UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA
MARTHA RIBEIRO DA FONSECA
A BELEZA, O DESEJO E O AMOR
Rio de Janeiro
2013
Martha Ribeiro da Fonseca
A BELEZA, O DESEJO E O AMOR
Dissertação apresentada ao Curso de
Mestrado em Psicanálise, Saúde e
Sociedade da Universidade Veiga de
Almeida por MARTHA RIBEIRO DA
FONSECA, como requisito para obtenção
do título de Mestre.
Área de concentração: Psicanálise e saúde.
Linha de Pesquisa: Subjetividade nas Práticas
das Ciências da Saúde.
Orientadora: Profª Drª Maria Anita Carneiro Ribeiro
Rio de Janeiro
2013
DIRETORIA DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTU SENSU
E DE PESQUISA
Rua Ibituruna, 108 – Maracanã
20271-020 – Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 2574-8871 - (21) 2574-8922
FICHA CATALOGRÁFICA
F676b Fonseca, Martha Ribeiro da.
A Beleza, o desejo e o amor / Martha Ribeiro da Fonseca, 2013.
78 f; 30 cm.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida,
Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de
Janeiro, 2013.
a
Orientação: Prof . Dra. Maria Anita Carneiro Ribeiro.
.
1. Psicanálise. 2. Beleza. 3. Desejo. 4. Recalque. I. Ribeiro, Maria
Anita Carneiro. II. Universidade Veiga de Almeida, Mestrado
Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. III. Título.
CDD – 616.8917
Decs
Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA
Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho
Martha Ribeiro da Fonseca
A beleza, o desejo e o amor
Dissertação apresentada ao Curso de
Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade
da Universidade Veiga de Almeida por
MARTHA RIBEIRO DA FONSECA, como
requisito para obtenção do título de mestre.
Área de concentração: Psicanálise e saúde.
Linha de Pesquisa: Subjetividade nas Práticas
das Ciências da Saúde.
Data da Defesa:
21 de outubro de 2013.
Banca Examinadora
_______________________________________________________________
Profª Drª Maria Anita Carneiro Ribeiro
Pós-doutora em Psicologia (PUC/RJ)
Professora do Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA
_______________________________________________________________
Profª Drª Sônia Xavier de Almeida Borges
Doutora em Educação (PUC/SP)
Professora do Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA
_______________________________________________________________
Profª Drª Elisabeth da Rocha Miranda
Doutora em Psicanálise (UERJ)
Professora do Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA
Dedicatória
Aos meus pais, Dacio e Daise, pelo apoio
incondicional para a continuidade de
meus estudos.
Ao meu marido Samuel pelo apoio e
paciência durante a trajetória de minha
dedicação para com meus estudos.
Aos meus irmãos e familiares que me
incentivaram
em
meus
estudos.
Agradecimentos
À Profª Drª Glória Sadala, coordenadora do Mestrado em Psicanálise, Saúde
e Sociedade, que me entrevistou e possibilitou minha entrada neste curso,
observando meu enorme desejo em busca de conhecimento.
À minha orientadora acadêmica, Profª Drª Maria Anita Carneiro Ribeiro, por
sua paciência, dedicação e incentivo ao longo das aulas e orientações, sem medir
esforços para minha compreensão no estudo da psicanálise.
A Profª Drª Sônia Xavier de Almeida Borges e Profª Drª Elisabeth da Rocha
Miranda por gentilmente aceitarem participar da banca examinadora.
À mestranda e amiga Ana Paula Queiroz, por seu carinho, parceria e por seu
incentivo e ajuda nas referências bibliográficas cedidas.
Aos mestrandos, amigos e parceiros de grupo de orientação, Gilber, Laura
Junqueira, Daniele Lamarca, por seu apoio e incentivo nas apresentações em
congressos e ajuda nas referências bibliográficas cedidas.
Ao mestrando, amigo e parceiro Vinícius, por seu apoio e incentivo durante
esta jornada.
Aos meus colegas do mestrado que sempre me ampararam e estimularam ao
longo deste percurso.
A minha secretária Maria Cristina que sempre me incentivou na realização
deste mestrado.
A todos meus amigos que sempre me incentivaram na realização deste
mestrado.
Qualquer homem pode alcançar o êxito,
se dirigir seus pensamentos numa direção
e insistir neles até que aconteça alguma
coisa.
Thomas Edison
RESUMO
A busca por um padrão de beleza física produz no sujeito um desejo
constante de mudança desde a antiguidade. Ao se tornar escravo do desejo de
mudanças físicas pela beleza em busca da forma, irá deslizar por vários
significantes na tentativa de atender esta demanda e de sentir-se desejado e amado
pelo parceiro. Porém, para que haja desejo deverá ter uma falta, ou seja, a partir da
falta-a-ter à falta-a-ser o falo. Quanto ao amor, este percorrerá o mesmo trilho, na
busca pela identificação materna ou paterna de acordo com o recalque. Assim, a
procura do amor através da beleza física de seu parceiro não garante que este
atenda a sua demanda, proporcionando insatisfação. O sujeito então recalca e irá ao
encontro de tentativas para satisfazer seus desejos. No entanto, precipita-se em um
mergulho incessante que não finda, pois nada que encontre irá proporcionar a
satisfação pretendida.
Palavras chave: beleza, desejo, recalque, demanda, amor.
ABSTRACT
The search for a standard of physical beauty to the subject produces a
constant desire for change. By becoming a slave of desire, will slip by several
significant in trying to meet this demand, and feel desired and loved by their partner.
However, so there should be a lack desire, in other words, from the lack-have the
want-to-be phallus. As for love, it will travel the same way in seeking to identify
maternal or paternal under repression. So when looking for love in physical beauty
your partner, this does not always answer your demand, providing dissatisfaction.
The subject then will meet and represses attempts to satisfy his desires. But a
relentless dip that will not end, because nothing you find will provide satisfying
unmet.
Keywords: beauty, desire, repression, demand,love.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................... 10
1
A HISTÓRIA DA BELEZA ............................................................. 19
1.1 A beleza revelada do século XV até os dias de hoje ............... 22
1.2 A influência da moda na feminilidade .......................................... 27
2
O INCONSCIENTE E A SEXUALIDADE .......................................... 38
2.1 O inconsciente e a linguagem ........................................................ 38
2.2 O sujeito e o desejo .......................................................................... 42
2.3 Sexualidade infantil ........................................................................... 45
2.4 Complexo de Édipo e complexo de castração ........................... 51
2.5 A sexualidade feminina .................................................................... 55
3
A PSICOLOGIA DO AMOR .......................................................... 57
3.1Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens ..... 57
3.2 A tendência universal à depreciação na esfera do amor ........ 60
3.3 As mulheres, o amor e o desejo .................................................... 64
CONCLUSÃO ................................................................................................. 66
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................... 72
APÊNDICE A .................................................................................................. 76
10
INTRODUÇÃO
Esta dissertação tem como propósito compreender as razões psicanalíticas
que levam o sujeito a modificar ou mutilar seu corpo físico com o objetivo de
conquistar um parceiro para amar ou na busca de manter este amor. Para alcançar
estas modificações irão submeter-se aos tratamentos estéticos faciais e corporais,
além das mudanças em suas condutas dietéticas.
Sou nutricionista formada há vinte e três anos pela Universidade Federal
Fluminense/RJ e tecnóloga em estética e cosmetologia há seis anos. Minha
trajetória na nutrição foi sempre de atendimento clinico em dietoterapia onde oriento
nutricionalmente pacientes com desordem nutricionais e também aqueles que
desejam uma alimentação saudável com o objetivo de qualidade de vida e os que
desejam melhorar no corpo seus problemas inestéticos.
Nossa prática se dá por meio de uma avaliação dos problemas inestéticos
corporais como a presença de fibro edema ginoide (FEG – vulgarmente chamada de
celulite), estrias, gordura localizada e hipotonias dérmicas e musculares, onde será
montado um programa de tratamento personalizado, visando a melhora destas
alterações. Além de orientação nutricional a pacientes com desordens nutricionais e
também nos direcionamos àqueles que desejam uma alimentação saudável com o
objetivo de atingir uma melhor qualidade de vida.
11
Desta forma, para o organismo estar nutrido ele deve seguir as leis que
regem a boa alimentação. Segundo Pedro Escudeiro, estas leis favorecem a
organização da ingestão alimentar, proporcionando indivíduos saudáveis e
melhorando o estado de saúde dos mais debilitados (VASCONCELOS, 2002):
1) Lei da qualidade: nutrientes necessários ao organismo;
2) Lei da quantidade: total calórico e de nutrientes;
3) Lei da adequação: peso, altura, clima, sexo, estado fisiológico,
coletividade, etc.;
4) Lei da harmonia: distribuição de macro e micronutrientes.
Deste modo, o sujeito, no momento em que apresenta alterações
bioquímicas, patológicas ou estéticas, procura o profissional de nutrição para ajudar
com sua alimentação.
A partir de nossa experiência percebemos que muitas questões inconscientes
estavam envolvidas e influenciavam em alguns casos de insucesso de dieta
e de tratamentos estéticos já feitos anteriormente. Assim, vamos descrever um
fragmento de um caso clínico, o que me motivou nosso interesse pelo estudo da
psicanálise.
Ao atender uma jovem senhora, comecei a anamnese perguntando o que a
levara ao meu consultório e o seu relato era que estava se sentindo “gorda e feia”. E
logo foi dizendo: “Sou casada há quatro anos, meu casamento não vai bem, pois
estou gorda e quero engravidar para salvar meu casamento”. Relata que se casou
muito cedo, com o primeiro namorado e diz: “Queria sair de casa, pois meus pais
não me permitiam que eu saísse à noite para festas”. Seu pai era militar e a mãe
enfermeira, sendo que a voz forte da casa era da mãe.
Conta que seu namorado (atual marido) não era tão bonito, mas muito
apaixonado e queria casar-se logo. Ele lhe contara que era o mais velho de três
12
irmãos e que foram criados pela mãe, pois seu pai saiu de casa quando ele tinha
nove anos, seus irmãos seis e três anos, e nunca mais voltou. Sua mãe morreu
quando ele completou quinze anos e cada irmão foi morar com um parente.
Entretanto, no momento, já com vinte e seis anos, ele morava sozinho e não se dava
muito bem com seus irmãos.
Assim, namoraram por dois anos e meio, porém seus pais não aprovavam o
casamento, pois o rapaz não teria condições de oferecer todos os luxos que a moça
tinha em casa. Alegavam também que o rapaz não tinha curso superior e que a
jovem, apesar de seus dezenove anos, já estava quase concluindo duas faculdades.
Achavam que a jovem era manipulada por ele. A mesma relata: “Eu permitia, era o
jeito dele”. Apesar da contrariedade de seus pais, ela marca o casamento para o
final do ano e em julho é aprovada em um ótimo concurso público passando a
ganhar o triplo do que seu namorado ganhava. Comenta que no instante em que ele
soube de sua aprovação disse: “Agora seus pais não podem falar mais nada”.
No entanto, ao longo dos anos de convivência, a jovem senhora engordou
quase doze quilos. Já não era mais a menina que usava sua “mesada” para comprar
o que quisesse, pois passou a assumir quase 80% das despesas da casa e não
sobrava mais dinheiro para cuidar-se. Seu marido dizia: “Meu dinheiro não dá para
coisas supérfluas”. Contraditoriamente, a jovem senhora relata que seu esposo
comprava sempre os artigos mais caros no mercado e não economizava em nada.
Certo dia seu marido começou a desprezá-la, dizendo que estava “feia e
gorda”, e que ela teria de agradecer por estar ao seu lado, pois nenhum homem iria
olhar para ela e gostar dela como ele. Assim, sua autoestima desapareceu.
Desejava ser mãe, entretanto tinha medo de engordar muito e perder o marido.
Relata que conversou com ele sobre seu desejo de fazer um tratamento para
13
emagrecer e este respondeu: “Isso é bobagem e perda de dinheiro, pois não temos
essa grana”.
A jovem senhora teve nesta época uma promoção, sobrando dinheiro para o
tratamento. Assim, omitiu do marido sobre a promoção e me procurou para
tratamento nutricional e estético.
Determinada a melhorar sua autoestima a jovem senhora é fiel ao tratamento,
transformando seu manequim quarenta e oito em quarenta e dois. Ela relata: “Estou
chamando atenção de vários admiradores por onde ando. O mais engraçado é que
neste período em que perdi peso meu marido engordou e não me procura mais
enquanto mulher. Ainda bem, pois só assim não tenho de dar desculpas”.
Em consequência de trabalhar em atendimento ao público, conhece um
cliente que se encanta com sua beleza e cede as cantadas aceitando o convite para
sair. Observa que não ama mais o marido e que ele só está casado com ela porque
a situação é cômoda e muito confortável para ele. A paciente afirma: “Vou me
separar, alugar uma casa menor e colocar só do meu jeito. Não desisti de ser mãe,
porém não tenho mais necessidade de passar por esta situação com ele e com
homem nenhum. Quero aproveitar a vida, sair a hora que eu quiser e conhecer
todos também. Um dia vai aparecer o pai do meu filho e assim serei mãe. Gostei
muito de cuidar de mim e quero continuar meu tratamento, pois me ajudou muito”.
Durante todo o tempo de tratamento, que levou em torno de um ano e meio,
me senti angustiada, pois havia a encaminhado para psicóloga e a mesma me disse:
“Tenho de dar prioridade. No momento quero cuidar do meu corpo. Já converso com
você e isso me faz muito bem. Você me escuta e não me recrimina em nada que
faço. Sei que você não é psicóloga, mas a sua postura profissional lembra”.
14
Neste momento, surge uma questão: Será realmente que a beleza física é
uma forma de atrair um verdadeiro amor? Ou será que somos atraídos a um parceiro
por carências ou traumas e recalques de infância?
Baseando-nos em atendimentos dietoterápico em consultório e observando
ao longo dos anos o tratamento estético de alguns clientes, surgiu o desejo de
realizar um estudo mais profundo relativo às questões que influenciam o
inconsciente e que levam o sujeito a ter atitudes e comportamentos diferentes da
realidade que almejam.
Neste trabalho, vamos estudar como os profissionais da área de estética e da
nutrição podem reconhecer em seus pacientes e clientes os motivos que os levam a
fazer e buscar tratamentos estéticos, orientando-os a observarem as sutilezas dos
significantes colocados nas consultas, pois ainda que alcancem seu peso e corpo
adequados ainda não se encontram satisfeitos.
Deste modo, no primeiro capítulo vamos estudar a “História da Beleza”. Ao
longo do tempo, podemos verificar que o homem sempre se preocupou com a forma
e a beleza do corpo. Os egípcios, astecas, maias e outras culturas antigas já
usavam adornos e pinturas como forma de atrair seus parceiros. Na China os pés
das mulheres eram quebrados em prol da beleza. Em determinada tribo africana se
utilizavam colares de ferro para alongar o pescoço como sinal de beleza.
(GORENDER, 2008).
Freud (1930), em “O mal estar da cultura”, afirma:
A atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca
proteção contra a ameaça do sofrimento, embora possa compensá-lo
bastante. A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de
sentimento, tenuemente intoxicante. A beleza não conta com um emprego
evidente; tampouco existe claramente qualquer necessidade de cultura sua.
Apesar disso, a civilização não pode dispensá-la. Embora a ciência da
estética investigue as condições sob as quais as coisas são sentidas como
belas, tem sido incapaz de fornecer qualquer explicação a respeito da
natureza e da origem da beleza, e tal, como geralmente acontece, esse
insucesso vem sendo escamoteado sob um dilúvio de palavras tão
pomposas quanto ocas. (FREUD, 1930, p.102).
15
Sendo um dos sofrimentos do homem a sua imagem óptica, ao se ver no
espelho, vê o Outro, uma imagem que se estabelece no registro do imaginário, como
Lacan (1953-1954) afirma em O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud,
“(...) se vê, se reflete e se concebe como outro que não ele mesmo – dimensão
essencial do humano, que estrutura toda a sua vida de fantasia”. (LACAN, 19531954, p.96). Ao buscar seus desejos, o sujeito se lança na procura de uma imagem
criada no registro imaginário que o constituiu. Sendo o sujeito escravo da linguagem,
ele busca na fala do grande Outro a realização de seus desejos, pois a palavra que
habita o registro do simbólico vai endereçar sua demanda ao ideal do eu.
Porém, não se constitui uma relação entre o ato de desejar e de ser belo, já
que nem sempre a beleza física será o suficiente para despertar a atração sexual no
parceiro. O que o sujeito espera é que além de ser desejado, também seja amado.
Assim, no artigo “Ela anda em beleza, como a noite”, Maria Anita Carneiro Ribeiro
(1995), afirma:
Ao fazer-se bela, bela para si mesma, para um homem ou para outras
mulheres, uma mulher tenta tomar para si enquanto sujeito a beleza que é
sua, enquanto mulher, mas que, no entanto lhe escapa. A manobra de
sedução pela beleza é a tentativa de adivinhar, dar um nome, um atributo
ao desejo enigmático do Outro. (CARNEIRO RIBEIRO, 1995, p.97).
No segundo capítulo da dissertação estudaremos o inconsciente e suas
formações de modo a entender como a linguagem irá influenciar o sujeito e como
esta formação instiga o desenvolvimento sexual do período pré-genital até a vida
adulta. Ao procurar a imagem especular que considera ideal, o sujeito cria uma
imagem escópica que ficará registrada no real, porém esta busca será constante,
pois a captura do eu ideal é inatingível. Lacan (1959-1960), em O Seminário, livro 7:
A ética da psicanálise, ressalta:
Há uma certa relação do belo com o desejo. Esta relação singular é
ambígua. Por um lado, parece ser possível que o horizonte do desejo seja
eliminado do registro do belo. E, no entanto, por outro lado, ele não deixa de
16
ser manifesto (...) o belo tem por efeito suspender, rebaixar, desarmar, diria
eu, o desejo. A manifestação do belo intimida, proíbe o desejo. Não quer
dizer que o belo não possa com o desejo, em tal momento se conjugar,
porém muito misteriosamente, é sempre sob esta forma, que não posso
designar de outra maneira senão chamando-a por um termo que traz em si
a estrutura da passagem de não sei que linha invisível – o ultraje. Parece,
todavia, que é da natureza do belo permanecer, insensível ao ultraje.
(LACAN, 1959-1960, p.284).
Recordando a mitologia grega, temos o mito de Narciso. Muito conhecido, o
mito é utilizado para exemplificar a paixão de Narciso por sua imagem especular. A
busca narcísica pela beleza do corpo leva o sujeito à procura de várias soluções
para que se estabeleça uma harmonia em seus conflitos internos. Freud (1914)
coloca que o narcisismo baseia-se na visão em que o sujeito contempla seu próprio
corpo, tornando-o objeto de desejo para sua satisfação sexual; corpo este possuidor
de várias zonas erógenas, que vão permitir que ao admirar sua imagem direcione
para si uma energia libidinal, para posteriormente direcionar esta energia para o
exterior. Lacan (1953-1954), em O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud,
afirma:
O outro tem para o homem valor cativante, pela antecipação que representa
a imagem unitária tal como é percebida, seja no espelho, seja em toda
realidade do semelhante. O outro, o alter ego, confunde-se mais ou menos,
segundo as etapas da vida, com o Ich-Ideal, esse ideal do eu invocado o
tempo todo no artigo de Freud. A identificação narcísica – a palavra
identificação, indiferenciada, é inutilizável –, a do segundo narcisismo, é a
identificação ao outro que, no caso normal, permite ao homem situar com
precisão a sua relação imaginária e libidinal ao mundo em geral. Esta aí o
que lhe permite ver no seu lugar, e estruturar, em função desse lugar e do
seu mundo, seu ser. (LACAN, 1953-1954, p.148).
Em seus “Escritos” (1966), no capítulo sobre “O estádio do espelho como
formador da função do eu”, Lacan (1949), ao comparar uma criança de seis meses e
um chimpanzé que se olham no espelho, observa que a criança é a única que
reconhece a própria imagem refletida no espelho e também dos objetos e pessoas
que estão em sua volta. O chimpanzé, bem como ocorreu na experiência do
cachorro de Pavlov, responde ao estímulo através dos treinos pelo condicionamento,
porém não se reconhece no espelho. A criança se identifica em seu eixo imaginário
17
e se compraz com sua imagem refletida, fazendo gracinhas para ela mesma. No
livro “Os outros em Lacan”, Antonio Quinet (2012) afirma que:
Ao partimos do princípio de que no início não há unidade, o corpo do
indivíduo pode ser concebido como um corpo retalhado, despedaçado,
fragmentado pelas pulsões autoeróticas, as pulsões ditas parciais. A
unidade do corpo é, em seguida, prefigurada pela imagem do outro ou pela
imagem do espelho, pois ambos não se distinguem como nos ensina o mito
de Narciso. As pulsões autoeróticas convergem para a imagem do corpo
tomado por um outro: imagem com a qual o sujeito se identifica para
constituir o seu eu. Essa imagem é o eu ideal, formado como imagem do
outro, i(a), que dará a unidade do eu. Essa prefiguração da unidade corporal
é acompanhada de uma jubilação que corresponde à satisfação narcísica
sobre um corpo. O eu é, assim, constituído por uma imagem que se
corporifica: corpo unificado, corpo em sua totalidade, em suma, corpo
humano. (QUINET, 2012, p.13).
Observa-se então que o “eu” é constituído por uma soma de significantes
dados pelo grande Outro, donde o inconsciente estabelece um discurso marcado por
significantes derivados de seus desejos. Desse modo, para o grande Outro o “eu” é
visto como sujeito. Em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde
Freud”, Lacan (1957) assegura que “o sujeito pode parecer servo da linguagem”
(LACAN, 1957, p.498), pois mesmo antes de seu nascimento ele já existe, a
exemplo quando um casal que pretende constituir uma família, mesmo antes do
matrimônio, já fala de sua vinda, sobre criação e destinos deste sujeito que ainda
não foi concebido, mas já se encontra constituído.
Assim, o bebê ao nascer induz os pais e os outros parentes a darem vários
significantes ao sujeito e dependendo destes significantes o sujeito vai formando
uma visão simbólica e imaginária de si, de modo que estes atributos às vezes
podem proporcionar felicidade ou angústia.
Deste modo, Freud (1905) comenta quanto à questão da sexualidade na
infância, que o complexo de Édipo desenvolve-se inicialmente a partir da
necessidade de alimentar-se e, posteriormente, da satisfação que este momento
proporciona, surgindo a primeira relação de amor e desejo da criança pela mãe.
Este amor irá perdurar até que a menina se dê conta da ausência do pênis e se volte
18
para o pai em busca de tê-lo. Já o menino ficará nesta relação até que apareça a
ameaça da castração pela presença do Nome-do-Pai. Assim, ao chegar a idade
adulta, o sujeito busca encontrar este amor recalcado na infância, que pode ter tido
várias identificações de acordo com a sua opção sexual.
Avançando em nossas investigações chegamos ao terceiro capítulo, onde
discutimos acerca da relação amorosa em conformidade com as ideias que Freud
evoca nos artigos que compõem as “Contribuições à psicologia do amor” (19101917). A relação amorosa é vista de modo a atender a necessidade de encontrar um
objeto amoroso. Neste caso, o que o homem vai buscar na mulher nem sempre será
a beleza física, a qual as mulheres desejam mostrar, mas sim atender o desejo de
dar a ela o falo. Sendo a mulher a representação do próprio falo para o homem,
“loucura bizarra que não é a psicose porque tal identificação ao falo está ligada ao
desejo de um homem, ao olhar do Outro, à perversão polimorfa própria ao macho”.
(MIRANDA, 2011, p.91).
Lacan (1958) , em “A significação do falo”, afirma que:
A hiância desse enigma confirma o que a determina na fórmula mais
simples para torná-la patente, qual seja, que tanto para o sujeito quanto
para o outro, no que tange a cada um dos parceiros da relação, não basta
serem sujeitos da necessidade ou do objeto do amor, mas tem que ocupar o
lugar de causa de desejo. (LACAN, 1958, p.698).
Concluímos então, que o sujeito nunca terá seus desejos atendidos, pois o
objeto de seu desejo é um furo, ou seja, o “objeto a”, pois se o sujeito é um ser
desejante ele irá deslizar por vários significantes levando-o a mais angústia,
recalcando seu desejo.
19
1 A HISTÓRIA DA BELEZA
Como podemos descrever a beleza tão desejada por todos de acordo com
sua cultura? Nesse capítulo vamos vislumbrar como a beleza foi sendo despertada
pelas civilizações mais antigas até os dias de hoje, de modo que possamos
compreender o que move o sujeito a se enfeitar e quais as expectativas de uma
mudança física.
A história da beleza nos acompanha há muitos séculos, muito retratada em
pinturas, mitos e músicas por vários artistas desde antes de Cristo. A mitologia grega
nos descreve a história da beleza através do mito do nascimento de Afrodite. A
história nos conta que Urano era o rei do Universo, porém Cronos, seu filho,
querendo o poder do pai o enfrenta numa luta e munido de uma foice arranca sua
genitália se tornando o novo soberano do mundo.
O urro de Urano é como um trovão, estremecendo toda a terra. Nesse
momento, seu órgão fecundo mergulha nas águas profundas do mar e o fecunda de
modo excêntrico. O mar se revolta durante toda a noite, mas o sangue de Urano se
mistura com as espumas do mar e este começa a apresentar-se cada vez mais
diferente. O movimento das ondas e o borbulhar das águas demonstravam que algo
começaria a acontecer. Algumas ninfas que estavam nas margens da ilha de Chipre,
notavam que o mar estava diferente como se o mesmo fosse parir algo. Quando os
raios do sol se refletiram no mar, as ninfas pensaram que um monstro fosse sair
20
dele. De repente, um aroma delicioso de perfume é trazido pela brisa do mar, mais
leve e suave que qualquer flor da ilha.
Assim, de dentro do mar começa a surgir uma cabeça de mulher mais linda
que tudo no universo, com um rosto delicado e suave, de uma beleza sem igual.
Seus ombros, seios, cintura e sua pele eram perfeitas. Seu umbigo era lindo e logo
abaixo um véu triangular de fios dourado se agitavam com a brisa da manhã. Quem
seria esta mulher tão linda saída das águas? Com a ajuda dos peixes e golfinhos,
colocaram sob seus pés uma grande concha e foram-na trazendo até a areia,
realmente era uma deusa. Ao pisar em terra firme algo mais espantoso se fez, pois
por onde ela pisava, o solo se tornava verde e as flores mais lindas se floriram
exalando um perfume com toque angelical. Pássaros entoavam seus cantos mais
belos de acordo com seu caminhar. As ninfas que estavam a admirá-la tinham
perdido a fala até que uma delas perguntou: Quem é você? E ela respondeu: Sou
aquela nascida da espuma do mar e do sêmen divino. Seu hálito tinha o perfume
das pétalas de rosas e sua voz era doce.
No mesmo dia, a notícia chegou aos Deuses do Olimpo, que ordenaram a
Horas e Graças que fossem recepcioná-la. Enfeitada pelas mais belas divindades,
foi apresentada no salão dos Deuses e admirada por todos e com o deslizar de seu
véu, deixa aparecer sua beleza original. E todos a aclamaram como a mais bela das
deusas.
Durante muitos séculos a beleza era demonstrada através das pinturas e das
esculturas, onde os artistas retratavam as diversas formas de beleza. Segundo Eco
(2010), na antiga Grécia, “a beleza era associada a outros valores como a medida e
a conveniência”. (ECO, 2010, p.20). A própria Afrodite foi retratada por vários
pintores nos séculos XIV e XV, onde se referiam a ela como a Vênus do Amor. Eco
(2010), também nos conta que em Homero, autor de “A guerra de Troia”, não
21
encontramos definição de beleza e que Eurípides (séc. V a.c) em “As Bacantes”
relata: “o que é a sapiência ou que presente dos Deuses é mais belo entre os
homens que erguer a mão vitoriosa sobre a fronte do inimigo? O que é belo é
sempre desejável”. (IDEM, IBIDEM, p.82).
O belo é o que atrai o olhar. Na época de Homero o corpo humano assume
papéis mais importantes. A beleza é vista através de qualidades da alma e do
caráter. Segundo a mitologia escrita nos templos de Delfos: “o mais justo é o mais
belo". Assim, toda forma de beleza retratada nos séculos antes de Cristo, mostra as
esculturas de corpos em formas estáticas com expressões psicofísicas que
harmonizam a alma e o corpo, demonstrando a beleza nas formas da bondade e da
alma. Nessa época também surgem as teorias relacionadas à beleza como
harmonia e proporção e a beleza como esplendor.
Pitágoras, no século VI a.C., afirma a importância da harmonia e da
proporção e sustenta que o número é o princípio de todas as coisas e que precisam
refletir uma ordem, pois é uma condição da existência da beleza. Quanto à
proporção, para que possa refletir uma beleza é necessário que haja uma proporção
numérica no corpo, ou seja, que as esculturas deviam ter as mesmas proporções em
ambos os lados com uma simetria distribuída em toda a obra.
Já na Idade Média, a matemática das proporções não mais será aplicada na
avaliação do corpo. A cultura medieval se volta para a ideia platônica que o homem
é como o mundo, sendo o cosmo um grande homem e o homem um pequeno
cosmo.
Baseando-se na teoria do quadrado onde encontramos os quatro pontos
cardeais, quatro fases da lua, quatro estações do ano, também encontramos o
número do homem, pois a largura de braços abertos corresponde a sua altura.
Assim, o homem moralmente correto será chamado de tetrágono e de pentágono
22
quando acrescido de um que significara a perfeição mística, estética e na qual se
referencia a Deus.
1.1 A beleza revelada do século XV até os dias de hoje
Segundo os relatos de Vigarello (2006), a partir do século XV a beleza passa
a ter relevos, formas, cores, espessura e contornos arredondados. A mulher é
retratada em quadros valorizando o seu rosto, seu olhar e o colo. Esta forma
modifica a estrutura de corpo da mulher do século XIII, pois na época esta deveria
ter a “magreza do ventre”, rosto simétrico e branco, seios bem assinalados e corpos
apertados.
Contudo, passa a predominar, nos séculos XV ao XVI, as formas do corpo
feminino que ganham contornos mais consistentes, porém existe a exigência de
equilíbrio entre a magreza e a gordura, sendo considerada bela aquela mulher em
grande ponto (este termo era usado para estabelecer um padrão de beleza na
época).
A beleza social era destacada através do comprimento das saias, pois a área
mais sensual da mulher estava compreendida nas pernas e principalmente em seus
pés. Mostravam-se as partes altas do corpo como se estivessem em um pedestal,
pois ficavam sobrepostas a um intenso alargamento sustentado por “anquinhas”. As
partes mais belas da estética do corpo concentravam-se no rosto, no busto e nas
mãos, sendo estas retratadas pelos grandes pintores da época. Estes também
valorizavam a expressão do olhar, o qual irradiava brilho próprio, demonstrando
assim uma profundidade que nenhuma outra parte do corpo demonstraria. As mãos
também têm seu valor, pois deviam ser longas, brancas, com dedos bem moldados
e toque leve, pois participava seguramente do alto.
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Quanto à beleza do homem, esta é o oposto da mulher, pois este precisa ter
força para o trabalho e suportar as intempéries, “não que ele seja destituído de
beleza: a imagem da majestade divina já reluz nele, incompreensível ao espírito
humano”. (VIGARELLO, 2006, p.24). Sua aparência geralmente robusta, com pelos
no rosto e corpo, atitude altiva, rosto com traços masculinos, uma mistura de
refinamento, boa graça e carrancudo, quentes e secos. A mulher era definida por
temperamentos mais suaves e úmidos, “rechonchudinhas e moles”.
Nesta época, alguns artistas pesquisavam que esta beleza poderia ser
perfeita e que existiria na “divina proporção”. Leonardo da Vinci retornou às
proporções do número e inscreveu o corpo humano num círculo ou num quadrado,
onde o centro era sempre o umbigo.
A altura da cabeça, por exemplo, ”deve” ser equivalente a um oitavo da
altura do conjunto, ou a unidade da face (entre testa e o queixo) “deve”
sempre corresponder a três unidades para o tronco, duas para as coxas,
duas para a barriga das pernas. (IDEM, IBIDEM, p.35).
Muitos trabalhos de pesquisa mostravam que as mulheres da corte rejeitavam
a maquiagem por esta ter uma conotação mundana e impura, pois a beleza é dada
por Deus, já que apenas as prostitutas pintavam o rosto e colo. Porém mais tarde, a
maquiagem passa a ser permitida desde que seja utilizada como a finalidade
honesta ou para casar. Os produtos utilizados eram muito tóxicos, pois para dar a
cor branca do rosto eram utilizados carbonato de chumbo, carbonato de mercúrio e
de bismuto. Estes produtos produziam hálitos ruins, estragavam os dentes e
degradavam a pele, esfolando o rosto. Para a proteção do rosto contra os raios
solares, as mulheres da corte passaram a usar guarda-sol levado por pajens e
também o uso de máscaras passou a fazer parte da indumentária feminina.
Entretanto, não podemos deixar de ressaltar que nesta época as mulheres da
corte desejavam a magreza. Utilizavam diversas receitas para manter seus corpos
24
magros e muitas vezes utilizavam substâncias para provocarem desidratação. Os
trajes das mulheres da corte continuavam bem ajustados, com a cintura tão
apertada com espartilhos que elas mal podiam respirar e o coração quase saltava do
peito.
No final do século XVI, a dança e o balé faziam com que as dançarinas
suspendessem seus vestidos e começassem a mostrar seus pés de forma tão
graciosa, que a corte começou a se preocupar com as partes mais baixas. As
camareiras passaram a ser escolhidas conforme a pressão que faziam sobre as
ligas das dançarinas e também ao modo como esticavam os calções acomodando
bem as pernas. Os pés aparecendo abaixo dos vestidos mudavam a hierarquia
submetida anteriormente ao alto.
Já no século XVII, a beleza se faz pelas novas nuanças do corpo; a cintura e
o quadril adquiriram mais precisão. As partes baixas dos vestidos se afastam da
anatomia corporal e o busto continua estufado em um pedestal. Os vestidos agora
ganham uma armadura nos quadris em forma de arco, utilizando tecidos
engomados. As pernas tornam-se mais longas e as costas mais lisas, às vezes mais
largas que a cintura.
Qual seria a parte do corpo mais bonito? O rosto ou o corpo? O rosto traria
uma identidade mais espiritual, onde os artistas pintam o olhar de modo mais
angelical. Assim, a beleza começa a ser retratada através de traços distintos das
faces conquistadoras, atraentes, joviais, religiosas e outras qualidades reveladas.
Esta profundidade ainda não vista mostra a emoção e a paixão, além de mostrar um
mistério não decifrado.
Em sua pesquisa, Vigarello (2006) relata que François Senault e Descartes
veem a grande utilidade das paixões, pois a pessoa passa a ter o desejo de
conquistar a beleza e passa a ter o olhar como um grande aliado. Quando se
25
apaixonam, os olhos se animam e mostram um mundo diferente. Assim, Vigarello
(2006) afirma em seus estudos:
As conferências de Charles Le Brun na academia de pintura e escultura,
em 1678, confirmam esse interesse. O pintor real focaliza o conjunto da
expressão das paixões sobre o lugar dos olhos: as paixões “atrozes e vis”
levariam o olhar a fugir da luz e a se abaixar para se ocultar e se
resguardar; as paixões grandes e nobres o conduziriam a buscar essa luz e
a se elevar; as paixões doces o conduziriam a horizontalidade. O estudo se
pretende sábio, o olho é bem comandado aqui pelo que vem do “interior”:
ângulos e triângulos são alceados nas cabeças das estátuas antigas,
promovidas a modelos. [...] Todo cálculo do pintor real considera o jogo das
sobrancelhas, o franzido dos olhos, sua horizontalidade, sua inclinação no
perfil para melhor distinguir a beleza daquilo que não é beleza.
(VIGARELLO, 2006, p.56).
O uso de cosméticos pode demonstrar também a honestidade. O uso de
espartilhos e cuidados com o vestuário mostram o desejo de demonstração de
paixão. A estética começa se tornar “semente da Virtude”. (IDEM, IBIDEM, p.59).
A diferença entre as mulheres da corte e as aldeãs se sistematiza nas figuras
do século XVII, sendo estas rechonchudas, com bustos e barrigas soltas. Em
contraste com as mulheres da corte, que com o uso dos espartilhos alongam as
costas e comprimem o abdômen em emergência da beleza. Porém, as aldeãs com
seus corpos soltos, sem grandes enfeites e maquiagens tornam-se grandes
amantes, pois são amadas por seus encantos naturais.
Os homens que antes não eram cobrados de beleza física, passam a fazer
um investimento em sua aparência. A estética masculina se afasta da rudeza
anterior e estabelece bustos mais magros e alongados.
Após a mulher ter o direito ao uso da maquiagem, desenvolve-se a utilização
do vermelho nas maçãs do rosto e nos lábios. Porém, as raparigas passam a usar.
Neste jogo de se embelezar algumas mulheres da corte começam a suprimir o
vermelho e a maquiagem. No entanto, ainda se vê como suspeito o uso
indiscriminado do uso da maquiagem. Pais e maridos começam a proibir as
mulheres do uso da maquiagem. Nas ruas as mulheres da burguesia que usavam
26
maquiagens ao sair são vistas como raparigas. O rosto sem maquiagem passa a ser
visto como forma de indulgência. Os rigores das regras religiosas tornam as
mulheres mais recatadas. Junto com a ausência da maquiagem é necessário cobrir
os seios. Porém a maquiagem consegue se impor.
A partir do século XVIII a estética passa por uma mudança, onde a aparência
física passa por um olhar de maior leveza. Em análise funcional, a mulher aparece
com uma amplidão dos quadris, alargamento dos flancos. O caminhar das mulheres
é conduzido pelo movimento dos quadris, passos curtos e pouco movimento. A
missão da mulher na sociedade restringiu-se unicamente a gestação e seu corpo
tornou-se aparentemente frágil devido a sua beleza. Porém, sábia e de raciocínio
inovador, algumas mulheres são recrutadas para o exército, pois devido a sua feiúra
e porte avantajado, não são distinguidas entre os homens, libertando-se assim da
tarefa da procriação.
Apesar da valorização ainda do alto do corpo algumas mudanças acontecem
no vestuário feminino. Os espartilhos de ferro e de espátulas de madeira são
substituídos por panos e feltros, deixando ainda a cintura fina. A armadura das
ancas é substituída por arcos envolta do corpo, porém deixando transparecer mais
as formas femininas. Permanecem as saias rodadas. A mulher apresenta-se mais
livre em seus movimentos ao caminhar.
Aparecem as perucas que encantam a sociedade valorizando os rostos nas
pinturas, de modo que a profissão de cabeleireiro se difunde, renascendo a arte dos
penteados. A maquiagem retorna, porém fica sob a responsabilidade da Academia
Real de Ciências em 1773, com a utilização de produtos mais naturais. Os grandes
perfumistas consagram-se no comércio dando individualização nos produtos que
passam a ser usados por homens e mulheres.
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A beleza de homens e mulheres não passa mais apenas por trajes e
maquiagens. Há um movimento que reforça o hábito dos banhos frios e do
movimento do corpo. A exigência de “carnes firmes” se dá através do uso do banho
e da importância das caminhadas higiênicas. Principalmente as mulheres que com
ausência do sol, passam a ter seus corpos mais fracos, o que acabaria
transformando-as em aleijões e corcundas.
Destacam-se as vestimentas para as mulheres caminharem, sendo utilizados
vestidos mais curtos e varas longas, como retratam algumas pinturas. O uso das
bengalas torna-se parte do vestuário e as caminhadas passam a fazer parte dos
rituais como o “passeio da manhã” e o “passeio da tarde”. Assim, as mulheres
passaram a perceber a importância do uso das pernas, fortalecendo a sua
morfologia, mobilizando também seus braços, além de manterem a postura da
cabeça mais erguida. Deste modo, o fim do século XVIII fica marcado como um
período de sensibilidade de sentimentos e mudanças higienistas e de saúde.
1.2 A influência da moda na feminilidade
Com o advento do século XIX, a moda passa por um processo de
transformação, não apenas influenciando a aparência física que se destaca na corte,
mas também o olhar sobre o corpo que se enriquece, atingindo outros detalhes
como o lado romântico do novo século, onde as fisionomias são mais pensativas,
interiorizadas. A valorização de uma consciência ainda não demonstrada expõe que
o belo é comandado por uma paixão, pela moral, pela moda e que cada mulher é
responsável por sua beleza, sem que se sinta culpada.
A maquiagem ganha força, principalmente nos olhos, que passam a ser bem
marcados e coloridos combinando com as maças do rosto bem rosadas. A pintura
do século XIX realça os rostos iluminados e em tons rosados.
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As mulheres ganham mais curvas com o prolongamento do arqueamento
lombar, não alargando os quadris para o lado. A silhueta torna-se mais esguia,
trazendo mais liberdade no caminhar, proporcionando melhor movimento muscular e
articular. Esta curvatura permite ver melhor o corpo da mulher e na dança o parceiro
consegue sentir o porte mais carnudo, arqueado e móvel.
Com uma imagem mais elegante, maiores são as diferenças entre os sexos.
As mulheres são mais valorizadas por suas qualidades anatômicas e identificadas
através de suas curvas acentuadas como boas parideiras, ideia que reforça a
verdadeira função das mulheres. Quanto ao homem, este também muda sua
silhueta. A barriga agora comprimida, o peito estufado, postura altiva. Os ombros
ganham largura e a cintura bem marcada. O colete no homem passa a ser peça
mestra no vestuário. Em 1835, o vestuário feminino se divide em toaletes de verão e
de inverno. Vigarello (2006) descreve:
Saias plissadas e peitilhos marcam as formas que a revolução tornara mais
visíveis. O vestuário se impõe aos contornos ao traí-los: o baixo do corpo e
perde nas dobras, arcos e debruns, esse imenso franzido dos vestidos.
(VIGARELLO, 2006, p.109).
Os ombros aumentam e o corpúsculo abaixo dos vestidos se ajusta. O busto
tende a ir ao alto, dando mais largura no alto mais que o dobro do dorso apertado. O
corpo da mulher passa a ser visto de modelo das efígies. A mulher passa a
questionar os seus direitos e privilégios que as leis garantem aos homens, como as
inúmeras práticas de esporte como o tiro, natação e etc. Esse movimento passa a
configurar uma nova postura social e uma beleza mais ativa.
Em 1880, os vestidos estão mais justos, colantes e as anquinhas vão embora,
deixando um corpete e túnicas de seda coladas ao corpo, bem apertadas. Os
ornamentos postiços que serviam para elevar a traseira do vestido também somem.
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O corpo mais exposto vai necessitar de mais firmeza, onde as barbatanas se
prolongam descendo ao longo dos quadris.
O corpo esbelto e a beleza das mulheres mais franzinas põem a grande
maioria das mulheres numa busca de corpetes mais ajustados, longos, com
barbatanas mais longas, flexíveis e descendo até os quadris. Lembrando que esta
mulher franzina, não se compara as anoréxicas do dia de hoje. O vestido tinha de
ser bem justo, reduzindo os quadris, de modo que apesar dos drapeados este não
estivesse tão marcado. Assim, o corpo feminino é refletido em curvas, ou seja,
mostrando o encurvado dos rins de maneira prolongada.
A moda agora permite que se mostrem os seios e o bumbum. Esta beleza
corporal destaca-se no início do século XX onde o ideal de beleza feminina passa a
ser bustos bem marcados, cintura fina e quadris largos. Nasce uma maior liberdade
de se conceder em ter desejo. Uma força misteriosa e sexual começa a brotar no
conjunto do corpo feminino, apesar do medo de um sexo ameaçador, que devasta a
sociedade, fascina os homens e coloca a visão das mulheres como diabas,
inferiorizando seus valores.
Os cabelos soltos passam a ser vistos como um complemento da beleza. Os
espetáculos em cartaz mostram a banalização do corpo nu. As danças nos cassinos
mostram as pernas das mulheres em roupas íntimas e corpos seminus. As roupas
de praias marcam o fim do século XIX. Sem espartilhos a mulher ganha formas
consideradas encantadoras pelos homens, onde apresentavam quadris belos e uma
importância dada as pernas que se definia em maiôs de flanela colado a pele, em
túnica apertada até a coxa.
Assim, no início do século XX ocorre o rompimento entre as roupas ocultantes
e revelantes. A proclamação da ginástica no final do século XIX revela um corpo
mais frouxo, uma fraqueza de músculos e energia. As revistas de moda estimulam a
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ginástica a ser praticada pelas leitoras, difundindo a imagem do movimento sem o
anterior traje de balão.
As mulheres adquirem o ofício feminino e passam a aumentar sua penetração
nos empregos públicos e em escritórios. A falta da compressão dos espartilhos
dificultava a permanência das mulheres ficarem sentadas por longos períodos. O
chamamento é por uma beleza mais esguia, mais vertical, com menos bustos e mais
flexibilidade no caminhar. A busca do controle das dimensões do quadril torna-se
constante. Devido à ausência dos espartilhos, as mulheres tendem a seguir padrões
estéticos mais esbeltos. Seu corpo não é controlado através do peso e sim através
das medidas, onde a mulher gorda passa a ser esbelta e de pesada passa a ser
elegante, graças a regimes regulares.
Estabelece que o peso dos indivíduos entre a faixa etária de vinte e cinquenta
anos devem possuir determinados quilos em relação a altura. Surgem regimes
nutricionais dos mais variados e aparecem tratamentos estéticos utilizando
cosméticos e eletroterápicos, com o objetivo de embelezamento do corpo. O espelho
passa a ser peça fundamental colocado em quartos e banheiros. Deste modo, a
mulher deslumbra sua silhueta sendo um lugar que não pode ser visto. Este
isolamento permite que a mulher torne-se bela.
Com a industrialização, o comércio de produtos de embelezamento ganha um
grande vulto e os grandes magazines que oferecem desde maquiagem, perfumes,
roupas e etc., se difundem em todo mundo. As divulgações dos produtos usam
nomes de artistas para valorizar cada item novo do mercado. Os cosméticos
recebem uma nova expressão: produtos de beleza com o objetivo de cuidados com
o rosto e o corpo.
A partir de 1910, surgem os primeiros Institutos de Beleza como Helena
Rubinstein e o oficio de esteticista. A ciência das cirurgias estéticas começa a
31
vislumbrar mudanças e retoques de transformações corporais. A população que
antes não se preocupava passa a demonstrar interesse pelas cirurgias.
Em torno de 1920, a aparência das mulheres muda em relação a 1900.
Exibem suas pernas, seus cabelos ganham novos penteados deixando ver o
pescoço. O corpo é mais esguio, como se ganhasse mais altura. Sem as
almofadinhas, as armaduras e os espartilhos, a mulher volta a cuidar de seu corpo.
Com o uso da seda e a maquiagem bem demarcada a mulher ganha uma “linha
magra”. A moda dos cabelos curtos surge com entusiasmo, pois mostra a liberdade
feminina e uma opção ao padrão de beleza onde a cabeleira dava um aspecto
pesado e embaraçador.
Assim, ao conquistar a liberdade de se vestir e usar de seu cabelo conforme
sua vontade, a mulher cada vez mais se lança no mercado de trabalho, não para
competir com o homem e sim para adquirir este espaço negado a ela por anos.
Nesta época, estilistas como Coco Chanel e tantos outros descobrem uma fatia do
mercado onde a elegância ao se trajar vai de casa ao trabalho e mesmo aquelas
que continuam como senhoras do lar ao lerem nas revistas de moda as novidades
do momento se esmeram em conseguir acompanhar.
As novidades vêm também da maquiagem, onde se distinguem para serem
usadas ao ar livre, para o trabalho e para a noite. Várias frases marcam esta época,
como por exemplo: “Leve uma vida de homem, mas permaneça mulher”. Nos
séculos anteriores a moda reinava em uma aparência de face branca como a neve,
onde as mulheres usavam artifícios para clarear ainda mais. Agora o sol passa a
fazer parte do visual feminino e a cosmetologia é repensada analisando a proteção
ao ar livre, porém não se sabe os efeitos danosos e assim este conceito de
bronzeamento perpetua mais nas pessoas de peles mais morenas.
32
Já em 1930, a beleza a feminina passa a ser vista de modo que a mulher
deveria ter músculos visíveis e elásticos. Durante o período entre as guerras, o perfil
das mulheres se tornou mais adelgaçado e a cobrança de corpo com medidas
abaixo dos centímetros da altura se fortaleceram. As revistas de moda como Votre
Bonheur ditavam as tabelas de peso e medidas, afirmando que os excessos de peso
seriam perigosos, podendo complicar a saúde, trazendo diversas doenças e
poderiam levar até a morte.
Aparecem os concursos de “rainhas” e “misses” que se multiplicam durante
todo o período entre as guerras. A imagem da mulher fica restrita apenas a beleza.
No cinema desperta no público uma doce ilusão, onde as atrizes cumprem o papel
de mensageiras da beleza. Atrizes como Greta Garbo, Muriel Evans, Joan Blondell e
outras, são exemplos de beleza e inspiram todas as mulheres. Os penteados
tornam-se parte do visual feminino. A estética corporal se pronuncia entre as artistas
de cinema buscando o “algo mais” em sua beleza, quando em 1930 aparece a
expressão “sex appeal”. Esta beleza era intrigante e misteriosa fosse em seu olhar,
no andar, no modo de gesticular e até mesmo em sua voz. Assim, a belíssima
Marlene Dietrich incorpora todos os predicados de uma “sex appeal”.
Mas a busca desta beleza tem seu preço como disciplina, cultura física e
regime. Em 1935, a revista Votre Beauté declara uma nota que “não há mulher feia...
só há mulheres que se descuidam”. Deste modo, algumas atrizes foram encontradas
na multidão e se tornaram belas mulheres. A revista Vogue publica a seguinte frase:
“Uma linda menina é um acidente; uma mulher bonita é uma conquista”.
Uma literatura de psicologização aparece nos meados de 1937, exaltando
todo trabalho feito de auto-persuação, estimulando as mulheres a descobrir a
felicidade que mora dentro delas. Não importa a auto-sugestão, o importante é a
vontade de querer mudar. Desenvolvem a ginástica invisível feita a qualquer
33
momento trabalhando a contração dos músculos sem que ninguém perceba. A
revista Votre Beauté se destaca por ter mais de cem mil leitoras. A revista dita
atitudes, mudanças de comportamento, ideias e lança um slogan: “Não se pede
barriga, aceita-se”. A beleza vai ser conquistada através da estética e do trabalho.
Aparecem os primeiros estudos sobre a celulite e seus tratamentos. A revista
Vogue a coloca em 1931 como o principal inimigo, o que vai reforçar os cuidados
com a aparência e também com a alimentação. Os recursos cirúrgicos para face e
mama começam a ganhar o mercado da publicidade das grandes revistas,
prometendo a cirurgia das estrelas, como bocas bem feitas, bustos no lugar, sumiço
das rugas e dos queixos duplos.
No final da Segunda Guerra, a mulher ganha mais uma visão, não ignorada,
mas promovida a esposa e mãe. Com a visão mais maternal, a mulher é vista mais
cheinha, quadris mais largos, busto mais avantajado. Logo, os anos loucos de
controle dietético diminuem. Novos valores estéticos ganham a moda e outras partes
do corpo são ressaltadas como partes “sexy” do corpo feminino, como os lábios
carnudos e entreabertos e os seios grandes e bem marcados.
Os anos de 1950 e 1960 marcam mais uma etapa do corpo feminino mais
realçado com curvas, quadris desenhados, decotes ousados mostrando uma
personalidade mais sexy. A beleza é vendida como mercadoria e Brigitte Bardot é a
musa da época. Todas as mulheres tendem a imitá-la em sua liberdade de
expressão e ousadia. Com os anos de 1960, a mulher passa por uma nova
transformação, em busca da igualdade feminina, com um segundo movimento
feminista se apresentando. As formas femininas passam a ser escondidas por traz
de calça jeans, camiseta larga e tênis. Quase não existe padrão de moda. A
juventude passa por um padrão androide. O perfil de Jane Fonda mostrando pernas
longas e ombros largos, ganha as passarelas. O corpo masculino ganha formas
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diferenciadas pela influência dos Beatles. É a era dos cabelos compridos e muita
irreverência.
A revista Vogue ganha publicidade trazendo fotos de rosto e corpo inteiro
construindo a moda. A massificação do embelezamento ganha todos os públicos e
classes sociais. O gasto com cosméticos, estética e vestuário batem cifras altíssimas
nas empresas consagrando grandes fortunas. Os cuidados com a beleza e a
estética começam cada vez mais cedo, logo na entrada da adolescência.
Chegando aos anos 70, a vestimenta da mulher ganha um ar mais
descontraído onde os cabelos ganham mais volume, crespo e afro. As calças
compridas de boca de sino, jaquetas e roupas mais largas. Já na Inglaterra, os
“punks”, usavam roupas rasgadas e cabelos em desalinho criando um movimento
com o objetivo de protesto contra o governo, pois a classe operária estava
desempregada.
Com os anos 80 vieram os exageros tais como maquiagens bem marcantes.
As mulheres começam a competir com os homens no mercado de trabalho
assumindo posições importantes. São usados tecidos com estampas de animais,
muito coloridas e aparecem os primeiros tecidos em cotton-lycra utilizados para as
roupas de academia. Nesta época começa o culto ao corpo, uso de suplementos
vitamínicos e surge a modalidade de ginástica aeróbica para ajudar no
emagrecimento.
A transformação continua com a chegada dos anos 1990 e 2000. A imagem
de beleza restrita à mulher e a de trabalhador dada ao homem não é mais usada,
pois com o princípio de igualdade ganha um maior vulto. O homem passa a disputar
com as mulheres os mesmos direitos de cuidar-se sem que isso o transforme em
mulher sendo criado o termo de “metrosexual”. As modelos começam a ter um perfil
magro chegando ao anoréxico que provoca nas mulheres um desejo de se igualar à
35
elas: jovens, magras e lindas. Novaes (2005) em seu artigo “Ser mulher, ser feia, ser
excluída” faz o seguinte comentário:
Como todo culto, como toda moda, o impacto da moda do culto ao corpo
sobre a sociedade, só pode ser detectado a partir da compreensão da
maneira como seus ditames são interpretados pelos indivíduos que, no
interior de diferentes grupos sociais, lhes emprestam significados próprios.
Como aponta Strozemberg (1986) o receptor nunca recebe passivamente
uma mensagem, mas sempre, necessariamente, a interpreta e elabora, na
medida em que toda a decodificação é uma leitura. A experiência do corpo
é sempre modificada pela experiência da cultura. (NOVAES, 2005, p.10).
Portanto, ao nos reportarmos para nossa vida diária na sociedade,
constatamos que convivemos com um número bem grande de pessoas que fazem
parte de nossa rotina e de outras que mal conhecemos. Deste modo, formamos
laços sociais com os indivíduos que nos rodeiam, o que Lacan intitula de aparelhos
de gozo, pois através desta troca vamos dar vazão aos nossos desejos.
Este vínculo é formado por um agente e um outro, onde um se estabelece
como dominante que é o agente e o outro o dominado, sempre necessitando haver
um sujeito que renuncie a sua pulsão. Devido à dimensão deste vínculo que muitas
vezes existe mesmo sem ocorrer a troca de comunicação falada, Lacan o intitula de
laços sociais dos discursos. Entre estes estão: discurso do mestre (senhor e
escravo); o discurso universitário (professor e aluno); o discurso da histérica
(histérica e o médico); o discurso do analista (o analista e o analisante); o discurso
capitalista (derivação atual do discurso do mestre). (QUINET, 2012).
A tecnologia e a globalização levam a todos os lugares do planeta as
novidades que vão surgindo para que a população fique informada. Com a
necessidade de atender o desejo do outro, o sujeito busca as ofertas estabelecidas
pelo discurso capitalista mesmo que não proporcione o gozo. As propagandas para
a divulgação de produtos cosméticos são cada vez mais sedutoras, pois
demonstram a melhora das rugas, a redução mágica da celulite e da gordura
localizada em um curto espaço de tempo. Assim, homens e mulheres que precisam
36
acreditar nesta verdade, adquirem estes produtos para ficarem mais bonitos,
esguios e desejáveis.
A cada dia, vários profissionais se especializam para atender esta demanda
do culto ao corpo. As clínicas de cirurgias plásticas promovem tratamentos
parcelados para intervenções cirúrgicas e disponibilizam a todos os clientes a
condição que tantos desejam. Tentam atender a necessidade do sujeito de mostrar
para o outro que ele não está excluído do grupo e que também pode pagar sua
cirurgia plástica, sendo esta uma demonstração de status.
Com o avanço tecnológico e um grande interesse em aperfeiçoamento das
formas corporais, as empresas de aparelhos de ginástica oferecem um número bem
grande de aparelhos revolucionários, onde as melhores academias adquirem os
mais variados tipos. Para impressionar o grande público, as propagandas são cada
vez mais elaboradas e despertam o seu consumo, pois utilizam como modelos
mulheres “saradas” e homens com grande hipertrofia muscular relatando que
adquiriram todo o desempenho através do seu uso.
A mídia televisiva vende uma imagem de felicidade que na realidade é falsa.
Ela exalta a beleza de mulheres magras, esguias e às vezes anoréxicas. Ao serem
exaltadas permitem aflorar seu narcisismo levando-as muitas vezes a abrir mão
inconscientemente da saúde por um gozo proporcionado pela mídia, que cruelmente
as julga como ideal de beleza sem avaliar a qualidade de saúde por elas
apresentadas.
Assim, sendo o corpo visto em forma de fetiche, o sujeito vai em busca de
resolver a angústia de transformação de seu corpo e lança a mão de soluções
rápidas para adquirir o corpo tão desejado, pois a necessidade de transformar este
desejo em vários significantes leva ao sujeito a se perder em sua própria demanda.
Elia (1995) em “Corpo e sexualidade”, afirma:
37
Se são os significantes (elementos da ordem simbólica) que medeiam a
relação do sujeito com o corpo, já esvaziado de órgão, são também eles
que organizam, para o sujeito, a relação com a imagem de seu corpo, e, a
partir deste patamar, as imagens de seus semelhantes, dos objetos da
realidade com os quais o sujeito ira estabelecer suas relações. Temos,
assim, além do registro do simbólico, o registro do imaginário, de grande
importância para a questão do corpo em psicanálise. (ELIA, 1995, p.104).
A ciência vem proporcionando o desenvolvimento de próteses de silicone
para várias partes do corpo, porém nem sempre esta solução é tão imune ao corpo,
pois à medida que a procura destes produtos aumenta, a qualidade diminui, levando
ao desenvolvimento de produtos de péssima qualidade o que esta levando muitos
sujeitos a adquirirem grandes problemas de saúde física e psíquica.
Portanto, o grande mal-estar provocado por não ser a imagem de seu eu
ideal, o que realmente se deseja ser, leva o sujeito a grande frustração, pois ao não
dar conta de toda a transformação almejada entra em mais angústia abrindo mão de
seu desejo.
Assim, precisamos compreender como funciona o inconsciente, este que é
estruturado como uma linguagem. Qual o papel do desejo do sujeito sabendo que
este tem uma demanda e que esta é demanda de amor?
38
2
O INCONSCIENTE E A SEXUALIDADE
Na história da psicanálise vamos encontrar dois grandes psicanalistas:
Sigmund Freud e Jacques Lacan, que durante anos dedicaram suas vidas a
elaboração das respostas às seguintes perguntas: O que é o inconsciente? Ele
existe? E como se forma? Qual a diferença entre necessidade, demanda e desejo?
Nesta segunda parte de nossa investigação abordaremos a sexualidade
infantil e como o complexo de castração e de Édipo irão influenciar o sujeito na vida
adulta, em suas escolhas por objetos sexuais e as questões que envolvem a
sexualidade feminina.
2.1
O inconsciente e a linguagem
Na história das civilizações, a comunicação sempre existiu, desde os povos
mais primitivos que buscavam supostamente se comunicar através de gestos,
hieróglifos, símbolos e posteriormente com a palavra articulada e escrita. Em
“Meditações metafísicas”, Descartes questiona sobre a existência do ser e a
natureza do pensamento, onde a única coisa que realmente existe é o ser pensante.
A mente humana voltada para si mesma não percebe ser outra coisa senão
coisa pensante, não consegue que sua natureza ou essência consista
apenas em ser pensante, de forma que a palavra apenas exclua todo o
restante que talvez também se pudesse dizer à natureza da alma.
(DESCARTES, 1979, p.14).
39
O sujeito do inconsciente está presente na fala do Outro e pela linguagem
ocorre a representação do pensamento. Portanto, Freud (1888-1892), em seus
estudos sobre a hipnose conclui que quando o sujeito fala de suas lembranças nas
associações livres a cura advém. Ele começou a notar o valor da fala, pois nela
emergia o que estava recalcado e o recalque é o mecanismo fundador do
inconsciente. Em “A descoberta do inconsciente”, Antonio Quinet (2008) comenta
que “Descartes parte do pensamento e chega à existência do eu; Freud parte do
pensamento inconsciente e chega ao desejo”. (QUINET, 2008, p.14). Sendo assim,
concluímos que o sujeito da psicanálise é o sujeito do desejo, já que visamos a
aparição do desejo próprio desse sujeito.
A palavra como manifestação da escrita nem sempre apresenta o mesmo
significado, ou seja, seu sentido pode mudar de acordo com seus significantes, pois
somos influenciados pelos ditos do Outro. A palavra é metaforizada no discurso.
Quando se diz, por exemplo, “Maria possui um coração de pedra”, não se está
querendo dizer que o coração de Maria é revestido de pedra no sentido concreto,
mas sim que Maria é uma pessoa dura, inflexível, insensível. Lacan (1953-1954), em
O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, comenta:
A palavra institui-se como tal na estrutura do mundo semântico que é o da
linguagem. A palavra não tem nunca um único sentido, o termo, um único
emprego. Toda palavra tem sempre um mais - alem, sustenta muitas
funções, envolve muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso, há o que
ele quer dizer, e, atrás do que quer dizer, há ainda um outro querer-dizer, e
nada será nunca esgotado – se não é que se chega ao fato de que a
palavra tem função criadora e faz surgir a coisa mesma, que não é nada
senão o conceito. (LACAN, 1953-1954, p.275).
Lacan (1957) prossegue na mesma linha de raciocínio quando faz uma
releitura de Freud sobre a estrutura da linguagem em “A instância da letra no
inconsciente ou a razão desde Freud”, ao afirmar que:
A Entstellung, traduzida por transposição, onde Freud mostra a
precondição geral da função do sonho, é o que designamos
40
anteriormente, com Saussure, como o deslizamento do significado sob o
significante, sempre em ação (inconsciente, note-se) no discurso.
Mas as duas vertentes da incidência do significante no significado
encontram-se nela.
A Verdichtung, condensação é a estrutura de superposição dos
significantes em que ganha campo a metáfora, e cujo nome, por
condensar em si mesmo a Dichtung, indica a conaturalidade desse
mecanismo com a poesia, a ponto de envolver a função propriamente
tradicional desta.
A Verschiebung ou deslocamento é, mais próxima do termo alemão, o
transporte da significação que a metonímia demonstra e que, desde seu
aparecimento em Freud, é apresentado como o meio mais adequado do
inconsciente para despistar a censura. (LACAN, 1957, p.514-515).
No início do século XX, Ferdinand Saussure (1969) em seu “Curso de
linguística geral”, desenvolve o algoritmo, que se lê significado sobre significante:
s/S, onde o significante é a imagem acústica e o significado o conceito. Desta forma,
Saussure rompe com os filósofos da teoria dos signos que explicavam que o nome
se remete a coisa e vice-versa, onde a coisa é a soma dos significados. Porém,
Lacan rompe com Saussure ao observar que o significado pode perfeitamente
deslizar sob a barra do significante, dando a este vários significados distintos. O
exemplo:
Maria é uma rosa = Significante (S) Maria
Significado (s) rosa = flor, bela, cheirosa, delicada
s1 s2
s3
s4
No mesmo texto, Lacan (1957) comenta:
O que essa estrutura da cadeia significante revela é a possibilidade que eu
tenho, justamente na medida em que sua língua me é comum com outros
sujeitos, isto é, em que essa língua existe, de me servir dela para expressar
algo completamente diferente do que ela diz. Função mais digna de ser
enfatizada na fala que a de disfarçar o pensamento (quase sempre
indefinível) do sujeito: a saber, de indicar o lugar desse sujeito na busca da
verdade. (IDEM, IBIDEM, p.508).
No exemplo acima, encontramos as duas leis do inconsciente. A primeira lei
apresenta uma palavra ou significante que pode ser substituído por uma série de
outros significantes, isto é, podemos associar a palavra “rosa” a diversos
significados diferentes, o que constitui a lei da metáfora. A segunda lei do
inconsciente se dá devido ao seu deslizamento de significados sob o significante, ou
seja, a metonímia. Portanto, podemos dizer que o desejo é metonímico, pois desliza
41
de um para o outro, isto é, o desejo é algo que jamais pode ser satisfeito
integralmente, pois na medida em que se conquista algo, imediatamente outro
desejo a ser satisfeito surge em seu lugar.
Então, o que sou? Eu sou aquilo que desejo, o sujeito desejante. O desejo
quando não atendido fica no inconsciente produzindo recalques, uma série de
sintomas e dando origem a vários desejos de outras ordens, originando o
desenvolvimento de alterações de natureza neurótica: fobia, histeria ou neurose
obsessiva.
Neste momento, observamos que o ser não ocupa o lugar do eu, pois o ser
ocupa um lugar deixado pelo próprio verbo, encontra-se no lugar do imaginário.
Logo, o eu influenciado pelas percepções sensório-motoras depara-se com uma
resistência imaginária, uma inércia levando o sujeito a manifestar mecanismos de
defesa, criando artimanhas para que o conteúdo proibido permaneça recalcado.
Ainda no mesmo texto, Lacan (1957) faz o seguinte comentário:
Ao se obstinarem em qualificar por uma permanência emocional a natureza
da resistência, para torná-la estranha ao discurso, os psicanalistas de hoje
apenas mostram sucumbir ao impacto de uma das verdades fundamentais
que Freud resgatou através da psicanálise. É que a uma nova verdade não
podemos contentar-nos em dar lugar, porque é de assumir nosso lugar nela
que se trata. Ela exige que nos mexamos. Não se pode atingi-la por uma
simples habituação. Habituamo-nos com o real. A verdade, nós a
recalcamos. (IDEM, IBIDEM, p.525).
Deste modo, ao longo do processo de análise, o analisando encontra-se com
o sujeito, que pode estar barrado, desejante, dividido, pontual, deparando-se com
inúmeras repetições e também se encontra com o poder do grande “Outro”. O
analisante nem sempre percebe que seu inconsciente trás os significantes à luz do
consciente, levando-o à manifestação da intersubjetividade e nesse momento na fala
do analisante. Ele faz a associação livre, mas amparado pela transferência que se
deu para com o analista. Em “O conceito de sujeito”, Elia (2007) comenta que “a
psicanálise estabelece que o modo pelo qual a transferência se formula deve, a justo
42
título, título, aliás, que lhe dá toda sua nobreza, ser chamado de amor”. (ELIA, 2007,
p.32). Com o amor de transferência o sintoma aparece e com ele o desejo do
sujeito. Neste momento, o sujeito entra em análise e aflora o desejo do analista.
É que ao tocar, por pouco que seja, a relação do homem com o significante,
no caso, na convenção dos procedimentos da exegese, altera-se o curso de
sua historia, modificando as amarras do seu ser.
É por isso que o Freudismo, por mais incompreendido que tenha sido e por
mais confusa sejam suas conseqüências, afigura-se, ante qualquer olhar
capaz de entrever as mudanças que vivemos em nossa própria vida, como
constituindo uma revolução inapreensível, mas radical. (LACAN, 1957,
p.525).
Assim, observamos que a linguagem constitui o sujeito e este é estruturado
por significantes, que são definidos por desejos presentes no inconsciente. O desejo
aparece na fala, sendo esta uma metonímia e o sintoma sua metáfora.
2.2 O sujeito e o desejo
Qual a relação entre o sujeito e o desejo?
Em “Os escritos técnicos de
Freud”, Lacan (1953) comenta que o homem não sabe nada sobe seus desejos e
por este motivo que ele tem que o procurar para “reconhecer a si mesmo”. Nesta
busca de atender ao seu desejo, o sujeito rivaliza com o outro, aliena-se, de modo
que busca o Ideal do Eu, onde ao entrar na função imaginária se apreende enquanto
forma e o seu desejo aparece.
Analisando então, o desejo presente no inconsciente do sujeito, este se move
para atender as solicitações. Em “A descoberta do inconsciente”, Quinet (2008)
comenta:
(...) O desejo é o vetor que se desloca de um significante (S1),
representado pelo traço da excitação da necessidade de comer (a
fome), para outro significante (S2), representado pelo traço do objeto
que a satisfaz (o seio): S1__d__ S2. (QUINET, 2008, p.88).
43
Logo que a criança nasce a mãe atende às suas necessidades de alimento e
o seio passa a ser seu objeto de desejo. Além desta função central, ela também
recebe algo a mais que não pode ser mensurado nem é palpável, mas que está
embutido no processo: a mãe atende suas necessidades fisiológicas, mas nem
sempre sua demanda de amor. Momento este que vai proporcionar um gozo que
ficará marcado no inconsciente do sujeito e que será perseguido por toda a sua vida,
porém de maneira incondicional, na forma de desejo.
Portanto, para que exista o desejo precisa existir uma falta, uma insatisfação
do sujeito. Lacan (1958), em “A significação do falo”, afirma que:
Há, portanto, uma necessidade de que a particularidade assim abolida
reapareça para-além da demanda. E ela de fato reaparece, mas
conservando a estrutura receptada pelo incondicionado da demanda de
amor. Por um reviramento que não é uma simples negação da negação, a
potência da pura perda surge do resíduo de uma obliteração. Ao
incondicionado da demanda, o desejo vem substituir a condição “absoluta”:
condição que deslinda, com efeito, o que a prova de amor tem de rebelde à
satisfação de uma necessidade. O desejo não é, portanto, nem o apetite de
satisfação, nem a demanda de amor, mas a diferença que resulta à
segunda, o próprio fenômeno de sua fenda (Spaltung). (LACAN, 1958, p.
698).
Observamos então, que para existir o desejo é necessária a presença do
Outro, pois é para este outro que a demanda é endereçada, ou seja, o Outro da fala.
Nesta fala é que vão aparecer vários significantes dirigidos ao Outro, muitas vezes
de forma não muito clara. Temos que estar atentos às duas vertentes da fala: o
enunciado que se representa na fala que parte do sujeito em direção ao Outro e a
enunciação que é como a mensagem chega ao Outro desencadeando o enigma do
desejo. (QUINET, 2008).
O desejo não é um objeto palpável, ele vai deslizar por vários significantes
metonimicamente e pode ser representado por várias metáforas de acordo com o
discurso inconsciente do sujeito. Freud (1900), no seu texto sobre os sonhos,
resume que estes são os mecanismos utilizados pela linguagem de modo
44
inconsciente, por isso aparecem no sonho, onde somos levados a mudar o sentido
das cadeias significantes para mantermos os nossos desejos inconsciente, como é
comentado por Lacan (1958) no texto sobre a “A bela açougueira” e em “A direção
do tratamento”:
Vemos então que tal objeto é idêntico a esses meandros, pois na primeira
curva de sua estrada, Freud desemboca, no que tange ao sonho de uma
histérica, no fato de que nele se satisfaz por deslocamento – aqui,
precisamente por alusão ao desejo de uma outra – um desejo de véspera,
que é sustentado em sua posição eminente por um desejo de ordem bem
diversa, na medida em que Freud o ordena como o desejo de ter um
desejo insatisfeito .
Relembro o automatismo das leis pelas quais se articulam, na cadeia
significante:
a) a substituição de um termo por outro para produzir o efeito de
metáfora;
b) a combinação de um termo com outro para produzir o efeito de
metonímia.
Apliquemo-las aqui e veremos evidenciar-se que enquanto, no sonho de
nossa paciente, o salmão defumado, objeto do desejo de sua amiga, é
tudo o que ela tem para oferecer, Freud, ao afirmar que o salmão
defumado é aqui um substituto do caviar, que aliás ele toma como o
significante do desejo da paciente, propõem-nos o sonho como metáfora
do desejo.
Ora, o sonho não é o inconsciente, e sim, como nos diz Freud sua via
régia.
[...] mas, a partir do momento em que ele desliza como desejo de caviar, o
desejo de caviar é a metonímia, tornada necessária pela falta-a-ser a que
ele se atem. (LACAN, 1958, p.627-628).
Observamos que apesar da bela açougueira ter um marido que a ame e
aprecie suas formas corporais, ele sempre elogia a amiga que é magrela. Surge
então o medo que ele a substitua, ou seja, como cita Lacan “ser o falo, nem que seja
um falo meio magrelo”. (IDEM, IBIDEM, p.633).
Então, para que ocorra o desejo há a necessidade que exista um Outro que
também deseje, para que o sujeito deseje o seu desejo. Lacan (1958) trás das teses
hegelianas a teoria do desejo fazendo uma releitura da teoria psicanalista. Sobre
isso Quinet (2008) comenta:
O desejo humano, para se constituir enquanto tal, é um desejo que incide
sobre um desejo. O desejo animal incide sobre um objeto, sobre a coisa, e o
desejo humano incide sobre um outro desejo. É um desejo de desejo. O
desejo que incide de forma imediata sobre um objeto natural só se torna
humano quando é mediatizado pelo desejo do outro. Tanto o desejo animal
45
quanto o desejo humano tendem a se satisfazer, porém o desejo humano
se nutre de desejos e o desejo animal de objetos da realidade. Partindo da
tendência à satisfação encontramos também aqui uma dissimetria. Todos
os desejos animais se detêm diante de um desejo, que é o desejo de
conservação da vida, mas não o desejo humano que só é averiguado
enquanto tal quando o sujeito arrisca a sua vida em função de seu desejo.
Trata-se de uma luta de prestígio com o outro em vista do reconhecimento
de seu desejo, o que leva o humano a arriscar a própria vida. (QUINET,
2008, p.92).
Os sujeitos em um momento de escolha, quando em um assalto lhe
perguntam o que eles escolhem, a bolsa ou a vida, alguns ficariam com a bolsa.
Sendo assim, observamos que o discurso do Outro é o próprio inconsciente, sendo
que o sujeito deseja o desejo do Outro e este é inconsistente. Nesse momento vai
então surgir o significante da falta que aparece como objeto “a”. Ou seja, como não
é reconhecido enquanto simbólico nem imaginário, irá deslizar por vários
significantes não conseguindo atender a demanda do sujeito, demanda esta que é o
próprio falo.
Já que pela operação do Nome-do-Pai o sujeito não pode trocar o falo pelo
o filho, o sujeito vai dar o que não tem para também receber que é o amor.
Esta posição é encontrada nos neuróticos que possuem uma estreita
relação com a falta no outro. (IDEM, IBIDEM, p.98).
É neste contexto que vamos encontrar o sujeito tentando mudar a aparência
física de seu corpo, porém estará em busca de ser o objeto a para o Outro,
desejando o desejo do outro que também tem um desejo no qual não reconhece o
que é e vai deslizar por vários significantes. Porém, nenhum significante vai
satisfazer seu desejo de ser fálico, brilhante, desejável para o Outro.
2.3 Sexualidade infantil
Freud (1905), no texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, nos fala
sobre a sexualidade e a pulsão sexual que leva o sujeito a fazer escolhas de objeto.
O sujeito desliza na procura deste objeto sexual para atender as exigências
46
pulsionais. A atividade sexual e a pulsão começam a ser observadas na vida do
próprio sujeito que desenvolve sua sexualidade a partir do nascimento. Freud
(1905), já destacava que o período da infância é primordial para entender o início da
vida sexual. Este período será determinado pela construção de barreiras psíquicas,
que impedirão o desenrolar da pulsão sexual sem freios, através de sentimentos de
vergonha, repugnância e exigência de padrões estéticos e morais.
Apesar do desvio da pulsão sexual neste período ela não cessará, pois esta
energia sexual será desviada para outro interesse, o que constitui o período de
latência, no qual o sujeito só deverá voltar no período da puberdade. Caso
continuassem nesse movimento, tornar-se-iam pulsões pervertidas, despertando
sentimentos desagradáveis.
Assim, a criança vai ter a sua primeira experiência de prazer no momento em
que a mãe oferece os primeiros cuidados maternos, erotizando o corpo do bebê. A
primeira experiência de satisfação à qual todo bebê foi subordinado, proposta por
Freud (1950 [1895]) no “Projeto para uma psicologia científica”, indica uma
percepção mítica inicial de completude que é perdida e que nunca será alcançada
de novo. Segundo ele, o primeiro objeto erótico de um bebê e externo ao seu próprio
corpo, é o seio da mãe.
Deste modo, a procedência do amor endereçado à mãe está ligada à primitiva
necessidade de nutrição de ser satisfeita. Entretanto, o seio materno é apreendido
não somente como aquele que alimenta, mas também aquele que proporciona
cuidado, e que desperta no bebê sensações físicas aprazíveis e desprazerosas.
O ato de sugar sexualizado desde o início se torna de grande importância
erógena. Caso isso persista nas crianças elas poderão desenvolver vícios tais como
o de fumar, beber ou comer. Caso esta pulsão de se nutrir seja recalcada, poderão
47
desenvolver distúrbios de alimentação como repugnância pelo alimento, vômitos e
etc.
O ato da criança de sugar os polegares ou outra parte do corpo mostra que
pode existir uma sensação de prazer, ou talvez, parecida com cócegas. Deste modo,
estas zonas erógenas que produzem prazer vão sendo identificadas através do
toque no próprio corpo e irão produzir sensações de satisfação, que de acordo com
esta intensidade serão posteriormente preferidas. No caso das opções escolhidas
serem a genitália e os mamilos este movimento vai ser associado no momento de
sugar os dedos. Nos casos de histeria estas regiões serão recalcadas e vão
transmitir os estímulos prazerosos como os da genitália em outras zonas erógenas
esquecidas na fase adulta.
Outra manifestação sexual masturbatória nas crianças além da zona labial é a
zona anal. Através dos estudos da psicanálise observamos que os distúrbios
intestinais na infância são os grandes geradores de excitação sexual. No momento
em que a criança se utiliza da região como um meio de estímulo sexual de prazer
subsidiário à defecação, ela irá prender esta eliminação a fim de promover a
satisfação na hora que desejar, não oferecendo assim o chamado “presente” para
sua mãe. Esta posição vai ser vista como uma expressão de concordância ou não
com o ambiente ao seu redor. Este comportamento pode, no futuro, ocasionar
problemas de hemorróidas, levados por raízes de constipação que é comum nos
neuropatas.
Quanto à atividade das zonas genitais esta será posteriormente usada para
promover grande satisfação sexual na vida adulta. Tanto as meninas como os
meninos no processo de higienização da região genital como a lavagem e fricção
acidentalmente irá produzir excitação sexual. Este fato promoverá uma grande
satisfação de prazer o que leva a despertar a necessidade de repetição na primeira
48
infância. Nas meninas o fato da junção das coxas também fará um movimento de
satisfação. Os meninos normalmente usam as mãos em busca deste prazer. Freud
(1905) afirma que existem três fases da masturbação infantil:
A primeira delas pertence à infância e a segunda à rápida eflorescência da
atividade sexual por volta do quarto ano de vida; somente a terceira fase
correspondente à masturbação puberal, que é frequentemente a única
espécie levada em conta. (FREUD, 1905, p.193).
Em observação as colocações de Freud, o retorno à atividade masturbatória
na segunda infância poderá até permanecer, porém terá um modo diferente de se
apresentar podendo ser detectadas em análise e sofrer influência da amnésia
infantil. Mas quando prossegue pode trazer alterações de caráter e desencadear
alguma neurose ou dar origem a compulsões.
Retornando a primeira infância a criança vai em busca de uma infinidade de
sensações prazerosas, pois os cuidados de higiene da criança levarão a estímulos
sexuais, que também lhe proporcionará sensações agradáveis. Esta relação com a
mãe, em particular, se tornara muito forte, pois a progenitora é aquela que
proporciona imensa sensação de conforto, de segurança, de amor, de satisfação e
prazer, ao mesmo tempo, “embala-a e muito claramente a trata como um substitutivo
de um objeto sexual completo”. (IDEM, IBIDEM, p.230). No entanto, muitas vezes a
mãe não tem consciência deste fato. Contudo, todo este cuidado é de extrema
importância no processo da sexualidade infantil. Freud (1905) relata:
Em primeiro plano encontramos os efeitos da sedução, que trata uma
criança como um objeto sexual prematuramente lhe ensina, em
circunstâncias altamente emocionais, como obter satisfação de suas zonas
genitais, uma satisfação que ela então, via de regra, é obrigada a repetir
volta e meia através da masturbação. Uma influência desta espécie pode
originar-se quer de adultos ou de outras crianças. (IDEM, IBIDEM, p.195).
As crianças, por influência da sedução, mostram-se com características de
perversas polimorfas e não possuem nenhum tipo de barreira contra aos excessos
49
perversos deste período. Podem desenvolver irregularidades sexuais, pois estão
desprovidas de vergonha, moralidade, repugnâncias porque ainda não possuem
recursos suficientes para isso.
Além desta característica perversa polimorfa, as crianças, nos seus primeiros
anos, podem ser imunes a vergonha, ter comportamentos de crueldade e de
exibicionismo. Estas posturas muitas vezes são normais nesta época, mas
características de inclinação para a crueldade e a grande curiosidade de ver os
órgãos genitais de outras pessoas só deverão aparecer mais tarde, sendo até então
um processo espontâneo.
Deste modo, quando a criança é despertada pela masturbação ficará curiosa
para olhar a genitália de outras pessoas. Caso esta pulsão seja recalcada, poderá
dar origem a alguns sintomas neuróticos. Quanto a crueldade, é normal nas crianças
nesta fase, pois ainda não desenvolveram a capacidade para piedade. Quando esta
crueldade se dirige para colegas e animais suspeita-se de precocidade de atividade
sexual, vinda das zonas erógena, o que demonstra pulsão sexual primária, podendo
às vezes ocorrer a permanência de instintos cruéis e indestrutíveis na vida ulterior.
Em torno de três a cinco anos de idade, a criança desperta sua pulsão de
saber e começa a fase dos questionamentos principalmente em relação à
sexualidade e à sua origem. Muitas vezes a criança percebe as alterações no corpo
da mãe na época da gravidez e com a chegada de um bebê na família a criança irá
perguntar como este bebê chegou e de onde veio, antes mesmo de se sentir
ameaçada de perder seu lugar. No caso dos meninos, estes acham que o seu órgão
genital é comum a todos (até darem-se conta do processo de castração). No caso
das meninas ao se deparar com a ausência do pênis, elas são tomadas pela inveja
e, como consequência, passam a acreditar que seu clitóris é um pênis e que se
desenvolverá como o do menino.
50
Outro fator que poderá marcar a vida da criança em período ulterior é quando
ela se depara com a visualização da relação sexual. Para ela o ato demonstra um
sentido sádico, que futuramente poderá influenciar um deslocamento sádico de
objeto sexual.
Na relação afetiva com sua mãe a criança, durante a primeira infância,
permaneceu ligada como forma de receber não apenas o alimento como
necessidade fisiológica, mas também para atender sua pulsão sexual. Deste modo,
com o passar dos anos, esta relação de troca vai marcar a vida da criança que
tentará restaurar esta relação sexual que foi perdida, geralmente com aqueles a
quem lhe dedicam cuidados e que proporcionam excitação sexual. Esta pessoa
geralmente é a mãe que lhe cuida lhe oferecendo sentimentos vindos de sua pulsão
sexual, que proporciona esta satisfação em substitutivos de um objeto sexual
completo. Freud (1905) comenta:
Além disto, se a mãe entendesse mais da alta importância do papel
desempenhado pelas pulsões da vida mental como um todo – em todas as
suas realizações éticas e psíquicas – ela se pouparia quaisquer
autocensuras mesmo após ser esclarecida. Ela está apenas cumprindo seu
dever de ensinar seu filho a amar. Afinal de contas, a criança deve cresce e
se transformar-se numa pessoa forte e capaz, com vigorosas necessidades
sexuais, e realizar durante sua vida todas as coisas que os seres humanos
são impelidos a fazer por suas pulsões. É verdade que um excesso de
afeição dos pais é nocivo por causar maturidade sexual precoce e também
porque, mimando a criança, torna-a incapaz, na vida ulterior, de passar
temporariamente sem amor ou contenta-se com uma pequena quantidade
dele. Uma das mais claras indicações de que uma criança se tornará
neurótica pode ser vista na exigência insaciável de afeição dos pais.
(FREUD, 1905, p.230).
Observamos então que os pais podem estimular as primeiras pulsões sexuais
em seus filhos, incentivando-os a desejarem eles próprios como seus primeiros
objetos sexuais mesmo que seja no campo da fantasia, onde irão ser atraídos a
princípio pelo sexo oposto, pois o filho irá sentir-se atraído pela a mãe e a filha pelo
pai. Deste modo, vamos encontrar a cada etapa de desenvolvimento algumas filhas
que vão reter seu amor por seus pais, permanecendo assim seu amor infantil, não
51
superando a barreira de sua autoridade paterna. Quando se casam se tornam frias
sexualmente com seus maridos, pois a sua libido é remota ao período infantil.
Assim, encontramos algumas mulheres que tem horror ao sexo e desenvolvem um
tipo de amor assexual ou destinam sua libido sem autocensurar seua pais, irmãos e
irmãs.
É muito comum o homem e a mulher se apaixonarem prematuramente por
alguém mais velho, que ocupe um posto de autoridade, pois estas pessoas irão
representar os seus protótipos de objetos sexuais paternos e maternos. No caso do
homem ao encontrar uma mulher mais velha, irá reviver o seu primeiro objeto
sexual, porém se sua mãe for viva, não gostará de sua parceira e sentirá ciúmes,
pois irá sentir-se trocada por uma nova versão.
2.4
Complexo de castração e complexo de Édipo
A vida sexual das crianças é marcada por vários acontecimentos que vão dar
origem a forma definitiva da vida sexual no adulto. Freud (1923), em “A organização
genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade”, observa a existência de
apenas um sexo, o masculino, ou seja, a primazia do falo. Assim, o menino acredita
que todos tenham o mesmo sexo e que as meninas também tenham um pênis.
Como nesta época a criança está atenta a todos os movimentos, o menino
observa as meninas urinando, por exemplo, e se depara com a ausência do pênis.
Porém, ele ignora inicialmente esta ausência e acredita que no momento o pênis
não aparece devido ao seu pequeno tamanho. Aos poucos o menino passa a
imaginar que o pênis já ocupara este lugar e que por algum motivo lhe foi retirado.
Neste momento o menino se depara com uma possível castração o que o faz pensar
nos motivos pelos quais a menina perdeu o pênis.
52
Na mesma época, ao se deparar com a castração a menina se revolta contra
a mãe, pois não compreende porque a mãe não lhe deu um pênis e entende este
fato como sendo uma punição. Para a menina ainda é difícil de acreditar que sua
mãe não tenha pênis.
Em a “Dissolução do complexo de Édipo”, Freud (1924) discorre sobre o
complexo de castração e o complexo de Édipo e relata que em determinado
momento que a menina observa que seu pai, a quem ama, lhe pune ocasionando o
seu afastamento e o menino achando que sua mãe lhe pertence, se vê obrigado a
dividi-la com um bebê ou com o próprio pai. Deste modo, o complexo de Édipo se
encaminha para a dissolução.
Nesta época, o desenvolvimento sexual da criança avança e seu órgão
genital passa a ser o centro de sua atenção. O órgão genital existente no momento é
apenas o masculino, pois o feminino ainda é inexpressivo. No caso dos meninos,
este descobre que ao manipular seu pênis proporciona prazer, porém ao ser visto
sofre uma ameaça por parte das mulheres de que esta parte pode lhe ser tirada.
Aparece também a figura do pai ou do médico que irão intervir neste momento
trazendo a punição. Esta ameaça de castração ocorre também quando a criança é
acometida de incontinência noturna, este momento pode ser comparado com a
polução noturna, pois irá provocar a princípio o mesmo nível de prazer.
Observamos que a castração não é uma experiência nova, lembrando que a
criança já viveu este momento quando foi retirado o seio e quando lhe foi exigido a
liberação de seu intestino. Dessa maneira, observamos que a ameaça da castração
não vai ser um empecilho para que o menino dê continuidade em sua vida sexual,
pois esta não se baseia apenas neste fato.
Freud (1924) faz o seguinte comentário no caso dos meninos e depois no
caso das meninas:
53
O complexo de Édipo ofereceu à criança duas possibilidades de
satisfação, uma ativa e outra passiva. Ela poderia colocar-se no lugar de
seu pai, à maneira masculina, e ter relações com a mãe, como tinha o
pai, caso em que cedo teria sentido o último como um estorvo, ou
poderia querer assumir o lugar da mãe e ser amado pelo pai, caso em
que a mãe se tornaria supérflua. O complexo de Édipo da menina é
muito mais simples que o do pequeno portador de pênis; em minha
experiência, raramente ele vai assumir o lugar da mãe e adotar uma
atitude feminina para com o pai. A renuncia ao pênis não é tolerada pela
menina sem alguma tentativa de compensação. Ela desliza – ao longo da
linha da equação simbólica, poder-se-ia dizer – do pênis para um bebe.
Seu complexo de Édipo culmina em um desejo, mantido por muito tempo,
de receber do pai um bebe como presente – dar-lhe um filho. Tem-se a
impressão de que o complexo de Édipo é então gradativamente
abandonado de vez que esse desejo jamais se realiza. Os dois desejos –
possuir um pênis e um filho – permanecem fortemente no catexizados no
inconsciente e ajudam a preparar a criatura do sexo feminino para seu
papel posterior. (FREUD, 1924, p.220-224).
Observamos que no momento em que o menino no complexo de Édipo,
assume atitudes ativas e passivas, esta orientação dupla vai ocasionar em uma
identificação afetuosa para com o pai, sendo visto como atitude feminina. Entretanto,
não podemos afirmar que esta atitude demonstre qualquer relação de rivalidade
para com a mãe, pois ela é o objeto de amor de seu pai.
Na menina o complexo de Édipo se volta para o pai e não para a mãe, visto
que esta não lhe deu o pênis. Deste modo, a menina vai despertar para a fantasia e
começa a desejar um filho do pai. Freud coloca que a partir deste desejo se inicia a
motivação para a masturbação. Período antes, ela que estava na fase fálica, troca o
seio pelo sugar do dedo e posteriormente despertará para a zona genital, pois esta
lhe proporcionará um prazer. Portanto, ao observar o órgão genital masculino,
notará que é mais desenvolvido que o seu e nesse momento desperta a inveja.
Nessas circunstâncias teremos alguns rumos na sexualidade feminina e na
masculina. Na masculina, o menino pode primeiramente ignorar a ausência do pênis
na menina e só dar conta da castração mais tarde quando for ameaçado ou então
ao observar que a menina não é possuidora do pênis pode desprezá-la por ter sido
mutilada.
54
No caso da menina ocorre de outra forma. No momento em que se deu conta
que não é possuidora de pênis poderá tomar algumas decisões. Ao saber que não o
tem, vai querer ter e poderá desenvolver um complexo de masculinidade que
perdurará por muitos anos, levará a desenvolver ações estranhas, desenvolverá
atitudes masculinas e se convencerá de que realmente é possuidora de um pênis.
Outra situação acontece no momento em que é desprezada por não possuir pênis.
Ela se sente em posição inferior ao menino, o que abala sua estrutura psíquica,
proporcionando sensação de desprezo pelos homens e mais tarde vai assumir uma
posição de homem.
Outro fato que pode ocorrer é o despertar do ciúme da menina pela mãe. Já
que não tem o pênis sente-se em uma posição de inferioridade e qualquer criança
que se aproximar da mãe vai ser mais preferida que ela. Este é um dos motivos que
levam com que a relação com a mãe crie um pequeno afastamento. Sendo assim,
parece que a masturbação nas meninas está fadada a ser diferente dos meninos,
pois esta descoberta da ausência do pênis faz com que ela não se lance mais na
atividade autoerótica, o que vai dar origem a uma onda de recalques que irá eclodir
na puberdade onde a menina dará lugar ao desenvolvimento de sua feminilidade.
Porém, algumas vezes a menina não consegue superar este recalque e poderá ter
consequências na sua vida sexual na fase adulta.
Freud (1925) em “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica
entre os sexos”, comenta:
Alcançamos determinada compreensão interna (insight) da pré-história do
complexo de Édipo nas meninas. Nas meninas, o complexo de Édipo é uma
formação secundária. As operações do complexo de Édipo o precedem e o
preparam. A respeito da relação existente entre os complexos de Édipo e de
castração, existe um contraste fundamental entre os dois sexos. Enquanto,
nos meninos, o complexo de Édipo é destruído pelo o complexo de
castração, nas meninas ele se faz possível e é introduzido através do
complexo de castração. Essa contradição se esclarece se refletirmos que o
complexo dede castração sempre opera no sentido implícito em seu
conteúdo: ele inibe e limita a masculinidade e incentiva a feminilidade. A
55
diferença entre o desenvolvimento sexual dos indivíduos dos sexos
masculino e feminino no estádio que estivemos considerando, é uma
conseqüência inteligível da distinção anatômica entre seus órgãos genitais e
da situação psíquica ai desenvilvida; corresponde à diferença entre uma
castração que foi executada e outra que simplesmente foi ameaçada. Em
sua essência, portanto, nossos achados são evidentes em si mesmos e
teria sido possível prevê-los. (FREUD, 1925, p. 318-319).
2.5 A sexualidade feminina
Baseado nos textos de Freud (1931), Lacan já observava que o complexo de
castração era resultado da falta do pênis, onde para superar esta perda, a mulher
inconscientemente entra no campo do imaginário. Sendo o corpo materno do âmbito
do registro imaginário, Lacan divide as vias da libido em lugares anatômicos como
seu clitóris e sua vagina. Porém, se para que a mulher exista é necessário que ela
tenha o pênis e ela não possui esse suporte imaginário do falo, este significante
orientador, então ela não existe realmente. Mas na realidade, o que favorece a
materialidade do corpo da mulher é a presença das fantasias edipianas que se
originam neste corpo.
Assim, ao analisar a sexualidade feminina, Lacan (1953) observa que não é
que a mulher não conheça seu corpo, é que o gozo feminino não pode ser dito,
permitindo que a mulher venha também usufruir do gozo vaginal que fica encoberto.
Lacan cita a história de Tirésias, “o profeta”, morador de Tebas, que ao atrapalhar
um ato sexual entre cobras místicas mata a cobra fêmea. Assim é transformado em
mulher e vive assim por sete anos. Mais tarde, outro incidente acontece. Tirésias
mata uma cobra macho e volta a ser homem. Ao perguntarem a ele que havia
passado pela experiência de corpos em ambos os sexos qual deles lhe deu mais
prazer, ele responde: “se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove
e o homem com uma”.
Freud afirma que a mulher possui um posicionamento passivo e o homem
ativo. Porém, apesar das diferenças físicas entre os dois, há um modo de se
56
comportar que permite que ambos possam ocupar a posição passiva ou ativa,
dependendo da situação em que se encontrem. Portanto, na diferenciação entre os
sexos, Freud (1933 [1932]), na “Conferência XXXIII – Feminilidade”, aponta o
complexo de Édipo e o de castração e faz a seguinte afirmação:
Para um menino, sua mãe é o primeiro objeto de amor e ela assim
permanece também durante o complexo de Édipo e, em essência, por toda
a vida dele. Para a menina, também, o seu primeiro objeto deve ser sua
mãe (e as figuras da babá e da nutriz, que nela se fundem). Na situação
edipiana, porém, a menina tem seu pai como objeto amoroso e espera-se
que no curso normal do desenvolvimento ela deverá passar desse objeto
paterno para sua escolha objetal definitiva. Com o passar do tempo,
portanto, uma menina tem de mudar de zona erógena e de objeto – e um
menino mantém ambos. (FREUD, 1933 [1932], p.58).
Seria desta forma que a sexualidade feminina se desenvolveria, porém muitas
vezes a menina fica presa na fase fálica ligada a esse objeto de desejo, pois a
menina deseja que a mãe lhe conceda um pênis. A menina voltar-se-á para o pai,
aquele que ela deseja por ter um pênis. Ela pensa que como ele tem um pênis
poderá lhe dar um filho. Neste momento, se instala o recalque, onde a menina por
não possuir o pênis irá se colocar no lugar de objeto fálico, sendo este objeto de
desejo.
Logo, o complexo de castração faz com que a mulher se torne objeto de
desejo. No texto “As formas de amor na partilha dos sexos”, Antônio Quinet (1995)
afirma:
Ela só é objeto de desejo, na condição de encarar para o parceiro a
significação da castração. Para se tornar objeto causa de desejo para o
parceiro, tem de ocupar este lugar de ser o falo. Para tal, ela tem de se
apresentar sempre com o sinal de menos valia qualquer, enfim, tem de
estar marcada pela castração de alguma forma.
É a falta que torna alguém objeto de desejo para o outro. Como também
ocorre no caso do homem em relação à mulher. Para ele ocupar este lugar
de objeto de desejo para uma mulher, ele tem de estar marcado por um
menos qualquer. Eis a estrutura depreendida por Lacan a partir da posição
feminina. (QUINET, 1995, p.13-14).
57
3 A PSICOLOGIA DO AMOR
O que falar sobre o amor? Vinícius de Morais, grande poeta brasileiro e autor
de várias letras de músicas, falava de amor em suas canções. O que nos atrai no
outro para que eu o escolha como parceiro? Em uma de suas poesias referindo-se
a mulher amada ele escreveu: Eu sem você não tenho porquê / Porque sem você
não sei nem chorar / Sou chama sem luz, jardim sem luar / Luar sem amor, amor
sem se dar / E eu sem você sou só desamor / Um barco sem mar, um campo sem
flor / Tristeza que vai, tristeza que vem / Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
(Baden Powell e Vinícius de Moraes).
3.1
Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos
homens
Neste contexto, Freud (1910), em “Contribuições à psicologia do amor I”,
descreve que o que move um homem a ser atraído por certo tipo de mulher são as
condições de objeto onde a mesma se encontra, dentro de uma explicação no
campo psicanalítico.
A primeira precondição é que esta mulher já possua um pretendente, com o
qual vai brigar por ela. Assim, é necessário que exista uma terceira pessoa que será
58
prejudicada. Não basta que esta mulher seja livre e esteja apaixonada, ela só se
tornara objeto amoroso no momento que pertença a outro homem.
A segunda precondição é que a mulher seja casta e pura, pois não exercerá
atração de objeto amoroso, mas será necessário que exista alguma dúvida no que
tange sua reputação moral. Esta pode ser casada ou não, mas deverá apresentar
indícios de seu comportamento leviano e estar sujeita a intrigas. Muitas vezes a
presença de insegurança e ciúmes proporciona a esta mulher ser objeto amoroso,
mesmo se possui comportamento promíscuo e às vezes sendo até profissional do
sexo. No artigo acima referido, Freud (1910) afirma que:
Em casos evidentes o amante não demonstra qualquer desejo de posse
exclusiva da mulher e parece sentir-se perfeitamente à vontade na situação
triangular. (...) Outro paciente típico havia tido, é verdade, muito ciúme do
marido no seu primeiro caso amoroso e proibira a mulher de ter relações
maritais. (FREUD, 1910, p.151).
Já no amor normal, o homem procura uma mulher que possua integridade
sexual e que tenha características semelhantes às prostitutas, ou seja, uma dama
na sociedade e prostituta no amor. Este tipo de objeto amoroso vai exigir muito de
um homem, pois esta mulher ideal exigirá do amante grande dispêndio de energia
mental e este cobrará de si próprio a fidelidade e dedicação absoluta. Ele não
medirá esforços para atender os desejos de sua amada. Este comportamento
amoroso surge comumente naqueles que se apaixonam e poderá se repetir ao longo
da vida, como uma réplica deste. Neste caso do amor normal, o homem terá a
necessidade de tentar manter salvaguardada a mulher amada, pois acredita que
sem a sua presença ela poderá perder seu controle moral, afetando sua reputação
na sociedade.
Assim, observa-se que esta terceira precondição é muito parecida com o
relacionamento comum. A escolha de objeto no amor normal vai sempre passar pela
busca das características da mulher que tragam um traço da mãe.
59
A busca de objeto onde existe a necessidade de um triângulo amoroso vem
representar a busca pela mãe, onde o sujeito vai disputar a atenção materna com o
pai, sendo necessário que exista uma pessoa prejudicada, pois este já está
acostumado a dividir a atenção sempre com o outro. A pessoa permanecerá nesta
mesma posição e ao atingir a puberdade irá buscar substitutos que o remetam a
mesma situação. O único problema é que como a busca é pela mãe, será difícil
conseguir preencher este lugar.
Uma segunda precondição de objeto escolhido assemelha-se a prostituta. Na
medida em que o sujeito vai crescendo e chegando a puberdade, observa que o ato
sexual para acontecer deve haver uma libido mais forte e presente. Assim, esta
descoberta denuncia que seus pais fazem sexo. Segundo Freud (1910):
O aspecto dessas descobertas, afetam mais profundamente a criança
recém-instruída, é a maneira em que são aplicadas a seus próprios pais.
Essa aplicação é, muitas vezes, francamente rejeitada por ela, mais ou
menos nestas palavras: “Seus pais e outras pessoas podem fazer coisas
como esta entre si, mas meus pais, possivelmente, não podem fazê-las”.
(IDEM, IBIDEM, p.154).
Porém, à medida que o menino vai interagindo com a sua descoberta, passa
a ter sentimentos confusos entre horror e desejo e por algum tempo sente desprezo
pela mãe, pois começa a lhe ver como uma prostituta, mas logo depois, surge um
sentimento de desejo pela mãe e a disputa com o pai pela atenção da mãe, sendo
que este faz o corte, onde se demonstra o complexo de Édipo. Este pai vira rival e a
mãe infiel por permitir ao pai ter-lhe como objeto sexual. Como não consegue ter
sexo com a mãe, surgem várias fantasias que vão levá-lo a masturbar-se. Estas
fantasias anos mais tarde darão vazão na vida real.
Há também a necessidade de salvar a pessoa amada que se coloca em
situação possível de cometer um ato infiel e não ser vista como leviana. Muitas
vezes a criança ouve de seus pais que esta lhes deve a vida. Posteriormente, estas
60
palavras vão gerar no sujeito um desejo de lhes retribuir tudo o quanto foi dado em
igual valor, se fosse possível tê-los como filho, pois só assim o sentimento seria
parecido. Porém, os pais se tornam os grandes mentores, os grandes Outros, aos
quais a criança deve respeito.
3.2 A tendência universal à depreciação na esfera do amor
Freud (1912), no texto sobre “A tendência universal à depreciação na esfera
do amor”, observa que a busca dos homens para auxílio psíquico se deve muitas
vezes por perturbações na esfera da impotência sexual. Esta geralmente decorre de
processos psíquicos, onde uma fixação incestuosa com a mãe ou irmã nunca é
superada, além de processos relacionados à atividade sexual na infância que
reduziam a libido, que deveria ser dirigida ao objeto sexual feminino. Deste modo,
Freud (1912), em “Contribuições à psicologia do amor II” afirma:
Aqui de novo – como muito provavelmente em todas as perturbações
neuróticas – a origem da perturbação é determinada por uma inibição na
história do desenvolvimento da libido antes que essa assuma a forma que
tomamos como sua determinação normal. Nos casos que estamos
considerando, duas correntes cuja união é necessária para assegurar um
comportamento amoroso completamente normal podem-se distinguir as
duas como a corrente afetiva e a corrente sensual. (FREUD, 1912, p.164).
Segundo Freud (1912), a corrente afetiva se constitui no início da infância,
onde a pulsão de autopreservação é endereçada à mãe e a todos que da criança
cuidam. Assim, desde cedo, esta começa a mostrar contribuições de suas pulsões
sexuais, seus interesses eróticos, passando, então a fazer as escolhas de objetos
primários para satisfazer suas primeiras pulsões sexuais, que neste momento serão
necessárias à preservação de sua vida. Entrando, na puberdade, a corrente afetiva
se une à corrente sensual e vai depender da cota de libido que se permitiu
consolidar aos objetos primários. A escolha de objeto deverá superar a barreira do
61
incesto para encontrar outro objeto que o levará a realizar a verdadeira vida sexual.
Deste modo, o homem irá encontrar a sua parceira e terá por ela uma intensa
paixão, demonstrando a mais alta valorização psíquica do objeto sexual.
Porém, apesar da escolha do objeto sexual ter sido efetuada, não significa
que será definitiva. Em primeiro lugar, poderá acontecer primeiramente a frustração
da realidade que esta nova escolha proporcionou e em segundo lugar a quantidade
de atração que os objetos infantis, ligados a investimentos eróticos, ainda serão
capazes de exercer. Mas, se não houver superação destes fatores o mecanismo
geral das neuroses entra em funcionamento. Neste processo, a libido se distancia da
realidade e dá lugar à atividade imaginativa, esta sendo um processo de introversão,
que proporcionará ao sujeito uma fixação das imagens dos primeiros objetos sexuais
no inconsciente. Deste modo, a atividade masturbatória em consequência da
corrente sensual, ficará no inconsciente e contribuirá para corroborar esta
amarração.
Portanto, haverá a substituição dos objetos sexuais primários em diferentes
fantasias conscientes com outros objetos levando à satisfação masturbatória. Mas,
se este objeto da fantasia se ligar a objetos incestuosos no inconsciente dará início a
uma impotência total, que mais tarde poderá comprometer o órgão que realiza o ato
sexual.
Para que haja o ato sexual, a corrente sensual deve estar plenamente
presente, bem forte e desinibida para dar lugar parcialmente à realidade. Caso
contrário, dará vazão a corrente afetiva que remeterá o sujeito à procura de imagens
incestuosas proibidas.
A restrição, assim, se colocou na escolha do objeto. A corrente sensual, que
permaneceu ativa, procura apenas objetos que não rememorem as imagens
incestuosas que lhe são proibidas; se alguém causa uma impressão que
pode levar à sua alta estima psíquica, essa impressão não encontra
escoamento em nenhuma excitação sensual, exceto na afeição que não
62
possui efeito erótico. Toda a esfera do amor, nessa pessoa, permanece
dividida em duas direções personificadas na arte do amar tanto sagrada
como profana (ou animal). Quando amam, não desejam, e quando desejam,
não podem amar. (FREUD, 1912, p.166).
Os homens que possuem a dificuldade de promover a confluência entre as
duas correntes, terão como medida protetora a depreciação do objeto sexual ou não
terão muito refinamento nas suas formas de comportamento amoroso, mas sim na
finalidade sexual perversa e poderão desenvolver importantes capacidades sexuais
com alto grau de prazer.
Devemos ressaltar que a impotência psíquica não se restringe apenas a falha
de se combinar as correntes afetiva e sensual, nem também apenas ao homem, pois
as mulheres também podem desenvolver. Esta impotência psíquica não se aplica
somente à frustração de realizar o ato do coito, mas também ao fato de não se obter
prazer genital durante o sexo. Estando o órgão genital intacto, estes homens são
descritos como psicanestésicos. Ocorrendo os mesmos sintomas nas mulheres, elas
são caracterizadas como frígidas.
Um homem que tem muito respeito por sua mulher não irá se entregar
plenamente ao ato sexual e só desenvolverá potência completa quando mantém
relacionamento sexual com mulheres de classe mais baixa, pois a estas não precisa
atribuir-lhes escrúpulos estéticos, já que não fazem parte de seu círculo social e por
isso não o julgarão. Deste modo, a traição o remete ao ato do incesto, sendo
também proibido, o que produz grande satisfação e prazer.
No caso das mulheres o que ocorre é que as mesmas estão sobre influência
residual de sua educação. Uma mulher que ao se enamorar, estiver com um homem
que não esteja em sua plena potência e que deseja possuí-la após o ato, dará lugar
a uma subvalorização. No caso das mulheres, elas não depreciam seu objeto
sexual.
63
Porém, sua longa contenção de sexualidade e seu anseio de sensualidade
em fantasia têm para elas outra consequência importante. São muitas
vezes, subsequentemente, incapazes de desfazer a conexão entre a
atividade sensual e a proibição, tornando-se psiquicamente impotentes, isto
é, frígidas, quando tal atividade, finalmente lhes é permitida. (FREUD,
1912, p.169).
Algumas mulheres preferem muitas vezes deixar encoberto o seu
desempenho de satisfação sexual, enquanto outras possuem a capacidade de
sensação normal e partem para criar uma situação de proibição sendo infiéis aos
seus maridos, sendo capazes de manter uma segunda fidelidade ao amante. A
diferença entre as mulheres e os homens é que as primeiras não transgridem a
proibição de atividade sexual e estabelecem a relação entre proibição e sexualidade,
já os segundos podem satisfazer a condição de depreciar o objeto e em
consequência manter mais tarde essa condição em seu amor.
Portanto, as barreiras existentes para a realização deste prazer proporcionam
mais tarde a satisfação incompleta no casamento. Ao mesmo tempo a
impossibilidade de realizar suas pulsões sexuais levam ao aumento da libido, no
entanto, tão logo realize a atividade erótica esta se reduzirá.
Nas civilizações antigas em declínio, onde não se tinham restrições à
satisfação sexual, o amor se tornava sem valor e a vida vazia. Foi necessário um
grande movimento reativo para restaurar os valores afetivos, onde a corrente
ascética da Cristandade estimulou as mudanças de valores psíquicos para o amor
que não existia na antiguidade pagã. Freud (1912) assevera:
A psicanálise revelou-nos que quando o objeto original de um impulso
desejoso se perde em consequência do recalque, ele se representa,
frequentemente, por uma sucessão infindável de objetos substitutos,
nenhum dos quais, no entanto proporciona satisfação completa. Isto onde
explicar a inconstância na escolha de objeto, o “anseio pela estimulação”
que tão amiúde caracterizam o amor dos adultos. (FREUD, 1912, p.171).
Sabe-se que a pulsão sexual original se divide em um grande número de
componentes entre os quais incluem a pulsão coprófila, incompatível com os
padrões estéticos. Há também as pulsões sádicas que fazem parte da vida erótica e
64
as pulsões do amor que são difíceis de educar. Estas pulsões que não são utilizadas
serão percebidas em atividades sexuais sem satisfação. Deste modo, a
incapacidade da pulsão sexual de produzir satisfação completa que atenda às
exigências da civilização será sublimada ao componente pulsional.
3.3
As mulheres, o amor e o desejo
Analisando o modo de amar de homens e mulheres, Freud (1914) em
“Introdução ao narcisismo” afirma:
Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais - ele
próprio e a mulher que cuida dele – ao fazê-lo estamos postulando a
existência de um narcisismo primário, o qual, em alguns casos pode
manifestar-se de forma dominante em sua escolha objetal. (FREUD, 1914,
p.104-105).
A escolha pelo amor objetal é característico no homem, pois este à medida
que se afasta do narcisismo primário próprio da infância, o transfere para o objeto
sexual. Esta supervalorização sexual é comum das pessoas apaixonadas e por esse
motivo acabam desenvolvendo uma compulsão neurótica, onde com a anulação do
eu em detrimento da libido, esta se volta a favor do objeto amoroso.
Já no caso da mulher, logo no início da puberdade e com o amadurecimento
dos órgãos sexuais, parece que se consolida o narcisismo original, porém este não
será favorável, pois a escolha objetal não será concomitante a supervalorização
sexual. Assim, caso esta mulher seja bela nesta fase aceitará quaisquer restrições
sociais. Ela ama a si mesma em um narcisismo original e este amor a sustenta em
sua escolha objetal.
Se um homem a amar, terá que atender a todos os seus caprichos e assim
cair nas graças desta mulher. Esta mulher exerce grande atração não apenas por
sua beleza, mas devido ao seu narcisismo. Em geral, exerce um forte fascínio para
aqueles que renunciaram ao seu próprio narcisismo e que estão à procura do amor
65
objetal. Este encanto, com o passar do tempo, gera uma grande dúvida quanto ao
verdadeiro amor desta mulher, pois a sua natureza enigmática tem raízes
incongruentes nas várias escolhas de objeto. Nesta mulher, o que faz com que este
amor objetal seja transformado em completo é quando a mesma engravida, pois
poderá repassar parte de seu amor narcísico para esta criança. Há mulheres
também que não precisam engravidar para desenvolver o narcisismo (secundário),
para alcançar o amor objetal. No mesmo artigo, Freud (1914) continua:
(...) Além disso, estou pronto a admitir que existe um número bem grande
de mulheres que amam de acordo com os moldes do tipo masculino e que
também desenvolvem a supervalorização sexual própria aquele tipo.
(FREUD, 1914, p.106).
66
CONCLUSÃO
Através da busca da transformação de seu corpo físico, o sujeito se submete
aos tratamentos nutricionais e estéticos, porém nem sempre esta mudança será
suficiente para atender esta demanda.
Cada paciente que procura tratamento na clínica em busca de melhora da
forma física e nutricional, traz uma história diferente e uma razão que justifica o
desejo do tratamento. Mas com o decorrer do tratamento a maca utilizada nos
procedimentos estéticos vira um divã do analista. Aos poucos, os pacientes vão
relatando os verdadeiros motivos que os levaram.
Ouvimos durante a execução dos tratamentos nutricionais e estéticos os
seguintes relatos: “Pensei que ao emagrecer com a cirurgia resolveria meu problema
de arrumar um amor, porém já fiz a cirurgia há dez anos, perdi setenta quilos e estou
sem ninguém”. “Estou gostosa agora e ele desfila no calçadão com uma mulher que
tem idade para ser mãe dele. E como eu fico? Fui trocada por essa aí?” “Vou
engordar primeiro, pois ainda não tenho peso suficiente para fazer a cirurgia
bariátrica, depois faço dieta. Preciso de seu parecer de nutricionista para entregar ao
cirurgião. Não aguento continuar gorda, pois estou com dezenove anos e ainda não
tive namorado”. “Não dou sorte com os homens. São todos uns canalhas, pois só
67
olham para as saradas. Feliz foi minha mãe, que apesar de sempre ser gordinha
encontrou meu pai. Homens como ele não existem”.
A partir destes e de outros relatos, os quais apresentaram uma riqueza de
significantes relacionados com questões inconscientes e que influenciavam os casos
de insucesso de dietas e nas respostas dos tratamentos estéticos, é que tivemos o
interesse de estudar sobre conceitos básicos de Freud e Lacan em relação a beleza
e o amor.
Durante o transcorrer do nosso trabalho buscamos a trajetória dos padrões de
beleza que atravessaram os séculos até os dias de hoje e como eles influenciam o
sujeito que tenta de várias maneiras mudar sua imagem física na busca do amor.
Assim, deslizamos sobre a beleza vista na Grécia Antiga onde para ser belo deveria
existir uma proporção de medidas e conveniência. Essa beleza deveria conter
qualidades como a bondade e a justiça, além das proporções matemáticas do corpo
baseados nas teorias do quadrado do tetrágono.
A partir do século XV a beleza da mulher é retratada nas pinturas onde o colo,
a face e as mãos são evidenciados pelos artistas que destacam a pele branca como
sinal de esplendor, os olhos são realçados nas pinturas com ar angelical. A
maquiagem que a princípio era vista pela realeza como mundana, mais tarde é
aceita e transformam os rostos das mulheres em verdadeiras pérolas. Entretanto as
substâncias utilizadas são muito tóxicas lesando as faces. Quanto ao corpo, este
deveria estar com espartilhos realçando o alto, pois a magreza era sinal de beleza.
Já no século XVII, os quadris ganham atenção com armaduras laterais e a
maquiagem ganha cor. No século XVIII os espartilhos de ferro são substituídos por
feltro e panos que marcam a cintura e as armaduras das ancas são substituídos por
arcos que posteriormente dão lugar a enchimento na traseira dos vestidos. Quanto
68
aos homens sua aparência desliza do abdômen largado para a roupa justa e a
cintura marcada.
A partir do século XIX os vestidos ficam mais justos e os enchimentos
somem. Desse modo, as mulheres vão agora em busca de corpetes mais justos
para melhor definir seu corpo, lembrando que são magras e não anoréxicas como
nos dias de hoje. Com a chegada do século XX cai a moda das roupas ocultantes e
a mulher revela um corpo mais frouxo, o que as levam para as academias em busca
de definições de músculos. Desde o século XIX, a mulher já havia ingressado no
trabalho externo e se intensifica neste momento. Ela cuida do corpo, valoriza a
aparência estética e acompanha a moda das atrizes de cinema.
Já nos dias de hoje, a modernidade e a tecnologia colaboram para desenhar
mais o corpo da mulher através de cirurgias plásticas, porém esta tentativa de
melhorar o corpo com o objetivo de encontra um amor às vezes não resulta em
conquistas. Mas a beleza está destinada ao olhar do outro, que nem sempre a vê.
Em seu livro “Um olhar a mais”, Antônio Quinet (2002) argumenta:
Quando a visão da beleza terrestre desperta a lembrança da beleza
verdadeira com a qual a alma reveste suas asas... alçando, como os
pássaros, seus olhares ao céu e, quando ao negligenciar as coisas aqui de
baixo, ela é acusada de loucura. O entusiasmo assim provocado é o mais
desejável, em si mesmo e em suas causas, para aquele que o experimenta
e para aquele ao qual é comunicado. E aquele que, possuído por esse
delírio, é tomado de amor pelas belas jovens pessoas recebe o nome de
amante. (QUINET, 2002, p.73).
A beleza é invisível para o amor, porém como vimos em nossos estudos ela é
mutável, pois a cada século, desde o mito de Afrodite ela vai estar nos olhos de
quem a vê. Platão vislumbra que a beleza necessita de um sentimento maior, ou
seja, o desejo. Esta desperta atenção do sujeito de ter o que não se tem e nessa
busca vai ao encontro de retalhar o próprio corpo com o objetivo de ser desejado e
69
quando não consegue recalca, pois para encontrar o amor, a beleza física nem
sempre conta. Elizabete da Rocha Miranda (2004) faz o seguinte comentário:
O primeiro corpo, o verdadeiro corpo, é a linguagem, isso que se chamara
mais tarde de corpo simbólico. Logo, se podemos dizer “esse corpo é meu”,
é porque foi a linguagem quem o deu a mim, ou ainda que é desse dito que
o corpo se constitui como fato. Ele é um, o meu, porque eu o digo. (ROCHA
MIRANDA, 2004, p.97).
Deste modo, como o inconsciente é estruturado como uma linguagem e a
linguagem constitui o sujeito e este é estruturado por significantes, constatamos que
quando o sujeito ouve do Outro (refiro-me ao caso clínico) que sua aparência não
está agradável com os seguintes significantes “gorda e feia”, este sujeito
dependendo do seu recalque, tentará modificar seu corpo físico com o objetivo de
atender a expectativa do Outro.
No entanto, a expectativa do sujeito que investe na mudança do corpo físico
falha, pois o Outro à medida que se depara com a modificação corporal do sujeito,
não se identifica com a mudança, e este também recalca, pois a mudança não
atende a sua demanda. Lacan (1956-1957), em O Seminário, livro 4: A relação de
objeto, comenta:
Reportando-nos, todavia, a este primeiro esboço de sua psicologia,
encontramos ali a mesma fórmula a propósito do objeto. Freud insiste no
seguinte: que toda maneira, para o homem, de encontrar o objeto é, e
não passa disso, a continuação de uma tendência onde se trata de um
objeto perdido, de um objeto a se reencontrar. Não se trata, em absoluto,
do objeto considerado na teoria moderna como o objeto plenamente
satisfatório, o objeto típico, o objeto por excelência, o objeto harmonioso,
o objeto que funda o homem numa realidade adequada, na realidade que
prova a maturidade – o famoso objeto genital. É surpreendente ver que,
no momento em que faz a teoria da evolução instintual tal como esta se
origina das primeiras experiências analíticas, Freud nos indica que o
objeto é apreendido pela via de uma busca do objeto perdido. Este
objeto, que corresponde a um estágio avançado da maturação dos
instintos, é um objeto reencontrado do primeiro desmame, o objeto que
foi inicialmente o ponto de ligação das primeiras satisfação da criança.
(LACAN, 1956-1957, p.13).
Assim, Freud (1895), ao demonstrar que o primeiro objeto de satisfação
perdido desde sempre é o seio materno, assegura que a primeira experiência sexual
70
marcará o sujeito, pois este irá buscar sentir novamente este prazer. Mais tarde,
quando a menina se depara com a ausência do pênis que lhe foi negado pela mãe
se voltará para o pai na tentativa que este lhe de o pênis. Neste momento ela sai da
castração e entra no complexo de Édipo esperando que seu pai lhe de um filho. No
caso do menino, ao se dar conta da possibilidade da castração sai do complexo DE
Édipo. Desse modo, Freud descreve que a menina poderá ficar no Édipo e ao
chegar a idade adulta irá procurar um parceiro que se identifique com seu pai e o
menino com sua mãe.
Conforme Freud (1910-1912) em “Psicologia do Amor” relata, não é a
aparência física que atrai os desejos dos parceiros e sim o processo de
transferência que o parceiro faz no momento em que se identifica no Outro.
Elizabete da Rocha Miranda (2011), em artigo sobre os amores de Marilyn Monroe,
artista dos anos 50 considerada como uma das mulheres mais lindas da época, que
apesar de ser bela possuía vários problemas em relação a sua vida pessoal, faz o
seguinte comentário:
Encarnar o falo denega a castração, toca o ponto mais extremo que escapa
à linguagem e a razão. Loucura bizarra que não é a psicose porque tal
identificação ao falo esta ligada ao desejo de um homem, ao olhar do Outro,
à perversão polimorfa própria ao macho. É o caso de mulheres muito
bonitas e excessivamente admiradas, verdadeiros corpos-falos para o
socius e que por isso perdem a dimensão do próprio desejo. São mulheres
que ao encarnarem o falo pelo olhar do homem, conhecem um isolamento
quase sagrado. (ROCHA MIRANDA, 2011, p.91).
Retornando ao caso clínico, após um ano e meio de tratamento a paciente
ficou magra e o que apareceu foi a falta de desejo pelo marido e vice-versa. A
gordura muitas vezes serve para o sujeito fugir do seu próprio desejo, que no caso
dela não estava mais com o marido, faltando coragem para assumir.
71
Concluímos então, que o sujeito nunca terá seus desejos atendidos
completamente, pois o objeto de seu desejo é sempre inalcançável, pois o “objeto a”
é impassível de apreensão.
.
72
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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VIGARELLO, Georges. A história da beleza. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
76
APÊNDICE A – CURSO DE EXTENSÃO
"COMO
IDENTIFICAR
A
NECESSIDADE
DE
ACOMPANHAMENTO DAS CLIENTES QUE PROCURAM
TRATAMENTOS ESTÉTICOS E NUTRICIONAIS?”
Este curso visa favorecer aos profissionais da área da saúde embasamento
teórico sobre os conhecimentos básicos da psicanálise, de modo que no
atendimento de seus pacientes tenham uma ausculta diferenciada, e possam assim
explicar-lhes a importância do acompanhamento psicanalítico em conjunto ao seu
tratamento favorecendo o seu próprio sucesso.
OBJETIVOS:
Objetivo Geral:
- Proporcionar esclarecimento sobre conceitos básicos de Freud e Lacan em
relação à beleza e o inconsciente no âmbito da subjetividade.
Objetivo Específico:
- Montar um curso direcionado para os profissionais Nutricionistas e
Tecnólogos em Estética, que possa ajudá-los a pontuar o porquê da busca pelo
aumento da mudança física de seus clientes durante os tratamentos nutricionais e
77
estéticos, ampliando seu conhecimento sobre a visão da psicanálise, de modo a
orientar
o
cliente
que
o
sucesso
no
tratamento
irá
depender
de
seu
autoconhecimento e que um processo de análise o ajudaria com estas questões.
PÚBLICO ALVO: Nutricionistas, Tecnólogos em Estética e Cosmética.
METODOLOGIA:
A metodologia utilizada será a pesquisa bibliográfica sobre o tema na obra de
Freud, Lacan e autores da atualidade, bem como autores da área de filosofia,
nutrição e estética relevantes ao tema.
Serão utilizados e debatidos fragmentos clínicos dos casos atendidos pela
autora como nutricionista e tecnóloga em estética e cosmetologia.
EMENTA:
A história da beleza. O inconsciente e a sexualidade. Psicologia do amor.
Fragmentos de casos clínicos.
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:
1. A HISTÓRIA DA BELEZA
1.1 A beleza revelada do século XV até os dias de hoje
2. O INCONSCIENTE E A SEXUALIDADE
2.1O inconsciente e a linguagem
2.2 O sujeito e o desejo
2.3 Sexualidade Infantil
2.4 Complexo de castração e complexo de Édipo.
2.5 A sexualidade feminina
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3. A PSICOLOGIA DO AMOR
3.1Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens
3.2 A tendência universal à depreciação na esfera do amor
3.3 As mulheres, o amor e o desejo
4 FRAGMENTOS DE CASOS CLÍNICOS
CARGA HORÁRIA: 20 HORAS
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a beleza, o desejo e o amor - UVA – Universidade Veiga de Almeida