120 Problemas Socioeconômicos e Contemporâneos 4E Instruçõe de Uso Desenvolvimento de conteúdo, mediação pedagógica e design gráfico Equipe Técnico Pedagógica do Instituto Monitor Monitor Editorial Ltda. Av. Rangel Pestana, 1105 – Brás – São Paulo/SP – CEP 03001-000 Tel: (11) 3555-1000/Fax: (11) 3555-1020 Impresso no Parque Gráfico do Instituto Monitor Av. Rangel Pestana, 1113 – Brás – São Paulo/SP – CEP 03001-000 Tel/Fax: (11) 3555-1023 Em caso de dúvidas referente ao conteúdo, consulte o Portal do Aluno: www.institutomonitor.com.br/ alunos Todos os direitos reservados Lei nº 9.610 de 19/02/98 Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, principalmente por sistemas gráficos, reprográficos, fotográficos, etc., bem como a memorização e/ou recuperação total ou parcial, ou inclusão deste trabalho em qualquer sistema ou arquivo de processamento de dados, sem prévia autorização escrita da editora. Os infratores estão sujeitos às penalidades da lei, respondendo solidariamente as empresas responsáveis pela produção de cópias. Problemas Socioeconômicos e Contemporâneos 120 Problemas Socioeconômicos e Contemporâneos 4E Desenvolvimento de conteúdo, Mediação Pedagógica e Design Gráfico Equipe Técnico Pedagógica do Instituto Monitor Monitor Editorial Ltda. Av. Rangel Pestana,1105 – Brás – São Paulo/SP – CEP 03001-000 Tel.: (11) 3555-1000 / Fax: (11) 3555-1020 www.institutomonitor.com.br Impresso no Parque Gráfico do Instituto Monitor Av. 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O Espaço Brasileiro....................................................................................... 11 2. Posição Geográfica e Limites........................................................................ 12 3. Divisão Política do Brasil............................................................................. 13 4. Divisão Regional............................................................................................ 13 4.1 Região Norte............................................................................................. 13 4.2 Região Centro-Oeste................................................................................ 13 4.3 Região Nordeste....................................................................................... 13 4.4 Região Sudeste......................................................................................... 15 4.5 Região Sul................................................................................................. 15 5. Quadro Físico, Humano e Econômico do Brasil......................................... 16 5.1 Estrutura Geológica................................................................................ 16 5.2 Relevo........................................................................................................ 16 5.3 Planaltos e Planícies................................................................................ 17 5.4 Clima......................................................................................................... 17 5.5 Vegetação.................................................................................................. 18 5.6 Hidrografia............................................................................................... 19 6. Aspectos Humanos do Brasil........................................................................ 22 7. A Importância do Extrativismo................................................................... 23 Exercícios Propostos............................................................................................... 26 Lição 2 - Distribuição de Renda Introdução............................................................................................................... 29 1. O Plano Real e a Desigualdade Social......................................................... 29 2. O PIB Per Capita........................................................................................... 31 3. IDH - Índice de Desenvolvimento Humano................................................ 31 4. O Brasil e o IDH............................................................................................ 31 5. Inclusão Social é a Solução.......................................................................... 33 6. Análise do Desequilíbrio............................................................................... 34 7. Diferenças entre Estados.............................................................................. 35 8. Renda Per Capita x Distribuição de Renda................................................ 36 Exercícios Propostos............................................................................................... 37 120/5 Lição 3 - Desemprego Introdução............................................................................................................... 39 1. Taxas Mais Altas........................................................................................... 39 2. Principais Causas.......................................................................................... 40 3. Recessão......................................................................................................... 41 4. Medidas Compensatórias.............................................................................. 41 Exercícios Propostos............................................................................................... 43 Lição 4 - Educação Introdução............................................................................................................... 45 1. Plano Nacional de Educação........................................................................ 45 2. Abaixo de Moçambique................................................................................ 46 3. Objetivos do Plano Nacional de Educação.................................................. 47 4. Outras Metas do PNE.................................................................................... 47 5. Analfabetismo................................................................................................ 48 6. Ensino Infantil Deficiente............................................................................. 48 7. Impacto do Fundef........................................................................................ 48 Glossário.................................................................................................................. 49 Exercícios Propostos............................................................................................... 51 Lição 5 - A Fome Introdução............................................................................................................... 53 1. A Causa da Fome........................................................................................... 53 2. Desníveis........................................................................................................ 54 3. Ação da Cidadania........................................................................................ 55 Exercícios Propostos............................................................................................... 57 Lição 6 - Saúde Brasileira e Saneamento Básico Introdução............................................................................................................... 59 1. Saúde.............................................................................................................. 59 2. Saneamento Básico....................................................................................... 61 3. O Problema do Lixo...................................................................................... 61 Exercícios Propostos............................................................................................... 62 Lição 7 - Habitação no Brasil Introdução............................................................................................................... 65 1. Déficit Habitacional...................................................................................... 65 2. Movimento dos Sem-Teto............................................................................. 65 3. Favelas Verticais........................................................................................... 66 4. Autoconstrução da Casa Própria................................................................. 66 5. Moradias Populares....................................................................................... 67 Exercícios Propostos............................................................................................... 68 Lição 8 - Mortalidade e Trabalho Infantil Introdução............................................................................................................... 71 1. Saúde da Criança.......................................................................................... 71 2. Importância do Saneamento Básico............................................................ 72 3. Medicina Preventiva é a Solução................................................................. 73 4. Coeficiente de Mortalidade Infantil............................................................. 73 5. Trabalho Infantil........................................................................................... 75 6. Sem Brincadeiras.......................................................................................... 75 7. Crianças Abandonam a Escola..................................................................... 76 8. Salário para Estudar..................................................................................... 77 9. Algumas Soluções Concretas........................................................................ 77 Exercícios Propostos............................................................................................... 79 Lição 9 - As Drogas e a Degradação Social Introdução............................................................................................................... 81 1. Políticas Antidrogas...................................................................................... 81 2. Programa de Troca de Seringas................................................................... 82 3. Tratamento..................................................................................................... 82 4. O Avanço do Crack........................................................................................ 83 5. Exploração Sexual Infantil.......................................................................... 85 6. Nova Escravidão............................................................................................ 88 7. Delinqüência Juvenil..................................................................................... 89 Exercícios Propostos............................................................................................... 90 Lição 10 - Reforma Agrária e Problemas Migratórios Introdução............................................................................................................... 93 1. Reforma Agrária: Desafio Nacional............................................................. 93 2. Alguns Números............................................................................................ 94 3. Produção Integrada....................................................................................... 97 4. Fortalecimento da Renda do Agricultor...................................................... 97 5. Problemas a Serem Enfrentados.................................................................. 98 6. Movimentos Migratórios............................................................................... 98 7. Motivos para Migração................................................................................. 99 8. Exclusão Social............................................................................................. 99 9. Análise de Alguns Estados............................................................................ 99 Exercícios Propostos............................................................................................. 101 Lição 11 - Ciência e Tecnologia Introdução............................................................................................................. 105 1. Falta de Investimento................................................................................. 105 2. Diagnóstico de Problemas.......................................................................... 106 3. Indústria Nacional e Globalização............................................................ 107 4. Otimismo...................................................................................................... 107 5. Pessimismo................................................................................................... 107 6. A Década Perdida........................................................................................ 109 7. Déficit Comercial......................................................................................... 109 8. Protecionismo.............................................................................................. 112 Exercícios Propostos............................................................................................. 116 Lição 12 - Recursos Hídricos Introdução............................................................................................................. 119 1. Abundância e Descaso................................................................................ 119 2. Distribuição Desigual................................................................................. 119 3. A Seca Nordestina....................................................................................... 120 4. Lei das Águas............................................................................................... 120 5. Subsolo Precioso.......................................................................................... 121 Exercícios Propostos............................................................................................. 122 Lição 13 - Segregação Racial Introdução............................................................................................................. 125 1. Resultados do Censo.................................................................................... 125 2. Poder de Consumo da População Negra.................................................... 125 3. Normalidade Racista................................................................................... 126 Exercícios Propostos............................................................................................. 127 Respostas dos Exercícios Propostos.................................................................... 128 Bibliografia............................................................................................................ 130 Apresentação A busca de soluções para os grandes problemas que afligem o país não é responsabilidade apenas do setor público. Cabe também ao setor privado, bem como à sociedade como um todo, seja pela participação de órgãos comunitários, seja pela participação, muitas vezes solitária do cidadão comum, o interesse pelas causas das adversidades que, de uma forma ou de outra, prejudicam a todos nós. Para resolver muitos desses problemas, recursos imensos são necessários. O simples estudo e análise dos recursos contribui para o surgimento de uma consciência coletiva que nos incita a um posicionamento quanto aos problemas sócio-econômicos contemporâneos. São tantos os problemas a serem enfrentados, que, apenas um compêndio como este é insuficiente para tratarmos, com profundidade, de assuntos tão importantes que interferem em todas as camadas sociais. Procuramos, no entanto, abordar os principais males existentes em nosso Brasil. Tentamos fazer uma exploração de dados estatísticos, analisamos algumas causas e, o que é mais importante, apontamos, em alguns casos, as soluções viáveis para amenizar o impacto desses verdadeiros obstáculos ao nosso desenvolvimento social. Acreditamos estar contribuindo para o debate e estimulando o questionamento de que muitos dos problemas sócio-econômicos podem ser resolvidos. Depende, apenas, de uma postura de comprometimento dos administradores públicos e da participação da sociedade na solução desses problemas. Ao identificá-los e analisá-los, resgatamos a necessidade da participação na efetiva formação da cidadania brasileira. Esperamos que o estudo deste fascículo favoreça a discussão de nossos maiores problemas que, com certeza, são menores do que a possibilidade de resolvê-los. Esperamos também que desperte em cada um a consciência da necessidade de uma participação mais efetiva de todos, como verdadeiros cidadãos. 120/9 lição 1 O Perfil Brasileiro Introdução Neste primeiro contato com o estudo de problemas brasileiros, veremos um panorama de todos os fatores que influenciam a ocorrência desses problemas. Inicialmente vamos revisar as características do Estado Brasileiro, sob o ponto de vista geográfico, analisando aspectos físicos, humanos e econômicos. 1. O Espaço Brasileiro O Espaço Brasileiro deve ser conhecido em suas características e implicações, pois isso permite uma melhor interpretação das causas e efeitos das singularidades regionais brasileiras. A área do globo terrestre é de 510 milhões de km2. A maior parte dessa área é coberta de água (3/4 do total), constituindo os oceanos e mares, e o restante, corresponde às terras que estão acima do nível do mar, as quais formam os continentes e ilhas. O espaço territorial brasileiro é bastante vasto e rico em recursos naturais para abrigar uma grande população e oferecerlhe condições mais adequadas de vida. Além da grande extensão territorial do país, devemos levar em conta que: o relevo brasileiro é constituído de modestas altitudes; os recursos minerais, vegetais e energéticos, com algumas exceções, existem em grande quantidade e variedade; as condições climáticas não chegam a oferecer maiores obstáculos à ação do homem. Assim sendo, o estágio de desenvolvimento econômico e social em que o país se encontra atualmente não reflete as potencialidades de que o país dispõe. O Brasil, com sua área de aproximadamente 8.514.000 km2, ocupa o quinto lugar entre os países mais extensos do globo. 120/11 Instituto Monitor 2. Posição Geográfica e Limites O Brasil ocupa a posição centro-oriental do continente sulamericano, possuindo limites com quase todos os países da América do Sul, exceto Chile e Equador. Os países que se limitam com o Brasil, de acordo com suas respectivas direções, são: - Norte: Guiana Francesa, Suriname, Guiana e Venezuela. - Noroeste: Colômbia. - Oeste: Peru e Bolívia. - Sudoeste: Paraguai e Argentina. - Sul: Uruguai. - Nordeste, Leste e Sudeste: Oceano Atlântico. 120/12 Instituto Monitor 3. Divisão Política do Brasil mais se desenvolveram e trazem divisas para a região são pertencentes aos setores terciário e secundário, centralizados nos Estados do Amazonas e Pará. A superfície do Brasil está politicamente dividida, ou seja, dividida em Estados. As linhas que separam estas unidades políticas são chamadas fronteiras. É a região que menos contribui para a riqueza nacional: apenas 4% do PIB (Produto Interno Bruto). A República Federativa do Brasil com preende um total de 27 unidades políticoadministrativas, que correspondem a 26 Estados e 1 Distrito Federal. 4.2 Região Centro-Oeste Formada pelos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e pelo Distrito Federal. Nessa região predomina o clima tropical típico, com duas estações bem definidas: uma chuvosa e outra seca. Possui grandes áreas de topografia suave, dominada pelo Planalto Central Brasileiro. A vegetação arbustiva típica é o cerrado, já bastante modificado pela ação do homem. Pouco populosa, a Região Centro-Oeste, representa apenas 6,5% do total nacional, em uma área que ocupa 18% da superfície brasileira. 4. Divisão Regional O Brasil é um país oficialmente dividido em cinco grandes regiões geográficas. Região Geográfica é a área que apresenta um conjunto de semelhanças físicas (relevo, clima, vegetação e hidrografia), e aspectos humanos parecidos (densidade demográfica, nível econômico, costumes, tipos étnicos predominantes, grau de desenvolvimento industrial e agrícola, etc.). Passemos a analisar as características dessas macrorregiões: Quanto à economia, há grandes proprie dades rurais cujos donos criam gado e produzem grãos, principalmente soja. A importância da agricultura equipara-se à atividade industrial. 4.1 Região Norte Formada pelos Estados do Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Amapá, Roraima e Tocantins. Esta região é a mais extensa, com aproximadamente 3,5 milhões de km2, que corresponde a 42% do território nacional e também a que apresenta menores índices de ocupação humana. Em termos de atividade econômica, destaca-se o setor terciário (comércio e prestação de serviços) que representa 70% do PIB da região. 4.3 Região Nordeste A Região Norte caracteriza-se por um clima quente e úmido, relevo modesto, florestas densas e extensas, poucas cidades. A presença da floresta, que domina a região, justifica a mais baixa densidade demográfica do país (apenas 4 habitantes por quilômetro quadrado). Formada pelos Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. O arquipélago de Fernando de Noronha, que faz parte do Estado de Pernambuco, integra a Região Nordeste. A produção agropecuária e o extra tivismo vegetal, embora sejam amplamente difundidos, não representam a riqueza local de forma significativa. As atividades que Características específicas diferem a região em quatro tipologias geográficas: o Litoral - também chamado de Zona da Mata 120/13 Instituto Monitor -, o Sertão, o Meio-Norte e o Agreste nordestino. o clima torna-se semi-árido, iniciando uma área de 900.000 km2, com clima quente e seco, vegetação de caatinga e rios temporários (secam no período da estiagem). A Zona da Mata, situada mais a leste, que ocupa desde o Rio Grande do Norte até o sul da Bahia, tem largura que oscila entre 100 e 200 quilômetros. De chuvas abundantes, clima quente (média de 24 graus Celsius), a Zona da Mata recebeu este nome por ter sido antigamente recoberta pela floresta atlântica, hoje substituída em grande parte pelas culturas de cana-de-açúcar e cacau (sudeste da Bahia). Embora o termo seja muitas vezes empregado para designar regiões distantes do litoral, na verdade o sertão nordestino vai quase até a costa, nos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte. Abrange uma parcela de todos os Estados da região (exceto o Maranhão) e ainda penetra pelo norte de Minas Gerais. O regime de chuvas é altamente irregular, ocasionando por vezes secas de vários anos; a média térmica é a maior do país (28 graus Celsius) e a vegetação típica é a caatinga (mata rala). As florestas subsistem apenas no extremo sul da região. Área de colonização muito antiga, apresenta uma densidade demográfica entre as mais altas do país. O litoral tem grande umidade e solos férteis. Em áreas mais úmidas (os “brejos” de pé de serra) há bosques de palmeiras, especialmente a carnaubeira (como na Serra da Meruoca, no Ceará). Os solos rasos e pedregosos dificultam a agricultura. As precárias condições de subsistência fazem com que a área seja muito pouco povoada, em comparação com a Zona da Mata. O Agreste fica a oeste da Zona da Mata, numa espécie de transição subúmida, com ocorrência de chuvas entre 650 e 1.000 mm anuais. A presença das elevações detém o percurso dos ventos úmidos do Atlântico, forçando maiores precipitações1 nas encostas de montanhas do leste. O Meio Norte apresenta-se como uma transição entre a Amazônia e o sertão semi-árido. Também chamado de Nordeste Ocidental, ou ainda, Zona dos Cocais - referência ao babaçu e à carnaúba, grandes riquezas naturais da região. Ocupa o Estado O Sertão situa-se mais a oeste – e mesmo em alguns pontos dos topos das elevações –, 1 precipitação: em meteorologia, qualquer tipo de substância aquosa que “cai” sobre a terra: chuva, neve, orvalho, etc. Anotações e Dicas 120/14 Instituto Monitor Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Diferencia-se das demais regiões principalmente pela sua importância econômica. do Maranhão e o oeste do Piauí. O clima é quente e úmido em São Luís, mas as chuvas vão diminuindo à medida que se caminha para leste e para o interior. Com apenas 10% do território nacional, a Região Sudeste concentra 43% da popula ção brasileira. Ela tem um histórico que evidencia forte foco de atração populacional, o qual iniciou-se pelos conhecidos ciclos da mineração, do café e a industrialização que concentrou-se nesta região. A pluviosidade (índice de chuvas) cai de 2.000 mm por ano em São Luís, para 1.500 mm em Teresina e 700 mm nas áreas sul-ocidentais do Piauí, já sob condições semelhantes às do sertão nordestino. Concentrando 28,5% da população brasileira, em 20% do território nacional, a Região Nordeste apresenta baixo nível de vida, com os maiores problemas de ordem socioeconômica face às inconstâncias climáticas do sertão, constantemente assolado por períodos de estiagem prolongada. Isto provoca o êxodo da população que aí vive para outras regiões do país. Sua economia representa 60% do total da riqueza do país (PIB). Um aproveitamento intensivo de seu espaço geográfico permitiu à região o desenvolvimento de moderno parque industrial e extensas e modernas áreas voltadas para a agropecuária. Nesta região, localiza-se o mais impor tante setor terciário brasileiro com um comércio extremamente dinâmico e muitas atividades voltadas à prestação de serviços: saúde, educação, finanças, seguros, etc.: isto significa 50% da produção econômica do Sudeste brasileiro. A região participa com aproximadamente 13,5% da produção da riqueza nacional, perdendo apenas para as regiões Sudeste e Sul. O comércio e serviços (setor terciário) são as atividades que mais geram riquezas para a região, acompanhadas pelas indústrias e agricultura, respectivamente, em ordem de importância. Quatro importantes regiões metropoli tanas brasileiras ficam na Região Sudeste: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória. A região é interligada por uma densa malha rodoviária, isto é, por um grande número de rodovias. Com os dois maiores portos nacionais (Santos e Rio de Janeiro), a atividade portuária é intensa, complemen tada por outros portos importantes, como o de São Sebastião (litoral norte de São Paulo), Vitória e Sepetiba, no Rio de Janeiro. As principais indústrias localizam-se nas grandes metrópoles: Fortaleza, Recife e Salvador. A produção agropecuária, muito diversificada, destaca lavouras para exportação no litoral. 4.4 Região Sudeste Formada pelos Estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. A região caracteriza-se por um relevo de altitudes médias, população numerosa e de nível socioeconômico mais elevado, maior número de cidades, estradas, produção agrí cola e industrial importantes. Nesta região situam-se as metrópoles nacionais: São Paulo, 4.5 Região Sul Formada pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, é a única região brasileira que não possui características do clima tropical, pois está totalmente situada abaixo do Trópico de Capricórnio. 120/15 Instituto Monitor industrial, tanto no Rio Grande do Sul (eixo Porto Alegre – Caxias do Sul), quanto no Paraná (região metropolitana de Curitiba), bem como em Santa Catarina (Blumenau e Joinville). Portanto, seu clima predominante é o sub tropical, com temperaturas baixas no inverno e chuvas bem distribuídas ao longo do ano. Sua paisagem natural é diferenciada: nela se observam os Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná e a Depressão Periférica Sul-Rio-Grandense, que é coberta pela vegetação de campos. No passado, os planaltos e chapadas eram cobertos pela floresta de Araucária, devastada desde a época da colonização. 5. Quadro Físico, Humano e Econômico do Brasil 5.1 Estrutura Geológica Escudos Antigos: rochas muitos antigas. Neles estão concentrados importantes minerais; podemos destacar dentre vários tipos: ouro, ferro, manganês, níquel, alumínio e estanho. Sua população corresponde a 15% da população total do Brasil, em uma área de 6,8% do território nacional. Nesta população é marcante a presença da colonização européia, destacando-se alemães, italianos, poloneses e outras nacionalidades. Bacias Sedimentares: terrenos mais recentes. Destacam-se o carvão mineral, o petróleo e o xisto. Com expressivo desenvolvimento econômico e, por conseqüência, também social, a região apresenta uma economia bastante diversificada, o que traz um dos melhores padrões de vida do país a seus habitantes. Tem grande aproveitamento agropecuário, produz principalmente trigo, arroz, soja, milho e lã, e há o predomínio de pequenas e médias propriedades rurais, com solos de grande fertilidade. As indústrias da região são muito dinâmicas e competitivas (automobilísticas, têxteis, alimentícias, siderúrgicas, etc.). A Região Sul tem importante centro 5.2 Relevo O Brasil possui relevo de altitudes baixas. Isto ocorre porque o território brasileiro possui uma estrutura geológica antiga e, por isso, foi bastante desgastada pela erosão. Além disso, não houve formação de grandes montanhas em tempos geológicos recentes. A área de planalto é maior que a área de planície. Existem duas grandes áreas de plaAnotações e Dicas 120/16 Instituto Monitor c) Planícies Litorâneas ou Costeiras: formam uma faixa descontínua ao longo do litoral brasileiro. São geralmente arenosas, formando praias e dunas, ou argilosas, dando origem às regiões pantanosas cobertas por vegetação, denominadas mangues. nalto no Brasil: o Planalto das Guianas, situado ao norte da Planície Amazônica e o Planalto Brasileiro, ao sul da Planície Amazônica. O Planalto das Guianas abrange terras dos estados de Roraima, Amapá, Amazonas e Pará. Neste planalto está o pico culminante do Brasil: o Pico da Neblina, com 3.014 m de altura. 5.4 Clima A posição astronômica do Brasil permite que o território seja bem iluminado e aquecido no decorrer do ano, pois se situa, em sua maior parte, na Zona Tropical, compreendida entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio. O clima no território brasileiro classifica-se em: 5.3 Planaltos e Planícies O Planalto Brasileiro divide-se em três partes: a) Planalto Central: compreendendo principalmente as terras de Mato Grosso e Goiás. a) Equatorial: encontrado em quase toda a Região Norte e no norte de Mato Grosso. É um clima muito quente e úmido. b) Planalto Atlântico: próximo ao Oceano Atlântico, abrangendo as terras brasileiras desde o Rio Grande do Sul até o Nordeste. b) Tropical: engloba quase toda a Região Centro-Oeste, o Nordeste, parte do Sudeste e a porção leste de Roraima. As temperaturas são médias e a distribuição das chuvas é variável no decorrer do ano. c) Planalto Meridional: abrangendo as terras mais interiores dos estados de São Paulo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. c) Semi-árido: domina o sertão do Nordeste. É um clima quente e seco; as chuvas não ocorrem regularmente, provocando longos períodos de seca. As mais importantes planícies do Brasil são: a) Planície Amazônica: situada entre o Planalto das Guianas e o Planalto Brasileiro. É a maior área de terras baixas do Brasil. É cortada pelo rio Amazonas e seus afluen tes, formam a maior bacia hidrográfica do país e do mundo. d) Tropical de altitude: abrange as áreas de maior altitude da Região Sudeste e do Mato Grosso do Sul; a altitude influi na diminuição das médias de temperatura. Chove durante o ano todo. b) Planície do Pantanal: ocupa a parte oeste do Mato Grosso do Sul, prolongando-se pelo Mato Grosso, Paraguai e Bolívia. É cortada pelo rio Paraguai e seus afluentes, que transbordam na época das cheias, inundando as áreas mais baixas. e) Subtropical: predomina nas regiões Sul e Sudeste (parte do estado de São Paulo). Apresenta as menores médias de temperaturas anuais. As chuvas são bem distribuí das durante o ano. 120/17 Instituto Monitor decorrência de forte devastação, também teve sua área de abrangência muito diminuída. Corresponde à área de predomínio do clima subtropical. 5.5 Vegetação As formações vegetais originais do Brasil estão bastante modificadas ou desapareceram, devido à: - derrubada de matas para a prática da agricultura; - extração de madeiras desde o século XVI; - retirada de madeira para ser transformada em lenha; - ocupação recente das Regiões Norte e Centro-Oeste. d) Cocais de Babaçu ou Mata de Transição: constituída por palmeiras, que cobrem grandes extensões dos estados do Ma ranhão, Piauí e norte de Goiás. e) Campos: caracterizam-se pela predomi nância de gramíneas. Os campos mais famosos são os da Campanha Gaúcha, também denominada de Pampas. São paisagens vegetais existentes no território brasileiro: f) Cerrado: encontrado principalmente onde o clima possui duas estações bem definidas uma seca e outra chuvosa. Ocupa trechos de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. a) Floresta Equatorial ou Amazônica: uma das mais vastas áreas florestais contínuas do mundo. Domina quase toda a Região Norte e parte da Região Centro-Oeste. g) Caatinga: ocupa o Sertão Nordestino. Ela recobre a área de clima semi-árido do Brasil composta pelo sertão e o vale médio do rio São Francisco. b) Floresta Tropical ou Mata Atlântica: ocupa grande trecho próximo ao Oceano Atlântico. Por localizar-se próximo ao litoral, foi a primeira formação vegetal a sofrer modificações pela ação do homem. Sua formação original apresenta-se muito alterada, devido à grande concentração populacional existente na faixa litorânea. h) Vegetação do Pantanal Mato-grossense: parte oeste do Mato Grosso. i) Formações vegetais litorâneas: podem ser as das praias e dunas, jundu (zona à beiramar invadida por vegetações rasteiras constituídas de árvores e plantas espinhentas) e manguezais, que são sujeitos à c) Floresta Subtropical ou Mata dos Pinhais: recobria grande porção da região Sul. Em Anotações e Dicas 120/18 Instituto Monitor Paraná são os principais rios de planalto. De maneira geral, os rios têm origem em regiões não muito elevadas, exceto o rio Amazonas, que tem alguns de seus afluentes com nascentes na cordilheira andina. inundação das marés. 5.6 Hidrografia O Brasil é dotado de vasta e densa rede hidrográfica, sendo que muitos de seus rios destacam-se pela extensão, largura e profundidade. Em decorrência da natureza do relevo, predominam os rios de planalto que apresentam em seu leito rupturas de declive, vales encaixados, entre outras características, que lhes conferem um alto potencial para 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Em termos gerais, como mostra o mapa, pode-se dividir a rede hidrográfica brasileira em sete principais bacias, a saber: a bacia do rio Amazonas; a do Tocantins-Araguaia; a bacia do Atlântico Sul - trechos norte e nordeste; a do Atlântico Sul - trecho leste; a do rio São Francisco; a bacia Platina, composta pelas sub-bacias dos rios Paraná e Uruguai e a do Atlântico Sul - trechos sudeste e sul. Bacia Amazônica Bacia do Nordeste Bacia do Araguaia-Tocantins Bacia do Rio Paraguai Bacia do Rio Paraná Bacia do Rio São Francisco Bacia do Sudeste-Sul Bacia do Rio Uruguai Bacia do Leste A hidrografia brasileira apresenta as seguintes características: muitos rios e poucos lagos. Direta ou indiretamente todos os rios têm como destino o Oceano Atlântico, e apresentam cheias no verão e estiagem no inverno. 5.6.1 Bacia do Rio Amazonas ou Amazônica 1 2 3 4 Estende-se por cerca de metade do território brasileiro. Seu principal rio é o Amazonas que tem numerosos afluentes. Esses rios são favoráveis à navegação. O rio Amazonas, com uma extensão de aproximadamente 6.500 km, ou superior, conforme recentes descobertas, disputa com o rio Nilo o título de mais extenso no planeta. Sua área de drenagem total, superior a 5,8 milhões de km2, dos quais 3,9 milhões no Brasil, representa a maior bacia hidrográfica mundial. O restante de sua área divide-se entre o Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana e Venezuela. Tal área poderia abranger integralmente o continente europeu, à exceção da antiga União Soviética. 6 9 5 8 7 a geração de energia elétrica. Quanto à navegabilidade, esses rios, devido ao perfil não-regularizado, ficam um tanto prejudicados. O volume de água do rio Amazonas é extremamente elevado, descarregando no Oceano Atlântico aproximadamente 20% do total que chega aos oceanos em todo o planeta. Sua vazão é superior à soma das Dentre os grandes rios nacionais, apenas o Amazonas e o Paraguai são predominantemente de planície e largamente utilizados para a navegação. Os rios São Francisco e 120/19 Instituto Monitor vazões dos seis próximos maiores rios, sendo mais de quatro vezes maior que o rio Congo, o segundo maior em volume, e dez vezes o rio Mississipi. Por exemplo, em Óbidos, distante 960 km da foz do rio Amazonas, tem-se uma vazão média anual da ordem de 180.000 m3/s. Tal volume de água é o resultado do clima tropical úmido característico da bacia, que alimenta a maior floresta tropical do mundo. margem direita. 5.6.2 Bacia do Rio Tocantins-Araguaia A bacia do rio Tocantins-Araguaia, com uma área superior a 800.000 km2, constituise na maior bacia hidrográfica inteiramente situada em território brasileiro. Seu principal rio formador é o Tocantins, cuja nascente se localiza no estado de Goiás, ao norte da cidade de Brasília. Dentre os principais afluent es da bacia Tocantins-Araguaia, destacam-se os rios do Sono, Palma e Melo Alves, todos localizados na margem direita do rio Araguaia. Na Amazônia, os canais mais difusos e de maior penetrabilidade são utilizados tradicionalmente como hidrovias. Navios oceânicos de grande porte podem navegar até Manaus, capital do Estado do Amazonas, enquanto embarcações menores, de até 6 metros de calado2, podem alcançar a cidade de Iquitos, no Peru, distante 3.700 km da sua foz. O rio Tocantins desemboca no delta amazônico e, embora possua ao longo do seu curso algumas cascatas, permite nave gação fluvial no seu trecho desde a cidade de Belém, capital do estado do Pará, até a localidade de Peine, em Goiás, por cerca de 1.900 km, em épocas de vazões altas. Todavia, considerando-se os perigosos obstáculos oriundos das corredeiras e bancos de areia durante as secas, só pode ser considerado uti lizável, por todo o ano, de Miracema do Norte (Tocantins) no sentido do oceano Atlântico. O rio Amazonas apresenta-se como um rio de planície, possuindo baixa declividade. Sua largura média é de 4 a 5 km, chegando, em alguns trechos, a mais de 50 km. Por ser atravessado pela linha do Equador, esse rio apresenta afluentes nos dois hemisférios do planeta. Entre seus principais afluentes, destacam-se os rios Iça, Japurá, Negro e Trombetas, na margem esquerda, e os rios Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu, na O rio Araguaia nasce na Serra das Araras, no estado de Mato Grosso, possui cerca de 2.600 km, e desemboca no rio Tocantins na localidade de São João do Araguaia, logo antes de Marabá. No extremo nordeste 2 Calado: distância vertical entre a superfície da água em que a embarcação flutua e a face inferior da sua quilha. Profundidade mínima de água necessária para a embarcação flutuar. Anotações e Dicas 120/20 Instituto Monitor Rio de Janeiro e Minas Gerais, os de maior significado econômico no país; e possui ao longo do seu curso diversos aproveitamentos hidrelétricos, cidades ribeirinhas de porte, como Campos, Volta Redonda e São José dos Campos, bem como indústrias importantes como a Companhia Siderúrgica Nacional. do Estado de Mato Grosso, o rio divide-se em dois braços, rio Araguaia, pela margem esquerda, e rio Javaés, pela margem direita, por aproximadamente 320 km, formando assim a ilha de Bananal, a maior ilha fluvial do mundo. O rio Araguaia é navegável, cerca de 1.160 km, entre São João do Araguaia e Beleza; porém não possui nesse trecho qualquer centro urbano de grande destaque. 5.6.5 Bacia do Rio São Francisco 5.6.3 Bacia do Atlântico Sul Trechos Norte e Nordeste A Bacia do rio São Francisco nasce em Minas Gerais, na serra da Canastra, e atravessa os Estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. O rio São Francisco possui uma área de drenagem superior a 630.000 km2 e uma extensão de 3.160 km, tendo como principais afluentes os rios Paracatu, Carinhanha e Grande (pela margem esquerda) e os rios Salitre, das Velhas e Verde Grande (pela margem direita). Vários rios de grande porte e significado regional podem ser citados como componentes dessa bacia, a saber: rio Acaraú, Jagua ribe, Piranhas, Potengi, Capibaribe, Una, Pajeú, Turiaçu, Pindaré, Grajaú, Itapecuru, Mearim e Parnaíba. Em especial, o rio Parnaíba é o formador da fronteira dos Estados do Piauí e Mara nhão, por seus 970 km de extensão, desde sua nascente na serra da Tabatinga até o oceano Atlântico, além de representar uma importante hidrovia para o transporte dos produtos agrícolas da região. De grande importância política, econômica e social, principalmente para a região Nordeste do país, é navegável por cerca de 1.800 km, desde Pirapora, em Minas Gerais, até a cachoeira de Paulo Afonso, em função da construção de hidrelétricas com grandes lagos e eclusas, como é o caso de Sobradinho e Itaparica. Nesta bacia, especialmente no Nordeste, existem rios chamados rios temporários, que recebem pouca quantidade de chuvas. Ocasionalmente secam por completo ou ficam reduzidos a um simples filete de água. 5.6.6 Bacia Platina (ou dos Rios Paraná e Uruguai) A Bacia Platina, ou do rio da Prata, é constituída pelas sub-bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, drenando áreas do Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. 5.6.4 Bacia do Atlântico Sul Trecho Leste Da mesma forma que no seu trecho norte e nordeste, a Bacia do Atlântico Sul no seu trecho leste possui diversos cursos de água de grande porte e importância regional. Podem ser citados, entre outros, os rios Pardo, Jequitinhonha, Paraíba do Sul, Vaza-Barris, Itapicuru, das Contas e Paraguaçu. O rio Paraná possui cerca de 4.900 km de extensão, sendo o segundo em comprimento da América do Sul. É formado pela junção dos rios Grande e Paranaíba. Possui como principais afluentes os rios Paraguai, Tietê, Paranapanema e Iguaçu. Representa trecho da fronteira entre Brasil e Paraguai, onde foi implantado o aprovei Por exemplo, o rio Paraíba do Sul está localizado entre os estados de São Paulo, 120/21 Instituto Monitor tamento hidrelétrico binacional de Itaipu, com 12.700 MW, maior usina hidrelétrica em operação do mundo. Posteriormente, faz fronteira entre o Paraguai e a Argentina. Em função das suas diversas quedas, o rio Paraná somente possui navegação de porte até a cidade argentina de Rosário. entre Argentina e Uruguai, sendo navegável desde sua foz até a cidade de Salto, cerca de 305 km. 5.6.7 Bacia do Atlântico Sul Trechos Sudeste e Sul A Bacia do Atlântico Sul, nos seus trechos sudeste e sul, é composta por rios da importância do Jacuí, Itajaí e Ribeira do Iguape, entre outros. Os mesmos possuem importância regional, pela participação em atividades como transporte hidroviário, abastecimento de água e geração de energia elétrica. O rio Paraguai, por sua vez, possui um comprimento total de 2.550 km, ao longo dos territórios brasileiro e paraguaio e tem como principais afluentes os rios Miranda, Taquari, Apa e São Lourenço. Nasce próximo à cidade de Diamantino, no Estado de Mato Grosso, e drena áreas de importância como o Pantanal mato-grossense. No seu trecho de jusante (sentido em que fluem as águas do rio) banha a cidade de Assunção, capital do Paraguai, e forma a fronteira entre este país e a Argentina, até desembocar no rio Paraná, ao norte da cidade de Corrientes. 6. Aspectos Humanos do Brasil Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, o Censo realizado em 2000 apurou que o Brasil possui cerca de 169.590.693 habitantes. O rio Uruguai, por fim, possui uma extensão da ordem de 1.600 km, drenando uma área em torno de 307.000 km2. Possui dois principais formadores, os rios Pelotas e Canoas, nascendo a cerca de 65 km a oeste da costa do Atlântico. Fazem parte da sua bacia os rios Peixe, Chapecó, Peperiguaçu, Ibicuí, Turvo, Ijuí e Piratini. É um país extremamente populoso mas, como é extenso (8.514.215,3 km2), sua densidade demográfica é baixa, apenas 19,92 hab/ km2. Países como o Japão apresentam mais de 320 habitantes por quilômetro quadrado, e mesmo países de grande extensão, como os Estados Unidos da América, possuem quase o dobro da densidade demográfica brasileira. O rio Uruguai forma a fronteira entre a Argentina e o Brasil e, mais ao sul, a fronteira Apesar de possuir uma imensa extensão, Anotações e Dicas 120/22 Instituto Monitor população numerosa e vastos recursos naturais, grandes problemas sociais e econômicos afligem a sociedade brasileira, como veremos mais adiante. A tabela de população residente no Brasil apresentada abaixo indica em valores absolutos e relativos o total de habitantes, em situação urbana e em situação urbana na sede municipal, área total e densidade demográfica, segundo as Unidades da Federação e Municípios. Esta preocupação de se evidenciar a população urbana está no fato de ela significar 81,23% do total de habitantes População Residente no Brasil Unidades da Federação e Municípios Valores absolutos Valores relativos Total Total Densidade Área total demográfica (km2) (2) (hab/km2) Total Na sede (%) (%) municipal (1) Urbana Urbana Total Na sede municipal (1) (%) Brasil 169.590.693 137.755.550 123.460.941 100,00 81,23 (3) (4) (5) (6) 72,80 8.514.215,3 Fonte: Censo Demográfico 2000. (1) Não incluindo a população residente nas áreas urbanas isoladas. (2) Valores incluindo as águas interiores. (3) Valores sujeitos à alteração em fase de atualizações de natureza cartográfica ou político-administrativa. (4) Inclusive as áreas das Ilhas de Trindade e Martin Vaz. (5) Inclusive 2.977,4 km2 referente à área a ser demarcada, em litígio, entre os Estados do Piauí e Ceará. (6) Inclusive 10.091,4 km2 e 2.806,1 km2 referentes às Lagoas dos Patos e Mirim, incorporadas à área do Estado do Rio Grande do Sul, segundo a Constituição Estadual de 1988, não constituindo área municipal. de nosso país. 7. A Importância do Extrativismo O extrativismo pode ser animal (caça e pesca), vegetal ou mineral. Em termos de divisas internacionais, produtos manufaturados sempre serão mais valorizados do que produtos in natura do setor primário. Infelizmente, em nosso país, muitos dependem ainda de atividades ligadas ao extrativismo, do qual obtêm sua renda. Os principais produtos extrativos vegetais são: borracha, castanha-do-pará, madeiras (encontradas na Floresta Amazô nica), babaçu e carnaúba (no Nordeste), madeira e erva-mate (na 120/23 19,92 Instituto Monitor dônia. Também os estados do Amazonas e Pará têm considerável produção deste mineral. O sal marinho é o Cloreto de Sódio obtido por meio de seu acúmulo nas salinas da borda do mar. O sal marinho no Brasil é extraído principalmente no litoral do Nordeste, onde se encontram as melhores condições climáticas e topográficas para a sua produção. Região Sul). Em virtude da extensão do Brasil e da idade variada de seus terrenos, o país apresenta uma grande variedade e quantidade de recursos minerais. A maior extração de ferro é realizada em Minas Gerais, em uma área denominada Quadrilátero Ferrífero, constituída pelos municípios de Belo Horizonte, Santa Bárbara, Mariana e Congonhas. A produção dessa área, além de ser exportada, tem por objetivo abastecer as indústrias siderúrgicas localizadas na Região Sudeste. O carvão mineral e o petróleo são recursos minerais importantes fontes de energia. O carvão mineral é utilizado para aquecer altos-fornos da indústria siderúrgica, enquanto que, do petróleo, se extraem a gasolina, o querosene, o óleo diesel e muitos outros subprodutos. O manganês é muito importante, pois constitui, juntamente com o ferro, a matériaprima para a fabricação de aço. As principais áreas de extração são Minas Gerais (Quadrilátero Ferrífero) e Amapá (exportação para os Estados Unidos). O Brasil não explora, até o momento, quantidades suficientes de carvão mineral e de petróleo para atender às suas necessidades. Assim, necessita importar essas duas fontes de energia. A principal área de produção de carvão localiza-se em Santa Catarina, destacando-se o município de Criciúma. O estanho é obtido da cassiterita. É importantíssimo, pois entra na formação de ligas metálicas e na fabricação de folha de flandres. Este tipo de material é muito utilizado tanto para a fabricação de latarias para produtos alimentícios, quanto para indústrias de eletro-eletrônicos, automobilística, etc. As principais áreas de produção de petróleo são: Recôncavo Baiano e litoral do Rio de Janeiro. O Brasil é um grande importador de petróleo do Iraque, da Arábia Saudita, da Venezuela e de gás natural da Bolívia. No Brasil, a cassiterita é explorada em grande escala (de forma industrial) desde os anos 70, concentrando-se no estado de Ron Para finalizarmos esta lição, vamos Anotações e Dicas 120/24 Instituto Monitor reproduzir dados apontados pelo levantamento realizado na Universidade de São Paulo - USP. São informações referentes aos produtos mais significativos, tanto em termos de volume de produção, quanto às possibilidades de exportação, na segunda metade da década de 90 (período de 1995 a 2001): Agricultura: algodão herbáceo, arroz, batata, cacau, café, canade-açúcar, cebola, feijão, laranja, mandioca, milho, soja e trigo. Pecuária: bovinos, suínos, ovinos, caprinos e eqüinos. Mineração: bauxita, calcário, cassiterita, ferro, manganês, níquel, ouro e prata. Indústria: de transformação (aço, cimento, insumos químicos, combustíveis, papel, plástico, alumínio, máquinas e componentes), de bens de consumo (tecidos, alimentos, remédios, higiene e limpeza) e bens duráveis (automóveis e eletrodomésticos). Produto interno bruto (PIB): 1.184.769 milhões de reais (2001). Participação no PIB: - agropecuária: 8%; - indústria: 32%; - serviços: 60%. Renda per capita: R$ 5.860,75 (1999) Principais parceiros comerciais: EUA, Japão, países da União Européia e países do Mercosul. Anotações e Dicas 120/25 Exercícios Propostos 1 - O espaço brasileiro é bastante vasto e rico, e não apresenta dificuldades à fixação da população. Esta afirmação pode ser justificada por vários motivos. Indique pelo menos um deles. ( ) a) Relevo de altas altitudes. ( ) b) Temperaturas variadas extremamente altas e baixas. ( ) c) Relevo de modestas altitudes. ( ) d) Ausência de recursos minerais e energéticos. 2 - O Brasil é o quinto país mais extenso do globo. Sua área é de aproximadamente: ( ) a) 8.552.000 km2. ( ) b) 8.562.000 km2. ( ) c) 8.532.000 km2. ( ) d) 8.514.215 km2. 3 - Nosso país não tem fronteiras internacionais apenas com dois países. Identifique-os. ( ) a) Equador e Bolívia. ( ) b) Equador e Peru. ( ) c) Equador e Chile. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - A República Federativa do Brasil compreende um total de quantas unidades político-administrativas? ( ) a) 26 ( ) b) 22 ( ) c) 13 ( ) d) 27 5 - Na Região Norte, o clima tem características específicas. Indique a alternativa certa. ( ) a) Quente e seco. ( ) b) Quente e úmido. ( ) c) Quente e árido. ( ) d) Úmido e árido. 120/26 Instituto Monitor 6 - Possui grandes áreas de topografia suave, dominada pelo Planalto Central Brasileiro. A vegetação arbustiva típica é o cerrado, já bastante modificado pela ação do homem. Indique de qual região estamos falando. ( ) a) Centro-Sul. ( ) b) Centro-Norte. ( ) c) Centro-Oeste. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 7 - São características da Região Nordeste: ( ) a) 38,5% da população brasileira, 23,5% da riqueza nacional, predominância do setor primário. ( ) b) 18,5% da população brasileira, 23,5% da riqueza nacional, predominância do setor secundário. ( ) c) 28,5% da população brasileira, 13,5% da riqueza nacional, predominância do setor terciário. ( ) d) 48,5% da população brasileira, 13,5% da riqueza nacional, predominância do setor terciário. 8 - Sua economia representa 60% do total da riqueza do país (PIB). Um aproveitamento intensivo de seu espaço geográfico, permitiu à região o desenvolvimento de moderno parque industrial e extensas e modernas áreas voltadas para a agropecuária. Estamos falando da: ( ) a) Região Sul. ( ) b) Região Sudeste. ( ) c) Região Nordeste. ( ) d) Região Centro-Oeste. 9 - O Planalto Brasileiro divide-se em três partes. Indique quais são elas. ( ) a) Central, do Mar e Meridional. ( ) b) Central, Atlântico e Meridional. ( ) c) Central, Atlântico e Setentrional. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 10 - A planície que ocupa a parte oeste de Mato Grosso do Sul, prolongando-se pelo Mato Grosso, chama-se Planície: ( ) a) Amazônica. ( ) b) Litorânea. ( ) c) do Pantanal. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 11 - Em quais regiões o clima subtropical aparece? ( ) a) Regiões Sul e sudeste de São Paulo. ( ) b) Apenas na Região Sul. ( ) c) Região Sudeste. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/27 Instituto Monitor 12 - Qual o outro nome dado à Mata dos Pinhais? ( ) a) Floresta Subtropical. ( ) b) Campos. ( ) c) Floresta do Pantanal. ( ) d) Mata Atlântica. 13 - Rios que secam quase que completamente em certos períodos do ano, no Nordeste brasileiro, são chamados de: ( ) a) sectários. ( ) b) perenes. ( ) c) periódicos. ( ) d) temporários. 14 - O estanho é um mineral muito importante, pois possibilita a fabricação de: ( ) a) folhas de alumínio. ( ) b) folhas de cobre. ( ) c) folhas de flandres. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 15 - A densidade demográfica brasileira é de: ( ) a) 8,7 hab/km2. ( ) b) 38,7 hab/km2. ( ) c) 28,7 hab/km2. ( ) d) 19,9 hab/km2. 120/28 lição 2 Distribuição de Renda Introdução O objetivo desta lição é fazer com que você compreenda as bases do estudo da distribuição de renda, e identifique diferenciais desta distribuição com a renda per capita. 1. O Plano Real e a Desigualdade Social O advento do Real, a atual moeda brasileira, reduziu o número de pobres, mas a diferença entre eles e os mais abastados permanece. Produto Interno Bruto, Produto Interno Bruto Per Capita, População Residente 1995-1999 Produto Interno Bruto Per Capita Produto Interno Bruto População A R$ Milhões de reais Variação real Variação real residencial n (1.000 hab.) anual anual Preços Preços do ano Preços Preços do ano o (1) (%) (%) correntes anterior correntes anterior 1 9 646.192 363.954 4,22 155.319 4.160,42 2.343,27 2,76 9 5 1 9 778.887 663.371 2,66 157.482 4.945,88 4.212,36 1,25 9 6 1 9 870.743 804.367 3,27 159.636 5.454,55 5.038,76 1,88 9 7 1 9 913.735 872.656 0,22 161.790 5.647,66 5.393,76 (-)1,11 9 8 1 9 960.858 920.957 0,79 163.948 5.860,75 5.617,37 (-)0,54 9 9 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Departamento de Contas Nacionais. 120/29 Instituto Monitor Ao final do século XX, o Brasil conseguiu uma sensível redução no número de seus pobres e miseráveis. O país tinha 60 milhões de pobres, no início dos anos 70, para uma população total de cerca de 90 milhões. Em 2001, com um total de 169,5 milhões de habitantes, este número está na casa dos 50 milhões. Isto significa 29,3% da população em situação de indigência. Seria necessário gastar R$ 1,69 bilhão mensalmente para erradicar a fome no país, segundo um estudo do Centro de Políticas Sociais da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Mesmo assim persiste - se é que não se aprofundou - um dos maiores problemas brasileiros: a desigualdade social de renda. Na Grande São Paulo, uma pesquisa realizada pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados – SEADE – SP indica que entre 1994 e 1998, na média, a renda familiar per capita (mais adiante, ainda nesta lição, falaremos sobre renda per capita) subiu 32% no período. Mas também revelam os dados que os 10% mais ricos passaram a ter renda 37% maior, enquanto os 10% mais pobres elevaram seus ganhos em apenas 24%, ou seja, apesar de todos terem melhorado, aumentou o abismo entre os dois extremos da pirâmide social. O Maranhão é o Estado mais pobre da União, com 62,3% da sua população vivendo em estado de total indigência. São Paulo é o lugar com menos miseráveis, 11,5% da população, e o Distrito Federal também fica abaixo da média do país (29,3% da população), com 18%. Os mais ricos que, em 1994, ganhavam 41,2 vezes mais que os mais pobres, passaram a ter renda 45,5 vezes maior em 1998. Apesar de os dados serem locais (SEADE-SP), o fenômeno é nacional. Basta ver as variações do Índice de Gini: um indicador internacional, que vai de 0 a 1, e mede a desigualdade de renda. Quanto mais próximo de 1 for o número registrado, maior é a desigualdade. Em outras palavras, o número 0 corresponderia à igualdade absoluta na distribuição, e o número 1, à desigualdade total, quando só um sujeito controlaria todas as riquezas. O Plano Real vem mantendo, por considerável espaço de tempo, a inflação controlada, sendo o maior responsável pela melhoria no quadro social. Se o índice inflacionário não tivesse caído de 929%, em 1994, para 22%, no ano seguinte, e, a partir daí, para números sempre abaixo de 8%, isso dificilmente teria ocorrido. No período de janeiro/95 a fevereiro/99, todas as faixas de renda tiveram avanços. O Índice de Gini brasileiro é o segundo pior do mundo. Fica em torno de 0,60 (o Anotações e Dicas 120/30 Instituto Monitor melhor, da Áustria, é 0,23, e o pior, de Serra Leoa, na África, é 0,62), e não tem melhorado nos últimos tempos. o número de crianças que morrem antes de completar 1 ano de idade e o total de crianças nascidas no ano) e esperança de vida da população como um todo. 2. O PIB Per Capita • Educação: leva em conta o número de analfabetos e nível de escolaridade média da população. No período de 1994 a 1997, o PIB real per capita cresceu a uma taxa média de 2,6% ao ano, ultrapassando, em 1997, o patamar dos US$ 5.000 por habitante. De acordo com o IBGE, o rendimento médio nominal dos trabalhadores cresceu significativamente em todas as regiões metropolitanas pesquisadas, com destaque para as capitais do Nordeste, onde os ganhos relativos superaram a média nacional. •Renda: considera o poder aquisitivo do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, ou seja, a produção do país (cujo valor é igual à renda interna) dividida pelo número de habitantes. 4. O Brasil e o IDH Em julho de 2001, a ONU divulgou relatório do IDH, apontando a Noruega como o melhor lugar para se viver no mundo. Entre os 162 países listados, o Brasil ficou em 69º lugar este ano, atrás de seus vizinhos Argentina (34º), Chile (39º) e Uruguai (37º). O relatório de 2001 apresenta dados de 162 países, 12 a menos do que o relatório de 2000. O levantamento indica que o IDH do Brasil passou de 0,746 para 0,750 nos períodos analisados, que têm como anos-bases 1998 e 1999, respectivamente. 3. IDH - Índice de Desenvolvimento Humano Alguns dos indicadores utilizados no cálculo do IDH apontam os avanços do Brasil. Melhoraram a expectativa de vida ao nascer (indicador de saúde) e as taxas de adultos alfabetizados e de matrículas (indicadores de educação). A expectativa de vida passou de 67,3 anos para 75 anos. O percentual de adultos alfabetizados passou de 84,5% para 84,9%. A taxa de matrículas - uma combinação entre os dados referentes a primeiro, segundo e terceiro grau - passou de 78,3% para 80%. A crescente pobreza no mundo, denunciada em setembro/99 pelo Banco Mundial e pela Organização das Nações Unidas (ONU), mostra o atual estágio do distanciamento entre ricos e pobres. Em 1990, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento da ONU (PNUD) criou o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com o objetivo de avaliar o nível de desenvolvimento dos países. Para calcular esse índice, que vai de 0 a 1, o PNUD avalia os seguintes indicadores de qualidade de vida de um país: O Canadá, neste ano, ocupa a terceira posição, após seis anos seguidos em primeiro lugar. A Austrália, que aparece em segundo, • Saúde: abrange dados diversos, incluindo taxa de mortalidade infantil (relação entre 120/31 Instituto Monitor exemplo, a expectativa de vida caiu de 53 anos, em 1975, para 44 anos, em 2000. está poucos pontos atrás do Canadá. Segundo o relatório, todo cidadão pobre viverá mais na Suécia ou no Japão. Os números, divulgados desde 1990 pelo Programa de Desenvolvimento da ONU, começaram a ser medidos como parte dos esforços para determinar outros fatores de desenvolvimento que não sejam propriamente o econômico. Em termos de economia, o Brasil figura como um país emergente: um forte parque industrial o coloca entre os países mais propensos a receber investimentos externos. Esta situação demonstra claramente que crescer economicamente é bem diferente de crescer socialmente. Crescer socialmente depende, logicamente, de bem-estar social por meio de melhor distribuição de renda e boa assistência, em termos de serviços públicos. Entre os países que se encontram no pé da lista estão estados da África subsaariana (região ao sul do Deserto do Saara), que apresentam grandes problemas sociais e econômicos. Dos 36 países com os piores índices, 29 estão no continente africano. As projeções de expectativa de vida na África caíram bastante devido ao fato de haver ali 25 milhões de pessoas contaminadas com o vírus da Aids. Em Botswana, por Os dez primeiros países da lista são: 1. Noruega 2. Austrália 3. Canadá 4. Suécia 5. Bélgica 6. EUA 7. Islândia 8. Holanda 9. Japão 10. Finlândia Os dez últimos países da lista são: 153. Mali 154. República Centro-Africana 155. Chade 156. Guiné-Bissau 157. Moçambique 158. Etiópia 159. Burkina Fasso 160. Burundi 161. Níger 162. Serra Leoa Não se deve confundir renda per capita com distribuição funcional da renda. En quanto a renda per capita demonstra um cenário de como poderia ser distribuída a renda, a distribuição funcional da renda indica a forma como é distribuída a renda entre os fatores capital e trabalho. O perfil da pobreza do brasileiro deve ser focado em quatro vertentes: a família pobre, sua educação, seu trabalho e sua casa. O perfil é construído em comparação com o de uma família não pobre (no caso da região metropolitana de São Paulo, pobre é quem tem renda mensal abaixo de 0,90 do salário mínimo). Durante o Fórum Nacional sobre Estratégias de Combate à Pobreza, em setembro/99, Anotações e Dicas 120/32 Instituto Monitor especialistas concluíram que a probabilidade de um brasileiro ser pobre é de: Este quarto item é o que interessa: sem a inclusão do homem mais pobre no cresci mento não haverá desenvolvimento susten tado. E este é o assunto inadiável deste fim de milênio, caracterizado pelo Banco Mundial como o tempo da globalização e da descentralização. Segundo ele, é hora de abrir o comércio internacional, deixá-lo livre de mecanismos de proteção, para dar oportunidade para que todos participem em igualdade de condições. • 95% para a mulher chefe de família, desocupada ou no mercado informal, com até quatro anos de estudo, moradora em zona rural do Nordeste e de cor preta ou parda; • 92% para a mulher nas mesmas condições, mas de cor branca; • 91% para alguém nas mesmas condições, mas se for homem; Em um século, multiplicou-se por seis a distância que separa pobres de ricos. E, no caso do Brasil, a pobreza diminuiu e a renda cresceu, mas a repartição das fatias continua desproporcional. O que fazer para mudar isso? Há sempre muitas receitas, mas pouco se faz para resolver efetivamente a questão. Podem ser citadas algumas medidas mais emergenciais: • 87% para esse mesmo homem, se ele deixar a família no campo e mudar-se para um centro urbano; • 86% se ele fizer isso e se tiver estudado mais de quatro anos. A situação melhora muito se metade das pessoas da família tiver emprego; nesse caso, a chance de ser pobre reduz para 62% e, se todos trabalharem, para apenas 16%. • A curto prazo, ampliar as exportações, para o país voltar a crescer, gerar emprego e diminuir os conflitos sociais e índices de violência. Investir pesadamente, gerando mais produção, emprego, exportação; acertar o déficit da balança comercial, dando estabilidade, fazendo com que o governo diminua seu endividamento nos mercados mundiais, pagando juros altos. 5. Inclusão Social é a Solução Um estudo do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), em seu Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 1999, indica quatro conclusões essenciais a serem apreendidas neste século: • Acelerar as reformas tributária e previden ciária, eliminando privilégios que alguns setores da economia têm. 1ª) A estabilidade macroeconômica é essencial para o crescimento e indispensável para o desenvolvimento. • Investimento correto em educação, em que se considere a empregabilidade da pessoa. 2ª) Os frutos do crescimento se espalham muito lentamente entre as camadas sociais. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), há um núcleo duro de pobreza, formado por 16 milhões de pessoas, que não reage mais às políticas de geração de renda e só pode ser beneficiado por transferência pura e simples de renda. 3ª) O desenvolvimento decorre de abordagem abrangente e não de políticas isoladas. 4ª) O desenvolvimento deve ser socialmente inclusivo, ou seja, deve estimular a inclusão social e não a exclusão. 120/33 Instituto Monitor uma boa série de aparelhos eletrodomésticos e eletrônicos, que ampliam o bem-estar. Isto se explica pelo fato de essas pessoas não terem mais condições de serem instruí das para uma profissão, ou forma alternativa para obterem renda por meio de um ofício. São os que estão abaixo da chamada linha da pobreza e ganham menos de R$ 65,00, que corresponde a aproximadamente 40% do salário mínimo vigente no ano 2000. Devemos considerar que o padrão de consumo e bem-estar subiu também para as classes mais ricas. Nas famílias servidas por essas domésticas, por exemplo, 15 milhões de telefones celulares e fixos foram comprados desde que ocorreu a privatização das com panhias de telecomunicações. Ter um celular é sinal recente de bem-estar. Porém, para a maior parte da população, a infra-estrutura da telefonia brasileira ainda é deficiente: só 11,7% dos brasileiros têm telefone fixo. Na Argentina e no Chile, 20% das famílias têm uma linha telefônica em casa. Para esses casos, justificam-se programas assistencialistas. Por exemplo, criar programas de nutrição, habitação, educação, saúde, complementação de renda, e outros de relevante interesse social, voltados para a melhoria da qualidade de vida da população. 6. Análise do Desequilíbrio Estar “plugado” na modernidade é também sinal de bem-estar. O Brasil é sempre citado entre os melhores casos de boom do sistema, ou seja, de explosão do sistema chamado e-commerce (negócios, compra e venda), realizado pela Internet. No total, são 3,3 milhões de brasileiros (com idade a partir de 10 anos) ligados à Internet. Isso significa 9% da população consultada pelo Ibope em nove capitais brasileiras. Mais de 1,2 milhão dos brasileiros usuários da Internet são das classes alta e média, ou seja, 33% desses segmentos de renda. No México, só 12% das pessoas dessas classes usam a Internet, e na Argentina, 14%. Cinco milhões de mulheres trabalham como domésticas no Brasil. Dois terços delas recebem, no máximo, um salário mínimo, ou até menos por mês. Mais da metade dessas mulheres (adolescentes, moças ou idosas) é negra. Menos de 900 mil têm carteira assinada, o que lhes garante menos direitos que os demais trabalhadores (Revista Problemas Brasileiros do SENAC - nov/dez/99). As casas em que vivem têm perfil total mente diferente do perfil das casas em que trabalham, mesmo que os anos mais recentes tenham propiciado aos mais pobres a posse de Anotações e Dicas 120/34 Instituto Monitor versos Brasis”, ou, muitas vezes, como “os dois Brasis“, separando-se, assim, um Brasil composto pelas Regiões Sudeste e Sul e um outro Brasil composto pelas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em termos de mobilidade social - análise da alteração do perfil socioeconômico dos indivíduos - dos anos 70 até os dias atuais, 80% dos brasileiros subiram na escala social e 20% desceram. A maioria das famílias está em melhores condições sociais que as de seus antecedentes. Apesar desses números, a sociedade continua desigual, móvel e de difícil organização. Os estados brasileiros apresentam diferenças gritantes no que diz respeito aos investimentos nas áreas da educação, saúde, transportes, etc. Demonstram, assim, a falta de equilíbrio tanto na arrecadação, quanto na aplicação dos recursos. Embora essas diferenças venham diminuindo, com alguns reflexos positivos, principalmente nas capitais dos estados, o povo brasileiro, em sua maior parte, encontra-se distante de possuir uma vida digna e honrada, direito de todo cidadão e garantido pela nossa Constituição. Num período mais curto, no começo do Plano Real, houve grande acréscimo de renda para os mais pobres, fato que não mais se repetiu. Uma parte da riqueza adquirida não desapareceu, e sim incorporou-se às famílias. Quem mais sente a queda de renda atual é a classe média. Alguns estados, se não possuem padrões europeus, pelo menos estão no grupo dos países melhor situados do Terceiro Mundo, como a Coréia, Costa Rica, Uruguai e Chile. Por outro lado, o Nordeste brasileiro varia entre o subcontinente indiano e os piores países da África. 7. Diferenças entre Estados As diferenças que existem entre os esta dos brasileiros são tão acentuadas que o nosso país é sempre citado quando se quer destacar essas desigualdades, como “os di- 120/35 Instituto Monitor 8. Renda Per Capita x Distribuição de Renda habitante do país recebesse anualmente o valor da renda per capita. Em 1999, a renda per capita atingiu o valor de R$ 5.860,75, cifra bastante razoável em termos econômicos. Porém, como a renda per capita pura não é indicador de crescimento social, sabemos que no caso brasileiro fica ainda mais gritante a problemática da distribuição de renda. A metodologia de quantificação da renda per capita é mero indicador do produto, e não da realidade da distribuição de renda. Se o PIB (Produto Interno Bruto) é alto, e, se a população é escassa, a renda per capita explode, mesmo sendo o povo miserável. Essas medidas consideram os seres humanos mais como meios para aumentar a renda, do que como fins de desenvolvimento. A renda per capita de um país é o total da renda nacional dividido pelo número de habitantes. O resultado da renda per capita, em um país como o nosso, com tantas desigualdades, por melhores números que apresente, enquanto perdurar essa mesma estrutura política, econômica e social, jamais representará que seus cidadãos possuem uma boa qualidade de vida. Muito pelo contrário, ao apresentar uma boa renda per capita, o nosso país mostra, com clareza, as desigual dades sociais que o compõem. A renda per capita brasileira, comparada à americana, pode ser assim analisada: nos anos 80, a renda per capita do Brasil valia quase 30% da renda per capita dos Estados Unidos, e, em 1999, ficou em 22% desse valor. O critério da renda é um dos mais im portantes entre os indicadores usados pelo Banco Mundial, embora sejam também considerados outros dados sobre a variação da capacidade de consumo per capita: a desnutrição, a mortalidade infantil, a expectativa de vida ao nascer, o analfabetismo, as condições de saneamento e a população. Em nenhum desses itens o Brasil pode se orgulhar, e isto é um sinal de que há muito a consertar, antes que o abismo existente entre nossos ricos e pobres atinja uma distância intransponível. Renda Per Capita (Renda por Cabeça) é o indicador do desenvolvimento econômico médio de um país. Não serve como indicador de desenvolvimento social. É o quociente da Renda Interna (PIL – Produto Interno Líquido) pela população. Normalmente expresso em US$ por habitante/ano, para efeito de comparações internacionais. É como se cada Anotações e Dicas 120/36 Exercícios Propostos 1 - Em que ano nosso PIB per capita ultrapassou o valor de US$ 5.000? ( ) a) 1998 ( ) b) 1999 ( ) c) 1997 ( ) d) 1996 2 - Na Grande São Paulo, os mais ricos que, em 1994, ganhavam 41,2 vezes mais que os mais pobres, passaram a ter renda 45,5 vezes maior em 1998. Este é um exemplo claro de: ( ) a) boa distribuição de renda. ( ) b) má distribuição de renda per capita. ( ) c) má distribuição de renda. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 3 - Nosso índice fica em torno de 0,60 (o melhor, da Áustria, é 0,23, e o pior, de Serra Leoa, na África, é 0,62), e não tem melhorado nos últimos tempos. Que índice é este? ( ) a) Índice de Inflação. ( ) b) Índice de Gini. ( ) c) IDH. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - O IDH significa: ( ) a) Índice de Desenvolvimento da Habitação. ( ) b) Índice de Desenvolvimento de Habilidades. ( ) c) Índice de Desenvolvimento Humano. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 5 - No IDH da ONU analisa-se, principalmente: ( ) a) Saúde, Educação e Renda. ( ) b) Saúde e Educação. ( ) c) Educação e Renda. ( ) d) Saúde, Habitação e Renda. 120/37 Instituto Monitor 6 - O desenvolvimento deve ser socialmente inclusivo. Sem a inclusão do homem mais pobre no crescimento, não haverá desenvolvimento sustentado. Esta teoria diz respeito: ( ) a) à inclusão no emprego. ( ) b) à inclusão social. ( ) c) à exclusão social. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 7 - Na análise da alteração do perfil socioeconômico dos indivíduos - dos anos 70 até os dias atuais - 80% dos brasileiros subiram na escala social e 20% desceram. Esta análise diz respeito à: ( ) a) mobilidade social. ( ) b) inclusão social. ( ) c) imobilidade social. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 8 - A renda per capita de um país é o total da renda nacional dividido pelo número de habitantes. É um indicador de: ( ) a) desenvolvimento social. ( ) b) desenvolvimento industrial. ( ) c) desenvolvimento econômico. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 9 - A renda per capita brasileira, em queda nos últimos anos, em 1.999 foi de: ( ) a) R$ 6.580,75. ( ) b) R$ 5.860,75. ( ) c) R$ 8.560,75. ( ) d) R$ 7.660,75. 10 - A desnutrição, a mortalidade infantil, a expectativa de vida ao nascer, o analfabetismo, as condições de saneamento e a população são dados importantes para se analisar o quadro social de um país. São informações que possibilitam avaliar, entre vários indicadores, que tipo de distribuição? ( ) a) Distribuição de Saúde. ( ) b) Distribuição de Renda. ( ) c) Renda Per Capita. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/38 lição 3 Desemprego Introdução Interpretar as principais causas e conseqüências do desemprego é a tarefa desenvolvida nesta parte de nossos estudos. Trazemos para você uma melhor identificação do grave problema social que é o da empregabilidade. No início do ano 2000, ao analisar 141 países, a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) publicou uma pesquisa infor mando que o Brasil ocupa o terceiro lugar em números absolutos de desempregados no mundo. A Índia registra 40 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho e a Rússia, 9,1 milhões, sendo, respectivamente, os dois países mais problemáticos nesta questão. Na análise, foram consideradas apenas as pessoas que se enquadram no chamado desemprego aberto, ou seja, aquelas que procuram emprego, sem exercer nenhuma atividade remunerada. 1. Taxas Mais Altas As taxas mais expressivas de desemprego em 1999 aconteceram em São Paulo. Para o IBGE, o nível médio brasileiro em maio/99 foi de 7,61%. O desemprego é hoje um problema mundial e aflige, de forma dramática, principalmente os países onde amparos sociais são ineficientes, como é o caso brasileiro. A década de 90 encerrou-se com uma estimativa de 7,7 milhões de pessoas sem emprego no Brasil. Comparado a outros países, o Brasil apresentou um ritmo mais acelerado no aumento dos índices de desempregados. Ao analisar o impacto em determinadas regiões, observa-se que o ABC paulista registrou taxa média de desemprego de 21,4% da população economicamente ativa, o que corresponde a 250 mil pessoas sem emprego (conforme pesquisa do Departamento Inter-sindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - DIEESE). Essa é a maior taxa registrada no país. Na região do ABC, a indústria foi o setor que mais fechou vagas. Confirma-se a mu dança dos níveis de emprego para o setor de serviços, que criou 24 mil novas ocupações, com destaque para o desempenho dos serviços 120/39 Instituto Monitor auxiliares e da saúde. Apesar de o número parecer elevado, ainda é pouco comparado ao total de desempregados. 2. Principais Causas Tanto no ABC paulista, como em todos os estados brasileiros, a mulher e os idosos são os mais atingidos pelo desemprego. O modelo econômico atual, a legislação defasada, a globalização e os avanços tecno lógicos, unidos, trabalham contra a mão-deobra brasileira. O modelo econômico adotado pelo Brasil não consegue gerar empregos suficientes para manter sua população ocupada. A legislação trabalhista permanece arcaica. Ao proteger os direitos do trabalhador, acaba-se criando uma infinidade de despesas para os empresários e, conseqüentemente, torna inviável a criação e manutenção de empregos. O modelo econômico vigente e a legislação trabalhista são dois componentes Anotações e Dicas 120/40 Instituto Monitor que, indiscutivelmente, têm participação ativa no atual estágio de altos índices de desemprego. Ambas as hipóteses, agravadas pela globalização da economia e pelo chamado desemprego estrutural, aquele provocado pelas inovações tecnológicas que trocam o homem pela máquina, têm contribuído para armar esta trama contra a mão-de-obra brasileira. Os brasileiros vivem hoje um grande pesadelo: a tragédia da crônica falta de vagas no mercado de trabalho. conservador em sua metodologia para caracterizar o trabalhador desocupado. 4. Medidas Compensatórias Foram implantadas medidas compensatórias como: • a extensão do seguro-desemprego para os trabalhadores sem ocupação por mais de 1 ano; • a suspensão temporária do trabalho para evitar a demissão sumária; Nunca, em nenhuma das muitas crises econômicas vividas pelo Brasil nos últimos tempos, as empresas demitiram tanto, o governo teve tanta dificuldade em adotar medidas de emergência para conter a onda de desocupação, e a sociedade se viu tão im potente diante da desagregação gerada pela escassez de trabalho. • a possibilidade de estudantes de nível médio serem contratados pelas empresas, mas com menor remuneração. É evidente que a população necessita não de seguro-desemprego ou de opções incertas de colocação, mas sim de medidas que possibilitem o restabelecimento do crescimento econômico, a volta do crescimento do parque industrial, mesmo que “enxuto”, a abertura de novos negócios em áreas promissoras como turismo, telecomunicações, informática e tecnologia de ponta. Desorientada e desassistida pelos órgãos oficiais, a massa de desempregados engorda as estatísticas da exclusão social e da infor malidade, enquanto a violência assume proporções assustadoras nas grandes cidades brasileiras. 3. Recessão No ABC paulista, algumas empresas sugerem o corte de garantias duramente con quistadas, como o abono de férias e a partici pação nos resultados da empresa, em troca de garantia de emprego. Isto significaria a anulação de conquistas dos trabalhadores, obtidas em décadas de negociações. No início de 1999, ao aplicar novo choque nas taxas de juros, instrumento eficaz para salvaguardar as reservas internacionais e estancar a evasão de divisas, o governo piorou o aperto monetário, arrasando com o poder de compra do mercado interno. Muitas empresas quebraram ou foram forçadas a empreender amplos programas de reestruturação e cortes de custos, e o país voltou à recessão. A guinada do movimento sindical, que da bandeira das greves migrou para as plataformas de defesa do emprego, é um sintoma das mudanças que já estão ocorrendo, e um sinal do que está por vir. O desemprego dobrou, saltou para quase 9% da população economicamente ativa, segundo dados do próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - tido como Naquilo que os técnicos do governo chamam de flexibilização da legislação trabalhista, o Congresso tem agora em mãos, um projeto para reformar o conjunto de leis 120/41 Instituto Monitor que regulamentam o trabalho brasileiro, herança ainda da era getulista, dos anos 40 (quando o país recém-iniciava seu processo de industrialização). Esta “flexibilização” é assim chamada, pois implica a retirada de muitas conquistas dos trabalhadores, sob a alegação de que, desta forma, mais possibilidades de emprego surgirão. Estimativas mais otimistas são de que o governo conseguirá propiciar aos empresários uma economia de 18,5% nos custos de contratação e dispensa de mão-de-obra. Iniciativas como a substituição da multa pela advertência, quando os fiscais do trabalho encontrarem pequenas irregularidades trabalhistas nas empresas, são outro indicador dessa tendência do governo. Anotações e Dicas 120/42 Exercícios Propostos 1 - Qual a estimativa do número de desempregados apresentava o Brasil, no final da década de 90? ( ) a) 6,7 milhões. ( ) b) 5,7 milhões. ( ) c) 4,7 milhões. ( ) d) 7,7 milhões. 2 - Em 1999, segundo o DIEESE de São Paulo, a taxa média de desemprego do ABC paulista foi de 11,4% da população economicamente ativa. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 3 - Figuram como importantes causas do desemprego: ( ) a) modelo econômico e legislação estrutural. ( ) b) modelo econômico e desemprego estrutural. ( ) c) modelo estrutural e globalização econômica. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - A tentativa, por parte dos empregadores, da anulação parcial das conquistas trabalhistas, para a garantia do emprego, podem ser exemplificadas como: ( ) a) não pagamento da participação nos lucros. ( ) b) não participação nas eleições sindicais. ( ) c) corte das horas extras. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 5 - Os índices de desemprego deverão reduzir nos próximos anos, pelas perspectivas de volta do crescimento econômico. Indique algumas áreas que devem crescer. ( ) a) Turismo, telecomunicações e agricultura. ( ) b) Telecomunicações, informática e pecuária. ( ) c) Turismo, telecomunicações e informática. ( ) d) Turismo e agricultura. 6 - O problema do desemprego pode ser atenuado plenamente com medidas como a extensão do seguro-desemprego e a suspensão temporária do contrato de trabalho, para evitar demissões sumárias. Esta afirmativa está: ( ) certa ( ) errada 120/43 lição 4 Educação Introdução Nesta importante parte de nosso conteúdo programático, você conhecerá o atual estágio do ensino em nosso país, bem como aprenderá a refletir sobre sua importância. Além disso, a lição procurará analisar o nível de escolaridade média do brasileiro e interpretar suas implicações na empregabilidade e avanço econômico e social do país. 1. Plano Nacional de Educação O Plano Nacional de Educação - PNE, documento que tramita no Congresso Nacional desde 1998, ainda sofre alterações por parte dos deputados e senadores, para sua homologação. O PNE define quais metas a União, os Estados e os Municípios devem atingir até 2008, para melhorar o ensino. O documento trata de 120/45 Instituto Monitor todas as áreas educacionais, do ensino básico ao superior, além da educação especial (para portadores de deficiências), do ensino técnico, da educação de jovens e adultos analfabetos ou com defasagem educacional, e até mesmo da educação indígena, até então praticamente ignorada pelo estado. (11 anos) e aos dos vizinhos Argentina (8,7 anos) e Chile (7,5 anos). 2. Abaixo de Moçambique Em 1992, foi anunciado que estudantes brasileiros ficaram em penúltimo lugar - à frente só de Moçambique - numa avaliação de conhecimentos de Matemática e Ciências feita pelo Instituto Americano Educational Testing Service entre estudantes de 20 países. Com isso, as deficiências educacionais brasileiras, já bastante conhecidas no país, ganharam evidência internacional, fato que serve para aumentar a notoriedade do Brasil como um país de Terceiro Mundo. A prioridade, entre todas essas áreas, foi dada ao ensino fundamental, antigo primeiro grau, ou seja, da primeira à oitava série, considerado o maior segmento da educação brasileira. Uma das principais metas do PNE é universalizar o acesso a esse nível de ensino, ao mesmo tempo em que pretende melhorar sua qualidade e garantir a permanência na escola de todas as crianças de 7 a 14 anos. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), ligado à Secretaria do Planejamento do Estado de São Paulo, revela que 25 milhões, dentre as pessoas economicamente ativas no país, estão na situação que os especialistas chamam de infra-escolaridade. Ou seja, têm acervo de competências cognitivas e sociais inferior ao que se espera de pessoas que tenham completado, com aproveitamento mediano, os 4 anos de escolarização básica. Devemos entender competência cognitiva como o nível de inteligência e de conhecimento da pessoa. No que diz respeito à Língua Portuguesa, por exemplo, lêem pouco e mal, e têm dificuldade para entender textos que Apenas 45% dos alunos que ingressam no ensino fundamental chegam à oitava série, e os que concluem perdem 3 anos, em média, com a repetência. Há quem consiga finalizar essa etapa sem nenhuma reprovação, mas não passam de 45 em cada grupo de 1.000 alunos. Dos mesmos 1.000, quase 200 são reprovados logo no primeiro ano. Por essas e outras razões, dados apurados até o ano de 1998 revelam que o trabalhador brasileiro passa em média apenas 3,8 anos na escola. O índice, que em si já é vergonhoso, fica pior se comparado ao da Coréia do Sul Anotações e Dicas 120/46 Instituto Monitor não tenham sido escritos em linguagem po pular e coloquial. Quem conhece as dimensões de nosso território e os bolsões de pobreza espalhados pelo país, pode imaginar as dificuldades para atingir esse objetivo. É praticamente consensual que a baixa escolarização é devida aos problemas de qualidade de ensino, uma vez que os de quantidade estão, segundo autoridades de todas as esferas, razoavelmente resolvidos. As taxas de reprovação dos alunos do ensino fundamental são altíssimas, o que acaba por provocar uma evasão em massa. Dados comparativos de 1988 e 1995, divulgados pelo MEC (Ministério da Educação e do Desporto), mostram uma redução muito lenta dos índices de repetência nesse período: 19% na primeira e na quinta séries, e uma média de 15% para as oito séries. 4. Outras Metas do PNE • Elevar, no mínimo, para 70% o número dos alunos concluintes do ensino fundamental, combatendo repetência e evasão. • Habilitar os professores do ensino fundamental. Em cinco anos, a partir de 1998, todos devem ter formação, pelo menos, em nível médio; e em dez anos, diploma de curso superior. • Substituir as escolas unidocentes (aquelas em que pessoas de diferentes idades e graus de aprendizado têm aula juntas) por unidades com pelo menos quatro séries. A simples redução da repetência pode melhorar os indicadores educacionais do país, mas não é, em si, garantia da qualidade do ensino. A permanência por oito anos numa escola, sem as mínimas condições de funcionamento, com professores mal formados, mal pagos e sem motivação, dificilmente proporcionará às crianças uma boa preparação para a vida social e profissional. • Garantir a autonomia às escolas, tanto em relação ao projeto pedagógico como aos recursos públicos para sua manutenção. • Ampliar, no prazo de cinco anos, o ensino fundamental obrigatório para nove séries, com início aos seis anos de idade. • Ampliar progressivamente a extensão da jornada escolar, de forma a permitir a oferta de ensino em tempo integral. É fato que a remuneração e as condições de trabalho dos professores públicos há tempos não permitem a formação de um corpo docente de qualidade. Os professores com melhor formação são atraídos, em sua maioria, pelos salários mais altos do ensino particular ou até mesmo por outras carreiras. Para a escola infantil (pré-escola), a meta principal é universalizar o atendimento a crianças de 6 anos de idade, preparando-as para a nova fase do ensino fundamental que, no prazo de cinco anos, deverá iniciar-se nessa idade. Também para a pré-escola o Plano prevê, em dez anos, a participação de educadores com formação universitária. 3. Objetivos do Plano Nacional de Educação Devemos admitir que o Plano Nacional de Educação (PNE) contém metas ambiciosas. A mais importante, sem dúvida, é a univer salização do ensino fundamental, que significa matricular todas as crianças de 7 a 14 anos, e garantir sua permanência na escola. O PNE cria metas também para as escolas especiais, como a formação de profissionais qualificados, fornecimento de materiais específicos (livros em Braille, por exemplo) e aumento dos recursos. 120/47 Instituto Monitor A Constituição de 1988 já fixara um prazo de dez anos para a extinção do analfabetismo, mas como em 1996 ainda existiam 18 milhões de analfabetos, uma das dez maiores populações de iletrados do mundo, a meta é que foi extinta, quando foi retirada das disposições transitórias da Constituição. Para o ensino médio, a meta mais importante é assegurar que essa fase atenda, em dez anos, no mínimo 80% dos alunos que concluem o ensino fundamental. 5. Analfabetismo Em dez anos, além de promover formação equivalente às oito séries fundamentais, para metade dos que abandonaram a escola, o governo promete extirpar uma vergonha nacional: o analfabetismo. A taxa brasileira de analfabetos é altíssima, até mesmo para os padrões de um continente relativamente pobre como o da América do Sul. 6. Ensino Infantil Deficiente Em 1999, um pouco mais de 4,2 milhões dos quase 23 milhões de brasileiros com idade de zero a 6 anos freqüentaram creches ou pré-escolas, públicas ou particulares, sendo que menos de 44 mil dos seus quase 220 mil professores tinham ensino superior completo, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. De acordo com indicadores sociais do IBGE, entre 1995 e 1999, a taxa de analfabetismo caiu de 17,1% para 13,3%, mas ainda há cerca de 15,1 milhões de jovens e adultos que não sabem ler. O maior índice está no Nordeste, com 18,4%. No Sul, a taxa cai para 7,1%. Nosso PIB (Produto Interno Bruto) é suficiente para investir em uma educação pública ampla, incluindo a pré-escola. Pensar num projeto de desenvolvimento que tenha de optar por uma só etapa da educação - o ensino fundamental, antigo primário e ginásio - é contrariar a Constituição Federal, que considera todas as etapas como básicas. Zerar esses índices, mesmo em dez anos, é um objetivo que os especialistas consideram quase impossível. Conforme cálculos divulgados pela Folha de S. Paulo, em fevereiro/98, em uma série de artigos sobre educação, se for mantido o atual ritmo de redução da taxa de analfabetismo, chegaremos a zero apenas em 2012. 7. Impacto do Fundef Desde a implantação do Fundo Governamental para o Ensino Fundamental – Fun- Anotações e Dicas 120/48 Instituto Monitor def, as estatísticas confirmam o aumento de matrículas a partir dos 7 anos. Municípios e Estados teriam corrido em busca desses alunos. • permitir e incentivar a observação e exploração do ambiente com uma atitude de curiosidade; • proporcionar continuamente o conheci mento da arte e da cultura (que a criança saboreia e cria à sua maneira) sem esquecer do brincar, reconhecido como vital para que a criança possa expressar emoções, sentimentos, pensamentos, desejos e necessidades. Outros setores, como os da educação infantil, especial e a de jovens e adultos, que também são de responsabilidade do município, ficaram de lado. Em 1998, perderam-se mais de 180 mil vagas na rede de ensino, e, dessas vagas, apenas 120 mil foram recuperadas em 1999. Glossário Em 1999, mais de 20% das matrículas na educação infantil estavam ligadas à iniciativa não-estatal. Entretanto, o poder público tem um papel essencial para manter serviços estáveis e de qualidade, principalmente na periferia, onde é difícil a comunidade estar sempre se articulando para obter novos apoios. Década da Educação: instituída pela nova Lei de Diretrizes e Bases, estipula um prazo de dez anos, a partir de 1998, para o cumprimento de diversas metas de melhoria da educação. Educação especial: aquela destinada aos portadores de deficiências ou necessidades especiais. No geral, se passarmos a uma análise da qualidade da educação infantil, observa remos que ela ainda carece de profissiona lismo e de reflexão sobre sua prática. Nas duas últimas décadas houve uma explosão na criação de escolas particulares nas cidades, muitas vezes seguindo modismos ou propostas vazias. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB, Lei nº 9.394, de 20/12/1996, estabelece que até 2007 todos os educadores da rede básica de ensino deverão ter curso superior. Educação infantil: inclui creches e préescolas, que atendem alunos de zero a 6 anos. Ensino fundamental: antigo primeiro grau, que compreende as oito séries destinadas idealmente a alunos de 7 a 14 anos. Ensino médio: antigo segundo grau, com três séries, para alunos a partir de 15 anos. Escola normal: aquela destinada à formação, em nível médio, de professores da primeira à quarta série do ensino fundamental. Não se sabe quantos municípios já realizaram a tarefa. Imagina-se que poucos. Toda essa transição traz implicações que os governos municipais não querem enfrentar. Exemplos disso são o investimento na qualificação dos professores e a construção de um conteúdo pedagógico. Fundão: Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, que obriga a utilização de 60% da arrecadação vinculada à educação para o ensino fundamental. A educação infantil deve proporcionar à criança: LDB: Lei de Diretrizes e Bases da Educação, documento que traça as linhas gerais para a gestão do ensino. Esta lei de nº 9.394, de • um lugar que promova vínculos de afeto e troca com adultos e crianças; 120/49 Instituto Monitor 20/12/96, como o próprio nome menciona, ocupa-se de trazer uma nova visão do ensino, em termos de diretrizes e bases para os três níveis de ensino: fundamental, médio e superior. São características desta nova lei: dinamicidade, flexibilidade e atualização constante das propostas educacionais, sem perder as prerrogativas legais. É uma proposta que, se aplicada de forma correta, valorizando as habilidades e competências dos estudantes, trará benefícios a todos os envolvidos, instituições de ensino, professorado e aqueles que são o objetivo maior deste projeto, os cidadãos que têm direito ao acesso ao ensino qualitativo. PNE: Plano Nacional de Educação, programa de metas educacionais a serem cumpridas pelo poder público durante a Década da Educação. Anotações e Dicas 120/50 Exercícios Propostos 1 - Projeto que define metas da União, Estados e Municípios até o ano de 2008, para melhorar o ensino: ( ) a) Plano Nacional de Alfabetização. ( ) b) Plano Federal de Ensino. ( ) c) Plano Nacional de Educação. ( ) d) Plano Federal de Erradicação do Analfabetismo. 2 - É basicamente a meta mais importante do projeto da questão anterior: ( ) a) Universalizar o acesso ao ensino secundário. ( ) b) Universalizar o acesso ao ensino fundamental. ( ) c) Erradicar o analfabetismo funcional. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 3 - Até 1998, quantos anos o trabalhador brasileiro passava, em média, na escola? ( ) a) 3 anos ( ) b) 3,8 anos ( ) c) 3,4 anos ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - A infra-escolaridade é caracterizada como o conjunto de competências cognitivas e sociais, inferior ao que se espera ter uma pessoa que estudou regularmente os quatro anos básicos. O que significa competência cognitiva? ( ) a) Nível de inteligência e destreza. ( ) b) Nível de conhecimento. ( ) c) Nível de inteligência e conhecimento. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 5 - Uma das causas do grande índice de evasão escolar é: ( ) a) a reprovação no ensino superior. ( ) b) a reprovação no ensino médio. ( ) c) a reprovação no ensino fundamental. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/51 Instituto Monitor 6 -Entre outras metas do projeto do governo está a habilitação dos professores do ensino fundamental. Em cinco anos, a partir de 1998, todos devem ter formação pelo menos em nível médio e, em dez anos (2008), diploma de curso superior. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 7 -Em 1996, ainda possuíamos uma quantidade muito elevada de analfabetos. Esta cifra é de aproximadamente: ( ) a) 15 milhões. ( ) b) 18 milhões. ( ) c) 10 milhões. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 8 - Segundo cálculos divulgados pela Folha de S. Paulo em 1998, o Brasil só conseguirá eliminar o analfabetismo no ano de: ( ) a) 2008 ( ) b) 2012 ( ) c) 2010 ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 9 - Traça as linhas gerais para a gestão do ensino. Ocupa-se de trazer uma nova visão do ensino, em termos de diretrizes e bases para os três níveis de ensino: fundamental, médio e superior. Falamos da: ( ) a) reprovação no ensino superior. ( ) b) reprovação no ensino médio. ( ) c) reprovação no ensino fundamental. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/52 lição 5 A Fome Introdução Nesta lição estudaremos o fenômeno da carência alimentícia no país e as políticas de combate à fome. Com as informações apresentadas aqui, você estará apto a identificar os locais onde o problema é mais grave e quais as vertentes, tanto de ordem pública quanto privada, estão trabalhando na diminuição deste grave problema. 1. A Causa da Fome Os números são da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO): no mundo inteiro, a vida de 840 milhões de pessoas está comprometida pela fome e pela desnutrição (dados de 1997). Desse total, 200 milhões são crianças abaixo de 5 anos. As estatísticas são contraditórias, mas em 2001 aproximadamente 50 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza. Viver abaixo da linha de pobreza é uma forma excessivamente suave de dizer que essas pessoas não podem alimentar-se regularmente e, por conta disso, contraem doenças que reduzem drasticamente sua expectativa de vida. A causa da fome, pelo menos no Brasil, é reconhecidamente conseqüência da péssima distribuição de renda. Torna-se, assim, 120/53 Instituto Monitor um problema complexo, cuja solução depende de gigantescas reformas estruturais. Neste país continental, que não conta mais com o carisma e a força da imagem de Herbert de Souza3, o Betinho, o combate à fome ainda terá de enfrentar muitas batalhas. 2. Desníveis O Plano Real, ao reduzir drasticamente a inflação que corroía o poder aquisitivo da população, causou uma elevação considerável 3 O sociólogo Herbert de Souza, figura notável em nosso país, chegou a ser indicado em 1994 para o Prêmio Nobel da Paz por sua liderança num movimento de grande repercussão, a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Infelizmente, acometido de hemofilia, contaminado pela Aids, faleceu antes que se erradicasse a fome de nosso território. Terceiro de uma série de oito irmãos, completou, em 1962, os cursos de Sociologia e Política e de Administração Pública na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais. Nessa época, atuou como liderança nacional dos grupos de juventude católica que representavam as aspirações de transformação. Nos anos 60, exerceu funções de coordenação e assessoria no Ministério da Educação e Cultura e na Superintendência de Reforma Agrária, além de elaborar estudos sobre a estrutura social brasileira para a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da ONU. Exerceu diversos cargos em órgãos internacionais, como o de diretor do Conselho Latino-Americano de Pesquisa para a Paz (Ipra), consultor para a FAO sobre projetos e migrações na América Latina e coordenador do Latin American Research Unit (Laru) Grupo Latino Americano de Pesquisa, entre outros. A campanha contra a fome ganhou as ruas em 1993 e chegou ao final daquele ano com total aprovação da sociedade - 96% de concordância, segundo o Ibope. Em 1994, lançou a Campanha “Natal sem Fome” que arrecadou, no primeiro ano, 600 toneladas de alimentos. Herbert de Souza morreu em sua casa, no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1997, com 61 anos de idade, vítima da hepatite C. Em 11 de agosto, o corpo do sociólogo foi cremado. Anotações e Dicas 120/54 Instituto Monitor no consumo de alimentos, inclusive entre as classes C e D. Muita gente passou a levar para casa alimentos que antes não faziam parte de seu cardápio, como o iogurte, por exemplo, cujo consumo aumentou 87,2% de 1994 a 1996, segundo dados do governo. No mesmo período, registrou-se elevação importante na venda de outros alimentos, como o queijo (51,4%), a carne suína (31,1%), o frango (27,8%), a carne bovina (19,4%) e o pescado (12,3%) - dados publicados na revista Problemas Brasileiros, edição de nov. dez/97. Alimentação Enteral e Parenteral, que cons tatou algum grau de desnutrição na metade dos pacientes internados em hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS). E entre os desnutridos, prossegue a pesquisa, há uma ocorrência 38% maior de óbito hospitalar. Outra pesquisa sobre nutrição realizada em Campinas, Ouro Preto, Goiânia e Rio de Janeiro pelo extinto Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN), detectou na população de todas essas cidades déficits de elementos fundamentais, como calorias e ferro, o que predispõe as pessoas a vários tipos de moléstias. Paralelamente, problemas crônicos do país, como a desnutrição e a mortalidade infantil, estão em declínio. Pesquisa realizada na capital paulista pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), revelou que, de 1985 a 1996, a porcentagem das crianças menores de 5 anos com crescimento inferior ao potencial genético - um dos principais indicadores de desnutrição infantil - caiu de 30,6% para 13,7%. 3. Ação da Cidadania A Ação da Cidadania nasceu de uma campanha de mesmo nome, em abril de 1993. Foi fundada pelo grupo de intelectuais, entre eles o Betinho, que havia articulado o Movimento pela Ética na Política, em protesto contra as irregularidades ocorridas no governo Collor. Os números da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde _ PNDS não permitem tanto otimismo. O maior recuo da desnutrição deu-se de 1974 a 1989, período em que o índice ficou 61% menor. Depois disso, ele continuou diminuindo, mas num ritmo mais lento. As diferenças regionais continuam muito graves. Embora o Nordeste tenha melhorado seus indicadores, o desnível em relação ao Sudeste, que já era grande, au mentou. A porcentagem de crianças nor destinas desnutridas em 1974 não chegava ao triplo da verificada no sudeste. Em 1996, passou a ser mais de quatro vezes maior que a da região mais rica do país. “Com o impeachment de Collor, pensamos que aquela energia deveria ser canalizada para diminuir as injustiças no Brasil”, conta o sociólogo Maurício Andrade, que participou da fundação do movimento e coordena o Comitê Rio da Ação, o primeiro do Brasil e uma espécie de célula-mãe dos atuais 27 comitês estaduais e cerca de 4 mil municipais (menos da metade em atividade). Os comitês surgem espontaneamente, por iniciativa das pessoas que se sensibilizam com a causa. Os comitês não prestam contas a nenhum escritório central, mas recebem apoio logístico para a realização das campanhas. Cada comitê municipal ou de bairro ganha o direito de usar o logotipo do movimento e declarar-se parte dele. A adesão de empresas e instituições de âmbito nacional _ como o Banco do Brasil, por exemplo, que Além disso, há mais números que mos tram uma situação nutricional ainda muito longe da aceitável. Exemplo disso é um estudo realizado pela Sociedade Brasileira de 120/55 Instituto Monitor em 1994 estimulou as associações de funcionários a empenhar-se na campanha _ foi decisiva para ampliar a abrangência da Ação. O trabalho direto contra a fome _ uma das várias atribuições do programa – dá-se em duas frentes: a administração de merenda escolar e a distribuição de cestas básicas nos municípios mais carentes do interior do país por meio do Programa de Distribuição Emergencial de Alimentos (PRODEA). No que diz respeito à distribuição das cestas básicas, vinculada em última instância ao Ministério da Agricultura, satisfez-se uma antiga reivindicação da opinião pública: a utilização dos estoques estratégicos do governo. Em 1995, foram entregues 3 milhões de cestas, em 96 foram 7 milhões e, em 1997, a distribuição atingiu 10 milhões de cestas, beneficiando 1,5 milhão de famílias nos municípios mais pobres, acampamentos de famílias sem-terra e áreas indígenas. Anotações e Dicas 120/56 Exercícios Propostos 1 - Segundo estatísticas, no ano 2000 quantos brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza? ( ) a) Aproximadamente 50 milhões. ( ) b) Aproximadamente 12 milhões. ( ) c) Aproximadamente 30 milhões. ( ) d) Aproximadamente 32 milhões. 2 - Reconhece-se, no Brasil, como sendo uma das principais causas da fome: ( ) a) péssima distribuição de alimentos. ( ) b) péssima distribuição de empresas pelo Brasil. ( ) c) péssima distribuição de renda. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 3 - Com o Plano Real, houve declínio da desnutrição e da mortalidade infantil, reflexo de uma melhoria na alimentação, mas ainda persiste um grave problema de fome no país. A afirmação está: ( ) certa ( ) errada 4 - A partir de 1989, o ritmo do declínio da desnutrição tornou-se mais rápido. A afirmação está: ( ) certa ( ) errada 5 - Pesquisas realizadas em Campinas, Ouro Preto, Goiânia e Rio de Janeiro, detectaram na população de todas essas cidades déficits de elementos nutricionais fundamentais, que predispõem a vários tipos de moléstias. Quais são estes elementos? ( ) a) Ferro. ( ) b) Calorias e ferro. ( ) c) Cálcio. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 6 - Betinho foi o criador de um programa que busca, entre outras coisas, atacar a fome, por meio de várias frentes de ação. Qual o nome desse projeto? ( ) a) Ação da Cidadania contra a Miséria. ( ) b) Ação da Cidadania contra a Fome. ( ) c) Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/57 Instituto Monitor 7 - Em 1997, foram distribuídas 10 milhões de cestas básicas, beneficiando uma razoável quantidade de famílias. De quantas famílias estamos falando? ( ) a) 1,5 milhão ( ) b) 1,8 milhão ( ) c) 2 milhões ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 8 - Cerca de metade dos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) apresentam algum grau de desnutrição. Entre os desnutridos há uma incidência de 38% de óbitos hospitalares. A afirmação está: ( ) certa ( ) errada 120/58 lição 6 Saúde Brasileira e Saneamento Básico Introdução Dois assuntos prioritários para o bemestar social são analisados nesta lição: a Saúde e o Saneamento Básico. Serão analisados como meios de prevenção e combate a doenças e, principalmente, como estão em termos quantitativos e qualitativos. 1. Saúde Saúde é um termo muito abrangente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como uma condição de bem-estar físico, psíquico e social. Com isso, ela abrange uma série de ações, como: • tratamento de água e de esgoto; • boas condições de habitação; • qualidade e quantidade suficiente de alimentos; • qualidade e quantidade suficiente de medicamentos; • imunização e combate a endemias; • prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças. Na década de 50, levando-se em conta todos esses fatores, a expectativa de vida do brasileiro era de 47 anos. Para o início do terceiro milênio, essa expectativa subiu para 67 anos. Ganhamos assim, 20 anos de expectativa de vida, o que pode ainda ser aumentado, dependendo, em grande parte, das políticas públicas a serem adotadas e/ou modificadas. As políticas públicas são representadas pelo conjunto de ações dos governos federal, estadual e municipal, que possam vir a beneficiar ou prejudicar a população. No setor da saúde, os governos, principalmente o federal, têm adotado medidas que propiciaram grandes e importantes avanços na erradicação e prevenção de algumas doenças. A varíola foi erradicada na década de 70 e a poliomielite (paralisia infantil) na década de 80. Foram extraordinariamente reduzidas algumas doenças como o sarampo, uma vez que chegamos a ter 100 mil casos comunicados em um ano e, em 1996, foram menos de 200 casos. A difteria, que sempre atingiu um alto contingente de doentes, apresentou, ao final da década de 90, apenas um número residual. É importante ressaltar que esse resultado não se manifestou dessa forma no mundo todo. Em 1995, na Rússia, houve uma epidemia de difteria com mais de 50 mil casos. Em 1996, foram mais de 100 mil casos, com centenas de mortes. Podemos afirmar com segurança que esse tipo de doença não existe mais no Brasil. Por outro lado, com o aumento da população de idosos, o Brasil teve modificada a sua nosologia (classificação de doenças). Cresceu muito o número de portadores de câncer e aumentaram as doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e doenças mentais. O brasileiro de hoje mudou seu estilo de vida. Desde o início dos anos 90, vem convi- 120/59 Instituto Monitor vendo com causas externas como acidentes de trânsito e violência, e que hoje são a segunda causa de morte, com um índice de 14%. Há um esforço dos governos estaduais e municipais no sentido de ampliar o atendimento à população de baixa renda, com a criação de postos e centros de saúde, bem como de ambulatórios médicos, tentando minimizar a carência de atendimento. Mas tal esforço é ainda insuficiente em relação às necessidades da população. Em primeiro lugar estão as doenças cardiovasculares, com um percentual de mortes de 35%, e a terceira causa é o câncer, responsável por 12% das mortes. No Brasil, o sistema público é também responsável por outras ações, como: Isso representa uma pressão enorme sobre os serviços de saúde, além dos malefícios causados pelo uso do fumo, do álcool, das drogas e do aparecimento de doenças como a Aids. • combate à endemia; • imunização; • vigilância epidemiológica; Grande parte da população brasileira não tem condições de sustentar os gastos com a saúde. Existe, atualmente, em todo o mundo, uma situação epidemiológica que oferece novas patologias. Por outro lado, existe também uma tecnologia avançadíssima, que permite tanto proceder a um diagnóstico precoce das doenças, quanto melhorar as possibilidades de cura dessas doenças, mas isso requer gastos elevados tanto das instituições públicas e privadas da área da saúde, quanto da população que necessita desses serviços. • vigilância sanitária; No Brasil, apenas 25% têm condições de se associarem a um plano de saúde, restando aos outros 75% a necessidade de apoiarem-se no sistema público. Muitas coisas ainda precisam ser feitas na área da saúde e uma delas merece destaque: a nutrição. A nutrição balanceada e correta evita o retardamento do crescimen- • registro de alimentos e de medicamentos; • fiscalização de exercício profissional. De acordo com os dados disponíveis, os recursos utilizados tanto pelo setor privado quanto pelo setor público são mais ou menos da mesma monta, com a diferença de que o setor privado atende a apenas 25% da população, com suas exclusões e carências, ficando 75% a cargo do setor público. Anotações e Dicas 120/60 Instituto Monitor to, a suscetibilidade a infecções, anemia e problemas mentais, e, uma vez atacados esses problemas, certamente teremos um Brasil mais justo e humano. esgoto das cidades. Só que, desses 48%, grande parte é lançada nos cursos de água, sem nenhum tratamento, e isso cria um processo grave de deterioração. Nos fundos de vale das grandes cidades instalam-se favelas, que estão convivendo com o esgoto a céu aberto. 2. Saneamento Básico Hoje, quase 85% dos domicílios brasi leiros contam com água potável (não necessariamente encanada), e a metade, com saneamento. Mas note bem: esses percentuais, contudo, são a média nacional. Na zona rural, somente 65% das casas contam com água potável e 23,7% têm fossa séptica. A situação dos serviços de lixo também é muito complicada, porque coleta-se nas cidades perto de 85% do lixo, mas metade dele é simplesmente lançada em lixões e apenas 5% do lixo coletado é tratado. 3. O Problema do Lixo A deterioração do meio ambiente urbano e rural é absolutamente flagrante. Há vários rios altamente contaminados, mesmo na Amazônia, em conseqüência dos garimpos. A maioria dos rios das cidades são contaminados com dejetos e resíduos industriais. Além de exalar mau cheiro e atrair insetos transmissores de doenças, o líquido formado pela água das chuvas e pela decomposição de matéria orgânica pode contaminar córregos e águas subterrâneas. Como as águas subterrâneas se movimentam, uma vez contaminadas, poluem poços e nascentes próximos. Pode-se verificar muito facilmente essa situação de deterioração urbana quando se analisam os dados dos serviços de água, esgoto e lixo. No Brasil, 76% da população recebe água encanada e tratada. Se incluirmos só as populações urbanas, esse número sobe para 90%. Só que, em mais da metade dessa rede, o fornecimento de água não é contínuo: sofre interrupções. Mesmo numa região altamente desenvolvida como São Paulo, o fornecimento de água é descon tínuo. Há bairros que recebem água apenas duas vezes por semana e sempre que ocorre a descontinuidade do fornecimento, cria-se na tubulação uma pressão negativa, favo recendo a contaminação. Segundo especialistas, a melhor forma de tratar o lixo domiciliar é a implantação de aterros sanitários, associada à reciclagem, incineração ou compostagem (criação de usinas destinadas ao tratamento de resíduos, a partir de estudos de viabilidade e poten cialidade local). Estas usinas permitem o aproveitamento e reutilização de matérias orgânicas tratadas, ajudando na fertilização do solo agrícola. Como a construção desses aterros e usinas exige grandes investimentos, a solução é localizá-los estrategicamente, de forma a atender vários municípios, o que minimizaria os custos operacionais. No caso do esgoto, a situação é mais complicada. Coleta-se apenas 48% do 120/61 Exercícios Propostos 1 - A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde da seguinte forma: ( ) a) bem-estar financeiro, físico e social. ( ) b) bem-estar físico e social. ( ) c) bem-estar físico, psíquico e social. ( ) d) bem-estar físico e psíquico. 2 - Qual é a expectativa de vida média do brasileiro atualmente? ( ) a) 65 anos. ( ) b) 68 anos. ( ) c) 61 anos. ( ) d) 67 anos. 3 - Com o aumento da população de idosos, cresceu muito o número de portadores de determinadas doenças. Identifique duas destas doenças: ( ) a) Verminose e difteria. ( ) b) Doenças cardiovasculares e câncer. ( ) c) Diabetes e varíola. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - Com um índice de 35%, o que mais causa mortes no Brasil: ( ) a) são as doenças cardiovasculares. ( ) b) são os acidentes de trânsito. ( ) c) é a violência. ( ) d) é a diabetes. 5 - Sabendo-se que o montante de recursos utilizados na área de saúde, pelos setores público e privado, é aproximadamente igual, e que o setor público é responsável pelo atendimento de 75% da população, observa-se como conseqüência: ( ) a) o eficiente atendimento da rede privada. ( ) b) a má qualidade do atendimento do serviço público. ( ) c) a eficiência do setor público. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/62 Instituto Monitor 6 - Desde que balanceada e correta, evita o retardamento do crescimento, a possibilidade de infecções, anemia e problemas mentais. A saúde de uma nação sempre dependerá de boas condições deste fator. Do que estamos falando? ( ) a) Nutrição. ( ) b) Vacinação ( ) c) Educação. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 7 - A minoria dos rios das cidades está contaminada com dejetos e resíduos industriais. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 8 - Nas áreas urbanas brasileiras, o percentual de domicílios com água encanada e tratada é de: ( ) a) 98% ( ) b) 97% ( ) c) 75% ( ) d) 90% 9 - Complete: _______________________é realizada por usinas que aproveitam e reutilizam matérias orgânicas tratadas, ajudando a fertilização do solo agrícola. ( ) a) Reciclagem ( ) b) Readubagem ( ) c) Compostagem ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/63 lição 7 Habitação no Brasil se todas nas capitais. São os moradores das favelas não urbanizadas e dos cortiços. Introdução Nesta lição analisaremos o problema do déficit habitacional brasileiro e as soluções que estão sendo implementadas para ate nuar esta problemática social. Tópicos como construção comunitária, favelas verticais, submoradias e outros aspectos das condições de habitabilidade em que vivem os brasileiros serão abordados nesta lição. Trata-se de um problema social de enorme repercussão: estamos falando de 5 milhões de pessoas sem um teto digno. A ausência de moradias com infra-estrutura mínima de um quarto, sala, cozinha e banheiro, para milhares de brasileiros que se instalam em favelas e cortiços, é acompanhada da ausência de saneamento básico, ligações clandestinas de energia elétrica e água, e muitos outros problemas atrelados à saúde e higiene. A questão da titularidade, ou seja, a legítima propriedade, é outro problema. Existem, nos grandes centros urbanos, muitos casos de lotes em áreas de mananciais, áreas públicas ou ainda, terrenos com proprietários duvidosos, fraudes em escrituras e muitas outras irregularidades. Pessoas inescrupulosas aproveitam-se da boa-fé e da ignorância de pessoas simples e negociam imóveis que, na verdade, não podem lhes pertencer. 2. Movimento dos Sem-Teto 1. Déficit Habitacional Estima-se que haja no país 5 milhões de pessoas vivendo em condições precárias, qua- A existência de uma versão urbana do MST (Movimento dos Sem-Terra), o chamado Movimento dos Sem-Teto, preocupa a sociedade. Eles agem nas grandes cidades, ocupando terrenos e prédios públicos. No Brasil inteiro, principalmente nas grandes capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, ficam evidentes as ações dos sem-teto. 120/65 Instituto Monitor Calcula-se que o movimento agregue cerca de 100 mil pessoas, em diferentes tipos de organizações. Diversos prédios públicos já foram ocupados em algumas das cidades brasileiras. Hoje já temos políticas públicas voltadas para a construção de habitações populares na direção vertical, como é o caso da cidade de São Paulo, com o Projeto Cingapura. 4. Autoconstrução da Casa Própria O Movimento dos Sem-Teto é, sem dúvida, importantíssimo para a transformação social de nosso país, mas, certamente não será com a ocupação de espaços públicos e até mesmo privados, de um lado, e a ação policial de outro, que teremos a solução para o problema do déficit habitacional. É necessária a adoção de novas e eficientes políticas públicas. Famílias moradoras da periferia são orientadas e monitoradas por profissionais, para poderem construir suas casas. É o objetivo principal do programa Mãos à Obra, apresentado pela Fundação Roberto Marinho: ensinar ao público leigo como construir uma casa confortável e segura. 3. Favelas Verticais A verticalização dos domicílios é característica de locais onde se amontoam barracos de poucos cômodos, habitados por várias pessoas de uma mesma família ou não. Até a década de 80, as habitações tinham apenas um pavimento. Hoje, há favelas com moradias de três e até quatro andares. Esse fato ocorre em vista da atual dificuldade do crescimento urbano horizontal, uma vez que a maioria dos espaços já está ocupado, ou mesmo, servindo à especulação imobiliária. Aspectos dessa natureza merecem destaque nas cidades de Fortaleza, Diadema, São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia. As famílias que se utilizam desse projeto são, em geral, de baixa renda e, confinados à periferia das grandes cidades, totalizam hoje um contingente de, aproximadamente, 5 milhões de pessoas. Dispondo de um terreno, decidem construir suas casas com as próprias mãos, fazendo, com isso, uma grande economia. Em São Paulo, em pleno século XXI, de cada cinco habitantes, um é favelado. Na capital do Ceará, Fortaleza, 30% da popu lação reside em barracos ou cortiços. O aproveitamento do espaço urbano por meio da verticalização é uma necessidade dos grandes centros. Isto porque as pessoas não querem se distanciar do núcleo do progresso urbano. Elas querem usufruir das facilidades de transporte, bem como de acesso aos serviços diversos que, de uma forma geral, estão sempre localizados na parte mais central das cidades. A Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) decidiu patrocinar o Mãos à Obra, em parceria com a Fundação Roberto Marinho e outras entidades e empresas do ramo. O interesse comercial, com 120/66 Instituto Monitor certeza, está nos bastidores dessa parceria. No entanto, a elaboração do conteúdo técnico do programa ficou a cargo do Núcleo de Pesquisa em Tecnologia de Arquitetura e Urbanismo (NUTAU) da USP (Universidade de São Paulo). O resultado foi um manual de 30 capítulos, que tratam das várias etapas da obra, desde a escolha do terreno, distribuído gratuitamente aos interessados. oferecido pela CEF, dentre outros não se concretizaram. Apesar dos contratempos, a partir da metade da década de 80, quando o sistema financeiro parou de oferecer casas populares, a fatia da autoconstrução, que era bem mais magra, foi ganhando espaço e chegou ao ponto em que está. Vejamos alguns números que ilustram o crescimento da autoconstrução: em 1995, com a implantação do Plano Real, o consumo de cimento alcançou 28 milhões de toneladas, impulsionado pela estabilização dos preços. No ano seguinte, experimentou seu maior salto, para 34,5 milhões de toneladas (uma ampliação de 23%) e, em 1997, passou para 38 milhões de toneladas. No ano de 1998, quando muitos setores da economia apresentaram sinais de estagnação ou declínio, as vendas de cimento ainda cresceram cerca de 5%, totalizando 40 milhões de toneladas. 5. Moradias Populares De acordo com técnicos do setor, o crescimento ou encolhimento do mercado da autoconstrução está diretamente ligado à oferta de moradias populares. Assim é que, no período de funcionamento do Banco Nacional da Habitação (BNH) (1965/85), foram financiados 4,5 milhões de imóveis. Em 1986 foi extinto o BNH e a Caixa Econômica Federal (CEF) passou a admi nistrar os projetos habitacionais do governo. Muitos programas saíram do papel, mas a ampliação deles (os programas) e o financiamento de material de construção Isto significa que o mercado da constru ção civil vem crescendo e, mesmo que de forma incipiente, ampliando a oferta de moradia para os brasileiros. Anotações e Dicas 120/67 Exercícios Propostos 1 - A submoradia é extremamente visível no Brasil. Há um número elevado de pessoas que moram em favelas e cortiços, quase todas nas capitais. Em que amplitude está este número? ( ) a) 2 milhões. ( ) b) 5 milhões. ( ) c) 6 milhões. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 2 - As conseqüências mais visíveis da existência de submoradia são a ausência de saneamento básico, ligações clandestinas de energia e água. Também causa muitos problemas atrelados à saúde e higiene. A afirmação acima está: ( ) a) totalmente correta. ( ) b) correta na primeira parte, errada na segunda parte. ( ) c) totalmente errada. ( ) d) errada na primeira parte, correta na segunda parte. 3 - Agindo nas áreas urbanas das grandes cidades, ocupando terrenos e prédios públicos, é um movimento que, apesar dos vários conflitos devido à sua irregularidade, evidencia o problema habitacional também na área urbana. Que movimento é este? ( ) a) Movimento dos Sem-Terra. ( ) b) Movimento dos Desabrigados. ( ) c) Movimento dos Sem-Teto. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - A atual dificuldade do crescimento urbano horizontal, pois a maioria dos espaços já está ocupada, fez surgir um novo tipo de moradia. Identifique-o: ( ) a) Favelas. ( ) b) Favelas verticais. ( ) c) Cortiços. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/68 Instituto Monitor 5 - O Programa Mãos à Obra da Fundação Roberto Marinho, em parceria com a Associação Brasileira de Cimento Portland – ABCP, visa ensinar, ao público especializado, como construir uma casa confortável e segura. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 6 - Com a extinção do BNH - Banco Nacional da Habitação, em 1986, qual instituição assumiu a responsabilidade da administração dos projetos habitacionais do governo? ( ) a) Nossa Caixa - Nosso Banco. ( ) b) Caixa Econômica Federal. ( ) c) Banco do Brasil S/A. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 7 - A autoconstrução de moradia é uma opção bastante econômica para as famílias de baixa renda obterem sua casa própria. Geralmente, a concentração destas pessoas que constroem suas casas localiza-se nas: ( ) a) áreas da periferia das grandes cidades. ( ) b) áreas da periferia da zona rural. ( ) c) áreas centrais da zona rural. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/69 lição 8 Mortalidade e Trabalho Infantil Introdução A mortalidade infantil e o emprego da mão-de-obra infantil constituem sérios desafios a serem enfrentados pelos brasileiros. Nesta lição você conhecerá indicadores que confirmam a realidade e nos colocam em situação vexatória perante a comunidade internacional. Mas não ficamos apenas no terreno das críticas. Abordaremos também algumas soluções que efetivamente podem melhorar a questão. 1. Saúde da Criança Como já foi tratado em capítulo anterior, o índice de mortalidade infantil (relação entre o número de crianças que morrem antes de completar um ano de idade e o total de crianças nascidas no ano) é verdadeiro termômetro para a medição das condições sociais de uma nação. Através do exame pré-natal, com um mínimo de cinco consultas e alguns exames, o risco de mortalidade reduz 50%. São dados do Unicef, o órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) para infância e juventude. No pré-natal, a mãe pode acompanhar o desenvolvimento do feto e também descobrir várias moléstias, como hipertensão, diabetes e até doenças infectocontagiosas, como a Aids, por exemplo. Apesar do sucesso do controle de doenças como a paralisia infantil e o sarampo, que já não matam nem deixam seqüelas no Brasil, e da redução observada na mortalidade infantil, o país pouco avançou em dois dos principais problemas de saúde das crianças: o baixo peso ao nascer e o tétano neonatal. No caso do tétano, a imunização das mães, que é um dos objetivos do programa de vacinação de âmbito nacional do Ministério da Saúde, pode resolver a questão. Já no que se refere ao baixo peso, a situação é muito mais complicada, pois depende basicamente da redução do nível de pobreza no país, uma vez que, na maior parte das vezes, tal problema é causado por deficiências de nutrição da mãe. A criança que nasce com baixo peso entra no mundo em franca desvantagem. O próprio Ministério da Saúde reconhece que ela corre um risco 11 vezes maior de morrer no primeiro ano de vida, em relação às demais crianças. Nesse campo, a rigor, a batalha ainda está longe de ser ganha. Uma modesta melhoria foi observada nos últimos anos. Em 1989, 10% dos recém-nascidos tinham peso inferior a 2,5 quilos e em 1995 esse percentual só diminuiu para 9,2%. O quadro é mais grave nas zonas rurais, onde a parcela de nascidos com baixo peso alcançou 11,2%, ao passo que nas áreas urbanas ficou em 8,6%. No Nordeste, a média foi de 9,4% - a mais alta do país. Examinando-se a questão mais profundamente, observa-se que a saúde da criança está intimamente ligada ao nível de escolaridade da mãe e às condições sanitárias da sua habitação; fatores esses que dependem, em 120/71 Instituto Monitor grande parte, do nível de renda da família. Essas duas variáveis têm influência decisiva na questão do baixo peso do recém-nascido, que hoje também conta, entre suas causas, com as gestações cada vez mais precoces. Infelizmente não é o que indica a tabela apresentada em 1999 pelo próprio Ministério da Saúde, onde em 1998, o índice foi de 36 por mil nascidos vivos. Ao final de 1999, este número, ainda elevado para os padrões exigidos pela comunidade internacional, permanecia em nossas estatísticas. Uma maior autonomia dos municípios na área da saúde tende a melhorar os indicadores da saúde em geral, e da infantil, em particular. As prefeituras ao assumirem a gestão da saúde pública, com programas como o do médico da família, orientação sanitária e nutricional às gestantes e, depois assistindo à criança de qualquer idade, possibilitam redução da mortalidade infantil e incidência de doenças que podem ser prevenidas. Os números melhoraram um pouco mais em 2000. A cada mil crianças que nascem vivas, 34 morrem antes de completar um ano de idade. Mesmo assim, o desempenho brasileiro é pior que o da Tunísia, que registrou 25 mortes por mil nascidos vivos. Felizmente alguns Estados, principal mente os das regiões Sul e Sudeste, consegui ram reduzir de forma bastante significativa seus índices. Um bom exemplo é o do estado de Santa Catarina, que tem um índice de 16,3 por 1.000 crianças nascidas vivas. Entre 1990 e 1995, antes da efetiva entrada em funcionamento dessa política de descentralização dos setores ligados à saúde, a mortalidade para menores de 1 ano de idade já havia caído em 20,1%, e em 23% para os da faixa de até 5 anos. 2. Importância do Saneamento Básico O Ministério da Saúde tem como meta uma taxa de mortalidade de 23 por mil nascidos vivos, portanto, dentro do nível máximo estabelecido pela Cúpula Mundial em Favor da Infância (a metade da taxa registrada no início dos anos 90). Também entre 1990 e 1995 diminuíram em 55,9% as mortes por diarréia, fator de mortalidade particularmente ligado tanto às condições sanitárias do local onde vive Anotações e Dicas 120/72 Instituto Monitor a criança, quanto à educação da mãe. Tal redução deu-se principalmente por conta da melhoria do saneamento básico e do abastecimento de água potável. Uma pesquisa mostrou também a redução, de 32,3%, nas mortes de crianças de menos de 1 ano de idade por infecções respiratórias agudas, doenças que ocupam o primeiro lugar entre as causas de internação infantil no Sistema Único de Saúde (SUS). Comparações com investimentos de alguns países comprovam a precariedade em que vive a saúde brasileira: segundo levantamento do Banco Mundial, os registros públicos indicaram que, no ano 2000, os Estados Unidos previram um gasto de US$ 2.763 per capita com a saúde, e o Brasil, somente US$ 150. Observe que cerca de 120 milhões de brasileiros, ou seja, cerca de 75% da população, dependem de atendimento público. 3. Medicina Preventiva é a Solução A medicina preventiva é o melhor instrumento para a melhoria das estatísticas na questão da saúde infantil. O Brasil avançou muito nesse terreno, fato confirmado pelo sucesso no controle do sarampo e da paralisia infantil, mas os trabalhos a serem desenvolvidos estão muito abaixo da necessidade da população brasileira. Há registros de avanços de caráter preventivo de doenças, em especial no caso da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids). A principal via de transmissão da Aids na população infantil é perinatal: 89,9% dos casos verificados em crianças abaixo de 13 anos de idade decorrem da transmissão pela mãe, durante a gestação. O Ministério da Saúde determinou o uso de AZT oral para as grávidas infectadas a partir da 14ª semana de gestação, de AZT injetável no momento do parto e de AZT oral para os recém-nascidos. Acredita-se que, com essas medidas, as infecções transmitidas de mãe para filho diminuam em 66%. 4. Coeficiente de Mortalidade Infantil Coeficiente por Região e Unidades da Federação segundo o Ano Região e Estados Total Região Norte Rondônia Acre Amazonas Roraima 1989 52,02 47,42 44,44 57,40 43,37 45,06 1990 49,40 44,59 41,96 54,90 40,95 43,78 1991 46,99 42,26 40,01 52,70 39,14 42,68 1992 44,79 40,37 38,52 50,90 37,83 41,74 120/73 1993 42,80 38,88 37,37 49,30 36,91 40,95 1994 41,01 37,72 36,51 48,00 36,28 40,29 1995 39,40 36,82 35,86 46,90 35,85 39,73 1996 37,97 36,13 35,38 46,00 35,57 39,26 1997 36,70 35,60 35,02 45,30 35,37 38,87 1998 36,10 35,20 34,76 44,67 35,25 38,54 Instituto Monitor Região e Estados Pará Amapá Tocantins Região Nordeste Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Região Sudeste Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro São Paulo Região Sul Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Região Centro-Oste Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Distrito Federal 1989 51,70 39,81 48,02 77,82 77,41 65,43 73,57 77,85 85,52 81,97 100,28 72,37 65,95 35,86 41,41 36,00 33,66 32,27 29,20 37,37 29,71 24,20 32,97 34,11 39,45 34,90 32,62 1990 48,10 38,03 44,55 74,30 73,79 62,55 69,93 73,57 80,53 77,94 96,25 68,73 62,67 33,57 38,42 34,60 31,89 30,85 27,36 35,52 28,28 23,30 31,19 32,34 37,30 33,01 30,92 1991 44,90 36,54 41,70 71,15 70,69 60,07 66,79 70,10 76,42 74,48 92,37 65,56 59,89 31,62 35,95 33,36 30,40 29,59 25,94 33,93 27,09 22,51 29,74 30,91 35,42 31,47 29,49 1992 42,30 35,33 39,42 68,37 68,10 57,99 64,14 67,33 73,14 71,53 88,69 62,82 57,56 29,97 33,96 32,25 29,15 28,47 24,87 32,58 26,11 21,84 28,56 29,78 33,78 30,24 28,30 1993 40,20 34,36 37,62 65,92 65,98 56,25 61,91 65,15 70,58 69,05 85,25 60,47 55,65 28,60 32,38 31,28 28,12 27,49 24,08 31,44 25,31 21,25 27,61 28,90 32,38 29,28 27,31 1994 38,70 33,58 36,23 63,80 64,26 54,82 60,06 63,45 68,62 66,99 82,05 58,46 54,08 27,47 31,13 30,42 27,27 26,62 23,49 30,48 24,66 20,76 26,85 28,21 31,18 28,52 26,49 1995 37,60 32,98 35,16 61,96 62,89 53,65 58,54 62,14 67,14 65,29 79,12 56,76 52,82 26,56 30,16 29,67 26,59 25,87 23,07 29,68 24,13 20,33 26,25 27,68 30,16 27,93 25,82 1996 36,80 32,51 34,36 60,39 61,80 52,70 57,28 61,14 66,03 63,89 76,47 55,32 51,81 25,82 29,41 29,02 26,04 25,21 22,76 29,02 23,71 19,97 25,77 27,28 29,29 27,47 25,28 1997 36,20 32,15 33,75 59,05 60,94 51,94 56,26 60,37 65,21 62,75 74,07 54,10 51,00 25,23 28,84 28,45 25,60 24,63 22,55 28,47 23,37 19,66 25,39 26,97 28,57 27,12 24,83 1998 35,83 31,87 33,30 57,91 60,27 51,33 55,43 59,79 64,61 61,82 71,94 53,08 50,36 24,76 28,40 27,96 25,25 24,13 22,39 28,02 23,09 19,40 25,09 26,73 27,96 26,86 24,48 Fonte: Ministério da Saúde - Estimativa da Mortalidade Infantil por Microrregiões e Municípios Anotações e Dicas 120/74 Instituto Monitor A Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU), considera como crianças, todas as pessoas com menos de 18 anos e, por isso, com direito especial ao pleno desenvol vimento, à sobrevivência, à saúde, à educação, à expressão de seus pontos de vista, etc. O Brasil também assinou essa convenção, mas a realidade foge ao acordo internacional. Assim como não se sabe com exatidão quantos adultos efetivamente trabalham no país, ignora-se quantas crianças já estão integradas à força de trabalho brasileira. Não há dúvidas, porém, embora faltem estatísticas sobre as más condições em que esse trabalho ocorre com relação aos salários, horários, férias, folgas, etc., de que tudo depende da boa (ou má) vontade do empregador. 5. Trabalho Infantil Ninguém sabe exatamente quantas crian ças trabalham no mundo, apesar de haver diversos institutos de pesquisa e estatística discutindo e analisando o tema. A proble mática do trabalho infantil no Brasil, começa sob dois pontos divergentes: Estatísticas oficiais (como o Mapa do Mercado de Trabalho no Brasil, do IBGE) dizem que 65% dos menores têm jornada maior que a legal e mais de 80% ganham menos que um salário mínimo. Há alguns anos, o IBGE divulgou o estudo O traço da desigualdade social no Brasil, segundo o qual, no começo da década, quase 8 milhões de crianças e adolescentes já trabalhavam (3,6 milhões trabalhavam e estudavam). Esse número, calculava a OIT, representava uns 17% da força de trabalho nacional. • o primeiro é o que delimita legalmente o que seja trabalho infantil; • o segundo, decorrente do anterior, é saber quantas crianças brasileiras efetivamente trabalham, e em quais condições. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 73 milhões de menores são levados ao trabalho precoce, isto é, entre 10 e 14 anos, o que significaria 13% de todas as crianças dos países pobres e ricos do mundo. 6. Sem Brincadeiras A criança que trabalha não tem tempo nem disposição para brincar. Quando vai à escola, não consegue acompanhar as aulas. Por conseqüência do trabalho, está mais exposta que outras aos problemas de saúde: corre riscos ao executar tarefas muitas vezes pesadas, acima de suas forças e aptidão. Às vezes, trabalha em jornadas prolongadas, sem dispor sequer de equipamentos de proteção, ou mesmo de treinamento para a função. Cinco por cento (5%) desses trabalha dores precoces seriam crianças brasileiras, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios indica que 3,5 milhões de crianças dessa idade estavam trabalhando em 1993, ano em que se concluiu o levantamento, divulgado em março de 1997. Esse número equivale ao de toda a população do Uruguai. 120/75 Instituto Monitor Existem adolescentes nas carvoarias do Mato Grosso do Sul, na colheita de laranja em São Paulo, no corte da cana no Rio de Janeiro, na extração do sal no Rio Grande do Norte, nas atividades extrativistas do Pará, na rotina dos office-boys das capitais, na venda e mendicância em semáforos dos grandes centros. 7. Crianças Abandonam a Escola Há um contingente muito grande de crianças de 6 a 11 anos de idade fora das escolas, pelas quais não se sentem muito inte ressadas. Outras tantas abandonam as salas de aula, por falta de resposta ou estímulo, antes de concluir a fase inicial de curso. Uma boa parte dos jovens tenta conciliar estudo com trabalho, sem conseguir grandes resultados. A maior parte das crianças trabalhadoras vive na Ásia (metade do total), na África (um terço do total) e na América Latina, informa a ONU. A ONU, por meio de seus diversos departamentos, está empenhada em saber a realidade oculta atrás desses quadros, e por isso decidiu começar pelo lado mais cruel da realidade: o trabalho perigoso ou prejudicial ao desenvolvimento da criança. Um exemplo é o uso de facões para corte de cana-deaçúcar por crianças, vítimas de 40% dos acidentes de trabalho registrados, embora elas representem menos de 30% do total dos cortadores. Para os organismos da ONU, uma estratégia abrangente que combata o trabalho infantil deve ser iniciada com o que consideram a alternativa lógica: escolas de boa qualidade, para as quais as famílias sejam estimuladas a enviar suas crianças, e que desenvolvam programas educacionais relevantes, dos quais os próprios alunos queiram participar. Melhorando o sistema educacional, os países acabarão por modificar seu quadro econômico e social, repetem, há anos, os especialistas. Quanto mais longo e melhor for o processo de educação, menor será a probabilidade de a criança se expor ao trabalho, dizem esses especialistas. O que provoca o trabalho precoce são, muitas vezes, razões econômicas. No caso da América Latina, isso é facilmente visível quando se pensa na crise da década de 80, disseminada por várias economias do continente. Essa crise marcou o destino próximo de vários países em desenvolvimento uma vez que o endividamento dos governos levou as economias nacionais à recessão e ao desemprego. Segundo a Constituição Brasileira, a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, e que deve ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. Anotações e Dicas 120/76 Instituto Monitor Reza também que o Governo Federal deve aplicar o mínimo de 18% de sua receita fiscal na manutenção e no desenvolvimento do ensino, ao passo que os governos estaduais e municipais devem aplicar o mínimo de 25%. Pela análise da situação do trabalho infantil, fica difícil comprovar se esses recursos estão sendo realmente empregados como determina a nossa Carta Magna. haver 40 mil crianças fora das escolas, trabalhando em canaviais. O programa Bolsa Escola, do Governo Federal, pretende resolver o problema, pagando R$ 50,00 mensais (cerca de 33% do salário mínimo vigente em 2000) a famílias de crianças que freqüentem pelo menos 75% do horário normal das aulas. 8. Salário para Estudar O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Calçados e do Vestuário de Franca/SP e região, a CUT e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socio econômicos (Dieese), com o apoio de entidades como Unicef e OIT, fizeram um estudo que revelou estarem trabalhando mais de 70% das crianças da cidade nas chamadas bancas de produção (oficinas terceirizadas das fábricas de calçados da região). Desses 70%, 12% não recebiam nenhum tipo de salário, não tinham registro de trabalho e apresentavam vários problemas de saúde (como dores de cabeça, tontura, dificuldades de visão devido à exposição prolongada à cola de sapateiro, cortes, ferimentos, dores musculares e de coluna). 9. Algumas Soluções Concretas Existem hoje projetos de comple mentação de renda familiar, que buscam manter as crianças na escola. O Distrito Federal foi o pioneiro na implantação desse projeto, que objetiva uma erradicação eficaz do trabalho infantil, além de se pensar na capacitação profissional dos adolescentes, visando a sua posterior inserção no mercado de trabalho. O programa Comunidade Solidária insiste na troca do trabalho da criança pela sua manutenção na escola, ganhando a família que fizer isso algum tipo de remuneração. Foram firmados convênios com oito municípios do Estado do Rio de Janeiro, cujos prefeitos se comprometem a erradicar o trabalho infantil, pagando meio salário mínimo a cada família que tirar o filho do trabalho e o mantiver na escola. Haverá fiscalização, especialmente na região canavieira fluminense. Segundo a OIT, nessa região, 20% dos trabalhadores são crianças. Convênios semelhantes devem ser firmados com prefeitos da chamada região dos lagos, onde crianças trabalham na extração do sal. A metade dos pequenos trabalhadores já havia repetido de ano na escola. O Instituto Empresarial de Apoio à Formação da Criança e do Adolescente (Pró-Criança), fundado pelo Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca/SP e região, pela Associação do Comércio de Franca (Acif) e outras entidades, atua na prevenção do trabalho infantil, privilegiando a permanência das crianças na escola. Foi lançado o selo Pró-Criança, que identifica, nas embalagens dos calçados, a fábrica que não utiliza mão-de-obra de crianças no processo de manufatura. Das 360 indústrias de sapatos da região, 50 já usam o selo. Nos canaviais do norte fluminense, crianças e adolescentes são os responsáveis por aproximadamente um quinto do total de mão-de-obra empregada pelas 12 usinas da região. O caso das carvoarias do Mato Grosso do Sul é semelhante. Na região das cidades de Água Clara, Ribas do Rio Pardo, Três La- Em Pernambuco, estimativas da Secretaria do Trabalho e da Ação Social indicam 120/77 Instituto Monitor goas, Brasilândia e Santa Rita do Pardo, crianças de 7 a 14 anos são incumbidas de manter acesos os fornos em que se queima a lenha a ser transformada em carvão. Em 1994, segundo dados da Comissão Pastoral de Terra, 2,5 mil crianças de menos de 14 anos trabalhavam, com suas famílias, nos fornos. A sociedade se mobilizou e, com o governo, criou o Vale Cidadania: uma bolsa mensal paga a 1.000 crianças que voltaram à escola. Talvez uma das iniciativas pioneiras e de maior abrangência para combater o trabalho infantil tenha sido a da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, entidade formada inicialmente pelos fabricantes brasileiros de brinquedos. O projeto da Abrinq chama-se Empresa Amiga da Criança e consiste em certificar, por meio de um selo (que pode ser usado na publicidade), as empresas que comprovem não utilizar a mão-deobra infantil em nenhuma etapa de produção, nem ter entre seus fornecedores empresas que o façam. Contabilizadas em 1999, existem mais de 300 empresas filiadas ao programa, que pressupõe, também, algum tipo de plano assistencial desenvolvido pelas empresas e pelos empresários, como a adoção financeira de creches, orfanatos e centros comunitários. Cerca de 200 mil crianças são assistidas, em função do selo. Anotações e Dicas 120/78 Exercícios Propostos 1 - A mortalidade infantil é levantada de que forma? ( ) a) Relação entre o número de crianças mortas antes de completar 5 anos e o total de crianças nascidas. ( ) b) Relação entre o número de crianças mortas antes de completar 1 ano e o total de crianças nascidas no ano. ( ) c) Relação entre o número de crianças mortas antes de completar 6 meses e crianças nascidas no ano. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores 2 - Cite dois dos principais problemas de saúde das crianças brasileiras que causam impacto na mortalidade infantil: ( ) a) Tétano neonatal e anencefalia. ( ) b) Varíola e sarampo. ( ) c) Baixo peso ao nascer e diarréia. ( ) d) Baixo peso ao nascer e tétano neonatal. 3 - O nível de renda familiar interfere no nível de escolaridade da mãe e nas condições sanitárias de sua habitação. Esta seqüência de fatos traz influências nas condições da saúde da criança. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 4 - O sucesso no controle do sarampo e da paralisia infantil é resultado de qual tipo de providência? ( ) a) Medicina corretiva. ( ) b) Medicina moderna. ( ) c) Medicina preventiva. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 5 - No mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalho precoce, de crianças entre 10 e 14 anos, é de que proporção? ( ) a) 10% das crianças dos países pobres e ricos. ( ) b) 9% das crianças dos países pobres e ricos. ( ) c) 13% das crianças dos países pobres e ricos. ( ) d) 15% das crianças dos países pobres e ricos. 120/79 Instituto Monitor 6 - No Brasil, o trabalho precoce segundo o IBGE, atinge qual porcentagem? ( ) a) 8% das crianças dos países pobres e ricos. ( ) b) 3% das crianças dos países pobres e ricos. ( ) c) 5% das crianças dos países pobres e ricos. ( ) d) 10% das crianças dos países pobres e ricos. 7 - Razões econômicas provocam o trabalho precoce na América Latina, principalmente na crise da década de 80, onde o endividamento dos governos levou as economias nacionais à recessão e ao desemprego. Esta afirmativa está: ( ) certa ( ) errada 8 - Modificar o quadro econômico e social, por meio das propostas como a de que “quanto mais longo e melhor for o processo de educação, menor será a probabilidade de a criança se expor ao trabalho”. Isto é possível de que forma? ( ) a) Melhoria do Sistema Educacional. ( ) b) Melhoria do Sistema de Saúde. ( ) c) Melhoria do Sistema de Moradia. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 9 - O projeto Empresa Amiga da Criança consiste em certificar, por meio de um selo que pode ser usado na publicidade, as empresas que comprovem não utilizar mão-de-obra infantil em nenhuma etapa de produção, nem ter entre seus fornecedores empresas que o façam. Que instituição administra este projeto para combater o trabalho infantil? ( ) a) Fundação Hoescht. ( ) b) Fundação Roberto Marinho. ( ) c) Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 10 - A iniciativa privada tem participado decisivamente na eliminação de situações que envolvem o trabalho infantil, mas ainda existem gravíssimos problemas a serem resolvidos, sobretudo nas grandes capitais. Esta afirmativa está: ( ) certa ( ) errada 120/80 lição 9 As Drogas e a Degradação Social Introdução Abordar o problema da propagação do uso e tráfico de drogas, bem como analisar sua estrutura como negócio e suas conseqüências na degradação social, são os objetivos centrais desta parte de nossos estudos. Eles abrirão para você, caro aluno, algumas informações que, com certeza, possibilitarão sua discussão do assunto com mais profundidade. 1. Políticas Antidrogas A Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, reunindo líderes políticos do mundo todo, incluindo o presidente, reafirmou que as drogas são o grande mal do planeta e que devem ser severamente combatidas. Um manifesto assinado por especialistas de vários países foi publicado no jornal New York Times, fazendo um alerta inquietante: “A atitude assumida até agora pelos governos tem sido mais prejudicial à saúde das pessoas do que a própria droga”. Tudo o que os governos têm feito até hoje, pelo menos a maioria deles, é criminalizar o uso da droga, sem atentar para a integridade física (e a cura) de usuários e dependentes. No Brasil, criou-se a Secretaria Nacional Antidrogas, cuja função é discutir com a sociedade civil e os órgãos governamentais a primeira política nacional antidrogas do país. Na proposta inicial já divulgada, o tratamento dos dependentes de drogas aparece como prioridade, ao lado da prevenção e da repressão. Às clínicas e hospitais chegam apenas os que já são dependentes. Na média, demoram cinco anos para fazê-lo, e apenas 30% levam o tratamento até o final, avalia o médico sanitarista Fábio Mesquita, coordenador do Programa de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids da cidade de São Vicente (SP) e a Rede Latino-Americana de Redução de Danos. A excessiva criminalização das drogas impede um debate mais amplo e realista do tema, pois empurra todo usuário em direção à marginalidade e afasta-o dos serviços de saúde. Fábio explica que, devido à visão proibicionista, a única intervenção de saúde admitida é o tratamento baseado na absti nência obrigatória, total e imediata. E os que não conseguem ou não querem parar de usar drogas? E os que ainda não são dependentes ou nunca vão ser? Todos esses parecem ter sua saúde ignorada. A ausência de políticas eficazes comprometidas com a questão da mortalidade em decorrência das drogas, na década de 80, teve um alto preço para o poder público. Uma verdadeira epidemia de Aids assolou os grandes centros urbanos. Toda uma geração de usuários de drogas injetáveis morreu pela total falta de intervenção - um lamentável exemplo histórico da ausência de política pública na área de drogas. 120/81 Instituto Monitor 2. Programa de Troca de Seringas O Centro de Estudos e Terapia ao Abuso de Drogas (Cetad), da Universidade Federal da Bahia, acredita que reduzir os riscos à saúde da pessoa a partir de uma postura de respeito ao seu comportamento, sem discri miná-la, é a melhor maneira de reduzir o problema. Nesse trabalho, é importante o papel dos “redutores” (que podem ser educadores sociais, ex-usuários ou usuários, devidamente treinados), que vão às ruas procurar entrar em contato com quem usa drogas. Dessa forma é possível dimensionar melhor os cuidados que devem ser prestados. O projeto do Cetad, pioneiro entre entidades oficiais do país na troca de seringas, foi implantado em Salvador em 1995. A primeira tentativa de implantar um programa de troca de seringas no país aconteceu em 1989, na cidade de Santos, no litoral paulista. Quase metade dos casos de Aids do município eram decorrentes do uso de seringas contaminadas. A troca de seringas usadas por seringas novas já havia sido aprovada em vários países, como uma medida de impacto, eficiente para conter a transmissão do HIV, vírus causador da Aids. Mas, o Ministério Público de São Paulo propôs ações cíveis e criminais contra os coordenadores, e também contra a prefeitura. Oito anos depois da primeira tentativa, foi regulamentada uma lei estadual em que se autorizava a troca de seringas para prevenção de Aids. Antes mesmo de ser implantado, o pro grama de troca de seringas foi suspenso. Alguns anos depois, em 1995, o número de casos de Aids entre usuários de drogas injetáveis já era quase dez vezes maior na cidade. Também cresceu assustadoramente a contaminação entre mulheres - muitas, usuárias de drogas ou parceiras de usuários. Essa nova visão, provocada pela disseminação da Aids, originou os chamados programas de redução de danos em diferentes cidades do país, por iniciativa da sociedade civil ou de prefeituras. Como explica o próprio nome, essas ações buscam amenizar os problemas associados ao consumo de drogas. Só em 1996, o Ministério da Saúde reconheceu a urgência desse tipo de intervenção e apoiou um primeiro projeto do gênero - hoje, são 14, em vários estados do país. 3. Tratamento São poucas as unidades de saúde pública especializadas na dependência de álcool e drogas. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, há apenas três serviços da prefeiAnotações e Dicas 120/82 Instituto Monitor consumindo a droga pelas ruas da cidade. Também chamados de “ratos”, estão sempre envolvidos em delitos, roubando a própria família, o varal do vizinho ou até mesmo o próprio traficante. tura. Algumas universidades públicas, como também organizações não-governamentais, têm desenvolvido projetos ambulatoriais. Considerados referência em todo o país, também atendem a uma parcela restrita da população. Quem pode pagar, procura uma das caras clínicas de desintoxicação. A grande maioria dos pacientes, entretanto, acaba internada nos hospitais psiquiátricos. Segundo o Ministério da Saúde, o número anual de internações por consumo de drogas dobrou entre 1993 e 1997, passando de 5.429 para 11.084. Os roubos sempre visam ao dinheiro imediato para comprar a pedra de crack. Seu único interesse passa a ser a dose seguinte. Desfazem-se de tudo o que têm, dormem fora de casa, não comem. Deixam de se cuidar, ficam sujos e, muitas vezes, se enfiam nas lixeiras, em buracos. Por isso, são chamados de “ratos”. Trabalho ou escola, muitos já não tinham. Ficam então “entocados” nas ruas distantes da periferia e muitas crianças vão em busca do crack no centro da cidade. Outra alternativa de internação que vem se multiplicando em todo o país são as comunidades terapêuticas. Há no mínimo 170 delas, muitas baseadas em filosofias religiosas. O despertar espiritual também é a base do tratamento oferecido pelas centenas de grupos de auto-ajuda organizados no país, como os Narcóticos Anônimos. Em São Paulo, há pelo menos dois anos, o crack vem tomando o lugar da cola de sapateiro e dos solventes. Foi a cidade onde a droga chegou primeiro e de onde logo se espalhou pelo Brasil. Apesar de ainda não haver um levantamento nacional, diferentes grupos de trabalho revelam sua disseminação. O próprio Ministério da Saúde reconhece que o atual modelo adotado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), baseado em interna ções longas em hospitais psiquiátricos, está totalmente ultrapassado. O crack já está presente entre as crianças e jovens de Natal há mais de um ano, e agora está se expandindo, informa a educadora social Genilda Araújo, do S.O.S. Criança do Rio Grande do Norte. 4. O Avanço do Crack Em Pernambuco, o Movimento Nacional de Meninas e Meninos de Rua fez uma pesquisa com moradores de rua e de favelas de Olinda e Recife, de 10 a 18 anos. Entre eles, 30 usavam cocaína inalada; 14, cocaína injetável; e 17, crack. “Ainda não está muito visível, mas a chegada da droga está nos preocupando muito”, diz Helena Silva Jansen, coordenadora do movimento no Estado. Desprezados até pelos usuários de outros tóxicos, os dependentes de crack da periferia de São Paulo são chamados de “nóias”. Crianças com idades de 8 e 9 anos são vistas Em Belo Horizonte, o crack já é a droga da moda entre as crianças das classes mais baixas. Substituindo um tipo de solvente, 120/83 Instituto Monitor muito utilizado pelo mineiros - o thinner -, o uso do crack vem crescendo muito. internação. Entretanto, é possível contar nos dedos os serviços de atendimento existentes nas grandes cidades. Quando, finalmente, alguma criança quer se tratar, quase não existem alternativas, e as poucas instituições em funcionamento ficam longe das periferias, ou não têm vagas. Por deficiência na repressão, o acesso está fácil e a droga está rendendo lucros aos traficantes que se proliferam. Ao mesmo tempo, crianças emagrecendo, não só nas ruas, mas também nas favelas, criam um cenário extremamente preocupante. O problema do crack ultrapassa as fronteiras da questão médica e policial e atinge uma perspectiva social negativa muito grande. É sinal da vergonhosa e total falência das políticas públicas, que expõem a criança às ruas, não dando outras alternativas e, ao mesmo tempo, não impedindo a chegada da pedra de crack. Além das cidades citadas, há notícias de crianças de Ribeirão Preto, Santos, São José do Rio Preto, Campinas, Goiânia, Florianó polis e Itajaí, usando crack. Dependendo do lugar, ele substitui a cola, os solventes ou a maconha. A venda da cola e solventes às crianças é proibida, mas os produtos não são ilegais. Com o crack, um circuito ilícito mais rentável e violento se formou. A disponibilidade da mercadoria parece ser essencial para o consumo tanto entre os que vivem nas ruas como entre os que vão às “bocas” buscar outra droga. O assunto ainda está sendo tratado como uma questão de segurança, e as autoridades agem como se o usuário precisasse ser punido. Atribuem, com isso, a culpa a ele, sem reconhecer o contexto social. Em paralelo, os órgãos públicos não resolvem quem vai assumir a tarefa do aten dimento ao usuário, e as escolas não realizam programas preventivos. As áreas social, de educação e de saúde devem estar sincro nizadas na criação, manutenção e avaliação de programas com a finalidade de controlar, ou até mesmo de diminuir a incidência de novos jovens no problema da dependência de drogas. Como no caso de outras drogas, não se fala em cura, mas em controle. Terapeutas explicam que 72 horas são suficientes para a desintoxicação, e num período de 15 a 30 dias é possível reequilibrar o sistema neuro transmissor. É um tratamento que muitas vezes não precisa de medicamentos e nem de Anotações e Dicas 120/84 Instituto Monitor bilitada e sem educação básica, essas meninas se tornam mães precoces, sem condições mínimas para educar os filhos. Pelo menos 50% das prostitutas de Belém têm menos de 16 anos. Só no centro da capital paraense, há cerca de 2 mil. Calcula-se que, no Rio de Janeiro, existam 30 mil menores nessa vida. 5. Exploração Sexual Infantil Quase 60% das 10 mil prostitutas da região central e do porto de Santos são crianças ou adolescentes, com idade entre 10 e 19 anos. O mapa da exploração sexual infantojuvenil mostra que, em Fortaleza e em Recife, o forte é o “pornoturismo”, que oferece para estrangeiros meninas virgens de 9 a 11 anos. Em João Pessoa, o incesto é uma prática comum. No Rio Grande do Sul, a desinformação e a ingenuidade do homem do campo tornam os pais presas fáceis de falsas promessas de emprego para as filhas menores. Retrato afrontoso de um país que fecha os olhos a todo tipo de exploração infantil, a prostituição tem se alastrado de modo espantoso no Brasil, atraindo meninas cada vez mais novas para as ruas. Crianças de até 9 anos podem ser encontradas fazendo programas, tanto em avenidas e praças de cidades grandes, como em bordéis e garimpos do interior da Amazônia. No oeste de Santa Catarina, em Videira, há exploração sexual de meninas de 8 a 14 anos, por pessoas idosas que as alugam e sobrevivem à sua custa. Em São José do Rio Preto, no interior paulista, adolescentes de 12 a 17 anos vendem o corpo nas ruas. A Secretaria do Trabalho da Paraíba contabilizou 75 meninas entre 13 e 17 anos, sem nenhum vínculo familiar, prostituindo-se nas ruas de João Pessoa, principalmente perto das praias. Sua mercadoria é o sexo, que na maioria das vezes é trocado por um prato de comida ou um quarto para dormir. O Centro Brasileiro para Infância e Adolescência – CBIA estima em 500 mil o número de meninas prostitutas no país. Isso isola o Brasil na dianteira dos países que enfrentam esse tipo de problema social, ficando atrás apenas da Tailândia, que tem 800 mil menores na prostituição. Especialistas são unânimes em afirmar que, por trás de toda prostituta mirim, há uma história de desagregação familiar. Foi o que constatou também o jornalista Gilberto Dimenstein. No livro Meninas da Noite, o jornalista denunciou o tráfico e exploração sexual de crianças brasileiras. Segundo Dimenstein, um dos estímulos à prostituição é a própria família. “A garo- A estatística do CBIA ressalta que oito em cada dez garotas prostitutas brasileiras se prostituem contra a vontade. Elas trabalham de três a quatro dias por semana e têm em média cinco parceiros por dia. Com saúde de- 120/85 Instituto Monitor ta trabalha, em geral, como vendedora de chiclete ou bala, e é obrigada a levar uma determinada quantia para casa, sob pena de apanhar. Sem dinheiro, às vezes ela se entrega aos homens, para voltar para casa com a quantia exigida. O furto é outra alternativa, porém, mais arriscada.” gresso Nacional passou por séria crise em 1993, quando foi descoberto um serviço secreto de prostituição funcionando ali mesmo, em suas próprias instalações. Agenciadores contratavam garotas de programa para os políticos, ficando 60% para a prostituta e 40% para a agência. No Recife, há 1.015 meninas de rua, segundo o CBIA . São crianças e adolescentes que garantem a própria subsistência com a mendicância, roubo e prostituição, dormindo na maior parte das vezes em abrigos improvisados ou em pensões do meretrício. De acordo com os dados, 365 delas têm entre 12 e 16 anos. Encontram-se, na história de quase todas, miséria, violência e desagregação familiar. De uma forma geral, a prostituição infantil começa em casa. Dados indicam que 80% das meninas-mães e vítimas de exploração sexual foram iniciadas no sexo na própria família, muitas vezes pelo pai biológico, ou por padrastos, cunhados, irmãos, avós e vizinhos. Meninas de Fortaleza e Natal praticam a prostituição mercantilista. Moram em favelas e se vendem para assegurar a sobrevivência da própria família. No Rio Grande do Norte, 72% delas, com idade entre 13 e 18 anos, vivem com os pais. No Ceará, 50% moram com a família e têm de 11 a 15 anos. Evidências de graves problemas sociais abalam o país há alguns anos: a expansão do turismo sexual, o aumento da pornografia, o tráfico de órgãos e a progressão da Aids. Entidades internacionais de defesa dos direitos humanos condenaram o país. Isso serviu de estopim para o início de uma grande investigação sobre os casos de menores prostituídas no Brasil. Pelo menos 500 mil crianças e adolescentes paulistas são vítimas de violência dentro de sua própria casa todos os anos, sem que os responsáveis - em geral pais e parentes - sejam punidos. Quarenta mil menores sofrem algum tipo de abuso sexual todos os anos: 80% são meninas, das quais 65% são violentadas pelos próprios pais, padrastos ou responsáveis. Portanto, conhecem seu agressor. Para 68% dos meninos, o agressor é desconhecido. A decisão mais importante foi a constituição de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Câmara dos Deputados. A CPI apurou também denúncias de tráfico de meninas para a prostituição nos garimpos do Acre, Pará, Maranhão e Amapá, de meninas escravas na região amazônica do Brasil, na rota do “pornoturismo”, e da participação da polícia nas redes de aliciamento de crianças. Trata-se de um ciclo de violência que se perpetua por gerações. As estatísticas mostram que 75% dos pais agressores confessaram ter sido também vítimas de violência na infância. Das crianças que optaram pelas ruas para fugir dos abusos em casa, 9% viciam-se em drogas e 3% acabam cometendo delitos graves. Só na cidade de São Paulo, menores são responsáveis por 1,2 mil assaltos por mês, e mais de 26 mil já se envolveram em crimes na capital. A polícia calcula que metade das infrações da cidade sejam cometidas por menores. A providência foi repetida em diversos Estados. A Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro criou uma CPI para investigar denúncias sobre o assunto. A Câmara de Vereadores de João Pessoa também instalou a sua. Mesmo com a CPI em andamento, o Con120/86 Instituto Monitor Os custos sociais desse fenômeno são: No Brasil, há quatro mortes diárias em decorrência de abortos, mal que gera cerca de 400 mil internações anuais devido às seqüelas. Entre 1981 e 1989, o índice de mortes de adolescentes em conseqüência de abortos subiu de 8% para 20%. No Brasil, 10% das mulheres tornam-se mães antes dos 20 anos, enquanto no Japão esse índice não ultrapassa 3%. • gravidez precoce; • fuga da família; • suicídios de jovens; • prostituição; • consumo de álcool e drogas; Na maternidade Bárbara Heliodora, de Rio Branco, 31% dos partos são de meninas entre 10 e 16 anos. De acordo com documento do Ministério da Saúde, é preciso evitar que mulheres pobres de até 20 anos repitam a mesma história de vida de suas mães. Só 8% das adolescentes brasileiras usam anticoncepcionais, sendo que 20% - ou 760 mil - dos filhos são indesejados. • disfunções sexuais; • problemas psiquiátricos; e, muitas vezes, a transformação da vítima em agressor de outros menores. A Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis acompanham o dia-a-dia de meninas que se prostituem. Segundo estudos do Núcleo de Extensão Comunitária da Universidade Católica de Santos, 40% das adolescentes prostitutas da cidade são portadoras do vírus da Aids. A transmissão predominante é por drogas injetáveis. 6. Nova Escravidão O tráfico de escravos não é uma página virada na história brasileira: ele ainda existe. Só que, desta vez, não são os negros, como no passado. Na versão atual, o tráfico é feito com meninas ainda crianças, que são escravizadas na região amazônica, principalmente nos garimpos. Em Fortaleza, 29% das garotas não usam preservativos e têm pouco conhecimento sobre o corpo e as doenças sexualmente transmissíveis. O índice de doenças chega a 36,9%. Estudo epidemiológico do Hospital da Criança e do Adolescente da Funabem carioca revelou que há contaminação por Aids em 2% deles. Na pequena cidade de Feijó, a 450 quilômetros de Rio Branco (AC), constatou-se a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis entre meninas de 12 a 16 anos. Cerca de 50 delas já foram contaminadas por blenorragia e sífilis. O Acre virou exportador de meninas para a prostituição em garimpos de Rondônia. Cerca de 500 quilômetros separam a capital Rio Branco (AC) da capital Porto Velho (RO). Muitas vezes, as virgens com menos de 14 anos são vendidas em leilões. Em geral, os aliciadores são grupos envolvidos também com o tráfico de drogas. Com 180 mil habitantes, 30% dos quais morando em favelas e palafitas, Rio Branco tornou-se fornecedora de meninas que acabam sendo atraídas pelas promessas de homens que as convencem a ir para os garimpos, onde o sexo seria pago em ouro. Além de exploradas sexualmente - elas são obrigadas a fazer programas com mais de dez homens por dia - as meninas também Além das doenças sexualmente trans missíveis, o aborto é praticado de forma violenta entre essas meninas, aumentando ainda mais o risco de prejuízos à sua saúde. Recorre-se a chutes na barriga, penetração de agulhas de tricô, remédios fortíssimos e chás receitados por curandeiros. As conse qüências são devastadoras. 120/87 Instituto Monitor atuam como repassadoras de drogas. Estimase a existência de 3 mil garotas prostituídas, entre 10 e 17 anos, só na capital do Acre. A sociedade como um todo deve se conscientizar de que, satisfazendo as necessidades básicas das famílias carentes, talvez não resolva o problema por completo, mas amenizará a situação que hoje enfrentamos. A Delegacia da Infância e Adolescência do Acre apontou o desaparecimento de 150 meninas por semana - a maioria com idades que variam entre 11 e 15 anos. Em batidas policiais efetuadas na rodovia que liga Rio Branco a Porto Velho, descobriu-se que as crianças raptadas são transportadas em caminhões e levadas à vida de prostituição. 7. Delinqüência Juvenil As estatísticas sobre crimes na adolescência são alarmantes. Dos internos da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem) de São Paulo, obteve-se as seguintes configurações por delito praticado: • o roubo atinge de 55% a 60% (a diferença técnica entre furto e roubo, é que no roubo há ameaça à vítima, e no furto não há); As pequenas prostitutas são induzidas ao consumo de drogas e acabam mortas quando contraem algum tipo de doença sexualmente transmissível. Depois, são jogadas no fundo dos rios. No garimpo não há polícia nem justiça, e os familiares não reclamam os cadáveres. Lá, essas menores são obrigadas a viver em cativeiro. Mesmo com malária, elas não podem se recusar a manter relações sexuais para saldar a despesa com os aliciadores. A dívida nunca termina, porque todos os gastos com alimentos, roupas, remédios e alojamentos são controlados por seus proprietários. • furto corresponde a 7,6%; • tráfico de entorpecentes, a 6,3%; • homicídio, a 5,4%; • quebra de medida, a 3,8% (quando uma medida anteriormente imposta, sem detenção do menor, é desrespeitada); • latrocínio, a 2,9% • os demais delitos alcançam números pouco expressivos. O Código Penal Brasileiro condena o responsável pela prostituição de menores a um período de prisão que varia entre quatro e dez anos. Se o responsável for o próprio pai, além da cadeia ele perde o pátrio poder. Só as leis não bastam. É preciso que a sociedade se preocupe mais com a educação das famí lias carentes. Essa visão é muito importante para se saber se realmente a delinqüência está em crescimento ou não. Muitas vezes, quando se fala de delinqüência juvenil, os exemplos daAnotações e Dicas 120/88 Instituto Monitor dos são os mais trágicos: homicídios, latrocínios, estupros (no nosso caso, estupro não chega a 1%). Se somarmos esses três exemplos, verificaremos que o resultado não chega a 10% do total de delitos dos internos. Muitas vezes, o que é furtado são objetos de pouco valor. Basta consultar alguns processos ou boletins de ocorrência para saber que muitas vezes são passes, tênis, pequenas quantias, etc. Não adianta conhecer somente a situação do adolescente, é preciso também saber em que circunstâncias ele vive. Aqui há alguns dados surpreendentes, pelo menos para a grande maioria. Em 1997 uma pesquisa envolvendo 300 famílias, que representava mais ou menos 10% do total de internos da instituição na época, revelou dados surpreendentes. Praticamente 85% dos jovens estavam no seu núcleo familiar de origem. Esse é um dado surpreendente. Muitas pessoas imaginam que esses meninos são completamente abandonados e provenientes de famílias totalmente desestruturadas, e não foi isso o que se constatou. A situação dos membros da família em termos de trabalho também é surpreendente. Pais ou membros adultos registrados eram cerca de 24%; sem registro, mas trabalhando, 12%; o chamado desempregado, 17%; proprietário, 2%; autônomo, 7%; e bico, 11%. Isso mostra que há uma quantidade significativa de adultos da família posicionados no mercado de trabalho. Quanto à questão de faixa de renda das famílias, o resultado também foi uma surpresa. De um a três salários mínimos, 27%; de três a cinco, 25%; de cinco a sete, 13%. Se somarmos tudo, passa de 65% a situação de um a sete salários mínimos. Não se pode dizer que eram da classe social miserável. Eram da classe social pobre ou média baixa. Em relação à família, a caracterização que se tem é muito diferente daquilo que se supunha. Não são crianças totalmente pobres, nem provenientes de famílias desestruturadas, ou que tivessem perdido seus membros mais importantes. Também não são crianças e adolescentes que vieram de muito longe. 120/89 Exercícios Propostos 1 - Qual órgão governamental tem a função de discutir e executar com a sociedade civil e os demais setores do governo uma política nacional antidrogas? ( ) a) Secretaria Nacional de Narcóticos. ( ) b) Secretaria Nacional de Entorpecentes . ( ) c) Secretaria Federal de Combate às Drogas . ( ) d) Secretaria Nacional Antidrogas. 2 - Em qual cidade do país, e em que ano, tentou-se implantar um programa de troca de seringas? ( ) a) São Vicente, em 1989. ( ) b) São Paulo, em 1990. ( ) c) Santos, em 1989. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 3 - Educadores sociais e ex-usuários de drogas devidamente treinados vão às ruas entrar em contato com quem usa droga. Estas pessoas que trabalham na obtenção de dados e colaboram para a diminuição da incidência do uso são também chamadas: ( ) a) agentes redutores. ( ) b) agentes inibidores. ( ) c) agentes facilitadores. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - O Ministério da Saúde reconhece que o atual modelo adotado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), baseado em internações longas em hospitais psiquiátricos, está totalmente ultrapassado. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 5 - Segundo especialistas, o problema do crack e outras drogas é sempre tratado como uma questão de segurança, as autoridades agem como se o usuário precisasse ser punido sempre. Esquecem, muitas vezes, o contexto social. Este é um claro sinal da deficiência do setor público que expõe a criança às ruas, não dando outras alternativas e, ao mesmo tempo, não impedindo a chegada das drogas ao usuário. Esta afirmativa está: ( ) certa ( ) errada 120/90 Instituto Monitor 6 - O Centro Brasileiro para Infância e Adolescência (CBIA) estima que 500 mil meninas se prostituem em nosso país, sendo que oito em cada dez se prostituem contra a vontade. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 7 - São “custos sociais” ocasionados pela violência contra o adolescente: ( ) a) gravidez precoce e mobilidade social. ( ) b) fuga da família e gravidez precoce. ( ) c) suicídio infantil e alta do analfabetismo. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 8 - Em estatística oficial, analisando-se 300 famílias de internos da FEBEM, no ano de 1997, constatou-se que _____ tinham renda de um a sete salários mínimos. ( ) a) 45% ( ) b) 25% ( ) c) 75% ( ) d) 65% 120/91 lição 10 Reforma Agrária e Problemas Migratórios Introdução Vamos analisar, nesta lição, os aspectos que norteiam o problema da Reforma Agrária e também da movimentação de pessoas pelo país em busca de oportunidades. Este é um problema brasileiro que se destaca entre tantos outros, cabendo aqui uma exposição de sua importância. Nesta lição, nosso objetivo é apresentar uma síntese de um problema que se arrasta por muitas décadas. Falaremos dos avanços, que felizmente são maiores do que os retrocessos, e algumas alternativas que se visualizam neste cenário de busca constante de solução definitiva para o problema agrário. 1. Reforma Agrária: Desafio Nacional A reforma agrária pode ser definida como o conjunto de medidas governamentais que visam a transformação gradativa de áreas rurais improdutivas, em fontes de geração de riqueza social (pro- Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário 120/93 Instituto Monitor dutos agrícolas e de pecuária), favorecendo a melhoria da renda e melhores condições de vida para os mais necessitados. O Movimento dos Sem-Terra é formado por uma legião de pobres. Os assentamentos buscam, principalmente, trazer condições para a fixação do homem do campo em seu meio, pois, nos grandes centros urbanos, já não existem mais opções para moradia e trabalho. Os principais problemas desse desafio nacional são: • a enorme quantidade de recursos que precisam ser movimentados para o pagamento das desapropriações; Esses brasileiros, sem qualificação, acabariam aumentando o número de submo radias, como acontece com as favelas. • a corrupção que existe em muitos processos; A seriedade da questão não evolui para soluções rápidas, práticas e que beneficiem os principais envolvidos: fazendeiros e semterra. Tem sido comum a ocorrência de truculências de ambas as partes. Desta forma, fazendeiros e sem-terra, de forma ilícita, atendem seus interesses: os sem-terra com a terra e os fazendeiros obtendo indenizações desnecessárias e fraudulentas. • a falta de responsabilidade, por parte de assentados, proprietários e agentes do governo. É inquestionável que toda propriedade, legitimamente lavrada no cartório de imóveis, é direito sagrado do cidadão. Entretanto, diz a lei que todo imóvel deve ter função social e, em nosso país, a quantidade de terras improdutivas é muito grande. 2. Alguns Números Para começar um assentamento, o governo gasta cerca de R$ 40.000,00 por família com a desapropriação e organização dos lotes. Para assentar as 100 mil famílias que aguardam seu pedaço de chão seriam necessários R$ 4 bilhões. Além disso, para semear e colher, os assentados precisam de acesso a crédito com uma taxa de juros muito baixa. Precisam, ainda, de dinheiro para alugar máquinas, contratar assistência técnica e ter garantida a infra-estrutura para escoar a produção. A conta da reforma agrária não fecha nunca. Em 1994, 100 mil famílias esperavam assentamentos. Até 1999, o governo assentou 287 mil famílias. Hoje, segundo números do Governo Federal, novas 100 mil famílias estão na fila por terra. São números impressionantes que, apesar do esforço governamental, são de difícil eliminação a curto prazo. Anotações e Dicas 120/94 Instituto Monitor • Devolverá à sociedade, na forma de produção colocada no mercado, o dinheiro das desapropriações? Reforma Agrária Estados com maiores ocorrências • Nos tempos do agribusiness - a grande cadeia empresarial em que está se transfor mando a atividade rural -, investir em pequenos agricultores será um bom negócio para o país? É difícil responder perguntas como essas sem conhecer as características da atividade agropecuária à qual se destinam os assen tamentos. Seu nome é simples e vem sendo cada vez mais repetido por especialistas e funcionários do governo: é a agricultura familiar, aquela em que trabalham basica mente os próprios membros da família. Esse conceito, que se aplica à agricultura em geral, é definido em oposição ao modelo patronal, no qual predomina o trabalho assalariado. Reforma agrária é assunto polêmico há muito tempo no Brasil. Bandeira de movimentos de esquerda e plataforma de candidatos de todas as correntes partidárias, sempre foi alvo de discórdia na disputa entre políticos, fazendeiros, líderes sindicais, economistas e pesquisadores. Reduzir tensões sociais é o principal foco dos que militam na busca de uma reforma agrária. Acabam esquecendo de suas implicações na contribuição para o desenvolvimento econômico e social da nação. Agricultor familiar, porém, não é sinônimo de pequeno produtor rural. A nova concepção que o governo dá à agricultura familiar é a de tirar a precariedade de condições em que vive o pequeno produtor, dar acesso ao sistema de crédito, suporte técnico para plantio e integração aos mercados mais dinâmicos e competitivos. Infelizmente, milhões de unidades chamadas pelo Censo Agropecuário de “estabelecimentos” ainda estão na contramão dessas melhorias de condições. O documento oficial Reforma Agrária Compromisso de todos, publicado pelo governo Fernando Henrique Cardoso, afirma: “Hoje, existe consenso de que uma política de desenvolvimento rural deve integrar a reforma agrária, o fortalecimento da pequena propriedade e da agricultura familiar”, uma mostra de que, ao menos no discurso, o enfoque da questão está sendo deslocado da mera reforma fundiária. De fato, se o agricultor familiar fosse apenas aquele que vive em estado de penúria e produz só para autoconsumo, essa forma de produção agrícola não teria a importância que tem nos EUA, nos países da Europa e nos Tigres Asiáticos (Coréia do Sul, Formosa (Taiwan), Hong Kong, Cingapura, Malásia, Tailândia e Indonésia). Já é realidade um projeto nacional que envolve recursos públicos: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Algumas questões são levantadas: Na França, em 1990, entre os trabalhadores ligados à agricultura, os assalariados eram apenas 14%, enquanto nos outros setores econômicos formavam ampla maioria: 85%. • A reforma agrária será mais que um instrumento de assistência social? Poderá resolver o problema da fome? 120/95 Instituto Monitor No Reino Unido, berço do modelo patronal, a parcela das unidades produtivas que empregavam algum trabalho assalariado reduziu-se de 40% em 1950 para 28% em 1986. No Brasil, infelizmente, faltam dados. As tentativas de medir a importância da agricultura familiar são recentes. Conforme dados apontados pelo censo de 1996, o número de famílias que saíram do campo de 1994 a 1996 terá sido muito superior ao das assentadas no mesmo período: 103.969 número recorde, afirmou o governo. Neste relatório, dentre outras informações, apontou-se o seguinte resultado: 4.339 milhões de estabelecimentos agropecuários, correspondentes a 75% do total nacional, eram familiares, reunindo 59,5% dos trabalhadores rurais do país. Tudo isso numa área equivalente a apenas 22,2% dos 374,9 milhões de hectares em que se registrou atividade agropecuária. Apesar de contar com menos de um quarto da área dos estabelecimentos patronais e pouco mais de um décimo do total de empréstimos, a agricultura familiar respondeu por 28% do que foi produzido no país. Ao se dividir essa produção por hectare, revela-se outra surpresa: os agricultores familiares obtiveram produtividade média de 12,6% superior à dos patronais. A explicação é simples: os grandes fazendeiros geralmente não utilizam toda a extensão de suas propriedades. Destinam, por exemplo, um pedaço da terra para a agricultura e outro para a criação extensiva de gado. O pequeno, por sua vez, precisa usar toda a terra que tem. À menor quantidade de terra se somava outro obstáculo: a dificuldade no acesso ao crédito. Os agricultores familiares obtiveram 10,7% dos recursos disponíveis para financiamento, na média nacional, “puxada para cima” pelos estabelecimentos do sul, que conseguiram 65% do valor emprestado à agricultura familiar. Anotações e Dicas 120/96 Instituto Monitor A união de várias unidades de agricultura familiar pode significar garantia de parceria com grandes empresas. O exemplo disso no Brasil é a Região Sul, onde grandes empresas dependem da produção de milhares de agricultores familiares. A produção dá-se pela integração entre produtores - fornecedores de matéria-prima - e as grandes indústrias, as quais criam uma espécie de compromisso contratual de relevante importância para a sobrevivência das unidades familiares. Em São Paulo, unidades familiares produzem: Apesar deste expressivo número, garantias contratuais mais precisas necessitam ser conquistadas. As empresas patronais, como Sadia, Chapecó, Souza Cruz e muitas outras, precisam entender que o rompimento do contrato, sem razão fundamentada, pode levar o estabelecimento familiar à falência, com a perda do patrimônio. • mais da metade do algodão, aves e ovos; • 44% do milho; • 43% da soja; • 39% do café. Tal participação na produção do estado mais rico do país é, certamente, digna de nota, e ajuda a compreender a existência de unidades familiares prósperas no Brasil. 4. Fortalecimento da Renda do Agricultor Os fatores que podem fortalecer a renda do estabelecimento familiar, além de adicionar valor por área, são: Nos municípios atendidos pela reforma agrária, os assentados4 produzem para seu próprio consumo, comercializam o excedente diretamente e a renda obtida circula no comércio local, aumentando assim a arrecadação das prefeituras. • intensificar a produção; • incorporar tecnologia e • elaborar produtos diferenciados. Esses podem ser um novo tipo de queijo, uma novidade em frutas, um novo produto de horticultura. São desafios que levam o produtor a procurar nichos de mercado ainda não explorados. Essa é justamente uma das vantagens mais freqüentemente apontadas na agricultura familiar: o estímulo à economia local, por meio de melhor distribuição de renda. 3. Produção Integrada Várias localidades do país estão adotando iniciativas semelhantes. Nos estados do Pará e Amapá, agricultores familiares da região vêm se dedicando às culturas de frutas típicas, como cupuaçu, graviola, maracujá e caju. Parte da colheita é aproveitada na fabricação de licores e iogurtes. No Brasil, 30 mil unidades familiares já gravitam em torno da agroindústria brasileira. A referência obrigatória da relação entre os produtores e o agribusiness é a produção integrada em Santa Catarina, forte nos setores de carnes de aves e suínos, leite e fumo. Essa parceria é responsável por algo em torno de 40% da economia do estado. No Rio Grande do Sul, os agricultores familiares estão enfrentando o desafio da comercialização por meio de organizações de agricultores - que estão crescendo - e do cooperativismo. 4 assentado: indíviduo beneficiado pela reforma agrária. 120/97 Instituto Monitor 5. Problemas a Serem Enfrentados pais regiões do interior, a Grande São Paulo teve saldo negativo. Globalização, abertura de mercado, sobrevalorização cambial e a integração do Mercosul favorecem brutalmente a exclusão dos mais fracos, porque aumentam a con corrência e a concentração produtiva. Para amenizar este impacto aos pequenos agri cultores, o governo tem concedido recursos para os programas de assentamento e assistência agrícola. O interior de São Paulo cresceu, urba nizou-se e amorteceu a chegada de migrantes à Capital. Está havendo uma redistribuição da população no país, o que não significa que a pobreza esteja se desconcentrando. São Paulo está mudando seu cenário de metrópole da indústria nacional. Agora, São Paulo quer ser uma “cidade global” no novo contexto mundial. Deve permanecer como centro financeiro do país, mas não precisa mais de mão-de-obra desqualificada. Essa nova cara da metrópole está contribuindo com a busca por outros locais do estado, uma tendência também impulsionada pelas mudanças ocorridas no interior. Se o governo assentar os sem-terra sem capacitar tecnicamente o núcleo rural familiar, grande número dos que poderiam sobreviver da lida e do negócio no campo, certamente desaparecerá. 6. Movimentos Migratórios 7. Motivos para Migração Quase 26 milhões de brasileiros, segundo o último censo populacional, de 1981 a 1991, mudaram pelo menos uma vez de cidade nos anos 80. Entre eles, 11 milhões deixaram seus estados. Os pólos interioranos já oferecem um estilo de vida urbano. As pessoas que abandonam suas cidades vão em busca de melhores condições de vida, tendo sempre como base uma colocação no mercado de trabalho. Além de trabalho, procuram acesso a moradia e serviços médicos (o que pesa muito na decisão). O Brasil é uma nação urbana que se transformou gradativamente, concentrando cada vez mais pessoas nas áreas urbanas, graças a uma movimentação migratória intensa. O exemplo mais clássico é São Paulo, que, ainda aprendendo a conviver com seus migrantes, foi construída com eles. São Paulo continua a ser o estado que mais recebeu migrantes na última década. Mas, ao mesmo tempo, foi o que mais perdeu. Entre os que deixaram o estado, destacam-se aqueles que voltaram para seu local de origem - a chamada migração de retorno. Dentro do estado, o movimento também mudou. O surgimento de novas fábricas (que estão se espalhando com a flexibilização da produção industrial) e, principalmente, atividades relacionadas ao campo e à agroin dústria (que ainda vivem de mão-de-obra desqualificada), motivam o aparecimento de trabalhadores originados do processo migratório. Dessa forma, o interior começa não só a reter sua população, como a atrair gente de fora, o que não significa que todo esse grupo esteja sendo acolhido como parte do desenvolvimento local. A Grande São Paulo continuou a receber milhares de pessoas, mas a saída aumentou muito. Em todas as “trocas” com as princi- Para as maiores cidades, a migração é sinônimo de problema. Alguns municípios criam “mecanismos de defesa” que, para muitos, 120/98 Instituto Monitor transparece uma espécie de segregacionismo, pois impedem a entrada de pessoas sem qualificação, gente sem condições financeiras de constituir um lar, e assim por diante. emprego. Não há condições de fixação para o pobre. Isto justifica a grande mobilidade interna no país. Em outras palavras, a migração revela a exclusão social da maioria da população. A pessoa é excluída no seu local de origem e no de destino. Quando não há infra-estrutura, as prefeituras acabam empurrando parte dos migrantes para a localidade mais próxima. Na região de Campinas, no estado de São Paulo, é comum a pessoa ganhar uma passagem de ônibus da assistência social ou subir no “vagão dos trecheiros”, no trem que liga Campinas a Presidente Prudente. De um jeito ou de outro, o migrante vai até a parada seguinte, procurando um destino, trecho a trecho. Este tipo de situação está acontecendo principalmente em algumas cidades das regiões Sudeste e Sul do país. Pesquisas realizadas em diversas universidades do país revelam que cada região brasileira já tem seu “estoque populacional” de trabalhadores não-qualificados. Essas pessoas ficam então circulando, pois não entram no mercado de trabalho e, portanto, não têm espaço na sociedade. A criminalidade ou o mercado informal, em muitos casos, é o destino dessa parcela da população. Esta tendência acontece em vários centros urbanos como Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Curitiba. 8. Exclusão Social 9. Análise de Alguns Estados Exclusão social pode ser considerado o termo técnico utilizado para expressar a situação do indivíduo que não está inserido em um grupo social que usufrui do mínimo de condições para sobreviver. Podemos colocar como condições básicas de exclusão a alimentação, vestuário, moradia, saúde, educação e No caso dos migrantes da Bahia, evidencia-se um vai-e-volta. A pessoa não consegue se fixar na metrópole e volta para sua terra natal, mas, como ali tudo continua parado, ela tenta migrar de novo, e assim por diante. Essa tendência pode ser observada em uma pesquisa realizada pela PUC, no Estado de Anotações e Dicas 120/99 Instituto Monitor São Paulo, em 1993. Diferentemente do censo do IBGE, que apenas indaga sobre a última mudança da pessoa, essa pesquisa levantou as seis últimas paradas. Segundo estudos recentes, os mineiros, por sua vez, parecem acompanhar as novas fronteiras agrícolas. O censo de 1991 apontou novas regiões “receptoras”, ligadas à exploração agrope cuária. Todos os estados do Centro-Oeste do país tiveram trocas migratórias positivas, ou seja, mais pessoas entraram do que saíram. No Norte ocorreu o mesmo, com exceção do Acre. Em alguns estados, a diferença chama a atenção: • em Rondônia chegaram 416.209 migrantes e saíram 157.957; • em Roraima, foram 63.613 para 13.525. A expansão das novas fronteiras agrícolas indica uma tendência alarmante. Apesar de criminosa, a prática do trabalho superexplorado aparece ainda em alguns estados. Na região amazônica, camponeses nordestinos são recrutados para desmatar as grandes fazendas. Os peões já chegam devendo a passagem de ida. Como dependem do armazém local, a dívida vai sempre aumentando. Nos grandes núcleos urbanos, quando começam a aumentar os problemas de sanea mento, violência, ou até mesmo a falta de emprego, é comum uma parcela da população culpar o migrante. O esforço e a coragem dos imigrantes estrangeiros que chegaram ao Brasil décadas atrás, são encarados de forma diferente. Sempre merecem admiração. Anotações e Dicas 120/100 Exercícios Propostos 1 -A reforma agrária pode ser definida como o conjunto de medidas governamentais que visam a transformação gradativa de áreas rurais produtivas, em fontes de geração de riqueza social (produtos agrícolas e de pecuária), favorecendo a melhoria da renda e melhores condições de vida para os mais necessitados. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 2 - Os principais problemas para a efetiva reforma agrária são: ( ) a) elevada soma de recursos necessários, corrupção e falta de responsabilidade geral. ( ) b) apenas a elevada soma de recursos necessários para as desapropriações. ( ) c) corrupção e falta de responsabilidade do governo. ( ) d) elevada soma de recursos necessários, falta de terras disponíveis e falta de responsabilidade geral. 3 - Segundo fonte do governo, para assentar as 100 mil famílias que aguardam seu pedaço de chão, seriam necessários: ( ) a) 14 bilhões de reais. ( ) b) 4 bilhões de reais. ( ) c) 8 bilhões de reais. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - No documento Reforma Agrária - Compromisso de Todos, publicado pelo governo Fernando Henrique Cardoso, fala-se da integração da reforma agrária com que tipo de fatores? ( ) a) Fortalecimento da grande propriedade e da agricultura familiar. ( ) b) Fortalecimento da pequena propriedade e da agricultura familiar. ( ) c) Fortalecimento da pequena propriedade e da agricultura industrial. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 5 - Intensificar a produção, incorporar tecnologia e elaborar produtos diferenciados podem colaborar para o fortalecimento da renda de que tipo de propriedade (preocupação intrínseca da reforma agrária)? ( ) a) Estabelecimento latifundiário. ( ) b) Estabelecimento comercial. ( ) c) Estabelecimento familiar. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/101 Instituto Monitor 6 - Programas de assentamento e assistência agrícola, implementados pelo governo, têm amenizado o impacto da globalização, abertura de mercado e sobrevalorização cambial na exclusão dos agricultores mais fracos. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 7 - É um movimento que tem invadido propriedades, geralmente alvo de processos que analisam sua eventual desapropriação por serem supostamente improdutivas e, muitas vezes, confrontam-se com autoridades policiais. Buscam, principalmente, trazer condições para a fixação do homem do campo em seu meio, pois, nos grandes centros urbanos, já não existem mais opções para moradia e trabalho para estes brasileiros que, sem qualificação, acabariam aumentando o número de submoradias, como acontece com as favelas. Este movimento, muito atuante no meio rural, é denominado: ( ) a) Movimento dos Sem-Teto. ( ) b) Movimento dos Sem-Terra. ( ) c) Movimento dos Sem-Testamento. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 8 - A movimentação migratória intensa causou uma rápida transformação do Brasil em uma nação urbana, principalmente após a industrialização do país, quando as grandes cidades passaram a oferecer melhores condições de trabalho, moradia e serviços médicos. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 9 - A situação em que o indivíduo não está inserido em um grupo social que usufrui do mínimo de condições para sobreviver (condições básicas de alimentação, vestuário, moradia, saúde, educação e emprego) é uma realidade para muitos brasileiros. Qual o nome técnico para esta situação? ( ) a) Exclusão social. ( ) b) Dificuldade social. ( ) c) Retenção social. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 10 - Entre os muitos que no passado deixaram seu estado de origem, existem muitos que retornaram às suas localidades natais. Estamos falando de: ( ) a) migração de refluxo. ( ) b) imigração. ( ) c) migração de retorno. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/102 11 - Em algumas cidades, alegando estarem utilizando “mecanismos de defesa”, as prefeituras acabam empurrando parte dos migrantes (pessoas sem qualificação ou sem condições financeiras de constituir um lar), para a localidade mais próxima. Isto se dá muitas vezes por ausência de: ( ) a) infra-estrutura. ( ) b) segurança. ( ) c) leitos hospitalares. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 12 - Para os excluídos, a criminalidade ou o mercado informal, em muitos casos, é o destino dessa parcela da população. Esta tendência acontece em vários centros urbanos como Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Curitiba. Esta afirmativa está: ( ) certa ( ) errada 120/103 lição 11 Ciência e Tecnologia Introdução Objetivamos nesta lição analisar o problema da falta de investimento em ciência e tecnologia no país, os processos que atuam interferindo na performance da economia do país, como globalização, protecionismo e outros assuntos relevantes. 1. Falta de Investimento Os gastos nacionais em ciência e tecno logia, nos anos 80, não passaram de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Uma taxa tão baixa que, quando comparada à de países industrializados, que nunca fica em menos de 2% ou 3%, indica uma visão oblíqua daqueles que estão envolvidos com este tipo de investimento, seja ele público ou privado. Isto compromete a necessidade do país em avançar para se equiparar aos concorrentes num mercado globalizado, onde, tecnologicamente falando, não haverá espaço para economias obsoletas. A Unesco, órgão das Nações Unidas, divulgou que, em 1990, os gastos com pesquisa e desenvolvimento da Argentina equivaliam a 0,8% de seu PIB, enquanto o Chile aplicava 0,5%, só para citar dois dos mais fortes parceiros e concorrentes do continente latino-americano. Em 1991, os tigres asiáticos investiam em pesquisa e desenvolvimento bem mais do que o Brasil: a Coréia do Sul, 1,9%; Taiwan, 1,7% e Cingapura, 1,3%. Entre os países mais ricos, o Japão aplicava mais de 3%; os EUA, 2,7% e a Alemanha, 2,6%. Os recursos no Brasil são muito escassos e a concentração da responsabilidade deste tipo de investimento no setor público dão um panorama sobre o assunto. Aqui, 80% do que se investe em ciência e tecnologia vêm do governo, mas nos países industrializados do Ocidente, as empresas se encarregam de pouco menos da metade desses programas. A média tem sido de 40%, mas sobe a 80% na Coréia do Sul e a 70% no Japão. Há ainda outro agravante nessa situação - o fraco relacionamento entre universidadeempresa - o qual foi citado pelo ministro José Israel Vargas, da Ciência e Tecnologia, ao anunciar a meta nacional de elevar os gastos nacionais no setor a 1,5% do PIB em 1999, ampliando a participação das empresas para 30% ou 40% desse total. A intenção era a de estreitar o caminho existente entre os laboratórios universitários e as empresas, tornando realidade a aplica bilidade ou produção em série das conquistas tecnológicas. Para isso, o governo pretende reforçar a infra-estrutura científica e tecnológica, reduzindo a distância entre a pesquisa e a produção para encontrar soluções que melhorem a condição de trabalho das empresas (produto e processo), a fim de aperfeiçoar a qualidade de vida do brasileiro. Um levantamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico 120/105 Instituto Monitor (CNPq) indica que, em 1998, foram investidos R$ 41 milhões em bolsas no Brasil e R$ 5 milhões no exterior para pesquisadores de diversas áreas. Em 1994, o CNPq e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) forneceram quase 63 mil bolsas no país e quase 5 mil no exterior. Não há, porém, dados sobre o retorno desses investimentos. Agora, começa a se desenvolver um programa para atrair esse pessoal de volta ao país, acenando com a possibilidade de emprego atraente. Só em Boston (EUA), estudam 2 mil brasileiros bolsistas, e a maioria confessa não encontrar estímulos para aplicar, aqui, o que aprende lá. 2. Diagnóstico de Problemas A ação do governo deve basear-se no reforço da legislação específica para concessão de incentivos fiscais aos empresários que investem em tecnologia, e no oferecimento de linhas de crédito para suportar seus programas. O objetivo é dar condições às empresas para que se expandam, integrando-se ao mundo globalizado, de forma competitiva. São três as causas do que se poderia chamar sobra de recursos governamentais ou mesmo desperdício de incentivos: 1) Falta de informação – O empresário não sabe que programas existem, ou, se os conhece, ignora como pode ter acesso a eles. 2) Reduzida decisão de investir que inibe os programas na área – Só a estabilidade trazida pelo Plano Real é insuficiente para a maior parte dos empresários nacionais que gerenciam empresas de pequeno e médio porte, se aventurarem em investimentos de vulto. Antes disso, eles estão ocupados em ajustar suas empresas ao mercado cada vez mais aberto à concorrência nacional e internacional. O passo seguinte, depois desse ajuste, prevêem especialistas, será investir em tecnologia. 3) A clientela dos programas não se encaixa nas exigências estipuladas – O empresário precisa de incentivo. O plano existe, mas as duas pontas não se encontram. É que a maior parte dos programas é de incentivos fiscais, ou seja, desconto do imposto a pagar para quem investe em tecnologia. Como os micro e pequenos empresários, em geral, ficam isentos dos principais tributos federais, acabam não tendo acesso aos programas existentes. Assim, o governo procura beneficiar empresários que buscam tecnologia, mas não percebe que a maioria de pequenos empresários, já isentos de tributos, não se enquadra no programa. Anotações e Dicas 120/106 Instituto Monitor 3. Indústria Nacional e Globalização Até a virada dos anos 90, a indústria brasileira, sitiada pela inflação, parecia ter apenas duas preocupações: uma, era o controle de custos; a outra, relacionava-se com a modernização de um parque produtivo. Depois que a economia se abriu e o processo inflacionário foi contido, uma terceira preocupação começou a interferir no crescimento industrial. A nova questão que está no ar é: como resistir à avassaladora concorrência internacional que, de repente, ameaça a sobrevivência da indústria brasileira dentro das suas próprias fronteiras, antes um mercado cativo. Esse cenário ameaçador, cujas origens podem ser encontradas nas políticas anterio res de protecionismo (explicaremos adiante) e estatização, projeta um desafio inquietante que exige ações práticas e rápidas. A indústria brasileira, com sua expressiva participação (35%) no PIB, precisa embarcar no trem da globalização com a maior amplitude possível. 4. Otimismo No debate em torno do modelo de desenvolvimento industrial e da redução do chamado Custo Brasil - todo processo de encarecimento de produtos brasileiros que, de certa forma, aniquila a competitividade nacional - , vários fatores apontam para uma visão otimista: • A indústria supera a barreira da produtividade como jamais havia feito. Um estudo do BNDES sobre o desempenho da economia brasileira revela que a produtividade/hora da indústria de transformação registrou, de 1976 a 1992, expressivo aumento de 19% (sinalizando um ritmo de reestruturação semelhante àquele que vem se dando nos países industrializados). • A cultura da qualidade mudou o conceito de gestão. O número de empresas com certificação ISO 9000, e demais séries ISO, sofisticado sistema de normas internacionais, cresceu mais de dez vezes entre 1990 e 1996 e continua em escala ascendente. • A terceirização deixou de ser um tabu. As empresas estão admitindo que devem centralizar seus esforços na produção, deixando para terceiros, tarefas secundárias como serviços de limpeza, segurança, digitação, refeições, etc. Assim, de 1992 a 1996, a resistência à mudança entre as 500 maiores empresas brasileiras caiu de 42% para menos de 20%. • O governo sinalizou na direção de uma nova política industrial. O Ministério da Indústria, Comércio e Turismo (MICT) divulgou, no começo de 1999, um estudo que considera 15 setores considerados essenciais. A idéia é definir uma clara linha de ação na qual créditos, política tarifária e tecnologia, funcionem como alavanca para a competitividade. • O Brasil lidera as privatizações na América Latina. É um recorde histórico, que envolve setores estratégicos - telecomunicações, transporte e energia. • Aumentou a renda das classes mais pobres, que estão consumindo mais ali mentos, eletrodomésticos e material de construção. 5. Pessimismo Neste momento de mudanças, sucede-se também um considerável cortejo de argumentos pessimistas: • Nos anos de 1995 e 1996, o déficit da balança comercial de produtos industriais foi além dos US$ 5 bilhões, cifra superior ao déficit de todo o comércio internacional do país. 120/107 Instituto Monitor • O perfil dos produtos exportados, de baixa tecnologia agregada, está na contramão das tendências de consumo nos mercados dos países ricos. • O nível de emprego industrial tem sido decrescente. Em cinco anos, desapareceram 800 mil empregos nos 38 municípios da região metropolitana de São Paulo. O país perdeu 2,8 milhões de empregos industriais de 1991 a 1999. • A poupança interna é escassa e os gastos com o consumo muito elevados, sobretudo na área estatal, enquanto a reforma da máquina administrativa vem sendo permanentemente adiada. • O custo do dinheiro é elevado e os mecanismos de financiamento de longo prazo insuficientes para atender a demanda. A indústria brasileira, a maior da América Latina, produz um valor superior a toda a economia da Áustria, Dinamarca, Finlândia, Arábia Saudita e Noruega. Nosso parque industrial apresenta-se como uma incógnita, onde contracenam elevados custos de produção e a incerteza quanto ao rumo das mudanças, que, por mais abrangentes que sejam, jamais ocorrerão de maneira uniforme. Cada segmento industrial apresenta uma peculiaridade distinta. Nossos custos de produção são muito superiores aos dos Estados Unidos e da Europa e o consumo de automóveis ainda é muito pequeno. Só no ramo de autopeças, este impacto é gritante. Assim, surgem soluções que implicam, em muitos casos, em associações com empresas multinacionais, fusões e incorporações. Este fenômeno atinge, indistintamente, fabricantes de todos os tipos. Setores, como os de máquinas agrícolas e tratores, construção naval, informática, brinquedos, siderurgia, couros e calçados, móveis, petroquímica, pesca e têxteis, não guardam muita distância dos dramas que afligem os fabricantes de autopeças, eletro eletrônicos ou bens de capital. Exemplo disso é o do setor de couros e calçados. Há três anos, eram 4,5 mil empresas, 350 mil empregos diretos e exportações de US$ 2 bilhões. Hoje, cerca de mil empresas se equilibram com dificuldades e, com elas, 100 mil empregos e algo como US$ 600 milhões das exportações. Além dos problemas de incapacidade técnica de seus empregados, ou seja, uma mão-de-obra não qualificada, os calçadistas se debatem com a invasão dos concorrentes asiáticos e as limitações para vender no Mercosul. As razões do choque da abertura econômica não podem ser atribuídas a uma única Anotações e Dicas 120/108 Instituto Monitor causa, mas à soma de inúmeros fatores. Em 1980, o grupo Votorantim tinha o mesmo faturamento da Samsung coreana. Hoje tem US$ 5 bilhões e a Samsung tem US$ 50 bilhões. A distância é explicada pelo fato de o grupo coreano ter saído pelo mundo e conquistado mercados. tos, deixaram de lado a reforma agrária e políticas para dividir a renda e incorporar grandes massas da população ao consumo. 7. Déficit Comercial 6. A Década Perdida O Brasil assumiu, em largas proporções, o papel estratégico de financiar a industrialização. A fórmula deu certo, é inegável. Mas foi corroída pela indomável espiral inflacionária, a partir da década de 70. O golpe de misericórdia foi dado pelo choque da dívida, nos anos 80. Assim, entrou-se na era da globalização sem que se definisse um padrão de financiamento de longo prazo. Os juros no Brasil caíram de 60% para 30%. Internacionalmente, os juros não passam de 5%. O centro da questão é que não somos competitivos. Há décadas estamos mergulhados na administração dos problemas de curto prazo. Há muito imobilismo quando se trata de traçar estratégias e pô-las em prática. Para alguns estudiosos da industria lização brasileira, associando-a a vários fatores econômicos e sociais, não houve harmonia entre o desenho do novo parque industrial com o potencial de expansão do mercado. Investiram em infra-estrutura, mas fecharam os olhos para a saúde e educação. Protegeram o mercado contra a concorrência estrangeira, mas não criaram brechas para transformar a competição numa terapia preventiva. Estimularam a diversificação da indústria, mas não criaram um forte suporte para a especialização e a permanente oferta de empregos. Nessa seqüência de esquecimen- A balança comercial que apresentava resultados largamente positivos até 1994, rapidamente tornou-se deficitária, a partir do Plano Real. Devido à persistente fraqueza das exportações, a balança comercial terminou 1999 com um déficit de US$ 1,2 bilhão. Esse é o resultado mais decepcionante entre os objetivos negociados com o FMI no acordo trienal firmado em 1998. Balança comercial é a parte da balança de pagamentos que registra apenas operações de importações e exportações. Para financiar esse desequilíbrio e para atrair volume expressivo de recursos estrangeiros, o Brasil passou a depender de juros muito elevados. Isto passou a emperrar o crescimento econômico. Vários programas de promoção de exportações foram criados para tentar reduzir o desequilíbrio externo sem que isso prejudicasse o controle da inflação. Algumas iniciativas do governo: • desoneração tributária de produtos exportáveis; • ampliação de linhas oficiais de financiamento; 120/109 Instituto Monitor • abertura de agências para promover exportações de micro e pequenas empresas e criação de um seguro para exportações. sete países “emergentes”, que representam diferentes políticas de inserção no mercado internacional: Diante da ineficácia dessas medidas, surgiram opiniões de que o Brasil precisaria desvalorizar a moeda, como única alternativa para reduzir a necessidade de manter juros altos e poder retomar um ritmo sustentado de crescimento econômico. ✓ o modelo de integração européia (Espanha), ✓ a concentração em um mercado núcleo (México, com o Nafta, e Argentina, com o Mercosul), ✓ sistema de plataforma de exportação (Malásia), ✓ a política industrial voltada para as vendas externas (Coréia do Sul), ✓ o protecionismo (Índia) e ✓ a ampla liberalização (Chile). Em janeiro de 1999, o governo abandonou a âncora cambial (manutenção do valor do dólar fixo) e instituiu a livre flutuação cambial. O real se desvalorizou abruptamente em relação ao dólar, mas as exportações seguiram fracas, frustrando as expectativas de queda rápida das taxas de juros. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) divulgou, em maio de 2000, estudos onde compara a pauta de exportação brasileira com a de outros países, e identifica pontos de estrangulamento para a melhora da competitividade. Os países selecionados, que em conjunto respondem por cerca de 80% da economia mundial, foram divididos em dois grupos: • Integrado pelos países de elevada industria lização, no primeiro grupo foram incluídos EUA, Japão, Alemanha, Itália e França. O segundo engloba, além do Brasil, mais Foram utilizados três indicadores para classificar qualitativamente a pauta de exportação desses países. O primeiro fez um cruzamento da presença de setores da economia na pauta de cada país, com a participação dos mesmos setores no total das exportações mundiais. A situação considerada ideal é aquela em que o país tanto ampliou sua venda externa de produtos cuja participação no mercado mundial está crescendo (o que configura uma “convergência ótima”), como reduziu a de produtos cuja participação no comércio internacional esteja regredindo (o que significa reduzir a dependência em relação a “setores em retrocesso”). Anotações e Dicas 120/110 Instituto Monitor Em palavras mais simples: analisou-se qual o nível de exportação de produtos que estão em franca expansão mundial e, também, o nível de exportação de produtos que não estão sendo tão aceitos no mercado global. Melhor será a performance, se os produtos em expansão estiverem tendo aumento de exportação, acompanhada de uma redução na pauta de exportação de produtos que estão perdendo terreno no comércio internacional. No triênio 1996/98, em comparação com o triênio 1982/84, 29% da pauta de exportação brasileira apresentou convergência conside rada ótima, percentual inferior ao de todos os países emergentes analisados, exceto o Chile (27%). O percentual de “ótimo” alcança 69% no México e 63% na Coréia do Sul. No mesmo período, a participação dos setores em retrocesso na pauta brasileira foi de 19%, um resultado melhor apenas que o do Chile (49%). A média de participação de setores em retrocesso na pauta dos demais seis países emergentes analisados é de cerca de 6%. O segundo indicador classificou o dinamismo da pauta de exportação de cada país. Foram considerados muito dinâmicos aqueles produtos cujas exportações mundiais registraram crescimento médio anual superior a 10% do triênio 1982/84 para o triênio 1996/98. Analogamente, foram considerados: dinâmicos os que registraram crescimento entre 7,5% e 10%; intermediários, entre 5% e 7,5%; em regressão, entre 2,5% e 5%; e em declínio, inferior a 2,5%. A participação dos produtos dinâmicos e muito dinâmicos na pauta de exportação brasileira cresceu de 34% em 1982/84 para 41% em 1996/98. Apesar desse sinal positivo, o percentual explicita a fragilidade das exportações brasileiras: apenas Argentina (33%) e Chile (27%) apresentaram maior fragilidade. Vale ressaltar a extraordinária evolução qualitativa das exportações mexicanas. Por fim, o terceiro indicador apontou a intensidade tecnológica das exportações de cada país. Grande parte dos setores de elevada intensidade tecnológica têm participação dinâmica nas exportações mundiais, ou têm potencial de se tornar dinâmicos nos próximos anos. A exportação de produtos de elevada intensidade tecnológica passou de 13%, na pauta de exportação brasileira em 1982/84, para 21% em 1996/98, desempenho superior apenas ao da Argentina (de 7% para 15%), Índia (de 5% para 12%) e Chile (de 2% para 6%). Nesse período, a média mundial passou de 27% para 40%. A baixa participação de produtos de elevada intensidade tecnológica na pauta brasileira está associada à menor participação de produtos manufaturados no total das exportações. Considerando-se apenas a exportação de manufaturados no período 1996/98, a participação dos produtos de elevada intensidade tecnológica não foi pequena, no caso brasileiro alcançou 41,4%, proporção maior que a observada em países como Coréia do Sul (40,9%), Argentina (37,1%), Itália (33,5%), Índia (20,3%) e Chile (13%). A principal decorrência dessa baixa qua lidade da pauta de exportação é que a concor rência dos produtos brasileiros no exterior se dá predominantemente via preços, e não por sua qualidade. Isto os torna mais sensíveis a flutuações cambiais, variações de preços internacionais e crises econômicas. Assim, segundo o Iedi, para reduzir sua vulnerabilidade internacional, o Brasil precisa 120/111 Instituto Monitor aumentar significativamente, em sua pauta de exportação, a participação de setores mais dinâmicos no comércio internacional e mais resistentes a conjunturas adversas. Para que isso seja possível, de acordo com o instituto, é indispensável que a relação cambial ajustada, a desoneração tributária e a ampliação dos financiamentos à exportação sejam acompanhadas de políticas setoriais de investimento e de desenvolvimento tecnológico. São tarefas que exigem administração consistente de instrumentos de ação macroe conômica (políticas tributária, cambial e de juros), estratégia comercial sintonizada com as normas estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio e disposição de ampliar investimentos públicos e privados. Acima de tudo, é preciso restabelecer uma política industrial seletiva e eficiente (há vários anos ausente das prioridades do governo brasileiro), orientada pela identificação de oportunidades futuras de exportação e investimento. Reduzir importações, através de mecanismos como imposição de cotas, barreiras alfandegárias, tarifas e outras medidas, podem ser utilizadas na política de protecionismo. A total integração do comércio entre as nações, sem dúvida nenhuma, foi o fio condutor para o fenômeno da globalização. O lado negativo desta internacionalização crescente das relações comerciais está no surgimento de inúmeras retaliações, conflitos e até mesmo guerras, na disputa por mercados cativos ou emergentes. 8. Protecionismo A concorrência entre os mercados acentuou-se significativamente, o que acirrou profundamente a competição. Felizmente, os desentendimentos não são mais resolvidos por meio de guerras, que foram, no entanto, substituídas por trincheiras burocráticas e outros movimentos de defesa, na tentativa de proteger os produtores internos contra a agressividade mercantil, vinda de todos os cantos do planeta. Protecionismo pode ser definido como um conjunto de práticas governamentais que objetivam a restrição do comércio internacional ou ajuda especial a produtores nacionais, tornando seus produtos mais competitivos. O protecionismo é um tema sempre presente nos encontros internacionais de ne gócios, alvo de debates e questionamentos intermináveis, em que o consenso, embora pareça ao alcance das mãos, na prática sempre se torna distante. Anotações e Dicas 120/112 Instituto Monitor Nessa discussão há, felizmente, opiniões construtivas, como a de Alan Greenspan, o todo-poderoso e internacionalmente respeitado presidente do Federal Bank. Para ele, o protecionismo comercial é “pouco inteligente” e “autodestrutivo”. Barreiras ao livre comércio, processos antidumping5 e imposição de tarifas com pensatórias são, diz ele, na maior parte dos casos, “meros disfarces da incompetência e tentativas para inibir a concorrência”. Em vez de ações equivocadas para proteger o emprego local, recomenda “o que se deveria fazer é garantir maior fluxo internacional de mercadorias, para estimular o avanço da tecnologia e a produtividade do trabalhador”. O comércio mundial é estimado em US$ 5,3 trilhões. Boa parte desse valor deve-se ao setor agrícola que, só em 1998, foi de US$ 580 bilhões e mais da metade fica com a Europa (38,3% do total) e os Estados Unidos (13,3%). A parte do Brasil é de apenas 3%, correspondente a US$ 18 bilhões, valor pouco representativo ante o total, mas importante para o país, pois equivale a 30% de todos os embarques nacionais, que, entretanto, não chegam a 1% do comércio global. Esses números mostram por que as políticas adotadas em relação ao setor agrícola e ao protecionismo são vitais para que o Brasil, bem como outros países ditos emergentes, avancem no mercado, gerando trabalho e renda para a necessária retomada de seu crescimento. O foco dos debates está, portanto, na questão agrícola, embora a política protecio nista não se esgote nesse item. Ao contrário, segundo estudo do embaixador brasileiro em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima, a questão é muito grave: além de ser enorme o 5 Dumping: trata-se da venda de produtos no mercado externo a preços inferiores aos do mercado interno, visando a anular a concorrência. arsenal de leis que protegem a agricultura, a indústria e os serviços norte-americanos, é também poderosíssimo o que ele chama de “jogo político do protecionismo”. Os segmentos da economia norte-americana que, por razões diversas, não podem ou não desejam tornar-se mais produtivos e competitivos, ou as regiões do país diretamente interessadas na prosperidade de algum setor econômico, valem-se de seu peso eleitoral e parlamentar para bloquear, no Congresso, iniciativas que lhes pareçam prejudiciais, ou seja, as que abram seu precioso mercado a produtos estrangeiros. A embaixada brasileira nos EUA listou alguns dos mais recentes problemas enfrentados por produtos brasileiros que tentam ganhar o mercado norte-americano com preços competitivos e qualidade, mas contra os quais são erguidas barreiras. Também não é fácil atender as exigências de 80 mil normas e regulamentos técnicos, apresentados por cerca de 2,7 mil órgãos federais, estaduais e municipais diferentes, todos preocupados com certificação de segurança. Alguns exemplos: • Açúcar – Os EUA produzem açúcar de beterraba, muito mais caro que o brasileiro, obtido da cana. Portanto, o açúcar brasileiro só entra nesse mercado sujeito a quotas e não é beneficiado pelo Sistema Geral de Preferências, destinado a grande número de países latino-americanos e do Caribe. Limitado a uma quota específica para entrar nos EUA e fora do sistema de preferências, nosso açúcar torna-se caro e perde competitividade, com relação ao açúcar de beterraba. • Camarão – Política de proteção a tartarugas restringe a compra de camarão brasileiro, mesmo tendo o Brasil se adaptado a essas exigências e desenvolvido, há anos, um bem-sucedido projeto (Tamar) de preservação desses animais. 120/113 Instituto Monitor • Carnes – Problemas sanitários controlam a compra de carne fresca de suínos e bovinos. Havia sido programada para o ano 2000 a declaração de que as regiões Centro-Oeste e Sul de nosso país seriam zonas livres da febre aftosa e com controle da peste suína. Focos de aftosa detectados em meados do ano 2000, nestas regiões, atrapalharam esta perspectiva para nosso comércio exterior. O país só tem permissão para exportar carne processada (corned beef), desde que a indústria seja certificada por autoridades americanas. O Brasil é o maior exportador mun- Anotações e Dicas 120/114 Instituto Monitor dial de frangos, mas não pode vender aos EUA, por restrições sanitárias. O produto ainda enfrenta, no mercado internacional, a concorrência do Export Enhancement Program (EEP), que subsidia as vendas de produtos agropecuários norte-americanos à Europa. • Frutas e legumes – Demorou-se mais de seis anos para a obtenção da licença para vender mamão papaia brasileiro aos EUA, cuja burocracia exige inspeção de órgão americano no país de origem. Um escritório do Serviço de Inspeção de Plantas e Animais, dos EUA, foi aberto em Brasília. • Madeiras – Não há restrição legal, mas ainda persiste uma forte resistência à compra de madeiras e artefatos oriundos do Brasil, sob alegações ambientais. • Fumo – As exportações são sujeitas quotas e sobretaxas. • Calçados – Cobra-se taxa de 10% sobre o preço de calçados para mulher e de 8,5% para os demais. Para produtos de outros países, a taxa é de, apenas, 5%. • Etanol – O americano é mais caro que o brasileiro, que é obtido da cana; a taxa (2,3% e 2,7%, conforme o tipo) é superior à cobrada de outros fornecedores, e o produto é sujeito a quotas. • Laticínios – O setor é mais competitivo que o brasileiro, mas as vendas do Brasil continuam sujeitas a quotas. • Suco de laranja – Cobra-se taxa superior ao próprio preço da tonelada de suco, o que levou alguns grupos brasileiros a se instalarem nos EUA, produzindo já 30% do total do suco consumido naquele país. • Produtos têxteis – Quotas limitam as vendas brasileiras, também sujeitas às mais altas taxações do mundo (38% em alguns casos). • Produtos siderúrgicos e de ferro-liga – Há a acusação de práticas de dumping devido ao sistema de crédito de ICMS. Como se não bastasse, há ainda uma forte vinculação, defendida pelo governo norte-americano, entre proteção ambiental e comércio internacional. 120/115 Exercícios Propostos 1 - Os gastos nacionais em ciência e tecnologia, nos anos 80, ultrapassaram a casa dos 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 2 - O governo pretende reforçar a infra-estrutura científica e tecnológica, reduzindo a distância entre a pesquisa e a produção. Para que isso seja possível, é necessário uma melhor integração entre: ( ) a) universidades e estatais. ( ) b) universidades e escolas secundárias. ( ) c) universidades e empresas. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 3 - A sobra de recursos governamentais ou mesmo desperdício de incentivos, pertinentes aos investimentos em ciência e tecnologia tem como uma de suas causas a falta de informação. Como esta causa se manifesta? ( ) a) O empresário não tem o menor interesse nos programas. ( ) b) O empresário ignora como pode ter acesso aos programas. ( ) c)O empresário não sabe quais programas existem, ou, se os conhece, ignora como pode ter acesso a eles. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 4 - A terceirização deixou de ser um tabu. As empresas estão admitindo que devem centralizar seus esforços na produção, deixando para terceiros tarefas secundárias como serviços de limpeza, segurança, digitação, refeições, etc. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 5 - O nível de emprego industrial tem sido decrescente. Em cinco anos, desapareceram 800 mil empregos nos 38 municípios da região metropolitana de São Paulo. Em termos de Brasil, quantos empregos industriais foram eliminados entre 1991 e 1999? ( ) a) 4,8 milhões. ( ) b) 3,8 milhões. ( ) c)1,8 milhões. ( ) d) 2,8 milhões. 120/116 Instituto Monitor 6 - Nossos custos de produção são muito inferiores aos dos Estados Unidos e da Europa e o consumo de automóveis é muito elevado. Assim, surgem soluções que implicam, em muitos casos, em associações com empresas multinacionais, fusões e incorporações. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 7 - Nossa Balança Comercial apresenta-se há anos como: ( ) a) superavitária. ( ) b) equilibrada. ( ) c)deficitária. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 8 - Em termos de exportação, a situação considerada ideal é aquela em que o país tanto ampliou sua venda externa de produtos, cuja participação no mercado mundial está crescendo (o que configura uma “convergência ótima”); como reduziu a de produtos, cuja participação no comércio internacional esteja regredindo. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 9 - A baixa participação de produtos de elevada intensidade tecnológica na pauta brasileira está associada à maior participação de produtos manufaturados no total das exportações. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 10 - Complete: Protecionismo pode ser definido como um conjunto de práticas governamentais que objetivam _____________________ou________________________________ , tornando seus produtos mais competitivos. 11 - São algumas formas de práticas de protecionismo: ( ) a) imposição de cotas, barreiras alfandegárias e tarifas. ( ) b) liberação de cotas e barreiras alfandegárias. ( ) c) barreiras alfandegárias e liberação de tarifas. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 12 - A prática da venda de produtos no mercado externo, a preços inferiores aos do mercado interno, visando anular a concorrência, tem o nome técnico de: ( ) a) antidumping. ( ) b) dumping. ( ) c) truste. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/117 13 - Temos problemas sérios para aumentar nossas exportações. Focos de febre aftosa, detectados em meados do ano 2000, atrapalharam nossas metas com relação ao comércio exterior. De que produto estamos falando? ( ) a) Fumo. ( ) b) Laticínios. ( ) c)Carne. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/118 lição 12 Recursos Hídricos Introdução Nesta lição você terá contato com alguns aspectos dos problemas gerados pela má administração ou ainda pela falta de recursos hídricos. Poderá, a partir de dados estatísticos, fazer um melhor relacionamento entre causa e efeito do problema que tende a se alastrar para os próximos anos. 1. Abundância e Descaso Os recursos hídricos do país são abundantes, mas o descaso é maior. No sertão pernambucano a água não chega nas casas. Uma lata com 20 litros está custando algo em torno de R$ 1,00 e os carros-pipas não têm mais onde se abastecer. Em resposta, o Governo Estadual está carregando trens com 300 mil litros de água para levar ao interior. Nas vilas do sertão, nas regiões metropolitanas ou nos campos do interior, a água é hoje motivo de preocupação no país. Isto porque o Brasil, apegado a uma falsa idéia de abundância e imediatismo, adota um modelo de gestão, de um de seus recursos mais vitais, caracterizado pelo descaso e pela inconseqüência. Num futuro próximo o Brasil viverá, no mínimo, três grandes problemas em relação à água: ✓ a degradação do recurso nos grandes centros urbanos será agravada; ✓ degradação desses recursos nas áreas de mineração e agricultura; ✓ ficará mais séria a situação dos moradores do semi-árido nordestino pela falta de água para sua subsistência. 2. Distribuição Desigual Não há dúvidas de que o país tem um enorme patrimônio natural. Seus rios representam 53% da produção hídrica da América do Sul e quase 12% do total mundial. Esses números se devem em grande parte ao rio Amazonas o maior do mundo em volume de água -, cuja bacia, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, detém 81% do potencial hídrico dos rios brasileiros. Outra riqueza que não pode ser ignorada são as reservas subterrâneas, especialmente o aqüífero da Bacia do Paraná, que concentra mais de 45% do volume de água subterrânea conhecida do país, segundo dados do pes quisador Rebouças. Essa riqueza, contudo, não está distribuí da de forma equilibrada entre as regiões. As diferenças se agravam ao se observar que o país cresceu seguindo uma lógica inversa à disponibilidade hídrica. A região norte, por exemplo, com 79,7% do potencial hídrico nacional, concentra apenas 7,8% da população do país. A sudeste, por sua vez, com a maior parcela de habitantes, 42,2%, tem somente 4,1% do potencial hídrico, e a nordeste tem quase 29% dos habitantes e 2,3% da capacidade hídrica. 120/119 Instituto Monitor Entre os Estados de cada região a disponibilidade também varia - a de Sergipe, por exemplo, é 14 vezes menor que a da Bahia mas, de qualquer maneira, segundo os padrões das Nações Unidas, nenhum estado brasileiro atinge o nível de “estresse de água” (recursos hídricos nos rios inferiores a 1.000 m3/ habitante/ano) e muito menos de “escassez” (inferiores a 500 m3/habitante/ano). 3. A Seca Nordestina Há décadas essa região do país não consegue lidar com a seca. O pesquisador João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, lembra que, apesar de a água ser a base do desenvolvimento, o Nordeste ainda nem garantiu água boa para beber. Ao contrário de Israel ou dos Estados Unidos, que aprenderam a conviver com áreas semi-áridas traçando metas, o brasileiro enfrenta as dificuldades buscando financiamentos e benefícios. A natureza criou no Nordeste uma extensa área semi-árida, com chuva distribuída de forma irregular no decorrer dos anos, com temperaturas elevadas e altos índices de evapotranspiração6, além de uma formação rochosa cristalina, que dificulta a constituição de reservas subterrâneas. Essa é a situação natural, conhecida e previsível. No entanto, criou-se a idéia de que a seca no Nordeste é algo anormal. Outro equívoco é acreditar que a região semi-árida é sinônimo de improdutividade. Há conhecimentos técnicos para superar as dificuldades ambientais. Experiências bem-sucedidas, como plantio de frutas tropicais, comprovam que o desenvolvimento é possível. 4. Lei das Águas Situações críticas, espalhadas por todo o país, aumentam a expectativa em relação à regulamentação da Lei das Águas. Não se sabe quanto, ou quando, ela realmente será aplicada para solucionar as crises. De qualquer forma, há um consenso entre os especialistas de que, pelo menos no papel, ela traz vários avanços. O primeiro consenso é a consagração do uso múltiplo da água. A lei determina: “A gestão de recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas”. Até o momento, os maiores investimentos na gestão dos recursos hídricos se destinaram à geração de energia. “Os outros usos - irrigação, navegação, piscicultura, lazer, turismo e até mesmo 6 Evapotranspiração: evaporação da água somada à transpiração das plantas. Anotações e Dicas 120/120 Instituto Monitor abastecimento - ficaram relegados a segundo plano e sujeitos à hegemonia da produção de energia”, explica Célio Bermann, professor e pesquisador do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP. As conseqüências são visíveis. Segundo Glenn Switkes, diretor do programa latino-americano da Interna tional Rivers Network, entidade ambien talista de defesa dos rios, sediada em Cuiabá, a construção de barragens no Brasil tem provocado um terrível impacto ambiental e social. Por conseqüência dessas obras, rios como o Paraná e o Tocantins já perderam boa parte de sua biodiversidade e de seus recursos pesqueiros, e grandes extensões de florestas tropicais foram inundadas sem necessidade. Ele ressalta que essas ameaças têm exigido o esforço contínuo de denúncia e mobi lização por parte das comunidades. E estão mais presentes que nunca, lembra Switkes, quando se discute o impacto ambiental da construção das hidrovias, outra intervenção de grande porte no leito dos rios. “Há uma crença de que quanto maior a obra, mais rápido se vai correr para o desenvolvimento. E, muitas obras proporcionam justamente o contrário”, diz ele. “Os princípios da lei são animadores, mas a dificuldade prática é muito grande. A situação se agrava pela perspectiva de priva- tização do setor de energia e abastecimento. Cada empresa vai procurar maximizar seus interesses, o que torna mais difícil um consenso para uso múltiplo”. 5. Subsolo Precioso Apesar de valiosas, as águas subterrâ neas brasileiras continuam ignoradas e cada vez mais ameaçadas. Esse é o diagnóstico geológico: as reservas móveis de água subterrânea são estimadas em 11 mil km3 (11 quatrilhões de litros), sendo que poderiam ser extraídos de forma racional cerca de 5 mil m3/habitante/ano (800 trilhões de litros anuais no total). Esse cálculo representa o volume que poderia ser compensado pela renovação dessas reservas pelo próprio ciclo hidrológico (chuvas, infiltração, armazenamento). A disponibilidade de recursos hídricos no subsolo varia entre as regiões do país. Cerca de 80% das comunidades urbanas do Brasil poderiam ser abastecidas pelas águas subterrâneas. Mas, ao lado dos inegáveis atrativos, o abastecimento autônomo traz também conseqüências danosas. Além de levar ao desperdício (como não se paga nada por essa água, usa-se uma quantidade maior que a necessária), essa utilização desordenada ameaça a qualidade das reservas subterrâneas. Poços mal construídos ou abandonados constituem hoje os principais focos de poluição do manancial subterrâneo no meio urbano. 120/121 Exercícios Propostos 1 - Nas vilas do sertão, nas regiões metropolitanas ou nos campos do interior, a água é hoje motivo de preocupação no país. A falsa idéia de abundância e planejamento para longo prazo estão associadas a um modelo de gestão caracterizado pelo descaso e pela inconseqüência. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 2 - No futuro, o Brasil viverá grandes problemas em relação à água. Indique qual alternativa menciona corretamente dois deles: ( ) a) degradação do recurso nos grandes centros urbanos e assoreamento das represas. ( ) b) degradação do recurso nos grandes centros urbanos e áreas de mineração e agricultura. ( ) c) agravamento do problema nas regiões semi-áridas e poluição do recurso nas áreas litorâneas ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 3 - A região norte, com 79,7% do potencial hídrico nacional, concentra apenas 7,8% da população do país. A sudeste, por sua vez, com a maior parcela de habitantes, 42,2%, tem somente 4,1% do potencial, e a nordeste tem quase 29% dos habitantes e 2,3% da capacidade hídrica. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 4 - No Nordeste a evaporação da água somada à transpiração das plantas, além de uma formação rochosa cristalina, dificulta a constituição de reservas subterrâneas. Que nome técnico tem este tipo de evaporação? ( ) a) Evapotranspiração. ( ) b) Sublimação. ( ) c) Ebulição. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 5 - É absolutamente correto acreditar que a região semi-árida é sinônimo de improdutividade. Esta afirmação está: ( ) certa ( ) errada 120/122 Instituto Monitor 6 - Segundo pesquisas, qual o percentual das comunidades urbanas do Brasil que poderiam ser abastecidas pelas águas subterrâneas? ( ) a) 70%. ( ) b) 65%. ( ) c) 80%. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/123 lição 13 Segregação Racial Introdução Esta lição final visa induzir o aluno a discutir, analisar e refletir sobre a questão da discriminação racial no Brasil. Marcas profundas de racismo e discriminação precisam ser combatidas se o Brasil quiser superar suas desigualdades. Mesmo depois de mais de um século de liberdade, ainda é muito difícil para o negro alcançar condições mínimas de cidadania. 1. Resultados do Censo O censo demográfico do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 1991, analisado sob o ponto de vista racial, demonstra: entre os brancos que nesse ano tinham mais de 15 anos, 12% eram analfabetos. Entre os negros e pardos, esse índice subia para 22%. Apenas 13% dos negros e 14% dos pardos tinham mais de sete anos de estudo. O percentual dos brancos com essa escolaridade atingia 29%, enquanto os amarelos alcançavam 52%. Dados mais sinistros dizem respeito à mortalidade infantil: em 1996, em cada grupo de mil crianças negras ou pardas, 62 não sobreviviam. Entre as brancas, as mortes atingiam um número bem menor, embora ainda assustador: 37. “Não basta afirmar que o Brasil é injusto, desigual, sem considerar a dimensão étnicoracial de sua exclusão social”, diz a historiadora Wania Sant’Anna, pesquisadora da Fase (Fundação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), no Rio de Janeiro. Um grande problema, na opinião dela, é ainda não haver um diagnóstico abrangente da questão. O próprio estado, na figura do IBGE, por exemplo, resiste em levantar indicadores sociais com segmentação racial. Wania explica que as pesquisas costumavam olhar a realidade, dividindo-a entre urbana e rural. Num momento seguinte, foram admitidas as diferenças regionais. Apenas um ou outro levantamento isolado confirma o peso da condição étnico-racial. 2. Poder de Consumo da População Negra O Brasil possui a segunda maior população negra do mundo. Desde a sua colonização, os negros no Brasil foram em grande número, chegando a 4 milhões de escravos. A população negra no Brasil foi sempre vista como uma população de segunda categoria e desconsiderada em seu potencial produtivo e econômico. A capacidade de consumo da raça negra foi sempre desprezada, até que, recentemente, 120/125 Instituto Monitor esse fator vem sendo tratado de forma diferente. Hoje, vemos as indústrias e o comércio preocupando-se em lançar produtos próprios para a raça negra, como no caso específico dos cosméticos, bem como grandes grifes de vestuário e calçados preocupados em utilizar modelos negros em seus anúncios. Existe hoje a consciência de que, se o Brasil continuar excluindo a população negra, certamente perderá, em muito, sua capacidade de consumo. 3. Normalidade Racista O negro ainda é, no Brasil, excluído de vários espaços sociais. A realidade atual mostra-nos uma minoria negra freqüentando as escolas renomadas, as lojas de grife, os restaurantes mais finos, morando em edifícios e residências denominadas “classe A”. Conta-se nos dedos os executivos negros que ocupam cargos de direção em grandes empresas e os que chegam até as universidades. Há de se lamentar profundamente que muitos considerem tudo isto uma situação normal, num país em que um número imenso de seus habitantes não pertence à etnia branca. Anotações e Dicas 120/126 Exercícios Propostos 1 - Apenas 13% dos negros e 14% dos pardos têm mais de sete anos de estudo. O percentual dos brancos com essa escolaridade atinge 29%, enquanto os amarelos alcançam 52%. Esta afirmativa está: ( ) certa ( ) errada 2 - Indústrias e comércio preocupam-se em lançar produtos próprios para a raça negra, como no caso específico dos cosméticos, bem como grandes grifes de vestuário e calçados preocupados em utilizar modelos negros em seus anúncios. Qual a razão para estas atitudes por parte do poder privado? ( ) a) Incluindo-se socialmente a população negra, certamente perde-se a capacidade de consumo. ( ) b) Excluindo-se a população negra, certamente perde-se a capacidade de consumo. ( ) c) Excluindo-se a população negra, certamente melhora-se a capacidade de consumo da sociedade. ( ) d) Nenhuma das alternativas anteriores. 120/127 Respostas dos Exercícios Propostos Lição 1 1. C 2. D 3. C 4. D 5. B 6. C 7. C 8. B 9. B 10. C 11. A 12. A 13. D 14. C 15. D Lição 2 1. C 2. A 3. B 4. C 5. A 6. B 7. A 8. C 9. B 10. B Lição 3 1. D 2. Errada 3. B 4. A 5. C 6. Errada Lição 4 1. C 2. B 3. B 4. C 5. C 6. Certa 7. B 8. B 9. D Lição 5 1. A 2. C 3. Certa 4. Errada 5. B 6. C 7. A 8. Errada Lição 6 1. C 2. D 3. B 4. A 5. B 6. A 7. Errada 8. D 9. C Lição 7 1. B 2. A 3. C 120/128 Instituto Monitor 4. B 5. Errada 6. B 7. A Lição 8 1. B 2. D 3. Certa 4. C 5. C 6. D 7. Certa 8. A 9. C 10. Certa Lição 9 1. D 2. C 3. A 4. Certa 5. Certa 6. Errada 7. B 8. D Lição 10 1. Errada 2. A 3. B 4. B 5. C 6. Certa 7. B 8. Certa 9. A 10. C 11. A 12. Certa Lição 11 1. Errada 2. C 3. C 4. Certa 5. D 6. Errada 7. C 8. Certa 9. Errada 10. ... a restrição do comércio internacional ajuda especial a produtores nacionais 11. A 12. B 13. C Lição 12 1. Certa 2. B 3. Certa 4. A 5. Errada 6. C Lição 13 1. Certa 2. B 120/129 Bibliografia MÉDICI, Miriam de Cássia ALMEIDA, Miriam Lino de. Geografia – A população mundial, 1a edição Nova Geração, 2000. MOREIRA, Igor Construindo o Espaço Brasileiro, 2a edição – v 2 Ática, 1999. SILVA, César Roberto Leite da LUIZ, Sinclayr Economia e Mercados – Introdução à Economia, 14a edição Saraiva, 1995. 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