UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA MARTHA RIBEIRO DA FONSECA A BELEZA, O DESEJO E O AMOR Rio de Janeiro 2013 Martha Ribeiro da Fonseca A BELEZA, O DESEJO E O AMOR Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida por MARTHA RIBEIRO DA FONSECA, como requisito para obtenção do título de Mestre. Área de concentração: Psicanálise e saúde. Linha de Pesquisa: Subjetividade nas Práticas das Ciências da Saúde. Orientadora: Profª Drª Maria Anita Carneiro Ribeiro Rio de Janeiro 2013 DIRETORIA DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTU SENSU E DE PESQUISA Rua Ibituruna, 108 – Maracanã 20271-020 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 2574-8871 - (21) 2574-8922 FICHA CATALOGRÁFICA F676b Fonseca, Martha Ribeiro da. A Beleza, o desejo e o amor / Martha Ribeiro da Fonseca, 2013. 78 f; 30 cm. Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de Janeiro, 2013. a Orientação: Prof . Dra. Maria Anita Carneiro Ribeiro. . 1. Psicanálise. 2. Beleza. 3. Desejo. 4. Recalque. I. Ribeiro, Maria Anita Carneiro. II. Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. III. Título. CDD – 616.8917 Decs Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho Martha Ribeiro da Fonseca A beleza, o desejo e o amor Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida por MARTHA RIBEIRO DA FONSECA, como requisito para obtenção do título de mestre. Área de concentração: Psicanálise e saúde. Linha de Pesquisa: Subjetividade nas Práticas das Ciências da Saúde. Data da Defesa: 21 de outubro de 2013. Banca Examinadora _______________________________________________________________ Profª Drª Maria Anita Carneiro Ribeiro Pós-doutora em Psicologia (PUC/RJ) Professora do Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA _______________________________________________________________ Profª Drª Sônia Xavier de Almeida Borges Doutora em Educação (PUC/SP) Professora do Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA _______________________________________________________________ Profª Drª Elisabeth da Rocha Miranda Doutora em Psicanálise (UERJ) Professora do Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA Dedicatória Aos meus pais, Dacio e Daise, pelo apoio incondicional para a continuidade de meus estudos. Ao meu marido Samuel pelo apoio e paciência durante a trajetória de minha dedicação para com meus estudos. Aos meus irmãos e familiares que me incentivaram em meus estudos. Agradecimentos À Profª Drª Glória Sadala, coordenadora do Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade, que me entrevistou e possibilitou minha entrada neste curso, observando meu enorme desejo em busca de conhecimento. À minha orientadora acadêmica, Profª Drª Maria Anita Carneiro Ribeiro, por sua paciência, dedicação e incentivo ao longo das aulas e orientações, sem medir esforços para minha compreensão no estudo da psicanálise. A Profª Drª Sônia Xavier de Almeida Borges e Profª Drª Elisabeth da Rocha Miranda por gentilmente aceitarem participar da banca examinadora. À mestranda e amiga Ana Paula Queiroz, por seu carinho, parceria e por seu incentivo e ajuda nas referências bibliográficas cedidas. Aos mestrandos, amigos e parceiros de grupo de orientação, Gilber, Laura Junqueira, Daniele Lamarca, por seu apoio e incentivo nas apresentações em congressos e ajuda nas referências bibliográficas cedidas. Ao mestrando, amigo e parceiro Vinícius, por seu apoio e incentivo durante esta jornada. Aos meus colegas do mestrado que sempre me ampararam e estimularam ao longo deste percurso. A minha secretária Maria Cristina que sempre me incentivou na realização deste mestrado. A todos meus amigos que sempre me incentivaram na realização deste mestrado. Qualquer homem pode alcançar o êxito, se dirigir seus pensamentos numa direção e insistir neles até que aconteça alguma coisa. Thomas Edison RESUMO A busca por um padrão de beleza física produz no sujeito um desejo constante de mudança desde a antiguidade. Ao se tornar escravo do desejo de mudanças físicas pela beleza em busca da forma, irá deslizar por vários significantes na tentativa de atender esta demanda e de sentir-se desejado e amado pelo parceiro. Porém, para que haja desejo deverá ter uma falta, ou seja, a partir da falta-a-ter à falta-a-ser o falo. Quanto ao amor, este percorrerá o mesmo trilho, na busca pela identificação materna ou paterna de acordo com o recalque. Assim, a procura do amor através da beleza física de seu parceiro não garante que este atenda a sua demanda, proporcionando insatisfação. O sujeito então recalca e irá ao encontro de tentativas para satisfazer seus desejos. No entanto, precipita-se em um mergulho incessante que não finda, pois nada que encontre irá proporcionar a satisfação pretendida. Palavras chave: beleza, desejo, recalque, demanda, amor. ABSTRACT The search for a standard of physical beauty to the subject produces a constant desire for change. By becoming a slave of desire, will slip by several significant in trying to meet this demand, and feel desired and loved by their partner. However, so there should be a lack desire, in other words, from the lack-have the want-to-be phallus. As for love, it will travel the same way in seeking to identify maternal or paternal under repression. So when looking for love in physical beauty your partner, this does not always answer your demand, providing dissatisfaction. The subject then will meet and represses attempts to satisfy his desires. But a relentless dip that will not end, because nothing you find will provide satisfying unmet. Keywords: beauty, desire, repression, demand,love. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................... 10 1 A HISTÓRIA DA BELEZA ............................................................. 19 1.1 A beleza revelada do século XV até os dias de hoje ............... 22 1.2 A influência da moda na feminilidade .......................................... 27 2 O INCONSCIENTE E A SEXUALIDADE .......................................... 38 2.1 O inconsciente e a linguagem ........................................................ 38 2.2 O sujeito e o desejo .......................................................................... 42 2.3 Sexualidade infantil ........................................................................... 45 2.4 Complexo de Édipo e complexo de castração ........................... 51 2.5 A sexualidade feminina .................................................................... 55 3 A PSICOLOGIA DO AMOR .......................................................... 57 3.1Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens ..... 57 3.2 A tendência universal à depreciação na esfera do amor ........ 60 3.3 As mulheres, o amor e o desejo .................................................... 64 CONCLUSÃO ................................................................................................. 66 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................... 72 APÊNDICE A .................................................................................................. 76 10 INTRODUÇÃO Esta dissertação tem como propósito compreender as razões psicanalíticas que levam o sujeito a modificar ou mutilar seu corpo físico com o objetivo de conquistar um parceiro para amar ou na busca de manter este amor. Para alcançar estas modificações irão submeter-se aos tratamentos estéticos faciais e corporais, além das mudanças em suas condutas dietéticas. Sou nutricionista formada há vinte e três anos pela Universidade Federal Fluminense/RJ e tecnóloga em estética e cosmetologia há seis anos. Minha trajetória na nutrição foi sempre de atendimento clinico em dietoterapia onde oriento nutricionalmente pacientes com desordem nutricionais e também aqueles que desejam uma alimentação saudável com o objetivo de qualidade de vida e os que desejam melhorar no corpo seus problemas inestéticos. Nossa prática se dá por meio de uma avaliação dos problemas inestéticos corporais como a presença de fibro edema ginoide (FEG – vulgarmente chamada de celulite), estrias, gordura localizada e hipotonias dérmicas e musculares, onde será montado um programa de tratamento personalizado, visando a melhora destas alterações. Além de orientação nutricional a pacientes com desordens nutricionais e também nos direcionamos àqueles que desejam uma alimentação saudável com o objetivo de atingir uma melhor qualidade de vida. 11 Desta forma, para o organismo estar nutrido ele deve seguir as leis que regem a boa alimentação. Segundo Pedro Escudeiro, estas leis favorecem a organização da ingestão alimentar, proporcionando indivíduos saudáveis e melhorando o estado de saúde dos mais debilitados (VASCONCELOS, 2002): 1) Lei da qualidade: nutrientes necessários ao organismo; 2) Lei da quantidade: total calórico e de nutrientes; 3) Lei da adequação: peso, altura, clima, sexo, estado fisiológico, coletividade, etc.; 4) Lei da harmonia: distribuição de macro e micronutrientes. Deste modo, o sujeito, no momento em que apresenta alterações bioquímicas, patológicas ou estéticas, procura o profissional de nutrição para ajudar com sua alimentação. A partir de nossa experiência percebemos que muitas questões inconscientes estavam envolvidas e influenciavam em alguns casos de insucesso de dieta e de tratamentos estéticos já feitos anteriormente. Assim, vamos descrever um fragmento de um caso clínico, o que me motivou nosso interesse pelo estudo da psicanálise. Ao atender uma jovem senhora, comecei a anamnese perguntando o que a levara ao meu consultório e o seu relato era que estava se sentindo “gorda e feia”. E logo foi dizendo: “Sou casada há quatro anos, meu casamento não vai bem, pois estou gorda e quero engravidar para salvar meu casamento”. Relata que se casou muito cedo, com o primeiro namorado e diz: “Queria sair de casa, pois meus pais não me permitiam que eu saísse à noite para festas”. Seu pai era militar e a mãe enfermeira, sendo que a voz forte da casa era da mãe. Conta que seu namorado (atual marido) não era tão bonito, mas muito apaixonado e queria casar-se logo. Ele lhe contara que era o mais velho de três 12 irmãos e que foram criados pela mãe, pois seu pai saiu de casa quando ele tinha nove anos, seus irmãos seis e três anos, e nunca mais voltou. Sua mãe morreu quando ele completou quinze anos e cada irmão foi morar com um parente. Entretanto, no momento, já com vinte e seis anos, ele morava sozinho e não se dava muito bem com seus irmãos. Assim, namoraram por dois anos e meio, porém seus pais não aprovavam o casamento, pois o rapaz não teria condições de oferecer todos os luxos que a moça tinha em casa. Alegavam também que o rapaz não tinha curso superior e que a jovem, apesar de seus dezenove anos, já estava quase concluindo duas faculdades. Achavam que a jovem era manipulada por ele. A mesma relata: “Eu permitia, era o jeito dele”. Apesar da contrariedade de seus pais, ela marca o casamento para o final do ano e em julho é aprovada em um ótimo concurso público passando a ganhar o triplo do que seu namorado ganhava. Comenta que no instante em que ele soube de sua aprovação disse: “Agora seus pais não podem falar mais nada”. No entanto, ao longo dos anos de convivência, a jovem senhora engordou quase doze quilos. Já não era mais a menina que usava sua “mesada” para comprar o que quisesse, pois passou a assumir quase 80% das despesas da casa e não sobrava mais dinheiro para cuidar-se. Seu marido dizia: “Meu dinheiro não dá para coisas supérfluas”. Contraditoriamente, a jovem senhora relata que seu esposo comprava sempre os artigos mais caros no mercado e não economizava em nada. Certo dia seu marido começou a desprezá-la, dizendo que estava “feia e gorda”, e que ela teria de agradecer por estar ao seu lado, pois nenhum homem iria olhar para ela e gostar dela como ele. Assim, sua autoestima desapareceu. Desejava ser mãe, entretanto tinha medo de engordar muito e perder o marido. Relata que conversou com ele sobre seu desejo de fazer um tratamento para 13 emagrecer e este respondeu: “Isso é bobagem e perda de dinheiro, pois não temos essa grana”. A jovem senhora teve nesta época uma promoção, sobrando dinheiro para o tratamento. Assim, omitiu do marido sobre a promoção e me procurou para tratamento nutricional e estético. Determinada a melhorar sua autoestima a jovem senhora é fiel ao tratamento, transformando seu manequim quarenta e oito em quarenta e dois. Ela relata: “Estou chamando atenção de vários admiradores por onde ando. O mais engraçado é que neste período em que perdi peso meu marido engordou e não me procura mais enquanto mulher. Ainda bem, pois só assim não tenho de dar desculpas”. Em consequência de trabalhar em atendimento ao público, conhece um cliente que se encanta com sua beleza e cede as cantadas aceitando o convite para sair. Observa que não ama mais o marido e que ele só está casado com ela porque a situação é cômoda e muito confortável para ele. A paciente afirma: “Vou me separar, alugar uma casa menor e colocar só do meu jeito. Não desisti de ser mãe, porém não tenho mais necessidade de passar por esta situação com ele e com homem nenhum. Quero aproveitar a vida, sair a hora que eu quiser e conhecer todos também. Um dia vai aparecer o pai do meu filho e assim serei mãe. Gostei muito de cuidar de mim e quero continuar meu tratamento, pois me ajudou muito”. Durante todo o tempo de tratamento, que levou em torno de um ano e meio, me senti angustiada, pois havia a encaminhado para psicóloga e a mesma me disse: “Tenho de dar prioridade. No momento quero cuidar do meu corpo. Já converso com você e isso me faz muito bem. Você me escuta e não me recrimina em nada que faço. Sei que você não é psicóloga, mas a sua postura profissional lembra”. 14 Neste momento, surge uma questão: Será realmente que a beleza física é uma forma de atrair um verdadeiro amor? Ou será que somos atraídos a um parceiro por carências ou traumas e recalques de infância? Baseando-nos em atendimentos dietoterápico em consultório e observando ao longo dos anos o tratamento estético de alguns clientes, surgiu o desejo de realizar um estudo mais profundo relativo às questões que influenciam o inconsciente e que levam o sujeito a ter atitudes e comportamentos diferentes da realidade que almejam. Neste trabalho, vamos estudar como os profissionais da área de estética e da nutrição podem reconhecer em seus pacientes e clientes os motivos que os levam a fazer e buscar tratamentos estéticos, orientando-os a observarem as sutilezas dos significantes colocados nas consultas, pois ainda que alcancem seu peso e corpo adequados ainda não se encontram satisfeitos. Deste modo, no primeiro capítulo vamos estudar a “História da Beleza”. Ao longo do tempo, podemos verificar que o homem sempre se preocupou com a forma e a beleza do corpo. Os egípcios, astecas, maias e outras culturas antigas já usavam adornos e pinturas como forma de atrair seus parceiros. Na China os pés das mulheres eram quebrados em prol da beleza. Em determinada tribo africana se utilizavam colares de ferro para alongar o pescoço como sinal de beleza. (GORENDER, 2008). Freud (1930), em “O mal estar da cultura”, afirma: A atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, embora possa compensá-lo bastante. A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento, tenuemente intoxicante. A beleza não conta com um emprego evidente; tampouco existe claramente qualquer necessidade de cultura sua. Apesar disso, a civilização não pode dispensá-la. Embora a ciência da estética investigue as condições sob as quais as coisas são sentidas como belas, tem sido incapaz de fornecer qualquer explicação a respeito da natureza e da origem da beleza, e tal, como geralmente acontece, esse insucesso vem sendo escamoteado sob um dilúvio de palavras tão pomposas quanto ocas. (FREUD, 1930, p.102). 15 Sendo um dos sofrimentos do homem a sua imagem óptica, ao se ver no espelho, vê o Outro, uma imagem que se estabelece no registro do imaginário, como Lacan (1953-1954) afirma em O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, “(...) se vê, se reflete e se concebe como outro que não ele mesmo – dimensão essencial do humano, que estrutura toda a sua vida de fantasia”. (LACAN, 19531954, p.96). Ao buscar seus desejos, o sujeito se lança na procura de uma imagem criada no registro imaginário que o constituiu. Sendo o sujeito escravo da linguagem, ele busca na fala do grande Outro a realização de seus desejos, pois a palavra que habita o registro do simbólico vai endereçar sua demanda ao ideal do eu. Porém, não se constitui uma relação entre o ato de desejar e de ser belo, já que nem sempre a beleza física será o suficiente para despertar a atração sexual no parceiro. O que o sujeito espera é que além de ser desejado, também seja amado. Assim, no artigo “Ela anda em beleza, como a noite”, Maria Anita Carneiro Ribeiro (1995), afirma: Ao fazer-se bela, bela para si mesma, para um homem ou para outras mulheres, uma mulher tenta tomar para si enquanto sujeito a beleza que é sua, enquanto mulher, mas que, no entanto lhe escapa. A manobra de sedução pela beleza é a tentativa de adivinhar, dar um nome, um atributo ao desejo enigmático do Outro. (CARNEIRO RIBEIRO, 1995, p.97). No segundo capítulo da dissertação estudaremos o inconsciente e suas formações de modo a entender como a linguagem irá influenciar o sujeito e como esta formação instiga o desenvolvimento sexual do período pré-genital até a vida adulta. Ao procurar a imagem especular que considera ideal, o sujeito cria uma imagem escópica que ficará registrada no real, porém esta busca será constante, pois a captura do eu ideal é inatingível. Lacan (1959-1960), em O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise, ressalta: Há uma certa relação do belo com o desejo. Esta relação singular é ambígua. Por um lado, parece ser possível que o horizonte do desejo seja eliminado do registro do belo. E, no entanto, por outro lado, ele não deixa de 16 ser manifesto (...) o belo tem por efeito suspender, rebaixar, desarmar, diria eu, o desejo. A manifestação do belo intimida, proíbe o desejo. Não quer dizer que o belo não possa com o desejo, em tal momento se conjugar, porém muito misteriosamente, é sempre sob esta forma, que não posso designar de outra maneira senão chamando-a por um termo que traz em si a estrutura da passagem de não sei que linha invisível – o ultraje. Parece, todavia, que é da natureza do belo permanecer, insensível ao ultraje. (LACAN, 1959-1960, p.284). Recordando a mitologia grega, temos o mito de Narciso. Muito conhecido, o mito é utilizado para exemplificar a paixão de Narciso por sua imagem especular. A busca narcísica pela beleza do corpo leva o sujeito à procura de várias soluções para que se estabeleça uma harmonia em seus conflitos internos. Freud (1914) coloca que o narcisismo baseia-se na visão em que o sujeito contempla seu próprio corpo, tornando-o objeto de desejo para sua satisfação sexual; corpo este possuidor de várias zonas erógenas, que vão permitir que ao admirar sua imagem direcione para si uma energia libidinal, para posteriormente direcionar esta energia para o exterior. Lacan (1953-1954), em O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, afirma: O outro tem para o homem valor cativante, pela antecipação que representa a imagem unitária tal como é percebida, seja no espelho, seja em toda realidade do semelhante. O outro, o alter ego, confunde-se mais ou menos, segundo as etapas da vida, com o Ich-Ideal, esse ideal do eu invocado o tempo todo no artigo de Freud. A identificação narcísica – a palavra identificação, indiferenciada, é inutilizável –, a do segundo narcisismo, é a identificação ao outro que, no caso normal, permite ao homem situar com precisão a sua relação imaginária e libidinal ao mundo em geral. Esta aí o que lhe permite ver no seu lugar, e estruturar, em função desse lugar e do seu mundo, seu ser. (LACAN, 1953-1954, p.148). Em seus “Escritos” (1966), no capítulo sobre “O estádio do espelho como formador da função do eu”, Lacan (1949), ao comparar uma criança de seis meses e um chimpanzé que se olham no espelho, observa que a criança é a única que reconhece a própria imagem refletida no espelho e também dos objetos e pessoas que estão em sua volta. O chimpanzé, bem como ocorreu na experiência do cachorro de Pavlov, responde ao estímulo através dos treinos pelo condicionamento, porém não se reconhece no espelho. A criança se identifica em seu eixo imaginário 17 e se compraz com sua imagem refletida, fazendo gracinhas para ela mesma. No livro “Os outros em Lacan”, Antonio Quinet (2012) afirma que: Ao partimos do princípio de que no início não há unidade, o corpo do indivíduo pode ser concebido como um corpo retalhado, despedaçado, fragmentado pelas pulsões autoeróticas, as pulsões ditas parciais. A unidade do corpo é, em seguida, prefigurada pela imagem do outro ou pela imagem do espelho, pois ambos não se distinguem como nos ensina o mito de Narciso. As pulsões autoeróticas convergem para a imagem do corpo tomado por um outro: imagem com a qual o sujeito se identifica para constituir o seu eu. Essa imagem é o eu ideal, formado como imagem do outro, i(a), que dará a unidade do eu. Essa prefiguração da unidade corporal é acompanhada de uma jubilação que corresponde à satisfação narcísica sobre um corpo. O eu é, assim, constituído por uma imagem que se corporifica: corpo unificado, corpo em sua totalidade, em suma, corpo humano. (QUINET, 2012, p.13). Observa-se então que o “eu” é constituído por uma soma de significantes dados pelo grande Outro, donde o inconsciente estabelece um discurso marcado por significantes derivados de seus desejos. Desse modo, para o grande Outro o “eu” é visto como sujeito. Em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, Lacan (1957) assegura que “o sujeito pode parecer servo da linguagem” (LACAN, 1957, p.498), pois mesmo antes de seu nascimento ele já existe, a exemplo quando um casal que pretende constituir uma família, mesmo antes do matrimônio, já fala de sua vinda, sobre criação e destinos deste sujeito que ainda não foi concebido, mas já se encontra constituído. Assim, o bebê ao nascer induz os pais e os outros parentes a darem vários significantes ao sujeito e dependendo destes significantes o sujeito vai formando uma visão simbólica e imaginária de si, de modo que estes atributos às vezes podem proporcionar felicidade ou angústia. Deste modo, Freud (1905) comenta quanto à questão da sexualidade na infância, que o complexo de Édipo desenvolve-se inicialmente a partir da necessidade de alimentar-se e, posteriormente, da satisfação que este momento proporciona, surgindo a primeira relação de amor e desejo da criança pela mãe. Este amor irá perdurar até que a menina se dê conta da ausência do pênis e se volte 18 para o pai em busca de tê-lo. Já o menino ficará nesta relação até que apareça a ameaça da castração pela presença do Nome-do-Pai. Assim, ao chegar a idade adulta, o sujeito busca encontrar este amor recalcado na infância, que pode ter tido várias identificações de acordo com a sua opção sexual. Avançando em nossas investigações chegamos ao terceiro capítulo, onde discutimos acerca da relação amorosa em conformidade com as ideias que Freud evoca nos artigos que compõem as “Contribuições à psicologia do amor” (19101917). A relação amorosa é vista de modo a atender a necessidade de encontrar um objeto amoroso. Neste caso, o que o homem vai buscar na mulher nem sempre será a beleza física, a qual as mulheres desejam mostrar, mas sim atender o desejo de dar a ela o falo. Sendo a mulher a representação do próprio falo para o homem, “loucura bizarra que não é a psicose porque tal identificação ao falo está ligada ao desejo de um homem, ao olhar do Outro, à perversão polimorfa própria ao macho”. (MIRANDA, 2011, p.91). Lacan (1958) , em “A significação do falo”, afirma que: A hiância desse enigma confirma o que a determina na fórmula mais simples para torná-la patente, qual seja, que tanto para o sujeito quanto para o outro, no que tange a cada um dos parceiros da relação, não basta serem sujeitos da necessidade ou do objeto do amor, mas tem que ocupar o lugar de causa de desejo. (LACAN, 1958, p.698). Concluímos então, que o sujeito nunca terá seus desejos atendidos, pois o objeto de seu desejo é um furo, ou seja, o “objeto a”, pois se o sujeito é um ser desejante ele irá deslizar por vários significantes levando-o a mais angústia, recalcando seu desejo. 19 1 A HISTÓRIA DA BELEZA Como podemos descrever a beleza tão desejada por todos de acordo com sua cultura? Nesse capítulo vamos vislumbrar como a beleza foi sendo despertada pelas civilizações mais antigas até os dias de hoje, de modo que possamos compreender o que move o sujeito a se enfeitar e quais as expectativas de uma mudança física. A história da beleza nos acompanha há muitos séculos, muito retratada em pinturas, mitos e músicas por vários artistas desde antes de Cristo. A mitologia grega nos descreve a história da beleza através do mito do nascimento de Afrodite. A história nos conta que Urano era o rei do Universo, porém Cronos, seu filho, querendo o poder do pai o enfrenta numa luta e munido de uma foice arranca sua genitália se tornando o novo soberano do mundo. O urro de Urano é como um trovão, estremecendo toda a terra. Nesse momento, seu órgão fecundo mergulha nas águas profundas do mar e o fecunda de modo excêntrico. O mar se revolta durante toda a noite, mas o sangue de Urano se mistura com as espumas do mar e este começa a apresentar-se cada vez mais diferente. O movimento das ondas e o borbulhar das águas demonstravam que algo começaria a acontecer. Algumas ninfas que estavam nas margens da ilha de Chipre, notavam que o mar estava diferente como se o mesmo fosse parir algo. Quando os raios do sol se refletiram no mar, as ninfas pensaram que um monstro fosse sair 20 dele. De repente, um aroma delicioso de perfume é trazido pela brisa do mar, mais leve e suave que qualquer flor da ilha. Assim, de dentro do mar começa a surgir uma cabeça de mulher mais linda que tudo no universo, com um rosto delicado e suave, de uma beleza sem igual. Seus ombros, seios, cintura e sua pele eram perfeitas. Seu umbigo era lindo e logo abaixo um véu triangular de fios dourado se agitavam com a brisa da manhã. Quem seria esta mulher tão linda saída das águas? Com a ajuda dos peixes e golfinhos, colocaram sob seus pés uma grande concha e foram-na trazendo até a areia, realmente era uma deusa. Ao pisar em terra firme algo mais espantoso se fez, pois por onde ela pisava, o solo se tornava verde e as flores mais lindas se floriram exalando um perfume com toque angelical. Pássaros entoavam seus cantos mais belos de acordo com seu caminhar. As ninfas que estavam a admirá-la tinham perdido a fala até que uma delas perguntou: Quem é você? E ela respondeu: Sou aquela nascida da espuma do mar e do sêmen divino. Seu hálito tinha o perfume das pétalas de rosas e sua voz era doce. No mesmo dia, a notícia chegou aos Deuses do Olimpo, que ordenaram a Horas e Graças que fossem recepcioná-la. Enfeitada pelas mais belas divindades, foi apresentada no salão dos Deuses e admirada por todos e com o deslizar de seu véu, deixa aparecer sua beleza original. E todos a aclamaram como a mais bela das deusas. Durante muitos séculos a beleza era demonstrada através das pinturas e das esculturas, onde os artistas retratavam as diversas formas de beleza. Segundo Eco (2010), na antiga Grécia, “a beleza era associada a outros valores como a medida e a conveniência”. (ECO, 2010, p.20). A própria Afrodite foi retratada por vários pintores nos séculos XIV e XV, onde se referiam a ela como a Vênus do Amor. Eco (2010), também nos conta que em Homero, autor de “A guerra de Troia”, não 21 encontramos definição de beleza e que Eurípides (séc. V a.c) em “As Bacantes” relata: “o que é a sapiência ou que presente dos Deuses é mais belo entre os homens que erguer a mão vitoriosa sobre a fronte do inimigo? O que é belo é sempre desejável”. (IDEM, IBIDEM, p.82). O belo é o que atrai o olhar. Na época de Homero o corpo humano assume papéis mais importantes. A beleza é vista através de qualidades da alma e do caráter. Segundo a mitologia escrita nos templos de Delfos: “o mais justo é o mais belo". Assim, toda forma de beleza retratada nos séculos antes de Cristo, mostra as esculturas de corpos em formas estáticas com expressões psicofísicas que harmonizam a alma e o corpo, demonstrando a beleza nas formas da bondade e da alma. Nessa época também surgem as teorias relacionadas à beleza como harmonia e proporção e a beleza como esplendor. Pitágoras, no século VI a.C., afirma a importância da harmonia e da proporção e sustenta que o número é o princípio de todas as coisas e que precisam refletir uma ordem, pois é uma condição da existência da beleza. Quanto à proporção, para que possa refletir uma beleza é necessário que haja uma proporção numérica no corpo, ou seja, que as esculturas deviam ter as mesmas proporções em ambos os lados com uma simetria distribuída em toda a obra. Já na Idade Média, a matemática das proporções não mais será aplicada na avaliação do corpo. A cultura medieval se volta para a ideia platônica que o homem é como o mundo, sendo o cosmo um grande homem e o homem um pequeno cosmo. Baseando-se na teoria do quadrado onde encontramos os quatro pontos cardeais, quatro fases da lua, quatro estações do ano, também encontramos o número do homem, pois a largura de braços abertos corresponde a sua altura. Assim, o homem moralmente correto será chamado de tetrágono e de pentágono 22 quando acrescido de um que significara a perfeição mística, estética e na qual se referencia a Deus. 1.1 A beleza revelada do século XV até os dias de hoje Segundo os relatos de Vigarello (2006), a partir do século XV a beleza passa a ter relevos, formas, cores, espessura e contornos arredondados. A mulher é retratada em quadros valorizando o seu rosto, seu olhar e o colo. Esta forma modifica a estrutura de corpo da mulher do século XIII, pois na época esta deveria ter a “magreza do ventre”, rosto simétrico e branco, seios bem assinalados e corpos apertados. Contudo, passa a predominar, nos séculos XV ao XVI, as formas do corpo feminino que ganham contornos mais consistentes, porém existe a exigência de equilíbrio entre a magreza e a gordura, sendo considerada bela aquela mulher em grande ponto (este termo era usado para estabelecer um padrão de beleza na época). A beleza social era destacada através do comprimento das saias, pois a área mais sensual da mulher estava compreendida nas pernas e principalmente em seus pés. Mostravam-se as partes altas do corpo como se estivessem em um pedestal, pois ficavam sobrepostas a um intenso alargamento sustentado por “anquinhas”. As partes mais belas da estética do corpo concentravam-se no rosto, no busto e nas mãos, sendo estas retratadas pelos grandes pintores da época. Estes também valorizavam a expressão do olhar, o qual irradiava brilho próprio, demonstrando assim uma profundidade que nenhuma outra parte do corpo demonstraria. As mãos também têm seu valor, pois deviam ser longas, brancas, com dedos bem moldados e toque leve, pois participava seguramente do alto. 23 Quanto à beleza do homem, esta é o oposto da mulher, pois este precisa ter força para o trabalho e suportar as intempéries, “não que ele seja destituído de beleza: a imagem da majestade divina já reluz nele, incompreensível ao espírito humano”. (VIGARELLO, 2006, p.24). Sua aparência geralmente robusta, com pelos no rosto e corpo, atitude altiva, rosto com traços masculinos, uma mistura de refinamento, boa graça e carrancudo, quentes e secos. A mulher era definida por temperamentos mais suaves e úmidos, “rechonchudinhas e moles”. Nesta época, alguns artistas pesquisavam que esta beleza poderia ser perfeita e que existiria na “divina proporção”. Leonardo da Vinci retornou às proporções do número e inscreveu o corpo humano num círculo ou num quadrado, onde o centro era sempre o umbigo. A altura da cabeça, por exemplo, ”deve” ser equivalente a um oitavo da altura do conjunto, ou a unidade da face (entre testa e o queixo) “deve” sempre corresponder a três unidades para o tronco, duas para as coxas, duas para a barriga das pernas. (IDEM, IBIDEM, p.35). Muitos trabalhos de pesquisa mostravam que as mulheres da corte rejeitavam a maquiagem por esta ter uma conotação mundana e impura, pois a beleza é dada por Deus, já que apenas as prostitutas pintavam o rosto e colo. Porém mais tarde, a maquiagem passa a ser permitida desde que seja utilizada como a finalidade honesta ou para casar. Os produtos utilizados eram muito tóxicos, pois para dar a cor branca do rosto eram utilizados carbonato de chumbo, carbonato de mercúrio e de bismuto. Estes produtos produziam hálitos ruins, estragavam os dentes e degradavam a pele, esfolando o rosto. Para a proteção do rosto contra os raios solares, as mulheres da corte passaram a usar guarda-sol levado por pajens e também o uso de máscaras passou a fazer parte da indumentária feminina. Entretanto, não podemos deixar de ressaltar que nesta época as mulheres da corte desejavam a magreza. Utilizavam diversas receitas para manter seus corpos 24 magros e muitas vezes utilizavam substâncias para provocarem desidratação. Os trajes das mulheres da corte continuavam bem ajustados, com a cintura tão apertada com espartilhos que elas mal podiam respirar e o coração quase saltava do peito. No final do século XVI, a dança e o balé faziam com que as dançarinas suspendessem seus vestidos e começassem a mostrar seus pés de forma tão graciosa, que a corte começou a se preocupar com as partes mais baixas. As camareiras passaram a ser escolhidas conforme a pressão que faziam sobre as ligas das dançarinas e também ao modo como esticavam os calções acomodando bem as pernas. Os pés aparecendo abaixo dos vestidos mudavam a hierarquia submetida anteriormente ao alto. Já no século XVII, a beleza se faz pelas novas nuanças do corpo; a cintura e o quadril adquiriram mais precisão. As partes baixas dos vestidos se afastam da anatomia corporal e o busto continua estufado em um pedestal. Os vestidos agora ganham uma armadura nos quadris em forma de arco, utilizando tecidos engomados. As pernas tornam-se mais longas e as costas mais lisas, às vezes mais largas que a cintura. Qual seria a parte do corpo mais bonito? O rosto ou o corpo? O rosto traria uma identidade mais espiritual, onde os artistas pintam o olhar de modo mais angelical. Assim, a beleza começa a ser retratada através de traços distintos das faces conquistadoras, atraentes, joviais, religiosas e outras qualidades reveladas. Esta profundidade ainda não vista mostra a emoção e a paixão, além de mostrar um mistério não decifrado. Em sua pesquisa, Vigarello (2006) relata que François Senault e Descartes veem a grande utilidade das paixões, pois a pessoa passa a ter o desejo de conquistar a beleza e passa a ter o olhar como um grande aliado. Quando se 25 apaixonam, os olhos se animam e mostram um mundo diferente. Assim, Vigarello (2006) afirma em seus estudos: As conferências de Charles Le Brun na academia de pintura e escultura, em 1678, confirmam esse interesse. O pintor real focaliza o conjunto da expressão das paixões sobre o lugar dos olhos: as paixões “atrozes e vis” levariam o olhar a fugir da luz e a se abaixar para se ocultar e se resguardar; as paixões grandes e nobres o conduziriam a buscar essa luz e a se elevar; as paixões doces o conduziriam a horizontalidade. O estudo se pretende sábio, o olho é bem comandado aqui pelo que vem do “interior”: ângulos e triângulos são alceados nas cabeças das estátuas antigas, promovidas a modelos. [...] Todo cálculo do pintor real considera o jogo das sobrancelhas, o franzido dos olhos, sua horizontalidade, sua inclinação no perfil para melhor distinguir a beleza daquilo que não é beleza. (VIGARELLO, 2006, p.56). O uso de cosméticos pode demonstrar também a honestidade. O uso de espartilhos e cuidados com o vestuário mostram o desejo de demonstração de paixão. A estética começa se tornar “semente da Virtude”. (IDEM, IBIDEM, p.59). A diferença entre as mulheres da corte e as aldeãs se sistematiza nas figuras do século XVII, sendo estas rechonchudas, com bustos e barrigas soltas. Em contraste com as mulheres da corte, que com o uso dos espartilhos alongam as costas e comprimem o abdômen em emergência da beleza. Porém, as aldeãs com seus corpos soltos, sem grandes enfeites e maquiagens tornam-se grandes amantes, pois são amadas por seus encantos naturais. Os homens que antes não eram cobrados de beleza física, passam a fazer um investimento em sua aparência. A estética masculina se afasta da rudeza anterior e estabelece bustos mais magros e alongados. Após a mulher ter o direito ao uso da maquiagem, desenvolve-se a utilização do vermelho nas maçãs do rosto e nos lábios. Porém, as raparigas passam a usar. Neste jogo de se embelezar algumas mulheres da corte começam a suprimir o vermelho e a maquiagem. No entanto, ainda se vê como suspeito o uso indiscriminado do uso da maquiagem. Pais e maridos começam a proibir as mulheres do uso da maquiagem. Nas ruas as mulheres da burguesia que usavam 26 maquiagens ao sair são vistas como raparigas. O rosto sem maquiagem passa a ser visto como forma de indulgência. Os rigores das regras religiosas tornam as mulheres mais recatadas. Junto com a ausência da maquiagem é necessário cobrir os seios. Porém a maquiagem consegue se impor. A partir do século XVIII a estética passa por uma mudança, onde a aparência física passa por um olhar de maior leveza. Em análise funcional, a mulher aparece com uma amplidão dos quadris, alargamento dos flancos. O caminhar das mulheres é conduzido pelo movimento dos quadris, passos curtos e pouco movimento. A missão da mulher na sociedade restringiu-se unicamente a gestação e seu corpo tornou-se aparentemente frágil devido a sua beleza. Porém, sábia e de raciocínio inovador, algumas mulheres são recrutadas para o exército, pois devido a sua feiúra e porte avantajado, não são distinguidas entre os homens, libertando-se assim da tarefa da procriação. Apesar da valorização ainda do alto do corpo algumas mudanças acontecem no vestuário feminino. Os espartilhos de ferro e de espátulas de madeira são substituídos por panos e feltros, deixando ainda a cintura fina. A armadura das ancas é substituída por arcos envolta do corpo, porém deixando transparecer mais as formas femininas. Permanecem as saias rodadas. A mulher apresenta-se mais livre em seus movimentos ao caminhar. Aparecem as perucas que encantam a sociedade valorizando os rostos nas pinturas, de modo que a profissão de cabeleireiro se difunde, renascendo a arte dos penteados. A maquiagem retorna, porém fica sob a responsabilidade da Academia Real de Ciências em 1773, com a utilização de produtos mais naturais. Os grandes perfumistas consagram-se no comércio dando individualização nos produtos que passam a ser usados por homens e mulheres. 27 A beleza de homens e mulheres não passa mais apenas por trajes e maquiagens. Há um movimento que reforça o hábito dos banhos frios e do movimento do corpo. A exigência de “carnes firmes” se dá através do uso do banho e da importância das caminhadas higiênicas. Principalmente as mulheres que com ausência do sol, passam a ter seus corpos mais fracos, o que acabaria transformando-as em aleijões e corcundas. Destacam-se as vestimentas para as mulheres caminharem, sendo utilizados vestidos mais curtos e varas longas, como retratam algumas pinturas. O uso das bengalas torna-se parte do vestuário e as caminhadas passam a fazer parte dos rituais como o “passeio da manhã” e o “passeio da tarde”. Assim, as mulheres passaram a perceber a importância do uso das pernas, fortalecendo a sua morfologia, mobilizando também seus braços, além de manterem a postura da cabeça mais erguida. Deste modo, o fim do século XVIII fica marcado como um período de sensibilidade de sentimentos e mudanças higienistas e de saúde. 1.2 A influência da moda na feminilidade Com o advento do século XIX, a moda passa por um processo de transformação, não apenas influenciando a aparência física que se destaca na corte, mas também o olhar sobre o corpo que se enriquece, atingindo outros detalhes como o lado romântico do novo século, onde as fisionomias são mais pensativas, interiorizadas. A valorização de uma consciência ainda não demonstrada expõe que o belo é comandado por uma paixão, pela moral, pela moda e que cada mulher é responsável por sua beleza, sem que se sinta culpada. A maquiagem ganha força, principalmente nos olhos, que passam a ser bem marcados e coloridos combinando com as maças do rosto bem rosadas. A pintura do século XIX realça os rostos iluminados e em tons rosados. 28 As mulheres ganham mais curvas com o prolongamento do arqueamento lombar, não alargando os quadris para o lado. A silhueta torna-se mais esguia, trazendo mais liberdade no caminhar, proporcionando melhor movimento muscular e articular. Esta curvatura permite ver melhor o corpo da mulher e na dança o parceiro consegue sentir o porte mais carnudo, arqueado e móvel. Com uma imagem mais elegante, maiores são as diferenças entre os sexos. As mulheres são mais valorizadas por suas qualidades anatômicas e identificadas através de suas curvas acentuadas como boas parideiras, ideia que reforça a verdadeira função das mulheres. Quanto ao homem, este também muda sua silhueta. A barriga agora comprimida, o peito estufado, postura altiva. Os ombros ganham largura e a cintura bem marcada. O colete no homem passa a ser peça mestra no vestuário. Em 1835, o vestuário feminino se divide em toaletes de verão e de inverno. Vigarello (2006) descreve: Saias plissadas e peitilhos marcam as formas que a revolução tornara mais visíveis. O vestuário se impõe aos contornos ao traí-los: o baixo do corpo e perde nas dobras, arcos e debruns, esse imenso franzido dos vestidos. (VIGARELLO, 2006, p.109). Os ombros aumentam e o corpúsculo abaixo dos vestidos se ajusta. O busto tende a ir ao alto, dando mais largura no alto mais que o dobro do dorso apertado. O corpo da mulher passa a ser visto de modelo das efígies. A mulher passa a questionar os seus direitos e privilégios que as leis garantem aos homens, como as inúmeras práticas de esporte como o tiro, natação e etc. Esse movimento passa a configurar uma nova postura social e uma beleza mais ativa. Em 1880, os vestidos estão mais justos, colantes e as anquinhas vão embora, deixando um corpete e túnicas de seda coladas ao corpo, bem apertadas. Os ornamentos postiços que serviam para elevar a traseira do vestido também somem. 29 O corpo mais exposto vai necessitar de mais firmeza, onde as barbatanas se prolongam descendo ao longo dos quadris. O corpo esbelto e a beleza das mulheres mais franzinas põem a grande maioria das mulheres numa busca de corpetes mais ajustados, longos, com barbatanas mais longas, flexíveis e descendo até os quadris. Lembrando que esta mulher franzina, não se compara as anoréxicas do dia de hoje. O vestido tinha de ser bem justo, reduzindo os quadris, de modo que apesar dos drapeados este não estivesse tão marcado. Assim, o corpo feminino é refletido em curvas, ou seja, mostrando o encurvado dos rins de maneira prolongada. A moda agora permite que se mostrem os seios e o bumbum. Esta beleza corporal destaca-se no início do século XX onde o ideal de beleza feminina passa a ser bustos bem marcados, cintura fina e quadris largos. Nasce uma maior liberdade de se conceder em ter desejo. Uma força misteriosa e sexual começa a brotar no conjunto do corpo feminino, apesar do medo de um sexo ameaçador, que devasta a sociedade, fascina os homens e coloca a visão das mulheres como diabas, inferiorizando seus valores. Os cabelos soltos passam a ser vistos como um complemento da beleza. Os espetáculos em cartaz mostram a banalização do corpo nu. As danças nos cassinos mostram as pernas das mulheres em roupas íntimas e corpos seminus. As roupas de praias marcam o fim do século XIX. Sem espartilhos a mulher ganha formas consideradas encantadoras pelos homens, onde apresentavam quadris belos e uma importância dada as pernas que se definia em maiôs de flanela colado a pele, em túnica apertada até a coxa. Assim, no início do século XX ocorre o rompimento entre as roupas ocultantes e revelantes. A proclamação da ginástica no final do século XIX revela um corpo mais frouxo, uma fraqueza de músculos e energia. As revistas de moda estimulam a 30 ginástica a ser praticada pelas leitoras, difundindo a imagem do movimento sem o anterior traje de balão. As mulheres adquirem o ofício feminino e passam a aumentar sua penetração nos empregos públicos e em escritórios. A falta da compressão dos espartilhos dificultava a permanência das mulheres ficarem sentadas por longos períodos. O chamamento é por uma beleza mais esguia, mais vertical, com menos bustos e mais flexibilidade no caminhar. A busca do controle das dimensões do quadril torna-se constante. Devido à ausência dos espartilhos, as mulheres tendem a seguir padrões estéticos mais esbeltos. Seu corpo não é controlado através do peso e sim através das medidas, onde a mulher gorda passa a ser esbelta e de pesada passa a ser elegante, graças a regimes regulares. Estabelece que o peso dos indivíduos entre a faixa etária de vinte e cinquenta anos devem possuir determinados quilos em relação a altura. Surgem regimes nutricionais dos mais variados e aparecem tratamentos estéticos utilizando cosméticos e eletroterápicos, com o objetivo de embelezamento do corpo. O espelho passa a ser peça fundamental colocado em quartos e banheiros. Deste modo, a mulher deslumbra sua silhueta sendo um lugar que não pode ser visto. Este isolamento permite que a mulher torne-se bela. Com a industrialização, o comércio de produtos de embelezamento ganha um grande vulto e os grandes magazines que oferecem desde maquiagem, perfumes, roupas e etc., se difundem em todo mundo. As divulgações dos produtos usam nomes de artistas para valorizar cada item novo do mercado. Os cosméticos recebem uma nova expressão: produtos de beleza com o objetivo de cuidados com o rosto e o corpo. A partir de 1910, surgem os primeiros Institutos de Beleza como Helena Rubinstein e o oficio de esteticista. A ciência das cirurgias estéticas começa a 31 vislumbrar mudanças e retoques de transformações corporais. A população que antes não se preocupava passa a demonstrar interesse pelas cirurgias. Em torno de 1920, a aparência das mulheres muda em relação a 1900. Exibem suas pernas, seus cabelos ganham novos penteados deixando ver o pescoço. O corpo é mais esguio, como se ganhasse mais altura. Sem as almofadinhas, as armaduras e os espartilhos, a mulher volta a cuidar de seu corpo. Com o uso da seda e a maquiagem bem demarcada a mulher ganha uma “linha magra”. A moda dos cabelos curtos surge com entusiasmo, pois mostra a liberdade feminina e uma opção ao padrão de beleza onde a cabeleira dava um aspecto pesado e embaraçador. Assim, ao conquistar a liberdade de se vestir e usar de seu cabelo conforme sua vontade, a mulher cada vez mais se lança no mercado de trabalho, não para competir com o homem e sim para adquirir este espaço negado a ela por anos. Nesta época, estilistas como Coco Chanel e tantos outros descobrem uma fatia do mercado onde a elegância ao se trajar vai de casa ao trabalho e mesmo aquelas que continuam como senhoras do lar ao lerem nas revistas de moda as novidades do momento se esmeram em conseguir acompanhar. As novidades vêm também da maquiagem, onde se distinguem para serem usadas ao ar livre, para o trabalho e para a noite. Várias frases marcam esta época, como por exemplo: “Leve uma vida de homem, mas permaneça mulher”. Nos séculos anteriores a moda reinava em uma aparência de face branca como a neve, onde as mulheres usavam artifícios para clarear ainda mais. Agora o sol passa a fazer parte do visual feminino e a cosmetologia é repensada analisando a proteção ao ar livre, porém não se sabe os efeitos danosos e assim este conceito de bronzeamento perpetua mais nas pessoas de peles mais morenas. 32 Já em 1930, a beleza a feminina passa a ser vista de modo que a mulher deveria ter músculos visíveis e elásticos. Durante o período entre as guerras, o perfil das mulheres se tornou mais adelgaçado e a cobrança de corpo com medidas abaixo dos centímetros da altura se fortaleceram. As revistas de moda como Votre Bonheur ditavam as tabelas de peso e medidas, afirmando que os excessos de peso seriam perigosos, podendo complicar a saúde, trazendo diversas doenças e poderiam levar até a morte. Aparecem os concursos de “rainhas” e “misses” que se multiplicam durante todo o período entre as guerras. A imagem da mulher fica restrita apenas a beleza. No cinema desperta no público uma doce ilusão, onde as atrizes cumprem o papel de mensageiras da beleza. Atrizes como Greta Garbo, Muriel Evans, Joan Blondell e outras, são exemplos de beleza e inspiram todas as mulheres. Os penteados tornam-se parte do visual feminino. A estética corporal se pronuncia entre as artistas de cinema buscando o “algo mais” em sua beleza, quando em 1930 aparece a expressão “sex appeal”. Esta beleza era intrigante e misteriosa fosse em seu olhar, no andar, no modo de gesticular e até mesmo em sua voz. Assim, a belíssima Marlene Dietrich incorpora todos os predicados de uma “sex appeal”. Mas a busca desta beleza tem seu preço como disciplina, cultura física e regime. Em 1935, a revista Votre Beauté declara uma nota que “não há mulher feia... só há mulheres que se descuidam”. Deste modo, algumas atrizes foram encontradas na multidão e se tornaram belas mulheres. A revista Vogue publica a seguinte frase: “Uma linda menina é um acidente; uma mulher bonita é uma conquista”. Uma literatura de psicologização aparece nos meados de 1937, exaltando todo trabalho feito de auto-persuação, estimulando as mulheres a descobrir a felicidade que mora dentro delas. Não importa a auto-sugestão, o importante é a vontade de querer mudar. Desenvolvem a ginástica invisível feita a qualquer 33 momento trabalhando a contração dos músculos sem que ninguém perceba. A revista Votre Beauté se destaca por ter mais de cem mil leitoras. A revista dita atitudes, mudanças de comportamento, ideias e lança um slogan: “Não se pede barriga, aceita-se”. A beleza vai ser conquistada através da estética e do trabalho. Aparecem os primeiros estudos sobre a celulite e seus tratamentos. A revista Vogue a coloca em 1931 como o principal inimigo, o que vai reforçar os cuidados com a aparência e também com a alimentação. Os recursos cirúrgicos para face e mama começam a ganhar o mercado da publicidade das grandes revistas, prometendo a cirurgia das estrelas, como bocas bem feitas, bustos no lugar, sumiço das rugas e dos queixos duplos. No final da Segunda Guerra, a mulher ganha mais uma visão, não ignorada, mas promovida a esposa e mãe. Com a visão mais maternal, a mulher é vista mais cheinha, quadris mais largos, busto mais avantajado. Logo, os anos loucos de controle dietético diminuem. Novos valores estéticos ganham a moda e outras partes do corpo são ressaltadas como partes “sexy” do corpo feminino, como os lábios carnudos e entreabertos e os seios grandes e bem marcados. Os anos de 1950 e 1960 marcam mais uma etapa do corpo feminino mais realçado com curvas, quadris desenhados, decotes ousados mostrando uma personalidade mais sexy. A beleza é vendida como mercadoria e Brigitte Bardot é a musa da época. Todas as mulheres tendem a imitá-la em sua liberdade de expressão e ousadia. Com os anos de 1960, a mulher passa por uma nova transformação, em busca da igualdade feminina, com um segundo movimento feminista se apresentando. As formas femininas passam a ser escondidas por traz de calça jeans, camiseta larga e tênis. Quase não existe padrão de moda. A juventude passa por um padrão androide. O perfil de Jane Fonda mostrando pernas longas e ombros largos, ganha as passarelas. O corpo masculino ganha formas 34 diferenciadas pela influência dos Beatles. É a era dos cabelos compridos e muita irreverência. A revista Vogue ganha publicidade trazendo fotos de rosto e corpo inteiro construindo a moda. A massificação do embelezamento ganha todos os públicos e classes sociais. O gasto com cosméticos, estética e vestuário batem cifras altíssimas nas empresas consagrando grandes fortunas. Os cuidados com a beleza e a estética começam cada vez mais cedo, logo na entrada da adolescência. Chegando aos anos 70, a vestimenta da mulher ganha um ar mais descontraído onde os cabelos ganham mais volume, crespo e afro. As calças compridas de boca de sino, jaquetas e roupas mais largas. Já na Inglaterra, os “punks”, usavam roupas rasgadas e cabelos em desalinho criando um movimento com o objetivo de protesto contra o governo, pois a classe operária estava desempregada. Com os anos 80 vieram os exageros tais como maquiagens bem marcantes. As mulheres começam a competir com os homens no mercado de trabalho assumindo posições importantes. São usados tecidos com estampas de animais, muito coloridas e aparecem os primeiros tecidos em cotton-lycra utilizados para as roupas de academia. Nesta época começa o culto ao corpo, uso de suplementos vitamínicos e surge a modalidade de ginástica aeróbica para ajudar no emagrecimento. A transformação continua com a chegada dos anos 1990 e 2000. A imagem de beleza restrita à mulher e a de trabalhador dada ao homem não é mais usada, pois com o princípio de igualdade ganha um maior vulto. O homem passa a disputar com as mulheres os mesmos direitos de cuidar-se sem que isso o transforme em mulher sendo criado o termo de “metrosexual”. As modelos começam a ter um perfil magro chegando ao anoréxico que provoca nas mulheres um desejo de se igualar à 35 elas: jovens, magras e lindas. Novaes (2005) em seu artigo “Ser mulher, ser feia, ser excluída” faz o seguinte comentário: Como todo culto, como toda moda, o impacto da moda do culto ao corpo sobre a sociedade, só pode ser detectado a partir da compreensão da maneira como seus ditames são interpretados pelos indivíduos que, no interior de diferentes grupos sociais, lhes emprestam significados próprios. Como aponta Strozemberg (1986) o receptor nunca recebe passivamente uma mensagem, mas sempre, necessariamente, a interpreta e elabora, na medida em que toda a decodificação é uma leitura. A experiência do corpo é sempre modificada pela experiência da cultura. (NOVAES, 2005, p.10). Portanto, ao nos reportarmos para nossa vida diária na sociedade, constatamos que convivemos com um número bem grande de pessoas que fazem parte de nossa rotina e de outras que mal conhecemos. Deste modo, formamos laços sociais com os indivíduos que nos rodeiam, o que Lacan intitula de aparelhos de gozo, pois através desta troca vamos dar vazão aos nossos desejos. Este vínculo é formado por um agente e um outro, onde um se estabelece como dominante que é o agente e o outro o dominado, sempre necessitando haver um sujeito que renuncie a sua pulsão. Devido à dimensão deste vínculo que muitas vezes existe mesmo sem ocorrer a troca de comunicação falada, Lacan o intitula de laços sociais dos discursos. Entre estes estão: discurso do mestre (senhor e escravo); o discurso universitário (professor e aluno); o discurso da histérica (histérica e o médico); o discurso do analista (o analista e o analisante); o discurso capitalista (derivação atual do discurso do mestre). (QUINET, 2012). A tecnologia e a globalização levam a todos os lugares do planeta as novidades que vão surgindo para que a população fique informada. Com a necessidade de atender o desejo do outro, o sujeito busca as ofertas estabelecidas pelo discurso capitalista mesmo que não proporcione o gozo. As propagandas para a divulgação de produtos cosméticos são cada vez mais sedutoras, pois demonstram a melhora das rugas, a redução mágica da celulite e da gordura localizada em um curto espaço de tempo. Assim, homens e mulheres que precisam 36 acreditar nesta verdade, adquirem estes produtos para ficarem mais bonitos, esguios e desejáveis. A cada dia, vários profissionais se especializam para atender esta demanda do culto ao corpo. As clínicas de cirurgias plásticas promovem tratamentos parcelados para intervenções cirúrgicas e disponibilizam a todos os clientes a condição que tantos desejam. Tentam atender a necessidade do sujeito de mostrar para o outro que ele não está excluído do grupo e que também pode pagar sua cirurgia plástica, sendo esta uma demonstração de status. Com o avanço tecnológico e um grande interesse em aperfeiçoamento das formas corporais, as empresas de aparelhos de ginástica oferecem um número bem grande de aparelhos revolucionários, onde as melhores academias adquirem os mais variados tipos. Para impressionar o grande público, as propagandas são cada vez mais elaboradas e despertam o seu consumo, pois utilizam como modelos mulheres “saradas” e homens com grande hipertrofia muscular relatando que adquiriram todo o desempenho através do seu uso. A mídia televisiva vende uma imagem de felicidade que na realidade é falsa. Ela exalta a beleza de mulheres magras, esguias e às vezes anoréxicas. Ao serem exaltadas permitem aflorar seu narcisismo levando-as muitas vezes a abrir mão inconscientemente da saúde por um gozo proporcionado pela mídia, que cruelmente as julga como ideal de beleza sem avaliar a qualidade de saúde por elas apresentadas. Assim, sendo o corpo visto em forma de fetiche, o sujeito vai em busca de resolver a angústia de transformação de seu corpo e lança a mão de soluções rápidas para adquirir o corpo tão desejado, pois a necessidade de transformar este desejo em vários significantes leva ao sujeito a se perder em sua própria demanda. Elia (1995) em “Corpo e sexualidade”, afirma: 37 Se são os significantes (elementos da ordem simbólica) que medeiam a relação do sujeito com o corpo, já esvaziado de órgão, são também eles que organizam, para o sujeito, a relação com a imagem de seu corpo, e, a partir deste patamar, as imagens de seus semelhantes, dos objetos da realidade com os quais o sujeito ira estabelecer suas relações. Temos, assim, além do registro do simbólico, o registro do imaginário, de grande importância para a questão do corpo em psicanálise. (ELIA, 1995, p.104). A ciência vem proporcionando o desenvolvimento de próteses de silicone para várias partes do corpo, porém nem sempre esta solução é tão imune ao corpo, pois à medida que a procura destes produtos aumenta, a qualidade diminui, levando ao desenvolvimento de produtos de péssima qualidade o que esta levando muitos sujeitos a adquirirem grandes problemas de saúde física e psíquica. Portanto, o grande mal-estar provocado por não ser a imagem de seu eu ideal, o que realmente se deseja ser, leva o sujeito a grande frustração, pois ao não dar conta de toda a transformação almejada entra em mais angústia abrindo mão de seu desejo. Assim, precisamos compreender como funciona o inconsciente, este que é estruturado como uma linguagem. Qual o papel do desejo do sujeito sabendo que este tem uma demanda e que esta é demanda de amor? 38 2 O INCONSCIENTE E A SEXUALIDADE Na história da psicanálise vamos encontrar dois grandes psicanalistas: Sigmund Freud e Jacques Lacan, que durante anos dedicaram suas vidas a elaboração das respostas às seguintes perguntas: O que é o inconsciente? Ele existe? E como se forma? Qual a diferença entre necessidade, demanda e desejo? Nesta segunda parte de nossa investigação abordaremos a sexualidade infantil e como o complexo de castração e de Édipo irão influenciar o sujeito na vida adulta, em suas escolhas por objetos sexuais e as questões que envolvem a sexualidade feminina. 2.1 O inconsciente e a linguagem Na história das civilizações, a comunicação sempre existiu, desde os povos mais primitivos que buscavam supostamente se comunicar através de gestos, hieróglifos, símbolos e posteriormente com a palavra articulada e escrita. Em “Meditações metafísicas”, Descartes questiona sobre a existência do ser e a natureza do pensamento, onde a única coisa que realmente existe é o ser pensante. A mente humana voltada para si mesma não percebe ser outra coisa senão coisa pensante, não consegue que sua natureza ou essência consista apenas em ser pensante, de forma que a palavra apenas exclua todo o restante que talvez também se pudesse dizer à natureza da alma. (DESCARTES, 1979, p.14). 39 O sujeito do inconsciente está presente na fala do Outro e pela linguagem ocorre a representação do pensamento. Portanto, Freud (1888-1892), em seus estudos sobre a hipnose conclui que quando o sujeito fala de suas lembranças nas associações livres a cura advém. Ele começou a notar o valor da fala, pois nela emergia o que estava recalcado e o recalque é o mecanismo fundador do inconsciente. Em “A descoberta do inconsciente”, Antonio Quinet (2008) comenta que “Descartes parte do pensamento e chega à existência do eu; Freud parte do pensamento inconsciente e chega ao desejo”. (QUINET, 2008, p.14). Sendo assim, concluímos que o sujeito da psicanálise é o sujeito do desejo, já que visamos a aparição do desejo próprio desse sujeito. A palavra como manifestação da escrita nem sempre apresenta o mesmo significado, ou seja, seu sentido pode mudar de acordo com seus significantes, pois somos influenciados pelos ditos do Outro. A palavra é metaforizada no discurso. Quando se diz, por exemplo, “Maria possui um coração de pedra”, não se está querendo dizer que o coração de Maria é revestido de pedra no sentido concreto, mas sim que Maria é uma pessoa dura, inflexível, insensível. Lacan (1953-1954), em O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, comenta: A palavra institui-se como tal na estrutura do mundo semântico que é o da linguagem. A palavra não tem nunca um único sentido, o termo, um único emprego. Toda palavra tem sempre um mais - alem, sustenta muitas funções, envolve muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer, e, atrás do que quer dizer, há ainda um outro querer-dizer, e nada será nunca esgotado – se não é que se chega ao fato de que a palavra tem função criadora e faz surgir a coisa mesma, que não é nada senão o conceito. (LACAN, 1953-1954, p.275). Lacan (1957) prossegue na mesma linha de raciocínio quando faz uma releitura de Freud sobre a estrutura da linguagem em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, ao afirmar que: A Entstellung, traduzida por transposição, onde Freud mostra a precondição geral da função do sonho, é o que designamos 40 anteriormente, com Saussure, como o deslizamento do significado sob o significante, sempre em ação (inconsciente, note-se) no discurso. Mas as duas vertentes da incidência do significante no significado encontram-se nela. A Verdichtung, condensação é a estrutura de superposição dos significantes em que ganha campo a metáfora, e cujo nome, por condensar em si mesmo a Dichtung, indica a conaturalidade desse mecanismo com a poesia, a ponto de envolver a função propriamente tradicional desta. A Verschiebung ou deslocamento é, mais próxima do termo alemão, o transporte da significação que a metonímia demonstra e que, desde seu aparecimento em Freud, é apresentado como o meio mais adequado do inconsciente para despistar a censura. (LACAN, 1957, p.514-515). No início do século XX, Ferdinand Saussure (1969) em seu “Curso de linguística geral”, desenvolve o algoritmo, que se lê significado sobre significante: s/S, onde o significante é a imagem acústica e o significado o conceito. Desta forma, Saussure rompe com os filósofos da teoria dos signos que explicavam que o nome se remete a coisa e vice-versa, onde a coisa é a soma dos significados. Porém, Lacan rompe com Saussure ao observar que o significado pode perfeitamente deslizar sob a barra do significante, dando a este vários significados distintos. O exemplo: Maria é uma rosa = Significante (S) Maria Significado (s) rosa = flor, bela, cheirosa, delicada s1 s2 s3 s4 No mesmo texto, Lacan (1957) comenta: O que essa estrutura da cadeia significante revela é a possibilidade que eu tenho, justamente na medida em que sua língua me é comum com outros sujeitos, isto é, em que essa língua existe, de me servir dela para expressar algo completamente diferente do que ela diz. Função mais digna de ser enfatizada na fala que a de disfarçar o pensamento (quase sempre indefinível) do sujeito: a saber, de indicar o lugar desse sujeito na busca da verdade. (IDEM, IBIDEM, p.508). No exemplo acima, encontramos as duas leis do inconsciente. A primeira lei apresenta uma palavra ou significante que pode ser substituído por uma série de outros significantes, isto é, podemos associar a palavra “rosa” a diversos significados diferentes, o que constitui a lei da metáfora. A segunda lei do inconsciente se dá devido ao seu deslizamento de significados sob o significante, ou seja, a metonímia. Portanto, podemos dizer que o desejo é metonímico, pois desliza 41 de um para o outro, isto é, o desejo é algo que jamais pode ser satisfeito integralmente, pois na medida em que se conquista algo, imediatamente outro desejo a ser satisfeito surge em seu lugar. Então, o que sou? Eu sou aquilo que desejo, o sujeito desejante. O desejo quando não atendido fica no inconsciente produzindo recalques, uma série de sintomas e dando origem a vários desejos de outras ordens, originando o desenvolvimento de alterações de natureza neurótica: fobia, histeria ou neurose obsessiva. Neste momento, observamos que o ser não ocupa o lugar do eu, pois o ser ocupa um lugar deixado pelo próprio verbo, encontra-se no lugar do imaginário. Logo, o eu influenciado pelas percepções sensório-motoras depara-se com uma resistência imaginária, uma inércia levando o sujeito a manifestar mecanismos de defesa, criando artimanhas para que o conteúdo proibido permaneça recalcado. Ainda no mesmo texto, Lacan (1957) faz o seguinte comentário: Ao se obstinarem em qualificar por uma permanência emocional a natureza da resistência, para torná-la estranha ao discurso, os psicanalistas de hoje apenas mostram sucumbir ao impacto de uma das verdades fundamentais que Freud resgatou através da psicanálise. É que a uma nova verdade não podemos contentar-nos em dar lugar, porque é de assumir nosso lugar nela que se trata. Ela exige que nos mexamos. Não se pode atingi-la por uma simples habituação. Habituamo-nos com o real. A verdade, nós a recalcamos. (IDEM, IBIDEM, p.525). Deste modo, ao longo do processo de análise, o analisando encontra-se com o sujeito, que pode estar barrado, desejante, dividido, pontual, deparando-se com inúmeras repetições e também se encontra com o poder do grande “Outro”. O analisante nem sempre percebe que seu inconsciente trás os significantes à luz do consciente, levando-o à manifestação da intersubjetividade e nesse momento na fala do analisante. Ele faz a associação livre, mas amparado pela transferência que se deu para com o analista. Em “O conceito de sujeito”, Elia (2007) comenta que “a psicanálise estabelece que o modo pelo qual a transferência se formula deve, a justo 42 título, título, aliás, que lhe dá toda sua nobreza, ser chamado de amor”. (ELIA, 2007, p.32). Com o amor de transferência o sintoma aparece e com ele o desejo do sujeito. Neste momento, o sujeito entra em análise e aflora o desejo do analista. É que ao tocar, por pouco que seja, a relação do homem com o significante, no caso, na convenção dos procedimentos da exegese, altera-se o curso de sua historia, modificando as amarras do seu ser. É por isso que o Freudismo, por mais incompreendido que tenha sido e por mais confusa sejam suas conseqüências, afigura-se, ante qualquer olhar capaz de entrever as mudanças que vivemos em nossa própria vida, como constituindo uma revolução inapreensível, mas radical. (LACAN, 1957, p.525). Assim, observamos que a linguagem constitui o sujeito e este é estruturado por significantes, que são definidos por desejos presentes no inconsciente. O desejo aparece na fala, sendo esta uma metonímia e o sintoma sua metáfora. 2.2 O sujeito e o desejo Qual a relação entre o sujeito e o desejo? Em “Os escritos técnicos de Freud”, Lacan (1953) comenta que o homem não sabe nada sobe seus desejos e por este motivo que ele tem que o procurar para “reconhecer a si mesmo”. Nesta busca de atender ao seu desejo, o sujeito rivaliza com o outro, aliena-se, de modo que busca o Ideal do Eu, onde ao entrar na função imaginária se apreende enquanto forma e o seu desejo aparece. Analisando então, o desejo presente no inconsciente do sujeito, este se move para atender as solicitações. Em “A descoberta do inconsciente”, Quinet (2008) comenta: (...) O desejo é o vetor que se desloca de um significante (S1), representado pelo traço da excitação da necessidade de comer (a fome), para outro significante (S2), representado pelo traço do objeto que a satisfaz (o seio): S1__d__ S2. (QUINET, 2008, p.88). 43 Logo que a criança nasce a mãe atende às suas necessidades de alimento e o seio passa a ser seu objeto de desejo. Além desta função central, ela também recebe algo a mais que não pode ser mensurado nem é palpável, mas que está embutido no processo: a mãe atende suas necessidades fisiológicas, mas nem sempre sua demanda de amor. Momento este que vai proporcionar um gozo que ficará marcado no inconsciente do sujeito e que será perseguido por toda a sua vida, porém de maneira incondicional, na forma de desejo. Portanto, para que exista o desejo precisa existir uma falta, uma insatisfação do sujeito. Lacan (1958), em “A significação do falo”, afirma que: Há, portanto, uma necessidade de que a particularidade assim abolida reapareça para-além da demanda. E ela de fato reaparece, mas conservando a estrutura receptada pelo incondicionado da demanda de amor. Por um reviramento que não é uma simples negação da negação, a potência da pura perda surge do resíduo de uma obliteração. Ao incondicionado da demanda, o desejo vem substituir a condição “absoluta”: condição que deslinda, com efeito, o que a prova de amor tem de rebelde à satisfação de uma necessidade. O desejo não é, portanto, nem o apetite de satisfação, nem a demanda de amor, mas a diferença que resulta à segunda, o próprio fenômeno de sua fenda (Spaltung). (LACAN, 1958, p. 698). Observamos então, que para existir o desejo é necessária a presença do Outro, pois é para este outro que a demanda é endereçada, ou seja, o Outro da fala. Nesta fala é que vão aparecer vários significantes dirigidos ao Outro, muitas vezes de forma não muito clara. Temos que estar atentos às duas vertentes da fala: o enunciado que se representa na fala que parte do sujeito em direção ao Outro e a enunciação que é como a mensagem chega ao Outro desencadeando o enigma do desejo. (QUINET, 2008). O desejo não é um objeto palpável, ele vai deslizar por vários significantes metonimicamente e pode ser representado por várias metáforas de acordo com o discurso inconsciente do sujeito. Freud (1900), no seu texto sobre os sonhos, resume que estes são os mecanismos utilizados pela linguagem de modo 44 inconsciente, por isso aparecem no sonho, onde somos levados a mudar o sentido das cadeias significantes para mantermos os nossos desejos inconsciente, como é comentado por Lacan (1958) no texto sobre a “A bela açougueira” e em “A direção do tratamento”: Vemos então que tal objeto é idêntico a esses meandros, pois na primeira curva de sua estrada, Freud desemboca, no que tange ao sonho de uma histérica, no fato de que nele se satisfaz por deslocamento – aqui, precisamente por alusão ao desejo de uma outra – um desejo de véspera, que é sustentado em sua posição eminente por um desejo de ordem bem diversa, na medida em que Freud o ordena como o desejo de ter um desejo insatisfeito . Relembro o automatismo das leis pelas quais se articulam, na cadeia significante: a) a substituição de um termo por outro para produzir o efeito de metáfora; b) a combinação de um termo com outro para produzir o efeito de metonímia. Apliquemo-las aqui e veremos evidenciar-se que enquanto, no sonho de nossa paciente, o salmão defumado, objeto do desejo de sua amiga, é tudo o que ela tem para oferecer, Freud, ao afirmar que o salmão defumado é aqui um substituto do caviar, que aliás ele toma como o significante do desejo da paciente, propõem-nos o sonho como metáfora do desejo. Ora, o sonho não é o inconsciente, e sim, como nos diz Freud sua via régia. [...] mas, a partir do momento em que ele desliza como desejo de caviar, o desejo de caviar é a metonímia, tornada necessária pela falta-a-ser a que ele se atem. (LACAN, 1958, p.627-628). Observamos que apesar da bela açougueira ter um marido que a ame e aprecie suas formas corporais, ele sempre elogia a amiga que é magrela. Surge então o medo que ele a substitua, ou seja, como cita Lacan “ser o falo, nem que seja um falo meio magrelo”. (IDEM, IBIDEM, p.633). Então, para que ocorra o desejo há a necessidade que exista um Outro que também deseje, para que o sujeito deseje o seu desejo. Lacan (1958) trás das teses hegelianas a teoria do desejo fazendo uma releitura da teoria psicanalista. Sobre isso Quinet (2008) comenta: O desejo humano, para se constituir enquanto tal, é um desejo que incide sobre um desejo. O desejo animal incide sobre um objeto, sobre a coisa, e o desejo humano incide sobre um outro desejo. É um desejo de desejo. O desejo que incide de forma imediata sobre um objeto natural só se torna humano quando é mediatizado pelo desejo do outro. Tanto o desejo animal 45 quanto o desejo humano tendem a se satisfazer, porém o desejo humano se nutre de desejos e o desejo animal de objetos da realidade. Partindo da tendência à satisfação encontramos também aqui uma dissimetria. Todos os desejos animais se detêm diante de um desejo, que é o desejo de conservação da vida, mas não o desejo humano que só é averiguado enquanto tal quando o sujeito arrisca a sua vida em função de seu desejo. Trata-se de uma luta de prestígio com o outro em vista do reconhecimento de seu desejo, o que leva o humano a arriscar a própria vida. (QUINET, 2008, p.92). Os sujeitos em um momento de escolha, quando em um assalto lhe perguntam o que eles escolhem, a bolsa ou a vida, alguns ficariam com a bolsa. Sendo assim, observamos que o discurso do Outro é o próprio inconsciente, sendo que o sujeito deseja o desejo do Outro e este é inconsistente. Nesse momento vai então surgir o significante da falta que aparece como objeto “a”. Ou seja, como não é reconhecido enquanto simbólico nem imaginário, irá deslizar por vários significantes não conseguindo atender a demanda do sujeito, demanda esta que é o próprio falo. Já que pela operação do Nome-do-Pai o sujeito não pode trocar o falo pelo o filho, o sujeito vai dar o que não tem para também receber que é o amor. Esta posição é encontrada nos neuróticos que possuem uma estreita relação com a falta no outro. (IDEM, IBIDEM, p.98). É neste contexto que vamos encontrar o sujeito tentando mudar a aparência física de seu corpo, porém estará em busca de ser o objeto a para o Outro, desejando o desejo do outro que também tem um desejo no qual não reconhece o que é e vai deslizar por vários significantes. Porém, nenhum significante vai satisfazer seu desejo de ser fálico, brilhante, desejável para o Outro. 2.3 Sexualidade infantil Freud (1905), no texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, nos fala sobre a sexualidade e a pulsão sexual que leva o sujeito a fazer escolhas de objeto. O sujeito desliza na procura deste objeto sexual para atender as exigências 46 pulsionais. A atividade sexual e a pulsão começam a ser observadas na vida do próprio sujeito que desenvolve sua sexualidade a partir do nascimento. Freud (1905), já destacava que o período da infância é primordial para entender o início da vida sexual. Este período será determinado pela construção de barreiras psíquicas, que impedirão o desenrolar da pulsão sexual sem freios, através de sentimentos de vergonha, repugnância e exigência de padrões estéticos e morais. Apesar do desvio da pulsão sexual neste período ela não cessará, pois esta energia sexual será desviada para outro interesse, o que constitui o período de latência, no qual o sujeito só deverá voltar no período da puberdade. Caso continuassem nesse movimento, tornar-se-iam pulsões pervertidas, despertando sentimentos desagradáveis. Assim, a criança vai ter a sua primeira experiência de prazer no momento em que a mãe oferece os primeiros cuidados maternos, erotizando o corpo do bebê. A primeira experiência de satisfação à qual todo bebê foi subordinado, proposta por Freud (1950 [1895]) no “Projeto para uma psicologia científica”, indica uma percepção mítica inicial de completude que é perdida e que nunca será alcançada de novo. Segundo ele, o primeiro objeto erótico de um bebê e externo ao seu próprio corpo, é o seio da mãe. Deste modo, a procedência do amor endereçado à mãe está ligada à primitiva necessidade de nutrição de ser satisfeita. Entretanto, o seio materno é apreendido não somente como aquele que alimenta, mas também aquele que proporciona cuidado, e que desperta no bebê sensações físicas aprazíveis e desprazerosas. O ato de sugar sexualizado desde o início se torna de grande importância erógena. Caso isso persista nas crianças elas poderão desenvolver vícios tais como o de fumar, beber ou comer. Caso esta pulsão de se nutrir seja recalcada, poderão 47 desenvolver distúrbios de alimentação como repugnância pelo alimento, vômitos e etc. O ato da criança de sugar os polegares ou outra parte do corpo mostra que pode existir uma sensação de prazer, ou talvez, parecida com cócegas. Deste modo, estas zonas erógenas que produzem prazer vão sendo identificadas através do toque no próprio corpo e irão produzir sensações de satisfação, que de acordo com esta intensidade serão posteriormente preferidas. No caso das opções escolhidas serem a genitália e os mamilos este movimento vai ser associado no momento de sugar os dedos. Nos casos de histeria estas regiões serão recalcadas e vão transmitir os estímulos prazerosos como os da genitália em outras zonas erógenas esquecidas na fase adulta. Outra manifestação sexual masturbatória nas crianças além da zona labial é a zona anal. Através dos estudos da psicanálise observamos que os distúrbios intestinais na infância são os grandes geradores de excitação sexual. No momento em que a criança se utiliza da região como um meio de estímulo sexual de prazer subsidiário à defecação, ela irá prender esta eliminação a fim de promover a satisfação na hora que desejar, não oferecendo assim o chamado “presente” para sua mãe. Esta posição vai ser vista como uma expressão de concordância ou não com o ambiente ao seu redor. Este comportamento pode, no futuro, ocasionar problemas de hemorróidas, levados por raízes de constipação que é comum nos neuropatas. Quanto à atividade das zonas genitais esta será posteriormente usada para promover grande satisfação sexual na vida adulta. Tanto as meninas como os meninos no processo de higienização da região genital como a lavagem e fricção acidentalmente irá produzir excitação sexual. Este fato promoverá uma grande satisfação de prazer o que leva a despertar a necessidade de repetição na primeira 48 infância. Nas meninas o fato da junção das coxas também fará um movimento de satisfação. Os meninos normalmente usam as mãos em busca deste prazer. Freud (1905) afirma que existem três fases da masturbação infantil: A primeira delas pertence à infância e a segunda à rápida eflorescência da atividade sexual por volta do quarto ano de vida; somente a terceira fase correspondente à masturbação puberal, que é frequentemente a única espécie levada em conta. (FREUD, 1905, p.193). Em observação as colocações de Freud, o retorno à atividade masturbatória na segunda infância poderá até permanecer, porém terá um modo diferente de se apresentar podendo ser detectadas em análise e sofrer influência da amnésia infantil. Mas quando prossegue pode trazer alterações de caráter e desencadear alguma neurose ou dar origem a compulsões. Retornando a primeira infância a criança vai em busca de uma infinidade de sensações prazerosas, pois os cuidados de higiene da criança levarão a estímulos sexuais, que também lhe proporcionará sensações agradáveis. Esta relação com a mãe, em particular, se tornara muito forte, pois a progenitora é aquela que proporciona imensa sensação de conforto, de segurança, de amor, de satisfação e prazer, ao mesmo tempo, “embala-a e muito claramente a trata como um substitutivo de um objeto sexual completo”. (IDEM, IBIDEM, p.230). No entanto, muitas vezes a mãe não tem consciência deste fato. Contudo, todo este cuidado é de extrema importância no processo da sexualidade infantil. Freud (1905) relata: Em primeiro plano encontramos os efeitos da sedução, que trata uma criança como um objeto sexual prematuramente lhe ensina, em circunstâncias altamente emocionais, como obter satisfação de suas zonas genitais, uma satisfação que ela então, via de regra, é obrigada a repetir volta e meia através da masturbação. Uma influência desta espécie pode originar-se quer de adultos ou de outras crianças. (IDEM, IBIDEM, p.195). As crianças, por influência da sedução, mostram-se com características de perversas polimorfas e não possuem nenhum tipo de barreira contra aos excessos 49 perversos deste período. Podem desenvolver irregularidades sexuais, pois estão desprovidas de vergonha, moralidade, repugnâncias porque ainda não possuem recursos suficientes para isso. Além desta característica perversa polimorfa, as crianças, nos seus primeiros anos, podem ser imunes a vergonha, ter comportamentos de crueldade e de exibicionismo. Estas posturas muitas vezes são normais nesta época, mas características de inclinação para a crueldade e a grande curiosidade de ver os órgãos genitais de outras pessoas só deverão aparecer mais tarde, sendo até então um processo espontâneo. Deste modo, quando a criança é despertada pela masturbação ficará curiosa para olhar a genitália de outras pessoas. Caso esta pulsão seja recalcada, poderá dar origem a alguns sintomas neuróticos. Quanto a crueldade, é normal nas crianças nesta fase, pois ainda não desenvolveram a capacidade para piedade. Quando esta crueldade se dirige para colegas e animais suspeita-se de precocidade de atividade sexual, vinda das zonas erógena, o que demonstra pulsão sexual primária, podendo às vezes ocorrer a permanência de instintos cruéis e indestrutíveis na vida ulterior. Em torno de três a cinco anos de idade, a criança desperta sua pulsão de saber e começa a fase dos questionamentos principalmente em relação à sexualidade e à sua origem. Muitas vezes a criança percebe as alterações no corpo da mãe na época da gravidez e com a chegada de um bebê na família a criança irá perguntar como este bebê chegou e de onde veio, antes mesmo de se sentir ameaçada de perder seu lugar. No caso dos meninos, estes acham que o seu órgão genital é comum a todos (até darem-se conta do processo de castração). No caso das meninas ao se deparar com a ausência do pênis, elas são tomadas pela inveja e, como consequência, passam a acreditar que seu clitóris é um pênis e que se desenvolverá como o do menino. 50 Outro fator que poderá marcar a vida da criança em período ulterior é quando ela se depara com a visualização da relação sexual. Para ela o ato demonstra um sentido sádico, que futuramente poderá influenciar um deslocamento sádico de objeto sexual. Na relação afetiva com sua mãe a criança, durante a primeira infância, permaneceu ligada como forma de receber não apenas o alimento como necessidade fisiológica, mas também para atender sua pulsão sexual. Deste modo, com o passar dos anos, esta relação de troca vai marcar a vida da criança que tentará restaurar esta relação sexual que foi perdida, geralmente com aqueles a quem lhe dedicam cuidados e que proporcionam excitação sexual. Esta pessoa geralmente é a mãe que lhe cuida lhe oferecendo sentimentos vindos de sua pulsão sexual, que proporciona esta satisfação em substitutivos de um objeto sexual completo. Freud (1905) comenta: Além disto, se a mãe entendesse mais da alta importância do papel desempenhado pelas pulsões da vida mental como um todo – em todas as suas realizações éticas e psíquicas – ela se pouparia quaisquer autocensuras mesmo após ser esclarecida. Ela está apenas cumprindo seu dever de ensinar seu filho a amar. Afinal de contas, a criança deve cresce e se transformar-se numa pessoa forte e capaz, com vigorosas necessidades sexuais, e realizar durante sua vida todas as coisas que os seres humanos são impelidos a fazer por suas pulsões. É verdade que um excesso de afeição dos pais é nocivo por causar maturidade sexual precoce e também porque, mimando a criança, torna-a incapaz, na vida ulterior, de passar temporariamente sem amor ou contenta-se com uma pequena quantidade dele. Uma das mais claras indicações de que uma criança se tornará neurótica pode ser vista na exigência insaciável de afeição dos pais. (FREUD, 1905, p.230). Observamos então que os pais podem estimular as primeiras pulsões sexuais em seus filhos, incentivando-os a desejarem eles próprios como seus primeiros objetos sexuais mesmo que seja no campo da fantasia, onde irão ser atraídos a princípio pelo sexo oposto, pois o filho irá sentir-se atraído pela a mãe e a filha pelo pai. Deste modo, vamos encontrar a cada etapa de desenvolvimento algumas filhas que vão reter seu amor por seus pais, permanecendo assim seu amor infantil, não 51 superando a barreira de sua autoridade paterna. Quando se casam se tornam frias sexualmente com seus maridos, pois a sua libido é remota ao período infantil. Assim, encontramos algumas mulheres que tem horror ao sexo e desenvolvem um tipo de amor assexual ou destinam sua libido sem autocensurar seua pais, irmãos e irmãs. É muito comum o homem e a mulher se apaixonarem prematuramente por alguém mais velho, que ocupe um posto de autoridade, pois estas pessoas irão representar os seus protótipos de objetos sexuais paternos e maternos. No caso do homem ao encontrar uma mulher mais velha, irá reviver o seu primeiro objeto sexual, porém se sua mãe for viva, não gostará de sua parceira e sentirá ciúmes, pois irá sentir-se trocada por uma nova versão. 2.4 Complexo de castração e complexo de Édipo A vida sexual das crianças é marcada por vários acontecimentos que vão dar origem a forma definitiva da vida sexual no adulto. Freud (1923), em “A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade”, observa a existência de apenas um sexo, o masculino, ou seja, a primazia do falo. Assim, o menino acredita que todos tenham o mesmo sexo e que as meninas também tenham um pênis. Como nesta época a criança está atenta a todos os movimentos, o menino observa as meninas urinando, por exemplo, e se depara com a ausência do pênis. Porém, ele ignora inicialmente esta ausência e acredita que no momento o pênis não aparece devido ao seu pequeno tamanho. Aos poucos o menino passa a imaginar que o pênis já ocupara este lugar e que por algum motivo lhe foi retirado. Neste momento o menino se depara com uma possível castração o que o faz pensar nos motivos pelos quais a menina perdeu o pênis. 52 Na mesma época, ao se deparar com a castração a menina se revolta contra a mãe, pois não compreende porque a mãe não lhe deu um pênis e entende este fato como sendo uma punição. Para a menina ainda é difícil de acreditar que sua mãe não tenha pênis. Em a “Dissolução do complexo de Édipo”, Freud (1924) discorre sobre o complexo de castração e o complexo de Édipo e relata que em determinado momento que a menina observa que seu pai, a quem ama, lhe pune ocasionando o seu afastamento e o menino achando que sua mãe lhe pertence, se vê obrigado a dividi-la com um bebê ou com o próprio pai. Deste modo, o complexo de Édipo se encaminha para a dissolução. Nesta época, o desenvolvimento sexual da criança avança e seu órgão genital passa a ser o centro de sua atenção. O órgão genital existente no momento é apenas o masculino, pois o feminino ainda é inexpressivo. No caso dos meninos, este descobre que ao manipular seu pênis proporciona prazer, porém ao ser visto sofre uma ameaça por parte das mulheres de que esta parte pode lhe ser tirada. Aparece também a figura do pai ou do médico que irão intervir neste momento trazendo a punição. Esta ameaça de castração ocorre também quando a criança é acometida de incontinência noturna, este momento pode ser comparado com a polução noturna, pois irá provocar a princípio o mesmo nível de prazer. Observamos que a castração não é uma experiência nova, lembrando que a criança já viveu este momento quando foi retirado o seio e quando lhe foi exigido a liberação de seu intestino. Dessa maneira, observamos que a ameaça da castração não vai ser um empecilho para que o menino dê continuidade em sua vida sexual, pois esta não se baseia apenas neste fato. Freud (1924) faz o seguinte comentário no caso dos meninos e depois no caso das meninas: 53 O complexo de Édipo ofereceu à criança duas possibilidades de satisfação, uma ativa e outra passiva. Ela poderia colocar-se no lugar de seu pai, à maneira masculina, e ter relações com a mãe, como tinha o pai, caso em que cedo teria sentido o último como um estorvo, ou poderia querer assumir o lugar da mãe e ser amado pelo pai, caso em que a mãe se tornaria supérflua. O complexo de Édipo da menina é muito mais simples que o do pequeno portador de pênis; em minha experiência, raramente ele vai assumir o lugar da mãe e adotar uma atitude feminina para com o pai. A renuncia ao pênis não é tolerada pela menina sem alguma tentativa de compensação. Ela desliza – ao longo da linha da equação simbólica, poder-se-ia dizer – do pênis para um bebe. Seu complexo de Édipo culmina em um desejo, mantido por muito tempo, de receber do pai um bebe como presente – dar-lhe um filho. Tem-se a impressão de que o complexo de Édipo é então gradativamente abandonado de vez que esse desejo jamais se realiza. Os dois desejos – possuir um pênis e um filho – permanecem fortemente no catexizados no inconsciente e ajudam a preparar a criatura do sexo feminino para seu papel posterior. (FREUD, 1924, p.220-224). Observamos que no momento em que o menino no complexo de Édipo, assume atitudes ativas e passivas, esta orientação dupla vai ocasionar em uma identificação afetuosa para com o pai, sendo visto como atitude feminina. Entretanto, não podemos afirmar que esta atitude demonstre qualquer relação de rivalidade para com a mãe, pois ela é o objeto de amor de seu pai. Na menina o complexo de Édipo se volta para o pai e não para a mãe, visto que esta não lhe deu o pênis. Deste modo, a menina vai despertar para a fantasia e começa a desejar um filho do pai. Freud coloca que a partir deste desejo se inicia a motivação para a masturbação. Período antes, ela que estava na fase fálica, troca o seio pelo sugar do dedo e posteriormente despertará para a zona genital, pois esta lhe proporcionará um prazer. Portanto, ao observar o órgão genital masculino, notará que é mais desenvolvido que o seu e nesse momento desperta a inveja. Nessas circunstâncias teremos alguns rumos na sexualidade feminina e na masculina. Na masculina, o menino pode primeiramente ignorar a ausência do pênis na menina e só dar conta da castração mais tarde quando for ameaçado ou então ao observar que a menina não é possuidora do pênis pode desprezá-la por ter sido mutilada. 54 No caso da menina ocorre de outra forma. No momento em que se deu conta que não é possuidora de pênis poderá tomar algumas decisões. Ao saber que não o tem, vai querer ter e poderá desenvolver um complexo de masculinidade que perdurará por muitos anos, levará a desenvolver ações estranhas, desenvolverá atitudes masculinas e se convencerá de que realmente é possuidora de um pênis. Outra situação acontece no momento em que é desprezada por não possuir pênis. Ela se sente em posição inferior ao menino, o que abala sua estrutura psíquica, proporcionando sensação de desprezo pelos homens e mais tarde vai assumir uma posição de homem. Outro fato que pode ocorrer é o despertar do ciúme da menina pela mãe. Já que não tem o pênis sente-se em uma posição de inferioridade e qualquer criança que se aproximar da mãe vai ser mais preferida que ela. Este é um dos motivos que levam com que a relação com a mãe crie um pequeno afastamento. Sendo assim, parece que a masturbação nas meninas está fadada a ser diferente dos meninos, pois esta descoberta da ausência do pênis faz com que ela não se lance mais na atividade autoerótica, o que vai dar origem a uma onda de recalques que irá eclodir na puberdade onde a menina dará lugar ao desenvolvimento de sua feminilidade. Porém, algumas vezes a menina não consegue superar este recalque e poderá ter consequências na sua vida sexual na fase adulta. Freud (1925) em “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos”, comenta: Alcançamos determinada compreensão interna (insight) da pré-história do complexo de Édipo nas meninas. Nas meninas, o complexo de Édipo é uma formação secundária. As operações do complexo de Édipo o precedem e o preparam. A respeito da relação existente entre os complexos de Édipo e de castração, existe um contraste fundamental entre os dois sexos. Enquanto, nos meninos, o complexo de Édipo é destruído pelo o complexo de castração, nas meninas ele se faz possível e é introduzido através do complexo de castração. Essa contradição se esclarece se refletirmos que o complexo dede castração sempre opera no sentido implícito em seu conteúdo: ele inibe e limita a masculinidade e incentiva a feminilidade. A 55 diferença entre o desenvolvimento sexual dos indivíduos dos sexos masculino e feminino no estádio que estivemos considerando, é uma conseqüência inteligível da distinção anatômica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica ai desenvilvida; corresponde à diferença entre uma castração que foi executada e outra que simplesmente foi ameaçada. Em sua essência, portanto, nossos achados são evidentes em si mesmos e teria sido possível prevê-los. (FREUD, 1925, p. 318-319). 2.5 A sexualidade feminina Baseado nos textos de Freud (1931), Lacan já observava que o complexo de castração era resultado da falta do pênis, onde para superar esta perda, a mulher inconscientemente entra no campo do imaginário. Sendo o corpo materno do âmbito do registro imaginário, Lacan divide as vias da libido em lugares anatômicos como seu clitóris e sua vagina. Porém, se para que a mulher exista é necessário que ela tenha o pênis e ela não possui esse suporte imaginário do falo, este significante orientador, então ela não existe realmente. Mas na realidade, o que favorece a materialidade do corpo da mulher é a presença das fantasias edipianas que se originam neste corpo. Assim, ao analisar a sexualidade feminina, Lacan (1953) observa que não é que a mulher não conheça seu corpo, é que o gozo feminino não pode ser dito, permitindo que a mulher venha também usufruir do gozo vaginal que fica encoberto. Lacan cita a história de Tirésias, “o profeta”, morador de Tebas, que ao atrapalhar um ato sexual entre cobras místicas mata a cobra fêmea. Assim é transformado em mulher e vive assim por sete anos. Mais tarde, outro incidente acontece. Tirésias mata uma cobra macho e volta a ser homem. Ao perguntarem a ele que havia passado pela experiência de corpos em ambos os sexos qual deles lhe deu mais prazer, ele responde: “se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma”. Freud afirma que a mulher possui um posicionamento passivo e o homem ativo. Porém, apesar das diferenças físicas entre os dois, há um modo de se 56 comportar que permite que ambos possam ocupar a posição passiva ou ativa, dependendo da situação em que se encontrem. Portanto, na diferenciação entre os sexos, Freud (1933 [1932]), na “Conferência XXXIII – Feminilidade”, aponta o complexo de Édipo e o de castração e faz a seguinte afirmação: Para um menino, sua mãe é o primeiro objeto de amor e ela assim permanece também durante o complexo de Édipo e, em essência, por toda a vida dele. Para a menina, também, o seu primeiro objeto deve ser sua mãe (e as figuras da babá e da nutriz, que nela se fundem). Na situação edipiana, porém, a menina tem seu pai como objeto amoroso e espera-se que no curso normal do desenvolvimento ela deverá passar desse objeto paterno para sua escolha objetal definitiva. Com o passar do tempo, portanto, uma menina tem de mudar de zona erógena e de objeto – e um menino mantém ambos. (FREUD, 1933 [1932], p.58). Seria desta forma que a sexualidade feminina se desenvolveria, porém muitas vezes a menina fica presa na fase fálica ligada a esse objeto de desejo, pois a menina deseja que a mãe lhe conceda um pênis. A menina voltar-se-á para o pai, aquele que ela deseja por ter um pênis. Ela pensa que como ele tem um pênis poderá lhe dar um filho. Neste momento, se instala o recalque, onde a menina por não possuir o pênis irá se colocar no lugar de objeto fálico, sendo este objeto de desejo. Logo, o complexo de castração faz com que a mulher se torne objeto de desejo. No texto “As formas de amor na partilha dos sexos”, Antônio Quinet (1995) afirma: Ela só é objeto de desejo, na condição de encarar para o parceiro a significação da castração. Para se tornar objeto causa de desejo para o parceiro, tem de ocupar este lugar de ser o falo. Para tal, ela tem de se apresentar sempre com o sinal de menos valia qualquer, enfim, tem de estar marcada pela castração de alguma forma. É a falta que torna alguém objeto de desejo para o outro. Como também ocorre no caso do homem em relação à mulher. Para ele ocupar este lugar de objeto de desejo para uma mulher, ele tem de estar marcado por um menos qualquer. Eis a estrutura depreendida por Lacan a partir da posição feminina. (QUINET, 1995, p.13-14). 57 3 A PSICOLOGIA DO AMOR O que falar sobre o amor? Vinícius de Morais, grande poeta brasileiro e autor de várias letras de músicas, falava de amor em suas canções. O que nos atrai no outro para que eu o escolha como parceiro? Em uma de suas poesias referindo-se a mulher amada ele escreveu: Eu sem você não tenho porquê / Porque sem você não sei nem chorar / Sou chama sem luz, jardim sem luar / Luar sem amor, amor sem se dar / E eu sem você sou só desamor / Um barco sem mar, um campo sem flor / Tristeza que vai, tristeza que vem / Sem você, meu amor, eu não sou ninguém (Baden Powell e Vinícius de Moraes). 3.1 Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens Neste contexto, Freud (1910), em “Contribuições à psicologia do amor I”, descreve que o que move um homem a ser atraído por certo tipo de mulher são as condições de objeto onde a mesma se encontra, dentro de uma explicação no campo psicanalítico. A primeira precondição é que esta mulher já possua um pretendente, com o qual vai brigar por ela. Assim, é necessário que exista uma terceira pessoa que será 58 prejudicada. Não basta que esta mulher seja livre e esteja apaixonada, ela só se tornara objeto amoroso no momento que pertença a outro homem. A segunda precondição é que a mulher seja casta e pura, pois não exercerá atração de objeto amoroso, mas será necessário que exista alguma dúvida no que tange sua reputação moral. Esta pode ser casada ou não, mas deverá apresentar indícios de seu comportamento leviano e estar sujeita a intrigas. Muitas vezes a presença de insegurança e ciúmes proporciona a esta mulher ser objeto amoroso, mesmo se possui comportamento promíscuo e às vezes sendo até profissional do sexo. No artigo acima referido, Freud (1910) afirma que: Em casos evidentes o amante não demonstra qualquer desejo de posse exclusiva da mulher e parece sentir-se perfeitamente à vontade na situação triangular. (...) Outro paciente típico havia tido, é verdade, muito ciúme do marido no seu primeiro caso amoroso e proibira a mulher de ter relações maritais. (FREUD, 1910, p.151). Já no amor normal, o homem procura uma mulher que possua integridade sexual e que tenha características semelhantes às prostitutas, ou seja, uma dama na sociedade e prostituta no amor. Este tipo de objeto amoroso vai exigir muito de um homem, pois esta mulher ideal exigirá do amante grande dispêndio de energia mental e este cobrará de si próprio a fidelidade e dedicação absoluta. Ele não medirá esforços para atender os desejos de sua amada. Este comportamento amoroso surge comumente naqueles que se apaixonam e poderá se repetir ao longo da vida, como uma réplica deste. Neste caso do amor normal, o homem terá a necessidade de tentar manter salvaguardada a mulher amada, pois acredita que sem a sua presença ela poderá perder seu controle moral, afetando sua reputação na sociedade. Assim, observa-se que esta terceira precondição é muito parecida com o relacionamento comum. A escolha de objeto no amor normal vai sempre passar pela busca das características da mulher que tragam um traço da mãe. 59 A busca de objeto onde existe a necessidade de um triângulo amoroso vem representar a busca pela mãe, onde o sujeito vai disputar a atenção materna com o pai, sendo necessário que exista uma pessoa prejudicada, pois este já está acostumado a dividir a atenção sempre com o outro. A pessoa permanecerá nesta mesma posição e ao atingir a puberdade irá buscar substitutos que o remetam a mesma situação. O único problema é que como a busca é pela mãe, será difícil conseguir preencher este lugar. Uma segunda precondição de objeto escolhido assemelha-se a prostituta. Na medida em que o sujeito vai crescendo e chegando a puberdade, observa que o ato sexual para acontecer deve haver uma libido mais forte e presente. Assim, esta descoberta denuncia que seus pais fazem sexo. Segundo Freud (1910): O aspecto dessas descobertas, afetam mais profundamente a criança recém-instruída, é a maneira em que são aplicadas a seus próprios pais. Essa aplicação é, muitas vezes, francamente rejeitada por ela, mais ou menos nestas palavras: “Seus pais e outras pessoas podem fazer coisas como esta entre si, mas meus pais, possivelmente, não podem fazê-las”. (IDEM, IBIDEM, p.154). Porém, à medida que o menino vai interagindo com a sua descoberta, passa a ter sentimentos confusos entre horror e desejo e por algum tempo sente desprezo pela mãe, pois começa a lhe ver como uma prostituta, mas logo depois, surge um sentimento de desejo pela mãe e a disputa com o pai pela atenção da mãe, sendo que este faz o corte, onde se demonstra o complexo de Édipo. Este pai vira rival e a mãe infiel por permitir ao pai ter-lhe como objeto sexual. Como não consegue ter sexo com a mãe, surgem várias fantasias que vão levá-lo a masturbar-se. Estas fantasias anos mais tarde darão vazão na vida real. Há também a necessidade de salvar a pessoa amada que se coloca em situação possível de cometer um ato infiel e não ser vista como leviana. Muitas vezes a criança ouve de seus pais que esta lhes deve a vida. Posteriormente, estas 60 palavras vão gerar no sujeito um desejo de lhes retribuir tudo o quanto foi dado em igual valor, se fosse possível tê-los como filho, pois só assim o sentimento seria parecido. Porém, os pais se tornam os grandes mentores, os grandes Outros, aos quais a criança deve respeito. 3.2 A tendência universal à depreciação na esfera do amor Freud (1912), no texto sobre “A tendência universal à depreciação na esfera do amor”, observa que a busca dos homens para auxílio psíquico se deve muitas vezes por perturbações na esfera da impotência sexual. Esta geralmente decorre de processos psíquicos, onde uma fixação incestuosa com a mãe ou irmã nunca é superada, além de processos relacionados à atividade sexual na infância que reduziam a libido, que deveria ser dirigida ao objeto sexual feminino. Deste modo, Freud (1912), em “Contribuições à psicologia do amor II” afirma: Aqui de novo – como muito provavelmente em todas as perturbações neuróticas – a origem da perturbação é determinada por uma inibição na história do desenvolvimento da libido antes que essa assuma a forma que tomamos como sua determinação normal. Nos casos que estamos considerando, duas correntes cuja união é necessária para assegurar um comportamento amoroso completamente normal podem-se distinguir as duas como a corrente afetiva e a corrente sensual. (FREUD, 1912, p.164). Segundo Freud (1912), a corrente afetiva se constitui no início da infância, onde a pulsão de autopreservação é endereçada à mãe e a todos que da criança cuidam. Assim, desde cedo, esta começa a mostrar contribuições de suas pulsões sexuais, seus interesses eróticos, passando, então a fazer as escolhas de objetos primários para satisfazer suas primeiras pulsões sexuais, que neste momento serão necessárias à preservação de sua vida. Entrando, na puberdade, a corrente afetiva se une à corrente sensual e vai depender da cota de libido que se permitiu consolidar aos objetos primários. A escolha de objeto deverá superar a barreira do 61 incesto para encontrar outro objeto que o levará a realizar a verdadeira vida sexual. Deste modo, o homem irá encontrar a sua parceira e terá por ela uma intensa paixão, demonstrando a mais alta valorização psíquica do objeto sexual. Porém, apesar da escolha do objeto sexual ter sido efetuada, não significa que será definitiva. Em primeiro lugar, poderá acontecer primeiramente a frustração da realidade que esta nova escolha proporcionou e em segundo lugar a quantidade de atração que os objetos infantis, ligados a investimentos eróticos, ainda serão capazes de exercer. Mas, se não houver superação destes fatores o mecanismo geral das neuroses entra em funcionamento. Neste processo, a libido se distancia da realidade e dá lugar à atividade imaginativa, esta sendo um processo de introversão, que proporcionará ao sujeito uma fixação das imagens dos primeiros objetos sexuais no inconsciente. Deste modo, a atividade masturbatória em consequência da corrente sensual, ficará no inconsciente e contribuirá para corroborar esta amarração. Portanto, haverá a substituição dos objetos sexuais primários em diferentes fantasias conscientes com outros objetos levando à satisfação masturbatória. Mas, se este objeto da fantasia se ligar a objetos incestuosos no inconsciente dará início a uma impotência total, que mais tarde poderá comprometer o órgão que realiza o ato sexual. Para que haja o ato sexual, a corrente sensual deve estar plenamente presente, bem forte e desinibida para dar lugar parcialmente à realidade. Caso contrário, dará vazão a corrente afetiva que remeterá o sujeito à procura de imagens incestuosas proibidas. A restrição, assim, se colocou na escolha do objeto. A corrente sensual, que permaneceu ativa, procura apenas objetos que não rememorem as imagens incestuosas que lhe são proibidas; se alguém causa uma impressão que pode levar à sua alta estima psíquica, essa impressão não encontra escoamento em nenhuma excitação sensual, exceto na afeição que não 62 possui efeito erótico. Toda a esfera do amor, nessa pessoa, permanece dividida em duas direções personificadas na arte do amar tanto sagrada como profana (ou animal). Quando amam, não desejam, e quando desejam, não podem amar. (FREUD, 1912, p.166). Os homens que possuem a dificuldade de promover a confluência entre as duas correntes, terão como medida protetora a depreciação do objeto sexual ou não terão muito refinamento nas suas formas de comportamento amoroso, mas sim na finalidade sexual perversa e poderão desenvolver importantes capacidades sexuais com alto grau de prazer. Devemos ressaltar que a impotência psíquica não se restringe apenas a falha de se combinar as correntes afetiva e sensual, nem também apenas ao homem, pois as mulheres também podem desenvolver. Esta impotência psíquica não se aplica somente à frustração de realizar o ato do coito, mas também ao fato de não se obter prazer genital durante o sexo. Estando o órgão genital intacto, estes homens são descritos como psicanestésicos. Ocorrendo os mesmos sintomas nas mulheres, elas são caracterizadas como frígidas. Um homem que tem muito respeito por sua mulher não irá se entregar plenamente ao ato sexual e só desenvolverá potência completa quando mantém relacionamento sexual com mulheres de classe mais baixa, pois a estas não precisa atribuir-lhes escrúpulos estéticos, já que não fazem parte de seu círculo social e por isso não o julgarão. Deste modo, a traição o remete ao ato do incesto, sendo também proibido, o que produz grande satisfação e prazer. No caso das mulheres o que ocorre é que as mesmas estão sobre influência residual de sua educação. Uma mulher que ao se enamorar, estiver com um homem que não esteja em sua plena potência e que deseja possuí-la após o ato, dará lugar a uma subvalorização. No caso das mulheres, elas não depreciam seu objeto sexual. 63 Porém, sua longa contenção de sexualidade e seu anseio de sensualidade em fantasia têm para elas outra consequência importante. São muitas vezes, subsequentemente, incapazes de desfazer a conexão entre a atividade sensual e a proibição, tornando-se psiquicamente impotentes, isto é, frígidas, quando tal atividade, finalmente lhes é permitida. (FREUD, 1912, p.169). Algumas mulheres preferem muitas vezes deixar encoberto o seu desempenho de satisfação sexual, enquanto outras possuem a capacidade de sensação normal e partem para criar uma situação de proibição sendo infiéis aos seus maridos, sendo capazes de manter uma segunda fidelidade ao amante. A diferença entre as mulheres e os homens é que as primeiras não transgridem a proibição de atividade sexual e estabelecem a relação entre proibição e sexualidade, já os segundos podem satisfazer a condição de depreciar o objeto e em consequência manter mais tarde essa condição em seu amor. Portanto, as barreiras existentes para a realização deste prazer proporcionam mais tarde a satisfação incompleta no casamento. Ao mesmo tempo a impossibilidade de realizar suas pulsões sexuais levam ao aumento da libido, no entanto, tão logo realize a atividade erótica esta se reduzirá. Nas civilizações antigas em declínio, onde não se tinham restrições à satisfação sexual, o amor se tornava sem valor e a vida vazia. Foi necessário um grande movimento reativo para restaurar os valores afetivos, onde a corrente ascética da Cristandade estimulou as mudanças de valores psíquicos para o amor que não existia na antiguidade pagã. Freud (1912) assevera: A psicanálise revelou-nos que quando o objeto original de um impulso desejoso se perde em consequência do recalque, ele se representa, frequentemente, por uma sucessão infindável de objetos substitutos, nenhum dos quais, no entanto proporciona satisfação completa. Isto onde explicar a inconstância na escolha de objeto, o “anseio pela estimulação” que tão amiúde caracterizam o amor dos adultos. (FREUD, 1912, p.171). Sabe-se que a pulsão sexual original se divide em um grande número de componentes entre os quais incluem a pulsão coprófila, incompatível com os padrões estéticos. Há também as pulsões sádicas que fazem parte da vida erótica e 64 as pulsões do amor que são difíceis de educar. Estas pulsões que não são utilizadas serão percebidas em atividades sexuais sem satisfação. Deste modo, a incapacidade da pulsão sexual de produzir satisfação completa que atenda às exigências da civilização será sublimada ao componente pulsional. 3.3 As mulheres, o amor e o desejo Analisando o modo de amar de homens e mulheres, Freud (1914) em “Introdução ao narcisismo” afirma: Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais - ele próprio e a mulher que cuida dele – ao fazê-lo estamos postulando a existência de um narcisismo primário, o qual, em alguns casos pode manifestar-se de forma dominante em sua escolha objetal. (FREUD, 1914, p.104-105). A escolha pelo amor objetal é característico no homem, pois este à medida que se afasta do narcisismo primário próprio da infância, o transfere para o objeto sexual. Esta supervalorização sexual é comum das pessoas apaixonadas e por esse motivo acabam desenvolvendo uma compulsão neurótica, onde com a anulação do eu em detrimento da libido, esta se volta a favor do objeto amoroso. Já no caso da mulher, logo no início da puberdade e com o amadurecimento dos órgãos sexuais, parece que se consolida o narcisismo original, porém este não será favorável, pois a escolha objetal não será concomitante a supervalorização sexual. Assim, caso esta mulher seja bela nesta fase aceitará quaisquer restrições sociais. Ela ama a si mesma em um narcisismo original e este amor a sustenta em sua escolha objetal. Se um homem a amar, terá que atender a todos os seus caprichos e assim cair nas graças desta mulher. Esta mulher exerce grande atração não apenas por sua beleza, mas devido ao seu narcisismo. Em geral, exerce um forte fascínio para aqueles que renunciaram ao seu próprio narcisismo e que estão à procura do amor 65 objetal. Este encanto, com o passar do tempo, gera uma grande dúvida quanto ao verdadeiro amor desta mulher, pois a sua natureza enigmática tem raízes incongruentes nas várias escolhas de objeto. Nesta mulher, o que faz com que este amor objetal seja transformado em completo é quando a mesma engravida, pois poderá repassar parte de seu amor narcísico para esta criança. Há mulheres também que não precisam engravidar para desenvolver o narcisismo (secundário), para alcançar o amor objetal. No mesmo artigo, Freud (1914) continua: (...) Além disso, estou pronto a admitir que existe um número bem grande de mulheres que amam de acordo com os moldes do tipo masculino e que também desenvolvem a supervalorização sexual própria aquele tipo. (FREUD, 1914, p.106). 66 CONCLUSÃO Através da busca da transformação de seu corpo físico, o sujeito se submete aos tratamentos nutricionais e estéticos, porém nem sempre esta mudança será suficiente para atender esta demanda. Cada paciente que procura tratamento na clínica em busca de melhora da forma física e nutricional, traz uma história diferente e uma razão que justifica o desejo do tratamento. Mas com o decorrer do tratamento a maca utilizada nos procedimentos estéticos vira um divã do analista. Aos poucos, os pacientes vão relatando os verdadeiros motivos que os levaram. Ouvimos durante a execução dos tratamentos nutricionais e estéticos os seguintes relatos: “Pensei que ao emagrecer com a cirurgia resolveria meu problema de arrumar um amor, porém já fiz a cirurgia há dez anos, perdi setenta quilos e estou sem ninguém”. “Estou gostosa agora e ele desfila no calçadão com uma mulher que tem idade para ser mãe dele. E como eu fico? Fui trocada por essa aí?” “Vou engordar primeiro, pois ainda não tenho peso suficiente para fazer a cirurgia bariátrica, depois faço dieta. Preciso de seu parecer de nutricionista para entregar ao cirurgião. Não aguento continuar gorda, pois estou com dezenove anos e ainda não tive namorado”. “Não dou sorte com os homens. São todos uns canalhas, pois só 67 olham para as saradas. Feliz foi minha mãe, que apesar de sempre ser gordinha encontrou meu pai. Homens como ele não existem”. A partir destes e de outros relatos, os quais apresentaram uma riqueza de significantes relacionados com questões inconscientes e que influenciavam os casos de insucesso de dietas e nas respostas dos tratamentos estéticos, é que tivemos o interesse de estudar sobre conceitos básicos de Freud e Lacan em relação a beleza e o amor. Durante o transcorrer do nosso trabalho buscamos a trajetória dos padrões de beleza que atravessaram os séculos até os dias de hoje e como eles influenciam o sujeito que tenta de várias maneiras mudar sua imagem física na busca do amor. Assim, deslizamos sobre a beleza vista na Grécia Antiga onde para ser belo deveria existir uma proporção de medidas e conveniência. Essa beleza deveria conter qualidades como a bondade e a justiça, além das proporções matemáticas do corpo baseados nas teorias do quadrado do tetrágono. A partir do século XV a beleza da mulher é retratada nas pinturas onde o colo, a face e as mãos são evidenciados pelos artistas que destacam a pele branca como sinal de esplendor, os olhos são realçados nas pinturas com ar angelical. A maquiagem que a princípio era vista pela realeza como mundana, mais tarde é aceita e transformam os rostos das mulheres em verdadeiras pérolas. Entretanto as substâncias utilizadas são muito tóxicas lesando as faces. Quanto ao corpo, este deveria estar com espartilhos realçando o alto, pois a magreza era sinal de beleza. Já no século XVII, os quadris ganham atenção com armaduras laterais e a maquiagem ganha cor. No século XVIII os espartilhos de ferro são substituídos por feltro e panos que marcam a cintura e as armaduras das ancas são substituídos por arcos que posteriormente dão lugar a enchimento na traseira dos vestidos. Quanto 68 aos homens sua aparência desliza do abdômen largado para a roupa justa e a cintura marcada. A partir do século XIX os vestidos ficam mais justos e os enchimentos somem. Desse modo, as mulheres vão agora em busca de corpetes mais justos para melhor definir seu corpo, lembrando que são magras e não anoréxicas como nos dias de hoje. Com a chegada do século XX cai a moda das roupas ocultantes e a mulher revela um corpo mais frouxo, o que as levam para as academias em busca de definições de músculos. Desde o século XIX, a mulher já havia ingressado no trabalho externo e se intensifica neste momento. Ela cuida do corpo, valoriza a aparência estética e acompanha a moda das atrizes de cinema. Já nos dias de hoje, a modernidade e a tecnologia colaboram para desenhar mais o corpo da mulher através de cirurgias plásticas, porém esta tentativa de melhorar o corpo com o objetivo de encontra um amor às vezes não resulta em conquistas. Mas a beleza está destinada ao olhar do outro, que nem sempre a vê. Em seu livro “Um olhar a mais”, Antônio Quinet (2002) argumenta: Quando a visão da beleza terrestre desperta a lembrança da beleza verdadeira com a qual a alma reveste suas asas... alçando, como os pássaros, seus olhares ao céu e, quando ao negligenciar as coisas aqui de baixo, ela é acusada de loucura. O entusiasmo assim provocado é o mais desejável, em si mesmo e em suas causas, para aquele que o experimenta e para aquele ao qual é comunicado. E aquele que, possuído por esse delírio, é tomado de amor pelas belas jovens pessoas recebe o nome de amante. (QUINET, 2002, p.73). A beleza é invisível para o amor, porém como vimos em nossos estudos ela é mutável, pois a cada século, desde o mito de Afrodite ela vai estar nos olhos de quem a vê. Platão vislumbra que a beleza necessita de um sentimento maior, ou seja, o desejo. Esta desperta atenção do sujeito de ter o que não se tem e nessa busca vai ao encontro de retalhar o próprio corpo com o objetivo de ser desejado e 69 quando não consegue recalca, pois para encontrar o amor, a beleza física nem sempre conta. Elizabete da Rocha Miranda (2004) faz o seguinte comentário: O primeiro corpo, o verdadeiro corpo, é a linguagem, isso que se chamara mais tarde de corpo simbólico. Logo, se podemos dizer “esse corpo é meu”, é porque foi a linguagem quem o deu a mim, ou ainda que é desse dito que o corpo se constitui como fato. Ele é um, o meu, porque eu o digo. (ROCHA MIRANDA, 2004, p.97). Deste modo, como o inconsciente é estruturado como uma linguagem e a linguagem constitui o sujeito e este é estruturado por significantes, constatamos que quando o sujeito ouve do Outro (refiro-me ao caso clínico) que sua aparência não está agradável com os seguintes significantes “gorda e feia”, este sujeito dependendo do seu recalque, tentará modificar seu corpo físico com o objetivo de atender a expectativa do Outro. No entanto, a expectativa do sujeito que investe na mudança do corpo físico falha, pois o Outro à medida que se depara com a modificação corporal do sujeito, não se identifica com a mudança, e este também recalca, pois a mudança não atende a sua demanda. Lacan (1956-1957), em O Seminário, livro 4: A relação de objeto, comenta: Reportando-nos, todavia, a este primeiro esboço de sua psicologia, encontramos ali a mesma fórmula a propósito do objeto. Freud insiste no seguinte: que toda maneira, para o homem, de encontrar o objeto é, e não passa disso, a continuação de uma tendência onde se trata de um objeto perdido, de um objeto a se reencontrar. Não se trata, em absoluto, do objeto considerado na teoria moderna como o objeto plenamente satisfatório, o objeto típico, o objeto por excelência, o objeto harmonioso, o objeto que funda o homem numa realidade adequada, na realidade que prova a maturidade – o famoso objeto genital. É surpreendente ver que, no momento em que faz a teoria da evolução instintual tal como esta se origina das primeiras experiências analíticas, Freud nos indica que o objeto é apreendido pela via de uma busca do objeto perdido. Este objeto, que corresponde a um estágio avançado da maturação dos instintos, é um objeto reencontrado do primeiro desmame, o objeto que foi inicialmente o ponto de ligação das primeiras satisfação da criança. (LACAN, 1956-1957, p.13). Assim, Freud (1895), ao demonstrar que o primeiro objeto de satisfação perdido desde sempre é o seio materno, assegura que a primeira experiência sexual 70 marcará o sujeito, pois este irá buscar sentir novamente este prazer. Mais tarde, quando a menina se depara com a ausência do pênis que lhe foi negado pela mãe se voltará para o pai na tentativa que este lhe de o pênis. Neste momento ela sai da castração e entra no complexo de Édipo esperando que seu pai lhe de um filho. No caso do menino, ao se dar conta da possibilidade da castração sai do complexo DE Édipo. Desse modo, Freud descreve que a menina poderá ficar no Édipo e ao chegar a idade adulta irá procurar um parceiro que se identifique com seu pai e o menino com sua mãe. Conforme Freud (1910-1912) em “Psicologia do Amor” relata, não é a aparência física que atrai os desejos dos parceiros e sim o processo de transferência que o parceiro faz no momento em que se identifica no Outro. Elizabete da Rocha Miranda (2011), em artigo sobre os amores de Marilyn Monroe, artista dos anos 50 considerada como uma das mulheres mais lindas da época, que apesar de ser bela possuía vários problemas em relação a sua vida pessoal, faz o seguinte comentário: Encarnar o falo denega a castração, toca o ponto mais extremo que escapa à linguagem e a razão. Loucura bizarra que não é a psicose porque tal identificação ao falo esta ligada ao desejo de um homem, ao olhar do Outro, à perversão polimorfa própria ao macho. É o caso de mulheres muito bonitas e excessivamente admiradas, verdadeiros corpos-falos para o socius e que por isso perdem a dimensão do próprio desejo. São mulheres que ao encarnarem o falo pelo olhar do homem, conhecem um isolamento quase sagrado. (ROCHA MIRANDA, 2011, p.91). Retornando ao caso clínico, após um ano e meio de tratamento a paciente ficou magra e o que apareceu foi a falta de desejo pelo marido e vice-versa. A gordura muitas vezes serve para o sujeito fugir do seu próprio desejo, que no caso dela não estava mais com o marido, faltando coragem para assumir. 71 Concluímos então, que o sujeito nunca terá seus desejos atendidos completamente, pois o objeto de seu desejo é sempre inalcançável, pois o “objeto a” é impassível de apreensão. . 72 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DESCARTES, René. (1641) Meditações metafísicas. São Paulo: Martins Fontes, 1979. Nascimento de Afrodite. Disponível em: http://www.mitologia.templodeapolo.net/mitos_ver.asp Acesso em 30 de maio de 2013. ECO, Umberto. História da beleza. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010. ELIA, Luciano. Corpo e sexualidade em Freud e Lacan. Rio de Janeiro: UAPÊ, 1995. ______. O conceito de sujeito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. FREUD, Sigmund. (1888-1892) Artigos sobre hipnotismo e sugestão. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (ESB). Rio de Janeiro: Imago, 1996. Vol. 1. ______. 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SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1969. VASCONCELOS, Francisco de Assis Guedes de. O nutricionista no Brasil: uma análise histórica. Revista de Nutrição, Campinas, mai/ago, nº 2, vol. 15, p.127-138, 2002. VIGARELLO, Georges. A história da beleza. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. 76 APÊNDICE A – CURSO DE EXTENSÃO "COMO IDENTIFICAR A NECESSIDADE DE ACOMPANHAMENTO DAS CLIENTES QUE PROCURAM TRATAMENTOS ESTÉTICOS E NUTRICIONAIS?” Este curso visa favorecer aos profissionais da área da saúde embasamento teórico sobre os conhecimentos básicos da psicanálise, de modo que no atendimento de seus pacientes tenham uma ausculta diferenciada, e possam assim explicar-lhes a importância do acompanhamento psicanalítico em conjunto ao seu tratamento favorecendo o seu próprio sucesso. OBJETIVOS: Objetivo Geral: - Proporcionar esclarecimento sobre conceitos básicos de Freud e Lacan em relação à beleza e o inconsciente no âmbito da subjetividade. Objetivo Específico: - Montar um curso direcionado para os profissionais Nutricionistas e Tecnólogos em Estética, que possa ajudá-los a pontuar o porquê da busca pelo aumento da mudança física de seus clientes durante os tratamentos nutricionais e 77 estéticos, ampliando seu conhecimento sobre a visão da psicanálise, de modo a orientar o cliente que o sucesso no tratamento irá depender de seu autoconhecimento e que um processo de análise o ajudaria com estas questões. PÚBLICO ALVO: Nutricionistas, Tecnólogos em Estética e Cosmética. METODOLOGIA: A metodologia utilizada será a pesquisa bibliográfica sobre o tema na obra de Freud, Lacan e autores da atualidade, bem como autores da área de filosofia, nutrição e estética relevantes ao tema. Serão utilizados e debatidos fragmentos clínicos dos casos atendidos pela autora como nutricionista e tecnóloga em estética e cosmetologia. EMENTA: A história da beleza. O inconsciente e a sexualidade. Psicologia do amor. Fragmentos de casos clínicos. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO: 1. A HISTÓRIA DA BELEZA 1.1 A beleza revelada do século XV até os dias de hoje 2. O INCONSCIENTE E A SEXUALIDADE 2.1O inconsciente e a linguagem 2.2 O sujeito e o desejo 2.3 Sexualidade Infantil 2.4 Complexo de castração e complexo de Édipo. 2.5 A sexualidade feminina 78 3. A PSICOLOGIA DO AMOR 3.1Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens 3.2 A tendência universal à depreciação na esfera do amor 3.3 As mulheres, o amor e o desejo 4 FRAGMENTOS DE CASOS CLÍNICOS CARGA HORÁRIA: 20 HORAS