e m ó r i a A B E n Fotos: Reprodução do livro Associação Brasileira de Enfermagem, 1926 - 1976, Documentário M Encerramento do II Congresso Nacional de Enfermagem, Rio de Janeiro, 1948 X Congresso Quadrienal do Conselho Internacional de Enfermeiras, Rio de Janeiro, 1953 O saber/conhecimento profissional na Comentários sobre momentos decisivos na trajetória histórico-evolutiva (Continuação da edição anterior) Em relação à gênese e andança do saber/conhecimento profissional na Enfermagem Brasileira, cabe destaque ao fato de que, estando já a EEAN em seus novos assentamentos universitários (inserção na Universidade do Brasil), emergem com mais pregnância a influência dos resultados tangíveis à cultura. Influência que se manifesta – na dimensão da Enfermagem – com o demarcador dafilosofia feminista e se reveste de significados na concentração de temas sociais, relevantes à época. Estava em foco na ordem do dia a “questão da mulher” e na qual marca presença, nessa realidade, a Enfermagem Brasileira, conforme atesta a correspondência entre a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e a EEAN em favor do desarmamento universal e de outras iniciativas de interesse da mulher na sociedade (CEDOC/ EEAN, Doc. 30 CX 39 Ano 1931). Contrariando os temores de Bertha L. Pullen e graças aos esforços das enfermeiras pioneiras, em seu novo assentamento, a Escola de Enfermagem Anna Nery passa a constituir-se em instituição de ensino no sistema universitário. Pode-se dizer, alcança mais proeminência e se investe de concentração em temas sociais, relevantes à época. Era o tempo de luta da “mulher” e a Enfermagem marca sua presença ao ingressar na Universidade do Brasil com o curso de Enfermagem, e nele, a presença de alunas, domínio absoluto de mulheres, ao lado da nova incumbência de ministrar o Curso de Serviço Social, este inicialmente só para mulheres. Além de fortalecer a imagem da entrada da mulher na universidade, o que, à época, constitui-se raridade, diante da realidade de serem profissões femininas, a Enfermagem e o Serviço Social estavam então expandindo na universidade, novas frentes de embates, destacando a imagem da mulher, enquanto em outros segmentos da sociedade desenvolviam-se os movimentos e a liderança de Bertha Lutz discutindo em favor da condição configuram, para a Enfermagem, o reconhecimento de emancipatória da mulher. Na universidade, ao lado da seu processo de pesquisar no campo científico. Então, educação, este tema cultural foi apreciado e cultivado conforma-se aí a arrancada (impulso) inicial em prol um relacionamento entre essa liderança do movimento da pesquisa científica. Os demais impulsos corresponfeminista e as lideranças desses cursos, compondo desse dentes a grandes mudanças na trajetória do saber/comodo, uma importante expressão social, de influência nhecimento vieram com os avanços dos estudos de póspara o saber/conhecimento acerca de valores sociais e graduação, as incursões em projetos integrados de pesquisa questões de gênero, atualmente tão e as publicações científicas, o ensiestudados em instâncias da produno de metodologia da pesquisa mbora a pesquisa ção científica. como disciplina inserida na formana enfermagem Os Congressos de Enfermagem ção profissional desde Currículo subseqüentes foram em pouco tempo de Graduação em Enfermagem, venha realizados com eixo fundamental na o requisito de trabalho científico acontecendo, produção científica, nos debates, nas como condição ao término do cutrocas de informações entre atores da rso (TCC), a composição de Gruampliando e liderança profissional que aquilatapos de Pesquisa registrados como aprofundando o saber/ vam o desenvolvimento científico da tal, em órgãos de fomento e ampaprofissão, em novas tendências temátiro à pesquisa. Enfim, todo um conhecimento, a crítica cas, bem como nos passos do refinaencontro com a qualificação mento teórico-metodológico que foi acadêmica mediada pela pesquisa, volta-se agora para o se instalando, e já deixando ver a base mais decisiva no esforço atual de requerimento de uma para o marco das pesquisas na Enfercomunicação em rede. magem(BARREIRAS,1979).No final Uma outra marca do saber/ produção científica da década de 1950, o Levantamento conhecimento profissional defineconsistente com os de Recursos e Necessidades de Enfermase com a Programação Científica gem destaca-se como primeira pesdos Congressos Brasileiros de parâmetros da própria quisa desenvolvida sob a responsabiliEnfermagem “(...) reputados como ciência dade da ABEn, e sob a liderança e uma das realizações mais imporcoordenação de Haydée Guanaes tantes... constituem a fonte de Dourado com uma equipe de pesquisadoras e o apoio inspiração do desenvolvimento da Enfermagem como das Escolas de Enfermagem. Trata-se de um survey, profissão, e dos enfermeiros como cidadãos úteis à mas deflagra nova condição para a profissão de sociedade...” (CARVALHO, 1976). E então, pode-se Enfermagem. A sistematização, o rigor metodológico, considerar que desde o I Congresso Nacional de o tratamento dos dados, a descrição qualitativa, a inter- Enfermagem, realizado por iniciativa da Associação pretação diagnóstica dos recursos e das necessidades (ABED) - Seção São Paulo, na Escola de Enfermagem ABEn out.nov.dez.2003 19 M e m ó r i a A B E n Sala de aula da Escola de Enfermagem Anna Nery da USP, como um marco de impulso para a construção científica na Enfermagem Brasileira. O referido Congresso adotou um lema: “Elaborar, em conjunto, um programa eficiente de Enfermagem, visando o desenvolvimento da profissão num plano elevado”. Constam dos registros e na pauta do Congresso um programa científico entregue a grupo de alta responsabilidade, e tanto nesse I Congresso, como nos próximos tal programa esteve a cargo das Divisões de Educação e de Saúde Pública. O significado dado ao próprio Congresso, estampa-se nos temas de cultura e realidade de saúde pública da época, bem como nas Resoluções pertinentes. Neste Congresso inaugural, dentre as Resoluções estabelecidas, estão: criação do Conselho Nacional de Enfermagem, a inclusão da disciplina Enfermagem Psiquiátrica nos Currículos das Escolas de Enfermagem, e a criação de Cursos Especializados em nível universitário para EnfermeirasChefes e Supervisoras, e o convite do ICN/CIE para a realização de Congresso Internacional de Enfermeiras no Brasil (1953). Esse Congresso foi, além do mais, uma inspiração valiosa para agregar os enfermeiros em torno do saber/conhecimento profissional de enfermagem, e para concretizar um locus demarcador de exposições do que se produz e, no âmbito do processo evolutivo, de debates apropriados ao interesse político-científico e cultural da profissão no Brasil. Assim, com os Congressos, as enfermeiras puderam antever/antecipar mudanças tangíveis à socialização da produção científica. Com efeito, através do “saber-que-sabia”, a Enfermagem aprendeu que podia “saber mais”. Contudo, embora a pesquisa na enfermagem venha acontecendo, ampliando e aprofundando o saber/ conhecimento, a crítica volta-se agora para o requerimento de uma produção científica consistente com os parâmetros da própria ciência, ou seja, rigor metodológico, porquanto o processo científico na enfermagem carece de culminar-se por provas e evidências, principalmente se avaliado por métodos mais avançados e utilizados em outras áreas de pesquisa. Isto é, continuamos ainda investindo na enfermagem a partir de bases reconhecidamente científicas, posto que a pesquisa é agora encarada como um instrumento científico de rigor, capaz de assegurar validade e confiabilidade aos resultados de estudos realizados e possibilitando um saber/conhecimento profissional passível de revisão, aprofundamento e reconsideração, pois ainda precisamos atender à especificidade do conhecimento produzido. Mas é inegável que a pesquisa está acontecendo. As tendências atuais apontam para a necessidade de ampliar o espectro do saber/conhecimento profissional. Em que pese a valorização da produção científica na enfermagem, sabemos que a pesquisa favorece, também, o anseio de crescimento da própria categoria profissional. No entanto, a crítica volta-se, ainda, para o requerimento de uma produção mais refinada e conformada à autonomia nas fronteiras do campo epistêmico (campo da ciência). As evidências são necessárias ao reconhecimento em plano de intercâmbio de idéias pela comunidade científica e, principalmente, porque o conhecimento produzido vem ABEn 20 out.nov.dez.2003 Foto: Reprodução do livro A Escola de Enfermagem Anna Nery, sua história - nossas memórias (Continuação da página 19) , Laboratório de Física e Química da Escola de Enfermagem Anna Nery criando expectativas acerca da Enfermagem como ciência em construção. Ao buscar estabelecer uma verdade e explicar sua trama como um dever, isto nos põe diante de uma aproximação com o que ora se chama “gênese do saber em Enfermagem”, então expressada em pergunta historicista a qual encontra resposta possível na reorganização de fatos projetados num itinerário buscado em documentos – matriz; com esta transversalidade, com diferentes ritmos, esta trama histórica revê saberes construídos, vinculados no nascedouro da Enfermagem brasileira e traduzido em positividades ou seja, conjunto de condições segundo as quais se elaboram esses saberes, suas práticas, seus cenários de origem – a Escola de Enfermagem Anna Nery e a Associação, hoje denominada Associação Brasileira de Enfermagem. Lygia Paim Doutora/Docente Livre UFRJ. Professora de Metodologia da Pesquisa de Graduação em Enfermagem e Articuladora da Pesquisa da Universidade do Vale do Itajaí - UNlVALI/Biguaçu, Santa Catarina Vilma de Carvalho Professora Emérita - EEAN/UFRJ. Pesquisadora do CNPq Jussara Sauthier Doutora em Enfermagem - EEAN/UFRJ. Professora adjunta/UFRJ (Aposentada)