POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
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Cícero Melo
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A TERCEIRA PELE
Procuro a carne da palavra adusta,
Aquela que insorvida se consome,
Aquela cujo selo cai à fronte
Das palavras irmãs e se incrusta
Nas pedras da razão, no verbo nômade,
No dedilhar de febres e de angústias,
No delírio senil da sombra rústica,
Longa noite de sal e medo insone.
Procuro a carne da palavra augusta,
Aquela que se eleve e se prolongue
Em mistério sutil, sedosa e onde
Repouse mar, celebração e bússola.
Procuro a carne da palavra morta
Que se aviva, me bate e me conforta.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
DIÁRIO DE BORDO
Tinha dois sóis e navegara leste
do limite de um sul onde pastara
um cavalo sem cor; mas dor e peste,
outro cavalo de algas lhe inundara
as febres das mãos. Navegara norte,
as fronteiras das águas onde deitara
um mar sem meses, sem medida e morte,
e um demônio cego o transmudara
em doze cavalheiros, doze damas,
agora acomodados ante a mesa
erguida das espumas e de escamas
de um leito anterior, nunca sonhado.
Não navegara oeste, a sombra presa,
no corredor do tempo acorrentado.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O LEGADO DE SAL
O legado de sal me vem do mito,
Olhar noturno, oculto e renegado.
Janelas interditas, deus velado,
Cinzas de sol que dorme o infinito.
"O Grande Pã morreu!" - as dissolutas
Memórias do deus morto são viscosas.
Vascoso tempo virgem, de onde rosas
São ternamente sombras insepultas.
Ó deus combusto, decomposto justo,
Morrer é evadir-se da paisagem.
Outros deuses virão para a pilhagem,
No duro incesto da daninha e o busto.
Mas, deuses inacabados e infecundos
Na moldura de mundos moribundos.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
OS AZUIS E AS FEBRES
Outra casa, porém, o transbordara
no desenho da mão, antigo instante,
que a voz cadente de cabala errante
ainda queima os ventos que inventara.
Tinha outro filho, mas, desova rara,
vinha do sonho escuro que dormia
as proezas do pai, e a noite erguia
um cais de medo e nunca o procriara.
Desenhara três febres: dois azuis
e a linha dessecada sobre a víbora
de amor e morte se tocando nus.
A mão da sombra redesenha o porto,
o vestido do sol e sua cítara
de veneno e de mar vinoso e morto.
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Cícero Melo
O VASO QUEBRADO
Tenho dentro de mim todas as mortes
e as lembranças em taças infinitas
se contorcem em sais e faces tortas,
entre sombras vinagres e vinditas.
As lembranças em laços se confortam
como anéis absurdos e insalubres.
Sangra o corte na tela decomposta,
estilhaços de mênstruo e mátrios úberes
Uma carga de morte em mim aborta
o dissoluto branco em pele negra
que, reflexo invisível, se dissolve
sem consorte, sem vórtice, sem espelho,
na paisagem proscrita do passado,
no tambor de um mundo condenado.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O TAPETE DE SOMBRAS
Mais uma noite te fere e te casula
A outra noite que dá e desampara,
Com mão de fel e nérvea navalhada,
O teu peito irredento de ternura.
Alma incolor, em desamor, desata
A fronteira da sombra e da loucura.
Somente o mofo, a medular cicuta,
Dá tessitura a teu mar de nada.
Renascida da seda dos passados,
A nave garra a solidão medonha,
A memória de infernos congelados,
Suas celas de cinzas e de sombra.
É como se, perdida a humanidade,
ladrasse no teu céu uma cidade.
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Cícero Melo
TRÓIA INCENDIADA
Sempre perto do mar e porto ausente,
Sempre perto da morte e da desfeita,
Marinho, modelou-se de acidentes
Das dúbias curvas que a paixão sujeita.
A memória de Tróia ainda queima
Dentro de si a fúria indeiscente.
O antagonista ausente ou morto espreita:
É o convite à dissoluta frente.
A dor que o tempo em seu afã costura
Breve lhe bate a barba baldeada,
A face avinagrada da loucura.
Presságio prematuro ou já tardio.
Ora absorto retorna o peito à adaga,
Em olhar enfadado e mar sombrio.
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Cícero Melo
PSIQUÊ
Asas desnudas, sempre ao som do outono,
lasciva à sombra, tecelã sem véu;
silvestre acende de fragrância, um céu
aos deuses ébrios, frenesi de sono.
Perfumes, poros, cortesãos sem dono,
O púbis plúvio, reiterado réu.
Eros inflama junto ao peito ao léu
os caminhos sedosos do abandono.
O botão da manhã enfarta à flor.
A alegria projeta a sombra rosa
nos doces sítios em que repousa amor.
E despertas, paisagem deleitosa,
os orgasmos finais de luz e ardor
da borboleta ao vento, incestuosa.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A FRÁGIL NUDEZ DE AMAR O IMPOSSÍVEL
O recanto do olhar revela amor,
inconsistente e nu, porém velado.
Que sigo a desvendar-lhe desarmado,
que o mal que me mata não tem cor.
Corrijo: tem a cor curva dos cabelos
do mar angelical que banha e bate.
Tão bela, mas distante, o duro embate
é de amar também os pesadelos.
Que só de sonhos se constrói a garra
e a coragem de compor-te o canto
que nunca ouvirás, pois se desgarra
o desejo presente e o longo encanto.
A paixão do silêncio solta e amarra.
Que olhar revela amor despido o pranto?
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O CAMINHANTE E SUAS SOMBRAS
Nobre senhora que de longe acenas
ao peregrino ausente do teu beijo,
primavera sutil em voz serenas
a sanha sagitária do lanceiro.
Fluidas canções silvestres acorrentas
à paisagem, enguia dos teus verdes,
o corpo nu que puro se acidenta
nos sentidos desnudos dos espelhos.
Viscosa amada, vegetal de ardores,
banido do teu seio o peregrino
parte às ilhas de insensatos amores.
Que o espera além dessa fronteira
de ternura, deposta em desatino
em tua face oculta e feiticeira?
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O ÍNCUBO
Arde tersa e hirta em teu corpo curvo
a centelha de um deus sem cetro e templos.
É serpente de ardor de um sol noturno
que se nutre das ervas dos teus membros.
É um víbora eqüina que repasta
os odores melódicos do abandono,
em cadência de cios que se alastra
pelas ondas das peles e dos cômoros.
Rotundas coxas, ventre, eretas crinas,
língua de fogo azul pelo teu dorso.
ó luxúria de tato enfurecida!
ó sinuosa amada, rosa neutra,
Alimento da sombra do meu corpo,
Predadora de mim e minha presa!
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Cícero Melo
BUCÓLICA
Resta mudo o pastor baixo esta faia,
na sombra engravidada à densa aléia.
Se flauta não decanta à linda déia,
por que macula assim a tarde gaia?
Tem cinzas de paixão na tosca alfaia
e roto o coração pela alcatéia
do silêncio e do sal da panacéia,
da esperança sedenta que desmaia.
Somente o sol, silente e solta jóia,
navega-lhe a retina, em sal dilui-a
nas escarpas dum céu que não o apóia.
Que a tarde na paixão não se conluia.
Junto ao jardim, jandaias e jibóia
quebram o crespo arbusto da aleluia.
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Cícero Melo
SOB OS ENCANTOS DE CIRCE
Até regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
Não pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcações de azedas quilhas
Que frágeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Seduções de sereia, o que me sei
É que o amor fendido vou demente
Singrando a solidão de amargo rei.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
ENQUANTO ACORDAS...
Chove na moldura do tempo.
Quem ergueu a mão para criá-la?
As cortinas abraçam o vento
Um deus adormece na sala.
Um coração sempre se cala
perante a paisagem esquiva.
E a curva dos ventos abala
os caminhos da chuva viva.
A sede do deus trás a chuva.
O vento remove seus limites
de corpo colado à moldura.
Mas que desdém de chuva morta!
Um deus azul quer que o imites.
Desculpe: bateram à porta.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A MOSCA INSONE
Um lago à meia-noite a lua adentro.
Mede o vento do tempo um coração.
A lua a luz ulula, ao ludo centro
dos lóbulos os lobos uivarão.
Não uivarão os lobos se não entro
o indistinto sinal de tua mão.
Há lobos e há loucos, o epicentro
continua a ser lago da paixão.
Uma lua do lago largo luz
o espelho de musgos do destino,
a réstia da hora amarga que transluz.
Em que o sonho desdenha do acordado
vento e se enlaça noutro, como um uivo
embaça a voz do amor de um enforcado.
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Cícero Melo
NICOTINA BRASILIENSE
Reis obesos trituram opulentas reses
em convulsivas víscera, senil ganância.
Ruminando ante o pasto, garra a sarna verde,
babam, opus de bestas, borras de abundância.
São deuses pecuários indo à tripa forra,
a digerir estábulos e faunas e bílis.
Com corações castrados comem cárneas córneas.
Vomitam, vulturinos, nas faces etílicas.
Reis rotundos arrotam na fausta pastagem,
lavouram o véu verde e vil do vacum vácuo,
libam licores, rubros da ardosa voragem.
Bacantes gargalhadas manam da avareza
de reis e deuses nus, que, bêbado espetáculo,
sorvem o próprio sangue e morrem sobre a mesa.
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Cícero Melo
DOCE CRISTO
Doce Cristo que o tempo esfuma a face,
Limo e repouso sangram-te a brandura.
Sarça seivosa tua voz murmura
A sedosa medida da sintaxe.
Deserta do teu corpo a lã futura.
Cristo disperso e só, reflexo nasce
na cor da córnea em que Babel desfaz-se
em vitrais virulentos, véus de usura.
Cristo sempre a nascer e sempre morto,
sem voz de lêvedo e postulado porto,
à candeia das cãs o céu não baste.
As ervas decompostas pela cal
redesenham nos brancos do Natal
os vendilhões do templo que expulsaste.
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Cícero Melo
AS LÁGRIMAS DE CIRCE
Que deus te consumia,
que lhe chorava o mar?
Outra casa o perseguia
no verde ver de olhar.
Grande mar encanta o timbre
de voz que lhe amor guardava.
Era um canto, um longo cimbre
que outro ardor lhe sonhava.
Não sabias que o perdias
naquelas linhas de praias
em que nunca envelhecias?
Sempre núbil, sempre areia,
a cor do olhos desmaias
no corpo que te incendeia.
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Cícero Melo
OS CAVALOS DA ALBA
Eu, guerreiro de um deus aqui banido,
Nesta cela de sonhos acidulada
Combato os dias vãos com rubra espada,
Cavalgando corcéis de aceso olvido.
Renasço sempre ao sul da madrugada
Meus cavalos de luz de um sol partido,
Quando a noite decai sem um gemido
Forjando do inimigo a face alada.
Guerreio sempre ao claro a fera esquiva,
Aquela cuja garra a morte imana
Em sal e sangue, sândalo e saliva.
Mas é de acontecer, enquanto se ama
Que, guerreiro, me quede a adaga ativa
Quando vibrante o coração me inflama.
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Cícero Melo
SOLUS
Em vinhas sem vindima envolto andava,
Silente em sol e sal de semiluz.
Retina entorpecida, sabres nus,
Sangue de um tempo morto - e definhava.
Uno cristal de fel que lucilava
A sediça memória de uma cruz.
Errava a rota vã que à cã induz:
Era um vulcão extinto, muda lava.
(Quem é esse que trás os pés cativos
À sentença de acasos e de meses,
Vago morto que aprende com os vivos?
Quem é esse de sonhos insepulto?)
Me perguntaram e neguei três vezes
Que era eu mesmo pelo mundo oculto.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A TORRE INCONSÚTIL
Era a casa de Jorge frente à torre
Onde morava um deus adormecido.
Que luxúria de gesso e tinta podre,
Um sabor de poema sempre lido!
Era a torre pousada sobre a sala
Onde restava um deus - nunca acordou.
O sono que o cobria era cabala:
Inconsistente e crua se criou.
Era a torre de Jorge frente à minha
No jogo do xadrez que à mão impele
A dupla dor de combater sozinha.
Era do Jorge insone a torre imbele
Que nunca a se exaurir, sempre continha
Dois Mundaús caindo sobre a pele.
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Cícero Melo
O TERCEIRO TRONO
O mar ao sul, cristal, amor ao norte,
Carne dos sonhos no delírio eterno.
É temporão o céu no anil do inferno.
Os deuses dormem nus numa água-forte.
O despertar de um deus é sua morte,
No mais sutil verão nada um inverno.
Dos ossos dos azuis rebenta terno
A cal do sangue do primeiro corte.
As mãos do deus sobejam as loucuras,
A sedução das pontes circunflexas,
Labaredas de sons, terror, ternuras.
Largo é o engenho da primeira voz,
ó palavras de mar à luz conexas:
Um deus se reconstrói dentro de vós!
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Cícero Melo
OITAVA RONDA
Não servirei de pasto ao mês de agosto,
Hidra solerte de solífugo hausto,
Garras de tempo, de fuligem fausto,
Sangue de lírios a arder no rosto.
Agosto rude, reticente aposto,
A quem te coube desvelar o rasto,
O sul dos sonos, o carinho incasto?
A teus assédios cederei meu posto?
Agosto agônico e algoz augusto,
Alonga as horas o martelar de Hefesto,
Deponho a graça sem estema e o busto,
Abraço o leito do invernal incesto:
Avesso ao vinho vil de amargo mosto
Não servirei de parto ao mês de agosto.
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Cícero Melo
EQUINÓCIO
Saginada estação, o sangue estreme
Rosa a carne do vento redomado.
Indecente serpente o tempo freme
Na calidez do outono nacarado.
Sagitada monção deu-nos verão.
Ora é tempo dos laços inconclusos,
Mãos equinociais, salubre grão;
Portal de ventre o carpo, azuis reclusos.
Sal e paixão são frutas deste outono
De sombras de carneiros sobre o sol.
Um coração deposto do seu trono.
No encanto chove no silêncio garço:
Das asas da serpente um rouxinol
Faz silibino o céu do sul de março.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
AO SUL DO SONO
Sacerdote das antigas oferendas,
O selo crucifixo sangro ao seio.
Desvelo o linho pelo seu enleio,
Numes sem fontes e do limo lendas.
Meus animais são corsos e seu arreio
Tem na voz da paixão a sebe e as tendas,
O nácar do vestir das virgens sendas
Ó deuses infantis, vos incendeio!
Entranho céu dos ancestrais sem cimbre.
A melodia domada na memória,
Desperta o sal de um caudaloso timbre.
O que não dorme, um dessendento mu,
Rasga as águas do azul e verte a glória
De uma rosa sagrando o corpo nu.
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Cícero Melo
DUAS CHUVAS
Esta que aqui morreu, moça e donzela,
Deserto chão de limo circunciso,
Morreu-lhe tudo menos o sorriso
De chuva recomposto na janela.
Amou belo menino, que se ergueu
No refluxo medonho do abandono.
A donzela de sonhos enlouqueceu
Na sombra de um demente e negro sono.
Em veneno de sonho e bruto mar,
O moço também morreu e virou mito.
Hoje é um deus de búzios, sem cantar.
A donzela sem fim, estrela baça,
Me desenha, de longe, do infinito,
O sopro do afogado na vidraça
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Cícero Melo
VÊNUS FURIOSA
A semente do amor rebenta a chama
e transita de novo o ser amado.
Ardor de mar sem foz, torpor alado.
Mas, se Eros te foge, o amor reclama.
Bem, é sedosa a casa de quem ama,
E hercúleo o jardim do seu cuidado.
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Cícero Melo
OS ANÉIS DO SONO
Serpentes de cavalos
entoam em teu ouvido
e apunhalam o olho,
o lírio da fenda.
Agora não dormiste.
Uma fatia de tempo
transmudaste em pão,
a íris do gozo.
Além das montanhas,
as casas coloridas
dispostas na estante,
uma coroa de lagos.
Antigamente, a antiga amante,
colocava flores no teu túmulo.
Ícaro, sempre náufrago,
sonhavas pássaros
sob um sol de cristal e tempestade.
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Cícero Melo
NATAL DEPOIS
Seu José toma cachaça,
Madona Maria esmola
e Jesus, bem pequenino,
pelas calçadas se esfola,
com seus olhos de assassino,
cheirando os sonhos de cola.
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Cícero Melo
A TOALHA VERMELHA
Um adolescente transvasava
o adulto que vivera vinho
no pequeno teatro que engendrava.
Era de um circo a declamar-se casa
e cavalos circulares sucubatos
na demência do sêmen que sangrava
os treze bailarinos do relógio
que acabava.
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Cícero Melo
I TAVERNA ALÉM
Curvas dos olhos do estio,
a que ventos levarão?
Vagas, limo, volição,
vulva de terra no cio.
Prostituta perdição:
todo poeta é desvio.
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Cícero Melo
II TAVERNA ALÉM
Bufão de amor transeunte,
eu não sou rio, sorrio.
O rio desfaz-se em peixe,
nas redes do amor me crio.
O rio comunga peixe
(É um peixe medievo!)
Andado de mim e lúdico,
sou torrente que não levo.
O rio transforma em ilhas
o amor que nasce em nós,
inventando um rio em mim
cuja nascente tem voz.
Truão nas glebas do tempo,
vou a divertir amor,
vagando vidas e vinhas,
trovando vergéis de error.
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Cícero Melo
III TAVERNA ALÉM
Que a vida não se teça de um só fio:
tose a rosa sediça do acaso
e seja um rio.
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Cícero Melo
IV TAVERNA ALÉM
Inda me resta a loucura,
esta fortuna de ter
desconcertada ventura:
nunca estar vivo e morrer.
As lágrimas da ampulheta
encharcam os olhos da hora.
Sangra de silêncio a seta:
morrer nunca é ir embora.
Vagar, candeia ilusória,
próprio de mim ser cativo.
Decerto desejo a glória,
porém depois de estar vivo.
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Cícero Melo
V TAVERNA ALÉM
Como o tempo corre e cansa
no relógio do meu peito:
Hoje eu sou uma criança,
ontem era um homem feito.
Como o tempo recupera
os outros tempos do sonho,
o longo quintal da espera
do menino que reponho.
Sou menino recomposto
de tempo, sonho e enfado.
nas tendas de um rei deposto
todo presente é passado.
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Cícero Melo
VI TAVERNA ALÉM
Que dor terei agora,
se pelo mundo além
decifra-me o sal da hora
de um sol que nunca vem?
Curvo a rosa do tempo
na singradura da alma.
O que traduzo é vento,
ou indiscreta calma?
Primeiro e nunca próximo,
desdenha-me o caminho.
refaço a rota do ócio
deste indistinto vinho.
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Cícero Melo
VII TAVERNA ALÉM
Ambíguas águas do mar:
ganhar a vida é perdê-la.
Sobra-nos o amor que casa
o limo à lã da estrela,
Amor agasalha a alma
com os vestidos do encanto.
Aragem, suave, acalma
o corpo em desnudo manto.
Amor estraçalha a alma
como faca de açougueiro,
ou como a macia adaga
do vento, sul, traiçoeiro.
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Cícero Melo
VIII TAVERNA ALÉM
Decerto não morri,
perdi o sono
nos cossenos dos rios
sem dono.
À moldura do corpo
agrego o tempo,
mas não aquele do morto,
mas vento.
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Cícero Melo
IX TAVERNA ALÉM
Serpentes sobre o sol. Aurora
debruçada no teu rosto.
Crinas de vento nos cristais do tempo.
Silêncio. O germem do encanto
te pensava águas.
Vinhas das febres.
De paisagem não dizes.
Aqui não há dois verdes iguais.
Ao lagarto curvas e vôos
indecisos entre os arbustos sonolentos,
espreitas o cantochão de vento
e seus aéreos rios.
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Cícero Melo
X TAVERNA ALÉM
Às respostas da paixão
Mergulham comigo dentro.
Rosam desvio e desvão
Na rosa que vai ao centro
Da morte que livra a asa
Pesada da gravidade.
Longo sonhar que descasa
Ave, vinho, tua idade.
Senhora que não tem brios,
Que não tem sagas nem freios,
Marinha sem ter navios,
Sabendo-me o sal dos seios,
Crescente de mal me quer,
Sangrados senos do sonho.
A noite te quer mulher.
Mistério que não deponho,
A renegar, cor dos passos,
Os dentes roxos da sorte.
Dá-me astrolábio e compasso
A desnudar esta morte.
Morte que o tempo vomita.
"Não morri Mário Faustino",
E o lume do limo agita
A canção de ser menino,
A cantar além de ti:
"Eu fui poeta e morri!".
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Cícero Melo
XI TAVERNA ALÉM
Pele enrugada de rio.
Corso luminoso andando.
Celulite de atavio.
Esta cadeia falhando.
Eros e mirra arrebato.
É este rio quem mato?
Ângelo Monteiro freqüentava o rio
como uma cascavel paralela.
Madre, esse senão me carrega
como uma verbena sem ar.
Somente um rio conjuga
o teu leito e quem me dorme?
Isto era um coração falando
a outro coração então pastando
águas.
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Cícero Melo
XII TAVERNA ALÉM
Silêncio. O tempo está presente.
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Cícero Melo
AHHA AXMATOBA
Há um assassinato em cada rosa
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Cícero Melo
A BARCA DE MEFISTO
Demônios são estúpidos.
A sombra de Goethe
diz tudo o que sofre.
Um passo apressa,
outro colhe o paraíso.
O inferno está aberto.
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Cícero Melo
MATER ANTICA
Era marinho e repousava o tempo.
A esposa era má, o filho incréu.
Quando um deus ascendia sob o vento,
a mãe, marinha, o mantinha ilhéu.
Outra mãe porém o folheava,
que mães são mãos presentes, e segredos.
Nas entranhas dizia que matava
a devoluta carne sem os dedos
que a mãe mais remota acarinhava.
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Cícero Melo
A TABERNA ANTERIOR
Longe de mim e do mar,
vagando vácuos e vagas,
a navegar por navegar.
Respiro a paisagem núbil,
laços e liras do vento,
a navegar sem navegar.
Tempo e memória se casam
na encruzilhada de ser.
Resposta que se resume
em nunca poder viver.
Longe do mar e de mim,
longe de mar e do mundo,
me destruo em todas coisas,
me construo em meu profundo.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O QUINTO NARIZ DA BESTA
Acidentalmente juntos,
as bombas criam digitais
nas retinas.
Logo mais abaixo,
há rios
e navios voltando do inferno.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O GOLEM
Guardo o poema da Criação
E as faces dos deuses
Em minha memória de argila
E nudez primogênita.
O primeiro vento deu-me o espaço,
com corpos celestiais,
e uma casa.
O segundo, o tempo e o nada.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
PÓRTICO
Celebro a vida e suas incontáveis tendas de acasos
e o acaso por suas inesperadas armadilhas.
Estrangeira, a vida é o catalisador do tempo,
irmã siamesa da morte e sua ilusão de nulidade!
Celebro a vida e suas ansiedades contundentes
e suas espirais de desejos e suas libidos mágicas,
alba que ornamenta as retinas púrpuras do caos
e acende as manhãs das almas em ternuras e rocios.
Estrangeiro, celebro a vida e suas redescobertas,
centelha que explode no eterno sono dos deuses
e redime esta misteriosa operação do acaso,
e o acaso por suas inesperadas álgebras.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
SUITE MARINHA
O mar não morreu: espelha um deus
de sândalo e de equívocos
Memória dos sais.
O mar não morreu: um deus tomou-o
em sua epiderme de delírios.
Um cardume de luzes unge a fronte
desse que é o mar do deus adjetivo.
O mar não morreu: cevo-lhe as garras
líquidas e esquivas
Sei que sou do deus onde o mar deita
suas ovas e seus teares
e dorme.
O mar não morreu: dessangra os olhos.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A REGIÃO DOS SONHOS
Um deus se estende nos contornos do silêncio,
gozos e ágatas
Corça recôndita da primeira curva.
Roto, esse deus
é pélago e pústula.
Ínclita redoma do acaso.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
JANELAS NOTURNAS
amor amor alado amor
vê as lascivas víboras da vigília!
esvai-se a noite lázara do meu tato
um abutre de sonos silvos
de medo emudecem-me a medula
desperto ázimo do torpor de ácido
labaredas labaredas arquiteturas
vísceras de deuses mortos um sapato
repousa na retina do silêncio
(onde as víboras onde os silvos dor?)
a lamparina se suicida temulentas
as janelas da noite abro em cor.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
AMADA LÚDICA
Bela e intangível lâmina
na trajetória do acaso,
de tua linhagem emanam
cristais de rosas e cardos.
Redomas de contingências
a ternura que recrias,
agrária amada, no templo
de meus confinados dias.
Bela nave de memória,
ondulas mar de basalto
da retina que te isola.
Ó bela invenção da fera
adormecia no salto,
és flor de metal e hera!
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
INICIAÇÃO
Os estilhaços do silêncio vão
Sangrando as veias do sedoso nardo.
E o sol, retina de veneno e cardo,
Sagra-me os olhos na primeira unção.
Cumpri meus ritos, lavorei meu dardo.
Dos meus desvelos destilei paixão.
Reponho as ervas ao sedento chão.
As urzes nuas que em meu púbis ardo.
Agrária ao mundo sou alheia à chama.
Ao ver a fonte que nas coxas crio
Rasgando as vestes de vermelha rama.
Seivoso ventre de raivoso rio,
Vou bela e nua e selene e alada
No odor virente do primeiro cio.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A MOTIVAÇÃO ROSA
O que motiva essa rosa
além da acesa ternura,
senão o rubro que dosa
minha paixão e loucura?
O que teceu essa dor
que rosa essa rosa ativa,
senão os ventos do amor
em minha face cativa?
Casta rosa, que neblina
a rama de amar me tosa!
Vem cintilante assassina!
Rosa rosa rosa rosa!
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
LUA NOVA
Palavra mar, sedenta que não dorme,
nudez a dedilhar o tempo em lava,
a recorrente voz de um deus te vaga,
nebulosas de peixes, outono, um trono.
Um deus a corda fia do oposto ventre
que nunca adormece: a si desova
mundos, em mim se usurpa,
em nós, memória.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
CICATRIZ NA VIDRAÇA
A luz esconde o dom de ser eterno.
Demônios,
o que se traça sob a farsa,
se quando choves,
é algo assim como uma máscara?
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
GENUS IRRITABLE VATUM
Para Orley Mesquita
E quando a morte acabar,
desnudo saltério dos lábios,
onde te alojarás, nomeador de numes?
Tecerás a seda das palavras inconclusas,
o gume adocicado do silêncio
ou o júbilo perene do caos?
Onde deitarás teus passos intransitivos,
o cinzel dos lumes lúbricos,
o oblívio dos sais?
Ou te fenderás em deus e destruirás o templo?
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
Á BOA MESA
Um deus nos serve vinho de azedume.
Puro ciúme,
porque já não consegue
se levantar das taças.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O DEUS INACABADO
Um deus ungiu-me a seiva de sargaços
Um sol noturno
Um mundo de sombras e de tons baços
Sem criaturas
Um deus queimou-se a tez com o seu hálito
De absinto
E faz-me deus e mar, esposo e tácito,
Quando não o sinto.
Um deus teceu-me de alma, um rude lenho.
Fel da paixão
Arquiteto larvar com o que tenho:
Um coração.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
HARPA
Capitão de curto corso,
aonde levas as naus,
num mar de sombras
sem dorso?
Coração, curvo calhau,
aonde levas vestidas
as tranças d'água
sem vau?
Condição de alma no corpo,
aonde carregas vivo
as tempestades
de morto?
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A FACE ANVERSA
O violinista sem nariz
realiza equações por ilustrações de pele
e erosões melancólicas.
Em White Sands, a loja,
idônea expressão de putaria,
uma rosa sem orelhas
muda de cauda quando lhe convém.
É o estilo imponente da queda
dos deuses, das pontes e das grandes orquestras.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A BOLA DE GUDE
Um caçador de simetria
espreita no ângulo do som.
Afastemos.
Azul nos chama.
Depois, falaremos
de armas e artes poéticas.
Afastemos.
O deus desta lavoura
é fazendeiro irado.
Lutaremos outra vez
pelo deserto,
céus e edifícios inversos.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
UMA MELODIA DE MAHLER
A nota bem cristalina
se estilhaça ao chão da sala
e fere os pezinhos rosados do Amor.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O TERTCEIRO NARIZ DA BESTA
Raiz desprezada
de uma equação do segundo grau,
a biblioteca de bruxaria
é incalculável.
Azeite, vinagre, vibração dos dados!
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
PRIGIONE ANTICA
Última reimpressão do deus original,
onde todos os amores jazem inacabados.
Apenas um olhar, o último olhar,
antes que se transformem em sal.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O APÓSTOLO
Escudo de defesa da Igreja,
Jacobus Splenger, de Basiléia,
na santíssima vida,
deixou-nos o "Malleus Maleficarum",
o primeiro manual de caça às bruxas.
Conta-se que sua piedade e cultura
impressionavam a todos.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A HISTÓRIA DE GLUCK
A mãe lhe ensinara as primeiras letras
com um revólver na cabeça.
Assassinado,
vomitava
das pólvoras.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O PUNHAL SUTIL
Nenhum motivo para ser tristeza
ou alegria.
Só não me importa te manter acesa,
aleivosia.
Nenhum motivo para ver além
da tua face.
O que me impede de acordar me vem
ante o disfarce.
Só não me importa repousar no rol
dos que estão vivos.
A mosca imensa ainda queima o sol
com seus motivos.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
ECLIPSE
Ultrapassado o ponto de retorno,
outro rosto se purga no soturno
redesenhar do morto.
Amargo anoitecer para o expurgo
a face turva e posta a farsa espelha
o dessangrar da faca.
O lobo oculta o lar enquanto sombra.
Há sempre mais um ponto no repouso
onde se tomba.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A NONA SERPENTE
Isto é a muda dos deuses.
É preciso acender-lhes carnes
e cabelos de harpas.
Dos homens são alheios.
Dos seus banquetes cospem
cães de estrelas.
É lamentável a morte.
Se os dias que procriam
fossem mais longos e doces...
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
ABBADON
Abbadon, anjo do abismo,
num cavalo esverdeado,
cavalga por cavalgar
luz de sol abandonado.
Navega por navegar
Todas memórias e sais,
a ausente linha das mães
e os infernos dos pais.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A SEXTA SERPENTE
Os grandes grãos retornam ao lar,
embriagados de terra e fantasia.
Filhos não tiveram , ainda.
Mas, para as mães moribundas
Transmitem a seiva da restituição.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A SERPENTE VERTICAL
Quando entenderás o sentido da chuva
que, às vezes, te aos olhos distante
da paisagem dos outros cai?
Lê o alfabeto das árvores
e sua melancolia.
As letras constroem o delírio
e o sonho é uma biblioteca de paixões.
Tudo o que existe resta
um copo de vinho e a mão velada.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A SERPENTE EMPLUMADA
Se houvesse outra vida,
se houvesse paixão,
decerto, te fantasma
de rosas fazia.
Tudo, meu filho não sei.
As coisas acontecem e como
duas rosas nascem
e morrem
se distância for.
Paixão tesoura o coração
das rosas.
Coitadas, tão surdas.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A SERPENTE CIRCULAR
Na dor das asas
os anéis choram
seus mortos.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A CASA DOS LOUCOS
Uma flor antecedente
nasceu na casa dos loucos.
Gira em silêncio, aos poucos,
a cárie carnuda ao dente.
Uma flor incongruente
viveu na casa dos loucos.
Lamentos de risos roucos,
sombras de sol sem semente.
Uma flor inconsistente
morreu na casa dos loucos.
Mortalha de medos moucos,
cinzas de sonho demente
Abriram a casa dos loucos...
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A MENINA E OS RIOS
(Para Fátima Porfírio)
Tua beleza é tanta
que imanta
o Beberibe,
que em pele de prata
se exibe.
Tua beleza é tanta
que espanta
o Capibaribe,
que em lágrimas de sol
veste o Recife.
Tua beleza é tanta
que suplanta
o rio Jordão,
com asas de águas
e solidão.
Tua beleza é tanta
que encanta
todo os rios,
com águas de sonhos,
viscosos brios.
Tua beleza mar:
desova os rios.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
A LUZ SOMBRIA
Fulana, a inconcebível, nunca amou.
Nunca deteve ante si o espelho do outro.
Nunca reteve dentro de si as lágrimas do mar,
De outro mar, qualquer, que não fosse o seu mar.
Fulana, a inconvincente, nunca deixou atar-se,
Integralmente atar-se aos apelos das mãos.
Construiu uma redoma de mar dentro das retinas
de um sonho, alheio a qualquer sonho que fosse o seu.
Fulana, a insalubre, nunca deixou negar-se.
Era construída de um sal silencioso, porém doce,
como compete aos sais negados e renegados
de outros sais, alheios, que não fosse o seu sal.
Fulana, a inabitável, deixou a cidade, nua,
como compete a uma casa vazia e nua e sonãmbula.
Apagou as janelas e as portas, antes que morresse só,
sem outro sol, alheio, que não fosse o seu sol.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O PRÓXIMO VINHO
Construídos sob o abismo,
teus olhos seivam cidades,
luminosas distâncias.
As pontes de água atém
os pés do gamo. Nadas
além das marés paralelas.
Um afogado restaura o limo.
Agora, tudo é sediço.
A amada retorna e te chama
para o vinho desenhado à mesa.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
O SEGUNDO VINHO
Máscaras te despertam.
pesadelos de máquinas.
O frio lençol te agrega
às mãos sedentas da cama.
Acordar é morrer. Colhes
a depressão do sol.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
SOB AS COLINAS DOS DEUSES
Todos os olhos estão
dirigidos para a morte.
Contudo, as vagas sedentas do mar
jamais abandonam o azul.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
AGONISTES
Com Antônio Botelho
O deus desta lavoura é o teu ocaso,
duna do acaso insone e ressurecto.
Aqui não mais há lume e, nume, abraso
a cítara do sangue onde desperto.
Amor tateia a febre das ausências
e um mar sem dorso, inane, nos estanca.
Como fugir dos jogos indescobertos
e do ímpeto dos sais que a fronte espanca?
Ó deus dos cegos e dos espantalhos
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
MOLDURA
Desce rumo à infância
a morte despertada.
Pó e pesadelo
nunca envelhecem.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
DORMIREI MAIS UMA NOITE.
Relógio decomposto
em cavalos e alaúdes
dormirei mais uma noite.
Navalha reticente,
entre a barba e o suicídio.
dormirei mais uma noite.
Boca sedenta de sombra.
na oclusão de saliva
dormirei mais uma noite.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
EM TODA NOITE MATAMOS
Em toda noite matamos
a morte, a antiga irmã,
o antigo pai revelado
nas linhas duplas das unhas,
o antigo suor da mãe,
despojado nos retratos.
Em toda noite matamos
As lembranças e os cavalos.
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POEMAS DA ESCURIDÃO
Cícero Melo
PANDEMÔNIO
Fede a Catedral.
Os convidados chegam
montados em vassouras.
o Mestre e alguns arcanjos distraídos
sentam-se no trono.
Elegantes bruxas preparam o cânhamo
e estranha infusão fermentada para o Sabá.
À esquerda, crianças brincam agitadas,
vestindo-se de sapos e cardeais.
Em outra party
cipantes se ocupam do deleitoso azedume do Poder:
- É melhor reinar no Inferno,
Do que ser vassalo no Céu.
E o conclave se inicia
com um beijo no cu do mestre
e o começo da orgia.
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