XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ REPRESENTAÇÕES IMAGÉTICAS AFROBRASILEIRAS NA PINTURA PARAENSE NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX E O ENSINO DE ARTE: PERSPECTIVAS À APLICAÇÃO DA LEI 10.639/2003 Rosângela do Socorro Ferreira Modesto [email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/6030599754685470 Universidade Federal do Pará – UFPA RESUMO Esta comunicação situa-se no eixo “Histórias: documentações e acervos”. Refere-se à pesquisa de mestrado em andamento, que envolve a aplicação da Lei 10.639/2003 no âmbito educacional, com o objetivo de relacionar o Ensino de Arte e Cultura Afrobrasileira na cidade de Belém. Parte do pressuposto de que para compreender a presença do segmento afrodescendente na sociedade local, é imprescindível buscar indicativos das representações sobre esse segmento e de que maneira tais representações são apropriadas para estabelecer visibilidade à identidade afrodescendente. O recorte escolhido, dessas representações investiga a presença negra na pintura de artistas locais na primeira metade do século XX com destaque à produção da artista plástica Antonieta Santos Feio. Palavras-chave: Lei 10.639/2003, identidade, pintura. ABSTRACT This communication is in the axis "stories: documentation and collections". Refers to the ongoing research, which involves 10,639/2003 law enforcement under educational, with the goal of relating the teaching of art and culture and language in the city of Bethlehem. The assumption that to understand the presence of Afro-segment in the local society, it is essential to seek representation on this thread indicative and in what way such representations are suitable to establish visibility to Afro-descendant identity. The cut-off chosen, these representations, investigates the black presence in local artists painting in the first half of the 20th century with emphasis on production of artist Antoinette Saints Ugly. Keywords: 10.639/2003 Law, identity, painting. Introdução Este artigo ressalta da Lei 10.639/2003 enquanto aporte legal para correlacionar Ensino de Arte e Cultura Afrobrasileira na cidade de Belém. Parte do pressuposto que inclui o segmento afrodescendente como influente na formação cultural nacional e, portanto, busca indicativos que permitem compreender de que maneira tais verificações são apropriadas para estabelecer visibilidade à identidade afrodescendente. O recorte escolhido investiga a presença negra na pintura de artistas locais no período na primeira metade do século XX com destaque à produção da artista plástica Antonieta Santos Feio que integra o acervo do Museu de Arte de Belém (MABE). __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ No campo das produções visuais, a comprovação da representação negra na pintura de alguns artistas paraenses é um fato importante e que corrobora para um olhar mais acurado sobre estas produções e a existência de acervos que trazem esse tipo de representação. O mote desta reflexão está em apontar como as representações afrobrasileiras paraenses presentes nesta instituição podem contribuir para o Ensino de Arte na perspectiva de aplicação da Lei 10.639/2003. Pensar na Lei 10.639/2003 é inseri-la como um estímulo à abordagem da História da África e participação das populações africanas e afrodescendentes na formação sociocultural do Brasil, ao enfatizar o aspecto de suas contribuições. À medida que se desloca a perspectiva eurocêntrica da formação cultural de nosso país, novas possibilidades se configuram a partir da inclusão de outros atores sociais nesse processo de formação cultural plural. Assim, o Ensino de Arte em consonância a referida lei, pontua a participação do negro no processo de formação cultural do Brasil abrindo precedente para pensar na relevância de seus conhecimentos, saberes e tradições ancestrais. Com relação ao campo das artes visuais, o conhecimento deste acervo (re)descobre artistas paraenses que, ao possuírem uma produção artística voltada à representação afrodescendente, dá sustentação à elaboração de propostas educativas para utilizar essas pinturas na abordagem da temática afrobrasileira no ensino de arte. Esta pesquisa se concentrou no acervo do Museu de Arte de Belém, instituição administrada pela da Prefeitura de Belém, onde está reunida, sob o título “Salão Verde”, uma importante coleção de pinturas, inclusive de artistas regionais, que remetem à formação da identidade paraense. Este acervo, no qual destaco as representações imagéticas afrodescendentes, torna possível perceber a inserção negra no sistema representativo das artes visuais local, algumas inclusive datadas da primeira metade do século XX. A representação afrobrasileira nas artes visuais do século XX As composições visuais de representação afrobrasileira pertencentes ao século XX surgem a partir do resgate da valorização do negro como elemento atuante no processo de formação da sociedade e da cultura brasileira. Neste __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ percurso sobressai, entre outros acontecimentos, a realização do V Congresso Brasileiro de Geografia ocorrido na Bahia em 1916 e presidido por Manuel Querino 1. O evento ressalta, através do viés cultural, a participação do negro na sociedade e as novas perspectivas dos estudos africanistas desenvolvidas com base na cultura popular, no folclore e a nreligião afro-brasileira. Na década de 1930 os estudos de Gilberto Freyre 2 sobre a democracia racial no Brasil abrem caminho para uma interpretação positiva do processo de mestiçagem3 que ao identificar o nosso país como miscigenado em sua formação cultural, delega participação valorativa das populações negra e indígena na formação multicultural do Brasil. No entanto, foi a década de 1920 o marco da revisitação da temática afrobrasileira na pintura, numa tentativa de afirmação da identidade negra. Contudo, não se pode perder de vista que isso não ocorreu de forma neutra. Na realidade, fez parte da articulação política e ideológica de construção da própria da identidade brasileira, difundida largamente com o Movimento Modernista, também através da representação visual. Nos anos subsequentes ao acontecimento da Semana de Arte Moderna de 1922, ainda persiste a difusão de alguns princípios expostos durante este evento, como a quebra com os cânones do academicismo ocidental e tentativa de desenvolver aquilo que pudesse ser entendido como arte nativa, impulsionada pelos rituais antropofágicos de tribos indígenas. Para Costa (2011, p. 1): O Modernismo é um movimento artístico que surge na década de 1920 e começa a positivar valores ao povo brasileiro que, antes tinham sido destratados. Negros e índios, antes vistos como grupos subalternos da sociedade, tanto na Literatura quanto nas Artes Plásticas, agora são trazidos para o centro da tela. Com o propósito de confirmar a visualidade do segmento afrodescendente na arte brasileira a partir de 1920, encontra-se uma diversidade de artistas que em épocas distintas divulgam em suas representações aspectos vivenciados pelos afrobrasileiros. Estas produções visuais abarcam desde as manifestações religiosas 1 CUNHA op. cit. p.1022. Os estudos realizados por Gilberto Freyre se concentram em entender as relações sociais nas regiões agrárias do Brasil. 3 A mestiçagem caracteriza-se como um processo biológico pautado nas trocas genéticas, possível de acontecer em várias áreas geográficas do mundo e em diferentes épocas. 2 __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ até o cotidiano social como as pinturas produzidas pela paraense por Antonieta Santos Feio. A visualidade afrobrasileira no Museu de Arte de Belém Seguindo aos princípios difundidos na Semana de Arte Moderna, o Museu de Arte de Belém (MABE) reuniu ao longo dos anos de 1930 a 1950 uma produção visual dos elementos identitários locais em consonância aos princípios da representação de identidade nacional bem aos moldes do modernismo brasileiro. Segundo Silva (2009, p. 81): O debate em torno da arte moderna no Brasil, desde o início do século XX, esteve envolvido pela busca de uma definição de como seria o homem brasileiro, o que marcou intensamente a produção de vários artistas nacionais. Esse acervo é composto por uma coleção de obras de arte alusivas aos tipos regionais como o indígena, o ribeirinho, entre outros. A exposição conta com inúmeras pinturas na técnica de óleo sobre tela, cujos personagens retratados reverberam um olhar sobre os hábitos e costumes da população paraense. Merece destaque nesta conjuntura, indivíduos como o cabloco do interior, o vendedor de caranguejo, a tacacazeira, a amassadora de açaí, a vendedora de cheiro, figuras populares tão conhecidas na cultura amazônica. O deslocamento para o estudo da representação social de figuras populares e folclóricas é uma vertente dos estudos antropológicos e historiográficos verificada na década de 1970 com a chamada “micro história”, associado a um grupo de historiadores italianos. Esta vertente segundo o que nos mostra Burke (2008, p.61): foi uma reação contra um certo estilo de história social que seguia o modelo de história econômica, empregando métodos quantitativos e descrevendo tendências gerais, sem atribuir muita importância à variedade ou à especificidade das culturas locais. Incluídas no acervo desta instituição estão pinturas, esculturas, peças de mobiliários de estilos Art Nouveau, objetos utilitários (vasos, castiçais etc.) e réplicas de cerâmicas marajoaras entre outros artefatos. No entanto, o foco é perceber àquelas representações da visualidade afrobrasileira. Nesta totalidade, destacam-se pinturas de manifestações religiosas como a __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ tela A entrada do Círio no Arraial de Nazaré (1905) de Carlos de Azevedo e de variados retratos de pessoas simples do povo como a Vendedora de Cheiro (1947) e a personagem Mendiga (1951) ambas de autoria da artista Antonieta Santos Feio, sobre a qual este trabalho trata. Isto porque, em Belém a inserção da representação negra foi desenvolvida por essa artista em sua arte de retrato. Nas pinturas afrobrasileiras desta renomada artista, tem-se a oportunidade de repensar, questionar e reelaborar formas de representatividade da diáspora africana na afirmação de exercício de sua identidade racial e cultural. A representação afrobrasileira nas pinturas de Antonieta Feio Os retratos de autoria de Antonieta Santos Feio (1897-1980) impressionam pelo realismo das personagens registradas através das pinceladas desta artista, muito conhecida pelo virtuosismo na produção de retratos. Em alguns retratos a apreensão das fisionomias dos seus modelos divide espaço com traços mais livres e leves, bem à maneira dos impressionistas, que se preocuparam em sugerir as formas. Neste sentido, Antonieta surge como uma artista que soube se apropriar das inovações propostas pelos movimentos artísticos a favor da sua especialidade, a arte do retrato. A pintora Maria Antonieta dos Santos Feio nasceu em Belém a 31 de maio de 1917, filha do comandante paraense Antonio José dos Santos e Sarah Rapisardi dos Santos, de origem italiana, fato que justificaria os estudos de Antonieta Feio na Europa, precisamente na Escola de Belas Artes de Florença. Durante o período de estudos fora do Brasil, teve aula com professores como Giuseppe Rossi e Iacopo Olivotto, conferindo-lhe uma formação artística na arte do retrato. Regressa a Belém em 1937, aos 20 anos de idade, e participa do II Salão de Belas Artes do Pará na condição de hours concurs. A obra de Antonieta Feio é vasta, composta em sua maioria por retratos, algumas naturezas mortas e paisagens, porém em menor quantidade. Sua predileção pela figura humana é o que a tornou uma personalidade de destaque no cenário artístico paraense a partir da década de 1930. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ Antonieta Feio é uma autêntica e virtuosa representante da pintura acadêmica4 no gênero realista. Segundo a pintora, “todos os detalhes do objeto que retrata devem ser tomados em conta, inclusive em relação a cor, é pela fidelidade absoluta.” 5 Entre seus conhecidos retratos estão cerca de cinquenta quadros da galeria dos antigos catedráticos da antiga Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, que escaparam de ir para o lixo pela intervenção de José da Silveira Neto, que na época os abrigou no Solar do Barão do Guajará, sede do Instituto Histórico e Geográfico do Pará; o retrato do Bispo D. Mário de Miranda Villas Boas pertencente à Pinacoteca do Arcebispado de Belém; e de alguns gestores de nossa cidade que atualmente compõem o acervo da Pinacoteca do Município, abrigados na Sala Antonieta Feio, situada no prédio da Prefeitura de Belém e que também é sede do Museu de Arte do Belém (MABE). Durante muitos anos Antonieta Feio exerceu o cargo de professora de desenho da antiga Escola Normal, hoje Instituto de Educação do Pará (IEP). Neste local, é de sua autoria o desenho que ornamenta o quadro de formatura das normalistas de 1933. Em 1941, foi uma das pioneiras da extinta Escola Livre de Belas Artes, na qual integrou a primeira diretoria. Antonieta Feio teve uma carreira que a tornou reconhecida fora da cidade de Belém, principalmente no nordeste brasileiro. Em 1935, concorreu à exposição do Centenário da Revolta Farroupilha, no Rio Grande do Sul, e em 1940, ganhou a Medalha de Ouro na Exposição Nacional de Pernambuco com o quadro “Velho escravo”, adquirido pelo governo de Pernambuco. No ano seguinte, compôs a banca examinadora do II Salão Oficial de Belas Artes do Pará e em 1947 participou do VIII Salão Oficial de Belas Artes do Pará, premiada com 2º lugar com a pintura a óleo “Chico Preto” (Herói de Canudos). Nessa pintura figura um homem negro, não é 4 O termo pintura acadêmica liga-se diretamente às academias e à arte aí produzida. Presentes na Europa desde 1562, com a criação da Academia de Desenho de Florença, disseminadas por diversos países durante o séc. XVIII, as academias de arte são responsáveis pelo estabelecimento de uma formação artística padronizada e ancorada em ensino prático de geometria, anatomia e perspectiva. 5 Nota do jornal Diário do Pará- coluna Mosaico, 1987. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ idoso, veste uma camisa branca com os primeiros botões abertos e sua posição frontal encara o expectador.6 A última exposição de Antonieta Feio em Belém ocorreu em 1960 na Galeria UBE de propriedade do pintor Ruy Meira. Após esse período, a artista deixou a cidade para morar em Santos (SP), onde faleceu aos 84 anos em 17 de fevereiro de 1980. Trazer à tona a trajetória de uma personalidade elogiada por sua produção como pintora no campo da arte no estado do Pará foi um verdadeiro exercício arqueológico, em virtude da escassez de fontes bibliográficas. Antonieta Feio é uma pintora que parece estar esquecida do público paraense, mas para quem visita a pinacoteca do MABE e tem contato com suas obras mais emblemáticas é praticamente impossível não lhe render elogios, devido à apurada técnica de sua pintura. Situando as pinturas de temática afrobrasileira e regionalistas de Antonieta Feio, temos as telas a óleo “Vendedora de Tacacá” (1937), “Vendedora de Cheiro” (1947) e “Mendiga” (1951). Estas últimas fornecem espaço à representação de tipos locais, são registros de uma representação étnica afrodescendente em nossa cidade. A “Vendedora de Cheiro” traz representada uma senhora não idosa, de corpo volumoso, vestida com uma blusa branca e saia florida, uma das mãos carrega uma sacola de cheiro e a outra se apoia à cintura. Um olhar mais atento sobre a pintura percebe elementos do sincretismo religioso através de elementos como o crucifixo e a figa de pau d’Angola carregada como pingentes no cordão. As flores brancas (jasmins) e vermelhas (rosas de todo ano) colocadas no cabelo remetem ao penteado usado pelas antigas mamelucas paraenses 7. 6 SILVA, Caroline Fernandes. O moderno em aberto: o mundo das artes em Belém do Pará e a pintura de Antonieta Santos Feio. 2009. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal Fluminense. Rio de Janeiro. 7 FIGUEIREDO, Aldrin Moura de.(Curadoria). Janelas do passado, espelhos do presente: Belém do Pará, arte, imagem e história. p.69. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ Antonieta Santos Feio. A Vendedora de Antonieta Santos Feio. Mendiga. (1951). cheiro. (1947). Óleo s/tela.Dimensão:105 Óleo s/tela. Dimensão: 82 x61cm. Acervo x37cm. Acervo do MABE. A tela “Mendiga” do MABE. retrata uma senhora negra idosa, de cabelos embranquecidos e presos atrás da cabeça, traz em seu corpo roupas gastas e como adorno de sua condição miserável, um chapéu de palha para receber esmolas. Seu olhar é manso e tácito, reticente em sua condição, mas seu olhar fita o expectador de tal maneira, que se deslocando para uma das laterais do quadro, a impressão é que o olhar da personagem segue o observador. O fundo novamente composto de tábuas que por entre as frestas deixa passar uma luz em tom esverdeado, que mais do que um complemento da pintura sugere o desvelamento um estado social deste grupo. A tentativa de buscar um espaço imagético ao segmento negro na cidade de Belém encontrou nas pinturas da Antonieta Feio a possibilidade da apresentação de uma produção genuinamente paraense para subsidiar abordagem da temática envolvendo a representação afrobrasileira no ensino da arte. Considerações Finais Verificar em museus e galerias um espaço à representação artística negra é um desafio interligado à construção de uma educação voltada para as relações etnicorraciais. Este acervo na cidade de Belém torna possível repensar que uma das formas da diáspora afrobrasileira ter preservada o exercício de sua identidade na __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ ambiência da formação social e cultural do Brasil é através das representações visuais. De modo geral, as duas pinturas que compõem este artigo coloboram a representação pictórica negra na historiografia da Arte Brasileira mais recente, comprovando que esta apropriação ocorreu em diferentes épocas e com estilos artísticos diversificados. No entanto, ir mais além deste aspecto de visualidade é necessário para questionar até que ponto estas produções de fato colaboram para a permanência de uma visão estereotipada do afrobrasileiro. À medida que construímos ou usamos imagens de indivíduos seja na Arte ou em outra área, de certa forma, contribuímos para que estas imagens sejam revestidas de um valor social. No entanto, a interpretação de uma imagem, seja ela uma pintura ou uma fotografia, emerge como resultado do atravessamento intrínseco de aspectos envolvendo o autor (produtor), o texto visual (produto cultural) e o leitor. Perceber a ausência de reconhecimentos de diferentes grupos étnicos também requer a busca de ações reparadoras em sua natureza, de modo que a identidade tanto afrobrasileira quanto a indígena esteja inserida nas reivindicações do ensino da diversidade cultural e social do país. Priorizar por uma educação valorativa desse aspecto é fundamental a promoção do respeito às diferenças dos inúmeros atores envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, do qual também fazem parte os educadores. Tomando como foco o segmento afrobrasileiro, é inconteste que algumas ações no sentido de dar visibilidade à cultura negra e suas formas de expressões e neste caso, representações visuais. Pois, a construção da identidade étnica e sua afirmação se dão no embate com outros grupos sociais. A Lei 10.639/2003 é um passo extraordinário diante da necessidade urgente de criar ações reparadoras voltadas à correção das injustiças sociais que durante décadas proporcionou uma supressão da história e cultura negra. A razão mais coerente para se estudar hoje a História da África confirma a relevância desta temática para o entendimento da própria constituição cultural brasileira. O fato de o Brasil ter recebido um grande contingente de africanos já poderia ser fato suficiente para assegurar o intercambio historiográfico entre Brasil e África. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ A efetivação da Lei vem mostrar que abordar a Cultura Africana no âmbito da Educação é algo não reduzido a datas como o Dia Nacional da Consciência Negra e, no caso específico do Ensino de Arte destacar as produções escultóricas, as máscaras africanas, as tradições ancestrais transmitidas pela oralidade, danças, músicas, ritmos, mitos, ritos etc., portanto, abordar as influências africanas presentes na arte brasileira é demonstrar a profícua inserção do negro na produção cultural material/ imaterial do Brasil. Referência bibliográfica BRASIL. MEC. SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das relações etnicorraciais e para o ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana. Brasília: SEPPIR, 2005. ____________.SECAD(Secretaria da Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade).Orientações e Ações para Educação das Relações ÉtnicoRaciais.Brasília:SECAD, 2006. CONDURU, Roberto. Arte afro-brasileira (Projeto pedagógico). Belo Horizonte: Editora C/Arte, 2007. CUNHA, Mariano Carneiro da. Arte Afro-brasileira In: ZANINI, Walter (Org.). História Geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Walter Moreira Sales, 1983. FIGUEIREDO, Napoleão. Presença africana na Amazônia Colonial. Belém: Secult, 1990. FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Janelas do passado, espelhos do presente: Belém do Pará, arte, imagem e história. Belém: Prefeitura Municipal de Belém- Fundação Cultural do Municipal de Belém- FUMBEL, 2011. GODINHO, Sebastião. Antonieta dos Santos Feio: pintora esquecida do Pará (I e II). Jornal Diário do Pará, 19 fev. 1987, Cadernos 1 e 2, p.5. SILVA, Caroline Fernandes. O moderno em aberto: o mundo das artes em Belém do Pará e a pintura de Antonieta Santos Feio. 2009. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal Fluminense. Rio de Janeiro. Rosângela do Socorro Ferreira Modesto Graduada em Artes Visuais (UFPA) e Especialista em Educação para as Relações étnicorracial pelo IFPA, mestranda do programa de pós-graduação em arte – PPGARTE da Universidade Federal do Pará vinculado ao Instituto Ciência da Arte- ICA. Professora e Especialista em Educação da rede estadual de ensino- SEDUC- PA. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ - e-mail: [email protected]