Ilusão de ótica: presença negra e imigração para o sul do Brasil nas análises de Raymundo
Nina Rodrigues e Sílvio Romero.
Hilton Costa1
O presente artigo visa discutir como dois dos mais renomados intelectuais brasileiros da
virada do século XIX para o século XX, Raymundo Nina Rodrigues, 1862-1906 e Sílvio Romero,
1851-1914, problematizaram a presença negra e o processo migratório de europeus para o sul do
Brasil. A grande imigração de europeus para o Brasil coincide com a crise e fim do escravismo.
Desta feita, os debates acerca da imigração no período de modo direto ou indireto versavam sobre a
presença negra ou sua suposta ausência. De maneira análoga, as discussões sobre o fim do
escravismo também remetiam, quase sempre, a questão da imigração européia para o Brasil. Ao
tratarem da imigração para o sul do Brasil tanto Nina Rodrigues quanto Romero o fazem de modo a,
praticamente, descartar a existência de outras populações na região, especialmente as populações
negras.
As obras que servem de fontes para a presente discussão foram produzidas na última década
do século XIX e na primeira do século XX. As raças humanas e a responsabilidade penal no
Brasil, 1894, Os Africanos no Brasil, 1906 (o livro estava no prelo quando da morte do autor), de
Nina Rodrigues e O elemento português, 1902, e O alemanismo no sul do Brasil, 1906, de Romero
dão um panorama riquíssimo de como se construía uma imagem, real e retórica, do Brasil
meridional. A imagem em questão é de um Brasil altamente europeizado seja na forma, seja no
conteúdo. A argumentação de Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero acerca da presença negra
e da imigração para o Brasil Meridional enquadra-se bastante bem na situação de uma
argumentação posta a indicar certa ausência de populações negras nesta região. Além disso, essas
obras são reveladoras de um vocabulário lingüístico, conceitual comum a parte significativa da elite
intelectual brasileira do período.
Com efeito, a construção da argumentação destes intelectuais foi investigada seguindo as
sugestões teórico-metodológicas presentes, especialmente, em Quentin Skinner e John Pocock, no
1
Doutorando em História, UFPR, bolsista do CNPq.
1
sentido de pensar a produção intelectual numa encruzilhada de contextos: o lingüístico, o conceitual
e o social.2
O sul é dos imigrantes:
Alguém que viaje a Curitiba, Paraná, pode, antes de chegar, se informar sobre a cidade e,
dentre outras coisas, descobrir que a data de fundação da hoje capital paranaense é 29 de março de
1693, portanto, século XVII. Depois de passar por Curitiba, a mesma pessoa resolve rumar um
pouco mais ao sul, porém, antes se informa acerca da cidade catarinense de Joinville e nota que sua
fundação se deu em 9 de março de 1851 com o nome de Colônia Dona Francisca, assim sendo em
meados do século XIX. No intuito de fechar seu ciclo pelo sul do país a pessoa vai a Caxias do Sul,
Rio Grande do Sul, e da mesma maneira busca informações sobre a fundação desta cidade,
encontrando a data de 20 de junho de 1890. Entretanto, a ocupação humana das regiões onde hoje
se localizam tais municípios é bastante anterior às datas de fundação, mesmo sem mencionar as
populações ameríndias é possível notar que os colonos de origem lusa já faziam uso dos espaços
onde hoje estão Joinville e Caxias do Sul. (O caso de Curitiba é pouco diferente e será abordado a
seguir).
Se a pessoa empenhada em fazer o percurso descrito tomar como fonte de informação
somente os sítios oficiais das cidades em foco ela teria alguma dificuldade de perceber que os
espaços onde elas estão situadas já eram, de alguma forma, ocupados antes das “fundações
oficiais”. E especialmente teria dificuldade em concluir que a ocupação humana se dera em período
anterior a grande imigração de fins do século XIX e início do século XX. Faz-se presente no sítio da
Prefeitura da Cidade de Joinville, no campo história da cidade, o seguinte texto:
Joinville foi fundada em 9 de março de 1851, com a chegada dos primeiros imigrantes da Alemanha, Suíça e
Noruega, a bordo da barca Colon. A nova terra foi denominada Colônia Dona Francisca, em homenagem à
princesa Francisca Carolina, filha de D. Pedro I e herdeira de uma área de 25 léguas quadradas. As terras
faziam parte do dote de casamento da princesa com o príncipe François Ferdinand Phillipe Louis Marie, de
Joinville (cidade situada na França). A chegada dos imigrantes à região foi possível depois de o príncipe ceder,
em 1849, oito léguas de área para a Sociedade Colonizadora Hamburguesa, de propriedade do senador
Christian Mathias Schroeder. Os primeiros colonizadores chegaram às terras brasileiras dois anos depois,
juntando-se a portugueses e indígenas já estabelecidos na região. Em 1852 a colônia passou a ser chamada
de Joinville. [grifo nosso]3
2
SKINNER, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Cia. de Letras, 1996. ; ___. Visões
da política. Questões metodológicas. Algés : DIFEL, 2002.; POCOCK, John G. A.. Linguagens do Ideário Político.
São Paulo : Edusp, 2003.
3
http://www.joinville.sc.gov.br/index.php?
option=com_content&task=view&id=53&Itemid=114&lang=brazilian_portuguese, acesso em 08/02/2011.
2
Por sua vez, o sítio da Prefeitura da Cidade de Caxias do Sul no campo o Município, subcampo História, a argumentação sobre o surgimento da cidade é a seguinte:
A história de Caxias do Sul começa antes dos italianos, ainda quando a região era percorrida por tropeiros,
ocupada por índios e chamada "Campo dos Bugres". A ocupação por imigrantes italianos, em sua maioria
camponeses da região do Vêneto (Itália), deu-se a partir de 1875, localizando-se em Nova Milano. Estes, por
sua vez, buscavam um lugar melhor para viver. No entanto, encontraram lombardos, trentinos e outros.
Embora tivessem ganho auxílio do governo, ferramentas, alimentação e sementes, esse mesmo auxílio teve que
ser
reembolsado
aos
cofres
públicos.
Dois anos após, a sede da colônia do Campo dos Bugres recebeu a denominação de Colônia de Caxias. No dia
20 de junho de1890 foi então criado o Município, e a 24 de agosto do mesmo ano, foi efetivada a sua
instalação. Vários ciclos econômicos marcaram a evolução do Município ao longo deste século. O primeiro
deles está ligado ao traço mais forte da sua identidade: o Cultivo da Videira e a Produção de Vinho. Num
primeiro momento, para consumo próprio e, mais adiante, para comercialização.
No dia 1º de junho de 1910 Caxias foi elevada à categoria de cidade e, neste mesmo dia, chegava o primeiro
trem, ligando a região à capital do Estado. Os imigrantes eram agricultores, porém, muitos deles possuíam
outras profissões. Instalaram-se na região, urbanizando-a e dando início a um acelerado processo industrial.
[grifo nosso]4.
Destas duas apresentações oficiais das cidades chama a atenção o destaque dado às cidades
como obra, construção de imigrantes europeus – a população lusitana não entra nessa categoria.
Sem desmerecer a imigração em massa dos germânicos, em Joinville, e dos italianos, em Caxias do
Sul, como pontos centrais à constituição das duas cidades, não deixa de merecer destaque que o
período imediatamente anterior a chegada dessas populações é obliterado e/ou tem sua importância
bastante reduzida, quase negada. Essa observação pode ser válida, por extensão, para as pessoas que
não fazem parte destes grupos em destaque. A concessão ao período pré-imigração aparece no caso
de Joinville numa rápida menção, uma única frase (destacada na citação) que no conjunto do texto
na página da Prefeitura fica quase que “escondida”. A Prefeitura de Caxias do Sul faz de modo
diferente, abre o texto sobre a história da cidade (frase em destaque da citação), contudo esta
informação é posta de um modo que seu peso na argumentação é quase nulo.
Com efeito, o caso da capital paranaense é pouco diferente destas duas cidades, talvez por se
tratar de uma cidade mais antiga a obliteração do período pré-imigração não seja de todo viável,
assim o sítio da Prefeitura de Curitiba, traz no campo Curitiba, sub-campo Perfil da Cidade o
seguinte histórico para a urbe:
Curitiba é a capital do Paraná, um dos três Estados que compõem a Região Sul do Brasil. Sua fundação oficial
data de 29 de março de 1693, quando foi criada a Câmara.
4
http://www.caxias.rs.gov.br/cidade/index.php, acesso em 08/02/2011.
3
No século XVII, sua principal atividade econômica era a mineração, aliada à agricultura de subsistência.O
ciclo seguinte, que perdurou pelos séculos XVIII e XIX, foi o da atividade tropeira, derivada da pecuária.
Tropeiros eram condutores de gado que circulavam entre Viamão, no Rio Grande do Sul, e a Feira de
Sorocaba, em São Paulo, conduzindo gado cujo destino final eram as Minas Gerais. O longo caminho e as
intempéries faziam com que os tropeiros fizessem invernadas, à espera do fim dos invernos rigorosos, em
fazendas como as localizadas nos "campos de Curitiba". Aos tropeiros se devem costumes como o fogo de
chão para assar a carne e contar "causos", a fala escandida - o sotaque leitE quentE -, o chimarrão (erva-mate
com água quente, na cuia, porque os índios a utilizavam na forma de tererê, com água fria), o uso de ponchos
de lã, a abertura de caminhos e a formação de povoados.
No final do século XIX, com o ciclo da erva-mate e da madeira em expansão, dois acontecimentos foram bem
marcantes: a chegada em massa de imigrantes europeus e a construção da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba,
ligando o Litoral ao Primeiro Planalto paranaense.
Os imigrantes - europeus e de outros continentes -, ao longo do século XX, deram nova conotação ao
cotidiano de Curitiba. Seus modos de ser e de fazer se incorporaram de tal maneira à cidade que hoje são bem
curitibanas festas cívicas e religiosas de diversas etnias, dança, música, culinária, expressões e a memória dos
antepassados. Esta é representada nos diversos memoriais da imigração, em espaços públicos como parques e
bosques municipais.
A "mítica imigrante do trabalho" (observação do poeta Paulo Leminski, falecido no século passado) aliada a
gestões municipais sem quebra de continuidade, acabou criando uma Curitiba planejada - e premiada
internacionalmente,
em
gestão
urbana,
meio
ambiente
e
transporte
coletivo.
A capital do Estado do Paraná, formada num altiplano 934 metros acima do nível do mar, carente de marcos de
paisagem oferecidos pela natureza, acabou criando suas principais referências pela ciência e pela mão humana.
No século XX, no cenário da cidade planejada, a indústria se agregou com força ao perfil econômico antes
embasado nas atividades comerciais e do setor de serviços. A cidade enfrentou, especialmente nos anos 1970, a
urbanização acelerada, em grande parte provocada pelas migrações do campo, oriundas da substituição da
mão-de-obra
agrícola
pelas
máquinas.
Curitiba enfrenta agora o desafio de grande metrópole, onde a questão urbana é repensada sob o enfoque
humanista de que a cidade é primordialmente de quem nela vive. Seu povo, um admirável cadinho que reuniu
estrangeiros de todas as partes do mundo e brasileiros de todos os recantos, ensina no dia-a-dia a arte do
encontro e da convivência. Curitiba renasce a cada dia com a esperança e o trabalho nas veias, como nas
alvoradas de seus pioneiros. [grifo nosso]5
O texto de apresentação oficial da cidade denota bastante importância ao período préimigração, contudo ao versar sobre o processo imigratório a frase curta, sucinta em destaque na
citação tem um peso inversamente proporcional ao seu tamanho, pois ela afirma esse processo, a
imigração, mudou tudo. E mudou tudo para melhor! Isto pode ser inferido pelo teor da apresentação
autoglorificante que segue. Não que essa função não se faça presente nos textos dos sítios das
demais cidades aqui citadas, mas crê-se que o de Curitiba é entre os três o mais enfático.
Desta feita, é possível inferir que nas representações oficiais de três das mais importantes
cidades do sul do Brasil a imigração, especialmente, a européia (e nisso é desconsiderada a
imigração ibérica) é tratada como ponto de partida para o início da civilização. Joinville e Caxias do
Sul, esta mais do que aquela, se “definem” enquanto cidades no auge do fluxo migratório da Europa
para o Brasil, no contexto do século XIX, esse é um dos motivos que torna o caso de Curitiba
bastante peculiar. A capital paranaense, como observado a pouco, se constitui como cidade em
5
http://www.curitiba.pr.gov.br/conteudo/perfil-da-cidade-de-curitiba/174, acesso em 08/02/2011.
4
período bem anterior ao século XIX, ela ganha alguma relevância também em momento anterior
aos oitocentos, porém se aquela pessoa hipotética que estava a viajar pelo sul do Brasil de passagem
por Curitiba não atentasse para as inscrições nas estações tubos e em vários veículos do transporte
coletivo – Curitiba, 29 de março de 1693, logo acima do brasão da cidade – diria que esta urbe
haveria surgido em fins do século XIX quando da entrada em massa de imigrantes no país. Pois, se
por um lado as inscrições do transporte coletivo e o texto oficial de apresentação da cidade no sítio
da Prefeitura dão certa ênfase ao período pré-imigração, de outro todo o restante dos discursos
públicos sobre a cidade destacam a Curitiba dos imigrantes, como por exemplo, o calendário de
eventos patrocinados pelo município e a arquitetura pública estão postos a referenciar quase que
exclusivamente a imigração.6
Existe ainda nos três Estados da região sul toda uma historiografia, uma ensaística, uma
literatura posta a sustentar a imagem do sul dos imigrantes. Em outra direção existe toda uma
produção acadêmica – artigos, monografias, dissertações e teses – dedicada a questionar esta visão
do sul dos imigrantes. Porém, a visão do sul dos imigrantes é a socialmente predominante tanto
dentro quanto fora da região, ou seja, fora do circuito acadêmico ou do ativismo negro e indígena, a
imagem do sul dos imigrantes é hegemônica. Não se tem aqui por objetivo uma arqueologia destas
construções – a auto-imagem e a imagem atribuída – todavia, ambiciona-se notar uma fração deste
processo. Fração essa inserida no campo da imagem atribuída, buscar-se-á perceber como dois
proeminentes intelectuais em um debate de fins do século XIX e início do século XX colaboram na
criação da imagem do sul dos imigrantes e na “invisibilização” dos não-brancos. Tal debate ocorreu
entre o crítico literário Sílvio Romero e o médico e proto-antropólogo Raymundo Nina Rodrigues.
Com efeito, antes de adentrar no debate realizado entre estes intelectuais mostra-se pertinente
apresentar o contexto intelectual vigente no Brasil imigrantista de fins de século de XIX e início do
século XX.
O contexto intelectual do Brasil imigrantista:
Desde meados do século XIX é possível perceber a presença de certa retórica racial tanto
para explicar quanto para justificar o Brasil. Para tal basta observar, por exemplo, a literatura do
6
SOUZA, M. G. ; MORAES, Pedro R. Bodê.. Invisibilidade, preconceito e violência racial em Curitiba. Revista de
Sociologia e Política .N.º. 13, Curitiba- PR, v. 01., 1999, pp. 07-16.
5
romantismo indianista, em especial nas obras de José de Alencar, 1829-1877, a argumentação posta
a indicar a formação do país em função do encontro, da junção, da confluência de diferentes raças
tem larga tradição. E mui provavelmente foi o bávaro Karl Friedrich Phillip Von Martius, 17941868, aquele que mais deu visibilidade e, de certa forma, consagrou, a fórmula que explica a
formação do Brasil pelo encontro das três raças.7 Diferentemente de Alencar, o naturalista bávaro
considerava a população negra enquanto constitutiva da população do país, na fórmula do
romancista cearense se faziam presentes a população indígena e a européia. A elaboração de
Martius, ou consagrada por ele, perpassará as Ciências Humanas brasileiras do século XIX até o
presente momento contando, evidentemente, com várias versões.8
Com efeito, ao se aceitar, em grande medida, esta fórmula, criou-se outra demanda: explicar
e ou compreender como se procedeu, e se procede, as relações entre esses diferentes grupos raciais.
Nesta direção os últimos anos do século XIX são da maior importância. Pois neste momento essas
relações passam a ser pensadas em “termos científicos” com base no racismo científico, nas teorias
raciais. A elite intelectual brasileira, em sua maioria, busca explicar e/ou compreender a sociedade
brasileira segundo a fórmula da tríade formadora, porém submetendo-a as teorias raciais. Neste
ponto cabe uma breve digressão sobre as teorias raciais. Ao se seguir as sugestões de Michael
Banton e principalmente as de Tzvetan Todorov a idéia de raça se desenvolve, na Europa, a partir
de fins do século XVIII. A raça passa da designação de um grupo familiar a uma noção posta a
inferir à humanidade uma divisão em diferentes grupos. Grupos postos a compartilhar
características físicas, morais, intelectuais comuns em função de uma “transmissão biológica de
caracteres culturais”. A mutação na idéia, na noção de raça se dá no transcorrer do século XIX na
Europa.9 Com efeito, já em meados do século XIX é possível perceber a idéia, noção de raça com a
configuração descrita.
Esta digressão fez-se necessária porque a elite intelectual brasileira estava bastante bem
atualizada em relação a aquilo que se discutia na Europa, porém a adesão às teorias raciais não
ocorre de imediato. Ela se dá em fins do século XIX; uma explicação para tal situação poderia se
7
MARTIUS, Karl Friedrich Philipp Von. (1845). Como se deve escrever a história do Brasil. In: Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, n.º 24. pp. 381-403.
8
As obras de José Alencar posta neste contexto seriam as denominadas indianistas: O Guarani, 1857, Iracema, 1865,
Ubirajara, 1874, e em certa medida as de cunho regionalista O Gaúcho1870, O tronco do ipê 1871, O sertanejo 1875.
9
TODOROV, Tzvetan. Nós e os Outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Vol. 1. Rio de Janeiro :
Jorge Zahar editor,1993.; BANTON, Michael. A idéia de raça. Lisboa : Edições 70/ São Paulo : Martins Fontes
(distribuidor), 1979.
6
estabelecer nos seguintes moldes: uma elite letrada defasada em relação à Europa, assumindo que
esta seria um centro irradiador. Mas, como citado, a elite intelectual brasileira se matinha bem
articulada e vinculada às discussões européias, assim, volta-se a outra possibilidade explicativa (e
esta é a esposada aqui) que advém das sugestões presentes nas obras de Thomas E. Skidmore,
Renato Ortiz, Lilia Moritiz Schwarcz e Mariza Corrêa, de onde é possível retirar a hipótese de que a
adesão às teorias raciais de boa parte da elite intelectual brasileira se deu somente em fins do século
XIX por ser este o momento onde tal matriz teórica se fazia útil às demandas locais. 10 O
sustentáculo desta hipótese está calcado em dois eventos que marcaram o fim dos oitocentos no
Brasil: a Abolição, 1888, e o fim da Monarquia, 1889. Estes eventos propiciaram a equiparação
jurídica entre as pessoas, assim ao menos em termos formais estava estabelecida a igualdade, ou
seja, o ponto chave à organização social brasileira – a divisão entre livres e cativos – se rompe, a
hierarquia social fundamentada no escravismo se esvai. Com efeito, outra justificativa que pudesse
manter, de algum modo, as premissas deste ordenamento rompido é construída. Sob tais
circunstâncias se dá a apropriação das teorias raciais no Brasil.11
A adoção das teorias raciais pela maior parte da elite intelectual brasileira cria em fins do
século XIX e princípio do século XX um quadro de hegemonia de pensamento no país. Tais teorias
são utilizadas não só para legitimar a posição das elites, mas também para autorizar sua ação.
(política imigratória, ausência de investimentos na população nacional, etc.). 12 A utilidade de refletir
em termos de pensamento hegemônico reside em ele permitir contemplar a existência de variações
de uma mesma matriz e ainda considerar de modo relevante as posições contra hegemônicas.
Ilusão de ótica: imigração e presença negra no sul do Brasil segundo Nina Rodrigues e Sílvio
Romero.
Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero são de uma mesma geração, ao menos em
termos intelectuais, eles estariam inseridos no grupo de pessoas afetadas pelo “bando de idéias
10
SKIDMORE, Thomas E.. Preto no Branco. Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro. Rio de Janeiro : Paz
e Terra, 1976.; SCHWARCZ, Lilia Moritiz. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no
Brasil, 1870-1930. São Paulo : Cia. das Letras, 1993.; ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 4ª
reimpressão da 5ª ed. (1ª ed. 1985) São Paulo : Brasiliense, 2003.; CORRÊA, Mariza. As ilusões da liberdade: A
escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. 2.ª. Bragança Paulista: Editora da Universidade São Francisco,
2001.
11
COSTA, Hilton.. Hierarquias brasileiras: a abolição da escravatura e as teorias do racismo científico.
Comunicação apresentada no III Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional: Florianópolis, 2007.
12
A obra de Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma, 1911, é uma interessante crítica a relação governoimigrantes, governo-nacionais.
7
novas” que ingressaram no Brasil por volta de 1870. 13 A formação acadêmica distinta, Nina
Rodrigues era médico, Romero advogado, não impediu que eles compartilhassem de um mesmo
vocabulário conceitual. Esses autores flertaram cada qual a sua maneira com o evolucionismo,
positivismo, com o darwinismo social, com o cientificismo de um modo geral, mas o dialogo de
ambos com as doutrinas racialistas e mui possivelmente o ponto de maior aproximação intelectual
entre eles. Uma aproximação no sentido da utilização de uma linguagem, de um vocabulário
conceitual informado nessa matriz teórica. Com efeito, a utilização que eles fazem desta linguagem
é bastante diversa, elemento posto a reforçar a tendência de ser o racialismo uma forma de pensar
hegemônica e com isso estabelecer uma linguagem normativa, nos moldes da proposição de John
Pocock, nas palavras deste autor:
De modo característico o historiador está interessado nas ações de outros agentes que não ele próprio, e não
deseja ser o autor de seu próprio passado tanto quanto desejava desvelar as ações de outros autores na história e
da história. Essa é provavelmente uma das razões por que suas políticas são intrinsecamente liberais, mais do
que voltadas para a práxis. No tipo de investigação que aqui examinamos, o historiador está menos interessado
no ‘estilo’ ou no modo da enunciação de um determinado autor do que na ‘linguagem’ ou modo de enunciação
disponível a uma série de autores e com uma série de propósitos, e suas provas para sustentar que tal ou tal
‘linguagem’ existia como recurso cultural para determinados atores da história – e não como mero resultado
da ação de seu olhar interpretativo – tendem a estar relacionadas ao número de atos que ele puder mostrar que
eles efetuaram. Quanto mais ele puder provar (a) que diversos autores empregaram o mesmo idioma e nele
efetuaram enunciações diversas e até mesmo contrárias, (b) que o idioma é recorrente em texto e contextos
para além daqueles em que foi detectado pela primeira vez, (c) que os autores expressaram em palavras sua
consciência de que estavam empregando tal idioma e desenvolveram linguagens críticas e de segunda ordem
13
Raymundo Nina Rodrigues, nascido em quatro de dezembro de 1862, na cidade de Vargem Grande, na então
Província do Maranhão, filho de Dona Luísa Rosa Nina Rodrigues e do Coronel Francisco Solano Rodrigues. Nina
Rodrigues inicia seus estudos em sua cidade natal, completa o curso primário em São Luís, capital do Maranhão, no
Colégio de São Paulo, encerrando essa primeira etapa de seus estudos no Seminário das Mercês. Em seguida, ruma para
Salvador (BA), em 1882, com o intuito de estudar medicina e o faz até o quinto ano, quando opta pela transferência
para o Rio de Janeiro, em 1886, diplomando-se em 1887. Em 1888, retorna ao norte do país, fixando-se na Bahia, na
cidade de Salvador, onde passa a lecionar na Faculdade de Medicina, vindo a falecer em 17 de julho de 1906 em Paris,
França. Informações biográficas: SALES, Fernando. Notas bibliográficas de Nina Rodrigues. In: RODRIGUES,
Raymundo Nina. Os africanos no Brasil. 7.ed. São Paulo: Editora Nacional; Brasília: Editora da Universidade de
Brasília, 1988, p.277-278. Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, nascido em Lagarto, Sergipe, em 21 de abril
de 1851, e falecido no Rio de Janeiro, em 18 de julho de 1914. Filho do comerciante português André Ramos Romero e
de sua mulher Maria Joaquina Vasconcelos da Silveira iniciou seus estudos na sua cidade natal, transferindo-se para a
corte em 1863, onde cursou os preparatórios no Ateneu Fluminense. De retorno ao Nordeste em 1868, ingressa na
Faculdade de Direito do Recife, formando-se juntamente com Tobias Barreto. Ainda na faculdade, publica seus
primeiros trabalhos na imprensa pernambucana. Sílvio Romero foi promotor de justiça na cidade de Estância, deputado
na Assembléia provincial de Sergipe em 1874, mandato que acaba por renunciar. Foi também juiz municipal em Parati,
Rio de Janeiro, em 1875. Em 1880 ingressa por concurso como professor no Colégio Dom Pedro II, e também foi
professor da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Foi o fundador da cadeira 17 da Academia
Brasileira de Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e sócio correspondente da Academia de
Ciências de Lisboa. Dados biográficos de Sílvio Romero foram retirados de: ROMERO, Sílvio. O Brasil social e
outros estudos sociológicos. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2001. MOTA, Maria Aparecida Rezende.
Silvio Romero: dilemas e combates no Brasil da virada do século XX. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. (Coleção Os
que fazem a história).
8
para comentar ou regular o emprego desse idioma – tanto mais a confiança desse historiador em seu próprio
método aumentará.14
Assim, segundo Pocock o “idioma”, a linguagem é normativa quando por meio dela se
constroem argumentos diversos e mesmo contraditórios. Os argumentos de Nina Rodrigues e
Romero são orientados em muito pelas teorias raciais a partir delas ou com base nelas é que suas
análises se estruturam. Os mais diferentes assuntos são tratados sob essas prerrogativas teóricas.
Assim, com o tema da ocupação e ou colonização da região sul do Brasil não foi diferente. E
seguindo a sugestão pocockiana percebe-se que a utilização da mesma linguagem pelos autores não
significa que eles cheguem às mesmas conclusões.
Dentro do espírito de época tanto Nina Rodrigues quanto Romero admitiam a existência de
uma hierarquia das raças. Eles também concordavam que entre as raças humanas o ramo branco
europeu – norte europeu, em especial – seria o ápice da hierarquia, porém havia discordância com
relação ao grupo que ficaria na base, ou seja, qual segmento humano seria inferior. O médico
maranhense acreditava serem os tipos mestiços de raças mui distintas os mais inferiores, por
exemplo, os mulatos brasileiros. A posição de Nina Rodrigues com relação ao processo de
miscigenação formador do mulato diz o seguinte: “em torno deste fulcro – mestiçamento –, gravita
o desenvolvimento da nossa capacidade cultural e no sangue negro havemos de buscar, como em
fonte matriz, com algumas das nossas virtudes, muito dos nossos defeitos.” 15
Já o crítico literário sergipano não acreditava serem os tipos miscigenados os mais
inferiores, aliás, em momento importante de sua carreira ele defendeu um projeto país estruturado a
partir da miscigenação. Romero argumentou no primeiro tomo de sua História da Literatura
Brasileira, 1888, que o cruzamento entre raças no Brasil seria o indicativo da constituição de um
novo tipo racial. O mestiço seria “a genuína formação histórica brasileira”, e a história do Brasil
seria “antes a história da formação de um tipo novo pela ação de cinco fatores, formação sextiária
em que predomina a mestiçagem. Todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas idéias.
Os operários deste fato inicial têm sido: o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação
estrangeira.”
16
Evidencia-se, então, tomando, por exemplo, esta breve passagem que o mestiço de
14
POCOCK, John G. A.. Linguagens do Ideário Político. São Paulo : Edusp, 2003. pp. 33-34.
RODRIGUES, Raymundo Nina.. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed.
Universidade de Brasília, 1988. p. 37.
16
ROMERO, Silvio. História da Literatura, tomo I. org. de Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro : Imago Ed.;
Aracaju, SE ; Universidade Federal de Sergipe, Edição Comemorativa do Sesquicentenário de nascimento de Silvio
Romero, 2001. p. 57.
15
9
Romero situava-se tanto na dimensão da mestiçagem quanto na dimensão da miscigenação. Com
relação, aos conceitos de mestiçagem e miscigenação eles eram no período abordado pensados
como sinônimos, atualmente eles são tratados de maneira diferenciada: miscigenação versa sobre o
processo biológico e mestiçagem acerca do cultural. 17 Na primeira dimensão a cultura brasileira
seria mestiça, ela se haveria formado e criado sua originalidade no e do dialogo com várias
matrizes, as pessoas portadoras desta cultura mestiça também seriam, em muitos casos,
miscigenados.
O mestiço romeriano, além de ser um constructo cultural bastante complexo, também o seria
em termos biológicos, pois fazendo uso do referencial teórico já citado ele formulará que o mestiço
brasileiro ao longo dos tempos será um tipo humano de fenótipo branco. Para tal Romero indica que
nos cruzamentos entre tipos brancos e não brancos os caracteres brancos, entendidos como
superiores, haveriam de prevalecer. Assim, os cruzamentos sucessivos que seguissem esta fórmula
tenderiam a “embranquecer” a população brasileira. A composição de contingentes brancos para
suprir o processo se daria por meio da imigração de europeus, acreditava-se que estas pessoas
dispersas pelo território brasileiro, imersas “no espírito mestiço e miscigenado do Brasil” entrariam
naturalmente na lógica dos cruzamentos.
Sabe-se que na mestiçagem a seleção natural, ao cabo de algumas gerações faz prevalecer o tipo da raça mais
numerosa, e entre nós das raças puras a mais numerosa, pela imigração européia, tem sido, e tende ainda mais a
sê-lo, a branca. É conhecida, por isso, a proverbial tendência do pardo, do mulato em geral, a fazer-se passar
por branco, quando sua cor pode iludir.
Quase não temos mais famílias extremamente arianas; os brancos presumidos abundam. Dentro de dois ou três
séculos a fusão étnica estará talvez completa e o brasileiro mestiço bem característico. 18
Desta forma, por caminhos diferentes ambos concluem serem os tipos brancos os melhores,
bem como apontam não ser o Brasil possuidor, naquele momento, de um estoque populacional
destes melhores considerável.
Romero e Nina Rodrigues intelectuais, plenamente inseridos na discussão de época,
acreditavam que os problemas sociais, políticos e de desenvolvimento do Brasil poderiam ser
resumidos a um problema – o racial. O Brasil não se compusera dos melhores estoques humanos e
17
GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo : Companhia das Letras, 2001.
18
ROMERO, Silvio. História da Literatura, tomo I. org. de Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro : Imago Ed.;
Aracaju, SE ; Universidade Federal de Sergipe, Edição Comemorativa do Sesquicentenário de nascimento de Silvio
Romero, 2001. p. 102.
10
este fator seria um impeditivo mor ao desenvolvimento futuro do país. O médico maranhense
afirma que:
A raça negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontestáveis serviços à nossa civilização, por
mais justificadas que sejam as simpatias de que o cercou o revoltante abuso da escravidão, por maiores que se
revelem seus turiferários, há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo.19
Na visão de muitos à época a miscigenação e a mestiçagem haviam tomado conta da nação.
A resolução dos problemas o Brasil passaria, então, em primeiríssima mão pela resolução do
problema racial. Melhorar a raça era primordial. E nunca é demasiado ressaltar que melhorar a raça
no sentido vigente àquele momento significava agir sobre a biologia. Esta ação sobre a biologia foi
operada na direção de buscar imigrantes europeus para Brasil. Evidentemente, não foi só e tão
somente a adesão das elites intelectuais as teorias raciais que motivou a busca do Brasil por
imigrantes, mas esta postura é fator dos mais importantes. É válido mencionar que se o problema
fosse puramente de ordem econômica poderia ter se buscado a imigração asiática ou mesmo de
africanos livres – ambas essas possibilidades não só foram rechaçadas como amplamente
combatidas.20
Nina Rodrigues e Romero, observaram a imigração para o Brasil com posições concordantediscordante. Ambos entendiam ser necessário “branquificar” o país, criticavam a escravidão por ela
ter africanizado e enegrecido o país e ainda percebiam que a uma das melhores formas para
branquear o país seria por meio da imigração. Os argumentos imigrantistas do período são passíveis
de serem agrupados em três grandes conjuntos, todos tendo o objetivo de branquear o Brasil, porém
tendo intenções e objetivos almejados diferentes. Um desses conjuntos defendia a imigração
européia por crer que ela teria um “efeito pedagógico” na população brasileira, estimulando e
valorizando, por exemplo, a lógica do trabalho – livre –, da pequena propriedade, e o processo
deveria ainda ocorrer de modo “espontâneo”, ou seja, os imigrantes deveriam procurar o Brasil e
não o inverso. Um nome proeminente desta vertente é o de Joaquim Nabuco.
19
RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed.
Universidade de Brasília, 1988. p. 07.
20
SKIDMORE, Thomas E.. Preto no Branco. Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro. Rio de Janeiro :
Paz e Terra, 1976.; BEIGUELMAN, Paula. A crise do escravismo e a grande imigração. 4. Ed. (1.ª Ed. 1981) São
Paulo : Brasiliense, 1987.; OLIVEIRA, Lúcia Lippi. O Brasil dos imigrantes. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed, 2002.
11
Um segundo conjunto defendia que a imigração européia seria o único meio de impor o
desenvolvimento ao país, pois ela aumentaria o contingente populacional branco, mais “apto” e
“preparado” para o desenvolvimento da civilização. Este grupo haveria então de prevalecer na
“concorrência natural” entre as espécies. Essa corrente mais próxima do darwinismo social (e do
spencerianismo) acreditava que o aumento da população branca, por si só, em um médio prazo
geraria a extinção dos demais grupos. Um autor que pode ser alocado dentro desta vertente é
Raymundo Nina Rodrigues.
O terceiro conjunto defendia a imigração por entendê-la como um “purificador” da raça, esta
vertente representada entre outros pelo Romero da História da Literatura Brasileira, portanto de
1888, se acreditava como exposto há pouco que espalhando milhares de imigrantes brancos pelo
país eles haveriam de se misturar com os nacionais. E dessa mistura haveria de prevalecer os
caracteres físicos e morais brancos, criando o “mestiço romeriano”.
Evidencia-se que nos três conjuntos de posições a linguagem, o vocabulário conceitual é o
mesmo – as teorias raciais – aplicadas de formas diferentes, mas em essência são elas que guiam a
argumentação. Uma vez que os processos de cunho sociológico são praticamente descartados, bem
como os processos de socialização desiguais, sistemas desiguais de distribuição de vantagens
materiais e simbólicas aos diferentes grupos não são considerados, torna-se evidente qual matriz
teórica é hegemônica. E é justamente o diálogo com essa matriz teórica que proporciona a
concordância discordante entre Romero e Nina Rodrigues. Este via no branco o tipo superior, apto a
civilização, e em grande medida, entendia ser importante para o Brasil adquirir este tipo humano,
contudo ele via que a concentração deste estoque humano era algo que poderia vir a ser um perigo.
E em tom de alerta proferia que:
Ao brasileiro mais descuidado e imprevidente não pode deixar de impressionar a possibilidade da oposição
futura, que já se deixa entrever, entre uma nação branca, forte e poderosa, provavelmente de origem teutônica,
que se está constituindo nos estados do Sul, donde o clima e a civilização eliminarão a raça negra, ou a
submeterão, de um lado; e, de outro lado, os estados do Norte, mestiços, vegetando na turbulência estéril de
uma inteligência viva e pronta, mas associada à mais decidida inércia e indolência, ao desânimo e por vezes à
subserviência, e, assim, ameaçados de se converterem em pasto submisso de todas as explorações de régulos e
pequenos ditadores. É esta, para um brasileiro patriota, a evocação dolorosa do contraste maravilhoso entre a
exuberante civilização canadense e norte-americana e o barbarismo guerrilheiro da América Central. 21
21
RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed.
Universidade de Brasília, 1988. pp. 08-09.
12
O médico maranhense vê com temeridade a concentração dos imigrantes no sul do Brasil,
ele descarta a ação da população sobre esses imigrantes, bem como das estruturas sociais préexistentes e num exercício de darwinismo social preconiza que o sul será dos imigrantes. A posição
contrária a concentração de imigrantes em uma única região do país era compartilhada por Romero,
para ele: “Os colonos nacionais deveriam sistematicamente, se isso fosse possível, acompanhar de
perto as levas de colonos estrangeiros para dois fins principais: apreender com eles os novos
métodos e as novas idéias de trabalho e mais facilmente cruzar com eles para assimilá-los.22
Era este o projeto de miscigenação e mestiçagem romeriano, do qual Nina Rodrigues
discordava, afirmando que em longo prazo, o mestiço de retorno à raça negra – mulato escuro –
tenderia a prevalecer na maior parte do país, em especial nas regiões mais quentes e úmidas – onde
o clima rechaçava a imigração européia. Sobre o Nordeste e o Norte, afirmava:
Temos, pois, que nesta primeira região [da Bahia ao maranhão], das duas raças pura ainda existentes – e que
parecem entregues definitivamente à sua sorte sem poder contar muito com o auxilio de novas imigrações –
uma, a negra, é perfeitamente adaptavel; a outra a branca, é de uma adaptação mais difficil. Ora, como nestas
condições a raça que tende a predominar é a mais adaptavel, o receio deve ser que reversão à raça pura não seja
em favor da raça negra. E, na melhor das hypothese, quando se queira contar em favor da raça branca a sua
civilisação superior, o mais que pode esperar é que ella venha a cruzar largamente com o negro, dando os
mestiços estaveis em que o Dr. Sylvio Romero vê a condição da resistencia da raça branca aos rigores do nosso
clima. Este mestiço será forçosamente o mulato, ou quando muito o pardo com uma dóse minima do sangue
indigena [sic].23
Para esse letrado, os cruzamentos sucessivos, na maioria das regiões do país, acabariam não
por embranquecer o Brasil, mas sim realizariam justamente o contrário, africanizando-o e
enegrecendo-o ainda mais. A exceção a esse processo dar-se-ia no centro-sul do país, com certo
destaque para os três estados do sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nessa região, o
intenso fluxo de imigrantes europeus, somado às condições climáticas, colaboraria para o
predomínio do elemento branco.24 O predomínio do elemento branco no sul se daria, então, pela
22
ROMERO, Silvio. História da Literatura, tomo I. org. de Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro : Imago Ed.;
Aracaju, SE ; Universidade Federal de Sergipe, Edição Comemorativa do Sesquicentenário de nascimento de Silvio
Romero, 2001. p. 49.
23
RODRIGUES, Raymundo Nina. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. 3.ª ed.. São Paulo : Cia.
Editora Nacional, 1938. pp. 133-134.
24
Sobre o debate entre Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero acerca da miscigenação e da mestiçagem ver, por
exemplo: COSTA, Hilton. (2004). Horizontes Raciais: A idéia de raça no pensamento social brasileiro. 1880-1930.
Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, UFRGS.
13
combinação meio-raça/raça-meio, essa perspectiva analítica perfeitamente válida à época também
colabora na desconsideração das populações pré-imigração na constituição da região sul.
Por volta de 1894, Sílvio Romero se mostrava ainda esperançoso em um processo de
imigração que distribuísse um estoque populacional branco por todo o Brasil, entretanto Nina
Rodrigues denotava posição bem mais cética. Em uma rica passagem de As raças humanas e a
responsabilidade penal no Brasil (cap.3 – O Brazil anthropologico e ethinico), Nina Rodrigues
estabelece interessante diálogo com Romero, além de evidenciar a importância para ambos da
relação meio-raça, raça-meio para o estabelecimento da sociedade, da civilização indica como os
autores fazem uso de um mesmo vocabulário conceitual. Apesar de longo, entende-se ser
importante transcrever um trecho desse diálogo, posto a versar sobre o meio e o tipo humano a
prevalecer no Brasil, nas diferentes regiões do Brasil. O médico maranhense toma por ponto de
saída o norte do país e argumenta nos seguintes termos:
Mas não vejo razão para se acreditar que o futuro há de pertencer aqui ao branco e não ao mulato. Esta opinião
do Dr. Sylvio Romero funda-se em duas supposições contestaveis e contrarias de todo o ponto a uma
observação imparcial dos factos. A primeira é da persistencia da immigração européa para o norte; a segunda é
a da futura extincção da raça negra nesta zona. O Dr. Sylvio Romero acredita na possibilidade da immigração
européa para o norte do Brazil, affirmando ‘que o clima do paiz é todo apto á colonização”. Mas é o próprio
autor quem nos faz uma descripção vigorosa dos rigores e inclemencias do clima brazileiro no norte e termina
com estas considerações sobre o acclimamento da raça branca: ‘Quem sabe até onde um dia chegará entre nós
a acção do clima? Só os seculos futuros poderão dizel-o. Esse influxo determina-se empiricamente pelos
resultados contradictorios a que fracções de uma mesma raça chegaram em regiões diversas. Que distancia
entre os aryanos da Italia e da Grecia e os da India! Aqui o calor produziu todos estes terriveis effeitos
eloquentemente assignalados por H. Taine’. E accrescenta: Eis ahi a que ficou reduzida pelo clima da India a
raça mais progressista e intelligente da terra. Se o nosso céo tão despota, não deixa de sel-o tambem até certo
ponto. Conjuremos sempre por novas levas de immigrantes europeus a extenuação do nosso povo: e
cojuremol-a por meio de todos os grandes recursos das sciencia’. Destes preceitos, conclue-se facilmente que o
autor não confia na expansão da raça branca abandonada aos seus proprios recursos, propondo esse trabalho
impossivel da sua conservação por meios artificiaes da ordem das estufas nos climas frios, ao lado de
incessante renovamento do sangue. Elle afiram mais positivamente ainda: ‘O mestiço é a condição da victoria
do branco, fortificando-lhe o sangue para habilital-o aos rigores do clima’. Ora, acaso a raça branca precisa
desses recursos, carece do auxilio do mulato para adaptar-se, para desenvolver-se no sul da republica? É o Dr.
Silvio Romero quem responde: ‘Se não o fizerem (a distribuição do immigrantes por igual), as tres provincias
do extremo sul terão em futuro não muito remoto um tão grande excedente de população germanica, valida e
poderosa, que a sua independencia será inevitavel’. Nestas condições acho difficil não reconhecer que a
immigração branca, de há muito extincta para o norte do Brazil, não tem grande probabilidades de se
restabelecer. E nisto vejo antes uma consequencia natural das condições do paiz do que de erros de
administração possiveis de corrigir [sic].25
Ao fim do trecho citado fica nítido o vaticínio: o sul é dos imigrantes. E as populações préimigração são ignoradas. Com efeito, se na última década do século XIX o crítico sergipano
25
RODRIGUES, Raymundo Nina. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. 3.ª ed.. São Paulo : Cia.
Editora Nacional, 1938. pp. 129-131.
14
depositava esperanças na imigração européia para todas as regiões do Brasil, na primeira década do
século XX sua opinião havia mudado. Em princípios dos novecentos, Romero viu o vaticínio de
Rodrigues se concretizar – a imigração européia ocorreu, mas os tão desejados imigrantes se
concentraram na região sul do país. A concentração de um grupo, em especial, despertou a fúria
romeriana – os alemães.
Profundo admirador da cultura alemã, Romero demonstra em vários momentos suas
predileções pelo modo operante germânico, ele faz isso em um momento onde a maioria da elite
intelectual voltava suas atenções para a França. Possivelmente, esta relação com a cultura alemã e,
evidentemente, a leitura que Romero fazia da mesma o levou a temer as colônias alemãs alocadas
no sul do Brasil. As preocupações romerianas foram sistematizadas no texto O alemanismo no sul
do Brasil. Neste texto Romero, reforçar por meio de uma defesa das posições de Tobias Barreto,
sua admiração pela cultura germânica, contudo isso não o impede de criticar a forma como a
imigração alemã foi feita para o Brasil.26
A imigração feita para um mesmo local de uma população de forte tradição impediria a
integração dessa comunidade à vida nacional e ainda, segundo Romero, os imigrantes alemães
seguiriam súditos do Reich. Assim, com o passar do tempo atingiriam tal grau de autonomia e
desenvolvimento que os levaria a romper com o Brasil e reclamar sua adesão ao Reich. 27 Na análise
realizada pelo crítico literário sergipano a comunidade germânica concentrada no sul do país não
sofreria, praticamente, nenhuma influência das estruturas sociais locais, muito menos das
populações pré-existentes. Esse tipo de pensamento está muito bem articulado a matriz teórica
adotada por Romero, contudo a realidade social não opera num sistema de trocas de mão única –
ocorrem por vezes sistemas de trocas tão assimétricos que criam a impressão de mão única. Estudos
mais recentes indicam que da mesma forma que a comunidade alemã influenciou, ela foi
influenciada. Mas, para Romero e para Nina Rodrigues, este quando foca o sul do país, a presença
germânica no sul eliminaria qualquer resquício da civilização anterior, bem como da população
anterior. Especialmente se está população anterior fosse negra.
Em suma, do debate entre Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero acerca da imigração
para o sul do Brasil é interessante porque a região é tratada como um verdadeiro vazio, todas as
26
ROMERO, Sílvio. O alemanismo no sul do Brasil In: ___. Realidades e Ilusões no Brasil: Parlamentarismo,
Presidencialismo e outros ensaios. Petrópolis, RJ : Vozes, 1979. pp. 258-260.
27
Op. Cit.. pp. 253-254.
15
populações pré-imigração são obliteradas. Procurou-se indicar aqui que ao discutirem o processo de
imigração para o Brasil, especialmente para o sul do Brasil estes autores sempre a pensaram em
contraponto a população pré-existente, apesar de não nominar em vários momentos esta mesma
população. A população negra no sul do país é dada como, praticamente, inexistente ou indigna de
menção. Quando a menção aparece é para afirmar que por mais que a população negra tenha
contribuído à civilização brasileira ela será sempre o marco de inferioridade desta mesma
civilização.28 De modo, a Nina Rodrigues formular que:
O que importa ao Brasil determinar é o quanto de inferioridade lhe advém da dificuldade de civilizar-se por
parte da população negra que possui e se de todo fica essa inferioridade compensada pelo mestiçamento,
processo natural porque os negros se estão integrando no povo brasileiro, para a grande massa de sua
população de cor.29
A presença negra era entendida como uma marca de inferioridade e de impossibilidade de
desenvolvimento, assim sempre que possível ela era negada, obliterada, escamoteada, em algumas
situações isso era impossível, mas em outras situações isso era viável: este seria o caso do sul do
Brasil. Com efeito, assume-se a hipótese de que dado as características demográficas da região sul
em fins do século XIX e início XX ela permitia a autores como, por exemplo, Nina Rodrigues e
Romero construir uma imagem de um Brasil sem a presença negra, mesmo que tal construção
pudesse apontar para uma possível secessão do país, com a emancipação do sul.
Como indicado no início deste texto não há a intenção de se fazer uma arqueologia das
imagens atribuídas e auto-atribuídas à região sul. Optou-se por analisar um momento do processo
de construção da imagem da região sul como o lugar dos imigrantes e sem população negra. O
momento em questão é o debate entre Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero sobre o processo
imigratório europeu para o sul do Brasil. Entende-se que a postura destes autores também
contribuiu, dado a seu peso no meio intelectual brasileiro, à edificação da imagem do “sul dos
imigrantes” e da conseqüente obliteração da presença de população negra na região. Obliteração
esta percebida no discurso oficial de várias das principais cidades do sul do Brasil (como visto no
início deste artigo). Assim, apesar de toda uma produção acadêmica posta a questionar o sul dos
imigrantes e considerar a população não branca da região, em especial a negra, ela acaba se
tornando em análises como as de Romero e Nina Rodrigues não mais que uma ilusão, a persistência
28
RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed.
Universidade de Brasília, 1988. pp. 07.
29
Op. Cit.. p. 264.
16
de posições semelhantes às destes autores continua a fazer da presença negra no sul do Brasil uma
ilusão de ótica.
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