Samarone Marinho
atrás da vidraça
atrás da vidraça.indd 3
18/05/2011 13:08:56
sumário
prefácio
9
atrás da vidraça…
11
abandono
o lago
procissão
futuri robots
herança
constância
poema de vida incerta
cadeira de balanço
intervalo
intermezzo
brincadeira no metrô
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
(gullarianas para uma infância perdida)
atrás da vidraça.indd 5
a moça e o gatinho
dia anterior de sol
a criança e o gatinho
noite miserável
lamento ao gatinho
exame sobre o fim de um cão
27
28
29
30
31
33
o garoto
antes que os velocípedes desapareçam
poema de amor finito
34
35
36
18/05/2011 13:08:56
fim antecipado
n-ésima versão
deserto
exercício de teologia
antropologia brevis carta para toshiro mifune 37
38
39
40
41
42
(imemoriáveis aleijões beckettianos
sussurrados da janela do quarto)
a hora da tristeza
rascunho de vida
febre na terra dos homens
domingo de deserto frio
a diuturnidade da solidão
45
46
47
48
49
rio corrente
paraíso mundano
todos os santos da terra
vida diária
desconstruindo suíça
50
51
52
53
54
(três personagens no vidro empoeirado)
o caixeiro-viajante
o ajudante
o justiceiro
57
58
59
simplória evidência do 15o andar
(ou continuação de um filme imperfeito de guerra)
o que se sabe
à sombra da precariedade
pôr do sol
noite insone
vida vitrine
… e atrás da vidraça
60
61
62
63
64
65
66
atrás da vidraça.indd 6
18/05/2011 13:08:56
Mas a vida ainda flameja e explode
por debaixo dos círculos da esperança.
josé maria nascimento
atrás da vidraça.indd 7
18/05/2011 13:08:56
atrás da vidraça.indd 8
18/05/2011 13:08:56
prefácio
Associar ‘economia’ e concisão ao valor literário pode ser um
equívoco. Poesia não é redação publicitária, nem um campo da
administração. Nem todo texto breve é bom pela brevidade, e
inumeráveis textos extensos e caudalosos não apenas deixaram
marcas na história da literatura, porém a constituíram, a começar
por Homero. O haikai, empreendimento literário sem dúvida
notável, corresponde a uma dentre múltiplas possibilidades da
expressão poética – assim como o epigrama e outros modos
sintéticos da escrita.
Essas advertências cabem a propósito de alguns modismos
recentes da crítica literária, que não podem ser diretamente
projetados em Atrás da Vidraça de Samarone Marinho. Sim: seus
poemas são, em sua maioria, limpos e breves; neles, chamam a
atenção qualidades como a simplicidade, concisão e economia
de recursos. Entre outros, “rio corrente”, “paraíso mundano”,
“todos os santos da terra”, “vida diária”, “desconstruindo suíça”,
com dois ou três versos curtos cada, são minimalistas; porém
trata-se do mínimo verbal que corresponde a um máximo de
expressão. O despojamento chega ao extremo em “o que se sabe”:
o poema se sustenta sobre o contraste do título com a repetição
de “não se sabe” e “um ausente” – e assim a ausência e seu
desconhecimento não são relatados, porém tornados presentes.
É um procedimento semelhante àquele de “lamento ao gatinho”,
mais extenso em versos, mas que se sustenta na reiteração de
9
atrás da vidraça.indd 9
18/05/2011 13:08:56
“perdeu-se” e “morto”; e de “o garoto”, com seu verso brevíssimo:
ao declarar que “o garoto / era / eu”, diz tudo.
Assim, o importante na poesia de Samarone Marinho é o
que ela revela; suas poderosas sugestões; como no breve poema
que fala de Gregor Samsa, o protagonista de Kafka que “jamais
esteve sozinho” – bastou intitular o poema de “o caixeiroviajante”, remetendo ao protagonista da peça de Arthur Miller,
para desse modo dizer que o absurdo kafkiano é onipresente.
Há refrações luminosas entre uma imagem e outra, entre o
dito e o não-dito, em trechos vertiginosos como este de “pôr do
sol”: “há um deserto que chora dentro da moça”; isso, “quando
o vento sopra a memória da vida para longe”. E harmoniosos
paradoxos, com uma carga expressiva máxima, como em
“procissão”: “a ladainha no trânsito / é desespero de silêncio”.
Mas Atrás da Vidraça não é feito apenas de poemas
breves e versos curtos: chamam a atenção, na série intitulada
“(imemoriáveis aleijões beckettianos sussurrados da janela
do quarto)”, os textos em prosa, entre o relato de sonho e a
memorialística, ou talvez fixando aquele território em que
memória e sonho se confundem, em que o real e o surreal são o
mesmo – são apenas textos, justificando-se porém observar que
poderiam ser mais, por sua originalidade (mesmo fazendo parte
de uma tradição de poesia em prosa). Talvez correspondam a
uma primeira exploração de novos espaços, de novos modos de
expressão; quem sabe, sementes de um próximo livro. Por isso, o
lançamento de Atrás da Vidraça deixa uma pergunta em suspenso:
aonde nos levará, por quais viagens, a que novos territórios da
expressão poética, o talento de Samarone Marinho?
Claudio Willer
Crítico literário e poeta
10
atrás da vidraça.indd 10
18/05/2011 13:08:56
atrás da vidraça…
vi o mundo
chovia
havia bolas de algodão
desenhos animados
sonhos de papel
e muito
muito silêncio
11
atrás da vidraça.indd 11
18/05/2011 13:08:56
abandono
esses dias
são lápis no oceano
desaguar constante
na ausência
12
atrás da vidraça.indd 12
18/05/2011 13:08:56
o lago
Narciso,
no fundo
do lago,
confessou:
– Venha, venha logo
que o dinheiro
é alma do negócio
13
atrás da vidraça.indd 13
18/05/2011 13:08:56
procissão
a ladainha no trânsito
é desespero de silêncio
os carros em cantilena
deslizam no adeus
14
atrás da vidraça.indd 14
18/05/2011 13:08:56
futuri robots
sabe-se do devaneio
sabe-se da desgraça alheia
sabe-se, então, de tudo
o que nunca se espera é
saber-se de nada
quase-nada se vê
durante uma viagem dispersa
algo kamikaze insano
infesta sonhos de crianças
já dizia Pinóquio:
carros motocicletas aviões
rodovias viadutos aeroportos
¿o que farão?
“apenas imaginar
imaginar que as bolinhas de solidão
morrerão asfixiadas matando
outros mil”
Gepetto, à espreita na janela,
explica ao garoto
sabe-se ainda e ainda mais
satélites antenas observatórios
no descanso da anafilática perfeição
numa ilha deserta
um sopro no vazio se sabe
inumano
15
atrás da vidraça.indd 15
18/05/2011 13:08:56
mas
é em novembro que as flores ruborescem
o sol acorda para pôr fim à tristeza de domingo
e o relógio toc toc
nos futuros robôs
alento que não chega
16
atrás da vidraça.indd 16
18/05/2011 13:08:56
herança
um dia
a ausência dos filhos
dos filhos dos nossos
filhos
já será a solidão
da última lágrima
levada pelo vento
17
atrás da vidraça.indd 17
18/05/2011 13:08:56
constância
no beiral da casa
as crianças dormem
enquanto a vida
passeia na noite
com putas
cafetões
e
alegrias
18
atrás da vidraça.indd 18
18/05/2011 13:08:56
poema de vida incerta
vida
recado que suspira
no meio da rua Sampaio Viana
notícias vêm e vão com o tempo
pra que querer saber as horas
se os dias são mais velozes
que a clarividência do olho
19
atrás da vidraça.indd 19
18/05/2011 13:08:56
cadeira de balanço
naquele dia já era 6 da tarde
e o vento soprava
a
incerteza
dum lado
pr’o outro
até alcançá-la
20
atrás da vidraça.indd 20
18/05/2011 13:08:56
Download

Arquivo - Livraria Martins Fontes