Porto Feliz: evolução demográfica, imigração e propriedade de terra nos
séculos XIX E XX∗
Karen Teresa Marcolino Polaz1
Palavras-chave: população; engenho central; belgas; propriedade de terra
Resumo
O município de Porto Feliz, estado de São Paulo, exerceu papel central na fase
monçoeira do movimento bandeirantista, possibilitando a expansão das fronteiras do Brasil
nos séculos XVII e XVIII. Durante os anos 1800, caracterizou-se como importante produtor
de cana-de-açúcar, mesmo durante o período da ampliação da lavoura cafeeira no território
paulista. A partir da década de 1880, no entanto, recebeu um contingente razoável de
imigrantes estrangeiros. O objetivo da pesquisa consiste em traçar um panorama da
evolução demográfica e econômica de Porto Feliz e, principalmente, acompanhar a
trajetória dos imigrantes no município, em particular os belgas, que vieram trabalhar para o
Engenho Central, com estabelecimento no Núcleo Colonial Rodrigo Silva. As fontes
básicas utilizadas são os censos demográficos e agrícolas, almanaques, documentos de
época existentes nos arquivos históricos, entrevistas com descendentes dos imigrantes e
com historiadores locais, além da bibliografia sobre o tema. A presente proposta está em
fase de levantamento e sistematização das fontes, elaboração de tabelas e gráficos e de
análises preliminares.
∗
Trabalho apresentado no XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em CaxambúMG – Brasil, de 18 a 22 de setembro de 2006.
1
Graduanda de Ciências Sociais, bolsista IC/CNPq (agosto de 2004 a fevereiro de 2006), Núcleo de Estudos
Populacionais - NEPO, Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.
1
Porto Feliz: evolução demográfica, imigração e propriedade de terra nos
séculos XIX E XX∗
Karen Teresa Marcolino Polaz2
Introdução
A capitania de São Paulo exerceu um papel de formação motriz da nacionalidade
brasileira desde os tempos coloniais. As Bandeiras, expedições empreendidas pelo interior
do país nos séculos XVI, XVII e XVIII, sobretudo pelos paulistas, expandiram as fronteiras
do Brasil e engendraram o povoamento do chamado “sertão”. Eram de caráter particular e
visavam interesses nitidamente econômicos.
Porto Feliz, município paulista que fez parte desse movimento das Bandeiras,
está localizado no centro sul do território paulista, a 110 km da capital São Paulo. O
território original de Porto Feliz, cujo município foi criado em 1858, sofreu
desmembramentos no decorrer do tempo, dando origem a Tietê (1842) e a Boituva (1937).
Tietê, por sua vez, originou Conchas (1916), Laranjal Paulista (1917) e Cerquilho (1948)
(figuras 1 e 2)3.
∗
Trabalho apresentado no XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em CaxambúMG – Brasil, de 18 a 22 de setembro de 2006.
2
Graduanda de Ciências Sociais, bolsista IC/CNPq (agosto de 2004 a fevereiro de 2006), Núcleo de Estudos
Populacionais - NEPO, Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.
3
Mapas cedidos pela Dra. Maria Silvia Casagrande Beozzo Bassanezi, em conjunto com o Núcleo de Estudos
de População.
2
Figura 1. Localização territorial de Porto Feliz na Província de São Paulo
Província de São Paulo
1836
Porto Feliz
N
W
E
S
Fonte: MÜLLER, Daniel Pedro (org.) - Ensaio d'um Quadro Estatístico da Província de São Paulo. São Paulo,
Reedição Litteral de Secção de obras d' "O Estado de São Paulo", 1923.
Figura 2. Municípios desmembrados do território original de Porto Feliz até 1950
Estado de São Paulo
1950
CONCHAS
LARANJAL
PAULISTA
TIETÊ
CERQUILHO
BOITUVA
PORTO FELIZ
N
W
E
S
Fonte: Recenseamentos de 1836 a 1950.
3
As monções, que eram expedições fluviais, organizadas pelos bandeirantes, os
quais navegavam sertão adentro, a fim de aprisionar indígenas e encontrar pedras e metais
preciosos, fomentaram o comércio da região onde se inseria Porto Feliz, porque abasteciam
as minas de Cuiabá. Por outro lado, concomitantemente à dinamização do comércio antes
da partida das monções, a capitania de São Paulo ia sendo despovoada de homens de todas
as idades, que partiam para o Mato Grosso com o intuito de se enriquecer. O desenvolver
de Itu e Araritaguaba deu-se graças a esse abastecimento propiciado pela rota monçoeira,
ao menos até 1838, quando ocorreram as últimas expedições com procedência nesse porto.
Embora a população tenha crescido de 7.576 habitantes em 1822, para 11.293
em 1836, a partir da década de 30 do século XIX, Porto Feliz já não apresentava aquele
passado imponente das monções. Diversos fatores haviam contribuído para arruinar o
comércio e as monções de Porto Feliz a Cuiabá, como o novo trajeto através dos rios
Paraná e Paraguai aos trâmites mercantis, promovendo relações de comércio entre o Rio de
Janeiro e Cuiabá e a opção pelo porto de Piracicaba para o abastecimento da colônia militar
de Itapura, recém-estabelecida. Nessa época, no entanto, Porto Feliz já se inseria na
economia açucareira, integrante do Quadrilátero do Açúcar, área central da Província de
São Paulo, que tinha como vértices os municípios de Jundiaí, Mogi-Guaçu, Piracicaba e
Sorocaba. Nessa região, predominou a cultura da cana-de-açúcar na segunda metade do
século XVIII e na primeira de século XIX. Tanto que, só no ano de 1797, produziu-se
83.435 arrobas de açúcar destinadas à exportação4.
Embora o cultivo estivesse disseminado por toda a área, em maior ou menor
densidade, os municípios que se destacaram foram Campinas e Itu. Em 1820, quando SaintHilaire visitou Porto Feliz, seus habitantes afirmaram que tais terras eram mais próprias
para a cultura de cana do que as de Itu. Percebe-se que, na região limítrofe, apenas Itu e
Piracicaba ultrapassavam Porto Feliz quanto à quantidade de engenhos (98, 78 e 76,
respectivamente). Ainda é preciso lembrar que, pelo menos até o ano de 1854, o surto
cafeeiro não havia atingido o Quadrilátero do Açúcar, constituindo Campinas uma exceção,
por tornar-se o principal centro produtor de café na época. E apesar de não existir fazendas
de café em Porto Feliz, também havia cultivo deste produto nos engenhos, em pequena
escala. Com o desmembramento do município de Tietê, em 1842, a população de Porto
Feliz era de 4.437 habitantes no censo de 1854.
Engenho Central: Porto Feliz em fins do século XIX
O censo de 1872, realizado na Província de São Paulo em 1874, aponta Porto
Feliz com 7.669 habitantes, e o de 1886, com 5.781. Infelizmente, no estágio em que a
pesquisa se encontra, não é possível saber a causa da diminuição populacional. No entanto,
a despeito desse decréscimo, nas últimas décadas do século XIX, dois fatos importantes
marcaram a história da localidade: a construção do Engenho Central (1878) e a criação do
Núcleo Colonial Rodrigo Silva (1887). Nessa época, a imigração internacional ainda era
restrita, sendo que, para o ano de 1886, havia 139 estrangeiros em Porto Feliz, isto é,
apenas 2,4% da população.
Em agosto de 1876, por já haver elevada produção de açúcar, foi estudada a
possibilidade de abertura de um engenho central em Porto Feliz, inaugurado em 28 de
outubro de 1878, o primeiro da Província paulista e o terceiro do país, constituído por
4
DI, 44, Memória de Mello Castro e Mendonça, de 28 de dezembro de 1802, p. 137 in Petrone, 1968.
4
máquinas e aparelhos aperfeiçoados para a fabricação de açúcar. Foi o primeiro da
Província, porque os plantadores de cana-de-açúcar da região foram os pioneiros a se
organizar para fundar uma associação, a fim de gozar os benefícios da lei imperial que
garantia juros ao capital empregado nesse tipo de agro-indústria. Destacaram-se no
empreendimento os membros das famílias ituanas Almeida Prado, Paula Leite e Sampaio
Góis (Souza, 1978).
Com a organização da Companhia Açucareira de Porto Feliz, estabeleceu-se a
proibição do uso de trabalho escravo, concomitante ao fato de facilitar a obtenção de
terrenos devolutos para futura revenda a imigrantes europeus que começavam a vir. Nessa
época, os escravos já haviam diminuído de 1.547 indivíduos, em 1872, para 594 em 1887.
A utilização, pelo Estado, de núcleos coloniais oficiais propunha atender aos
interesses da grande lavoura de maneira direta ou não. Forneciam produtos a preços baixos,
serviam como ponto de atração e estabelecimento de imigrantes, ou ainda eram os lugares
onde havia mão-de-obra reservada para quando seu nível de atividade fosse maior. Além
disso, trabalhadores eram atraídos pelos núcleos coloniais oficiais, lá se estabelecendo,
onde se tornariam, com o tempo, pequenos proprietários e garantiriam safras fixas de cana
aos Engenhos Centrais para os quais trabalhavam.
Após a abertura do Engenho Central e sua fase de adaptação, como já foi dito
anteriormente, houve a repartição interna de setores produtivos: o cultivo da cana-de-açúcar
de um lado e a fabricação do açúcar de outro. Contudo, a primeira seção era a menos
favorecida, por apresentar técnicas obsoletas na lavoura, mão-de-obra escassa e deficiência
dos meios de transporte da cana. Esses fatores, acrescentados ao fim do trabalho escravo,
ou seja, à insuficiência de mão-de-obra, com a abolição de 13 de maio de 18885,
desencadearam tribulações no provimento de matéria-prima para o Engenho Central.
Depois de alguns anos funcionando, o engenho foi fechado, devido a dissensões
entre os membros da diretoria e dos próprios acionistas, por motivos não divulgados na
época. Posteriormente, foi arrendado ao inglês Sr. Ricardo, que também encontrou
intempéries para fazê-lo funcionar. Havia, além dos fatores já citados, os problemas de
mão-de-obra e da ausência de um fornecimento fixo de cana a preços que permitissem ao
Engenho Central produzir açúcar a custos competitivos, o que proporcionou um
aprofundamento das dificuldades financeiras. Em 1882, por já estar hipotecado ao Banco
União, fechou as portas novamente e permaneceu em poder desse estabelecimento bancário
para saldar dívidas outrora acumuladas – em virtude da proibição contratual de uso do
trabalho escravo, as despesas com salários, por exemplo, foram muito maiores do que a
capacidade financeira do Engenho.
Observa-se que a crise dos engenhos centrais, na década de 1880 em São Paulo,
alastrou-se por quase todos os municípios do denominado Quadrilátero do Açúcar, como
Porto Feliz, Piracicaba e Rafard. Apenas o Engenho Central de Lorena, que não integrava a
região do Quadrilátero, foi beneficiado pela legislação e, em decorrência, permaneceu em
funcionamento. No caso de Porto Feliz, foi construída uma usina onde se encontrava o
antigo engenho. Esta, por sua vez e mais uma vez, uniu agricultura e indústria.
Imigrantes belgas em Porto Feliz
5
A Lei Áurea de 1888 apenas fez o reconhecimento legal de uma situação prática existente, porque a
escravidão podia ser dada como insignificante.
5
Com o estabelecimento do Engenho Central e a escravidão tendo seus dias
contados, iniciou-se um projeto de colonização em Porto Feliz com imigrantes belgas6. Um
padre belga, Jean Baptiste Vanesse, interessou-se com os prováveis lucros que seriam
proporcionados pela formação de uma colônia belga na América Latina e pela abertura do
governo brasileiro à migração para a pequena propriedade. A produção de cana, aos quais
se dedicariam os belgas, serviria o Engenho Central de Porto Feliz, deste modo, o governo
imperial se propôs a dividir as terras em lotes com o intuito de entregá-los às primeiras
famílias belgas, que viriam da região Valã. O objetivo do núcleo colonial era servir como
“uma espécie de escola prática onde agricultores paulistas aprenderiam com os europeus a
cultura do trigo, linho, cevada e técnicas de criação de vacas leiteiras”7.
Este nucleo foi fundado com a aquisição das terras
comprehendendo os sitios – Grande e Marinoni – e 2 chacaras unidas,
cuja area é de 16.018.m² 0.70,00 ou 1.601,8 hectares, com o perimetro
total de 32.447,45 metros correntes.
Custaram ao Estado todas essas propriedades e importancia de
23:000$000, exclusive o custo da mediação.
(...).
Obrigando-se o Governo a mandar dividir e demarcar as terras
adquiridas, em lotes de 25 a 30 hectares, e a fazer outros melhoramentos
tendentes a assegurar o desenvolvimento do projectado nucleo,
determinou S. Exe. O Sr. Ministro d’Agricultura a essa Commissão, por
intermedio da Inspectoria Geral das Terras e Colonisação, o seguinte:
1o Demarcação definitiva e subsequente divisão em lotes
coloniaes com a area indicada, estabelecendo a séde do nucleo no ponto
mais conveniente, tendo em vista as disposições do Regulamento de 19
de Janeiro de 1867.
2o Proceder aos estudos e orçamentos das estradas e caminhos
vicinaes precisos, bem como de um barracão para alojamento provisorio
dos immigrantes; de uma igreja modesta para o culto8, e de um edificio
para a escola.
3o Reparação da casa existente, a qual terá de servir para a
Directoria e residencia do Padre Vanesse.
Incumbidas dos trabalhos de mediação e de marcação, segundo o
plano acima indicado, seguiram 2 turmas de Agrimensores para aquella
localidade.
Pelo relatorio do Chefe da Commissão melhor ajuizará V. Exe.
do estado dos serviços de Terras e Colonisação, a cargo do Engenheiro
Joaquim Rodrigues Antunes Junior, encontrando-se nos respectivos
quadros que o acompanham todos os detalhes exigidos.
Em seguida encontrará V. Exe. os actos officiales relativos ao
serviço de colonisação e immigração9.
A fim de atrair colonos na Bélgica, Vanesse escreveu um folhetim prometendo
bastantes benefícios: “os lotes de 20 a 30 hectares custariam em média 1.400 francos e
poderiam ser totalmente pagos pelos colonos no prazo máximo de sete anos. Além disso,
como o núcleo era fundado com o objetivo de alimentar o Engenho Central, toda a
produção de cana tinha comprador certo” (Souza, 1978: 20).
6
Deixamos registrado que a Bélgica apenas proibiu a emigração subvencionada ao Brasil após 1890,
alegando ser em defesa de seus próprios cidadãos.
7
Trecho retirado do site http://www.portofeliz.sp.gov.br/modules/xt_conteudo/index.php?id=3. Janeiro de
2006.
8
Há dados de que foi construída uma igreja em louvor a Santo Antonio no ano de 1922 (nota nossa).
9
Exposição 1887.
6
O panfleto elucidava aos colonos que seria preferível levar “casas préfabricadas, com paredes, divisões e teto de ferro” da Bélgica, porque as arquitetadas pelo
governo eram muito “precárias”.
Autorizado pelo Aviso nº 111, de 16 de novembro de 1887, do
Ministério da Agricultura, o Inspetor Geral das terras e Colonização
assinou, no dia seguinte, um minucioso contrato com o padre Vanesse.
De acordo com o contrato seriam introduzidas 50 famílias na colônia,
sendo 45 famílias necessariamente de agricultores, a começar do início
de maio de 1888 até 31 de maio de 1889. Cada família obrigava-se a
trazer um capital mínimo de 1.000 francos, mais os utensílios
domésticos e implementos agrícolas. As despesas com o transporte dos
colonos e de suas bagagens ficavam por conta do governo.
O núcleo colonial ficaria sujeito à jurisdição civil, segundo as
leis e disposições em vigor no Império, e o padre VanEsse, na qualidade
de “diretor espiritual”, seria um representante remunerado do Ministério
da Agricultura, Comércio e Obras Públicas10.
O Ministro Rodrigo Silva antevia um futuro promissor à Colônia de Porto Feliz,
“conforme o ofício de 19 de fevereiro de 1888, enviado por E. de Grelle ao Príncipe
Chimay, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica”. Dizia-se, na época, que a criação
da colônia seria a prova da “simpatia dos brasileiros pelos trabalhadores belgas”.
Aos colonos Vanesse sugeria a organização de uma cooperativa.
Através dela o excedente da produção seria colocado no mercado, a ela
caberia a compra de alimentos e ferramentas, e mediante uma pequena
contribuição mensal ela providenciaria assistência médica e
medicamentos às famílias dos colonos. A cooperativa poderia depois
ligar-se a outras do mesmo gênero, formadas em futuras colônias
belgas11.
A bordo do navio Hipparchus, chegaram as primeiras 25 famílias ao Brasil,
desembarcando no porto de Santos, quando “partiram de trem com destino a Itu ou
Sorocaba, de onde alcançariam Porto Feliz a pé ou em carro de bois”. No final de maio de
1888, os seguintes colonos solicitaram os seus lotes: Adelin Péters, Alexandre Libois,
Auguste de Becquerot, Auguste Dubois, Augustine Detry, Edmond Taupe, Emile Gérard
Ballion, Edouard Leroy, Felix Waynes, Ferdinand Boudart, François Pierre, François
Labenne, Genius Despontin, Gustave Dumont, Hubert Dumont, J. B. Vanerweyck, J. J.
Descolte, Jules Bertz e Vital Kestemond.
Passados meses da inauguração, o Diário Popular de 31 de janeiro de 1889
noticiou as péssimas condições nas quais a colônia se encontrava, com críticas à direção do
padre belga. Vanesse, por sua vez, não abdicou do núcleo colonial, mesmo quando
surgiram os primeiros protestos contra sua administração. “A 4 de maio de 1889 remeteu
um ofício ao Barão George Reusens, então Ministro da Legação belga do Rio de Janeiro,
solicitando sua intervenção para a prorrogação do prazo do contrato, que o obrigava a
introduzir as famílias restantes, já engajadas na Bélgica, até o dia 31 daquele mês, e para as
quais o Cônsul do Brasil em Anvers não concedia a necessária autorização para embarque”
(Souza, 1978: 20). Ainda nesse ofício, Vanesse relatou que havia muitas pessoas que
sempre procuravam difamá-lo.
10
11
Souza, 1978: 20.
Souza, 1978: 20.
7
Quanto aos colonos, com o tempo, alguns voltaram para a Bélgica, outros foram
para a zona urbana de Porto Feliz ou dos municípios vizinhos. Poucos foram os que
permaneceram na colônia.
A tutela do Governo somente foi retirada pelo Decreto número
225-A, de 30 de dezembro de 1893, que emancipou também outros sete
núcleos oficiais instalados em outros municípios.
Os belgas foram substituídos por brasileiros e imigrantes de
outras nacionalidades, como demonstrou o recenseamento realizado em
1893: a população de 271 habitantes, todos agricultores, era formada
por 150 brasileiros, 62 belgas, 39 italianos, 16 espanhóis, 1 francês, 1
alemão, 1 norte-americano e 1 “africano”. Das 52 moradias, avaliadas
em 13:420$000 réis, 50 ainda eram casas provisórias. O valor da
produção do Núcleo Colonial “Rodrigo Silva” nesse ano atingiu
46:068$000 réis, no qual o milho participava com mais de 50%,
registrando-se a existência de dois “engenhos de fubá” para o seu
beneficiamento. A produção de cana não ultrapassou os 60 carros (cada
carro equivalia aproximadamente a 1.500 quilos), avaliados em
1:800$000 réis. Os colonos, quando plantavam cana, achavam mais
prático “fazer com ela aguardente, do que puxá-la uma longa distância,
empilhá-la sobre vagões e esperar em seguida com paciência longos
meses para serem pagos, estando o Engenho cronicamente sem vintém”,
como escreveu Frederic Sawyer no seu estudo sobre a indústria
açucareira em São Paulo, publicado em 190512.
Em Porto Feliz, a experiência não obteve êxito, devido ao sistema de
recrutamento dos imigrantes, que se mostrou falho ao longo do tempo. ”A própria diretoria
da Sociedade Central de Imigração reconhecia que os belgas não estavam dando prova
como trabalhadores assalariados nas fazendas e como pequenos proprietários, porque
vinham da Europa com muitas esperanças, fundadas em promessas exageradas e de difícil
realização, pelo menos na fase inicial” (Souza, 1978: 20). A maior parte dos colonos
formava-se por operários de minas e indústrias, isto é, inexperientes com o trabalho na
lavoura. Além disso, era inexistente um comando que fosse ativo e eficaz.
Outros problemas influenciaram no fracasso do núcleo. Quando os imigrantes
belgas chegaram ao Brasil, seriam proprietários de pequenos lotes de terras em Porto Feliz,
que, unidos, comporiam uma grande propriedade suscetível de fornecer safras fixas ao
Engenho Central, desde que sob a direção de uma cooperativa. No entanto, não foi isso que
aconteceu, pois enquanto a colônia estava ainda se organizando, os grandes fazendeiros já
exerciam influência no mercado agrícola. Aliás, a busca pela concorrência com esses
fazendeiros foi o determinante para o insucesso do núcleo colonial. Como Porto Feliz não
apresentou o vigor do surto cafeeiro de outros municípios, atraiu menos imigrantes. Mesmo
assim, chegaram ali numerosas famílias italianas entre os anos de 1887 e 1893 e, em fins do
século XIX, oriundas diretamente da Itália ou dos demais municípios da Província de São
Paulo.
A chegada dos imigrantes certamente contribuiu junto com o crescimento
vegetativo para que a população dobrasse nas últimas décadas do século XIX (tabela 1).
Deste modo, o gráfico 1 representa o território original de Porto Feliz, como se não tivesse
havido desmembramentos, enquanto que o gráfico 2 mostra apenas a população do
município portofelicense.
12
Souza, 1978: 20.
8
Tabela 1
Crescimento populacional do município de Porto Feliz (1822 – 1900)
Anos
Livre
Escrava
Total
1822
4.200
3.376
7.576
1836
7.122
4.171
11.293
1854
2.870
1.567
4.437
Anos
1872
6.122
1.547
7.669
1886
5.187
594
5.781
1890
8.235
1900
10.268
Fonte: MULLER, Daniel Pedro (org.) - Ensaio d'un Quadro Estatístico da Província de São Paulo. São Paulo, Reedição
Litteral Secção de Obras d' "O Estado de São Paulo", 1923; Quadro Estatístico da População da Província de São
Paulo Recenseada no anno de 1854. (...); Recenseamento Geral do Império, 1872; Relatório apresentado ao Exm. Sr.
Presidente da Província de São Paulo pela Commissão Central de Estatistica. São Paulo, Leroy King Bookwalter,
Typographia King, 1888.
Gráfico 1
Tendência de crescimento da população de Porto Feliz (território de 1836) segundo
Condição Social (1836 – 1886)
T e n d ê n c ia d e C r e s c im e n t o d a P o p u la ç ã o s e g u n d o C o n d iç ã o S o c ia l
P o r t o F e liz - 1 8 3 6 a 1 8 8 6
18.000
1 6 .2 4 4
15.000
1 2 .8 5 3
Valores
12.000
9.000
7 .1 2 2
5 .4 8 6
6.000
4 .8 2 3
3 .8 2 7
4 .1 7 1
2 .5 0 9
3.000
0
1830
1840
1850
1860
A nos
1870
1880
1890
L iv r e
E sc r a v a
Nota: no estágio atual da pesquisa, não podemos afirmar, com certeza, o que pôde ter causado a diminuição populacional
de 1836 a 1954.
Fonte: MULLER, Daniel Pedro (org.) - Ensaio d'un Quadro Estatístico da Província de São Paulo. São Paulo, Reedição
Litteral Secção de Obras d' "O Estado de São Paulo", 1923; Quadro Estatístico da População da Província de São Paulo
Recenseada no anno de 1854. (...); Recenseamento Geral do Império, 1872; Relatório apresentado ao Exm. Sr. Presidente
da Província de São Paulo pela Commissão Central de Estatistica. São Paulo, Leroy King Bookwalter, Typographia King,
1888.
9
Gráfico 2
Tendência de crescimento da população de Porto Feliz (município) segundo Condição
Social (1836 – 1886)
T e n d ê n c ia d e C r e s c im e n t o d a P o p u la ç ã o s e g u n d o C o n d iç ã o S o c ia l
P o r t o F e liz - 1 8 3 6 a 1 8 8 6 ( t e r r it ó r io )
10.000
8.000
Valores
7 .1 2 2
6 .1 2 2
5 .1 8 7
6.000
4.000
4 .1 7 1
2 .8 7 0
1 .5 6 7
2.000
1 .5 4 7
594
0
1830
1840
1850
1860
1870
1880
1890
L iv r e
A nos
E sc r a v a
Fonte: MULLER, Daniel Pedro (org.) - Ensaio d'un Quadro Estatístico da Província de São Paulo. São Paulo, Reedição
Litteral Secção de Obras d' "O Estado de São Paulo", 1923; Quadro Estatístico da População da Província de São Paulo
Recenseada no anno de 1854. (...); Recenseamento Geral do Império, 1872; Relatório apresentado ao Exm. Sr. Presidente
da Província de São Paulo pela Commissão Central de Estatistica. São Paulo, Leroy King Bookwalter, Typographia King,
Século XX
Porto Feliz encerra o século XIX, em 1900, com 10.268 habitantes. Vinte anos
depois, já nas primeiras décadas do XX, apresenta uma população de 17.392 indivíduos,
que, decorridos mais vinte anos, somam 17.275 em 1940. O desmembramento do
município de Boituva, em 1937, foi determinante para o decréscimo da população entre
1934 e 1940 (tabela 2).
Tabela 2
Crescimento populacional do município de Porto Feliz (1920 – 1950)
Brasileira
Anos
1920
1934
1940
1950
Estrangeira
16.141
21.454
16.566
19.134
1.251
1.239
709
481
Total
17.392
22.693
17.275
19.615
% de
estrangeiros
7,19
5,46
4,10
2,45
Nota: Nas populações estrangeiras de 1934 e 1940, está incluso um habitante de nacionalidade não declarada. Para os
anos de 1940 e 1950, os brasileiros naturalizados estão incluídos dentre os estrangeiros.
Fonte: Recenseamentos de 1920, 1934, 1940 e 1950.
Para o ano de 1904-05, uma estatística agrícola-zootécnica traz informações
minuciosas sobre as atividades agro-pecuárias desenvolvidas em Porto Feliz, assim como
para todos os municípios paulistas. Trata-se da Estatística Agrícola e Zootécnica, elaborada
pela Secretaria dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas do Estado de
São Paulo. Ao realizar-se uma estatística desse porte, justificava-se pela preocupação em
retratar a situação da agricultura do Estado brasileiro mais próspero, o de São Paulo, a fim
10
de atrair empreendimentos financeiros para a agricultura e a incipiente indústria e tomar as
medidas necessárias, para combater as crises pelas quais vinha passando a cafeicultura.
1904-1905
Em 1904-05, embora a grande maioria das propriedades e da área estivesse em
mãos de brasileiros, era perceptível a presença estrangeira na posse da terra em muitos dos
municípios paulistas e, conseqüentemente, em Porto Feliz (tabela 3).
Tabela 3
Proprietários de estabelecimentos rurais segundo a
nacionalidade - Porto Feliz (1904-1905)
Nacionalidade13
Nº de proprietários
Brasileira
207
Italiana
34
Portuguesa
9
Belga
12
Francesa
5
Espanhola
3
Norte amer.
1
Total de propriedades agrícolas
271
Fonte: Estatística Agrícola e Zootécnica, elaborada pela Secretaria dos
Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas do Estado de São Paulo,
1904-1905.
Em Porto Feliz, os brasileiros, que representavam a maioria da população, eram
os detentores do maior número de propriedades agrícolas (76,4%), sendo os únicos a
possuir propriedades com mais de 250 alqueires14. O caso dos franceses é preciso ser
analisado com acuidade, pois a Succrerie Porto Feliz, empresa francesa, dispunha de três
propriedades agrícolas. Assim, dos cinco franceses que constam no censo, apenas dois
podiam ser considerados pessoas físicas. Com a análise das estatísticas, portanto, verificase uma elite local, proprietária de terra, constituída por brasileiros, em contraposição ao
elevado contingente da própria população brasileira proprietária de pequenas áreas de terra
– 40% dos 207 proprietários agrícolas brasileiros arrestavam até 25 alqueires (tabela 4).
13
Dentre os brasileiros está incluso o governo do Estado e, quanto aos franceses, a empresa Succrerie Porto
Feliz correspondia a três proprietários no censo.
14
Apenas um homem, o brasileiro Silvino de Moraes Fernandes, possuía 1.000 alqueires de terras.
11
Tabela 4
Área dos estabelecimentos agrícolas segundo a nacionalidade dos proprietários (em
alqueires) - Porto Feliz (1904-1905)
Nort.
Total
amer.
Bras.
Ital.
Port.
Belg.
Franc.
Esp.
até 10
36
10
3
1
0
2
0
52
de 10.5 até 25
46
15
0
10
0
1
0
72
de 25.5 até 50
43
5
3
1
2
0
0
54
de 50.5 até 100
38
3
1
0
3
0
0
45
de 100.5 até 250
28
1
2
0
0
0
1
32
de 250.5 até 500
10
0
0
0
0
0
0
10
de 500.5 até 1.000
6
0
0
0
0
0
0
6
mais de 1.000
0
0
0
0
0
0
0
0
Total
207
34
9
12
5
3
1
271
Fonte: Estatística Agrícola e Zootécnica, elaborada pela Secretaria dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas
do Estado de São Paulo, 1904-1905.
Os poucos estrangeiros proprietários, na sua maioria, possuíam estabelecimentos
rurais pequenos, que não ultrapassavam 25 alqueires. Entre esses predominavam os
italianos com 25 propriedades e os belgas, com 12.
Em 1904-05, os brasileiros, como vimos, detinham a maioria das propriedades
agrícolas (76%) e também no que se refere à respectiva área, já que eram donos de 87% do
total. Quando se analisam apenas os proprietários estrangeiros, os italianos constavam
como mais da metade dos proprietários rurais, seguidos pelos belgas (19%), portugueses
(14%) e franceses (8%). No entanto, há mudanças significativas quando se observa a área,
pois a correspondente aos italianos cai para 37%. Em compensação, os portugueses detém
21% e os franceses, 27%, quantidade proporcional quando se trata de uma empresa, além
das duas pessoas físicas de nacionalidade francesa. Os norte americanos, que compunham
2% dos proprietários, ocupavam uma área de 6% (tabela 4).
Apenas a título de exemplo, podemos comparar, na mesma época, o município
cafeeiro de Rio Claro15, onde havia 404 estabelecimentos rurais, dos quais 36% pertenciam
a estrangeiros que, por sua vez, possuíam 25% das terras. Os alemães eram os possuidores
de maior área total e donos da maior área média de terras, porém ocupavam o segundo
lugar quanto ao número de proprietários. Por ser um município cuja principal cultura era o
café e onde havia um número maior de estrangeiros, estes tiveram mais oportunidades em
Rio Claro que em Porto Feliz, por serem donos de maior porcentagem de terras que aqueles
residentes na antiga Araritaguaba.
Se em Porto Feliz os estrangeiros eram 23,6% dos proprietários e ocupavam
12,5% da área, em Rio Claro, esse grupo reunia 35,9% dos donos de terras e uma área de
25%. Percebe-se que, em Rio Claro, os estrangeiros também detinham áreas maiores que
em Porto Feliz e, conseqüentemente, a área média. Quanto aos valores, pelos proprietários
de Rio Claro possuírem mais áreas que os de Porto Feliz, o valor de suas terras era maior
que os da antiga Araritaguaba (tabelas 5 e 6).
15
As informações sobre o município de Rio Claro foram retiradas de BASSANEZI, M. S. C. B. Imigração e
Oportunidades no Período Cafeeiro. Textos NEPO 21, 1992.
12
Tabela 5
Propriedades agrícolas por nacionalidade do proprietário - Porto Feliz (1904-1905)
Propriedade
No.
Área (alq.)
Área média
Valor (mil réis)
Valor médio
(alq.)
(mil réis)
Brasileiros
207
18.282
88,3 1.612:200$000
7:788
Italianos
34
977
28,7
138:800$000
4:082
Portugueses
9
539
59,9
71:100$000
7:900
Belgas
12
211
17,6
48:520$000
4:043
Franceses
5
710
142,0
514:000$000
102:800
Espanhóis
3
32
10,7
4:000$000
1:333
Norte americanos
1
150
150,0
20:000$000
20:000
Fonte: Estatística Agrícola e Zootécnica, elaborada pela Secretaria dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras
Publicas do Estado de São Paulo, 1904-1905.
Tabela 6
Propriedades agrícolas por nacionalidade do proprietário - Rio Claro (1904-1905)
Propriedade
No.
Área (alq.)
Área média
Valor (mil réis)
Valor médio
(alq.)
(mil réis)
Brasileiros
258
31.472
122,0 13.970:950$000
54:151
Italianos
67
2.850
42,5
893:000$000
13:328
Portugueses
17
1.508
88,7
553:000$000
32:529
1
1.500
400:000$000
Espanhóis
15
388
25,7
127:200$000
8:480
Alemães
42
4.287
102,1
1.042:300$000
24:817
Austríacos
4
23
5,8
20:000$000
5:000
Fonte: Estatística Agrícola e Zootécnica, elaborada pela Secretaria dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras
Publicas do Estado de São Paulo, 1904-1905.
Dos 207 proprietários agrícolas de Porto Feliz, 17 eram mulheres, ou seja, 8,2%
do total. Dentre elas, 7 detinham terras com 100 alqueires ou mais. Em 1904-1905
predominavam, de maneira intensa, os homens na economia e na visibilidade política,
portanto, era normal que essa dominância também se fizesse com a propriedade de terra. É
crível supor que essas mulheres brasileiras eram detentoras de certos alqueires por herança
de pai, no entanto, é mais provável que fosse por legado de marido, na qualidade de viúvas.
Quando se analisam as outras nacionalidades, apenas uma belga, Clemencia Tacunhan,
possuía terras.
Dentre os belgas proprietários, há a lista, no recenseamento, com o primeiro
nome e o sobrenome. Percebe-se que apenas alguns sobrenomes são os mesmos dos que
vieram na primeira leva de imigrantes com o padre Vanesse. Quanto aos demais, não
sabemos se vieram posteriormente ou se já se encontravam no Brasil.
1920
Em 1920, dos 17.392 habitantes de Porto Feliz, 7,19% da população era
composta por estrangeiros, como poderá ser observado na tabela 8. Nesse mesmo ano,
foram recenseados os estabelecimentos rurais, segundo a categoria dos proprietários. Em
relação a 1904-05, observa-se que diminuiu a proporção de brasileiros tanto no total das
propriedades rurais quanto na sua respectiva área, apesar de, em números absolutos, a
diferença tenha sido pequena em 15/16 anos. Os estrangeiros aumentaram sua área em
porcentagem quando se compara à 1904-05, no entanto, para 1920, havia a categoria dos
13
indeterminados16, a qual podia conter estrangeiros. Também existindo estrangeiros dentro
dessa categoria, tanto a porcentagem de estabelecimentos agrícolas quanto à área,
provavelmente, poderia elevar-se para esse grupo, que correspondiam a 21% dos
proprietários rurais.
Porto Feliz detinha 209 estabelecimentos pertencentes a pessoas nascidas no
Brasil, cuja área era de 9.569,83 alqueires ao todo. Dos 71 estabelecimentos pertencentes
àquelas nascidas no estrangeiro, 3.892,15 era a soma de seus alqueires. Trinta
estabelecimentos estavam em posse de diversos proprietários e pessoas indeterminadas,
totalizando 4.676,45 alqueires – certamente, entre esses havia tanto brasileiros como
estrangeiros. Do total das propriedades rurais, os brasileiros eram donos de 67%, numa área
correspondente a 53%.
Quando comparamos Porto Feliz com Capivari, município desmembrado em
1832, percebemos que o total de estabelecimentos rurais do primeiro município era maior
que do segundo, no entanto, a área total de Capivari ultrapassava em 1.272,3 alqueires a da
antiga Araritaguaba. Além disso, o número de estabelecimentos pertencentes a pessoas
nascidas no Brasil era bastante menor que em Porto Feliz. Ainda na relação dos municípios
que faziam parte de área original, Laranjal Paulista, junto a Capivari, possuía menos
estabelecimentos que Porto Feliz e a menor área em hectares.
Em 1920, os estrangeiros em Rio Claro detinham 54,8% das propriedades e
26,5% da área, enquanto que em Porto Feliz, havia 22,9% de proprietários estrangeiros de
estabelecimentos rurais, donos de 21,5% da área total. Observava-se que, em Rio Claro, as
pessoas nascidas no estrangeiro já eram donas de mais da metade das propriedades
agrícolas, embora a proporção de suas respectivas áreas não era muito superior àquelas
pertencentes aos estrangeiros em Porto Feliz (tabelas 7 e 8).
Tabela 7
Proprietários dos Estabelecimentos Rurais - Porto Feliz (1920)
Proprietários
Número
Área Total (ha.)
Área Média
(ha.)
209
23.159
Brasileiros
110,81
71
9.419
Estrangeiros
132,66
30
11.317
Diversos proprietários e
377,23
pessoas indeterminadas
310
43.895
Total
141,60
Fonte: Ministério da Agricultura, Indústria e Commércio. Directoria Geral de Estatística - Recenseamento do
Brazil - realizado em 1 de Setembro de 1920. Volume IV, 1a parte. Rio de Janeiro: Typ. Da Estatística, 1922.
Tabela 8
Proprietários dos Estabelecimentos Rurais - Rio Claro (1920)
Proprietários
Número
Área Total (ha.)
Área Média
(ha.)
Brasileiros
296
59.206
200,02
Estrangeiros
440
30.483
69,28
Diversos proprietários e
66
24.682
373,97
pessoas indeterminadas
Governo
1
726
726,00
Total
803
115.097
143,33
Fonte: Ministério da Agricultura, Indústria e Commércio. Directoria Geral de Estatística - Recenseamento do
Brazil - realizado em 1 de Setembro de 1920. Volume IV, 1a parte. Rio de Janeiro: Typ. Da Estatística, 1922.
16
Nessa categoria, também estavam incluídas as propriedades pertencentes a 2 ou mais proprietários.
14
1930-1931
Novas estatísticas agrícolas foram elaboradas nos anos 1930. Para esse trabalho
estamos nos valendo de três delas.
De 1920 a 1930-31, em Porto Feliz, a porcentagem de estrangeiros aumentou
dentre o total de propriedades, passando de 22,9% para 24,5%. Quanto à área, 42,6%
pertenciam aos estrangeiros, que, em 1920, possuíam apenas 21,5% do total. Portanto,
embora a porcentagem de proprietários estrangeiros não tivesse aumentado muito, sua
respectiva área demonstrou uma melhora nas condições de vida dos imigrantes
estabelecidos em Porto Feliz nesses 11 anos considerados. Ao que tudo indica, os
estrangeiros, no decorrer do tempo, passaram a ter maior acesso à propriedade da terra.
Em 1930-31, 645 eram os proprietários agrícolas, sendo que 75,5% deles
formava-se por brasileiros e 24,5%, por estrangeiros, dentre os quais se destacavam os
italianos, que eram donos de 17,4% do total de propriedades. Analisando apenas a
população estrangeira, desde 1920, os italianos que eram 60% desse contingente, em 193031, passaram para 70,9%, com uma área equivalente a quase metade dos alqueires
pertencentes aos estrangeiros (tabelas 9 e 10).
Tabela 9
Propriedades Rurais por nacionalidade do Proprietário - Porto Feliz
(1930-1931)
Nacionalidade
Porto Feliz
No.
Área (alq.)
Valor (mil réis)
Brasileira
487
11.287
4.336:400$
Estrangeira
158
8.376
3.679:000$
Total
645
19.663
8.015:400$
Fonte: Estatística Agrícola e Zootechnica (1930-1931) organisada pela Directoria de
Estatistica, Industria e Commercio. Secretaria da Agricultura, Industria e Commercio, Estado
de São Paulo, 1932.
Tabela 10
Número de proprietários, área e valor das propriedades - Porto Feliz (1930-1931)
Número
Área (alq.)
Valor em mil réis
Brasileiros
487
11.287
4.336:400$
Portugueses
14
859
394:000$
Italianos
112
4.185
2.128:000$
Espanhóis
12
448
204:500$
Austríacos
2
64
42:000$
Sírios
7
1.141
477:000$
Alemães
2
38
16:000$
Franceses
2
1.432
285:000$
Diversos
7
209
132:500$
Total
645
19.663
8.015:400$
Fonte: Estatística Agrícola e Zootechnica (1930-1931) organisada pela Directoria de Estatistica, Industria e
Commercio. Secretaria da Agricultura, Industria e Commercio, Estado de São Paulo, 1932.
1934-1935
Para 1934, temos um censo que mostra pela primeira vez a população
desagregada por domicílio rural e urbano, mostrando que a população de Porto Feliz
cresceu de 17.392 habitantes, em 1920, para 22.693 em 1934. Além disso, o recenseamento
15
de 1934, publicado, traz as propriedades agrícolas desagregadas pela nacionalidade do
proprietário apenas para o conjunto do Estado de São Paulo, o que não atende aos
propósitos deste trabalho, que utiliza a Estatística Agrícola e Zootécnica elaborada pela
Secretaria dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas do mesmo Estado,
para dar conta de como estava distribuída a propriedade da terra entre as pessoas de
diversas nacionalidades em Porto Feliz.
Desde 1930-31, os estrangeiros, que eram 24,5% dos proprietários e reuniam
uma área de 42,6%, eram donos, em 1934-35, de 20,7% dos estabelecimentos rurais, cuja
respectiva área volvia em torno de 49,4%. Deste modo, é crível afirmar que, a despeito dos
estrangeiros terem diminuído sua proporção dentre os proprietários rurais, a porcentagem
de suas áreas se elevou, atingindo quase metade desse total. Não se pode esquecer que entre
os brasileiros, muito provavelmente, encontravam-se, também, os filhos de estrangeiros, o
que ampliaria ainda mais o grupo de proprietários de origem estrangeira (tabela 11).
Tabela 11
Propriedades agrícolas por nacionalidade do proprietário - Porto Feliz (1934-1935)
Propriedade
No.
Área (alq.)
Área média
Valor (mil réis) Valor médio
(alq.)
(mil réis)
Brasileiros
1.011
14.439
14,28
6.141,300
6:074
Estrangeiros
264
14.125
53,50
13.667,5
51:771
Total
1.275
28.564
22,40
19.808,80
15:536
Fonte: Dados do recenseamento de 1934.
Tabela 12
Número, área e valor das propriedades agrícolas e sua distribuição por
nacionalidade - Porto Feliz (1934-1935)
Número
Área (alq.)
Valor em mil réis
Brasileiros
1.011
14.439
6.141,300
Portugueses
13
494
205,400
Italianos
187
4.821
2.489,800
Espanhóis
23
475
226,700
Austríacos
5
417
141,000
Sírios
14
1.134
378,000
Alemães
8
159
69,000
Franceses
2
6.332
10.010,000
Diversos
12
293
147,600
Total
1.275
28.564
19.808,80
Fonte: Dados do recenseamento de 1934.
Segundo a “Estatistica Agricola e Zootechica de 1934-1935”, quanto ao número,
área e valor das propriedades agrícolas e sua distribuição por nacionalidade, o município de
Porto Feliz tinha 1.011 propriedades de uma área de 14.439 alqueires, com valor de
6.141,300 mil réis. Depois dos brasileiros, em segundo lugar vinham os italianos, em
número de 187 propriedades, numa área de 4.821 alqueires, com valor de 2.489,800 mil
réis. Em relação aos belgas, é possível que na categoria “diversos” houvesse aqueles
remanescentes da Colônia Rodrigo Silva, porque foram contadas 12 propriedades, numa
área de 293 alqueires, cujo valor era de 147,600 mil réis, relativamente pouca área em terra,
se comparado aos austríacos, por exemplo, em número de 5 propriedades, cuja área era de
417 alqueires, num valor de 141,000. Os italianos continuaram como a nacionalidade
estrangeira mais numerosa, representando 3% dentre a população rural e 2,9% da urbana e
correspondiam a 14,6% dos proprietários rurais (tabela 12).
16
1937-1938
Em 1937-38, os estrangeiros detinham 20,3% das propriedades rurais, cuja área
era de 35%. Em relação a 1930-31, portanto, os estrangeiros, que ocupavam cada vez mais
alqueires de terra, tiveram uma queda em 1937-38, tanto em proporção de estabelecimentos
rurais, quanto e, principalmente, de área. É possível que muitas propriedades de
estrangeiros tenham passado para seus filhos nascidos no Brasil (tabelas 13 e 14).
Tabela 13
Propriedades Rurais por nacionalidade do Proprietário - Porto Feliz
(1937 – 1938)
Nacionalidade
Porto Feliz
No.
Área (alq.)
Valor (mil réis)
Brasileira
561
11.140
5.891,000
Estrangeira
143
6.008
3.226,000
Total
704
17.148
9.117,000
Fonte: Estatística Agrícola e Zootechnica (1937-1938) organisada pela Directoria de
Estatistica, Industria e Commercio. Secretaria da Agricultura, Industria e Commercio, Estado
de São Paulo, 1939.
Tabela 14
Número, área e valor das propriedades agrícolas e sua distribuição por
nacionalidade - Porto Feliz (1937 – 1938)
Número
Área (alq.)
Valor em mil réis
Brasileiros
561
11.140
5.891,000
Portugueses
13
114
76,500
Italianos
92
2.512
1.228,000
Espanhóis
18
397
262,000
Austríacos
4
127
47,000
Sírios
2
41
13,00
Alemães
2
85
25,000
Franceses
2
2.632
1.510,000
Diversos
10
100
64,500
Total
704
17.148
9.117,000
Fonte: Estatística Agrícola e Zootechnica (1937-1938) organisada pela Directoria de Estatistica, Industria e
Commercio. Secretaria da Agricultura, Industria e Commercio, Estado de São Paulo, 1939.
À guisa de conclusão
Porto Feliz teve perdas populacionais, como o desmembramento de território
que originou Tietê (gráfico 5). A população estrangeira no município, que começou a tomar
impulso com a Colônia Rodrigo Silva, em 1887, destinada inicialmente a imigrantes belgas,
cresceu no decorrer do tempo, embora em menor proporção que nos municípios
considerados cafeeiros, com a entrada de novos imigrantes, vindos de outros países da
Europa (gráficos 3 e 4).
17
Número de habitantes
Gráfico 3
Tendência de Crescimento da População segundo Condição Social - Porto Feliz (1822 –
1950)
25000
20000
15000
10000
5000
0
1822
1836
1854
1872
1886
1890
1920
1934
1940
1950
Anos
Livres
Escravos*
Estrangeiros
(*) O número de escravos no ano de 1886, na realidade, é o dado pela matrícula de escravos de 1887.
Fonte: Recenseamentos de 1822 a 1950.
Gráfico 4
População Estrangeira no município de Porto Feliz - 1872 a 1940
1400
Número de habitantes
1200
1000
800
600
400
200
0
1872
-200
1886
1920
1934
1940*
Anos
Italianos
Espanhóis
Outros
Portugueses
Franceses
Total
Alemães
Sírios
(*) Número de estrangeiros somado ao número de estrangeiros naturalizados brasileiros.
Fonte: Recenseamentos de 1872 a 1940.
18
Austríacos
Africanos livres
Gráfico 5
Tendência de crescimento do município de Porto Feliz e dos municípios a que deu origem 1822 a 1950
Número de habitantes
30.000
25.000
20.000
15.000
10.000
5.000
0
1822
1836
1854
1872
1886
1890
1920
1934
1940
1950
Anos
Porto Feliz
Tietê
Conchas
Laranjal Paulista
Boituva
Cerquilho
Fonte: Recenseamentos de 1822 a 1950.
No que concerne à propriedade da terra, como se esperava, os brasileiros eram
os detentores majoritários do número de propriedades rurais e, entre os estrangeiros, os
italianos. Em 1904, os italianos predominavam entre os proprietários (37%), seguidos pelos
belgas (19%) e portugueses (14%). Quanto aos franceses, embora fossem poucos,
apareciam como possuidores de vastas áreas territoriais, por serem proprietários da
Succrerie Porto Feliz (Engenho Central). É importante lembrar que, nessa época, muitos
dos proprietários brasileiros deveriam ser filhos de estrangeiros.
No decorrer do tempo, os italianos aumentam em número de proprietários; os
alemães aparecem com destaque e os belgas diminuem sua participação na posse da terra.
A área dos franceses amplia-se, assim como a área dos italianos, em detrimento das
pertencentes aos demais grupos.
Ao longo do século XX, em virtude da queda do movimento imigratório, o
número de estrangeiros diminuiu, com ênfase em Porto Feliz, que não era um município
cafeeiro e, portanto, não atraía grande número de imigrantes. Deste modo, as propriedades
de terra foram sendo passadas para os filhos de estrangeiros que nasceram no Brasil, cujos
sobrenomes italianos, belgas entre outros podem ser encontrados atualmente em todo o
município, nas mais diversificadas atividades econômicas.
19
Bibliografia
BASSANEZI, M. S. C. B. (org.). São Paulo do Passado - Dados Demográficos - 1836,
1854, 1872, 1886, 1890. Núcleo de Estudos de População (NEPO), Universidade Estadual
de Campinas, 1998.
_____________________. Imigração e Oportunidades no Período Cafeeiro. Textos
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