IRMÃS DE SÃO JOSÉ DE CHAMBÉRY CAPÍTULO GERAL SEGUNDA-FEIRA - 5 DE OUTUBRO DE 2015 VIVER O DINAMISMO DA RECONCILIAÇÃO E UNIDADE NAS PERIFERIAS DO NOSSO MUNDO FRAGMENTADO Primeiro de tudo eu gostaria de dizer que é um privilégio ser convidada a partilhar com vocês durante o seu Capítulo Geral. Eu amo o seu tema: VIVER O DINAMISMO DA RECONCILIAÇÃO E UNIDADE NAS PERIFERIAS DO NOSSO MUNDO FRAGMENTADO. Tal título só poderia ter sido fruto de muita reflexão, oração, luta, de ter ouvido, em primeira mão, histórias de experiências, permitindo a si mesmas serem absorvidas, mesmo que um pouco, pela dor da fratura e, às vezes, pelo insuportável desejo de fazer a diferença. Pelo menos foi isso que eu imaginei que tivesse acontecido quando, pelo poder do Espírito, vocês abriram seu caminho através de um lugar de tal união e encontraram seu ponto de vocação no “agora” deste mundo em movimento, um mundo cheio de maravilhas brilhantes, de belezas terríveis e de dolorosas angústias internas. Eu tenho esta imagem de vocês que, tendo vencido isto, foram para um lugar de paz interior coletiva, com o que herdaram de suas companheiras invisíveis, sabedoria, vibrante discernimento, santa curiosidade e esperança escandalosa! Tudo isto, e muito mais, produziu este tema corajoso e visionário. Obrigada por ele e por toda a inspiração que ele carrega. Victor Frankl, que sobreviveu ao campo de extermínio de Auschwitz, escreveu em seu livro “A Busca do Homem pelo Sentido”: “Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Neste espaço está o poder de escolhermos a nossa resposta. Em nossa resposta está o nosso crescimento e a nossa liberdade.” O múltiplo efeito de tal “exploração do espaço” aponta para o crescimento e a liberdade para o mundo inteiro. Pelo título do tema do seu Capítulo Geral e pelo que tenho lido no seu site, vocês, Irmãs de São José de Chambéry, não são estranhas a tal exploração do espaço. Fiquei muito impressionada pela frequência com que vocês usam a palavra escolher – vocês escolhem imergir-se na vida em plenitude; vocês escolhem correr o risco de descobrir caminhos que tornem melhores a vida dos outros; vocês escolhem se arriscar a partilhar seus recursos de tempo e de energia; vocês escolhem compartilhar suas vidas de fé com os outros; vocês escolhem aprofundar os laços de vida comum entre vocês. Parece-me que entre o estímulo de um mundo que ficou maluco e qualquer resposta que um grupo comparativamente pequeno de pessoas possa dar, vocês fizeram uma pausa. Naquele espaço sagrado vocês rezaram, vocês ousaram sonhar “um mundo melhor onde todos são bem vindos, onde os dons de cada pessoa são aceitos e usados para o bem de todos”. Vocês têm estado conscientes de que o maior dom que Deus nos deu quando nos criou foi a liberdade de escolher, mesmo que essa liberdade de escolha não escolha a ele”. Respondendo vocês estão fazendo a diferença, não só nos caminhos dos outros, mas na sua própria jornada interior. O que vocês fazem pode não aparecer nas manchetes do mundo, mas no mundo de cabeça para baixo do Reino de Deus, no mundo invisível que está sobre nós, é a oração e a ação das pessoas como vocês que estão contribuindo para um silenciosa mas inexorável mudança sísmica para a unidade, a inclusão, a reconciliação e a paz. O mundo pode fazer o seu pior (e normalmente faz) para procurar convencer-nos do contrário, mas como pessoas de fé que somos, entre outras coisas, somos prisioneiras da 1 esperança. Vocês pegaram o manto daquelas que, através dos tempos, em face de probabilidades piores têm procurado fazer a diferença e com este tema vocês estão procurando fazer a sua afirmação de fé, contra o que quer que a escuridão poderia procurar envolver a espécie humana, de que vida é mais forte do que a morte, de que a esperança pode emergir de lugares de desespero, de que a partir dos cantos da terra uma aleluia de alegria pode ainda ser despertado, de que o fraco pode confundir o poderoso e de que o amor triunfará sobre o ódio. Vamos agora olhar para cada uma das palavras-chave por vez. A palavra dinamismo (da palavra grega dynamus) implica em poder, vibração e vivacidade. É caracterizada por vigorosa atividade e progresso. Usar esta palavra em relação à reconciliação e à unidade dálhes uma energia totalmente nova. Isto é tão encorajador porque em muitas áreas do mundo onde o conflito, antigo ou moderno, tem resultado em desapropriação, desumanização e morte, estas palavras têm se tornado cansadas, caíram sob suspeita e têm sido investidas de uma bagagem negativa que está muito longe de sua essência original. Este tem sido, infelizmente, o caso da Irlanda do Norte, de onde eu venho. As batidas dos tambores ancestrais de 800 anos de uma história bastante torturada, agravadas por um conflito de 30 anos oscilando à beira de uma guerra civil, na última parte do século XX, tem produzido uma suspeita profunda ou desconfiança de quem quer que use as palavras ou busque conversar sobre elas. Estamos agora, há 17 anos, em um processo de paz que, ainda que frágil, se mantém, mas a tenacidade de uma mentalidade duradoura de “nós/eles”, evidenciada naqueles cujas identidades se sentem ameaçadas, pode produzir nos pacificadores e nas pessoas que ousam sonhar o “sonho de um mundo melhor” um cansaço e às vezes um enorme desespero”. Há uma citação famosa, atribuída a Santo Irineu, que viveu no século II, de que a glória de Deus é o homem (quer se leia ser humano ou humanidade) totalmente vivo. Reconciliação e unidade implicam movimento, energia, compromisso. E se estamos plenamente vivas, somos, então, vibrantes, cheias de energia e poderosas. Há muitas definições de reconciliação, mas uma que eu gosto muito é “caminhar juntos de novo”. Ela aponta pra uma relação preexistente que envolveu harmonia, diálogo, respeito e todas aquelas qualidades que afirmam a dignidade, a individualidade e o valor de cada ser humano. Esta relação pode até ter sido colocada em espera por semanas ou por séculos ou pode ter sido violentamente rompida, mas de algum lugar, se ouvirmos atentamente, podemos ouvir a melodia fraca de uma humanidade comum cujos acordes são misericórdia, justiça, verdade e paz. O tema subjacente de unidade é que a ela tudo pertence. Deus é o criador da diversidade, não da uniformidade, e quando ele a criou, ele viu que tudo era bom. Unidade não é a mesma coisa que uniformidade entediante. Pelo contrário, é simplesmente diversidade abraçada pelo amor. Ela tem, para a verdadeira pessoa que busca, riquezas insondáveis. Tanto a reconciliação como a unidade, eu creio, estão no topo da agenda de Deus para a Igreja e para o mundo. A pulsação de ambas é o amor. Elas são conceitos dinâmicos mas também implicam em intimidade e nós não ficamos confortáveis com isto, mesmo se dentro dos limites “seguros” do nosso próprio grupo. Elas nos desafiam ainda mais se queremos vivê-las nas periferias. Nas beiras dos mapas medievais costumavam ser escritas as palavras “Aqui estejam os dragões”. Os dragões da desconfiança, do medo (especialmente o medo da diferença e do desconhecido), da superioridade e da inadequação, e muito mais, talvez especialmente da nossa falta de bondade amorosa, todos militando contra nosso envolvimento com as margens. E, no entanto, paradoxalmente, as 2 periferias podem ser nossas mestras. É aqui que encontramos o Deus das surpresas incarnado em alguns dos mais marginalizados da terra. Deus escolheu as periferias para o local do nascimento do seu Filho. Jesus, em sua jornada terrena, se sentiu mais em casa com as pessoas da margem. Vistas de longe as periferias são o desconhecido. Duas das reações mais comuns são o medo, como já falamos, ou romantizá-las, idealizando-as. Nenhuma delas é útil ou representa a realidade daqueles que, não por escolha própria, são sentenciados a viver suas vidas na beira ou na orla de sua sociedades particular. A Igreja tem sempre pregado sobre Deus ouvindo os gritos do pobre e a importância de estar com os marginalizado. No Ocidente, com algumas exceções, não temos vivido o que proclamamos. Com as acusações de irrelevância, hipocrisia, ineficácia, abuso e traição, parece que a própria Igreja foi condenada ao ostracismo para as margens, enviada para o próprio lugar que ela não escolheu ir. E ainda assim eu acredito que é este o lugar da redenção e da esperança, onde seremos reencontradas por Deus e o encontramos entre “o menor destes”; onde a voz profética é ouvida uma vez mais; onde viver as beatitudes é primordial. Então, como isto funciona na prática? Eu só posso compartilhar algo do que experimentei na Irlanda do Norte. Josiah Royce, um filósofo americano do século XIX, escreveu: “Eu acredito na comunidade do amado e no espírito que a faz amada e na comunhão de todos os que são, nela, em vontade e em desejo, seus membros. Eu não vejo tal comunidade ainda. No entanto, minha regra de vida é “Aja de forma a apressar sua vinda”. Esta afirmação tem sido vitalmente importante para mim por quase tanto tempo que eu me lembro. Ela é parte integrante do núcleo da fundação do Ministério da Restauração, a organização para a qual trabalho por muitos anos. Tiramos o nosso nome do salmo 23 “Ele restaura a minha alma”. O lado extremamente confidencial do nosso trabalho tem sido o de oferecer um lugar seguro onde as pessoas possam contar a sua história, ser ouvidas e que rezemos com elas ou para elas, se é o que desejam. O lado mais público tem sido o de proporcionar oportunidades para as pessoas se encontrarem por causa dos crescentes números de divisões que constituem a sociedade de hoje e construir relações, na base simples da aceitação de uma humanidade comum e a convicção de que quando você começa a conhecer alguém além do superficial, é mais difícil demiti-la, esquecer-se dela. Brian McLaren, num livro recente que eu vejo como essencial para as pessoas comprometidas com a reconciliação e unidade, fala da amizade subversiva, que “cruza as fronteiras do outro, ousando oferecer e receber hospitalidade”. Tal ação/interação sempre oferece riscos, particularmente o de ser vista como traidora das normas do seu grupo. Ser parcial ou totalmente banida por tal compromisso pode ser um lugar solitário e ameaçador para estar, mas à medida que o praticamos, ele se torna, aos poucos, uma segunda natureza. Chega-se a um ponto que sabemos que cruzamos o Rubicão e não há mais volta. Por um lado, podemos perder o que nos é mais querido, o que parece ser parte de nossa identidade e é certamente uma zona de conforto, mas, por outro lado, tal deixar cair as coisas; tal desaprendizagem no final leva a um novo e inteiro conjunto de relações. Nós, no Ministério da Restauração, estamos vivendo uma prova disto e temos sido tão abençoados, tão exigidos, desafiados, e encorajados por “eles” se tornando parte de “nós” e “nós” nos tornando parte “deles”. Esta unidade, que é definida como “a diversidade abraçada por amor”, tem sido e continua a ser um dos tesouros inestimáveis da caminhada de tal jornada, o risco do encontro. Nos últimos anos eu aprendi a amar a frase usada por uma pequena e valente igreja na Argélia à medida que ela luta para continuar fiel. Eles praticam o que chamam de sacramento do encontro. Martin McGee, no seu recente livro “Diálogo do 3 Coração” escreve: “A presença do Espírito em todas as relações humanas é a visão fundamental que está subjacente na contínua presença da Igreja no Norte da África. O que é novo nesta abordagem é a percepção de que, em encontros diários, o Espírito Santo está também ativo no parceiro muçulmano, trazendo a graça de Deus e o amor de Deus para o outro cristão; em outras palavras, o encontro é um processo de mão dupla de conversão”. * À luz deste corajoso testemunho, acho que temos muito que aprender – e há muita alegria em arriscar. McLatren fala de 3 componentes desta amizade subversiva – companheirismo, convívio e conspiração. Como viver vidas que dizem: “Você é bem vinda. É bom você estar aqui.”? Uma das principais maneiras é através da prática consistente da hospitalidade. Esta tem sido uma batida dominante do nosso trabalho no Ministério da Restauração, especialmente a restauração da hospitalidade entre nós e Deus, entre as partes alienadas do nosso próprio ser, entre nós e os outros (especialmente o outro que se encontra nas periferias) e entre nós e com toda a ordem criada. Um dia chegou à porta da Casa da Restauração uma avozinha dinâmica que tinha ouvido dizer que estávamos precisando de alguém para fazer a limpeza. Pouco depois percebemos que a limpeza foi somente uma “capa” que a iniciativa divina usou para que pudéssemos nos conhecer. Em 1970 seu marido foi morto com tiros bem na frente da porta da casa deles só porque ele era católico. Maura ficou com muitos poucos bens deste mundo e 4 filhinhos. Nas periferias da consciência de uma comunidade fragmentada, ela lutou com grande heroísmo para criar sua família. Ela diz que entre nós ela encontrou seu ‘lugar seguro’. Temos recebido muito, muito mais dela. Sua compaixão, sagacidade, sabedoria, integridade e generosidade tanto do espírito quanto do pouco que ela possui são enormes presentes tanto paras amigos como para estranhos. Muitos anos depois, Maura é ainda um ícone de hospitalidade – mesmo para a realeza. Em uma ocasião, quando o Príncipe Charles visitou o Ministério da Restauração, ele pediu especificamente para se encontrar em particular com algumas pessoas que tinham sofrido diretamente por causa dos anos de conflito. De tal sagrado espaço de sigilo, a única coisa que me é permitido partilhar é parte da conversa entre Maura e o Príncipe. Ele ficou fascinado por ela e continuou fazendo perguntas. Num determinado momento ela fez uma pausa, cruzou os braços, olhou diretamente para ele e disse: “Bem, Senhor, você é VIP (pessoa muito importante), mas toda gente que entra por esta porta também é VIP!” Ela acompanhou esta declaração com um aceno de cabeça bem decidido e olhou em volta da sala – ninguém ousou contradizê-la! Não é preciso dizer que o Príncipe ficou encantado com esta visita. McLaren descreve convívio como “a partilha dos dons da vida juntos, com adequado respeito e compreensão”. Respeito significa ter um novo olhar para o outro, ver de novo; compreensão indica ficar por baixo de todas as impressões e julgamentos que fazemos sobre os outros e encontrar o mistério de sua humanidade. Não é apenas coexistência, mas antes estar aberta e vulnerável o suficiente para deixar o outro entrar em você. Assim, convivência não é apenas uma camaradagem superficial, mas alguma coisa mais profunda com a qual nos comprometemos. Envolve escuta, humildade e generosidade de espírito. É o desafio do encontro. Não acontece da noite para o dia. Leva anos para se construir e mesmo quando você comprometeu a sua vida com alguma coisa, algo explode em seu rosto, você recolhe o que sobrou e continua em frente porque você sabe que, em algum lugar além de qualquer conhecimento formal, este é o caminho que escolheu você. Deixe-me falar sobre Mickey. Mickey foi uma das pessoas daquilo que se tornou conhecido como ‘famílias dos desaparecidos’. Nos anos de 1970 – 80, no auge do conflito na Irlanda do Norte, muitas 4 pessoas desapareceram sem deixar sinal. Presume-se que elas foram assassinadas pelo IRA, a maioria acusada de terem sido informantes. Seus corpos nunca foram recuperados. Mickey era um entre 10 irmãos. Em 1972 seu pai morreu e alguns meses mais tarde sua mãe foi sequestrada. Eles nunca mais a viram. Os anos seguintes foram marcados por insensibilidade, crueldade e negligência. Como muitos outros, eles viviam nas periferias de uma sociedade que rapidamente esquecia uma atrocidade que era substituída por outra – e outra. Eu tive o privilégio de me encontrar com este homem incrível no final de 1990 e a nossa organização foi capaz de dar a ele uma plataforma semi-pública onde ele pode contar a sua história. Nunca esquecerei como a sua história foi ouvida com os corações partidos mas, mais do que isto, como ele, à medida que contava o pesadelo da sua história publicamente, foi se endireitando a partir de dentro de si, visivelmente vestindo o manto do auto-respeito e da dignidade que lhe tinham sido roubados há tento tempo. Quatro anos mais tarde o corpo de sua mãe foi recuperado. Ele ainda tem muitas perguntas não respondidas, mas ele transformou a dor inacreditável em oportunidades de crescimento e é um dos melhores seres humanos que eu conheço. Mas há ainda mais para ser uma amizade subversiva –o que McLaren descreve como conspiração. Eu adoro esta imagem de planos sussurrados e de enredos – planejando bondade, o que ele descreve como ensaiando e praticando para um mundo melhor através do dar e receber da amizade. Ela evoca para mim a figura daqueles de nós que, conscientes deste chamado à amizade, somos os agentes secretos de Deus, trabalhando para a emergência do Reino de cabeça para baixo. Estes agentes estão em toda parte, mais numerosos do que podemos saber. Muitos deles são subterrâneos, quando eles se comprometem com a oração que “deixe cair as coisas e deixe Deus agir”. É neste tempo de conspirações, quando paramos de lutar e simplesmente consentimos com a presença e a ação de Deus dentro de nós, que eu acredito que uma mudança sísmica começa a acontecer num mundo invisível na direção da inclusão, unidade e paz. Como pessoas de fé, chamadas à amizade, somos desafiadas não só a construir uma ponte sobre as águas turbulentas da divisão, da suspeita, da inimizade e do ódio, mas sermos nós mesmas a ponte. Um homem que procurou se esta ponte e fazer amigos com quem quer que pudesse evitar outra vida de ser perdida foi o Pe. Alec Reid. Com eles, ele sussurrou planos e armações para uma Irlanda melhor. Ele foi um Padre Redentorista que continuamente procurou esperança, luz na escuridão e encontrar um modo não violento do conflito. No início de 1988, a Irlanda do Norte teve um período de 14 dias em que esteve à beira da anarquia. Violência, ataques e contra-ataques tinham uma espiral fora de controle, o número de mortos e feridos foi subindo, culminando num fato muito escuro onde 2 soldados do exército britânico a paisana desviaram um grande funeral republicano. As tensões estavam muito altas por causa das mortes e da insensibilidade dos dias anteriores. Pe. Alec estava na área. Naquele mesmo dia ele tinha sido encarregado de uma missão muito frágil onde os representantes do IRA estavam lhe entregando um papel que formaria as bases das conversações de paz. Este papel tinha que ser entregue ao líder do outro partido em poucas horas. Agarrando o seu envelope marrom, Pe. Alec tropeçou numa cena de rara emoção. Os dois soldados, vistos como inimigos por excelência, foram arrastados para fora de seus carros e batidos, e levados para um terreno baldio onde ficaram com o rosto em terra, semiconscientes. Pe. Alec, de alguma forma, foi até eles e se deitou entre os dois com os braços estendidos sobre cada um deles em forma de cruz. Ele foi arrastado à força para longe deles e foi-lhe dito que se ele não ficasse longe seria fuzilado também. Eles o 5 empurraram para longe da cena. Alguns segundos depois ele ouviu dois tiros e quando ele voltou ao terreno vazio não havia ninguém a não ser os corpos dos dois soldados. Uma das imagens mais icônicas de todas as nossas longas e difíceis noites é do Pe Alec ajoelhado perto dos corpos, ungindo-os e então olhando para o alto, com seu rosto coberto de sangue pois ele tinha, em vão, procurado fazer respiração boa a boca nos dois soldados mortos. Dali, com o envelope salpicado com o sangue do ‘inimigo’, ele viajou 144.840 km e entregou o documento. Literalmente estava carregando, em sua pessoa, todas as nossas esperanças para o futuro. Ele incarnou a misericórdia. Por isto foi, muitas vezes, criticado, ameaçado, rejeitado. Ele continuou sua missão de trazer o diálogo entre duas facções opostas, como um canal. Ele foi um facilitador para encontros que aconteceram resultando no cessar fogo em 1994, o Acordo de Paz da Sexta-feira Santa em 1988 e a desativação das armas do IRA em 2005. Ele salvou vidas; viveu o dinamismo da reconciliação e da unidade. Mas os anos de tal amizade subversiva cobraram o seu preço. O preço de ser um realizador de paz e um doador de misericórdia foi alto. Dois anos atrás ele morreu. No Ministério da Restauração nos sentimos tão humildes e privilegiados quando nós éramos um dos lugares escondidos, seguros, onde ele podia entrar e conversar e simplesmente ‘ser’ ele mesmo. Nós nos lembramos dele como uma ponte sobre as águas turbulentas das nossas divisões e negatividades. O Espírito do Senhor certamente estava com ele. Aquelas pessoas que, como vocês, aceitaram o desafio do encontro e de serem pontes, tenho a certeza que chegaram a descobrir que, no final, mesmo as palavras não são necessárias para que o diálogo e a unidade aconteçam. A cerca d um ano Jean Vanier e o Papa Francisco se encontraram pessoalmente, pela primeira vez. Depois de 20 minutos de conversa particular eles saíram. Mais tarde, quando foi perguntado sobre o que conversaram, Jean Vanier respondeu: “Não conversamos. Sentamos juntos em silêncio!” Que belo exemplo de amizade é possível quando duas pessoas que, viajando por estradas diferentes, são fiéis às suas jornadas, neste estágio são tão conscientes e tão presentes às Presença que podem se encontrar um com o outro na profundidade de um silêncio que fala mais alto do que palavras. Estes dois e muitos outros santos ‘escondidos’ são pessoas que estão despertas e conscientes que encarnam presença e, ao fazê-lo, apontam no seu próprio ser para a Divina Presença em quem tudo pertence. O poeta Rumi escreveu: Fora, para além das ideias das coisas erradas E das coisas certas, há um campo E eu vou encontrar você lá. Quando as almas deitam nesta grama O mundo está cheio demais para falar dele. Tal campo é um lugar indescritível, mas é mais do que o material de que os sonhos são feitos. É a realidade para a qual nós estamos viajando. A estrada pela qual viajamos tem um nome. É o caminho da santidade. Qualificadas pelo Espírito, despertadas pelo olhar do amor, presentes a nós mesmas, ao outro e ao Amor que nos atrai, o modo como fazemos a jornada é através do diálogo, através da resposta ao chamado para a amizade, uma amizade que está disposta a arriscar, a deixar cair, a colocar-se por baixo para o bem da comunidade 6 amada e através da prática do sacramento do encontro. Não é a estrada do poder e do controle, ou de um grande movimento ou de uma demonstração de massa. É uma pequena via, uma via de vulnerabilidade e de abertura, uma jornada de deixar cair as coisas. No caminho, como estamos despertas e praticando a presença, haverá companhias, convívios e conspiração e talvez outro ‘c’. Porque viajamos com confiança – confidere – que significa ter plena confiança, viajar com fé, uma fé que assume a realidade total na revelação no fim da nossa jornada que é também um começo. Esta foi a fé e a confiança de Saulo (mais tarde conhecido como Paulo) o mais surpreendente dos convertidos ao Caminho, o nome que foi dado por primeiro ao Cristianismo. Aqui está alguém que foi dramaticamente deslocado do centro para as periferias do mundo fragmentado de seus dias e viveu lá as dinâmicas da reconciliação e da unidade. Ele aparece primeiramente no estágio da história como uma testemunha cúmplice no martírio de Estevão. Ele foi bem esperto em ter as suas mãos limpas, mas é claro que ele estava por trás do apedrejamento. Lembro-me de pessoas no conflito da Irlanda do Norte que mostraram astúcia semelhante, açodando o frenesi das multidões para protestar e matar, mas mantendo suas mãos ‘limpas’ e deixando os seus seguidores enfrentar as consequências enquanto eles mesmos ficavam ‘inocentes’. Saulo não está consciente disto, mas a morte de Estevão começou a ter um efeito poderoso, ainda que inconsciente, sobre ele. Lendo as entrelinhas da Escritura (que pode ser – ou não – uma coisa perigosa de se fazer) tenho o sentimento de que oque aconteceu é o seguinte. Estevão reza uma oração de perdão quando o seu olhar, morrendo, repousa sobre o autor principal. A resposta de Deus é: “Muito bem, Saul, eu ouvi a prece de meu servo fiel Estevão e porque ele pediu, eu o perdoo – mas agora você tem que continuar onde ele parou.” É isto exatamente o que acontece. Na esteira da morte de Estevão a perseguição dos fieis se intensifica. É como se a guerra feroz no subconsciente deste judeu estrito e zeloso espelha a perseguição implacável que acontece fora. O que acontece é bem conhecido. Armado com mandados de prisão contra os crentes de Damasco, Saul começa a sua jornada de extermínio só para ser dramaticamente parado em sua trilha pelo divino encontro que resulta em cegueira temporária para que tenha que ser conduzido pelo resto do caminho. A revelação e a revolução que acontecem dentro de Saul culminam com a visita de Ananias, um dos fieis do local que, num supremo ato de reconciliação, chama-o de ‘Irmão Saul’ e reza para que a sua vista seja restaurada. As escamas caem de seus olhos físicos e dos olhos do seu coração. Marcado com o selo do Espírito Santo, Saul está agora ‘sob novo proprietário’ – sua vida totalmente entregue a Jesus. Nas periferias de seu velho mundo, ele se encontra também, por um tempo, nas periferias do novo, onde os fieis estão naturalmente desconfiados e com medo. É Barnabé quem o toma pela mão, quem arrisca o encontro e o diálogo, quem o apresenta e fica com ele diante da frágil comunidade dos líderes do Caminho. A porta está agora aberta para Paulo prosseguir numa missão totalmente diferente. Ele cumpre a ‘defesa’ de Estevão em seu julgamento simulado. Com o tempo ele se torna o grande missionário para o mundo pagão e em si mesmo ele se torna uma oração viva e dinâmica pela reconciliação e unidade ou unificação, que é a nossa em Cristo. Os elementos-chave em sua transformação são o perdão, o encontro, a reconciliação, a inclusão e o diálogo. O dom enorme para ele é que ele descobre, ou é descoberto, por estas forças dinâmicas nas margens do mundo dos seus dias. Isto deve ter lhe dado grande confiança assim como nos comprometemos de novo com este Capítulo Geral a estas amizades subversivas que mantêm a esperança de um mundo melhor. 7 Do ponto de vista da sua conversão Paulo viveu sua vida nas periferias de um império que estava em seu pico de grandeza e estava começando mostrar sinais de fratura. Zelosamente e sem medo ele cumpriu sua missão de ser portador de boas notícias onde quer que o Espírito Santo o direcionasse a ir. Os registros nos dizem que ele terminou sua vida nesta grande cidade de Roma. Para mim, esta história começa com o que nós também facilmente subestimamos – uma oração de perdão. Nós ainda nem começamos explorar o poder que há em tal oração e em tal processo. Ela libera uma dinâmica para nós que nos dá a liberdade de sermos plenamente vivas, de ver as coisas de modo diferente (o sentido real do arrependimento), para exercer a escolha, para ser tomadas por uma esperança escandalosa e uma paixão insaciável por reconciliação e unidade. Queridas Irmãs, quando vocês procuram, uma vez mais, neste Capítulo Geral, fazer uma pausa entre os estímulos de um mundo fragmentado e, em particular, a angústia de suas margens, e a sua resposta, que vocês possam ser renovadas, empoderadas e encorajadas pelo Espírito. E que vocês não só vivam o dinamismo da reconciliação e da unidade, mas que sejam em vocês mesmas o dínamo da esperança e da transformação. Deixem-me terminar partilhando com vocês uma pequena reflexão que escrevi há alguns anos e que, me parece, resume algo do que estou tentando partilhar com vocês. ‘A Mão da Amizade’ Brian McLaren, Why Did Moses, Jesus, the Buddah and Mohammed Cross the Road? (Por que Moisés, Jesus, Buda e Maomé cruzaram o Caminho?) (London: Hodder and Stoughton, 2012), p.212 Martin McGee OSB, Dialogue of the Heart (Diálogo do Coração) (Dublin: Veritas Publications, 2015), p.86 PERGUNTAS SUGERIDAS PARA REFLEXÃO Quais são alguns dos seus dragões pessoais e comunitários? O que você está conspirando ou ‘cochichando’ sobre este momento – e com quem? Quem são as ‘pontes’ entre nós no mundo de hoje? Podemos reconhecer e lembrar as pontes em nossas comunidades particulares tanto no presente como aquelas que nos inspiraram no passado? 8