, na condição de bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq), desenvolvi o Plano de Trabalho intitulado Ideologia, utopia e classes sociais: contribuições e limites do ensino da filosofia", sob a orientação da Professora Dra. Rosely Giordano (do exCentro de Educação/UFPA). Um dos eixos principais da referida investigação era verificar se e até que ponto o ensino da Filosofia, por meio da disciplina Filosofia da Educação - tal como ministrada no Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, na Universidade Federal do Pará -, contribuía para o processo do esclarecimento, conforme proposto por Horkheimer e Adorno, na obra "Dialética do esclarecimento". O processo de esclarecimento descrito por Adorno e Horkheimer estaria sendo dificultado pela intensa influência da ideologia da classe dominante sobre os indivíduos que compõe o todo social, influência que oculta a realidade social, falseia a explicação dos acontecimentos e, assim, impede que os indivíduos se emancipem da menoridade social, (conforme formulação de Kant, 1992), a que estão condenados, além de inviabilizar a construção de utopias. Acerca do conceito de esclarecimento, Horkheimer e Adorno (1985, p. 19) assim se expressam: Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 27 No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e investi-los na condição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. O objeto de investigação desta pesquisa tomou, como ponto de partida, o conceito de ideologia (tal como acima explicitado), para verificar - sob a perspectiva dos teóricos da Escola de Frankfurt, em particular dos escritos de Adorno, Horkheimer e Marcuse - a possibilidade, por meio do ensino da Filosofia da Educação, de esclarecer o ambiente cultural próprio das sociedades altamente administradas, fortalecendo a resistência às condições objetivas e subjetivas nestas predominantes, resistência que nos autorizaria a pensar a coerência da utopia, tal como proposta por Marcuse (1969), em sua obra O fim da utopia. O conceito de ideologia, aqui tomado como objeto de investigação, vem sendo amplamente analisado e discutido pelos pensadores modernos e contemporâneos, não se reduzindo a uma única interpretação. A constituição, desde a modernidade, de diferentes correntes no interior do materialismo histórico dialético tem, no debate acerca do conceito de ideologia, uma de suas explicações. Em que pese, entretanto, essa diversidade de interpretações, o modo de produção capitalista gera, dialeticamente, representações - e conseqüente posicionamento político-partidário - opostas ao modo de pensar burguês. Surgem, assim, indivíduos que buscam, em função de sua concepção ideológica diferenciada, uma utopia, aqui entendida no sentido filosófico do conceito, isto é, um projeto ainda sem lugar, indicando, portanto, para o que não é. A problemática levantada anteriormente resultou na produção da Monografia de Conclusão de Curso, defendida em abril de 2003, na Universidade Federal do Pará. A síntese dessas experiências acadêmicas / científicas possibilitou a produção deste artigo - que mantém os escopos propostos no Plano de Trabalho já citado - e encontra-se, resumidamente, aqui exposta. Pensar a possibilidade da contraposição entre ideologia e utopia constitui, portanto, o tema deste artigo, cujo objetivo, além do estudo das fontes teóricas, foi o de tentar compreender as possíveis contribuições do ensino da Filosofia, no ex-Centro de Educação da Universidade Federal do Pará, no que concerne à possibilidade de constituir-se como mediação - tal como propõem Theodor Adorno e Max Horkheimer - para o esclarecimento que, por implicar o Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 28 posicionamento crítico perante as sociedades contemporâneas, fortalece a resistência frente ao autoritarismo em que estamos submersos, bem como aponta para a possibilidade da construção coerente e consistente do que aqui se propõe como utopia. A oportunidade de socializar este estudo, concernente ao ensino da disciplina Filosofia da Educação, demonstra o interesse deste autor em atuar em favor de uma educação emancipatória, de uma educação verdadeira, que se inicia com uma educação para a resistência. Semiformação e Educação Esclarecimento?! Danificada: a (Im)Possibilidade do No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e investi-os na condição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber. (HORKHEIMER e ADORNO, 1985, p. 19). Para Adorno e Horkheimer, o processo de esclarecimento encontrava-se impedido de se realizar no mundo administrado por conta, por um lado, do intenso processo de dominação das consciências que recebem, por parte dos forjadores de opinião - conforme expressão de Adorno (1969) -, apenas uma semiformação que nunca se converte em formação autêntica e, por outro, pelas condições objetivas cada vez mais precárias da maioria da população e não, como defendia Kant, apenas pela preguiça e pela covardia. Sendo assim, condições objetivas e subjetivas débeis impedem que os grupos sociais desprivilegiados cultural e economicamente construam consciência crítica e, desse modo, desvendam os arcanos que os impedem de construírem um pensamento emancipado e autônomo. O processo de esclarecimento é dificultado, portanto, pela intensa influência que a ideologia da classe dominante exerce sobre os indivíduos na contemporaneidade, sobretudo aqueles que possuem como único meio de (semi)formação os canais e instâncias mediadores controlados pelos divulgadores do pensar dominante que encontra facilidade em semiformar seus educandos, conforme ditames antecipadamente estabelecidos, visando ao controle e à dirigibilidade das massas semiformadas. Essas, com as consciências definhadas e deformadas, não conseguem perceber os arcanos ocultados pelos Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 29 produtos culturais, que portam, em seu bojo, a ideologia dos grupos dirigentes, "[...] Pois a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança [...]". Por ser tão semelhante à vida social, acaba por confundir os indivíduos semiformados, que, facilmente modulados, absorvem, na íntegra, as características fundamentais dos preceitos contidos nos produtos culturais. Importante papel desempenharia a educação caso se comprometesse a combater a semiformação, em vez de ser elemento subsidiário desta. Se, tal como escreveu Adorno (1993), "a vida está danificada", a educação, embora constitua uma das principais mediações para a socialização do indivíduo no mundo, encontra-se, também, na mesma condição, em virtude de não conseguir formar sujeitos críticos e emancipados e, ainda, colaborar, fortemente, para que permaneçam em uma situação de "escravidão". Não que a escola seja assim. Na verdade, está assim, por encontrar-se inserida em uma configuração social, expressão do modelo político, econômico e cultural capitalista, que não lhe permite ser mediação para a autonomia dos indivíduos. Condição essa, embora contestada por muitos, corroborada pelo impressionante número de alunos fora da escola. O discurso, historicamente entoado, "educação para todos" não tem passado de uma falsa promessa, pois, por um lado, nem todos os indivíduos, ainda hoje, possuem acesso facilitado à escola e, por outro, os que o possuem, com muita freqüência, "evadem" ou, constantemente, "repetem". Entre os que repetem e evadem, a imensa maioria pertence às camadas sociais desprivilegiadas economicamente. E essa história vem sendo reiterada, sistematicamente, ao longo dos anos em diversos contextos e situações, com os mesmos personagens "repetindo" ou "evadindo". Nas palavras de Patto (1991), é necessário buscar as raízes históricas do fracasso escolar desses indivíduos. Convém, neste momento, evocar Adorno (1994, p. 87) quando analisa que: [...] Está justificada a suspeita dos antigos críticos culturais, segundo a qual num mundo em que a educação é um privilégio e o aprisionamento da consciência impede de qualquer modo o acesso das massas à autêntica vivência das formações espirituais, não mais importam tanto os conteúdos ideológicos específicos quanto o fato de que simplesmente haja algo preenchendo o vácuo da consciência expropriada e desviando a atenção do manifesto segredo. (Grifos meus). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 30 A educação existente, portanto, tem cumprido, no capitalismo tardio, uma tarefa basilar para a dominação dos indivíduos: "desviar a atenção do manifesto segredo". Segredo esse do qual as massas nem desconfiam, mas que é vital para que a dominação permaneça inalterada. Sendo a educação, ainda hoje, um privilégio, mesmo quando ofertada às massas, não possibilita uma verdadeira vivência formativa, cultural e emancipatória, porém os efeitos são ainda mais nefastos quando elas são excluídas de acessarem ou permanecerem nas escolas estatais ou privadas. Ao preencher o vácuo das consciências semiformadas com a ideologia dominante, reforça a dominação imposta aos indivíduos pertencentes à classe trabalhadora na contemporaneidade. Adorno (1995), atento a esta condição da educação na contemporaneidade, vislumbrava o momento negativo da formação escolar, ou seja, a tensão que poderia permitir à educação contribuir para a emancipação dos indivíduos. Mas para isso ela teria que ir além do well adjusted people, pois deveria possibilitar condições para o esclarecimento e para a emancipação. Nas palavras de Adorno (1995a): A educação seria impotente e ideológica se ignorasse o objetivo de adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo. Porém ela seria igualmente questionável se ficasse nisto, produzindo nada além de well adjusted people, pessoas bem ajustadas, em conseqüência do que a situação existente se impõe precisamente no que tem de Pior. Nestes termos, desde o início existe no conceito de educação para a consciência e para a racionalidade uma ambigüidade. Talvez não seja possível superá-la no existente, mas certamente não podemos nos desviar dela. (p. 143-144). Importante contribuição teria a educação para a produção de consciências verdadeiras, caso não estivesse controlada pelas forças conservadoras do poder constituído. Contudo, há ainda a possibilidade de, no interior do espaço escolar - haja vista que as contradições intrínsecas desse sistema perpassam todos os campos sociais-, se desenvolverem consciências emancipadas. Estando, entretanto, atrelada ao poder dos administradores da sociedade, a educação, tendencialmente, socializa a ideologia dos grupos dominantes e assim contribui para manter sob controle qualquer insurreição dos grupos submissos aos ditames do capital. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 31 Adorno (1995a), porém, rasgando a impressão pessimista que seus escritos possuem, vislumbra uma possibilidade utópica para educação, ao esboçar sua "concepção inicial de educação": A seguir, e assumindo o risco, gostaria de apresentar minha concepção inicial de educação, evidentemente não a assim chamada modelagem de pessoas, porque não temos o direito de modelar as pessoas a partir de seu exterior; mas também não a mera transmissão de conhecimentos, erga característica de coisa morta já foi mais que destacada, mas a produção de uma consciência verdadeira. Isto seria inclusive da maior importância política; sua idéia, se é permitido dizer assim, é uma exigência política. (p. 141. Grifos meus). A mera transmissão de conhecimento, no entanto, tem imperado, a meu ver, na sociedade administrada, o que impede a produção de consciências verdadeiras, bem como a emancipação dos indivíduos. É a educação danificada contribuindo, fortemente, para a danificação da vida. As condições necessárias para a efetiva emancipação dos indivíduos estão obliteradas e, cada vez mais, a organização econômica objetiva inviabilizar qualquer situação histórica que possa propiciar aos indivíduos as possibilidades de se libertarem do estado de heteronomia do qual o capitalismo tardio os tornou vítimas. Sucumbindo aos imperativos do capital, as pessoas acatam passivamente a sociedade dada, refutando as possibilidades de uma provável modificação da situação existente - ainda que, cada vez mais, limitadas. Tudo indica, porém, que o espaço escolar - local em que se poderiam desenvolver consciências antagônicas à semiformação -, ao ser, paulatinamente, mercantilizado por forças políticas que se orientam pela doutrina neoliberal de regulação econômica, vem sendo atacado pelo processo de privatização, que é experimentado em todos os países que se submeteram às pragmáticas leis mercantis (SHIROMA, 2002). A educação, destarte, como espaço institucional tem se constituído em locus privilegiado para a proliferação da semiformação das consciências adormecidas. Nesse sentido, em vez de preparar os indivíduos para exercerem um papel de sujeito na sociedade, reforça sua condição de submisso e obediente objeto serviçal dos agentes encarregados da reprodução do ethos capitalista. Os indivíduos semiformados encontram-se incapazes de refletir, de pensar, de se livrar dos grilhões que inviabilizam um pensar autônomo. Estes tentam de modo imediato apreender os complexos fenômenos sociais que se Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 32 apresentam. Esta infeliz tentativa dos indivíduos revela, na verdade, a incapacidade destes em compreenderem fenômenos sociais cada vez mais complexos, que não se revelam, ao espírito definhado, de forma imediata. No entender de Kosik (1986), segundo Marx, se os homens conseguissem apreender rapidamente as conexões que a realidade imediata apresenta, não teriam serventia a Ciência e a Filosofia. Contudo, ainda hoje, nenhum homem consegue realizar esta árdua tarefa. Acontece que os indivíduos têm que se contentar com as opiniões, que resultam em demência (ADORNO, 1969) forjadas pelos grupos dirigentes. Neste sentido, a conformação do espírito à opinião engendrada e socializada pela elite que administra a sociedade demonstra a regressão do esclarecimento à ideologia dos grupos privilegiados pela organização econômica. O processo dialético que possibilita o esclarecimento só se confirma por meio do pensamento que investiga minuciosamente a realidade. A configuração alienada que a vida assume exige do pensamento uma análise rigorosa acerca do objeto que se quer saber mais. Do contrário, qualquer juízo imediato acerca da vida imediata nos tornará semelhantes àqueles romancistas que cobrem suas marionetes de ornamentos baratos. No entender de Adorno (1993, p. 7): Quem quiser saber a verdade acerca da vida imediata tem de investigar sua configuração alienada, investigar os poderes objetivos que determinam a existência individual até o mais recôndito nela. Se falarmos de modo imediato sobe o que é imediato, vamos nos comportar quase como aqueles romancistas que cobrem suas marionetes de ornamentos baratos, revestindo-as de imitações dos sentimentos de antigamente, e fazem agir as pessoas, que nada mais são do que engrenagens da maquinaria, como se estas ainda conseguissem agir como sujeitos e como se algo dependesse de sua ação. O olhar lançado à vida transformou-se em ideologia, que tenta nos iludir escondendo o fato de que não há mais vida. (Grifos meus). Diante deste eclipse da razão (HORKHElMER, 1976) engendrado e socializado pelas instâncias divulgadoras da semiformação (ADORNO, 1996), que possibilidade há para os indivíduos se desembaraçarem das teias que sufocam e aprisionam sua individualidade, sua autonomia? A educação atual, mesmo estando danificada, mesmo colaborando para a permanência do estado de menoridade social, pode contribuir para a constituição de um espírito emancipado? Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 33 Eis o desfio colocado a uma educação e aos educadores interessados em construir uma sociedade, verdadeiramente, emancipada. Mesmo diante de uma cultura mórbida, por se mercantilizar, cujos propósitos não pretendem esclarecer, mas semiformar, ainda é possível não contribuir para o que há de ruim na educação (ADORNO, 1994, p. 85), ou seja, para a reprodução inconsciente dos preceitos que favorecem a dominação social, pois "[...] Por mais insuperável que seja o feitiço, é apenas feitiço" (ADORNO, 1994, p. 75). Relembro, aqui, para finalizar esta parte, as palavras de Zuin (1994, p. 173) quando entende que: Não obstante a tendência hegemônica ser a realização do processo de imbecilização das consciências, existe ainda a possibilidade do desenvolvimento de consciências criticas. Isso em virtude do fato de que [...] de uma forma ou de outra as diferenças sociais são tão alarmantes que acabam por se fazer visíveis. Principalmente quando os esforços são centralizados para a tentativa de que estas se tornem explícitas, quando se questiona que produtos culturais são consumidos, que valores e normas de comportamento estão veiculadas e a quais interesses servem. Tal trabalho pode e deve ser realizado pelos educadores, seja nas universidades, seja nas escolas de primeiro e segundo graus. Filosofia e Educação para o Esclarecimento Não, vivemos em uma época de esclarecimento [...] somente temos claros indícios de que agora lhes foi aberto o campo no qual podem lançar-se livremente a trabalhar e tornarem progressivamente menores os obstáculos ao esclarecimento geral ou a saída deles, homens, de sua menoridade social, da qual são culpados2. Marx e Engels (1991), analisando a sociedade alemã da primeira metade do século XIX, já apontavam a falta de autonomia para a classe proletária produzir e, sobretudo, divulgar suas idéias, sua visão de mundo, uma vez que a burguesia, além de possuir os meios de produção espirituais, tinha a seu dispor os mecanismos que lhe garantiam, mais intensamente que ao proletariado, produzir e divulgar sua visão de mundo, sua ideologia. 2 Resposta de Kant (1992,p. 112) à indagação se vivíamos ou não em uma época esclarecida. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 34 As idéias (Gedanletn) da classe dominante são, em cada época, as idéias dominantes; isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe, ao mesmo tempo, dos meios de produção espiritual, o que faz com que a ela sejam submetidas, ao mesmo tempo e em média, as idéias daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual. As idéias dominantes nada mais são do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como idéias; portanto, a expressão das relações que tornam uma classe a classe dominante; portanto, as idéias de sua dominação. (MARX e ENGELS, 1991,p. 72). Esta "vantagem" de produzir e reproduzir suas idéias conferiu à burguesia condições fortemente favoráveis para que consolidasse sua dominação e hegemonia perante a classe social antagônica a seus preceitos: o proletariado. Em situação privilegiada, a burguesia alcançou um tipo de formação cultural que lhe possibilitou a adaptação necessária ensejada pela estrutura social erigida após a dissolução do modo de produção feudal. Do contrário sucumbiria, urna vez que um dos motivos fundamentais que tem impedido a modificação das atuais formas de exploração é a própria fraqueza subjetiva que acompanha as classes desfavorecidas economicamente. Nas palavras de Adorno (1996, p. 392): Sem a formação cultural, dificilmente o burguês teria se desenvolvido como empresário, como gerente ou como funcionário. Assim que a sociedade burguesa se consolida, as coisas já se transformam em termos de classes sociais. Quando as teorias socialistas se preocuparam em despertar nos proletários a consciência de si mesmos, o proletariado não se encontrava, de maneira alguma, mais avançado subjetivamente que a burguesia. Essa "desvantagem" dos grupos que vivem do trabalho dificulta o desenvolvimento de consciências críticas e opostas aos preceitos sustentados pelos grupos sociais desejosos na manutenção das condições societais vigentes. As leituras realizadas, concernentes aos autores associados à tradição do pensamento frankfurtiano, permitiram-me compreender, tal como aponta Horkheimer (1976), em Eclipse da razão, que, no atual contexto, vivemos em um Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 35 mundo que dificulta o processo do esclarecimento, o desencantamento do mundo, conforme evidenciam Adorno e Horkheimer (1985), a produção de uma consciência verdadeira, diria Adorno (1995a, p. 141). O resultado disso, indica Marcuse (1978, p. 88): "[...] é a atrofia dos órgãos mentais, impedindo-os de perceber as contradições e alternativas e, na única dimensão restante da racionalidade tecnológica, prevalece a consciência feliz". Vivemos em um contexto eclipsado, por condições objetivas e subjetivas débeis, em que nossa capacidade para opor resistência é, praticamente, diluída, esvaecida. Enfrentamos um gigante que, aparentemente, não demonstra nenhuma debilidade, nenhuma fissura. Isso acaba nos convencendo da impossibilidade de vencermos este poderoso mastodonte que ri, sem cessar, de nossa fraqueza, de nossa angústia, de nossa infelicidade, de nossa dor. Sua força, incontestável, tenta confirmar nossa fraqueza. Esta tentativa convence, infelizmente, a maioria. Mas a verdade, como afirmara Horkheimer (1975), ainda se resguarda nas minorias, esperando o dia em que poderá emergir triunfante. Mas é esse dia que o gigante tenta de todas as formas impedir que amanheça. Até agora esta batalha, indiscutivelmente, tem sido ganha por ele, o que não significa que continuará vencendo eternamente como preconizam, acentuadamente, seus lacaios, pois: Entre a grandiosidade sublime e muito humana, comum a todos os idealistas e que está pronto a piso tear desumanamente tudo o que é pequeno enquanto mera existência, e a grosseira ostentação dos opressores burgueses, existe a mais profunda concordância. É próprio da dignidade dos gigantes rir estrondosamente, explodir, destroçar. (ADORNO, 1993, p. 73. Grifos meus). Evitar que a risada do gigante seja cada vez mais estrondosa e intensa é uma das contribuições que este artigo espera oferecer, bem como a pesquisa realizada e a monografia construída. Este artigo é resultado do material coletado - por meio de entrevistas semi-estruturadas aplicadas a alunos/bolsistas com projetos de pesquisa vinculados à área de Filosofia da Educação - cuja intenção era verificar, a partir das análises dos dados obtidos, as contribuições e limites do ensino das matérias correlatas à disciplina em questão para o desenvolvimento de um pensar critico, para o esclarecimento -, que me ofereceu um universo de 5 (cinco) entrevistados - todos discentes de graduação Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 36 do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da UFPA - realizada durante o período de vínculo ao PIBIC - e da continuação da pesquisa bibliográfica, iniciada durante a realização da pesquisa citada, para o desenvolvimento e conclusão da Monografia de Conclusão de Curso. O que se percebeu, inicialmente, com o material coletado na pesquisa efetivada, é que os discentes, com os quais se efetivou a coleta de dados, não reconheciam a importância das disciplinas correlatas à matéria Filosofia de Educação para o desenvolvimento do pensar crítico. Tais discentes ressaltavam, em suas falas, que os principais obstáculos para que a referida disciplina cumprisse seu papel para a construção do pensamento critico estavam relacionados a: (a) o descompasso entre o curto tempo utilizado para o cumprimento de um conteúdo, demasiadamente, extenso e; (b) a forma e o conteúdo como é ensinada tal disciplina. Indubitavelmente, o desenvolvimento de um pensar crítico e autônomo não é tarefa exclusiva de um único campo do conhecimento, uma vez que a formação de sujeitos autônomos passa por uma ampla compreensão dos diversos processos sociais aos quais os indivíduos estão, intrinsecamente, ligados e com eles interagem, decorrendo disso a necessidade de a Filosofia amparar-se em outras ciências, tais quais: História, Geografia, Sociologia, Psicologia, Economia, dentre outras. Entretanto, a Filosofia desempenha papel fundamental para que o pensamento seja, realmente, crítico e é ai que sobressai, perante as demais ciências, na formação de tal tipo de pensar. No relato de alguns entrevistados percebeu-se, claramente, que, para eles, a disciplina Filosofia da Educação não teve uma contribuição significativa no que entendiam por pensar crítico. Era constante, na fala dos entrevistados, uma certa indignação com relação à carga horária destinada às matérias relacionadas à disciplina em questão. Na visão deles há um certo "aligeiramento", uma certa pressa em repassar os conteúdos aos educandos, pressa que, por sua vez, reduzia, consideravelmente, as contribuições da referida disciplina para o desenvolvimento de um pensar critico. Considero plausível a justificativa apresentada pelos entrevistados quando ressaltam que há uma certa pressa, um certo "aligeiramento" com relação à forma com que tal disciplina está disposta na grade curricular do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, em que os discentes dispõem de apenas um semestre para o cumprimento de um extenso programa, em um curto período de tempo, o que contraria, profundamente, o caráter da Filosofia e do pensamento dela resultante, que requer tempo, paciência, espera. Entendo, então, que, de acordo com os relatos dos discentes, a forma e o conteúdo Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 37 ministrados pela disciplina Filosofia de Educação não vêm, tendencialmente, contribuindo para o desenvolvimento do pensar crítico e, portanto, para o processo de esclarecimento no sentido pretendido pelos frankfurtianos. Convém lembrar Adorno (1995c, p. 23) quando afirma que: "O pensar filosófico satisfatório é crítico, não só frente ao existente e à sua moldagem coisal na consciência, mas também, na mesma medida, frente a si mesmo" (Grifos meus). Ainda de acordo com este autor: “[...] o pensar filosófico parece, a quem observa a si, possibilitar o conhecimento daquilo que se quer conhecer, desde que saiba direito o que é que ele quer conhecer" (ADORNO, 1995c, p. 23. Grifos meus). Apoiado nas argumentações adornianas, penso que tais fragmentos corroboram o que está evidenciado nas falas dos entrevistados: a Filosofia da Educação, no referido curso, não vem, tendencialmente, contribuindo para o despertar da razão, para a crítica do existente, para o pensamento autônomo. Horkheimer (1975, p. 142), em seu ensaio Teoria tradicional e teoria crítica, observa que: O pensamento não inventa estórias a partir de sua própria fantasia, antes exprime a sua própria função interior. Em seu percurso histórico os homens chegam à gnose do seu fazer e com isso entendem a contradição encerrada em sua existência. Não posso deixar de considerar, contudo, que diferentes fatores interagem não só com o ensino de determinada disciplina, mas com a sociedade em geral. Neste sentido, convém refletir acerca do contexto social com o qual a UFP A e o Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia interagem, contexto esse em que importa, cada vez mais, para o grande capital criar condições para que este tenha uma rentabilidade extraordinária, sempre elevada a cada nova transação comercial. Importa, neste cenário, fetichizar, reificar as relações sociais, importa converter qualquer coisa em mercadoria, inclusive a vida, para que, desse modo, possa ser vendida, trocada e, assim, garantir a sobrevivência de uma sociedade que, no período industrial, mercantilizou o viver. Este cenário só é possível porque, com as relações sociais reificadas, as pessoas se tornam meros objetos, facilmente substituíveis durante o processo produtivo. Neste contexto, a força irreversível do progresso, apoiado pelas novas descobertas científicas e tecnológicas, e o desenvolvimento de um poderoso aparato tecnológico demandam pessoas que aceitem rapidamente e sem Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 38 questionamentos tal situação. O ser humano tem que, de qualquer forma, se quiser sobreviver, se adaptar às aceleradas modificações que o atual modelo produtivo engendra. Portanto, as coisas rapidamente se desatualizam, perdem valor de troca. Só interessam as coisas que têm intenciona¬lidade prática imediata, estas logo se tornam obsoletas, ultrapassadas, fora de moda, desinteressantes. Na educação ocorre o mesmo processo. No currículo dos cursos, em especial nos das licenciaturas, houve uma simplificação dos seus programas. O objetivo desta simplificação visa atender às exigências impostas pelo poder mercantil. Daí decorre um verdadeiro "enxugamento" das disciplinas, em que aquelas consideradas como mais "teóricas" acabam tendo sua função reduzida diante das "práticas" e com maior "utilidade" profissional. No Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da UFPA, no processo de (re)formulação de sua grade curricular - posta em prática a partir do 1º semestre de 2000 -, temos um exemplo bastante claro, pois as disciplinas vinculadas ao Departamento de Fundamentos da Educação (DEF) sofreram uma considerável perda no que concerne à carga horária. A meu ver, esta redução compromete a contribuição que as disciplinas vinculadas a este Departamento poderiam dar em relação ao desenvolvimento de um pensar verdadeiramente crítico, haja vista que entre as disciplinas pertencentes ao mesmo estão: Filosofia da Educação, Concepções Filosóficas da Educação, História da Educação, Sociologia da Educação, Sociedade Estado e Educação, Psicologia da Educação, dentre outras. Este "enxugamento", este "aligeiramento" dos programas traz uma contribuição nociva para as "ciências do espírito" - nomenclatura utilizada por Dilthey (apud JA¬PIASSU, 1978, p. 123-131) para a distinção que este faz entre as "ciências do espírito" e as "ciências da natureza" - uma vez que, para justificar suas existências, tais ciências precisam oferecer um resultado prático, uma justificativa utilitarista, pragmática, caso contrário, são consideradas abstrações sem utilidade, sem valor, desnecessárias, supérfluas. Neste contexto, a força esclarecedora das "ciências do espírito", em particular a da Filosofia, é quebrada. Horkheimer (1970, p. 23) critica, duramente, o caráter que as "ciências do espírito" assumem na sociedade administrada, especificamente, a Filosofia: "os filósofos fizeram as pazes com o mundo, enquanto noutro tempo estar em desunião com ele fazia parte da essência da filosofia". Outro dado relevante que pude observar, na conjuntura da investigação então desenvolvida, refere-se ao fato de haver percebido que, de acordo com a Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 39 maioria das respostas obtidas, os discentes não possuíam uma concepção filosófica definida. Entre os que afirmavam possuí-la, a maioria descreveu, com enorme dificuldade, a opção filosófica revelada. Muitos afirmaram, por exemplo, partir de uma concepção filosófica marxista, sem, contudo, explicitarem, coerentemente, esta opção. Dentre esses, muitos nunca leram alguma obra de Karl Marx, mas afirmavam ser marxistas. Esses dados revelam a debilidade do pensamento. Este, estando débil, propicia uma práxis enfraquecida, o que faz com que nossa resistência esvaeça. Adorno, em "Observações sobre o pensamento filosófico" (ADORNO, 1995c, p. 17), observa que: "Onde o pensar é realmente produtivo, onde é criador, ali ele é sempre também um reagir" (Grifos meus). Em outro momento, deste mesmo ensaio, Adorno afirma que: "[...] a meditação cultivada como esfera particular, em recinto fechado, separada de uma práxis possível, dificilmente conduz a algo melhor" (ADORNO, 1995c, p. 20. Grifos meus). No meu entender, a Filosofia não deve se resumir a um simples pensar por diletantismo, um acomodar-se em uma poltrona pacientemente aguardando o fim do dia, com um olhar distraído em direção à janela. Acredito que ela deve fortalecer nossa teoria e nossa prática e a teoria, especificamente para Horkheimer e Adorno (1985), é uma forma de intervenção, uma forma de agir. Adorno (1995d, p. 204), em Notas marginais sobre teoria e práxis, assim expressa essa questão: ''Pensar é um agir, teoria é uma forma de práxis; somente a ideologia da pureza do pensamento mistifica este ponto". O enfraquecimento do pensamento limita, portanto, nossa intervenção no mundo. A fraqueza do pensamento reduz nossa capacidade de intervenção, de resistir. Nossa debilidade em resistir força-nos ao ativismo, que é uma forma de intervenção, a meu ver, impotente, sem efeito. Adorno (1995d, p. 223) assim descreve ativismo: O ativismo é regressivo. Cativado por aquela positividade que há tanto tempo faz o papel de armadura para a debilidade do Eu, recusa-se a refletir sobre a sua própria impotência. Os que não param de gritar: Demasiado abstrato!, empenham-se num concretismo, numa imediatez que estão abaixo do nível dos meios teóricos disponíveis. Isso favorece a práxis aparente. Faço estas ponderações em função de que, como defendiam os frankfurtianos, penso que a Filosofia deve contribuir para o processo do esclarecimento, de emancipação dos homens e de destruição dos mitos que a Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 40 sociedade engendra para ofuscar a compreensão de si mesma. Diante das reflexões aqui apresentadas, acredito que há a necessidade de (re) pensarmos o ensino das disciplinas relacionadas à matéria Filosofia de Educação para que ela, tendencialmente, contribua para esclarecer o ambiente cultural em que Vivemos. Outro fato que se faz necessário esclarecer é concernente que importa, cada vez mais, para as elites dominantes, transformar qualquer coisa em mercadoria. Disso não escapam a educação e a cultura que, convertidas em mercadorias, favorecem a reprodução da lógica do capital, cujo resultado final deve ser algo que possua algum valor mercantil, que possa ser trocado, vendido, que produza lucro, garantindo uma acelerada reprodutibilidade do capital e da dominação imposta. E toda esta lógica é disseminada com bastante vigor. A Educação é pensada desta forma, pois, os espaços em que é, efetivamente, planejada fogem ao controle de todos. Entretanto, muitas vezes, esta forma de autoritarismo encontra ferozes locutores entre os sujeitos da classe subjugada e o ensino, de qualquer disciplina, não escapa a este reducionismo pedagógico, ou seja, é necessário adaptar a educação às exigências impostas pelo mercado, assim como os educandos. Este adaptar definha o pensamento, a resistência e a utopia das camadas sociais que vivem do trabalho. Pode-se, portanto, afirmar o desinteresse, por parte das classes dirigentes, pelo desenvolvimento de uma consciência esclarecida acerca dos fatos que afetam, quotidianamente, suas vidas. Sem este tipo de consciência o indivíduo não consegue ter um pensamento que seja realmente seu, não consegue destruir o Mundo da pseudoconcreticidade, como apontava Kosik (1986), em sua obra Dialética do concreto. Sendo a configuração do mundo alienada, cabe à Filosofia esclarecer as sendas pelas quais caminha o pensamento, permitindo ao indivíduo escolher qual o percurso adequado para sua vida. Ocorre, entretanto, que as elites dominantes só toleram que os indivíduos se manifestem em situações que não exijam um pensar crítico, como acontece nos programas de auditório, nos campos de futebol nos Rality Shows etc., que oferecem a ilusão de estarmos decidindo algo ou, de alguma forma, participando. Acabamos, dessa forma, por reproduzir a estrutura da sociedade capitalista e suas terríveis mazelas. Este contexto acaba danificando e estultificando as consciências, enfraquecendo o pensamento, neutralizando a resistência. Os indivíduos, cada vez mais definhados, não são mais os senhores de suas vontades, de suas vidas. Pelo contrário, estão, cada vez mais, à Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 41 disposição de quem se encontra em uma situação de dominador, a quem cabe o direito, quase exclusivo, de decidir a respeito da vida de quem não possui esse privilégio. Vale ressaltar que as precárias condições objetivas e subjetivas de uma imensa camada social cooperam, significativamente, para que a educação não cumpra um papel satisfatório na formação das pessoas. Ficam assim, comprometidos o esclarecimento e a autonomia por conta de um avassalador processo de exclusão dos bens socialmente produzidos pelos que vivem do trabalho. Este processo contribui, negativamente, para o homem ser sujeito e senhor de sua vida. Em tal estado não se constitui como sujeito da história e sim em seu objeto. As observações anteriormente descritas, a respeito da disciplina em questão, não são fruto apenas das análises feitas com o material coletado durante a realização das entrevistas, que, na condição de bolsista PIBIC/CNPq, efetivei com os discentes já mencionados, pois as considerações aqui apresentadas, embora reforçadas pelo material examinado, só corroboram urna hipótese já vivenciada quando discente da disciplina em questão. Mas não posso deixar de refletir acerca do contexto social a que a educação, de um modo geral, está submetida. Sendo assim, reconheço as influências das condições objetivas precárias que penalizam nossos discentes e docentes. Não é possível negligenciar, obviamente, a realidade obscura de nossos tempos, que prejudica intensamente o desenvolvimento de uma consciência crítica consistente. Todos esses elementos contribuem, profundamente, para a permanência dos indivíduos em um estado de menoridade social, como apontava Kant (1992). Uma condição heterônoma, que escraviza os indivíduos, impedindo que estes se libertem da tutela alheia à qual sua vida, por forças estranhas à sua razão, foi condenada. Acredito, entretanto, na imensa contribuição que a Filosofia daria para a superação deste estado. Acredito, ainda, na valiosa contribuição que a disciplina Filosofia da Educação poderia empreender diante deste contexto obscuro. O mundo totalmente administrado, opondo-se, radicalmente, à emancipação humana, obstrui, inexoravelmente, as condições para a manifestação de um pensamento, verdadeiramente, utópico, enfraquecendo, desse modo, nossa capacidade para opor resistência. Com nossa resistência enfraquecida sufocamos as possibilidades de construção de pensamentos utópicos e, portanto, contrários e nocivos ao desenvolvimento do autoritarismo atual, o que, por sua vez, exige a atualização e potencialização de nossos pensamentos. A ideologia propagada pela Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 42 burguesia, apesar de hegemônica, não é, de forma alguma, absoluta e indestrutível. Nesse sentido, é necessário construirmos teorias que objetivem a destruição da ideologia que dá suporte à hegemonia burguesa. A luta de classes, apesar de ofuscada na contemporaneidade, ainda não expirou. Sua permanência impele àqueles comprometidos com a causa da maioria a constante produção de teorias que apontem para a superação desta ordem, para a construção de utopias, pois nem todas as cartas foram jogadas, o que significa que o "jogo" ainda não encerrou. Daí a necessidade de continuarmos construindo o caminho que se tem a caminhar: A insossa sabedoria para qual não há nada de novo sob o sol, porque todas as cartas do jogo sem-sentido já teriam sido jogadas, porque todos os grandes pensamentos já teriam sido pensados, porque todas as descobertas possíveis poderiam ser projetadas de antemão, e os homens estariam forçados a assegurar a autoconservação pela adaptação - essa insossa sabedoria reproduz tão somente a sabedoria fantástica que ela rejeita: a ratificação do destino que, pela retribuição, reproduz sem cessar o que já era. (HORKHEIMER e ADORNO, 1985, p. 26. Grifos meus). Considerações Finais Neste cenário, de quase plena hegemonia e dominação do capital, reconheço a importância que a educação possui, dentro do contexto deste artigo, a Filosofia da Educação, para a destruição do discurso ideológico que as classes dominantes utilizam para garantir a dominação e a continuação de seus irretocáveis privilégios. Ocultar, encantar, enfeitiçar... eis alguns dos impactos que abatem aqueles espíritos dominados pela ideologia interessada na permanência das condições vigentes. Contra isso, muito tem a oferecer uma filosofia interessada em desencantar, desenfeitiçar... No entanto, para que a referida disciplina cumpra esse papel deve atuar em favor do estabelecimento de uma, consciência verdadeira, possibilitando, assim, ao indivíduo, a auto-reflexão, a construção de um pensamento autônomo, emancipado, utópico. Caso contrário, continuará a produzir, no interior da sociedade capitalista, os traços determinantes para a reprodução desta. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES PARA O PROCESSO DE ESCLARECIMENTO 43 Este artigo tenta expressar urna mensagem de descontentamento, de angústia, mas, fundamentalmente, de esperança. Esperança que procuro manter ao longo de minha limitada existência material. Esta mensagem pode ser expressa nas palavras de Adorno (1995d, p. 208-210), quando observa que "Aquele que pensa, opõe resistência; é mais cômodo seguir a correnteza, ainda que declarando estar contra a correnteza. [...] Só pensa quem não se limita a aceitar passivamente o desde sempre dado". A Filosofia, no caso específico deste artigo, a Filosofia da Educação, tem a obrigação de contribuir para que o pensamento se desenvolva para atingir essa finalidade: a resistência. A resistência que o pensamento filosófico poderia opor à ruína da razão consistiria em - sem nenhuma consideração pela autoridade constituída, sobretudo das ciências humanas - mergulhar nos conteúdos objetivos para perceber neles e não por cima deles o conteúdo da verdade. Isto seria, hoje, liberdade de pensamento. Verdadeiro seria este quando, liberado da maldição do trabalho, descansasse por fim em seu objeto. (ADORNO, 1995c, p. 25. Grifos meus). Mesmo diante de um contexto perverso, que tenta nos convencer de que somos impotentes, fracos, insignificantes, necessitamos resistir para que o mundo se transforme, futuramente, em algo, realmente, que ainda não é. Daí a necessidade de potencializarmos e atualizarmos nosso pensar e nosso fazer e, ao mesmo tempo, convertermos a impotência, engendrada pelas elites dirigentes para resignar os grupos sociais descontentes, em um momento fecundo de nosso resistir. Encerro minha fala em concordância com o pensamento adorniano quando observa que: Aquele que quer transformar provavelmente só poderá fazê-lo na me-dida em que converter esta impotência, ela mesma, juntamente com sua própria impotência, em um momento daquilo que ele pensa e talvez também daquilo que ele faz; (ADORNO, 1995b, p. 185). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 Raimundo Sérgio de Farias Júnior 44 Referências bibliográficas ADORNO, T. Opinión, locura, sociedad. 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Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 25-45, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS Ivanildo do Socorro Mendes GOMES1 Resumo: O objeto do trabalho é o movimento de reforma da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil. Por meio de uma revisão bibliográfica e de estudo de alguns documentos, objetivou-se identificar os embates travados na busca pela definição, organização e consolidação de um melhor atendimento educacional aos jovens e adultos pouco ou não escolarizados, na perspectiva da sociedade civil brasileira e de alguns organismos internacionais. O estudo constatou que a luta pela EJA no Brasil não é recente e que sempre se apresentou como uma prática limitada aos interesses de poucos; que existem diferentes agendas educacionais de diferentes órgãos e entidades (nacionais e internacionais); que mesmo com o movimento de renovação da EJA no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, em prol de uma educação pública popular, os interesses do Estado, marcado por orientações internacionais, conseguiram sobressair. Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos. Reforma Educacional. Reforma Curricular. THE EDUCATION OF YOUNGSTERS AND ADULTS IN BRAZIL: SPACE OF STRUGGLES, BREAKAGES AND CONCEDINGS Abstract: The object of this work is the reform movement of the education of youngsters and adults (EJA) in Brazil. Through a bibliographic review and the study of some documents, the objective was identify the struggles established in the search for definition, organization and consolidation of a better educational service to youngsters and adults with little or no scholarship, in the perspective of the Brazilian civil society and of some international organizations. The study assured that the fight for EJA in Brazil is not recent, and has always showed to be a practice limited to the interests of few; that exist different educational agendas of different organizations and entities (national and international); that even with the renewal movement of EJA in Brazil in the eighties, and nineties, in favor of a public and popular education, the interests of the state marked by international orientations, obtained to outshine. Key words: Education of Youngsters and Adults. Educational Reform. Curriculum Reform. 1 Graduando em Pedagogia. Mestre em Educação. E-mail: [email protected] Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 48 Introdução O atendimento educacional aos jovens e adultos pouco ou nãoescolarizados efetivado historicamente, sempre apresentou uma descontinuidade tanto no tempo quanto no espaço, incentivada ora pelo poder público, ora pelo movimento social. Este estudo leva em conta o contexto histórico e considera que o movimento de reestruturação curricular que está se dando atualmente é produzido por novos desafios e por novas e antigas orientações que vão dando cores, feições e personalidades aos destinos da educação de adultos. Tem como principal objetivo discutir, com base em dados bibliográficos e documentais, a política de reforma educativa e curricular para a educação de jovens e adultos no Brasil, procurando identificar e analisar os espaços de lutas e as configurações das políticas implementadas no âmbito dessa modalidade. 1 O movimento pela renovação da EJA no Brasil A trajetória histórica da educação brasileira, mais especificamente no que diz respeito à problemática da educação de jovens e adultos, deixa claro que nem sempre ela foi olhada por parte dos governantes de modo compromissado: como forma de garantir uma escolarização em que a formação sociocultural e política fosse o viés do sucesso escolar e, portanto, da melhoria da qualidade de vida dessa população. Sendo, então, a educação uma prática política - portanto não-neutra efetivada em uma sociedade de classe, fazem parte de sua história os movimentos que foram se dando na contramão das práticas "colonizadoras" implementadas de forma centralizada na oferta de educação para jovens e adultos, como foram as constantes campanhas de alfabetização. Devo olhar para o movimento que se deu na década de 1980, quando críticas e ações foram empreendidas fazendo frente às idéias de uma educação para os jovens e os adultos de caráter assistencialista e negligente quanto à cultura e ao conhecimento popular, como foi o caso do MOBRAL e como foram, e ainda são os Cursos e os Exames Supletivos. Embora a educação funcional (com base no treinamento de mão-de-obra mais produtiva, útil ao projeto de desenvolvimento nacional) tenha predominado nas ações educativas, voltadas para os jovens e adultos no período do regime militar (primeiro pelo MOBRAL e depois ampliado com o Supletivo), o movimento que tinha florescido na década que antecedeu o golpe entendido como educação libertadora, como conscientização não foi de todo silenciado. Nesse movimento, integraram-se Universidades, Sindicatos, Organizações Não-Governamentais - ONGs, Centros Comunitários, Pesquisadores etc. Ele se caracterizou tanto pela produção e publicação de textos de diversos autores que apresentaram muita desconfiança em relação às iniciativas do Estado que sempre mantinha um distanciamento em relação à sociedade civil no que se refere aos problemas educacionais, como também pela Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 49 realização de eventos para discutir a educação voltada para jovens e adultos dos quais originaram cartas e manifestos em prol da melhoria da formação destes últimos (esses movimentos tiveram maior expressão já no início da década de 1980). As proposições formalizadas nesses movimentos foram marcadas pela cobrança de uma educação pública, mas que fosse caracteristicamente popular, embebida de uma concepção freiriana de educação. Wanderley (1985 apud GADOITI, 2001), na primeira metade da década de 1980, distingue além de uma educação com orientação de integração e uma orientação nacional-desenvolvimentista, a educação popular com uma orientação de libertação que apresentava como objetivo estimular pela conscientização, capacitação e ampla participação social, as potencialidades do povo, contribuindo a partir dessa orientação para que certos grupos problematizassem, criticassem a ordem capitalista e começassem a exigir mudanças estruturais mais profundas. A primeira Conferência Brasileira de Educação, realizada em abril de 1980, resgata um movimento de renovação pedagógica, iniciado no final da década de 1970, em que um dos pilares dessa renovação foi justamente o pensamento crítico progressista gestado nos centros de educação das universidades brasileiras que se aproximavam das iniciativas da sociedade civil. Um exemplo disso é dado por Arroyo, em entrevista ao Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária - CENPEC, em 2001: No nosso caso, aqui na UFMG, nós começamos a desenvolver em 1979 um programa de capacitação para educadores que atuavam no que poderíamos chamar de "fronteiras" da sociedade, isto é, pessoas que trabalhavam com sindicatos, educação de jovens e adultos, mulheres, movimentos sociais etc. E o mesmo começou a ser feito em outros centros. Durante muito tempo, a maior parte das teses de mestrado e doutorado que eram defendidas tratavam de temas como supervisão, orientação, gestão, administração, políticas educacionais etc. A partir da década de 80, porém, começa a haver uma série de trabalhos que etifatiif1m mais a questão dos movimentos sociais, incluindo a educação de jovens e adultos, os sindicatos, a educação popular. Na verdade, isso foi conseqüência da própria eclosão dos movimentos sociais urbanos no Brasil, que tiveram uma grande influência na reformulação da consciência sobre os direitos, incluindo-se aí o direito à educação. (SETU BAL, 2001, p. 23-24) Com a realização das Conferências, ganhou corpo a defesa da importância da escola pública que oferecesse ensino público de melhor qualidade e que contasse com a participação da chamada "comunidade escolar" para a democratização da educação. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 50 Na segunda metade da década de 1980 e início da década de 1990, também observo uma movimentação grande no que se refere aos diversos eventos que discutiram temas envolvendo a educação de jovens e adultos, em que foram elaborados diferentes documentos resultantes das discussões em torno da luta pela melhoria do atendimento educacional nesse setor. No Fórum de Políticas Municipais de Educação de Jovens e Adultos, por exemplo, realizado em 1989, chegou-se à conclusão de que o papel dos municípios deveria se pautar na criação de serviços de educação de jovens e adultos que tivesse como princípio fundamental a defesa de um ensino de qualidade, entendido como aquele que assegure aos indivíduos elementos para a realização da plena cidadania, portanto, de seus direitos políticos, econômicos e sociais. Tal educação deveria estar comprometida com um projeto de mudança de vida a ser assumida como luta coletiva de educadores, educandos, comunidade e poder público. As criticas que esse Fórum formulou giraram em torno de alguns pontos: da escola pública que não estava combatendo a evasão e a repetência dos alunos oriundos da classe trabalhadora, freqüentemente tratados como cidadãos de segunda categoria, despojados do direito a um ensino de qualidade e adequado às sua condições de estudo; da seletividade do sistema de ensino e o sucateamento da escola pública promovido pelo Estado naquele período; das concepções que conferiam à educação de adultos um caráter compensatório, tornando-a mera reposição de escolaridade regular perdida, ignorando-a como educação para trabalhadores, pois o modelo de referência era a escola regular; das tentativas de cooptação e controle exercidas pelos organismos governamentais sobre os grupos populares que recebiam deles apoio pedagógico e financeiro;- e, principalmente das campanhas de alfabetização de massa, destacando as seguintes razões: a) a proposta de campanha de alfabetização em massa está impregnada pela idéia de erradicação do analfabetismo num curto espaço de tempo e; b) as campanhas de alfabetização costumam ser implementadas num ritmo único em toda sua área de abrangência e dotadas de uma estrutura fortemente centralizada e unificada no desenvolvimento das atividades pedagógicas e da produção de materiais didáticos. Diante dessas criticas, as mudanças exigidas pelo Fórum de Políticas Municipais para a EJA situaram-se, entre outros, nos seguintes pontos: a) implementação de uma política capaz de resgatar a qualidade da escola pública que possibilitasse o combate à evasão e à repetência (ou seja, a construção de uma escola pública popular, que não é apenas aquela à qual, todos têm acesso, mas aquela de cuja construção todos podem participar), aquela que atende realmente aos interesses da maioria, portanto, uma escola com uma nova qualidade, que não será medida pelo conhecimento socializado, mas pela solidariedade humana que tiver construído, pela consciência social e democrática que tiver formado, pelo repúdio que tiver manifestado aos preconceitos de toda ordem e às práticas discriminatórias correspondentes; b) busca da colaboração da sociedade civil organizada para a tarefa da alfabetização de adultos e apoio àqueles grupos que já a desenvolvem no meio popular, priorizando a organização de movimentos Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 51 de alfabetização de cunho processual e não datado, negando-se as campanhas de alfabetização. É nítida a cobrança em se fazer uma educação baseada na proposta da educação popular para todos, inclusive a que o Estado oferece. Isto não quer dizer que este último não deveria ser o principal responsável pelo sistema educacional- disponibilizando verbas, materiais didáticos, espaços físicos, pagamento de professores, etc. É o Estado, juntamente com a comunidade, que pode mobilizar e legitimar um processo educacional que seja direcionado para a emancipação e formação cidadã. Imbuídos dessa concepção de educação pública popular e de uma visão de alfabetização como movimento, como processo, ante as grandes campanhas emergenciais é que educadores reuniram-se, em setembro de 1990, em São Paulo no Congresso Brasileiro de Alfabetização. Na Declaração “Apontando Soluções", que resultou do evento, algumas críticas foram feitas e proposições foram apontadas no sentido de combate às causas sociais que estavam produzindo e mantendo o analfabetismo. No que se refere às criticas, o documento destaca a opção dos governos em implementar programas que tinham impacto propagandístico que definiam prazos exíguos para "erradicar" o analfabetismo, ou então desencadeavam campanhas emergenciais de alfabetização de adultos que demonstravam ser ineficazes, pois eram medidas desvinculadas de uma política global que promovesse a melhoria das condições de vida da maioria da população brasileira - como era o MOBRAL; ressalta que o conceito de analfabetismo estava carregado de preconceitos e incorreções, pois o analfabeto era visto como uma pessoa desqualificada para o exercício da cidadania, como um mal a ser extirpado, sem que houvesse o reconhecimento da sua participação como pessoa constitutiva e construtora da nossa sociedade e produtora de conhecimento; denuncia o desrespeito à Constituição de 1988, pela não utilização dos 50% dos recursos oriundos de impostos e transferências gerados pela União (mínimo de 18%) e pelos Estados e Municípios (mínimo de 25%), para a universalização do ensino fundamental e eliminação do analfabetismo, nos dez anos seguintes à promulgação da Constituição, o que tem sobrecarregado os municípios - principalmente os que aderiram à política de municipalização de ensino - aos quais foram sendo repassados serviços e responsabilidades incompatíveis com seus recursos financeiros e estrutura e, além disso, os recursos constitucionalmente previstos eram insuficientes diante das necessidades acumuladas; registra que os baixos salários, as más condições de trabalho e a precária formação do magistério2 constituíam-se em limitações objetivas à universalização do ensino básico no Brasil. A Declaração desta que, embora a legislação em vigor definisse um mínimo para formação do magistério em cursos de 2° grau, uma parcela significativa dos professores em exercício no país era constituída por leigos. Mesmo os professores habilitados apresentavam uma formação extremamente precária. 2 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 52 Diante disso, as seis principais soluções que eu identifico, propostas na Declaração são: 1) que o enfrentamento do analfabetismo no Brasil deveria se dar tanto com uma política global que levasse o país ao desenvolvimento econômico com justiça social, superando a grave desigualdade na distribuição de renda, bens e serviços, como com uma política educacional sistemática e de ação prolongada que priorizasse a universalização do ensino básico e respeitasse as especificidades regionais; 2) que, na superação do pre¬conceito que cercava o analfabeto, as políticas de alfabetização deveriam reconhecê-lo como cidadão participante da sociedade, produtor de cultura, e ainda ir além do conceito limitado de alfabetizado, indivíduo capaz de ler e escrever um bilhete simples, e considerar que esta condição exigia a formação do cidadão leitor, escritor e comunicador, bem como tendo acesso a outros conhecimentos que ampliassem sua inserção crítica e participativa na sociedade; 3) que, seguindo a Constituição Federal de 1988, deveria ser considerada a necessidade da oferta de ensino básico para todos, assumindo, no sistema, a educação de jovens e adultos e dos trabalhadores e que para isso era necessária a ampliação de vagas e distribuição de recursos para todas as faixas etárias, sem discriminação, que deveriam ser acompanhadas por uma política de formação, pesquisa, produção de materiais didáticos e de leitura que atendessem à diversidade de ofertas de ensino básico; 4) que se considerasse a urgência em exigir do Poder Executivo e dos legisladores a revisão da destinação dos recursos garantidos em lei para a educação básica3 e para isso seria necessário o estabelecimento de um sistema efetivo de cooperação entre União, Estados e Municípios e a criação de meios para que a sociedade civil tivesse um controle mais efetivo dos recursos públicos como forma de tentar evitar o favoritismo político; 5) que fosse levada em conta a necessidade de um estatuto aos professores que garantisse uma perspectiva de carreira e permitisse sua permanência no magistério, sua ascensão funcional por qualificação, uma jornada de trabalho que incluísse períodos de preparação e estudo, uma política permanente de formação dos educadores em que as Universidades teriam um papel fundamental no sentido de envolvê-los em pesquisa e sistematização de práticas, e ainda melhoria de salário e condição de trabalho; e 6) que deveria haver a garantia de participação conjunta de governo e sociedade civil na definição de princípios e diretrizes da política nacional de alfabetização. (GADOITI e ROMÃO, 2001). Essa Declaração foi aprovada em 1990 pelos educadores participantes do Congresso Brasileiro de Alfabetização, ano que a UNESCO declarou como o “Ano Internacional da Alfabetização", e exprime as idéias da sociedade civil para a educação que com suas críticas e propostas deixam claro que, se o desejo é combater o analfabetismo, deve-se atacar também o que o está causando. O alto índice de analfabetismo absoluto e funcional de jovens e adultos é um sintoma de uma política educacional implementada sem um regime de Junto a essa proposta a Declaração ressalta a importância da utilização pelo Brasil de parte dos recursos destinados ao pagamento da dívida externa em programa de alfabetização e educação básica, a fundo perdido. 3 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 53 cooperação entre os diversos setores da sociedade, sem interesse de formar qualitativamente os educadores, sem respeito aos diferentes contextos sociais e culturais, com parcos recursos, com uma visão limitada de alfabetização e educação, entre outros que têm reproduzido esta situação e que precisam ser considerados quando da definição das políticas educacionais. Diante disso, quando documentos (como os acima citados) propõem "processo de alfabetização", "movimento de alfabetização", "política de alfabetização", apresentam uma visão mais ampliada de educação para jovens e adultos, associada a uma exigência de melhoria da educação básica como um todo cujo sucesso depende não só dos educandos, mas de vários aspectos e atores que interferem no contexto educacional. Além dessas ações de abrangência mais ampla, no Brasil, no final da década de 1980 e início da década de 1990, com a inserção de partidos de esquerda na administração de alguns municípios, ações significativas foram implementadas nestes e contribuíram para que a educação de jovens e adultos tivesse um impacto mais qualitativo na formação de muitas pessoas em nível local e que de alguma forma serviram de referência para o fortalecimento do movimento em prol da melhoria da EJA nas várias regiões do país, com forte apelo à participação popular. Em São Paulo esse movimento se deu com a eleição de Luiza Erundina (na época do Partido dos Trabalhadores - PT) que, tentando uma inversão de prioridades, buscou novas perspectivas de consolidação de instrumentos de participação popular, ou seja: A participação popular foi a marca que foi impressa à administração da Prefeitura de São Paulo nos anos de 19891992. Governar com a participação do povo significou ir contra toda uma tradição centralizadora e excludente do Estado brasileiro. Para isso foi preciso operar uma profunda reforma do Estado e das instituições políticas do município, introduzindo novos atores no processo decisório, isto é, a população excluída e segregada da metrópole. (GADOTTI, 2001, p.91). Segundo Gadotti (2001), foi baseada no respeito à autonomia dos movimentos sociais, na abertura de canais de participação e na transparência administrativa como sinônimo de democratização das informações que se alicerçou a democratização das decisões com ampla participação popular, sendo esta vista como um legítimo processo de educação de adultos desenvolvendo e fortalecendo a consciência da cidadania e possibilitando a eles assumirem o papel de sujeitos da transformação de sua realidade. No âmbito desses pressupostos e embasado na obra de Paulo Freire é que foi implantado o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos da Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 54 Cidade de São Paulo - MOVA-SP, idealizado pelo próprio Paulo Freire, na época Secretário de Educação daquele município, juntamente com o educador Pedro Pontual e implementado em convênio com as entidades que passaram a integrar o "Fórum dos Movimentos Populares de Alfabetização de Adultos da Cidade de São Paulo". Foi um trabalho paritário entre Estado e os movimentos populares de grande repercussão tanto em São Paulo como em outros Estados. O MOVA-SP, sem impor como única orientação o "Método Paulo Freire", apresentou princípios político-metodológicos com as seguintes características: sintetizados numa concepção libertadora de educação, evidenciando o papel da educação na construção de um novo projeto histórico, a nossa teoria do conhecimento, que parte da prática concreta na construção do saber, o educando como sujeito do conhecimento e a compreensão da alfabetização não apenas como um processo lógico, intelectual, mas também profundamente afetivo e social (GADOTTI, 2001, p. 93, Grifo nosso). Neste movimento de alfabetização o conhecimento tinha como fonte a própria experiência do jovem e do adulto, não se reduzia a um conhecimento meramente intelectual, mas um conhecimento que levasse à formação crítica da consciência necessária ao fortalecimento do poder popular. Por isso é que esse movimento foi importante, por ir além do ensinar a ler e escrever minimamente e chegar a estabelecer-se como uma área de luta política efetiva que carregou a idéia de uma parceria, com legalidade, entre movimentos sociais - que lutaram pela defesa da mulher, pela defesa da alfabetização, da moradia, da terra, da cultura etc. - e a Secretaria Municipal de Educação, com o propósito de formar e de educar de uma maneira original toda uma geração de jovens e adultos em São Paulo, vinculando a qualidade acadêmica com o compromisso político (TORRES, 2001). Outra ação importante nessa luta pela EJA com qualidade, com base na Educação Popular, foi a implementada pela Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, a partir de 1989, que criou os Serviços de Educação de Jovens e Adultos - SEJA, cuja principal preocupação foi com a alfabetização que não se restringisse a um programa compensatório, a uma série, ao ler e escrever um texto simples, mas equivalente às quatro séries iniciais. A alfabetização era entendida como um direito: Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 55 Direito à escola de qualidade e à construção de projetos de vida que dêem conta de entender a transformar o mundo,já que compreendemos o acesso à aquisição do código alfabético como um caminho de invenção da cidadania; aliado, evidentemente, às condições das diferentes áreas de conhecimento. (BORGES apud AFONSO, 2001, p.97). O SEJA, a exemplo do MOVA-SP, também buscou situar sua práxis num referencial teórico permeado pela cotidianidade do trabalhador e de seu mundo do trabalho, ou seja, marcado pelo processo de reflexão coletiva sobre o cotidiano da escola, sobre as experiências dos professores e alunos. A partir da reflexão da prática social é que surgiam aspectos como conteúdos e metodologia: Os conteúdos são referendados na experiência de vida do jovem e do adulto, que são produtores de conhecimento, e de hipóteses que explicam a realidade. O objetivo da metodologia é, na relação dialógica, favorecer uma análise mais profunda sobre este saber, o acesso a outras informações e a reelaboração e recriação destes conhecimentos. (BORGES apud AFONSO, 2001, p. 98). Esse processo, portanto, é complexo, o que leva Borges (apud AFONSO, 2001) a afirmar que para atuar nele era necessário um professor que fosse "autor-ator", pois para desempenhar este papel ele precisava estar envolvido com toda a complexidade que cerca a compreensão dos processos de construção do conhecimento e a análise da trajetória da Educação Popular, afastando-se assim da idéia de que para ser alfabetizador bastava saber ler e escrever ou então de que qualquer educador pudesse ser educador de adultos, e aproximando-se de um professor engajado pela reflexão pedagógica e pela produção coletiva de pesquisas e responsável em exercer a Educação Popular. Segundo a fala dos autores da proposta: [...] a nossa sociedade precisa ser transformada e essa transformação se dará a partir do coletivo. Nesse sentido, a nossa proposta pedagógica se pauta no diálogo, no questionamento, na compreensão da realidade que nos cerca e na busca de novas propostas coletivas de mudança, pois o aprender é considerado como uma interação dialética entre o homem e o mundo, e o conhecimento é visto como uma construção social Estes eixos acabam por imprimir a lógica da precedência da leitura do mundo sobre a leitura da palavra e têm a Educação como uma parceira de outras ciências na busca da transformação da realidade, a partir da ação de sujeitos epistêmicos e históricos. (BORGES apud AFONSO, 2001, p. 99). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 56 Essas são algumas das vozes que aliadas a outras estiveram marcando a discussão e as ações para a educação de jovens e adultos nos anos que sucederam o militarismo e precederam a administração de Fernando Henrique Cardoso à frente da Presidência do Brasil, que embora sem uma grande unidade, mas com qualitativa e importante diversidade empreenderam vários movimentos que foram, no dizer de Gadotti (2001), verdadeiras forças instituintes de uma nova sociedade, lutando em vários campos: pela terra, pelos direitos civis, direitos humanos, alfabetização, luta das mulheres, dos movimentos vinculados à religiosidade popular, movimentos ecológicos, por moradia e que trouxeram em seu bojo uma nova concepção de educação e de Estado. 2 O processo de captura: o que de forma concreta influenciou na educação de jovens e adultos no Brasil a partir da década de 1990? Todas essas vozes que nasceram da prática de organização dos movimentos e grupos da sociedade civil, com ou sem uma parceria com o Estado, como forma de enfrentar os desafios sociais, econômicos, culturais, éticos e, permeando estes, os desafios educacionais, e que se fortaleceram diante do enfraquecimento do regime militar, contribuíram para as conquistas conseguidas na Constituição de 1988 quanto à extensão aos jovens e adultos do direito à educação básica: A promulgação da Constituição de 88, além de assegurar, através do Art. 212, o direito à educação fundamental aos que não a tiveram, estipulou um prazo de dez anos para envidar esforços concentrados em prol da universalização do ensino fundamental e erradicação do analfabetismo, determinando que fossem gastos para isso 50% dos recursos vinculados à educação. Esses dispositivos significaram o reconhecimento do direito à educação daqueles que se encontravam excluídos, gerando movimentos reivindicatórios junto, principalmente, às administrações municipais. (SOARES, 1995, p. 265). No entanto, as reivindicações dos movimentos passaram a ser esquecidas pela política que foi definindo os rumos da educação de jovens e adultos no país, principal-mente com as medidas implementadas a partir do momento em que Fernando Henrique Cardoso (FHC) assumiu a presidência do Brasil. Suas iniciativas passaram a considerar de forma mais intensa as regras impostas pelo projeto neoliberal. No caso da EJA, ele passou a exercer de início uma política que tirava de si a responsabilidade pelos gastos com os cursos, o que forçava a sociedade civil a assumir essa modalidade. O que passou a acontecer de forma mais intensa com a educação, no Brasil, no sentido de sua reformulação, foi conseqüência da globalização em suas dimensões sócio-lógicas, ideológicas, políticas, culturais e, principalmente Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 57 econômicas. Com a administração de FHC, as decisões passaram a acontecer mais distantes da sociedade e desconsiderando muitas das conquistas conseguidas em anos anteriores. Segundo Maria Teresa Leitão (apud SE1UBAL, 2001, p. 21), durante os governos de Collor e Itamar Franco embora se perceba que referentemente à educação pouca coisa tenha sido implantada, não se pode deixar de afirmar que o período foi rico em debates e formulações. Como exemplo temos a constituição do Fórum Permanente pela Valorização do Magistério e Qualidade da Educação, por meio do qual foram discutidas e formuladas políticas e estratégias para atingir metas do Plano Decenal de Educação para Todos (envolvendo o MEC e entidades civis), tendo inclusive acontecido a assinatura do Acordo Nacional e do Pacto pela Valorização do Magistério e Qualidade: da Educação, os quais sintetizavam os eixos do debate educacional: piso salarial, universalização da educação básica e formas de financiamento da educação. Isso se perdeu de certa forma na segunda metade da década de 1990, pois, apesar da efervescência no período anterior, aconteceu que: A partir de 1995 [...] com a posse do governo Fernando Henrique Cardoso, tem início um segundo momento, uma vez que os acordos anteriormente estabelecidos são esquecidos e o MEC passa a negociar diretamente com o Congresso Nacional a aprovação da ''reforma da educação” Essa segunda fase apóia-se em três instrumentos legais: a Ementa Constitucional n° 14, a lei que institui o FUNDEF e a nova LDB. Embora o FUNDEF e a LDB contenham dispositivos para a melhoria da qualidade da educação, o que mm prevalecido nas políticas do governo federal são as diretrizes do FM1 e do Banco Mundial as quais resultam em diminuição nos investimentos para a educação, na restrição a direitos e no cerceamento à participação da sociedade na formação das políticas públicas. (LEITÃO, 2001 apud SEIUBAL, 2001, p. 21-22). Isso tem levado autores, como Afonso (2001), a definirem como "consenso" o fato de que é inegável que todos os países se confrontam hoje, embora diferentemente, com a emergência de novas organizações e instâncias de regulação supranacional (ONGs, Mercosul, Organização Mundial do Comércio - OMC), cuja influência vem se juntar à de outras organizações que já não são recentes, mas que continuam a ser muito influentes (Banco Mundial, Fundo Monetário Intemacional- FMI). Tais organizações [...] direta ou indiretamente ditam os parâmetros para a reforma do Estado nas suas funções de aparelho político-administrativo e de controle social [...] de mediação, de adequação às prioridades externamente definidas [...] de promoção das agendas que se circunscrevem a ditames mais ou menos ortodoxos da fase actual Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 58 de transnacionalização do capitalismo e de globalização hegemônica. (AFONSO, 2001, p. 24). Uma das ações básicas, voltadas para a educação, realizadas pelo governo de FHC foi a centralização de seu esforço em elaborar Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), documento que, pelos mecanismos de avaliação que têm sido implementados, se tornou para o Estado o "currículo nacional". Portanto, as reformas educativas colocam desafios aos pesquisadores da área da educação no sentido de desvelar se o seu caráter é, realmente, de novidade e de avanço considerando que: Os movimentos de reforma educativa nem sempre têm estado orientados ou têm contribuído para mudanças estruturais de nossas sociedades, ou alavancado processos democráticos e uma cidadania ativa e participativa. Temos mesmo de confessar que isso tem acontecido raramente. De uma maneira geral, eles têm servido mais para legitimar um determinado projeto político-social que se tornou hegemônico em um dado momento histórico. Para muitos dos autores latino-americanos, as atuais reformas educativas que se situam num contexto de hegemonia neoliberal têm um caráter neoconservador, mesmo que se apresentem revestidas das tecnologias mais avançadas. (CANDAU, 2003, p. 32). Tais reformas na área da educação carregam em si as interferências de diferentes agendas, que têm marcado os resultados desses movimentos: por um lado os organismos internacionais com propostas de caráter controlador e por outro as instituições nacionais ligadas à sociedade civil com uma agenda caracteristicamente emancipatória. Envolvido neste campo está o Estado brasileiro que tem simpatizado e aceitado as idéias do primeiro grupo o qual tem interferido na educação brasileira por meio de suas políticas, que são mais econômicas do que sociais e culturais. Vale ressaltar nessa luta pela conformação do campo educacional brasileiro, em seu sentido mais amplo, e na da educação de jovens e adultos mais, especificamente, o papel que têm exercido alguns organismos internacionais e instituições nacionais (Ação Educativa). No que se refere ao MERCOSUL, toda a política de enfrentamento social defendida por esse bloco está alicerçada sobre a base de respostas rápidas e sólidas ao mercado mundial. Podemos verificar que o homem e a mulher são instrumentos a serem utilizados na guerra pela consolidação desses países (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) enquanto bloco (muito mais econômico do que preocupadamente cultural) forte na nova ordem econômica. A Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 59 educação, então, vai ao encontro do que esse bloco entende como necessário para a sua fortificação diante da veloz transformação da sociedade em termos globais: às reelaborações dos paradigmas culturais, ao novo ordenamento internacional, às radicais inovações tecnológicas e aos refinados estilos produtivos. Não abro mão de pensar e defender a educação - tanto sistemática quanto assistemática - como um dos espaços onde se trava uma relação que deve formar homens e mulheres para a vida com dignidade, com liberdade, com lazer, com autonomia, com consciência, com ética, com diálogo entre os pares. Isso é possível se considerar o ser humano como um ser político e não apenas em nível retórico, como fazem hoje os reformadores, mas na práxis cotidiana. Estou falando não de um ser político determinado de fora para dentro por alguém ou grupo que tem poder de legitimá-lo como tal, mas de um ser político que se constrói e reconstrói no seu pensar e na sua ação com os outros. Assim acontece, também, com a formação para a cidadania que as leis têm tentado formalizar e, neste intuito, tornando-a demasiadamente simplificada e limitada em seu significado. No contexto do MERCOSUL, existe uma defesa quanto à função da educação que deixa claro que: Es evidente que, ante a magnitud del cambio registrado em el escenario planetário, la educación, necessariamente ha de reformularse teniendo em cuenta los nuevos desafios (...) podemos afirmar que, desde um planteo ideal para alcanzar la calidade educativa, debemos garantizar que los sistemas educativos conformen su oferta conjugando equidad (para todos), pertinencia cultural (partiendo de Ias singularidades y las propias características), eficiencia (correcta asignación dt recursos) y eficacia (capacidad de obtener los resultados esperados). (Instituto de Investigación, Capacitación y Perfeccionamento Educativo - INCAPE, 1996, p. 13). Essas proposições requerem algumas demandas representativas para a tarefa educativa delineada dentro desse contexto, o que exige colocarmos em evidência uma possível agenda de questões que merecem olhares mais atentos: educação pública e novos formatos estatais, relação entre política curricular e os processos de globalização, por exemplo. Não podemos perder de vista que, hoje, mais do que nunca, a educação deve cumprir seu papel como um instrumento muito valioso com o qual contamos para fortalecer o processo de construção de novos espaços para o desenvolvimento humano, tanto em sua dimensão política - como afirmação e alargamento de sua vocação democrática - quanto em sua dimensão cultural - com o fortalecimento da reafirmação identitária diante -, de um mundo globalizado. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 60 A proposta curricular para a EJA justifica a atenção que se tem dado nos últimos anos aos não alfabetizados ou pouco escolarizados, argumentando em favor do desenvolvimento econômico (imperativo do mercado mundial) por serem potencialmente produtivos. A dimensão econômica (capacitação para o trabalho e melhoramento da produtividade) é que tem ditado regras sobre o papel que a educação deve assumir. Esse é um fato que se explicitou nas ações dos técnicos educacionais ou de representantes dos quatro países integrantes do MERCOSUL por ocasião d.a sistematização do Tratado de Assunção, cujo Programa II definiu: la necesidad de promover estrategias de desarrollo educativo para la enseñanza básica y media destinadas a favorecer la capacitación de La población en el manejo de conocimientos y destrezas requeridos para un eficaz desempeño ciudadano e productivo a fln de responder a las demandas del MERCOSUR Entre las líneas de trabajo se propone la actualización de contenidos para satisfacer las demandas emergentes de un mercado ampliado. En ese sentido se ha comenzado el relevamimto de las currículas de cada uno de los países en esos niveles para proceder, en un segundo momento, a lá realización ded estudios comparativos y analizar las reformas necesarias para integrar las demandas del MERCOSUR en especial en las áreas de matemática, ciencias, hitoria y geografia. (PIÑON e PULFER, 1993, p. 9). Assim sendo, a educação encontra-se novamente no centro das estratégias governamentais e empresariais, pois é fator fundamental no processo de qualificação dos indivíduos para a produção e consumo baseados em tecnologias evoluídas e adequadas ao nível da competitividade internacional Existe, nitidamente, um consenso de que a educação desempenhará papel central nas estratégias de desenvolvimento dos países latino-americanos para enfrentar os desafios decorrentes do avanço da revolução científicotecnológica, da transformação produtiva, da democratização e dos processos de integração continental A formação integral da pessoa humana está presente na Constituição, e, principalmente, na Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Brasileira n.° 9.394/96 (BRASIL, 1996) como princípio norteador da educação nacional Mas, diante dos interesses em redefinir o papel da educação, parece.ser anulada pelos conhecimentos episódicos inerentes aos interesses de um país ou de um bloco por tomar-se competitivo. A educação pensada para o BrasiI, hoje, tanto no âmbito da educação de jovens e adultos como em outras modalidades e etapas, precisa levar em conta a análise que Célio Cunha (2001) faz em relação à formação do cidadão versus competitividade: Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 61 Atualmente há uma tendência, principalmente em certos segmentos empresariais, de se falar em uma educação para a competitividade. O problema é que a educação é uma coisa que remete a valores e isso significa que essa “educação para a competitividade" não pode se resumir à introdução de alguns elementos nos currículos escolares que satisfaçam a ânsia de alguns setores produtivos pela formação de indivíduos mais ''competitivos” Porque muito mais importante do que isso é você formar cidadãos, formar pessoas que sejam capazes de questionar a realidade em que vivemos hoje. (CUNHA, 2001 apud SETUBAL, 2001, p. 109). A reforma curricular e a educação de jovens e adultos são temas que fazem parte do conjunto de medidas propostas pelo MERCOSUL. No que se refere ao currículo, os países que o integram acordam, por meio do Protocolo de Intenciones, de 13 de dezembro de 1991, implementar ações educativas para a capacitação dos recursos humanos a fim de contribuir ao desenvolvimento: Propender a la incorporación de contenidos vinculados ao MERCO-SUL, em los currícula de todos os niveles de enseñanza [...] Reformular los curricula de todos los niveles en temáticas referidas ai trabqjo, empleo, producción e innovaciones cientificotecnológicas [...] Dotar a los deseños curriculares de la necesaria flexibilidad que les permita dar respuestas rápidas y eficientes a los requerimientos de los sectores socio-económicos (URUGUAI, 1997a, p. 37). Para as ações de harmonização dos sistemas educativos, o Protocolo propôs ''Crear uma red institucional de cooperación técnica, prefirentemente en las áreas de Educación Inicial, Primaria, Media, Especial y de jóvenes y Adultos"(URUGUAI, 1997a, p. 38). A Comissão de Ministros de Educação dos países signatários definiu como urna das linhas de trabalho, em 1992, a realização de "estudos regionales de modelos alternativos de educación de adultos que favorezcan una mayor vinculación con el sector produtivo" (URUGUAI, 1997b, p. 85) e, para isso, a atividade principal seria a formação de equipes nacionais que buscassem informações sobre os modelos de educação de adultos em cada país. Vale ressaltar, no entanto, que todo esse discurso e os planos de ação do MERCOSUL estão embebidos do intuito de se perseguir urna melhor adequação dos países e, portanto, de suas populações aos imperativos das configurações internacionais quanto à competitividade econômica e produtiva, e o Brasil tem obedecido a essa cartilha. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 62 O MERCOSUL se preocupa mais com uma educação que garanta maior eficiência na produção, pela especialização crescente dos agentes econômicos que garanta: Estabelecimiento de uma nueva aliança entre el sector educativo y el sector produtivo... Se requiere que la educación genere em los indivíduos conocimientos, actitudes, vahres y competecias conducentes a la apropiación de las innovaciones científtcotecnológicas. (URUGUAI, i997b, p. 79-80). Embora o MERCUSUL tenha ressaltado a importância de que se realizem reformas nos sistemas educacionais e no currículo para a EJA, o maior peso para que isso se efetivasse veio das exigências do Banco Mundial (BM) que, por exemplo, tem manipulado o setor educacional de muitos países em desenvolvimento, inclusive do Brasil, como agência financiadora e de assessoramento, com o objetivo de impor um modelo de educação restrito aos apelos do desenvolvimento econômico. Sua participação na área social, por meio de seus empréstimos e assessoria técnica, vem crescendo ao longo dos anos e a educação tem sido o setor de grande investimento por ser entendida como fator preponderante para a formação do "capital humano". O interesse do Banco Mundial em disponibilizar recursos financeiros e dar assessoria técnica para o Brasil não se justifica pela preocupação em melhorar a qualidade de vida da população. Essa é uma prática que é preconizada pelas metas do mercado mundial. Toda a dinâmica do pensamento do BM se constrói de forma abrangente, envolvendo a participação de inúmeros agentes dos países com os quais se relaciona. Não só em termos de pessoas físicas, mas na área da Educação, os acordos envolvem instituições acadêmicas e de pesquisa, assim como ONGs. Nem sempre, o real interesse dessa instituição é por ela ou pelos seus articuladores explicitado, o que requer que pesquisas mais profundas sejam realizadas, de modo que se verifique o seu papel ante a nova ordem mundial que está posta. No que se refere à educação, Kruppa (2004, p. 15) mostra a sua preocupação com o fato de que: É "simples': pouco reveladora a atribuição ao BM das reformas educacionais em curso nos países de terceiro mundo, se não percebermos as articulações feitas para que isso ocorra, no interior dos próprios países. Ar reformas brasileiras, nos anos 90, aperfeiçoaram e com certeza têm surpreendido a própria equipe do BM. Os brasileiros que dela participaram são mais BM que o próprio Banco. E isto é uma ação, de certa forma prevista, pelo BM, na sua formal arquitetura organizacional que veicula um determinado "clima institucional': mas que é ainda pouco discutida nos trabalhos apresentados. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 63 Essa autora faz um estudo no qual focaliza as relações internas do país, em termos dos empréstimos concedidos pelo Banco aos setores público e privado, trazendo os mecanismos pelos quais o Banco atua junto ao governo brasileiro. O BM atua em vários setores da sociedade, mas o que interessa a este estudo é a definição de concepções e de formas de atendimento relativas voltadas aos aspectos educacionais, principalmente no que diz respeito à educação básica onde a EJA (10 e 20 ciclos) está situada. A escola que deve assumir o quesito de obrigatoriedade, sendo estendida ao conjunto da população é aquela composta pelo primário e pelo primeiro ciclo do secundário. Ainda que sejam dados exemplos de escolas básicas, em que grande parte do custeio é feita por meio de contribuições da comunidade, o Banco admite que a sua oferta principal seja de responsabilidade do setor público. Para que se consolide toda uma dinâmica de ordenamento sistêmico dos vários níveis de ensino, o Banco oferece, em primeiro lugar, suas vantagens (recursos + concepções + conhecimentos + assessorias) para o Brasil, propondo, inclusive, as adequações jurídicas necessárias para a montagem integrada do sistema educacional com essas configurações. Em segundo lugar, em torno do princípio da governabilidade, cujo centro é a definição dos níveis de articulação entre as esferas de governo dos países e do comando do sistema, coloca a proposta de processos de descentralização, mas com a construção de uma engenharia de controle centralizada, baseada na forte ênfase à padronização (do currículo ao conjunto de insumos/ inputs do sistema) e da montagem de um sistema potente de avaliação, bases fundamentais do processo de reforma implantado nos anos 90 do século XX. A todos esses itens, o Banco disponibiliza não só recursos, mas assessorias e informações, com cursos e sites especiais, nos quais os países podem encontrar modelos e ferramentas ("toolkits”). Segundo Torres (2001), embora o BM chame a atenção para a necessidade de se melhorar a qualidade, a eqüidade e a eficiência do sistema educativo, o seu "pacote" está fazendo com que os países em vias de desenvolvimento reforcem e invistam na reprodução ampliada do modelo educativo convencional, só que em novas roupagens e com a utilização de modernas terminologias, mas as bases são as mesmas: Reduz educação à escola: assume que a política educativa resumese à política escolar, que o sistema educativo é a única fonte de aprendizagem, que a educação básica (ou seja: a satisfação das necessidades básicas de aprendizagens de crianças,jovens e adultos) resolve-se dentro das salas de aula, desconhecendo o papel da família, da comunidade, da brincadeira, do trabalho, da experiência, dos meios de comunicação, como espaços educativos Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 64 tanto ou mais importantes do que o equipamento escolar. (TORRES, 2001, p. 176). Outras características desse modelo educativo proposto pelo BM são: visão eminentemente setorial da educação, sendo esta um monopólio de um ministério da área, sem diálogo com outros setores; carece de uma visão sistêmica, prevalecendo a desconexão entre os diferentes níveis educativos, sem entender a mudança educativa como uma mudança sistemática; é permeado por uma visão dicotômica da realidade e da política educativa (quantidade/qualidade, criança/adulto, educação básica/superior, administrativo/pedagógico, conteúdos/métodos, formação inicial/capacitação em serviço, oferta/demanda, centralizado/descentralizado etc.); desenvolve-se a curto prazo, atrelado aos tempos da política (período de governo) e não aos tempos da educação; é vertical e autoritário, centralizado na tomada de decisões, sem envolver o público e sem transparência no uso dos recursos; privilegia principalmente a quantidade sobre a qualidade, os resultados sobre os processos, o quanto se aprende sobre o "que”: o "como" e o "para que" se aprende; prioriza o investimento nas coisas sobre o investimento nas pessoas; baseia-se numa suposta homogeneidade sem reconhecer, aceitar e lidar com a diversidade; vê a educação como um processo de transmissão, assimilação e acumulação de informação/conteúdo (enciclopedismo); considera a formulação de políticas como eterno partir do zero sem visão retrospectiva e sem dar atenção às condições reais e específicas (políticas, sociais, culturais, organizativas) de implementação (TORRES, 2001). Portanto, minhas leituras me permitem afirmar que, longe de superar a pobreza por atender às necessidade do trabalhador, o que está em jogo na atuação do Grupo Banco Mundial são as exigências do grande capital internacional, visto que são colocados como elementos distintivos do pacote de reforma: primeiro, a educação básica como prioridade, pois ela é vista como a pedra fundamental do crescimento econômico e do desenvolvimento social e como um dos meios mais eficientes para melhorar o bem-estar dos indivíduos, ou seja: A educação básica proporciona o conhecimento, as habilidades e as atitudes essenciais para funcionar de maneira efetiva na sociedade sendo, portanto, uma prioridade em todo lugar. Esses atributos formam um nível básico de competências em áreas gerais tais como as habilidades verbais, computacionais, comunicacionais, e a resolução de problemas. Essas competências podem ser aplicadas a uma grande variedade de empregos e permitir às pessoas adquirir habilidades e conhecimentos específicos orientados para o trabalho, quando estiverem no local de trabalho. (BM, 1992 apud TORRES, 2001, p. 131). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 65 Segundo, a melhoria da qualidade (e da eficiência) da educação como eixo da reforma educativa. Tal qualidade, na concepção do BM, se traduz no fato de as escolas olharem para fatores que interferem na aprendizagem efetiva das pessoas: a) aumentar o tempo de instrução, com o prolongamento dos dias letivos durante o ano escolar, flexibilizando os horários e aumentando as tarefas de casa; b) aquisição de livros didáticos, vistos como o meio mais efetivo de se operar o currículo escolar; c) melhorar o conhecimento dos professores por meio de capacitação em serviço, desprivilegiando a formação inicial e estimulando as modalidades a distância. A minha preocupação com as interferências desses organismos internacionais na educação brasileira é devido ao risco de se perder toda uma história de luta em prol de uma educação pública de qualidade. A política educacional, sendo um "instrumento para se projetar a formação dos tipos de pessoas de que uma sociedade necessita [...] definindo a forma e o conteúdo do saber que vai ser passado de pessoa para pessoa para constituir e legitimar seu mundo" (MARTINS, 1994, p. 9-10), deve estar em consonância com os nossos interesses de garantir nossos direitos, nossa cultura, nossa autonomia social, política e produtiva, mas o que verifico é o Estado tentando colocar uma "cortina de ferro" entre as decisões que ele apóia e as reivindicações da sociedade civil. É possível verificar que as idéias de uma política educacional internacional, pautada em uma política neoliberal, preocupada com a globa1ização, têm influenciado as configurações da política educacional brasileira, marcada por reformas nas leis e nos currículos escolares, e tem tentado legitimar-se sob os argumentos de cidadania, participação, ética, valorização da cultura e do conhecimento popular, lançando-se, no plano teórico, a uma visão de educação libertadora e colocando à frente da formulação curricular ONGs como a Ação Educativa. A ONG Ação Educativa é urna entidade que tem participado de ações importantes nas reformas educativas no Brasil, principalmente as ocorridas no âmbito da EJA quando coordenou a elaboração da Proposta Curricular para o Primeiro Segmento. A Ação Educativa (2005a) é uma organização não governamental que atua nas áreas da educação e da juventude. Fundada em 1994, desenvolve projetos que envolvem formação de educadores e jovens, animação cultural, pesquisa, informação, assessoria a políticas públicas, participação em redes e outras articulações interinstitucionais. Com base em Setubal (2001), algumas evidências que justificam a escolha da ONG Ação Educativa para elaborar a Proposta Curricular para a Educação de Jovens e Adultos - PCEJA, 10 Segmento, podem ser levantadas: a presença crescente de atores da sociedade civil em atividades que poderíamos classificar entre os "deveres" do Estado, tais como educação, saúde e assistência social, que foi uma das marcas distintivas dos anos de 1990 no Brasil; a "reforma do Estado" (também na década de 1990) pensada como alternativa à crise Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 66 econômica gerada, entre outros fatores, pela intensificação do processo de globalização e que teve como objetivo principal a redução do papel do Estado, que abandona progressivamente sua intervenção direta na esfera produtiva e de prestação de serviços, passando a assumir cada vez mais uma função eminentemente regulatória; nas áreas de interesse social, como é o caso da educação, toma corpo a percepção de que a satisfação das necessidades básicas da população brasileira não pode depender mais apenas da ação do Estado e que as entidades da sociedade civil devem ter aí uma participação fundamental. Considerando que o valor maior da participação da sociedade civil está no conjunto das ações que reflete o seu dinamismo, a mobilização de vontades, o acolhimento e fortalecimento dos diferentes grupos que compõem essa sociedade, Setubal (2001) afirma que a heterogeneidade dos projetos desenvolvidos por organizações da sociedade civil na área da educação expressa-se em diferentes segmentos de atuação, podendo ser classificados como: parcerias direta em ações governamentais e desenvolvimento de projetos sociais e educacionais próprios. A primeira classificação nos interessa, pois é com essa configuração que: ONGs, universidades, fundações vêm desenvolvendo, ao longo da década [1990], inúmeros projetos sob encomenda de governos, tanto em nível federal como estadual e municipal, os quais tiveram influência nos avanços das políticas educacionais - trata-se de um processo recente e que, ao mesmo tempo, contribui para o fortalecimento das próprias organizações, incluindo: ['...] parâmetros curriculares para a educação de jovens e adultos, elaborados pela ONG Ação Educativa. (SETUBAL, 2001, p. 65, Grifo nosso). Segundo o depoimento de Sérgio Haddad (apud SETUBAL, 2001), a Ação Educativa teve dois tipos de atuação durante a década de 1990: um, que foi o prosseguimento do trabalho como os movimentos sociais e, outro, que foi o começo da forte participação na questão das políticas públicas, que teve início na defesa do direito à educação, na Constituinte, e posteriormente na elaboração da própria LDB, chegando às “políticas de monitoramento”, pensadas a partir da mobilização feita durante o Ano Internacional da Alfabetização. Para Haddad, esse dois movimentos foram importantes e refletem um pouco as alterações que ocorreram na atuação da Ação Educativa ao longo dos últimos anos, em função dos limites que se colocavam à discussão da educação de jovens e adultos, visto que não se pode mais pensar na questão de jovens e adultos sem levar em conta uma concepção de educação que seja mais ampla, o que forçou (e tem forçado) a entrada da ONG no campo da chamada "reforma educativa", e a partir daí formular uma nova compreensão sobre o locus da educação de jovens e adultos. Essas formas de atuação frente aos problemas da Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 67 educação de jovens e adultos foram determinantes para a Ação Educativa ao longo da década de 1990. Três pontos quero ressaltar sobre essa ONG: o primeiro é por ser ela a responsável pela elaboração da Proposta Curricular Nacional para o 1° Segmento da EJA (PCNEJA) que orienta a elaboração de programas de educação voltados para jovens e adultos. Nesta proposta são sugeridos blocos de conteúdos e tópicos de estudo, organizados em três áreas: Língua Portuguesa, Matemática e Estudos da Sociedade e da Natureza, que não deixa de ser um documento encomendado pelo MEC, cujo papel é de agir na conformação final da prescrição curricular. Junto aos parceiros, o Estado acaba impondo a regulação da política curricular que a ele interessa. A Ação Educativa, mesmo não sendo Estado, coordena a elaboração do documento, dando uma sensação de abertura à participação da sociedade civil, mas acaba sendo revestida de um poder estatal, o que me leva a colocar outro ponto. O segundo ponto é que ela está atuando diretamente na produção, divulgação e distribuição de subsídios pedagógicos que orientem e apóiem a atuação de educadores de jovens e adultos, também com o apoio do MEC. A distribuição de materiais didáticos para alunos e professores de EJA é uma estratégia eficaz de disseminação das propostas pedagógicas desenvolvidas pela Ação Educativa. É uma maneira de ampliar o impacto do Programa para além dos educadores atendidos diretamente em atividades de formação (AÇÃO EDUCATIVA, 2005b). Trata-se da coleção ''Viver, Aprender", destinada a jovens e adultos que freqüentam programas correspondentes ao ensino fundamental. São três livros para alunos do primeiro segmento e cada um deles contempla as áreas de Matemática, Língua Portuguesa e Estudos da Sociedade e da Natureza, ou seja, eles consolidam o conhecimento prescrito na Proposta curricular. Isso me leva a afirmar que a Ação Educativa está diretamente envolvida com a produção, distribuição e consolidação na prática do conhecimento oficial que está definido pelo governo Brasileiro. O terceiro ponto está relacionado ao fato de a Ação Educativa deixar a desejar quanto ao envolvimento dos professores na discussão e elaboração da proposta curricular para a EJA, pois, além de a participação dos educadores ter sido efetuada, principalmente, por meio de pareceres enviados ao grupo de elaboração, grande parte desses documentos não foi considerada. Podemos associar esse fato à orientação da ONG que é revelada na seguinte afirmação: "Nós sentimos que era preciso sair do gueto dos educadores de jovens e adultos, pois muitas vezes nem os próprios educadores conseguiam ver o sentido desse trabalho na perspectiva mais global das políticas educacionais" (HADDAD apud SETUBAL, 2001, p. 78). Defendo a idéia de que, para se conseguir construir argumentos mais gerais sobre o processo que se desenrola na área educacional, não se faz necessário sair do "gueto" dos educadores, mas partir do que eles criticam e propõem, das dificuldades e conquistas que eles vivenciam, do conhecimento ou desconhecimento que eles apresentam e então Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 68 fazer uma reforma da educação de jovens e adultos com os pés no chão, conhecendo o terreno onde se pisa. 3 Diferentes espaços de criticas ao modelo de reforma da EJA no Brasil Algumas entidades nacionais têm demonstrado preocupação com o que vem sendo desenvolvido em relação ao atendimento à EJA: Associação Nacional de Pesquisadores da Educação - ANPED e Fórum de EJA, por exemplo, têm sido úteis na elaboração de críticas às ações dos governos e (re)colocando suas propostas para a melhoria qualitativa das reformas implementadas nacionalmente no campo educacional geral e da EJA em particular. A ANPED tem discutido assuntos referentes à política curricular para a EJA por meio da publicação de alguns artigos. No âmbito dessa instituição, a reforma curricular para a EJA deve estar imprescindivelmente ligada ao que o coletivo de professores tem apresentado como proposições à melhoria educacional (algo que as atuais reformas não consideraram) e olhar para alguns fundamentos: a) em primeiro lugar, o de que, ao se optar pelo processo de reformulação curricular pelo reflexionar dos professores sobre as suas práticas, se estaria pondo em curso um processo de formação continuada, como metodologia privilegiada de produzir conhecimento; b) ao realizar este processo, tomando em conta as práticas pedagógicas cotidianas, deixava-se emergir as produções curriculares dos professores, assumindose a noção de conhecimento produzindo em rede, nas múltiplas tessituras que os sujeitos são capazes de realizar; c) ao se fazer isto, negava-se a posição estabelecida de que é possível se ter um currículo pensado a priori, descolado das realidades dos sujeitos onde e com quem os processos educativos se dão; d) a perspectiva de que, ao intervir na realidade da qual é também protagonista, o professor deve fazê-lo na condição de pesquisador, como produtor-autor que é de conhecimentos no espaço-tempo cotidiano, exigindo, para isso, uma metodologia de pesquisa-ação que contemple essa condição. (PAIVA, 2002, p. 1). Dessa forma, a produção curricular deve sair das mãos de "especialistas" que vêm tratando o currículo como algo dado. Isso tem tirado o poder dos professores nesse processo, levando-os a não se reconhecerem como construtores de currículo. Faz-se necessário que a elaboração do currículo seja Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 69 baseada na expressão curricular que as práticas cotidianas dos professores possibilitam, visto que é na prática diária desses sujeitos, na realidade, que eles vão usando e recriando cotidianamente os conhecimentos produzidos a partir da sua inserção social e de classe. Neste sentido, Paiva (2002) diz que quando se admitem essas práticas como currículo, está se formulando um outro lugar para pensar a ação pedagógica, com professores e alunos produtores de propostas curriculares, do mesmo modo que se assume que o currículo emerge dessas práticas, das redes cotidianas, e não se formula de fora, de outro lugar diferente daquele em que a produção de conhecimento se tece. Percebo que esses interesses estão ausentes das atuais decisões sobre a definição do currículo para a EJA, pois quem orienta e quem executa a reformulação curricular tem se preocupado em colocar em prática a sua agenda social, ou melhor, a sua agenda econômica e, devido a isso, negligenciado a idéia de que uma das principais funções do currículo oficial é "dar sentido às experiências curriculares que se realizam nas escolas/ classe - sentido de uma experiência tecida coletivamente por sujeitos que recriam a sua própria prática na atividade de praticar" (OLIVEIRA, 2001 apud PAIVA, 2002, p. 8). No que se refere ao Fórum de EJA, formado pelos Fóruns Estaduais e Regionais, esta entidade vem realizando, desde 1999, os Encontros Nacionais de Educação de Jovens e Adultos - ENEJA cujo desafio tem sido: educar ética e cientificamente para a cidadania e manter viva a participação da sociedade civil, das organizações no debate com o governo e demais esferas da vida pública, para continuar organizando lutas sociais que expressem as necessidades sociais, políticas e culturais da população. (VI ENEJA, 2004). Esses encontros foram impulsionados pela necessidade de cobrar do governo brasileiro o cumprimento dos compromissos que firmou, por meio do Ministério da Educação, em encontros internacionais, desde a Conferência de Educação para Todos, em Jomtien/Tailândia (1990). No primeiro ENEJA foi defendido, por exemplo, um conceito amplo de EJA, com fundamentação na Declaração de Hamburgo, a qual deve reconhecer a riqueza proporcionada pela diversidade cultural, bem como a necessidade de respeitar o conhecimento e as formas de aprendizagem dos diferentes grupos sociais. Nessa revisão conceitual alguns avanços são importantes no que se refere à alfabetização; educação e trabalho; educação, cidadania e direitos humanos; educação no campo e educação indígena; e dimensões de juventude, gênero, etnia e raça. Defendeu-se também, entre outros pontos, a definição de uma política nacional integrada de EJA que considerasse: a) a necessidade de assumir um conceito ampliado de EJA, expresso como um direito de cidadania, que envolva Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 70 a formação para o trabalho. A formação de qualidade dos trabalhadores deve compreender a superação das desigualdades, o que exige metodologias adequadas, que integrem saberes construídos nas práticas sociais com o conhecimento acumulado, assim como tempos mais longos e condições efetivas de aprendizagem; b) a necessidade de que a política nacional de educação continuada e de formação profissional de jovens e adultos resulte de articulação intersetorial e interinstitucional, sob a coordenação do MEC. Mas não se pode deixar que a EJA volte a ser encarada como educação compensatória e sim afirmada como direito de cidadania quando a sociedade civil pode assegurar uma proximidade maior dos atores e constituir-se em campo de experimentação, no desenvolvimento de propostas de qualidade; c) reativação da Comissão Nacional de Educação de Jovens e Adultos, com o seu desdobramento para os Estados e municípios, de modo a estabelecer uma efetiva articulação entre as esferas públicas e a sociedade civil; d) atuação decisiva junto ao Legislativo, na discussão da Reforma Tributária, não só para manter, mas, sobretudo, para ampliar os recursos para toda a educação básica, da educação infantil até a educação de jovens e adultos; e) reforço ao papel fundamental da universidade, não apenas no que se refere à extensão, mas numa efetiva articulação desta com o ensino e a pesquisa. A universidade deve atuar decisivamente nas formações inicial e continuada de educadores, com vistas à profissionalização dos quadros que trabalham com a EJA; f) produção de material didático específico para jovens e adultos atendendo às características decorrentes das diversidades culturais (ENEJA/Rio, 2002). Do II ENEJA realizado em 2000, é importante ressaltar a indignação que os participantes do evento manifestaram contra o governo federal, por de, através do MEC, se recusar a implementar uma política educacional que contemplasse efetivamente a EJA como uma modalidade da educação básica. No Relatório Final deste evento destacou-se que: A atual política governamental no atendimento à educação de jovens e adultos encontra-se dispersa em órgãos como o Ministério do Trabalho, o Ministério da &fôrma Agrária e o INCRA, o Ministério da Educação, e se realiza em programas de cunho compensatório e projetos com caráter de campanha - a exemplo da Alfabetização Solidária e do PRONERA - que não atendem às demandas sociais, geram descontinuidades e repercutem negativamente no trabalho pedagógico. Neste sentido, reafirmamos a necessidade da construção conjunta entre governo e' sociedade civil, de políticas públicas que viabilizem uma educação de jovens e adultos de qualidade, reconhecida como direito e de acesso universal (11 ENEJA, 2002, p. 152). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 71 A configuração da política educacional para a EJA, que veio se dando nas duas últimas décadas (1990-2000), tem sido justificada pelo fato de a globalização traçar um novo mapa do mundo, em que o comércio mundial força o aparecimento de novos pólos diante da sua regra fundamental: a competitividade na corrida pelo desenvolvimento que se apresenta de forma desenfreada e que vem obrigando todos os países a arranjar trunfos específicos para participar do desenvolvimento das relações econômicas, tornando ainda mais transparente a separação entre os que ganham e os que perdem, entre os que globalizam e os globalizados. O Brasil tem acompanhado esse processo pois: A reforma educacional que vem sendo realizada no Brasil, e mais especificamente a reforma curricular que através dela vem sendo levada a cabo, inserem-se neste processo. A implementação de Diretrizes Curriculares Nacionais, bem como de Parâmetros Curriculares também nacionais, derivam das agendas acordadas pelo governo brasileiro junto a organismos internacionais, através das quais o estado compromete-se em promover um novo ordenamento para o conhecimento que se quer produzido/ ensinado nas escolas. O que estamos presenciando é a submissão da escola e do currículo aos imperativos da economia postos pelo projeto neoliberal (ROCHA, 2001, p. 23). A submissão da educação, portanto do currículo, aos imperativos da globalização (principalmente da economia) tem sido justificada, também, pelo fato de que a competitividade tem se apresentado em um grau bastante elevado, ampliando a demanda por mais conhe¬cimento e informações. As transformações viabilizadas, ou que estão em processo, tendem a continuar atingindo a estrutura social, de uma forma bastante ampla, causando crescentes incertezas quanto ao futuro e tornando ainda mais complexas as relações sociais. Conclusão Embora a partir da década de 1990 o Governo Federal tenha assumido uma política de esvaziamento das reivindicações provenientes dos movimentos engendrados pela sociedade civil referentes à educação de jovens e adultos nas décadas anteriores, em prol de exigências colocadas pelo sistema econômico globalizado, e essa modalidade ainda tenha, historicamen¬te, muita aproximação com a discussão sobre a alfabetização, hoje, faz-se necessário levarmos as nossas análises, produções e ações para além do domínio do alfabeto, da grafia e da leitura, obrigatoriamente, nos encaminhando para uma Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 Ivanildo do Socorro Mendes Gomes 72 outra instância: "[...] aquela que vai mais além da atividade ligada à língua, mas também às relações de ordem social, econômica, política e cultural à qual pertencemos" (CORRÊA, 2004, p. 8). É imperativo o debate sobre a EJA, na tentativa de superarmos a centralização das decisões curriculares e sua execução, no sentido de tornar a educação mais reflexiva, problematizante, dialógica, considerando-se a complexidade humana. Para Corrêa (2004), isso só se faz com ousadia de romper com olhares cristalizados sobre a educação escolar tradicionalmente manipulada sob a regulação dos velhos manuais funcionais ou utilitaristas, procurando abrir as discussões e as possibilidades de, no processo de ensino e aprendizagem, os(as) alunos(as) e educadores(as) poderem vivenciar outras maneiras na re-leitura de suas realidades (especificas) e de lançarem outros olhares sobre a realidade social, cultura, política, comunitária na qual estão inseridos. A disputa que tem cercado o campo da EJA contribui pelo menos para que ela seja pauta freqüente nos eventos voltados à educação, tanto em nível nacional como internacional porque, de uma forma ou de outra, tem levado, sobretudo no plano teórico e das proposições, a um discurso de revalorização, inovação e melhoria da formação humana diante dos desafios sociais, políticos, econômicos, culturais e éticos. Mas o grande movimento que deu o tom da política curricular adotada, no governo FHC, para a EJA no Brasil são as orientações provenientes dos organismos internacionais. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL: ESPAÇO DE LUTAS, RUPTURAS E CEDÊNCIAS 73 Referências bibliográfica Ação Educativa. Educação, juventude e justiça social. Disponível em: <http://www.acaoeducativa.org.br/base.php?t=quemsomos&y=base&z=01>. Acesso em: 10 fev. 2005a. . Educação de jovens e adultos: pelo direito de aprender durante toda a vida. 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A Política do Conhecimento Oficial e a Nova Geografia dos (as) Professores(as) para as Escolas Brasileiras: O ensino de geografia segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais. São Paulo: USP, 2001. - (Tese de Doutorado). SETUBAL, M. A. (Coord.) Educação Básica no Brasil nos anos 90: políticas governamentais e ações da sociedade civil. São Paulo: CENPEC; UNICEF, 2001. SOARES, L. J. G. Educação de Jovens e Adultos em Minas Gerais: continuidades e rupturas. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo USP, 1995. TORRES, C. A. Estado, políticas públicas e educação de adultos. In: GADOTTI, M. & ROMÃO, J. E. (Orgs.). Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta. 3a ed. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2001. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 47-74, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA Irlanda do Socorro de Oliveira MILÉO1 Resumo: A temática do presente trabalho relaciona-se à discussão e aos questionamentos sobre as modificações e novos desafios para a educação, decorrentes do processo de descentralização pela via da municipalização do ensino, ao longo da história do pensamento educacional brasileiro. Nessa perspectiva, pretende-se discorrer sobre como essa discussão se configurou no campo jurídico-constitucional e nas normas legais que dispõem sobre a educação, tomando como base as diversas estratégias que orientaram a sua implementação, bem como suas implicações nas reformas educacionais no contexto do país. Para tanto, buscou-se um referencial teórico pertinente à temática, para o exame dos aspectos determinantes para a materialização da política de descentralização e sua relação com os aspectos sociais, políticos, culturais e econômicos de cada período aqui retratado. Palavras-chave: Descentralização. Municipalização do Ensino. Política Educational. Educação Pública. HISTORICAL LANDMARKS OF THE DECENTRAÇOZATIOM BY THE VIA OF MUNICIPALIZATION OF THE BRAZILIAN EDUCATION Absttact: The theme of the present work relates itself to the discussion and to the questions about the changes and new challenges for the education, as a result of the decentralization process by the via of the teaching municipalization, along the history of the Brazilian educational thought 1n this perspective the intention is discourse about how this discussion was featured in the juridical - constitutional field and in the legal rules that deal about the education, taking as basis many strategies thatguided it's implementation, as well as it's implications to the educational reforms in the country's context For that, was searched an apt theoretical reference to the theme, to examine relevant aspects of each period portrayed here. Key words: Decentralization. Teaching Municipalization. Educational Politics. Public Education. 1 Pedagoga. Mestranda em Educação. E-mail: [email protected] Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 76 Considerações Iniciais Este artigo centra-se nas discussões que envolvem o processo de municipalização do ensino no contexto brasileiro ao longo de sua história, buscando demonstrar quais os objetivos e estratégias utilizados pelo poder central e poder local para definir as diretrizes orientadoras e operacionais da descentralização do sistema educacional e, conseqüentemente, sobre suas reais possibilidades de democratização e participação na gestão da educação pública. Sendo assim, torna-se oportuno revisitar alguns momentos históricos em que se aludiu ou se evidenciou a descentralização/municipalização da educação nas Constituições e reformas educacionais, como meio de superar os grandes problemas educacionais e favorecer o desenvolvimento e extensão da escolarização básica, fazendo um paralelo com as questões do centralismo e do poder político local, por entender que o processo de municipalização do ensino decorre de um processo político mais amplo envolvendo posicionamentos e interesses distintos e antagônicos das forças dirigentes de cada período. Situando as Primeiras Discussões sobre a Descentralização da Educação no Contexto Brasileiro A municipalização da educação, que pode ser entendida como a descentralização do sistema de ensino, isto é, a transferência de encargo de decisão e de execução dos serviços educativos do governo federal para o âmbito estadual e municipal e que vem se desenvolvendo atualmente no Brasil por força da Emenda Constitucional 14/96 (BRASIL, 1996a), tem ocupado maior centralidade nos debates educacionais, consti¬tuindo-se, desse modo, objeto de estudo sob os mais diferentes aspectos. Essa mesma Lei que, entre outras disposições, fixa para os Estados, Distrito Federal e Municípios a aplicação mínima de 15% da receita de impostos para o ensino fundamental até o ano de 2006, e, por meio da Lei Federal 9424/96 (BRASIL, 1996c), regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério, criado pela EC citada, trata, dentre outros aspectos: da distribuição dos recursos que se dará "na proporção de alunos matriculados anualmente nas escolas cadastradas das respectivas redes de ensino fundamental" (Art. 2°, parágrafo 1°); da exigência de remuneração condigna dos professores do ensino fundamental, em efetivo exercício, e da remuneração para o Magistério (Art. 9°), que tem servido de principal motivação para a materialização da dinâmica descentralizadora do ensino no contexto brasileiro. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 77 A questão que envolve o movimento de descentralização do ensino há muito vem ocorrendo no contexto do País, conforme aponta Oliveira (1999). O autor, ao abordar em sua obra o binômio centralização/descentralização, na compreensão de afastamento do centro das tomadas de decisão, nas definições de ações para a alocação de recurso em graus variados de autonomia, observa que as medidas de descentralização na história da educação no Brasil têm sido um fator constante, apresentando-se com matizes distintas, consoante as diversas épocas históricas. Considera que o Ato Adicional de 18342 constitui-se em um marco na descentralização no contexto brasileiro em seu aspecto administrativo, determinando os rumos da educação elementar no País, uma vez que favoreceu a ampliação dos poderes provinciais em detrimento do central, quando, sob a intermitência do governo regencial, transferiu-se às províncias a responsabilidade pela instalação e manutenção do ensino primário e, por extensão, do ensino normal. Tal transferência foi justificada pelo discurso da necessidade de adaptar a educação à realidade local, porém ocultava, na verdade, um descaso do poder público central com esses níveis de ensino, sem a preocupação com a implantação real de uma política educacional de caráter mais descentralizador. Nessas circunstâncias, o Ato Adicional representou o instrumento legal mais importante para a expansão da educação elementar, além de especificar as relações entre o Estado e a educação por meio de normas que delimitavam as competências no campo da instrução das assembléias legislativas provinciais e do governo central. Contudo, a instrução elementar durante todo o Império e grande parte do período republicano manteve-se estagnada nas províncias, em virtude de estas não possuírem condições financeiras para difundir e melhorar a qualidade do ensino elementar. Com a promulgação da Constituição de 1891, Oliveira (1999) observa a existência de um dualismo nos sistemas de ensino, em que a União responsabilizava-se pela criação de instituições de ensino superior e secundário nos estados e Distrito Federal, cabendo às demais esferas a tarefa de promover a instrução primária e a educação profissional. A preocupação com a educação brasileira, principalmente quanto ao problema do ensino elementar e do profissional, vistos como indispensáveis para o progresso do país, começava a se fazer sentir nas últimas décadas do regime monárquico, em face das mudanças que a sociedade vinha sofrendo aliadas às influências das idéias liberais no campo educacional. Diante disso, verifica-se nesse período a formulação de projetos de reformas do ensino sem, contudo, mencionarem a questão da descentralização do ensino, o qual continuava ainda limitado e regido pelo Ato Adicional, mantendo-se mesmo com o início da República, desta feita justificada pelo principio do federalismo. Para um maior detalhamento da discussão que resultou na promulgação do Ato Adicional de 1834, consultar Sucupira (2001). 2 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 78 Durante o período de 1920 a 1929, o qual marca o último decênio da Primeira República3, observa-se, conforme Nagle (1976), uma curiosa crença generalizada da escolarização como mola propulsora do progresso da sociedade, amplamente difundida pelas iniciativas e reformas dos Governos Federal e Estaduais, as quais se materializaram mais no âmbito do funcionamento das instituições escolares, na administração, nos conteúdos, objetivos e metodologias pedagógicas, sendo que os imperativos constitucionais foram mantidos, impedindo maiores ações. Em outras palavras, os Estados reformaram suas escolas no campo do ensino primário, normal e profissional e a União manteve o controle e certo conservadorismo nas alterações do ensino secundário e superior. Segundo Nagle (1976), essa distribuição das competências constitucionais não impediu a interferência da União nos problemas da extensão da escola primária por meio de acordos com os Estados, tampouco impossibilitou a ocorrência de acréscimos e pequenas alterações nas escolas secundárias mantidas por diversas unidades da Federação. Outro aspecto que pode ser destacado está ligado à questão da concretização do regime federativo no Brasil e sua relação com a forma como se deu o desenvolvimento educacional durante a Primeira República, pois, apesar da ocorrência das reformas educativas, não houve mudanças no campo da descentralização. Pelo contrário, nesse período ocorreu uma tentativa de recentralização política, conquistada parcialmente pela Revisão Constitucional de 1926 (NAGLE, 1976), mas que não alterou os laços de natureza econômicosocial historicamente consagrados, muito menos as atribuições inerentes à escolarização, urna vez que o tradicional modelo centralizado r elaborado no período imperial continuou vigorando. Ao analisar a relação entre o Estado, a sociedade e a educação, Nagle (1976) ressalta que a passagem do Estado constitucionalista liberal para o Estado intervencionista foi marcada pela incisiva pressão de diversos segmentos da sociedade que formavam o poder local que reivindicavam a alteração da disciplinação jurídica corrente no campo da escolarização a fim de superar os obstáculos impostos pelos imperativos legais previstos na Constituição de 1891, responsáveis pelos entraves que dificultavam uma atuação mais ampla do Estado, ao mesmo tempo em que impediam novas e maiores responsabilidades em matéria educacional para a União e para os Estados-Membros. Esse período é marcante para o cenário educacional brasileiro, destacando-se pelo clima de efervescência política e de inquietação social, entretanto em cena o entusiasmo pela educação e o otimismo pedagógico, que tão bem caracterizaram os ideários dos movimentos políticos- sociais e das organizações partidárias da época. Isso destacou uma significativa importante da instrução em seus diversos níveis e tipos, colocando o analfabetismo como um grave problema nacional, ao mesmo tempo em que enfatizava a escola primária tanto como pilar principal para a formação da população brasileira, quanto para minimizar as desigualdades saciais. 3 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 79 Com efeito, as medidas impostas pelo Ato Adicional e reforçadas pela Constituição de 1891, no que tange às distribuições de competências, aos deveres e às obrigações do Estado federal e dos Estados-membros, tornaram-se um pesadelo para os que defendiam uma maior atuação do Estado no campo da educação no período republicano, por conta da força da interpretação que lhe foi auferida, transformando-se em princípio doutrinário: Doutrina essa institucionalizada por força do poder político local que caracterizava a sociedade brasileira desde o período monárquico e que foi mantida na República, alicerçada em forte predomínio político e econômico da aristocracia rural e da burguesia urbana mercantil, que pouco se sensibilizava com o imperativo da universalização da educação elementar. Suas preocupações eram voltadas para a educação superior por esta representar o espaço da formação da elite política e formar os quadros profissionais para a burocracia estatal Daí sua ampla defesa pelo controle do Estado no ensino secundário e superior, pois estes representavam locais privilegiados para a manutenção da ordem social. Mediante esse argumento, a União torna-se um aparelho de interesse oligárquico e desobriga-se do provimento da educação dirigida à camada popular, conferindo aos Estados e ao Distrito Federal a responsabilidade pela reformulação dos padrões educacionais públicos do país, especialmente em relação ao ensino primário e normal, Daí o entrave, ao menos formal que na história da educação brasileira representaram tais dispositivos ou a interpretação que lhes foi dada - na medida em que cercaram a liberdade de ação do legislador ordinário, impediram a necessária atuação do Governo Federal no domínio do ensino primário e a dos Governos Estaduais na área do ensino secundário e superior. (NAGLE, 1976, p. 282). Dada a situação enfrentada pela educação nas duas últimas décadas da Primei¬ra República, quanto à competência da União e dos Estados-membros decorrente dos dispositivos constitucionais, a temática da descentralização é invocada novamente com a divulgação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (PENNA, 1987), lançado em 1932, tendo como redator Fernando de Azevedo, estudioso que muito contribuiu para o pensamento educacional brasileiro ao defender a educação como um problema político e não somente um problema técnico, sem vínculo algum com o contexto social econômico e cultural do país. O projeto azevediano de reconstrução educacional traduz, segundo Penna (1987), a crença daquele autor na educação como mecanismo de transformação social ao propor um amplo programa que abarcasse reformas Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 80 econômicas, sociais e pedagógicas, de modo a superar tanto a educação elitista efetivada quanto o alto índice de analfabetos no Brasil. Entretanto, a maior expressão de Azevedo referente à sua forma de pensar a educação encontra-se no Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, que, em linhas gerais, delineia as finalidades da educação; o papel do Estado em face da educação; defende a questão da escola única para todos e os princípios da laicidade, gratuidade, obrigatoriedade e da autonomia da função educacional; de forma incisiva, destaca a questão da descentralização como elemento potencializador do desenvolvimento de intercâmbios, a solidariedade e a produção de melhores resultados educacionais, defendendo uma organização da educação brasileira unitária sobre as bases e os princípios do Estado e de acordo com as necessidades regionais, fugindo do modelo centralizado que até então vigorava. Isso se confirma na seguinte passagem: Por menos que pareça, à primeira vista, não é, pois, na centralização, mas na aplicação da doutrina federativa e descentralizadora, que teremos de buscar o meio de levar a cabo, em toda a República, uma obra metódica e coordenada, de acordo com um plano comum, de completa eficiência, tanto em intensidade como em extensão. A União, na capital, e aos Estados, nos seus respectivos territórios, é que deve competir a educação em todos os graus, dentro dos princípios gerais fixados na nova constituição, que deve conter, com a definição de atribuições e deveres, os fundamentos da educação nacional. Ao Governo central, pelo Ministério da Educação, caberá vigiar sobre a obediência a esses princípios, fazendo executar as orientações e os rumos gerais da função educacional, estabelecidos na carta constitucional e em leis ordinárias, socorrendo onde haja deficiência de meios, facilitando o intercambio pedagógico e cultural dos Estados e intensificando por todas as formas as suas relações espirituais. (MANIFESTO DOS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO NOVA, 1932, In: PENNA, 1987, p.191). Alguns dos ideários defendidos pelo movimento escolanovista foram atendidos na Constituição de 1934 (FÁVERO, 2001, ANEXOS), em um capítulo específico sobre a educação. É importante ressaltar que nessa Constituição, pela primeira vez, foi incluída a questão da aplicação dos recursos públicos em educação. Em seu Artigo 156, dispõe que a União e os Municípios Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 81 deverão aplicar nunca menos de 10%, ficando os Estados e o Distrito Federal com a responsabilidade de investir nunca menos de 20% na educação pública4. Com o Golpe de Estado no Brasil, em 1937 instaurou-se o Estado Novo trazendo em seu bojo um viés autoritário e unificador. O movimento de democratização da educação empreendido pelos pioneiros entra em declínio por força de um projeto educacional como instrumento para desenvolver o sentimento patriótico e inculcar na população os princípios do Estado Novo. Por isso não foi surpresa quando na Nova Constituição, outorgada em 1937 (FÁVERO, 2001, ANEXOS), colocou-se urna educação a serviço do Estado, acentuando-se uma tendência centralizadora com nítida intervenção incondicional do Governo Federal no sistema de ensino brasileiro, deflagrando um retrocesso no movimento democrático no país. Ao discutir a relação entre a educação e o autoritarismo político nos anos 30 a 45 do Século XX, Horta (1994) ressalta as mudanças empreendidas pela Nova Constituição no âmbito educacional55. Nessa perspectiva, a educação deveria formar o cidadão do Estado Novo. Mediante essa compreensão, o Governo Federal passa a assumir a direção global do sistema educacional, fixando as diretrizes fundamentais responsáveis pela orientação do funcionamento de todo o aparelho educativo do país, ou seja, ao governo central cabia a competência "de presidir, orientar, coordenar e controlar a reorganização do sistema escolar do País" (HORTA, 1994, p. 168). Para executar tais ações, o governo federal atuaria sobre o ensino primário e profissional intervindo igualmente no ensino secundário, visto como ensino preparador da elite intelectual. No ensino superior, por ser o nicho de formação da elite intelectual do país, a intervenção seria bem mais específica, atuando nesse nível por meio da adoção de uma universidade-padrão, com programas e critérios de funcionamento, fiscalização, finalidades orientadoras e recursos financeiros definidos pelo próprio governo, tanto para as universidades públicas quanto para as particulares. Pinto (2000), ao analisar a questão do financiamento da educação e das fontes de recursos destinados ao ensino, observa que falta de compromisso do governo público com o ensino sempre fez notar no Brasil desde a época de sua colonização, fato que contribuiu para escassez de instrumentos que viabilizassem a materialização de ações mais efetivas, principalmente no que tange a seu financiamento. Esse somente foi incorporado na Constituição de 1934, sendo suprimido da Constituição de 1937, retornando na Constituição 1946, para ser novamente revogado no Governo Militar, época em que houve maior extensão de matrícula e menor investimento na educação por parte da União. Porém, foi nesse período que foi criado o SalárioEducação, principal fonte de financiamento do ensino fundamental, que permanece até os dias atuais com algumas modificações. Daí o autor ressaltar que a questão da vinculação constitucional dos recursos, embora represente um aspecto positivo, de modo geral demonstra a “preocupação” com que é tratada a educação durante sua trajetória histórica, 5 É interessante ressaltar que grande porta-voz dessa política conservadora getulista foi o então Ministro da Educação, Gustavo Capanema. 4 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 82 Mediante essas ações, o pensamento conservador-estatista é evidenciado na Era Vargas, consolidado por um viés exacerbado de centralização do governo central, tendo como contrapartida o esvaziamento dos Estados federados e municípios, bem como do poder de seus governadores, sem esquecer o encapsulamento e negação do princípio federativo brasileiro. Um Novo Caminho para a Municipalização no País Ao término da era Vargas, o Estado brasileiro adquire um caráter populista-desenvolvimentista, em que a sociedade experimenta um movimento de redemocratização com grandes possibilidades para a organização popular, o que foi conquistado por meio da consagração do presidencialismo e do federalismo amparados pela Constituição de 1946. A questão educacional configura-se, nesse contexto, como uma das principais demandas da população, ganhando destaque nessa Constituição de conteúdo liberal-democrático, na qual foi confirmado o direito à escola básica e assinalados instrumentos legais e financeiros para a sua efetiva viabilização, dentre eles a determinação de se elaborar Diretrizes e Bases para a Educação e a institucionalização dos Conselhos Nacional e Estaduais de Educação. Embora tenha representado um curto período de trégua de regimes autoritários 6, merece ser destacado porque, aproveitando os tempos de liberdade, Anísio Teixeira defende incisivamente a descentralização do ensino primário e de uma escola comum a todos. Na obra intitulada "Educação não é Privilégio" (1957), Anísio Teixeira elabora uma metódica discussão questionando a problemática situação educacional do país, decorrente do arcaísmo e do dualismo do sistema educacional em que colocava a educação como privilégio de poucos, ao mesmo tempo em que deteriorava o ensino primário, pois entendia que a tão proclamada extensão da educação, na verdade, representava uma grande falácia, pois, em "face do crescimento da população, estamos a congestionar as escolas e não a aumentá-las, estamos a reduzir o ensino e não a aumentá-lo" (TEIXEIRA, 1957, p. 30). Nesta conjuntura, o processo educativo servia para aprofundar ainda mais as diferenças sociais e culturais, pois as escolas apresentavam um congestionamento e uma considerável estagnação e redução do ensino primário em favor dos outros níveis de ensino (principalmente o secundário e o superior). Em suas palavras: "A escola era para a chamada elite", ou seja, uma escola pública dita democrática, de preparação de privilegiados que A esse respeito, ver Boaventura (2001), pois para esse autor, embora a Constituição Federal de 1946 se configure como um documento político sem maiores inovações, representou um elemento que inaugurou um reingresso à democracia, um breve percurso liberal que vigorou entre os anos de 1946 a 1964. 6 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 83 "consistiu em permitir ao 'pobre' uma educação pela qual ele participasse da elite" (idem, p. 38). Diante das vicissitudes que o ensino primário apresentava, Teixeira (1957, p. 51) defende a tese da necessidade irrevogável de uma nova política educacional, por meio da regionalização da escola, caracterizando-se "pela municipalização local, programa local e professor local", cujo aspecto central e racional se apresenta pela descentralização como contraponto às cautelas centralistas e centralizantes existentes e como medida basilar por conta da extensão territorial e do regime federativo adotado no Brasil. Ao propor uma reforma educacional pautada na descentralização e autonomia das escolas, salienta que o seu entendimento de descentralização não se configura somente uma medida técnica imposta, mas representa "um ato político de confiança na nação e de efetivação do princípio democrático de divisão do poder, a impedir estrangulamentos da centralização e dificulta a concentração de forças que nos levaria a regimes totalitários" (TEIXEIRA, 1957, p. 55). Em sua proposta de reforma educacional, apresenta um plano de colaboração entre Município/Estado/União por meio dos fundos financeiros previstos na Constituição de 1946, que estabelece que à União compete a aplicação anual de 10%, e aos Estados, Distrito Federal e Municípios o percentual de 20% da renda resultante dos impostos para a manutenção e o desenvolvimento do ensino. Defende, igualmente, como sendo dever democrático, constitucional e imprescritível de a União oferecer a escola primária, prestar assistência financeira e técnica às unidades escolares, bem como regulamentar o exercício da profissão. Por meio de uma parceria entre os três níveis de poder público, propõe uma distribuição de competências, na qual Estado e União ficariam incumbidos de exercer seus deveres de dar assistência supervisora, orientar e coordenar esforços para juntos construírem a escola nacional, mas respeitando as diversidades regionais e locais. Aos Municípios faculta a responsabilidade de administrar as escolas locais e trabalhar em colaboração com o Estado. Assim, os três níveis de governo funcionariam sob o regime de sistema contínuo de educação, independentes, porém, articulados. Segundo as palavras de Teixeira (1957, p. 58), o sistema de educação ficaria organizado da seguinte forma: O Município, com seu sistema de escolas locais, primárias e médias, [...] o Estado, com suas escolas médias, superiores e profissionais, exercendo e sofrendo influências das escolas locais e detendo o poder de formar o magistério primário e a União, com o sistema federal supletivo de escolas superiores, escola primárias e médias de demonstração, órgãos de pesquisa educacional e o poder de regulamentar as profissões. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 84 Outro ponto destacado pelo autor é a efusiva preocupação com o controle administrativo e social, devendo este ser exercido por intermédio dos Conselhos de Educação instituídos por lei, nos âmbitos federal, estadual e municipal, como órgãos de gestão autônoma e com responsabilidade de fiscalizar o financiamento e a administração dos fundos de educação nos três níveis de governo7. Ao defender a municipalização do ensino primário, Teixeira (1957) vislumbra condições promissoras para a educação superar as mazelas de uma sociedade desigual e classista - construída desde o período colonial - e que se conservou mesmo depois da Independência e da República, utilizando-se do processo educativo para cooptação política e para a manutenção do poder político local, sem se preocupar com os interesses e anseios da camada popular. O debate acerca da descentralização / municipalização do ensino, fortemente evocado nos discursos progressistas desse período, serviu como um dos princípios básicos do plano que deu origem à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional- Lei n° 4.024/61 (BRASIL, 1961), proveniente da elaboração do projeto do então Ministro de Educação Clemente Mariani, em 1948. Sendo a primeira lei geral de educação, possibilitou a descentralização do ensino da esfera federal para a estadual, com a institucionalização dos sistemas de educação, do Conselho Federal de Educação (art. 8) e dos Conselhos Estaduais de Educação (art. 10) como órgãos da administração direta do Ministério da Educação e Cultura e das Secretarias de Educação estaduais, sendo que a institucionalização dos conselhos estaduais significou a demonstração de uma compreensão de administração descentralizada em matéria de educação (artigos 11 e 12), conforme aponta Boaventura (2001). A partir da LDB 4.024/61 (BRASIL, 1961), o governo federal desponta com a sistematização de um conjunto de medidas de planejamento global para a educação e ao mesmo tempo prevê ajustes financeiros para as escolas privadas, obscurecendo assim a questão da descentralização do ensino em função da questão do ensino público versus ensino privado motivada pelo Substitutivo Lacerda, o qual fomentou discussões dos subsídios para as escolas particulares, dando início a uma tendência privatista do ensino, a qual vai se fortalecer durante o governo militar. Como forma de complementar sua idéia sobre a importância dos Conselhos na educação pública, argumenta ainda acerca do propósito de dar à educação o cunho de serviço local, organizado pelos Estados, conforme as exigências legais da Lei de Diretrizes e Bases, ministrado pelos os Municípios e Estado. A União ficaria limitada ao caráter supletivo, com intuito de organizar o sistema de educação e fixar diretrizes e bases suplementares, para somente depois determinar as competências federal e estadual referentes aos objetivos do ensino e de sua organização. As competências seriam distribuídas nas ordens autônoma de governo. 7 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 85 As Estratégias Reformistas do Período Militar Em 31 de março de 1964, com a ocorrência do golpe militar, o Brasil novamente irá experimentar um tempo de regulação e autoritarismo em todas as esferas da sociedade, uma vez que o poder voltará a ser centralizado e a liberdade individual e coletiva cerceada. A educação volta a sofrer reveses, principalmente pela forte tendência de descomprometimento da União em relação ao financiamento para o ensino público por meio da supressão dos percentuais mínimos de recursos a serem aplicados em educação pela União, Distrito Federal e Estados, mantendo a obrigatoriedade para os Municípios, devendo estes aplicar 20% da sua arrecadação de tributos ao ensino primário, conforme prescreve a Constituição de 1967, reiterada pela Emenda Constitucional de 1969 (FÁVERO, 2001 - ANEXOS). Comentando sobre a política educacional implementada durante o período militar - 1964 a 1985 -, Germano (2000) afuma que essa tendência de desresponsabilização com o ensino e com a regulação dos requisitos necessários ao funcionamento do sistema educacional brasileiro se configura como característica sui generis do modelo adotado pelo governo para as políticas de reformas educativas, como a reforma universitária de 1968 e a reforma do ensino de 10 e 20 Graus implementada em 19718. Na esteira dessas mudanças, a política de educação do Governo Militar, segundo esse mesmo autor, desenvolveu-se sobre os seguintes eixos: no controle político e ideológico da instrução escolar abrangendo todos os níveis e modalidades; no estabelecimento de um vínculo entre educação e produção capitalista fundamentado na teoria do capital humano; no incentivo da pesquisa articulada à acumulação do capital; e no descomprometimento com o financiamento da educação pública e gratuita, incentivando abertamente a iniciativa privada no provimento da educação pública, ao mesmo tempo em que desqualif1ca o ensino de 1° e 2° graus. Daí a necessidade das reformas de 1968 e 1971, como forma de legitimar tais medidas. A reforma universitária, decretada sob a Lei n° 5.540/68 (GERMANO, 2000), tornou-se aparelho legal e otimizador tanto para o redirecionamento do sistema educacional, quanto para a preservação da dominação política por meio do aniquilamento do movimento social e político dos estudantes, dos professores e de outros segmentos sociais. Partindo dessa premissa, as Esse autor identifica também diversas contradições na aplicação das políticas adotadas pelos governos militares, como o discurso em defesa da erradicação do analfabetismo e a expansão da educação escolar, quando na prática esse setor era penalizado como repressão política, insuficiência e diminuição de recursos consignados no orçamento da União, alem de má administração dos recursos públicos para a área de educação. Nessa perspectiva, o Estado Militar “transformou a política educacional numa estratégia de hegemonia, num veículo para obtenção de consenso” ( GERMANO, 2000, P. 104). 8 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 86 intervenções militares se materializaram nas instituições superiores de modo que "a ordem foi estabelecida mediante a centralização das decisões pelo Executivo, transformando a autonomia universitária em mera ficção, bem como pelo uso e abuso da repressão político-ideológica" (Idem, p. 133). A universidade reveste-se, assim, de um viés pragmático marcado pelo maciço investimento em pesquisa no campo tecnológico com financiamento de setores industriais, servindo de elemento potencializador dos serviços da burguesia industrial do período, evidenciando a forte tendência do governo militar em vincular educação e mercado de trabalho. A reforma do ensino de 1° e 2° Graus, implementada por meio da Lei 5.692/71 (BRASIL, 1971), elaborada com a finalidade de democratizar o acesso à escolarização básica e oferecer igualdade de oportunidades a todos perante o mercado de trabalho, alicerçou-se em dois pontos centrais: a extensão da escolaridade obrigatória de 4 para 8 anos compreendendo todo o ensino do 1 ° grau (primário e ginásio) e a generalização do ensino profissionalizante no nível médio ou 2° grau, revelando uma educação com viés mercadológico e utilitário. Em se tratando primordialmente das políticas de descentralização por meio da municipalização do ensino nas décadas de 70 e 80 adotadas pelo governo federal e governos estaduais, por força da LDB n° 5.692/71 (BRASIL, 1971), Pelix Rosar (2003, p. 106) considera que esse movimento municipalizador deu-se mediante a implantação de projetos como o Promunicípio, o Edurural, o Pronasec, o Polonordeste e o Projeto Nordeste, com objetivo claro "de induzir a municipalização do ensino, transferindo encargos para o município, sem que se efetivasse um investimento financeiro satisfató-rio nessa instância". Mediante esse processo, o Estado concentrava os recursos no nível federal, enquanto praticava uma descentralização no nível do sistema educacional, abrindo espaço para financiamento do Banco Mundial nessa área, como os projetos acima citados. Nessa conjuntura, observou-se uma transferência para o âmbito municipal dos encargos e serviços referentes ao ensino do 1° grau sob a justificativa de descentralizar e democratizar o sistema educacional brasileiro sem, contudo, garantir o repasse de recursos para sua manutenção, colocando desse modo a responsabilidade a cargo dos municípios, argumentando que estes estavam mais aparelhados para administrar seus sistemas de ensino, identificar as necessidades locais e abrir espaços à participação popular. Refletindo sobre essa problemática, essa autora considera o fenômeno da municipalização como uma estratégia do capitalismo para implementar o processo de organização e funcionamento dos sistemas educacionais, possibilitando melhor eficácia da globalização e descentralização nos países periféricos da América Latina, claro que sob a regulação e tutela dos órgãos representantes do capital internacional, como o Fundo Monetário Internacional Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 87 e o Banco Mundial, concorrendo para a formação de um Estado como instância mediadora das relações econômicas e políticas. O movimento de municipalização emerge como solução racional para superar o desperdício de recursos na educação brasileira. Felix Rosar (2003) analisa ainda a tendência descentralizadora por meio da municipalização do ensino no Brasil e aponta que esta se materializou por meio da vinculação dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios para aplicação em educação, aliada ao reforço da estrutura técnica e administrativa municipal para a ação educacional, tendo no Projeto de Coordenação e Assistência Técnica ao Ensino Municipal (promunicípio), desenvolvido pelo Ministério da Educação e Cultura em 1974, o marco dessa nova tendência de organização do sistema de ensino no país. Tal projeto tinha como finalidade solucionar os problemas do ensino municipal, orientado pelo objetivo geral de promover o "aperfeiçoamento do ensino do 1° grau, mediante ações articuladas entre as administrações estadual e municipal" (Idem, p. 114). Diante disso, o Promunicípio funcionou como um mecanismo viabilizador das condições para o Município se responsabilizar pelo ensino do 1° grau, ficando à União a incumbência de definir as diretrizes gerais, de prestar assistência técnica e cooperação financeira por meio do Departamento de Ensino Fundamental - MEC. Em relação aos Estados, coube-lhes a tarefa de estabelecer convênios com os municípios, orientando-os na criação de oferta e demanda dos serviços educacionais9. Em face dessa realidade, a autora observa que o processo de implantação da municipalização sinaliza para uma descentralização, que ambicionava materializar uma política distributiva dos recursos com a clara intenção de garantir o controle sobre os estados e municípios. Com a reabertura democrática dos anos 1980 é que o processo de descentralização retorna com mais vigor, fomentado, sobretudo, por questionamentos da sociedade organizada em relação ao financiamento da educação, culminando com a aprovação da "Emenda Calmon" (FELIX ROSAR, 2003), a qual prescreve os investimentos na educação, cabendo à União a aplicação de pelo menos 13% e aos Estados, Distrito Federal e Municípios 25% da receita de impostos na manutenção e desenvolvimento da educação. Daí ser interessante ressaltar que, mesmo com a presença do fundo de participação dos municípios nesse processo de descentralização do ensino, isso não significa a superação das desigualdades regionais. Ao contrario, a autora citada salienta que tal política serviu para aprofundar ainda mais as desigualdades e favorecer a discriminação dos municípios mais pobres, além de cooperar para a permanência da política clientelista no pais. 9 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 88 De modo geral, a política educacional desenvolvida pelos governos militares não conseguiu concretizar suas metas propostas, na medida em que, ao isentar-se de financiar a educação pública, incentivou a privatização do ensino. Contudo, o papel dos militares na implementação das políticas públicas desenvolvimentistas foi determinante para que o Estado Liberal ganhasse campo e hegemonia nos anos 90. A Municipalização nos Anos 90 O contexto que se observou no país durante os anos 1980 e 1990 reflete o forte apelo da sociedade brasileira em participar mais das discussões que envolvem as questões da descentralização das políticas públicas e do poder decisório, da autonomia política e financeira dos governos locais, da gestão democrática e municipalização do ensino, aflorando tanto como condição essencial para a promoção da melhoria da qualidade de ensino, quanto fator de participação na aplicação dos recursos, na administração e gestão da coisa pública em nosso país. As reformas política e econômica que ocorreram nesse período histórico de abertura política, as quais incidiram decisivamente para a reafirmação do processo de implantação da municipalização e descentralização da educação no Brasil, tendo por objetivo novas formas de gestão e maior produtividade, eficiência e eficácia dos sistemas públicos, serviram de orientações para que fossem criados mecanismos de participação e distribuição de poder entre os atores e instâncias sociais, legitimados na Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), que, com seu viés descentralizador, confere o Município como ente federativo (Art.18) ao estabelecer que "a organização política administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos". a Art. 211, em concordância com o Art. 18, constitui os municípios como titulares de seus sistemas de ensino. A CF de 1988 também traça normas quanto ao financiamento da educação e dispõe que a União aplicará anualmente nunca menos de 18%, os Estados, Municípios e o Distrito Federal 25% para a manutenção e desenvolvimento do ensino (Art. 212). Essas disposições constitucionais são reiteradas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação - Lei 9394/96 (BRASIL, 1996b), que em seu Artigo 11 prescreve que o Município deverá encarregar-se de oferecer a educação infantil em creches, o pré-escolar e o ensino fundamental, prioritariamente. Esse artigo faculta aos municípios a competência de se integrar ao sistema estadual de ensino ou compor com ele um sistema de educação básica (parágrafo Único). Em seu Artigo 18, possibilita os municípios habilitar e supervisionar as instituições de seu sistema de ensino público (educação infantil, fundamental, médio e de educação infantil, inclusive, as instituições de educação infantil Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 89 criadas e mantidas pela iniciativa privada), por meio da criação de órgãos municipais de educação. De acordo com Souza e Faria (2003), essas orientações serviram de base tanto para a elaboração da LDB 9393/96, quanto para a instituição pelo Governo Federal da Emenda Constitucional 14/96, ocorrida em 12 de setembro de 1996, que propõe a criação do Fundef (regulamentado pela Lei nº 9424/96), a partir das quais verificou-se uma tendência de descentralização ajustada na regulamentação do Estado e na transferência de responsabilidades da esfera federal para o âmbito estadual e municipal quanto ao desenvolvimento da educação básica, sem que houvesse uma redistribuição efetiva do poder decisório, fato que gerou grandes tensões e conflitos nos seus desdobramentos em nível local, bem como na gestão e administração, abrindo caminho fervoroso para a materialização do movimento descentralizador e para as mais diversas interpretações e implementações dessa política nos Estados e Municípios. É interessante observar que na década de 90 o país experimentou um intenso movimento de reformas políticas e econômicas, orientadas por organismos internacionais (Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional) que desde a década de 70 se fizeram notar no cenário brasileiro e que se mantiveram nos anos subseqüentes, intervindo e elaborando políticas e estratégias para o sistema educacional, com a intenção de controlar a expansão das matrículas, discernir os problemas educativos, preparar orientações, objetivos e normas de rendimento da aprendizagem por meio de ajustes da qualidade, produtividade, eficiência e eficácia na gestão do sistema educacional público, bem como para orientações de investimentos adequados com a boa intenção de auxiliar na superação do déficit educacional do país, conforme atesta Silva (2002). As propostas interventivas incidiram na reafirmação do processo de implantação da municipalização e descentralização da educação no Brasil, alteraram substancialmente as relações intergovernamentais e, por extensão, ainda contribuíram para fundamentar as interpretações ambíguas da legislação de ensino. É possível afirmar que a intervenção dessas instituições financeiras nas políticas públicas, de modo especial nas políticas educativas, teve a anuência e o consentimento do governo federal e de alguns setores políticos, mesmo enfrentando críticas e resistências de organizações e movimentos sociais, sindicatos, entidades não-governamentais, fato consagrado mediante a participação efusiva do Brasil na Conferência Mundial de Educação para Todos em 1990 (SILVA, 2002), cuja focalização se dá no ensino primário, com centralidade na metodologia de ensino, nos recursos para a qualidade baseada na relação custo/aluno e nos resultados. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 90 Essa compreensão é vista também no estudo realizado por Gemaque (2004) sobre os impactos da municipalização do ensino no Pará10. Essa autora também chama atenção para a concentração de investimentos na educação primária, sustentada pela política de focalização da instrução formal, confirmando a aceitabilidade das orientações do Banco Mundial, pois com a descentralização e focalização promoveu-se o descomprometimento com a educação. Segundo suas palavras, "o Fundef acabou configurando-se como uma política que, além de focalizar apenas uma etapa de ensino da Educação Básica, ainda discriminou o atendimento dentro dela - focalizou o que já estava focalizado" (Idem, p. 313). Os motivos que têm incidido na resistência de grande parte de estudiosos da temática e de educadores com relação às políticas de municipalização são justificáveis por notar-se neste movimento uma forma de os Estados e União se desobrigarem de seus deveres junto ao ensino fundamental, ou ainda com um caminho promissor para a privatização da educação pública. Essa tensão justifica-se por conta dos próprios significados atribuídos ao processo de descentralização/municipalização das políticas educacionais propostas por órgãos internacionais como Banco Mundial. Unesco e Fundo Monetário Internacional, utilizando-se destas como estratégia de se conseguir a democratização da educação formal por meio de uma modernização da gestão educacional pública, imprimindo uma nova racionalidade aos sistemas de ensino no que tange à eficiência, à qualidade, à autonomia administrativa, financeira e pedagógica das instituições escolares, remetendo, por um lado, a uma conseqüente redução da interferência governamental no setor educacional e, por outro lado, a um aumento de responsabilidade da comunidade escolar e local para com a gestão da educação. Ressalta-se a obra de Gemaque (2004) pelo fato de representar um dos estudos mais completos da municipalização no Estado do Pará, pioneiro dessa política no país. Suas pesquisas apontaram que o maior impacto do Fundef no Estado foi o extenso e maciço processo de municipalização do ensino, cuja maior evidência foi a adesão de 63% dos municípios paraenses, os quais passaram a responsabilizar-se por 72,4% nas matrículas no ensino fundamental. Tendo isso em vista, a concretização da vertente municipalizadora no Estado do Pará apresentou aspecto bastante diversos, refletindo tensões, conflitos, clientelismo e descontinuidade com as responsabilidades assumida pelo governo municipal. Isso porque, por meio da promessa de maiores recursos, maiores possibilidades de melhorar a capacidade financeira e qualidade de ensino municipal, o governo estadual tomou a dianteira das negociações, estimulando a adesão ao processo de municipalização aos prefeitos e secretários de educação dos municípios, eximindo-se, dessa forma, de suas responsabilidade financeira com as séries iniciais e com a EJA, usando os mesmo subterfúgio do governo federal em se eximir com sua obrigação de prestar assistência financeira aos estados e municípios. 10 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 91 Outro aspecto a ser destacado é que, paralelamente ao processo de descentralização pela vertente da municipalização, ocorreu também o encolhimento do Estado e a transferência dos serviços sociais, de modo particular os educacionais, para o setor privado com estratégia de conter os gastos e despesas com a educação, protelando a idéia de que os recursos existentes são suficientes para garantir uma educação de qualidade. Estratégia que ficou bem visível ao centralizar os recursos no ensino fundamental, deixando descobertas a educação infantil e a educação de jovens e adultos. Partindo dessa perspectiva, a política de descentralização, aliada às políticas de ajustes financeiros endossadas pelo governo federal, em consentimento com os governos estaduais e municipais, ainda que sem compreender a dimensão das responsabilidades que assumiam mediante a adesão a esse projeto, traz em seu bojo uma intensa tendência à exclusão educacional uma maciça redução de investimentos na educação pública, concorrendo para um acentuado aumento das desigualdades regionais e para uma precariedade na qualidade do ensino. Isso porque é inegável que o Fundef, indutor da municipalização do ensino, trouxe acréscimo real no volume de recursos, contudo não alocou mais recursos, apenas redistribuiu-os aos municípios, ao mesmo tempo em que possibilitou uma maciça transferência de matrículas do ensino fundamental a eles, alterando significativamente os arranjos educacionais no país, bem como as relações intergovernamentais. Por outro lado, reforçou o entendimento de que a implantação da municipalização não é sinônima de democracia. No caso especifico do Estado do Pará, a política de municipalização alcançou pleno êxito, pois, conforme verificado por Gemaque (2004), houve um acelerado processo de transferências das matrículas do Ensino Fundamental do Ensino Infantil, da Educação Especial e da Educação de Jovens e Adultos da rede estadual para os Municípios e, conseqüentemente, uma redução de despesas do governo estadual para esses níveis e modalidade de ensino, recursos que foram transferidos, para o Ensino Médio e para o Ensino Superior mantidos pelo governo estadual. Com isso, a municipalização do ensino instaurada no Pará foi mais um processo de desconcentração do que de descentralização. Esse movimento trouxe conseqüências para o contexto educacional no Pará, principalmente por ter sido marcado pela falta de planejamento, ausência de projeto educativo e condições infra-estruturais propícias para sua materialização, servindo muito mais para agravar as disparidades regionais do que para superá-las, assim como não conseguiu efetivar a constituição legal dos sistemas de ensino e seus respectivos conselhos municipais, uma vez que dos 143 municípios somente 8 formaram seus conselhos, sendo que apenas 3 atuam efetivamente. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 92 Desse modo, o processo de municipalização do ensino no Pará serviu de pano de fundo para a operacionalização da redistribuição dos recursos financeiros entre as municipalidades paraenses e a participação da União, urna vez que 98% dos municípios paraenses receberam suplementação do Governo Federal. Por outro lado e associada a isso, ocorreu também uma acentuada redução financeira da União e do Estado no Ensino Fundamental, os quais na realidade foram os maiores beneficiados com essa política, contribuindo negativamente para o aumento considerável do déficit na Educação Básica e para a qualidade do ensino. Sobre os efeitos da política do Fundef em nível local, Gemaque (2004) considera que ocorreu uma sobrecarga de atribuições municipais, a inexistência do regime de co-laboração entre as esferas intergovernamentais e da participação financeira do Estado e da União, fato que gerou um profundo "desequilíbrio entre a capacidade de atendimento dos governos municipais, as responsabilidades assumidas em virtude dos fetiches do Fundef e das estratégias competentes acionadas pelos governos federal e estadual"(p. 324), sendo possível desvelar os limites, fragilidades e contradições do Fundef, bem como atestar o árduo esforço de a União se eximir da responsabilidade com a educação pública. Ao discutir sobre os processo de descentralização e municipalização do ensino brasileiro, Souza (2002) alerta para o fato de que algumas vezes esses termos são usados equivalentemente como sinônimos. Entendimento esse que restringe e/ou limita o debate sobre a gestão educacional quanto aos seus aspectos formais, impedindo a criação de condições reais à participação e democratização das relações de poder e de decisões no contexto escolar. Nessas circunstâncias, a municipalização do ensino, segundo o referido autor, representa a descentralização entre as diferentes instâncias de governo com relação à educação, ou melhor, a desconcentração do sistema de ensino, implicando uma delegação por parte do governo federal de maior responsabilidade pelo ensino fundamental aos municípios. Enquanto a descentralização pode ser entendida como estratégia de se conseguir a democratização da educação formal por meio de uma modernização da gestão educacional pública brasileira, imprimindo uma nova racionalidade aos sistemas de ensino no que tange sua eficiência, qualidade, autonomia administrativa, financeira e pedagógica às instituições escolares, remetendo, por um lado, a uma conseqüente redução da interferência governamental no setor educacional e, por outro lado, a um aumento de responsabilidade da comunidade escolar e local para com a gestão da educação. Souza (2002) ressalta ainda que o termo descentralização apresenta diferentes concepções, sendo possível classificá-las da seguinte forma: Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 93 a) desconcentração, entendida como delegação de responsabilidades administrativas às esferas inferiores dentro da instância governamental. b) transferências de responsabilidades a organizações ou entidades que atuam fora do governo, mas ficando controladas indiretamente por este; c) devolução de unidades administrativas governamentais, cujas atividades estão fora de controle direto do governo central d) privatização de atividades e serviços públicos como não mais de competência estatal e repassadas à iniciativa privada. (Idem, p. 97-98). Nessa perspectiva, compreende que a concepção de desconcentração de responsabilidades é a mais empregada. Em outras palavras, esse autor entende que o que se tem na realidade é muito mais a desconcentração do poder e de responsabilidades, tutelada pelo poder central, sem que haja uma redistribuição de poder decisório compartilhado, uma vez que a descentralização/municipalização existente no Brasil é parte de uma estratégia de desburocratização do aparelho estatal promovido pela Reforma do Estado, representando uma redefinição e redistribuição superficial e ilusória de competências e de autonomia, pois o controle e a gestão dos processos decisórios permanecem centralizados pelo Governo Central. Considerações Finais O tema da descentralização/municipalização do ensino no contexto brasileiro se fez presente nos debates e nos atos políticos desde o Império, conforme visto, firmando-se como descomprometímento do governo central com a educação, tendo-se na prática um modelo descentralizador mais no sentido burocrático do que político, pois os debates referentes a esse problema permaneceram fortemente centralizados pelas elites políticas até a década de 30. Embora no período pós-revolução de 30 tenham ocorrido diversas manifestações contrárias e de contestação a esse modelo descentralizador por educadores e políticos mais progressistas, pouco se avançou, pois, com a República Nova, a sociedade brasileira viu-se refém de uma tendência exacerbada de concentração do poder político e administrativo, anulando o movimento em favor de uma descentralização educacional mais democrática. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 Irlanda do Socorro de Oliveira Miléo 94 O princípio da municipalização do ensino fundamental, promulgada durante o regime militar e que aparece na LDB de 71 (BRASIL, 1971), acabou por penalizar os municípios, uma vez que promoveu uma maior concentração de poder e controle para o governo federal aumentando a dependência dos municípios em relação ao Estado e à União por conta da política centralizadora do poder político da época, materializando-se uma municipalização do ensino às avessas, pois aumentou significativamente a dependência das demais esferas do poder público, em virtude da alta centralização política e decisória do Governo Federal, produzindo um efeito desagregador às redes municipais, afetando diretamente a expansão e qualidade do ensino local. Na década de 90, com a LDB 9394/96 (BRASIL, 1996b) e com a criação do Fundef, viu-se uma tendência de descentralização pautada na regulamentação do Estado e na transferência de responsabilidades da esfera federal para o âmbito estadual e municipal quanto ao desenvolvimento da educação básica, sem que ocorresse uma redistribuição efetiva de poder decisório, fato que ocasionou grandes tensões e conflitos nos seus desdobramentos em nível local justamente por tratar todos os municípios de forma homogênea, sem considerar as desigualdades regionais. Em consonância com essa linha de pensamento, o processo de descentralização tem sido colocado como artifício para transmitir uma aparência de democratização da sociedade, sobretudo como elemento para implementar a gestão de processos e recursos. Existe, aliada a essa idéia, a intenção do enxugamento da máquina estatal apresentada como forma de garantir eficiência, produtividade e eficácia na oferta de serviços. Ou seja, o processo de descentralização / municipalização da educação é posto como viés de maior racionalidade na aplicação de recursos e como busca de maior objetividade na resolução dos problemas educacionais, fazendo com que a escola seja sobrecarregada de mais trabalho e maior responsabilidade sem, contudo, proporcionar-lhe a democratização tão almejada. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 75-96, jan./dez., 2005 MARCOS HISTÓRICOS DA DESCENRALIZAÇÃO PELA VIA DA MUNICIPALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 95 Referências bibliográficas BOA VENTURA, Edivaldo M. A Educação na Constituição de 1946: comentários. In: FÁ VERO, Osmar (Org.). A educação nas constituintes brasileiras. 1823-1988. 2ª ed. Ver. Ampl Coleção Memória da Educação. Campinas, SP: Autores Associados, 2001. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil 18ª ed. Atualizada e ampliada. São Paulo: Saraiva, 1988. _______. Congresso Nacional. Emenda Constitucional 14, de 12 de Setembro de 1996. 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A Escola da Ponte vem enfrentando imensos desafios, inclusive o de ser fechada pelo governo, por ser rotulada como "transgressora do instalado", em termos de proposições de educação, perpassadas pelas opções diferenciadas de construção do conhecimento, rompendo estruturas há muito arraigadas. Ficam lições para aqueles que ousam mudar. Não "o mudar gatopardiano", mas o mudar no rumo de uma transformação consciente e colaborativa para uma sociedade melhor e mais cidadã. Palavras-chave: Escola Para Todos. Cidadania. Projeto Pedagógico. A SCHOOL FOR ALL: CHASING THE UTOPIA Abstract: This article is the result of a work developed with students of the Pedagogy course in the Federal University of Pará in the subject Didactic and Teachers Formation, joining teaching and research as intercomplementary activities, and the studying visit that I made to the Bridge School in Portugal The work transcends the field of a simple trip diary, for the fact of being difficult dissociate the realized and the experiences as an educator; like that features the theoretical support that has been sustaining this same experience. The Bridge School has been facing great challenges, including the threat of being closed by the government, for being taken as an "offender of what is set up", in terms of education assertions, perpetrated by different options of knowledge construction, breaking structures established for a long time. Some lessons remain for those who dare change. Not the "nothing as it seems change", but the change in the trend of a conscious transformation that collaborates to a better and with more citizenship society. Key words: School for all. Citizenship. Pedagogical Project Professora do Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Pará. Doutora em Filosofia e Ciência da Educação. E-mail: [email protected] 1 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 Ilda Esteia Amarai de Oliveira 98 Para início de conversa Navegar é preciso Ousar também o é. Como pesquisadora, tenho privilegiado os estudos etnográficos - o que me vem permitindo contato direto e, por vezes, prolongado, em contextos educacionais, marcados, não raro, pela diversidade. São situações que abrangem, dentre outras, o envolvimento em projetos, a observação, a participação em ações de formação docente, reuniões, entrevistas com professores, alunos e demais membros da comunidade escolar e visitas a instituições educacionais. Assim, vou construindo um cabedal de conhecimentos por dentro da vida cotidiana das escolas. Mas nem sempre o conhecimento tem sido fruto da pesquisa mais rigorosamente planejada. Creio ser o caso, agora em foco, nesta comunicação uma espreitadela na Escola da Ponte -, que revela um conhecimento diferente, um conhecimento da escola, vista de fora, por quem não vivencia o seu interior. Esta escola é talvez um dos exemplos mais marcantes de uma escola com sentido que surgiu e se desenvolveu num período de sopro de novos ventos democráticos em Portugal (após o 25 de abril de 1974)2 e que hoje vem enfrentando sérios problemas, conseqüência das ortodoxias e ranços governamentais reinantes no que diz respeito a projetos inovadores. São as conhecidas "pedras no caminho" como diria o poeta Carlos Drumond de Andrade. A idéia da aproximação à Escola da Ponte teve início quando tomei conhecimento do livro de Rubem Alves, A escola com que sempre sonhei sem pensar que pudesse existir (2001), na ocasião em que ministrava a disciplina Didática e Formação Docente para uma turma do Curso de Pedagogia da UFPA no primeiro semestre de 2004. O desafio inicial foi o de que todos lessem o livro. À leitura, seguiram-se alguns questionamentos: o que toma essa escola diferente das demais? Que legados a Escola da Ponte pode nos deixar? O entusiasmo da turma sobre o texto foi crescendo e outras propostas de trabalho foram surgindo, dentre as quais a elaboração de um texto de análise reflexiva e comparativa, considerando-se o referencial teórico e experiências educativas de cada um dos alunos. Foi então elaborado um dossiê que se transformou num belo exemplar, contendo o posicionamento dos alunos, suas impressões, inquietudes e esperanças por uma educação de melhor qualidade. 2 “Revolução dos escravos”- movimento que derrubou o regime ditatorial. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 UMA ESCOLA PARA TODOS: PERSEGUINDO A UTOPIA 99 Cada aluno anexou uma foto sua, seu endereço para posteriores comunicações e material ilustrativo do Pará. Assumi, então o compromisso de fazer chegar esse trabalho à Escola da Ponte, se possível, entregá-la pessoalmente, objetivando construir uma nova ponte, o que ocorreu em julho de 2004, quando efetuei a visita tão sonhada que me fez repensar a escola e seu real sentido nesta sociedade multifacetada em que vivemos. A seguir, exponho o fruto deste trabalho, que procurou interligar ensino, pesquisa e extensão, no seu sentido mais amplo. É importante deixar aqui registrado que, a partir do livro de Rubem Alves, incursionei por outros autores que me permitiram perceber, com maior clareza, o que representa a vivência educativa da Escola da Ponte. A Escola A escola não pode ser refém de qualquer tipo de ortodoxia sobre a forma como se concretizam os seus ideais e sua organização interna. A preservação da escola pública passa pela capacidade que tem de se atualizar diante das mudanças que se colocam no decorrer dos tempos, contemplando os diferentes aspectos da sociedade. Uma das questões de maior relevância, quando se trata da escola pública, é da regulamentação das políticas educativas e o papel que o Estado, os professores, os pais dos alunos e a sociedade em geral devem assumir nesse processo. Portanto, não é mais possível aceitar a redução do debate sobre os modelos de administração da educação a uma opção entre, por um lado, uma administração centralizada e hierarquizada e, por outro, uma sociedade descentralizada, competitiva e autônoma. Sobre este tema, Whitty (2002, p. 20) declara: (...) nem o Estado nem a sociedade civil constituem um contexto adequado para o exercício de uma cidadania ativa e democrática, através da qual seja alcançada a justiça social. A reafirmação dos direitos dos cidadãos em educação parece exigir o desenvolvimento de uma nova esfera pública, algures entre o Estado e a sociedade civil mercantilizada, em que novas formas de associação coletiva possam ser desenvolvidas. O desafio reside em saber como sair de um processo de decisão atomizado, para o assumir de uma responsabilidade coletiva em educação, mas sem recriar um sistema de planificação supercentralizado. (...). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 Ilda Esteia Amarai de Oliveira 100 Para o autor, ao se pretender evitar um processo de decisão centralizada que gera a fragmentação e a polarização entre as escolas e no interior de cada uma, é necessário que se criem novos contextos de ação coletiva no interior do entorno civil. "Isto obriga a uma nova concepção de cidadania que vise criar a unidade sem negar a especificidade" (WHITTY, 2002, p. 20). Esta é a estrutura fundante da Escola da Ponte, uma escola, no dizer de Almeida (2004) prefaciando o livro de José Pacheco "Cartas a Alice", com uma opção social de ser para todos "e todos são mesmo todo”, não os de uma nota só, mas os de múltiplos sons, principalmente daqueles que nos parecem desafinados. A Escola da Ponte, ao longo dos últimos 25 anos, tem sido uma realidade para aqueles que se dedicam à construção de um projeto educativo para todas as classes sociais. Esse Projeto, que vem sendo elaborado pelo coletivo de professores, constitui um sinal de esperança para todos os que acreditam e defendem a possibilidade de uma escola pública aberta a todos os públicos, baseada nos valores da democracia, da cidadania e da justiça, que proporcione a todos os alunos experiências bem-sucedidas de aprendizagem e de construção pessoal. Esta idéia tem procurado se expandir em Portugal por meio da Confederação Nacional das Associações dos Pais, par:} que outras escolas, mediante seus projetos curriculares, desenvolvam nas crianças e jovens a capacidade crítica para compreender a vida, na busca de sua transformação, não permitindo que crianças sejam rejeitadas em decorrência dos problemas de suas famílias, não rejeitando as famílias quando seus problemas são de ordem econômica e social. Lutam pela construção de escolas acolhedoras e equipadas com tudo o que possa servir para a construção de uma escola de qualidade, sempre aberta e atenta aos problemas da comunidade. O Projeto "Fazer a Ponte" O Projeto "Fazer a Ponte" (s.d.), como projeto político-pedagógico, está fundamentado em princípios norteadores que dão suporte a algumas categorias educativas: 1. Sobre os valores matriciais do projeto A intencionalidade educativa serve de referencial ao projeto, como algo claramente reconhecido e assumido pela comunidade (alunos, pais, Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 UMA ESCOLA PARA TODOS: PERSEGUINDO A UTOPIA 101 profissionais da educação e demais agentes educativos). Tem como pressuposto a orientação para um trabalho efetivo de formação de pessoas cidadãs, cultas, autônomas, responsáveis, solidárias e democraticamente comprometidas com a construção de um destino coletivo e de um projeto de sociedade à qual pertencem. Para tal, exige-se uma equipe coesa e solidária, até porque existe a crença de que a escola não se configura como uma mera soma de parceiros hierarquicamente justapostos e com recursos geralmente precários. É uma formação social que interage com o meio circundante, envolvendo outras formações sociais para as quais convergem continuadamente processos de mudança. Assim, o projeto educativo corporifica o referencial do pensar e agir de uma comunidade que se revê em determinados princípios e objetivos, dá suporte e orienta a intervenção dos sujeitos parceiros na vida da Escola. 2. Sobre alunos e currículo Cada ser humano é único e irrepetível, portanto, suas experiências de escolarização e o trajeto de desenvolvimento de cada aluno são também únicos e irrepetíveis. Cada aluno deve ter valorizada a construção de sua identidade pessoal, a partir dos princípios da iniciativa, criatividade e responsabilidade. Suas necessidades individuais devem ser respeitadas, porque as características singulares de cada um implicam formas próprias de apreensão da realidade. Isto significa que todo aluno é portador de necessidades educativas especiais, manifestadas em formas de aprendizagem sociais e cognitivas diversas. O percurso educativo do aluno, em sua dimensão individual e social, supõe um conhecimento cada vez mais profundo de si próprio e o estabelecimento de relações solidárias com os outros. Isto representa a singularidade do percurso de cada um e supõe a apropriação individual do currículo acompanhada pela equipe docente. O currículo é, então, concebido numa dupla dimensão: o currículo exterior ou objetivo é uma meta, um horizonte a perseguir, é o referencial de aprendizagem e realização pessoal que decorre do Projeto Educativo da Escola, orientado pelo currículo nacional; o currículo interior ou subjetivo é o percurso único de cada um na apropriação dos conhecimentos, valores e habilidades. Em sua configuração disciplinar, o currículo objetivo organiza-se em cinco dimensões: lingüística, lógica matemática, naturalista, identidária e artística. Enfatiza-se também o desenvolvimento afetivo e emocional dos 'alunos e a necessidade da educação de atitudes com referência ao quadro de valores subjacentes ao Projeto Educativo. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 Ilda Esteia Amarai de Oliveira 102 3. Sobre a relevância do conhecimento e da aprendizagem Considera-se a aprendizagem como um processo social pelo qual os alunos, heuristicamente, constroem significados a partir de suas experiências. Dá-se valor à aprendizagem significativa numa perspectiva interdisciplinar, estimulando-se permanentemente a percepção, a caracterização e a solução de problemas mediante o trabalho com conceitos de uma forma consistente e continuada, num processo de reelaboração de estruturas cognitivas cada vez mais complexas. Neste sentido, os conteúdos a aprender devem estar próximos da estrutura cognitiva dos alunos, bem como dos seus interesses. A avaliação, como processo regulador da aprendizagem, orienta construtivamente o percurso escolar de cada aluno, possibilitando a cada um, num processo contínuo, acompanhar o seu desenvolvimento, tomando consciência das suas possibilidades e de seus limites. Neste processo de acompanhamento do aluno, deve-se ter a consciência da singularidade que lhe é inerente, o que pressupõe uma gestão individualizada de seu percurso de aprendizagem. 4. Sobre os orientadores educativos Existe, aqui, a necessidade de clarificação do que se concebe como orientador educativo. Abandona-se a idéia de uma prática da docência calcada nos modelos tradicionais de ensino, que orienta o acesso dos alunos a um conhecimento codificado e predeterminado. O orientador educativo é, essencialmente, um promotor da educação, na medida em que é chamado a participar na concretização do Projeto Educativo da Escola, a co-orientar o percurso educativo de cada aluno e a apoiar os seus processos de aprendizagem. É dada relevante importância à formação continuada que deve acontecer em contexto de trabalho, num trabalho articulado da Escola com outras instituições. 5. Sobre a organização do trabalho A organização do trabalho na Escola centra seus esforços a fim de que cada aluno alicerce o seu próprio projeto de vida. Este principio ganha vida pela integração com a comunidade interna e externa. Alunos e professores elaboram planos de trabalho com periodicidade conveniente para serem desenvolvidos e avaliados. É uma metodologia centrada nos Trabalhos por Projetos, revestindo-se de um caráter dinâmico e de um permanente trabalho reflexivo, de forma que seja possível preparar recursos e materiais facilitadores para a aquisição de saberes e o desenvolvimento de competências essenciais. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 UMA ESCOLA PARA TODOS: PERSEGUINDO A UTOPIA 103 O percurso de aprendizagem de cada um, a avaliação do seu trabalho e os documentos produzidos de maior relevância fazem parte do processo individual do aluno. Este documento tenta evidenciar a sua evolução nas diversas dimensões do seu percurso escolar. Há que considerar que a organização escolar moderna baseou-se na transposição da relação dual entre um professor e um aluno para uma relação também de caráter dual entre um professor e a turma de alunos. Na Escola da Ponte, esta contradição foi superada, uma vez que a organização é estruturada por uma relação entre um grupo de professores e um conjunto de alunos, considerados na sua individualidade, na inter - relação com o ambiente e na relação com os professores, configurando-se, desta forma, uma gama variada de modalidades de vivências - todos os professores trabalham com todos os alunos e estes não têm um lugar fixo para brincar, trabalhar e aprender. Para além das ortodoxias da educação A experiência da Ponte permite perceber os problemas em sua totalidade, assim como algumas alternativas de superação que contrariam, em muitos casos, o ceticismo de que muitas vezes somos portadores. Refiro-me à organização curricular, às questões da inclusão, da construção de uma vida escolar democrática e participada, à rigorosidade na construção do conhecimento, ao gosto pelo aprender, ao conciliar a formação de professores com a construção autônoma de uma profissionalidade responsável3. Assim é que, enquanto uma efetiva comunidade, a experiência da escola da Ponte é singular, porque todos (alunos, professores e pais) assumem a aprendizagem como algo que lhes diz respeito. São sujeitos e não "voyeres” Não estão se preparando para serem cidadãos no futuro. Estão exercendo a cidadania cotidianamente. Tomo aqui, para ilustrar, o que nos declara Pacheco (2001, p. 75): O cumprimento das tarefas incumbe a grupos de alunos, aos quais se dá o nome de grupos de responsáveis. Há, por exemplo, o grupo dos murais (a quem compete manter os murais atualizados e organizados), o grupo do recreio bom. (a quem cabe velar pelo bem-estar de todos, nos períodos de recreio), o dos responsáveis pelo material comum, pelo terrário, etc. De quinze em quinze dias, todos os grupos de todas as responsabilidades apresentam na Assembléia o relatório com tudo o que fizeram da sua responsabilidade, durante esse tempo. 3 Vale lembrar aqui as propostas de Freinet e Paulo Freire, documentadas no legado que nos deixaram. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 Ilda Esteia Amarai de Oliveira 104 ...Os grupos são constituídos pelas afinidades entre seus membros. No entanto, uma condição é também considerada, ou seja, cada grupo deve incluir um aluno que tenha mais necessidade de cuidados. Estes grupos podem se desfazer e surgirão, assim, novos grupos no decorrer do período letivo. Ainda no dizer de Pacheco (2001, p. 80), (...) o que emerge de fundamental nesta experiência não é, a meu ver, a qualidade dos dispositivos postos em prática para concretizar estes objetivos - que buscam inspiração em tantas outras experiências educativas inovadoras - o que poderia equivaler a dizer que estamos perante um projeto perfeito e acabado. Muito pelo contrário, o que me parece essencial é o fato de estarmos perante profissionais da educação que fazem da Ponte um espaço onde fazer perguntas e procurar ativamente soluções para os problemas com que a educação se confronta nestes dias seja possível Um espaço onde visões alternativas do que a educação pode ser ensaiadas e postas em prática, refletidas e reformuladas, o que faz com que, como os próprios assumem, o projeto da Escola da Ponte [esteja] sempre incompleto, sempre a recomeçar. A ruptura com a ortodoxia na organização por turmas constitui o traço mais distintivo, importante, original e radical da experiência da Escola da Ponte. Significa outra organização curricular, o que põe em suspeição a concepção estereotipada de apropriação do conhecimento que continua arraigada "nas mentes iluminadas de muitos", tornando-se referência para definir os rumos da educação. E é nesta proposta pedagógica "transgressora” que está a força da Escola da Ponte, mas, também, os temores que ela inspira4. É a ruptura com a organização em turmas, que implica uma ação coletiva e colaborativa entre os professores e alunos. É desta ruptura com a turma que decorrem muitos dos questionamentos céticos sobre o que efetivamente lá se constrói, pois se não há aulas, não há anos de escolaridade, nem turmas, onde os espaços são polivalentes, onde os professores não se queixam da falta de tempo para dar o programa, onde os discursos e o pensamento dos professores gozam de autonomia. Afinal, que escola é essa? Ao demonstrarem que é possível organizar uma escola que realize um trabalho de qualidade, a comunidade escolar está dando uma resposta de que é possível "mudar para melhor”. 4 Recordemos do impacto na sociedade das propostas de Freinet e Paulo Freire Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 UMA ESCOLA PARA TODOS: PERSEGUINDO A UTOPIA 105 Pode dizer-se que a experiência da Escola da Ponte desenvolveu-se "à margem, apesar e muitas vezes contra as reformas educativas do governo", uma vez que se baseia em pressupostos e em soluções que são contraditórias com aquilo que tem sido a proposição dominante. Em síntese, a experiência da Escola da Ponte - tem subjacente uma teoria e uma prática de formação de professores baseada no exercício profissional em contexto, combinando a ação e a reflexão coletivas. Na história da experiência ganha particular relevância a construção de projetos autoformativos, baseados na figura do círculo de estudos. - encontrou uma resposta pedagogicamente coerente para lidar com a heterogeneidade do público escolar, sendo exemplar a forma como integra e resolve os problemas dos chamados alunos difíceis ou com necessidades especiais. A construção desta resposta só foi possível num quadro de superação da organização em classe, na medida em que esta foi historicamente concebida para lidar com o aluno médio. Pelo contrário, as sucessivas reformas, em termos da individualização pedagógica, têm permanecido no estádio da retórica; - possibilita, entre os professores, um desenvolvimento autêntico do que seja trabalhar com autonomia; - representa as preocupações com a flexibilidade da gestão curricular, como a polivalência dos espaços, flexibilidade dos agrupamentos dos alunos, administração autônoma do tempo, diversidade de formas de aprendizagem, organização democrática da vida cotidiana da Escola. Lições da Ponte O legado mais imediato e marcante da Escola da Ponte é a de que todos (alunos, pais e professores) têm consciência dos seus direitos e deveres, sentem prazer no que fazem e são protagonistas de um projeto comum que envolve toda a escola. A forma como os alunos recepcionam os visitantes e mostram a sua escola é um sinal muito forte da sua implicação e responsabilidade na vida da coletividade. Este é um aspecto igualmente observável nas reuniões de debate, nas assembléias de escola e nos múltiplos grupos de responsabilidade em que se organizam. Desta forma, a escola constrói-se e organiza-se a partir do trabalho dos alunos que, não sendo considerados matéria bruta a ser burilada, são tratados como efetivamente são - crianças em processo de aprendizagem. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 Ilda Esteia Amarai de Oliveira 106 Esta organização tem por pressupostos basadores a construção progressiva da sua autonomia para administrar tempos e espaços, planejar atividades, gerir informação e organizar a sua avaliação, o que corresponde a formas de regulação extremamente complexas fundamentadas numa grande diversidade de dispositivos que, no seu conjunto, representam uma alternativa à organização por turmas. Como sujeitos, os alunos exercitam-se continuadamente no uso da palavra como instrumento autônomo de cidadania. Aprender a ler e a escrever é, então, indissociável de aprender a ser gente, o que permite à escola um acréscimo de eficácia nas suas funções instrutivas tradicionais: as crianças lêem e produzem escrita desde o primeiro dia de escola. O modo original de organizar o trabalho dos alunos tem uma contrapartida simétrica quer no modo igualmente original de organizar o trabalho do professor, quer no modo como este se relaciona com os colegas (trabalho coletivo), com os alunos e com os saberes profissionais. Os contributos da experiência da Ponte, tanto em relação à organização escolar (como é reconhecido pela sua transformação numa Escola Básica Integrada) quanto em relação à reconfiguração do ofício de professor, não se circunscrevem ao âmbito do 1º ciclo do ensino básico, nem se fundamentam em palavras, mas em ações que colocam em bases diferentes o debate sobre o futuro da escola e da profissão docente. Trabalhar desgastado, desinteressado, decepcionado e trabalhar com prazer é a distância que separa a escola linha de montagem5 da escola construída mediante um projeto coletivo em que todos são responsáveis por sua construção. Esta riquíssima experiência educativa oferece-nos elementos para que outras escolas possam percorrer caminhos semelhantes, mesmo sabendo que os desafios a superar são inúmeros, mas são ultrapassáveis. Parece haver um consenso internacional, quer entre aqueles que mantêm o poder de decisão quer entre estudiosos e pesquisadores, quanto à urgência de se encontrar novas alternativas de construção dos saberes, de organização escolar e de novos modelos de formação docente. Não tenho condições de esgotar a fala sobre a importância da Escola da Ponte para os seus alunos, professores, pais e a comunidade. Dessa relevância provavelmente e de forma bem significativa, poderão falar os próprios sujeitos. O que fica marcado é o legado que esta experiência possa deixar para outros Sugiro a leitura do livro “Cuidado escola” de Harper, Babette e outros, apresentado por Paulo Freire, publicado pela Brasiliense, em 1980. 5 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 UMA ESCOLA PARA TODOS: PERSEGUINDO A UTOPIA 107 que, como eles, também acreditam numa escola onde o aprender é um ato prazeroso, sem desconsiderar a sua rigorosidade. Em primeiro lugar, como um exemplo possível de uma escola pública diferente, que desnaturaliza algumas características da escola tradicional e quer ter em conta as mudanças econômicas, políticas e tecnológicas ocorridas ou em curso e, ao mesmo tempo, reforçar e desenvolver as suas qualidades democráticas e democratizadoras. Em segundo lugar, como um ensaio de modos de inovar que sejam desejados e construídos pelos próprios interessados, designadamente pelos professores, a partir da escola, da sua situação, dos seus atores e parceiros. Em terceiro lugar, como uma concretização de uma teoria e de uma prática de for-mação de professores, baseadas, como diz Rui Canário (2001), no exercício profissional em contexto, combinando a ação e a reflexão coletiva. A experiência educativa da Escola da Ponte constitui uma forte evidência do que pode ser a construção da autonomia de uma escola, baseada no profissionalismo de uma equipe de professores. Este processo de conquista, construção e afirmação de uma autonomia real, não imposta por decreto 6, é portador de futuro, na medida em que corporifica as três orientações que, por contraste com as estratégias de reforma, podem fazer coincidir a melhoria do desempenho da escola com um processo de desenvolvimento organizacional e profissional. Essas três orientações são: - adotar mecanismos de regulamentação alternativos que permitam transformar a escola numa organização qualificante, capaz de aprender com a experiência e de reorientar, de forma contínua, o modo como articula recursos e finalidades, instituindo modos de administração estratégica; - trabalhar com a concepção de profissionalização e identidade docente, o que significa que os professores possam ter consciência do sentido do produto do seu trabalho; - fomentar os processos de mudança que possam otimizar o potencial de criatividade e o capital de inteligência que existe nas escolas, muitas vezes desconsiderado e desprezado. 6 Sugiro que vejam o filme “II gatopardo”, em português “O leopardo” de Luchino Visconti Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 Ilda Esteia Amarai de Oliveira 108 O legado da Escola da Ponte, pelas suas finalidades, pelas metodologias de organização e de trabalho que constrói pelas alianças em que se fundamenta e pelos resultados que evidencia, é um bom ponto de partida .para promover o debate sobre o futuro da escola. Por último, pretendo com este artigo, por um lado, documentar a solidariedade com o projeto Fazer a Ponte e, por outro, favorecer a possibilidade de que todos possamos aprender com a sua experiência. Referências bibliográficas ALMEIDA, Albino. Prefácio: PACHECO, José. Cartas a Alice. Porto: ASA, 2004, p. 7-10. ALVES, Rubens. A escola com que sempre sonhei sem pensar que pudesse existir. Porto: ASA, 2001. BARROSO, João. Escola da Ponte: defender, debater e a escola pública. In: CANÁRIO, Rui e outros. (Orgs.). Escola da Ponte - defender a escola pública. Porto: ASA, 2001, p. 7-18. CANÁRIO, Rui. Uma inovação apesar das reformas. In: CANÁRIO, Rui e outros. (Orgs.). Escola da Ponte - defender a escola pública. Porto: ASA, 2001, p. 22-29. PACHECO, José. Fazer a Ponte, construir a memória. In: CANÁRIO, Rui e outros. (Orgs.). Escola da Ponte - defender a escola pública. Porto: ASA, 2001, p. 65-86. PROJETO Fazer a Ponte. Vila das Aves. Portugal. (texto mimeo.), s.d. WHITTY, Geoff. Making Sense of Education Policy. London: Paul Chapman Publishing, 2002. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 97-108, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POSGRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 Laura Maria Silva Araujo ALVES1 Resumo: Este trabalho desenvolveu-se a partir da discussão sobre a influência epistemológica do empirismo lógico, do materialismo histórico e da critica contemporânea exercida sobre as pesquisas e as teorias em Psicologia da Educação. A tarefa de pesquisar esse assunto teve a intenção de produzir um texto que reunisse não somente alguns elementos que compõem as perspectivas a partir das quais muitas pesquisas em psicologia nos últimos anos foram norteadas, mas principalmente que pudesse investigar empiricamente os reflexos das principais correntes epistemológicas no contexto da produção do conhecimento na Psicologia da Educação. Para tal, embrenhamos pelo contexto das produções desenvolvidas no Programa de Estudos em Pós-Graduação em Psicologia da Educação da PUC de São Paulo. Assim, buscamos fazer um levantamento das produções no Programa de Psicologia da Educação priorizando, principalmente, as temáticas mais recorrentes nas dissertações e teses nas décadas de 70, 80 e 90. Os dados revelam que as pesquisas passaram inicialmente por uma abordagem positivista, posteriormente por uma abordagem cognitivista, até chegar a uma abordagem sócio-interacionista que abriram caminhos para os estudos mais atualizados para explicar os fenômenos humanos. Palavras-chave: Epistemologia. Positivismo. Empirismo. Racionalismo. Sóciointeracionismo. THE EPISTEMOLOGICAL WAYSOF THE RESEARCHES AT PSYCHOLGY OF EDUCATION IN THE POST GRADUATION PROGRAM AT PUC FROM SÃO PAULO IN THE SEVENTIES, EIGHTIES AND NINETIES Abstract: This work was developed about the discussion over the epistemological influence of the logical empirism of the historical materialism and the contemporary criticism over the researches and the theories at Psychology of Education. The task of researching this subject had the intention of producing a text that reunites not only some elements that compose that perspective which guided many researches at Psychology in the last years, but mainly that could investigate empirically the reflexes of the main epistemological tendencies in the context of the knowledge production at Psychology of Education at PUC from São Paulo. Like that we searched to make a 1 Professora do Instituto de Ciências da Educação da UFPA. Doutora em Psicologia da Educação. E-mail: [email protected] Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 110 research about the productions in the Psychology of Education Program mainly prioritizing the most common themes in thesis and dissertations in the seventies, eighties and nineties. The data reveal that the researches had initially a positivist approach, afterwards a cognitivist approach that made path for the up dated studies to explain the human phenomena. Key words: Epistemology. Positivism. Rationalism. Social- lnteracion Introdução O presente texto foi desenvolvido durante o doutorado na disciplina Seminário Teórico Metodológico I e II, ministrado pela Professora Dra. Bernadete Gatti, tendo como objetivo principal comentar as implicações das perspectivas epistemológicas do empirismo lógico, do materialismo histórico e da crítica contemporânea para as pesquisas e as teorias em Psicologia da Educação. Para tal, partimos das seguintes questões: Quais as áreas temáticas da Psicologia privilegiadas nas dissertações e teses em Psicologia da Educação? Quais as perspectivas epistemológicas que nortearam esses trabalhos? Tendo em vista a amplitude desse assunto, optamos, então, por desenvolver este texto de forma não somente teórica, mas também em um contexto empírico rastreando as produções no Programa de Estudos em Psicologia da Educação, da PUC de São Paulo, considerado um dos mais respeitados Programas de Pós-Graduação em Psicologia no Brasil. O encaminhamento dado para a produção deste texto resultou na construção de quatro momentos: no primeiro momento tentaremos fazer um rastreamento do que se tem dito acercado conhecimento científico na área das Ciências Humanas. Discorreremos, inicialmente, sobre a crítica contemporânea; posteriormente, procuraremos traçar o percurso pelo qual as pesquisas sobre a Psicologia da Educação têm passado nas últimas três décadas do século passado. No segundo momento, na intenção de visualizarmos os caminhos epistemológicos das pesquisas em Psicologia da Educação no Brasil, faremos um levantamento das bases teórico-metodológicas das produções de pesquisas no Programa de Estudos em Psicologia da Educação da PUC de São Paulo. Cientes da necessidade de não ficarmos apenas numa visão meramente teórica, a análise que realizamos recai sobre as temáticas que foram privilegiadas pelos alunos da Pós-Graduação nas décadas de 70,80 e 90. Deste modo, analisando os títulos e resumos dos trabalhos, destacaremos as bases epistemológicas que serviram de cenário para a produção das dissertações e teses no contexto da Psicologia da Educação. Finalmente, faremos algumas considerações relacionadas ao desenvolvimento epistemológico das pesquisas em Psicologia da Educação no Brasil. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 111 A Produção do Conhecimento Científico nas Ciências Humanas Para compreendermos como as Ciências Humanas estabeleceram Suas representações sobre a realidade, é imprescindível rastrear as bases que originaram a racionalidade. À luz das razões sociológicas, psicológicas, históricas, econômicas e, ainda, políticas, a racionalidade se sistematizou nos últimos anos, ancorada principalmente nas idéias dos chamados fundadores da Nova Ciência - Descartes, Newton, Bacon, Galileu, Hume, Locke, Comte e outros. Segundo eles, ao analisar os fenômenos devemos ter muito cuidado com as aparências, pois, como argumentou Galileu, ao explicar o movimento da Terra, a desconfiança deve se manifestar principalmente nas impressões aparentes, imediatas. Como se verifica, esse tipo de cuidado se mostrou muito constante nas diversas áreas das Ciências da Natureza. Imbuídos pelas pesquisas científicas, muitos pensadores foram buscar nas Ciências da Natureza os métodos e as lógicas para compreender e analisar fenômenos do mundo social, psicológico e econômico. Foi então no rastro do arcabouço teórico e metodológico das Ciências da Natureza que se originou, de um lado, o "positivismo" no século XX, especialmente o empirismo lógico do Círculo de Viena, e, de um outro lado, o pensamento crítico, que se fundamentou nas reflexões filosóficas do Idealismo Alemão. O que se denomina razão das Ciências Humanas se estruturou a partir das Ciências Naturais e se ramificou em variadas epistemologias. O acesso à realidade foi então conseguido sob a égide do rigor do quantitativismo e da observação neutra e repetitiva (perspectiva do positivismo) e do emprego da dialética (perspectiva do pensamento crítico), provocando assim uma disputa no âmbito acadêmico. A filosofia contemporânea é vista como resultado da crise do pensamento moderno no século XIX. Como se sabe, o pensamento moderno, no seu contexto mais amplo, se define pela busca da fundamentação da possibilidade do conhecimento e das teorias científicas na análise da subjetividade e, fundamentalmente, do indivíduo considerado como sujeito pensante, assim como dotado de uma mente ou consciência caracterizada por uma determinada estrutura cognitiva, na qual possui capacidade de ter experiência empírica sobre o real. Porém, esse pensamento entra em crise no século XIX, principalmente a partir das críticas de Hegel e Marx, que apontam para a necessidade de considerar o processo histórico de formação da consciência e dos seus pressupostos idealistas. Na verdade, era a concepção de uma filosofia sistemática e teórica que pudesse dar conta de todas as áreas do saber humano. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 112 O questionamento ao projeto moderno do conhecimento se faz sobre a centralidade atribuída à noção de subjetividade empreendida pelas teorias racionalistas e empiristas. Hegel e Marx já apontavam para a dificuldade da análise subjetivista. Hegel, por exemplo, considerava que, se a subjetividade é a consciência individual, ela então resulta de um processo de formação histórica e cultural. Assim como Hegel, Marx também assume esta posição, considerando o processo de formação da subjetividade, das idéias e representações em termos materialistas, destacando o trabalho e as relações de produção. Enfim, Hegel e Marx mostram que a busca dessa interioridade não é possível, ou melhor, que essa possibilidade não é real. É importante ressaltar, ainda no período moderno, uma outra linha crítica à subjetividade que valoriza a linguagem e a lógica - o pensamento de Leibniz. Crítico de Descartes, de Spinoza e dos empiristas como Locke, e afastando-se do subjetivismo defendido pelos pensadores modernos, Leibniz, ao contrário dos empiristas, defendia a lógica na fundamentação da ciência. Assim, em decorrência de sua formulação teórica nos campos da lógica e da linguagem, Leibniz anuncia o desenvolvimento da lógica-matemática e da filosofia da linguagem no pensamento contemporâneo. O projeto filosófico de Leibniz inspirou certamente lógicos e filósofos. Contrário ao subjetivismo defendido entre os cartesianos e empiristas, Leibniz considerava a lógica como referência para o desenvolvimento sistemático e racional para o conhecimento humano. Segundo ele, tendo a lógica como caminho analítico, o conhecimento afastava-se da epistemologia subjetivista do racionalismo e o psicologismo do empirismo. Devido ao seu interesse por questões de linguagem, o principal projeto de Leibniz é arquitetado sob a égide de uma linguagem única, precisa e rigorosa. É nesse contexto que a linguagem surge como alternativa de explicação da relação do sujeito com a realidade enquanto relação de significação. Portanto, é significativo que a questão acerca da natureza da linguagem, como também sobre como a linguagem fala do real e principalmente sobre o sentido dos signos e proposições lingüísticas, surja como um problema central na filosofia e em outras áreas do conhecimento na passagem do século XIX para o século XX em várias correntes teóricas2. A filosofia analítica que se desenvolveu especialmente nos Estados Unidos teve suas raízes ancoradas na filosofia de Leibniz, sobretudo acerca das discussões relativas à fundamentação da matemática e das Ciências Naturais. Entre essas correntes destacam-se: a filosofia das formas simbólicas de Ernest Cassirer; a hermenêutica de Friedrich Schleiermacher; a semiótica de Charles Sanders Pierce; o estruturalismo lingüístico de Ferdinand de Saussure; a antropologia estruturalista de Lévi Strauss; a antropologia lingüística de Noam Chomsky com a busca de universais lingüísticos e, fundamentalmente, o desenvolvimento da lógica-matemática de Leibniz e, ainda, a filosofia analítica da linguagem de Ludwig Wittgenstein e Bertrand Russell. 2 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 113 Como já foi dito, havia neste período a reação ao subjetivismo, à filosofia da consciência, ao idealismo hegeliano, como também ao idealismo empirista, correntes dominantes da época. A maior crítica dos filósofos analíticos ao idealismo subjetivista e à filosofia da consciência refere-se principalmente à questão da fundamentação do conhecimento científico. Questionavam: como os atos mentais, sendo, portanto, subjetivos, podem ter validade universal, ou seja, objetiva? A filosofia analítica defende, ainda, que o tratamento e a solução de problemas filosóficos devem se dar através de análise lógica da linguagem. Porém, não se trata de uma língua empírica, mas da linguagem como estrutura lógica subjacente a todas as formas de representação lingüística e mental. Ou seja, a questão principal é: como o juízo, algo que afirmo ou nego sobre a realidade, pode ter significado e como podemos estabelecer critérios de verdade e falsidade desses juízos. Compartilhada pela filosofia analítica e pelo positivismo lógico (empirismo lógico) do Círculo de Viena, a lógica passa a ser o caminho para a fundamentação das teorias científicas. Os pensadores desse Círculo combatiam o pensamento meta físico especulativo e vislumbravam fundamentar na lógica uma ciência empírica-formal da natureza, empregar métodos lógicos e rigor científico no tratamento de questões de ética, de filosofia, de psicologia e de ciências sociais. Assim, à luz da Física e da Matemática, os empiristas lógicos defendiam o novo paradigma de cientificidade ancorado em uma linguagem lógica, rigorosa e com verdades objetivas sobre a realidade. Enfim, uma teoria construída sob a proteção da ciência empírica-formal e de um caráter analítico. A tese básica do empirismo lógico3 era a do principio da verificabilidade, ou seja, as proposições da linguagem só seriam consideradas significativas se tivessem estrutura analítica, se fossem verificáveis pelas experiências e redutíveis a formulações de observações empíricas. Entretanto, esse princípio em si não é analítico nem empiricamente verificável, mostrando-se, portanto, problemático. Herdeira do positivismo lógico, a filosofia analítica da linguagem, que se desenvolveu, aproximadamente, entre os anos 40 e 60, denominada de Filosofia da Linguagem Ordinária, baseava-se principalmente nas propriedades semânticas das expressões lingüísticas tendo como referencial o seu uso pelos falantes em contextos determinados, ou seja, valorizava-se a linguagem tal O empirismo lógico, ou neopositivismo ou ainda positivismo lógico, é a corrente filosófica contemporânea que toma forma específica a partir das idéias defendidas pelos filósofos, físicos e matemáticos no Círculo de Viena por volta da década de 20, de onde se expandiu para a Alemanha, Polônia, Checoslováquia, Escandinávia, Inglaterra e Estados Unidos. Seu objetivo era dar um golpe final à metafísica. Pretendiam proporcionar um fundamento seguro às ciências. O método ideal era a análise lógica de todos os conceitos e proposições. 3 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 114 como usada concretamente4. Nesse sentido, fugia-se de uma análise de linguagem lógica num contexto sintático e sem defendia Wittgenstein no Tratado Lógico Filosófico. Embora ancorada numa tradição empirista, a Filosofia da Linguagem Ordinária diferenciava-se da análise lógica da linguagem desenvolvida por Russell e por Wittgenstein. A partir de meados do século XIX, acumulou-se nesse amplo campo epistemológico que se chegou a uma crise dos paradigmas. Passou-se então a denominar de pós-modernas uma pluralidade de novas tendências nas Artes, na Literatura, na Ciência. Para o pensamento pós-moderno, diz Neto (apud COSTA, 1996, p. 26); (...) não se trata de tentar demonstrar que não existem a razão e o sujeito transcendentais, ou que a linguagem não é transparente na sua tarefa de representar. Mas se trata apenas de pedir para aqueles que proclamam essas noções totalizantes (e sobre elas constroem terias e interpretações) que demonstram a existência delas. Diante de toda essa revolução científica, pergunta-se: Que caminhos epistemológicos a Psicologia enveredou na busca de explicações para os fenômenos humanos? Como fica a Psicologia da Educação? Para compreender a Psicologia atual, com seus diversos conflitos e perspectivas é imprescindível situá-la ao longo de sua evolução, sobretudo reconstituir a: epistemológicas que deram origem aos modelos de concepções à p principalmente, à Psicologia da Educação. Como se sabe, até meados do século XIX, a Psicologia se como um ramo da Filosofia que procurava explicar os fenômenos da consciência através da racionalidade. As idéias filosóficas dos grandes racionalistas, como Descartes5 e Espinoza6, e dos grandes empiristas, como Bacon e Hobbes e, ainda, Locke7, as suas marcas sobre o pensamento psicológico. A Filosofia da Linguagem Ordinária teve o seu apogeu na Inglaterra e nos Estados Unidos. Os defensores desse novo paradigma concebiam a linguagem enquanto ação e analisavam a possibilidade do uso da linguagem o indivíduo realiza ao usar a linguagem. 5 Descartes (1596-1650) é importante para a Psicologia por introduzir os conceitos de reflexos e da influenciaram as duas tendências psicológicas: subjetivista e objetivista. 6 Espinoza (1632-1677) estabeleceu a possibilidade de uma verdadeira explicação psicológica do homem. A posição naturalista de Espinoza frente ao homem e ao mundo reflete-se no pensamento de Marx, Freud e Vygotsky. 7 Representantes do empirismo inglês, Bacon (1214-1292) e Hobbes (1588-1679) formularam os princípios fundamentais da experiência sensível como única fonte de conhecimento. Mas foi com Locke (1632-1704 que o sensualismo da filosofia empirista foi aplicado à psicologia. 4 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 115 Com pouco mais de um século de legitimação, a Psicologia foi marcada pelo empiricismo e pelo positivismo8. As Ciências Humanas ingressavam na chamada era da positividade, principalmente a partir das idéias de Dilthey (apud JAPIASSU, 1982). Marcado pelo pensamento de Comte, ele acreditava nas bases metodológicas das Ciências da Natureza para as Ciências Humanas. Foi, então, no positivismo que Dilthey (apud JAPIASSU, 1982) quis mostrar a heterogeneidade entre os métodos utilizados pelas Ciências. No caso específico da Psicologia, podemos dizer que seu nascimento se deu num terreno positivista de Comte, pois nenhuma outra ciência sofreu tanto o impacto desta tendência como a Psicologia. E mais, foi uma das ciências que mais sofreram as conseqüências das rupturas e as novas confianças epistemológicas da ciência pós-moderna. Para Freitas (1994, p. 52), a era da positividade levou a Psicologia para domínio da Fisiologia. Diz ela: As primeiras tentativas de imprimir à Psicologia uma direção mais fisiológica devem-se a Herbart, Weber, Fechner e Müller. Herbart tentou aplicar a Matemática ao estudo da vida psíquica, procurando constituir uma psicologia a partir das representações, apoiando-se na psicofísica. Seu objetivo ao tentar determinar uma relação entre fenômeno físico e o seu resultante psíquico era obter leis científicas na Psicologia(...). Mas foi Fechner que, de fato, empreendeu uma exploração metódica dos domínios táteis e visuais, abrindo caminho para o estudo da percepção. Todas as aquisições desses estudos foram decisivas para a afirmação da Psicologia Experimental que só foi concretizada com a fundação do laboratório psicológico de Leipzing em 1879, por Wundt. Para Wundt, nada existia na consciência que não tivesse seu fundamento em determinados processos físicos. Portanto, a introdução do método experimental na Psicologia foi o resultado da sua necessidade de construir uma ciência objetiva dos fatos da consciência. Sem sombra de dúvida, o método experimental representou uma grande inovação, constituindo-se na sua contribuição para a legitimação da Psicologia em ciência independente. Assim, influenciada pelo positivismo comteano e, posteriormente, pelo neopositivismo de Russel, Carnap e Wittgenstein, a Psicologia passou a rejeitar a introspecção e a defender uma linguagem e um método científico baseados na O positivismo de Comte (1798-1857), como uma proposição teórico-metodológica, está baseado em três idéias principais: a de que os fenômenos humanos e sociais são regulados por leis das ciências da natureza; para estudar o homem deve-se usar os métodos e procedimentos utilizados para conhecer a natureza e, por fim, as ciências humanas e sociais devem funcionar segundo o modelo da objetividade científica. 8 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 116 física e na matemática. A referência mais significativa desta época foi o behaviorismo, que se construiu sob a influência do positivismo. Segundo Japiassu (1982), o positivismo comteano é um marco histórico significativo no processo do conhecimento da Psicologia. Bock (1999, p. 48) define muito bem esse momento, dizendo que: (...) a concepção positivista de psicologia é aquela que afirma a possibilidade e a necessidade de se construir um conhecimento e uma ciência completamente desvinculados dos jogos de interesse dos vários grupos, dos valores e da visão de mundo e de homem existentes no seio da sociedade, em que o objeto do conhecimento e o próprio conhecimento se encontram, sendo produzidos cotidianamente. Enfim, os positivistas eram fiéis à crença de que é absolutamente possível construir o conhecimento psicológico, sem que haja interferência dos valores e preconceitos, visto que o seu método de estudo lhe garante esse distanciamento necessário. Reconhece, ainda, Japiassu (1982) que a psicologia só poderá recuperar sua subjetividade se ela revir profundamente sua postura epistemológica, recusando seus parâmetros puramente positivistas. Uma segunda tendência surge na Psicologia, influenciada pelo pensamento de Kant - a psicologia subjetivista. Essa tendência partia da concepção de homem como ser autônomo e livre, não determinado pelo ambiente, que reconhece a predominância do sujeito sobre o objeto do conhecimento, valorizando sua atividade e criatividade. Para os subjetivistas, "todo conhecimento é visto como anterior à experiência. O sujeito é considerado como uma dimensão fundamental, mas não é situado na sociedade em que vive: é um sujeito fechado em sua subjetividade" (FREITAS, 1994, p. 62). Nesse rastro seguem a Psicologia da Gestalt e a Psicologia Humanista de Rogers. Ambas as abordagens - a objetivista e a subjetivista - entretanto, fragmentam a realidade, não tendo arcabouço teórico para explicar o todo, sendo insuficientes para a sua compreensão por negligenciarem o caráter histórico dos fatos. A fragilidade dessas abordagens logo foi percebida por aqueles que as aplicavam nos seus estudos. Contrapondo-se ao neopositivismo, os defensores do transpositivismo9 argumentavam que os princípios dos empiristas lógicos não conseguem dar conta do risco e complexidade das teorias científicas. Assim, a defesa básica A visão de conhecimento e de ciência desta tendência tem com pano de fundo o pensamento de alguns cientistas e filósofos mais recentes que iniciaram essa sistemática discussão. Assim, alguns pensadores deram direcionamento e subsídios para a construção de um novo pensamento como: Bachelard, Popper, Feyerabend, Kuhn, Foucault e muitos outros. 9 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 117 desta corrente da filosofia é no sentido de se contrapor aos ideais do positivismo dizendo que o conhecimento científico não se esgota nem nos processos experimentais de apreensão de seu objeto nem nos esquemas de sua expressão matemática e lingüística. É nessa linha que encontramos o trabalho de Piaget. Marcado pela gênese de um conhecimento progressivo e estruturado em uma lógica formal, Piaget buscou, através da psicogênese, desvendar a constituição do sujeito. Contrapondo-se às Psicologias objetivista e subjetivista, Piaget lança uma terceira tendência em que o conhecimento provém da interação que o sujeito vai construindo no processo de sua ação com o mundo. Concebendo esta visão, Piaget quer se afastar, de um lado, de uma concepção empirista e, de outro lado, de uma concepção idealista. Para sustentar suas idéias, este autor evidência os processos orgânicos e cognitivos, mostrando principalmente a relação deles na adaptação do sujeito ao real. Portanto, o pilar básico da abordagem piagetiana é de que o conhecimento é também um processo de adaptação, porém não se trata de mais uma adaptação mecânica, visto que os processos de assimilação e acomodação se dão numa dinâmica contínua de estruturações e de auto-regulações. Como se pode perceber, a arquitetônica piagetiana é de que o conhecimento é tido então como construtivista, ou seja, genético-estruturalista, que se organiza num processo interativo do sujeito com seu mundo. Assim, contrário à psicologia objetiva, em que todo conhecimento vem da experiência, como também à psicologia subjetivista, em que todo conhecimento é anterior à experiência, Piaget instaura uma terceira abordagem, representada pela visão interacionista em que o conhecimento provém fundamentalmente da interação do sujeito com o mundo real. É importante também destacar a influência da matemática e da lógica na estruturação teórica de suas idéias, bem como no conteúdo do trabalho experimental. Piaget faz uso dos sistemas lógicos-algébricos no tratamento à estrutura intelectual, como também o trabalho experimental é impregnado de deduções lógicas, uma vez que ele pesquisou o desenvolvimento infantil utilizando conceitos de número, probabilidade e de uma variedade de operações lógico-matemáticas. Vê-se, também, a física presente no sistema piagetiano. O conceito de sistemas em equilíbrio deriva dos campos da termo dinâmica e da mecânica. Enfim, a Física aparece nos estudos sobre o conceito de massa, peso e volume, de duração e de concepção temporal. Piaget tentou, pois, integrar as posições antagônicas naturacionismo e ambientalismo dando um salto qualitativo na busca de uma abordagem ancorada em um processo interativo entre o sujeito e seu mundo. Embora Piaget tenha, entretanto, realizado um minucioso trabalho teórico e empírico a respeito da contribuição do sujeito nas suas trocas com o meio, constata-se que Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 118 o papel do meio na estruturação das condutas do sujeito é relegado a um segundo plano. Segundo Freitas (1994, p.65-66), Piaget “enfatiza o papel ativo do sujeito, mas em seus trabalhos sobre a gênese das nações científicas e das operações lógico-matemáticas não se encontra um estudo da contribuição do meio na formação de conhecimento". Como se sabe, até um certo tempo, nas Ciências Humanas o homem foi pensado e concebido como uma essência universal e abstrata. Fugindo a essa concepção, passou-se a analisar o homem em um outro prisma. Defendeu-se, então, que, além de biológico, o homem é histórico, produto mutável da evolução das sociedades, pois vê-lo como um ser biológico é reduzi-lo a um homem geral, abstrato. Nos últimos anos, tem-se percebido, especialmente na psicologia, um enorme interesse pelos estudos acerca dos fenômenos humanos na linha da Escola Soviética. O modelo teórico que inspira os autores da corrente histórico-cultural tem como pressuposto básico a origem social das funções psíquicas, contrapondo-se a todos os outros modelos, pois coloca no homem a origem dessas funções. Criaram uma perspectiva para a compreensão da gênese e natureza social do desenvolvimento e para a inquirição das relações entre funcionamento individual e social. Enfim, contrária a outras correntes de Psicologia, a corrente sócio-histórica concebe o psiquismo humano como construção social que se dá através da apropriação10, por parte dos indivíduos, das produções culturais da sociedade que são mediadas por essa mesma sociedade. Na perspectiva dos autores da abordagem sócio-histórica, a mediação está ancorada na teoria marxista de produção que considera o desenvolvimento humano resultado da atividade do trabalho. Para Marx, no trabalho humano, ao mesmo tempo em que os homens transformam a natureza para satisfazer suas necessidades materiais e psicológicas, transformam-se eles mesmos, desenvolvendo funções e habilidades especificamente humanas. Instaura-se uma nova concepção de Psicologia. Acreditava-se que a Psicologia se encontrava numa tremenda crise epistemológica. Almejava-se uma psicologia que desse conta do sujeito da e na história e, assim, sairia de uma visão reducionista, mecanisista e positivista em que ela se encontrava. Isto é, era preciso restaurar o discurso do sujeito falante, libertando-o de sua condição de objeto. Para alguns, o único caminho para a psicologia era o materialismo dialético. Entende-se apropriação como um processo de internalização das funções psíquicas desenvolvidas ao longo da história social dos indivíduos. Sendo assim, internalização se dá numa rede complexa de inter-relações que articulam a atividade social dos indivíduos. 10 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 119 Desta forma, muitos vislumbravam que, tendo como pano de fundo o materialismo dialético, a psicologia adquiria equilíbrio e significação. Compreender o sujeito como um ser histórico que procura recuperar o seu espaço de sujeito, dando à linguagem um lugar especial na constituição da consciência, foi possível para uma redefinição no campo de estudo da Psicologia. Vygotsky e Bakhtin inauguram a ruptura com o objetivismo e subjetivismo da Psicologia. Por um lado, Vygotsky o faz por meio de sua psicologia histórico-social e, por outro, Bakhtin privilegiando a linguagem. Quando Vygotsky, por volta de 1924, ingressou no cenário psicológico, identificou os problemas da psicologia no texto A consciência como Problema da Psicologia do Comportamento, no qual abordou que a psicologia encontrava-se numa tremenda crise metodológica. Baseado na filosofia marxista, Vygotsky acreditava que o objeto da psicologia era a consciência de que a melhor maneira de estudá-la era por meio da pesquisa sobre como processos psicológicos superiores se desenvolvem a partir de processos psicológicos naturais. Assim como Vygotsky, Bakhtin (1992), em seu livro Marxismo e Filosofia da Linguagem, também criticou o positivismo psicológico que, ao contrário de sua proposta, concebeu a consciência como um simples amontoado de reações psicofisiológicas. Em suma, reduz os conteúdos da consciência a nada. A consciência, segundo ele, é um fato socioideológico e só será possível construí-la, como se deseja, a partir de uma psicologia objetiva ou de um estado objetivo das ideologias. E diz mais: "(...) é justamente o problema da consciência que criou as maiores dificuldades e gerou a formidável confusão que encontramos em todas as discussões relativas tanto à psicologia quanto ao estudo das ideologias" (BAKHTIN, 1992, p. 35). Como se vê, ele, além de conceber à consciência um lugar importantíssimo para a psicologia, diz ainda que a consciência, quando estudada, foi usada de forma subjetiva e não numa definição objetiva. É interessante ressaltar que, embora não sendo psicólogo de formação, Bakhtin traz à tona uma discussão acerca do verdadeiro caminho para a psicologia. Bakhtin (1992) propõe uma definição objetiva da consciência e defende que isso só será possível pela vertente sociológica, porque a consciência não pode derivar diretamente da natureza, como tentaram (e ainda tentam) mostrar o materialismo mecanicista e a psicologia contemporânea (principalmente o behaviorismo). Contrapondo-se aos idealistas e aos positivistas psicológicos, Bakhtin afirma que a consciência deriva da ideologia e não que a ideologia deriva da consciência; além disso, a consciência "(...) adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais" (BAKHTIN, 1992, p. 35). Em síntese, os signos são alimentados da consciência individual, a matéria de seu desenvolvimento. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 120 Expressos no viés que considera o homem um ser histórico e produto das relações sociais, para Vygotsky e Bakhtin, os fatores sociais é que modelam a mente e constituem o psiquismo. Por conseguinte, o psiquismo nasce a partir de uma perspectiva semiológica, na qual o signo, como produto social, tem função geradora e organizadora dos processos psicológicos. Sendo a consciência formada no social e mediada pela linguagem, ela é construída a partir das relações que os homens estabelecem entre si, como uma rede de atividades sígnicas. Indubitavelmente, Vygotsky e Bakhtin são autores que conferem à linguagem o caráter diferenciador entre homem e animal. Este pensamento colaborou para legitimar que, através da linguagem, o homem materializa o psiquismo. Afirma Freitas (1994, p. 71) que: (...) a opção por esses teóricos deve-se inicialmente ao fato de Vygotsky e Bakhtin terem proposto realizar a ruptura com o objetivismo e com o subjetivismo. Vygotsky o faz através de sua Psicologia histórico-social e Bakhtin na área dos estudos da linguagem. Bakhtin, embora não seja psicólogo, traz contribuições para a discussão de um novo caminho para a Psicologia. E diz mais: Esses autores baseiam-se no materialismo dialético, compreendendo o homem como ser histórico que procura recuperar o seu espaço de sujeito e dão à linguagem um lugar central na constituição da consciência. Sintetizam, portanto, as duas alternativas de ruptura assinaladas anteriormente: Linguagem e dialética. Como se vê, desde a crise do positivismo, reivindicações por uma mudança na concepção de Ciência vêm sendo incansavelmente feitas. Algumas dessas proposições são simpáticas às contribuições de origem dialética, sobretudo a abordagem vygotskiana. A psicologia do final do século XX: é muito diferente daquela de 1920 e principalmente do início dos anos 30 e 40. Sendo assim, a reflexologia e o behaviorismo, tão criticados por Vygotsky e Bakhin, deram lugar à nova Psicologia. Segundo Montero (apud MOLL, 1996, p. 79): Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 121 (...) o desenvolvimento de outras disciplinas, tais como a ciência dos computadores, a neurociência, a antropologia e a lingüística, tem revolucionado o estado da ciência atual em tal extensão que Gardner (1985) se aventura a dizer que estamos à margem de uma nova visão que poderia ser comparada à revolução cientifica do século XVII. Hoje, a tendência nos múltiplos programas de pesquisas são as que enveredam sobre as "Ciências Cognitivas", com trabalhos nas áreas da psicologia, da lingüística, da neurobiologia, da inteligência artificial etc. Há alguns pesquisadores que defendem a idéia de que, sem a filosofia cognitiva, não haveria ciência da cognição, visto que as ciências cognitivas fundamentamse sobre a base das questões filosóficas mais antigas acerca da mente humana, principalmente sua organização, sua natureza e, especialmente, as relações que ela mantém com o organismo, com outrem e com o mundo social. Indiscutivelmente, esta nova área é o ramo mais ativo e mais florescente da filosofia analítica. Comum à lógica positivista de Wittgenstein e à filosofia da linguagem da Escola de Oxford, a ciência cognitiva entende que o pensamento passa pela análise da linguagem como atividade pública (uma vez que não há linguagem privada) submetida a normas reconhecidas por uma comunidade intersubjetiva. Caminha-se, então; para uma filosofia cognitiva que se oferece como psicologia filosófica; que se introduz no interior das Ciências para investir no domínio da mente e expulsar as áreas que a dominavam: a fenomenologia, o existencialismo, o behaviorismo, a psicanálise, como também as ciências sociais e as ciências humanas de visão estruturalista. Recolhendo subsídios das neurociências, da psicologia, da filosofia, da lingüística e da cibernética, entre muitas outras, as Ciências Cognitivas formam um novo conjunto de pensar o conhecimento e o saber humanos que vêm provocando uma renovação radical. Para alguns, essa verdadeira ebulição intelectual ainda é pouco conhecida, pois essa nova interciência (como é chamada) nascera nos EUA, nos anos 40, no interior das discussões de intelectuais como: neurobiólogos, matemáticos e engenheiros, aos quais se juntaram em seguida psicólogos, antropólogos e economistas. Como se vê, realizou-se uma verdadeira desconstrução de princípios e da tradicional metafísica da subjetividade que até então pareciam insuperáveis. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 122 As Produções das Pesquisas em Psicologia da Educação no Programa de Pós-Graduação da PUC de São Paulo nas Décadas de 70, 80 e 90. Quando nos lançamos na tarefa de escrever sobre as implicações das perspectivas epistemológicas do empirismo lógico, do materialismo histórico e da crítica contemporânea para a pesquisa e a teoria em Psicologia da Educação no Brasil, pensamos em produzir um texto que reunisse não somente alguns elementos que compõem essas perspectivas a partir da qual muitas pesquisas em Psicologia da Educação foram norteadas nos últimos anos, mas, sobretudo, que pudesse investigar empiricamente os reflexos delas no contexto da produção do conhecimento na academia. Desse modo, resolvemos investigar em que temáticas as pesquisas desenvolvidas na Psicologia da Educação foram produzidas na Pós-Graduação, ou melhor, que paradigmas sustentam as áreas temáticas emergentes. No desafio de conhecer as produções que se têm na área da Psicologia da Educação, embrenhamos pelo contexto das produções desenvolvidas na Pós-Graduação da PUC-São Paulo. Escolhemos esta instituição porque, no contexto dos estudos sobre a Psicologia da Educação, o Programa de PósGraduação da PUC vem produzindo pesquisas de mestrado e doutorado que enveredam pelo conhecimento da psicologia em fronteira com a educação. São pesquisas que se apropriam de conceitos da Psicologia, os quais são incorporados ao campo educacional para propósitos pedagógicos sem privilegiar essa instituição, mas considerando a credibilidade e a respeitabilidade que este programa tem no âmbito nacional. Objetivo O objetivo da pesquisa foi fazer um levantamento das produções no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Educação na PUC de São Paulo desde sua implantação, na década de 70, até as décadas de 80 e 90. Para tal procuramos: (1) Fazer um levantamento de dissertações e teses produzidas nas décadas de 70, 80 e 90; (2) Analisar, através dos títulos e resumos desses trabalhos, as áreas temáticas priorizadas; (3) Identificar por, meio das temáticas dos trabalho, as perspectivas epistemológicas que nortearam as pesquisas em Psicologia da Educação. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 123 Procedimento Metodológico Com base em dados catalogados nos arquivos da biblioteca da PUC de São Paulo levantamos o número de dissertações e teses defendidas nas três últimas décadas do século passado. Constatamos que na década de 70 foram defendidas 56 dissertações; nas décadas de 80 e 90 foram defendidas 114 e 194 dissertações, respectivamente. Com relação às produções de teses de Doutorado no período que vai das décadas de 80 a 90, detectamos 66 teses defendidas. Posteriormente, através dos resumos catalogados, levantamos a seguinte questão: Quais as áreas temáticas da Psicologia privilegiadas nas dissertações e teses em Psicologia da Educação? Tentamos identificar as áreas temáticas que orientaram as dissertações e teses, objetivando, deste modo, indicar em que linhas teóricas essas pesquisas foram construídas. Com este material pudemos estabelecer um perfil das produções acadêmicas no contexto da pós-graduação em Psicologia da Educação na PUC de São Paulo. Uma das principais dificuldades encontradas inicialmente em alguns trabalhos está relacionada à estrutura dos resumos disponíveis sobre as dissertações e teses no terminal de consulta do sistema da biblioteca da PUC, que não indicam os objetivos e o encaminhamento teórico no qual a pesquisa foi orientada. Diante das limitações encontradas na leitura dos resumos, decidimos, então, ler na íntegra os trabalhos, privilegiando a parte teórica e metodológica da pesquisa. Resultados e Discussão dos Dados Analisando esse material, percebemos, logo de início, que são raras as pesquisas que demonstraram a preocupação em definir no resumo a vertente teórica de análise. Em algumas outras há apenas o nome do autor e o título da dissertação ou tese. Vê-se também em muitas outras que o resumo não dá um indicador do marco teórico, ou seja, não indica em que perspectiva epistemológica da: psicologia as pesquisas foram norteadas. Portanto, ficamos impossibilitados de enquadrar determinados trabalhos nas diversas linhas da psicologia. Constatamos ainda que são temas geralmente obscuros e, que deixam o leitor confuso, sem saber exatamente o arcabouço teóricometodológico que orientou a pesquisa. Dos trabalhos que apresentavam dificuldade de identificação datemática, procuramos fazer uma revisão no texto para assim definir o encaminhamento de inves¬tigação dos dados da pesquisa. Dessas produções, pode-se dizer que os trabalhos enveredam por duas vertentes analíticas: de um lado, os que têm como ponto de partida a Psicologia adentrando um problema educacional e que mais adiante retornam à Psicologia com seus Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 124 questionamentos e, de outro lado, os que têm como ponto de partida um problema educacional para cuja compreensão se buscam os princípios epistemológicos na Psicologia, incluindo-os à ótica educacional. Após rastrear os temas e resumos das dissertações e teses catalogados na biblioteca da PU C, estabelecemos as áreas temáticas do conhecimento da Psicologia da Educação privilegiadas pelos alunos da pós-graduação. Verificamos então que, dos 430 trabalhos defendidos no período de 70 a 90, os temas-áreas do conhecimento na Psicologia da Educação são: 35 em Psicologia do Desenvolvimento; 38 em Psicologia da Aprendizagem; 79 em Formação de Profissionais da Educação; 64 em Método de Ensino; 79 em Avaliação Educacional; 33 em Estudos de Revisão Bibliográfica; 37 em Análise da Escola e de Conteúdos; 60 em Representações Sociais; 04 em História da Psicologia da Educação. Dos resultados obtidos averiguamos, por exemplo, que na década de 70 (Quadro I), das 56 dissertações de mestrado defendidas, 19 (33,9%) são em Avaliação Educacional; 10 (17,9%) sobre Formação de Professores; 06 (10,7%) em Psicologia do Desenvolvimento; 06 (10,7%) em Psicologia da Aprendizagem; 06 (10,7%) em Métodos de Ensino; 06 (10,7%) em Estudos de Revisão Bibliográfica; 02 (3,6%) sobre Análise da Escola e de Conteúdos e 01 (1,8%) trabalho em que não foi possível identificar a área temática de conhecimento. Das 56 dissertações de mestrado defendidas na década de 70, as pesquisas enveredam principalmente numa linha de pensamento positivista, na qual a compreensão do processo educacional era a temática mais recorrente. Consolida-se àquela altura um modelo de produção cujos instrumentos eram estatísticos, delineados especialmente sob a base dos princípios experimentais, psicométricos, enfim, caminhava-se numa visão tecnicista, tanto que 19 trabalhos, ou seja, 33,9% das pesquisas no mestrado na década de 70, versaram sobre Avaliação Educacional. Analisando o Quadro I, detectamos ainda que, de um lado, essas pesquisas foram geradas metodologicamente sobre os fatores formais da lógica positivista, pois muitas discussões destacam a eficiência da aprendizagem e do ensino. Procuravam-se explicações para entender o fracasso escolar. Utilizaramse, também, instrumentos de mediação para diagnosticar o marasmo do ensino e da aprendizagem no contexto das escolas. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 125 QUADRO I DISSERTAÇÕES DE MESTRADO DISTRIBUÍDAS POR ÁREAS TEMÁTICAS DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NA DÉCADA DE 70 FONTE: Dados adquiridos na Biblioteca da PUC-SP, 2000. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 126 Havia, na década de 70, uma preocupação do governo brasileiro em identificar o fracasso escolar de forma individualizada. Omitindo-se de qualquer culpabilidade, camuflava os problemas sociais através do insucesso da criança na escola. Observamos, também, que outras pesquisas versam sobre a Prática de Profissionais que atuam na escola. Iniciavam-se, assim, pesquisas sobre a Formação de Professores e de outros profissionais da educação, tanto que 10 trabalhos, isto é, 17, 9% das pesquisas, eram nesta linha. Na mesma proporção, centralizam-se os trabalhos que discutem questões direcionadas à Psicologia do Desenvolvimento, 06 (10,7%); 06 à Psicologia da Aprendizagem (10,7%); Métodos do Ensino, 06 (10,75) e Estudos de Revisão Bibliográficas, 06 (10,7%). Em menos proporções encontram-se estudos sobre a Análise da Escola e de Conteúdos, 02 (3,6%). Por volta da década de 80 (Quadro lI), dos 114 trabalhos realizados, percebemos que 21 (18,4%) versam sobre Avaliação Educacional; em Representações Sociais, 20 (17,5%) trabalhos e em Método de Ensino, 18 (15, 8%). Constatamos, ainda no Quadro lI, 16 (14%) trabalhos sobre Análise de Escolas e de Conteúdo; na mesma proporção, trabalhos na área da Psicologia do Desenvolvimento e Formação de Professores com 11 (9,6%). Por fim, 10 (8,8%) trabalhos em Psicologia da Aprendizagem e 07 (6.1%) trabalho em Estudos de Revisão Bibliográfica. Os dados revelam que, nesta década, parte dos trabalhos defendidos traz contribuições ou sugestões para a aprendizagem escolar, para adaptação das ações educativas às heterogêneas atitudes dos educadores, além de sua formação psicológica. Em outros trabalhos, criticam-se a fragmentação das técnicas de ensino e as práticas pedagógicas. Percebemos também que alguns trabalhos trazem muitas críticas dirigidas principalmente ao processo educacional Constatamos que a maioria dos trabalhos verifica situações reais de ensino enfatizando as práticas de sala de aula, os processos de motivação de ensino e as práticas de ensino de professores. Os trabalhos sobre a prática de professores abordam as metodologias de ensino e as discussões sobre a formação docente. Notamos nesse período um grande interesse de estudos na linha das Representações Sociais. Assim, investigaram-se as Representações Sociais de professores, alunos, pais, crianças, psicólogo escolar, diretor de escola, orientadores educacionais e outros. Observamos, por exemplo, que esses trabalhos foram fundamentados teoricamente numa abordagem so¬ciológica e antropológica. Encontramos ainda trabalhos na linha das representações sociais que enfatizam questões de identidades, reflexões sobre a formação do professor-pesquisador, suas práticas, sentimentos, saberes e valores. É importante destacar que, por volta do final da década de 80, as pesquisas transitaram sob o modelo etnográfico. Iniciavam-se, também, neste Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 127 momento, as primeiras perquirições centradas não mais num modelo de sujeito a-histórico, emudecido, isolado, mas num sujeito como sujeito da e na história. QUADRO II DISSERTAÇÕES DE MESTRADO DISTRIBUÍDAS POR ÁREAS TEMÁTICAS DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NA DÉCADA DE 80. TEMA-ÁREA DO CONHECIMENTO DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Psicologia do Desenvolvimento Psicologia da Aprendizagem Formação de Profissionais (professores, psicólogos, orientadores, supervisores ) Métodos de Ensino Avaliação Educacional Estudos de Revisão Bibliográfica Análise de Escolas e de Conteúdo Representações Sociais TOTAL QUANTIDADE PORCENTAGEM 11 10 9,6% 8,8% 11 9,6% 18 21 07 16 20 114 15,8% 18,4% 6,1% 14,0% 17,5% 100% FONTE: Dados adquiridos na Biblioteca da PUC-SP, 2000. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 128 Ao longo da década de 90 (Quadro'!l!), verificamos que, das 194 dissertações defendidas,48 (24,7%) foram realizados na área de Formação de Profissionais, seguidas de 31 (16%) trabalhos em pesquisas sobre Avaliação Educacional e de 30 (15,5%) direcionadas para as Representações Sociais. Verificamos, ainda, 17 (8,8%) trabalhos em Psicologia da Aprendizagem; 15 (7,7%) em Psicologia do Desenvolvimento; 14 (7,2%) em Estudos de Revisão Bibliográfica e 13 (6,7%) trabalhos em Análise de Escolas e do Conteúdo. QUADRO III DISSERTAÇÕES DE MESTRADO DISTRIBUÍDAS POR ÁREAS TEMÁTICAS DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NA DÉCADA DE 90 TEMA-ÁREA DO CONHECIMENTO DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Psicologia do Desenvolvimento Psicologia da Aprendizagem Formação de Profissionais (professores, psicólogos, orientadores, supervisores ) Métodos de Ensino Avaliação Educacional Estudos de Revisão Bibliográfica Análise de Escolas e de Conteúdo Representações Sociais TOTAL QUANTIDADE PORCENTAGEM 15 17 7,7% 8,8% 48 24,7% 26 31 14 13 30 194 13,4% 16,0% 7,2% 6,7% 15,5% 100% FONTE: Dados adquiridos na Biblioteca da PUC-SP, 2000. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 129 Os dados obtidos no Quadro III indicam que, no início da década de 90, diversos pesquisadores caminharam teoricamente na linha sócio-histórica. Um dos assuntos mais freqüentes envereda sobre as relações entre Cognição e Cultura, inspirados principalmente em Luria, Leontiev, Vygotsky, Wallon. Essas pesquisas conduziam para um novo paradigma na Psicologia, que assume a cultura como constituídora do fenômeno psicológico. Essa nova tendência foi amplamente aplicada no contexto da Psicologia no Brasil. Desse modo, as bases epistemológicas das pesquisas de mestrado ao longo desta década objetivavam principalmente investigar o sujeito cultural, inclusive questões legadas ao cotidiano escolar. No que se refere às produções de teses de doutorado no período que vai das décadas de 80 a 90 (Quadro IV), quando foi implantado o Doutorado no Programa de Estudos em Psicologia da Educação, constatamos que, das 66 temáticas pesquisadas, há um número significativo delas que versa sobre Métodos de Ensino, 14 (21,25); seguido, na mesma proporção, de pesquisas sobre Formação de Profissionais, 10 (15,2%); Representações Sociais, 10 (15,2%); Avaliação Educacional, 08 (12,1 %); 06 (9,1 %) em Estudos de Revisão Bibliográfica e Análise de Escolas e do Conteúdo; 05 (7,6%) trabalhos na área da Psicologia da Aprendizagem; 04 (6,1%) em História da Psicologia da Educação e, por fim, 03 (4,5) trabalhos em Psicologia do Desenvolvimento. QUADRO IV TESES DE DOUTORADO DISTRIBUÍDAS POR ÁREAS TEMÁTICAS DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PERÍODO DE 80 a 90. TEMA-ÁREA DO CONHECIMENTO DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Psicologia do Desenvolvimento Psicologia da Aprendizagem Formação de Profissionais (professores, psicólogos, orientadores, supervisores ) Métodos de Ensino Avaliação Educacional Estudos de Revisão Bibliográfica História da Psicologia da Educação Análise de Escolas e de Conteúdo Representações Sociais TOTAL QUANTIDADE PORCENTAGEM 03 05 4,5% 7,6% 10 15,2% 14 08 06 06 04 10 66 21,2% 12,1% 9,1% 9,1% 6,1% 15,2% 100% FONTE: Dados adquiridos na Biblioteca da PUC-SP, 2000. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 130 DEMONSTRATIVO GRÁFICO DO QUADRO IV Os dados do Quadro IV indicam que, embora em número reduzido foram as pesquisas de cunho teórico que demonstraram a necessidade de Revisão Bibliográfica de algumas teorias na Psicologia, como também investigações teóricas, tendo como arcabouço discursivo os estudos empreendidos por autores contemporâneos, como Skinner, Piaget, Habermas, Heidegger, Vygotsky e muitos outros. Houve também a necessidade de se investigar a trajetória da Psicologia no Brasil, tanto que algumas teses resgatam, a construção da Psicologia nas principais Universidades do País. Um outro fato interessante detectado foram algumas pesquisas que, de um lado, objetivavam estudar as condições sob as quais alunos de Pós-Graduação em Psicologia elaboraram seus trabalhos de tese ou de dissertações e, de outro, analisar o processo de avaliação institucional no ensino superior. À Guisa de Conclusão Os resultados deste estudo revelam que: (1) a Psicologia da Educação no Brasil, no século passado, teve a influência de vários modelos, como a tendência de pesquisas orientadas para a tecnologia educacional que buscava racionalizar o ensino através de definição operacional de objetivos, de escolha de estratégias de ensino mais eficaz e de avaliação; (2) estudos na área do desenvolvimento e aprendizagem foram aplicados sob a égide dos princípios do comportamentismo skkinneriano, baseado no modelo positivista de ciência neutra e objetiva; Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 109-132, jan./dez., 2005 OS CAMINHOS EPISTEMOLÓGICOS DAS PESQUISAS EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO DA PUC DE SÃO PAULO NAS DÉCADAS DE 70,80 e 90 131 (3) a Psicologia da Educação, na fase de sua implantação no Brasil, teve um caráter individualista, pois o objetivo era formar professores capazes de conhecer a personalidade da criança e orientar sua aprendizagem; (4) a Psicologia aplicada à educação recebeu a influência de John Dewey, representante do funcionalismo americano, como também da Psicometria no contexto educacional brasileiro. Trazido dos Estados Unidos, o funcionalismo americano era usado para diagnóstico da inteligência, das aptidões. Os testes psicológicos foram utilizados nas escolas de forma indiscriminada, a ponto de explicar as diferenças individuais de aptidões, camuflando as desigualdades sociais ao apresentá-las como dificuldades psicológicas. Podemos dizer que, embora na década de 90 as pesquisas na pósgraduação tenham seguido os encaminhamentos das décadas anteriores, percebe-se uma relação interdisciplinar, enfatizando, sugestões metodológicas, relacionadas com áreas científicas amplas. Esta nova tendência às investigações estava fundamentada nos princípios dos autores sóciointeracionistas, ancoradas, sobretudo, na teoria de Vygotsky. Uma das características mais interessantes da contribuição de Vygotsky para o desenvolvimento intelectual neste século é a variedade de influências que as suas idéias acabaram por atingir. Além disso, a perspectiva vygotskiana constituiu (e ainda constitui) uma abordagem apropriada num certo paradigma de investigação que foi (e ainda é) amplamente utilizado nas pesquisas em Psicologia da Educação no Brasil. A principal conclusão que se tira do conjunto de reflexões acima exposto é que os estudos na área da Psicologia da Educação no âmbito da PUC avançaram na década de 90. Muitas pesquisas caminharam em uma direção mais interdisciplinar, assim como se observou um olhar voltado para as discussões sobre novas formas epistemológicas de aplicabilidade da Psicologia à Educação, configurando-se em múltiplos campos, como da linguagem, da cultura, da arte, da literatura etc. Parece evidente que o campo da Psicologia da Educação no Brasil é sobremaneira fértil para novas formas de investigações justamente pelas suas múltiplas interfaces e fronteiras com outras áreas do conhecimento. Referências bibliográficas BAQUERO, Ricardo. Vygotsky e a aprendizagem escolar. 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Busca sistematizar e analisar o processo que envolveu a formulação do Fundef. Com base em entrevistas abertas submetidas a um processo de Análise de Conteúdos, desenvolvido por Bardin, os resultados evidenciam, dentre outros aspectos, que o Fundef gerou uma reforma tributária em prol da educação, tendo se constituído numa política educacional pública precursora da associação da responsabilidade legal ao recebimento de parte dos recursos constitucionalmente transferidos. De forma surpreendente, o texto revela que todo o processo de operacionalização do Fundo foi desencadeado a partir da fixação a priori de um valor monetário mínimo por aluno/ano da ordem de R$ 300,00. Palavras-chave: Políticas Públicas. Financiamento da Educação. Fundef. THE PROCESS OF FORMULATION OF FUNDEF: A STUDY STARTING FROM THE PERSPECTIVE OF THE MEMBERS OF MEC (NATIONAL BOARD OF EDUCATION) Abstract: The reference of this work is the sight of professionals that worked at MEC, during Fernando Henrique Cardoso's government. It seeks to systematize and analyze the process that involved the formulation of FUNDEF (National fund for the development of elementary Education). Based on open interviews submitted to a process of contents analysis, developed by Bardin², the results evidenced among other aspects, that the Fundef begot a tributary reform on behalf of the education, constituting itself in a public educational politics, forerunner of the association of the legal responsibility of receiving a part of the funds constitutionaly transferred. In a surprising way the text reveals that ali the process of operation of the fund was unleashed since the attachment of a minimum monetary value for each student/ year in the range of R$ 300,00. Key words: Public Politics. Financing of Education. Fundef. 1 Professora do Instituto de Ciências da Educação da UFP1\. Doutora em Educação. E-mai1: [email protected]. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 134 Considerações Iniciais Na minha percepção, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) foi a iniciativa mais importante de nossa gestão em oito anos à frente do Ministério. (SOUZA (1), 2005). A reforma educacional da década de 1990 efetivou-se associada a um amplo processo de reforma do Estado. Enquanto o primeiro qüinqüênio foi marcado por discursos e propostas polarizadas sobre o papel do Estado na organização da economia e sobre a função do poder público nas áreas sociais (ARELARO, 2000), em especial sobre o papel do Estado em relação à educação, o segundo destacou-se pela reformulação do ordenamento constitucional-legal, anunciada desde a elaboração do programa de governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, Mãos à Obra, Brasil, e concretizada, no ano de 1996, quando da aprovação no Congresso Nacional da Emenda Constitucional n° 14 (EC 14), da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e da Lei de Regulamentação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef). Nesse contexto de reforma educacional- em que a educação e seu financiamento se apresentavam dependentes da agenda econômica - foi reformulada a estrutura de financiamento da educação básica pública do País e foi formulado o Fundef, considerado pelo ex-ministro da Educação, Paulo Renato Souza, a iniciativa mais importante da sua gestão em oito anos à frente do Ministério da Educação (SOUZA (1), 2005). Os debates que envolveram o Fundef, além de evidenciar a intrínseca relação entre o direito à educação e o seu financiamento (OLIVEIRA (1), 1998), foram profícuos ao revelar a importância de se construir conhecimento pertinente ao processo que envolve a proposição, formulação e implementação de políticas sociais públicas. Partindo destas constatações, este trabalho - na condição de parte de um estudo maior2 que buscou reconstruir e segmentar em etapas o processo que norteou da criação à implementação do Fundef no País - tem por objetivo sistematizar e analisar o processo de formulação do Fundef, o qual, por fins didáticos, foi aqui seqüenciado em três momentos: origem, concepção e 2 Este texto tem por origem a tese de doutorado intitulada "Financiamento da educação no Brasil: o Fundef a partir do relato de seus idealizadores”: defendida pela autora deste artigo, em fevereiro de 2005, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 135 operacionalização. A fim de ir ao encontro deste objetivo, o estudo tem por base depoimentos de integrantes do Ministério da Educação (MEC) que projetaram esta política educacional e que, além disso, impulsionaram sua aprovação nos contextos político e educacional, brasileiros. Para tal, toma como referência de análise os depoimentos dos professores Paulo Renato Souza, Barjas Negri, Iara Glória Areias Prado e Eunice Ribeiro Durhan, os quais, à época do processo de formulação do Fundef, ocupavam no MEC, respectivamente, os cargos de ministro de Estado da Educação, secretário executivo do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), secretária do Ensino Fundamental e secretária de Políticas Educacionais. O estudo, de cunho prioritariamente qualitativo, teve como fonte de informação entrevistas de classificação aberta. A opção por esta técnica de entrevista teve assento no pensamento de Bogdan e Biklen (1994), os quais evidenciam que, longe de procurar controlar as respostas dos integrantes da pesquisa, busca ampliar as perspectivas de análise do tema em estudo. Já a análise dos resultados, partindo do exame da transcrição das entrevistas gravadas, tomou por referência procedimentos de Análise de Conteúdos, desenvolvidos por Bardin (1975), que tem por orientação fundamental critérios para a categorização e subcategorização de informações qualitativas. O Fundef sob a Perspectiva de Integrantes do MEC: Origem Quando assumimos o governo nós tínhamos um plano [de governo] claramente formulado. [...] mas, de fato, o Fundej como Fundej não estava concebido. O Fundef nasceu, digamos assim, da necessidade de enfrentarmos o problema da valorização do professor. Esta foi a origem. (SOUZA (1), 2005). Ainda que grande parte das ações executadas nas duas gestões do presidente Fernando Henrique estivesse prevista nos seus dois programas de governo3 e embora o governo se predispusesse a rever e até, como se verificou, a reformar a estrutura de financiamento do setor educacional, em especial a relacionada ao ensino fundamental, a política de fundos contáveis para financiar a educação não estava posta naqueles programas como uma diretriz da gestão ministerial 1995-2001. Este fato foi confirmado pelo ministro Paulo Renato em entrevista, quando afirmou que o Fundef teve sua origem desencadeada na necessidade de o MEC enfrentar o problema da valorização do professor, 3 Intitulados, respectivamente, Mãos á Obra, Brasil e Avança, Brasil. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 136 reivindicada pelos movimentos sindicais já por ocasião do início da sua gestão ministerial. Embora o Fundef ainda não fosse vislumbrado como uma política educacional, a preocupação com a valorização do magistério já estava presente no programa de governo Mãos à obra Brasil que, prenunciando a forma cautelosa com que o futuro governo federal viria a lidar com as questões salariais, apresentava a seguinte referência: "O governo federal atuará com os estados e municípios no sentido de redefinir responsabilidades e competências no sistema educativo visando: [...] Estabelecer carreiras para o magistério que contemplem a valorização profissional, melhores salários e a busca permanente pelo aperfeiçoamento e atualização" (CARDOSO, 1994, p. 118). A preocupação com a valorização do magistério foi reforçada, em fevereiro de 1995, quando representantes da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) apresentaram à nova equipe do MEC um documento preliminar, elaborado após intenso trabalho analítico que teve como origem um planejamento político-estratégico4, realizado no âmbito do Fórum Permanente de Valorização do Magistério e Qualidade da Educação Básica5. O documento trazia a seqüência das discussões em torno do tema "desvalorização dos profissionais do magistério", analisava seus problemas cruciais e focalizava os aspectos debatidos no Fórum, nos seminários do Plano Decenal de Educação6 e na Conferência Nacional de Educação para Todos, promovida no ano de 1994, durante a gestão do ministro Murilo Hingel. Trazia, ainda, os termos do Acordo e do Pacto pela Valorização do Magistério e Qualidade da Educação7. Ao final, apresentava que a revalorização do professor, dada, principalmente, por intermédio da qualidade da formação inicial e continuada e por meio de um piso salarial profissional nacional (PSPN)8 de, no mínimo, R$ 300,00 à época, a ser garantido para os docentes 4 O PPE foi coordenado pela Escola de Governo da Unicamp, na pessoa do professor Walter Barelli (MONLEVADE,2000). 5 O Fórum foi instalado em 8 de junho de 1994 e contava com representações das seguintes entidades: MEC, Consed, Undime, CNTE, CRUB, Anfope, Fórum dos Conselhos Estaduais de Educação e Ministério do Trabalho. Sua missão consistia basicamente em formular um conjunto de medidas que assegurassem a valorização, inclusive salarial, do magistério da educação básica pública. (MONLEVADE, 2000, p. 160). 6 O Plano Decenal de Educação para Todos teve por objetivo principal delinear estratégias com vistas a universalizar o ensino fundamental e erradicar o analfabetismo, compromisso assumido pelo Brasil, durante a Conferência Mundial de Educação para Todos (1990), em Jomtien, Tailândia. 7 O Pacto, assinado pelo Presidente Itamar Franco, pelo ministro Murilo Hingel e por representantes do Fórum, tinha por objetim dar maior visibilidade política ao Acordo, este contemplando as diretrizes teóricas e práticas para a implantação dos novos planos de carreira, uma vez que os existentes, na sua imensa maioria, eram tão distorcidos que "atribuir aos vencimentos iniciais correntes o valor do piso salarial profissional nacional significaria inviabilizar o pagamento dos professores com maior titulação e tempo de serviço" (MONLEVADE, 2000, p. 161). 8 A idéia do piso salarial nacional já estava presente nas discussões de entidades sindicais desde antes da instalação da Assembléia Nacional Constituinte de 1987-1988, tendo sido levada pela representação da CNTE ao Fórum, que a incorporou. No período pós-Constituinte, a CNTE, particu1armente, empenhou-se numa luta sem êxito pela aprovação de um piso salarial nacional que corresponderia ao "salário mínimo" do professor público da educação básica. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 137 habilitados, pelo menos, em nível de 2° grau, vinculados a um regime de 40 horas semanais com, no mínimo, 25% de horas-atividade, vinha esbarrando continuamente na "vontade política" do governo federal (MONLEVADE, 2000). Apresentadas as preocupações da CNTE e expostas as linhas de ações imediatas do Ministério em relação à valorização do magistério, o ministro mostrou ser necessário compatibilizar as metas evidenciadas pela entidade sindical com as metas do MEC e do governo federal. Segundo evidencia Monlevade (2000), à saída da reunião, o ministro deixou claro que, a princípio, era contrário ao PSPN, embora aberto a discussões e convencimento. A partir desse encontro com a CNTE, o ministro constituiu um grupo interno para estudar uma proposta e fixou uma reunião com o Fórum para o começo de junho. Este grupo - que teve à frente os professores Barjas Negri Eunice Durhan e Iara Prado - tinha por objetivo "elaborar uma proposta que pudesse contemplar o interesse de todas as partes tanto quanto possível" (SOUZA (1), 2005, p. 5). Durante a entrevista concedida, o ministro Paulo Renato evidenciou que, ciente da necessidade de enfrentar o problema, seu posicionamento resultou contrário à fixação de um piso nacional de salários, deixando clara sua oposição a tal idéia perante o grupo constituído. No entendimento do ministro, uma decisão do MEC em prol do PSPN: (1) iria no sentido oposto à autonomia dos entes federados; (2) conduziria as negociações salariais para o âmbito nacional; (3) não tornaria a vinculação constitucional de recursos mais efetiva; e (4) dificilmente obteria aprovação no próprio governo. Na percepção do ministro, dada a autonomia das instâncias federadas, assegurada na Constituição Federal de 1988, art. 18 (BRASIL, 1988), o governo federal não poderia obrigar estados e municípios a determinadas despesas, a não ser que garantisse com recursos próprios. Uma possível opção pelo PSPN obrigaria o governo federal a suplementar os recursos das instâncias subnacionais sem condições de dar sustentação financeira ao piso salarial determinado para o âmbito nacional. Obviamente que, em função de o orçamento da União apresentar grande parte de seus recursos constitucionalmente vinculados à educação comprometida com as universidades e pagamento de aposentados, as dificuldades de financiamento de um projeto deste teor eram imensas. Além disso, tal decisão incorreria na nacionalização da discussão salarial dos professores da educação básica, Monlevade (2000) assim defende a instauração de um piso salarial nacional para os professores: "O PSPN, como salário mínimo de todos os professores - por ser a profissão do magistério uma habilitação nacional e por todos os professores da educação básica estarem contidos nas fronteiras e em atuação no País - deve ser fixado por lei federal, como acontece com o salário mínimo de todos os trabalhadores" (p.110). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 138 "levando a negociação sindical para o nível federal" (SOUZA (1), 2005, p. 74). A aceitação da proposição de um piso salarial nacional resultaria na unificação do movimento sindical dos professores, conferindo grande força política às suas reivindicações. Assim, na concepção do ministro entrevistado, em função das disparidades regionais, a opção pelo PSPN (e seu processo nacional de negociação) poderia introduzir novas irracionalidades no sistema educacional, sem garantir um avanço da qualidade da educação. Afora os motivos relacionados à autonomia de estados e municípios e à nacionalização das negociações salariais, o governo federal, ao tomar para si a responsabilidade de dar sustentação financeira à manutenção de um piso salarial nacional, segundo o ministro, não resolveria o problema de obrigar as instâncias subnacionais a investirem na Educação os recursos constitucionalmente vinculados9. Caso o governo não enfrentasse este problema, a universalização do ensino fundamental e a qualidade do ensino - bandeira de luta, tanto do MEC quanto das entidades sindicais ligadas à educação - não se tornariam um horizonte possível. Pelas razões explicitadas, o ministro acreditava que "seria impossível obter a aprovação dessa proposta [PSPN] junto aos integrantes da área econômica do governo e dificilmente contaria com a aprovação do presidente" (SOUZA (1), 2005, p. 76) A professora Eunice Durhan, em entrevista, argumentou que, em função das diferenças regionais, a fixação de um piso salarial nacional que atendesse às necessidades das regiões Norte e Nordeste poderia ser insuficiente para as regiões Sul e Sudeste, podendo, inclusive, ser transformado, pela pressão de corrupção, "numa arma eleitoral e política, clientelista e misteriosa" (p. 01). Neste sentido, a equipe do MEC acreditava que, em função dos interesses diversos, a proposta de um PSPN não conseguiria dar conta da diversidade que historicamente vem configurando a realidade fiscal das diferentes regiões do País. O Fundef sob a Perspectiva de Integrantes do MEC: Concepção A idéia toda foi fazer um tipo de distribuição que equalizasse a responsabilidade de estados e municípios e permitisse que os fundos legalmente destinados ao ensino fundamental fossem, 9 Pesquisas realizadas com vistas à elaboração de um diagnóstico educacional que pudesse subsidiar as proposições relativas à Educação a serem dispostas no programa de governo do futuro presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, evidenciavam que a vinculação constitucional de recursos não era efetiva, uma vez que grande parte de seus recursos eram desviados para outras áreas (MENEZES, 2005). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 139 realmente, aplicados no ensino fundamental. (EUNICE DURHAN, em entrevista à autora). A concepção simples do Fundef foi colocar o recurso onde está o aluno... (BARJAS NEGRI, em entrevista à autora) O Fórum, por sua vez, apresentava como proposta para garantir a implantação do PSPN e do novo regime de trabalho "a definição de um modelo de divisão de encargos e distribuição de recursos entre os diferentes sistemas de ensino" (Documento do Pacto apud MONLEVADE e FERREIRA, 1998, p. 15) a ser efetivada por meio de três fundos articulados, cuja estrutura deveria ser concretizada até outubro de 1995. Os fundos articulados, discutidos na Conferência Nacional de Educação para Todos, tendo como fonte de recursos os percentuais constitucionalmente vinculados à educação por cada uma das esferas federadas, seriam controlados por conselhos com participação da comunidade escolar. No entanto, na avaliação do grupo constituído pelo ministro para elaborar uma contraproposta à proposta da CNTE e encampada pelo Fórum Permanente do Magistério, uma estrutura de financiamento sob estas condições continuaria mantendo a dispersão dos recursos educacionais. Na concepção do grupo do ME C, a falta de uma maior clareza do marco legal em relação às responsabilidades e prioridades de atendimento por parte dos entes federados, entre outros problemas relacionados ao ordenamento constitucional-legal, associada a uma estrutura de fundos articulados que contemplava recursos para toda a educação básica, constituía-se em fatores que, além de dificultar a efetiva destinação dos recursos àqueles de direito, impunham obstáculos para que o MEC fosse ao encontro de um dos seus principais objetivos expressos no plano de governo: a universalização do ensino fundamental. Ou seja, embora o grupo do MEC concordasse com a idéia de um Fundo para dar sustentação financeira à Educação, discordava da forma de estruturação dos fundos articulados. Essas considerações levaram o grupo a concluir que deveria encontrar uma solução que: (1) contemplasse a valorização do magistério, sem passar por um piso salarial nacional; (2) tornasse mais efetiva a vinculação de recursos no âmbito das instâncias subnacionais; (3) ampliasse o atendimento ao ensino fundamental; (4) não descuidasse da busca pela eqüidade na distribuição dos recursos per capita por aluno e, ainda, que (5) divergisse da estrutura de fundos articulados, proposta pelo Fórum, uma vez que acreditavam que ela não ia ao encontro das metas do Ministério. Uma das primeiras idéias do grupo do MEC, destacado para compatibilizar as metas do Ministério com as do Fórum, em prol de um futuro Fundo para a Educação, foi que a distribuição de seus recursos deveria tomar Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 140 como referência o aluno atendido. Esta concepção, posteriormente, foi associada à noção de valor mínimo por aluno, reajustado anualmente, passando a ser considerada a principal estratégia do Fundo de combate às iniqüidades existentes no contexto educacional do País. O grupo - tendo como ponto de partida o enfrentamento do conflito existente entre as redes estadual e municipal, em relação à oferta de vagas para as diferentes etapas de ensino da educação básica, o qual vinha concorrendo para o assentamento de baixíssimos investimentos por aluno ao ano, em especial, nas Regiões Norte e Nordeste - ao propor uma correlação direta entre a oferta de matrículas e o recebimento de recursos, buscava induzir o atendimento, uma vez que quem disponibilizasse a vaga ficaria com o recurso do custeio. A reforma do marco legal (que vinha sendo conduzida de forma imbricada ao processo de formulação do Fundef) deveria apresentar a oferta do ensino fundamental como uma competência concorrente entre estados e municípios, de modo que a estadualização ou municipalização de tais matrículas passasse a se constituir decisão inerente às instâncias subnacionais, as quais deveriam tomar o regime de colaboração como princípio norteador de suas ações e políticas. Segundo Barjas Negri em entrevista, por ocasião da concepção dos princípios norteadores do Fundo, a estadualização ou municipalização do ensino fundamental não se constituía objetivo a ser alcançado. Nesta perspectiva, evidenciou que buscou conceber um Fundo que, simplesmente, direcionasse o recurso para a rede que estivesse atendendo ao aluno do ensino fundamental. Ainda analisando o Fundo no contexto resultante da reforma do ordenamento constitucional-legal, da segunda metade da década de 1990, evidencia-se que a idéia de relacionar a distribuição dos recursos ao efetivo esforço de matrícula no ensino fundamental10, ao ser associada a uma maior clarificação das responsabilidades dos entes federados em relação às etapas de ensino da educação básica11, além de induzir (principalmente pela dotação específica de recursos) a oferta de vagas para o ensino fundamental, também, induz (pela delimitação) o atendimento às demais etapas de ensino da educação básica. Assim, a subvinculação de recursos ao ensino fundamental, disposta no art. 60, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), mais do que proteger a destinação de recursos para este nível de ensino - o qual já conta 10 Disposto no § 2°, do artigo 60, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, com redação dada pela Emenda Constitucional 14 e no artigo 2°, da Lei 9.424/96 (BRASIL, 1996). 11 Disposta no artigo 211, da Constituição Federal de 1988, com redação dada pela Emenda Constitucional 14 e no título IV da Lei 9.394/96 (BRASIL, 1996). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 141 com garantias constitucionais12 para o seu financiamento -, ao delimitar-lhe um percentual mínimo de investimentos dentro de um percentual maior, qual seja, o da vinculação constitucional de recursos (disposta no art. 212, da Constituição Federal), apresenta-se como um divisor da aplicação dos recursos constitucionalmente vinculados à educação, configurando"se como um artifício para defender, orientar e induzir o gasto das instâncias federadas em outras etapas de ensino não-obrigatórias. Em meio ao processo de concepção dos princípios norteadores do Fundo e tendo como indicação inicial o entendimento de que a distribuição dos recursos educacionais deveria ter por critério o aluno matriculado, o grupo do MEC chegou à conclusão de que um possível Fundo para a educação deveria constituir-se num sistema por meio do qual ficasse clara a responsabilidade concorrente dos governos subnacionais em relação ao ensino fundamental. Sob essa perspectiva, o financiamento deste nível de ensino seria de responsabilidade conjunta de estados e municípios. Esta concepção tinha por objetivo garantir recursos suficientes para sustentar o ensino obrigatório. Sob esta orientação os recursos do Fundo teriam por origem os cofres estaduais e municipais. Este sistema deveria levar em consideração que o desenvolvimento da educação dependeria, essencialmente, da distribuição eqüitativa dos recursos educacionais, surgindo, daí, a idéia da redistribuição. Assim, o sistema, tendo a origem dos seus recursos sustentada legalmente13 na responsabilidade concorrente de estados e municípios e, por destino, o aluno matriculado neste nível de ensino, envolveria uma possível redistribuição de tais recursos como instrumento de equalização (enquanto instrumento de justiça social) das receitas por aluno no ensino fundamental Embora a idéia da redistribuição, após passar por um processo de concepção, parecesse simples, a sua consecução - na condição de um instrumento voltado à equalização das receitas por aluno - incorreria em sérios embates com as áreas econômica e política do governo, uma vez que sua operacionalização exigiria se fazer acompanhar por um processo de transferência de recursos entre as instâncias subnacionais. O Fundo, uma vez aprovado, viria a redimensionar não só as prioridades educacionais, mas a 12 Destacam-se, dentre os preceitos da Constituição de 1988: o ensino obrigatório deve ter prioridade na distribuição dos recursos vinculados à educação (art. 212, § 3°), a manutenção do salário-educação como fonte adicional de financiamento do ensino fundamental (art. 212, § 5°), além da destinação, pelo penado de dez anos, de 50% dos recursos vinculados à educação à manutenção e desenvolvimento do ensino fundamental (art. 60 do ADCT, o qual foi objeto direto da Emenda Constitucional 14). 13 Reforça-se aqui que o direito da população à educação gratuita e obrigatória é dever do Estado, o qual se constitui na reunião dos entes federados. Desde que todos os alunos com direito público subjetivo à educação (ensino fundamental, independente da idade) sejam atendidos, as fontes de recursos são comunicantes. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 142 "relação entre as unidades federadas do Estado, bem como equalizar as oportunidades educacionais" (OLIVEIRA (2), 2000, p. 24). No entanto, dada a autonomia de estados e municípios, o estabelecimento pelo MEC desta colaboração forçada (resultante da redistribuição de recursos) entre as instâncias subnacionais constituía-se tarefa difícil. A idéia da redistribuição abarcou várias possibilidades. Uma delas - que, inclusive chegou a ser posta na versão inicial do projeto do Fundef, posteriormente, reorientada - consistia em estabelecer um Fundo Nacional, com repasse de recursos entre os estados, sendo que, segundo Barjas Negri em entrevista, "no meio do caminho, o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, José Serra, corrigiu o projeto" (p. 06), o qual foi limitado ao âmbito de cada estado. Por outro lado, a busca da eqüidade em termos de financiamento da educação, além da redistribuição de recursos entre estados e seus municípios, exigiria estipular um valor como referência mínima de investimento por aluno ao ano, o qual em não sendo alcançado pela receita fiscal de composição do Fundo, deveria fazer-se acompanhar de uma complementação de recursos por parte da União. Na concepção do grupo do MEC, embora a determinação de um valor mínimo anual por aluno, estipulado para o âmbito nacional, não resolvesse o problema da acentuada iniqüidade presente no contexto educacional do País, representava uma tentativa inicial de enfrentamento desta situação em prol de uma maior justiça social. O combate às desigualdades, a partir das diretrizes do Fundo, constituirse-ia de dois momentos direcionados para a equalização do valor por aluno matriculado no ensino fundamental: um primeiro, em que, compulsoriamente e independentemente da opção/ação dos governos subnacionais, ocorreria uma redistribuição dos recursos do Fundo no âmbito do estado em função do seu próprio valor médio por aluno e, de um momento posterior, em que a União entraria com a ação supletiva tendo em vista um valor mínimo definido para o contexto nacional. Uma medida supletiva de recursos para as instâncias subnacionais mais pobres exigia que se fixasse um valor mínimo como parâmetro de desembolso financeiro da União, sendo que a complementação se faria presente nos estados onde a redistribuição resultasse numa média por aluno/ano inferior a este mínimo. A quantia do primeiro valor mínimo por aluno / ano estipulado para o contexto nacional, segundo Barjas Negri, em entrevista, foi definida pelo ministro Paulo Renato em conjunto com a secretária de Políticas Educacionais, professora Eunice Durhan. A delimitação do valor, que seria reajustado anualmente por decreto presidencial, tomou como referência uma indicação Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 143 apresentada num estudo de uma organização internacional14, que recomendava um gasto aluno mínimo ao ano, em torno de US$ 250,00, para impulsionar uma educação básica de qualidade na América Latina. A este respeito, o professor Barjas Negri, em entrevista, afirmou: "Este número existia. Como a renda do Brasil era maior do que a dos demais países [da América Latina], o ministro Paulo Renato bateu que tinha que ser US$ 300,00 que, na verdade, era R$ 300,00, porque o dólar, na época, era um por um" (p. 04). A relação 1/1 devia-se à paridade nominal do dólar em relação ao real15, estratégia econômica posta em prática, à época, para combater a inflação. Um outro dado que contribuiu para a decisão de fixar o primeiro valor mínimo por aluno ao ano em R$ 300,00 foi que a sua associação a algumas variáveis estipuladas para orientar um plano de carreira e remuneração do magistério conduziria a uma média salarial nacional em torno de R$ 300,00 que, de acordo com o ministro em entrevista, "coincidia com o número do Fórum" (p. 21). Assim, o fato de o valor referendado pelo organismo internacional para alavancar a educação básica na América Latina coincidir com uma média salarial para os professores, quando da determinação de um valor mínimo por aluno ao ano da ordem de R$ 300,00, que, por sua vez, coincidia com o valor apresentado como referência para o PSPN pelo Fórum, contribuiu para que o ministro decidisse pelos R$ 300,00 quando da definição do primeiro valor mínimo nacional por aluno ao ano. Observa-se, assim, que a fixação dos R$ 300,00, embora balizada por algumas referências, partiu, em certa medida, de orientações subjetivas que, ao certificar-se da possibilidade de cobertura pelo governo federal, firmou-se pela racionalização financeira. O grupo do MEC ainda entendia que a constituição de um Fundo para a educação, além de associar um valor mínimo a cada aluno atendido - resultante de um processo redistributivo e, na ocasião, quiçá supletivo de recursos por parte da União, com um valor inicial estipulado em R$ 300,00 -, deveria garantir que uma parcela de seu montante fosse destinada ao pagamento dos professores. Nesta perspectiva, julgava que, embora a díade redistribuiçãocomplementação que envolvia a lógica do Fundo provavelmente ocasionasse uma elevação nos níveis de remuneração dos professores das instâncias subnacionais mais pobres, era necessário conferir-lhe garantia constitucional. 14 Os professores Barjas Negri e Iara Prado referiram que o trabalho teria sido produzido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco, elaborado por Juan Tedesco. Salientaram, entretanto, que, devido ao tempo decorrido, a informação poderia estar comprometida pela memória. Realizou-se uma pesquisa, sem resultado, tanto neste organismo quanto na Cepal. 15 No dia 28 de fevereiro de 1994, o governo ltamar Franco lançou o plano Real como uma tentativa de combater o processo inflacionário. Tendo à frente o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, o plano, voltado para o objetivo de obter uma moeda forte, criava o real e se apresentava atrelado a duas linhas reguladoras da economia: o fim da indexação e a associação do valor da nova moeda ao dólar. Por ocasião do lançamento do plano, o dólar equivalia a 90 centavos de real, taxa que lentamente subiu para 1/1 (VICENTINO E DORIGO, 1997, p. 452). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 144 Entenderam que a operacionalização dessa garantia deveria efetivar-se por meio da fixação de um percentual mínimo de recursos a ser investido obrigatoriamente na valorização daqueles profissionais. Foi fixado, então, que, dos recursos do Fundo, no mínimo, 60% deveriam ser destinados ao pagamento dos professores. A explicação para esse percentual foi encontrada em Farenzena (2001), a qual, ao salientar alguns aspectos presentes num documento16 do ME C, evidencia que "o contingenciamento de 60% para pagamento de professores em atividade [...] obedece à lei que disciplina o limite das despesas com o funcionalismo público" (p. 279). Afora a preocupação com a Lei de Responsabilidade Fiscal17, à época em discussão, a professora Eunice Durhan salientou que elaborou um estudo, apresentado no documento intitulado "A questão salarial do magistério”18, que continha uma referência de cálculo do que era possível pagar aos professores, em termos de média salarial, a partir do Fundo. O documento - partindo da destinação de, pelo menos, 60% dos recursos do Fundo ao pagamento dos professores, tendo em vista (1) a fixação de R$ 300,00 para o primeiro valor mínimo por aluno ao ano e considerando (2) turmas de 25 alunos - mostrava que o recurso destinado a 20 alunos daria sustentação a uma média salarial de R$ 300,00 aos professores. Havia uma lógica, relativamente complexa, que perpassava a questão dos salários dos professores com base nos recursos do Fundef e que não atendia à solicitação de um piso nacional reivindicado pelo Fórum Permanente de Valorização do Magistério e Qualidade da Educação Básica, já que o valor defendido pelo Fórum19 estava inserido como média (e não como piso) no sistema de distribuição dos recursos do Fundo. Assim, a lógica do Fundef, desenvolvida pelo grupo do MEC, foi a de garantir uma receita mínima por aluno matriculado no ensino fundamental capaz de dar sustentação ao pagamento de uma média salarial mínima para os professores dos estados/municípios mais pobres. Nesta concepção, a garantia de um piso salarial condigno depende da responsabilidade municipal/ estadual que se faz 16 Ofício emitido em resposta a esclarecimentos solicitados pela Comissão Especial da Câmara de Deputados, com re1atoria a cargo do deputado José Jorge (PFL/PE), destinada a proferir parecer à Proposta de Emenda Constitucional (PEC 233/95) que viria a dar origem à Emenda Constitucional 14, que criou o Fundef. 17 A LRF (Lei Complementar n° 101), de 04 de maio de 2000, disciplina, em seu artigo 19, incisos I, II e III, que a despesa com pessoal ativo e inativo, em cada período de apuração e em cada ente da federação, não poderá exceder 50%, 60% e 60% da receita corrente líquida, respectivamente, da União, Estados e Municípios. 18 Este documento foi distribuído ao final da primeira reunião formal do Fórum com a nova equipe do MEC, em 05/junho/1995. 19 O piso salarial nacional correspondia a RS 300,00, em valores de 10 de julho de 1994, segundo os termos do Acordo Nacional pe1a Valorização do Magistério e Qualidade da Educação, assinado por grande número de participantes da Conferência Nacional de Educação para Todos (Monlevade, 2000). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 145 associar ao desenvolvimento de planos de carreira e remuneração postos em prática por cada uma dessas instâncias. Farenzena (2001), ao avaliar resumidamente o documento “A questão salarial do magistério", evidencia que "Nele já ficam sinalizados tanto o rechaço aos termos do Acordo e do Pacto [...] e, embora acolhendo estratégias inscritas nos documentos do momento do Plano Decenal, contém novos elementos" (p. 267). Infere-se que, na gestão ministerial em questão, embora as metas da política de financiamento da educação e, em especial, de valorização do magistério se aproximem daquelas dispostas no Plano Decenal, a estratégia para sua consecução foi apresentada sob novos contornos. Essa concepção já havia sido discutida por Cury (1998) quando, ao analisar a plataforma do então candidato Fernando Henrique Cardoso, observou que esta "respondia de modo peculiar ao Plano Decenal, com certa continuidade nas metas e acentuada descontinuidade nas estratégias" (p. 89). O Fundef sob a Perspectiva de Integrantes do MEC: Operacionalização O Fundef não é apenas uma política educacional; pouca gente percebeu que é uma reforma tributária em prol da educação. (BARJAS NEGRI, em entrevista). Lançando mão de bancos de dados, o professor Barjas Negri buscou conhecer a relação existente entre alguns indicadores educacionais e fiscais das instâncias estaduais e municipais. Foi aí que comprovou a existência de uma correlação inversa entre o atendimento ao ensino fundamental e receita fiscal. Ou seja, observou que, em um grande número de estados, a instância federada que concentrava a maior parte da receita fiscal apresentava um baixo índice de atendimento ao ensino fundamental e, sendo o contrário também verificado, chegou à conclusão de que "não dava para fazer [o Fundo] se não fosse pela reforma tributária" (p. 04). Em meio às dificuldades de um processo em construção, a professora Iara Prado teve acesso a um artigo de autoria do economista José Roberto Afonso20, executivo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que analisava os problemas decorrentes do processo de descentralização do Sistema Único de Saúde (SUS). O texto chamou a atenção por analisar problemas vivenciados pela Saúde que poderiam ser replicados na Educação. O artigo mostrava que a descentralização do SUS - por não ter sido 20 AFONSO, José Roberto. Dilemas da Saúde: Financiamento e Descentralização. Revista do BNDES. Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 221-238, 1995. Os resumos da produção do autor estão disponibilizados no site: www. joserobertoafonso.ecn.br. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 146 acompanhada de uma divisão de responsabilidades entre os entes federados, nem ter priorizado recursos para determinadas áreas - deu origem a sérios problemas na Saúde. As inquietações geradas pelo artigo conduziram à realização de uma reunião21 com o economista, durante a qual foi fortalecido o entendimento de que o Fundo deveria consolidar uma priorização para a destinação de seus recursos que, no caso, em função das diretrizes da proposta de governo, deveria ser o ensino fundamental. E mais, teve origem neste encontro a concepção de que o Fundo deveria constituir-se numa segunda subvinculação constitucional (a primeira já estava disposta no artigo 60 do ADCT e, ao destinar um percentual dos recursos constitucionalmente vinculados exclusivamente para o ensino fundamental, apresentava o controle sob a responsabilidade dos gestores educacionais) que, por meio de estratégias de controle a serem dispostas na sua legislação de regulamentação, deveria tornar mais efetiva a destinação dos recursos ao nível de ensino considerado prioritário. Foi a partir de outro artigo indicado pelo economista que Barjas Negri, no retorno da reunião, ainda no avião, tendo por referência uma segunda (e nova) subvinculação de recursos para o ensino fundamental, teve a idéia de compor o Fundo a partir de um conjunto de transferências constitucionais. O texto, que tinha por foco de análise o sistema tributário de alguns países, apresentava uma nota de rodapé que afirmava que o Brasil constitui-se num dos poucos países que têm uma política tributária centralizadora no governo federal e repartem os recursos sem associar critérios de obrigatoriedade à sua aplicação, possibilitando que as instâncias subnacionais decidam de forma autônoma (e como melhor lhe aprouver), sobre a destinação de tais recursos, Partindo dessa constatação, o Fundo operacionalizado por Barjas Negri, no que diz respeito às transferências constitucionais, viria a inaugurar um novo tipo de relação entre os entes federados, qual seja, aquela que associa a parte dos valores recebidos ao cumprimento de uma determinada responsabilidade legal (no caso no Fundef, o atendimento ao ensino fundamental). A percepção da necessária associação do cumprimento de uma responsabilidade legal a parte dos recursos constitucionalmente transferidos foi impressa na Exposição de Motivos n° 273/1995, que acompanhou a Proposta de Emenda Constitucional que criaria o Fundef, a qual apresenta que as transferências constitucionais "não se fazem segundo critérios que levem em consideração necessidades específicas, seja na educação, seja em qualquer outra área" (Brasil/Câmara dos Deputados, 1995, 2.604), possibilitando a livre 21 Participaram da reunião: Barjas Negri, Iara Prado e José Roberto Afonso. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 147 utilização desses recursos pelos entes federados a que se destinam - situação que seria reorientada com a promulgação da Emenda n° 14. Tendo em vista a definição de mais dois direcionamentos básicos (priorização do ensino fundamental e composição dos recursos do Fundo limitada às transferências constitucionais, com operacionalização associada a uma segunda subvinculação constitucional), Barjas Negri, considerando como referência inicial o valor de R$ 300,00 por aluno ao ano - decisão já arraigada no âmbito do grupo do MEC -, deu continuidade à realização de simulações, a fim de avançar no delineamento da configuração do Fundo. Tais simulações buscavam subsídios para responder a duas questões básicas inter-relacionadas: (1) qual percentual deveria ser subvinculado ao Fundo e (2) quais transferências constitucionais deveriam compor seus recursos - a fim de que o valor mínimo por aluno ao ano se aproximasse o máximo possível dos R$ 300,00 já definidos. Barjas Negri, em entrevista, revelou que, após sucessivas alternativas de simulações que tinham como referência dados do censo escolar e de receitas fiscais, chegou à conclusão de que deveria subvincular 15% dos impostos ao ensino fundamental e, dentre estes recursos, uma parte das transferências constitucionais deveria compor o Fundo, o que forneceria um "valor por aluno ao ano de, aproximadamente, R$ 330,00" (p. 05). Esta era a subvinculação que dava o valor mais próximo aos R$ 300,00 tomados como referência inicial de um valor per capita ao ano para o Fundo. No que tange à definição dos recursos que deveriam compor o Fundo, evidenciou que tentou associar à nova diretriz de financiamento do ensino fundamental o maior número possível de transferências constitucionais. Este pensamento estendeu-se da formulação da Lei apresentada na Emenda 14, à sua regulamentação, posta na Lei n° 9.424/96 (BRASIL, 1996). Se, por um lado, a Emenda determinava que o Fundo deveria ter por base o ICMS, FPE, FPM e IPI-Exp, a regulamentação, além destas transferências, passou a incluir os recursos da Lei Complementar n° 87/9622, que acabara de ser aprovada. Ressalta-se que, posteriormente, durante a tramitação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 233/96) na Câmara dos Deputados, foi criada uma Comissão Especial destinada a proferir parecer sobre tal Proposta, tendo por relator o deputado José Jorge, do Partido da Frente Liberal (PFL/PE), o qual solicitou ao MEC uma série de esclarecimentos. Segundo Farenzena (2001), questionado sobre a origem dos R$ 300,00, o MEC respondeu que tinha 22 Lei Complementar n° 87, de 13 de setembro de 1996, que trata do ressarcimento financeiro de parte das receitas do ICMS, decorrente da desoneração das exportações. Farenzena (2001) apresenta que inclusão da Lei Kandir consta, sem justificativa, no Substitutivo da Comissão de Finanças e Tributação e no Substitutivo de Ubiratan Aguiar (relator nomeado pelo Plenário da Câmara, em substituição à Comissão de Educação, Cultura e Desporto, da Câmara dos Deputados - do Projeto de Lei que viria a regulamentar o Fundef), “explicado, neste, que tal foi à reivindicação do Consed" (p. 334). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 148 considerado dois parâmetros: o primeiro constituía-se no resultado da razão entre os recursos das transferências de impostos e as matrículas, para o qual tinha obtido uma média nacional de R$ 328,00, sendo que "a proposta de garantia de R$ 300,00 aproxima a realidade dos estados mais pobres à realidade nacional. Na verdade, estamos trabalhando com a previsão de um investimento mínimo equivalente a 90% da média nacional" (MEC/GM/GAB/no 010 apud Farenzena, 2001, p. 279). O segundo motivo, apresentado no documento do MEC, resgatado no estudo de Farenzena, refere que "as organizações internacionais recomendam um mínimo de gasto de US$ 215,00 e a proposta do governo se situa bem acima" (Ibidem). Na verdade, o documento apresentado pelo MEC possibilita o entendimento invertido da lógica do processo que perpassou a definição do primeiro valor mínimo por aluno ao ano para o âmbito nacional: torna possível a compreensão de que a fixação deste valor foi uma conseqüência do cálculo da disponibilidade financeira nacional, quando, na realidade, os R$ 300,00 foram tomados como referência/ponto de partida para definir quais transferências e qual o percentual deveria ser subvinculado ao Fundef. Importa ressaltar que, durante a operacionalização do Fundef, foi constatada a importância de se deixar de fora da subvinculação que viria a constituir o Fundo, além dos 10% restantes da vinculação (percentual destinado à educação infantil, no caso dos municípios, e ao ensino médio, no caso dos estados), alguns impostos importantes, como o IPTU e o ISS. Esta decisão teve por objetivo possibilitar alguma flexibilidade orçamentária aos gestores educacionais sobre uma parcela dos recursos constitutivos da primeira subvinculação constitucional (15% para o ensino fundamental) que, embora devendo ser destinada também ao financiamento do ensino fundamental, poderia, dentre outras possibilidades, ser utilizada na complementação de salários dos professores ou no custeio deste nível de ensino aos jovens e adultos. Esta decisão baseava-se no entendimento de que o controle total da subvinculação, em função da imensa diversidade de necessidades que perpassa a Educação em nosso País, poderia impedir necessárias ações dos gestores educacionais. Se, por um lado, a tentativa de equalizar, ou melhor, de diminuir a desigualdade entre estados por meio da redistribuição de recursos em função da definição de um valor mínimo por aluno/ano, fixado para o âmbito nacional, promoveria o avanço da justiça social dentro de um mesmo estado e, até, entre os estados, por outro, apontava para o problema de compensar a desigualdade de renda entre as instâncias subnacionais, exigindo que a União evidenciasse a sua participação financeira no Fundo na forma de uma complementação de recursos. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 149 A confirmação da necessidade de complementação dos recursos foi reforçada durante o processo de simulações, o qual evidenciou que, assim como havia estados com valor médio por aluno/ano acima dos R$ 300,00, também havia estados com valores abaixo daquele referencial. Esta constatação contribuiu para corroborar o entendimento de que a União deveria complementar os recursos dos fundos estaduais, possibilitando, assim, que atingissem a média mínima, definida, por Ato do presidente, para o âmbito nacional. De acordo com Barjas Negri, em entrevista, iniciou-se, aí, uma "briga com a Fazenda, que não queria utilizar dinheiro do governo federal para fazer isto" (p. 06). Nesse sentido, é importante ressaltar que, durante todo o processo de concepção e operacionalização do Fundo, o grupo do MEC trabalhou sem o apoio da Fazenda e do Planejamento, pois, segundo Barjas Negri, em entrevista, "ninguém achava que era possível mexer na repartição do FPM e do FPE" (p. 05), fato que contribuiu para que esse período fosse perpassado por grande inquietação. Foi só a partir do momento em que o Fundef foi concebido como uma subvinculação de transferências constitucionais cujo recebimento de seus recursos (resultante de redistribuição no âmbito de cada estado) as instâncias subnacionais deveriam assumir uma responsabilidade legal, ou seja, foi só a partir do momento em que o Fundef foi viabilizado como uma reforma tributária em prol da Educação - ocasião em que, realmente, se percebeu a viabilidade de sua operacionalização - que o grupo do MEC se tranqüilizou tanto em relação à exeqüibilidade, quanto em relação a uma possível aceitação do Fundo pela equipe econômica do governo. No entanto, no que tange a esta aceitação, o ministro Paulo Renato evidenciou que ela só se concretizou, de fato, quando da decisão do presidente FHC de apoiar o Fundo. Algumas Considerações Finais O Fundef cria condições para que você tenha um bom sistema de ensino, mas ele não garante. (EUNICE DURHAN, em entrevista). Apresentam-se aqui algumas considerações que emergiram do estudo e que se referem: (1) à racionalização financeira que perpassou o processo de formulação do Fundef; (2) à descentralização do atendimento ao ensino fundamental; (3) ao conceito de eqüidade que acompanhou a formulação das políticas educacionais, a partir da década de 1990; (4) à orientação da política educacional do País, a partir de 1995, tendo como referência o documento do Instituto Herbert Levy e (5) à tentativa de responder ao questionamento de alguns educadores a respeito da relação do Fundef com o Fundo projetado por Anísio Teixeira, ainda na década de 1950. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 150 Já por ocasião do início do processo de concepção do Fundef, a equipe técnica do MEC percebeu que teria de enfrentar, além dos problemas inerentes à sua aceitação pelas esferas política e econômica do próprio governo, as dificuldades relacionadas à sua formulação, envolvendo desde aspectos pertinentes aos seus princípios norteadores até sua operacionalização. As decisões técnicas e políticas que lhe seriam decorrentes, além dos problemas relacionados à legislação educacional vigente à época, dentre outros fatores, esbarravam na realidade orçamentária. Nesse contexto, a atuação do economista Barjas Negri foi fundamental para que a proposta em torno de um possível Fundo para o ensino fundamental fosse (re)orientada no sentido de garantir o seu financiamento, a partir da fixação a priori de um valor mínimo por aluno ao ano. Para o entrevistado, "mais do que formular propostas [...], o importante é colocá-las em prática" (p. 06). Para tal, o plano de ação - orientado para os objetivos que se intenta alcançar - deve levar em consideração tanto a sua "viabilidade de execução pela ponta" quanto à necessidade de que "cada ação esteja 'casada' com o orçamento", já que problemas no financiamento podem fazer com que "boas idéias não saiam do papel" (Idem). Par rindo desses entendimentos, observa-se que o processo de concepção e operacionalização do Fundef teve a disponibilidade financeira como um dos princípios orientadores da sua exeqüibilidade, contribuindo para que o princípio econômico que associa a possibilidade de execução de uma ação à sua viabilidade orçamentária viesse a nortear sua formulação. Dessa forma, o Fundef veio a consolidar, no âmbito do Executivo e, também, no Legislativo (por ocasião da tramitação da Proposta de Emenda Constitucional n° 233/95 e do Projeto de Lei n° 2.380/9623), a questão da racionalização fmanceira do uso dos recursos educacionais públicos como elemento indispensável ao necessário avanço da Educação do País. Verhine (2003), ao evidenciar aspectos ressaltados pelos defensores do Fundef, salienta que o Fundo "substitui a manipulação política pela racionalidade técnica na distribuição dos recursos entre estados e municípios, ao tempo em que implementa uma política educacional redistributiva, objetivando corrigir as desigualdades regionais e sociais" (p. 108). Tendo em vista que o processo de formulação do Fundef associa-se a um contexto de reforma educacional que, por sua vez, integra-se a um contexto de reforma do Estado, abarcando de forma indireta a questão da racionalização financeira que viria a caracterizar tais reformas, é possível inferir que: "A década de 90 traz uma reformulação profunda da estratégia das reformas educacionais. A idéia é realizar mudanças mais amplas, de natureza sistêmica, operacionalmente viáveis, com custos de baixo impacto nos orçamentos" 23 A aprovação deste Projeto de Lei deu origem à Lei n° 9.424/96. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 151 (SOUZA (2) (1999), p. 195). O autor afirma, ainda, que tais reformas têm, entre suas metas, a descentralização educacional, a priorização e avaliação do ensino fundamental e a redistribuição dos recursos financeiros. No que tange aos aspectos pertinentes à relação entre o Fundef e descentralização, há que se ressaltar que, mesmo antes da formulação desta nova política educacional, a legislação já apontava para a descentralização do ensino fundamental para estados e municípios, sendo que, em muitos estados, o Plano Estadual de Educação, indo ao encontro da Constituição Estadual, determinava a municipalização daquele nível de ensino. O Fundef, ao distribuir recursos por aluno matriculado no ensino fundamental, apenas estimulou aquele processo que, continuamente, vem adquirindo novas configurações. O Fundo, ao ter por orientação a racionalização da aplicação de seus recursos, substituiu a descentralização tutelada (efetivada por meio de transferências negociadas) pela descentralização vinculada (baseada em transferências automáticas, vinculadas a critérios dispostos no ordenamento constitucional legal e operacionalizadas por meio de sistemas contábeis) (MEDICI e MACIEL, 2003). O Fundef, na condição de uma política educacional formulada com vistas a financiar o ensino fundamental e, por conseguinte, estimular o atendimento a este nível de ensino pelas instâncias subnacionais, tem como "regra" básica da distribuição de seus recursos a equiparação do valor aluno / ano calculado para o âmbito do estado a um valor mínimo por aluno/ano defmido para o âmbito nacional que, quando necessário, se faz associar a uma complementação de recursos com origem nos cofres da União. A fixação de um valor mínimo por aluno/ano, de acordo com a equipe do MEC, tem por objetivo a promoção da eqüidade, entendida como critério de justiça social. A este respeito, evidencia-se que a concepção de eqüidade, posta em prática nas políticas educacionais do MEC decorrentes das reformas educacionais da década de 1990, adquiriu um novo significado. Segundo Oliveira (3) (2001), a partir da Conferência Mundial de Educação para Todos - referência das reformas educacionais da década de 1990 e cujo traço marcante constituiu-se na "tentativa de um consenso da educação para todos com eqüidade social" (p.74) -, o conceito de eqüidade passou a corresponder à extensão para a grande maioria da população de benefícios sociais dantes só acessíveis a alguns grupos, "sem, contudo, ampliar na mesma proporção as despesas públicas para este fim" (Idem). Esta reorientação no conceito de eqüidade, em certa medida, foi apresentada pelo professor Barjas Negri quando afirmou: "A reforma tributária do Fundef mexeu nos estados e municípios, mas não no governo federal. Foi uma redistribuição dentro dos estados" (p.24). O entrevistado, partindo do Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 152 entendimento de que a principal estratégia de captação de recursos do Fundef constitui-se na redistribuição de parte dos recursos vinculados à Educação, no âmbito do próprio estado, complementados, quando necessário, pelo governo federal, declarou: "O Fundef quase não colocou dinheiro [novo na Educação]. O Fundef redistribuiu os recursos existentes e corrigiu distorções históricas" (p.13). Tais distorções acabavam por incorrer em significativa diversidade de valores per capita no contexto educacional nacional, cujo valor mínimo foi equalizado a partir do Fundef. No que tange à relação entre eqüidade e igualdade de direitos, Oliveira (3) (2001) evidencia que as reformas educacionais dos anos de 1990 deixaram de priorizar o princípio da igualdade de direitos, para substituí-lo pela busca da eqüidade. No caso do Fundef, eqüidade e justiça social são apresentadas como critérios que fundamentam a regra de distribuição de bens sociais na tentativa de garantir a equalização de um valor mínimo por aluno/ano matriculado no ensino fundamental. Embora não tendo captado um aporte significativo de recursos novos para a Educação, observa-se que o Fundef - ao disciplinar a distribuição, aplicação, fiscalização e controle de parte dos recursos educacionais vinculados, tornando a vinculação mais efetiva - direcionou aos cofres da Educação grande parte do montante de recursos que lhe é de direito, mas que vinha sendo utilizado para outros fins. Um outro ponto destacado neste trabalho, apresentado nos estudos de Cury (1998), refere-se à constatação de que as políticas educacionais levadas a cabo pela gestão ministerial em foco - antecipadas no plano de governo do presidente Fernando Henrique Cardoso -, embora apresentassem certa continuidade em relação às metas propostas no Plano Decenal de Educação para Todos e defendidas pelo Fórum Permanente pela Valorização do Magistério e Qualidade na Educação, por vezes, responderam na sua formulação com "acentuada descontinuidade das estratégias" (p. 89). No que diz respeito ao financiamento da educação, observa-se que essa constatação se fez presente neste estudo (1) como resposta à reivindicação do piso salarial profissional nacional de R$ 300,00, para a qual o governo respondeu com uma média salarial de igual valor; (2) como retorno à possibilidade de constituição de fundos articulados - estratégia desenvolvida pelo Fórum para a conquista do PSPN -, para a qual o governo apontou com o Fundef e, ainda, (3) como resposta à reivindicação da eqüidade, para a qual o governo acenou com um valor mínimo por aluno ao ano, definido para o âmbito nacional. Outro aspecto que merece destaque relativo à orientação da política educacional e seu financiamento, discutido por Farenzena (2001) e Peroni (1999), diz respeito à sua aproximação, a partir de 1995, às propostas Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 153 apresentadas no documento intitulado "Educação fundamental e competitividade empresarial: uma proposta para a ação do governo", do Instituto Herbert Levy (1992) e cuja realização do seminário sobre o tema contou com o apoio do MEC. Em linhas gerais, o documento relaciona o necessário avanço dos níveis de escolarização da população - com centralidade no ensino fundamental - ao aumento da produtividade e, conseqüentemente, da competitividade econômica do País nos mercados internacionais. Mostra que os países que lograram maior desenvolvimento o fizeram a partir de reformas educacionais que tinham dentre seus objetivos a busca por um processo mais eficaz de escolarização. Demonstra que as reformas educacionais bem-sucedidas tiveram em comum pelo menos duas características: (1) a garantia de recursos financeiros suficientes, cujo montante teria por base a definição de insumos necessários à educação de qualidade e (2) mecanismos de avaliação do ensino, elaborados a partir de padrões de desempenho esperados. O documento apresenta como proposta de solução para os problemas da educação o enfrentamento de dois pontos críticos: o avanço do seu financiamento e a qualidade das escolas. No que se refere ao financiamento da educação pública, o texto parte de um diagnóstico de seus principais problemas - dentre eles, o distanciamento entre os recursos disponibilizados, definidos no ordenamento constitucional e legal, e aqueles que efetivamente chegam às escolas (dados do Instituto Herbert Levy evidenciavam uma perda de, aproximadamente, 33,3%) -, para apresentar uma proposta constituída basicamente por dois pontos. O primeiro refere-se à orientação de que o governo federal estipulasse um valor mínimo por aluno ao ano para o, à época, ensino público de 1º grau. Este valor teria como referência, além do levantamento do montante potencial de recursos educacionais possíveis de serem disponibilizados pelo setor público ao 1º grau, insumos mínimos para a escola operar com eficiência. O segundo diz respeito à necessidade de que o governo federal implementasse medidas para garantir que tais recursos chegassem aos alunos, independentemente da localização da escola e/ ou da rede de ensino pública. Dentre as medidas sugeridas para a operacionalização, o documento apresenta: (1) a definição de critérios para a transferência de recursos entre os entes federados e as escolas; (2) a criação de mecanismos automáticos de repasse destes recursos entre as instâncias federadas e para as escolas e (3) a instauração de um sistema eficaz de controle administrativo. No detalhamento da proposta para o financiamento da educação, o documento sugere o estabelecimento de um sistema articulado em que, partindo de um padrão mínimo de recursos estipulado pelo governo federal, depreender-se-ia a capacidade de cada município prover sustentação a estes Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 154 custos, acionando-se a transferência de recursos, de parte do estado, caso os municípios não dispusessem de recursos suficientes; se, por sua vez, os recursos estaduais e municipais não fossem suficientes para bancar o financiamento do mínimo per capita, então, a União passaria a tomar parte no processo de repasses. O documento ressalta que grande parte das distorções na alocação de recursos para o setor educacional tinha por origem a falta de clareza no ordenamento constitucional em relação às responsabilidades dos entes federados para com os níveis de ensino da educação básica. Observa-se que vários dos destaques da proposta viriam a se constituir pontos estratégicos da política de financiamento da educação nacional, a partir de 1995. Para isso o MEC recorreu a uma densa reformulação da legislação educacional. A lógica economista passou a se constituir fator de orientação dos rumos da política educacional do País, imprimindo novos objetivos ao ensino e sua gestão (especialmente os ligados elevação da produtividade, qualidade no trabalho e competitividade) - a eficiência configurar-se tema de centralidade no ensino. Vale evidenciar, ainda, que a equipe do MEC envolvida com o Fundef mencionou que, há quase 50 anos, a idéia de um Fundo para a Educação já havia sido proposta por Anísio Teixeira24 que, preocupado com o financiamento do ensino primário, a apresentou como proposição para garantir recursos permanentes para aquele nível de ensino. No entanto, o grupo, entendendo que a realidade se apresentava configurada sob novas necessidades e possibilidades, afirmou não ter tomado as idéias daquele educador referência de seus trabalhos. Embora, na época, a implantação de um Fundo25 para financiar a educação não dispusesse das condições de operacionalização que hoje se tem,é impressionante como esta idéia, por quase 50 anos, permaneceu em estado latente. Já naquela ocasião, Teixeira pensou a Educação no Brasil como um sistema de qualidade. Pensou o financiamento da educação como política educacional pública e, nesta perspectiva, pensou um Fundo que guarda 24 A este respeito consultar: TEIXEIRA, Anísio. Bases preliminares para o plano de educação referente ao Fundo Nacional de Ensino Primário. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v 38, n. 88, out./ dez. 1962. p.1 TEIXEIRA, Anísio. Custo mínimo da educação primária por aluno. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos Janeiro, v. 35, n.82, abr./jun. 1961. p.03-05. Consultar, ainda, AMARAL. Nelson Cardoso. Um novo Fundef? As idéias de Anisio Teixeira. Educação e Sociedade, ano XXII, n° 75, agosto/2001. 25 No que diz respeito ao fundo proposto por Anísio Teixeira, devido a algumas simi1itudes com o Fundef, vale evidenciar que: (1) apresentava por orientação básica a definição de um valor por aluno/ano (definido partir do salário dos professores); (2) os percentuais vinculados constituíam-se a base de seus recursos; (3) estabelecia a complementação dos recursos das instâncias subnacionais por parte da União; (4) contemplava todo o ensino primário; (5) direcionava parte do seu montante para o pagamento dos professores; (6) estabelecia a criação de conselhos com alto grau de autonomia administrativa para gerenciar os fundos - nacional, estaduais e municipais e (7) tinha caráter permanente (AMARAL, 2001). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DO FUNDEF: UM ESTUDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE INTEGRANTES DO MEC 155 semelhanças com o Fundef, este último só formulado e implantação na segunda metade da década de 1990. Por fim, em tempos de Fundeb26, pode parecer fora de época falar em Fundef ainda mais quando esta política de financiamento do ensino fundamental está cc período de vigência para expirar em 2006. A insistência em apresentar o processo que culminou com a operacionalização do Fundef, sob a perspectiva dos formuladores desta política educacional, reside na convicção de que o seu conhecimento poderá iluminar a formulação de políticas de financiamento da educação pública que venham a lhe suceder. Referências bibliográficas AMARAL. Nelson Cardoso. Um novo Fundef? As idéias de Anísio Teixeira. Educação e Sociedade, ano XXII, nº 75, agosto, 2001. ARELARO, Lisete. Resistência e submissão: a reforma educacional na década de 1990. In. 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Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. 26 O Poder Executivo encaminhou ao Congresso Nacional, em 16/06/2005, a Proposta de Emenda Constilciona1 n° 415/05, que objetiva criar o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 Janaina Specht da Silva MENEZES 156 CARDOSO, Fernando Henrique. Mãos à obra Brasil Proposta de governo para as eleições presidenciais de 1994. Brasília, 1994. CURY, Carlos Roberto Jamil. A gestão dos recursos financeiros na escola pública fundamental: democratização ou privatização do Estado? In: Presença pedagógica. Belo Horizonte, n. 22, jul/ ago, 1998, p. 88-92. FARENZENA, Nalú. Diretrizes da política de financiamento da educação básica brasileira: continuidades e inflexões no ordenamento constitucional-legal (1987-1996). Porto Alegre: UFRGS, 2001. 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Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 133-157, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO Liany Tavares TADAIESKY1 Darlene Cardoso FERREIRA2 Rosangela da Silva ALMEIDA3 Suellen Martins NOBRE4 Resumo: Um dos fatores que influenciam a aprendizagem escolar e o desenvolvimento infantil é a qualidade das relações interpessoais professor-aluno. Diversas teorias utilizadas na área educacional apresentam orientações importantes para a atuação profissional nesse ramo. O presente estudo objetivou observar a interação professoraluno em salas de aula de 1° e 2° séries de uma Escola Pública de Ensino Fundamental e realizar oficinas baseadas nas demandas encontradas, para promover melhorias nas relações entre educadores e alunos. Participaram do estudo alunos e professoras distribuídos em seis turmas de Ensino Fundamental - três de 1º série, três 2º série. Participaram também professores de outras turmas e membros da equipe administrativa da escola. Foram realizadas 30 sessões de observação, nas turmas, com duração de duas horas cada uma. A análise dos registros possibilitou a elaboração de três categorias: Interação Professor-Aluno, Interação Aluno-Aluno e Dinâmicas Utilizadas em Sala de Aula. Em cada categoria foram levantados os pontos mais relevantes e passíveis de discussão, posteriormente, em quatro oficinas envolvendo o corpo docente, com os seguintes temas: Psicologia do Desenvolvimento, Relações Interpessoais, Habilidades Sociais e Dinâmicas de Aprendizagem. Devido a necessidades apresentadas pelos participantes, a última oficina foi alterada. Ao final dos encontros, professores e facilitadores avaliaram a intervenção que foi implementada. Como resultado, observouse uma preocupação dos professores em modificar suas percepções acerca dos comportamentos e habilidades dos alunos, propiciando a ênfase nos aspectos positivos das relações interpessoais desenvolvidas no processo educacional. Concluiu-se que é de grande importância a utilização dos conhecimentos oferecidos pela psicologia para uma melhor compreensão do desenvolvimento infantil e melhoria das relações sócio-afetivas em sala de aula. Palavras-chave: Relação Professor-aluno. Desenvolvimento Infantil. Afetividade. Ensino. Bacharel em Psicologia. E-mail: [email protected]. Graduanda da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Pará. E-mail: [email protected] 3Professora substituta da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Pará. Doutora em Psicologia Social. E-mail: [email protected] 4 Graduanda da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Pará. E-mail: [email protected] 1 2 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 160 RELEVANT ASPECTS OF THE EDUCATIONAL CONTEXT: THE TEACHER- STUDENT RELATION Abstract: One of the factors that influenced the school learning and the infantile development is the quality of the interpersonal relations between teachers and students. Several theories used in the educational area show important guidelines to a professional performance in this field. The present study aimed to observe the interaction between teachers and students in the classrooms of first and second grades of a public school of elementary teaching and realize workshops based on the existent demands, to promote improvements in the relations between educators and pupils. 150 students and 5 teachers participated distributed in six classes of elementary educationthree of the first grade, three of the second grade. Also took part teachers from other classes and members of the administrative staff of the school. Were realized three observation sessions in the classes, two hours lasting each one. An analysis in the records allowed an elaboration of three categories: teacher-student Interaction, studentstudent interaction and dynamics utilized in classroom. In each category were identified the highlights and points passible of discussion, afterwards, in four workshops involving the teaching staff, with the following themes: Psychology of development, interpersonal relations, Social Abilities and learning Dynamics. Due the necessities presented by the participants, the last workshop was altered. In the end of the meetings, teachers and facilitators evaluated the intervention that was implemented. As a result, was observed a concern from the teachers in modifying their perceptions, concerning the behavior and abilities of the students propitiating emphasis in the positive aspects of the interpersonal relations developed in the educational processo Was concluded that is of a great importance the use of the offered knowledge by the Psychology to achieve a better comprehension of the infantile educational development and the improvement of the social- affective relations in classroom. Key words: Teacher-Student Relation. Infantile Development. Affectivity. Teaching. Introdução O sistema educacional brasileiro está repleto de déficits. A política governamental das últimas décadas tem se empenhado principalmente em aumentar o número de vagas nas escolas. Entretanto, a qualidade deste ensino não é posta em questão. A taxa de evasão escolar no Brasil é também extremamente alta. Assim, deve ser discutida não só a exclusão da escola, a qual se define pela falta de acesso ao sistema de ensino, mas primordialmente a exclusão na escola, a qual se caracteriza pela evasão, repetência, criação de turmas especiais, estigmatização de alunos, entre outros aspectos (GENTILLI, 1995). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 161 As soluções para o aumento da qualidade de ensino não devem ser centradas em explicações externas ao sistema de ensino, como a pobreza, problemas familiares ou dificuldades particulares dos alunos. Estes aspectos de fato contribuem para a exclusão na escola, contudo não são determinantes. O sistema de ensino deve ser capaz de se adequar às diferentes demandas estudantis, devendo estar apto a atender às necessidades individuais. A exclusão na escola deve ser enfrentada por meio de estratégias postas em prática no próprio ambiente de ensino. De fato, um dos fatores cruciais para a aprendizagem escolar e para o desenvolvimento infantil é a qualidade das relações interpessoais professor-aluno (LEITE, 1983). Todo e qualquer tipo de relação interpessoal necessita de algumas competências para seu estabelecimento e manutenção. Estas competências são denominadas habilidades sociais. No concernente ao contexto educacional, determinados comportamentos podem dificultar a aprendizagem e gerar problemas de auto-estima e no desenvolvimento sócio-emocional, se não forem expressos de maneira adequada (DEL PRETTE e DEL PRETTE, 2001). As habilidades sociais de comunicação devem estar presentes na comunicação verbal e na não-verbal manifestadas pelo educador no processo de ensino. Diversos componentes (verbais e não-verbais) das habilidades sociais podem ser observados pelo professor com o fim de melhorar a qualidade de suas relações com os alunos. Contato visual, sorriso, empatia, assertividade5, habilidades em lidar com críticas e em solicitar mudanças de comportamentos são alguns componentes das habilidades sociais mais importantes para um ambiente escolar. É fundamental que o educador se comunique de forma apropriada com os estudantes a fim de que se estabeleçam relações interpessoais amigáveis. Uma questão importante abordada por Leite (1983) diz respeito à manifestação docente de preferências ou antipatias por alunos. Quando existe simpatia por uma pessoa, costuma-se julgar favoravelmente seu comportamento, agindo-se de acordo com este julgamento. Conseqüentemente, este comportamento irá propiciar, por parte do outro, atitudes que confirmem e estabeleçam uma relação amistosa. Há também uma tentativa recíproca de atender às expectativas do outro, por meio da manifestação de qualidades admiradas por ele. Logo, estas relações tendem a tornar-se cada vez mais amistosas. É chamado de comportamento assertivo o de expressar aos outros que se pensa e sente, agindo em favor de si mesmo, de acordo com os próprios direitos e respeitando os diretos dos outros" (BARBOSA, 2000, p. 99). 5 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 162 O mesmo ocorre nas relações baseadas em sentimentos aversivos como a antipatia. Ao qualificar-se o outro de modo desfavorável, age-se conforme esta qualificação, desencadeando no outro, comportamentos que confirmem esta concepção. A relação tenderá também a ser cada vez menos amistosa. Estes conceitos são úteis na sala de aula, na medida em que os alunos admirados e incentivados pelos professores tendem a intensificar as características pelas quais foram aprovados. Por outro lado, os alunos rejeitados tendem a acentuar as qualidades criticadas pelo professor, já que dificilmente irão tentar agradar alguém com quem não simpatizam. Assim, eles provavelmente tentarão chamar a atenção por meio de indisciplina, hostilidade, exibicionismo, entre outras formas, as quais podem ser bastante prejudiciais para a aprendizagem do aluno. Apesar disso, sabe-se que muitas vezes a percepção formada sobre o aluno não está inteiramente equivocada. Como proceder, então, para possibilitar a aprendizagem deste aluno? A estimulação dos aspectos positivos da subjetividade do aluno é uma solução. Todos os alunos possuem qualidades e defeitos. Deste modo, o educador tem como função descobrir e estimular as características específicas de cada aluno, buscando minimizar seus aspectos negativos e salientar os positivos (LEITE, 1983). Em uma pesquisa realizada por Rego (1998), acerca do que os professores pensam ser a origem das diferenças individuais, demonstrou-se, entretanto, que a maioria dos docentes entrevistados percebe a realidade de uma forma estática e imutável. Em suas opiniões, predomina uma noção de determinismo prévio no tocante às características individuais das crianças. Tal visão acarreta um imobilismo do sistema educacional, uma vez que a escola se vê isenta de colaborar com o processo de constituição do sujeito no que concerne ao seu comportamento e aquisição de saberes. Um aluno que não se sente hábil a aprender, dificilmente se empenhará nas tarefas escolares. É essencial que a auto-estima do aluno seja fortalecida pelo educador para que ele se sinta motivado na realização das atividades. A valorização do aluno pelo professor é um elemento fundamental e desencadeador da motivação para o aprender. A afetividade está implícita nessa relação e é o instrumento mediador para que a aprendizagem se desenvolva na medida em que o cognitivo e o afetivo não são considerados como dimensões isoladas. Desta forma, na perspectiva vygotskiana, a emoção é considerada a base para a construção do conhecimento da subjetividade. Portanto, a afetividade - emoções e sentimentos - é da ordem da intersubjetividade, mediada pela significação que é processo, ao mesmo tempo, cultural, social e psicológico (ALMEIDA, 2003). Deve-se tentar minimizar as condições de seu meio que possam estar ao serviço de obstáculos ao aprendizado, auxiliando o Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 163 aluno na descoberta de suas habilidades. O professor deve, neste momento, ser o ponto de apoio e acolhimento do aluno com dificuldades, evitando atitudes baseadas em valores do senso comum, como, por exemplo, considerar a capacidade mental e os hábitos de algumas crianças como pertencentes a um "caráter" ou "destino" imutável (REGO, 1998). Wallon, entre outros autores, teorizou a respeito da importância da afetividade nos processos de atividade intelectual. Para ele, em determinadas etapas do desenvolvimento infantil, a afetividade é o instrumento utilizado pela criança para a interação com outros e para a aprendizagem (LA TAILLE, OLIVEIRA e DANTAS, 1992). De acordo com Galvão (1995), se utilizada como instrumento pedagógico, a teoria wal10niana suscita uma prática docente que atenda a criança nos planos afetivo, cognitivo e motor. Deste modo, assim como as atividades intelectuais devem ser objeto de atenção nas práticas escolares, as relações entre aluno e educador devem estar revestidas de um caráter afetivo adequado para o desenvolvimento do potencial cognitivo da criança. Um conceito interessante da teoria de Wallon é o de conflitos dinamogênicos, definidos como aqueles ocorridos entre o eu e o outro, com a função de impulsionar a definição da personalidade do indivíduo. No cotidiano escolar, as situações de conflito entre professores e alunos são freqüentes. Ocasionalmente, ocorre uma elevação da "temperatura emocional" e o professor perde o controle da situação (GALVÃO, 1995). Galvão (1995) ressalta a necessidade de o educador buscar esclarecer as razões do conflito, o que facilitará a redução da atmosfera emocional vivenciada por toda a turma. Quando o educador dirige sua atividade intelectual para a reflexão do conflito, suas reações emocionais tendem a diminuir de amplitude. Este alvoroço emocional presente na sala de aula pode ser entendido pelo poder epidêmico das emoções. Wallon acredita que os grupos tendem a exacerbar as manifestações emocionais individuais, tornando-as coletivas. Nuni grupo de crianças, este processo é ainda mais provável, uma vez que nesta etapa do desenvolvimento as emoções apresentam expressão livre. Outro teórico da psicogênese traz também uma contribuição fundamental para a questão das relações intersubjetivas. Piaget (1987) as classifica de dois modos: relações de coação e relações de cooperação. A primeira refere-se à relação na qual intervém um elemento de autoridade ou de prestígio. O indivíduo coagido não participa da produção de idéias nesta relação, aceitando como válido o conhecimento transmitido. Logo, não há um verdadeiro diálogo neste tipo de relação, pois o indivíduo coagido limita-se a ouvir e memorizar, enquanto que o autor da coação permanece isolado em seu ponto de vista ao não colocá-lo em debate. Esta relação dificulta o Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 164 desenvolvimento da inteligência, pois para isto é necessária uma construção ativa de conhecimento. As relações de cooperação são definidas como aquelas em que há discussão e troca de pontos de vista. Somente por meio desta forma de relação social é possível chegar às verdades e ao desenvolvimento da inteligência (PIAGET, 1987). No contexto educacional estes dois tipos de relação devem ser vivenciados. A coação se faz importante na medida em que existe de fato uma as simetria na relação professor-aluno, já que o professor tem a função de mediar a construção do conhecimento ainda ausente no saber infantil. A cooperação é, entretanto, essencial para que a criança experiência um processo de aprendizagem e se desenvolva. As relações de cooperação na escola iniciam-se nas interações entre os alunos, pois nelas existe uma ausência de hierarquias, estando todos em posição de igualdade. Deste modo, as interações aluno-aluno devem ser incentivadas pelo professor, visto que é por meio delas que as operações mentais fundamentais para o desenvolvimento da inteligência são construídas. Todavia, uma vez que a criança inicie este tipo de relação (interação com outras crianças), será cada vez mais exigente com as demais interações realizadas, no intuito de transformá-las em relações de cooperação. A relação professor-aluno sofre modificações significativas, pois a criança passa a ser mais ativa e questionadora. A criança deixa de respeitar o adulto pelo simples fato de ser adulto e "mais sábio", e passa a refletir sobre as opiniões dele. (LA TAILLE, OLIVEIRA e DANTAS, 1992). A partir disto, debates e discussões devem ser os instrumentos privilegiados de ensino. Esta vivência é fundamental para o estabelecimento das habilidades de expressão verbal e formação de opinião dos alunos. Outra questão central na teoria de Piaget diz respeito à construção ativa do conhecimento, o qual não é apenas transmitido, mas é resultado de interações, nas quais o sujeito procura compreender ativamente o mundo que o cerca. Ele aprende por meio de suas próprias ações sobre os objetos do mundo, construindo suas próprias categorias de pensamento ao mesmo tempo em que organiza seu mundo (PIAGET, 1987). Neste sentido, os conteúdos não são concebidos como fins em si mesmos, mas como instrumentos que servem ao desenvolvimento infantil, pois este se dá por meio de interações com o mundo. Derivando a teoria piagetiana para a prática pedagógica, percebe-se a necessidade de o ensino primar por tarefas desafiadoras que estimulem a participação do aluno. O conhecimento deve ser trabalhado em conjunto com o aluno, evitando-se posturas educadoras tradicionais que visam apenas o repasse de informações ao estudante. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 165 Vygotsky exerce também um importante papel para a compreensão das relações interpessoais, em especial nos contextos de aprendizagem. Em sua teoria, um dos pontos centrais é a concepção de que o ser humano se constitui a partir de sua relação com o outro. Bem mais que Piaget, Vygostsky enfatiza o papel fundamental da interação social na aprendizagem, pois o seu sujeito não é apenas ativo, mas interativo. Para ele, a relação com o mundo ocorre mediada por símbolos desenvolvidos culturalmente, em especial a linguagem (OLIVEIRA, 1995). Neste sentido, a aprendizagem ocorre no contexto das interações sociais vivenciadas pelo indivíduo, e não apenas em situações formais, a exemplo do ambiente educacional. Quando a criança é inserida em um cotidiano escolar, ela já traz consigo um conjunto de conhecimentos e saberes adquiridos ao longo das relações estabelecidas com seus pares. Vygotsky utiliza os termos "conceitos espontâneos" e "conceitos científicos" para explicar isso. Os "conceitos espontâneos" são aqueles elaborados pela criança em sua vivência cotidiana, tendo sido construídos por meio de interações sociais imediatas. Por outro lado, os "conceitos científicos" são aqueles ensinados à criança pela utilização de uma instrução formal e deliberada, sendo desenvolvidos em um processo de assimilação sistemática durante o ensino escolar (REGO, 2005). Assim, as informações adquiridas pela criança fora do contexto educacional não podem ser desprezadas ou consideradas "erradas". Os "conceitos espontâneos" são requisitos essenciais para a construção dos "conceitos científicos". Outro conceito relevante desenvolvido pelo teórico é o de Zona de Desenvolvimento Proximal, o qual proporciona ao professor um modelo de interação com o aluno eficaz para o processo de ensino/aprendizagem. A noção de Zona de Desenvolvimento Proximal é definida pela distância entre o desenvolvimento real-nível em que a criança se encontra - e o desenvolvimento potencial. O desenvolvimento potencial será atingido mediante a interação com um outro em momento mais complexo de desenvolvimento. Este outro pode ser uma criança ou um adulto, cujo determinado conhecimento jáesteja estabelecido (LA TAILLE, OLIVEIRA e DANTAS, 1992). Ao se tomar como referência a teoria vygotskyana na área educacional, percebe-se que o professor é o grande facilitador do processo de ensinoaprendizagem. Mas, para que este ocorra de forma plena, o professor deve oferecer à criança apenas as bases para o desenvolvimento de seu potencial latente. Portanto, a interação professor-aluno deve acontecer sempre em um contexto da Zona de Desenvolvimento Proximal. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 166 Ainda que discordantes em diversos pontos de suas teorias, Wallon, Piaget e Vygotsky contribuem extremamente para a compreensão das relações interpessoais nos contextos de ensino/aprendizagem. Muitos de seus conceitos podem ser utilizados como diretrizes para a atuação do educador. A qualidade da aprendizagem está intrinsecamente relacionada às relações interpessoais mantidas entre professor e aluno. O conteúdo transmitido é aprendido de forma diretamente proporcional à vivência de momentos positivos e prazerosos em sala de aula. O educador deve transformar a sala em um lugar reforçador e acolhedor para o aluno, de forma que a aprendizagem ocorra livre de empecilhos. No que concerne às relações estabelecidas entre professor e aluno fica o seguinte questionamento: quais possíveis colaborações a psicologia, como área de atuação profissional, tem a oferecer? Em relação à atuação do psicólogo clínico, deve-se ressaltar que os alunos encaminhados para a clínica psicológica são em grande parte direcionados pela própria escola, a qual se isenta da responsabilidade pela dificuldade de aprendizagem (MACHADO, 2003). O próprio encaminhamento do aluno ao psicólogo já é uma evidência de que a escola credita-lhe o problema da aprendizagem, supondo que o estudante esteja com problemas de ordem psicológica que extrapolam o ambiente escolar. Esta visão de que os problemas de aprendizagem seriam resultantes de aspectos internos das crianças é ainda amplamente aceita por profissionais da psicologia. Argumenta-se que os conflitos internos dos alunos seriam desencadeados pelo contato com o ambiente escolar, o qual se caracterizaria por ser desafiador e hostil. Desta forma, a criança não se encaixa no padrão de aprendizagem esperado pelo sistema educacional porque possui problemas pessoais, e não porque o sistema educacional em vigor é falho (MEIRA, 2003). Não se trata de negar que determinados conflitos psíquicos podem afetar negativamente a experiência escolar das crianças, mas deve-se pensar que a forma como a escola se relaciona com elas tanto pode qjudá-las a superar dificuldades quanto levar ao agravamento e até à cronificação de seus problemas. (MEIRA, 2003, p. 50). Lamentavelmente, um dos grandes responsáveis por esta estigmatização do aluno na escola é o próprio psicólogo clínico. Pela elaboração de laudos psicológicos, este profissional define o destino escolar do estudante, muitas vezes, desconhecendo o uso que será feito deste laudo. Segundo Meira (2003), ao limitar o processo de diagnóstico ao aluno, o psicólogo aceita a queixa como Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 167 um dado concreto, não se inteirando de todas as etapas do processo de produção da queixa escolar. É imprescindível a presença do psicólogo no ambiente educacional, a fim de que ele atue em contato direto com a equipe administrativa da escola, o corpo docente, os pais e os alunos. A queixa escolar possui uma demanda que não corresponde ao modelo clínico da psicologia, sendo de vital importância a presença de um profissional da área da psicologia capacitado para a intervenção no ambiente escolar. O trabalho a ser efetuado por um psicólogo escolar não consiste em absoluto na mera aplicação de um modelo clínico no ambiente educacional (LEITE, 1983). Os objetivos e as metas diferem substancialmente, pois muito mais do que realizar atendimentos individuais com os alunos, o psicólogo escolar deve estar preparado para intervir nas relações intersubjetivas quer seja entre docentes e discentes, quer seja entre os demais funcionários do segmento escolar, com o intuito de promover um processo de ensino/ aprendizagem de qualidade. Segundo Galdini e Aguiar (2003), o psicólogo escolar deve objetivar também uma maior qualidade do trabalho docente, por meio de uma intervenção que permita a reflexão, a re-signif1cação e, conseqüentemente "a produção de novos sentidos sobre a 'vivência de ser professor" (2003, p. 91). As novas práticas psicológicas no âmbito escolar apontam para ações voltadas à conscientização do corpo docente a respeito da amplitude da problemática do aluno, a qual não se restringe aos determinantes individuais, familiares psicoafetivos (CRUCES, 2005). A Resolução 02/2001 do Conselho Federal de Psicologia (BRASIL, 2001) corrobora esta idéia ao afirmar que o psicólogo escolar deve envolver em sua análise e intervenção os diversos segmentos do sistema educacional relacionados ao processo de ensino/ aprendizagem. Para Cruces (2005), a tônica da intervenção psicológica escolar atual evita a culpabilização dos alunos pelos problemas enfrentados e busca contextualizações sociais e históricas para a compreensão das dificuldades presentes no contexto educacional. Neste sentido, um estudo que verifique os modos de relação estabelecidos entre docentes e discentes em escolas de ensino fundamental é necessário para que se possa identificar quais os pontos de melhoria e como estes podem ser discutidos a partir dos referenciais teóricos existentes. É no ensino fundamental que a criança constrói a base de sua personalidade e inicia sua inserção na sociedade; assim, a relação professor-aluno, cuja mediação é auxiliada pelo psicólogo escolar, constitui uma variável importante para o desenvolvimento infantil adequado. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 168 Para a realização deste estudo, elegeram-se dois objetivos, a saber: 1) observar a interação professor-aluno em salas de aula de lª e 2ª séries de uma escola pública de Ensino Fundamental; 2) com base no primeiro objetivo, realizar oficinas para o corpo docente que contemplassem o arcabouço teórico pertinente à prática pedagógica, bem como comportamentos e métodos de ensino favoráveis à aprendizagem e ao desenvolvimento das relações afetivas entre professores e alunos. Método Participantes Participaram do estudo 150 alunos e 5 professoras, distribuídos em seis turmas de Ensino Fundamental, sendo três de lª série e três de 2ª série. Participaram também 20 professores de outras turmas e membros da equipe administrativa da escola. Ambiente O estudo foi realizado numa escola pública de Ensino Fundamental da cidade de Belém. Procedimento6 Primeira Etapa: Foram realizadas 30 sessões de observação nas turmas, com duração de 2 horas cada uma, entre os meses de agosto e setembro do ano de 2004. Os pesquisadores observaram e registraram, pelo uso da técnica de registro cursivo, as categorias de comportamentos verbais e não-verbais do professor e dos alunos, bem como as categorias de interação entre ambos. Posteriormente, foi realizada a análise de todo o material coletado nas observações, tendo sido elaboradas três categorias principais que incluíam os aspectos mais relevantes dessas observações: Interação Professor-Aluno; Interação Aluno-Aluno e Dinâmicas Utilizadas em Sala de Aula. A partir dos registros referentes a cada categoria comportamental, foram então identificadas as principais dificuldades e os aspectos a serem trabalhados por meio de uma intervenção baseada no referencial teórico apresentado às professoras. Os graduandos do curso de Bacharelado em Psicologia da Universidade Federal do Pará, Fabio Medeiros e Deisy Abreu, colaboraram e participaram de todos os procedimentos descritos na sessão Método, especialmente no que se refere ao registro das observações em sala de aula e ao planejamento e execução das oficinas. 6 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 169 Segunda Etapa: Os déficits observados nas relações entre educadoras e alunos possibilitaram a elaboração de quatro oficinas para discussão de aspectos relevantes para a melhoria da qualidade do relacionamento interpessoal professor-aluno e, conseqüentemente, do ensino. As oficinas seguiram os temas: Psicologia do Desenvolvimento; Relações Interpessoais; Habilidades Sociais; Dinâmicas de Aprendizagem. Os objetivos gerais da oficina Psicologia do Desenvolvimento foram: 1) capacitar os docentes a respeito dos conteúdos teóricos sobre desenvolvimento; 2) diferenciar conceitos de aprendizagem e desenvolvimento segundo Piaget, Vygotsky e Wallon; e 3) realizar aplicação prática dos conceitos por meio de dinâmicas. Os objetivos gerais da oficina Relações Interpessoais foram: 1) capacitar os docentes a respeito das relações interpessoais; 2) identificar tipos de relações interpessoais entre professor e aluno que favoreçam a aprendizagem; e, 3) demonstrar por meio de dinâmicas a aplicação dos conceitos abordados. A oficina Habilidades Sociais teve como objetivos principais: 1) capacitar os docentes a respeito das relações interpessoais; 2) identificar as habilidades sociais necessárias para o desenvolvimento de relações interpessoais positivas entre professor e aluno; e, 3) realizar a aplicação prática dos conceitos abordados. Os objetivos principais da oficina Dinâmicas de Aprendizagem foram: 1) capacitar os docentes a respeito de métodos mais dinâmicos de ensino; 2) discutir a aplicabilidade de métodos alternativos para lidar com as dificuldades encontradas na relação de ensino-aprendizagem; 3) aplicação prática dos conceitos abordados. Todas as oficinas foram estruturadas em dinâmicas que estimulavam a participação dos professores e o debate dos temas. As oficinas foram programadas para ocorrerem semanalmente, com duração de 2 horas cada uma, totalizando 8 horas de atividades. O convite à participação foi estendido a todo o corpo docente e administrativo da escola, não se restringindo às professoras das turmas observadas. Resultados e Discussão Os resultados referem-se às duas etapas do estudo. Em relação às observações efetuadas, na primeira etapa, foram identificados aspectos relevantes, discutidos e trabalhados posteriormente dentro de cada uma das três categorias mencionadas anteriormente. Esses aspectos serão apresentados e Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 170 discutidos a seguir. Os aspectos referentes à segunda etapa inserem-se nas quatro oficinas já descritas. Aspectos Referentes às Observações (Primeira Etapa) Interação Professor-Aluno - No âmbito desta categoria foi observada a presença de alunos "excluídos" durante as aulas. De maneira geral, observou-se maior dificuldade destes alunos em acompanhar as atividades desenvolvidas em sala, demonstrando um pouco de interesse e bastante dispersão. Concomitantemente, foram verificados poucos comportamentos dos docentes no sentido de incluir estes alunos e investigar os fatores determinantes das dificuldades, a fim de que pudessem ser modificadas. Percebeu-se também, certa dificuldade dos professores em lidar com os alunos mais indisciplinados e ativos, sendo freqüentemente estabelecidas relações de coação. Nesse contexto, foram verificadas algumas limitações em termos de habilidades sociais necessárias para um relacionamento interpessoal positivio. Interação Aluno-Aluno - Com base nesta categoria observou-se a ocorrência de alguns conflitos entre os discentes e dificuldades ocasionais dos professores em mediá-los. Observou-se também o freqüente estabelecimento de relações de cooperação entre os alunos, incentivadas, algumas vezes, pelos professores. A atuação destes indicou a consideração, empiricamente, do conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, discutido por Vygotsky. Por meio de relações de cooperação é possível ocorrer entre crianças de diferentes níveis de desenvolvimento um maior aprendizado, na medida em que possam beneficiar-se da roca de conhecimento. Todavia, as observações mostraram que a interação criança-criança poderia ter sido ainda mais estimulada, por meio de atividades coordenadas em grupos de duas crianças ou mais. Dinâmicas Utilizadas em Sala de Aula - Relativamente a esta categoria, foi observado o uso de métodos didáticos mais tradicionais que priorizam atividades individuais com baixa interação entre os alunos. Esse tipo de dinâmica propiciava maior dispersão dos alunos em conversas paralelas, o que poderia ter sido amenizado por estimulação, dentro das atividades propostas em sala, da interação entre os alunos. Outro aspecto bastante verificado foi a questão da reduzida motilidade requerida dos alunos. Comumente, eram realizadas tarefas exigindo que os alunos permanecessem sentados por longos períodos; uma conduta que gerava maior inquietação entre os alunos, prejudicando seu desempenho. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 171 Aspectos Referentes às Oficinas Oficina de Psicologia de Desenvolvimento - Uma vez que esta oficina era a primeira tarefa a ser desenvolvida, pretendeu-se, inicialmente, integrar facilita dores e público-alvo, por meio da dinâmica dos nomes7. Solicitouse que as professoras formassem duplas e durante 3 minutos conservassem umas com as outras a fim de obter as seguintes informações: nome, série em que lecionava, tempo de profissão, aquilo de que gostava e de que não gostava. Posteriormente à apresentação, foi solicitado que cada professora ressaltasse uma característica de seus alunos (dinâmica das características). Todas as características citadas foram colocadas no quadro negro. A partir daí, as facilitadoras iniciaram a discussão do assunto Psicologia do Desenvolvimento. É importante mencionar que se pretendeu com esta estratégia, iniciar o assunto a partir do conhecimento já detido pelas professoras, a fim de aprimorá-la. Sabia-se que as professoras poderiam atingir um desenvolvimento potencial a partir da interação com as facilitadoras, as quais, naquele momento, possuíam um conhecimento sobre psicologia do desenvolvimento mais estabelecido e sistematizado. Para cada característica levantada foi feita uma análise do desenvolvimento, a partir da teoria de três grandes autores da área - Piaget, Vygotsky e Wal1on. Aspectos de caráter pejorativo como ser bagunceiro, ser falante e ser irrequieto, dentre outros, foram discutidos e foram analisadas suas contribuições para o desenvolvimento positivo da criança. Muitas características mencionadas são consideradas obstáculos para a aprendizagem dos alunos quando o educador emprega métodos de ensino tradicionais. Assim, durante a oficina, fez-se uso de recursos alternativos para lidar com tais características infantis em sala de aula. Foram analisados, portanto, conceitos como o de ensino-aprendizagem e as definições de conceitos científicos e espontâneos de Vygotsky, conceitos esses que enfatizam que o processo de aprendizagem funciona em via dupla, havendo o ensino e a aprendizagem tanto do professor quanto do aluno. Além disso, ressaltou-se a aquisição de conhecimentos também fora da escola, os quais são pré-requisitos para a aprendizagem dos conceitos escolares. Dessa forma, verificou-se a necessidade de valorizar individualmente cada criança e os conhecimentos tácitos que elas já detêm, a fim de aprofundá-los e sistematizálos. As dinâmicas foram nomeadas de acordo com as atividades que seriam desenvolvidas com o grupo de professores e com os objetivos propostos. 7 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 172 Ressaltou-se que cabe ao professor promover a articulação entre os conceitos espontâneos e científicos de tal forma que, de um lado, os espontâneos possam inserir-se em uma visão mais abrangente do real, e, de outro, os científicos tornem-se mais concretos, apoiando-se nos espontâneos gerados na própria vivência da criança. Também, considerou-se que a relação professor-aluno é de extrema importância, já que segundo os três autores, a criança se constitui a partir das relações interpessoais que estabelece. Foram discutidas as fases do desenvolvimento descritas por Wal1on, em que predominam alternadamente formas afetivas e cognitivas pelas quais se dá o relacionamento da criança com o meio (GALVÃO, 1995). Sendo assim, frisou-se que cabe ao professor verificar em que fase seu alunado se encontra, a fim de estabelecer uma base de relacionamento mais adequada a essa fase. Discutiu-se que Piaget (1987) também apresenta estágios do desenvolvimento que estabelecem a importância de certas características do infante para a sua formação. Ressaltou-se, como exemplo, a necessidade de se trabalhar com o lúdico, mais especificamente, com desenhos e brincadeiras de faz-de-conta com crianças na faixa etária compreendida entre 2 e 7 anos. Essa faixa remete à fase pré-operatória, conforme a teoria de Piaget, e essas crianças necessitam, provavelmente, de tais recursos para compreender o meio externo e se relacionar com ele. Foi debatida a importância da relação entre professor e aluno para a construção de conhecimento, nos termos de que sua relevância está baseada, principalmente, nos conceitos de Zona de Desenvolvimento proximal de Vygotsky e na posição de Piaget sobre a construção ativa do conhecimento. Foram abordadas questões relativas ao modo de lidar com o erro do aluno, muitas vezes, necessário para um aprendizado mais consistente, e a importância da motricidade para o desenvolvimento da cognição da criança, conceito defendido por Wal1on. Discutiu-se que para Wal1on, a motricidade infantil possui uma dimensão cognitiva, na medida em que, inicialmente, por meio dela a criança entra em contato com a realidade que a cerca, cedendo, posteriormente, o ato motor ao ato mental, que será a partir de então o recurso pelo qual a criança conhece o mundo. Levou-se em conta que, entretanto, uma vez instalado o ato mental, a motricidade não perde suas funções, sendo essencial para o curso do pensamento, pois mudanças de postura facilitam o entendimento e a expressão verbal (GALVÃO, 1995). Foram ainda discutidos dois aspectos, apontados a seguir: Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 173 a) A necessidade, no contexto escolar, de o educador considerar a importância do movimento na aprendizagem infantil, utilizando-o também como indicador para detectar dificuldades nessa área, e o fato que o ato motor e o ato mental sejam tão interligados na infância, de modo que a criança dificilmente consiga manter-se quieta por horas na sala de aula. b) A necessidade de o professor apresentar aos alunos questões desafiadoras que agucem a sua curiosidade, seu interesse em aprender, além da ajuda que podem oferecer uns aos outros para o esclarecimento de dúvidas. Houve por parte das professoras, durante toda a oficina, uma participação intensa e rica de comentários e sugestões. Dentre os comentários sobre comportamentos pejorativos dos alunos como, por exemplo, o referente a ser ''bagunceiro'', dois se destacam. Um deles foi: “Acho que uma solução para esses alunos irrequietos é dar atividades para eles, para eles se sentirem importantes, outra é tornar a atividade motivante, dar coisas diferentes". O outro comentário foi: “Muitas vezes acabamos dando um conceito inferior a um aluno só porque ele é danado, mas temos que ficar atentas, valorizar as coisas boas. Nós adultos também condenamos características nos alunos que nós mesmos temos". Foram vários os depoimentos sobre o relacionamento estabelecido entre professor - aluno e casos relatados que exemplificavam a teoria. Foi possível perceber que as professoras estavam bastante conscientes em relação ao seu papel enquanto educadoras e se esforçavam muito para exercê-lo com qualidade. O desfecho da oficina ocorreu após a solicitação de uma avaliação em uma única palavra ou frase em relação aos aspectos positivos e contribuições para a melhoria das dinâmicas empregadas e do conteúdo debatido. Em geral, as professoras apresentaram um feedback positivo às facilitadoras, relatando a utilidade do debate realizado para a melhoria e renovação da interação com seus alunos. Oficina de Relações Interpessoais - Para a Dinâmica da exclusão, a primeira utilizada, três grupos foram formados e instruídos a excluir um de seus membros (professoras), e selecionar quaisquer características pessoais para justificar essa exclusão. As três professoras, que foram excluídas, saíram de seus grupos e posicionaram-se no centro da sala. Em seguida, iniciou-se a exposição das características utilizadas para a exclusão. Foram mencionadas características diversas, como: ser "alegre", "chorona", "usar óculos", ser "perfeccionista", "tagarela", entre outras. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 174 Após isso, todas foram indagadas sobre como se sentiram ao excluir um colega. Os grupos relataram não terem tido problemas, afirmando que não escolheram defeitos, e sim qualidades. Uma das professoras ressaltou que a princípio não gostara da dinâmica, pois a incomodava a palavra "exclusão", tendo se acostumado com a mesma no decorrer da atividade. As professoras excluídas afirmaram que não se sentiram tão mal, pois era apenas uma brincadeira, apesar do desconforto de terem sido o centro das atenções, com os outros olhando e apontando características suas. Elas também concordaram que a ocorrência de "exclusões reais" é muito nociva em qualquer aspecto, e que se sentiriam muito magoadas se fossem realmente excluídas. Uma dessas professoras disse que a palavra "exclusão" deveria ser retirada do dicionário. Outra professora disse: Deve ser muito ruim para o aluno se sentir excluído e cada vez ele vai ficar mais antipático. Eu dei aula para uma turma de adolescentes na qual havia um aluno assim. Ele era muito bagunceiro e todas as professoras o levavam diariamente à diretoria. Então, comecei a tentar fazê-lo participar das brincadeiras em sala, ou então eu ignorava. Com o tempo, ele passou a gostar de mim e até hoje, todo ano, ele vai à minha casa,já casou, tem mulher e filhos. A partir daí, foi realizada uma discussão acerca dos efeitos da exclusão dos alunos sobre sua aprendizagem e desenvolvimento, bem como acerca da premência em construir-se, por parte dos professores, uma neutralidade em relação aos alunos, sem demonstrar preferências afetivas por alguns em detrimento de outros, pois isto influencia, nitidamente, não só o desempenho escolar como o desenvolvimento social dos alunos. Ressaltou-se a importância de ser estimulada, mesmo (e especialmente) nos alunos considerados mais difíceis, a descoberta e o aprimoramento de suas habilidades, tendo em consideração que isso é um processo fundamental para que eles se sintam para compreender os demais assuntos nos quais encontrem dificuldades. Enfatizou-se, também, o papel fundamental das professoras na formação dos alunos como um todo, elucidando-se que sua função, sobretudo no Ensino Fundamental, ultrapassa a mera transmissão de conhecimentos, posto que a relação que estabelecem com as crianças influencia desmesuradamente sua aprendizagem e seu desenvolvimento educacional integral. Em seguida, foi iniciada a Dinâmica do acolhimento. Uma professora voluntária foi retirada da sala e os outros participantes foram orientados a agirem como se aquela professora fosse nova na escola. Enquanto metade dos Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 175 professores faria comentários positivos a respeito desta, a outra metade seria encarregada dos comentários negativos. Posteriormente, os participantes que haviam elogiado deveriam criticar e vice-versa. Em seguida, a professora voluntária retornou à sala e os comentários foram feitos. A "nova" professora aparentava emoções alternadas e aleatórias ao ouvir as colegas, conforme foi instruída a fazer. Ao final, a facilitadora informou que a "nova" professora era surda. Quando questionados sobre o que havia sido mais fácil, criticar ou elogiar, os grupos afirmaram ter tido mais facilidade em criticar, fofocar a respeito de alguém que não conheciam bem. Já a professora voluntária relatou ter se sentido mal ao ouvir as críticas, embora soubesse tratar-se de uma brincadeira. De acordo com outra educadora: “A primeira impressão é a que fica, e às vezes a gente pega antipatia logo pela pessoa". Ao fim desta estratégia, teve início uma discussão sobre o ato de atribuir rótulos aos alunos e as prováveis conseqüências da estigmatização na autoestima destes, entre outros aspectos relevantes apontados pelos professores. Procurou-se elucidar a forte influência que rótulos atribuídos aos alunos pelos professores possuem sobre o comportamento daqueles, uma vez que, sendo positivas ou negativas, as idéias desses rótulos serão corroboradas pelas atitudes das crianças. Considerou-se que, desse modo, enquanto alguns alunos se esforçam em maior grau quando reconhecidos e tratados com simpatia pelo professor, outros, por outro lado, não fazem a menor tentativa de melhorar seu desempenho ou comportamento, haja vista que, de qualquer maneira, nunca recebem qualquer estimulação. Frisou-se que, ao invés disso, encontram outras maneiras de receber atenção, a maioria delas por meio da indisciplina e hostilidade, prejudicando seu aprendizado (LEITE, 1983). Neste contexto, foi apontada a estimulação dos aspectos positivos do aluno como um dos caminhos para a problemática abordada. Na medida em que todos os alunos possuem qualidades e defeitos, foi esclarecido aos participantes da oficina que ao buscarem as qualidades peculiares de cada um, os educadores podem salientá-las, minimizando os seus aspectos negativos. Uma das educadoras levantou a questão dos conflitos entre alunos, comentando que as salas muito cheias favorecem a bagunça. Seguiram-se outras falas que ratificavam a escassez de espaço e elevada quantidade de crianças dentro das salas como um empecilho à disciplina. Não obstante, outra professora sugeriu: “A sala de aula não é o único espaço de aprendizagem, o professor deve buscar outras opções". Assim, houve discussão com os participantes acerca das possibilidades de organização do espaço e da formação de grupos pequenos de alunos nas atividades como um mecanismo atenuante destas dificuldades. No que Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 176 concerne aos conflitos entre os alunos, foi enfatizada a relevância de uma postura do educador que priorizasse a imparcialidade e o esforço em conhecer as razões dos conflitos, incentivando a reflexão dentro da classe, contextualizando as situações e auxiliando-os na análise crítica destas. No encerramento da oficina, fez-se a leitura de uma história (extraída de um texto de autoria não revelada) sobre uma professora e um aluno com o qual ela inicialmente antipatizara, por ser indisciplinado, apresentar uma aparência suja e mal-arrumada além de demonstrar um desempenho escolar insatisfatório. Esta professora descobriu, porém, que ele havia sido um brilhante aluno, agradável e exemplar até quando houve uma sucessão de tragédias em sua família, as quais acabaram por deixá-lo naquele estado. Assim, ela decidiu mudar seu comportamento e dedicar-se ao aluno, dando-lhe atenção e afeto. Ao final, o menino recuperou-se e tornou-se muito bem-sucedido em seus estudos, agradecendo imensamente à professora, a qual, por sua vez, correspondeu, por havê-la ensinado a ensinar. Após a leitura do texto, uma professora contou ter vivenciado um caso parecido, pois tivera um aluno que ia às aulas sempre sujo e não fazia nada, não tinha pai nem mãe, morava com parentes e recebia maus-tratos. Ela comentou bastante emocionada, que o final de sua história não havia sido feliz, pois quando percebeu a situação do aluno já era tarde demais para intervir. Em seguida, abordou-se o papel fundamental do professor na educação dos alunos e a capacidade que possuem de mudar a realidade destes. Os professores participaram ativamente das discussões por meio de comentários e questionamentos. Ao final, no momento da avaliação da oficina, os professores apresentaram suas considerações sobre o conteúdo da mesma e, de modo geral, relataram que o evento colaborou para a reflexão sobre uma relação professoraluno mais construtiva e favorável ao desenvolvimento e aprendizagem das crianças. Oficina de Habilidades Sociais Inicialmente, foi apresentado às professoras um texto para reflexão intitulado "Começando por Nós", de autor desconhecido. Este texto reflete sobre mágoas passadas e não esquecidas que provocam rancor, e propõe uma "faxina" pessoal, ou seja, uma renovação das esperanças, expectativas e metas. A leitura de "Começando por Nós" teve como objetivo fazer com que as professoras refletissem sobre o grau de influência exercido por experiências negativas com alunos nas relações estabelecidas com cada aluno ou com a turma. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 177 Após a leitura do texto, iniciou-se uma breve discussão sobre as relações estabelecidas com os alunos e a importância de uma "faxina" em cada ano que se inicia. Isto permite às professoras uma renovação das expectativas e um fortalecimento da confiança e do entusiasmo necessários para a prática da função de educador e para uma relação professor-aluno positiva. Durante esta discussão, as facilitadoras introduziram o conceito de Habilidades Sociais como sendo as competências necessárias para o estabelecimento e manutenção das relações interpessoais (DEL PRETTE e DEL PRETTE, 1999). Posteriormente, todas as professoras foram convidadas a participarem da Dinâmica de rodas. Foram formados dois círculos concêntricos. Ao som de uma música clássica, solicitou-se que as professoras do circulo de dentro ficassem de frente para que as professoras do círculo de fora, formando pares. Cada membro da dupla deveria observar os aspectos físicos e não verbais do membro correspondente, e cada comando da facilitadora os pares seriam trocados, ou seja, o círculo de dentro daria um passo para a direita e o círculo de fora, um passo para a esquerda. Então, novamente, cada dupla deveria observar sua parceira no que diz respeito aos aspectos físicos. Após completar um giro de 360°, a facilitadora ordenou que as professoras dos dois círculos virassem de costas umas para as outras e alterassem alguma coisa na sua aparência como, por exemplo, tirar os óculos, soltar o cabelo, mudar o anel de dedo, etc. Após esta mudança, as duplas voltariam a ficar de frente uma para a outra, a fim de observar as mudanças realizadas em cada uma das pessoas que compunham o círculo oposto, refazendo um giro de 360°. Completado o giro, as professoras retomaram os seus assentos e iniciou-se a discussão sobre as mudanças observadas. De modo geral, a maioria das professoras conseguiu identificar as mudanças no aspecto físico de suas colegas. A Dinâmica de rodas permitiu a discussão sobre a importância de se observar os aspectos não-verbais na comunicação, tais como expressão facial, olhar e contato visual, sorriso e gestualidade. As professoras mostraram grande interesse e participaram bastante do debate, entretanto, os exemplos a que se referiam estavam voltados mais para a relação que mantinham com a diretoria da escola do que com os alunos. É importante observar que as oficinas foram ministradas em um período de transição de diretoria e conflitos entre esta e o corpo docente. Durante a discussão sobre habilidades sociais, uma professora explicou que as oficinas estavam provocando reflexões mais direcionadas à relação interpessoal entre os funcionários. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 178 A partir daí, o debate sobre habilidades sociais teve como foco a relação entre professor-diretoria, uma vez que esta relação estava refletindo negativamente no trabalho dentro da escola e com as turmas, como pode ser verificado nos relatos a seguir: "Infelizmente o aluno tem sido deixado de lado, mas sentimos um descaso da escola"; "Somos recebidos mal, e acabamos por passar isso aos alunos"; "É uma angústia vir à escola, sou tratada mal, apesar de tentar vir 'zen'. As crianças não têm culpa, mas acabam sendo prejudicadas"; "Falta motivação. Não temos isso"; "Perdi o prazer de vir a escola, tenho que vir pelo dinheiro; pura necessidade". Neste momento a oficina teve que ser adaptada às demandas dos professores presentes. O conteúdo da oficina (habilidades sociais) foi mantido, porém a relação a ser discutida foi alterada: ao invés de se abordar a relação professor-aluno, houve debate sobre aspectos da relação diretoria-corpo docente, sendo analisadas as habilidades sociais requeridas para a melhoria da situação. Na medida em que as professoras relatavam os problemas ocorridos na escola, foram apresentados e discutidos conceitos como: solicitar mudança de comportamento, lidar com criticas, manifestar opinião, empatia e assertividade. Dentre as insatisfações relatadas, encontram-se: “A diretora não sabe ouvir. Ela vai ter que ouvir antes de falar"; "Tentou-se uma reunião, mas a direção mostrou-se desinteressada"; "Ela [a diretora] não tem respeito por nós"; "Ela [a diretora] é exigente autoritária"; "Ela [a diretora] está todo tempo malhumorada. Ela é inflexível". Foram analisadas e refletidas durante a oficina maneiras eficazes de solicitar uma reunião com a diretoria e expor de modo assertivo os problemas que estavam ocorrendo. Foi debatida também a importância do emprego de habilidades empáticas, tais como saber ouvir e falar sensivelmente, na tentativa de compreender os motivos do comportamento da diretoria. A empatia é de grande importância nas relações interpessoais porque remete à procura de compreensão dos sentimentos e comportamentos do outro, contribuindo para a aceitação e redução dos sentimentos negativos. Isto permite a ambas as partes mais empenho para a resolução do problema (FALCONE, 2000). Por outro lado, deu-se ênfase à necessidade da fala assertiva, ou seja, a defesa dos direitos pessoais e expressão de pensamentos e sentimentos de forma apropriada, direta e honesta, sem prejudicar ou violar os direitos do outro (DEL PRETTE E DEL PRETTE, 2001; BARBOSA, 2000). As professoras mostraram-se bastante satisfeitas com o tema e empenhadas a resolver os conflitos vividos, e restabelecer uma relação positiva com a diretoria. Além disso, esta oficina permitiu um momento de desabafo e Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 179 alivio de tensão, uma vez que as facilitadoras procuraram exercer a empatia. Naquele momento foi percebido que apenas o desabafo e a sensação de se sentirem compreendidas seriam suficientes para encorajá-las a buscar a melhoria nas relações dentro da escola. Oficina de Dinâmicas de Aprendizagem Pretendia-se abordar nesta oficina, como estratégias de ensino, motivação e desenvolvimento infantil, conceitos relacionados à criatividade, à estimulação motora e à utilização de contos de fadas e de outras atividades de leitura. Outro aspecto programado para discussão dizia respeito à organização do espaço físico em sala de aula de modo mais apropriado para as atividades propostas e para a interação entre alunos. Cada uma das atividades programadas teria o intuito de permitir aos professores que percebessem, participando "enquanto alunos", a significativa distinção entre métodos convencionais de ensino e métodos enriquecidos com idéias criativas que despertassem o interesse e incitassem a participação dos alunos, aproximando, além disto, o conteúdo programático da realidade vivenciada pelos mesmos. Na oficina anterior, entretanto, diversas falas das professoras presentes indicaram a extrema necessidade do redirecionamento da atenção para uma problemática de cunho interpessoal envolvendo a diretoria da escola. Desta maneira, considerou-se mais adequado abordar primordialmente esta questão de relações no ambiente de trabalho na presente oficina, a qual seria dirigida às dinâmicas de aprendizagem. Buscou-se nesta oficina fazer cumprir, sobretudo, uma meta primordial do âmbito de atuação da psicologia: o aprimoramento das relações humanas. Por meio das atividades realizadas, procurou-se apontar a importância do estabelecimento de relações construtivas e mecanismos facilitadores dos conflitos inerentes ao convívio profissional Para dar início à oficina, realizou-se a leitura de um poema de autor desconhecido. O texto abordava a necessidade de mudanças construtivas de rotina, além de renovação e melhoria das relações entre as pessoas. Utilizou-se o poema a fim de promover a reflexão acerca dos aspectos mencionados, incitando as participantes a refletirem sobre os benefícios de possíveis modificações nas suas atitudes, aspirações e relações sociais. Em seguida, foi solicitado às participantes que citassem dois acontecimentos, um agradável e outro desagradável, que tivessem ocorrido no âmbito da escola. Os fatos agradáveis relatados estavam relacionados à relação positiva entre as professoras, às oportunidades de aprimoramento proporcionadas pela hora pedagógica (um e semanal introduzido no início do ano letivo, para promover a Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 180 discussão e profissional entre os educadores). Já os eventos desagradáveis incluíam o aumento da carga horária de trabalho, e o decorrente desgaste, além de um eixo comum concernente aos embates com a direção da escola. Sobre o último tema foram citados: autoritarismo desrespeito, clima de ameaça, repressão, entre outros. A partir daí, várias professoras passaram a relatar os conflitos com a direção mando a dificuldade de comunicação com a mesma, ressaltando que esta apresenta comportamentos autoritários, sem respeitar a opinião dos funcionários. Pediu-se em seguida, que as participantes sugerissem maneiras de transformar os pontos negativo apontados, em pontos positivos. Como resposta, as professoras sugeriram uma com a direção da escola, na qual pudessem expor suas queixas. Uma delas apontou: "Sugiro um curso de relações humanas no trabalho com a ajuda da psicóloga, pois todos se calam na hora de falar". Outra professora saltou, porém, que a diretora recusava-se a participar dos cursos propostos, e que em uma situação na qual uma das professoras foi pedir modificação no horário, foi convidada por ela a deixar a escola se estivesse descontente. Ainda sobre esta uma das professoras chegou a afirmar: "Estou querendo sair da escola, mudei de comportamento, sou alegre, mas tenho me sentido muito magoada com toda esta s Prefiro parar de trabalhar aqui". Procurou-se, desta maneira, analisar junto com as professoras a possibilidade de um diálogo com a direção, questionando as reivindicações daquelas e ressaltando a necessidade de uma aproximação entre as duas partes. A fim de que houvesse uma melhor estruturação das falas das professoras, empregou-se a técnica da Cadeira vazia. Colocou-se uma cadeira no centro da sala, pedindo-se às participantes que imaginassem a presença da direção sentada na cadeira e tentassem dialogar com ela, comportando-se precisamente da maneira como o fariam diante um encontro real. Gradativamente, as professoras passaram a fazer suas reivindicações e, à que concluíam, buscou-se elucidar aspectos nas suas falas que dificultariam a c cação, como tons de voz coercitivos, trechos do discurso que transmitissem uma agressiva ou acusativa. Foram sugeridos, assim, elementos mais eficazes para uma comunicação favorável a ambos os lados, em uma tentativa de manter uma postura favorável à solução dos problemas levantados, evitando-se identificar possíveis culpados. As facilitadoras realizaram um treino destes aspectos com as professoras. É importante esclarecer que durante a oficina buscou-se compreender as possíveis razões do comportamento da direção, uma vez que as professoras relataram que antes de assumir o cargo a tanto a diretora quanto a vice mantinham uma excelente relação com elas. Não era objetivo de nenhuma das Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 ASPECTOS RELEVANTES DO CONTEXTO EDUCACIONAL: A RELAÇÃO PROFESSOR - ALUNO 181 estratégias adotadas identificar culpados ou estimular críticas não construtivas aos comportamentos da direção. A intervenção teve como objetivo buscar estratégias para reverter o quadro de conflito e tensão que havia sido instalado na escola. Na atividade de encerramento utilizou-se a Dinâmica da teia. As professoras foram orientadas a formarem um círculo. Em seguida, foi entregue a uma delas um rolo de barbante, cuja ponta deveria segurar, mantendo-a consigo, e entregar o rolo a uma colega, devendo dizer-lhe uma mensagem resumida em uma palavra. A instrução foi estendida a todas as outras, até que uma teia fosse formada. De modo geral, foram proferidas palavras amigáveis de apoio e acolhimento, especialmente direcionadas ao conflito em questão. A teia formada objetivava demonstrar a importância da união entre as professoras, numa rede de interação em que cada uma delas tem papel imprescindível no desenvolvimento das relações estabelecidas no ambiente de trabalho. Ao término da oficina, as facilitadoras agradeceram ao corpo docente pela participação ao longo do trabalho realizado, bem como pelo acolhimento e confiança depositada. As professoras afirmaram ter aproveitado as oficinas apresentadas e manifestaram o desejo de que iniciativas similares fossem mais constantes. Ressaltaram a importância de um intercâmbio entre o conhecimento teórico, construído na academia, e a prática pedagógica. Conclusão As observações permitiram constatar que muito do que se verifica na leitura, em termos de diretrizes para o desenvolvimento infantil e para a aprendizagem escolar, pode, de fato, ser aplicado na atuação docente. Ressaltase ainda que os professores da escola em que este trabalho foi realizado possuíam noções teóricas adequadas a respeito do desenvolvimento infantil e do processo de ensino-aprendizagem. O desafio seria, então, a busca de possibilidades para o aproveitamento prático do que o referencial teórico de base para essas noções disponibiliza. As oficinas denotaram a relevância e a utilidade dos conhecimentos da psicologia na área educacional, bem como a necessidade de renovação constante dos conhecimentos e das teorias pertinentes às práticas pedagógicas. O corpo docente, de modo geral, possuía uma vasta experiência no ensino infantil e certa habilidade em lidar com crianças em um contexto de aprendizagem. Todavia, constatou-se que um intercâmbio efetivo entre teoria e prática se faz fundamental para o aprimoramento das relações estabelecidas entre professores e alunos, no sentido de promover um processo de ensinoaprendizagem eficiente. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 159-184, jan./dez., 2005 Liany Tavares Tadaiesky / Darlene Cardoso Ferreira / Rosangela da Silva Almeida / Suellen Martins Nobre 182 Uma atuação que faça uso efetivo da psicologia escolar é um requisito primordial para a completitude destas duas áreas: teoria e prática. O conhecimento produzido nas universidades não deve estar restrito às atividades acadêmicas. O psicólogo, uma vez munido de saberes científicos que respaldem sua atuação, de forma sistematizada, pode ser um articulador da teoria com a prática no campo pedagógico. É importante ressaltar que o trabalho do psicólogo não deve ocorrer apenas individualmente com alunos ou professores, mas precisa contemplar também as relações existentes no âmbito escolar em seu conjunto, atentando para as questões presentes no ambiente de exercício profissional. A Resolução 02/2001 do Conselho Federal de Psicologia (BRASIL, 2001), ressalta a importância de o psicólogo integrar seus conhecimentos aos dos demais profissionais da educação. Ele deve também se empenhar na promoção de relações interpessoais positivas entre todos que direta e indiretamente pertencem ao contexto escolar. Estudos que enfatizem a relação professor-aluno e que promovam intervenções nesse âmbito, a partir do referencial teórico da psicologia educacional, podem, por um lado, oferecer contribuições no sentido de potencializar o desenvolvimento infantil e a aprendizagem escolar e, por outro lado, suscitar discussões relevantes a respeito do papel da psicologia educacional na atuação da equipe docente. A realização desses estudos no contexto escolar é uma necessidade que deve ser ressaltada, como uma forma de subsidiar constantemente a relação entre teoria e prática na ação pedagógica, a fim de facilitar o trabalho dos educadores, como um todo. Referências bibliográficas ALMEIDA, R. S. A Visão Sócio-Histórica da Solidão: Pressupostos Teóricos. In: A Solidão Intimista na Cidade Mundial - uma análise da experiência da migração. Tese (Doutorado em Psicologia Social) - São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2003. BARBOSA, J. L C. Sinto-me estressado por não saber dizer não. 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A pesquisa, que foi qualitativa de configuração descritiva, teve como instrumentos de coleta de dados a entrevista semi-estruturada, a observação da prática pedagógica das professoras, bem como a análise de documentos do PROSEI, e a observação dos momentos de formação continuada desenvolvida em cinco escolas: quatro municipais e uma escola comunitária conveniada com a Secretaria Executiva de Educação. Os resultados apon¬tam transformações significativas na forma de pensar, sentir e agir das professoras, trabalhados de forma contextualizada para atender aos desafios atuais, oriundos do saber, saber-ser e do saber-fazer reconstruídos no processo formativo. Palavras-chave: Formação Continuada. Saber Docente. Saber-Ser. Saber-Fazer. TEACHER'S KNOWLEDGES: RECONSTRUCTION OF THE KNOW HOW TO BE AND THE KNOW HOW TO DO OF TEACHERS OF THE SCHOOLS OF ELEMENTARY TEACHING OF BELÉM Abstract: The article presents some results of the research "Teacher's Knowledge: reconstruction of the knowledge, know how to be and know how to do of the teachers Pesquisa realizada pejo GT - Formação de Professores do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação do CCSE/UEPA. 2 Professora Doutora da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [email protected]. 3 Os demais autores também são professores da referida Universidade e doutores. Ana Kelly Martins é mestre. , E-mail: [email protected]. 4 E-mail: [email protected]. 5 E-mail: [email protected]. 6 E-mail: [email protected]. 1 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 186 of schools of elementary teaching of Belém, that investigated the teacher's knowledge constructed by 25 teachers that also participated of the continued formation process, offered by the "Social Educational Integrated Project - PROSEI". The theoretical reference was constructed taking as basis national and international authors that discuss the teacher's knowledge. It was a qualitative research of descriptive characteristics, had as data collection instruments, the semi structured interview; the pedagogical practice observation of teachers as well as the analysis of documents from PROSEI, and the observation of the moments of continued formation developed in five schools: four municipal schools and one communal school, with covenant with the State Board of Education. The results point to meaningful changes in the way of thinking, feeling and acting of the teachers, worked in a contextualized way to attend the current challenges, original from the knowledge, know how to be and know how to do reconstructed in the education process. Key words: Continued Education. Teacher's Knowledge. Know How to Be. Know How To Do. Considerações Iniciais Este artigo apresenta resultados da pesquisa denominada "Saberes docentes: reconstrução do saber, saber-ser e saber-fazer dos professores das Escolas de Ensino Fundamental de Belém" realizada por um grupo de cinco pesquisadores e três bolsistas do Curso de Formação de Professores e de Pedagogia da Universidade do Estado do Pará-UEPA. A pesquisa contou com financiamento da Universidade, com recursos do Programa de Apoio e Desenvolvimento às Atividades de Pesquisa. No estudo realizado investigamos os saberes docentes - que envolvem o saber, saber-fazer e o saber-ser - construídos pelas professoras que atuam nos Ciclos I e II e que participam do processo de formação continuada oferecida no Projeto Sócio-Educacional Integrado - PROSEI e as repercussões no "quefazer" pedagógico-político. A pesquisa procurou atingir os seguintes objetivos: 1- Analisar os saberes docentes que estão sendo construídos e reconstruídos na trajetória pessoal e profissional 2- Investigar se o projeto de formação continuada do PROSEI tem ou não considerado os saberes docentes construídos pelas professoras nos vários espaços que vivenciam. 3- Refletir sobre quais as práticas e saberes docentes construídos influenciam seu trabalho docente. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 187 4- Identificar a que desafios do Século XXI respondem os saberes docentes construídos. 5- Interpretar que tipo de formação humana alicerça o "eu" das professoras e de seus alunos. 6- Identificar como reconstroem seus saberes docentes, partindo da experiência vivenciada na formação continuada oferecida no PROSEI. A pesquisa de campo de natureza descritiva, qualitativa, foi desenvolvida em cinco escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, situadas no espaço geossocial denominado de Bacia do Tucunduba, no bairro da Terra Firme e Guamá, periferia de Belém, uma área de grande pobreza e violência urbana, que se reflete no interior das escolas. As escolas foram escolhidas por terem uma organização curricular diferentes: as quatro escolas, pertencentes à rede municipal estão organizadas em ciclos de formação e a quinta, uma escola comunitária, adota o regime seriado. Também foi critério de escolha que as escolas tivessem professoras participando das ações de formação continuada há mais de dois (02) anos, tivessem um corpo docente estável e trabalhassem com os anos iniciais de escolarização do ensino fundamental. Os pesquisadores fizeram os necessários contatos com as professoras nas escolas para sensibilizá-las a participar da pesquisa, ficando definido o quantitativo de 5 (cinco) professoras em cada uma das escolas. A tarefa de conseguir os sujeitos do estudo não foi fácil. Diversas foram as desculpas dadas para a não-participação, muito embora, em cada escola, pelo menos doze (professoras) estivessem envolvidas com as ações de formação continuada do PROSEI. Delineados os sujeitos, a pesquisa foi iniciada em fevereiro de 2004, prolongando-se até fevereiro de 2005, quando foi encerrado o ano letivo de 2004, suspenso por mais de 30 (trinta) dias, devido à deflagração de greve dos servidores da educação no município. A observação do trabalho pedagógico e a entrevista semi-estruturada, bem como a análise dos documentos do PROSEI e dos registros das professoras dos Ciclos I e II das escolas estudadas, foram os principais instrumentos de construção dos dados, que foram sistematizados e analisados considerando as categorias: saber, saber-fazer e saber-ser. Referencial teórico do estudo Sabe-se que culturas e saberes docentes são temas que, de forma íntima, estão relacionados e sua discussão vem ocupando cada vez mais espaço no cenário educacional brasileiro, principalmente a partir da década de 90, e tem se intensificado no século XXI. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 188 Contribuem para a percepção desse estudo autores como Charlot (2000), Perrenoud (2001), Tardif, Lessard e Lahaye (1991), Pimenta (1997), Borges e Tardif (2001), que discutem os saberes docentes com base em diferentes critérios de classificações, bem como sobre a origem, a natureza e o objeto do saber. No estudo realizado, os saberes docentes são entendidos como um conjunto de saberes que servem de suporte para o educador desenvolver o ato de ensinar (e aprender) no espaço educativo, sendo oriundos de diferentes fontes como: da formação inicial, da formação continuada, do currículo, do processo de socialização escolar, do conhecimento das disciplinas ensinadas, das experiências vividas na profissão, da cultura pessoal e profissional que os professores constroem e reconstroem e da aprendizagem por meio da troca de experiências que eles desenvolvem com seus alunos e seus pares (BORGES e TARDIF, 2004). Esclarece Tardif (2002) que o saber docente possui características de ser plural, porque envolve saberes das disciplinas, saberes curriculares, saberes profissionais e saberes da experiência. Sobre o saber da experiência, a literatura atual o tem considerado como o núcleo vital do saber docente. O saber da experiência é produzido no cotidiano docente e é por meio desse saber que o professor dialoga com os saberes das disciplinas e os saberes curriculares. A construção dos saberes da experiência se forja no trabalho do dia-a-dia e no conhecimento do real contexto no qual nos inserimos. Esse saber produzido na experiência evidencia-se sob diversas formas: habilidades, saber-fazer e saber-ser, o que Therrien (2002) denomina de a "cultura docente em ação". Neste sentido, um professor, para tornar-se competente em seu ofício, deve ser capaz de articular os saberes, os esquemas de ação e um conjunto de condutas e de rotinas que fazem parte de seu trabalho. De acordo com Raymond (1993 apud CHARLIER, 2001), torna-se necessário dar atenção a dois tipos de saberes: os saberes do professor, que são construídos ou transformados por ele na própria prática que vivencia no espaço escolar, e os saberes para o professor, que são elaborados e socializados em outros espaços e passam a fazer parte do seu repertório depois de transformados para serem utilizados em um contexto diferente. Os esquemas de ação, de percepção, de avaliação e de decisão, como nos esclarece Perrenoud (2001), têm a função de ativar os saberes e gerar competências visando lidar com situações imprevisíveis. Os esquemas de ação precisam ser desenvolvidos a fim de que o professor em uma situação de conflito possa compreendê-lo e dirigir sua ação no sentido de resolvê-la. As condutas e rotinas fazem parte também do seu repertório e são acionadas por intermédio dos esquemas de ação para dar respostas a situações com que eles se deparam no dia-a-dia. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 189 Na formação continuada grandes são as possibilidades de o professor aprender a partir da prática, tomando-a como ponto de partida, de reflexão individual e coletiva, tanto da sua própria prática, como dos seus pares. Outra forma é aprender através da prática no momento em que se colocam como sujeitos que procuram interferir no contexto em que vivem, experimentando e descobrindo novas condutas à medida que buscam resolver a situação que surge. Por fim, o professor pode aprender para a prática visto que para desenvolver a ação precisa valorizar os conhecimentos que possam iluminar de forma direta o seu desenvolvimento pessoal e profissional. Desse modo, as teorias pessoais dos professores são construídas por meio de saberes disciplinares, curriculares e profissionais que se juntam aos saberes da experiência. A literatura atual ressalta que o desafio de reconstruir os saberes docentes relaciona-se a um projeto de formação continuada que precisa fluir de acordo com as necessidades dos atores sociais, ou seja, precisa ser construído com os professores e não para os professores. Ação do Projeto Sócio-Educacional Integrado – PROSEI Uma parceria estabelecida entre a Universidade Federal do Pará, a Prefeitura Municipal de Belém e diversas Organizações Não-Governamentais, com apoio financeiro da Raytheom Company, desenvolveu, no período de 1999 a 2005, o Projeto Sócio-Educacional Integrado de Formação Continuada PROSEI, com diversas ações destinadas a melhorar o desempenho dos professores dos anos iniciais de escolarização e a qualidade do ensino oferecido às crianças em escolas de Ensino Fundamental, situadas em um bairro periférico da cidade de Belém. A atuação do PROSEI se desenvolveu em quatro linhas: formação continuada, formação profissional, educação de jovens e adultos e educação ambiental. A formação profissional buscou atender 200 (duzentos) professores por meio de cursos, palestras e oficinas. A Educação de Jovens e Adultos ofereceu ateliês de leitura e ateliês das produções dos alunos e oficinas de leitura e escrita. A educação ambiental - construção da Agenda 21 - propiciou a formação de agentes de educação ambiental com oficinas de reaproveitamento de papel, plástico, vidro, vestuário, entre outros. Organizou performances teatrais que discutiram os problemas da violência e do lixo; o aprendizado do processo de compostagem, com elaboração de cartilhas sobre hortas. A formação continuada, sob a responsabilidade de três professoras da equipe do PROSEI, desenvolveu, desde 2002, o Projeto Letramento na Escola. O Projeto atendeu 110 (cento e dez) professores que atuavam em classes seriadas ou nos Ciclos I e II, no caso das escolas municipais. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 190 O Projeto procurou desenvolver procedimentos metodológicos para que os professores ampliassem as competências de leitura e escrita de seus alunos, pois, no Estado do Pará, os números do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica - SAEB revelam que 46% dos alunos da 4ª série do ensino fundamental só conseguem ler textos curtos e simples. Mostram, também, os dados do SAEB que Português e Matemática, como disciplinas básicas para a fundamentação do aluno, continuam apresentando resultados insatisfatórios. Tanto nos anos iniciais como nos anos finais do Ensino Fundamental, os resultados não são muito animadores. A perspectiva do PROSEI foi integrar as quatro linhas citadas anteriormente, e desenvolver uma metodologia de trabalho na formação continuada, que considerou quatro dimensões importantes: a pedagógica, a científico-tecnológica, a contextual e a sociocultural, buscando formar no professor uma visão de totalidade e de comprometimento com o real. A formação continuada do PROSEI trabalhou com o objetivo de: a) Melhorar a qualidade do ensino público, em especial nas primeiras séries do ensino fundamental, oferecido às crianças matriculadas nos dois primeiros ciclos de ensino; b) Valorizar os profissionais da educação como: professores, técnicos, servidores e monitores, viabilizando ações com vistas à melhoria da competência técnica, política e ética; c) Resgatar o sentido coletivo e participativo do fazer pedagógico para propiciar a troca de experiências, a reconstrução das relações interpessoais e o aprofundamento de conhecimentos. O PROSEI, em 1999, no primeiro momento, desenvolveu a formação continuada a partir de um diagnóstico das necessidades e expectativas dos professores. O resultado configurou os módulos integrantes do Núcleo Básico como: Relações sociais no traba¬lho escolar; Práticas avaliativas e produção de identidades e Autonomia e projeto pedagógico da escola. O Núcleo de Formação Específica trabalhou as diferentes abordagens teórico-metodológicas para o ensino de Matemática e Ciências Naturais, para o ensino de Português, para o ensino da História e Geografia, da Alfabetização e das concepções de Alfabetização de Jovens e Adultos. A partir de 2000 e 2001, o percurso formativo desenvolvido na UFPA continuou estruturado ainda em módulos de Educação Básica, envolvendo estudo sobre as relações entre currículo, ensino, cultura e sociedade. No Núcleo Específico permaneceram as abordagens teórico-metodológicas do ensino de Português, tendo sido desmembradas as Ciências da Matemática, e a Geografia Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 191 da História, sendo incluídas a Educação Física Escolar e as abordagens teóricometodológicas da Alfabetização. Com o caminhar do processo, a equipe gestora do PROSEI percebeu que não bastava atuar só com os conteúdos, mas que era necessário ir além, incluindo atividades livres que envolvessem a produção de textos na escola, que revelassem diferentes formas de expressão; o estudo de diversas linguagens artísticas: desenho, pintura, dança, música; a aprendizagem por meio de resolução de problemas, construção dos conceitos tempo¬espaço no desenvolvimento do conhecimento histórico-geográfico e relações ecológicas. Integraram esse processo os Seminários Temáticos que trabalharam temas e problemas oriundos do Projeto Político Pedagógico da escola e os Seminários Integradores denominados: 1) O papel da formação continuada para o desenvolvimento sustentável; 2) A escola pública municipal em debate: resultados de pesquisa desenvolvida pela UFPA e SEMEC; 3) A Escola Fala: experiências interdisciplinares no Ensino Fundamental. A partir de 2002, as escolas foram estruturadas para realizar a formação em seu próprio espaço. Cada escola passou a ter uma equipe para atuar com a formação continuada, composta de 4 (quatro) pessoas: uma formadora do PROSEI, uma Coordenadora da escola e 2 (dois) alunos de cursos de graduação da UFPA, que atuaram como monitores. Foi o desenvolvimento do projeto de formação na própria escola que nos motivou, a partir do final de 2003, a investigar os processos formativos dos professores, tomando como foco o Projeto Letramento na Escola, que objetivava estudar a linguagem como uma constante forma de produção de sentidos e significações para promover situações de reflexões sobre seus diferentes contextos de usos. Algumas aproximações: revelando resultados Os dados coletados inicialmente permitiram estabelecer o perfil das professoras sujeitos do estudo, conforme o quadro a seguir: QUADRO I PERFIL GERAL DAS PROFESSORAS DAS CINCO ESCOLAS Idade Formação Tempo de Magistério 22-57 Grad. Esp. 0-5 6-10 11-20 25 18 07 03 08 08 Fonte: Dados das entrevistas/2004. 21-30 05 Jornada 200h 25 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Experiência/ Letramento Sim Não 04 21 Tempo no PROSEI 1-3 4-6 05 20 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 192 O conjunto de dados, ao ser analisado, evidencia que todas as professoras são mulheres, a professora com menos idade contava com 22 anos, enquanto a com mais idade estava com 57 anos. Percebe-se que as escolas congregam docentes no início de carreira, outras, no meio, e poucas que se aproximam do final de carreira. Essa é uma vantagem quando se trabalha de forma coletiva, no sentido de produzir espaços para a troca de experiências as mais variadas, o que pode enriquecer a formação dessas professoras. Todas trabalhavam com carga horária de 200 horas, cumprindo jornada dupla. A maioria não tinha experiência com o letramento, o que se constata também pelo tempo de permanência nas atividades desenvolvidas pelo PROSEI. Isso parece demonstrar o interesse delas em construir uma nova forma de compreensão do trabalho com o letramento. Os dados ainda permitem caracterizar as escolas da seguinte forma: quatro escolas oferecem Ciclos de Formação e uma é seriada, com Educação Infantil, Educação Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. A escola municipal se organiza em Ciclos de Formação organizados em Ciclos I, II, III e VI. A pesquisa envolveu professoras de CI que atendem crianças na faixa etária de 6 a 8 anos e tem a duração de três anos e do CII, com duração de dois anos que atendem crianças na faixa etária de 9 a 10 anos. A escola comunitária envolveu as professoras das séries iniciais do Ensino Fundamental. As escolas investigadas foram denominadas SV; SM, PA, EL e EC. Superando as fragilidades individuais: a construção dos saberes docentes de forma coletiva por meio do trabalho com o letramento No que se refere às entrevistas com as professoras, às observações do trabalho por elas realizado no espaço da sala de aula e às efetivadas no Horário Pedagógico - HP, em que ocorria a formação continuada, e ainda às observações feitas fora da escola, nos encontros no Núcleo Pioneiro Integrado - NPI e na Universidade Federal do Pará - UFPA, nos Seminários Integradores, que contaram com a participação das formadoras e com a Coordenação do PROSEI para avaliação, estudos e socialização das experiências entre as cinco escolas atendidas, pudemos constatar, quanto aos saberes docentes (SABER, SABER - FAZER e SABER SER), que: a) há esforço no sentido de atender às necessidades formativas específicas, como de apreender e aprender a epistemologia de uma racionalidade aberta, em que se evidencia por parte das professoras a construção de outras crenças, valores, concepções de educação, do que é ser educador, de letramento, formas de interação com crianças vulneráveis e em desvantagem social - por apresentarem dificuldades de toda ordem -, de como Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 193 trabalhar com outras metodologias para desenvolver o letramento, lidar com rotinas e o tempo escolar, em que as docentes precisam estabelecer regras e criar regulagens, conforme propõe Perrenoud (2001), como avaliar e ver de outra forma os erros das crianças, de enfrentar as instabilidades, as incertezas, os conflitos e algumas condições adversas em seu trabalho. Além disso, aprender a trabalhar e a organizar textos, uma vez que, no início, as professoras explicitaram que foi trabalhoso chegar à criação de textos, visto que tanto elas quanto os alunos não estavam preparados para atuar com temas geradores. Muitas questões se impuseram no "quefazer" educativo, mas a que surgia com mais freqüência foi a indagação "Devo consertar ou não o que o aluno errou no texto? Digo ou não o certo quando o aluno pergunta?". Dúvidas com que a formação continuada ajudou a lidar, conforme pode ser lido no fragmento de entrevista a seguir, que revela as modificações ocorridas na professora: Hoje mudou bastante a execução do meu trabalho até mesmo quanto ao erro, antes quando o aluno errava tinha que copiar 20 vezes a mesma palavra, agora você usa o alfabeto móvel com outras palavras para que a criança perceba que o som é diferente. (M.S, Escola PA). b) as professoras já conseguem entender a lógica de pensamento dos alunos ao desenvolver o sistema ortográfico, isto é, a forma sonora da fala e a forma gráfica da escrita praticada no contexto escolar pelos alunos quando ocorre o "erro". Por exemplo, o "erro" no uso das vogais nasais, ao não segmentar a palavra ou quando os alunos utilizam a forma sonora de como se expressam para a forma gráfica da escrita. Essas professoras entendem, como Soares (2001, p. 99), que "o aluno está operando com hipóteses fundamentadas de natureza lingüística em um processo que se caracteriza como uma progressiva construção do sistema ortográfico da língua". Assim, foi fundamental na formação continuada refletirem em conjunto quanto aos "erros" ortográficos e constatar que eles têm naturezas diferentes e que existem as regularidades e irregularidades ortográficas quando se avalia o "erro" em textos dos alunos. A formação continuada desenvolvida pelo PROSEI ao reconstruir o saber, saber-fazer e saber-ser possibilitou que as professoras se tornassem mais seguras no que fazem ao desenvolverem as atividades de letramento, ao avaliarem alunos e alunas e proporem outras atividades pedagógicas necessárias. A formação ensinou as professoras a pesquisarem e a refletirem sobre as suas práticas docentes e de seus pares por meio da criação de uma cultura escolar coletiva que pode resultar em uma ação pedagógica e política que seja pertinente e competente. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 194 Desta forma, inferimos que o processo de reflexão, realizado individual ou coletivamente pode contribuir para a produção de saberes e práticas docentes. Constatamos que as professoras, no que se refere ao saber-ser, ainda estão passando por grandes modificações, como a de deixar de trabalhar de forma isolada para vivenciar a experiência de atuar de forma coletiva. Uma das professoras afirmou que antes de participar do PROSEI trabalhava de forma isolada. Elas não trabalhavam como se fosse "uma corrente". O depoimento de uma professora ilustra as mudanças e a construção de uma nova cultura escolar: Eu era muito individualista, hoje me vejo procurando o coletivo não para convencer o outro, sendo mais uma unicidade para poder trabalhar. (K.J-F.T, Escola PA). A formação continuada tem propiciado muitos saberes docentes, conteúdos novos, advindos de diferentes áreas do conhecimento, bem como sugestões, idéias e 'reflexões, permitindo rever a teoria e aliá-la à prática docente. Para uma professora, este processo de formação no próprio local de trabalho foi a possibilidade de: Conseguirmos ver os alunos com outros olhos, a capacidade de cada um, as dificuldades financeiras enfrentadas pela família deles. Não fazemos mais a avaliação antecipada do aluno. (KJ-F.T, Escola PA). O processo de formação continuada propiciou experiências múltiplas que foram vivenciadas em diferentes espaços. O Seminário Integrador ''A Escola Fala" foi um desses espaços marcantes, um momento de culminância no qual as cinco escolas, após os planejamentos efetivados de forma coletiva em cada uma delas, apresentaram os resultados obtidos no Projeto Letramento na Escola. No relato das professoras, pode-se constatar o grande valor dos trabalhos e o compromisso com uma educação pública de melhor qualidade social, que busca desenvolver capacidades reflexivas, aguçar o imaginário da criança e suas emoções. A troca de experiências revelou as atividades efetivadas sob a denominação de Narrativas Literárias. Entre elas registramos: - "Chapeuzinho Vermelho", "Falando com o texto", "Incentivando a oralidade (leitura de imagens)" e "Sacola de Histórias" (Escola EL); Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 195 - "Quem conta um conto, aumenta um ponto (releitura de filmes, jornais e letras de músicas)"; ''Atores Sociais: releitura de filmes, jornais e letras musicais" - reflexão dos alunos; ''A mala do texto" (Escola SV); - "Memórias de Alfabetização"; "Recontando histórias - Hora do reconto" (Escola AM); - "Contando, cantando e declamando a Solerno Moreira"; "O resgate das brincadeiras populares e o processo de construção da leitura e da escrita"; "ECA: o que isso tem a ver com a escrita" (Escola S M); - "Contos e fadas" e "Visagens e Assombrações" (Escola PA). As produções das crianças das cinco escolas foram expostas. Para exemplificar, citamos as realizadas pela Escola PA: Grandes Descobertas, textos com o uso das vogais, entre eles registramos com a letra A, em que as crianças escreviam uma pequena poesia "A tem no amor/ A tem na abelha/ A tem no meu nome - Danilo ", Histórias do dia-a-dia, na qual as crianças desenhavam e escreviam uma história a partir das suas vivências como: ''O parque de Nazaré", ''O dia do Natal", ''O passeio com a família", ''O jogo de bola", ';4 praia", ''Sol e Piscina", "Marituba", 'Meu herói"; Dicionário do Filme ';4 branca de Neve", em que elas criaram um dicionário a partir do filme, escolhendo palavras, imagens que começavam com letras de A-Z e foram atribuindo significado, utilizando para isso o senso comum. Por exemplo, a palavra ABUTRE - gosta de carne podre, igualo urubu; Palavras história e reconto, em que as crianças a partir da estória ''A abelha abelhuda", desenhavam a parte de que mais gostaram e a recontavam com base em seu entendimento; Ilustrando a História, também baseado no livro citado anteriormente, da autora Heliana Barriga, em que os alunos e alunas escolhiam a parte de que mais gostavam da estória e ilustravam dando ou considerando o início, o meio e o fim. Reconto de Visagens e Assombrações, em que ouviam estórias fantásticas, algumas muito divulgadas em Belém. Podemos perceber que todas essas práticas para desenvolver o letramento da forma como foram realizadas, só foi possível porque as professoras se preocupam em construir outros saberes. Para complementar a atividade de letramento, foi montado o Grupo de Contador de Histórias a fim de melhorar a socialização dos alunos. A atividade desenvolveu-se de forma a estimular ainda mais a oralidade, a criação e a criatividade das crianças. Na avaliação externa no ano 2003, as professoras da escola PA afirmaram que precisavam aprender a trazer a comunidade para o interior da escola. Enfrentar essa dificuldade de integração escola-comunidade ajudaria a discutir como reduzir o alto grau de violência dentro e fora da escola. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 196 O problema da violência no entorno e dentro da Escola contribuía muito para que grande número de professoras desejasse se transferir dela. No entanto, elas avaliavam que, ao se transferir, teriam que sair do PROSEI e iriam perder muito, como o contato com as colegas e a forma de aprender, ver e desenvolver a educação disseminada na formação continuada pelo PROSEI. A formação continuada do PROSEI ocorreu com base nos problemas da realidade da comunidade em que as escolas se inserem. A questão central tem sido a violência, o que serve de reflexão e estudo. Na avaliação externa, uma professora enfatizou: "a gente vem pra cá com o coração na mão. O assalto é freqüente nas imediações da escola" (K.J.F.T Escola PA). Durante o período de investigação, nossa atenção esteve voltada para as práticas desenvolvidas na sala de aula: o trabalho com os conteúdos, as estratégias de ensino e o desenvolvimento do processo de aprendizagem de leitura e escrita por parte das crianças, buscando encontrar elementos que configurassem o sucesso dessas aprendizagens, bem como identificar os saberes construídos e reconstruídos pelas professoras em sua prática docente. A análise dos dados mostra que nas escolas SV e SM a ação das professoras apontou para a reconstrução dos saberes aprendidos na formação inicial e que interagem com os saberes adquiridos na experiência docente. Os saberes construídos e reconstruídos na trajetória profissional das professoras Inicialmente destacamos o modo afetivo como as professoras desenvolveram suas práticas na sala de aula, o que permitiu um bom grau de relacionamento com os alunos. As aulas das professoras observadas geralmente se desenvolviam nmn clima de muita afetividade. Isto indica que, para essas professoras, a amorosidade, conforme nos ensinou Freire (1996), constitui um dos saberes que estão sendo reconstruídos nas práticas cotidianas. Esta reconstrução propiciou um resgate da auto-estima dos alunos, possibilitando uma ajuda para aqueles que se encontram com dificuldades no processo ensinoaprendizagem. Tal situação fica evidente num fragmento de entrevista: Fiz um trabalho de resgate da auto-estima dos meus alunos; dei mais segurança a eles evitando avaliações ameaçadoras e comparativas; deixei-os livres e soltos para arriscarem. (NC, Escola SM). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 197 Também foi possível constatar que os saberes se reconstroem quando as professoras passam a trabalhar a partir das situações do cotidiano nas quais as crianças estão inseridas, permitindo que os alunos possam perceber a importância da realidade que os cerca, para o processo de aprendizagem. O fragmento abaixo destaca esta situação: Aprendi a ver o aluno considerando a sua realidade de vida (MC, Escola SM). Assim, a investigação propiciou perceber que a mudança no trabalho pedagógico realizado pelas professoras é fruto de um processo de desenvolvimento que se iniciou com as atividades da vida profissional, foi incentivado pelas atividades da formação continuada propiciadas pelo PROSEI e se maximizou, para algumas, com sua inserção nos cursos de formação de professores em nível superior. As ações de formação continuada do Projeto Letramento na Escola, para algumas professoras, ajudaram a modificar a relação entre os sujeitos e o conhecimento, na medida em que por meio do letramento começaram a buscar significado para os conteúdos numa dimensão globalizadora e interdisciplinar, visando contribuir com uma nova modalidade de avaliação em que todos avaliam e são avaliados. O trabalho escolar que propõe a busca da renovação pedagógica e o rompimento com os processos de ensino tradicionais, baseados na concepção cumulativa e transmissiva de conteúdos escolares, é fruto de saberes reconstruídos na vida profissional das professoras, como pode ser confirmado num fragmento de entrevista: Olha, eu antes dava aula assim [...] mas antes eu dava aula no ba, be, bi; bo, bu. E depois que começou o letramento aí eu comecei a buscar outras metodologias. E eu sempre trabalhei com séries iniciais, de 1ª a 4ª séries e também com alfa. (AC, Escola SV). [...] primeiro não sabia como vencer uma dificuldade. Agora se não sei suprir de uma forma,já faço de outra, com base no que fui modificando com novos conhecimentos. Como uma forma de trabalhar, refletir a questão. a, Escola EC) Na perspectiva de algumas professoras, o PROSEI ajudou a rever os pressupostos de organização escolar, tradicionalmente centralizados no conteúdo e no professor que detém o controle. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 198 De acordo com Pimenta (1999), os saberes dos professores aprendidos durante a formação inicial (saberes das disciplinas e saberes da formação profissional) são reformulados e reconstruídos no dia-a-dia da sala de aula, a partir dos saberes curriculares e da experiência e de outros saberes científicos da formacão continuada e do desenvolvimento profissional A reconstrução do saber das professoras fica evidente tanto na prttica docente observada, como em suas falsas: A educação é um instrumento de formação político-social capaz de integrar diversas culturas ( MC, Escola SM) O educador e aquele que facilita, orienta e estimula a aprendizagem do educando (SL, Escola SM) A educação serve não somente para ler e escrever, mas para ensinar o teu aluno a conhecer o mundo como um todo, a ser um cidadão critico. Acho que aprender a respeitar os outros a ser respeitado (AC, Escola SV) As praticas pedagógicas desenvolvidas refletem os saberes aprendidos na formação continuada Em 2004, a Escola PA elaborou, em conjunto com a comunidade, o Projeto "Moro aqui porque não tenho onde morar", surgido dos anseias de toda a comunidade. Por meio dele, o tema PAZ foi desenvolvido no letramento das crianças do ciclo de formação e do ensino seriado. Outras práticas inovadoras foram estimuladas, como a caminhada denominada de "A Paz é necessária", organizada a partir de idéias das professoras di Escola PA e abraçada pela Coordenação do PROSEI e demais escolas que participam do Projeto Letramento na Escola. A iniciativa foi uma grande oportunidade de congregar a escola comunidade, além de servir de apoio e fonte para produzir o conhecimento, porque revela não só a visão de mundo desses atores sociais, como ajuda os alunos e alunas a compreenderem a realidade partindo do conhecimento do lugar social em que estão inseridas. Contribuiu também para ter a idéia de como elas vivem, por que vivem desse jeito e não de outro, com quem vivem, conhecendo as suas experiências, os desejos que alimentam, quais os dramas que vivem e vida e morte e que esperanças as animam com o fim de construírem, as trajetória de vidas individual e coletiva. A Escola em questão desenvolveu, também, o Projeto de Ensino "Criando uma sala de aula pacífica" a partir de sugestões da professora formadora que trouxe a idéia para ser discutida e planejada de forma coletiva Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 199 com as professoras, visando trabalhar a teoria e a prática de forma simultânea. O trabalho, no primeiro momento, constou de dinâmica para que o aluno pudesse visualizar o contexto da classe. Depois, foi socializada sua experiência com os colegas, com base nas questões abaixo: 1. Como seria o mundo em que as pessoas não se magoassem, não ofendessem umas às outras, que houvesse respeito e uns compreendessem os outros como eles são? 2. Onde e quando podemos começar a construir esse mundo? 3. Vocês acham que podem contribuir com essa construção? Depois foi perguntado aos alunos e alunas: 1. O que vocês entendem por "assumir responsabilidades? 2. Como você gostaria que fosse o ambiente de sua sala de aula? 3. Como você gostaria de ser tratado? 4. Como você pensa que deve tratar seus colegas? Os professores anotaram as respostas dos alunos. Todas essas questões foram trabalhadas com a finalidade de diminuir a violência no interior da escola por parte dos alunos. Após o debate e registro das vozes dos discentes foi elaborada uma lista em forma de cartaz com o título "Uma sala de aula pacífica é aquela na qual..." O trabalho vivido nas classes resultou na troca de experiências por meio dos relatos das professoras de como desenvolveram a atividade no espaço da sala de aula e seus resultados. A relevância da formação continuada é visível quando se analisa o processo e pode ser constatada no registro do seguinte depoimento de uma das professoras: Meu Deus, como a gente pecou ao fazer a avaliação antecipada do aluno. Meu Deus, como eu errei. Ninguém faz nada bem se não acredita no que faz. A escola é abençoada por ter me projeto. (Escola PA). As falas são reveladoras ao traduzirem a necessidade de formação continuada e demonstram que a formação proposta pelo PROSEI atingiu seus objetivos, quando as professoras afirmam que adquiriram segurança, responsabilidade e compromisso; também por trabalhar, ainda, o lado emocional a proposta dá a chance de fazer o resgate pessoal. Sabe-se que o aspecto pessoal influi na dimensão profissional e quando estamos juntos com o outro há condições de superar as adversidades. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 200 Ficou evidente nas observações realizadas que as professoras desenvolvem suas práticas em sala de aula de forma a relacionar os saberes já interiorizados com os aprendidos por ocasião das ações formativas do PROSEI. Assim, na sala de aula, o trabalho das professoras caracterizou-se por uma postura que incluía a utilização de atividades previamente planejadas, como também de atividades criadas a partir da reação das crianças às atividades apresentadas anteriormente. Essa postura, que revela sensibilidade, reflexão e autonomia, pode ser confirmada nos fragmentos de algumas entrevistas: A formação continuada abriu novos horizontes para mim. Pude assumir uma disposição para uma ação educativa para além da educação bancária (NC, Escola SM). A experiência no letramento fez com que trouxéssemos para a sala de aula a concepção de leitura enquanto um processo historicamente determinante, que congrega e expressa os anseios dos educandos (NC, Escola SM). Eu me sentia muito tradicional, não conseguia me envolver com as crianças como eu faço hoje. A partir do PROSEI, me ajudou muito, porque a gente faz aquelas dinâmicas, até brincar e ser criança como eles. Eu tinha essa dificuldade (VS, Escola SV). [...] agora, penso melhor sobre o comportamento dos meus. Já faço outra idéia dessa maneira de ser das crianças. A minha postura é outra. Passei a inovar (G. Escola EC). As mudanças no modo como as professoras se viam antes e depois de participar das atividades da formação continuada revelam que seus saberes também foram alterados. Os fragmentos das entrevistas confirmam essas mudanças: Eu me via como uma professora tradicional e sem perspectiva de mudança. Hoje, ainda me sinto um pouco tradicional, porém tentando novos horizontes, estudando e buscando sempre o melhor para meu aluno. (SL, Escola SM). Com o PROSEI, passei a ter novas posturas, ações e até novas concepções. Hoje, vejo-me com outros saberes, com novas visões para com a minha prática. (NR, Escola SM). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 201 Eu procuro, investigo, procuro trazer novidades para eles estarem informados e assim avançarem. Você não imagina o quanto eu fico feliz de encontrá-los. Eles já concluindo, e não terem se perdido. Professora, tá difícil, eu estímulo, e falo que vai conseguir. Você não imagina o quanto isso é gratificante. São coisas que eu observo. É... claro, que todos nós professores, temos essas experiências para contar. (VS, Escola SV). [...] esses conhecimentos eu entendia de um jeito. Agora faço diferente. Isso aparece no meu modo de agir e até novas formas de pensar. (G, Escola EC). Segundo Saviani (1991, p. 14), "o trabalho educativo é o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens". O que podemos inferir com base na leitura dos fragmentos das entrevistas e da ação observada no trabalho de sala de aula é que as professoras revelam que modificaram seu trabalho educativo a partir do momento em que começaram a compreender o ato de ensinar como algo mais do que a utilização de saberes. Vimos o lado humano falando mais alto, num entrelaçamento com os saberes aprendidos na formação. Consideramos que o comprometimento deve ser condição necessária para que qualquer programa ou projeto de formação tenha sucesso; afinal, é a mudança de postura e de concepção teórica que pressupõem um querer, um envolvimento, que se constrói não só a partir do confronto com novas idéias, mas fundamentalmente pela necessidade pessoal que cria no coletivo da escola. Na investigação, percebemos a aceitação a ação das professoras ao desenvolverem seus trabalhos pedagógicos, conduzidos pelos saberes aprendidos a partir da formação propiciada pelo PROSEI. A que desafios do século XXI respondem os saberes docentes construídos? Morin (2002), em seu livro "Os sete saberes necessários à educação do futuro", observa que o século XXI necessita de um conjunto de saberes indispensáveis "que a educação do futuro deveria tratar em toda sociedade e em toda cultura, sem exclusividade nem rejeição" (p. 13). O autor destaca que "a educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana" (p. 47). Para tanto, é necessário o resgate do individuo, de sua identidade e de seus valores. Sobre este aspecto, as observações realizadas e as entrevistas com as professoras revelam que elas aprenderam a reconstruir o seu fazer cotidiano incluindo o respeito pelo educando, possibilitando seu reconhecimento como Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 202 ser humano portador de uma identidade que merece ser considerada. É o saberser se revelando no modo como agora procedem em suas salas de aula: A afetividade é fundamental para obtermos uma relação de confiança, de cumplicidade, pois o aluno é um ser em processo de formação e não um depósito. (MC, Escola SM) Eu tinha uma postura muito rígida em sala de aula. Hoje, eu sou amiga de meus alunos, pois aprendi que a afetividade é necessária no processo ensino-aprendizagem. (SL, Escola SM). Cada criança é uma criança, e são de famílias diferentes, há aquelas que têm o apoio da família em casa, têm aquelas crianças que chegam na escola e tem costumes que nos temos que estar orientando para que não façam aquilo, que vivem só na rua.; a gente não ensina só para elas saberem alguma coisa...Para eles viverem. (CP, Escola SV). [...] então aos poucos fui aprendendo a lidar com elas. A conhecer cada uma delas, a diferenciá-las, porque cada criança é diferente uma das outras. Umas são levadas, outras mais comportadas[...]. (S, Escola EC). O saber-fazer, que para Morin (2002) se traduz num conhecimento "capaz de aprender os objetos em seu contexto, sua complexidade, seu conjunto" (p.14), se manifesta com mais intensidade nas professoras das escolas SM e SV São elas que revelam: Tenho um grau mais detalhado de análise da escrita do aluno e do seu desenvolvimento cognitivo e afetivo, bem como adquiri mais segurança na prática cotidiana. (MC, Escola SM). Agora tenho mais segurança para construir e utilizar textos poéticos e realizar dramatizações. (NC, Escola SM). Agora entendo que o letramento vai além da leitura do livro, seria a interpretação, a criança ler, escreve e entende. (CP, Escola SV). Olha, eu acredito que ainda tenho muito que aprender, procurar livros, ler. Porque a minha prática ainda não está assim... tem coisa que eu leio e não consigo aplicar em sala de aula, e eu sei que preciso melhorar muito. (CP, Escola SV). Acreditamos que é necessário o entendimento de que o professor é um profissional influenciado por saberes de concepções de educação, pois sua função principal é educar crianças, adolescentes e adultos. O saber profissional do professor em função de sua atividade profissional necessita mobilizar teorias de diversos campos do conhecimento. Sendo assim, ressaltamos que o saber Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 203 dos professores não é restrito a um saber especifico, mas constituído por saberes que envolvem o saber ser e o saber fazer. As situações observadas na fala das professoras contribuem para o entendimento de que os saberes adquiridos no processo de formação continuada se manifestam no seu cotidiano de trabalho. É por esta razão que Tardif, Lessard e Lahaye (1991) os definem como os saberes necessários para ensinar. Constatamos que há boas possibilidades de que os saberes construídos pelas professoras das escolas em estudo e disponibilizados no trabalho cotidiano com as crianças em processo de aquisição de leitura e escrita possam contribuir para vencer os desafios do século XXI, no qual a informação aparece como a principal arma dos meios de comunicação para impingir os modismos de um mundo globalizado. Considerações finais As reflexões e análises apresentadas conduzem a algumas considerações finais. As professoras destacam a importância da presença de um formador nos encontros coletivos de formação continuada, seja na própria escola ou no NPI, e ressaltam que todas as atividades vivenciadas nos diversos espaços de formação foram relevantes para construir e reconstruir culturas e saberes. As professoras, em conjunto, buscaram construir saberes para tornar concreta e contextualizada a sua prática docente visando melhorá-la cada vez mais. Constatamos que, no processo de formação continuada, as professoras evidenciaram interesses, expectativas, atitudes, representações sociais, crenças, valores, influências e a cultura em que foram formadas. Elas vão reconstruindo de forma coletiva as competências necessárias que são acionadas, quando precisam articular o saber, o saber-fazer e o saber-ser que se pautam em conhecimentos de diversos campos do saber e das experiências vivenciadas para resolver problemas singulares vividos no contexto profissional. O saber-fazer, que evidencia competência importante, relaciona-se com a condução da prática docente desenvolvida no espaço escolar, utilizando-se de esquemas práticos que servem de formas de atividades de ensino que têm ligação com um determinado conteúdo. Portanto, a formação continuada do PROSEI, da forma como foi desenvolvida, tem ajudado a formar pequenos leitores em vários gêneros textuais a partir de suas próprias histórias de vida e de seus pares, e se constitui em conteúdo concreto de trabalho. Pelas diversas atividades construídas no espaço de formação e vividas pelas docentes e alunos no espaço da sala de aula, percebemos que a função formativa está presente para formar tanto os professores quanto os alunos. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 204 Reafirmamos que a função formativa possibilita a construção da cidadania ativa, critica e responsável desses sujeitos históricos, portanto, responde a alguns desafios do século XXI, uma vez que o letramento desenvolvido pelas professoras em suas classes ao trabalhar com o tema, com o texto, evidência a preocupação em desenvolver a consciência critica que vai se estruturando como linguagem pelos signos. Vai além, porque a prática pedagógica, por ser intencional e sistematizada, ou trabalha com o código e com o sentido produzido pelo texto, ou se permite produzir no contexto do trabalho pedagógico com os alunos, ao se articular com o real vivido, quando trabalha com conteúdos específicos do código, como relação oralidade-escrita, reconhecimento das letras, relações letras-fonemas, acentuação, pontuação, sinal de parágrafo, segmentação da escrita e outros. A experiência adquirida ao longo dos anos da prática docente contribui para aflorar os saberes mobilizados no dia-a-dia das professoras. Essa experiência permite a construção de saberes necessários para a prática e que precisam ser dados a conhecer para que possam constituir-se como requisitos para a profissionalização docente. As atitudes das professoras sujeitos do estudo desenvolvido nas escolas asseguram que elas: a) estão conscientes do papel do professor para a aprendizagem de seus alunos; b) dão importância relevante à experiência que possuem e que estão adquirindo nas ações de formação continuada, o que revela a necessidade da reconstrução dos saberes pedagógicos, a partir da prática social de ensino, para superar a tradicional fragmentação dos saberes da docência; c) estão cientes de que o saber da experiência se origina de sua prática cotidiana. Investigar o trabalho pedagógico das professoras das escolas analisadas, ou seja, conversar com elas e saber por suas falas que o compromisso com a educação e com o aprendizado dos alunos aumentou de forma significativa, a partir das ações de formação continuada desenvolvidas pelo PROSEI, levounos a refletir sobre a importância da formação no desenvolvimento profissional do professor. A investigação constituiu-se num aprendizado que proporcionou constatar que os saberes docentes construídos pelas professoras em suas práticas respondem aos desafios impostos pelo século XXI; que as práticas e os saberes das professoras são reconstruídos a partir da experiência que vão adquirindo e das ações que são proporcionadas nos períodos de formação continuada; que a formação humana que alicerçam no seu "eu" e no de seus Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 SABERES DOCENTES: RECONSTRUÇÃO DO SABER-SER E DO SABER-FAZER DOS(AS) PROFESSORES (AS) DAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL DE BELÉM 205 alunos está voltada para o resgate da afetividade, da amorosidade, como instrumento que pode contribuir para a formação de um novo cidadão disposto a contribuir para a reconstrução da sociedade em que vive. Reafirmamos que foi possível perceber em suas práticas a vontade, o desejo de contribuir para o sucesso da aprendizagem de seus alunos na leitura e escrita, algo que acreditamos terem conseguido cada uma a seu modo. Com esta investigação, percebemos que o PROSEI contribuiu de maneira decisiva para a busca de fundamentação teórica e para a aceitação da necessária mudança no encaminhamento do processo de leitura e escrita nas escolas, principalmente quando as professoras enfatizam os conhecimentos teóricos que foram aprendidos e reelaborados com o PROSEI. Entendemos que o principal ganho para as professoras foi compreender que é possível a mudança na prática pedagógica, na concepção de educação, no modo de ensinar e de aprender, e na condução do processo pedagógico sem deixarem de estar atentas às necessidades e interesses dos alunos. É importante ressaltar que as modificações nas práticas pedagógicas das professoras podem ser consideradas relevantes, não apenas como um projeto de formação continuada, mas, sobretudo, no contexto dos espaços de sala de aula. Aprendemos com essa experiência que no processo de formação coletiva é imprescindível a colaboração mútua entre todos os envolvidos, sem desconsiderar as necessidades e interesses dos professores, pois é por meio dessas decisões que será possível construir uma proposta autêntica que considere, além do conhecimento teórico, as dificuldades da prática pedagógica, sem se descuidar da realidade das escolas e do contexto social. Acreditamos que o educador do século XXI, na concepção atual, não pode prescindir de uma análise criteriosa da realidade, entendendo as nuanças presentes na relação professor-aluno. Mesmo porque o meio social e físico é fonte e destino de conhecimento, e construído através da atividade do sujeito em trocas dinâmicas e contínuas com os envolvidos nesse contexto e com a realidade em que se encontram inseridos. Percebemos, então, que, ao construírem uma práxis reflexiva, poderão ser capazes de estimular processo de formação profissional que favoreça uma prática pedagógica cada vez mais consciente, competente e crítica, voltada para a realidade social. Ainda que a ênfase no cotidiano escolar se apresente, a princípio, individual, amplia-se posteriormente para o coletivo, viabilizando o recriar e a contextualização da prática pedagógica sem, esquecer da realidade e do processo de politização docente. Reafirmamos que, mesmo que as práticas pedagógicas aqui reveladas não possam ser generalizadas, acreditamos ser possível envidar esforços para que Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 Albêne Lis Monteiro / Ana Kelly Martins / Emmanuel Ribeiro da Cunha Nilda de Oliveira Bentes / Tânia Regina Lobato dos Santos 206 elas materializem se de maneira mais ampla, pois, como aponta Hadji (2001), entendemos que isto, acima de tudo, é uma esperança legítima. A pesquisa foi polifônica, porque reproduziu as vozes de 5 (cinco) escolas. Cada um dos membros do grupo-pesquisador trouxe as vozes de suas escolas. São conceitos, idéias que, por serem polifônicos, são interpretações abertas, jamais claramente definidas, sempre em processo de finalização. Essas vozes que ressoam nos diálogos, seja dos formadores do PROSEI, seja dos sujeitos da pesquisa e pesquisadores, são resultado de incorporações de vivências culturais e sociais que se passaram intersubjetivamente em outros tempos sócio-históricos nas relações com o outro. Referências bibliográficas BORGES, Cecilia; TARDIF, Maurice (Org.). Dossiê: Os saberes dos docentes e sua formação. In: Revista Educação & Sociedade. Campinas: CEDES. n. 74, mar./abr. 2001. _______. O professor da educação básica e seus saberes profissionais. led. Araraquara: JM Editora, 2004. CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Trad. Bruno Magne. Porto Alegre: Artmed Editora, 2000. CHARLIER, Évelyne. Formar professores profissionais para uma formação contínua articulada à prática. In: PASQUAY; Léopold et all Formando professores profissionais: quais estratégias? Quais competências? 2. ed. rev. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001. FREIRE, Paulo. 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(Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 185-207, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA. Rosangela da Silva ALMEIDA1 João Gomes TAVARES NETO2 Resumo: O estudo apresenta a Educação Especial como parte do sistema educacional regular, inserida nas ações da Secretaria Executiva de Educação - SEDUC, no estado do Pará. A pesquisa enfoca a trajetória histórica da educação especial em três períodos: 1) As Primeiras Iniciativas da Educação Especial, culminando com a criação do Centro de Educação Especial- CEDESP, de 1953 a 1972; 2) A Estruturação e Organização do CEDESP, em seus aspectos físicos e políticos e a transformação deste em Departamento de Educação Especial- DEES, de 1972 a 1989; e 3) A Educação Especial e o Processo de Construção de uma Escola Inclusiva, de 1990 a 2006. A análise dos dados revela a mudança na concepção de atendimento: o assistencialismo e o paternalismo presentes nas ações iniciais, sua superação progressiva e a emergência de uma concepção que privilegia a pessoa e valoriza as diferenças, lançando fundamentos para a criação de uma escola inclusiva no Pará. Palavra-Chave: Educação Especial Educação Inclusiva. Trajetória Histórica da Educação Especial no Pará. THE SPECIAL EDUCATION IN THE STATE OF PARÁ AND THE PERSPECTIVES OF INCLUSION: ANALYSIS OF A HISTORICAL COURSE Abstract: The study presents the special education as a part of the regular educational system, inserted in the actions of the State Board of Education- SEDUC, in the state of Pará. The research focuses the historical course of the special education in three periods : 1) The first initiatives in special education, culminating in the creation of the special education center - CEDESP, from 1953 to 1972; 2) The structuration and organization of CEDESP, in it's physical and political aspects and it's transformation to Department of Special Education - DEES, from 1972 to 1989; and 3) The Special Education and the process of construction of an including school, from 1990 to 2006. The data analysis reveals the change in the conception of attendance: The Psicóloga, Técnica do Laboratório de Pesquisa em Educação Especial- LAPES da Coordenação de Educação Especial, Pará. Doutora em Psicologia Social. E-mail: [email protected]. 2 Sociólogo, Técnico do Laboratório de Pesquisa em Educação Especial da Coordenação de Educação Especial, Pará. Mestre em Educação - Política Públicas. E-mail: [email protected]. 1 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 210 assistencialism and the fatherly behavior present in the initial actions, it's progressive overcome and emergence of a conception that privileges the person and values the differences, casting groundings for the creation of an including school in Pará. Key words: Special Education. Including Education. Historical Course of the Special Education in Pará. Introdução A Educação Especial como parte constitutiva do sistema educacional não vem recebendo a devida atenção das esferas governamentais, mesmo com a existência de uma considerável estrutura legal, e de uma política nacional definida para esta modalidade de ensino, o atendimento à população de pessoas com algum tipo de necessidade educacional especial ainda é considerado insuficiente. Segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS 10% da população mundial apresenta algum tipo de deficiência e um pouco mais de 1% desse contingente tem acesso a algum tipo de atendimento especializado. Os dados do censo de 2000 (IBGE, 2003) indicam que cerca de 25 milhões de brasileiros (aproximadamente 15% da população) têm algum tipo de deficiência. O aumento do número de pessoas deficientes, em grande medida tem sido desencadeada pelo aumento da pauperização da população, pela insuficiência de políticas sociais voltadas para a prevenção, vigilância, identificação e tratamento precoce; e pelo recrudescimento de eventos externos como violência generalizada e acidentes de trabalho. Tomando por base os dados do censo 2000, mesmo com os serviços educacionais existentes, ainda não é possível contemplar a todos que necessitam dessa modalidade de ensmo. A inconsistência da política educacional tem acentuado discrepâncias e descompassos, entre a necessidade de educação para todos e um ensino de qualidade; e entre a educação regular e a educação especial principalmente no que se refere ao distanciamento entre teoria e prática e entre a retórica política e a realidade (BUENO, 1997). Neste estudo, a educação especial será enfocada ao longo de sua trajetória histórica no intervalo de tempo compreendido entre 1953 a 2006, enquanto integrante do ensino regular, executada pela Secretaria Executiva de Estado de Educação do Pará - SEDUC. Tomando como principal referência os documentos oficiais produzidos no período enfocado, é desenvolvida uma análise a partir de sua contextualização no panorama da educação brasileira e estadual. A reconstrução histórica da Educação Especial Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 211 possibilita a percepção das mudanças ocorridas ao longo da execução de suas ações e do desenvolvimento de seus programas educacionais. O estudo da Educação Especial é apresentado em três períodos históricos como forma de facilitar a identificação dos diferentes momentos vividos. O primeiro período enfoca os anos 1953 a 1972, considerado como marco histórico das primeiras iniciativas à criação do Centro de Educação Especial- CEDESP. O segundo período caracteriza a estruturação e organização do CEDESP enquanto estrutura física e política, indo até 1989, com a sua transformação em Departamento de Educação Especial- DEES, subordinado à Diretoria de Ensino da Secretaria Executiva de Estado de Educação - SEDUC. O terceiro período apresenta a Educação Especial a partir dos anos 90 e enfatiza a busca de um paradigma de escola inclusiva ocorrida a partir da segunda metade da década de 90 até nossos dias. I - Primeiras Iniciativas da Educação Especial - 1953 a 1972 No Estado do Pará, as primeiras iniciativas na área da Educação Especial ocorreram na década de 50, através da seleção de docentes da rede pública estadual e municipal, para participarem de dois cursos de especialização: a) "Curso de Professores e Inspetor na Educação de Cegos", realizado no Instituto Benjamim Constant e b) "Orientação Psicopedagógica em Deficiência Mental" realizado na Sociedade Pestalozzi do Brasil, ambos no Estado da Guanabara (Rio de Janeiro), sendo encaminhadas três professoras, duas para o curso de cegos e uma para o de deficiência mental. Com o retorno dessas profissionais deu-se início a Educação Especial em Belém. A Escola de Cegos no Pará Em 1953, o Governador do Estado, General Alexandre Zacarias de Assunção, criou a Escola de Cegos do Pará, através do Decreto-Lei N°. 1300 de 07/12/1953, com o objetivo de oferecer às pessoas com deficiência visual escolaridade de nível primário hoje, Ensino Fundamental (PARÁ, 1997, p. 11). A escola passou a ter funcionamento consolidado a partir de 1955, mas, ainda, em precárias condições estruturais. De acordo com os dados, em Belém, naquela época, havia por parte das autoridades educacionais, descrédito quanto a possibilidade das pessoas deficientes visuais apresentarem progressos na escolaridade e desenvolverem suas atividades autonomamente. Dessa forma, as professoras empenharam-se no sentido de propiciar a escolarização aos alunos e comprovar que eles aprendiam, como qualquer criança de sua idade. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 212 Em 31 de outubro de 1956, de acordo com a Lei N°. 1400, assinada pelo Governador do Estado Luís Geolás de Moura Carvalho, a Escola de Cegos passa a chamar-se de Escola José Álvares de Azevedo, homenageando o primeiro cego brasileiro, que foi estudar Braille na França (PARÁ, 1997, p. 11). A Lei de N°. 4024 de 20/12/1961, ao fixar as Diretrizes e Bases da Educação Nacional determinou em seu artigo 88 que a educação do excepcional deve, no que for possível enquadrar-se no sistema geral da educação, a fim de integrá-los na comunidade. Ficou estabelecido e definido o principal fundamento para a organização de serviços de educação especial: a integração do excepcional no sistema regular de ensino para facilitar sua integração à sociedade. Em 1963, atendendo as diretrizes da LDB /1961 foi iniciado o processo de integração de alunos deficientes visuais em classes regulares de ensino (PARÁ, 1997, p. 12 -13). O Governador Jarbas Passarinho, em 15 de dezembro de 1965, através da Lei N°. 3583, transformou as "escolas de cego e surdo-mudos" em Institutos, vinculando-as à Secretaria de Estado de Educação, através desse ato passaram a chamar-se de Instituto José Álvares de Azevedo e Instituto Professor Astério de Campos. A partir de então obtiveram expressiva atuação junto às pessoas deficientes, contribuindo para a integração destes numa vida normal através dos serviços educacionais e de reabilitação, atendendo a uma clientela com faixa etária variada (PARÁ, 1997, p. 13). A década de 60 foi proveitosa quanto à ação do governo do estado no sentido de prover formação e treinamento de pessoal, concedendo bolsas de estudo para a especialização de docentes e técnicos em sucessivos cursos nas diferentes unidades da federação. Incentivou a integração da pessoa deficiente visual na rede regular de ensino, provocando mudanças na filosofia de trabalho, possibilitando aos discentes escolarização e aquisição de material e equipamentos especializados. O apoio financeiro conseguido junto à Campanha Nacional de Educação de Cegos e do Instituto Benjamim Constant permitiu a adequação das instalações físicas da Escola José Alvares de Azevedo. Dada a expansão do trabalho na educação especial, em Belém, foi necessária a tomada de decisões institucionais concernentes ao corpo docente empenhado em sua execução. Neste sentido, foi realizada a estruturação do Magistério Especializado e, os provimentos de cargos de funcionários públicos, com remuneração posicionada de acordo com a qualificação dos diferentes técnicos do campo especializado. Dessa forma em 05 de fevereiro de 1968, a Educação Especial foi enquadrada no Sistema Estadual de Educação, através da Lei N. 4093, em seus artigos 113 a 119 do título X (PARÁ, 1997, p. 14). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 213 Com o aumento da oferta de profissionais especializados em deficiência visual, oi possível a composição de equipes de docentes e técnicos para o assessoramento o educando nos programas existentes, o que redimensionou a ação educacional nesse instituto. Escola de Surdos no Pará Em março de 1959, foi enviado um grupo de quatro professoras para o Rio de Janeiro, pelo então Governador do Estado o General Joaquim de Magalhães Barata, para cursar Especialização em Educação para surdos-mudos (sendo que três professoras não retomaram a Belém, no final do curso). Com o retorno de uma das professoras à Belém, iniciou-se o atendimento especializado de alunos surdos resultante da iniciativa pessoal da professora, que associada à Campanha para a Educação de Surdos - CESB encaminhou um convênio entre a CESB e a SEDUC. A criação da Escola de Surdos do Pará deu-se pelo Decreto N°. 3174/59 assinado pelo Governador Luís Geolás de Moura Carvalho e pelo Secretário de Educação Waldemar Alves Santana (PARÁ, 1997, p. 13). O nome dado à escola ''Professor Astério de Campos" foi uma homenagem ao professor do Instituto Nacional de Educação dos Surdos, um baiano que muito se destacou na educação de surdos no país. Em 17 de maio de 1961, a Escola de Surdos foi inaugurada no governo de Aurélio do Carmo, passando a funcionar em duas salas no Grupo Escolar Serra Freire (anexo ao Instituto de Educação do Pará), em virtude da ausência de instalação própria. Em 15 de dezembro de 1965, pela Lei N°. 3538, sancionada pelo Governador do Estado (o Tenente Coronel Jarbas Gonçalves Passarinho), a Escola de Surdos Prof. Astério de Campos foi transformada em Instituto vinculado à SEDUC (PARÁ, 1997, p. 13). As primeiras iniciativas educacionais em relação aos alunos surdos foram desencadeadas tendo por base a orientação do desenvolvimento da linguagem oral, sendo esta uma diretriz que teve predominância na época. Em 1967, foi inaugurada a sede própria do Instituto situada à Avenida Almirante Barroso, n°. 200. Nesse ano foram encaminhados docentes para a capacitação profissional - Curso de Especialização na área de Deficiência Auditiva no Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES, no Rio de Janeiro. Posteriormente esses profissionais passaram a exercer atividades em classes especiais e introduziram as primeiras iniciativas na área de profissionalização dessa clientela. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 214 No ano de 1968, (26/08/68), foi inaugurado o Setor Auditivo, para a complementação do atendimento às pessoas surdas. Essa iniciativa passou a favorecer o atendimento da clientela quanto a detecção do grau de acuidade auditiva, propiciando uma programação mais adequada. A Educação Para os Deficientes Mentais Em 1953, uma professora cursou a especialização "Orientação Psicopedagógica em Deficiência Mental", na Sociedade Pestalozzi do Brasil, no estado da Guanabara (hoje, Rio de Janeiro). Em seu retorno a Belém (1954), desenvolveu suas atividades profissionais no Hospital Juliano Moreira. Ainda no ano de 1954, esta professora em contato com a presidente da Sociedade Paraense de Educação, professora Hilda Vieira, foi convidada a iniciar o atendimento aos deficientes mentais. As ações iniciais de planejamento e sistematização das atividades contaram com o apoio incondicional da referida sociedade. Foi realizado treinamento a uma equipe reduzida, composta por dois médicos, um enfermeiro, três professoras e uma mãe de aluno. Também foram contratadas duas professoras, do Rio de Janeiro, com a finalidade de ministrar o curso de capacitação: "Orientação Psicopedagógica em Deficiência Mental" para as primeiras docentes de Belém. O Curso Pestalozzi do Pará funcionou em regime de classes especiais, fornecendo educação elementar para crianças de 5 a 14 anos. Posteriormente, este curso foi reestruturado em sua forma jurídica, passando ao regime de fundação - FUNDAÇÃO PESTALOZZI DO PARÁ. Dessa forma, desliga-se da Sociedade Paraense de Educação tornando-se autônoma. Nessa nova estrutura, a escola criada para o atendimento dos deficientes mentais, que funcionou sob o nome Curso Pestalozzi do Pará foi mantida, e em 1960, recebeu o nome de Escola Lourenço Filho, em homenagem ao pedagogo Manoel B. Lourenço Filho, iniciador da Escola Ativa no Brasil. A estruturação da Escola passou a dar maior respaldo e credibilidade à instituição no contexto de Belém, embora com dificuldades financeira, manteve sua programação educacional, cujo objetivo era atender às pessoas com deficiência mental. Portanto, verifica-se que as iniciativas tomadas são no sentido de instituir atendimento educacional à clientela. Em 1969, a Escola Lourenço Filho obteve seu registo legalizando assim, o seu funcionamento. Sua legalização possibilitou o estabelecimento de convênio com a SEDUC. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 215 O convênio garantiu investimentos na melhoria de suas instalações físicas e a aquisição de maquinário elétrico para o funcionamento de oficinas pedagógicas, o que contribuiu significativamente para o desenvolvimento dos trabalhos. Esta reestruturação possibilitou triplicar o número de matrícula até o final da década de 60, atendendo a uma demanda reprimida nos anos anteriores, devido à falta de recursos financeiros. A Assessoria de Educação Especial Em 10 de janeiro de 1968, foi criado, pela Lei N°. 4048 o cargo de Assessor de Educação de Excepcionais, tendo por atribuição coordenar as atividades administrativas e técnicas dos serviços de Educação Especial no Estado do Pará (PARÁ, 1997, p. 14). Em virtude dessa estruturação foi elaborado um projeto para implantação de Classes Especiais junto à Secretaria de Estado de Educação. O então Governador Alacid da Silva Nunes, pela Lei N°. 4093 de 05/02/1968, criou as Classes AE (Atrasados Especiais), tendo por finalidade o atendimento de crianças com bi e tri-repetências, dificuldades de compreensão, atenção dispersa e dificuldades de aprendizagem. (PARÁ, 1997, p. 14) O atendimento a essa clientela buscou minimizar as dificuldades educacionais encontradas por esses alunos no ensino regular. Nesse contexto as classes especiais foram oferecidas como "lugares de passagens" (MACHADO E COLABORADORES, 1997) na escola, ou seja, visavam auxiliar ao aluno no sentido de minimizar suas dificuldades, facilitando o seu retorno à Educação Regular. Entretanto não foi o que ocorreu, ao longo de sua evolução, elas passaram a ser "depósito" de alunos encaminhados do ensino regular, com diferentes queixas, tendo a dificuldade de aprendizagem como eixo destas. No ano de 1971, o Secretário de Educação, Fernando José de Leão Guilhon, estruturou a Assessoria de Educação dos Excepcionais, garantindo a organização do Serviço de Educação nas áreas de Deficiência Mental, Visual e Auditiva. Em cumprimento ao Decreto n. 7394/70, essas áreas responsabilizaramse pelo planejamento, orientação, controle e avaliação das atividades pertinentes à Educação Especial, com abrangência nos institutos - Instituto Jose Álvares de Azevedo e Instituto Astério de Campos, nas classes especiais sediadas na rede Regu1aI de Ensino da capital e na entidade conveniada Escola Lourenço Filho, da Fundação Pestalozzi do Pará (PARÁ, 1997). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 216 A Assessoria de Educação Especial, em 1971, realizou avaliação dos serviços oferecidos à população. A analise desse processo constatou a existência de estrangulamentos (PARÁ, 1978, p. 6-7) e condicionando a melhoria do trabalho e a prestação eficaz dos serviços à resolução dos seguintes problemas: a)dificuldade de ordem estrutural e operacional face à posição inadequada do órgão oficial na estrutura da Secretaria de Educação; b) planejamento não integrado ao sistema geral de educação; c) estrangulamento nas estruturas físicas dos Institutos especializados; d) centralização de serviços nas instituições; e) disparidade no nível qualitativo do trabalho de uma área de especialização para a outra;j) indefinição orçamentária para a execução dos programas; g) duplicidade de serviços com o mesmo fim; h) carência de recursos humanos; i) inexistência de equipamentos especializados; J) realização de programas estanques; k) impossibilidade de expansão do atendimento ao interior do estado; l) ineficácia do atendimento com alta custo operacional e reduzidos resultados. Tais aspectos constituíram os indicadores para a necessária organização do programa de ação do governo na educação especial Neste sentido, a ação prioritária desencadeada pelo Governador do Estado, José de Leão Guilhon, foi a criação, através da Lei N°. 4398, de 14/07/1972, do Centro de Educação Especial do Pará-CEDESP (PARÁ, 1997, p. 16). II - CEDESP: Estruturação e Organização da Educação Especial de 1972 A 1989 Nos anos 70, o CEDESP, iniciou seu processo de estruturação e organização enquanto órgão gerenciador da política de Educação Especial desenvolvido no Estado do Pará. A criação do CEDESP propiciou aos Institutos José Álvares de Azevedo e Astério de Campos, em 1972, transformarem-se em Unidades Técnicas, oferecendo à sua clientela programação flexível e dinâmica, planejada de acordo com as necessidades de cada um, de modo a favorecer a integração das pessoas deficientes visuais e auditivos na sociedade. Em 1973, a direção do CEDESP deu inicio ao Processo de Interiorização da Educação Especial através de Unidades Pólo de interiorização localizadas nas Divisões Regionais de educação e nas escolas sede. O primeiro município paraense a receber Educação Especial foi Castanhal, em 1973. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 217 Concomitante a esta expansão quantitativa, o CEDESP investiu na qualificação do Serviço de triagem, avaliação e Diagnóstico, instância responsável por avaliar e encaminhar a clientela ao atendimento clínico e pedagógico especializado. Neste sentido, a educação especial consolida o atendimento inicial a partir da atuação de equipes multiprofissionais constituídas por pedagogos, psicólogos, assistentes sociais e médicos. A SEDUC, por meio do CEDESP, mobilizou recursos federais desde 1975, para implantar e implementar ações fundamentais para o desenvolvimento da educação especial no Pará. Entre essas ações, destaca-se a implantação de programa de atendimento à criança superdotada. No ano seguinte, desenvolveu um programa de capacitação de recursos humanos, através da oferta de cursos de extensão universitária em cooperação com as Instituições de Ensino Superior, sob o enfoque da educação especial nas especialidades de deficiência auditiva, deficiência visual e deficiência mental. Realizou cursos de atualização em educação especial para docentes do primeiro grau que atuavam em classes comuns. Outra ação importante para o desenvolvimento da política de educação especial em Belém foi a criação da Unidade Técnica Yolanda Martins e Silva, em 09 de março de 1979, com o atendimento voltado ao treinamento profissional de alunos com deficiência mental. No âmbito nacional os anos oitenta apontaram para uma certa valorização do esforço escolar como possibilidade de assegurar aos educandos o acesso ao conhecimento e à melhoria do ensino público. Sendo estes vinculados à luta pela democratização das decisões na educação, defendidos pelas entidades de classe (Sindicatos e Associações de Professores e profissionais da Educação), segundo Santos (1998). Essas ações contribuíram para os avanços na gestão da escola através da eleição de diretores e da implantação dos Conselhos Escolares. Se por um lado propiciou esses avanços, por outro, ainda não conseguiu superar a baixa participação apresentou restrita participação de pais, alunos e comunidade nesse processo (SANTOS, 1998). Ainda como cenário dos anos 80, as medidas assistencialistas e caritativas passaram a ser questionadas em alguns segmentos da sociedade. Assim, o deficiente passou a ser visto como pessoa com potencialidades e possibilidades que necessitam ser desenvolvidas de forma integrada com os demais no contexto social. Segundo Carvalho (1997), a legislação está ainda "estática", com ações mais isoladas do que entrelaçadas e atendendo a uma parcela mínima da clientela. O panorama social revelador de miséria, da falta de esclarecimento à população, da pouca importância dada a área da saúde, da violência nos mais variados graus contribuíam para gerar níveis variados de deficiência. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 218 Os anos 80 foram importantes para sedimentar a ação da educação especial no estado do Pará, bem como ampliar sua área de abrangência assumindo importante papel na esfera educacional. Neste período, o CEDESP contou com um sistema envolvendo várias instituições no sentido de viabilizar e operacionalizar a educação especial na capital e interior do estado. Em meados da década de 80, o Ministério da Educação redefine a Política Nacional Para a Educação Especial, por meio do Plano denominado Educação Especial - Nova Proposta. Neste documento foram estabelecidos como princípios norteadores da educação especial: participação, normalização, interiorização e simplificação. Segundo Mazzota (1996), este é o marco que estabelece as diretrizes básicas para o encaminhamento político da educação especial no âmbito da Federação. Em virtude dessa política, o CEDESP direcionou suas ações no sentido de contemplar os princípios explicitados na nova proposta. Nessa perspectiva, o CEDESP deu os primeiros passos no sentido de propiciar o atendimento à sua clientela, tendo por eixo o pleno exercício da cidadania, possibilitando-lhes a participação nos demais segmentos da sociedade. A crise econômica no início dos anos oitenta com o seu agravamento em 1986, trouxe profundos efeitos à economia do Estado do Pará, que sofreu com os reflexos do plano cruzado. No âmbito educacional o Estado contabilizou um déficit real no período de 1980-1990 em torno de 40,20% (LIMA, 1995). Tal estatística expressou os altos índices de evasão e repetência no ensino fundamental. Com esse grande índice, um número significativo de alunos deve ter sido encaminhado à Educação Especial, o que contribuiu para o aumento significativo do número de classes especiais de Deficiência Mental - DM. Nesse processo "avaliativo" o enfoque dado foi em relação ao desempenho acadêmico desses alunos. Dessa forma o que é apontado é o fracasso escolar. Em relação ao contexto da produção do fracasso, Andará (apud SANTOS, 1998, p. 81) posicionou-se: É importante ressaltar que longe se está de superar as antigas explicações para o fracasso escolar que depositam a responsabilidade pelo insucesso nos próprios alunos e suas famílias. Incorporadas ao senso comum, tais justificativas são ainda freqüentes no discurso dos profissionais que trabalham na escola (professores, técnicos, e funcionários. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 219 A prática corrente desse discurso caracteriza-se como uma das formas mais perversas de preconceito e discriminação atribuídas às crianças por serem das classes mais desfavorecidas - pobres e aos professores por sua má formação profissional. Este é um discurso ideológico que busca na culpabilização da própria vítima minimizar o impacto que as relações sociais excludentes e segregadoras produzem sobre o baixo desempenho escolar de populações pobres. O início de 1987 culminou com o final do mandato do Governador do Estado, Jáder Fontenele Barbalho (março de 1983 a março de 1987), e com o início do governo de Hélio da Mota Gueiros (março de 1987 a março de 1991). No governo de Gueiros a SEDUC foi assumida pela professora Terezinha Moraes Gueiros, que assevera que em sua gestão a educação deveria ser prioridade. No CEDESP assumiu nova diretora de 05 de junho de 1987 a 28 de outubro de 1992. Em abril de 1988, a nova gestão promoveu a estruturação dos serviços para o atendimento às pessoas com deficiência múltipla e física. Em 1989, pelo Decreto N°. 6.069 de 09/05/89, no processo de reestruturação da SEDUC, o Centro de Educação Especial passou a designar-se Departamento de Educação Especial- DEES, subordinado à Diretoria de Ensino da Secretaria Executiva de Estado de Educação, assumindo desta forma o mesmo patamar administrativo dos outros graus de ensino-primeiro e segundo graus e ensino supletivo (PARÁ, 1997, p. 17). A transformação do Centro em Departamento vinculado à SEDUC evidenciou perda de autonomia financeira e administrativa no tocante à execução de suas ações, à medida que, enquanto Centro, recebeu apoio financeiro de outros órgãos federais e estaduais. Com a passagem para Departamento da SEDUC, ligado à Diretoria de Ensino, o DEES vivenciou as mesmas dificuldades dos demais Departamentos no âmbito da Secretaria de Educação, com falta de verbas, dificuldades na aquisição de material permanente, material pedagógico; enfim, passou a compartilhar as mesmas mazelas vividas pela educação regular. Outro fato importante desse período foi o awnento significativo das classes especiais, ocorrido em bairros mais carentes e periféricos, nos quais o índice de repetência era considerável, e a clientela necessitava de atendimento; além disso, houve inserção dos alunos do projeto de Problemas de Aprendizagem nas classes especiais. Outros dados a serem considerados são os levantamentos realizados nas escolas com alta freqüência de repetência e de baixo rendimento acadêmico. No ato da realização da triagem, esses fatores associados, determinavam o encaminhamento às classes especiais, como uma possibilidade de progresso acadêmico. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 220 Esses aspectos enfatizaram o fracasso escolar (ressaltando o desempenho cognitivo baseado no quociente de inteligência), como sendo da ordem do aluno. Como a maioria desses alunos era oriunda das classes populares, havia uma associação direta deste fato com o seu baixo desempenho escolar ignorando as condições concretas do processo de ensino-aprendizagem, bem como do sistema educacional vigente. Este cenário era semelhante às descrições de Machado e colaboradores (1997) e Patto (1990 e 2005). Durante todo o período enfocado percebemos uma certa ineficiência das políticas educacionais. No contexto da educação especial as ações mostraram-se insuficientes, atuaram sobre pontos específicos no que se refere à manutenção e reforma dos prédios que abrigavam as classes especiais/unidades especializadas. III - A Educação Especial e as Influências do Paradigma da Inclusão (1990 - 2006) A década de 90 marcou uma transição na prestação de serviços destinados às pessoas com deficiências. Se nas décadas anteriores prevalecia uma visão paternalista e segregacionista centrada na incapacidade e na deficiência, e isso sustentava as práticas pedagógicas, nos anos 90 este paradigma passa a ser rejeitado. São estabelecidos novos indicativos para um modelo mais integracionista, possibilitando o máximo de desenvolvimento das potencialidades das pessoas com necessidades educacionais especiais através dos serviços/programas complementares de ensino. Dessa forma, nos anos 90, documentos internacionais importantes - Declaração Mundial Sobre Educação para Todos 1990 e Declaração de Salamanca 1994, vão marcar historicamente as diretrizes para o atendimento dessa clientela. Nesse período a prioridade de financiamento pelo governo federal Ministério da Educação e Desporto/MEC e Secretaria de Educação Especial/SEESP teve por referência quatro ações básicas: capacitação dos docentes, adequação do espaço físico da rede pública, aquisição de material didático e estudos e pesquisas na área da educação especial. No Estado do Pará, a década de 90 inicia com o DEES investindo nas diretrizes traçadas por um Seminário de Avaliação realizado no início de 19893. Entre as diretrizes estabelecidas foram eleitas como prioridades: descentralização e interiorização dos serviços, elaboração de urna política integrada de atendimento para as pessoas com necessidades especiais, bem como a busca de um referencial teórico e metodológico que subsidiasse o atendimento como um todo nos programas educacionais. Neste sentido, em 3 Relatório de Avaliação das Atividades do Departamento de Educação Especial, DEES, 1989. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 221 1990, foi formado o GRUPO DE CURRÍCULO DO DEES composto por pedagogas representantes de cada categoria de necessidades educacionais especiais (Deficiência auditiva - DA; Deficiência mental - DM; Deficiência visual- visual- DV; Deficiência física - DF; Síndrome de Down - SD e Deficiências múltiplas - DMU). Este grupo foi formado com o objetivo de analisar o currículo e as metodologias existentes e propor alternativas de atuação e implementação nas escolas. Outro fator importante foi o processo de sensibilização desenvolvido pelos profissionais do setor de Diagnóstico e Programas Educacionais ocorrido nas escolas estaduais, municipais e em alguns centros comunitários, principalmente nos anos de 1993-94. Isto possibilitou esclarecimentos quanto ao funcionamento e estrutura do DEES, e o perfil da clientela atendida; esta ação evitou, principalmente em 1994, o encaminhamento equivocado de crianças com problemas de má alfabetização, para o atendimento na educação especial. Desse modo observou-se que os professores das escolas regulares demonstraram maior segurança no processo seletivo do aluno para o encaminhamento ao DEES (PARÁ, 1994). A preocupação com a capacitação de técnicos e docentes desencadeou a realização de vários cursos: Sistema Braille Escrita e Leitura, Visão Sub-Normal, Orientação e Mobilidade, Oficina de Alfabetização por meio da Comunicação Total, Metodologia em Educação Pré-Escolar e Ferramentas Pedagógicas. Foi realizado em 1991, o Curso de Adicionais para docentes da capital e interior, com a finalidade de consolidar uma visão contextualizada da educação especial. No período de junho a setembro de 1992, o DEES passou a discutir junto ao seu corpo técnico a proposta de atuação denominada "CONTEXTUALIZAÇÃO". Essa proposta tinha como objetivo proporcionar atendimento adequado e eficaz a todos os alunos com algum tipo de necessidade educativa especial. Nesta proposta, todos os técnicos, independentemente de sua formação, atenderiam a todos os tipos de necessidades especiais, exceto a categoria de problemas de conduta, que continuaria sendo atendida por técnicos com qualificação específica. Foram criados nove pólos4 de atendimento, sendo que em cada um estava contido atendimento das diversas categorias dos programas educacionais como classes especiais, sala de recursos, ensino itinerante, etc. No início dessa sistemática de atuação foi realizado um levantamento das necessidades das classes especiais em relação às condições físicas, estruturais e materiais visando o trabalho contextualizado e o atendimento da clientela. De setembro a dezembro houve o assessoramento técnico às escolas, mas sem uma 4 Relatório das Atividades Desenvolvidas no Pólo 3 - Canudos Terra Firme e Guamá, DEES, 1992. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 222 ação teórico-metodológica claramente definida que sustentasse a ação prática da contextualização (GOUVEIA e ALMEIDA, 1994). Essa iniciativa não obteve o êxito desejado pela direção do DEES, em virtude de várias resistências e dificuldades enfrentadas. Se por um lado o DEES objetivou descentralizar as ações da Educação Especial e proporcionar um atendimento mais qualificado atingindo toda clientela, por outro faltou estrutura técnico-metodológica que desse suporte a essas ações. A ausência de diretrizes norteadoras para o trabalho, além da inserção no serviço de profissionais sem uma prévia capacitação no que diz respeito à educação especial contribuíram significativamente para o resultado negativo da ação. Em 29 de outubro de 1992, uma nova diretoria assume o DEES e apresenta como objetivos principais garantir a revitalização dos programas em andamento e a implementação das Unidades Especializadas. Retomou o processo de formação de docentes através da oferta dos cursos de Estudos Adicionais, bem como o incremento da atuação e capacitação dos profissionais de Educação Especial no interior do Estado. Com a preocupação de organizar a educação especial no Estado, em 1992, sob nova direção, a chefia da Divisão de Programas Educacionais solicitou das equipes que trabalhavam com as categorias de DM e DA a confecção de uma Proposta Curricular que subsidiasse a ação técnico-pedagógica das referidas categorias. Em novembro de 1993, o Ministério da Educação e do Desporto apresentou o Plano Decenal de Educação Para Todos (1993-2003). O Plano trazia como objetivo mais global assegurar, até o ano de 2003, o fun do analfabetismo e a universalização do ensino fundamental (BRASIL, 1993). O Plano não fez distinção entre Educação Especial e Educação Geral e consolidou os preceitos da Constituição Federal de 1988, no que diz respeito à garantia do direito à educação. Também reafirmou os princípios da Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada em março de 1990, em Jomtiem (Tailândia), enfocando a necessidade de atuação integrada dos poderes públicos e instituições da sociedade civil no desenvolvimento de estratégias e alternativas para superação das crises econômicas e sociais (CARVALHO, 1997). Em 1994, no instante em que Carlos Santos assume o governo do Estado em substituição a Jader Barbalho, a SEDUC tem como nova titular a professora Glória Santos. Tais mudanças de comando não alteraram os rumos da educação especial, que dá segmento às suas ações. Em 1994, o DEES promoveu a reestruturação das atividades de Avaliação e Diagnóstico no Distrito de Icoaraci, sendo esta ação subsidiada tecnicamente pelos profissionais da Divisão de Diagnóstico do DEES, bem como pro¬moveu treinamento àqueles profissionais. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 223 Em janeiro de 1995, assumiu o governo do Estado do Pará A1mir José de Oliveira Gabriel, sendo indicado como Secretário de Estado de Educação o Prof. João de Jesus Paes Loureiro. No Departamento de Educação Especial, uma nova diretora, a professora Odinéia Tel1es Figueiredo, assumiu o DEES, em 19/04/95. O Secretário de Educação apresentou o Plano Estadual de Educação (1995 a 1999), como plataforma de sua administração, tendo por meta solucionar questões indispensáveis e geradoras de conflitos e discussões na sociedade5. No tocante à Educação Especial o plano propõe a transformação das Unidades Especializadas José Álvares de Azevedo e Astério de Campos) em Centros de Referência, cada uma na sua especialidade (tal proposta não foi levada a efeito). Além disso, incentivou a interiorização e a expansão da educação especial. Foi ainda ressaltada a importância das salas de recurso, classe especial e ensino itinerante como veículos de integração do aluno no sistema, resultante das novas orientações teóricas para os atendimentos especializados. Em 1996, o Departamento de Educação Especial - DEES, foi convidado pela Secretaria de Educação Especial - SEESP do Ministério da Educação e do Desporto, para participar do workshop sobre Necessidades Especiais em Sala de Aula, realizado em Lisboa sob a chancela da Organização das Nações Unidas Para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO. A SEESP considerou importante a participação do Pará por considerar que neste estado havia em curso uma proposta de atendimento educacional para pessoas com necessidades especiais, que se aproximava do paradigma da escola inclusiva. Os participantes paraenses, neste evento, se tornaram posteriormente, agentes multiplicadores dessa discussão em um workshop de abrangência nacional realizado em Brasília, contando com a participação de representantes do ensino fundamental, da formação de magistério e da educação especial. Nesse mesmo ano, iniciou na SEDUC o desenvolvimento da Proposta Básica de Municipalização do Ensino Fundamental. Esse processo seria desencadeado, obedecendo, etapas, estratégias, metas e prazos estabelecidos na referida proposta. Neste sentido, seria dada prioridade às escolas com préescolar e/ou de 1ª a 4ª séries; entretanto, nesse primeiro momento, a educação especial não entraria nesse processo em virtude da abrangência das ações nesta etapa e das dificuldades que os municípios teriam para garantir o nível de qualidade de ação educativa desenvolvida pela SEDUC (PARÁ, 1996). Dentre elas encontram-se os seguintes pontos: déficit escolar, evasão, índice elevado de reprovação, ausência de qualificação dos professores, insuficiência de material, didáticopedagógico, entre outros aspectos. 5 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 224 Em 1997, alguns técnicos da educação especial integraram as equipes de municipalização da SEDUC, realizando nos municípios as atividades pertinentes à municipalização da educação especial.6 Os técnicos do DEES observavam que os alunos com necessidades especiais não estavam sendo incluídos no processo de municipalização, estavam sendo enturmados sem o mínimo critério, sem nenhuma garantia para o seu acolhimento e desenvolvimento intelectual. A partir desse quadro, os profissionais da educação especial elaboraram uma proposta de ação do DEES - Plano de Ação Integrada da Educação Especial ao Projeto de Municipalização: Encaminhamento de uma Proposta - visando integrar/ incluir as pessoas com necessidades educativas especiais na rede municipal de ensino. O Plano de Ação Integrada teve por meta atingir no período de agosto a dezembro de 1998, 26 municípios "municipalizados" nos anos de 1997 e 1998, que possuíam educação especial, de acordo com os critérios das rnicro-regiões e Unidades Regionais de Educação - URES. Outro marco importante no período foi a intensificação do debate nacional sobre a necessidade de utilização da Língua Brasileira de Sinais LIBRAS, como língua materna das pessoas surdas, associada a ela, a utilização da Língua Portuguesa, como uma segunda língua, sendo que a concomitante utilização de ambas comporia o bilingüismo. Desse debate emergiu uma demanda por formação de professores em LIBRAS e Língua Portuguesa para pessoas surdas. Em resposta a essa demanda o DEES realizou cursos de capacitação para técnicos e professores da educação especial, ocorrido de 18 a 28 de junho de 1996, enfocando duas grandes temáticas: a) bilingüismo para surdos e b) integração social do surdo - A estrutura da lingüística da LIBRAS. Como desdobramento dessa ação, no ano seguinte foi elaborada e publicada a Cartilha Paraense de Sinais com a finalidade de apresentar a linguagem de sinais a um público composto principalmente por professores e alunos da escola pública e por pessoas surdas. Esta divulgação favoreceu a comunicação entre surdos e ouvintes. Na concretização dessas ações foi observado que os 67 municípios atingidos, em 33 funcionavam a educação especial e destes 17 municipalizaram de 1ª a 8ª série, 12 municípios de 1ª a 4ª série e 4 encontravam-se em processo. 6 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 225 Experiência da Escola Inclusiva O DEES, desde 1997, vem privilegiando ações que garantam o acesso e permanência, com êxito, dos alunos com necessidades educacionais especiais na rede de ensino regular. Tais ações encontravam-se alicerçadas nas novas diretrizes educacionais apresentadas em Portugal, no encontro Necessidades Especiais em Sala de Aula, promovido pela UNESCO em 1996, do qual os técnicos do DEES participaram e sofreram fortes influências. Este encontro foi um dos desdobramentos da Conferência Mundial Sobre Educação Para Todos, 1990, que reafirmou a educação como um direito de todas as crianças; e da Conferência Mundial Sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade, 1994, que proclamou o direito à educação das pessoas com necessidades especiais junto com todas as crianças de sua comunidade. A construção da escola inclusiva, como elemento constitutivo da política educacional no Pará, decorre da indução promovida pela SEESP, desde 1996. A partir deste ano, a SEESP, por meio de edital do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação - FNDE, passou a financiar ações voltadas para a construção de uma escola inclusiva. Através de convênios firmados entre as Secretarias Estaduais de Educação e a SEESP tornou-se possível captar recursos para o desenvolvimento das seguintes ações: formação/ capacitação de profissionais da educação, aquisição de material didático e elaboração de estudos e pesquisas em educação especial, além da publicação de material informativo (cartilhas, folhetos); tudo isso sob o enfoque da educação inclusiva. É nesse contexto que o DEES promoveu em 1997, o encontro "Repensando a Educação", reunindo em Belém os coordenadores de Educação Especial de todo o estado, com o objetivo de analisar os seguintes documentos: Declaração de Salamanca e a Política nacional de Educação Especial, ambos de 1994. O primeiro documento apresentava o paradigma da inclusão e o segundo instaurava a estrutura e organização da educação especial ainda sob a ótica da integração7. Deste encontro resulta a elaboração de um projeto para instaurar a educação inclusiva no Pará. Inicialmente, este projeto foi desenvolvido em duas escolas indicadas pelo DEES e referendadas pela Diretoria de Ensino da SEDUC: EE. Presidente Costa e Silva e E. E. Domingos Acatauassu Nunes. Os critérios adotados para indicação das escolas foi a existência de corpo técnico, docente e administrativo que fossem receptivos e abertos ao processo 7 In: Construindo uma Escola para todos (DEES/SEDUC -1997). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 226 de mudança da prática pedagógica e que já trabalhassem com classes especiais que atendessem a alunos com Deficiência Mental. A partir de 1998, iniciou a expansão do processo de inclusão educacional no município de Belém por meio da criação de escolas referência de inclusão. No intervalo de 1999 a 2006, essa experiência se ampliou alcançando 55 escolas, na rede pública estadual. São definidas como escola referência de inclusão aquelas nas quais existem os seguintes atendimentos: Sala de Apoio Pedagógico específico - SAPE, para todos os alunos da escola, Salas de Recurso - SR para atendimento de alunos com deficiência visual e auditiva, Atendimento Itinerante para alunos (DA e DV), acompanhamento de dois técnicos da educação especial- chamados de professores de referência, que articulam e assessoram todas as ações para construção da escola inclusiva8. Embora a educação especial tenha desenvolvido ações importantes no sentido de produzir um sistema educacional inclusivo no Pará, este é um processo que ainda se encontra em estágio embrionário. No intervalo de tempo de 1998 a 2006, foi possível difundir junto ao sistema educacional paraense principalmente por meio de cursos de capacitação - o discurso sobre a inclusão de pessoas deficientes em escolas e turmas regulares, mas esse discurso não tem sido acompanhado por efetivas práticas escolares inclusivas. Pouco as escolas se modificaram, em seus vários aspectos, para atender à diversidade humana. Mesmo aquelas escolas denominadas "referência de inclusão", após nove anos, apesar de todos os avanços alcançados, ainda não conseguem se con-solidar nesse sentido. Entre 1995 e 2002, no período dos dois mandatos do Governador Almir Gabriel a SEDUC passou por um processo de reestruturação fundada no princípio da descentralização administrativa de suas atividades. Acompanhando essa lógica o DEES passou a atuar a partir de pólos para melhor atender e agilizar as deliberações das escolas, onde foi garantida a inserção de técnicos da educação especial. Mas foi a partir de 2003, com a posse de Simão Jatene, no governo estadual, que as alterações na SEDUC se tornaram mais significativas. A nova titular da Secretaria, a arquiteta Rosa Cunha, promoveu em julho de 2004, um reordenamento na estrutura da SEDUC: criou três Secretarias Adjuntas (de Ensino, de Logística e de Gestão); substituiu os departamentos por coordenações apoiadas por gerências de projetos. Procurou implantar uma lógica gerencial na estrutura burocrática da SEDUC. Esses profissionais são assistentes sociais, pedagogos, psicólogos, sociólogos, psicopedagogos que compõem o quadro técnico da Educação Especial. 8 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 227 Em março de 2004, assume o Departamento de Educação Especial a psicóloga Heloísa Helena de Veiga Brito, que não apresentou nenhuma proposta para a Educação Especial no Pará. Neste período, a educação especial tornou-se apenas um reflexo da política nacional para o setor. A SEESP, com Cláudia Dutra no comando, concentrou suas ações na busca da implementação de um sistema educacional inclusivo, embora mantivesse praticamente as mesmas linhas de financiamento para a educação especial no País. Além da capacitação de profissionais da educação, da implementação de Unidades Especia1izadas, que já eram contempladas em anos anteriores, só instituiu o financiamento para adaptação física de unidades escolares, para garantir acessibilidade para alunos com dificuldades de locomoção. As ações desenvolvidas pela COEES neste período tem sido embasadas por esses indicativos das políticas nacionais. No que concerne à capacitação de profissionais da educação destaca-se o Programa Conhecer para Acolher (cursos) na capital e interior do estado, desenvolvido no intervalo de outubro de 2002 a 2004, com carga horária de 224 horas. Em 2005-2006, o Conhecer Para Acolher é substituído pelo programa Educar na Diversidade desenvolvido pela SEESP / MEC para formar professores, técnicos e gestores da capital e municípios do interior do estado. Com uma carga horária de 220 horas, o Educar na Diversidade, em 2006, promoveu a formação de cerca de 1000 profissionais em vinte pólos na cidade de Belém. Em abril de 2003, foi implantado o atendimento escolar para alunos em trata-mento ambulatorial e em internação hospitalar, Projeto Prosseguir - Classe Hospitalar, no Hospital Ophir Loyola. Este atendimento resultou de um convênio firmado entre a SEDUC e o Hospital Ophir Loyola com a interveniência da Secretaria de Estado de Proteção Social - SETPS. No fomento à capacitação docente e técnica também são desenvolvidos cursos para os professores e técnicos do ensino fundamental e médio capacitando-os na Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS. Um avanço importante para a atuação e atendimento aos alunos surdos (diferentes níveis de escolaridade) foi a criação do Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e Atendimento às Pessoas com Surdez - CAS, em 2004, entrando em funcionamento com espaço próprio em 2005. Outra ação importante com relação à capacitação de profissionais foi a conclusão do curso destinado aos docentes que desenvolvem atividades nas Salas de Apoio Pedagógico, desenvolvido ao longo do ano de 2005-2006, capacitando 250 docentes, como parte do Projeto Inter-Agir. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 228 Uma das preocupações dos técnicos da COEES diz respeito à tentativa de fomento à pesquisa, sendo assim, em 2004 foi criado o Laboratório de Pesquisa em Educação Especial - LAPES, que organizou em setembro do mesmo ano, o I Seminário Sobre Experiências de Inclusão Social e Educacional às Pessoas com Necessidades Especiais. Entre outras atribuições o LAPES tem a função de estimular a produção do conhecimento entre os profissionais da educação especial e inclusiva. Em maio de 2006, com a inauguração do Núcleo de Atividades de Altas Habilidades e Superdotação - NAAHS, foi ampliado o atendimento de alunos com altas habilidades e superdotação, sendo esta uma ação financiada pela SEESP, com apoio da SEDUC e COEES. A COEES, em política de efetivação da educação inclusiva a todos os alunos, tem desenvolvido encontros (2005), na região metropolitana de Belém, com os diretores das escolas de ensino fundamental e médio, da rede estadual de ensino e algumas particulares, no sentido de sensibilizá-los quanto ao processo da educação inclusiva, propiciando momento reflexivo e educativo aos gestores das unidades escolares. Nessa política de desenvolvimento da educação inclusiva, a COEES vêm realizando inúmeras ações nas diferentes programações que possui em seu quadro na educação especial, o que fica impossível de retratar dado o limite desse artigo. Considerações Finais A presente pesquisa enfocou a trajetória histórica da Educação Especial no estado do Pará no intervalo de tempo de 1953 - 2006. No período inicial foram apresentadas as primeiras iniciativas de atendimento a alunos com necessidades especiais; tais iniciativas eram oriundas dos setores público e privado. Destacou-se a dedicação que marcou a luta desencadeada pelos profissionais da Educação Especial - sobretudo no primeiro período. Dela decorrem a estruturação e organização dos serviços escolares, propiciando atendimento às pessoas com necessidades educacionais especiais e proporcionando-lhes condições de inclusão na sociedade através da escolarização. No decorrer desse processo histórico a educação especial necessitou rever e reformular sua prática buscando a sintoma com as necessidades da população que atendia. As políticas de atendimento educacional a essa camada da população, ainda nesse período, deram suporte às ações desenvolvidas no âmbito estadual, e isto possibilitou a ampliação e diversificação dos serviços oferecidos. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ESTADO DO PARÁ E AS PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO: ANÁLISE DE UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA 229 De modo concomitante, verifica-se a mudança na concepção de atendimento. O assistencialismo e o paternalismo que marcaram as ações iniciais, aos poucos foram sendo superados, e em seu lugar, emergiu uma concepção que privilegia a valorização da pessoa e a aceitação das diferenças, aliado a isso, se instaurando a busca pelo máximo desenvolvimento potencial dos alunos. Este potencial é tomado no sentido de potência, que Espinosa concebe como processo do ser, a afirmação cada vez mais complexa da capacidade de ser afetado de manter a própria existência. Espinosa, segundo Chaui (1995), refere-se à potência de ação, potência de agir que orienta as pessoas a saírem da alienação, da servidão e investirem em "bons encontros" os quais possibilitam o agir coletivo, ou pelo coletivo, o atuar em conjunto, a ética e a solidariedade, pois o desejo de ajudar e ser dado, a generosidade implica uma forma de romper com a servidão, evidenciando uma vontade de superar o sofrimento ético-político (SAWAIA, 1999), com uma ação que seja reconhecida pelo coletivo (BARRETO, 2002). A institucionalização de um órgão responsável pelo gerenciamento da política de educação especial no Pará possibilitou o desenvolvimento mais sistematizado de ações nesta área. A expansão quantitativa e qualitativa da educação especial no Pará decorreu fundamentalmente da instauração de políticas de alcance nacional para o setor, e tais políticas sofreram forte influência de movimentos internacionais pelo direito das pessoas deficientes; isto ocorre, sobretudo no transcurso das décadas de 80 e 90. É a partir da década de 80, com a estruturação do atendimento para as várias regiões do estado do Pará, que se implementou a capacitação de docentes e instalação do atendimento escolar. A partir de meados da década de 90, sob a influência dos princípios da escola inclusiva, expostos na Declaração de Salamanca, a educação especial define como suas ações prioritárias: capacitação dos profissionais da educação, aquisição de materiais didático-pedagógicos e estudos e pesquisa sobre a educação especial. Este tripé é proposto e estimulado financeiramente pela SEESP /MEC, por meio de convênios firmados com a Secretaria Estadual de Educação. Todo esse processo desencadeado no período não se mostra capaz de suplantar a dualidade entre a educação especial e a educação regular enraizado no atendimento educacional das pessoas com necessidades especiais. E este dualismo se prolonga por toda a década de 90, apesar dos esforços para estabelecer as bases para a criação de uma escola inclusiva, capaz de se modificar para agregar e atender a todas as diferenças. A construção do projeto de um sistema de ensino inclusivo se fortalece, no plano do discurso, entre os anos 2003 - 2006. E a difusão desse discurso Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 209-232, jan./dez., 2005 Rosangela da Silva Almeida João Gomes Tavares Neto 230 ocorre prioritariamente por meio das ações de formação empreendidas pelo DEES, até 2004, e a partir daí, pela COEES. Entretanto, o resultado prático desse processo não se mostra significativo até o momento, nem no que diz respeito à quantidade de profissionais capacitados nem no que concerne à qualidade da formação oferecida. Embora a capacitação de profissionais de educação tenha se constituído como eixo principal para a política de educação especial no Pará, ela apresenta uma série de fragilidades, entre elas destacam-se: a desarticulação entre as capacitações oferecidas; a descontinuidade no processo de formação e insuficiente articulação entre teoria e a prática, entre o discurso político e a prática pedagógica. Tais fragilidades têm contribuído para a manutenção da antiga dualidade educação especial versus educação regular; além disso, têm estimulado um novo dualismo entre educação regular e educação inclusiva. A retórica sobre a escola inclusiva, difundida no Pará a partir da Declaração de Salamanca, em 1994, após doze anos, ainda está muito distante de consolidar uma prática educacional efetivamente inclusiva. Disso resulta, em grande parte, a descrença de professores, gestores e da sociedade acerca da concretização desse paradigma inclusivo no âmbito de uma sociedade competitiva e excludente. Referências bibliográficas ANDARÓ, Carmem Silva de Arruda. Aperfeiçoamento Docente - Uma das soluções para a escola pública. In: SANTOS, Tânia Regina Lobato dos. Formação Continuada dos Profissionais do Ensino: A Experiência do Instituto de Educação de Belém-1993-1996. PUC/SP, 1998 (Dissertação de Mestrado). BARRETO, Margarida. A humilhação na saúde do trabalhador. In: SAWAIA, Bader Burihan e NAMURA, Maria Regina (Orgs). Dialética Exclusão - Inclusão - reflexões metodológicas e relatos de pesquisa na perspectiva da Psicologia Social Critica. 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Os dados foram coletados com uma amostra de cem mães usuárias de creche, tendo como base os princípios teóricos e metodológicos da pesquisa qualitativa e a técnica da entrevista semi-estruturada. Os dados demonstraram que a sobrevivência é o principal motivo para as mães deixarem seus filhos na creche. Na avaliação materna, a creche foi considerada boa e/ou excelente, mas foi ressaltada a necessidade de melhoria na sua estrutura física e material. Palavras-chave: Creche. Mãe. Relação Creche - família. OPINIONS OF MOTHERS ABOUT THE ATTENDANCE IN THE MUNICIPAL DAY CARE CENTERS OF BELÉM Abstract: Is perceived the presence of many actors in the spaces of the day care center. However, even knowing that the opinion about the services is associated to the circumstances of the investigated group, the majority of the researches have prioritized the opinion of researchers and professionals that work in these spaces. This study aimed at reunite the factors that drove low budget mothers to let their children in the day care center, besides knowing their opinions about the service offered to their children, and identify in the mother's report the aspects that need improvement in these places. The data were collected with a samp1e of a hundred mothers that are users of the day care center, taking as basis the theoretical and methodological principles of the qualitative research and the technique of semi structured interview. The data showed that the survival is the main reason for the mothers to let their children in the day care center. In the maternal evaluation these spaces were considered good and / or Professora do Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Pará. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento da referida universidade. E-mail: [email protected]. 2 Professora da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Pará. Doutora em Psicologia Experimental. E-mail: [email protected] 3 Professor da Faculdade de Psicologia da referida Universidade. Doutor em Psicologia Experimental. E-mail: [email protected] 1 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 Celi da Costa Silva Bahia / Celina Maria Colino Magalhães / Fernando Augusto Ramos Pontes 134 excellent, but was reinforced the necessity of improvement of it's physical and material structure. Key words: Day Care Center. Mother. Day Care Center- Family Relation. Introdução Na sociedade contemporânea, novos padrões de família têm emergido a partir das transformações sociais, econômicas e culturais, o que tem influenciado no exercício da maternidade. Cada vez mais a mulher vem assumindo o papel de provedora do lar, principalmente porque algumas famílias são monoparentais, com chefia feminina. A falta de uma base de apoio para auxiliar nos cuidados da criança no contexto familiar torna difícil conciliar o papel de provedora da família com a maternidade, como era exercida no início do século: XX. Nesse contexto, a creche é vista como um equipamento essencial ao trabalho da mulher. Ela representa um mecanismo de promoção de igualdade de oportunidades, pois possibilita a manutenção e inserção da mulher no mercado de trabalho. Conforme Meira (2004), na atualidade, a creche "é local necessário para que as famílias de classe social menos favorecida possam enfrentar a realidade social, política e econômica do país contribuindo com o processo de cuidar e educar crianças, possibilitando o crescimento e desenvolvimento de crianças saudáveis, cidadãos responsáveis, futuros trabalhadores do país" (p.13). Isso significa que, para essas famílias, a creche pode ter o papel de romper com ciclos de pobreza e violência (MOREIRA e LORDELO, 2002). No entanto, não basta garantir às famílias espaços para deixarem seus filhos enquanto trabalham. É indispensável que estes espaços ofereçam condições para o desenvolvimento físico, intelectual, social e emocional da criança, o que só será possível se for assegurada qualidade aos serviços oferecidos. Nessa perspectiva, na contemporaneidade, a função da creche não deve se limitar a compensar as carências das crianças que vivem em famílias de classe sociais menos favorecidas, por meio de serviços destinados ao atendimento das necessidades de guarda, higiene e alimentação, ou, a combater o insucesso escolar por meio da preparação da criança para ingressar no ensino fundamental. De acordo com os princípios legais, na atualidade, a creche deve assumir uma função educativa, a qual é caracterizada pela indissociabilidade entre o cuidado e a educação da criança. Assim, ela deve ter por objetivo atender à criança em todas as suas necessidades, sejam elas físicas, emocionais, afetivas, cognitivas e sociais. Em seu sentido mais amplo, deve ser considerado o direito de brincar em ambiente aconchegante e em contato com a natureza, promoção Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 OPINIÕES DE MÃES SOBRE O ATENDIMENTO NAS CRECHES MUNICIPAIS DE BELÉM 135 de higiene e saúde, alimentação sadia, proteção, afeto, carinho, amor, liberdade de expressar seus sentimentos, construção de sua identidade e de sua cidadania (SANCHES, 2003). O entendimento da creche como tendo função educativa implica uma abertura desta para a participação da família, pois ela (creche) é um dos contextos de desenvolvimento da criança que deve ser compartilhado com a família. Isto implica dividir sucessos, dificuldades, e, acima de tudo, compartilhar o processo de cuidar e educar a criança na etapa de vida em que se encontra e de formação de cidadãos responsáveis pelo seu viver em sociedade (MEIRA, 2004). Diversos estudos (ALVARENGA, CAVALCANTE, CRUZ, MAGALHÃES, e BAHIA, 2006; BHERING e DE NEZ, 2002; HUBER, 2003; MEIRA, 2004; SWICK, 2003) vêm apontando para a necessidade de transpor o muro do isolamento que existe entre as instituições creche e família. É fundamental que as famílias atendidas pela creche sejam conhecidas, em termos das dificuldades que enfrentam, dos seus planos, medos e anseios. São essas informações que irão auxiliar no desenvolvimento de ações compatíveis com as necessidades da clientela atendida, de modo a integrá-la ao trabalho desenvolvido no espaço da creche. Se, por um lado, a integração da creche às famílias permite aquela conhecer as particularidades dos problemas enfrentados por estas para oportunizar o desenvolvimento e aprendizagem dos filhos e a maneira como pensam e percebem a creche, por outro, as famílias poderão conhecer as características do processo educativo e a estrutura da creche. As características do processo referem-se a como os profissionais respondem para a criança, como trabalham a disciplina e como desenvolvem as atividades. As características estruturais, por sua vez, dizem respeito ao tamanho do grupo, à relação adulto / criança, ao nível de educação / treinamento dos profissionais, à qualidade/quantidade do espaço físico e à qualidade /quantidade de materiais (PATIEN e RICKS, 2000). O domínio dessas características pelos pais poderia favorecer sua participação. Além das questões acima mencionadas, a integração entre creche e família permitirá um trabalho de complementaridade entre essas instituições, o que é fundamental neste momento em que os debates da área da Educação Infantil caminham em direção à consolidação de uma Pedagogia da infância, que, de acordo com Rocha (2002), tem como objeto de preocupação a própria criança e seus processos de constituição como seres humanos em diferentes contextos socioculturais - sua capacidade intelectual, criativa, estética, expressiva e emocional. Assim, o conhecimento na educação infantil refere-se às diferentes linguagens, experiências e maneiras como a criança se expressa (MALAGUZZI, 1999). Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 Celi da Costa Silva Bahia / Celina Maria Colino Magalhães / Fernando Augusto Ramos Pontes 136 Considerando que a articulação entre creche e família influencia no desenvolvimento da criança, essa vem sendo apontada pela literatura como um dos indicadores de qualidade. O conceito de qualidade é relativo, ou seja, é subjetivo, baseado em valores, crenças e interesses. Deste modo, ele variâ de acordo com as circunstâncias especificas do grupo e está relacionado às concepções que se tem acerca do que se quer melhorar (DAHLBERG, MOSS e PENCE, 2003). Apesar de a literatura indicar que a percepção de qualidade pode depender do grupo investigado e da existência de diferentes sujeitos com crenças, valores e necessidades diferenciadas na creche, a maioria dos estudos tem tido como participantes pesquisadores e profissionais da área, enquanto que a perspectiva dos pais tem sido pouco estudada (KATZ, 1993). Entendendo que o conceito de qualidade é baseado em valores, Pioto et al. (1998) discutem a partir de quais valores definir qualidade na educação das crianças. Para estes autores, os direitos das crianças devem ser os valores básicos para uma Educação Infantil de qualidade, os quais estão bem definidos legalmente em documentos como a Constituição Federal Brasileira de 1988, Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (BRASIL, 1990), Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1998) e os Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças (BRASIL, 1997). Os critérios propostos pelo Ministério da Educação e Cultura - MEC vão ao encontro dos direitos das crianças já consolidados, tais como direito à brincadeira; à atenção individualizada; a um ambiente aconchegante, seguro e estimulante; ao contato com a natureza; à higiene e à saúde; a uma alimentação sadia; a desenvolver a criatividade, imaginação e capacidade de expressão; ao movimento em espaços amplos; à proteção; ao afeto e à amizade; à expressão de seus sentimentos; a uma especial atenção durante o período de adaptação; e ao desenvolv1mento de sua identidade cultural, racial e religiosa (BRASIL, 1997). A falta de informação sobre os indicadores de qualidade, como os estabelecidos pelo MEC, leva os pais a superestimarem a qualidade da creche e ainda pode impedir que eles exijam alguns elementos que consideram como importantes para suas crianças. Deste modo, segundo Cryer e Burchinal (1997), é possível que o julgamento dos pais sobre o atendimento esteja pautado mais nas suas experiências anteriores elou desejos, do que nos serviços oferecidos para suas crianças. O conjunto de questões discutidas possibilita pensar que o atendimento de qualidade à criança nos espaços de creche passa pelo conhecimento da Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 OPINIÕES DE MÃES SOBRE O ATENDIMENTO NAS CRECHES MUNICIPAIS DE BELÉM 137 singularidade de cada criança construída no contexto sociocultural e das relações familiares em que ela vive. Contexto, conforme a teoria ecológica de Bronfenbrenner, não se limita apenas ao ambiente imediato, ele é concebido como "uma série de estruturas "encaixadas", uma dentro da outra", denominadas micro, meso, exo e macrossistema. Estas interferem mutuamente entre si e afetam conjuntamente o desenvolvimento da pessoa (BRONFENBRENNER., 1996). Tendo por base os princípios da teoria ecológica, o desenvolvimento do binômio cuidar-educar não pode ocorrer sem uma ação ativa da creche na promoção de um vínculo com a família. A instituição deve se ocupar de interações com as famílias e a comunidade, proporcionando educação e cuidados às crianças de forma compartilhada, responsável e harmônica, para que elas tenham um crescimento e desenvolvimento saudável (MEIRA, 2004). Em síntese, é possível afirmar que o atendimento à criança não deve estar restrito ao espaço da creche. É necessário um trabalho voltado às famílias, principalmente porque se vive um momento de transição em que se busca ressignificar as funções da educação infantil, compreendendo que ela se ocupa de sujeitos sociais, culturais, com dimensões físicas e psicológicas, com opiniões, preferências e diferenças traduzidas na incorporação do binômio cuidar e educar, e do qual não se pode excluir a família. É de fundamental importância para o desenvolvimento de um atendimento de qualidade considerar que as percepções da família, mas especificamente das mães, acerca dos serviços é um elemento necessário para o desenvolvimento de propostas de co-participação (CUNHA, 2002). O conhecimento dos motivos que levam as mães de baixa renda a deixarem seus filhos em creches e suas respectivas opiniões sobre o atendimento oferecido pode revelar fatores e critérios envolvidos na satisfação com o atendimento, que podem ir do assistencialismo ao contemporaneamente chamado processo de educação integral. É conseqüentemente, poderá influenciar nas relações estabelecidas entre a família e a creche. Tendo por base as questões iniciais, o presente estudo objetivou levantar os fatores que levam as mães de baixa renda a deixarem seus filhos na creche, além de conhecer suas opiniões acerca do atendimento oferecido às suas crianças, e identificar no relato das mães os aspectos que precisam de melhorias nesses espaços. MÉTODO Informantes Participaram deste estudo cem mães com filhos matriculados em creches ligadas à rede municipal de Belém. A idade da amostra variou entre 17 e 40 Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 Celi da Costa Silva Bahia / Celina Maria Colino Magalhães / Fernando Augusto Ramos Pontes 138 anos, sendo que 42% encontravam-se na faixa etária de 21 a 25 anos. A maioria da amostra (53%) era de mães solteiras que não contavam com a ajuda do pai da criança. No tocante à escolarização, 60% das mães apresentavam o Ensino Fundamental completo ou incompleto; 39%, Ensino Médio completo ou incompleto; e 1 %, o Curso Superior (Educação Artística). Em se tratando da atividade profissional, 52% das mães tinham o trabalho doméstico como a principal atividade, atuando como cozinheiras, babás, diaristas, lavadeiras, costureiras, donas de casa. No comércio informal, encontravam-se 38% da amostra atuando como artesãs, camelôs, catadoras de lata e venda eventual de gêneros alimentícios como camarão, peixe, verduras, entre outros. Ligadas ao mercado formal, encontravam-se 9% atuando como professoras, secretárias, auxiliares de escritório e agentes administrativo; 1 % desenvolvia outras atividades. Ambiente Na Secretaria Municipal de Educação de Belém, em 2005, havia trinta e quatro creches situadas em oito distritos, formados por todos os bairros da cidade, os quais apresentavam características distintas no que se refere ao saneamento básico, moradia, sistema de transporte, segurança pública, saúde e educação. Para contemplar esta diversidade, a pesquisa foi realizada em vinte e três creches, localizadas em diferentes bairros. Instrumento Os dados foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada, para a qual se elaborou um roteiro investigando os seguintes aspectos: os fatores que levam as mães a colocarem seus filhos nas creches; o que pensam as mães sobre o atendimento oferecido às crianças; e os aspectos que precisariam de melhorias. Além da entrevista semi-estruturada, foi aplicado um questionário para levantar aspectos sócio-demográficos desta população a partir dos seguintes fatores: atividade profissional, escolaridade e estado civil. Procedimento Inicialmente foi feito contato com a coordenação da creche, explicitando-se a importância, o objetivo e a metodologia do trabalho. Em seguida, foi feito contato com cada mãe e as entrevistas eram conduzidas individualmente no espaço da creche. Tendo em vista os aspectos de ordem ética, era discutido o termo de consentimento livre e esclarecido, ressaltando o sigilo das respostas. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 OPINIÕES DE MÃES SOBRE O ATENDIMENTO NAS CRECHES MUNICIPAIS DE BELÉM 139 Diante da concordância de cada mãe em participar da pesquisa, dava-se início à aplicação da entrevista. Primeiramente, as perguntas do roteiro eram feitas às mães e, enquanto falavam, suas respostas e comentários eram anotados pelo pesquisador de modo a garantir a fidelidade das informações. Em seguida, aplicava-se o questionário para levantar as características sócio-demográficas. Para análise das entrevistas, foram consideradas todas as respostas das participantes que, de modo geral, apresentavam mais de uma consideração para cada questão. As respostas foram categorizadas separadamente; deste modo, o número de categorias construídas variou de acordo com a questão proposta. Os dados referentes aos fatores que levam as famílias a colocarem seus filhos nas creches foram organizados em três categorias: a) sobrevivência - que envolvia as respostas relativas à ausência de condições econômicas para atender às necessidades da criança, tais como oferecimento das refeições diárias, necessidade de a mãe procurar emprego ou dispor de condições para desempenhar qualquer atividade que lhe garantisse remuneração e respostas referentes à segurança da criança; b) desenvolvimento cognitivo - que envolvia as respostas indicadoras da creche como um espaço de ensino e aprendizagem de conhecimentos lingüísticos, raciocínio lógico e coordenação motora; c) desenvolvimento afetivo - que envolvia respostas indicadoras da creche como um espaço de contato afetuoso entre criança-professora e criança-criança, tais como beijos, abraços, afagos, entre outros. Os dados referentes às opiniões das mães acerca do atendimento oferecido foram categorizados em Regular, Bom e Excelente e as temáticas utilizadas para justificá-los foram organizadas em categorias de eixos temáticos tratados. Neste sentido, foram encontradas três categorias: a) centrado na figura da Professora - envolveu todas as respostas que centravam a análise da qualidade no trabalho desenvolvido pela professora, tais como o ensino da leitura e escrita de letras e números, a interação entre criança-professora, o cuidado e a relação com os familiares; b) alimentação - envolveu todas as respostas que centravam a análise da qualidade na regularidade, diversidade, quantidade e cumprimento do horário no oferecimento das refeições; c) educação - envolveu as respostas que centravam a análise da qualidade considerando a creche como um espaço onde a criança desenvolve a linguagem oral, coordenação motora e sociabilidade. Os dados referentes à percepção das mães a respeito do que precisa de melhoria foram organizados em cinco temas: a) estrutura física e materialincluiu as verbalizações relacionadas a espaço para brincadeiras, mais salas, reforma do prédio, e ainda quantidade, diversidade e disponibilidade de materiais didático-pedagógicos; b) estrutura profissional - envolveu as verbalizações relacionadas às características dos professores (paciência, humor, responsabilidade e seriedade) e às que indicavam a necessidade de médico, Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 Celi da Costa Silva Bahia / Celina Maria Colino Magalhães / Fernando Augusto Ramos Pontes 140 psicólogo e dentista; c) estrutura nutricional - envolveu as verbalizações relacionadas à quantidade, qualidade e regularidade no oferecimento da alimentação; d) atendimento adicional - envolveu as verbalizações relacionadas a atendimento em tempo integral, remédio, bolsa escola, apoio da prefeitura; e) estrutura pedagógica - envolveu as verbalizações que indicavam a necessidade de ensinar as noções dos conteúdos do ensino fundamental e as relacionadas às atividades esportivas, culturais e a brincadeiras. RESULTADOS E DISCUSSÃO Fatores que levam as famílias a colocarem seus fillios na creche A sobrevivência foi à categoria mais citada, com 75% das respostas indicando ser este o principal motivo que justifica a busca pelos serviços oferecidos pela creche. Exemplos de respostas das mães nesta categoria foram: "porque a creche ajuda a gente que não tem condições de sustentar nossos filhos"; "porque a creche é tudo na nossa vida, se não fosse a creche eu não sei o que seria de nós"; "porque ela atende à criança, dá alimentação, eu não tenho condições de dá pra eles". Apesar da categorização diferenciada, este resultado é semelhante ao encontrado por Meira (2004). Em seu estudo qualitativo, as respostas das mães estão centradas na categorização "utilização da creche por falta de opção". A concepção assistencialista predominou entre as mães entrevistadas. Entende-se que esta concepção por parte das mães prejudica seu envolvimento com a creche, pois, geralmente, esta está associada a uma postura essencialmente passiva. A grande ênfase atribuída à sobrevivência deve ser motivo de atenção daqueles que estão envolvidos com a educação da criança. Questões relativas ao desenvolvimento integral da criança são pouco percebidas quando necessidades básicas não são satisfeitas. Esta expectativa em relação aos serviços da creche pode dificultar o engajamento dos pais em aspectos que estão além de necessidades básicas, o que, por sua vez, pode interferir no desenvolvimento de ações compartilhadas e de co-responsabilidade. Este fato sinaliza que a preocupação e sensibilização para questões referentes ao desenvolvimento integral da criança podem depender essencialmente de ações do quadro funcional da instituição voltadas à família, no sentido de levar informações sobre a criança e a creche (MEIRA, 2004; SWICK, 2003). O desenvolvimento cognitivo recebeu 16% das citações da amostra. Para essas mães, a creche é o espaço de ensino e aprendizagem de conhecimentos lingüísticos, raciocinio lógico, e coordenação motora. Em suas respostas, foi verificada uma associação entre o momento em que a criança se encontra na Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 OPINIÕES DE MÃES SOBRE O ATENDIMENTO NAS CRECHES MUNICIPAIS DE BELÉM 141 creche e o processo de preparação para o ensino fundamental, como pode ser observado nas seguintes falas: "aqui elas aprendem ler e escrever"; "ele aprendeu a coordenação motora"; "aqui ele aprende os números". Essa expectativa acerca dos serviços oferecidos pela creche sugere que, para as mães, a educação da criança ainda está pautada no modelo escolar. Apesar de já haver um aspecto positivo na base subjacente a esta motivação, ela ainda está restrita a uma concepção de creche com função compensatória, o que, como já observado, se opõe aos pressupostos da Pedagogia da Infância (ROCHA, 2002) e, conseqüentemente, à maneira como o conhecimento é entendido na Educação Infantil (MALAGUZZI, 1999). Deste modo, é possível afirmar que a limitação colocada pode colaborar para a dificuldade de entendimento da função educativa da creche, ou seja, a compreensão de que a creche é um espaço de vida, de experiência e não apenas de preparação para a vida, por meio do ensino e aprendizagem de conteúdos do ensino fundamental. A creche como locus de desenvolvimento efetivo recebeu 9% das citações da amostra. Para essas mães, ela é um espaço onde o desenvolvimento afetivo ocorre, por meio de contatos afetuosos entre professora-criança e criançacriança. Ao argumentarem que a creche é um espaço onde a criança desenvolve sua afetividade, percebe-se que a expectativa das mães é de que as professoras ofereçam para a criança o carinho e a atenção, como pode ser evidenciado nas seguintes frases: "lá ela recebe carinho da professora, pois algumas crianças não recebem carinho, porque as mães que trabalham não têm tempo", "pra ele ter amor e carinho, porque eu não tenho tempo. Aqui é a segunda família dele", "a criança aprende a ser carinhosa, porque lá a criança recebe carinho da professora". Estas verbalizações sugerem que a creche é vista como o espaço onde a criança irá receber carinho das pessoas que estão no espaço da creche e conseqüentemente irá manifestar esses comportamentos para com as demais. A creche sendo percebida com função assistencial (voltada para o atendimento de necessidades básicas ou para preparar para o ensino formal ou ainda para o desenvolvimento afetivo) evidencia o que Rosenthal (2000) chama de função compensatória, por meio da promoção do desenvolvimento cognitivo e sócio-emocional. Esta função se opõe à perspectiva de complementaridade que creche e família devem assumir (BHERING e DE NEZ, 2002). A despeito dos fatores subjacentes nas categorias de motivos acima examinados, a discussão sobre a avaliação das mães acerca do atendimento da creche abre espaço para o debate das variáveis envolvidas nos seus julgamentos. Como será visto, a avaliação do atendimento está contida nos parâmetros de assistência. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 Celi da Costa Silva Bahia / Celina Maria Colino Magalhães / Fernando Augusto Ramos Pontes 142 O que pensam as mães sobre o atendimento oferecido pela creche Do total da amostra, todas consideraram o atendimento bom e/ou excelente e justificaram suas respostas em torno de três eixos temáticos identificáveis, a saber: centrado no trabalho das professoras, no oferecimento da alimentação e na educação oferecida às crianças. Os dados revelaram que as mães dão muita importância ao trabalho desenvolvido pelas professoras (41%). Chama a atenção a referência acerca do cuidado que é oferecido às crianças. Para as mães, a creche é boa e/ou excelente porque: "as crianças são bem cuidadas"; "meu filho é bem cuidado"; "elas tratam as crianças muito bem". Por meio das verbalizações é possível perceber que as mães valorizam o fato de as professoras garantirem bem-estar às crianças enquanto permanecem no espaço. Dentre as características do trabalho das professoras destacadas pelas mães, também chama a atenção a referência à relação com os familiares. Para as participantes, a creche é boa e/ou excelente porque as professoras "procuram saber o que acontece em casa"; "se preocupam se a criança gosta da creche"; "querem saber se a criança está se dando bem"; "se interessam pela gente"; "até me incentivou a voltar estudar". Apesar de as mães relatarem aspectos importantes da relação creche/ família, um estudo realizado por Alvarenga et al. (2006) evidenciou que essa relação é limitada ao repasse de informes sobre a criança, nos momentos de entrada e saída da instituição. Fazendo uma analogia entre os dados deste estudo e os resultados encontrados por Alvarenga et al. (2006), percebe-se que, apesar da relação entre creche e familia ser limitada, as mães reconhecem a importância desta relação para o bem-estar do seu filho durante o tempo em que ele permanece na creche, sugerindo assim que elas estão abertas ao diálogo com a creche. Para tanto, a creche precisa desenvolver programas envolvendo as familias, de tal modo que elas possam apropriar-se de conhecimentos necessários à educação da criança e do trabalho desenvolvido na creche. Um segundo componente apresentado pelas mães foi a alimentação, com 30%. Para as mães, a creche é boa e/ou excelente porque "a comida é muito boa"; "aqui eles comem de tudo: carne, fruta, verdura"; "a comida é boa, dão tudo na hora certa"; "eles se alimentam bem"; "têm muitas mães que não tem o que dar de comer para os filhos e a creche ajuda muito". O fato de 71 % das respostas estarem centradas nos eixos temáticos professoras e alimentação reforça o argumento de que o julgamento das mães está voltado principalmente ao atendimento das necessidades básicas. Este dado corrobora o estudo de Cryer e Burchinal (1997). A creche como espaço educativo (28%) foi o terceiro aspecto destacado pelas mães. Segundo elas, na creche "as crianças aprendem, brincam, fazem Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 OPINIÕES DE MÃES SOBRE O ATENDIMENTO NAS CRECHES MUNICIPAIS DE BELÉM 143 coisas que gostam"; "ele aprendeu a conviver socialmente (em casa ele era sozinho)"; "Ele não sabia falar, mas com a convivência ele ta aprendendo a falar". Apesar de esses serem aspectos que fogem aos cuidados básicos, ainda é possível perceber que as principais características do atendimento destacadas são aquelas relativas à preparação da criança para ingressar no ensino fundamental. Poucas foram as falas que destacaram as atividades desenvolvidas, como de brincar e explorar, enquanto atividade que possui um valor em si mesmas, independentemente de qualquer funcionalidade que essas possam trazer. Algumas reflexões podem permitir uma melhor compreensão sobre as opiniões das mães acerca do atendimento oferecido pelas creches. É possível que seus julgamentos sobre o atendimento não estejam pautados no que é oferecido, mas nas suas experiências anteriores e/ou no que gostariam de oferecer às suas crianças. Esta suposição também foi levantada no estudo realizado por Cryer e Burchinal (1997), os quais argumentam que as opiniões das mães podem ser influenciadas por aquilo que elas gostariam de oferecer para seus filhos em casa e pela falta de parâmetros comparativos com serviços de melhor qualidade. Apesar de as mães considerarem a creche como boa e/ou excelente, estudo realizado por Araújo (2004) nas creches municipais de Belém demonstra que essas não apresentavam alguns elementos apontados pelas mães, nem alguns indicadores de qualidade assinalados pela literatura, como qualificação e salário dos profissionais, importância de brinquedos, área livre e, principalmente, as características do processo educativo como interação adultocriança, e atividades desenvolvidas (individuais ou coletivas). Esses dados nos fazem pensar que as características socioeconômicas das mães podem influenciar o julgamento que elas fazem do atendimento da creche, pois o alto grau de necessidade das mães e, conseqüentemente, a falta de opção, fazem com que elas desconsiderem um conjunto de aspectos que estão além das necessidades básicas de sobrevivência. Segundo Cryer e Burchinal (1997), é possível que as mães, devido às características socioeconômicas, não tenham condições para escolherem a creche que desejam para seus filhos, e, conseqüentemente, submetem suas crianças a um atendimento sem fazer exigências. No entanto, para essas autoras, ainda são necessários outros estudos que possam evidenciar a relação das características socioeconômicas nos julgamentos apresentados pelas mães. Os dados sócio-demográficos da amostra, em analogia às razões apresentadas pelas mães para deixarem seus filhos na creche e suas opiniões acerca dos serviços oferecidos, indicam que as condições socioeconômicas das famílias atendidas não podem estar em segundo plano no trabalho desenvolvido pela creche, pois esta representa a possibilidade de superação de Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 Celi da Costa Silva Bahia / Celina Maria Colino Magalhães / Fernando Augusto Ramos Pontes 144 muitas dificuldades enfrentadas pelas famílias, ou seja, além de oportunizar cuidado e educação à criança, ela representa uma possibilidade de inclusão social destas famílias, por meio do ingresso no mercado de trabalho e do usufruto de serviços públicos de educação e saúde, entre outros (MOREIRA e LORDELO, 2002). Considerando o alto grau de idealização das mães em tomo da creche, questiona-se o que deve haver no espaço institucional para que este melhore. Neste sentido, serão discutidas as principais respostas apresentadas pelas mães. Percepção das mães do que precisa melhorar na creche Diante da questão o que precisa melhorar, 17,30% da amostra enfatizaram que na creche há tudo o que é necessário para a criança, sendo assim não falta nada, ou seja, uma parcela das participantes não conseguiu identificar aspectos a serem melhorados na instituição, sugerindo assim muita satisfação com os serviços oferecidos. Das mães que relataram aspectos que precisam de melhorias, os temas tratados obedeceram à seguinte ordem decrescente de citação: a) estrutura física e material, b) estrutura profissional, c) estrutura nutricional, d) atendimento adicional e d) estrutura pedagógica. A estrutura física e material, com (34,20%), foi o aspecto mais citado pelas mães. Elas ressaltam a necessidade de mais salas, mais espaço para brincadeiras, reforma geral na estrutura física do prédio, incluindo construção de banheiros para as crianças. Elas também destacaram a necessidade de diversidade e quantidade de equipamentos, como ventilador, aparelho de televisão e materiais escolares (lápis, papel, cola, tinta). A estrutura profissional, com 20,20% da amostra, foi o segundo aspecto destacado pelas mães. Elas enfatizaram a baixa razão adulto/criança como um elemento que precisa ser melhorado, pois, como as crianças demandam muita atenção, o número de professores por turma não é suficiente para atendê-las com presteza. Além dessa questão, as mães mencionaram algumas características necessárias ao professor, que refletiriam no melhor atendimento às crianças, como paciência, humor, responsabilidade e seriedade. Um outro aspecto citado referente à estrutura profissional foi a falta de médico, dentista e psicólogo. Elas argumentaram que muitas vezes a criança adoece quando está na creche e é preciso chamar a mãe para levá-la ao médico, mas nem sempre ela pode, pois às vezes não está em casa ou já passou o horário de pegar a ficha na unidade de saúde. A necessidade de dentista foi muito destacada pelas mães, principalmente pelo fato de que na unidade de saúde é praticamente impossível conseguir uma ficha para levar a criança. O Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 OPINIÕES DE MÃES SOBRE O ATENDIMENTO NAS CRECHES MUNICIPAIS DE BELÉM 145 psicólogo é outro profissional considerado muito importante no ambiente da creche para acompanhar as crianças e as famílias. A estrutura nutricional foi citada por 10,10% da amostra. As verbalizações das mães sugerem que, para melhorar o atendimento da creche, a alimentação deve ser oferecida de acordo com as necessidades da criança, tanto em quantidade como em qualidade e regularidade. As mães também indicaram, na mesma proporção (10,10%), a importância de atendimento adicional como um aspecto relevante para melhor atender à criança que vive na creche. Nesse eixo foi citado o atendimento em tempo integral, remédio, bolsa escola, apoio da prefeitura, entre outros aspectos. A estrutura pedagógica foi o aspecto menos citado (8,10%) para melhorar o atendimento às crianças. No entanto, as mães verbalizaram a necessidade de ensinar as noções dos conteúdos do ensino fundamental e a inclusão de atividades esportivas, culturais e brincadeiras, não somente em ocasiões eventuais, mas como parte da rotina das crianças. Essa questão, como pôde ser verificado, possibilitou revelar aspectos não identificados anteriormente. A despeito de uma parcela dos entrevistados (17,30%) não indicarem nenhum aspecto a ser melhorado, uma parcela expressiva (82,70%) destacou elementos que precisam de melhorias. Nos aspectos levantados, pode-se perceber um gradiente que vai de aspectos mais estruturais (estrutura física e material, estrutura profissional, estrutura nutricional), passando por aspectos ligados às características do processo (estrutura pedagógica) até aspectos que irão contribuir com a melhoria da qualidade de vida das famílias (atendimento adicional). Aspectos relacionados às características do processo indicam que uma parcela dos participantes percebe o papel educativo da creche como além da assistência. Contudo, na categoria atendimento adicional, ainda é possível perceber um vínculo com as necessidades básicas mais prementes da família e na estrutura pedagógica percebem-se aspectos que revelam a associação da educação infantil com o ensino fundamental. Assim, podemos interpretar que a opinião das mães acerca dos aspectos que precisam de melhorias está associada às circunstâncias do grupo investigado, como assinalam Dahlberg, Moss e Pence, (2003) e Pioto et al, (1998) que completam a análise destacando que essas opiniões estão baseadas em valores, crenças e interesses. Com base nos dados encontrados neste estudo e nos pressupostos do modelo ecológico de Bronfenbrenner (1996), compreende-se que a parceria entre o micro (família) e mesossistema (creche) poderá contribuir em diferentes direções. A família será beneficiada com um conjunto de informações que irão auxiliá-la na educação dos seus filhos e a creche poderá contar com a Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 Celi da Costa Silva Bahia / Celina Maria Colino Magalhães / Fernando Augusto Ramos Pontes 146 contribuição dos familiares de maneira direta no seu espaço, e indireta por meio da contribuição desses no processo educativo das crianças. Por fim, contribuirá para a melhoria dos serviços oferecidos à criança e conseqüentemente com o seu desenvolvimento, que é o fim último da creche de qualidade. Considerações Finais Os dados sugerem a existência de uma relação entre os fatores que levam as mães a deixarem seus filhos na creche e suas opiniões acerca do atendimento. Uma vez que a sobrevivência é um dos principais motivos de a criança ir para a creche, as mães apresentam como justificativa para o conceito bom e/ou excelente o atendimento das necessidades básicas da criança. Houve, no entanto, incongruência entre a atribuição do conceito bom e/ou excelente e os aspectos que precisam de melhoria, pois um percentual significativo da amostra apresenta aspectos estruturais, pedagógicos e ainda políticas públicas voltadas à família que precisam de melhorias. Uma possível explicação para a incongruência entre a opinião das mães acerca dos serviços e os aspectos que precisam de melhorias é o desconhecimento dos direitos da criança e da família à creche de qualidade, o que leva ao distanciamento entre o quadro funcional (principalmente gestores e educadores) e os responsáveis (mães e familiares). Esse distanciamento só deixa duas opções para os usuários: resignam-se com o atendimento e acham-se gratos pelo pouco oferecido ou se colocam em uma posição de cobrança sem participação. O envolvimento em direção à co-participação, co-responsabilidade, implica a resolução de problemas de comunicação, circulação de informações e, conseqüentemente, maior cobrança de ambas as partes. Significa dizer que a integração entre creche e família não é uma "opção extra" que a creche poderia ou não ter. Tal integração possibilitará a promoção de situações de aprendizagem e convivência que vão ao encontro das necessidades e demandas da criança e de ambas as instituições. Com base neste estudo é possível afirmar que para a construção da qualidade da creche é necessário haver ações voltadas para o espaço interno dessa instituição, mas também políticas públicas voltadas para a família, no sentido de possibilitar aos seus membros o acesso a informações sobre a questão do desenvolvimento da criança, dos direitos e deveres da família e também dos direitos da criança como cidadã. Além destes, é necessário informar o que a creche deve oferecer para que esse desenvolvimento ocorra. Se os pais conhecerem o que as crianças precisam para o seu desenvolvimento, provavelmente eles irão tomar-se mais exigentes e reivindicarão creches com melhor padrão de qualidade. Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 OPINIÕES DE MÃES SOBRE O ATENDIMENTO NAS CRECHES MUNICIPAIS DE BELÉM 147 Referências bibliográficas ALVARENGA, Eric; CAVALCANTE, Claudia; CRUZ, Alane; MAGALHÃES, Celina e BAHIA, Celi. Comportamento de educadoras de creche na entrada e saída dás crianças. In: Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 2006, Florianópolis, Se. ARAÚJO, Marcelo. Avaliação da qualidade de berçários municipais. 2004. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, PA, 2004. BHERING, Eliana; DE NEZ, Tatiane. Envolvimento de pais em creche: possibilidades e dificuldades de parceria. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 18 (1), 63-73, 2002. BRASIL, Lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990. Estatuto da Criança e do Adolescente. Diário Oficial da União, livro I, capítulo II, art. 16. BRASIL, Lei nº. 9394, de 20 de dezembro de 1996. (1996 23 de dezembro). Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 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Ver a educação, Belém, v. 11, n. 1 e 2, p. 233-248, jan./dez., 2005 ORIENTAÇÃO PARA APRESENTAÇÃO DE ORIGINAIS São aceitos para publicação na Revista ver a Educação trabalhos inéditos de autores nacionais e estrangeiros, podendo ser resultados de pesquisa em educação e áreas afins, artigos teóricos e de revisão, comunicações, relatos de eventos científico-profissionais e resenhas de livros de destaque. Dedica-se uma seção a eventuais traduções e outra, a comunicações breves. I. Apresentação dos manuscritos - o que considerar 1. Os artigos originais devem ser escritos, preferencialmente, em português; encaminhados ao Comitê Editorial em duas vias impressas em papel tamanho A4, com uma cópia em disquete, digitada em corpo 12, Times New Roman, espaço 1,5 e margens: superior 3cm; inferior 2,5cm; esquerda 4cm; direita 2cm. Na impossibilidade de utilização das formas citadas, os artigos podem ser enviados por e-mail. Pode-se utilizar qualquer processador de texto conversível ao padrão Word for Windows. Deve-se evitar a utilização de recursos especiais de edição na cópia em disquete, como macros, justificação, recuos, hifenização e outros, bastando apenas a mudança de parágrafo. As figuras, tabelas e demais ilustrações devem ser numeradas e tituladas corretamente, além de citação das fontes que lhes servem de base; devem, ainda, ser apresentadas em folhas separadas do texto, com a indicação, neste, dos locais em que serão inseridas. O autor é o primeiro revisor do texto de seu artigo; assim, recomenda-se que ele se assegure quanto ao mínimo de erros, como os relativos à digitação, à falta de corres-pondência entre as referências inseridas no texto e as indicadas na lista final, etc. 2. Devem ser apresentados na Página de Rosto Identificada: a) o título do artigo; b) o(s) nome(s) completo(s) does) autor(es); c) a(s) filiação(ões) institucional(is); d) a titulação does) autor(es) e área(s); e) o endereço completo para correspondência: eletrônico (e-mail) e/ou endereço fixo (além de telefone, fax para localização rápida does) autor(es) pelo Comitê Editorial). Somente nesta parte deve estar identificada a autoria do artigo. 3. Devem ser apresentados na Página de Rosto sem Identificação: o título e o resumo em português, bem como o título e o abstract em inglês, devendo ainda: a) haver o máximo de 250 palavras no resumo, em espaço simples; b) ser o abstract uma tradução do resumo em inglês; c) haver de três a cinco palavras-chave no resumo (e número correspondente de key words no abstract como tradução das palavraschave em inglês); 4. Os artigos originários de pesquisa e os teóricos ou de revisão devem ter o máximo de 25 páginas, incluindo o texto, figuras, tabelas, referências e anexos. Comunicações, relatos de eventos e resenhas não devem exceder 5 páginas. 5. A inserção das referências bibliográficas ao longo e no final do texto deve obedecer às especificações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), sempre tendo em conta a revisão mais atualizada. A consulta à ABNT deve antecipar o envio do trabalho para publicação, quanto à observância dos detalhes de apresentação das citações relacionadas a todos os tipos de trabalhos relevantes. A Revista enfatiza a utilização do seguinte procedimento: a) usar letras maiúsculas de todo o sobrenome de autores citados no corpo do texto, quando inseridos entre parênteses, e na lista de referências bibliográficas (final do texto); b) evitar o uso do "e" comercial (&) para associar um ou mais autores quer no texto quer na lista de referências; c) destacar em itálico termos e expressões latinos e os pertencentes a idioma diferente daquele em que o texto for escrito; destacar em negrito termos e expressões que o(s) autor(es) deseja enfatizar no texto; d) destacar no texto, com margem esquerda recuada a 4crn, em espaço simples, sem itálico e sem aspas, o conteúdo de citação literal de autor que ultrapassar três linhas, indicando a página após o ano de citação ou em local imediatamente anterior a esta; e) inserir notas em rodapé da página do texto. II. Avaliação dos manuscritos - como proceder Desde que atendam às modalidades de trabalho indicadas acima, os manuscritos passarão pelo seguinte procedimento: 1. Encaminhamento para a emissão de parecer por membros do Comitê ou da Comissão Editorial da Revista e/ ou consultores ad hoc. 2. Recepção dos pareceres favoráveis à publicação (com ou sem modificações) ou desfavoráveis. a) No caso do parecer favorável, com modificações, o(s) autor(es) será(ão) informados das alterações e do prazo para serem contempladas (será enviada cópia de cada parecer ao(s) autor(es), sem identificação do seu emitente, salvo se houver alguma autorização expressa do consultor quanto à identificação). b) No caso do parecer favorável, sem modificações, o Comitê Editorial poderá, se necessário, introduzir pequenas alterações para efeito de padronização adotada pela Revista. c) Sendo o parecer desfavorável o(s) autor(es) será(ão) informado(s) e solicitado(s), caso queira(m), a rever e re-submeter o manuscrito à Revista; o texto, entretanto, somente lhe(s) será devolvido, após solicitação expressa. 3. Utiliza-se o sistema blind review no processo de avaliação do manuscrito pelos consultores, preservando a identidade destes e does) autor(es). 4. Sempre caberá à Coordenação do Comitê Editorial, ou a ambos, a decisão final relativa à publicação ou não do manuscrito. III. Direitos autorais Os artigos submetidos à Revista Ver a Educação constituem uma forma de colaboração, sendo assim, reservados a esta os direitos autorais. A reprodução total ou parcial do texto deverá ser antecedida de autorização por escrito does) Editor(es). O autor principal e os co-autores, cujos textos forem publicados, receberão um exemplar do fascículo. IV: Encaminhamento Os manuscritos deverão ser encaminhados para Coordenação do: Comitê Editorial da Revista ''Ver a Educação" Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Pará CAMPUS UNIVERSITÁRIO DO GUAMÁ, RUA AUGUSTO CORREA, 001 SETOR PROFISSIONAL CEP: 66075-110, Belém/PA V: Contato Fax: (91) 3201-7648 Telefone: (91) 3201-7705 E-mail: (1) mgalvao@ufpa (2) [email protected]