RAQUEL SANTANA SANTOS (UNICAMP) ABSTRACT: Este trabalho visa observar 0 papel dos filler-sounds na lala da crianc;a enquanto preenchedores do ritmo, no processo de aquisic;iio da linguagem. KEY WORDS: ritmo, aquisi~ao da linguagem Na ultima decada aumentaram substancialmente, na area de aquisi~ao da linguagem, trabalhos que dao maior importilncia aos aspectos pros6dicos, tanto do ponto de vista da produ~ao quanto da percep~ao. Este trabalho pretende fazer uma breve analise daqueles sons inintelig!veis das primeiras verbaliza~oes, levando em conta sobretudo os tra~os pros6dicos da entona~ao e do ritmo. Para Cruttenden (1986), sob 0 nome generico de entona~ao encontramos os tra~os de altura, dura~ao e intensidade. A dura~ao diz respeito ao tempo em milisegundos de uma sfiaba ou de um nUmero de silabas sucessivas, considerada em termos relativos. A intensidade diz respeito as mudan~as de volume dentro de uma sfiaba ou ao volume de um nUmero de silabas sucessivas. Por tim, a altura, que diz respeito a vari~ao da frequencia da voz. a ritmo, de acordo com Cruttenden, e uma forma de combina~ao de silabas, que pode ser baseada na for~a, no acento ou na dura~ao, sendo que esses tra~os podem ser combinados. A extensao de um trecho de enunciado que vai de uma sfiaba acentuada mais forte ate outra e chamada de gropo rftmico. as gropos rftmicos podem variar de acordo com a organiza~ao dessas sfiabas fortes e fracas, longas e breves. Da combina~ao dessestra~os pros6dicos e de· algunsoutros, as· lfnguas constroem matrizes entonacionais que terao sentido dentro do sistema lingufstico do adulto e serao aprendidas pelas crian~as. Esta aquisi~ao das matrizes entonacionais parece nao ter ordem fixa, somente fortes tendencias, ainda nilo explicadas. Scarpa (1988) mapeou 0 sistema entonacional de uma crian~a, Tiago, em sua ordem de aquisi~ao, e diz que: "A configurac;ao intonacional de algumas sequencias padronizadas parece ser embriontiria dos primeiros contornos que constituem sistemas de oposic;iio intonacional em lases posteriores." { op. cit.: 79 } os a que nos interessa ais de perto e que a crian~a, enquanto esta aprendendo essas matrizes tonais, tambem nao tem dominio da' parte segmental de sua Hngua, e surgem em suas emissoes alguns sons ininteligfveis que preencbem os esp~os da matriz entonacional que a crian~a extraiu da fala do adulto. Para Scarpa (1993) fllier-sounds silo esses sons (segmentos ou sflabas) ininteligfveis combinados com "peda~os~'desenten~as do adulto. Em seus mais recentes estudos, a autora propoe a divisilo dos filler-sounds em dois grandes grupos: os iniciais e os mais tardios. Os filler-sounds iniciais silo aqueles que preencbem grupos tonais, e se caracterizam pelo fato da parte segmental servir de apoio ao grupo tonal, ocorrendo tanto no infcio, como no meio ou final dos enunciados, durante a faixa etatia recoberta par essa amllise. Os filler-sounds mais tardios silo aqueles que dao suporte ao ritmo, Silo vogais combinadas com formas verbais ou nominais (que dilo a impressilo de conhecimento pr6vio da estrutura sintAtica)ou formas de ajustamento pros6dico (assim como repeti~ilo, falsos com~os, redu~ilo ou inser~ilo de sflabas). Analisando os dados de Tiago, que mostram senten~as que formam p6s m6tricos como jAmbico (u -) e anapesto (u u -), Scarpa chega a conclusilo de que nosso sujeito projeta a estrutura m6trica do grupo rftrnico (que tem sua proeminfulcia de dura~ilo, intensidade e frequencia, em portugues, a esquerda) na estrutura de acento de palavra do sistema lingufstico do adulto (que tern esta proeminencia a direita). Tiago trabalha com as unidades lingufsticas partindo das unidades pros6dicas"maiores"(rnais amplas, que abrangem toda a senten~a) para as "men ores" (que cbegariam ate a for~a acentual das sflabas dentro das palavras) dentro do sistema lingufstico. Ele lida inicialmente com os grupo.s rftmicos, como se eles correspondessem as regras de acento de palavra do sistema lingufstico do adulto, que estilo num "nive!" mais baixo nesta cadeia (ScarPa,1993). ; .. Os dados de Tiago analisados por Scarpa recobrem a idade de 1;6 a 2;2. Minha hip6tese 6 que, posteriormente, esses sons ininteligfveis chamados de iniciais por Scarpa desaparecem enquanto preenchedores de matrizes entonacionais; por~m, os filler-sounds mais tardios, cuja fun~ilo era garantir padr5es rftmicos, tomarn uma outro fun~ilo. Os dados analisados parecem demonstrar que a crian~a jA come~a a fazer um trabalbo de anAlisesobre esses sons de modo que eles possarn assumir as fun~5es que tern enquanto constituintes gramaticais no sistema lingufstico do adulto. No entanto, esse trabalho da crian~a nilo 6 til.osimples como se imagina; 6 como se ela passasse por vAriaship6teses sobre 0 que silo esses sons mais tardios at6 chegar a uma conclusilo que seja compatfvel com 0 uso que deles faz 0 adulto falante. No sistema lingufstico do aduito, esses sons, chamados de artigos, silo usados para determina~ilo, deixis, desfazer' arnbiguidades, enfatizar urn termo (PalAcio & Oliveira & Araujo & Silva, 1989), entre outros. Nos dados de nosso sujeito, a Unica fun~llo que aparece 6 a de determin~llo, 0 que mostra que ele faz um uso superficial do artigo, nao tendo um conhecimento gramatical maior que Ihe permita outros usos, como faz 0 adulto. Ele ainda testa suas hip6teses sobre quais podem ser as fun~5es desses sons no sistemalingufstico.Al6m do que, esses sons sempre aparecem com 0 mesmo tom em Tiago (0 tom que se superextende 6 0 denorninado 6T - ascendente m6dio a alto, com um movimento descendente opcional na Ultima sflaba, acentuada ou nao; sflabas pr6-nucleares baixas que favorecem o aparecimento dos filler-sounds [Scarpa, 1988]), 0 que parece indicar que, ao menos no infcio, a crian~a lida com os tons e os filler-sounds como um amalgama, e que s6 mais tarde irA separA-los.Ao mesmo tempo em que a crian~a usa esses filler-sounds para preencher os pts mttricos, dar suporte ao ritmo, ela trabalha com hip6teses sobre quais serao as fun~oes categoriais desses sons no sistema lingufstico do adulto, 0 que corrobora a visao de Scarpa de que as estrutura~oes entonacionais nao sao anteriores ao ltxico e a gramatica, mas concomitantes a eles, e de que a pros6dia nao t evidet1ciade conhecimento prtvio da linguagem pela crian~a. Os dados selecionados aqui fazem parte da fala de um dos sujeitos do Projeto de Aquisi~ao da Linguagem do IEL - UNICAMP - Tiago, cuma fala foi gravada no periodo de aproximadamente 0;11 a 5;00 anos, transcritos com base no IPA. A anAliseestAdividida em duas fases: a primeira que observa 0 recorte da fala do adulto pela crian~a, 0 uso dos filler-sounds (iniciais e mais tardios) e a possivel categoriz~ilo gramatical desses filler-sounds mais tardios num estAgio posterior; e a segunda, que trata dos filler-sounds mais tardios conforme a proposta de Scarpa (1993) para os mesmos, observando 0 que ocorreu com os filler-sounds mais tardios e qual a fun~ao que eles estilo tendo na fala de nosso sujeito. Conforme Peters (1977) e com 0 que mostram nossos dados abaixo, a crian~a faz recortes do tluxo da fala do adulto que nem sempre correspondem as palavras do sistema lingufstico do adulto. Muitas vezes os enunciados das crian~as compreendem partes de uma palavra, blocos de mais de uma palavra, palavras com inser~oes de sons nao esperados ou uniao de partes de vAriaspalavras do adulto: Para Peters, a import&nciado ritmo como fator para recorte da fala do adulto t exemplificada principalmente pelos place-holders (que estariam guardando lugar para constituintes gramaticais posteriores e mantendo 0 ritmo do bloco). Nossos dados mostram um outro extremo do recorte pelo ritmo: se a "unidade" a ser recortada 0 extrapola.,a crian~a extrai somente peda~os dessa "unidade" de forma a preencher esse ritmo. No entanto, 0 trabalho da crian~a na extr~ao de suas "unidades" parece nilo parar ai. Seu trabalho nao t simplesmente retirar uma "palavra" do tluxo de fala do adulto e usA-Ia com um significado pr6prio, mas tambtm retirar um "bloco" que se encaixe no pe metrico, no ritmo que estA utilizando. Por isso e que sac possfveis dados como: Como estudado por Scarpa (1984), nessa idade ocorre na fala de Tiago urna super-extensao de urn dos tons. 0 que parece ocorrer e que nesso sujeito recorta 0 fluxo de fala do adulto dirigido a ele de forma a preencher esse gropo tonal. Pode acontecer desse recorte acabar por retirar partes de palavras do adulto - tais como nos dados 1 e 2. Pode acontecer tambem do sujeito extrair somente algumas partes das palavras de seu interlocutor, ou por outro lado, acrescentar sons de modo que suas "sentencas" se encaixem em sua matriz entonacional - dados 3,4,e 5: M.Fecha! Suco M.: Nao! Suco aqui. (1;8.20) E interessante notar nesses dados que a crianca produz esses sons mesmo que nao os encontre na fala do adulto - como e 0 caso do dado 5. Tomando como exemplo para anlllise somente a parte da entrevista em que ela produz a palavra "suco": sed licito acreditar que mesmo a crianca tendo ouvido essa mesma palavra do adulto sem estar acompanhada por determinantes ela acabe por recorrer a sua mem6ria quando alguma vez ouviu a palavra em questao antecedida por urn determinante? Ou serA que a partir de urn conhecimento previo da linguagem ela preencheria sempre esses espacos? Observando os dados desse mesmo sujeito cerca de dezesseis meses depois, vamos encontrar alguns fatos interessantes a respeito de seu uso dos determinantes: 7.£ 8. deresaw dw I onibtls £ aki P.: TAIAdentro. Dir~ao azul E esse grande aqui ? 11. 'kaXU 12.u kami )l.aw pay Nao e possivel encontrar nos dados os place-holders com a frequencai com que eram esperados. Quando quer chamar a aten~ao de seu interlocutor, topicalizar, especiflcar algo no meio de outros, nosso sujeito usa esses sons, mas quando ja fez esta determina~ao na interlocu~ao, ele nao os utiliza mais (dados 12 e 14). Alem desse fato, observa-se que essa e a 6nica fun~ao que esses sons tem para Tiago. Ele nao os utiliza para com nenhuma outra fun~ao que estes tem no sistema lingufstico do adulto (como ja mencionado: enfase, debus, conhecimento previo...) Uma hip6tese sobre 0 assunto ve nesses sons ininteligiveis da crian~a preenchedores de lugar de modo que a matriz entonacional seja preservada. De acordo com Crystal (apud Scarpa 1988) M cinco estagios na aquisi~ao da pros6dia, e no quartg estagio "fixa-se uma matriz entonacional estavel, normalmente restrita a certas seque.ncias segmentais variaveis" (1988: 66). Fixada essa matriz, a crian~a deve preencM-la quando de suas enuncia~oes. Se a palavra que ela toma do adulto extrapola sua matriz, ela faz um recorte na mesma, selecionando 0 que para ela e mais significativo - a sflaba mais forte ou mais longa. Sao decisoes que a crian~a tera que tomar, e que fogem do escopo desse trabalho analisar quais sao. Se seu enunciado nao preenche toda a matriz entonacional, a crian~a vai usar de meios para preencM-lo. E assim que ela faz usa de repeti~oes ou de sons ininteligiveis. Admitindo-se que esses sons ininteligiveis aparecem para preencher a matriz entonacional, nao M dificuidades em entender a presen~a dos mesmos e seu desaparecimento (dos filler-sounds iniciais) posterior. Os fIller-sounds surgem para preencher a matriz entonacional e, posteriormente, com a reorganiza~ao dos gropos entonac"ionaise 0 amadurecimento fonol6gico, eles aGabampor desaparecer. Tiago faz, concomitantemente, dois trabalhos com esses sons:ele procura dar significado aos mesm.os,e os utiliza de modo a preencher os pes metricos de sua fala. Os filler-sounds, enquanto preenchedores de pes metricos, ocupam as posi~oes fracas e nao proeminentes do gropo tonal (Scarpa, 1993). Como se pMe observar em nossos dados, os fIller-sounds aparecem, no tom super-extendido 6T, em posi~oes de sflabasfracas, nao nucleares. As repeti~oes de sons teriam a fun~o de garantir 0 "tamanho" do enunciado, de forma que ele preencha 0 pc metrico que esta sendo utilizado (dado 3). Dirigindo nossa aten~aopara pares de dados como 8 e 9, 10 e 13, 12 e 14, percebemos que Tiago ora usa os filler-sounds, ora os deixa de lado, conforme 0 p6 m6trico que estAutilizando. Nosso sujeito ja tern mais liberdade para trabalhar com esses sons e os utiliza conforme sac necessarios dentro do ritmo. Tiago nllo esta trabalhando com os acentos de palavra, mas com 0 ritmo, e 6 por isso que aida faz uso dos filler-sounds, conforme altere 0 ¢ m6trico·utilizado. Tomando para analise os dados 10 e 13, percebemos no dado 10 que Tiago estAutilizando-se do jAmbicocomo p6 m6trico de sua enuncia~llo: 3u a pay ma 'I.l U a 3a ta ma pay Tiago ffiuda 0 ritmo que esta utilizand-o e insere 0 filler-sound conforme a necessidade que sente em preencber 0 ritmo escolhido. . 0 que os dados parecem indicar 6 que nllo M uma continuidade entre os fillersounds e os constituintes gramaticais que se seguem em alguns lugares onde os primeiros aparecem. Tiago parece ter todo urn trabalho de analise sobre esses constituintes, que,ao menos nesse momento, parece nao ter a fun~ao plena com que silo usado~ no sistema lingufstico do adulto. Tiago faz uso dos filler-sounds quando modifiCa 0 p6 m6trico de seus enunciados e eles nllo se encaixam neste p6 - como parecificar claro em dados em quue M quase que urna repeti~llo do enunciado e, no entanto, 0 f1ller-sound nllo aparece nas duas enuncia~5es Foi possivel observar atrav6s desta analise que os filler-sounds iniciais (dados 1 a 7), que preenchiam os tons, desaparecem na fala da crian~a, quando ja com 3 anos. Os filler-sounds mais tardios continuam, mas preenchendo os p6s m6tricos. Tal conc!llsao corrobora a visao de Scarpa (1993) sobre os filler-sounds, sua divisllo e fun~ao na aquisi~iloda linguagem pela crian~a. . AI6m desse fator mais "pros6dico", 6 possivel observar que a crian~a vai com~ar a fazer uso dos filler-sounds mais tardios procurando dar-lhes urn significado (0 que nao significa que eles serllo guardadores de lugar). A crian~a, ao repetir urn enunciado, mudara 0 ritmo e acrescentara ou eliminara os filler-sounds, tratando 0 ritmo eesses sons como urna unidade. Isso a levara a fazer hip6teses sobre qual 0 papel desses sons no sistema lingufstico do adulto, e 0 que nossos dados parecem demonstrar 6 que ela cbega a conclusilo de que eles silo utilizados para individualizar algu6m, alguma ~ao ou algum objeto para 0 adulto. Essa bip6tese sera aos poucos reformulada quando a crian~a perceber que a funyao que ela esta conferindo a esses sons nem sempre corresponde ao uso do adulto (POl exemplo 0 usa do artigo como enfase), e acabar~ fazendo com que ela modifique sua hip6tese sobre eles ou suprima-os de sua tala (no caso do uso de artigos como substantivador de verbos, fun~ao que s6 apareced num est~gio muito posterior). A crian\(a abandonar~ sua hip6tese em favor de outra, ao mesmo tempo que uma maior maturidade de seu sistema lingufstico a tara utilizar os diferentes pts IIlttricos sem ter de recorrer aos ftller-sounds para preencM-los. GEBARA,E.M.S. (1984) The development of intonation and dialogue process in twobrazilian children (tese de doutorado in6dita) University of London pALACIO,A. & E.M. OLIVEIRA & G.M.L. de ARAUJO & I.M. SILVA (1982)"0 artigo:normas e usos" in PETERS,A. (1977) "Language learning strategies: does the whole equal the sum os the parts?" in UNGUAGE vol. 53 &3 __ . (1983) THE UNITS OF IANGUAGEACQUISrrION - Cambridge University Press SCARPA,E.M (1988) "Desenvolvimento da IntOtIQpJo e a organiza¢o da fala inicial" in CADERNOS DE ESTUDOS UNGU1STlCOS D. 14 - UNICAMP __ . (JULH0I1993) "Filler-soudns and the acquisition of prosody: sound and syntax" - (mimeo.)comuni~ AJresentada no VI INTERNATIONAL CONGRESS FOR TIlE STUDY OF CHILD'S LANGUAGE - Trieste