IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA HISTÓRIA: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS. 29 de Julho a 1° de Agosto de 2008. Vitória da Conquista - BA. FÉ, SABER E PODER: A PARTICIPAÇÃO DA INTELECTUALIDADE CATÓLICA NO PROCESSO DE RESTAURAÇÃO DA IGREJA EM PERNAMBUCO (1930 -1937) Carlos André Silva de Moura Mestrando em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). E-mail: casmcarlos@ya hoo.com.br Palavras-chave: Elite intelectual católica . Restauração Católica. Discurso político -religioso. Em nosso artigo discutimos como as alocuções d a Restauração Católica, implementada pela Igreja no início do século XX, fo ram recebidas por parte da população pernambucana como a construção da ordem político-social em Pernambuco . Para nosso exame, utilizamo-nos dos periódicos que circularam no Estado entre os anos de 1930 e 1937, compreendendo assim o contexto social do momento. Além da documentação “o ficial”, neste trabalho foi importante o uso das memórias, onde realizamos o cruzamento entre o dito da imprensa, dos intelectuais e da população pernambucana de modo geral . De tal modo, os trabalhos de Nilo Pereira, Paulo Cavalcanti e Rostand Paraíso foram de fundamental importância para o desenvolvimento de nossa narrativa. As utilizações das memórias tornaram -se importantes neste trabalho, pois não refletimos apenas sobre a atuação da elite pernambucana, mas também procuramos compreender como os discurso s dos homens das letras fizeram sentido no dia-a-dia da população. Com as memórias, podemos chegar a “realidades” não registradas por meios de comunicação dos anos de 1930 (MARTINS, 2008, p. 127) ,1 haja vista que expressavam os olhares de uma pequena elite . 2 Para o diálogo com os nossos sobreviventes , nos inserimos nas discussões da História Social da Cultura, assim como as propostas da Análise do Discurso. Com a investigação discursiva, buscamos avaliar o efeito de sentido d as alocuções dos intelectuais católicos durante o projeto de Restauração . Para compreendermos as atuações dos homens das letras, empregamos o método prosopográfico , que tem por base o estudo das biografias coletivas das elites. Nossos personagens históricos, defensores d a recatolização em Pernambuco, são 1 É importante destacar que a utilização das memórias nem sempre foram bem aceita por alguns historiadores mais tradicionais. Para Durval Muniz de Albuquerque, suas principais críticas estão baseadas nas relatividades das fontes e algumas deturpações do material coletado (ALBUQUERQUE JR ., 2007, p. 231). 2 Nomenclatura utilizada por Michel Oakeshott como forma de classificar as fontes no trabalho do historiador. Para o autor, o artesão da Clio se vale das discussões daqueles que ainda sobrevivem em meio à documentação pesquisada (OAKESHOTT, 2003, p. 111). 2 caracterizados como parte da elite regional 3 que atuaram discursivamente no Nordeste brasileiro, expandindo os ideais de um Estado autoritário e intervencionista . Segundo Heinz (2006, p. 9), os historiadores que se utilizam d a prosopografia em seus trabalhos, realizam um estudo sociológico do passado, visto seu caráter social para a História. A produção jornalista dos anos de 1930 foi de extrema importância para compreendermos o desenvolvimento do projeto de recatolização. Como destaco u Azzi (1994, p. 27), as publicações da Igreja na imprensa dos anos de 1930 foram fundamentais para a expansão de seus ide ais. Os periódicos era uma das formas de estabelecer o diálogo entre os intelectuais e a população de modo geral, no entanto, reconhec emos que tal prática atingia uma camada determinada de leitores . A população mais simples, que muitas vezes não tinham acesso com facilidade aos meios de comunicação, mantinha contato com os discursos dos pensadores através de eventos realizados em várias instituições do Recife ou em algumas cidades do interior. Segundo Pereira (1977, p. 349), no Recife os principais lócus de debate, onde a intelectualidade mantinha contato com o povo, centrava -se na Faculdade de Direito , Livraria Nogueira e o Café Lafayett e,4 ambientes onde os homens das letras tratavam sobre a política e a cultura na década de 1930. Paraíso (2001, p. 123), em suas memórias sobre o cotidiano da cidade, destacou que a Esquina do Lafayette era o local de sociabilização da população, espaço que reunia conservadores, comunistas, ou aqueles que apenas desejavam desfrutar a coalhada servida em seu balcão de mármore . A população que ao caminhar pelas ruas do Imperado, Crespo ou a Rua Nova não deixava de visitar a tão badalada esquina , buscando as informações para manter-se atualizados. A Restauração Católica e a formação discursiva da ordem Durante a implantação do projeto de Restauração Católica no Brasil, observamos a intensa discussão entre os intelectuais sobre as afinidades do político com o religioso nos primeiros anos do século XX. Com a publicação do Tratado de Latrão em 1929, a Sé romana estabeleceu as diretrizes para a restauração da influência do poder eclesiástico nas decisões 3 A análise da História Regional ou Local nos permite avaliar as particularidades dos fatos históricos. A História baseada nas avaliações regionais é determinada pelos componentes de permanências e rupturas universais da História, no entanto, tais acontecimentos são momentos particulares que podem decifrar lacunas nos estudos da História nacional, que muitas vezes torna -se generalizante, englobando os fatos dos grandes eixos político sociais como modelo para o desenrolar da História em toda uma nação (MARTINS, 2008, p. 116-117.). 4 O Café Continental, situado na esquina da Rua do Imperador com a Rua 1° de Março, ficou mais conhecido nos periódicos e por seus freqüentadores como Café Lafayette. O estabelecimento era assim chamado por localizar-se vizinho da charutaria e do ponto de cigarros da Fabrica Lafayette. Por isso, neste artigo estaremos nos referindo como a Esquina do Lafayette ou o Café Lafayette o estabelecimento do Café Continental (COUCEIRO, 2007). 3 políticas. No Brasil, a publicação da Constituição R epublicana de 1891, que pôs fim as estreitas relações entre Estado e Igreja, gerou várias críticas dos letrados que pregavam a valorização católica como legitimidade política. Para o fortalecimento das alocuções do Clero romano, seus discursos apoiavam-se no prestígio das forças conservadoras para validar suas ações no meio social (CERTEAU, 2002, p. 335). Para o historiador Alcir Lenharo, que teceu algumas discussões sobre a sacralização da política nos anos de 1930, as experiências tot alitárias se aproveitaram intensamente do poder do clero para a legitimação de suas alocuções. Ainda segundo o autor, “os projetos totalitários e fascistas utilizavam, em diferentes gradações, conteúdos teológicos com vistas à sua instrumentalização para solucionar os problemas soc iais e políticos existentes” (LENHARO, 1986, p. 18). Para Aline Coutrot, o período entre guerras foi caracterizado como o momento em que os religiosos apoiavam o conservadorismo , propagando discursos contra - revolucionários, baseados na ordem social originária das doutrinas do catolicismo (RÉMOND, 1996, p. 335). As tendências conservadoras de parte dos intelectuais leigos e católicos no Brasil contribuíram com absorção dos discursos recatolizadores . Segundo Maria das Graças Ataíde, a construção discursiva da ordem, propagada pelos intelectuais durante a década de 1930 , foi fundamental para a formação de um a verdade autoritária no Brasil, seguindo um modelo ético, baseado nas doutrinas católica s. (ALMEIDA, 2001, p. 69). No país, o projeto restaurador foi liderado pelo cardeal Dom Sebastião Leme , com o apoio de vários homens das letras, que mantinham em seus objetivos a difusão das propostas de manutenção das tradições . Neste momento, os letrados eram identificados pela sociedade como guias para tais mudança s, sobretudo quando se declaravam seguidores das doutrinas vindas da Sé romana . O ser católico ofereceu maior legitimidade à s alocuções da elite pensante, devido ao grande número d os seguidores da religião em Pernambuco no início do século XX. Segundo Daniel Pécaut, os intelectuais eram reconhecidos pela população como indivíduos diferenciado s, com a missão de conduzir a sociedade à salvação moral (PÉCAUT, 1990, p. 11). Como notamos nas palavras de Pereira (1977), a elite letrada pernambucana também reconheciam seu papel no estabelecimento da ordem a partir da moral católica . Para o bacharel: E em face dessa desarticulação que attinge, como vêdes, as camadas sociaes, porque a família é verdadeiramente a célula social, qual será o nosso dever? Como poderemos assistir, numa impassibilidade criminosa, esse drama terrível? Qual será o papel que a Igreja nos confia no trabalho formidável da reconstrucção do lar? 4 Não é preciso ir muito longe para acharmos uma resposta. E essa resposta será mesmo o roteiro de toda a nossa vida, pois a obra do soerguimento da família é uma cruzada inadiável que aos catholicos de elite compete realizar. A eles a missão de salvaguardar a sociedade domestica de um desmoronamento total, impedir que a sua tradição institucional, cuja vitalidade é assegurada por um direito imanente ao homem, não se perca no crepusculo que desce sobre a vida contemporanea e que mergulha as nossas melhores actividades numa espécie de mar -morto, onde a intelligencia e a cultura adormecem e o espírito se entibi a (PEREIRA, 1933, p. 6). Entre os colaboradores do projeto de restauração junto ao cardeal Dom Leme, destacamos as ações de Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima , responsáveis pela estruturação dos principais órgãos de combate à desordem e expansão das doutrinas restauradoras. Em meio às maiores ações do intelectual Jackson de Figueiredo , está a fundação do Centro Dom V ital em 1922. Com a instituição , buscava-se reunir pensadores e religiosos em uma organização reconhecida em vários espaços do país. Durante a direção de Jackson de Figueiredo , o órgão manteve intenso envolvimento político, defendendo os discursos de valorização da moral propagada por líderes do clero. Com a liderança de Alceu Amoroso Lima, a partir de 1928, a entidade se voltou às tendências de caráter cultural, no entanto, não abandonou suas propostas de reestruturação político-social (AZZI, 2003, p. 1213). Os ideais dos integrantes do Centro Dom Vital eram expostos nas páginas da revista A Ordem. Também organizada inicialmente por Jackson de Figueiredo em 1921, o periódico tornou-se a voz dos homens d as letras comprometidos com o projeto restaurador no Brasil. Ao instante que publicavam as doutrinas do catolicismo, propagavam os valores religiosos necessários para edificação da orde m, criticando a “desordem” comunista, que segundo os letrados, era a responsá vel pela crise política, econômica e social que o país atravessava (RODRIGUES, 2005, p. 16). Influenciada filosoficamente por Edmund Burke, nas questões relacionadas a o autoritarismo; e por Henri – Louis Bergson e Jacques Maritain nas discussões sobre o antimodernismo e a retomado do poder eclesiástico nas decisões políticas, A Ordem pregava a salvação da sociedade a partir das doutrinas católicas, defendendo a direção do país por intelectuais preocupados com as questões religiosas. Observamos no fragmento abaixo, como suas críticas eram concentradas no perigo que o comunismo poderia oferecer à sociedade. Segundo Alceu Amoroso Lima: 5 Precisamos enfrentar o communismo como uma negaç ão integral do Christo e da Igreja e não como um phenomeno social passageiro, que affecta apenas os nossos interesses materiaes ou as nossas posições sociaes. Seu perigo é infinitamente mais profundo, justamente porque actúa muito mais remotas. E reveste-se, por vezes, da apparencia da justiça, do êxito e do progresso. Só se nos collocarmos no terreno dos princípios é que poderemos enfrentar friamente essa ideologia revolucionaria, que canalizou para si todas as pequenas ou grandes corrente anti -christãs e anti-espirituaes que a humanidade tem deixado proliferar em seu seio, durante toda a sua accidentada carreira (LIMA, 1936, p. 346) . Outra forma de militância dos líderes eclesiásticos brasileiros para a difusão do projeto restaurador foi a criação de instituições de ensino superior. Como destaco u Casali (1995, p. 9), a fundação dos estabelecimentos educacionais buscava ampliar a participação da intelectualidade no projeto de Restauração Católica, introduzindo suas doutrinas no setor universitário, 5 envolvendo assim a elite brasileira na legitimação discursiva da moral . No entanto, o ambiente universitário não foi o único espaço para a formação da dizibilidade recatolizadora no meio educacional . A vinda de ordens religiosas ao Brasil na década de 1930 fez parte das ações de combate à crise política enfrentada pelos católicos .6 Os jesuítas, que retornaram ao Brasil para atuação no projeto de recatolização, intensificaram suas ações nas instituições educacionais . Os professores de suas escolas direcionavam os discursos à valorização da ética a partir do ensino do catolicismo. O jornal A Voz do Nóbrega, ligado ao tradicional Colégio Nóbrega Jesuíta do Recife, apresentou em publicação de 1935 a importância da educação religiosa para a valorização da ordem e do be m estar social. Assim como os lideres do movimento recatolizador, os editores do periódico defendiam em seus artigos que a implantação do ensino teológico no meio escolar era o ponto de partida para sanar os problemas sociais enfrentados pela população. Destacou-se no jornal que: O problema educativo em nosso paíz, não tem sido tratado com seriedade. Daí, todos os graves males que padece a nação e que em vão se procuram sanar, sem se remover a causa. As massas são facilmente influenciadas pelos portadores das doutrinas mais extranhas e perigosas. Doutrinas essas que se expõem, encobertas nos mais belos eufemismos de que se servem os inimigos da paz brasileira, da nossa nacionalidade [...] Precisam de escolas, de medicamentos, de higiene, de religião (A VOZ DO NÓBREGA, 1935, p. 1). 5 Neste momento de difusão das instituiçõ es de ensino superior, iniciaram as discussões para a criação das universidades católicas, hoje conhecidas como as PUCs . 6 Segundo Casali (1995), entre os anos de 1880 e 1930 chegaram ao Brasil 37 ordens religiosas diferentes, além de 97 ordens de Congrega ções femininas, que atuaram na expansão religiosa em todo o Brasil. 6 As elocuções observadas nas documentações, entre os anos de 1930 e 1937 , giravam em torno das querelas entre o bem e mal, a ordem e a desordem, a salvação (Deus – Catolicismo) e o pecado (Comunismo). A imagem abaixo reflete as disputas dos ideais apresentados nos jornais e revistas do momento, levando à população o sentimento de “perigo” que as doutrinas de esquerda poderiam gerar a sociedade. Figura 1 – A representação da ordem (Deus) contra a desordem comunista (Lênin) 1930. Fonte: Diário da Bahia (1932, p. 3). Saber e poder a serviço da fé: os intelectuais da Faculdade de Direito do Recife e o projeto de recatolização Com o fortalecimento dos discursos restauradores, os homens das letras que apoiavam o projeto do clero católico passaram a militar p or sua expansão. Neste momento, o estado de Pernambuco apresentava -se como lócus para a retomada do poder eclesiástico nas decisões políticas do país. Durante os anos de 1930, a Faculdade de Direito do Recife (FDR) agregava boa parte da elite do Estado. Pereira (1978, p. 23-38) destacou em suas memórias, que a instituição se firmou no cenário político nacional por ser um centro irradiador de teorias sócio -políticas, fato relacionado à reunião de vários pensadores do Nordeste7. Para Schwarcz (2002, p. 155169), em O espetáculo das raças , a escola de ensino jurídico do R ecife contribuiu para a formação do pensamento social brasileiro, desenvolvendo propostas que apresentavam 7 Destacaremos mais adiante a atuação de alguns pensadores da Faculdade de Direito do Recife durante o projeto de Restauração Católica. 7 repercussões nacionais . Os debates realizados no fim do sé culo XIX e nos primeiros anos do século XX foram fundamentais para a formação dos ideais conservadores da década de 1930 Formada em sua maioria po r filhos da elite nordestina, parte dos discentes da Faculdade de Direito do Recife militaram na expansão e legitimidade dos discursos recatolizadores em Pernambuco. Com o objetivo de “restaurar todas as coisas em cristo” (AZZI, 1994, p. 21), os intelectuais católicos da instituição apoiaram as propostas defendidas por Dom Leme na capital d a nação. Para Pereira (1983, p. 78), o poder discursivo que os bacharéis da Faculdade de Direito possuíam contribuiu com a dizibilidade e difusão dos discursos restauradores. No início do século XX, os integrantes da escola jurídica eram respeitados por sua posi ção social, o que legitimava seus discursos, como é possível notar nas memórias de Cavalcanti (1978, p. 33). Vivendo parte de sua juventude na Rua dos Prazeres, o autor destacou que as rodas de amigos freqüentadas por seu pai eram nutridas por informações de seu vizinho e bedel da FDR Armando Vasconcelos. Para o futuro bacharel e militante político, “essas conversar foram muito úteis na compreensão da vida. No começo, eu as escutava fora da roda, sentado no chão, à beira da calçada. Falava -se de tudo, das guerras de Napoleão, de revoluções, de ciência, de religião” . No Estado, os principais líderes do movimento de propagação da ordem através do projeto de Restauração Católica foram o estudante Andrade Lima Filho e o professor Andrade Bezerra, ambos membros da Faculdade de D ireito do Recife. Andrade Lima Filho, integrante do Diretório Acadêmico de 1932, além de apoiar os discursos de recatolização, compôs as fileiras da Ação Integralista Brasileira em Pernambuco (AIBP), chefiando o núcleo provincial do movimento no Estado. Co mo representante juventude, o estudante enfatizou suas ações nas propostas da construção de um Estado forte, baseado nos dogmas católicos . Com suas afinidades com a AIBP , as atividades do estudante mantiveram -se na fronteira do político com o religioso, tendo como base a valorização do tripé integralista, Deus (catolicismo), Pátria (ordem) e Família (moral) . Como integrante do Diretório Acadêmico da FDR, Andrade Lima Filho, assim como outros membros, a exemplo de Nilo Pereira e Amaro Quintas, propôs vários eventos na escola jurídica. O Diário de Pernambuco de novembro de 1932 trouxe a cobertura de uma conferência promovida pela entidade estudantil, tendo como palestrante o Dr. Guedes Miranda. Em suas palavras, o professor demonstrou as disputas discursivas q ue eram travadas entre os homens de bem (católicos conservadores) e o “perigo” da doutrina comunista. Na fala do conferencista foi possível notar o sentimento de mudança que era proposta por intelectuais, transformações que segundo a elite pensante proporc ionariam a ordem no Estado. 8 […] O conferencista traça depois três situações políticas do mundo: o comunismo, o fascismo e o presidencialismo norte -americano. Mostra como as doutrinas marxistas não podem proliferar no Brasil devido ao seu tradicional espíri to cristão. O que é necessário? diz o dr. Guedes de Miranda, neste duelo inquietante da Republica, é alicerçar a democracia nos seus princípios de pureza e de segurança contra as tropulias e os nacialtos das ambições. Precisamos modificar os pontos basilar es da nossa civilização atual, sem caridade e desprovida de atmosfera humana e de solidariedade cristã (DIARIO DE PERNAMBUCO, 1932, p. 8) . Andrade Bezerra, professor da Faculdade de Direito e diretor da instituição a partir de novembro de 1932, era considerado o representante da elite pernambucana comprometida com os valores católicos. Ao assumir a direção da instituição, o docente estabeleceu parceria com o Diretório Acadêmico na divulgação das idéias restauradoras. Para Andrade Bezerra, o objetivo do ensino, não apenas jurídico, deveria atender o desenvolvimento dos alunos como homens integrais, valorizando a fé e as tradições sociais, solucionando deste modo, parte das problemáticas da população (DIARIO DE PERNAMBUCO, 1932, p. 8). Como deputado do estado de Pernambuco, o intelectual liderou a corrente que ficou conhecida como “Catolicismo social”, defendendo as doutrinas religiosas durante sua legislatura (PEREIRA, 1977, p. 347-348). Andrade Bezerra refletia o sentido da legitimidade dos discursos da Res tauração Católica nos anos de 1930 ; intelectual, católico, de tendência conservadora, professor de uma das principais instituições do Brasil . Com tais atributos, a elite observou em suas ações a segurança necessária para o apoio das elocuções do clero na implantação do poder autoritári o na política brasileira. Mesmo não se declarando integralista, o diretor da Faculdade de Direito do Recife prestigiou diversos eventos dos “camisas-verdes” no salão nobre da faculdade .8 O jornal Folha Universitária, editado por membros da escola jurídica, trouxe uma reportagem na primeira quinzena de agosto de 1933 , destacando a conferê ncia integralista realizada nas instalações da instituição. O evento contou com a participação do diretor da faculdade, que em seu pronunciamen to elogiou as realizações do chefe nacional da AIB, enfatizando seu trabalho nos movimentos literários e políticos da nação (FOLHA UNIVERSITÁRIA, 1933, p. 9). Os discursos dos intelectuais em Pernambuco da década de 1930, demonstr aram como as elocuções da construção da ordem político -social e religiosa proporcionaram legitimidade as alocuções da Restauração Católica. Suas propostas apresentavam objetivos comuns, o 8 O termo “Camisas-verdes” era uma das nomenclaturas utilizadas para identificar os integrantes da Ação Integralista Brasileira , devido à camisa verde que compunha seu uniforme . 9 combate ao comunismo, a retomada do poder eclesiástico e a construção de uma política forte e intervencionista, baseada nos valores religiosos. Neste sentido, a população pernambucana observou nas alocuções dos homens das letras da Faculdade de Direito o caminho para a solução da crise social enfrentada em todo país. Os discursos recatolizadores, c om parceria das doutrinas integralistas ,9 refletiam as necessidades da sociedade, fato que levou parte da população ao apoio de suas doutrinas. Referências AÇÃO Integralista Brasileira. Folha Universitária , Recife, p. 9, 1ª quinzena ago. 1933. ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. História: a arte de inventar o passado . Bauru: EDUSC, 2007. ALMEIDA, Maria das Graças Andrade Ataíde de. A construção da verdade autoritária. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2001. AZZI, Riolando. A neocristandade: um projeto restaurador. São Paulo: Paulus, 1994. . Notas para a História do Centro Dom Vital. Rio de Janeiro: Paulinas, 2001. . Os pioneiros do Centro Dom Vital. Rio de Janeiro: Educam, 2003. CASALI, Alípio. Elite intelectual e Restauração da Igrej a. Petrópolis: Vozes, 1995. 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