Ilusão de ótica: presença negra e imigração para o sul do Brasil nas análises de Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero. Hilton Costa1 O presente artigo visa discutir como dois dos mais renomados intelectuais brasileiros da virada do século XIX para o século XX, Raymundo Nina Rodrigues, 1862-1906 e Sílvio Romero, 1851-1914, problematizaram a presença negra e o processo migratório de europeus para o sul do Brasil. A grande imigração de europeus para o Brasil coincide com a crise e fim do escravismo. Desta feita, os debates acerca da imigração no período de modo direto ou indireto versavam sobre a presença negra ou sua suposta ausência. De maneira análoga, as discussões sobre o fim do escravismo também remetiam, quase sempre, a questão da imigração européia para o Brasil. Ao tratarem da imigração para o sul do Brasil tanto Nina Rodrigues quanto Romero o fazem de modo a, praticamente, descartar a existência de outras populações na região, especialmente as populações negras. As obras que servem de fontes para a presente discussão foram produzidas na última década do século XIX e na primeira do século XX. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil, 1894, Os Africanos no Brasil, 1906 (o livro estava no prelo quando da morte do autor), de Nina Rodrigues e O elemento português, 1902, e O alemanismo no sul do Brasil, 1906, de Romero dão um panorama riquíssimo de como se construía uma imagem, real e retórica, do Brasil meridional. A imagem em questão é de um Brasil altamente europeizado seja na forma, seja no conteúdo. A argumentação de Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero acerca da presença negra e da imigração para o Brasil Meridional enquadra-se bastante bem na situação de uma argumentação posta a indicar certa ausência de populações negras nesta região. Além disso, essas obras são reveladoras de um vocabulário lingüístico, conceitual comum a parte significativa da elite intelectual brasileira do período. Com efeito, a construção da argumentação destes intelectuais foi investigada seguindo as sugestões teórico-metodológicas presentes, especialmente, em Quentin Skinner e John Pocock, no 1 Doutorando em História, UFPR, bolsista do CNPq. 1 sentido de pensar a produção intelectual numa encruzilhada de contextos: o lingüístico, o conceitual e o social.2 O sul é dos imigrantes: Alguém que viaje a Curitiba, Paraná, pode, antes de chegar, se informar sobre a cidade e, dentre outras coisas, descobrir que a data de fundação da hoje capital paranaense é 29 de março de 1693, portanto, século XVII. Depois de passar por Curitiba, a mesma pessoa resolve rumar um pouco mais ao sul, porém, antes se informa acerca da cidade catarinense de Joinville e nota que sua fundação se deu em 9 de março de 1851 com o nome de Colônia Dona Francisca, assim sendo em meados do século XIX. No intuito de fechar seu ciclo pelo sul do país a pessoa vai a Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, e da mesma maneira busca informações sobre a fundação desta cidade, encontrando a data de 20 de junho de 1890. Entretanto, a ocupação humana das regiões onde hoje se localizam tais municípios é bastante anterior às datas de fundação, mesmo sem mencionar as populações ameríndias é possível notar que os colonos de origem lusa já faziam uso dos espaços onde hoje estão Joinville e Caxias do Sul. (O caso de Curitiba é pouco diferente e será abordado a seguir). Se a pessoa empenhada em fazer o percurso descrito tomar como fonte de informação somente os sítios oficiais das cidades em foco ela teria alguma dificuldade de perceber que os espaços onde elas estão situadas já eram, de alguma forma, ocupados antes das “fundações oficiais”. E especialmente teria dificuldade em concluir que a ocupação humana se dera em período anterior a grande imigração de fins do século XIX e início do século XX. Faz-se presente no sítio da Prefeitura da Cidade de Joinville, no campo história da cidade, o seguinte texto: Joinville foi fundada em 9 de março de 1851, com a chegada dos primeiros imigrantes da Alemanha, Suíça e Noruega, a bordo da barca Colon. A nova terra foi denominada Colônia Dona Francisca, em homenagem à princesa Francisca Carolina, filha de D. Pedro I e herdeira de uma área de 25 léguas quadradas. As terras faziam parte do dote de casamento da princesa com o príncipe François Ferdinand Phillipe Louis Marie, de Joinville (cidade situada na França). A chegada dos imigrantes à região foi possível depois de o príncipe ceder, em 1849, oito léguas de área para a Sociedade Colonizadora Hamburguesa, de propriedade do senador Christian Mathias Schroeder. Os primeiros colonizadores chegaram às terras brasileiras dois anos depois, juntando-se a portugueses e indígenas já estabelecidos na região. Em 1852 a colônia passou a ser chamada de Joinville. [grifo nosso]3 2 SKINNER, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Cia. de Letras, 1996. ; ___. Visões da política. Questões metodológicas. Algés : DIFEL, 2002.; POCOCK, John G. A.. Linguagens do Ideário Político. São Paulo : Edusp, 2003. 3 http://www.joinville.sc.gov.br/index.php? option=com_content&task=view&id=53&Itemid=114&lang=brazilian_portuguese, acesso em 08/02/2011. 2 Por sua vez, o sítio da Prefeitura da Cidade de Caxias do Sul no campo o Município, subcampo História, a argumentação sobre o surgimento da cidade é a seguinte: A história de Caxias do Sul começa antes dos italianos, ainda quando a região era percorrida por tropeiros, ocupada por índios e chamada "Campo dos Bugres". A ocupação por imigrantes italianos, em sua maioria camponeses da região do Vêneto (Itália), deu-se a partir de 1875, localizando-se em Nova Milano. Estes, por sua vez, buscavam um lugar melhor para viver. No entanto, encontraram lombardos, trentinos e outros. Embora tivessem ganho auxílio do governo, ferramentas, alimentação e sementes, esse mesmo auxílio teve que ser reembolsado aos cofres públicos. Dois anos após, a sede da colônia do Campo dos Bugres recebeu a denominação de Colônia de Caxias. No dia 20 de junho de1890 foi então criado o Município, e a 24 de agosto do mesmo ano, foi efetivada a sua instalação. Vários ciclos econômicos marcaram a evolução do Município ao longo deste século. O primeiro deles está ligado ao traço mais forte da sua identidade: o Cultivo da Videira e a Produção de Vinho. Num primeiro momento, para consumo próprio e, mais adiante, para comercialização. No dia 1º de junho de 1910 Caxias foi elevada à categoria de cidade e, neste mesmo dia, chegava o primeiro trem, ligando a região à capital do Estado. Os imigrantes eram agricultores, porém, muitos deles possuíam outras profissões. Instalaram-se na região, urbanizando-a e dando início a um acelerado processo industrial. [grifo nosso]4. Destas duas apresentações oficiais das cidades chama a atenção o destaque dado às cidades como obra, construção de imigrantes europeus – a população lusitana não entra nessa categoria. Sem desmerecer a imigração em massa dos germânicos, em Joinville, e dos italianos, em Caxias do Sul, como pontos centrais à constituição das duas cidades, não deixa de merecer destaque que o período imediatamente anterior a chegada dessas populações é obliterado e/ou tem sua importância bastante reduzida, quase negada. Essa observação pode ser válida, por extensão, para as pessoas que não fazem parte destes grupos em destaque. A concessão ao período pré-imigração aparece no caso de Joinville numa rápida menção, uma única frase (destacada na citação) que no conjunto do texto na página da Prefeitura fica quase que “escondida”. A Prefeitura de Caxias do Sul faz de modo diferente, abre o texto sobre a história da cidade (frase em destaque da citação), contudo esta informação é posta de um modo que seu peso na argumentação é quase nulo. Com efeito, o caso da capital paranaense é pouco diferente destas duas cidades, talvez por se tratar de uma cidade mais antiga a obliteração do período pré-imigração não seja de todo viável, assim o sítio da Prefeitura de Curitiba, traz no campo Curitiba, sub-campo Perfil da Cidade o seguinte histórico para a urbe: Curitiba é a capital do Paraná, um dos três Estados que compõem a Região Sul do Brasil. Sua fundação oficial data de 29 de março de 1693, quando foi criada a Câmara. 4 http://www.caxias.rs.gov.br/cidade/index.php, acesso em 08/02/2011. 3 No século XVII, sua principal atividade econômica era a mineração, aliada à agricultura de subsistência.O ciclo seguinte, que perdurou pelos séculos XVIII e XIX, foi o da atividade tropeira, derivada da pecuária. Tropeiros eram condutores de gado que circulavam entre Viamão, no Rio Grande do Sul, e a Feira de Sorocaba, em São Paulo, conduzindo gado cujo destino final eram as Minas Gerais. O longo caminho e as intempéries faziam com que os tropeiros fizessem invernadas, à espera do fim dos invernos rigorosos, em fazendas como as localizadas nos "campos de Curitiba". Aos tropeiros se devem costumes como o fogo de chão para assar a carne e contar "causos", a fala escandida - o sotaque leitE quentE -, o chimarrão (erva-mate com água quente, na cuia, porque os índios a utilizavam na forma de tererê, com água fria), o uso de ponchos de lã, a abertura de caminhos e a formação de povoados. No final do século XIX, com o ciclo da erva-mate e da madeira em expansão, dois acontecimentos foram bem marcantes: a chegada em massa de imigrantes europeus e a construção da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba, ligando o Litoral ao Primeiro Planalto paranaense. Os imigrantes - europeus e de outros continentes -, ao longo do século XX, deram nova conotação ao cotidiano de Curitiba. Seus modos de ser e de fazer se incorporaram de tal maneira à cidade que hoje são bem curitibanas festas cívicas e religiosas de diversas etnias, dança, música, culinária, expressões e a memória dos antepassados. Esta é representada nos diversos memoriais da imigração, em espaços públicos como parques e bosques municipais. A "mítica imigrante do trabalho" (observação do poeta Paulo Leminski, falecido no século passado) aliada a gestões municipais sem quebra de continuidade, acabou criando uma Curitiba planejada - e premiada internacionalmente, em gestão urbana, meio ambiente e transporte coletivo. A capital do Estado do Paraná, formada num altiplano 934 metros acima do nível do mar, carente de marcos de paisagem oferecidos pela natureza, acabou criando suas principais referências pela ciência e pela mão humana. No século XX, no cenário da cidade planejada, a indústria se agregou com força ao perfil econômico antes embasado nas atividades comerciais e do setor de serviços. A cidade enfrentou, especialmente nos anos 1970, a urbanização acelerada, em grande parte provocada pelas migrações do campo, oriundas da substituição da mão-de-obra agrícola pelas máquinas. Curitiba enfrenta agora o desafio de grande metrópole, onde a questão urbana é repensada sob o enfoque humanista de que a cidade é primordialmente de quem nela vive. Seu povo, um admirável cadinho que reuniu estrangeiros de todas as partes do mundo e brasileiros de todos os recantos, ensina no dia-a-dia a arte do encontro e da convivência. Curitiba renasce a cada dia com a esperança e o trabalho nas veias, como nas alvoradas de seus pioneiros. [grifo nosso]5 O texto de apresentação oficial da cidade denota bastante importância ao período préimigração, contudo ao versar sobre o processo imigratório a frase curta, sucinta em destaque na citação tem um peso inversamente proporcional ao seu tamanho, pois ela afirma esse processo, a imigração, mudou tudo. E mudou tudo para melhor! Isto pode ser inferido pelo teor da apresentação autoglorificante que segue. Não que essa função não se faça presente nos textos dos sítios das demais cidades aqui citadas, mas crê-se que o de Curitiba é entre os três o mais enfático. Desta feita, é possível inferir que nas representações oficiais de três das mais importantes cidades do sul do Brasil a imigração, especialmente, a européia (e nisso é desconsiderada a imigração ibérica) é tratada como ponto de partida para o início da civilização. Joinville e Caxias do Sul, esta mais do que aquela, se “definem” enquanto cidades no auge do fluxo migratório da Europa para o Brasil, no contexto do século XIX, esse é um dos motivos que torna o caso de Curitiba bastante peculiar. A capital paranaense, como observado a pouco, se constitui como cidade em 5 http://www.curitiba.pr.gov.br/conteudo/perfil-da-cidade-de-curitiba/174, acesso em 08/02/2011. 4 período bem anterior ao século XIX, ela ganha alguma relevância também em momento anterior aos oitocentos, porém se aquela pessoa hipotética que estava a viajar pelo sul do Brasil de passagem por Curitiba não atentasse para as inscrições nas estações tubos e em vários veículos do transporte coletivo – Curitiba, 29 de março de 1693, logo acima do brasão da cidade – diria que esta urbe haveria surgido em fins do século XIX quando da entrada em massa de imigrantes no país. Pois, se por um lado as inscrições do transporte coletivo e o texto oficial de apresentação da cidade no sítio da Prefeitura dão certa ênfase ao período pré-imigração, de outro todo o restante dos discursos públicos sobre a cidade destacam a Curitiba dos imigrantes, como por exemplo, o calendário de eventos patrocinados pelo município e a arquitetura pública estão postos a referenciar quase que exclusivamente a imigração.6 Existe ainda nos três Estados da região sul toda uma historiografia, uma ensaística, uma literatura posta a sustentar a imagem do sul dos imigrantes. Em outra direção existe toda uma produção acadêmica – artigos, monografias, dissertações e teses – dedicada a questionar esta visão do sul dos imigrantes. Porém, a visão do sul dos imigrantes é a socialmente predominante tanto dentro quanto fora da região, ou seja, fora do circuito acadêmico ou do ativismo negro e indígena, a imagem do sul dos imigrantes é hegemônica. Não se tem aqui por objetivo uma arqueologia destas construções – a auto-imagem e a imagem atribuída – todavia, ambiciona-se notar uma fração deste processo. Fração essa inserida no campo da imagem atribuída, buscar-se-á perceber como dois proeminentes intelectuais em um debate de fins do século XIX e início do século XX colaboram na criação da imagem do sul dos imigrantes e na “invisibilização” dos não-brancos. Tal debate ocorreu entre o crítico literário Sílvio Romero e o médico e proto-antropólogo Raymundo Nina Rodrigues. Com efeito, antes de adentrar no debate realizado entre estes intelectuais mostra-se pertinente apresentar o contexto intelectual vigente no Brasil imigrantista de fins de século de XIX e início do século XX. O contexto intelectual do Brasil imigrantista: Desde meados do século XIX é possível perceber a presença de certa retórica racial tanto para explicar quanto para justificar o Brasil. Para tal basta observar, por exemplo, a literatura do 6 SOUZA, M. G. ; MORAES, Pedro R. Bodê.. Invisibilidade, preconceito e violência racial em Curitiba. Revista de Sociologia e Política .N.º. 13, Curitiba- PR, v. 01., 1999, pp. 07-16. 5 romantismo indianista, em especial nas obras de José de Alencar, 1829-1877, a argumentação posta a indicar a formação do país em função do encontro, da junção, da confluência de diferentes raças tem larga tradição. E mui provavelmente foi o bávaro Karl Friedrich Phillip Von Martius, 17941868, aquele que mais deu visibilidade e, de certa forma, consagrou, a fórmula que explica a formação do Brasil pelo encontro das três raças.7 Diferentemente de Alencar, o naturalista bávaro considerava a população negra enquanto constitutiva da população do país, na fórmula do romancista cearense se faziam presentes a população indígena e a européia. A elaboração de Martius, ou consagrada por ele, perpassará as Ciências Humanas brasileiras do século XIX até o presente momento contando, evidentemente, com várias versões.8 Com efeito, ao se aceitar, em grande medida, esta fórmula, criou-se outra demanda: explicar e ou compreender como se procedeu, e se procede, as relações entre esses diferentes grupos raciais. Nesta direção os últimos anos do século XIX são da maior importância. Pois neste momento essas relações passam a ser pensadas em “termos científicos” com base no racismo científico, nas teorias raciais. A elite intelectual brasileira, em sua maioria, busca explicar e/ou compreender a sociedade brasileira segundo a fórmula da tríade formadora, porém submetendo-a as teorias raciais. Neste ponto cabe uma breve digressão sobre as teorias raciais. Ao se seguir as sugestões de Michael Banton e principalmente as de Tzvetan Todorov a idéia de raça se desenvolve, na Europa, a partir de fins do século XVIII. A raça passa da designação de um grupo familiar a uma noção posta a inferir à humanidade uma divisão em diferentes grupos. Grupos postos a compartilhar características físicas, morais, intelectuais comuns em função de uma “transmissão biológica de caracteres culturais”. A mutação na idéia, na noção de raça se dá no transcorrer do século XIX na Europa.9 Com efeito, já em meados do século XIX é possível perceber a idéia, noção de raça com a configuração descrita. Esta digressão fez-se necessária porque a elite intelectual brasileira estava bastante bem atualizada em relação a aquilo que se discutia na Europa, porém a adesão às teorias raciais não ocorre de imediato. Ela se dá em fins do século XIX; uma explicação para tal situação poderia se 7 MARTIUS, Karl Friedrich Philipp Von. (1845). Como se deve escrever a história do Brasil. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, n.º 24. pp. 381-403. 8 As obras de José Alencar posta neste contexto seriam as denominadas indianistas: O Guarani, 1857, Iracema, 1865, Ubirajara, 1874, e em certa medida as de cunho regionalista O Gaúcho1870, O tronco do ipê 1871, O sertanejo 1875. 9 TODOROV, Tzvetan. Nós e os Outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Vol. 1. Rio de Janeiro : Jorge Zahar editor,1993.; BANTON, Michael. A idéia de raça. Lisboa : Edições 70/ São Paulo : Martins Fontes (distribuidor), 1979. 6 estabelecer nos seguintes moldes: uma elite letrada defasada em relação à Europa, assumindo que esta seria um centro irradiador. Mas, como citado, a elite intelectual brasileira se matinha bem articulada e vinculada às discussões européias, assim, volta-se a outra possibilidade explicativa (e esta é a esposada aqui) que advém das sugestões presentes nas obras de Thomas E. Skidmore, Renato Ortiz, Lilia Moritiz Schwarcz e Mariza Corrêa, de onde é possível retirar a hipótese de que a adesão às teorias raciais de boa parte da elite intelectual brasileira se deu somente em fins do século XIX por ser este o momento onde tal matriz teórica se fazia útil às demandas locais. 10 O sustentáculo desta hipótese está calcado em dois eventos que marcaram o fim dos oitocentos no Brasil: a Abolição, 1888, e o fim da Monarquia, 1889. Estes eventos propiciaram a equiparação jurídica entre as pessoas, assim ao menos em termos formais estava estabelecida a igualdade, ou seja, o ponto chave à organização social brasileira – a divisão entre livres e cativos – se rompe, a hierarquia social fundamentada no escravismo se esvai. Com efeito, outra justificativa que pudesse manter, de algum modo, as premissas deste ordenamento rompido é construída. Sob tais circunstâncias se dá a apropriação das teorias raciais no Brasil.11 A adoção das teorias raciais pela maior parte da elite intelectual brasileira cria em fins do século XIX e princípio do século XX um quadro de hegemonia de pensamento no país. Tais teorias são utilizadas não só para legitimar a posição das elites, mas também para autorizar sua ação. (política imigratória, ausência de investimentos na população nacional, etc.). 12 A utilidade de refletir em termos de pensamento hegemônico reside em ele permitir contemplar a existência de variações de uma mesma matriz e ainda considerar de modo relevante as posições contra hegemônicas. Ilusão de ótica: imigração e presença negra no sul do Brasil segundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero. Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero são de uma mesma geração, ao menos em termos intelectuais, eles estariam inseridos no grupo de pessoas afetadas pelo “bando de idéias 10 SKIDMORE, Thomas E.. Preto no Branco. Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1976.; SCHWARCZ, Lilia Moritiz. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo : Cia. das Letras, 1993.; ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 4ª reimpressão da 5ª ed. (1ª ed. 1985) São Paulo : Brasiliense, 2003.; CORRÊA, Mariza. As ilusões da liberdade: A escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. 2.ª. Bragança Paulista: Editora da Universidade São Francisco, 2001. 11 COSTA, Hilton.. Hierarquias brasileiras: a abolição da escravatura e as teorias do racismo científico. Comunicação apresentada no III Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional: Florianópolis, 2007. 12 A obra de Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma, 1911, é uma interessante crítica a relação governoimigrantes, governo-nacionais. 7 novas” que ingressaram no Brasil por volta de 1870. 13 A formação acadêmica distinta, Nina Rodrigues era médico, Romero advogado, não impediu que eles compartilhassem de um mesmo vocabulário conceitual. Esses autores flertaram cada qual a sua maneira com o evolucionismo, positivismo, com o darwinismo social, com o cientificismo de um modo geral, mas o dialogo de ambos com as doutrinas racialistas e mui possivelmente o ponto de maior aproximação intelectual entre eles. Uma aproximação no sentido da utilização de uma linguagem, de um vocabulário conceitual informado nessa matriz teórica. Com efeito, a utilização que eles fazem desta linguagem é bastante diversa, elemento posto a reforçar a tendência de ser o racialismo uma forma de pensar hegemônica e com isso estabelecer uma linguagem normativa, nos moldes da proposição de John Pocock, nas palavras deste autor: De modo característico o historiador está interessado nas ações de outros agentes que não ele próprio, e não deseja ser o autor de seu próprio passado tanto quanto desejava desvelar as ações de outros autores na história e da história. Essa é provavelmente uma das razões por que suas políticas são intrinsecamente liberais, mais do que voltadas para a práxis. No tipo de investigação que aqui examinamos, o historiador está menos interessado no ‘estilo’ ou no modo da enunciação de um determinado autor do que na ‘linguagem’ ou modo de enunciação disponível a uma série de autores e com uma série de propósitos, e suas provas para sustentar que tal ou tal ‘linguagem’ existia como recurso cultural para determinados atores da história – e não como mero resultado da ação de seu olhar interpretativo – tendem a estar relacionadas ao número de atos que ele puder mostrar que eles efetuaram. Quanto mais ele puder provar (a) que diversos autores empregaram o mesmo idioma e nele efetuaram enunciações diversas e até mesmo contrárias, (b) que o idioma é recorrente em texto e contextos para além daqueles em que foi detectado pela primeira vez, (c) que os autores expressaram em palavras sua consciência de que estavam empregando tal idioma e desenvolveram linguagens críticas e de segunda ordem 13 Raymundo Nina Rodrigues, nascido em quatro de dezembro de 1862, na cidade de Vargem Grande, na então Província do Maranhão, filho de Dona Luísa Rosa Nina Rodrigues e do Coronel Francisco Solano Rodrigues. Nina Rodrigues inicia seus estudos em sua cidade natal, completa o curso primário em São Luís, capital do Maranhão, no Colégio de São Paulo, encerrando essa primeira etapa de seus estudos no Seminário das Mercês. Em seguida, ruma para Salvador (BA), em 1882, com o intuito de estudar medicina e o faz até o quinto ano, quando opta pela transferência para o Rio de Janeiro, em 1886, diplomando-se em 1887. Em 1888, retorna ao norte do país, fixando-se na Bahia, na cidade de Salvador, onde passa a lecionar na Faculdade de Medicina, vindo a falecer em 17 de julho de 1906 em Paris, França. Informações biográficas: SALES, Fernando. Notas bibliográficas de Nina Rodrigues. In: RODRIGUES, Raymundo Nina. Os africanos no Brasil. 7.ed. São Paulo: Editora Nacional; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1988, p.277-278. Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, nascido em Lagarto, Sergipe, em 21 de abril de 1851, e falecido no Rio de Janeiro, em 18 de julho de 1914. Filho do comerciante português André Ramos Romero e de sua mulher Maria Joaquina Vasconcelos da Silveira iniciou seus estudos na sua cidade natal, transferindo-se para a corte em 1863, onde cursou os preparatórios no Ateneu Fluminense. De retorno ao Nordeste em 1868, ingressa na Faculdade de Direito do Recife, formando-se juntamente com Tobias Barreto. Ainda na faculdade, publica seus primeiros trabalhos na imprensa pernambucana. Sílvio Romero foi promotor de justiça na cidade de Estância, deputado na Assembléia provincial de Sergipe em 1874, mandato que acaba por renunciar. Foi também juiz municipal em Parati, Rio de Janeiro, em 1875. Em 1880 ingressa por concurso como professor no Colégio Dom Pedro II, e também foi professor da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Foi o fundador da cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Dados biográficos de Sílvio Romero foram retirados de: ROMERO, Sílvio. O Brasil social e outros estudos sociológicos. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2001. MOTA, Maria Aparecida Rezende. Silvio Romero: dilemas e combates no Brasil da virada do século XX. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. (Coleção Os que fazem a história). 8 para comentar ou regular o emprego desse idioma – tanto mais a confiança desse historiador em seu próprio método aumentará.14 Assim, segundo Pocock o “idioma”, a linguagem é normativa quando por meio dela se constroem argumentos diversos e mesmo contraditórios. Os argumentos de Nina Rodrigues e Romero são orientados em muito pelas teorias raciais a partir delas ou com base nelas é que suas análises se estruturam. Os mais diferentes assuntos são tratados sob essas prerrogativas teóricas. Assim, com o tema da ocupação e ou colonização da região sul do Brasil não foi diferente. E seguindo a sugestão pocockiana percebe-se que a utilização da mesma linguagem pelos autores não significa que eles cheguem às mesmas conclusões. Dentro do espírito de época tanto Nina Rodrigues quanto Romero admitiam a existência de uma hierarquia das raças. Eles também concordavam que entre as raças humanas o ramo branco europeu – norte europeu, em especial – seria o ápice da hierarquia, porém havia discordância com relação ao grupo que ficaria na base, ou seja, qual segmento humano seria inferior. O médico maranhense acreditava serem os tipos mestiços de raças mui distintas os mais inferiores, por exemplo, os mulatos brasileiros. A posição de Nina Rodrigues com relação ao processo de miscigenação formador do mulato diz o seguinte: “em torno deste fulcro – mestiçamento –, gravita o desenvolvimento da nossa capacidade cultural e no sangue negro havemos de buscar, como em fonte matriz, com algumas das nossas virtudes, muito dos nossos defeitos.” 15 Já o crítico literário sergipano não acreditava serem os tipos miscigenados os mais inferiores, aliás, em momento importante de sua carreira ele defendeu um projeto país estruturado a partir da miscigenação. Romero argumentou no primeiro tomo de sua História da Literatura Brasileira, 1888, que o cruzamento entre raças no Brasil seria o indicativo da constituição de um novo tipo racial. O mestiço seria “a genuína formação histórica brasileira”, e a história do Brasil seria “antes a história da formação de um tipo novo pela ação de cinco fatores, formação sextiária em que predomina a mestiçagem. Todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas idéias. Os operários deste fato inicial têm sido: o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira.” 16 Evidencia-se, então, tomando, por exemplo, esta breve passagem que o mestiço de 14 POCOCK, John G. A.. Linguagens do Ideário Político. São Paulo : Edusp, 2003. pp. 33-34. RODRIGUES, Raymundo Nina.. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed. Universidade de Brasília, 1988. p. 37. 16 ROMERO, Silvio. História da Literatura, tomo I. org. de Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro : Imago Ed.; Aracaju, SE ; Universidade Federal de Sergipe, Edição Comemorativa do Sesquicentenário de nascimento de Silvio Romero, 2001. p. 57. 15 9 Romero situava-se tanto na dimensão da mestiçagem quanto na dimensão da miscigenação. Com relação, aos conceitos de mestiçagem e miscigenação eles eram no período abordado pensados como sinônimos, atualmente eles são tratados de maneira diferenciada: miscigenação versa sobre o processo biológico e mestiçagem acerca do cultural. 17 Na primeira dimensão a cultura brasileira seria mestiça, ela se haveria formado e criado sua originalidade no e do dialogo com várias matrizes, as pessoas portadoras desta cultura mestiça também seriam, em muitos casos, miscigenados. O mestiço romeriano, além de ser um constructo cultural bastante complexo, também o seria em termos biológicos, pois fazendo uso do referencial teórico já citado ele formulará que o mestiço brasileiro ao longo dos tempos será um tipo humano de fenótipo branco. Para tal Romero indica que nos cruzamentos entre tipos brancos e não brancos os caracteres brancos, entendidos como superiores, haveriam de prevalecer. Assim, os cruzamentos sucessivos que seguissem esta fórmula tenderiam a “embranquecer” a população brasileira. A composição de contingentes brancos para suprir o processo se daria por meio da imigração de europeus, acreditava-se que estas pessoas dispersas pelo território brasileiro, imersas “no espírito mestiço e miscigenado do Brasil” entrariam naturalmente na lógica dos cruzamentos. Sabe-se que na mestiçagem a seleção natural, ao cabo de algumas gerações faz prevalecer o tipo da raça mais numerosa, e entre nós das raças puras a mais numerosa, pela imigração européia, tem sido, e tende ainda mais a sê-lo, a branca. É conhecida, por isso, a proverbial tendência do pardo, do mulato em geral, a fazer-se passar por branco, quando sua cor pode iludir. Quase não temos mais famílias extremamente arianas; os brancos presumidos abundam. Dentro de dois ou três séculos a fusão étnica estará talvez completa e o brasileiro mestiço bem característico. 18 Desta forma, por caminhos diferentes ambos concluem serem os tipos brancos os melhores, bem como apontam não ser o Brasil possuidor, naquele momento, de um estoque populacional destes melhores considerável. Romero e Nina Rodrigues intelectuais, plenamente inseridos na discussão de época, acreditavam que os problemas sociais, políticos e de desenvolvimento do Brasil poderiam ser resumidos a um problema – o racial. O Brasil não se compusera dos melhores estoques humanos e 17 GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo : Companhia das Letras, 2001. 18 ROMERO, Silvio. História da Literatura, tomo I. org. de Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro : Imago Ed.; Aracaju, SE ; Universidade Federal de Sergipe, Edição Comemorativa do Sesquicentenário de nascimento de Silvio Romero, 2001. p. 102. 10 este fator seria um impeditivo mor ao desenvolvimento futuro do país. O médico maranhense afirma que: A raça negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontestáveis serviços à nossa civilização, por mais justificadas que sejam as simpatias de que o cercou o revoltante abuso da escravidão, por maiores que se revelem seus turiferários, há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo.19 Na visão de muitos à época a miscigenação e a mestiçagem haviam tomado conta da nação. A resolução dos problemas o Brasil passaria, então, em primeiríssima mão pela resolução do problema racial. Melhorar a raça era primordial. E nunca é demasiado ressaltar que melhorar a raça no sentido vigente àquele momento significava agir sobre a biologia. Esta ação sobre a biologia foi operada na direção de buscar imigrantes europeus para Brasil. Evidentemente, não foi só e tão somente a adesão das elites intelectuais as teorias raciais que motivou a busca do Brasil por imigrantes, mas esta postura é fator dos mais importantes. É válido mencionar que se o problema fosse puramente de ordem econômica poderia ter se buscado a imigração asiática ou mesmo de africanos livres – ambas essas possibilidades não só foram rechaçadas como amplamente combatidas.20 Nina Rodrigues e Romero, observaram a imigração para o Brasil com posições concordantediscordante. Ambos entendiam ser necessário “branquificar” o país, criticavam a escravidão por ela ter africanizado e enegrecido o país e ainda percebiam que a uma das melhores formas para branquear o país seria por meio da imigração. Os argumentos imigrantistas do período são passíveis de serem agrupados em três grandes conjuntos, todos tendo o objetivo de branquear o Brasil, porém tendo intenções e objetivos almejados diferentes. Um desses conjuntos defendia a imigração européia por crer que ela teria um “efeito pedagógico” na população brasileira, estimulando e valorizando, por exemplo, a lógica do trabalho – livre –, da pequena propriedade, e o processo deveria ainda ocorrer de modo “espontâneo”, ou seja, os imigrantes deveriam procurar o Brasil e não o inverso. Um nome proeminente desta vertente é o de Joaquim Nabuco. 19 RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed. Universidade de Brasília, 1988. p. 07. 20 SKIDMORE, Thomas E.. Preto no Branco. Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1976.; BEIGUELMAN, Paula. A crise do escravismo e a grande imigração. 4. Ed. (1.ª Ed. 1981) São Paulo : Brasiliense, 1987.; OLIVEIRA, Lúcia Lippi. O Brasil dos imigrantes. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed, 2002. 11 Um segundo conjunto defendia que a imigração européia seria o único meio de impor o desenvolvimento ao país, pois ela aumentaria o contingente populacional branco, mais “apto” e “preparado” para o desenvolvimento da civilização. Este grupo haveria então de prevalecer na “concorrência natural” entre as espécies. Essa corrente mais próxima do darwinismo social (e do spencerianismo) acreditava que o aumento da população branca, por si só, em um médio prazo geraria a extinção dos demais grupos. Um autor que pode ser alocado dentro desta vertente é Raymundo Nina Rodrigues. O terceiro conjunto defendia a imigração por entendê-la como um “purificador” da raça, esta vertente representada entre outros pelo Romero da História da Literatura Brasileira, portanto de 1888, se acreditava como exposto há pouco que espalhando milhares de imigrantes brancos pelo país eles haveriam de se misturar com os nacionais. E dessa mistura haveria de prevalecer os caracteres físicos e morais brancos, criando o “mestiço romeriano”. Evidencia-se que nos três conjuntos de posições a linguagem, o vocabulário conceitual é o mesmo – as teorias raciais – aplicadas de formas diferentes, mas em essência são elas que guiam a argumentação. Uma vez que os processos de cunho sociológico são praticamente descartados, bem como os processos de socialização desiguais, sistemas desiguais de distribuição de vantagens materiais e simbólicas aos diferentes grupos não são considerados, torna-se evidente qual matriz teórica é hegemônica. E é justamente o diálogo com essa matriz teórica que proporciona a concordância discordante entre Romero e Nina Rodrigues. Este via no branco o tipo superior, apto a civilização, e em grande medida, entendia ser importante para o Brasil adquirir este tipo humano, contudo ele via que a concentração deste estoque humano era algo que poderia vir a ser um perigo. E em tom de alerta proferia que: Ao brasileiro mais descuidado e imprevidente não pode deixar de impressionar a possibilidade da oposição futura, que já se deixa entrever, entre uma nação branca, forte e poderosa, provavelmente de origem teutônica, que se está constituindo nos estados do Sul, donde o clima e a civilização eliminarão a raça negra, ou a submeterão, de um lado; e, de outro lado, os estados do Norte, mestiços, vegetando na turbulência estéril de uma inteligência viva e pronta, mas associada à mais decidida inércia e indolência, ao desânimo e por vezes à subserviência, e, assim, ameaçados de se converterem em pasto submisso de todas as explorações de régulos e pequenos ditadores. É esta, para um brasileiro patriota, a evocação dolorosa do contraste maravilhoso entre a exuberante civilização canadense e norte-americana e o barbarismo guerrilheiro da América Central. 21 21 RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed. Universidade de Brasília, 1988. pp. 08-09. 12 O médico maranhense vê com temeridade a concentração dos imigrantes no sul do Brasil, ele descarta a ação da população sobre esses imigrantes, bem como das estruturas sociais préexistentes e num exercício de darwinismo social preconiza que o sul será dos imigrantes. A posição contrária a concentração de imigrantes em uma única região do país era compartilhada por Romero, para ele: “Os colonos nacionais deveriam sistematicamente, se isso fosse possível, acompanhar de perto as levas de colonos estrangeiros para dois fins principais: apreender com eles os novos métodos e as novas idéias de trabalho e mais facilmente cruzar com eles para assimilá-los.22 Era este o projeto de miscigenação e mestiçagem romeriano, do qual Nina Rodrigues discordava, afirmando que em longo prazo, o mestiço de retorno à raça negra – mulato escuro – tenderia a prevalecer na maior parte do país, em especial nas regiões mais quentes e úmidas – onde o clima rechaçava a imigração européia. Sobre o Nordeste e o Norte, afirmava: Temos, pois, que nesta primeira região [da Bahia ao maranhão], das duas raças pura ainda existentes – e que parecem entregues definitivamente à sua sorte sem poder contar muito com o auxilio de novas imigrações – uma, a negra, é perfeitamente adaptavel; a outra a branca, é de uma adaptação mais difficil. Ora, como nestas condições a raça que tende a predominar é a mais adaptavel, o receio deve ser que reversão à raça pura não seja em favor da raça negra. E, na melhor das hypothese, quando se queira contar em favor da raça branca a sua civilisação superior, o mais que pode esperar é que ella venha a cruzar largamente com o negro, dando os mestiços estaveis em que o Dr. Sylvio Romero vê a condição da resistencia da raça branca aos rigores do nosso clima. Este mestiço será forçosamente o mulato, ou quando muito o pardo com uma dóse minima do sangue indigena [sic].23 Para esse letrado, os cruzamentos sucessivos, na maioria das regiões do país, acabariam não por embranquecer o Brasil, mas sim realizariam justamente o contrário, africanizando-o e enegrecendo-o ainda mais. A exceção a esse processo dar-se-ia no centro-sul do país, com certo destaque para os três estados do sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nessa região, o intenso fluxo de imigrantes europeus, somado às condições climáticas, colaboraria para o predomínio do elemento branco.24 O predomínio do elemento branco no sul se daria, então, pela 22 ROMERO, Silvio. História da Literatura, tomo I. org. de Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro : Imago Ed.; Aracaju, SE ; Universidade Federal de Sergipe, Edição Comemorativa do Sesquicentenário de nascimento de Silvio Romero, 2001. p. 49. 23 RODRIGUES, Raymundo Nina. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. 3.ª ed.. São Paulo : Cia. Editora Nacional, 1938. pp. 133-134. 24 Sobre o debate entre Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero acerca da miscigenação e da mestiçagem ver, por exemplo: COSTA, Hilton. (2004). Horizontes Raciais: A idéia de raça no pensamento social brasileiro. 1880-1930. Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. 13 combinação meio-raça/raça-meio, essa perspectiva analítica perfeitamente válida à época também colabora na desconsideração das populações pré-imigração na constituição da região sul. Por volta de 1894, Sílvio Romero se mostrava ainda esperançoso em um processo de imigração que distribuísse um estoque populacional branco por todo o Brasil, entretanto Nina Rodrigues denotava posição bem mais cética. Em uma rica passagem de As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil (cap.3 – O Brazil anthropologico e ethinico), Nina Rodrigues estabelece interessante diálogo com Romero, além de evidenciar a importância para ambos da relação meio-raça, raça-meio para o estabelecimento da sociedade, da civilização indica como os autores fazem uso de um mesmo vocabulário conceitual. Apesar de longo, entende-se ser importante transcrever um trecho desse diálogo, posto a versar sobre o meio e o tipo humano a prevalecer no Brasil, nas diferentes regiões do Brasil. O médico maranhense toma por ponto de saída o norte do país e argumenta nos seguintes termos: Mas não vejo razão para se acreditar que o futuro há de pertencer aqui ao branco e não ao mulato. Esta opinião do Dr. Sylvio Romero funda-se em duas supposições contestaveis e contrarias de todo o ponto a uma observação imparcial dos factos. A primeira é da persistencia da immigração européa para o norte; a segunda é a da futura extincção da raça negra nesta zona. O Dr. Sylvio Romero acredita na possibilidade da immigração européa para o norte do Brazil, affirmando ‘que o clima do paiz é todo apto á colonização”. Mas é o próprio autor quem nos faz uma descripção vigorosa dos rigores e inclemencias do clima brazileiro no norte e termina com estas considerações sobre o acclimamento da raça branca: ‘Quem sabe até onde um dia chegará entre nós a acção do clima? Só os seculos futuros poderão dizel-o. Esse influxo determina-se empiricamente pelos resultados contradictorios a que fracções de uma mesma raça chegaram em regiões diversas. Que distancia entre os aryanos da Italia e da Grecia e os da India! Aqui o calor produziu todos estes terriveis effeitos eloquentemente assignalados por H. Taine’. E accrescenta: Eis ahi a que ficou reduzida pelo clima da India a raça mais progressista e intelligente da terra. Se o nosso céo tão despota, não deixa de sel-o tambem até certo ponto. Conjuremos sempre por novas levas de immigrantes europeus a extenuação do nosso povo: e cojuremol-a por meio de todos os grandes recursos das sciencia’. Destes preceitos, conclue-se facilmente que o autor não confia na expansão da raça branca abandonada aos seus proprios recursos, propondo esse trabalho impossivel da sua conservação por meios artificiaes da ordem das estufas nos climas frios, ao lado de incessante renovamento do sangue. Elle afiram mais positivamente ainda: ‘O mestiço é a condição da victoria do branco, fortificando-lhe o sangue para habilital-o aos rigores do clima’. Ora, acaso a raça branca precisa desses recursos, carece do auxilio do mulato para adaptar-se, para desenvolver-se no sul da republica? É o Dr. Silvio Romero quem responde: ‘Se não o fizerem (a distribuição do immigrantes por igual), as tres provincias do extremo sul terão em futuro não muito remoto um tão grande excedente de população germanica, valida e poderosa, que a sua independencia será inevitavel’. Nestas condições acho difficil não reconhecer que a immigração branca, de há muito extincta para o norte do Brazil, não tem grande probabilidades de se restabelecer. E nisto vejo antes uma consequencia natural das condições do paiz do que de erros de administração possiveis de corrigir [sic].25 Ao fim do trecho citado fica nítido o vaticínio: o sul é dos imigrantes. E as populações préimigração são ignoradas. Com efeito, se na última década do século XIX o crítico sergipano 25 RODRIGUES, Raymundo Nina. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. 3.ª ed.. São Paulo : Cia. Editora Nacional, 1938. pp. 129-131. 14 depositava esperanças na imigração européia para todas as regiões do Brasil, na primeira década do século XX sua opinião havia mudado. Em princípios dos novecentos, Romero viu o vaticínio de Rodrigues se concretizar – a imigração européia ocorreu, mas os tão desejados imigrantes se concentraram na região sul do país. A concentração de um grupo, em especial, despertou a fúria romeriana – os alemães. Profundo admirador da cultura alemã, Romero demonstra em vários momentos suas predileções pelo modo operante germânico, ele faz isso em um momento onde a maioria da elite intelectual voltava suas atenções para a França. Possivelmente, esta relação com a cultura alemã e, evidentemente, a leitura que Romero fazia da mesma o levou a temer as colônias alemãs alocadas no sul do Brasil. As preocupações romerianas foram sistematizadas no texto O alemanismo no sul do Brasil. Neste texto Romero, reforçar por meio de uma defesa das posições de Tobias Barreto, sua admiração pela cultura germânica, contudo isso não o impede de criticar a forma como a imigração alemã foi feita para o Brasil.26 A imigração feita para um mesmo local de uma população de forte tradição impediria a integração dessa comunidade à vida nacional e ainda, segundo Romero, os imigrantes alemães seguiriam súditos do Reich. Assim, com o passar do tempo atingiriam tal grau de autonomia e desenvolvimento que os levaria a romper com o Brasil e reclamar sua adesão ao Reich. 27 Na análise realizada pelo crítico literário sergipano a comunidade germânica concentrada no sul do país não sofreria, praticamente, nenhuma influência das estruturas sociais locais, muito menos das populações pré-existentes. Esse tipo de pensamento está muito bem articulado a matriz teórica adotada por Romero, contudo a realidade social não opera num sistema de trocas de mão única – ocorrem por vezes sistemas de trocas tão assimétricos que criam a impressão de mão única. Estudos mais recentes indicam que da mesma forma que a comunidade alemã influenciou, ela foi influenciada. Mas, para Romero e para Nina Rodrigues, este quando foca o sul do país, a presença germânica no sul eliminaria qualquer resquício da civilização anterior, bem como da população anterior. Especialmente se está população anterior fosse negra. Em suma, do debate entre Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero acerca da imigração para o sul do Brasil é interessante porque a região é tratada como um verdadeiro vazio, todas as 26 ROMERO, Sílvio. O alemanismo no sul do Brasil In: ___. Realidades e Ilusões no Brasil: Parlamentarismo, Presidencialismo e outros ensaios. Petrópolis, RJ : Vozes, 1979. pp. 258-260. 27 Op. Cit.. pp. 253-254. 15 populações pré-imigração são obliteradas. Procurou-se indicar aqui que ao discutirem o processo de imigração para o Brasil, especialmente para o sul do Brasil estes autores sempre a pensaram em contraponto a população pré-existente, apesar de não nominar em vários momentos esta mesma população. A população negra no sul do país é dada como, praticamente, inexistente ou indigna de menção. Quando a menção aparece é para afirmar que por mais que a população negra tenha contribuído à civilização brasileira ela será sempre o marco de inferioridade desta mesma civilização.28 De modo, a Nina Rodrigues formular que: O que importa ao Brasil determinar é o quanto de inferioridade lhe advém da dificuldade de civilizar-se por parte da população negra que possui e se de todo fica essa inferioridade compensada pelo mestiçamento, processo natural porque os negros se estão integrando no povo brasileiro, para a grande massa de sua população de cor.29 A presença negra era entendida como uma marca de inferioridade e de impossibilidade de desenvolvimento, assim sempre que possível ela era negada, obliterada, escamoteada, em algumas situações isso era impossível, mas em outras situações isso era viável: este seria o caso do sul do Brasil. Com efeito, assume-se a hipótese de que dado as características demográficas da região sul em fins do século XIX e início XX ela permitia a autores como, por exemplo, Nina Rodrigues e Romero construir uma imagem de um Brasil sem a presença negra, mesmo que tal construção pudesse apontar para uma possível secessão do país, com a emancipação do sul. Como indicado no início deste texto não há a intenção de se fazer uma arqueologia das imagens atribuídas e auto-atribuídas à região sul. Optou-se por analisar um momento do processo de construção da imagem da região sul como o lugar dos imigrantes e sem população negra. O momento em questão é o debate entre Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero sobre o processo imigratório europeu para o sul do Brasil. Entende-se que a postura destes autores também contribuiu, dado a seu peso no meio intelectual brasileiro, à edificação da imagem do “sul dos imigrantes” e da conseqüente obliteração da presença de população negra na região. Obliteração esta percebida no discurso oficial de várias das principais cidades do sul do Brasil (como visto no início deste artigo). Assim, apesar de toda uma produção acadêmica posta a questionar o sul dos imigrantes e considerar a população não branca da região, em especial a negra, ela acaba se tornando em análises como as de Romero e Nina Rodrigues não mais que uma ilusão, a persistência 28 RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed. Universidade de Brasília, 1988. pp. 07. 29 Op. Cit.. p. 264. 16 de posições semelhantes às destes autores continua a fazer da presença negra no sul do Brasil uma ilusão de ótica. Referências: Fontes: BOMFIM, Manoel. América Latina males de origem. 4.ª ed.. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993. NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. 7.ª ed.. São Paulo : Editora Nacional ; [Brasília] : Ed. 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