IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA HISTÓRIA: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS. 29 de Julho a 1° de Agosto de 2008. Vitória da Conquista - BA. A RAPOSA E A ÁGUIA : RUI BARBOSA E J. J. SEABRA NA POLÍTICA BAIANA DA PRIMEIRA REPÚBLICA Silvia Noronha Sarmento Mestranda em História pela Universidade Federal da Bahia ( UFBA) E-mail: [email protected] Palavras-chave: Rui. Seabra. Política. Repúb lica. Este artigo pretende comunicar questões preliminares levantadas na pesquisa de mestrado A Raposa e a Águia: Rui Barbosa e J. J. Seabra na Política Baiana da Primeira República (1909-1923), que vem sendo desenvolvida no programa de pós -graduação em História Social da Universidade Federal da Bahia (UFBA) . O objetivo final da pesquisa é, através da leitura de discursos públicos de Rui e Seabra, fazer emergir elementos para a compreensão do projeto político dominante na Bahia naquele momento histórico. A periodização abrange do início da ascensão de Seabra ao governo estadual até seu declínio, em 1923, ano que também assinala a morte do principal articulador da oposição ao seabrismo, Rui Barbosa. As principais fontes d e pesquisa são textos publicados por Rui, Seabra e seus partidários em jornais baianos; além de discursos oficiais proferidos por ambos no Governo Estadual, na Câmara Federal e no Senado Federal. Através dessas referências, e tendo em vista um panorama político, econômico e social mais amplo, pretende-se identificar representações da Bahia, de sua sociedade, de sua organização política e de seu futuro , presentes no horizonte intelectual dos dois mais influentes membros da elite política baiana do período. Para empreender uma leitura desses dis cursos, contudo, é fundamental identificar a posição social de onde eles foram produzidos. Para isso, examinar -se-á aqui as origens sociai s de Rui Barbosa e J. J. Seabra , bem como sua posição na articulação política da Bahia e do país em sua época. Será enfocada, especialmente, a atuação de Rui e Seabra até 1906, isto é, num momento anterior à periodização da pesquisa propriamente dita. Origens sociais e ingresso na política Menos de seis anos separam o nascimento de Rui Barbosa, em 5 de novembro de 1849, do de José Joaquim Seabra, em 21 de agosto de 1855. Ambos nasceram em Salvador, numa época em que a província da Bahia passava por grandes transformações. A partir da segunda metade do século XIX, consolidou -se a transferência do eixo econômico do Brasil 2 para o centro-sul, especialmente para a província de São Paulo, onde a lavoura cafeeira desenvolvia-se em bases produtivas mais adequadas ao novo cenário internacional. Os senhores de terras baianos, especialmente aqueles ligados ao açúcar, perdiam a primazia econômica também no âmbito interno da província. Pouco capitalizados, viam -se cada vez mais endividados junto às casas de exportação e importação, parte delas estrangeiras, que gerenciavam uma espécie de sistema bancário informal na província (BAHIA, 1980; SAMPAIO, 1977; ALMEIDA, 1949) . As mudanças que ocorriam na economia não tiveram, no entanto, correspondência imediata no campo político. A Bahia ainda detinha, no Império, uma posição política de extraordinário destaque. Entre 1822 e 1889, foi a proví ncia com maior participação nos ministérios (19,16% dos ministros eram baianos), superando Rio de Janeiro (18,27%), Minas Gerais (13,25%), Pernambuco (10,05%), São Paulo (10,04%) e Rio Grande do Sul (6,39%). A presença dos baianos destacava -se tanto nos ga binetes liberais como nos conservadores e era marcante nos postos mais cobiçados, como a Presidência do Conselho de Ministros, mais alto cargo político abaixo do imperador. Dos 30 presidentes escolhidos entre 1847, quando o cargo foi criado, até o fim do I mpério, 11 (mais de um terço) eram baianos ( CARVALHO, 200 6, p.134, 217-219). Os políticos baianos mais destacados eram provenientes da antiga elite agrária, que vinha perdendo a preeminência econômica tanto no nível nacional (para o café) como no provincial (para o comércio). Com suas qualificações de estirpe e longa experiência de poder, entretanto, os barões e conselheiros da província sustentavam um poder político residual, visceralmente articulado aos destinos do regime monárquico. Era através do estabe lecimento de uma rede de contatos com essa elite tradicional que jovens como Rui Barbosa e J. J. Seabra tinham possibilidade de ingressar no mundo da política profissional. Nascidos em famílias urbanas, sem vínculo pessoal com a terra, os dois baianos pert enciam, todavia, a um segmento social profundamente associado ao dos grandes proprietários. Rui Barbosa era filho do ramo empobrecido de uma família bem relacionada. Seu pai , João José Barbosa de Oliveira, havia sido deputado provincial e geral, mas estava em má situação financeira e no ostracismo político na época de seu nascimento. Segundo Viana Filho (2008, p. 41-42), a certa altura era a esposa, Maria Adélia, que manejava o sustento da família, a partir da produção de doces pelos escravos da casa. A mãe de Rui era prima do marido, irmã de Luís Antônio Barbosa de Almeida, político de Salvador, e de Caetano Vicente de Almeida, futuro barão de Mucuri. O pai de Rui também era parente do conselheiro 3 Albino José Barbosa de Oliveira, ministro do Supremo Tribuna l de Justiça (VIANA FILHO, 2008; GONÇALVES, 2000) . As informações sobre as origens familiares de J. J. Seabra são menos conhecidas. Sabe-se que seu pai (também José Joaquim Seabra) era funcionário da Alfândega, cargo provavelmente obtido através de contato s sociais ou políticos. O pai de Seabra aparece numa lista de acionistas da primeira ferrovia que se tentou estabelecer na Bahia, ligando Salvador a Juazeiro (SOUSA, 2007, p. 16). Com apenas 30 ações, das 5 mil disponibilizadas na Bahia (a maior parte era negociada em Londres), era provavelmente um dos muitos pequenos acionistas da companhia, mas sua presença na lista mostra que estava participando de alguma forma desse empreendimento . A mãe de Seabra era irmã do contra -almirante Manuel José Alves Barbosa, futuro ministro da Marinha (CASTRO, 1990; SANTOS, 1990) . Embora desprovidos de grandes fortunas, e eventualmente até em dificuldades financeiras, tanto Seabra como Rui dispunham de certo capital social, ou seja, de contatos de parentesco ou afinidade com p essoas inseridas no mundo político e social mais restrito. Para ampliar suas credenciais de acesso, seguiram a trilha bem conhecida: formação universitária em Direito (Rui se formou na faculdade de São Paulo, em 1870, Seabra na de Recife, em 1877), ingresso na advocacia, atuação no jornalismo, apoio de um chefe político estabelecido. A inserção de Rui Barbosa na política imperial foi mais bem sucedida do que a de Seabra. Seu principal padrinho político foi o conselheiro Manuel de Sousa Dantas, velho amigo de seu pai e chefe do Partido Liberal na província. Foi na firma advocacia de Dantas e em seu jornal (Diário da Bahia ) que Rui se iniciou como advogado e jornalista . Com seu apoio, foi eleito deputado provincial (1878) e geral (1879) pelo Partido Liberal . O jovem Rui destacou -se na Câmara ao se engajar em polêmicas, rebater oradores famosos e participar da redação de projetos importantes. Incompatibilizado com parte do partido, não conseguiu mais se reeleger a partir de 1886. Conquistou, porém, prestígio nacional como jornalista, sempre atuando em campanhas a favor de uma bandeira política. Em 1889, a defesa intransigente do federalismo o levou a intensificar as críticas à própria monarquia, que até então defendia . Convidado a participar da conspiração repub licana poucos dias antes do 15 de novembro, o ex-monarquista Rui se tornou uma das figuras mais influentes do novo regime. J. J. Seabra não teve a mesma facilidade de ingresso na política imperial. Imediatamente após a formatura, foi nomead o promotor públi co em Salvador (evidência de bons contatos políticos ou sociais), retornando a Recife no ano seguinte para obter o grau de doutor. Em 1880, foi aprovado em concurso para professor substituto da faculdade de Recife (conquistou a vaga após viajar à Corte com as provas em mãos, para contestar o resultado 4 junto ao imperador), tornando -se catedrático seis anos depois. Estabelecido como professor e advogado em Recife, Seabra mantinha contatos com políticos baianos visando ocupar uma vaga na chapa do Partido Conse rvador, o que nunca obteve. Nas últimas eleições imperiais, em 1889, após mais uma recusa, decidiu se lançar como candidato independente. Fez dez conferências públicas em bairros de Salvador, mas foi derrotado (CASTRO, 1990). O acesso ao sistema político p arecia fechado para Seabra, pois não conseguia ser incluído na chapa dos partidos oficiais, nem se eleger de forma independente. Na primeira eleição republicana, contudo, esse quadro mudou. A elite política baiana hesitou o quanto pode em aderir ao novo re gime, abrindo espaço para a emergência de novos nomes, um deles o do ex-monarquista Seabra. Em 1890, ele já proferia “conferências republicanas” em várias cidades do interior da Bahia, como parte de sua campanha eleitoral. Eleito, seguiu para o Rio de Jane iro, agora capital federal, como um dos representantes baianos na primeira Assembléia Constituinte republicana. Era um deputado federal praticamente desconhecido, a não ser para os colegas e alunos da faculdade de Recife. Através de estratégias audaciosas, porém, Seabra não tardaria a se fazer notar . Anos depois, chegaria a ameaçar a dinâmica estabelecida entre os grupos dominantes na Bahia e seu principal representante no nível federal, o senador Rui Barbosa (ARA ÚJO, 1992, CASTRO, 1990). O bico da águia: o poder de Rui na Bahia Nenhum outro baiano detinha, nos primeiros anos da República, poder nacional comparável ao de Rui Barbosa. Se, no Império, a província contava com uma constelação de estadistas, na imagem idealizada por seus sucessores (LEITE, 2005 ), o firmamento da Bahia republicana tinha em Rui uma estrela solitária. Vice-chefe do governo p rovisório, ministro da Fazenda, ele era também o principal canal para as elites baianas junto ao poder central, com tudo que isso significava em termos de influ ência, benefícios, cargos públicos. Não por acaso, partiam da Bahia mais de 30% do total dos pedidos enviados a Rui enquanto ministro da Fazenda, como aponta Carvalho (2000) no artigo Rui Barbosa e a Razão Clientelista . A força de Rui na Bahia baseava -se também em questões menos comezinhas. Para os políticos baianos, era importante ter como aliado um conterrâneo cujas palavras (na imprensa, no parlamento, nos tribunais) tinham grande repercussão no país. O governador Luís Viana expressou esse pensamento em carta ao correligionário Severino Vieira, em 1896, quando este 5 tentou convencê -lo a não renovar o mandato de Rui no Senado, para agradar ao governo federal (ao qual Rui fazia oposição) : O Rui é um baiano, um brasileiro, tão eminente que, sem grave responsabilidade, não poderíamos assumir o compromisso de excluí -lo da representação do país [...]. Receiam o Rui? Ele nos faria mais mal fora do Parlamento. Não se lembra do que se deu por ocasião da exclusão acintosa dele do Ministério Ouro Preto? (VIANA FILHO, 2008, p. 382-383). A exclusão de Rui do ministério do Visconde de Ouro Preto, o último da monarquia, o levara a radicalizar as críticas ao governo e, por fim, ao próprio regime. Ao mencionar isso na carta, Luís Viana alertava sobre o poder do verbo de R ui, sobre os danos que ele causava a seus adversários. Não era prudente fazer -lhe oposição. O temor de desagradar Rui era maior do que o desejo de agradar ao presidente da República, que pedira sua exclusão da chapa . Ao longo da Primeira República, aliás, nenhum governador da Bahia (nem mesmo Seabra) ousaria tomar de Rui sua cadeira no Senado. Havia uma espécie de entendimento tácito entre Rui Barbosa e aqueles que governavam a Bahia nos primeiros tempos republicanos . Ninguém ameaçava a autoridade de Rui no plano nacional. Seu mandato no Senado, que era sua grande tribuna, continuaria sendo renovado. Em troca, Rui não interferia publicamente na política interna do estado, deixando espaço para os governadores conduzirem seus arranjos oligárquicos. Seus poucos afilhados políticos eram incluídos nos partidos governistas, não configurando uma corrente à parte. Rui não tinha nem um jornal próprio na Bahia, pré -requisito para todo agrupamento político do período. Apesar disso, sua influência na política estadual era muito grande. Na Primeira República, como aponta Leal (1997), a tensão entre o poder central e o poder local resultou em fortalecimento das instâncias intermediárias , os estados, agora com autonomia para eleger seus governadores (os presidentes de provín cia eram nomeados pelo imperador). O sistema favorecia a consolidação de organizações capazes de regular as disputas entre os poderosos locais, bem como de dirigir as negociações em nível nacional. As oligarquias estaduais da Primeira República brasileira, portanto, eram principalmente uma instancia de mediação entre o poder local dos coronéis – baseado na aquisição do voto, mas também no domínio mais amplo de uma territorialidade – e o poder do Estado em lenta expansão, expresso no exercício da justiça , da polícia, da coleta de impostos , na nomeação de empregos públicos, realização de obras, entre outros (LEAL, 1997). 6 Na Bahia da Primeira República , nunca se estabeleceu uma oligarquia estável. Vários fatores contribuíram para isso : o relativo equilíbrio ent re os diversos produtos de exportaçã o baianos até a década de 1920; a fraqueza da polícia estadual (mal equipada e em número insuficiente para a área do estado); e o precário controle do governo sobre o território, evidente quando se observa a pequena extensão das linhas férreas (símbolo e veículo da modernidade que se anunciava), que deixava m grande parte da Bahia distante da capital. Uma cidade como Vitória da Conquista, a terceira maior do estado segundo o censo de 1920 (mais de 84 mil habitantes) e o maior rebanho bovino da Bahia (quase 125 mil cabeças ) ainda tinha que usar caminhos de terra para transp ortar sua gente e seus produtos (SAMPAIO, 1999; FREITAS, 2000; LOVE, 1975; BRASIL, 2008). Por tudo isso, na Bahia, o compromisso coronelista era frágil. Os coronéis das regiões mais distantes, como o Vale do São Francisco e a Chapada Diamantina, muitas vezes entraram em conflito com o governo estadual, chegando a sobrepujá -lo no confronto aberto de 1919. Havia intensa competição entre os grupos organizados em torno dos chefes políticos e os acordos eram instáveis. A fragilidade do pacto oligárquico deixava as elites locais mais dependentes da força de Rui Barbosa no plano nacional. Verdadeiro ícone do liberalismo nacional, Rui mantinha uma relação próxima co m aqueles que controlavam o sistema político em sua terra natal. Tornara-se uma espécie de eminência parda na Bahia republicana , embora negasse qualquer ascendência sobre os governantes do estado. O próprio Seabra tratava Rui Barbosa com deferência. Como deputado, aplaudiu medidas polêmicas adotadas pelo ministro Rui: o plano financeiro do Encilhamento e a queima dos arquivos da escravidão (CASTRO, 1990) . Em contrapartida, foi defendido por Rui em 1892, quando desterrado na Amazônia por fazer oposição a Flo riano Peixoto. Anistiado, conseguiu se eleger deputado federal novamente, contando com o apoio de Rui, dentre outros. De volta à Câmara Federal, Seabra retornaria, então, à estratégia que vinha utilizando desde o início da República: firmar alianças no pla no nacional e usar o apoio para se fortalecer na Bahia . As manhas da raposa: a Bahia de fora para dentro O primeiro deputado a pedir a palavra, na Assembléia Nacional Constituinte que se reuniu em 15 de novembro de 1890, foi J. J. Seabra. Manifestava -se pela criação de uma comissão para, “em nome da nação brasileira ”, cumprimentar o marechal Deodoro, chefe do governo provisório. A proposta foi aprovada por unanimidade . O episódio é indicativo da 7 estratégia que Seabra adotaria daí em diant e: assumir posiçõ es destacadas, através de seus recursos de oratória e da disposição de se expor despudoradamente , firmar alianças no plano nacional (algumas anunciadas na imprensa, outras bem mais discretas, como a aproximação do grupo empresarial Guinle ), e usar disso para se fortalecer na Bahia. Depois de aderir a Deodoro e de ser opositor feroz de seu sucessor Floriano , Seabra apoiou os dois presidentes seguintes: Prudente de Morais e Campos Sales, chegando a líder do governo na Câmara. Sua defesa das propostas do gover no, quando da redação do Código Civil brasileiro, foi alvo de comentário irônico do deputado pernambucano Medeiros e Albuquerque: Nomeada uma comissão de vinte e um membros, o sr. Seabra se arvorou em seu presidente. Homem para gritar e esmurrar mesas, a título de estar fazendo alta eloqüência e declamação parlamentar, a sua incapacidade para qualquer trabalho de pensamento revelou -se desde logo [...] Depois, para ele, aquilo era uma empreitada como qualquer outra; discutir o Código Civil ou defender uma v iolência policial do Governo é exatamente, no seu espírito, a mesma coisa. Quando ele “pega num serviço” o que quer é dar conta dele, brutalmente, o mais depressa possível. Se é coisa de tribuna, o homem esbraveja, fica apoplético, esmurra valentemente a b ancada – e sai radiante, com a tarefa concluída. Tinham -lhe dito que era preciso dar pronta uma discussão do Código. Ele ajustou o serviço e fez. Fez – do modo brilhante que todos viram (BARBOSA, 19 69, p. 129-130). Apesar das críticas, Seabra colheu fruto s de sua atuação no nível nacional. Em 1902, por indicação do ex -presidente Campos Sales, foi nomeado ministro da Justiça e Negócios Interiores do governo Rodrigues Alves. A nomeação é especialmente interessante porque não seguiu as normas implícitas da chamada política dos governadores . Não foi submetida ao governador da Bahia, Severino Vieira, que tentou mesmo derrubá-la. Mantendo Seabra no ministério, o presidente tinha um ponto de tensão constante com o governo baiano. Uma evidencia dessa tensão foi a atitude considerada “rebelde” do governador José Marcelino (sucessor e então aliado de Severino Vieira) de estimular a bancada baiana a exigir demandas do governo federal (ferrovias, obras do porto etc). A reunião dos baianos encarregados de pressionar o go verno ocorreu na casa do senador Rui Barbosa o qual, apesar de tudo, vinha apoiando Rodrigues Alves. Àquela altura de sua trajetória política, Rui lutava para deixar de ser o mais temido opositor dos governos republicanos e passar a ser , ele mesmo, um candidato viável à Presidência do país. O ministro Seabra, por seu turno, começava a forma r seu próprio agrupamento político na Bahia, que já contava, inclusive, com jornais favoráveis (Correio do Brasil e depois O Norte). Os primeiros seabristas eram atraídos por sua liderança carismática e pelas 8 possibilidades representadas po r um dos ministros mais fortes da República. Seabra tentou atrair para sua órbita o próprio governador José Marcelino, instando -o a romper com Severino Vieira, em vão. Marcelino não só p ermaneceu fiel ao antecesso r como divulgou publicamente a carta de Seabra nesse sentido, forçando os seabristas à oposição ao governo estadual. A primeira tentativa de Seabra se estabelecer na política baiana foi frustrada também por revezes na política na cional. A candidatura presidencial preferida por Rodrigues Alves (pela qual o ministro Seabra se esforç ou muito) fracassou diante das pressõ es do grupo liderado por Rui Barbosa e Pinheiro Machado (o chamado Bloco). Ao sair do ministério, em 1906, Seabra enfrentava a hostilidade do novo governo federal e a fúria dos governistas baianos, que fariam de tudo para eliminá-lo da política estadual. Sem oportunidades na Bahia, ainda tentou se eleger senador por Alagoas ( através de acordos com a oligarquia familiar Malta daquele estado). Foi eleito com a regularidade que só uma oligarquia bem assentada no poder, como a alagoana, poderia proporcionar. Apesar disso, a eleição foi anulada no Congresso Nacional, provavelmente por ação de Rui e Pinheiro Machado. Sem cargo público, sem trânsito no governo, Seabra ingressou num período de ostracismo político. O equilíbrio da relação entre Rui Barbosa e os governantes baianos parecia restaurado . A instabilidade política da Bahia e os planos do próprio Rui (candidatura presid encial em 1910) não demorariam , entretanto, a viabilizar o retorno de Seabra . Dessa vez, a articulação com o poder central possibilitaria uma caminhada mais decidida em direção ao governo estadual, que culminaria no episódio do bombardeio de Salvador de 19 12. Breves considerações finais Procurou-se destacar alguns aspectos da formação e da inserção de Rui Barbosa e de J. J. Seabra na política da Bahia e do país. Os dados permitem breves considerações. Em primeiro lugar, vale observar que Rui e Seabra eram homens do Império, submetidos ao processo de socialização (formação acadêmica, profissão , vinculação a chefes estabelecidos ) comum àqueles que compunham a elite política imperial – na qual, como se viu, os baianos tinham amplo espaço. Com a Republica, os políticos da geração de Rui e Seabra viram -se diante de uma nova conjuntura e tiveram que oferecer novas respostas. No caso de Rui, o prestigio nacional acumulado ao fim do Império e inicio da Republica permitiu o estabelecimento de uma relação especial co m os grupos que dominavam o poder estadual. A Bahia sustentava a posição de Rui no país , garantia sua tribuna no Senado, e em troca Rui deixava espaço para os arranjos oligárquicos internos, interferindo de 9 forma indireta na política estadual. Essa dinâmica (sem duvida pontuada de conflitos) teve seu equilíbrio ameaçado com a emergência de Seabra como um outro representante possível da Bahia no cenário nacional. Sem dispor de base própria no estado, Seabra parece ter construído seu grupo político de fora pa ra dentro, especialmente a partir da ocupação do ministério , em 1902, com todas as vantagens que a ocupação de um cargo desse nível pode oferecer . Ao contrário do que se poderia imaginar a partir dessa origem, contudo, o seabrismo não se restringiu ao mero grupo de apaniguados de um ministro. Mesmo com o ostracismo do chefe, os seabristas continuaram presentes como um grupo específico, que aos poucos constituiria um discurso próprio na política baiana . Formado no Império, J. J. Seabra soube perceber as características da política republicana e a necessidade de dialogar com novos atores políticos, inclusive os trabalhadores urbanos organizados. As características do discurso seabrista, e as convergências e divergências com o discurso de Rui Barbosa, contudo, já são assunto para investigações posteriores. Referências ALMEIDA, Rômulo . Traços da história econômica da Bahia no último século e meio. Salvador: Revista de Economia e Finanças, 1952. ARAÚJO, Dilton O. Republicanismo e classe média em Salvador . 1992. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1992. BAHIA. Fundação Centro de Planejamento Econômico (CPE) . A inserção da Bahia na economia nacional – 2ª etapa (1889-1930). Salvador: CPE, 1980. BARBOSA, Rui. Anexos à Réplica. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa/Ministério da Educação e Cultura, 1969. ( Obras Completas de Rui Barbosa, 1902, v. XXIX, t. IV, p.129 130). BRASIL. 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