XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 A DISCIPLINA DE LIBRAS NO ENSINO SUPERIOR: DA PROPOSIÇÃO À PRÁTICA DE ENSINO COMO SEGUNDA LÍNGUA Andréa Michiles Lemos (IFRN) Ernando Pinheiro Chaves (UFC) RESUMO A Lei 10.436/02 reconhece oficialmente a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como língua e o Decreto 5626/05 que regulamenta a referida lei, assegura o ensino dessa língua nos cursos de formação de professores. Essa determinação contribuiu para que as Instituições de Ensino Superior (IES) implementassem a disciplina de Libras, obrigatoriamente, na matriz curricular dos cursos de licenciaturas. Esse trabalho visa apresentar um recorte do plano da disciplina de Libras no que se refere às ementas e aos conteúdos para o seu ensino como segunda língua (L2). Ao mesmo tempo, o estudo faz uma análise comparativa desse material de seis Universidades Federais, contemplando quatro regiões brasileiras. Considerando que não existem parâmetros curriculares que norteie o ensino, pretendemos averiguar o enfoque dado a essa disciplina, ofertada nos cursos de licenciaturas. Para tanto, os professores de Libras de algumas universidades foram contactados a fim de disponibilizar o plano de ensino da referida disciplina e a informação dos cursos que incluíram essa disciplina no seu projeto pedagógico. Após a coleta desse material, foi feita uma análise das ementas e dos conteúdos que são ministrados pelos professores de Libras. As reflexões construídas nesse trabalho fundamentam-se na legislação referente ao uso e ensino da língua, em Felipe; Monteiro (2005) e em Tavares; Carvalho (2010) e apontam para os seguintes resultados: um enfoque descritivo e, às vezes, classificatório dos conteúdos teóricos e práticos sobre a surdez e a Libras; certo engessamento na seleção do conteúdo, refletindo, sobremaneira, a sequência do modelo apresentado no curso básico “Libras em Contexto”; maior distribuição do conteúdo para discussão sobre a língua e a surdez em detrimento ao ensino da Libras. Palavras-chave: Libras, ensino, legislação, segunda-língua e currículo. Introdução A Lei Federal nº 10.436 de 24 de Abril de 2002 reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como a língua oriunda das comunidades de pessoas surdas do Brasil. Este reconhecimento significa um avanço aos direitos linguísticos dos surdos de se comunicarem e de se expressarem livremente através de sua língua e, por que não dizer, de uma transformação social quanto à valorização e uso da Libras por pessoas surdas e ouvintes1. Nesse contexto, a Libras é percebida como uma ferramenta necessária não só para a comunicação dos surdos, mas como uma conquista com vistas à sua inclusão social e cultural. Embora este reconhecimento tenha ocorrido tardiamente no Brasil em Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002285 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 relação a outros países (Estados Unidos, França, Suécia, Uruguai), dez anos após à aprovação da referida lei, ainda se reflete a ausência da Libras nos espaços públicos, sobretudo na escola, onde o processo de ensino e aprendizagem não inclui a Libras no uso corrente das práticas pedagógicas e nem como disciplina no currículo. Infelizmente, ainda é grande o desconhecimento, gerando, uma política de resistência, desvalorização e desrespeito ao estatuto linguístico da Libras. Contudo, as pesquisas afirmam que as línguas de sinais são verdadeiramente línguas. Stokoe, um linguista americano, comprovou, “que a língua dos sinais atendia a todos os critérios linguísticos de uma língua genuína, no léxico, na sintaxe e na capacidade de gerar uma quantidade infinita de sentenças (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 30). Posteriormente divulgou um dicionário e uma gramática de ASL (Língua de Sinais Americana). Estes foram os primeiros estudos linguísticos sobre as línguas de sinais. A partir disso, outros linguistas tomando por base os estudos de Stokoe, pesquisaram as línguas de sinais de seus países evidenciando, assim, o estatuto de língua2. Com o reconhecimento legal, a Libras é mais uma dentre as inúmeras línguas e é tão brasileira quanto à língua portuguesa e as línguas indígenas do Brasil, pois são faladas por surdos e ouvintes nativos brasileiros. As organizações sociais de/para surdos lutam para que a Libras seja respeitada e incluída no âmbito educacional, na comunicação entre pais e filhos surdos, nos meios de comunicação social a fim de que se garanta um crescente contato e adesão à sua aprendizagem. Após a aprovação da “Lei da Libras”, houve a sua regulamentação, através do decreto nº 5626 de 22 de Dezembro de 2005. De uma maneira geral, o teor do documento é abrangente no que refere à inclusão da Libras como disciplina curricular, da formação de professor e de tradutor e intérprete, do acesso das pessoas surdas à educação através da Libras e da língua portuguesa e do direito à educação e saúde dessas pessoas. Este trabalho tem o objetivo de realizar um estudo de análise comparativa dos planos de ensino da Libras como segunda língua (L2) de seis Instituições de Ensino Superior (IES) localizadas em quatro regiões brasileiras. Com base nesse material foram selecionados os aspectos das ementas e dos conteúdos devido à abrangência dos assuntos e enfoque dado a essa disciplina. Ressaltamos que foi feita uma pesquisa documental (MARCONI; LAKATOS, 2009), através de contato estabelecido com os professores de Libras de algumas universidades federais para disponibilização do material como também a informação dos cursos que incluíram a referida disciplina nos Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002286 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 projetos pedagógicos dos cursos de licenciaturas. As reflexões construídas nesse trabalho fundamentam-se na Legislação que trata da Libras, nas autoras Felipe; Monteiro (2005) autoras do livro Libras em Contexto e em Tavares; Carvalho (2010). Difundindo a Língua Brasileira de Sinais - Libras O incentivo em torno da socialização (uso e ensino) da Libras, ocorreu, inicialmente em 1997, numa publicação financiada pelo Ministério da Educação (MEC) da 1ª edição do livro “Libras em Contexto” e do I Curso de Capacitação para Instrutores promovidos pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis) a partir das pesquisas da Professora Tânya Amara Felipe sobre a metodologia de ensino da Libras. Após quatro anos, o MEC financiou o Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos que distribuiu o material para as Secretarias de Educação e promoção de Cursos para Instrutores e Cursos de Libras para professores de todo o Brasil. Em 2004, foi firmado entre MEC e Feneis o Programa “Interiorizando a Libras”, com a distribuição do material livro/DVD do Estudante e livro/DVDs do Professor e cursos de capacitação para instrutores, objetivando: apoiar e incentivar a formação profissional de professores, surdos e não-surdos, de municípios brasileiros, para a aprendizagem e utilização da língua brasileira de sinais em sala de aula, como língua de instrução e como componente curricular (FELIPE; MONTEIRO, 2005, p.5). Anteriormente à legislação que trata a Libras como língua e seus desdobramentos, percebe-se que a história dessas iniciativas houve uma preocupação emergente na busca de metodologias de ensino da Libras que enfocasse o contexto de uso da Libras de abordagem comunicativa, pois as experiências de ensino se baseavam (baseiam) ainda numa abordagem estruturalista. A partir do estudo do decreto que trata da inserção da Libras como disciplina inserida nas diferentes modalidades dos sistemas de ensino, apresentamos os artigos 3º e 9º, senão vejamos: Art. 3º A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. (...) Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002287 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Art. 9º A partir da publicação deste Decreto, as instituições de ensino médio que oferecem cursos de formação para o magistério na modalidade normal e as instituições de educação superior que oferecem cursos de Fonoaudiologia ou de formação de professores devem incluir Libras como disciplina curricular, nos seguintes prazos e percentuais mínimos: I - até três anos, em vinte por cento dos cursos da instituição; II - até cinco anos, em sessenta por cento dos cursos da instituição; III - até sete anos, em oitenta por cento dos cursos da instituição; e IV - dez anos, em cem por cento dos cursos da instituição. (BRASIL, 2005, grifos nossos). Portanto, nos artigos acima está assegurado o acesso da comunidade escolar para aprendizagem da Libras, sobretudo na formação de professores. Os termos em destaque dizem respeito às instituições de educação superior que devem tomar providências cabíveis como a reformulação dos projetos pedagógicos para inserir a Libras como disciplina obrigatória na matriz curricular dos cursos de licenciaturas, considerando o prazo máximo de dez anos a partir da sua publicação e observando os percentuais mínimos. Dessa forma, essas instituições, frente a uma política de expansão, devem garantir a presença do professor de Libras nos seus quadros efetivos. Vimos acima como o ensino de Libras como segunda língua começou a “ganhar terreno” na sociedade e nas instituições de ensino. Vimos também que durante muito tempo exigiu-se apenas uma “formação técnica”, através de cursos de capacitação, para os instrutores que atuam e atuavam no ensino de Libras como segunda língua. Com a oficialização da Língua Brasileira de Sinais por meio da lei 10.436/2002 fica obrigada, pela legislação, a inclusão da disciplina de Libras nos currículos de cursos superiores, tais como: Letras, Pedagogia, Fonoaudiologia e demais licenciaturas. A partir de então, surge a necessidade da formação, em nível superior, de professores e tradutores dessa língua. No ano de 2006, para o cumprimento da lei 10.436/02, foi criado o exame ProLibras que é uma proposição do Ministério da Educação para reconhecer e certificar profissionais que possam ensinar e/ou traduzir a Libras, esse exame é uma combinação de exame de proficiência e certificação profissional. O ProLibras é uma ação de curto prazo para “certificar profissionais para participarem dos processos de inclusão dos surdos brasileiros. À medida que contarmos com a formação de profissionais para atuarem nessas áreas, a certificação terá cumprido seu papel” (QUADROS et Al, 2009, p. 22). Portanto, o exame ProLibras objetiva avaliar a compreensão e produção em Libras, mas ele não substitui a formação necessária para os profissionais dessa área. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002288 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Ainda no ano de 2006, devido à exigência de formação de profissionais de Libras, a Universidade Federal de Santa Catarina, em parceria com dezoito instituições de ensino superior, criou o curso semipresencial de Letras/Libras – Licenciatura (2006) e Licenciatura e Bacharelado (2008), com o objetivo de formar professores para atuar no ensino de Libras e tradutores com habilidades específicas na tradução Libras/Português/Libras. Além de atender a legislação, o curso se destaca como ação afirmativa na medida em que reconhece a Libras como primeira língua dos surdos. Paralelamente a essas medidas, as universidades, também cumprindo a legislação, passaram a implementar a disciplina de Libras na matriz curricular de seus cursos. Tavares; Carvalho (2010) mostraram em seu estudo que não existe, ainda, um perfil definido para o professor de Libras que entra na universidade. O decreto que determina esse perfil traz exigências amplas e, às vezes, contraditórias a LDB, - quando permite que na falta do professor qualificado, esse profissional possua apenas o ensino médio - para a constituição desse profissional. De acordo com o verificado pelas pesquisadoras o perfil dos professores de Libras nas universidades é diversificado: No que se refere à formação ou titulação do candidato ao cargo de professor da disciplina Libras, as instituições pesquisadas parecem não ter clareza acerca da qualificação mais adequada para o provimento desse cargo. Nos dez editais analisados, se apresentam doze perfis distintos, que vão desde a simples exigência de graduação, em qualquer área, passando pela pesquisa e experiência docente em Libras, até o mestrado nessa área (TAVARES; CARVALHO, 2010, p. 9). As autoras também verificaram que a exigência da certificação do ProLibras está presente em quase todos os critérios de seleção para os professores de Libras das universidades, contrariando o decreto que determina que apenas quando não houver profissionais com formação superior específica em Letras-Libras ou em LetrasLibras/Língua Portuguesa segunda língua é que devem ser selecionados profissionais com o ProLibras. Um olhar sobre a disciplina de Libras no ensino superior Tendo em vista que não há uma diretriz curricular que norteie o ensino de Libras, pesquisamos os planos de ensino, da referida disciplina, das universidades pesquisadas abaixo, fazendo uma análise comparativa. Buscamos universidades em quatro das cinco regiões do Brasil, 2 na região nordeste, 1 na região norte, 2 na região sul e 1 na região sudeste. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002289 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 De acordo com o levantamento feito a disciplina de Libras está alocada, geralmente, nos cursos de licenciatura, tais como: educação física, geografia, letras, pedagogia, química, filosofia, música, matemática e biologia; mas também apareceu em cursos como: fonoaudiologia, biblioteconomia e jornalismo. A disciplina aparece também como optativa em outros cursos, como: enfermagem, terapia ocupacional, gerontologia, psicologia e engenharias. A seguir, organizamos uma tabela que apresenta as ementas e os conteúdos da disciplina de Libras em cada universidade pesquisada: I E S 1 I E S 2 EMENTAS CONTEÚDOS História dos surdos; noções de língua portuguesa e linguística; parâmetros da Libras; noções de linguística de Libras; sistema de transcrição, tipos de frases em Libras; incorporação de negação; conteúdos básicos de Libras; expressão corporal e fácil; alfabeto manual; gramática de Libras; sinais de nomes próprios; soletração de nomes; localização de nomes; percepção visual; profissões; funções de cargos; ambiente de trabalho; meios de comunicação; família; árvore genealógica; vestuário; alimentação; objetivos; valores monetários; compras; vendas; medidas; meios de transportes; estados do Brasil e suas culturas; diálogos. Histórico, Legislação e surdez: história da educação de surdos; legislação e surdez. O ser surdo: a cultura surda; a comunidade surda; as identidades surdas; o movimento surdo. Olhando a surdez: aspectos clínicos; aspectos educacionais; aspectos sócio-antropológicos. Língua ou linguagem: Libras e Língua Portuguesa – estruturas distintas; Língua e linguagem – língua de sinais ou linguagem de sinais? Português sinalizado; parâmetros da Libras; mitos nas línguas de sinais; bilinguismo e surdez; Libras – aspectos morfológicos, fonológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos. Praticando a Libras: alfabeto manual; datilologia; sinais e palavras; frases; vocabulário; Libras em contexto e diálogos. Reflexão sobre os aspectos históricos da inclusão das pessoas surdas na sociedade em geral. Histórico da educação de surdos no Brasil e no mundo. A Libras como língua de comunicação social em contexto de comunicação entre pessoas surdas e como segunda língua. Estrutura linguística e gramatical da Libras. Vocabulário aplicado da Libras. Orações em Libras. O intérprete de LS e a interpretação como fator de inclusão e acesso à informação. A escrita de sinais O indivíduo surdo ao longo da história: mitos e preconceitos em torno do indivíduo surdo, da surdez e da língua de sinais; História das línguas de sinais no mundo e no Brasil (contribuições, impacto social e inclusão da pessoa surda por meio da Língua Brasileira de Sinais); Línguas de sinais como línguas naturais; Correntes pedagógicas ligadas às Línguas de sinais. Gramática da Libras: Fonologia; Morfologia; Sintaxe; Semântica Lexical. Parâmetros da língua de sinais: Expressão manual (sinais e soletramento manual/datilogia) e não-manual (facial); reconhecimento de espaço de sinalização; reconhecimento dos elementos que constituem os sinais; reconhecimento do corpo e das marcas não-manuais; classificadores. Libras como língua de comunicação social entre pessoas surdas e entre ouvintes e surdos Bilíngues: Comunicando-se em Libras nos vários contextos sociais (dialogando em Libras nas diferentes situações de interação social); Vocabulário básico da Libras; Vocabulário aplicado à prática; Orações em Libras; Canções e Histórias em Libras. Legislação aplicada a Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002290 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Libras Noções de signwriting (escrita de sinais) I E S Cultura e identidade surda. Desconstrução dos mitos em relação às línguas de sinais A Língua de Sinais Brasileira – Libras: características básicas da fonologia. Noções básicas de léxico, de morfologia e de sintaxe com apoio de recursos visuais (figuras, fotos, dramatizações, etc.). Praticas de Libras em contexto. 3 Culturas surdas / identidades surdas; Nome / batismo do sinal pessoal; Apresentação pessoal/ e cumprimentos; Famílias e relações entre os parentescos; Numerais cardinais e numerais para quantidades; Saudações/ advérbio de tempo/ dias de semana / calendário / ano sideral; Características das roupas/ cores; Cotidiano / situações formais e informais; Objetos e partes de sala de aula Pessoas / coisas / animais Plural / singular; Localização de trabalho / escola / casa; Sinais relacionados ao ambiente de estudo e de curso; Perspectiva / direções; Sinais relacionados ao ambiente doméstico; Profissão / função / ambiente de trabalho; Meios de comunicação; Valores monetários; Alimentos e bebidas / pesos / medidas; Esportes; Meios de transportes / Estados do Brasil / línguas do mundo. OBS: todos os conteúdos trabalhados são contextualizados com verbos, pronomes, classificadores, viso-espacial, expressões faciais e corporais, etc.; nas práticas nas conversações em todas as aulas. Fundamentos linguísticos e culturais da Língua Brasileira de Sinais. Desenvolvimento de habilidades básicas expressivas e receptivas em Libras para promover comunicação entre seus usuários. Introdução aos Estudos Surdos. Datilologia: alfabeto manual e Números cardinais (de 1- 100); Batismo do sinal pessoal; Saudações; Principais áreas de vocabulário a serem desenvolvidos (nível elementar): ambientes doméstico e escolar; espaços urbanos; calendário; natureza (elementos e fenômenos); família; cores; alimentação (frutas, bebidas e alimentos simples); animais domésticos; materiais escolares; profissões; Pronomes pessoais, possessivos, interrogativos, demonstrativos; Aspectos básicos da linguística: – fonologia ( cinco parâmetros); – morfologia( singular e plural); Advérbios de tempo; Classificadores para formas e descrição de objetos; Verbos para comunicação básica (cotidiano): – verbos: formas afirmativas e negativas; Aspectos do diálogo em Libras; Introdução aos estudos surdos: língua, educação, culturas surdas e interpretação. Surdez e linguagem; papel social da Língua Brasileira de Sinais (Libras); Libras no contexto da educação inclusiva bilíngue; parâmetros formacionais dos sinais, uso do espaço, relações pronominais, verbos direcionais e de negação, classificadores e Introdução ao conhecimento de Libras. Noções de tempo, ação, uso do espaço na enunciação e formas básicas de contato cotidiano. Alfabeto digital: digitação e ritmo. Numerais em Libras e Cumprimentos e saudações em Libras. Vocabulário básico das situações cotidianas. I E S 4 I E S Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002291 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 I E S expressões faciais em Libras; ensino prático da Libras. Desenvolvimento da percepção visual dos alunos quanto aos parâmetros formacionais dos sinais. Pronomes Pessoais e suas relações espaciais constitutivas. Verbos direcionais. O uso das expressões faciais e os diferentes tipos de frases (interrogativas, afirmativas, exclamativas); Desenvolvimento de diálogos e narrativas em Libras. Conceito de Educação Inclusiva Bilíngue. Comunidades Surdas e Identidade Surda. Fundamentos histórico-culturais da Libras e suas relações com a educação dos surdos. Parâmetros e traços linguísticos da Libras. Cultura e identidades surdas. Alfabeto datilológico. Expressões não-manuais. Uso do espaço. Classificadores. Vocabulário da Libras em contextos diversos. Alfabeto datilológico e números; tipos de frases, uso do espaço e de classificadores; vocabulário da Libras; níveis linguísticos: fonologia, morfologia, sintaxe, semântica e pragmática; história das línguas de sinais e da Libras, abordagens educacionais, mitos construídos em torno da surdez e da língua de sinais, cultura e identidades surdas; legislação e surdez; formação de professores; o ensino de língua portuguesa como L2. 6 * IES – Instituições de Ensino Superior A palavra ementa tem sua origem no verbo latim emeniscor, que significa ideia, apontamento ou instrumento para lembrança. Saindo dessa concepção cotidiana da palavra, o termo ementa passou a ser incorporado pela terminologia técnica de diferentes áreas. De acordo com Guimarães, 2004: No âmbito da Educação, a ementa é comumente entendida como relação de tópicos em programas de ensino. No entanto, é de estranhar uma concepção de tal natureza, pois, partindo-se do pressuposto que todo plano de ensino deva conter ao menos o conteúdo programático, os objetivos, e o modus operandi (metodologia de ensino e avaliação) da disciplina, deveria a ementa, enquanto síntese, permitir a efetiva visualização de tais aspectos (GUIMARÃES, 2004, p. 31). A ementa de uma disciplina costuma ser uma descrição discursiva que resume o conteúdo conceitual ou processual da disciplina. As características formais de uma ementa disciplinar devem apresentar tópicos essenciais da matéria sob a forma de frases nominais e deve ser redigida em texto contínuo, e não em tópicos, permitindo a visualização da disciplina no seu todo. Podemos observar acima que a ementa da disciplina de Libras da IES 1 não possui estrutura adequada ao que temos como padrão de organização de ementa, pois há um detalhamento excessivo na descrição dos conteúdos. Acreditamos que tenha havido uma confusão em organizar o que seria o conteúdo programático e como ele deve ser destacado na ementa disciplinar. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002292 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Outro aspecto que observamos foi a similaridade na proposição das ementas, como, também, já observado pelas pesquisadoras Tavares; Carvalho (2010): Apesar de haver uma singularidade por parte das instituições ao traçar o perfil dos professores da disciplina Libras, observa-se que as ementas propostas apresentam similaridades, havendo apenas uma ênfase maior ou menor na questão do uso da língua. Constata-se a recorrência nas temáticas sobre a História da Educação dos Surdos, a identificação de aspectos linguísticos, quase não se apresentando nestas, questão da Cultura Surda e sua importância para a concretização de uma inclusão escolar cidadão do sujeito Surdo (TAVARES; CARVALHO, 2010, p. 9-10). Percebemos que o tema Cultura Surda e suas discussões correlatas aparecem explicitamente em três ementas como assunto a ser abordado, mas que ao analisarmos os conteúdos propostos, constatamos que o tema é abordado em todos os programas, com exceção da IES 2, contrariando o que foi constatado na pesquisa de Tavares; Carvalho (2010). As ementas fazem uma referência maior a conteúdos de aspectos teóricos sobre a história, cultura, identidade e estrutura da Libras - aspectos mais descritivos da língua – do que ao ensino e ao uso da mesma. Percebemos que quando há, na ementa, uma descrição de conteúdos relacionada ao ensino de vocabulário da Libras sempre existe a preocupação de que este vocabulário esteja inserido em um contexto de diálogos e práticas. Em apenas uma ementa apareceu o tema ‘escrita de sinais’, acreditamos que isso se deva a recenticidade dos estudos nessa área. Em relação aos conteúdos abordados, assim como nas ementas, constatamos algum grau de similaridade em sua proposição. Alguns programas apresentam parte de seus conteúdos de maneira muito genérica não deixando claro o que efetivamente será trabalhado dentro do tema proposto, como é o exemplo das IES 1, 2, 5 e 6 que trazem como descrição de conteúdo algo como “vocabulário em Libras”; ao passo que outros programas trazem conteúdos bem detalhados, como é o exemplo das IES 3 e 4. Percebemos que a disposição dos conteúdos referentes ao ensino propriamente dito da língua, apesar de não ter uma sequencialidade, parece estar organizada em função da proposição de conteúdos apresentada no livro ‘Libras em Contexto’ de Tânya Amara Felipe (2005), mesmo este livro não aparecendo em alguns programas como referência bibliográfica para a elaboração da disciplina. Outro ponto observado foi que em quase todos os programas os conteúdos têm início com o ensino da datilologia ou alfabeto manual, seguido pelo tema ‘números’. O Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002293 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 que nos leva a uma reflexão: por que o ensino de Libras sempre inicializa pela aprendizagem do alfabeto manual? Não poderíamos pensar em um ensino de Libras mais contextualizado na vivência da língua? É claro que verificamos algumas tentativas nesse sentido, por exemplo, a iniciativa de introduzir nas aulas canções e histórias em Libras para contextualizar a língua, como observamos na descrição de conteúdo da IES 2, mas são iniciativas ainda tímidas diante de conteúdos que parecem se apresentar ainda de forma categórica. Outra maneira de vivenciar a língua pode apresentar-se através de outras atividades que não só a de aprender sinais, como por exemplo, iniciativas de assistir a filmes sobre surdez, elaborar PCC’s decorrentes de visitas a instituições de surdos, entre outras, como aparece no programa de algumas universidades na descrição da metodologia que, no momento, não será analisada. Em nossa análise, identificamos alguns conteúdos (temas) comuns a todos os programas, tais como: família, cores, calendário, cumprimentos, etc; mas também encontramos em alguns programas grupos específicos de sinais, como: profissões, alimentos, materiais escolares, etc. Em relação aos conteúdos linguísticos percebemos que estão bem demarcados entre conteúdos teórico e prático, sentimos falta de uma relação mais ‘íntima’ entre essas duas partes. Sabemos que a carga horária dispensada a essa disciplina nas universidades não é suficiente para termos uma excelência na aprendizagem da língua, mas precisamos oferecer o máximo possível dentro da disponibilidade de horas que temos. Afinal, quantas horas seriam necessárias para um ensino de Libras minimamente suficiente? A carga horária destinada a disciplina de Libras nessas IES variam de 30 a 68 horas. Considerações Finais As ementas e os conteúdos de seis IES que foram aqui, analisadas, contribuem para uma maior discussão acerca da necessidade de elaboração de diretrizes curriculares para o ensino de Libras na educação básica e no ensino superior. Além disso, outros aspectos do programa como a metodologia, a avaliação, o uso de recursos, o material didático parece-nos determinantes no processo de ensino e aprendizagem da Libras nos cursos que contemplam apenas uma disciplina e que permita ao aluno o seu uso e interesse a uma formação continuada. Apesar da Libras ser ensinada numa perspectiva de segunda língua, devemos pensar o espaço e o momento em que a língua portuguesa é utilizada nesse ensino. Embora não seja esse o nosso foco, compreendemos que o uso da língua portuguesa (oral e/ou escrita) poderá influenciar na aprendizagem dos alunos. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002294 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Na mesma direção, outro fator não menos importante, nesse contexto de ensino, é o ensino da Libras na disciplina de Libras, ou seja, o material analisado não deixa claro o quantitativo de carga horária em que os alunos tenham o máximo de tempo de exploração da Libras pelo professor. Será que os conteúdos distribuídos (30 a 68 horas) garantem esse uso efetivo? O que se constata é que existe uma separação entre conteúdos teóricos (uso de textos, visitas, relatórios, filmes) e práticos (aprendizagem do vocabulário), e por isso deve ser garantida uma distribuição de carga horária de ensino efetivo em torno de 70%, considerando, apenas uma disciplina e, portanto, uma oportunidade desses alunos e futuros professores ter acesso à aprendizagem da língua. Outra proposição é considerar a inclusão de uma segunda disciplina que trate, de acordo com as ementas e conteúdos acima, dos assuntos referentes à surdez (história, cultura, educação, legislação, dentre outros), garantindo uma carga horária maior ao uso da Libras em diversos contextos. O material analisado é utilizado nos diversos cursos de licenciaturas. Observamos que as semelhanças existentes entre os conteúdos das IES não permitem que seja dado um enfoque no vocabulário específico do curso em que a disciplina foi incluída. Os alunos, oriundos dos diversos cursos de formação de professores recebem os mesmos conteúdos, portanto, não estabelecendo uma diferença no ensino específico para cada curso. Embora o decreto 5626/2005 garanta uma disciplina de Libras nos cursos de licenciaturas das IES, compreendemos que para cumprir o objetivo da formação do aluno licenciado, o ensino da Libras para fins específicos numa condição de outra disciplina na matriz curricular do curso, poderia contemplar o conjunto de conhecimentos acerca do curso a serem aplicados no processo de ensino e aprendizagem dos alunos surdos da educação básica. São iniciativas que poderiam favorecer o espaço da Libras na IES e uma discussão sobre Política Linguística da Libras nos contextos sócio-educacionais. Notas 1 O termo “pessoas ouvintes” se refere àqueles que pertencem a uma comunidade majoritária e que ouve uma língua oral-auditiva e que não apresenta um déficit auditivo. 2 No Brasil, a linguista Lucinda Ferreira Brito na década de 1980 iniciou as pesquisas sobre a Libras e contou com a colaboração de pessoas surdas. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002295 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Referências Bibliográficas BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. BRASIL. Lei nº 10.436 de 24 de Abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências. FELIPE, T. A.; MONTEIRO, M. S. Libras em Contexto: Curso Básico: Livro do Professor. 5ª Ed. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2005. GUIMARÃES, J. A. C. Elaboração de ementas jurisprudenciais: elementos teóricometodológicos. 2004. 154f. Série Monografias do CEJ. Brasília:UnB. MARCONI. M. A.; LAKATOS, E. M. Técnicas de Pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisas, elaboração, análise e interpretação de dados. 7ª Ed. São Paulo: Atlas, 2009. QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de Sinais Brasileira: estudos linguísticos. Porto Alegre: ArtMed, 2004. QUADROS, R. M. e all. Exame Prolibras. Florianopólis: UFSC, 2009. TAVARES, I. M.; CARVALHO, T. S. S. Inclusão escolar e a formação de professores para o ensino de Libras (Língua Brasileira de Sinais): do texto oficial ao contexto. 2010. Disponível em: <http://dmd2.webfactional.com/media/anais/INCLUSAO-ESCOLAR-E-AFORMACAO-DE-PROFESSORES-PARA-O-ENSINO-DE-LIBRAS-(LINGUABRASILEIRA-DE-SINAIS.pdf> Acesso em: 10 fev. 2011. ISSN: 1981 – 3031. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.002296