Seis meses já passados depois do início
desta aventura de
fazer e distribuir
semana após semana estas Lusofonias, chega-se mais
realizadamente cansado a este Natal
de 2013, mas muito
obrigados a agradecer a todos os que
se reuniram para fazer este suplemento: director, jornalistas, gráficos
e muitos colaboradores espalhados
interessadamente
pelas diferentes
geografias dos
Países de Língua
Oficial Portuguesa, e
mesmo muito mais
além. Agora que até
o Natal não parece
escapar à lucrativa
globalização comercial e industrial do
calendário – apesar
dessas concorrências mais recentes
e estranhas, entre São Valentim e
Halloween – parece
acertado relembrar
gestos simples e
repetidas palavras
em que se valoriza
a fraternidade,
a solidariedade e a
sincera amizade.
Aqui servida em
sobremesa desse
quase lusófono
bacalhau, outras
iguarias e doçarias
muitas em que se
foram mesclando e
transformando as
viagens também
dos pluriculturais
sabores das lusofonias. Fica esse outro sabor ainda mais
sublime, de cultural digestão muito mais
gostosa, da leitura de cinco contos de
Natal de outros cinco escritores maiores
da língua portuguesa: Mário de Andrade (1893-1945), José Saramago (19222010), Lygia Fagundes Telles (n. 1923)
lusofonias
nº 25 | 30 de Dezembro de 2013
Este suplemento é parte integrante
do Jornal Tribuna de Macau e não
pode ser vendido separadamente
COORDENAÇÃO:
Ivo Carneiro de Sousa
TEXTOS:
• Mário de Andrade:
O Perú de Natal
• José Saramago: História de um
muro branco e de um neve preta
• Lygia Fagundes Telles:
Natal na barca
• José Eduardo Águalusa: A Noite
em que prenderam o Pai Natal
• João Ubaldo Ribeiro:
Jingobel, Jingobel
Dia 30 de Dezembro:
Receita de Ano Novo
com Poesia
em Lusofonias
APOIO:
Contos Natal
de
CONTOS DE NATAL:
Mário de Andrade, José Saramago, Lygia Fagundes
Telles, José Eduardo Águalusa e João Ubaldo Ribeiro
Ivo Carneiro de Sousa
S
eis meses já passados depois do início desta
aventura de fazer e distribuir semana após
semana estas Lusofonias, chega-se mais realizadamente cansado a este Natal de 2013, mas
muito obrigados a agradecer a todos os que se
reuniram para fazer este suplemento: director,
jornalistas, gráficos e muitos colaboradores
espalhados interessadamente pelas diferentes
geografias dos Países de Língua Oficial Portuguesa, e mesmo muito mais além. Agora que
até o Natal não parece escapar à lucrativa glo-
balização comercial e industrial do calendário
– apesar dessas concorrências mais recentes
e estranhas, entre São Valentim e Halloween
– parece acertado relembrar gestos simples e
repetidas palavras em que se valoriza a fraternidade, a solidariedade e a sincera amizade.
Aqui servida em sobremesa desse quase lusófono bacalhau, outras iguarias e doçarias muitas
em que se foram mesclando e transformando as
viagens também dos pluriculturais sabores das
lusofonias. Fica esse outro sabor ainda mais su-
blime, de cultural digestão muito mais gostosa,
da leitura de cinco contos de Natal de outros
cinco escritores maiores da língua portuguesa:
Mário de Andrade (1893-1945), José Saramago
(1922-2010), Lygia Fagundes Telles (n. 1923),
José Eduardo Águalusa (n. 1960) e João Ubaldo
Ribeiro (n. 1941).
Feliz Natal e Bom Proveito, porque autorizados são todos os excessos, mesmo os de leitura. E, se por acaso, nunca provou, experimente agora. Simplesmente, delicioso!
MÁRIO DE ANDRADE
O Peru de Natal
O
nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai
acontecida cinco meses antes, foi de
consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos
familiarmente felizes, nesse sentido
muito abstrato da felicidade: gente
honesta, sem crimes, lar sem brigas
internas nem graves dificuldades
econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu
pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz,
acolchoado no medíocre, sempre nos
faltara aquele aproveitamento da
vida, aquele gosto pelas felicidades
materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira,
coisas assim. Meu pai fora de um bom
errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
Morreu meu pai, sentimos muito,
etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não
podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia
ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em
cada almoço, em cada gesto mínimo
da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma
fita no cinema, o que resultou foram
lágrimas. Onde se viu ir ao cinema,
de luto pesado! A dor já estava sendo
cultivada pelas aparências, e eu, que
sempre gostara apenas regularmente
de meu pai, mais por instinto de filho
que por espontaneidade de amor, me
via a ponto de aborrecer o bom do
morto.
Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a
ideia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e
desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente
familiar. Desde cedinho, desde os
tempos de ginásio, em que arranjava
regularmente uma reprovação todos
os anos; desde o beijo às escondidas,
numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de
tia; e principalmente desde as lições
que dei ou recebi, não sei, de uma
criada de parentes: eu consegui no
reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam.
Meus pais falavam com certa tristeza
condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos
e provavelmente com aquele prazer
dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou,
essa fama. Fiz tudo o que a vida me
apresentou e o meu ser exigia para
se realizar com integridade. E me
deixaram fazer tudo, porque eu era
doido, coitado. Resultou disso uma
existência sem complexos, de que
não posso me queixar um nada.
Era costume sempre, na família, a
De escrever para marmanjos já
estou enjoado. Bichos sem graça.
Mas para crianças um livro é todo
um mundo.
ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo.
Empanturrados de amêndoas e nozes
(quanto discutimos os três manos por
causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias,
a gente se abraçava e ia pra cama.
Foi lembrando isso que arrebentei
com uma das minhas “loucuras”:
-Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava connosco, advertiu que não podíamos
convidar ninguém por causa do luto.
-Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a
gente já comeu peru em nossa vida!
Peru aqui em casa é prato de festa,
vem toda essa parentada do diabo...
-Meu filho, não fale assim...
-Pois falo, pronto!
descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita,
diz que vinda de bandeirantes, que
bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria
de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura
imensa por mamãe e titia, minhas
duas mães, três com minha irmã, as
três mães que sempre me divinizaram
a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam
peru naquela casa. Peru era prato de
festa: uma imundície de parentes já
preparados pela tradição, invadiam a
casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães,
três dias antes já não sabiam da vida
senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem
feitos, a parentagem devorava tudo
e ainda levava embrulhinhos pros
que não tinham podido vir. As minhas
três mães mal podiam de exaustas.
Do peru, só no enterro dos ossos, no
dia seguinte, é que mamãe com titia
ainda provavam num naco de perna,
vago, escuro, perdido no arroz alvo.
E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de
fato o que era peru em nossa casa,
peru resto de festa.
Não, não se convidava ninguém,
era um peru pra nós, cinco pessoas. E
havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa
gorda, em que havíamos de ajuntar
ameixa preta, nozes e um cálice de
xerez, como aprendera na casa da
Rose, muito minha companheira.
Está claro que omiti onde aprendera
a receita, mas todos desconfiaram. E
ficaram logo naquele ar de incenso
assoprado, se não seria tentação do
Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com
meus “gostos”, já bastante afinados
fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês.
LUSOFONIAS - SUPLEMENTO DE CULTURA E REFLEXÃO
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II
Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013 • LUSOFONIAS
lusofonias
Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe
adorava cerveja.
Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de
fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem
que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam
imaginar que eu sozinho é que estava desejando
muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra
cima de mim a... culpa de seus desejos enormes.
Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas
desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
-É louco mesmo!...
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois
de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o
nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer
mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles
dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar
minha velhinha adorada. E meus manos também,
estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos
dominados pela felicidade nova que o peru vinha
imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento
aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito
da ave, não resistindo àquelas leis de economia
que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.
-Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo
isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de
comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo.
Aquele peru comido a sós, redescobria em cada
um o que a quotidianidade abafara por completo,
amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me
perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela
casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O
peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias
amplas.
-Eu que sirvo!
“É louco, mesmo” pois por que havia de servir, se
sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos,
os grandes pratos cheios foram passados pra mim
e principiei uma distribuição heróica, enquanto
mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta
logo de um pedaço admirável da “casca”, cheio
de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias
brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua
parte no peru:
-Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que
aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus
crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que
fazia sofrer! O prato ficou sublime.
-Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe
não!
Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo
percebendo que o novo prato sublime seria o dela,
entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que
jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também,
tinha dezanove anos... Diabo de família besta que
via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara
impossível. É que o pranto evocara por associação
a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai,
com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.
Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de
um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando
ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção
mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali,
gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga,
uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso,
mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto
de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios
visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem
gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.
-Só falta seu pai...
Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele
peru perfeito, tanto que me interessava aquela
luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai.
E nem sei que inspiração genial, de repente me
tornou hipócrita e político. Naquele instante que
hoje me parece decisivo da nossa família, tomei
aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
-É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem
a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós,
papai lá no céu há de estar contente... (hesitei,
mas resolvi não mencionar mais o peru) contente
de ver nós todos reunidos em família.
E todos principiaram muito calmos, falando de
papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e
virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos
comiam o peru com sensualidade, porque papai
fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por
nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca
poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo.
Papai virara santo, uma contemplação agradável,
uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação
suave. O único morto ali era o peru, dominador,
completamente vitorioso.
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não
era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um
amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi,
sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso
da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma
felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa
que a nossa me é impossível conceber.
Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei:
ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
A tamanha falta de egoísmo me transportara o
nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas
leves e uns doces, que lá na minha terra levam
o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este
nome perigoso se associou à lembrança de meu
pai, que o peru já convertera em dignidade, em
coisa certa, em culto puro de contemplação.
Levantamos. Eram quase duas horas, todos
alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama,
pouco importa, porque é bom uma insônia feliz.
O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose,
prometera me esperar com uma champanha. Pra
poder sair, menti, falei que ia a uma festa de
amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de
contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E
agora, Rose!...
JOSÉ SARAMAGO
História de um muro branco
*
e de uma neve preta
N
ão haveria nada mais fácil no
mundo das histórias que escrever
um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o
caso de que uma criança que nasce
está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral
andamos das infâncias que vivemos,
foi pensar que as crianças nascem
uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de
que o tempo passe e as transforme
em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie
diferente de seres humanos. A crian-
lusofonias
ça começa por nascer uma vez, que
é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo:
não tem outro remédio nem há outra
maneira. Como se verá pelas duas
breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras.
A terra, àquela hora, cobria-se de
uma noite tão escura que parecia
impossível que dela pudesse nascer
o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa
da sua primeira cheia de Inverno, os
charcos são de mercúrio. O ar está
frio, parado, e estala quando respi-
ramos, como se nele se suspendesse
uma ténue rede de cristais de gelo.
Há uma casa e luz lá dentro. E gente:
a Família. Na lareira ardem grossos
troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando
à fogueira se lhes juntam gravetos,
ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em
trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina
os rostos da família e logo volta a
quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam
as formas redondas das filhós, entre
o fumo espesso e gorduroso que vai
entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está
posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa,
confusamente ocupada em pequenos
trabalhos, como um formigueiro.
Não tarda que saiam todos para o
quintal. Vai ser lançado ao ar o foguete de três respostas, esse que,
cumprindo a tradição, anunciará
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LUSOFONIAS • Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013
III
< CONTINUADO DA PÁGINA ANTERIOR
aos vizinhos que naquela casa
já a última filhó saiu do tacho,
a escorrer, e foi cair no alguidar
profundo onde aguardará o retoque final da canela e da calda de
açúcar. Entre portas, a Criança
vê a Família a sorrir fazendo e
desfazendo grupos em torno do
avô, que sopra um tição trazido
da lareira e o aproxima do cartucho de pólvora amarrado ao
caniço. Tinha pedido que o deixassem ajudar, mas responderam-lhe como das outras vezes:
“Ainda és muito pequeno, para
o ano que vem”. A Família tem
razão: é preciso ter cuidado com
as crianças.
A pólvora inflama-se bruscamente, lança um jacto de fagulhas vivíssimas, silva como uma
serpente, e logo é um dragão
rugindo que sobe para o ar gelado, corta-o como uma espada de
fogo, e lá muito no alto, quase
tocando as primeiras estrelas,
estala, estraleja, cobrindo os
ecos de outro foguete distante. O
caniço desce com uma luz mortiça que desmaia, e vai cair longe,
nos olivais que rodeiam a casa,
sobre as ervas cobertas de geada. Com este tempo não há perigo de que pegue fogo às árvores.
De súbito, a Família diz que está
frio e volta para casa, levando
entre os braços, entre os anéis,
entre os tentáculos, a Criança
a quem não deixaram ajudar a
lançar o foguete. Tinham deixado a porta aberta, o interior da
cozinha arrefecera. A Avó acode
a espalhar na fogueira uma mão-cheia de aparas, desgalha um
ramo seco de oliveira, parte-o
com as mãos calejadas, mas é
com suavidade que depois chega
os troços à chama, como se estivesse a alimentá-la. O lume hesita, escolhe o lado mais acessível
da lenha, e depois, indiferente,
alheado, a pensar noutra coisa,
recomeça o seu eterno ofício de
fabricante de cinzas.
A Família gira em redor da
mesa, arruma-se nas poucas cadeiras que há, trazidas algumas
de outras casas, uns quantos escabelos pouco firmes, um caixote velho posto em pé. Os rostos
estão sorridentes e corados, e
têm nomes e apelidos, mas, para
a Criança, são, antes de tudo, os
Pais, os Avós, os Tios, os Primos,
um enorme e complicado corpo
de animal que lhe lembra a história da Bicha-de-Sete-Cabeças
ou o Dragão-Que-Não-Dorme.
Sobre a mesa trava-se uma gesticulação ruidosa de facas e garfos, de mãos, de dentes, uma
contínua mastigação que deforma os rostos e engordura as bocas. Contam-se casos, anedotas,
todos riem. O frio está lá fora, e
a geada, e a noite impenetrável.
A Criança anima-se, já esqueceu
a decepção, para o ano talvez a
deixem lançar o foguete sozinha.
Também tem uma história para
IV
contar, só está à espera duma
pausa, dum momento mágico em
que todos se calem, acaso emudecidos por um anjo que passou
deixando apenas a imagem de
um dedo imperioso sobre os lábios cerrados. O momento está
a chegar por fim, uma a uma
calam-se as bocas da Família, é
agora ou nunca, a Criança inspira
fundo, rompe o silêncio, começa
a falar. A Família olha surpreendida, dá alguma atenção, mas
não muita nem por muito tempo,
não dura, não pode durar, as vozes regressam do silêncio, e é o
Pai que lhe corta a narrativa com
uma frase que faz rir toda a gente. Uma frase que vai fazer chorar a Criança. Porque o Menino, a
Criança é um menino, levanta-se
da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus de pedra que conduzem ao
mundo. Ali adiante há um muro
caiado, baixo, com uma varanda dando para terras ignotas. A
Criança vai debruçar-se sobre o
muro, deixa cair a cabeça sobre
os braços cruzados, e o terrível
nó das lágrimas desata-se dentro
de si. Da casa vêm risos e vozes,
alguém fala muito alto, e depois
ressoam gargalhadas. Ninguém
está pensando na Criança.
Faz muito frio. Visto daqui, o
céu parece estar feito de veludo
negro. E há as estrelas. Duras,
nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos.
Lá estão elas a brilhar. Olhadas
através das lágrimas, as estrelas
são diferentes. Mundo estranho,
estranho mundo, este. Sob os
passos da criança, o chão duro
e gelado range, E, em frente,
as árvores negras, misteriosas,
onde à noite os grandes medos se
vão esconder, tomam o ar confidencial de quem conhece todos
os segredos futuros, a hora e o
lugar onde acontecerá o terceiro nascimento e o quarto, e o
quinto, todos os aqueles que ainda esperam a esta Criança, até
mesmo quando de havê-lo sido já
não lhe restar memória.
As Crianças estão sempre a
nascer. Às vezes nascem de explosivas alegrias, de achados
incríveis, de deslumbramentos
únicos, mas o mais frequente,
uma vez após outra, é nascerem
de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido,
de cada frustração imerecida.
Há que ter muito cuidado com
as Crianças, nunca me cansarei
de o dizer. Um dia uma Professora teve uma ideia de Professora
e mandou os seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Claro está que
não empregou esta linguagem,
o que disse foi: “Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis
de cores, ou aguarelas, ou papel
de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira”. Uns com
lápis, outros com aguarelas,
outros com papel recortado,
alguns pintando com os dedos,
todos cumpriram o melhor que
Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013 • LUSOFONIAS
puderam. Apareceu tudo quanto
é costume nestes casos: o presépio, os reis magos, os pastores,
São José, a Virgem e, inevitavelmente, o Menino Jesus. Bem feitos uns, mal feitos outros, toscos ou esmerados, os desenhos
caíram na segunda-feira em
cima da secretária da Professora. Ali mesmo ela os viu e lhes
pôs nota. Ia marcando “bom”,
“mau”, “suficiente”, como se
com esses juízos os marcasse
para a eternidade. De repente.
Ah, quantas vezes ainda teremos de dizer que é preciso muito cuidado com as crianças! A
Professora segura um desenho
nas mãos, um desenho que não é
melhor nem pior que os outros.
Mas ela tem os olhos fixos, está
confusa, perturbada: o desenho
mostra a invariável manjedoura, a vaca e o burrinho, e toda
a restante figuração. Sobre esta
cena já sem mistério cai a neve,
e esta neve é preta. Porquê?
“Porquê?”, pergunta a Professora à Menina que fez o desenho.
A Menina não responde. Talvez
mais nervosa do que quereria
mostrar, a Professora insiste.
Há na sala os risos cruéis e os
murmúrios de troça que sempre
aparecem em ocasiões destas. A
Menina está de pé, muito séria,
um pouco trémula. E responde,
por fim: “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha
mãe morreu”. Fez-se silêncio e a
Professora pensou, assim o veio
a contar mais tarde: “À Lua já
chegámos, mas quando e como
conseguiremos chegar ao espírito duma criança que pintou
a neve preta porque a mãe lhe
morreu?”.
Muitos anos depois destas histórias terem acontecido, contei-as a uma outra Menina, que me
perguntou: “E eles ainda estão
tristes?”. Nessa altura disse-lhe
que sim, que há tristezas que o
tempo não consegue apagar, mas
hoje conforta-me a ideia de que
talvez o Menino do Muro Branco
e a Menina da Neve Negra se tenham encontrado na vida, e que
talvez por causa deles o mundo
já esteja a mudar sem que nós
tenhamos dado por isso.
*Este conto (se o é) tem a sua
origem em duas crónicas, “Um
Natal Há Cem Anos” e “A Neve
Preta”, publicadas no jornal A
Capital no final dos anos 60 e
que hoje podem ser lidas mais
comodamente no volume Deste
Mundo e do Outro. A junção delas (que de certa maneira é também fusão) aconteceu em 1995 e
teve como destino uma revista
espanhola entretanto desaparecida. Relidas hoje, novamente
refeitas, estas velhas crónicas
perguntam se o muro branco ainda lá está e se ainda há quem tenha de continuar a pintar a neve
com tinta preta. Por mim, acho
que sim. Quem dera que sejam
muitos os que tenham razões
para pensar que não.
N
ão quero nem devo lembrar aqui por qu
me encontrava naquela barca. Só sei qu
em redor tudo era silêncio e treva. E que m
sentia bem naquela solidão. Na embarcaçã
desconfortável, tosca, apenas quatro passa
geiros. Uma lanterna nos iluminava com su
luz vacilante: um velho, uma mulher com
uma criança e eu.
O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-s
de comprido no banco, dirigira palavras ame
nas a um vizinho invisível e agora dormia.
mulher estava sentada entre nós, apertand
nos braços a criança enrolada em panos. Er
uma mulher jovem e pálida. O longo mant
escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe
aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei n
barca. Mas já devíamos estar quase no fim d
viagem e até aquele instante não me ocorre
ra dizer-lhe qualquer palavra. Nem combina
va mesmo com uma barca tão despojada, tã
sem artifícios, a ociosidade de um diálogo
Estávamos sós. E o melhor ainda era não fa
zer nada, não dizer nada, apenas olhar o su
co negro que a embarcação ia fazendo no rio
Debrucei-me na grade de madeira carco
mida. Acendi um cigarro. Ali estávamos o
quatro, silenciosos como mortos num ant
go barco de mortos deslizando na escuridão
Contudo, estávamos vivos. E era Natal.
A caixa de fósforos escapou-me das mãos
quase resvalou para o. rio. Agachei-me par
apanhá-la. Sentindo então alguns respingo
no rosto, inclinei-me mais até mergulhar a
pontas dos dedos na água.
-Tão gelada - estranhei, enxugando a mão
-Mas de manhã é quente.
Voltei-me para a mulher que embalava
criança e me observava com um meio sorriso
Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belo
olhos claros, extraordinariamente brilhan
tes. Reparei que suas roupas (pobres roupa
puídas) tinham muito caráter, revestidas d
uma certa dignidade.
-De manhã esse rio é quente - insistiu ela
me encarando.
-Quente?
-Quente e verde, tão verde que a primeir
vez que lavei nele uma peça de roupa pense
que a roupa fosse sair esverdeada. É a pr
meira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábua
gastas. E respondi com uma outra pergunta
-Mas a senhora mora aqui perto?
-Em Lucena. Já tomei esta barca não se
quantas vezes, mas não esperava que justa
lusofo
ue
ue
me
ão
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se
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LYGIA FAGUNDES TELLES
Natal na barca
mente hoje...
A criança agitou-se, choramingando. A
mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xaile e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de
balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas
sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.
-Seu filho?
-É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver
um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre,
só febre... Mas Deus não vai me abandonar.
-É o caçula?
Levantou a cabeça com energia. O queixo
agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.
-É o único. O meu primeiro morreu o ano
passado. Subiu no muro, estava brincando de
mágico quando de repente avisou, vou voar!
E atirou-se. A queda não foi grande, o muro
não era alto, mas caiu de tal jeito... Tinha
pouco mais de quatro anos.
Joguei o cigarro na direcção do rio e o toco
bateu na grade, voltou e veio rolando aceso
pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso
desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.
-E esse? Que idade tem?
-Vai completar um ano. - E, noutro tom,
inclinando a cabeça para o ombro: - Era um
menino tão alegre. Tinha verdadeira mania
com mágicas. Claro que não saía nada, mas
era muito engraçado... A última mágica que
fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os
braços. E voou.
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela
noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os
laços (os tais laços humanos) já ameaçavam
me envolver. Conseguira evitá-los até aquele
instante. E agora não tinha forças para rompê-los.
-Seu marido está à sua espera?
-Meu marido me abandonou.
Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível.
Fora uma loucura fazer a primeira pergunta
porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.
-Há muito tempo? Que seu marido...
-Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas
tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso
essa antiga namorada, me falou nela fazendo
uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de
nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã
onias
ele se levantou
como todas as manhãs, tomou
café, leu o jornal, brincou com o menino e
foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim
com a mão, eu estava na cozinha lavando a
louça e ele me deu um adeus através da tela
de arame da porta, me lembro até que eu
quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém
falar comigo com aquela tela no meio... Mas
eu estava com a mão molhada. Recebi a carta
de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos
perto da minha escolinha. Sou professora.
Olhei as nuvens tumultuadas que corriam
na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter
realmente participado deles. Como se não
bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava
sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não,
não podiam ser de uma apática aqueles olhos
vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
-A senhora é conformada.
-Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
-Deus - repeti vagamente.
-A senhora não acredita em Deus?
-Acredito - murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o
segredo daquela segurança, daquela calma.
Era a tal fé que removia montanhas...
Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:
- Foi logo depois da morte do meu menino.
Acordei uma noite tão desesperada que saí
pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele!
Sentei num banco do jardim onde toda tarde
ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com
tamanha força, que ele, que gostava tanto
de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar,
se mostrasse só um instante, ao menos mais
uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei
como dormi. Então sonhei e no sonho Deus
me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi
o meu menino brincando com o Menino Jesus
no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu,
parou de brincar e veio rindo ao meu encon-
tro e me beijou tanto, tanto... Era tamanha
sua alegria que acordei rindo também, com o
sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um
gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria
a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o
tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe
continuava a niná-lo, apertando-o contra o
peito. Mas ele estava morto.
Debrucei-me na grade da barca e respirei
penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que
a mulher se agitou atrás de mim
-Estamos chegando - anunciou.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga
curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu
e pôs-se a sacudir o velho que dormia:
-Chegamos!... Ei! chegamos!
Aproximei-me evitando encará-la.
-Acho melhor nos despedirmos aqui - disse
atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse
apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de
apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale
que cobria a cabeça do filho.
-Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.
-Acordou?!
Ela sorriu:
-Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem
conseguir falar.
-Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a
sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e
atiradas para trás, seu rosto resplandecia.
Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a
com o olhar até que ela desapareceu na noite.
Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou
por mim retomando seu afetuoso diálogo com
o vizinho invisível. Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E
pude imaginá-lo como seria de manhã cedo:
verde e quente. Verde e quente.
LUSOFONIAS • Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013
V
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
A Noite em que
prenderam o Pai Natal
O
velho Pascoal tinha uma barba
comprida, branca, muito branca,
que lhe caía em tumulto pelo peito.
Estilo? Não: era desleixo, desleixo
mesmo, puríssima, genuína miséria.
Mas foi por causa daquela barba que
ele conseguiu trabalho. Por isso e por
ter nascido albino, pele de osga e piscos olhinhos cor de rosa, sempre escondidos por detrás de uns enormes
óculos escuros. Naquela já não pensava mais em procurar emprego, certo
de que morreria em breve numa rua
qualquer da cidade, mais de tristeza
que de fome, pois para se alimentar
bastava-lhe a sopa que todas as noites
dava o General, e uma ou outra côdea
de pão descoberta nos contentores. À
noite dormia na cervejaria, na mesa
do bilhar, enrolado num cobertor, outro favor do General, e sonhava com
a piscina.
Tinha trabalhado quarenta anos na
piscina – desde o primeiro dia! – como
zelador. Sabia ler, contar, e ainda todas as devoções que aprendera na
missão, sem falar na honestidade,
higiene, amor ao trabalho. Os brancos gostavam dele, era Pascoal, para
aqui, Pascoal para ali, confiavam-lhe
as crianças pequenas, alguns até convidavam para jogar futebol (foi um
guarda-redes), outros segredavam
confidências, pediam o quarto emprestado para fazer namoros.
O quarto do Pascoal ficava junto aos
vestiários masculinos. Aquela era a sua
casa. Os brancos davam-lhe palmadas
nas costas: Pascoal o único preto em
Angola que tem casa com piscina.
Riam-se.
Pascoal, o preto mais branco de
África.
Contavam piadas sobre albinos:
conheces aquela do soba, no Dia da
Raça, que foi convidado para discursar? O gajo subiu ao palanque, afinou
a voz e começou: “Aqui em Angola
somos todos portugueses, brancos,
pretos, mulatos e albinos, todos portugueses.”
Os pretos, pelo contrário, não gostavam do Pascoal. As mulheres muxoxavam, cuspiam quando ele passava, ou
pior do que isso, fingiam nem sequer o
ver. As crianças saltavam o muro, madrugadinha, e lançavam-se à piscina.
Ele tinha de se levantar, em cuecas,
para os tirar de lá. Um dia comprou
uma espingarda de chumbo, uma
pressão de ar em segunda mão, e passou a disparar contra elas, emboscado
por detrás das acácias.
Quando os Portugueses fugiram, Pascoal compreendeu que os dias felizes
haviam chegado ao fim. Assistiu com
desgosto à entrada dos guerrilheiros,
aos tiros, aos saques das casas. O que
mais lhe custou, nos meses seguintes,
VI
foi vê-los entrar na piscina, camarada já para aqui, camarada para ali,
como se já ninguém tivesse nome. As
crianças, as mesmas que antigamente
Pascoal expulsava a tiros de pressão
de ar, faziam chichi do alto das pranchas. Até que numa certa tarde faltou
a água. Não veio no dia seguinte, nem
no outro, nem nunca mais. O cloro
acabou pouco depois. A piscina murchou. Ficou amarela de um amarelo
baço, ficou ainda mais baça, e subitamente encheu-se de rãs. Ao princípio,
Pascoal tentou combater a invasão,
indo buscar a espingarda. Não resultou. Quanto mais rãs matava, mais rãs
apareciam, rãs felizes enormes, que
nas noites de lua cheia cantavam até
de madrugada, abafando o eco dos tiros, ao longe, e o latido dos cães.
Uma espécie de cansaço desceu por
sobre as casas e a cidade começou
a morrer. África – vamos chamar-lhe
assim – voltou a apoderar-se do que
fora seu. Abriram-se cacimbas nos
quintais. Acenderam-se figueiras nos
jardins. O capim rompeu o asfalto,
invadiu os passeios, os muros e os pátios. Mulheres pilavam milho nos salões. Os frigoríficos passaram a servir
para guardar sapatos. Pianos deram
excelentes coelheiras. Gerações de
cabras cresceram a comer bibliotecas, cabras eruditas, especializadas
em literatura francesa, umas, outras
em finanças ou arquitectura. Pascoal
esvaziou a piscina, limpou-a, juntou
todo o dinheiro que tinha e comprou
galinhas. Pediu desculpa à piscina:
–Amiga – disse-lhe –, é só por alguns
meses. Vou vender ovos, vendo pintos
e compro água boa, compro cloro,
vais voltar a ser bonita como antigamente.
Os tempos que se seguiram, porém,
foram ainda piores. Uma tarde apareceram soldados e levaram as galinhas.
Pascoal não disse nada. Devia, talvez,
ter dito alguma coisa.
Esse albino está armado em arrogante – irritou-se um soldado. – Deve
pensar que é branco, vejam só, um
branco de imitação.
Bateram-lhe. Deixaram-no como
morto dentro da piscina. Meses depois, vieram outros. Tinham-lhes dito
que ali havia um albino que criava
galinha, e como não encontraram
nenhuma, é claro, bateram-lhe também.
A guerra regressou com muita raiva.
Aviões bombardearam a cidade, o que
restava dela, durante cinquenta e cinco dias. Ao trigésimo sexto, uma das
bombas destruiu a piscina. Durante
semanas, andou Pascoal à deriva por
entre escombros.
Uma vez apareceram três homens
de jipe, um branco, um mulato e um
Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013 • LUSOFONIAS
preto, e todos de casaco e gravata.
Meu Deus, meu Deus! – lamentou o
mulato, fazendo com a mão um largo gesto de desânimo. – Foi urbicídio
isto, um urbicídio.
Pascoal não sabia o significado da
palavra mas gostou dela. “Foi um ubicídio”, repetiu, e ainda hoje, sempre
que se lembra da piscina, fica horas a
remoer aquela frase: “foi um ubicídio,
aquilo, um ubicídio”. Uma tropa de
brancos, muitos estrangeiros, todos
com chapeuzinhos azuis, recolheu-o
numa madrugada de chuva em Luanda. Ficou dois dias no hospital, onde
lhe trataram das feridas e lhe deram
de comer. Depois mandaram-no embora. O velho passou a viver na rua.
Um dia, era Dezembro e fazia muito
calor, o indiano do novo supermercado, na mutamba, veio falar com ele:
Precisamos de um Pai Natal – disse-lhe – contigo poupávamos na barba e,
além disso, com tens um tipo nórdico,
ficava a coisa mais autêntica. Estamos
a dar três milhões por dia. Serve?
A função dele era ficar em frente
ao supermercado, vestido com um
pijama vermelho, e de barrete na
cabeça. Como estava magrinho, foi
necessário amarrarem-lhe duas almofadas na barriga. Pascoal sofria com o
calor, suava o dia inteiro debaixo do
sol, mas pela primeira vez ao fim de
muitos anos sentia-se feliz. Assim vestido, com um saco na mão, ele oferecia prendas às criancinhas (preservativos doados por uma organização não
governamental sueca ao Ministério da
Saúde) e convidava os pais a entrar na
loja. “Sou o Pai Natal cambulador”,
explicou ao General.
Cambulador foi ofício em Angola
até à primeira metade do século XX:
gente contratada para aliciar clientes
à porta dos estabelecimentos comerciais. Cada dia Pascoal gostava mais
daquele trabalho. As crianças corriam
para ele de braços abertos. As mulheres riam-se, cúmplices, piscavam-lhe
o olho (nunca nenhuma mulher lhe
tina sorrido); os homens cumprimentavam-no com deferência:
Boa tarde, Pai Natal! Este ano como
é que estamos de prendas?
O velho apreciava sobretudo o espanto dos meninos da rua. Faziam
roda. Pediam muita licença para tocar o saco. Um pequenino, fraquinho,
segurou-lhe as calças:
Paizinho Natal – implorou –, me dá
um balão.
Pascoal tinha instruções severas
para só oferecer preservativos às
crianças acompanhadas, e mesmo assim dependia do aspecto da companhia. O contrato era claro: meninos
da rua deviam ser enxotados.
Ao fim da segunda semana, quando
a loja fechou, Pascoal decidiu não tirar o disfarce e foi naquele escândalo
para a cervejaria. O General viu-o e
não disse nada. Serviu-lhe a sopa em
silêncio.
Faz muita miséria neste país – queixou-se o velho enquanto sorvia a sopa
–, o crime recompensa.
Nessa noite não sonhou com a piscina. Viu uma senhora muito bonita
a descer do céu e pousar na beira da
mesa de bilhar. A senhora usava um
vestido comprido com pedrinhas brilhantes e uma coroa dourada na cabeça. A luz saltava-lhe da pele como se
fosse um candeeiro.
Tu és o Pai Natal – disse-lhe a senhora. – mandei-te aqui para ajudar
os meninos despardalados. Vai à loja,
guarda os brinquedos no saco e distribui-os pelas crianças.
O velho acordou estremunhado. Na
noite densa, em redor da mesa de
bilhar, flutuava uma poeira incandescente. Voltou a enrolar-se no cobertor
mas não conseguiu adormecer.
Levantou-se, vestiu-se de Pai Natal,
pegou no saco e saiu para a rua. Em
pouco tempo chegou à Mutamba. A
loja brilhava, enorme na praça deserta, como um disco voador. As barbies
ocupavam a montra principal, cada
uma no seu vestido, mas todas com
o mesmo sorriso entediado. Na outra
montra estavam os monstros mecânicos, as pistolas de plástico, os carrinhos eléctricos. Pascoal sabia que se
partisse o vidro dessa montra, conseguiria passar a mão através das grades
e abrir a porta. Pegou numa pedra e
partiu o vidro. Já estava a sair, com
o saco completamente cheio, quando
apareceu a polícia.
No mesmo instante, atrás dele,
acendeu-se uma acácia, na esquina, e
Pascoal viu a senhora a sorrir para ele,
flutuando sobre o lume das flores. O
polícia não pareceu dar por nada.
Velho sem vergonha – gritou ele. –
Vais dizer-me o que levas no saco?
Pascoal sentiu que a sua boca se
abria, sem que fosse essa a sua vontade, e ouviu-se dizer:
São rosas, senhor.
O polícia olhou-o confuso:
Rosas? O velho está cacimbado...
Deu-lhe uma chapada com as costas da mão. Tirou a pistola do coldre,
apontou-a à cabeça dele e gritou:
–São rosas? Então mostra-me lá essas rosas!
O velho hesitou um momento. Depois voltou a olhar para a acácia em
flor e viu outra vez a senhora sorrindo
para ele, belíssima, toda ela uma festa de luz. Pegou no saco e despejou-o
aos pés do guarda.
Eram rosas, realmente de plástico.
Mas eram rosas.
lusofonias
JOÃO UBALDO RIBEIRO
Jingobel, Jingobel
R
eferentemente ao Natal, podemos dizer que
temos aqui muitos tipos, dependendo. Já tivemos mais, porém o Natal é uma festa que nem
todos reúnem condições, aliás, verdade seja dita
quase que nenhuns aqui. Diz Jocélio Budião, que
o que fala não se escreve, que, na casa que ele
trabalha, sempre se bota umas passas, um vinho
reconstituinte, se mata um peru e umas avelãs(se
bem que aqui nunca se viu um avelão voando,
quanto mais uma avelã, sabendo-se que a fêmea
do animal voador é mais difícil de voar do que o
macho, porque tem mais o que fazer), se pega
umas folhas aromadas para pendurar pelas bandeiras das portas, mas isso tudo tem que ser visto
com os próprios olhos que esta aqui de baixo há
de comer, porque estamos mais do que conhecendo esses chutes de seu Jocélio Budião, que o
mínimo que fez foi dizer que o português patrão
dele mostrou um retrato de um siri o qual siri era
maior do que um prato fundo e ou esse português
tem uma codaque muito retada ou então esse siri
de Budião tomou demasiadamente muito postafém com ovomaltine em pequeno, ora me deixe.
Inclusive, teve outro dia que Peneluque, que é
petroleiro e dispõe de recurso para adquirir todas
as aves de comer, por mais grã-finas, botou dornas, dornizes, perdizes, fesões, nambus, toufracos, perus, para não falar a popular galinha que
todos nós aqui criamos algumas e aqui nunca foi
de fato novidade, pato, ganso, o que você pensar
de aves ele botou. Porém, naturalmente que não
temos nessa grande coleção nenhum avelão ou
avelã. Peneluque segue a tradição do petroleiro
e é maluco, gosta muito de uma pilhéria, de formas que ele me espalha aquela pratarada toda
por baixo dos cajueiros, donde ele mandou fazer
uma renca de mesas que vai como daqui aonde
você quiser mais ou menos, e estamos sabendo
que vão aparecendo a maior parte dos comilões
da Ilha que Peneluque convida de propósito, pois
é natural do petroleiro não esconder a riqueza e
gostar de obsequiar, bem como o próprio Jocélio Budião. Muito bem, Peneluque aceita o feliz
aniversário que lhe dá Budião e o sabonete todo
enrolado de fitas de presente que a mulher dele,
Budião, obrigou ele a levar, isto morto de acanhamento e amassando o embrulho todo, e então
Peneluque diz assim, estendendo os braços dos
marrecos aos perus, tudo ali na posição: Budião,
desses todos aí qual é o avelão? E Budião ficou
meio assim, virou e mexeu, e botou o dedo em
cima de uma dorniz frita, porém, sem saber responder ao certo, tendo sido fortemente vaiado,
isto porque não conheceu o avelão, que aliás não
tinha lá, mas cabendo a ele dizer e não botar o
dedo numa dorniz.
A verdade é que, depois que Peneluque foi
transferido para Catu, o pessoal tem tido dificuldade em desfrutar até uma galinha, quanto
lusofonias
mais aquelas belas aves. E isto mesmo assim não
era Natal, era no aniversário dele, que o Natal
ele passava na Bahia e depois os meninos dele
voltavam cheios de patinetes e brinquedos de
corda e era um grande puxa-saquismo em toda
a Ilha. Bem pensando assim, descontando esses
tais Natais das conversas de seu Jocélio Budião,
umas conversas muito mal contadas e esses negócios dos siris portugueses, até que deve se dizer
porventura que de fato justamente aqui não se
observa muito Natal, hoje em dia. Inclusive, teve
muita variação, depois que a televisão chegou.
Hoje em dia, o povo fica todo nas janelas dos
veranistas, olhando o programa que a televisão
bota nessa época, que consta os artistas todos
cantando e nisso se declara grande veadagem,
até mesmo uns certos que a gente ouve dizer que
é macho dando umas atitudes, não estou dizendo
nada. A pessoa passa pela rua e o que assiste é
uma carreira de rabos empinados, os cotovelos
rosqueados nas janelas dos outros e aquela negrinhagem, quando aparece um artista que elas
gostam. Homem daqui não presta, o que presta é
esses artistas. E, de fato, a pessoa pode não ser
adepta da grosseria e da ignorância, mas eu não
tiro a razão de Alma de Jegue, que ontem me
vai passando pela Rua dos Patos, aproveitando a
estiada, e já vai meio calibrado e bastante arreliado, quando exatamente o Cão vem atentar.
Alma de Jegue tem uma vida difícil e mora com a
sogra, duas irmãs da sogra, a mãe da sogra, a mulher e seis filhas, e a mãe da sogra está caduca e
de vez em quando bota Alma de Jegue para fora
de casa e não tem santo que convença ela a deixar ele entrar, de forma que eu considero que é
por essas e outras que ele costuma sempre estar
meio um pouco aperreado e não aprecia muita
conversação. Nisso, vem ele puto, pensando que
hoje pode ser que a velha dê outro ataque, quando aquela menina de finado Nevílio, uma que vive
com o rabo de fora e se esfregando nos brancos,
passa toda assim por de junto de Alma de Jegue
e sacode assim na frente dele um retrato de uma
revísta. Olhe aqui, seu Leonardo, que o nome
verdadeiro dele é Leonardo e ele só admite que
chamem Alma de Jegue pelas costas, o senhor
não acha Tony Ramos uma gracinha? Alma parou
assim... ficou assim... e chegou a fazer que ia,
mas não foi, parou de novo, bagunhou os balangandãs com a mão cheia na direção dela, balançou bastante e disse: Olhe o seu tonirramo aqui,
sinha filha da puta! Só que esse daqui o cabelo
não é na cabeça não, é no pé, sua desgraçada!
Olhe aqui seu tonirramo, miserável! Desgraçada!
Olhe seu tonirramo aqui infeliz! E ele chegou até
a pular no compasso das sacudidelas, ficou muito
perturbado.
Então o Natal aqui é isso mesmo, é a televisão,
é Alma de Jegue sacudindo os quibas e por aí vai,
ainda mais quando chove assim, porque quando a
gente sai batendo os tamancos pelo meio das poças nessas horas, a gente pensa às vezes que não
há nada aqui, só nós mesmos, que estamos ali
batendo os tamancos. Vicente Integralista teve
uns tempos que dava o Vovô Índio, quer dizer,
ele dava uma festa com um velho vestido de índio, quer dizer meio assim com umas penas, que
ele dizia que era para ensinar à juventude a não
acreditar em Papai Noel, que era coisa estrangeira, mas sim no Vovô Índio. Então ele enchia a
casa de jaca, manga, pinha, não admitia nenhuma dessas coisas que antigamente as boas casas
tinham no Natal, e botava lá o Vovô Índio, geralmente Raimundo de Lasinha cheio de cana, entregando uns presentes para os meninos. Porém
foi uma coisa que durou pouquíssimo, porque inclusive era cada presente marca merda que os
meninos jogavam fora e uns livros com bandeiras e recitação de poesias e muita política e ninguém estava ali para comer jaca, tomar garapa
e suportar o bafo de gambá de Raimundo com
aquelas penas de peru por cima da culhoneira,
para ganhar umas miçangas de galalite, até uns
apitos que nem apitar apitavam, qualquer um se
lembra disso. Quer dizer, bem pensado naquele
tempo existia mais fartura, é bem possivelmente
que hoje o povo até que fosse lá comer a jaca
mole muito satisfeito e agradecido. Bem possivelmente.
E, além disso, tinha a festa dos velhos que finado Ioiô Pascoal, que hoje há quem chame de São
Pascoal da Ilha - possa bem ser, possa bem ser-,
todo ano religiosamente dava no dia 23, isto porque os velhos iam lá, dançavam, bailavam, namoravam, ganhavam presentes e comidas e, no
dia 24, podiam passar o Natal com a família, se
tivessem, ou os amigos - que Pascoal compreendia que o velho com presentes e comidas sempre
arranja ou família ou amigos, ele sempre dizia
isso. Ultimamente, ele não estava podendo mais
dar a festa, por uma questão de falta de recursos, mas ele sempre conseguia um jeito. O povo
dizia antes que era por causa de uma promessa, mas não era, era por causa de grandes ferimentos de amor que Ioiô Pascoal tinha sofrido
quando moço. Ele era filho de espanhol, dono de
um belo armazém, pessoa respeitada, mas sem
qualificação de alta sociedade, de formas que, se
apaixonando por uma moça, dizem que na época
belíssima, que passava e os bondes paravam para
o povo admirar e que a pele chegava a quase
brilhar de tanta alvura e que Ioiô Pascoal ficava
tão apaixonado quando ela dava o desprezo que
chegava em casa e se trancava, urrava, chorava e escrevia quilos e quilos de papel que nunca
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LUSOFONIAS • Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013
VII
< CONTINUADO DA PÁGINA ANTERIOR
mostrou a ninguém, dizia eu, enfim - eu acho esta
passagem muito triste -, dizia eu que o pai dessa
certa moça, tendo Pascoal declarado seu amor e
ela, depois de muitos choros e urros, tendo correspondido, mandou a moça numa grande viagem
de paquete para a Europa, havendo na Europa ela
se casado com um duque ou senão um príncipe
e mandado para Pascoal um cartão perfumado
com uma frase em francês, cartão esse que dizem que Pascoal leu e se afundou na maior tristeza que se pode imaginar, sendo necessário quase
que fosse internado, a família toda temendo por
tuberculose ou perda da idéia - que ele sempre
teve meio fraca mesmo - e enfim que até a morte nunca mais que ele podia olhar aquele cartão
sem passar pelo menos uns três dias sem falar
com ninguém e escrevendo quilos e mais quilos
de mais papel. Essa paixão ele conservou a vida
toda, vivendo ali no sobrado, só saindo de paletó
e gravata e lendo e escrevendo o tempo todo e
tratando todas as pessoas com gentileza, porém
sem admitir intimidade.
A festa dos velhos dizem os antigos que começou em razão de um certo caso que teve aqui na
Ilha, também de famílias abastadas que deixaram
de ser, o qual caso se deu entre Noélio jardineiro
do seminário e Dona Cristina Emília. Isto é uma
coisa muito complicada, mas é que a família do
pai de Noélio, que tinha coisas inclusive da pesca
da baleia, no tempo da pesca da baleia, já não
estava bem quando Noélio era pequeno e a família de Dona Cristina Emília era inimiga da dele, de
forma que, quando Dona Cristina Emília era mocinha, a família de Noélio já tinha perdido tudo e
ele acabou por caridade de um padre e porque não
tinha estudo, jardineiro do seminário, na Roça dos
Padres, antigamente. E, assim, o namoro que teve
entre eles houve por força de ser acabado e Dona
Cristina Emília ou ia para o convento da Lapa ou
casava com um dos muitos rapazes de família boa
que o pai botava à disposição dela, de formas que
ela casou mas nunca se conformou, nem Noélio se
conformou, mas a vida vai passando e, depois, ela
já viúva e velha e morando aqui na Ilha e não muito bem de vida porque o marido gastou tudo, todo
dia ela passava pelo portão do jardim do seminário
fingindo que não estava vendo nada e Noélio, que
já sabia a hora da passagem dela, ficava esperando, contudo também sem transparecer, e ali ela
demorava um bocadinho olhando as flores, ele fingindo que estava ajeitando as plantas, ela fingindo
que estava apreciando as plantas e aí ficavam um
tempinho e depois ela ia embora e nunca falavam
nada, isso anos e anos, todo santo dia.
Quando Ioiô Pascoal - que é que eu estou falando? -, quando São Pascoal da Ilha resolveu de dar
essas festas de Natal para os velhos, Dona Cristina
Emília e Noélio já estavam bastante entradinhos
nos anos embora fortes e - como são as coisas da
vida - nessa altura até que Noélio vivia melhor,
com a casinha nas beiras do portão do seminário
toda arrumadinha com capricho e certo conforto.
Ela não, porque a neta e o marido da neta moravam na casa dela e alugaram os quartos todos,
de sorte que ela fica nos fundos, num quartinho
pequeno, uma caminha patente, um nichozinho e
uma parede que todo inverno entrava água. Quer
dizer, ela ficava, não fica mais, porque justamente já veio a falecer, inclusive em companhia de
Noélio, nisso estando, segundo minha opinião, a
beleza da história. A beleza da história é que, se
bem que finado Ioiô Pascoal, a essa altura já não
tivesse mais bem como nasceu, isto porque passava o tempo todo dentro de casa só escrevendo
quilos e mais quilos de papel e quando precisava
de dinheiro vendia alguma coisa que tinha herdado
da família e todo mundo que pedia dinheiro ele
dava, finado Ioiô Pascoal ainda podia bastante, de
formas que, numa conversa com Noélio, que foi na
casa dele fazer um serviço de uns jasmineiros tor-
VIII
Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013 • LUSOFONIAS
tos e uns lírios vermelhos que estavam morrendo, com certeza que ele tinha acabado de olhar
o cartão com a frase francesa, e ficaram os dois
dizem que horas e horas, cada qual contando ao
outro as dores do amor e cada qual consolando
o outro e muitos suspiros e lamentos de cortar o
coração, não tendo Noélio feito o serviço nesse
dia, mas tendo tomado bastantes cervejas com
São Pascoal da Ilha e trocado muitos grandes
abraços. Nisso foi que o santo resolveu a idéia da
festa, que desse ano em diante era todo dia 23
e os velhos da Ilha se arrumavam todos e dançavam que pareciam uns sagüis, só a pessoa vendo
para acreditar. Essas festas tinha velhos aqui que
passavam o ano todo falando nela e, se soubessem que não ia ter essa festa, eles morriam logo
em janeiro, por falta de ter em que falar que é
como acontece com a pessoa velha. Vai ficando
com falta de ter em que falar, falta de ter em
que falar, e aí seca e morre.
Nessa primeira festa, Ioiô Pascoal deu uma
roupa nova a Noélio, por sinal a roupa que ele
foi enterrado depois, e convidou Dona Cristina Emília, que o orgulho não queria deixar ir
à festa, em pessoa, fazendo uma visita à família. Tinha tudo, gambiarras, bandeirolas e um
conjunto de orquestra, e o povo ia todo apreciar, porém a festa era dos velhos. Uns velhos
davam ataques de safadeza no meio da festa,
ficavam beliscando as velhas, havia grande alarido, mas nunca de fato problemas. Nesse dia,
depois de muitas idas e vindas, Ioiô Pascoal tira
Dona Cristina Emília para dançar e, no meio
das valsas e canções, passa ela para Noélio e
nenhum dos dois pôde fazer nada, porque Ioiô
foi ligeiro. Dança essa, meu amigo, que quem
assistiu diz que os dois pareciam dois pássaros,
com um rodopio só atravessaram o salão. Que
dançaram, dançaram, que passaram para a varanda do fundo que dá para essa coroa aí e que
foi beijinhos e amassamentos, uma coisa que
não se pode contar, só vendo. E que quando a
festa acabou o sorriso de Noélio ia da Matriz à
Fonte da Bica, bem como o de Ioiô Pascoal, e
Dona Cristina Emília de braços dados com Noélio toda vermelhinha e teve salvas de palmas
e tudo mais. Eu sei é que, depois dessa festa,
Noélio nunca mais apagou o sorriso e com pouco
os dois estavam casados, apadrinhados por Ioiô
Pascoal e morando na casinha amarela junto do
portão do seminário e namorando o tempo todo
e passeando de mãos dadas e todo dia dando
um presentinho um ao outro - pudesse ser uma
fruta, pudesse ser um santinho - e cuidando
das plantas e com tanta felicidade que, quando morreram, morreram de noite de repente e
encontraram eles agarradinhos, parecendo misturados, muito bonitinhos e todos dois sorrindo
e sorrindo embarcaram deste mundo.
Não foi esse o único namoro forte de velhos
que se sucedeu nas festas de Ioiô Pascoal, inclusive teve casos de namoros de velhos casados
com velhas casadas, teve muitas coisas, porém
no outro dia a maior parte dos velhos esquecia
e só voltava a ter movimentos e transações na
festa do outro ano. Mas foi esse o caso que mais
satisfação, naturalmente, dava a Ioiô Pascoal e
a última festa que ele deu foi justamente quando fez 25 anos que Noélio e Dona Cristina Emília
voltaram ao namoro que o pai dela não tinha
deixado na mocidade. Ele já estava velhinho e
mal podendo andar e não tinha mais nada para
vender, só tinha uns dois aluguéis, que assim
mesmo, quando não era época do veraneio e
não existia dinheiro na ilha, ele perdoava, mas
resolveu que ia dar uma festa grande, porque
a data merecia. E, de fato, com um retrato de
Noélio e Dona Cristina Emília pendurado em
cima da porta do salão, um belo retrato que Almerindo coloriu de aquarela e que era as caras
dos dois uma junto da outra e Almerindo ainda
pintou umas fitas artísticas na parede em redor, a festa foi das melhores que já se deu aqui,
com os Brasilian Boys Jazze-Band vindo da Bahia e
animação muito grande. No outro dia, Ioiô Pascoal
não acordou, tinha subido aos céus. Muita gente diz
que viu quando ele subiu aos céus, passando como
uma fumacinha azul pelo meio das ervas da torre
da Matriz e desde essa data, que foi no ano retrasado, ele tem feito milagres e já há muitos devotos
nessa ilha. Nesse mesmo dia que ele subiu aos céus
para ser santo, o homem dos Brasilians Boys Jazze-Band chegou de manhã e disse que ele não tinha
pago pela festa e quase apanha dos devotos e nunca mais os Brasilians Boys pisa aqui.
Hoje, aliás, esta chuva aqui bem no dia 23, como
no ano passado, quando se sabe que no Natal o sol
está forte e não se pode passar descalço meio-dia
que o couro dos pés solta, mostra que o povo tem
razão e Ioiô Pascoal é de fato hoje santo milagreiro
natalense. Não sei se outros dias ele faz milagres,
ainda é um santo novo, deve ter ainda muita coisa
para aprender nessa questão de santidade. Mas no
Natal ele faz, isso ninguém aqui discute. No ano
passado, os velhos mandaram rezar uma missa no
dia 23, em homenagem a ele, mais ou menos na
hora de festa, e estava chovendo igual a hoje. Mais,
mais, estava chovendo até mais. Foi uma tristeza
grande, aquela chuva forte, ninguém na rua, as goteiras na igreja e os velhos tendo de esperar para
ver se melhorava um pouco, para eles poderem
sair. E não é assim que, por volta das onze horas
da noite, os velhos vão saindo, junto com uns parentes mais moços de uns e mais alguns devotos do
santinho, tudo debaixo daquele temporal, quando,
chegando bem junto do caminhão da Cobal, que
estava ali parado, para, no outro dia, o povo poder fazer compras de mercadinho, que aqui não há
e o governo aí manda esse caminhão para roubar
a gente mais bem roubado, um raio desce com o
maior estrondo, alumia tudo e a chuva pára que
não cai mais uma gota. E, todo mundo ainda tonto com aquele estrondo e a claridade, uns querendo correr, outros se benzendo, o que se vê é que,
devagar, devagar, as portas detrás do caminhão da
Cobal vai se abrindo e balançando no vento. Tem
quem diga que, nessa hora, se ouviu uma risada
escrita às risadas que Ioiô Pascoal dava na hora da
festa, mas a verdade é que nem os velhos nem ninguém precisava de ouvir risada, o milagre já estava
feito. No outro dia, quando os homens da Cobal vieram abrir o caminhão, não tinha mais nada dentro
e teve festas até depois do Ano-bom nas casas de
muitos desses velhos e também dos devotos, quase
como se São Pascoal da Ilha ainda estivesse vivo.
Por aí está se vendo que a chuva que vem caindo esses dias todos deve ser que o milagre vai se
repetir, todo mundo tem certeza disso. A missa de
Ioiô Pascoal vai ter muita gente hoje e já está tudo
organizado: primeiro quem entra no caminhão são
os velhos, cada qual com sua sacolinha. Depois é que
os outros entram, que é para respeitar a vontade do
santo, porque a festa dele sempre foi para os velhos e os velhos estão em primeiro lugar. Dizem que
este ano a Cobal vai tomar providências e vai botar
uns dois vigilantes lá para tomar conta do caminhão,
porque no outro ano eles ficaram muito aborrecidos
com o sucedido. Porém nós já resolvemos tudo e, se
alguém quiser empatar o milagre, nós vamos ajudar
o santo e muita gente já está preparando uns cacetes e uma coisas assim, que é para o caso do santo
precisar de assistência na hora de abrir a porta do
caminhão e mandar os velhos entrar. Ainda mais agora, que ele já teve o trabalho de providenciar essa
chuva toda numa época que não chove para poder
os velhos dele fazerem a festa. Budião vai, Alma de
Jegue também vai, diz ele que só para levar o diabo
da sogra, mas eu sei que ele também vai levar a
sacolinha dele, ele também é filho de Deus. Cada
qual tem o Natal que pode e o pobre não vai desprezar um Natal que tem um santo bom trabalhando
para ele. E o Natal do ano passado, foi muito bom
mesmo, até Budião disse que comeu um pedaço de
avelão legítimo e que nem achou essas coisas todas.
É pequenininho e, pelo nome assim, eu pensava que
era grande, diz Budião.
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