POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A TERCEIRA PELE Procuro a carne da palavra adusta, Aquela que insorvida se consome, Aquela cujo selo cai à fronte Das palavras irmãs e se incrusta Nas pedras da razão, no verbo nômade, No dedilhar de febres e de angústias, No delírio senil da sombra rústica, Longa noite de sal e medo insone. Procuro a carne da palavra augusta, Aquela que se eleve e se prolongue Em mistério sutil, sedosa e onde Repouse mar, celebração e bússola. Procuro a carne da palavra morta Que se aviva, me bate e me conforta. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo DIÁRIO DE BORDO Tinha dois sóis e navegara leste do limite de um sul onde pastara um cavalo sem cor; mas dor e peste, outro cavalo de algas lhe inundara as febres das mãos. Navegara norte, as fronteiras das águas onde deitara um mar sem meses, sem medida e morte, e um demônio cego o transmudara em doze cavalheiros, doze damas, agora acomodados ante a mesa erguida das espumas e de escamas de um leito anterior, nunca sonhado. Não navegara oeste, a sombra presa, no corredor do tempo acorrentado. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O LEGADO DE SAL O legado de sal me vem do mito, Olhar noturno, oculto e renegado. Janelas interditas, deus velado, Cinzas de sol que dorme o infinito. "O Grande Pã morreu!" - as dissolutas Memórias do deus morto são viscosas. Vascoso tempo virgem, de onde rosas São ternamente sombras insepultas. Ó deus combusto, decomposto justo, Morrer é evadir-se da paisagem. Outros deuses virão para a pilhagem, No duro incesto da daninha e o busto. Mas, deuses inacabados e infecundos Na moldura de mundos moribundos. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo OS AZUIS E AS FEBRES Outra casa, porém, o transbordara no desenho da mão, antigo instante, que a voz cadente de cabala errante ainda queima os ventos que inventara. Tinha outro filho, mas, desova rara, vinha do sonho escuro que dormia as proezas do pai, e a noite erguia um cais de medo e nunca o procriara. Desenhara três febres: dois azuis e a linha dessecada sobre a víbora de amor e morte se tocando nus. A mão da sombra redesenha o porto, o vestido do sol e sua cítara de veneno e de mar vinoso e morto. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O VASO QUEBRADO Tenho dentro de mim todas as mortes e as lembranças em taças infinitas se contorcem em sais e faces tortas, entre sombras vinagres e vinditas. As lembranças em laços se confortam como anéis absurdos e insalubres. Sangra o corte na tela decomposta, estilhaços de mênstruo e mátrios úberes Uma carga de morte em mim aborta o dissoluto branco em pele negra que, reflexo invisível, se dissolve sem consorte, sem vórtice, sem espelho, na paisagem proscrita do passado, no tambor de um mundo condenado. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O TAPETE DE SOMBRAS Mais uma noite te fere e te casula A outra noite que dá e desampara, Com mão de fel e nérvea navalhada, O teu peito irredento de ternura. Alma incolor, em desamor, desata A fronteira da sombra e da loucura. Somente o mofo, a medular cicuta, Dá tessitura a teu mar de nada. Renascida da seda dos passados, A nave garra a solidão medonha, A memória de infernos congelados, Suas celas de cinzas e de sombra. É como se, perdida a humanidade, ladrasse no teu céu uma cidade. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo TRÓIA INCENDIADA Sempre perto do mar e porto ausente, Sempre perto da morte e da desfeita, Marinho, modelou-se de acidentes Das dúbias curvas que a paixão sujeita. A memória de Tróia ainda queima Dentro de si a fúria indeiscente. O antagonista ausente ou morto espreita: É o convite à dissoluta frente. A dor que o tempo em seu afã costura Breve lhe bate a barba baldeada, A face avinagrada da loucura. Presságio prematuro ou já tardio. Ora absorto retorna o peito à adaga, Em olhar enfadado e mar sombrio. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo PSIQUÊ Asas desnudas, sempre ao som do outono, lasciva à sombra, tecelã sem véu; silvestre acende de fragrância, um céu aos deuses ébrios, frenesi de sono. Perfumes, poros, cortesãos sem dono, O púbis plúvio, reiterado réu. Eros inflama junto ao peito ao léu os caminhos sedosos do abandono. O botão da manhã enfarta à flor. A alegria projeta a sombra rosa nos doces sítios em que repousa amor. E despertas, paisagem deleitosa, os orgasmos finais de luz e ardor da borboleta ao vento, incestuosa. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A FRÁGIL NUDEZ DE AMAR O IMPOSSÍVEL O recanto do olhar revela amor, inconsistente e nu, porém velado. Que sigo a desvendar-lhe desarmado, que o mal que me mata não tem cor. Corrijo: tem a cor curva dos cabelos do mar angelical que banha e bate. Tão bela, mas distante, o duro embate é de amar também os pesadelos. Que só de sonhos se constrói a garra e a coragem de compor-te o canto que nunca ouvirás, pois se desgarra o desejo presente e o longo encanto. A paixão do silêncio solta e amarra. Que olhar revela amor despido o pranto? INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O CAMINHANTE E SUAS SOMBRAS Nobre senhora que de longe acenas ao peregrino ausente do teu beijo, primavera sutil em voz serenas a sanha sagitária do lanceiro. Fluidas canções silvestres acorrentas à paisagem, enguia dos teus verdes, o corpo nu que puro se acidenta nos sentidos desnudos dos espelhos. Viscosa amada, vegetal de ardores, banido do teu seio o peregrino parte às ilhas de insensatos amores. Que o espera além dessa fronteira de ternura, deposta em desatino em tua face oculta e feiticeira? INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O ÍNCUBO Arde tersa e hirta em teu corpo curvo a centelha de um deus sem cetro e templos. É serpente de ardor de um sol noturno que se nutre das ervas dos teus membros. É um víbora eqüina que repasta os odores melódicos do abandono, em cadência de cios que se alastra pelas ondas das peles e dos cômoros. Rotundas coxas, ventre, eretas crinas, língua de fogo azul pelo teu dorso. ó luxúria de tato enfurecida! ó sinuosa amada, rosa neutra, Alimento da sombra do meu corpo, Predadora de mim e minha presa! INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo BUCÓLICA Resta mudo o pastor baixo esta faia, na sombra engravidada à densa aléia. Se flauta não decanta à linda déia, por que macula assim a tarde gaia? Tem cinzas de paixão na tosca alfaia e roto o coração pela alcatéia do silêncio e do sal da panacéia, da esperança sedenta que desmaia. Somente o sol, silente e solta jóia, navega-lhe a retina, em sal dilui-a nas escarpas dum céu que não o apóia. Que a tarde na paixão não se conluia. Junto ao jardim, jandaias e jibóia quebram o crespo arbusto da aleluia. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo SOB OS ENCANTOS DE CIRCE Até regresso ao lar me foi negado, Eu que vivo ancorado no teu porto. Feiticeira do mar me tens atado A teus cabelos de onda, vento morto. Quando o mar abdiquei por tuas ilhas Não pensava nas celas dos teus seios, Levava embarcações de azedas quilhas Que frágeis acolheram teus enleios. Agora a lamentar-me o continente Dos feitos que, guerreiro, lavorei, Salgas-me os olhos de um cantar nubente Seduções de sereia, o que me sei É que o amor fendido vou demente Singrando a solidão de amargo rei. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo ENQUANTO ACORDAS... Chove na moldura do tempo. Quem ergueu a mão para criá-la? As cortinas abraçam o vento Um deus adormece na sala. Um coração sempre se cala perante a paisagem esquiva. E a curva dos ventos abala os caminhos da chuva viva. A sede do deus trás a chuva. O vento remove seus limites de corpo colado à moldura. Mas que desdém de chuva morta! Um deus azul quer que o imites. Desculpe: bateram à porta. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A MOSCA INSONE Um lago à meia-noite a lua adentro. Mede o vento do tempo um coração. A lua a luz ulula, ao ludo centro dos lóbulos os lobos uivarão. Não uivarão os lobos se não entro o indistinto sinal de tua mão. Há lobos e há loucos, o epicentro continua a ser lago da paixão. Uma lua do lago largo luz o espelho de musgos do destino, a réstia da hora amarga que transluz. Em que o sonho desdenha do acordado vento e se enlaça noutro, como um uivo embaça a voz do amor de um enforcado. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo NICOTINA BRASILIENSE Reis obesos trituram opulentas reses em convulsivas víscera, senil ganância. Ruminando ante o pasto, garra a sarna verde, babam, opus de bestas, borras de abundância. São deuses pecuários indo à tripa forra, a digerir estábulos e faunas e bílis. Com corações castrados comem cárneas córneas. Vomitam, vulturinos, nas faces etílicas. Reis rotundos arrotam na fausta pastagem, lavouram o véu verde e vil do vacum vácuo, libam licores, rubros da ardosa voragem. Bacantes gargalhadas manam da avareza de reis e deuses nus, que, bêbado espetáculo, sorvem o próprio sangue e morrem sobre a mesa. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo DOCE CRISTO Doce Cristo que o tempo esfuma a face, Limo e repouso sangram-te a brandura. Sarça seivosa tua voz murmura A sedosa medida da sintaxe. Deserta do teu corpo a lã futura. Cristo disperso e só, reflexo nasce na cor da córnea em que Babel desfaz-se em vitrais virulentos, véus de usura. Cristo sempre a nascer e sempre morto, sem voz de lêvedo e postulado porto, à candeia das cãs o céu não baste. As ervas decompostas pela cal redesenham nos brancos do Natal os vendilhões do templo que expulsaste. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo AS LÁGRIMAS DE CIRCE Que deus te consumia, que lhe chorava o mar? Outra casa o perseguia no verde ver de olhar. Grande mar encanta o timbre de voz que lhe amor guardava. Era um canto, um longo cimbre que outro ardor lhe sonhava. Não sabias que o perdias naquelas linhas de praias em que nunca envelhecias? Sempre núbil, sempre areia, a cor do olhos desmaias no corpo que te incendeia. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo OS CAVALOS DA ALBA Eu, guerreiro de um deus aqui banido, Nesta cela de sonhos acidulada Combato os dias vãos com rubra espada, Cavalgando corcéis de aceso olvido. Renasço sempre ao sul da madrugada Meus cavalos de luz de um sol partido, Quando a noite decai sem um gemido Forjando do inimigo a face alada. Guerreio sempre ao claro a fera esquiva, Aquela cuja garra a morte imana Em sal e sangue, sândalo e saliva. Mas é de acontecer, enquanto se ama Que, guerreiro, me quede a adaga ativa Quando vibrante o coração me inflama. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo SOLUS Em vinhas sem vindima envolto andava, Silente em sol e sal de semiluz. Retina entorpecida, sabres nus, Sangue de um tempo morto - e definhava. Uno cristal de fel que lucilava A sediça memória de uma cruz. Errava a rota vã que à cã induz: Era um vulcão extinto, muda lava. (Quem é esse que trás os pés cativos À sentença de acasos e de meses, Vago morto que aprende com os vivos? Quem é esse de sonhos insepulto?) Me perguntaram e neguei três vezes Que era eu mesmo pelo mundo oculto. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A TORRE INCONSÚTIL Era a casa de Jorge frente à torre Onde morava um deus adormecido. Que luxúria de gesso e tinta podre, Um sabor de poema sempre lido! Era a torre pousada sobre a sala Onde restava um deus - nunca acordou. O sono que o cobria era cabala: Inconsistente e crua se criou. Era a torre de Jorge frente à minha No jogo do xadrez que à mão impele A dupla dor de combater sozinha. Era do Jorge insone a torre imbele Que nunca a se exaurir, sempre continha Dois Mundaús caindo sobre a pele. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O TERCEIRO TRONO O mar ao sul, cristal, amor ao norte, Carne dos sonhos no delírio eterno. É temporão o céu no anil do inferno. Os deuses dormem nus numa água-forte. O despertar de um deus é sua morte, No mais sutil verão nada um inverno. Dos ossos dos azuis rebenta terno A cal do sangue do primeiro corte. As mãos do deus sobejam as loucuras, A sedução das pontes circunflexas, Labaredas de sons, terror, ternuras. Largo é o engenho da primeira voz, ó palavras de mar à luz conexas: Um deus se reconstrói dentro de vós! INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo OITAVA RONDA Não servirei de pasto ao mês de agosto, Hidra solerte de solífugo hausto, Garras de tempo, de fuligem fausto, Sangue de lírios a arder no rosto. Agosto rude, reticente aposto, A quem te coube desvelar o rasto, O sul dos sonos, o carinho incasto? A teus assédios cederei meu posto? Agosto agônico e algoz augusto, Alonga as horas o martelar de Hefesto, Deponho a graça sem estema e o busto, Abraço o leito do invernal incesto: Avesso ao vinho vil de amargo mosto Não servirei de parto ao mês de agosto. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo EQUINÓCIO Saginada estação, o sangue estreme Rosa a carne do vento redomado. Indecente serpente o tempo freme Na calidez do outono nacarado. Sagitada monção deu-nos verão. Ora é tempo dos laços inconclusos, Mãos equinociais, salubre grão; Portal de ventre o carpo, azuis reclusos. Sal e paixão são frutas deste outono De sombras de carneiros sobre o sol. Um coração deposto do seu trono. No encanto chove no silêncio garço: Das asas da serpente um rouxinol Faz silibino o céu do sul de março. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo AO SUL DO SONO Sacerdote das antigas oferendas, O selo crucifixo sangro ao seio. Desvelo o linho pelo seu enleio, Numes sem fontes e do limo lendas. Meus animais são corsos e seu arreio Tem na voz da paixão a sebe e as tendas, O nácar do vestir das virgens sendas Ó deuses infantis, vos incendeio! Entranho céu dos ancestrais sem cimbre. A melodia domada na memória, Desperta o sal de um caudaloso timbre. O que não dorme, um dessendento mu, Rasga as águas do azul e verte a glória De uma rosa sagrando o corpo nu. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo DUAS CHUVAS Esta que aqui morreu, moça e donzela, Deserto chão de limo circunciso, Morreu-lhe tudo menos o sorriso De chuva recomposto na janela. Amou belo menino, que se ergueu No refluxo medonho do abandono. A donzela de sonhos enlouqueceu Na sombra de um demente e negro sono. Em veneno de sonho e bruto mar, O moço também morreu e virou mito. Hoje é um deus de búzios, sem cantar. A donzela sem fim, estrela baça, Me desenha, de longe, do infinito, O sopro do afogado na vidraça INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo VÊNUS FURIOSA A semente do amor rebenta a chama e transita de novo o ser amado. Ardor de mar sem foz, torpor alado. Mas, se Eros te foge, o amor reclama. Bem, é sedosa a casa de quem ama, E hercúleo o jardim do seu cuidado. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo OS ANÉIS DO SONO Serpentes de cavalos entoam em teu ouvido e apunhalam o olho, o lírio da fenda. Agora não dormiste. Uma fatia de tempo transmudaste em pão, a íris do gozo. Além das montanhas, as casas coloridas dispostas na estante, uma coroa de lagos. Antigamente, a antiga amante, colocava flores no teu túmulo. Ícaro, sempre náufrago, sonhavas pássaros sob um sol de cristal e tempestade. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo NATAL DEPOIS Seu José toma cachaça, Madona Maria esmola e Jesus, bem pequenino, pelas calçadas se esfola, com seus olhos de assassino, cheirando os sonhos de cola. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A TOALHA VERMELHA Um adolescente transvasava o adulto que vivera vinho no pequeno teatro que engendrava. Era de um circo a declamar-se casa e cavalos circulares sucubatos na demência do sêmen que sangrava os treze bailarinos do relógio que acabava. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo I TAVERNA ALÉM Curvas dos olhos do estio, a que ventos levarão? Vagas, limo, volição, vulva de terra no cio. Prostituta perdição: todo poeta é desvio. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo II TAVERNA ALÉM Bufão de amor transeunte, eu não sou rio, sorrio. O rio desfaz-se em peixe, nas redes do amor me crio. O rio comunga peixe (É um peixe medievo!) Andado de mim e lúdico, sou torrente que não levo. O rio transforma em ilhas o amor que nasce em nós, inventando um rio em mim cuja nascente tem voz. Truão nas glebas do tempo, vou a divertir amor, vagando vidas e vinhas, trovando vergéis de error. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo III TAVERNA ALÉM Que a vida não se teça de um só fio: tose a rosa sediça do acaso e seja um rio. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo IV TAVERNA ALÉM Inda me resta a loucura, esta fortuna de ter desconcertada ventura: nunca estar vivo e morrer. As lágrimas da ampulheta encharcam os olhos da hora. Sangra de silêncio a seta: morrer nunca é ir embora. Vagar, candeia ilusória, próprio de mim ser cativo. Decerto desejo a glória, porém depois de estar vivo. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo V TAVERNA ALÉM Como o tempo corre e cansa no relógio do meu peito: Hoje eu sou uma criança, ontem era um homem feito. Como o tempo recupera os outros tempos do sonho, o longo quintal da espera do menino que reponho. Sou menino recomposto de tempo, sonho e enfado. nas tendas de um rei deposto todo presente é passado. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo VI TAVERNA ALÉM Que dor terei agora, se pelo mundo além decifra-me o sal da hora de um sol que nunca vem? Curvo a rosa do tempo na singradura da alma. O que traduzo é vento, ou indiscreta calma? Primeiro e nunca próximo, desdenha-me o caminho. refaço a rota do ócio deste indistinto vinho. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo VII TAVERNA ALÉM Ambíguas águas do mar: ganhar a vida é perdê-la. Sobra-nos o amor que casa o limo à lã da estrela, Amor agasalha a alma com os vestidos do encanto. Aragem, suave, acalma o corpo em desnudo manto. Amor estraçalha a alma como faca de açougueiro, ou como a macia adaga do vento, sul, traiçoeiro. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo VIII TAVERNA ALÉM Decerto não morri, perdi o sono nos cossenos dos rios sem dono. À moldura do corpo agrego o tempo, mas não aquele do morto, mas vento. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo IX TAVERNA ALÉM Serpentes sobre o sol. Aurora debruçada no teu rosto. Crinas de vento nos cristais do tempo. Silêncio. O germem do encanto te pensava águas. Vinhas das febres. De paisagem não dizes. Aqui não há dois verdes iguais. Ao lagarto curvas e vôos indecisos entre os arbustos sonolentos, espreitas o cantochão de vento e seus aéreos rios. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo X TAVERNA ALÉM Às respostas da paixão Mergulham comigo dentro. Rosam desvio e desvão Na rosa que vai ao centro Da morte que livra a asa Pesada da gravidade. Longo sonhar que descasa Ave, vinho, tua idade. Senhora que não tem brios, Que não tem sagas nem freios, Marinha sem ter navios, Sabendo-me o sal dos seios, Crescente de mal me quer, Sangrados senos do sonho. A noite te quer mulher. Mistério que não deponho, A renegar, cor dos passos, Os dentes roxos da sorte. Dá-me astrolábio e compasso A desnudar esta morte. Morte que o tempo vomita. "Não morri Mário Faustino", E o lume do limo agita A canção de ser menino, A cantar além de ti: "Eu fui poeta e morri!". INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo XI TAVERNA ALÉM Pele enrugada de rio. Corso luminoso andando. Celulite de atavio. Esta cadeia falhando. Eros e mirra arrebato. É este rio quem mato? Ângelo Monteiro freqüentava o rio como uma cascavel paralela. Madre, esse senão me carrega como uma verbena sem ar. Somente um rio conjuga o teu leito e quem me dorme? Isto era um coração falando a outro coração então pastando águas. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo XII TAVERNA ALÉM Silêncio. O tempo está presente. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo AHHA AXMATOBA Há um assassinato em cada rosa INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A BARCA DE MEFISTO Demônios são estúpidos. A sombra de Goethe diz tudo o que sofre. Um passo apressa, outro colhe o paraíso. O inferno está aberto. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo MATER ANTICA Era marinho e repousava o tempo. A esposa era má, o filho incréu. Quando um deus ascendia sob o vento, a mãe, marinha, o mantinha ilhéu. Outra mãe porém o folheava, que mães são mãos presentes, e segredos. Nas entranhas dizia que matava a devoluta carne sem os dedos que a mãe mais remota acarinhava. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A TABERNA ANTERIOR Longe de mim e do mar, vagando vácuos e vagas, a navegar por navegar. Respiro a paisagem núbil, laços e liras do vento, a navegar sem navegar. Tempo e memória se casam na encruzilhada de ser. Resposta que se resume em nunca poder viver. Longe do mar e de mim, longe de mar e do mundo, me destruo em todas coisas, me construo em meu profundo. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O QUINTO NARIZ DA BESTA Acidentalmente juntos, as bombas criam digitais nas retinas. Logo mais abaixo, há rios e navios voltando do inferno. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O GOLEM Guardo o poema da Criação E as faces dos deuses Em minha memória de argila E nudez primogênita. O primeiro vento deu-me o espaço, com corpos celestiais, e uma casa. O segundo, o tempo e o nada. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo PÓRTICO Celebro a vida e suas incontáveis tendas de acasos e o acaso por suas inesperadas armadilhas. Estrangeira, a vida é o catalisador do tempo, irmã siamesa da morte e sua ilusão de nulidade! Celebro a vida e suas ansiedades contundentes e suas espirais de desejos e suas libidos mágicas, alba que ornamenta as retinas púrpuras do caos e acende as manhãs das almas em ternuras e rocios. Estrangeiro, celebro a vida e suas redescobertas, centelha que explode no eterno sono dos deuses e redime esta misteriosa operação do acaso, e o acaso por suas inesperadas álgebras. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo SUITE MARINHA O mar não morreu: espelha um deus de sândalo e de equívocos Memória dos sais. O mar não morreu: um deus tomou-o em sua epiderme de delírios. Um cardume de luzes unge a fronte desse que é o mar do deus adjetivo. O mar não morreu: cevo-lhe as garras líquidas e esquivas Sei que sou do deus onde o mar deita suas ovas e seus teares e dorme. O mar não morreu: dessangra os olhos. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A REGIÃO DOS SONHOS Um deus se estende nos contornos do silêncio, gozos e ágatas Corça recôndita da primeira curva. Roto, esse deus é pélago e pústula. Ínclita redoma do acaso. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo JANELAS NOTURNAS amor amor alado amor vê as lascivas víboras da vigília! esvai-se a noite lázara do meu tato um abutre de sonos silvos de medo emudecem-me a medula desperto ázimo do torpor de ácido labaredas labaredas arquiteturas vísceras de deuses mortos um sapato repousa na retina do silêncio (onde as víboras onde os silvos dor?) a lamparina se suicida temulentas as janelas da noite abro em cor. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo AMADA LÚDICA Bela e intangível lâmina na trajetória do acaso, de tua linhagem emanam cristais de rosas e cardos. Redomas de contingências a ternura que recrias, agrária amada, no templo de meus confinados dias. Bela nave de memória, ondulas mar de basalto da retina que te isola. Ó bela invenção da fera adormecia no salto, és flor de metal e hera! INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo INICIAÇÃO Os estilhaços do silêncio vão Sangrando as veias do sedoso nardo. E o sol, retina de veneno e cardo, Sagra-me os olhos na primeira unção. Cumpri meus ritos, lavorei meu dardo. Dos meus desvelos destilei paixão. Reponho as ervas ao sedento chão. As urzes nuas que em meu púbis ardo. Agrária ao mundo sou alheia à chama. Ao ver a fonte que nas coxas crio Rasgando as vestes de vermelha rama. Seivoso ventre de raivoso rio, Vou bela e nua e selene e alada No odor virente do primeiro cio. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A MOTIVAÇÃO ROSA O que motiva essa rosa além da acesa ternura, senão o rubro que dosa minha paixão e loucura? O que teceu essa dor que rosa essa rosa ativa, senão os ventos do amor em minha face cativa? Casta rosa, que neblina a rama de amar me tosa! Vem cintilante assassina! Rosa rosa rosa rosa! INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo LUA NOVA Palavra mar, sedenta que não dorme, nudez a dedilhar o tempo em lava, a recorrente voz de um deus te vaga, nebulosas de peixes, outono, um trono. Um deus a corda fia do oposto ventre que nunca adormece: a si desova mundos, em mim se usurpa, em nós, memória. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo CICATRIZ NA VIDRAÇA A luz esconde o dom de ser eterno. Demônios, o que se traça sob a farsa, se quando choves, é algo assim como uma máscara? INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo GENUS IRRITABLE VATUM Para Orley Mesquita E quando a morte acabar, desnudo saltério dos lábios, onde te alojarás, nomeador de numes? Tecerás a seda das palavras inconclusas, o gume adocicado do silêncio ou o júbilo perene do caos? Onde deitarás teus passos intransitivos, o cinzel dos lumes lúbricos, o oblívio dos sais? Ou te fenderás em deus e destruirás o templo? INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo Á BOA MESA Um deus nos serve vinho de azedume. Puro ciúme, porque já não consegue se levantar das taças. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O DEUS INACABADO Um deus ungiu-me a seiva de sargaços Um sol noturno Um mundo de sombras e de tons baços Sem criaturas Um deus queimou-se a tez com o seu hálito De absinto E faz-me deus e mar, esposo e tácito, Quando não o sinto. Um deus teceu-me de alma, um rude lenho. Fel da paixão Arquiteto larvar com o que tenho: Um coração. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo HARPA Capitão de curto corso, aonde levas as naus, num mar de sombras sem dorso? Coração, curvo calhau, aonde levas vestidas as tranças d'água sem vau? Condição de alma no corpo, aonde carregas vivo as tempestades de morto? INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A FACE ANVERSA O violinista sem nariz realiza equações por ilustrações de pele e erosões melancólicas. Em White Sands, a loja, idônea expressão de putaria, uma rosa sem orelhas muda de cauda quando lhe convém. É o estilo imponente da queda dos deuses, das pontes e das grandes orquestras. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A BOLA DE GUDE Um caçador de simetria espreita no ângulo do som. Afastemos. Azul nos chama. Depois, falaremos de armas e artes poéticas. Afastemos. O deus desta lavoura é fazendeiro irado. Lutaremos outra vez pelo deserto, céus e edifícios inversos. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo UMA MELODIA DE MAHLER A nota bem cristalina se estilhaça ao chão da sala e fere os pezinhos rosados do Amor. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O TERTCEIRO NARIZ DA BESTA Raiz desprezada de uma equação do segundo grau, a biblioteca de bruxaria é incalculável. Azeite, vinagre, vibração dos dados! INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo PRIGIONE ANTICA Última reimpressão do deus original, onde todos os amores jazem inacabados. Apenas um olhar, o último olhar, antes que se transformem em sal. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O APÓSTOLO Escudo de defesa da Igreja, Jacobus Splenger, de Basiléia, na santíssima vida, deixou-nos o "Malleus Maleficarum", o primeiro manual de caça às bruxas. Conta-se que sua piedade e cultura impressionavam a todos. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A HISTÓRIA DE GLUCK A mãe lhe ensinara as primeiras letras com um revólver na cabeça. Assassinado, vomitava das pólvoras. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O PUNHAL SUTIL Nenhum motivo para ser tristeza ou alegria. Só não me importa te manter acesa, aleivosia. Nenhum motivo para ver além da tua face. O que me impede de acordar me vem ante o disfarce. Só não me importa repousar no rol dos que estão vivos. A mosca imensa ainda queima o sol com seus motivos. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo ECLIPSE Ultrapassado o ponto de retorno, outro rosto se purga no soturno redesenhar do morto. Amargo anoitecer para o expurgo a face turva e posta a farsa espelha o dessangrar da faca. O lobo oculta o lar enquanto sombra. Há sempre mais um ponto no repouso onde se tomba. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A NONA SERPENTE Isto é a muda dos deuses. É preciso acender-lhes carnes e cabelos de harpas. Dos homens são alheios. Dos seus banquetes cospem cães de estrelas. É lamentável a morte. Se os dias que procriam fossem mais longos e doces... INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo ABBADON Abbadon, anjo do abismo, num cavalo esverdeado, cavalga por cavalgar luz de sol abandonado. Navega por navegar Todas memórias e sais, a ausente linha das mães e os infernos dos pais. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A SEXTA SERPENTE Os grandes grãos retornam ao lar, embriagados de terra e fantasia. Filhos não tiveram , ainda. Mas, para as mães moribundas Transmitem a seiva da restituição. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A SERPENTE VERTICAL Quando entenderás o sentido da chuva que, às vezes, te aos olhos distante da paisagem dos outros cai? Lê o alfabeto das árvores e sua melancolia. As letras constroem o delírio e o sonho é uma biblioteca de paixões. Tudo o que existe resta um copo de vinho e a mão velada. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A SERPENTE EMPLUMADA Se houvesse outra vida, se houvesse paixão, decerto, te fantasma de rosas fazia. Tudo, meu filho não sei. As coisas acontecem e como duas rosas nascem e morrem se distância for. Paixão tesoura o coração das rosas. Coitadas, tão surdas. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A SERPENTE CIRCULAR Na dor das asas os anéis choram seus mortos. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A CASA DOS LOUCOS Uma flor antecedente nasceu na casa dos loucos. Gira em silêncio, aos poucos, a cárie carnuda ao dente. Uma flor incongruente viveu na casa dos loucos. Lamentos de risos roucos, sombras de sol sem semente. Uma flor inconsistente morreu na casa dos loucos. Mortalha de medos moucos, cinzas de sonho demente Abriram a casa dos loucos... INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A MENINA E OS RIOS (Para Fátima Porfírio) Tua beleza é tanta que imanta o Beberibe, que em pele de prata se exibe. Tua beleza é tanta que espanta o Capibaribe, que em lágrimas de sol veste o Recife. Tua beleza é tanta que suplanta o rio Jordão, com asas de águas e solidão. Tua beleza é tanta que encanta todo os rios, com águas de sonhos, viscosos brios. Tua beleza mar: desova os rios. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo A LUZ SOMBRIA Fulana, a inconcebível, nunca amou. Nunca deteve ante si o espelho do outro. Nunca reteve dentro de si as lágrimas do mar, De outro mar, qualquer, que não fosse o seu mar. Fulana, a inconvincente, nunca deixou atar-se, Integralmente atar-se aos apelos das mãos. Construiu uma redoma de mar dentro das retinas de um sonho, alheio a qualquer sonho que fosse o seu. Fulana, a insalubre, nunca deixou negar-se. Era construída de um sal silencioso, porém doce, como compete aos sais negados e renegados de outros sais, alheios, que não fosse o seu sal. Fulana, a inabitável, deixou a cidade, nua, como compete a uma casa vazia e nua e sonãmbula. Apagou as janelas e as portas, antes que morresse só, sem outro sol, alheio, que não fosse o seu sol. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O PRÓXIMO VINHO Construídos sob o abismo, teus olhos seivam cidades, luminosas distâncias. As pontes de água atém os pés do gamo. Nadas além das marés paralelas. Um afogado restaura o limo. Agora, tudo é sediço. A amada retorna e te chama para o vinho desenhado à mesa. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo O SEGUNDO VINHO Máscaras te despertam. pesadelos de máquinas. O frio lençol te agrega às mãos sedentas da cama. Acordar é morrer. Colhes a depressão do sol. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo SOB AS COLINAS DOS DEUSES Todos os olhos estão dirigidos para a morte. Contudo, as vagas sedentas do mar jamais abandonam o azul. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo AGONISTES Com Antônio Botelho O deus desta lavoura é o teu ocaso, duna do acaso insone e ressurecto. Aqui não mais há lume e, nume, abraso a cítara do sangue onde desperto. Amor tateia a febre das ausências e um mar sem dorso, inane, nos estanca. Como fugir dos jogos indescobertos e do ímpeto dos sais que a fronte espanca? Ó deus dos cegos e dos espantalhos INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo MOLDURA Desce rumo à infância a morte despertada. Pó e pesadelo nunca envelhecem. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo DORMIREI MAIS UMA NOITE. Relógio decomposto em cavalos e alaúdes dormirei mais uma noite. Navalha reticente, entre a barba e o suicídio. dormirei mais uma noite. Boca sedenta de sombra. na oclusão de saliva dormirei mais uma noite. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo EM TODA NOITE MATAMOS Em toda noite matamos a morte, a antiga irmã, o antigo pai revelado nas linhas duplas das unhas, o antigo suor da mãe, despojado nos retratos. Em toda noite matamos As lembranças e os cavalos. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com POEMAS DA ESCURIDÃO Cícero Melo PANDEMÔNIO Fede a Catedral. Os convidados chegam montados em vassouras. o Mestre e alguns arcanjos distraídos sentam-se no trono. Elegantes bruxas preparam o cânhamo e estranha infusão fermentada para o Sabá. À esquerda, crianças brincam agitadas, vestindo-se de sapos e cardeais. Em outra party cipantes se ocupam do deleitoso azedume do Poder: - É melhor reinar no Inferno, Do que ser vassalo no Céu. E o conclave se inicia com um beijo no cu do mestre e o começo da orgia. INTERPOÉTICA - um espaço alternativo para a poesia www.interpoetica.com