UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA
Faculdade de Arquitectura e Artes
Mestrado Integrado em Arquitectura
Construção no mundo real: respostas estratégicas
para uma arquitectura de baixos recursos
Realizado por:
Mariana Flor e Almeida Antunes Alves
Orientado por:
Prof. Doutor Arqt. Jorge Virgílio Rodrigues Mealha da Costa
Assistente de orientação:
Mestre Arqt. Pedro Jorge Ribeiro Guedes Lebre
Constituição do Júri:
Presidente:
Orientador:
Arguente:
Prof. Doutor Arqt. Joaquim José Ferrão de Oliveira Braizinha
Prof. Doutor Arqt. Jorge Virgílio Rodrigues Mealha da Costa
Prof.ª Doutora Arqt.ª Helena Cristina Caeiro Botelho
Dissertação aprovada em:
4 de Fevereiro de 2015
Lisboa
2014
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N I V E R S I D A D E
L
U S Í A D A
D E
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I S B O A
Faculdade de Arquitectura e Artes
Mestrado Integrado em Arquitectura
Construção no mundo real: respostas estratégicas
para uma arquitectura de baixos recursos
Mariana Flor e Almeida Antunes Alves
Lisboa
Dezembro 2014
U
N I V E R S I D A D E
L
U S Í A D A
D E
L
I S B O A
Faculdade de Arquitectura e Artes
Mestrado Integrado em Arquitectura
Construção no mundo real: respostas estratégicas
para uma arquitectura de baixos recursos
Mariana Flor e Almeida Antunes Alves
Lisboa
Dezembro 2014
Mariana Flor e Almeida Antunes Alves
Construção no mundo real: respostas estratégicas
para uma arquitectura de baixos recursos
Dissertação apresentada à Faculdade de Arquitectura e
Artes da Universidade Lusíada de Lisboa para a
obtenção do grau de Mestre em Arquitectura.
Orientador: Prof. Doutor Arqt. Jorge Virgílio Rodrigues
Mealha da Costa
Assistente de orientação: Mestre Arqt. Pedro Jorge
Ribeiro Guedes Lebre
Lisboa
Dezembro 2014
Ficha Técnica
Autora
Orientador
Assistente de orientação
Mariana Flor e Almeida Antunes Alves
Prof. Doutor Arqt. Jorge Virgílio Rodrigues Mealha da Costa
Mestre Arqt. Pedro Jorge Ribeiro Guedes Lebre
Título
Construção no mundo real: respostas estratégicas para uma
arquitectura de baixos recursos
Local
Lisboa
Ano
2014
Mediateca da Universidade Lusíada de Lisboa - Catalogação na Publicação
ALVES, Mariana Flor e Almeida Antunes, 1988Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos /
Mariana Flor e Almeida Antunes Alves ; orientado por Jorge Virgílio Rodrigues Mealha da Costa,
Pedro Jorge Ribeiro Guedes Lebre. - Lisboa : [s.n.], 2014. - Dissertação de Mestrado Integrado em
Arquitectura, Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa.
I - MEALHA, Jorge, 1960II - LEBRE, Pedro Jorge Ribeiro Guedes, 1968LCSH
1. Arquitectura - Aspectos económicos
2. Arquitectura - Planeamento
3. Universidade Lusíada de Lisboa. Faculdade de Arquitectura e Artes - Teses
4. Teses - Portugal - Lisboa
1.
2.
3.
4.
Architecture - Economic aspects
Architecture - Planning
Universidade Lusíada de Lisboa. Faculdade de Arquitectura e Artes - Dissertations
Dissertations, Academic - Portugal - Lisbon
LCC
1. NA2540.A48 2014
AGRADECIMENTOS
Ao longo de todo o processo académico muitas foram as pessoas que me
acompanharam, que voluntária ou involuntariamente me concederam os seus
ensinamentos e experiências no âmbito da Arquitectura. Esta não teria sido tão
estimulante e gratificante, caso não tivesse existido todo o acompanhamento e
motivação por parte de todos os professores, colegas e amigos. Por todo o apoio e
parceria, um muito obrigado.
A escrita desta dissertação não teria sido tão entusiasmante caso não fizessem parte
da minha vida todas as crianças com o qual trabalho. Foram eles em união com os
meus amigos que me motivaram a optar por este tema, se entusiasmaram e me
acompanharam e foi com satisfação que o estudei e aprendi, compreendi por fim, que
a arquitectura é para ser vivida. Por tudo isto, um muito obrigado a todos.
Agradeço ao meu orientador Prof. Doutor Arquitecto Jorge Mealha por todo o apoio e
um
especial
agradecimento ao
Prof.
Mestre Arquitecto
Pedro Lebre
pelo
acompanhamento e apoio dado na elaboração desta dissertação, pela disponibilidade
e por todos os ensinamentos transmitidos ao longo de todo o meu percurso
académico. Agradeço também á Prof. Doutora Arquitecta Maria João Soares pela sua
disponibilidade e transmissão de conhecimentos.
Um especial agradecimento aos meus pais e irmãos, assim como a toda a familia pelo
apoio incondicional ao longo da vida.
Um muito obrigado.
APRESENTAÇÃO
Construção no mundo real:
respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Mariana Flor e Almeida Antunes Alves
Nas sociedades em vias de desenvolvimento, a resposta arquitectónica ao problema
do habitar é por vezes fortemente condicionada por uma contenção de recursos
extrema.
A vertigem de todos os processos de aculturação em movimento, os efeitos da
mundialização e da disseminação das lógicas do capitalismo são factuais e tem sido
factores relevantes, que influenciam a produção arquitectónica contemporânea.
Paralelamente a uma actuação quase sem limites económicos verifica-se a
necessidade de um reequacionamento na prática arquitectónica. A pesquisa de
soluções de habitar adaptadas e sustentadas face a realidades concretas e a resposta
aos anseios e lógicas de um enorme conjunto de populações desfavorecidas, tem
vindo a crescer.
É relevante caracterizar o papel desempenhado pelos arquitectos na reconfiguração
dos espaços de habitar, bem como dos espaços públicos adjacentes ou confinantes.
Procuram-se entender os mecanismos e a praxis que determine uma postura de
contemporaneidade e simbiose. Esta praxis procura estabelecer nexos de reflexão
com os processos da tradição associados aos modos de vida das populações, para
quem as respostas são construídas.
A presente investigação através de uma consciência da existência de uma arquitectura
sem arquitectos pretende estudar também casos onde as soluções construtivas do
individuo enquanto utilizador o fez elaborar espaços, que são meros resultados das
necessidades mais imediatas e que por esta via surgem respostas como solução à
sua própria habitação ou equipamentos essenciais.
Nesta necessidade de apoio sem fronteiras surge o papel das entidades, estas têm
revelado um papel imprescindível na promoção, na procura de soluções e respostas
construídas que atendam às necessidades de uma determinada população, em
qualquer ponto do globo.
O estudo do papel das entidades pretende evidenciar a importância destas, enquanto
elo de ligação e articulação entre: projectistas, as sociedades civis para as quais será
realizada
a
intervenção
e
os
respectivos
órgãos
governamentais
ou
não
governamentais. A forma como actuam, a razão da sua motivação no apoio destas
respostas e o que leva a potenciar o reconhecimento dos valores autóctones sociais e
culturais, são conhecimentos indispensáveis à presente investigação.
As respostas surgem através de estratégias e tendências de resposta como soluções
construtivas, tanto para um habitar mínimo onde se evidencia a importância do papel
do arquitecto na estratégia de contornar as condicionantes actuais, ou através de
espaços de repetição, materiais locais, entre outras soluções. Assim como através de
estratégias de soluções construtivas modulares com o processo de autoconstrução
promovido pela arquitectura do individuo enquanto utilizador. Estes processos são
também resultado dos condicionantes económicos, políticos e até mesmo religiosos de
cada país.
A arquitectura desta forma é como uma plataforma de transformação, como um
suporte para novas realidades, modifica valores humanos inerentes ao acto de pensar
e construir a resposta arquitectónica. Com a noção do peso da tradição no cruzamento
com a inequívoca consciência da contemporaneidade dos respectivos autores, o valor
do conhecimento, o domínio das tecnologias e a importância da vontade política na
concretização de soluções adequadas para o problema de uma arquitectura, são as
matérias da presente investigação.
Palavras-chave: Globalização, países emergentes, custos controlados, arquitectura
sem arquitecto, habitar mínimo, transformação da resposta arquitectónica.
PRESENTATION
Construction in the real world:
strategic responses to low-resource architecture
Mariana Flor e Almeida Antunes Alves
In developing societies, the architectural answer to the habitation problem is
sometimes strongly conditioned by extreme resources containment.
The vertigo caused by all the acculturation processes, the globalization effects and the
spread of capitalism logics and idealism are factual and have been relevant factors,
influencing the production of contemporary architecture.
Running in parallel to an almost economically limitless action, we see the need for a
rethinking of architectural practices. The research for adequate living solutions and that
are sustainable in face of concrete realities and the answer to yearnings and logistics
to an enormous set of unflavored populations are on the rise.
It is therefore of relevance to characterize the role performed by architects in the
reconfiguration of living spaces as well as its adjacent or confining spaces. We seek to
understand the mechanisms and the rules that determine a posture of contemporaneity
and symbioses. It is these mechanics and rules that establish reflective connections
with the processes of traditions that are associated to the way of living of populations,
to whom these answers are built to.
The present investigation, through the acknowledging of the existence of a architect
free architecture, seeks to also study cases with solutions that are built by individuals
who are also its users, constructing spaces that are the mere result of their most
immediate needs and that, consequently, appear as answers to their own living or
working necessities.
It is in these boundless support necessities that the roles of the entities appear, as
these entities have been revealing themselves as having a indispensable part in the
promotion, solutions searching and building answers that address the needs of a
determined target population, in every corner of the globe. It is by studying these
entities roles that we mean to show their importance, as they serve as the connecting
bond between the designers, the civilian societies where the interventions are
performed and the respective governmental organs. The way in which they act, their
motivations and the reasons for which they potentiate the acknowledgement of the
social and cultural autochthonous values are of indispensable importance to the
present investigation.
Our answers come through strategies and response tendencies like constructive
solutions, be it for a minimal habitation, where the importance of the architect role is
brought forth in the strategy of circumventing local restraints, or through repetition
spaces, or local materials, among other solutions. They come as well as strategies for
modular constructing solutions, with the auto build process promoted by the individual
architecture as a user. These processes are also the result of economic, political or
even religious constraints of each country.
This form of architecture acts as a transformation platform, as a support for new
realities, is modifying human values that are inherent to the act of thinking and building
architectural responses. The burden of notions of tradition in the crossing of the
unequivocal conscience of the contemporaneity of the respective authors, the value of
knowledge, the mastering of technologies and the importance of political will in the
concretion of adequate solutions to the problem of architecture, these are the topics of
the present investigation.
Keywords: Globalization, emerging countries, controlled costs, architecture without
architects, minimum dwell, transformation of the architectural response.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Ilustração 1 - Alejandro Aravena. Photo Victor Trans. (Aravena, 2014) ...................... 21
Ilustração 2 – Anna Heringer. (Heringer, 2014). .......................................................... 21
Ilustração 3 - Yashar Hanstad e Andreas Grøntvedt Gjertsen. (TYIN tegnestue, 2013,
p. 36) .......................................................................................................................... 21
Ilustração 4 - Diébédo Francis Kéré. (Kéré, 2014) ...................................................... 21
Ilustração 5 – Conjunto Habitacional. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 148) .................... 22
Ilustração 6 – Escola METI. Photo Kurt Hoerbst. (Heringer, 2010, p. 67) .................... 22
Ilustração 7 - Soe Ker Tie Houses. Photo Pasi Aalto. (TYINArchitects, 2009) ............. 22
Ilustração 8 - Centro de saúde de promoção social. (Kéré, 2014) ............................... 22
Ilustração 9 – “Teleférico do Morro do Alemão”. Brasil. (Jauregui, 2014) .................... 27
Ilustração 10 - "Earth lights”. Craig Mayhew and Robert Simmon, NASA. (United States
of America, 2014) ....................................................................................................... 28
Ilustração 11 – “The Dongdaemun Design Plaza”, South Korea. (Zaha Hadid
Architects, 2013) ......................................................................................................... 29
Ilustração 12 – “Threat of famine”. South Sudan. Photo Kieran Doherty. (BBC News,
2014) .......................................................................................................................... 29
Ilustração 13 - Hong Kong has more than 1,000 skyscrapers, giving it an almost
futuristic appearance”. Photo AFP. (BBC News, 2014) ............................................... 33
Ilustração 14 - “Projecto integral da cidade de Masdar, obra de Norman Foster no Abu
Dabi” Fotster & Partners. (Foster, 2013, p. 33) ........................................................... 35
Ilustração 15 – “Shimla in India”. Photo Anna Grayson. (BBC News, 2014) ................ 39
Ilustração 16 - “Rocinha in Brasil”. Photo Emma Salter. (BBC News, 2014) ............... 39
Ilustração 17 – “Shanghai Old Town”.China. Photo Rhoda Richardson. (BBC News,
2014) .......................................................................................................................... 39
Ilustração 18 - Orfanato no Uganda a obra dos Japones Koji Tsutsui, em Rakai.
(Foster, 2013, p. 45) ................................................................................................... 41
Ilustração 19 – “28 Millimeters, Women Are Heroes. Action Favela Morro da
Providência”. Rio de Janeiro, Brasil, 2008. Photo JR’s (Alabaz, 2012) ....................... 43
Ilustração 20 - “Global Observatory Urban, 2001”. (United Nations Human Settlements
Programme, 2010) ...................................................................................................... 44
Ilustração 21 – “Womens´s Center in Kayonza”. (Davis, 2014, p. 46) ......................... 45
Ilustração 22 – “Utopia di terra”. Photo Erik-Jan Ouwerkerk. (Kunsmann, 2012, p. 36)
................................................................................................................................... 45
Ilustração 23 – “Library for the Community of Muyinga”. (BCarchitects, 2014, p. 32) .. 45
Ilustração 24 – “Perspective view of the Dom-ino system, 1914. Source Le Corbusier.”
Photo Manolis Baboussis. (Aureli, 2012, p. 75) ........................................................... 47
Ilustração 25 - “Moscú, la construccion en la épocastalianalas. Las casa prefebricadas
diseñadas por la Academia de arquitecturade la URSS”. (Benevolo, 1996, p. 837) .... 49
Ilustração 26 - “Moscú, la construccion en la épocastalianalas. Las casa prefebricadas
diseñadas por la Academia de arquitecturade la URSS”. (Benevolo, 1996, p. 837) .... 49
Ilustração 27 – “Paneles presentados por Le Corbusier al CIAM de 1930”. (Benevolo,
1996, p. 544) .............................................................................................................. 51
Ilustração 28 – “la construccion treinta años antes, y en el sistema en el tercer Reich”.
(Benevolo, 1996, p. 542)............................................................................................. 52
Ilustração 29 – “W.Gropius, la casa alta estudiada para el barrio de Spandau de 1929”.
(Benevolo, 1996, p. 542)............................................................................................. 52
Ilustração 30 – “Tipo de edificacion de la colonia. P.Schaffer, 1937”. (Benevolo, 1996,
p. 542) ........................................................................................................................ 52
Ilustração 31 – “Zurich, el barrio neubuhl. P. Artaria, M. E. Haefeli, C.Hubacher, W.M.
Moser, E.Roth, H.Schmidt, P Steiger, 1930”. (Benevolo, 1996, p. 653)....................... 56
Ilustração 32 – “Proyecto de un barrio satélite de Moscu, de Ernst May”. (Benevolo,
1996, p. 571) .............................................................................................................. 56
Ilustração 33 - “El tipo de edificacion Existenminimun discutido en los CIAM en 1929”.
(Benevolo, 1996, p. 553)............................................................................................. 60
Ilustração 34 - Zurich, el barrio neubuhl. P. Artaria, M. E. Haefeli, C.Hubacher, W.M.
Moser, E.Roth, H.Schmidt, P Steiger, 1930”. (Benevolo, 1996, p. 653)....................... 61
Ilustração 35 - “Stuttgard, la casa de acero de Le Corbusier em weissenhof.”
(Benevolo, 1996, p. 500)............................................................................................. 61
Ilustração 36 – “La Bouteille. Marsella. Le Corbusier”. (Torres Cueco, 2004, p. 204) .. 62
Ilustração 37 – “Unité d´habitation de Marsella”. Le Corbusier. (Torres Cueco, 2004, p.
210) ............................................................................................................................ 63
Ilustração 38 – “L´Ossature atandard “Dom-ino”, pour éxecution en grande serie”.
(Samuel, 2007, p. 22) ................................................................................................. 66
Ilustração 39 - “L´Ossature atandard “Dom-ino”, pour éxecution en grande serie”.
(Samuel, 2007, p. 22) ................................................................................................. 66
Ilustração 40 – “Gary Chang: Life in 32 sqm” e “Sequence Possibilities”. (Jordana,
2014) .......................................................................................................................... 67
Ilustração 41 - “Utopia di terra”. Photo Erik-Jan Ouwerkerk. (Kunsmann, 2012, Capa)69
Ilustração 42 – Arquitectura tradicional por Leon Krier. (Krier, 1999, p. 182) .............. 70
Ilustração 43 – “Ateliê Gando”, Burkina Faso. Photo Alberto Pottenghi. (Kéré, 2014) . 74
Ilustração 44 – “Ateliê Gando”, Burkina Faso. Photo Alberto Pottenghi. (Kéré, 2014) . 75
Ilustração 45 - Alisamento do terreno. Burkina Faso. (Design Indaba, 2014) .............. 76
Ilustração 46 - Alisamento do terreno. Burkina Faso. (Design Indaba, 2014) .............. 76
Ilustração 47 – Processo gradual do alisamento do piso feito pelas comunidades
autóctones. Burkina Faso. (Design Indaba, 2014) ...................................................... 77
Ilustração 48 – Exemplo edifício apoio sobre pilares. Desenho Thomas Wirz.
(Deplazes, 2010, p. 184) ............................................................................................. 78
Ilustração 49 – Exemplo edifício de apoio em fundações. Desenho Thomas Wirz.
(Deplazes, 2010, p. 184) ............................................................................................. 78
Ilustração 50 - Estruturas em madeira. Soe Ker Tie Houses 2009. Photo Pasi Aalto.
(TYINArchitects, 2014)................................................................................................ 80
Ilustração 51 - Estruturas em madeira. Soe Ker Tie Houses 2009. Photo Pasi Aalto.
(TYINArchitects, 2014)................................................................................................ 80
Ilustração 52 - Sistema Ballon Frame. Desenho Josef kolb. (Deplazes, 2010, p. 97) .. 81
Ilustração 53 - Sistema Reticular. Desenho Josef kolb. (Deplazes, 2010, p. 99) ......... 81
Ilustração 54 - Sistema Entramado. Desenho Josef kolb. (Deplazes, 2010, p. 97) ..... 81
Ilustração 55 - Cobertura do edifício, sistema de ventilação. Photo Kurt Hoerbst.
(Heringer, 2014).......................................................................................................... 82
Ilustração 56 - Paredes em Bambu. Photo Pasi Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014) . 82
Ilustração 57 – Ventilação natural em Makoko Floating School in Lagos. (NLÉ, 2014, p.
20) .............................................................................................................................. 82
Ilustração 58 – “Secondary School”. Dano, Burkina Faso, 2005. Photo Enrico Cano.
(Kéré, 2014)................................................................................................................ 83
Ilustração 59 - “Surgical Clinic and Health Center, Burkina Faso”. Photo Enrico Cano.
(Kéré, 2014)................................................................................................................ 84
Ilustração 60 –“ Alma de Cantaro”. (Kéré, 2014, p. 42) ............................................... 86
Ilustração 61 – “Tierra Aparejada”. (BC architects, 2014, p. 33) .................................. 88
Ilustração 62 – “Hornos Habitados”. (Kundoo, 2014, p. 49)......................................... 89
Ilustração 63 – “Centro de interpretacion, Mapungubwe”. (Rich, 2010, p. 57, 58) ....... 90
Ilustração 64 – “School Library, Gando”. Burkina Faso. Photo Enrico Cano. (Kéré,
2014) .......................................................................................................................... 91
Ilustração 65 – “Caja de Granada”. Desenho do autor. (Campo Baeza, 2009, p. 34) .. 93
Ilustração 66 - Karl Friedrich Schinkel. Kupferstichkabinett / Jörg P. Anders 1836
(Staatliche Museen zu Berlin, 2014) ........................................................................... 96
Ilustração 67 - Hendrik Petrus Berlage. 1914, Zonder plaats. (Nederlands, 2014) ...... 96
Ilustração 68 - Walter Gropius, 1928 Bauhaus-Archiv Berlin. (Bauhaus, 2014) ........... 96
Ilustração 69 – “Bauhaus Building Dessau from north-west”. Photo Lucia Moholy, 1926.
(Bauhaus, 2014) ......................................................................................................... 98
Ilustração 70 - Edifício “Hamilton”. Denver, Colorado. Photo Bitter Bredt. (Studio
Daniel-libeskind, 2014) ............................................................................................. 101
Ilustração 71 – “The Modern Wing Chicago” U.S.A. (Renzo Piano Architects, 2014) 101
Ilustração 72 – “Theatre On The Fly”, Photo Jim Stephenson. (Assemble studio, 2014)
................................................................................................................................. 102
Ilustração 73 - “Theatre On The Fly”, Photo Lewis Jones. (Assemble studio, 2014).. 102
Ilustração 74 - Edifício sem recuperação. (Sobral, 2014). ......................................... 103
Ilustração 75 – “Edifício-Manifesto”. Casa Comunitária Mouraria. Lisboa (Artéria,
2014.) ....................................................................................................................... 103
Ilustração 76 –“Nau de les Arts/Proyectalab”. Benicasim, 2010. (Cirugeda, 2014) .... 103
Ilustração 77 –"O Jurado do Pritzker Alejandro Aravena sobre Shigeru Ban”, Photo
Victor Trans. (Aravena, 2014) ................................................................................... 105
Ilustração 78 - “Naked House”. Saitama, Japan, 2000. (Shigeru Ban Architects, 2014)
................................................................................................................................. 106
Ilustração 79 – “Centro de rehabilitacion in Lambare, Paraguay.” (Benitez, 2013, p. 32)
................................................................................................................................. 107
Ilustração 80 – “Sangamam”, India, 2003. (Anupama Kundoo Architects, 2014)....... 107
Ilustração 81 - Livro “Arquitectura para os pobres”. (Fathy, 2009, capa, p. 73, 103) . 108
Ilustração 82 – Casa Tara em Kashid, 2005. Studio mumbai. (Wilson, 2011, p. 38) . 110
Ilustração 83 – “Action in Kibera Slum, General View, Kenya, 28 Millimeters, Women
Are Heroes”. 2009. Photo JR’s (Alabaz, 2012).......................................................... 112
Ilustração 84 - Colagem da estratégia implementada com casas customizadas,
perspectiva local. Filipe Balestra. (Balestra, 2006) .................................................... 113
Ilustração 85 – “Cabanas primitivas na origem da arquitectura, segundo Chambers”.
(Faria, 2014, p. 75) ................................................................................................... 115
Ilustração 86 – “Women Are Heroes project, Morro da Providência,” Rio de Janeiro,
Brazil, 2008, (Architecture for Humanity, 2012, p. 269) ............................................. 116
Ilustração 87 – “Meter bridge connets the granizal and Santo Domingo. Colombia”.
(Architecture for Humanity, 2012, p. 322).................................................................. 117
Ilustração 88 – “Woman and child in Nagar” e “The 1.5 meter wide dwelling space”.
(Architecture for Humanity, 2012, p. 273, 135) .......................................................... 118
Ilustração 89 – “Hornos Habitados”. (Kundoo, 2014, p. 51)....................................... 119
Ilustração 90 – Logótipo Fundação ICO. (Fundacion ICO, 2014) .............................. 123
Ilustração 91 – “The architect is present”. (Fundacion ICO, 2014) ............................ 124
Ilustração 92 – “Cartoon. The Architect is Present” (Museo ICO, 2014, p. 4) ............ 125
Ilustração 93 – Lógotipo da Holcim Foundation (Holcim Foundation for sustainable
construction, 2014) ................................................................................................... 125
Ilustração 94 – “Global Holcim Award 2012 Gold”. (Kéré, 2014) ............................... 127
Ilustração 95 – Logotipo da Fundação Aga Khan. (Aga Khan Development Network,
2014) ........................................................................................................................ 127
Ilustração 96 – “Islamic Cemetery, Acltah”, Austria, Prémio 2013. (Aga Khan
Development Network, 2014).................................................................................... 130
Ilustração 97 – “Islamic Cemetery, Acltah”, Austria, Prémio 2013. (Aga Khan
Development Network, 2014).................................................................................... 130
Ilustração 98 - Escola primaria no Gando projecto de Francis Kéré. Aga Khan, 2004.
(Aga Khan Development Network, 2014) .................................................................. 132
Ilustração 99 – Escola METI projecto de Anna Heringer. Aga khan, 2007. (Aga Khan
Development Network, 2014).................................................................................... 132
Ilustração 100 – “Hajj Terminal, Jeddah,in Saudi Arabia”, 1983. (Aga Khan
Development Network, 2014).................................................................................... 132
Ilustração 101 – “Mughal Sheraton Hotel in India”, 1980. (Aga Khan Development
Network, 2014) ......................................................................................................... 132
Ilustração 102 – “Moulmein Rise Residential Building in Singapore”, 2007. (Aga Khan
Development Network, 2014).................................................................................... 133
Ilustração 103 – “Alhambra Arts Council in Lahore, Pakistan”. 1998. (Aga Khan
Development Network, 2014).................................................................................... 133
Ilustração 104 – “Los Vilos”. Chile, 2014. (Elemental, 2014) ..................................... 137
Ilustração 105 – “Omicron living rooms”. India, 2014. (Heringer, 2014) ..................... 137
Ilustração 106 – “Barnetraakk. Gran”. 2013. (TYINArchitects, 2014)......................... 137
Ilustração 107 – “Mama Sarah Obama Legacy”. Kenya, 2014. (Kéré, 2014) ............ 137
Ilustração 108 – “Bamboo Shelter”. Ramsar, Mazandaran, Iran 2008. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 76).............................................................................................. 137
Ilustração 109 – “Centre pourle Bien-êtredes Femmes”. Ouagadougou, Burkina Faso,
Africa, 2007. (Architecture for Humanity, 2012, p. 108). ............................................ 137
Ilustração 110 – “Tiuna el Fuerte Cultural Park”. Valle, Caracas, Venezuela, 2010.
(Architecture for Humanity, 2012, p. 176).................................................................. 137
Ilustração 111 – “Mahiga Hope High School Rainwater Court Mahiga”, Nyeri District,
2010. (Architecture for Humanity, 2012, p. 222) ........................................................ 137
Ilustração 112 – “10x10 Housing Initiatives”. Cape Town, 2010. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 146) ............................................................................................ 137
Ilustração 113 – “Svalbard Global Seed Vault”, Norway, 2008. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 234) ............................................................................................ 137
Ilustração 114 – “Favela Painting Project”. Rio de Janeiro, 2012. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 264) ............................................................................................ 137
Ilustração 115 – “Faces of Favelas”. Rio de Janeiro, 2012. (Architecture for Humanity,
2012, p. 268) ............................................................................................................ 137
Ilustração 116 – Pensar com as mãos. Desenho de Campo Baeza. (Campo Baeza,
2011, p. 10) .............................................................................................................. 139
Ilustração 117 - Equipa S.A Elemental, Alejandro Aravena, Víctor Oddó, Gonzalo
Arteaga, Fernando García-Huidobro, Diego Torres, Cristián Martínez, and Juan Cerda.
(Ayyüce, 2011).......................................................................................................... 141
Ilustração 118 - Participação dos indivíduos no desenvolvimento do projecto
Elemental. (Oldadmin, 2011) .................................................................................... 143
Ilustração 119 - Participação dos indivíduos no desenvolvimento do projecto
Elemental. (Oldadmin, 2011) .................................................................................... 143
Ilustração 120 - “Acampamento Ilegal da Quinta de Monroy anterior á intervenção da
equipa Elemental”. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 89) ................................................ 146
Ilustração 121 - Esquema primeiras das soluções propostas pela Equipa Elemental.
(Aravena; Lacobelli, 2012, p. 92-96) ......................................................................... 147
Ilustração 122 – Habitações modular na fase de construção. (Aravena; Lacobelli, 2012,
p. 148) ...................................................................................................................... 149
Ilustração 123 - Planta piso 0 das habitações. Elemental. (Aravena; Lacobelli, 2012, p.
113) .......................................................................................................................... 151
Ilustração 124 - Planta piso 1 das habitações. Elemental. (Aravena; Lacobelli, 2012, p.
113) .......................................................................................................................... 152
Ilustração 125 - Planta piso 2 das habitações. Elemental. (Aravena; Lacobelli, 2012, p.
113) .......................................................................................................................... 152
Ilustração 126 – Espaços projectados pela equipa Elemental. (Elemental, 2014) ..... 152
Ilustração 127 - Espaços projectados pela equipa Elemental. (Elemental, 2014)...... 152
Ilustração 128 - Espaços construídos pelos usuários. (Elemental, 2014) .................. 152
Ilustração 129 - Alçado Norte. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 115) ............................. 153
Ilustração 130 - Corte BB´. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 115) .................................. 153
Ilustração 131 - Exemplos de resposta dos utilitários através de processos de
autoconstrução às possíveis ampliações. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 146 - 156) .. 153
Ilustração 132 - Evolução do projecto da Elemental, Quinta Monroy. (Elemental, 2010,
p. 31) ........................................................................................................................ 154
Ilustração 133 – “Rudrapur na parte Norte de Bangladesh, aldeia com 1500 habitantes
numa área de 1.485km2.” (Heringer, 2014). ............................................................. 155
Ilustração 134 - Desenho planta da aldeia. Desenho Anna Heringer & Eike Roswag,
2005. (Colective Cargo, 2014) .................................................................................. 157
Ilustração 135 - “Ajuda para a Auto-Ajuda”. Photo Kurt Hoerbst. (Heringer, 2010, p. 66)
................................................................................................................................. 159
Ilustração 136 - Desenho da fachada principal. Desenho Anna Heringer & Eike
Roswag, (Heringer, 2014) ......................................................................................... 159
Ilustração 137 - Fachada Ocidental, exibe os materiais utilizados. Photo Kurt Hoerbst.
(Heringer, 2010, p. 67) .............................................................................................. 160
Ilustração 138 – Desenho do corte e planta do piso inferior. Desenho Anna Heringer. &
Eike Roswag. (Heringer, 2014) ................................................................................. 161
Ilustração 139 – Corte explicativo das fundações, das paredes e das lajes. Desenho
Anna Heringer. & Eike Roswag. (Colective Cargo, 2014) ......................................... 162
Ilustração 140 – Planta do piso superior. Desenho Anna Heringer. & Eike Roswag.
(Colective Cargo, 2014) ............................................................................................ 162
Ilustração 141 - Interior da sala do piso inferior. Photo Kurt Hoerbst, 2005. (Colective
Cargo, 2014) ............................................................................................................. 163
Ilustração 142 – Fachada este da escolar METI. Desenho Anna Heringer & Eike
Roswag. (Colective Cargo, 2014) ............................................................................. 163
Ilustração 143 -“Cavernas”. Photo Kurt Hoerbst. (Heringer, 2010, p. 67) .................. 164
Ilustração 144 - Desenho das Fachadas. Desenho Anna Heringer & Eike Roswag,
(Colective Cargo, 2014) ............................................................................................ 164
Ilustração 145 – Treliças pré-fabricadas. (Heringer, 2014) ........................................ 165
Ilustração 146 – Ajuda dos alunos da construção. (Heringer, 2014) ......................... 165
Ilustração 147 - Sala de aula do piso superior. Photo Kurt Hoerbst. (Heringer, 2010, p.
66) ............................................................................................................................ 166
Ilustração 148 – Sala de aula do piso inferior. Photo Kurt Hoerbst. (Heringer, 2014) 166
Ilustração 149 – Zona de plantação da escolar METI. (Heringer, 2014) .................... 166
Ilustração 150 – Fachada Principal. Photo Kurt Hoerbst. (Buchanan, 2012, p. 37) ... 167
Ilustração 151 - “The TYIN-crew together with all the workers involved in the building of
the Soe Ker Tie Houses”. (TYINArchitects, 2014) ..................................................... 168
Ilustração 152 - Orfanato da Aldeia de Noh Bo. Photo Pasi Aalto. (Edna, 2014)....... 169
Ilustração 153 – A aldeia Noh Bo com o projecto das Soe Ker Tie Houses. Photo Pasi
Aalto 2009 (TYINArchitects, 2014) ............................................................................ 172
Ilustração 154 - Fachadas laterais que mostram a tecelagem do bambu. Photo Pasi
Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014) .......................................................................... 173
Ilustração 155 - Tecelagem de bambu. Photo Pasi Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014)
................................................................................................................................. 173
Ilustração 156 - Soe Ker Tie House. Photo Pasi Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014)
................................................................................................................................. 174
Ilustração 157 - Vãos e paredes que permitem entrada de luz. Photo Pasi Aalto, 2009.
(TYINArchitects, 2014).............................................................................................. 175
Ilustração 158 - Entradas de luz Photo Pasi Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014) ..... 175
Ilustração 159 – Corte de uma Soe Ker Tie House. (TYINArchitects, 2014) ............. 175
Ilustração 160 – Planta da aldeia Noh Bo, Soe Ker Tie Houses. (TYINArchitects, 2014)
................................................................................................................................. 176
Ilustração 161 - Interior Soe Ker Tie Houses. Photo Pasi Aalto. (TYINArchitects, 2014)
................................................................................................................................. 176
Ilustração 162 - Imagens das Sou Ker Tie Houses. Photo Pasi Aalto. (TYINArchitects,
2014) ........................................................................................................................ 177
Ilustração 163 - Equipa Kéré Architects, 2005. (Kéré, 2014) ..................................... 179
Ilustração 164 – Plano tridimensional do projecto Aldeia da Ópera. 2009 (Kéré, 2014)
................................................................................................................................. 180
Ilustração 165 – Escola Primaria. Photo Marie Kohler. (Laberenz, 2014).................. 182
Ilustração 166 – Módulos Residenciais. Photo Marie Kohler. (Laberenz, 2014) ........ 182
Ilustração 167 - Imagem do projecto no futuro. 1- Ópera /casa cultural; 2- Escola; 3Restaurante; 4- Centro de saúde; 5- Informações/bar; 6- residências. Kéré
Architecture, 2009. (Kéré, 2014) ............................................................................... 183
Ilustração 168 - Centro de saúde de promoção social. Photo Operndorf Afrika.
(Laberenz, 2014) ...................................................................................................... 184
Ilustração 169 - Projecto enquadrado com a paisagem. Photo Kéré Architecture, 2005.
(Kére, 2014).............................................................................................................. 184
Ilustração 170 – Enfermaria interior. Photo Thierry K. Oueda. (Laberenz, 2014) ...... 185
Ilustração 171 – Pátio exterior. Photo Operndorf Afrika. (Laberenz, 2014)................ 185
Ilustração 172 – Fachada com as diversas aberturas dos vãos. Photo Kéré
Architecture, 2005. (Kéré, 2014) ............................................................................... 186
Ilustração 173 – Exemplo de vãos de diversos tamanhos. Photo Operndorf Afrika,
2014. (Laberenz, 2014)............................................................................................. 186
Ilustração 174 - Parede e laje em construção. Photo Operndorf Afrika. (Laberenz,
2014) ........................................................................................................................ 187
Ilustração 175 - Parede e laje. Photo Operndorf Afrika. (Laberenz, 2014) ................ 187
Ilustração 176 – Planta do projecto. Photo Kéré Architecture, 2013. (Kéré, 2014) .... 188
Ilustração 177 – Cortes AA´ e BB´. Photo Kéré Architecture, 2013. (Kéré, 2014) ..... 188
Ilustração 178 – Resultado do Centro de Saúde com os seus usuários. (Kéré, 2014)
................................................................................................................................. 189
Ilustração 179 – Villa Verde. 484 Viviendas + 3 Sedes Sociales. Chile.2010.
(Elemental, 2014) ..................................................................................................... 229
Ilustração 180 – Rancagua. 206 Viviendas + Sede Social. Chile. 2010. (Elemental,
2014) ........................................................................................................................ 229
Ilustração 181 – Temuco. 159 Viviendas + Sede Social. Chile. 2009. (Elemental, 2014)
................................................................................................................................. 229
Ilustração 182 - Pi-rehuei-co Lake. House 350m2. Chile 2004. Photo Tadeuz Jalocha,
Fe-lipe Combeau (Elemental, 2014) ......................................................................... 229
Ilustração 183 - La Flo-ri-da. House 120 m2. Chile. 1997. (Elemental, 2014) ........... 229
Ilustração 184 - DESI Trainingcenter, Rudrapur, Bangladesh 2008. (Heringer, 2014)
................................................................................................................................. 230
Ilustração 185 - Three Hostels in Baoxi, a village in China. 2014. (Heringer, 2014) .. 230
Ilustração 186 - Training Centre for Sustainability, Morocco.2014. (Heringer, 2014) . 230
Ilustração 187 - Kindergarten for the permaculture community PORET, Zimbabwe.
2013. (Heringer, 2014) .............................................................................................. 230
Ilustração 188 - Majiayao Ceramics Museum. 2014. (Heringer, 2014) ...................... 230
Ilustração 189 - Safe Haven Library .Ban Tha Song Yang, Thailand. 2009
(TYINArchitects, 2014).............................................................................................. 231
Ilustração 190 - Cassia Co-op Training Centre. Kerinci, Sumatra, Indonesia. 2011
(TYINArchitects, 2014).............................................................................................. 231
Ilustração 191 - Klong Toey Community Lantern. Klong Toey, Bangkok, Thailand.
2011. (TYINArchitects, 2014) .................................................................................... 231
Ilustração 192 - Naust paa Aure. Aure, More og Romsdal, Norway. 2011.
(TYINArchitects, 2014).............................................................................................. 231
Ilustração 193 - Lyset paa Lista. Lista, Farsund, Norway. 2013. (TYINArchitects, 2014)
................................................................................................................................. 231
Ilustração 194 – “Primary School Gando”, Burkina Faso, 2001 (Kéré, 2014) ............ 232
Ilustração 195 – “Secondary School Gando”. Burkina Faso, 2011 (Kéré, 2014)........ 232
Ilustração 196 – “Teacher's Housing Gando”. Burkina Faso, 2004. (Kéré, 2014) ...... 232
Ilustração 197 –“School Library Gando”. Burkina Faso. (Kéré, 2014) ....................... 232
Ilustração 198 – “School Extension Gando”. Burkina Faso, 2008 (Kéré, 2014). ........ 232
SUMÁRIO
1. Introdução .............................................................................................................. 21
2. Principais estratégias e tendências de resposta ..................................................... 27
2.1. Enquadramento: arquitectura enquanto resposta construida ........................... 28
2.2. Habitar mínimo: a escassez de meios e de recursos, a racionalização e
flexibilidade ............................................................................................................. 46
2.3. Soluções
construtivas.
Dos
processos
de
autoconstrução
aos
constrangimentos socioeconómicos........................................................................ 68
2.4. Diversidade de respostas. Do mundo global ao homem local. ......................... 85
3. Arquitectura de baixos recursos: enquadramento e perspectivas ........................... 91
3.1. O posicionamento dos arquitectos ................................................................... 92
3.2. Arquitectura sem arquitectos .......................................................................... 110
3.3. Estratégias e actores ..................................................................................... 120
3.4. Arquitectura como plataforma de transformação ............................................ 135
4. Estudos de Caso .................................................................................................. 139
4.1. Elemental – Conjunto habitacional em Iquique, Chile - 2001 .......................... 140
4.2. METI- handmade escola em Rudrapur, Bangladesh - 2005 ........................... 155
4.3. Soe Ker Tie House em Noh Bo Tak, Tailândia - 2008 .................................... 168
4.4. Centro de saúde e promoção social em Laongo, Burkina Faso - 2013........... 178
5. Considerações finais ............................................................................................ 191
Referências .............................................................................................................. 195
Bibliografia ................................................................................................................ 209
Anexos ..................................................................................................................... 211
Lista de anexos......................................................................................................... 213
Anexo A ................................................................................................................ 215
Anexo B ................................................................................................................ 223
Anexo C ................................................................................................................ 227
Anexo D ................................................................................................................ 233
Anexo E ................................................................................................................ 239
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
1. INTRODUÇÃO
A investigação desenvolvida na presente dissertação, com o título, Construção no
mundo real: respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos, procura
enquadrar uma reflexão sobre o pensamento e a praxis de quatro gabinetes de
arquitectura, que tem vindo a desenvolver estratégias projectuais que se configuram
em arquitecturas de baixos recursos.
Sedimenta-se na disciplina de arquitectura uma nova consciência direccionada para a
reflexão e concretização deste tipo de arquitecturas. Esta consciencialização tem sido
promotora de acções concertadas entre arquitectos, decisores políticos e as mais
diversas organizações governamentais e não-governamentais. O sentido destas
parcerias radica na vontade de estabelecer respostas eficazes para esbater as
diferenças que continuam a separar o mundo ocidental e rico de um outro que
continua a viver abaixo ou nos limites da pobreza.
Os quatro arquitectos, dos quatro casos de estudo são: Alejandro Aravena, Anna
Heringer, a dupla TYIN tegnestue com Yashar Hanstad e Andreas Grøntvedt Gjertsen
e Diébédo Francis Kéré.
Ilustração 1 Alejandro Aravena.
Photo Victor Trans.
(Aravena, 2014)
Ilustração 2 – Anna
Heringer. (Heringer,
2014).
Ilustração 3 - Yashar Hanstad e
Andreas Grøntvedt Gjertsen. (TYIN
tegnestue, 2013, p. 36)
Ilustração 4 - Diébédo Francis
Kéré. (Kéré, 2014)
Os projectos eleitos para os referidos caso de estudos, são portadores do
compromisso entre estes arquitectos e as respectivas comunidades. São obras
construídas que demonstram o papel do arquitecto, enquanto definidor da estrutura
formal, espacial e construtiva, pensada com os mínimos recursos. São obras que em
termos da materialização construtiva são potenciadoras da transformação sustentável
do território e das necessidades mais básicas destas comunidades.
Se essa Arquitectura essencial de que falamos utiliza poucos elementos é porque
todos eles são necessários e são verdadeiros. Não sobra nem falta nenhum deles, e
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
21
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
cada um funciona com a máxima intensidade. Dessa verdade surgirá a beleza dessa
Arquitectura. (Campo Baeza, 2013, p. 21)
Os casos de estudo construídos entre 2001 e 2013, estão agrupados nas seguintes
categorias: habitação unifamiliar e equipamentos públicos. Na primeira categoria foram
eleitos o conjunto habitacional em Iquique, realizado no Chile, em 2001 pela equipa
Elemental, e as Soe Ker Tie Houses construídas na Tailândia, em 2008 por TYIN
tegnestue. No que concerne aos equipamentos públicos a escolha recaiu na escola
METI construída no Bangladesh, em 2005, projectada pela arquitecta Anna Heringer e
também o projecto do Centro de saúde e promoção social construído no Burkina Faso,
em 2013 pela equipa do arquitecto Diébédo Francis Kéré.
Ilustração 5 – Conjunto
Habitacional. (Aravena;
Lacobelli, 2012, p. 148)
Ilustração 6 – Escola METI. Photo
Kurt Hoerbst. (Heringer, 2010, p.
67)
Ilustração 7 - Soe Ker
Tie Houses. Photo Pasi
Aalto. (TYINArchitects,
2009)
Ilustração 8 - Centro de
saúde de promoção social.
(Kéré, 2014)
Os casos de estudo estão construídos em contextos geográficos e realidades
civilizacionais muito distintas. Os projectos supracitados localizam-se entre o Chile na
América do Sul, o Bangladesh e na Tailândia no continente Asiático e no Burkina Faso
e no continente Africano. Todos estes projectos são tipologicamente diferentes embora
se possa constatar metodologias e pressupostos construtivos transversais às
propostas e consequentes configurações arquitectónicas das mesmas.
A premissa que confere suporte à investigação desenvolvida, tem como ponto de
partida a apropriação do título do livro, editado em 1973, escrito pelo arquitecto
Hassan Fathy : “Arquitectura para os pobres. Uma experiência no Egipto rural”. A
recorrente referência, ao longo dos diversos capítulos, a esta terminologia, não
significa, uma atitude pejorativa, mas antes a consciência de que existe uma dimensão
ética e social no exercício da arquitectura que rege a pesquisa de respostas
adequadas a esta realidade concreta e bastante actual.
Este livro é um apelo a uma nova atitude para a reabilitação rural. O nível de vida e o
nível cultural dos camponeses extremamente pobres do mundo pode ser melhorado
através da construção cooperativa, o que implica uma nova abordagem à habitação
rural em massa. Há nesta abordagem muito mais do que assuntos puramente técnicos
que dizem respeito ao arquitecto. Há questões socioculturais delicadas e de grande
complexidade, há a questão económica, há a questão da relação do projecto com o
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
22
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Governo, e por ai fora. Nenhuma destas questões pode ser deixada de parte, pois
todas se relacionam entre si, e qualquer omissão distorceria a imagem global. (Fathy,
2009, p. 10)
O exercício da arquitectura vocacionado para a procura de respostas estratégicas para
uma arquitectura de baixos recursos revela nos objectos construídos patamares
singulares de inventiva. São objectos que cruzam naturalmente a vontade de
contemporaneidade dos seus autores com uma expressão e figuração que decorre da
utilização construtiva dos materiais disponíveis. A sua construção estabelece uma
vincada articulação com os lugares e apela à participação activa em todo o processo
entre autores, as necessidades colectivas e as comunidades.
Metodologicamente o encadeamento dos temas ao longo dos capítulos corresponde à
necessidade de articular e cruzar um conjunto de matérias que enquadram o
fenómeno da globalização e a postura ética e social da arquitectura no seu
reposicionamento para responder assertivamente a estas realidades e necessidades
sociais:
No ponto um do segundo capítulo, estabelece-se uma linha de investigação com o
objectivo de circunscrever o papel social que a arquitectura tem vindo a desempenhar
ao longo do século XX e no mundo global. Neste ponto abordam-se os efeitos da
globalização na sociedade ocidental, nas sociedades emergentes e também nas
sociedades com baixos níveis de desenvolvimento. Neste ponto é também abordado a
relevância
da
disciplina
da
arquitectura
enquanto
portadora
de
respostas
comprometidas com o homem e com as comunidades.
No ponto dois do segundo capítulo, procede-se à definição, sumária, dos conceitos de
habitar mínimo, flexibilidade e produção em série. A reflexão sobre estes cruza-se com
a sua inevitável reutilização, como premissas base para a construção das
arquitecturas de baixos recursos
No ponto três do segundo capítulo descrevem-se, sucintamente, as propriedades dos
materiais e técnicas construtivas locais que os autores dos casos de estudo utilizaram
para a configuração dos objectos arquitectónicos propostos.
Ainda neste capítulo, no ponto quatro, são investigadas as questões subjacentes ao
pensamento deste tipo de arquitecturas baseadas em critérios de sustentabilidade,
economia de meios e compromisso com as comunidades. Relacionadas também com
estes pressupostos projectuais, revelando-se a seu modo em cada caso de estudo,
um conjunto de premissas que os referenciam como obras específicas e singulares no
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
23
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
contexto da arquitectura actual. A referida especificidade e singularidade são o
resultado destes objectos arquitectónicos, estabelecerem uma íntima articulação com
o lugar; a capacidade expressiva decorrente da reinvenção construtiva dos materiais
locais; o cruzamento de diversas técnicas e sistemas construtivos e da apropriação
das particularidades de cada comunidade.
Relativamente à estrutura do terceiro capítulo, intitulado: Arquitectura de baixos
recursos: enquadramento e perspectivas, foi também dividido, em quatro subcapítulos.
O ponto um expõe o posicionamento e o exercício da profissão dos arquitectos face a
miríade de realidades em que actualmente se move esta disciplina. O percurso do
arquitecto corresponde ao somatório de todo um conjunto de experiências projectuais
que ao longo da sua vida, o vai colocando em confronto com programas, lugares e
respostas muito diferentes, procurando sempre torna-las construídas. Este percurso
inicia-se nas academias e atravessa toda a sua carreira profissional. Um processo
contínuo induziu a necessidade de estabelecer uma leitura sucinta sobre a história
evolutiva do ensino da arquitectura até aos dias de hoje. Esta permite compreender o
papel dos arquitectos e as transformações que o exercício da profissão foi sofrendo,
na constante adaptação ao espírito e circunstâncias do tempo em que se exerce.
O ponto dois, são abordadas a dimensão visível de uma realidade deste fenómeno
aborda o papel dos não arquitectos na construção de objectos que são a respostas
mais elementar de conformar um espaço de habitar. Neste subcapítulo procura-se
compreender o efeito da disseminação destes aglomerados espontâneos, cuja
mancha territorial define gigantescas cinturas desreguladas e caóticas em torno de
uma
série de cidades de países emergentes
ou com
baixos níveis de
desenvolvimento.
No ponto três, salienta-se um dos mecanismos actuais para a minimização dos efeitos
das carências e necessidades das comunidades. A solução para a resolução, deste
problema integra a cooperação entre arquitectos e os mais diversos organismos
governamentais
e
não-governamentais.
Neste
subcapítulo
descreve-se,
sumariamente, a actividade destas entidades no apoio, na sequente concretização,
divulgação destas arquitecturas de baixos recursos.
No ponto quatro é aferido o papel actuante dos arquitectos na reflexão sobre este
problema que afecta largos espectros da sociedade e o consequente modus operandi
promotor de transformações reais dessas comunidades mais desfavorecidas. Neste
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
24
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
capítulo enquadram-se as respostas estratégicas que, em si mesmas, são
veiculadoras da transformação individual e social.
No capítulo quatro procede-se a leitura crítica dos quatro casos de estudo. Neste
capitulo a leitura crítica de cada caso de estudo procura, enquadrar os processos
mentais dos autores e revelar na resposta construída as soluções adoptadas para
responder as necessidades básicas das comunidades. Em termos metodológicos cada
caso de estudo é estruturado inicialmente pelo esclarecimento das questões que
conduziram as equipas a construir a resposta e os apoios das instituições para a
concretização no terreno.
No capítulo cinco, considerações finais, são elencadas as respostas às seguintes
questões de partida:
- Qual o papel dos arquitectos perante a realidade de um mundo global?
- Como estão a ser redefinidas respostas estratégicas para a concretização de
arquitecturas de baixos recursos?
- Qual o papel do ensino na formação académica e consequente recontextualização
profissional perante a necessidade de ser imperativo, pensar e construir no mundo real
e em zonas com baixos níveis de desenvolvimento e carências de toda a ordem?
- Em que medida estas arquitecturas de baixos recursos são portadoras de níveis de
inventiva e compromisso social?
- Como é que estes autores relacionam, mas respostas construídas as premissas de
espaço mínimo, flexibilidade, produção em serie, materiais naturais e respectivos
métodos construtivos?
- Qual, actualmente, o papel dos Arquitectos?
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
25
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
26
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
2. PRINCIPAIS ESTRATÉGIAS E TENDÊNCIAS DE RESPOSTA
When a new, planned building rises in the slum – be it a Public toilet or sewing cooperative – it immediately becomes a monument. It was conceived by an architect, it
indicates thing are changing: People understand they now have the right to what was
1
only available in the so-called “formal city”
(Jauregui, 2006, p. 218)
Ilustração 9 – “Teleférico do Morro do Alemão”. Brasil. (Jauregui, 2014)
1
Quando um novo edificio, planeado nasce na favela - seja ele uma instalação sanitária pública ou um
complexo cooperativo - ele torna-se imediatamente um monumento. Este foi concebido por um arquitecto,
o que indica que as coisas estão a mudar: as pessoas compreendem que têm agora o direito aquilo que
estava disponível, na chamada "cidade formal”. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
27
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
2.1. ENQUADRAMENTO:
ARQUITECTURA
ENQUANTO
RESPOSTA
CONSTRUIDA
A arquitectura continua a construir-se como disciplina de reflexão e concretização das
respostas para obviar a problemas do homem e da sociedade. Problemas do foro das
necessidades básicas do homem, e para as quais a arquitectura tem um papel
relevante de comprometimento e posicionamento. Hoje é fundamental encontrar
soluções num mundo global. O exercício da arquitectura responde para uma
sociedade
ocidental
mais
estabilizada
económica,
política
e
socialmente.
Paralelamente constatam-se, há alguns anos, a pesquisa e concretização de projectos
alternativos que procuram resolver as necessidades do habitar em países
subdesenvolvidos e numa outra realidade também em países emergentes. Para
questões tão diferentes a arquitectura procura as respostas adequadas às
condicionantes de cada região, às necessidades de cada povo.
O mundo em vias de se tornar uma aldeia global [Ilustração 10] continua a confrontarse com realidades socioeconómicas tão distintas, num processo em que é possível
percepcionar que a evolução é realizada a diferentes velocidades. Numa parte do
globo o desenvolvimento social e económico e a sustentabilidade ambiental são
preocupações vigentes, noutras o processo rumo ao progresso social e ao
fornecimento ao homem de condições mínimas de habitar são ainda uma miragem ou
a acontecimentos pontuais.
Ilustração 10 - "Earth lights”. Craig Mayhew and Robert Simmon, NASA. (United States of America, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
28
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O desenvolvimento nesta época da globalização tornou-se sinónimo de deslocação2
um recurso provável para a acumulação de bens materiais. Deve-se ter consciência de
que nem todas as sociedades fixaram em si objectivos do mesmo tipo.
Definir linhas directrizes para enquadrar o conceito de desenvolvimento será um
primeiro passo para posteriormente abordar, as questões referentes aos países
subdesenvolvidos [Ilustração 11 e 12]. O desenvolvimento assenta num processo no
qual é possível gerir diversas formas de capital que permitam acumular riqueza
nacional. Esse capital pode ser resultante dos recursos que cada país possui, do
capital humano através da actividade das instituições, e apoios diversos, da produção
industrial ao sector da construção. O desenvolvimento assenta numa equação em que
”A ideia é conciliar eficácia económica, respeito pelos direitos sociais e políticos
fundamentais e protecção do ambiente”. (Michailof, 2012, p. 28)
Ilustração 11 – “The Dongdaemun Design Plaza”, South
Korea. (Zaha Hadid Architects, 2013)
Ilustração 12 – “Threat of famine”. South Sudan. Photo Kieran
Doherty. (BBC News, 2014)
O desenvolvimento que actualmente as sociedades ocidentais disfrutam são resultante
de um caminho que necessitou de tempo para a sua concretização nos moldes e
patamares vigentes. Uma abordagem sumária sobre este processo, com início nos
anos 50-603, coloca-se numa fase inicial perante as expectativas geradas pelo modelo
soviético e a influência que teve nos países por ele abrangidos. Assistiu-se neste
2
Deslocam as indústrias dos países de origem em que a mão-de-obra é barata. Deslocam-se as pessoas
à procura de outras oportunidades ou porque a empresa necessita delas noutra zona do globo.
3
”Os anos 60 surgem, nas sociedades ocidentais, como um capitulo importante dessa revolução
emancipadora nas formas e modos de vida quotidiana, revolução que irrompera na nossa história através
dos movimentos libertários, pacifistas, contestatários da época, e que fora em seguida ocultada não só
pelo burocratismo das instituições e pelo conformismo social, mas sobretudo pela tradução catastrófica da
rebelião libertaria em termos ideológicos, politicoides, militares. É uma revolução pluralista que visa
introduzir diversidade na sociedade, a começar pela sua trama mais fina, a que é tecida pelos indivíduos
em todos os aspectos da sua existência, desde os gostos estéticos às crenças religiosas. É uma
revolução pluralista que define uma nova ecologia social, sem centro de controlo, que estaria encarregada
de pensar as soluções mais adaptadas aos problemas planetários cada vez mais prementes, e se
fundaria na convicção de que os problemas e as soluções nascem e transformam-se na interacção
concreta e histórica dos comportamentos individuais e colectivos não homogéneos e não
homogeneizáveis. É uma revolução pluralista que afirma: «não há diversidade sem participação, não há
participação sem diversidade», existência infrapolítica e meta política que pode ser rica de ensinamentos
para as nossas instituições, muito ocupadas a compreender o sentido profundo da existência política do
nosso tempo: «não há liberdade sem solidariedade, não há solidariedade sem liberdade»”. (Morin, Bocchi,
Ceruti, 1991, p. 149-150)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
29
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
período do pós 2º Guerra Mundial à eclosão da economia sustentada pela evolução
industrial que catalisou a construção de grandes infraestruturas as quais funcionaram
como dinamizadoras e impulsionadoras do crescimento económico nestes países.
Este sistema político, tinha como pressupostos a fixação administrativa de preços
assente numa organização estatal.
Os anos 70-804 o mundo é profundamente afectado pela crise petrolífera e pelo
consequente aumento das dívidas soberanas. Uma larga maioria, dos países
endividaram-se, pelo que a correcção teve que ser pela procura a soluções assentes
em ajustamentos estruturais, com programas de estabilização elaborados com o apoio
das agências internacionais (FMI). Estes programas reformadores conduzem a
excessos dramáticos5.
Durante a década de 90, a política desperta para o problema social decorrente do
ajustamento estrutural que exacerba a pobreza em vez de a erradicar. É o regresso à
luta contra a pobreza e a reabilitação social. Em 2000 alguns países descuraram o
crescimento económico em prol do fortalecimento do sector social em vigor. Em 2005
assiste-se
ao
retorno
do
crescimento
económico
alicerçado
nas
grandes
infraestruturas, como portos, ligações rodoviárias, ferroviárias incrementando a
comunicação entre países e também a ”noção de qualidade do crescimento passando
o crescimento “bom” a ser um crescimento «pros-pobres»” (Michailof, 2012, p. 31).
Torna-se um assunto social, delegando a preocupação desse crescimento que passa
a estar a cargo de instituições vocacionadas para a procura de soluções eficazes para
o problema da pobreza nestes países.
A crise financeira económica internacional de 2008 provocou uma revisão profunda no
modo como olhamos e nos relacionamos no mundo global. A ameaça latente de
decadência de grandes instituições financeiras, o resgate dos bancos por parte dos
4
“As recessões dos anos 70 reorientam os gastos públicos do apoio ao consumismo dos anos 60 para o
apoio à actual acção conjugada das economias deficitárias. Uma resposta interessante à crise foi a
invenção do refinanciamento da divida, que aconteceu quando o Brasil se recusou a pagar os juros da
sua divida nacional. Isto implicou a aquisição de parte da divida para fazer crescer as concessões fiscais,
descontos e privilégios de forma a criar equidade na industria local. Esta é uma verdadeira inovação, pois
combina bom sentido comercial- proteger um investimento que de outra maneira estaria perdido – com a
ajuda a países em vias de desenvolvimento. A gestão de crise é particularmente valiosa em termos de
transição. A transição hoje é entre a chamada «história do mundo ocidental» e a «história da terra». Com
as comunicações a viajar à velocidade do pensamento, as economias estritamente locais não fazem mais
sentido que as ecologias estritamente locais. Em cada segundo que passa, estamos ligados uns aos
outros por acontecimentos tão globais como o tempo. As nossas empresas e as suas crises ajustam-se
muito bem neste cenário- e ainda melhor quando os executivos percebem em que ponto, estão no
esquema mais largo, no contexto mais amplo”. (Kerckhove, 1995, p. 114-115)
5
“Periodo thatcheriano e Reaganiano […] em particular o sacrifício escandaloso dos programas sociais e
do esquecimento”. (Michailof, 2012, p. 30)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
30
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
governos nacionais e a crise nos mercados de acções condicionou a acção de um
conjunto de países do sul da Europa. (Michailof, 2012, p. 31).
Apesar de todas as vicissitudes que atravessaram o século XX e as primeiras
décadas do século XXI, globalmente o mundo continua a desenvolver-se sustentado
num crescimento económico significativo. A estabilização da Europa e dos Estados
Unidos, as robustas economias de alguns países emergentes (China, India, Brasil,
entre outros) pressupõem que o bem-estar socioeconómico pode ser para todos. Os
países estão cada vez mais unidos pela dependência de trocas económicas. Acresce
a esta realidade a noção de que são imparáveis os processos de aproximação,
potenciados pela globalização numa perspectiva da mundialização6. ”Um mundo que
se pretende global lança estímulos e anti-estímulos que activam o processo solitário”
(Rodrigues, 2002, p. 94).
A actual sociedade está confrontada com processos de aculturação transnacionais,
com crises económicas cíclicas resultantes de uma miríade de realidades
socioeconómicas em mutação. A globalização acarreta a redefinição de mentalidades
num mundo sem fronteiras7. Esta circunstância abriu portas às trocas comerciais e
6
A mundialização é um tema de reflexão de Edgar Morin: ”Os problemas fundamentais são planetários e
paira doravante sobre a humanidade uma ameaça de ordem planetária. Devemos pensar em termos
planetários não só relativamente aos males que nos ameaçam, mas também no tocante aos tesouros
ecológicos, biológicos e culturais que se tem de salvaguardar : […] as tomadas de consciência ecológicas
induzem-nos a nada abstrair do horizonte global, a tudo pensar na perspectiva planetária. Do mesmo
lance somos levados a recolocar o problema do desenvolvimento rejeitando a noção tão grosseira e tão
bárbara que reinou durante muito tempo, quando se julgava que a taxa de crescimento industrial
significativa o desenvolvimento humano, moral, mental, cultural, etc. (quando a verdade é que, nas
nossas civilizações ditas desenvolvidas, há um atroz subdesenvolvimento cultural, mental e humano)
Quis-se dar este modelo aos países do terceiro Mundo. A palavra “desenvolvimento” deve ser
inteiramente repensada e complexificada. Eis chegado o momento de o problema ecológico se juntar ao
problema do desenvolvimento das sociedades e da humanidade no seu todo”. (Morin, Bocci, Ceruti, 1991,
p.188-189)
7
Mundo sem Fronteiras explicado segundo Jean- François Lyotard: “Ao considerar a mudança
considerável à qual é submetida a nossa cultura, observaremos o quanto, analogicamente, as novas
tecnologias estão a libertar o bloqueio construído pela vida dos humanos na terra. As etnoculturas foram
durante muito tempo esses dispositivos de memorização da informação graças aos quais os povos tinham
possibilidade de organizar o seu espaço e o seu tempo. Eram nomeadamente a forma pela qual
multiplicidades de tempo (de “vezes”) diferentes podiam ser reunidas e conservadas numa memória única
(B.Stiegler). Elas próprias consideradas technai, permitiam a colecções de indivíduos e de gerações a
possibilidade de dispor de verdadeiros stocks de informações, através da duração e da extensão.
Produziram nomeadamente essa organização especifica da temporalidade que nomeamos narrativas
históricas. Existem várias maneiras de contar uma história, mas a narrativa enquanto tal, pode ser
considerada como um dispositivo técnico, o qual dá a um povo os meios para armazenar, ordenar e
relembrar as unidades de informações, ou seja, os acontecimentos. Mais precisamente, as narrativas são
como filtros temporais cuja função é transformar a carga emocional ligada ao acontecimento, em
sequências de unidades de informações susceptíveis de engendrar enfim algo parecido com o sentido”
(Lyotard, 1997, p. 69-70). Definição complementar por Paul Virilio: ”Com efeito, a modificação das
nações habituais do espaço e do tempo alargou o princípio da relatividade à antiga noção de superfície,
levando a substitui-la pela noção de interface, conceito mal-amado que todavia instaura a superfície na
sua relação mediática, convertendo-a num “face-a-face”. Toda a superfície, independentemente das suas
dimensões, ínfimas ou gigantescas, não tem doravante existência objectiva senão na e pela sua relação
com a observação, do pondo de vista de um observador qualquer. Não é já pois precisamente o uso que
qualifica o espaço, mas acima de tudo a visão, o olhar.” (Virilio, 1993, p. 57)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
31
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
culturais8, contribuindo também para o surgimento de novas realidades e de situações
existentes que necessitam de se aproximar. É patente ainda uma significativa
décalage socioeconómica no actual mundo global. A proximidade entre comunidades,
a comunicação sem barreiras, o acesso em tempo real ao que se passa nas regiões
mais recônditas, a abertura de novas possibilidades ao estabelecimento de níveis mais
elevados no que respeita a vida dos homens deve constituir-se como objectivo comum
para progressivamente, esbater todo o tipo de diferenças.
A globalização infere um processo no aprofundamento internacional da integração
económica, social, cultural e política, cujas consequências totais estão ainda por
aferir9.
A globalização é um fenómeno tanto abstracto como efémero que parece cobrir todo o
espectro da realidade, no sentido em que existem tantos elementos positivos como
negativos associados a ela, que nesta nossa rotina parece estar influenciada por ela.
(Ibelings, 1998, p. 9)
O fenómeno da globalização tende a despertar diferentes pontos de vista na opinião
pública10, a favor ou de oposição diametral. A arquitectura11 não está imune a este
8
Na perspectiva da redefinição dos termos cultura e culturas Edgar Morin afirma: ”A cultura reúne em si
um duplo capital: por um lado, um capital técnico e cognitivo – de saberes e de saber-fazer -, que em
princípio, pode ser transmitido a qualquer sociedade, e, por outro lado, um capital específico, que constitui
os traços da sua identidade original e alimenta uma comunidade singular em referência aos seus
antepassados, aos seus mortos, às suas tradições. O conjunto constitui o sistema generativo duma
sociedade sapiental; por meio de regras, de normas, de proibições, de quase-programas, de estratégias,
esse sistema controla a existência fenomenal da sociedade, de forma a assegurar a manutenção da
complexidade social, e autoperpetua-se através da sucessão das gerações, reproduzindo-se em cada
individuo”. (Morin, 1988, p. 165)
9
As consequências da globalização nas palavras de Claudio Magris: ”As respostas intolerantes às
transformações do mundo são perigosíssimas e bárbaras e impedem gravemente – com bloqueios de
todo o género – este processo de formação de uma nova e mais autêntica universalidade; um processo
exaltante, porque pela primeira vez na história, através de um dialogo para além de todas as fronteiras,
está nascendo ou poderia nascer, embora no meio de mil perigos e de horrendas distorções, uma
universalidade realmente universal, expressão das civilizações de toda a Terra e não só do Ocidente ou
do Oriente […] Desde suas origens, a cultura ocidental tem posto o acento mais no individuo do que na
totalidade; do conceito estoico e cristão de pessoa ao direito romano, das garantias do liberalismo e da
democracia à liberdade da necessidade propugnada pelo socialismo, o individuo – com a sua
singularidade insubstituível – é o protagonista, aquele que o Evangelho ensina a amar, que Kant
considera o fim e nunca um meio, cujas liberdades inalienáveis o Código tutela e cujas paixões a literatura
poe no centro do mundo. Este primado do individuo pressupõe o princípio de igual dignidade e iguais
direitos de todos os homens e pressupõe, portanto, a reciproca tolerância das diferenças e do diálogo
entre as culturas, entre sistemas de valores às vezes até contrastantes. Os crescentes contactos entre
povos culturais diferentes, destinados a aumentar, constituem um enriquecimento vital, mas poderão criar
situações difíceis, em que a opção entre o devido relativismo cultural e a afirmação de valores
irrenunciáveis poderá colocar-se dramaticamente. As gentes provenientes de outras culturas deverão
tornar-se europeias conservando a sua peculiaridade, sem serem brutalmente homologadas ao nosso
modelo. Só se a Europa for capaz de realizar com firmeza e abertura esta tarefa, poderá continuar a
desempenhar, de forma nova, o grande papel que tem desempenhado na história do mundo. Não
devemos iludir-nos de que seja uma tarefa fácil e que os obstáculos a este processo provenham apenas
regressivos bloqueios mentais ou de obtuso racismo. Só se não se menosprezarem as dificuldades
objectivas se pode esperar supera-las. Quase todas as diferenças – de usos, costumes, tradições, valores
– podem e devem ser superadas, contra todo o bloqueio estúpido e rancoroso, num diálogo fraterno.”
(Magris, 2006, p. 12-14)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
32
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
processo generativo. O exercício da profissão no ocidente e em alguns países
emergentes, simboliza a superioridade cultural, económica e técnica do mundo
desenvolvido. O cerne da mudança em curso, embora a diferentes velocidades e alvo
de percalços, tenderá a assentar no entendimento que os mecanismos de
desenvolvimento sociais e económicos estão para além da simples macro economia
corrente. A arquitectura construída, que continuamente vai surgindo nos dias de hoje,
espelha um exercício em que a multiplicidade formal, a estravagância imagética e a
espectacularidade das estruturas arquitectónicas representam o auge do primeiro
mundo e de algumas economias que revelam uma enorme dinâmica industrial e
liquidez económica (China)12 [Ilustração 13].
Ilustração 13 - Hong Kong has more than 1,000 skyscrapers, giving it an almost futuristic appearance”. Photo AFP. (BBC News, 2014)
10
A opinião publica a que nos referimos explicada por Edgar Morin: ”Esta unidade do planeta
reconstituiu-se à escala humana desde a descoberta da América. Cristóvão Colombo fez entrar a
humanidade na era planetária. A partir dessa época, a humanidade em diáspora no decurso de sessenta
mil anos de evolução achou-se em intercomunicação cada vez mais estreita. Para o melhor e para o pior,
tudo o que advém numa parte do globo tem um alcance planetário. Todo o devir local esta cada vez mais
em inter-retroacção no e com o contexto planetário global. Mas, ao mesmo tempo que se multiplicaram
novas solidariedades, multiplicaram-se igualmente os antagonismos e as sujeições. Neste sentido,
estamos ainda na “idade de ferro da era planetária”” […] ”Sabemos agora que o pequeno planeta perdido
é mais que um habitat: é a nossa casa, home, heimat, é a nossa mátria e, mais ainda é a nossa Terrapátria” (Morin, Bocchi,Ceruti, 1991, p. 190)
11
”A arquitectura é um bem essencial mas vai se destacando por necessidade de sobrevivência
intelectual dessa mesma sociedade.” (Rodrigues, 2002, p. 94)
12
O crescimento da China explicado por Serge Michailof: ”Há 40 anos condenados à fome pelos
melhores especialistas (como o prémio Nobel Gunnar Myrdal), a China e a Índia são agora grandes
potências à escala internacional, desempenhando um papel de primeiro plano nas reuniões dos G-20. O
seu sucesso, ainda recente, está ligado à adesão à economia de mercado e ao êxito das políticas de
liberalização económica que adoptaram a partir de meados dos anos 80, abandonando definitivamente o
modelo soviético que até então as inspirara. O seu crescimento prodigioso é, contudo, acompanhado de
grandes fragilidades: desigualdades regionais e sociais – A China e o Nepal partilham o recorde em
matéria de desigualdades sociais na Asia -, destruições ambientais – segundo um relatório recente do
Banco Mundial, 750 mil chineses morreriam prematuramente devido à poluição.” (Michailof, 2012, p. 3334).
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
33
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A delimitação da definição de globalização não é una, mas uma reflexão heterogénea.
A perspectiva de cada autor consubstancia a delimitação desta realidade, respectivas
expectativas e/ou consequências. Reflexões sobre este tema têm sido também
matéria investigada pelos arquitectos. Todas as alterações, emergências e
contaminações no seio das comunidades interferem no presente exercício da
arquitectura. A praxis deixou de estar confinada às fronteiras dos países de origem
dos arquitectos estando disseminado pelo globo.
O arquitecto responde projectualmente, cada vez mais, para um mundo sem
fronteiras, embora mantendo as especificidades das civilizacionais. A proliferação de
perspectivas e posicionamentos sobre este tema reflecte a dificuldade em precisar os
limites deste conceito. A procura de circunscrever a acção e as consequências da
globalização, no pensar e fazer arquitectura, introduz nesta pesquisa a necessidade
de descodificação de uma série de conjecturas epistemológicas. Nesta sequência,
sem se pretender ser exaustivo ou selectivo, elegeram-se algumas reflexões que
contribuem para enquadrar o âmbito e a abrangência desta nova realidade e a
consequência no exercício da arquitectura:
A globalização segundo o arquitecto Jorge Gonçalves: ”o termo globalização é
sobretudo, adoptado para tratar questões económicas e financeiras sendo substituída
por pós-modernidade quando o assunto remete para matérias culturais, individuais ou
sociais. Pode assim concluir que o pós-moderno é a face sociocultural da
globalização”. (Neves, 2002, p. 31)
As questões e a perspectiva do arquitecto Luís Santiago Baptista: ”De que falamos
quando nos referimos a globalização? Quais as suas consequências em relação ao
domínio da arquitectura? A noção de globalização está associada a duas utopias
fundamentais da modernidade: a utopia capitalista e a utopia comunicacional. Por um
lado a utopia capitalista pressupõe a progressiva satisfação total das necessidades
materiais da humanidade […] Por outro lado, a utopia comunicacional revela-se através
da mediatização generalizada da sociedade e consequente experiência de “fim de
história” ”. (Neves, 2002, p. 45 - 46)
Para o arquitecto Paulo Brito da Silva: ”A globalização não é mais do que a difusão e
expansão que o sistema de convenções preponderantes, denominado como o
inumano, promove a si mesmo. Este inumano globalizado, como observa Lyotard, não
precisa de nenhuma finalidade, nem está dominado por uma ideia como, por exemplo,
o bem comum ou liberdade. Apenas se difunde segundo a sua dinâmica interna.”
(Neves, 2002, p. 63)
Outra leitura é a proposta pelo do arquitecto Norman Foster que aponta para: ”La
globalización no es, así, algo nuevo; de una manera u otra, siempre ha estado con
nosotros. La diferencia es que hoy, gracias a los avances en las comunicaciones y la
tecnología, estamos mejor conectados que nunca. El reto actual consiste, por tanto, en
aprovechar el poder de esta comunidad internacional cada día más próspera para
mejorar la vida de los más necesitados. Esto requiere una globalización concebida en
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
34
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
otro sentido: la combinación de la voluntad política, el uso de los recursos, el diseño y
13
la técnica con el fin de abordar estas cuestiones en todo el mundo a la vez.” (Foster,
2013, p. 33) [Ilustração 14].
Ilustração 14 - “Projecto integral da cidade de Masdar, obra de Norman Foster no Abu Dabi” Fotster & Partners. (Foster, 2013, p. 33)
As sociedades contemporâneas possuem mecanismos geradores de necessidades
essenciais ou supérfluas associadas ao tão proclamado progresso14. Estas são
induzidas pelos media, através de estímulos rápidos e rotineiros, com o objectivo de
aumentar o consumo. (Neves, 2002, p. 45)
Num mundo em mutação o valor da imagem15 veio alterar o modo, como
percepcionamos e hierarquizamos as nossas necessidades. A arquitectura não está
imune a este fenómeno pelo que a proliferação de imagens influencia a genealogia
dos projectos. Metodologias projectuais reflectem níveis de uniformização, assim como
13
A globalização não é, portanto, algo de novo; de uma forma ou de outra, sempre esteve presente. A
diferença é que hoje, graças aos avanços nas comunicações e da tecnologia, estamos mais conectados
do que nunca. O desafio actual é, portanto, aproveitar o poder desta comunidade internacional, mais
próspera a cada dia para melhorar a vida dos mais necessitados. Isso exige uma globalização concebida
de outra forma: a combinação de vontade política, a utilização de recursos, design e tecnologia, a fim de
abordar estas questões no mundo, ao mesmo tempo. (Tradução Nossa, 2014)
14
Para o arquitecto Luís Santiago Baptista: “O progresso tornou-se uma espécie de fatalidade, “rotinizouse”; o novo na ciência, na técnica, na indústria, significa a pura e simples sobrevivência destas esferas de
actividade.” (Neves, 2002, p. 45)
15
O efeito de sedução, atribuído à predominância de uma cultura da imagem é na perspectiva de Gilles
Lipovetsky consequência do facto de: ”a sedução tornou-se o processo geral que tende a regular o
consumo, as organizações, a informação, a educação, os costumes. Toda a vida das sociedades
contemporâneas é doravante governada por uma nova estratégia que destrona o primo das relações em
proveito de uma apoteose das relações de sedução […] a sedução é destruição cool do social através de
um processo de isolamento […] com o reino dos media, dos objectos e do sexo, cada individuo se
observa, se testa, se vira mais para si próprio à espreita da sua própria verdade e do seu bem-estar,
tornando-se responsável pela sua vida, devendo gerir o melhor possível o seu capital estético, afectivo,
físico, etc. No centro do deserto social ergue-se o individuo soberano, informado, livre, prudente
administrador da sua vida.” (Lipovetsky, 1983, p. 17, 23)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
35
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
as tecnologias construtivas e os próprios materiais, num processo que induz respostas
de matriz idêntica e aparentemente sem lugar definido:
Referências ideológicas, simbólicas e fenomenológicas foram suplantadas por uma
atitude pragmática que encara os lugares, apenas como suporte espacial e formal
neutro. O resultado é uma crescente uniformização e nomadização de linguagens
arquitectónicas e uma espécie de padronização construtiva. (Neves, 2002, p. 9)
A globalização acarreta a transformação da memória das cidades16, dos lugares17 e da
sociedade. As cidades têm vindo a ser reconfiguradas com arquitecturas auto
descritas. Surgem novos espaços públicos, que incorporam diversas funções, como
escritórios e outras funções vocacionadas exclusivamente para o consumismo18. São,
normalmente, estruturas edificadas de grandes dimensões e visibilidade servindo de
suporte à sociedade de consumo19. Estas realidades construtivas têm conduzido a que
os lugares vão adquirindo outra identidade. O espaço urbano gere-se na relação entre
o património histórico e a mudança económica e social, acabando por originar um
lugar camuflado por imagens de marcas aceites por uma sociedade que vive cada vez
mais isolada na esfera do trabalho e da individualização20.
16
Memória das cidades exposta por Josep Maria Montaner: ”A essência das cidades não está enraizada
somente em factores fundamentais, produtivos ou tecnocráticos. Elas são feitas de diversos materiais,
entre eles: a representação, os símbolos, a memória, os desejos e os sonhos. É a superposição contínua
dos diversos estratos que estruturam toda a cidade, palco da diversidade e pluralidade, o fenómeno que
não é possível interpretar de maneira unívoca […] Toda a colectividade necessita de alguns lugares
arquetípicos carregados de valores simbólicos; se a cidade não os oferece, estes são criados pelos
grupos sociais. Todo conglomerado humano necessita viver em um ambiente configurado por limites,
portas, pontes, caminhos e vazios. Deseja lugares de relação como praças, mercados e centros
comerciais.” (Montaner, 1997, p. 157,161)
17
Memória dos lugares explicada por Josep Maria Montaner: ”Os conceitos de espaço e de lugar,
portanto, podem ser diferenciados claramente. O primeiro tem uma condição ideal, teórica, genérica e
indefinida, e o segundo possui um carácter concreto, empírico, existencial, articulado, definido até os
detalhes. O espaço moderno baseia-se em medidas, posições e relações: é quantitativo; desdobra-se
mediante geometrias tridimensionais; é abstracto, lógico, científico e matemático; é uma construção
mental. Ainda que o espaço fique sempre delimitado - como sucede de forma tão perfeita no espaço
tradicional do Panteon de Roma ou no espaço dinâmico do Museu Guggenheim de Nova Iorque -, pela
sua própria essência tende a ser infinito e ilimitado. Ao contrário, o lugar é definido por substantivos, pelas
qualidades das coisas e dos elementos, pelos valores simbólicos e históricos; é ambiental e até
relacionado fenomenologicamente com o corpo humano”. (Montaner, 1997, p. 31-32)
18
Definição de consumo para Josep Maria Montaner: ”podemos situar os chamados fenómenos nãolugares, o fenómeno que Marc Auge qualificou como espaço da supermodernidade e do anónimo,
definido pela superabundância e o excesso. São espaços relacionados sempre com o transporte rápido, o
consumo e lazer que se contrapõem ao conceito de lugar das culturas baseadas em uma tradição
etnológica localizada no tempo e no espaço, radicadas na identidade entre cultura e lugar, na noção de
permanência e unidade […] Nos grandes centros comerciais, o vazio da praça tradicional como lugar de
comunicação é substituído completamente pelos objectos de consumo no espaço da competitividade e do
anonimato.” (Montaner, 1997, p. 45)
19
A sociedade de consumo para o arquitecto Luís Santiago Baptista: “Podemos entender sociedade de
consumo como derivação lógica dos mecanismos produtivos do próprio capitalismo”. (Neves, 2002, p. 45)
20
A individualização presente na sociedade e explicada por Gilles Lipovetsky: ”a degradação da
sociedade, dos costumes, do individuo contemporâneo da época do consumo de massa, a emergência de
um modo de socialização e de individualização inédito […] quando o individuo deixa de ser meio de um
fim exterior e passa a ser considerado e a considerar-se como fim último, as instituições sociais perdem o
seu halo de sagrado; tudo o que procede de uma transcendência inviolável e se dá numa heteronomia de
natureza vê-se a mais breve ou mais longo prazo minado por uma ordem social e ideológica cujo núcleo
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
36
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Outras consequências resultantes da manifestação do espírito dos tempos radicam na
circunstância do núcleo familiar se deparar com o número decrescente de indivíduos,
a natalidade é muito inferior ao passado e da contínua evolução dos cuidados de
saúde, possibilitam uma maior longevidade dos indivíduos, tendo como reverso o facto
de a população ser cada vez mais envelhecida. Estes factos tendem a alterar,
novamente, a consciência do mundo ocidental em relação às suas necessidades e
modos de as garantir, sem perder os padrões adquiridos em termos de qualidade de
vida. (Michailof, 2012, p. 32).
O mundo Ocidental ao desenvolver-se numa lógica global possibilitou a criação de
redes de acessibilidades transnacionais, estimulando a concretização de diversificadas
redes de partilha entre grupos socioeconómicos, eliminando fronteiras, minimizando
embates culturais, e incrementando estratégias nacionais, ou supranacionais (EV)
para o seu desenvolvimento. A emergência desta consciência permite uma maior
abertura a um mundo, sem fronteiras, que no caso concreto da arquitectura abre
portas para a elaboração de projectos em qualquer parte do mundo, cria
oportunidades de emprego, contactos com outros sistemas de pensamento e provoca
mudanças na vida dos sujeitos e das comunidades.
Actualmente no mundo ocidentalizado parece ser possível concretizar quase todos os
tipos de projectos (económicos, industriais, arquitectónicos). As técnicas e
correspondentes tecnologias evoluem com uma rapidez desmedida, colocando os
individuos perante uma realidade com dois níveis distintos:21 Num primeiro nível a
evolução continuada das sociedades desenvolvidas em contraponto com um segundo
nível onde essa mesma realidade é assente em processos de desenvolvimento não
suportados na sustentabilidade. Esta segunda realidade promove apenas crescimento
que obedece, numa primeira instância, à satisfação das necessidades mais básicas.
A vitória da livre troca planetária deveria trazer consigo crescimento, estabilidade e
redução da pobreza. Todavia, o resultado em todo o mundo foi, em demasiados casos,
já não é o além, mas o individuo autónomo em si próprio. A sociedade homogénea de seres iguais e livres
é indissociável, na sua era triunfante, de um conflito aberto e violento relativo à organização da
sociedade.” (Lipovetsky, 1983, p. 7, 200). O conceito de individuo para Norbert Elias: ”O conceito de
«individuo». Este conceito tem hoje, antes do mais, a função de exprimir que cada pessoa no mundo é,
ou deve ser, um ser autónomo, que se rege a si próprio, e, ao mesmo tempo, que cada pessoa se
distingue ou, talvez também neste caso, deve distinguir-se de determinada forma, de qualquer outra
pessoa […] O facto de se atribuir um valor mais elevado àquilo que distingue as pessoas umas das
outras, ou seja à sua identidade do Eu, do que àquilo que eles tem em comum, ou seja à sua identidade
do nós, é uma característica da estrutura das sociedades mais evoluídas dos nossos tempos […] em
fases de evolução anteriores, a identidade do Nós tem, muito frequentemente, a primazia sobre a
identidade do Eu.” (Elias, 1993, p. 178)
21
Nesta equação considera-se, em paralelo, o salto protagonizado por um conjunto de países,
considerados genericamente como emergentes, que possuem recursos e capacidade económica para
nivelarem alguns dos seus padrões pelas regras da sociedade capitalista/consumista.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
37
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
o agravamento da miséria, a precariedade, a incerteza quanto ao futuro e até o risco,
que se julgava desaparecido, das grandes fomes. (Lipovetsky, 2008, p. 44)
Esta dicotomia evolutiva num mundo globalizado coloca a arquitectura perante a
condição de reinventar a praxis22. Confirma-se ser premente, para um conjunto de
sociedades, a arquitectura definir soluções que visem obviar e resolver os problemas
relacionados com o habitar mínimo das respectivas populações. A habitação e
consequente espaço doméstico, com todas as condições de habitabilidade, potenciam
o desenvolvimento dos povos.
A casa, como objecto, encerra em si, um conjunto de tradições, modelos, conceitos,
categorias; remete-nos para uma ancestralidade, para o habitar, para o sonho, para a
família. Sempre foi objecto de estudo protagonizando as mais diversas analises.
Resume por isso, com algum rigor, a evolução da arquitectura desde os tempos mais
remotos. Nela, encontramos as origens da casa, o “mito” da casa originária, ou,
segundo Quatremere de Quincy, a caverna, a tenda e a cabana. Foram inúmeros os
tratadistas que apresentaram as suas representações da cabana primitiva, desde
23
Vitruvio a Marc Laugier, passando por Viollet-le-Duc e Jean Nicolas-Louis Durand.
(Baptista, 2011, p. 27)
Apesar de actualmente ser um termo que se vulgarizou, persistem dificuldades em
precisar rigorosamente o conceito de globalização.
Reconhecidas as suas
manifestações estão, de acordo com o artigo de Maria João Telles Grilo publicado na
J.A.- Ser Populista em 2009, por avaliar as consequências no que se refere ao efeito
deste fenómeno nas grandes cidades e na vivência das suas populações:
Falar dos condicionalismos de uma globalização rápida é falar da capilaridade das
problemáticas cada vez mais comuns em cidades metropolitanas de três quartos do
mundo, alvéolos humanos que albergam milhões de pessoas, com percentagens
significativas, em todas elas, de uma pobreza estrutural cada vez mais alargada. (Grilo,
2009, p. 110)
Os graves problemas e desafios com que as sociedades e os povos se debatem
repercutem-se em termos da ordem mundial. Algumas cidades são neste momento
resultado do crescimento exponencial, tendendo a tornarem-se cidades genéricas24.
22
Significado de praxis segundo Maria João Madeira Rodrigues: ” prática, acção em geral, por oposição
a teoria. Equivalente a acção e metodologia de composição em arquitectura.” (Rodrigues, 2002, p. 99)
23
De forma a completar a citação: “O individuo aprisiona a casa como o lugar íntimo do seu habitar,
legitimando-a como lugar de morada e de de-mora sobre a Terra […] A arquitectura na sua constituição
mais elementar, delimitada por chão, paredes e tecto, define o espaço, tornando-o interior e exterior, finito
e infinito; revela os limites físicos, marca o território. Estes três elementos básicos formam a pele que
aprisiona a luz e a sombra, o côncavo e o convexo. A parede, como plano de uma divisão espacial, tendo
em conta as funções programáticas, é um elemento intemporal da arquitectura […] é o reflexo da vivência
do Homem, das dinâmicas e dialécticas próprias da vida, que serenamente repousam nas formas deste
abrigo primordial. É aqui que se começa a ser abrigado, os limites do abrigo – a casa -, através da sua
realidade, acolhe pensamentos e sonhos, permitindo pensar o passado, viver o presente e projectar o
futuro”. (Baptista, 2011, p. 27)
24
Referencia ao livro: “Cidade genérica” do arquitecto Rem Koolhas, no ponto 1.6, afirma que a cidade
genérica é: “libertada da clausura do centro, do espartilho da identidade. A cidade genérica rompe com o
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
38
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Estas são objecto de processos de regeneração e de aculturação em virtude da
convivência de populações oriundas de qualquer parte do globo. O crescimento destas
metrópoles, com milhões de habitantes, desperta no decisor político e nos arquitectos
a consciência de um mundo que procura estabelecer parâmetros adequados para
alicerçar as respostas mais eficazes para a solução dos tecidos urbanos em expansão
acelerada.
A literatura contemporânea sobre a actual situação do espaço urbano, principalmente a
dos países em desenvolvimento, refere comummente uma profunda transição e
contradição nesses espaços, reflectindo (com diferentes intensidades, e com distintas
escalas) a condição de indefinição que marcam essas cidades. […] “Hibridação” e
«contaminação» com outras disciplinas são, de acordo com Pinon (2001), palavrachave para entender novas visões, perspectivas e abordagens sobre o espaço urbano,
tipos de habitação e respectivos valores expressivos, apoiadas numa sensibilidade
complexa e combinando-se num processo de transversalidade. O espaço urbano cada
vez mais estudado não tanto de um ponto de vista unitário (como se de um todo
imutável e constante se tratasse, ao modo de um corpo teórico e critico indivisível),
mas como avalanche de sentidos e significados, com especialidades, próprias que,
longe de esgotarem um tema, propõem conceitos que orientaram a mais do que a uma
definição de espaço urbano, de integração urbana. (Viana, 2011, p. 13-14-15)
Ilustração 15 – “Shimla in India”. Photo
Anna Grayson. (BBC News, 2014)
Ilustração 16 - “Rocinha in Brasil”. Photo Emma
Salter. (BBC News, 2014)
Ilustração 17 – “Shanghai Old
Town”.China. Photo Rhoda
Richardson. (BBC News, 2014)
Existe, de um modo mais ou menos consensual, uma divisão do mundo entre países
desenvolvidos, países em vias de desenvolvimento (designados de emergentes) e
países subdesenvolvidos25, (pobres) [Ilustração 15, 16 e 17]. Os factores
estruturantes da noção de desenvolvimento atingem todos os outros, nomeadamente
comportamentos económicos e sociais, consequência da aplicação de estratégias que
decorrem da necessidade dos primeiros (desenvolvidos) impor lógicas consentâneas
com os seus próprios interesses. É hoje reconhecido que o progresso material, da
ciclo destrutivo da dependência, não é mais do que um reflexo da necessidade actual e da capacidade
actual”. Descreve ainda a Cidade Genérica como sendo: “é a cidade sem história, é suficientemente
grande para toda a gente. É fácil. Não necessita de manutenção. Se tornar demasiado pequena
simplesmente expande-se. Se ficar velha, simplesmente autodestrói-se e renova-se.” (Koolhas, 2010, p.
35)
25
“Sociedades ditas “indignas” ainda portadoras de objectivos sociais radicalmente diferentes dos
nossos, continuam a ser problemáticos e que o desenvolvimento que queremos impor, ou que se impõe
espontaneamente, a essas sociedades se arrisca muitas vezes a destrui-las”. (Michailof, 2012, p. 27)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
39
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
sociedade dos indivíduos26, enquanto sujeitos singulares ou membros de uma
determinada comunidade, é factor de influência transnacional. A difusão generalizada
de imagens e de informações sobre os mais diferentes temas contaminam as vidas e
expectativas daqueles que pouco, ou nada possuem.
Um outro panorama emerge nestes países27, decorrente dos novos dilemas
associados a um imenso trabalho colectivo. Todos estes países necessitam de
respostas, mesmo que em pequena escala, pelo que estas representam inequívocas
mudanças. O pensamento global não depende da resolução do problema individual,
encontrando-se a chave da solução no cruzamento do conhecimento adquirido e de
oportunidades que permitam construir um futuro estruturado nas sociedades destes
indivíduos.
As oportunidades geradas nos países emergentes, introduzidas na estrutura produtiva
e social, resultam do facto destas economias terem sofrido um período de estagnação
mas estarem, neste momento, em franco crescimento económico. A alteração desta
variável desencadeou o interesse, de capital externo para investir tanto no sector
produtivo, como industrial. Esta deslocalização desencadeou a implementação nos
países receptores de todo o género de infraestruturas, aos quais implicaram
necessariamente o crescimento de cidades, criação de portos, ferrovias, aeroportos,
entre outros, destinadas à recepção e escoamento de mercadorias. O facto da
presente crise económica afectar uma parte significativa de países, não diminuiu o
interesse das grandes multinacionais para continuarem a fomentar filiais nestes países
em vias de desenvolvimento ou mesmo nos subdesenvolvidos.
26
” A “sociedade” - como toda a gente sabe – somos nós todos em conjunto, são muitos seres humanos
juntos. Todavia, muitos homens juntos formam na Índia ou na China um outro tipo de sociedade do que
na América ou na Inglaterra; a sociedade formada por muitos seres humanos singulares na Europa do
século XII era diferente da do século XVI ou do século XX. E embora todas essas sociedades não se
componham e compõem de nada mais senão de muitos indivíduos, esta mudança de um modo de
convivência para outro não terá sido obviamente planeada por nenhum destes indivíduos […] Numa
reflexão mais profunda, rapidamente nos apercebemos de que ambas as coisas só em conjunto se
tornam possíveis; uma coabitação sem perturbações e tensões entre os seres humanos só o é de facto
se todos os indivíduos encontrarem nela uma satisfação aceitável, e uma existência individual mais
satisfatória, se a correspondente estrutura social estiver mais livre de tensões, perturbações e lutas. A
dificuldade parece residir no facto de nas ordens de coabitação, com as quais deparamos, predominar
sempre uma das duas partes […] Contudo, este esqueleto de funções interdependentes cuja estrutura e
esquema confere a um colectivo humano o seu carácter específico não é uma criação de indivíduos
singulares, visto que cada ser humano singular, mesmo o mais poderoso, mesmo um chefe de tribo, um
rei absoluto ou um ditador, é uma parte constituinte, representante de uma função que só se forma e
mantem em ligação com outras funções, que só pode ser entendida a partir da estrutura específica e das
tenções específicas desta conexão global.” (Elias, 1993, p. 21, 27, 33)
27
”As últimas estimativas (2012) do Banco Mundial revelam que o número de pessoas vivendo em
condições de pobreza absoluta (com rendimento inferior a 1,25 dólares por dia) se reduziu para metade
desde 1990, tendo estabilizado até mesmo em África.” (Michailof, 2012, p. 33)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
40
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Em todos estes países assiste-se, tal como no início da revolução industrial no
ocidental, ao fenómeno relacionado com o êxodo rural. Estas populações, formadas
pelos extractos mais pobres, procuram sustento e oportunidades nas cidades, uma
vez que é nestas que se verifica o crescimento e o acesso aos mais diversos bens
essenciais e postos de trabalho. Na maioria destes países a mão-de-obra empregue
no sector produtivo é barata, embora este crescimento não cobra ainda o défice do
excesso populacional, em virtude da natalidade e a duração media de vida28 estarem
tendencialmente a aumentar. O IDH29 (Índice de Desenvolvimento Humano) encontrase, nestes casos, entre os níveis médio-alto. Os direitos sociais destas populações
mais desfavorecidas estão ainda por implementar na prática, assim como o acesso a
bens essenciais como água potável, alimentos, cuidados de saúde30, escolas
promotoras da alfabetização31 e educação [Ilustração 18]. A ausência destes factores
tem como consequência um padrão de vida assente em níveis médio-baixos.
Ilustração 18 - Orfanato no Uganda a obra dos Japones Koji Tsutsui, em Rakai. (Foster, 2013, p. 45)
A globalização e o consequente desenvolvimento dos países acarretam mudanças
significativas e positivas na estrutura social e económica destas populações. Verifica28
”A duração média de vida aumentou quase por toda a parte, passando a nível mundial de 50 anos, em
1960, a mais de 67 anos, hoje” (Michailof, 2012, p. 33)
29
”Índices que medem o nível de educação, a duração de vida e a riqueza, mantem-se evidentemente
com correlação com o rendimento por habitante e aumentam com este. […] IDH são particularmente
interessantes, uma vez que poem em evidencia os resultados negativos de certos países que no entanto,
são estatisticamente ricos, como é o caso de muitos países produtores de petróleo”. (Michailof, 2012, p.
27)
30
”O acesso a água potável e o acesso aos cuidados de saúde melhoraram, permitindo, desde 1960
que a mortalidade infantil regredisse de uma permilagem de 135 para 61. O número de pessoas que
morrem de malária e de doenças infecciosas recuou”. (Michailof, 2012, p. 33)
31
”O analfabetismo (no período de 30 anos, o numero dos adultos analfabetos baixou para metade nos
países em vias de desenvolvimento, passando de 46 por cento para 24 por cento) ”. (Michailof, 2012, p.
33)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
41
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
se uma transformação, cujo objectivo será a diminuição dos fenómenos de exclusão
potenciados pela pobreza. Surgem novas gerações que fazem das necessidades
colectivas factores decisivos da mudança, não deixando estagnar mas interagindo
com o intuito de promover patamares mais estáveis para uma vida melhor.
A arquitectura, nestes países, pode ser a resposta para solucionar o problema da
habitação32 condigna. Sendo possível construir com poucos recursos, os projectos já
implementados de que os casos de estudo constituem também um exemplo, revelam
um compromisso ético e social na resposta eficaz às necessidades das comunidades.
A arquitectura cria, nesta via, uma relação estreita com o corpo social, não
comprometendo o equilíbrio entre o contexto, a paisagem33 e o tempo de duração da
arquitectura no local. As arquitecturas propostas procuram transmitir ao individuo, elos
fundamentais para a coesão social são uma resposta que cobre as necessidades
humanas denotando a importância da singularidade do espaço de quem habita e
coabita com os seus pares.
A relação entre a arquitectura e sociedade é tão complexa que o seu cruzamento se
constitui numa sociologia sui generis, já que a arquitectura, manifestando uma vocação
social […] A sociedade é geradora de arquitectura. A ordem de necessidades práticas é
nela determinante; o útil, em arquitectura, supõe a habitabilidade individual, familiar e
tribal, mas também, a do grupo organizado, escalonado, interveniente política, cultural
e civilmente, identificado com relações programáticas, serviços recíprocos e
interdependências múltiplas. (Rodrigues, 2002, p. 33)
32
O problema do habitar reflectido pelo arquitecto Vilanova Artigas: ”Construir foi, para o homem,
primeiramente, construir sua habitação. Alojar-se no espaço, dominá-lo como parte da natureza […] A
cidade é uma casa. A casa é uma cidade […] Voltemos ao desenho das casas. Parece que ele deveria
ser o ponto de partida para os outros desenhos, numa visão mais radical, que procurasse restabelecer o
relativo desprezo em que a residência é tida – obra menos, irrelevante. Nem tanto. Nem tão pouco. À
medida que vão sendo substituídas velhas concepções sobre o mundo e a vida, à medida que vão sendo
reorganizados os dados da realidade, tanto da realidade da natureza como da realidade da sociedade,
velhas formas e símbolos arquitectónicos vão desaparecendo […] Encontro com a casa na cidade para
construir com ela a casa da nova sociedade que desponta como consequência inevitável do
conhecimento cada vez mais profundo que vamos tendo, do mundo e das relações entre os homens. Esta
procura de racionalidade não tem fim, e nos mantem em constantes experimentações; a experimentação
específica das artes é também a que é privativa da ciência e da tecnologia, aplicada à arte de construir
[…] No ensaio de Heidegger, destaca-se a casa como criação. A cidade industrial é a casa da sociedade
nova. Elas criam-se mutuamente aos poucos. Vemos, quase todos, a cidade como obra de arte.” (Artigas,
2001, p. 68-69)
33
Contextualizar a paisagem na arquitectura: ”Em todo ocaso, uma arquitectura para o presente deve
ser estabelecida desde uma ecologia do já construído, afrontado a melhoria de estornos de gradados e
gerando um reequilíbrio ecológico na relação entre os seres humanos e seu entorno artificial, sem cair em
nostalgias de uma Arcádia perdida […] Cada cultura se encontra em um estado diferente de evolução,
portanto deveria trabalhar a partir da premissa conceitual de não existirem centros, periferias, nem
situações mais avançadas que outras. Não deve haver modelos para impor de um contexto a outro: cada
lugar deve ter a possibilidade de gerar suas próprias e diversas soluções, dificilmente generalizáveis.
Neste sentido, o imperialismo industrial, ainda que este seja de produtos ecológicos ou sistemas
estruturais leves, converte os produtos verdes em outra gama de produtos multinacionais que se impõem
de uns contextos a outros. O paulatino aumento da qualidade ambiental das cidades deve ir
acompanhado de um aumento e melhoria das zonas comunitárias, lugares que pertencem de alguma
maneira a pré-culturas […] E a reivindicação de uma arquitectura ecológica volta a dar importância à
função social à funcionalidade na arquitectura; um funcionalismo ecologista que critica o racionalismo
desenvolvimentista e depredador.” (Montaner, 1997, p. 195, 202)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
42
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ao contrário do que se possa pensar a maior parte da humanidade vive em habitações
espontâneas, construídas tendo como pressupostos cimeiro a necessidade, a
escassez de meios e sem qualquer guia estético34. Esta realidade é ainda hoje uma
expressão com dimensão global. Na maioria dos exemplos conhecidos as habitações
são o somatório de conhecimentos informais, revelando geometrias elementares e a
aplicação de materiais locais ou indiferenciados [Ilustração 19].
O pensamento e acção projectual de um arquitecto, para um local específico em
qualquer ponto do mundial global, deve integrar na resposta uma certa dose de
activismo comunitário. São estas propostas alternativas, aceites pelos indivíduos
autóctones que representam uma correlação entre o contíguo e o globalizado. O saber
fazer de um arquitecto requer o reconhecimento actuante sobre as práticas sociais de
determinada comunidade, a disponibilidade para a integração das condicionantes do
contexto cultural geográfico, climático e a reinvenção da formalização com materiais
locais. Este tipo de acção transmitirá a representação da “ideia construída” na
correlação que deve existir entre a sociedade e a arquitectura.
Ilustração 19 – “28 Millimeters, Women Are Heroes. Action Favela Morro da Providência”. Rio de Janeiro, Brasil, 2008. Photo JR’s
(Alabaz, 2012)
A sustentabilidade
utilização corrente
produção (durante
autoconstrução (o
deve ser entendida simultaneamente nas fases de serviço, (na
dos espaços urbanos e das edificações habitacionais) e de
a construção) – tendo atenção a processos de pré-fabricação e
que implica modelos sociológicos). Para além deste aspecto,
34
”Valor de esquema de beleza útil é uma constante na resultante das duas ordens de fenómenos:
arquitectura enquanto presença existente no mundo, arquitectura como resposta, isto é obra do
arquitecto, que nos remeterá à criação artística.” (Rodrigues, 2002, p. 41)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
43
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
prefigura-se indispensável a coabitação e articulação das mais proeminentes
tecnologias, desde o nível de gestão de projecto ate à das soluções construtivas
avançadas, com o saber-fazer local/vernacular. O quadro habitacional, entre o formal e
o informal, circunscreve-se – comummente – num contexto de pobreza generalizada,
traduzida na sua degradação precoce e na falta de capacidade de operação e
manutenção de infraestruturas, equipamentos, elementos e componentes da
edificação, que provocam quotidianamente problemas ao nível da gestão do ambiente
e dos recursos locais. (Viana, 2011, p. 16)
O mundo no seu todo, embora divido, revela transversalmente denominadores
comuns. É um lugar em permanente crescimento urbano, deparando-se nesta
expansão com desafios arquitectónicos. O exercício dos arquitectos alterna entre
problemas genéricos relacionados com
a necessidade
de suprir
carências
habitacionais a respostas mais específicas interligadas com a evolução construtiva e
social.
A arquitectura35 enquanto resposta para o homem real possui nos países mais
carenciados uma vantagem de partida. A disciplina manifesta, nas suas múltiplas
respostas, a dosagem de diversos ingredientes: o saber adquirido do autor, a sua
cultura, as condições do local a intervir e a respectiva população, reinventado e
miscigenando saberes com o fim de configurar a resposta mais adequada à realidade
e às circunstâncias. A intersecção de experiências beneficia a conexão entre estes
arquitectos e as comunidades, que são as que mais ganham com o progresso no seu
território [Ilustração 20]. (Ver anexo A: UN-HABITAT 2012/2013, documento no qual
estão elencadas as melhorias e evolução destes bairros.)
Ilustração 20 - “Global Observatory Urban, 2001”. (United Nations Human Settlements Programme, 2010)
35
Quando se fala da função social do arquitecto e da arquitectura o arquitecto Vilanova Artigas reflecte:
”Em primeiro lugar, eu queria chamar a atenção para o facto de a arquitectura como tal ser ela mesma
uma arte como finalidade. É a própria ideia de especificidade da arquitectura representar alguma coisa no
campo da sociedade.” (2001, p.86). A resposta do arquitecto Vilanova Artigas em entrevista quando lhe
colocam a questão: ” E a Arquitectura no Terceiro Mundo não passa pelas tecnologias alternativas? –
Tem arquitectos em Osasco tentando, com recursos mínimos, dar alguma forma urbana àquelas favelas
[…] Estes são os verdadeiros heróis e os respeito profundamente.” (Artigas, 2001, p. 80)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
44
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Este é um momento que o actual campo para o desenvolvimento da construção de
habitação em massa se converta, de facto, numa oportunidade que seja ancorada em
metodologias integradas, multi-operativas, interescalares e interdisciplinares para a
obtenção de uma construção mais apoiada e adequada para a especificidade dos
diversos contextos sociais, ambientais, naturais, de disponibilidade de recursos,
culturais, tipológicos e construtivos. É preciso enfatizar, de forma abrangente, a
necessidade de revisão de metodologias, materiais, técnicas e tecnologias a aplicar no
projecto e edificação habitacional de modo a se garantir uma construção sustentável,
sistémica e low-cost que vise a consolidação de uma renovada metodologia para a
construção generalizada de habitação, a qual designarei doravante SyLC- Systemic
36
Low-cost Construction. (Viana, 2011, p. 17)
Este processo de reinvenção implica uma sistemática adaptação do ciclo projectual. O
êxito das respostas passa por uma revisão metodológica, pelo cruzamento do saber
adquirido dos autores com cultura para a qual intervém e acima de tudo de um esforço
concertado, em termos políticos, que vise a resolução das carências mais elementares
destas populações mais pobres [Ilustração 21, 22 e 23].
Ilustração 21 – “Womens´s Center in Kayonza”. (Davis,
2014, p. 46)
Ilustração 23 – “Library for the Community of Muyinga”.
(BCarchitects, 2014, p. 32)
Ilustração 22 – “Utopia di terra”. Photo Erik-Jan
Ouwerkerk. (Kunsmann, 2012, p. 36)
36
Em complemento da citação supracitada este autor desenvolve linhas de acção projectual: “Esta
proposta compreende estratégias de [auto]construção e de desenho [in]formal e a consolidação do ciclo
integrado para a construção sustentável que foca, a partir do reconhecimento especifico dos recursos
disponíveis caso-a-caso, a proposição de um pensamento e prática arquitectónica devidamente adequada
e ajustada a realidades objectivas e com consciência das respectivas especificidades/singularidades
(limitações, constrangimentos, potencialidades, fragilidades, condicionantes, etc). É através da análise da
análise das energias e das capacidades envolvidas na construção da habitação, espaço de elevado
carácter simbólico, que se poderão identificar as mutações que melhor exprimem mudanças sociais,
inovações tipológicas, cruzamentos culturais e adaptações tecnológicas (salvador, 2004).” (Viana, 2011,
p. 18)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
45
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
2.2. MÍNIMO: A ESCASSEZ DE MEIOS E DE RECURSOS, A RACIONALIZAÇÃO
E FLEXIBILIDADE
O presente capítulo, estabelecendo apenas uma resenha sumária, confronta o
percurso da reflexão e consequente proposição de espaços mínimos que fazem parte
de alguns momentos paradigmáticos da arquitectura produzida desde os princípios do
século XX até à actualidade. Esta experimentação do espaço mínimo possibilitou a
restruturação do ciclo projectual, do pensamento sistémico e da dialéctica da
imaginação. Os exemplos pensados e os construídos foram condutores da revisão dos
modelos, numa procura de novas regras para a produção arquitectónica. Neste
sentido considera-se relevante sintetizar estes momentos e modelos propostos no
decorrer do século XX. A reflexão sobre estes modelos define, no caso específico,
tema da presente investigação, voltar a ser factor preponderante para o
estabelecimento das respostas actuais consentâneas com os problemas da escassez.
Alguns dos casos de estudo incorporam, na sua dimensão formal e programática, o
pensar e projectar com mínimos, inclusive ao nível dos materiais e processos
construtivos empregues.
Hacia finales del siglo XIX ya establecido el carácter de la moderna profesión de
arquitecto y empezaba a suscitarse la cuestión de su responsabilidad social, cuestión
que ha permanecido irresoluta desde entonces. Debe el arquitecto asumir una posición
activista e intentar reformar la sociedad, conformar el entorno de arreglo a cómo
debería vivir la gente desde el punto de vista del arquitecto; o bien, debe reflejar los
valores sociales predominantes y conformar el entorno con arreglo a cómo vive
37
realmente la gente. (Montaner, 2007, p. 123-124)
A presente investigação procura, enquadrando projectos nos casos de estudo,
compreender os pressupostos que revolucionaram a definição do espaço doméstico.
Este reconfigurado numa nova dimensão formal e espacial da casa durante o século
XX. Neste âmbito estabeleceu-se uma leitura sobre os momentos chave que
conduziram à referida uma mudança dos paradigmas referenciais do habitar para o
homem [Ilustração 24].
37
No final do século XIX foi estabelecido um caracter moderno da profissão de arquitecto e começou a
surgir a questão da responsabilidade social, uma questão que continua por resolver desde então. O
arquitecto deve assumir uma posição activista, integrar e tentar reformar a sociedade, moldando o
ambiente de acordo com a forma como as pessoas devem viver desde o ponto de vista do arquitecto, ou,
deve reflectir os valores sociais predominantes e moldar o ambiente de acordo com a forma como as
pessoas realmente vivem. (Tradução Nossa)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
46
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 24 – “Perspective view of the Dom-ino system, 1914. Source Le Corbusier.” Photo Manolis Baboussis. (Aureli, 2012, p. 75)
Entre 1918 y 1934 la arquitectura europea vivió en Europa una doble preocupación al
proponer un nuevo modelo de vivienda social como al cuestionar la estructura urbana
heredada del pasado. El primer tema forzó a polemizar sobre los programas de
necesidades (definiéndose el concepto existenziminimun), al tiempo que, desde la
intención por abaratar costos, a abandonar sistemas constructivos tradicionales y,
asumiendo los criterios tayloristas de la “economía del gesto”, a proponer primero la
estandarización y luego la industrialización de la edificación. Establecer un nuevo
modelo urbano supuso reflexionar sobre las características del bosque, analizando
luego como su agregación configuraba la ciudad moderna, lo que llevo tanto a teorizar
sobre espacios libres, políticas de transportes, nuevas dotaciones y equipamientos,
criterios de intervención en cascos históricos, definición de extrarradios, características
de planes comarcales y planes regionales … lo singular de aquello debates es que
lograron persuadir a los distintos gobiernos (la Alemania de Weimar, Holanda, Austria,
Francia, URSS, Inglaterra, Italia o España) sobre la necesidad de asumir tales
cuestiones como cuestiones de Estado: y quien estudie tanto las políticas de viviendas
de aquellos países como los planes de actuación urbanística comprobara no solo como
las bases de los mismos respondían a aquel debate sino también cuanto los técnicos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
47
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
que redactaron aquellos proyectos lo hicieron desde las premisas formuladas por un
38
más que presente vanguardia arquitectónica. (Sambricio, 2012, p. 7)
Uma leitura critica sobre a investigação das células de habitar mínimo enquadra-se no
facto desta tipologia ter-se constituído como uma das investigações nucleares da
Arquitectura Moderna39. O encadeamento de perspectivas, posturas e genealogias
38
Entre 1918 e 1934 a arquitectura ocidental viveu na Europa duas preocupações, tanto propondo um
novo modelo de habitação social como questionando a estrutura urbana herdada do passado. O
primeiro tema obrigou a argumentar sobre as necessidades programaticas (definindo-se o conceito
existenziminimun), a partir da intenção de reduzir os custos, de abandonar sistemas tradicionais de
construção e fornecer critérios tayloristas de "economia de gestos", para propor a padronização em
primeiro lugar e, de seguida, construir a industrialização. Estabelecendo um novo modelo urbano
assumiu-se a reflecção sobre as características do jardim, e de seguida, analisar a sua agregação
configurando como a cidade moderna, o que levou a teorizar, tanto políticas de livre de transporte, novas
instalações e equipamentos, critérios de intervenção em bairros históricos, espaços que definem os
subúrbios, características dos planos municipais e dos planos regionais ... A singularidade da discussão
convenceu os vários governos (Weimar, Alemanha, Holanda, Áustria, França, União Soviética, Inglaterra,
Itália e Espanha) sobre a necessidade de tomar tal questões, como questões de Estado: e quem estudara
as políticas de habitação de ambos os países, como os planos de desenvolvimento urbano encontraria,
não só respostas a esse debate, mas também como redacções dos técnicos que fizeram os projectos das
instalações desde as premissas formuladas como uma presente vanguarda arquitectónica. (Tradução
Nossa, 2014)
39
Na sequência da citação o autor continua a aprofundar sua ideia: “Hoy sabemos que las opiniones
sobre los temas sinalados no fueron monocordes y nada más absurdo (o desinformado) que globalizar
aquellas preocupaciones com la etiqueta “Movimento Moderno”. No hubo un racionalismo sino varios, de
sentido y características bien distintas, y los partidários de las diferentes opciones chocaron – en sus
opiniones – de manera violenta, resultando absurdo identificar las propuestas defendidas por Le
Corbusier en los CIAM con las desarrolladas en Berlin por Bruno Taut o Martin Wagner, o en Francfort por
Ernst May. Conocemos las críticas a la ortodoxia de Le Corbusier, formuladas tanto por quienes
reclamaron la Nueva Objetividad como por críticos como Karel Teige, enfrentados a los famosos “cinco
puntos” que entendían como reflejo formal de un nuevo academicismo. Cierto que el crac de 1929
trastoco el panorama europeo: si hasta dicho momento las políticas de vivienda habían sido competencia
de ayuntamientos, sindicatos y empresas, a partir de la crisis y desde el momento en que se impuso la
política keynesiana basada en grandes proyectos de infraestructura capaces de reactivar la economía
(planes comerciales o regionales, políticas hidráulicas, planes de carreteras o de nuevas redes ferrovías
… ) las escalas de intervención cambiaron. Porque si en 1929 Ernst Muy organizo para el II CIAM la
exposición sobre vivienda mínima, en el IV CIAM (celebrado en Atenas, en 1933) se confrontaron los
planes de crecimiento urbano, proclamando los conceptos de “habitación, trabajo, ocio y transportes”
como pautas; y reflejo de aquellos debates en 1942 se publicó la Carta de Atenas donde, tras reclamar el
concepto funcional de la arquitectura Moderna y del urbanismo, se manifestaba que los problemas a los
que se enfrentaban las ciudades debían afrontarse mediante la segregación funcional estricta y la
distribución de la población en bloques altos de apartamentos espaciados por extensos intervalos. La
reconstrucción, tras la guerra, dio al traste con la situación anterior: si los debates entre profesionales se
mantuvieron, tras la, contienda cada país afronto una política propia, desechando o desoyendo las pautas
marcadas por quienes solos pocos años antes eran sus oráculos. De algún modo se cerraba un ciclo. Sin
embargo la continuidad con lo debatido en los años treinta en Europa no se daría en este continente, sino
en América Latina. (Carlos Sambricio, 2012, p. 7). Hoje, sabe-se que os pontos de vista sobre as
questões não foram monocordes e nada é mais absurdos (ou desinformados) que globalizaram as
preocupações com o rótulo de "Movimento Moderno". Não houve um racionalismo, mas vários, de
significado e características bastante diferentes, e os adeptos de diferentes opiniões confrontaram-se - na
sua opinião - de uma forma violenta, tornando-se um absurdo identificar as propostas defendidas por Le
Corbusier no CIAM com aqueles desenvolvidos em Berlim por Bruno esticado ou Martin Wagner, ou
Frankfurt por Ernst. Estamos conscientes da crítica da ortodoxia de Le Corbusier, feitas tanto por aqueles
que alegaram que a nova objetividade quanto por críticos como Karel Teige, confrontados com os
famosos "cinco pontos" que se entenderam como um reflexo de um novo academicismo formal. Verdade
que na crise de 1929 houve turbulências no cenário europeu: se até esse momento, a políticas de
habitação foram da responsabilidade dos conselhos municipais, sindicatos e empresas, a partir da crise e,
a partir do momento que lhe foi imposta a política Keynesiana baseada em grandes projectos de infraestruturas para o relançamento da economia (ou planos de negócios regionais, a política da água, os
planos de estradas ou novas redes Ferroviarias …) escalas de intervenção foram alteradas. Porque em
1929 Ernst muito organizado na exposição para o CIAM II sobre habitação mínima, no IV CIAM (realizada
em Atenas, no ano de 1933) foram comparados com os planos de crescimento urbano, proclamando os
conceitos de "quarto, trabalho, lazer e transporte" como directrizes. E como um reflexo dessas discussões
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
48
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
projectuais e consequentes respostas construídas ou não, estabelece como ponto de
partida, a Revolução Russa de 191740. Este momento particular desencadeia todo um
conjunto de posturas, acções artísticas e ideológicas subjacentes a alguns dos
modelos arquitectónicos41 que serão propostos relativamente às novas respostas
sobre o pensar e fazer o habitar para homem incluído numa sociedade em profunda
renovação individual, social, económica e política [Ilustração 25 e 26].
Ilustração 25 - “Moscú, la construccion en la
épocastalianalas. Las casa prefebricadas diseñadas
por la Academia de arquitecturade la URSS”.
(Benevolo, 1996, p. 837)
Ilustração 26 - “Moscú, la construccion en la épocastalianalas.
Las casa prefebricadas diseñadas por la Academia de
arquitecturade la URSS”. (Benevolo, 1996, p. 837)
La creación de una “vivienda” se consideró durante mucho tiempo la tarea primordial de
la arquitectura moderna. De hecho, el Movimiento Moderno concentró su atención en la
vivienda y resalto su importancia: “el actual desarrollo de la construcción se concentra
sin duda en la vivienda, y en particular en la vivienda para el hombre corriente […] Ni
los edificios públicos ni las fabricas tienen hoy la misma importancia. Esto significa que
nos preocupamos nuevamente del ser humano”, escribía Sigfried Giedion en 1929. Y
ya en 1925, en la Exposición Internacional de Artes Decorativas de Paris, Le Corbusier
Exhibió un prototipo de piso al que llama “pabellón de L`Esprit Nouveau”; así, no
manifestaba el “espíritu” de la era moderna mediante una exposición didáctica o un
símbolo monumental, sino con una vivienda para el hombre corriente. También
podemos recordar sus palabras: “los seres humanos están mal alojados, esta es la
42
razón profunda y autentica de las convulsiones actuales” . (Schulz, 2005, p. 97)
foi publicada em 1942 a Carta de Atenas, onde, após reclamar o conceito funcional da arquitectura
moderna e do planeamento urbano, foi dito que os problemas que enfrentam as cidades deve ser
combatida através da estrita segregação funcional e da distribuição da população em alta ascensão
espaçadas por intervalos entre blocos de apartamentos amplos. A reconstrução após o fim da segunda
guerra mundial, arrasou com a situação anterior, se as discussões entre os profissionais foi mantida, após
o congresso, cada país se viu diante de uma política de sua própria autoria, descartando ou ignorando as
orientações definidas por aqueles que poucos anos antes foram os seus oráculos. De alguma forma um
ciclo fechou-se. No entanto, a continuidade com o que foi discutido nos anos trinta na Europa não seria
sobre este continente, mas sobre a América Latina. (Tradução Nossa, 2014)
40
” Polémicas sociais e estéticas rebentariam não na Itália (nem França) mas na Alemanha e na Rússia
Soviética, sob espécie expressionista.” (França, 1988, p. 50)
41
“A Cidade Moderna, isto é a alternativa completa à cidade pós-liberal elaborada pela pesquisa
arquitectónica moderna, a partir do primeiro pós-guerra. A pesquisa parte de elementos mais simples- os
alojamentos individuais - e que acaba gradualmente por definir os conjuntos: o bairro, a cidade, o
ordenamento territorial … A resistência mais ou menos forte do sistema vigente selecciona assim os
resultados da pesquisa: aceita os que são compatíveis com a conciliação dos interesses fundamentais,
recusa os que são incompatíveis.” (Benevolo, 1984, p. 27)
42
A criação de uma "casa" foi considerada por muito tempo, a principal tarefa da arquitectura moderna.
Na verdade, o movimento moderno concentrou a sua atenção na habitação e sublinhou a sua
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
49
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O final do século XIX e princípios do século XX marcam o florescimento de vários
movimentos
de
vanguarda
estruturados
numa
postura
de
modernidade
e
arregimentados na premissa da inovação. A Arquitectura Moderna, assume uma
postura vanguardista aproveitando-se do espírito do tempo que veiculava profundas
reestruturações sociais, politicas, económicas. No caso da arquitectura verificam-se
também constantes inovações no campo dos materiais e técnicas construtivas,
abrindo
caminho
à
revolução
formal,
espacial
e
vivencial
dos
objectivos
arquitectónicos.
O século XX encarna um novo momento de revoluções de índole social e individual.
Assiste-se simultaneamente a um conjunto de convulsões na esfera dos sistemas
políticos vigentes. Estas transformações manifestam-se através da eclosão das duas
Grandes Guerras que devastaram a Europa. O pós-guerra é o período em que eclode
todo o tipo de lógicas que contribuíram para o novo papel do homem em termos
individual e colectivo: teve também consequências na redefinição dos blocos políticos;
nos cíclicos sucessos e fracassos das instituições económicas e sociais. É um período
caracterizado por profundas alterações nas mentalidades, suportadas por mecanismos
sociais e políticos que impulsionam novos processos de individuação e por
consequência colocam, transversalmente, o sujeito no centro da reflexão de muitas
disciplinas do conhecimento43.
A transfiguração do tecido social e económico potenciou outras necessidades e
catapultou o exercício da arquitectura para nos patamares correlacionados com a
resolução dos problemas da habitação, integrando na resposta uma visão com um
forte cunho social e humanístico [Ilustração 27].
importância: "o desenvolvimento actual da construção está concentrada sem dúvida na habitação, e em
especial na habitação para o homem actual [...] ou edifícios públicos ou fábricas hoje têm a mesma
importância. Isto significa que preocupamo- nos com o ser humano", escreveu Sigfried Giedion em 1929.
E já em 1925, a Exposição Internacional de Artes Decorativas em Paris, Le Corbusier apresentou um
protótipo de chão que é chamado de "pavilhão de L'Esprit nouveau"; assim, não refletem o "espírito" da
era moderna por uma didática exposição ou um monumental símbolo, mas como uma habitação para o
homem comum. Também podemos recordar as suas palavras: "Os seres humanos são mal alojados, este
é o motivo pelo qual uma verdadeira e profunda as convulsões do actual”. (Tradução Nossa, 2014)
43
“O processo de personalização: estratégia global, mutação geral no fazer e no querer das nossas
sociedades. Quando muito, seria conveniente distinguir nele duas faces. A primeira, «limpa» ou
operacional, designa o conjunto dos dispositivos fluidos e desestandardizados, as fórmulas de solicitação
programada elaboradas pelos aparelhos de poder e de gestão que levam regularmente os detractores de
direita e, sobretudo, de esquerda a denunciar, não sem uma caricatura algo grotesca, o condicionamento
generalizado, o inferno climatizado e «totalitário» da affluent society. A segunda face, «selvagem» ou
«paralela», como lhe poderíamos chamar, decorre da vontade de autonomia e de particularização dos
grupos e dos indivíduos: neofeminismo, libertação dos costumes e das sexualidades, reivindicações das
minorias regionais e linguísticas, tecnologias psi, desejo de expressão e de realização do eu, movimentos
«alternativos»: enfim, temos por toda a parte a busca de uma identidade própria e já não da
universalidade como motivo das acções sociais e individuais. Dois polos que tem, sem dúvida, as suas
especialidades, mas que trabalham ambos no sentido da saída de uma sociedade disciplinar e que o
fazem em função da afirmação, mas também da exploração do princípio das singularidades individuais”.
(Lipovetsky, 1983, p. 10)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
50
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A questão da habitação é o problema maior que domina a arquitectura e a urbanística
no período entre as duas guerras e mais fortemente a partir de 1945. É através da
pesquisa habitacional que são experimentadas as novas morfologias e tipologias
urbanas. Das experiências holandesas às siedlungen alemãs e até à «cidade-jardim»,
a organização do alojamento e da sua agregação, bem como a higiene, a salubridade e
os problemas sociais vão dominar as preocupações dos arquitectos. É com o tema O
alojamento para o nível mínimo de vida, que Ernst May intervém no II CIAM, em 1929,
trazendo os resultados das experiências de Frankfurt. Construir para o maior número a
menores custos obriga a reduzir ao mínimo a superfície do alojamento, proporcionando
a repartição do investimento publico pelo maior número de habitantes. Esta pesquisa
parte das necessidades socioeconómicas – dar casa a toda a população – e coloca a
habitação no centro das preocupações da urbanística, considerando o alojamento
como uma célula-base da organização da cidade. É o facto de as classes menos
desfavorecidas não poderem pagar uma casa sem a intervenção do Estado que obriga
a pensar o alojamento como um problema de mínimos, dado que qualquer acréscimo
«supérfluo» se traduziria em maior injustiça social. (Lamas, 2010, p. 338)
Ilustração 27 – “Paneles presentados por Le Corbusier al CIAM de 1930”. (Benevolo, 1996, p. 544)
Os projectos passam a integrar na sua génese ideativa de cariz social. Repensar a
tipologia de habitar na lógica do homem torna-se um dos pressupostos basilares dos
arquitectos. Os exemplos construídos demonstram novos modos de habitar,
resultantes das promessas de bem-estar que este século ansiava garantir. A
arquitectura torna-se o manifesto construído de um comprometimento social
vocacionado para o Homem Ideal.
A vontade em concretizar efectivamente este objectivo conduz a uma profunda revisão
das metodologias projectuais. A linguagem figurativa e espacial da arquitectura
moderna persegue códigos e linhas de pensamento que se interligam com o seu
comprometimento social. O exercício da profissão procura realizar a sua função social.
A propugnação desta doutrina conduz à adopção de determinadas estratégias
projectuais, fundadas em sistemas que incrementaram a produção em série com
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
51
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
evidentes benefícios em termos de redução de custos na obra final e uma maior
liberdade nas propostas dos arquitectos.
Ilustração 28 – “la construccion treinta años antes, y en el sistema en el tercer Reich”. (Benevolo, 1996, p. 542)
Ilustração 29 – “W.Gropius, la casa alta estudiada para el barrio
de Spandau de 1929”. (Benevolo, 1996, p. 542)
Ilustração 30 – “Tipo de edificacion de la colonia. P.Schaffer,
1937”. (Benevolo, 1996, p. 542)
Os sistemas estruturais e construtivos correntes eram diversos pelo que os
arquitectos, nesta época, tiveram que adaptar as soluções arquitectónicas às
necessidades sociais e contingências do momento histórico. Respostas assentes em
sistemas de repetição, habitações em série e de baixos custos, novos métodos
construtivos e materiais começaram a adquirir relevância na reconfiguração da prática
da disciplina [Ilustração 28, 29 e 30].
El problema de la vivienda moderna es, ante todo, arquitectónico, pese a sus aspectos
técnicos y económicos. Es un complejo problema de planificación, y solo puede ser
resuelto con pensamiento creativo, no con cálculo ni organización […] Hoy en día, el
factor económico obliga a la racionalización y normalización en la vivienda rentable.
Pero, por otra parte, el aumento de complejidad de nuestros requisitos exige
flexibilidad. El futuro tendrá que tener en cuenta a ambas. A este propósito la
construcción en esqueleto es el sistema más adecuado. Hace posibles métodos de
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
52
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
edificación racionalizados y, al mismo tiempo, la división sin trabas del interior. Si
consideramos las cocinas y los cuartos de baño, por sus instalaciones, como un núcleo
fijo, el espacio restante puede ser partido por medio de paredes móviles. Eso satisfaría,
44
confió, todos los requisitos normales. (Mies Van der Rohe, 1993, p. 37)
As intenções e gramáticas que vão nortear a praxis da arquitectura estavam
enquadradas em correntes de pensamento que na especificidade do autor ou do país
propuseram novas respostas. Ao longo da primeira metade século XX as respostas
construídas no âmbito da arquitectura moderna visam estabelecer uma postura
actuante face à sociedade, á qual segundo Manfredo Tafuri45:
A arquitectura moderna (reunir a arte com finalidade) surgiu das esperanças de
transformação social do mundo frente à revolução Russa (perspectiva de mundo novo)
a possibilidade da arte se integrar com a vida. […] O arquitecto com necessidades de
participar nas mudanças sociais do mundo, acompanhando os critérios oferecidos pela
revolução soviética. (Tafuri, 1974, p. 37-62)
A reflexão sobre a habitação e o habitar do homem é produto de uma sociedade em
mudança de paradigma. Não pretendendo estabelecer um quadro cronológico sobre
questões relacionadas ao habitar, será relevante situar na revolução francesa46 a
eclosão de uma forte consciência social e a política dos arquitectos que era geradora
de mudanças na vida das sociedades. Nesta perspectiva a arquitectura manifesta,
através de alguns arquitectos dessa época, a vontade de concretização de obras
inovadores, na linha dos valores emergentes. Um desses autores foi Claude- Nicolas
44
O problema da casa moderna é, em primeiro lugar e acima de tudo, da arquitectura, apesar dos seus
aspectos técnicos e económicos. Trata-se de um complexo problema de planeamento, e só pode ser
resolvido com criatividade, e não à base de cálculos ou da organização [...] Hoje, o factor econômico força
a racionalização e uniformização da caixa económica. Mas, por outro lado, a crescente complexidade das
nossas necessidades exigem flexibilidade. O futuro terá de levar em conta para este efeito, a
construção do esqueleto como o sistema mais adequado. Torna possíveis os métodos de construção
mais simples e, ao mesmo tempo, a divisão sem impedimentos no interior. Se considerarmos que as
cozinhas e casas de banho, as suas instalações, como um núcleo fixo, o restante espaço pode ser
quebrado por meio de paredes móveis. Esta seria, estou confiante, todas as exigências normais.
(Tradução Nossa, 2014)
45
Manfredo Tafuri, historiador de arquitectura, de origem italiana, 1935-1994.
46
“Nesta evolução, a Revolução Francesa opera uma ruptura dramática e contraditória, cujos efeitos a
curto e a longo prazo, devem, de resto, ser diferenciados. No imediato suspeita-se que os «interesses
privados», ou particulares, poderão ser a sombra propícia às conspirações e traições. A vida pública
postula a transparência; propõe-se mudar os costumes e os corações, criar, num espaço e num tempo
remodelados, um homem novo aparência, na linguagem e nos sentimentos, através de uma pedagogia do
signo e do gesto que vai do exterior para o interior. A longo prazo, a Revolução acentua a definição das
esferas pública e privada, valoriza a família, diferencia os papéis sexuais, opondo homens políticos e
mulheres domesticas […] Ao mesmo tempo proclama os direitos do individuo, esse direito à segurança,
onde balbucia um habeas corpus, ainda hoje tão mal garantido em França; dá-lhe uma primeira base: a
inviolabilidade do domicílio, cujo desconhecimento é severamente punido, desde 1791, pelo artigo 184 do
código penal. […] Sob a Revolução as fronteiras entre a vida pública e a vida privada foram muito
flutuantes. A coisa pública, o espírito público invadiram os domínios da vida habitualmente privados. O
desenvolvimento do espaço publico e a politização da vida quotidiana foram, sem dúvida, definitivamente
responsáveis por uma mais clara redefinição do espaço privado no início do século XIX. Sobretudo entre
1789 e 1794 o domínio da vida pública não deixou de se alargar, o que preparou o movimento romântico
de regresso a si próprio e de regresso à família no interior de um espaço domestico determinado com
maior precisão. No entanto, antes de chegar a esta conclusão, a vida privada deveria sofrer mais violenta
agressão da história do Ocidente.” (Aries, Duby, 1990, p. 15)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
53
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ledoux47 que incorporou um conjunto de premissas para a consumação de uma
arquitectura de cariz social. Nas pesquisas que este arquitecto realizou um ponto
assente na ideia de que os pobres possuem o mesmo direito à arquitectura que os
mais afortunados.
Nesta perspectiva reconduz o exercício para um novo patamar de acção: “Ledoux e os
arquitectos do seu tempo defenderam que toda a obra deve ser submetida ao
exercício da qualificação do belo, desde a mais simples cabana do pobre até ao
palácio do rei, expressando a ideologia nascente no seio da sociedade francesa”.
(Tavares, 2011, p. 49)
Com Ledoux verifica-se a mudança de perspectiva no entendimento sobre a
necessidade de construir a “casa para todos”. Assumindo o papel estruturante do
pensamento racionalista em voga neste período iluminista, a sua postura evidencia
uma atenção particular para o problema da habitação como modo de garantir
condições mínimas ao homem e promover o desenvolvimento da sociedade.
Convictamente comprometido com a organização classista própria do antigo regime em
França e muito próximo das estruturas do poder político vigente que lhe garantiu um
volume significativo de encomenda, não deixou de expressar através da obra realizada
a capacidade de reflexão e crítica capaz de gerar propostas inovadoras em vista à
construção de um futuro melhor […] Ledoux acreditava no poder emblemático da
arquitectura, explorando ideias presentes entre os arquitectos da sua geração, como a
integridade funcional, a coerência estrutural ou o princípio do carácter que oferece a
imagem do edifício como sinal perfeitamente transparente do seu próprio destino. […]
Entendia toda a construção como merecedora do serviço da arte e não aceitava a
distinção entre o edifício utilitário e o palácio. Qualquer obra, desde a peça mais
humilde à mais insigne representação da nobreza ou do estado, deveria beneficiar dos
privilégios da beleza. A aplicação dos princípios fundamentais da arquitectura não se
47
“Claude Nicolas Ledoux ainda conseguiu publicar o seu L´Architecture consideree sous ler apport de
l´Art, des Moeurs et de la Législation em 1804, dois anos antes da sua morte. Na página da dedicatória “
A Sua Majestade o Imperador de Todas as Rússias”, da edição original, estão assinalados os desenhos ai
incluídos: “ plantas, alçados, cortes e vistas perspectivas de Cidades, Fabricas, Celeiros de sal, Edifícios
de graduação, Banhos públicos, Mercados, Igrejas, Cemitérios, Teatros, Pontes, Albergues, Casas de
Cidade e Campo de todos os géneros, Casas de Comercio, de Negociantes, de Empregados, de Edifícios
destinados a recreio publico, etc, etc”, concluindo esta lista com a sua caracterização: “Colecção que
junta todos os Géneros de Edifícios usados na ordem social”. Esta extensão do âmbito da Arquitectura já
apreendida de muitos autores encontra uma importante novidade em Ledoux, pois este arquitecto não só
inclui no seu livro um texto com o título “A casa do pobre”, como, mais à frente, ao solicitar socorro a
Vénus “para difundir o gosto das artes”, diz: “submeterei à vossa sensibilidade a casa do pobre, e tantos
edifícios esquecidos pela desdenhosa Arquitectura”. Estas explicações aliadas à opinião de muitos
críticos de que a inclusão de habitação operaria no conjunto arquitectónico que foi construído para as
minas de sal-gema de Chaux, segundo seu projecto, antecede a modelar construção de habitação para
operários por alguns industriais junto às suas instalações fabris no século XIX, perspectivam um
alargamento conceptual da Arquitectura pioneiro em Ledoux, mas no âmbito do que foi assinalado atrás
em Boullée, pois na mesma publicação aquele entende que “ A Arquitectura está para a alvenaria como a
poesia está para as belas letras: é o entusiasmo dramático da profissão; não se pode falar dela senão
com exaltação. Se o desenho dá forma, é ela que derrama o encanto que anima todas as produções.
Como não há uniformidade no pensamento, não pode haver expressão”. A monumentalidade deixa de ser
assim campo exclusivo para a Arquitectura, para nela serem incluídos edifícios modestos, mas tudo
respeitando as exigências da nova e expressa intencionalidade estética.” (Toussaint, 2012, p. 34)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
54
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
deveria relacionar com as classes sociais a que os edifícios eram dedicados, mas
expressar o seu lugar no sistema de actividade face à organização fisiocrática da
economia e da sociedade. Essa foi a noção de architecture parlante, como mais tarde
toda a sua obra foi pejorativamente apelidada. […] Embora mantendo sempre as
hierarquias de classe, Ledoux deixa transparecer no escritório a defesa da dignidade
mínima na habitação e na vida urbana, procurando em simultâneo uma boa relação
com a natureza. Cada família poderia ter o seu quarto próprio e até espaço para
cultivar a horta de subsistência. À estabilidade da vida privada haveria de corresponder
uma propensão mais favorável à participação nas actividades colectivas. (Tavares,
2011, p. 31-32-125)
Esta questão, relacionada com a igualdade entre classes sociais, constituirá um tema
nuclear para a Revolução Russa, em Outubro de 1917 e para a fundação da
República de Weimar48 em 1919, que leva à ascensão da vanguarda do movimento
operário europeu. Na Rússia surgiu um grupo de arquitectos soviéticos que defendiam
um tipo de planeamento democrático, no qual as redes colectivas de indústria,
transportes e electricidade eram fornecidas pelo estado, a propriedade individual seria
eliminada, assistindo-se a uma colectivização da vida e da habitação.
No lado oposto do espectro das tendências formalistas estavam as funcionalistas,
segundo as quais as novas formas seriam ditadas somente pela sociologia e pela
técnica. Nesse caso, a crítica que poderia ser feita é de que o funcionalista estaria
imitando a degradação da vida implícita na industrialização ocidental. O grupo OSA
conseguiu que a sua ideologia e a sua arquitectura fossem guiadas cuidadosamente
entre estes extremos, apesar de a sua tendência a se voltar na direcção do puritanismo
severo de expressão. Alguns arquitectos do grupo, como Moise Ginzburg, chamaram a
atenção para as moradias e para a criação de habitações colectivas. […] O conceito
marcou uma transição entre o edifício de apartamentos tradicional, contendo
inteiramente apartamentos privativos, e um novo tipo de moradia comum, no qual
algumas áreas eram compartilhadas, e no qual um equilíbrio criterioso era pretendido
entre o individual, o familiar e o grupo social maior […] a moradia estava contida em
uma caixa longa e baixa erguida do chão por pilotis, e a faixa de janelas foi usada aqui
como um dispositivo primário para articular o todo. A OSA devotava muito tempo ao
estudo de habitações, considerando questões como a célula familiar funcional, os
padrões mínimos comensurados com a produção em massa, e o significado dos
diferentes espaços de acesso. (Curtis, 2008, p. 209)
Surgia uma filiação funcionalista do modo de operar do arquitecto, que pensa a
arquitectura baseada nos novos métodos de produção e das necessidades funcionais
dos habitantes, rejeitando tudo o que é acessório.
Esta compartimentação da arquitectura seria objecto da separação idealista de dois
grupos de arquitectos. Os grupos suíços que inicialmente criaram o jornal ABC e que
se autodenominavam como “funcionalistas-colectivistas-construtivistas,” composto por
48
A Constituição de Weimar baseava-se na abolição das classes sociais, na libertação do poder
comercial no país, as mulheres passavam a ter os mesmos direitos que os homens e garantia-se a
liberdade de opinião.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
55
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Hannes Meyer49, Hans Schmidt50 e o holandês Mart Stam51. A sua proposta confirmaos como arquitectos marxistas mais interventivos e radicais [Ilustração 31].
Ilustração 31 – “Zurich, el barrio neubuhl. P. Artaria, M. E. Haefeli, C.Hubacher, W.M. Moser, E.Roth, H.Schmidt, P Steiger, 1930”.
(Benevolo, 1996, p. 653)
O posicionamento destes arquitectos é alterado, após Hans Schmidt ser chamado pelo
arquitecto e urbanista Ernst May52 a Frankfurt para pensar e executar o planeamento
colectivo na União Soviética. Este começa a direccionar a sua arquitectura cada vez
mais para as formas tradicionais, clássicas e representativas de um saber fazer
radicado na tradição [Ilustração 32].
Ilustração 32 – “Proyecto de un barrio satélite de Moscu, de Ernst May”. (Benevolo, 1996, p. 571)
Nesta época a Europa sofria ainda as consequências da 1ºGrande Guerra que, num
período de quatro anos, destruiu regiões inteiras, afundou economias em virtude de
esforço militar de um conflito bélico que custou milhões de vidas. A arquitectura
49
Hans Emil "Hannes" Meyer, arquitecto suíço, nascido em 1889, faleceu em 1954 foi director da
Bauhaus em Dessau 1928-1930. “Hannes Meyer was one of the most important architects of New
Architecture movement of the 1920s. During his brief term in office as the second Bauhaus director, he
gave the institution new impulses that had a lasting influence on important aspects of the Bauhaus
reception and animated the topical debates”. (Bauhaus archiv, 2014) Hannes Meyer foi um dos arquitectos
mais importantes na Arquitectura na década de 1920. Durante o seu breve mandato como o segundo
director da Bauhaus, deu instituições de novos para novos impulsos que tiveram uma influência
duradoura sobre aspectos importantes da recepção Bauhaus e animaram os debates de actualidade.
(Tradução Nossa, 2014)
50
Johannes "Hans" Schmidt arquitecto suíço de Basel, nascido em 1893 em, faleceu a 1972 foi para
além de arquitecto urbanista, teórico de arquitectura e artista gráfico.
51
Mart Stam arquitecto holandês, urbanista e designer de móveis, nascido em 1899, faleceu em 1986.
52
Ernst May nascido a 27 Julho de 1886 na Alemanha, e faleceu a 11, Setembro de 1970 em arquitecto
e urbanista.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
56
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
começa a trilhar o seu percurso revelando um conjunto diversificado de posturas
embora norteadas por um corpo ideológico comum.
Ainda que as formas da arquitectura moderna criadas durante a década de 1920 não
possam ser compreendidas fora dos ideais sociais que as impulsionaram, devemos
suspeitar das simplificações sobre as relações entre ideologia e uso formal. Os
exemplos alemães citados no capítulo anterior servem para mostrar, entre outras
coisas, um espectro de atitudes politicas dentro de um Movimento Moderno, do
espiritualizado “socialismo apolítico” de Gropius até a postura muito mais esquerdista e
teimosa de Hannes Meyer. Da mesma forma independentemente dos anseios utópicos
que eles possam ter compartilhado, as versões de uma vida ideal sonhada por artistas
com Le Corbusier, Gerrit Rietveld e Erich Mendelsohn variaram consideravelmente.
Deveríamos ser então cuidadosos ao imputar ao todo da arquitectura moderna
qualquer ideologia rígida; havia uma rica variedade de valores, e, de qualquer modo,
não existe um passo directo de um conjunto de ideias para um conjunto de formas.
Esses comentários sugerindo cautela parecem pertinentes à arquitectura soviética da
década de 1920, já que essa emergiu em uma atmosfera pós-revolucionária que
encorajava assertivas dogmáticas sobre a suposta “verdade” da arquitectura moderna
na nova ordem social. (Curtis, 2008, p. 201)
Nos primeiros anos da década de 20, os países europeus atingidos pela 1ºGrande
Guerra assistiram ao desenvolvimento de campanhas reivindicando uma vida melhor e
mudanças no sistema económico e social. Uma vasta e criativa comunidade de
intelectuais e movimentos artísticos foram emergindo, procurando desenvolver formas
artísticas inovadoras rejeitando, definitivamente, o ensino e as praxis artísticas
anteriores.
Acompanhando o espírito de reconstrução dos valores que regiam as relações
económicas, sociais e políticas surgem movimentos arquitectónicos um pouco por toda
a Europa. São exemplos desta proliferação artística e arquitectónica, o Construtivismo
na Rússia53, os racionalistas da Neue Sachlichkeit na Alemanha54, o De Stijl55 na
Holanda ou o L’Esprit Nouveau56 em Paris.
53
“Deveríamos ser então cuidadosos ao imputar ao todo da arquitectura moderna qualquer ideologia
rígida; havia uma rica variedade de valores, e, de qualquer modo, não existe um passo directo de um
conjunto de ideias para um conjunto de formas. Esses comentários sugerindo cautela parecem
pertinentes à arquitectura soviética da década de 1920, já que essa emergiu em uma atmosfera pósrevolucionária que encorajava assertivas dogmáticas sobre a suposta “verdade” da arquitectura moderna
na nova ordem social. Na verdade, o assunto não era de forma alguma simples. Indivíduos criativos foram
surpreendidos com a incrível tarefa de formular uma arquitectura que deveria “expressar” não tanto os
valores de uma ordem existente, mas de uma que se sentia que deveria emergir das atitudes
progressistas da revolução.” (Curtis, 2008, p. 201)
54
“ Na Alemanha, que se a industrializou mais tardiamente do que a Grã-Bretanha e a França, e que
sentiu profundamente algumas das oportunidades e traumas do processo, houve um grande debate
quanto ao relacionamento ideal entre o artista e a indústria. Grosso modo, havia quatro correntes
principais. Uma delas era uma continuação directa dos valores do movimento Artes e Ofícios nas
Kunstgewerbeschulen (Escolas de Artes Aplicadas), onde se manteve a ideia de que bens de alta
qualidade seriam alcançados somente através de uma concentração de esforços no trabalho dos
artesãos. Intimamente relacionada a essa percepção, havia uma ideia altamente individualista do papel
da invenção artística, que sustentava que as formas autênticas da arquitectura surgiriam apenas a partir
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
57
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Todas as posturas e metodologias projectuais, independentemente do movimento,
promoveram a revisão dos códigos da arquitectura e tiveram um papel transformador
no pensamento e praxis dos arquitectos, em termos da habitação e no pensar os
espaços urbanos. Articulando estratégias de concepção arquitectónica inovadoras
com uma convicção de que a disciplina deveria servir um maior número de pessoas, e
não apenas uma elite privilegiada, começam a surgir projectos construídos que
espelham formal e espacialmente, as teorias em ascensão e as lógicas sociais.
A necessidade de fornecer casas a todos em condições de higiene e salubridade e
permitindo diferentes standards de vida constituem um dos maiores problemas a
enfrentar. O urbanismo moderno é de início um urbanismo habitacional, quer pela
importância do alojamento e da área habitacional quer porque estes temas conduzirão
até à invenção de novas tipologias construtivas: o bloco, a torre, o conjunto. (Lamas,
2010, p. 300)
da interferência das personalidades expressivas; essa posição tendeu a ampliar os aspectos mais
subjectivos do Art Nouveau e levou a uma perspectiva “Expressionista”. Como contraponto, a terceira
posição era materialista e pragmática, e tendia a sustentar que as melhores formas seriam aquelas que
surgiriam do uso lógico e directo dos novos materiais para a solução dos problemas construtivos; essa
era, em outras palavras, uma visão funcionalista. A quarta posição (a que provavelmente nos interessará)
tendia a considerar o funcionalista como um bruto ignorante, o Expressionista, uma relíquia do culto aos
génios, e o artesão como uma entidade absolutamente extinta a menos que tivesse direccionado aos
problemas do desenho de objectos para produção em série. Assim, se tornou tarefa do artista ou
arquitecto desenhar as “formas tipo” – fossem elas objectos de design industrial, componentes
construtivos ou partes da estrutura urbana – de uma nova civilização mecanizada e, digamos, alemã. Era
uma ideologia na qual o artista tinha que actuar como um tipo de mediador entre a invenção formal e a
padronização, entre o estilo pessoal e a forma apropriada para o Zeitgeist (ou “espírito do tempo”), entre o
espírito do mundo contemporâneo e o suporte em princípios artísticos milenares” (Curtis, 2008, p. 99-100)
55
“1- Hay una antigua y una nueva consciencia de la época. La antigua va dirigida al individuo. La nueva
va dirigida a lo universal. El conflicto de lo individual y lo universal queda reflejado en la guerra mundial,
así como en el arte de hoy. 2- la guerra está destruyendo el Viejo Mundo con todo lo que contiene: la
preeminencia del individuo en cada campo. 3- El arte nuevo ha revelado la sustancia de la nueva
consciencia de la época: un equilibrio equitativo entre lo universal y lo individual. 4- la nueva consciencia
está a punto para realizarse en todo, incluidas las cosas cotidianas de la vida. 5- tradiciones, dogmas y la
preeminencia de lo individual (lo natural) se alzan en el camino de esta realización. 6- Por tanto, los
fundadores del neoplasticismo piden a aquello que creen en la reforma del arte y la cultura que destruyan
aquellas cosas que impiden ulteriores evoluciones, tal como el nuevo arte plástico, al quitar la restricción
de las formas naturales, han eliminado lo que cierra al paso a la expresión del arte puro, la consecuencia
extrema de todo concepto de arte. Del prime manifiesto de De Stijl, 1918. El movimiento holandés De
Stijl, que duró apenas catorce años, estaba centrado en la obra de tres hombres: los pintores Piet Modrian
y Theo Van Doesburg y el arquitecto y ebanista Gerrit Rietveld.” (Frampton, 1981, p. 144). 1- Existe uma
velha e uma nova consciência da época. A primeira é direcionada para o indivíduo. A novidade é
direcionada para a universal. O conflito do indivíduo e o universal é refletida na segunda guerra mundial,
bem como na arte de hoje. 2- A guerra destruiu o velho mundo, com tudo o que ela contém: a
preeminência do indivíduo em cada campo. 3- A nova arte tem revelado o conteúdo da nova consciência
da época: um justo equilíbrio entre o universal e o individual. 4- A nova consciência é um ponto a ser feita
por todos, incluindo as coisas de todos os dias da vida. 5- As tradições, os dogmas e a preeminência do
indivíduo (ao natural) estão no caminho de sua realização. 6- Por isso, os fundadores do neoplasticismo
pedem aos que acreditam na reforma da arte e da cultura a destruir as coisas que impedem que outras
evoluções, tais como a nova arte plástica, para remover a restrição de formas naturais, retirando e
fechando o passo para a expressão de pura arte, a extrema conseqüência de qualquer noção de arte do
primeiro manifesto do De Stijl, 1918. O holandês De Stijl movimento, que durou apenas catorze anos, foi
centrada no trabalho de três homens: os pintores Piet Modrian e Theo van Doesburg e o arquitecto Gerrit
Rietveld. (Tradução Nossa, 2014)
56
Em Paris a publicação da revista L’Esprit Nouveau, dava relevância ao surgimento de uma nova
arquitectura, com suporte ideológico, idealista e racional causou grande impacto, tinha o objectivo de
mostrar as pessoas o que de movo estava a surgir e a acontecer na arquitectura.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
58
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A arquitectura adoptara, de preferência, formas geométricas simples, ortogonais,
resolvendo-se no detalhe construtivo, em substituição do ornamento decorativo.
Exploram-se novas lógicas de construção em série que permitem responder às
necessidades dos indivíduos e da sociedade. A filiação dos arquitectos nesta linha
metodológica e de projecção inseria-se numa vontade assumida da arquitectura poder
estar ao serviço do maior número de indivíduos, na expectativa de eliminar qualquer
diferenciação entre classes.
Duas posições distintas sobre o papel do arquitecto, emergem no debate artístico e
social dos anos 20 e marcam definitivamente a praxis arquitectónica durante as
décadas seguintes. Por um lado afirma-se uma visão da arquitectura como ferramenta
de mudança da estrutura social, libertária e revolucionária nos seus objectivos, aberta
e mutável de acordo com as necessidades sentidas pelas populações. Uma outra
estrutura-se nos idealismos de uma arquitectura, influenciada pela inovação industrial,
e a com preocupação da criação de projectos que fossem icónicos, símbolos das
grandes cidades.
A referência a estas duas visões do papel e estatuto da disciplina afigura-se
indispensável para enquadrar o debate arquitectónico da segunda metade da década
de 1920 e que culmina com a formação, em 1928 dos CIAM57 (Congrès Internationaux
d’Architecture Moderne).
Assim se formam os Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna (CIAM), que
vão promover e publicitar as ideias da arquitectura e da urbanística moderna, com o
objectivo de «comparar periodicamente as experiências, a fim de aprofundar os
problemas tratados e apresentar ao público as soluções encontradas. (Lamas, 2010, p.
337)
No Verão de 1928, em La Sarraz, realiza-se o primeiro dos CIAM. O convite surgiu de
Hélène de Mandrot, que tinha estabelecido no seu castelo uma maison des artistes,
destinada a receber grupos de artistas das mais variadas áreas. Vinte e quatro
arquitectos, representando grupos nacionais de oito países europeus, juntaram-se
57
“Os trabalhos dos CIAM passaram por três fases. A primeira, de 1928 a 1933, incluiu os Congressos de
Frankfurt (II) e Bruxelas (III), e tratou sobretudo os problemas habitacionais, ampliando progressivamente
o campo de estudo. A segunda fase, entre 1933 e 1947, é fortemente influenciada por Le Corbusier. É no
Congresso de 1933, recorde-se, que terá sido redigida a Carta de Atenas. Neste período são abordadas
as questões do planeamento urbano sob uma óptica funcionalista. É o período que mais influencia ter na
urbanística e na organização das cidades. A terceira fase tendeu a ultrapassar a abstracta «cidade
funcional», apontando a necessidade de um ambiente físico que satisfizesse as necessidades emocionais
e materiais do homem. O VIII Congresso aborda o tema do «coração da cidade» e questiona já a eficácia
das formas urbanas modernas, desenterrando a validade dos espaços da cidade tradicional e iniciando a
crítica do racionalismo e do funcionalismo. Os CIAM «morrem» no penúltimo congresso, em 1956, em
Dubrovnik, com o aparecimento do grupo TEAM X, cuja consagração será confirmada em 1959, em
Waterloo, noutra reunião que encerrará definitivamente o ciclo CIAM.” (Lamas, 2010, p. 337, 338)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
59
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
para afirmar a união de pontos de vista sobre as concepções fundamentais da
arquitectura e sobre as suas obrigações profissionais para com a sociedade. Os CIAM
estabeleceram como objectivo principal a síntese das novas estratégias formais e
técnicas assentes num programa de transformação social através da arquitectura e do
planeamento urbano. Tinham também como finalidade a promoção destas estratégias
junto de potenciais clientes como governos municipais, estados centrais, ou
instituições internacionais como a Liga das Nações.
A formulação do programa dos CIAM, é proposta por Sigfried Giedion58 secretáriogeral do Congresso Internacional de Arquitectura Moderna. Este em 1929, durante a
realização desta reunião, em Frankfurt, introduz o tema da arquitectura ter especial
preocupação pelos círculos sociais, económicos e técnicos, e conseguir garantir nas
respostas construídas a resolução dos problemas sociais. O tema proposto intitulavase “Habitação para aqueles que estão abaixo da linha da pobreza” (“Die Wohnung für
das Existenzminimum”), [Ilustração 33] transformando-se no mais importante desafio
para a arquitectura no início do século XX.
Ilustração 33 - “El tipo de edificacion Existenminimun discutido en los CIAM en 1929”. (Benevolo, 1996, p. 553)
O século XX posiciona a arquitectura entre duas posturas ideológicas diametralmente
opostas: os arquitectos de filiação marxistas, como Le Corbusier com os seus
manifestos, defendendo que os problemas da habitação só poderão ser resolvidos
através de uma arquitectura contemporânea. As suas propostas urbanas de cariz
funcionalista assentam na separação da habitação, do trabalho, do lazer e dos
transportes. Numa outra perspectiva ideológica posicionam um conjunto de arquitectos
como Hans Schimidt, cuja leitura assenta no facto do papel do arquitecto não estar
subordinado à concepção formal [Ilustaçao 34 e 35].
58
Sigfried Giedion, historiador e crítico de arquitectura de origem Suiça,1888-1968.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
60
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 34 - Zurich, el barrio neubuhl. P. Artaria, M. E.
Haefeli, C.Hubacher, W.M. Moser, E.Roth, H.Schmidt, P Steiger,
1930”. (Benevolo, 1996, p. 653)
Ilustração 35 - “Stuttgard, la casa de acero de Le Corbusier em
weissenhof.” (Benevolo, 1996, p. 500)
Apesar de existirem diferenças teóricas e ideológicas substanciais entre estas duas
posturas, estes arquitectos assumiam, como elemento um comum o compromisso na
criação de tipologias arquitectónicas que promovessem a evolução social. O diálogo
com outros campos artísticos inovadores e processos construtivos condizentes com a
tecnologia e os materiais em voga, que foram as ferramentas para a concretização
deste objectivo. Ambos ambicionavam uma arquitectura adaptada ao espírito do
tempo e resposta com vincado cunho social.
Estes arquitectos compreenderam que a realização destes ideais, só seria possível
com o apoio efectivo do poder político. O intuito era o de propor um caminho viável
para a resolução dos problemas de habitação que afectavam a maioria da população
em geral. Pelo que o poder instituído era fundamental para a concretização efectiva
desta linha de acção.
No IV CIAM, realizado em 1933, é posto a debate o tema referente à “Cidade
Funcional”, Este congresso é realizado a bordo de um navio que realiza um cruzeiro
entre Marselha e Atenas. A decisão sobre a realização deste congresso foi tomada em
cima da hora implicando a ausência dos arquitectos soviéticos e grande parte dos
Alemães. A cidade informal surge com o objectivo de desenvolver e estabelecer um
método racional de orientação técnica, para lidar de forma eficaz com os problemas
existentes nos tecidos urbanos e nas propostas de raiz.
Como resposta surge em 1941, a Carta de Atenas59, que se viria instituir como a
magna carta do urbanismo modernista. Neste documento a composição da cidade
59
“A Carta de Atenas, divulgada quase oito anos após ser redigida, constitui uma síntese das posições
dos CIAM sobre a organização e planeamento das cidades. É um texto mais dogmático e polémico do
que analítico e demonstrativo, formulando exigências e estabelecendo os critérios para a organização e
gestão das cidades A carta terá resultado do trabalho desenvolvido nos oitos dias do IV CIAM, em 1933, a
bordo do navio Patris, navegando entre Marselha e Atenas […] Tornada publica só em 1941, por iniciativa
de Le Corbusier, que redige o texto final e terá sido o seu principal mentor”. (Lamas, 2010, p. 344)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
61
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
organizava-se de acordo com as seguintes categorias funcionais: habitação, lazer,
trabalho, circulação e património histórico.
Pressupunha-se que esta nova atitude de resolver a cidade, ou partes de cidade,
conduzira á resolução dos problemas da habitação e do habitar o espaço urbano. Mas
tal não aconteceu, a separação de funções na cidade gerou toda uma nova série de
problemas. A não adaptação do homem a estas normativas do pensar a cidade,
colocaram em causa os princípios orientadores da cidade moderna.
Seria abusivo atribuir aos CIAM e à Carta de Atenas a total responsabilidade pelos
desastres urbanísticos nos últimos cinquenta anos, muito embora se possam
estabelecer algumas consequências negativas: as conclusões do alojamento mínimo
conduziram em muitos países aos piores regulamentos e realizações de habitação
social; a utilização indiscriminada das formas urbanas racionalistas e dos edifícios altos
e espaçados influenciaram numerosos conjuntos habitacionais sem vida, desprovidos
de espaço e de identidade; a organização distributiva da cidade em área
funcionalmente especializada provocou a perda de residência nas áreas centrais e
perda de outras funções nas áreas habitacionais, retirando vida e animação às
primeiras nos períodos nocturnos e fins-de-semana e gerando a monotonia e
problemas sociais nas segundas; e também congestionamentos de trânsito e custosos
movimentos pendulares da população. Mas será abusivo considerar os princípios da
Carta como os únicos responsáveis desta situação, até porque a prática urbanística os
foi aplicando parcial e incorrectamente, desligando-os sempre do quadro global de
actuação nela proposto. (Lamas, 2010, p. 344, 345)
A arquitectura assumia o dever de renovar os seus valores e prática tendo como
finalidade solucionar as principais causas do desconforto social face, nomeadamente
ao problema da habitação doméstica. Esta premissa conceptual fomenta a proposta
ideológica e arquitectónica de Le Corbusier alicerçada na casa como máquina de
habitar60. A casa deveria transformar-se, à imagem da máquina, para poder funcionar
e responder às necessidades do tempo e do homem [Ilustração 36].
Ilustração 36 – “La Bouteille. Marsella. Le Corbusier”. (Torres Cueco, 2004, p. 204)
60
“O avião é um produto de alta selecção. A lição do avião está na lógica que presidiu ao enunciado do
problema e à sua realização. O problema da casa não está colocado. As coisas actuais da arquitectura
não respondem mais às nossas necessidades. No entanto os padrões da habitação existem. A mecânica
traz consigo o factor de economia que selecciona. A casa é uma máquina de morar”. (Le Corbusier, 1989,
p. 69)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
62
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Com Le Corbusier fica explicita a consciência de uma revolução no conceito de
Arquitectura, definindo-a a partir da sua universidade ao serviço de todos e em toda a
parte, entre os “povos felizes”, e esteticamente relevante para todos. Mas tudo isto
tendo como centro o habitar que, da habitação, se entende a tudo. A arquitectura
ordenaria o mundo a favor do seu habitante principal: o Homem. (Toussaint, 2012, p.
97)
A máquina adquire um papel relevante como grande operador da transformação nesta
época. A estandardização, racionalização e a funcionalidade, são normativas do
universo mecanicista, assumindo-se como pressupostos essenciais no ciclo projectual
destes arquitectos [Ilustração 37].
No campo da experimentação e na obra construída constata-se a impregnação de
uma série de novas possibilidades figurativas, formais e espaciais. Existia uma
consciência, em todos os campos do saber que uma nova época emergia. Esta
perspectiva implicou o estabelecimento de princípios doutrinários e sociais que
visavam suportar as respostas para uma sociedade ideal. Esta vontade sintonizada
com o aperfeiçoamento técnico e expressivo dos materiais, (o betão armado, o aço, o
vidro fabricado em grandes dimensões e os produtos artificiais) e com novos sistemas
construtivos que permitem a revisão da gramática figurativa e dos sistemas
tipológicos.
Ilustração 37 – “Unité d´habitation de Marsella”. Le Corbusier. (Torres Cueco, 2004, p. 210)
Apesar das vicissitudes subjacentes às propostas da cidade construída em sintonia
com pressupostos da carta de Atenas e da máquina de habitar, estas na sua
concretização incorporam um conjunto de projectos desenhados de acordo com o
conceito de espaço mínimo.
O estabelecimento de noção de áreas “mínimas” ou de habitação “mínima”, para ser
satisfatória, é a expressão das contingências e exigências de uma época e a também
experimentação de critérios ergonómicos e antropométricos. Sem a articulação destes
dados complementares, estas noções podem gerar problemas que se repercutirão na
ordem das necessidades, sobrepondo-se à dimensão quantitativa às necessidades
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
63
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
qualitativas da vida quotidiana do homem. “Hipóteses de evolução, verificáveis ou
esperadas, reflectir-se-ão nos níveis mínimos de área e outras disposições de
projecto, aconselhando um estudo prudente e minucioso a partir da análise das
funções e actividades que exercem na habitação.” (Portas, 1969, p. 2). Esta
constatação é na óptica de Nuno Portas:
Aspecto mais controversos das propostas reside naturalmente na noção de “mínimo”
que se adopta como limite quantitativo para a satisfação de certas exigências
nomeadamente as do espaço habitável […] quantidade de espaços são analisados em
função das exigências físicas das actividades. (Portas, 1969, p. 5)
Numa leitura genética é relevante compreender a função primeira da casa para os
indivíduos. O espaço doméstico é o somatório integrado de condicionalismos
socioculturais manifestados em termos do grau de privacidade interna, pelo que o
espaço mínimo não deverá resultar de um mero somatório de parcelas com função
atribuída. Tomando como ponto de partida a resposta arquitectónica a situações
precárias de vida ou mesmo situações de emergência é fundamental projectar
espaços que possibilitem a vivência de acordo com as suas expressões culturais,
assegurando como finalidade última do exercício níveis de conforto e a habitabilidade.
Uma leitura evolutiva sobre as funções da habitação, aponta para a experiência de um
desnível entre o custo imposto à construção e a efectiva adaptação às necessidades
da população. Na opinião de Nuno Portas ”não se pode diminuir as áreas sem a
análise do conhecimento dos mínimos absolutos” […] “A menos que se trate de
soluções que permitem expansões futuras”. (Portas, 1969, p. 8).
As soluções habitacionais ou de equipamentos que tenham como matriz a proposição
projectual de espaço mínimo, conduzia uma conjugação desta premissa com sistemas
modulares de modo a gerar uma estrutura que suporte um possível crescimento
evolutivo, baseado num conjunto de regras pré estabelecidas.
Estas características são também fundamentais na implementação de sistemas de
repetição. A articulação integral destes pressupostos projectuais, estão dependentes
de condicionantes como contexto, o lugar e a conjugação tipológica que satisfaça as
necessidades do utilizador. Sem abdicar da qualidade formal e espacial dos objectos
arquitectónicos, a articulação deste binómio acresce a níveis de dificuldade ao
arquitecto na elaboração do projecto e na definição dos custos à sua viabilização, esta
pode passar pela utilização de materiais locais e, se possível, pelo recurso ao
incentivo à autoconstrução.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
64
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A praxis arquitectónica, de acordo com o programa pré-definido implica o
estabelecimento prévio de metodologias adquiridas à realidade para a concretização
da resposta. Estas norteiam o exercício desde o pensar e fazer a cidade, do edifício à
reflexão sobre o habitar domestico. Os espaços mínimos de habitar continuam a ser
objecto de reflexão e proposição.
A resposta de um arquitecto, quando a solução apresentada tem como premissa o
habitar mínimo, é segundo Alejandro Aravena: ”hacer arquitectura de calidad com
recursos mínimos es quizas las más difícil de las preguntas a las que enfrentamos
como professionales.” 61 (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 32)
Esta dificuldade projectual é no entanto emissora de um ciclo de criatividade,
incorporando na ideia construída elevados patamares de flexibilidade e racionalização.
Todas as fases do projecto são definidas com o objectivo de garantir o equilíbrio entre
a sua dimensão qualificativa e quantitativa.
When the repetition, the lining up of identical building types, the rejection of variety in
the form of facade is described as monotonous, this only proves the lack of imagination,
62
the disinterest in the real living conditions of the residents of this building . (Fleck,
1995, p. 64)
A repetição sistemática de um mesmo elemento reduz substancialmente o custo final
do projecto A concretização de um projecto cuja matriz ideativa recorre à inclusão de
sistemas de repetição e de elementos de produção em série, tem como finalidade
garantir uma habitação de qualidade a custos controlados. A qualidade compreende a
satisfação das necessidades do utilizador, dentro de parâmetros regulamentado pelas
normas da construção assim como o carácter funcional enquadrado com o custo,
definido à partida pelo cliente. “As técnicas de produção tradicionais exigem repetição
para baixar os custos de acordo com economias em escala.” (Duarte, 2007, p. 1)
A habitação individual não é ainda um problema solucionado em termos globais.
Existem muitas regiões que necessitam de respostas ancoradas no pensar do espaço
mínimo, como princípio operativo para a resolução do problema da habitação que
continua a afectar largas faixas da população em diversas zonas do globo.
Os constrangimentos subjacentes à elaboração de projectos fundamentais no habitar
mínimo implicam um reposicionamento da praxis dos arquitectos para a reinvenção de
61
Fazer arquitectura de qualidade com recursos mínimos, é quase a mais difícil pergunta que
enfrentamos enquanto profissionais. (Tradução Nossa, 2014)
62
Quando a repetição, o alinhamento de tipos de edifícios idênticos, a rejeição da variedade na forma de
fachada é descrito como monótono, isso só prova a falta de imaginação, o desinteresse das condições de
vida reais dos moradores dos edifícios. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
65
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
determinados pressupostos desta equação. Conceitos como a racionalização,
flexibilidade, produção em série e repetição são articulados por arquitectos na
redefinição do habitar mínimo.
As contínuas reflexões sobre o habitar mínimo, coloca-se perante a necessidade da
definição sumária de alguns destes conceitos como a flexibilidade e a produção em
série, abertos e em constante transmutação as definições apresentadas são uma
tentativa de incorporar os pressupostos e as respostas que ocorreram ao longo do
século XX. O entendimento destes conceitos cruza o pensamento de um conjunto de
arquitectos com as suas próprias respostas arquitectónicas.
A flexibilidade é a capacidade transformativa que uma tipologia conferindo, ao utente a
possibilidade, dentro de certos limites de reconfigurar espaços executados por medida.
Esta assume-se num desenho aberto à apropriação das necessidades do utilizador. A
consumação de um espaço flexível está dependente dos sistemas construtivos.
Liberdade de escolha entre opções existentes ou a criação de programas que atendam
às necessidades e aspirações específicas dos indivíduos em relação às edificações
que ocupam… além disso, para os arquitectos a flexibilidade normalmente demonstra o
quanto um projecto é capaz de assegurar nas edificações, nos programas ou nas
tecnologias utilizadas, uma boa funcionalidade inicial, que possibilita resposta às
futuras modificações (Hamdi, 1991, p. 35)
Relativamente ao conceito de produção em série este está ligado à habitação. Sobre
este tema opta-se pela definição Le Corbusier [Ilustração 38 e 39]:
Ilustração 38 – “L´Ossature atandard “Dom-ino”, pour éxecution en grande
serie”. (Samuel, 2007, p. 22)
Ilustração 39 - “L´Ossature atandard “Domino”, pour éxecution en grande serie”.
(Samuel, 2007, p. 22)
A série está baseada sobre a análise e a experimentação. A grande indústria deve se
ocupar da construção e estabelecer em série os elementos da casa. É preciso criar o
estado de espírito da série. O estado de espírito de construir casas em série. O estado
de espírito de resistir em casas em série. O estado de espírito de conceber casas em
série. Se arrancarmos do coração e do espírito os conceitos imóveis da casa e se
encararmos a questão, de um ponto de vista critico e objectivo, chagaremos à casa-
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
66
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
instrumento, casa em série, sadia (e moralmente também) e bela pela estética dos
instrumentos de trabalho que acompanham nossa existência. (Le Corbusier, 1989, p.
159)
A conjugação de um ou vários destes pressupostos no projecto leva a leituras que
imediatamente não revelam a complexidade e variedade mas apelam à monotonia. A
referência à monotonia pode ser uma dimensão positiva no projecto. Uma questão
defendida pela equipa Elemental:
La vivienda social era históricamente criticada por la monotonía. Sólo construcción
informal generaba deteriora urbano. La idea era usar la monotonía como algo positivo
que enmarcara las construcciones espontáneas y la informalidad como un mecanismo
63
de personalización del barrio. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 105)
A manipulação isolada destes conceitos originou respostas que hoje constituem
paradigmas da arquitectura [Ilustração 40]. As reflexões sobre espaço mínimo,
flexibilidade e produção em série continuam a ser pressupostos prevalentes no acto de
projectar para a construção no mundo real e enquanto respostas estratégicas para
uma arquitectura de baixos recursos.
Ilustração 40 – “Gary Chang: Life in 32 sqm” e “Sequence Possibilities”. (Jordana, 2014)
63
Habitação Social historicamente foi criticada pela monotonia. Construção urbana informal apenas
gerado deteriora-se. A idéia era usar a monotonia como algo positivo que as captações das construções e
espontânea a informalidade como um mecanismo para personalizar o bairro. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
67
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
2.3. SOLUÇÕES CONSTRUTIVAS. DOS PROCESSOS DE AUTOCONSTRUÇÃO
AOS CONSTRANGIMENTOS SOCIOECONÓMICOS
Desde sempre a arquitectura procurou estabelecer respostas específicas que se
enquadrem nos mais variados lugares, tipologias ou condicionantes das mais diversas
ordens regulamentares, técnicas, entre outras. Os arquitectos estruturam o projecto no
todo, inclusive a sua dimensão construtiva. Elegem para a concretização formal e
espacial dos objectos arquitectónicos conhecimentos construtivos ancestrais ou
utilizam sistemas construtivos e materiais da respectiva época, adequados para
executar respostas para os lugares e as condicionantes programáticas e construtivas
do
local
de
intervenção,
mesmo
quando
limitados
por
constrangimentos
socioeconómicos.
Como qualquer outro fenómeno a arquitectura é “coisa”, o objecto submetido às
condições universais de existência do mundo. O seu corpo situa-se no espaço e no
tempo, determinando ordens axiais de permanência de que a matéria é a fixação.
(Rodrigues, 2002, p. 41)
Conhecer a diversidade de projectos, realizados tendo como uma das condicionantes
fulcrais o conjunto de constrangimentos socioeconómicos é actualmente essencial. A
leitura critica que se elabora sobre estes projectos, permite consolidar referências
sobre o acto de projectar face a novas realidades e compreender o processo de
investigação que estes arquitectos realizam na definição de novas soluções tipológicas
e construtivas. Esta pesquisa não está limitada ao conhecimento mais imediato,
caminhando
evolutivamente
para
soluções
arquitectónicas
alternativas
que
materializem em projecto este desafio. Os diferentes projectos, de arquitectos e de
não arquitectos, permitem reflectir sobre os paradigmas subjacentes ao saber e fazer
veiculado por via da arquitectura tradicional ou vernacular. Este campo de
investigação
projectual
revela
uma
perspectiva
propositiva
condutora
da
reconfiguração e adaptabilidade destas arquitecturas de acordo com o pensamento
destes autores.
Na época actual afigura-se que o ser humano, nas sociedades ditas modernas e
evoluídas, perdeu a capacidade de criar a sua habitação, tendo que confiar ao
Arquitecto o seu modus habitandi. Essa perda resulta da especialização das funções
sociais que, em última análise, retiram ao indivíduo o espaço para a aprendizagem da
construção, havendo simultaneamente a introdução de regulamentações que vêm
também da especialização da arquitectura e da construção. Ao Arquitecto cabe assim a
função de conciliar a materialização da obra com a concepção da mesma (no seu
quadro físico e criativo), respondendo necessariamente às imposições que regem o
acto de edificar em si – quadro legal e a vontade do demandante. (Campos, 2013, p.
33)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
68
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Esta manifestação actual do fazer arquitectónico é suportada pela intuição, pela
experiência, pelo conhecimento, ou a necessidades na utilização de processos
construtivos e materiais comuns garantindo a execução através de um sistema
baseado na autoconstrução. Os não arquitectos constroem numa linha de
continuidade, socorrendo-se de processos e materiais que conhecem e ao seu
alcance. Os arquitectos, numa outra vertente, aplicam nestes casos processos
construtivos e materiais tradicionais, potenciando a sua fusão com outro tipo de
materiais como o tijolo, o betão, as chapas, o aço entre outros. Este cruzamento
íntegra, um saber fazer oriundo do ensino universitário e do exercício da profissão com
a necessidade de garantir os seus objectivos, integrando o saber adquirido com os
constrangimentos da região para a qual são confrontados a responder [Ilustração 41].
Ilustração 41 - “Utopia di terra”. Photo Erik-Jan Ouwerkerk. (Kunsmann, 2012, Capa)
A sociedade é geradora de arquitectura. A ordem das necessidades práticas é naquela
determinante; o útil, em arquitectura, supõe a habilidade individual, familiar e tribal, mas
também, a do grupo organizado, escalonado, interveniente política, cultural e
civilmente, identificado com relações programáticas, serviços recíprocos e
interdependências múltiplas, conjunto este que designamos por cidade. (Rodrigues,
2002, p. 33)
Neste processo especifico é tão significativo conhecer as soluções tipológicas como é
importante dominar os materiais utilizados e as técnicas que permitem concretizar os
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
69
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
projectos. Neste âmbito tirar partido dos materiais naturais, reduzir à essencialidade os
sistemas construtivos, reutilizar materiais que parecem desperdício, aprender a
projectar entendendo a envolvente e as necessidades básicas dos homens,
observando arquitecturas sem arquitectos64, utilizando a técnica popular extraindo-lhe
a qualidade que lhe foi atribuída pelo tempo, criar novas soluções construtivas a partir
da escassez, proporcionam a estes arquitectos dinâmicas intelectuais e projectuais
para a elaboração das respostas para o mundo real.
O arquitecto Filipe Gonzalez quando confrontado com o tema do acto arquitectónico
elaborado pelo homem não arquitecto, na sua tese de doutoramento expõe a questão:
Será o homem de hoje capaz de edificar com significado, de forma inata?”
A resposta deverá ser afirmativa, contudo a anteriormente referida especialização da
arquitectura leva a respostas diferentes das que se esperam do exercício do arquitecto.
Isto leva a comparar a arquitectura vernácula, e as suas respostas, com a arquitectura
dita erudita, levantando-se também muitas questões acerca da qualidade de ambas. A
necessidade da construção extravasa o cumprimento de objectivos básicos. O acto
arquitectónico resulta da transferência de funções básicas do homem comum para
funções especializadas dentro das funções sociais, onde se inclui a edificação. A
própria evolução na escala social permitiu ao homem que a arte, a funcionalidade e a
solidez fossem incluídas nas preocupações da mesma. Ao mesmo tempo a
necessidade de afirmação da condição humana perante o meio, ou como forma de
manifestação do poder, do homem sobre os homens, do bem-estar e superioridade
podem ser enunciadas e entendidas como elementos que propiciam o trabalho do
arquitecto. (Campos, 2013, p. 33- 34)
Ilustração 42 – Arquitectura tradicional por Leon Krier. (Krier, 1999, p. 182)
64
Em entrevista ao J.A nº236, Filipe Balestra explica o trabalho ao qual foi contratado para fazer na Índia,
que consistia num projecto de habitação Incremental que: “É um processo de construção natural que
acontece hoje nas favelas de todo o mundo. O nosso objectivo foi estudar esse processo e apresentar ao
governo indiano de modo a que este possa aceitalo e legalizalo. Na Rocinha, uma família normal demora
cerca de quatro anos a juntar dinheiro para construir um só piso. Começa-se no rés-do-chão, quatro anos
depois faz-se um primeiro andar, mais uns anos para um segundo […] A família acaba por morar para
cima- alugando o rés-do-chão. Voilá, eis a reforma.” (Balestra, 2009, p. 89)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
70
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A arquitectura vernacular65, tradicional66 ou local exige o reconhecimento da sua
especificidade e contínua adaptação ao meio. Ter presente as variabilidades ou
diversidades climáticas e a disponibilidade dos materiais locais que se constituem
como variáveis fundamentais na equação projectual destes arquitectos, manifesta-se
na resposta final. A inserção da obra na paisagem e na cultura, o recurso aos
processos e materiais mais eficientes para a consumação efectiva desta arquitectura,
são factores que contribuem para o estabelecimento de valores de identidade, dentro
de níveis que as comunidades assimilam.
A construção vernacular está necessariamente ligada a factores geoclimáticos e a
materiais apropriados a um local específico. Um estilo regional representa a cultura das
formas e técnicas adequadas a uma região, respondendo às suas condições
climatéricas, materiais e topográficas. A sua estética e o seu caracter emergem através
da repetição infinitamente variada e inteligente dum inventário formal e tipológico
adaptado e essencial. (Krier, 1999, p. 181)
São arquitecturas que podem ser executadas em lugares com características
topográficas bastante acidentadas, como vales, montanhas ou mesmo locais de difícil
acesso. Estas realidades implicam o trabalhar com materiais locais, como a pedra,
madeira, terra, entre outros, os quais são por vezes as melhores ou até mesmo únicas
opções.
La arquitectura es la materialización de una idea de proyecto. La transferencia de esta
idea a la realidad construida, así como el efecto que producirá en el observador,
dependen fundamentalmente de la elección de los materiales. La variedad de
materiales es extraordinaria, pero un buen proyecto se debe ceñir necesariamente a
una materialidad muy concreta. Pero que entendemos por materialidad? Como es
65
Quando se aborda de arquitectura vernacular, de materiais e técnicas de construção Vicent Soriano
Alfaro explica a aplicação da terra: “Es usual que la arquitectura vernácula haga uso de aquellos
materiales de los que se dispone en abundancia en el torno inmediato. Es por esto por lo que la tierra se
puede considerar como el material básico y casi exclusivo empleado en las edificaciones de los valles
presaharianos. Esta materia en estado crudo es esencial para la ejecución de taipa y adobe, que son las
técnicas utilizadas para la construcción de todas las edificaciones de estas zonas. Hay qua añadir la
piedra, que se utiliza en los arranques de los muros de taipa y la madera en la ejecución de forjados y
cubiertas.” (Soriano Alfaro, 2006, p. 69). É curioso que a arquitectura vernacular faz uso dos materiais que
estão disponíveis em abundância à sua volta imediatamente. É por isso que a terra pode ser considerada
como um material de base e quase que exclusivamente utilizados nas construções dos vales
presaharianos. Este tema em estado bruto é essencial para a execução de taipa e adobe, que são as
técnicas utilizadas para a construção de todos os edifícios, nestas áreas. Há que não adicionar a pedra,
que é usado em rompantes de paredes de taipa e madeira na aplicação de forjadas e cobre. (Tradução
Nossa, 2014)
66
“Uma arquitectura tradicional não é um dado adquirido de uma forma definitiva. Ela transmite-se ao
nível dos indivíduos com um grau de sucesso que varia fortemente consoante as gerações. […] No
entanto, a verdadeira arquitectura tradicional ainda nos diz alguma coisa; longe de nos ser estranha, ela
continua a ser-nos útil. Ela transmite-nos as suas mensagens essenciais, mesmo se não formos capazes
de emitidas. Ela continua a ser uma linguagem bem viva, apesar de muitos arquitectos terem perdido a
vontade de aprender a sua gramática e de utilizar o seu vocabulário. As crises passadas e presentes não
provocaram erosão nem poluição na linguagem tradicional. As suas regras, as suas significações, os seus
inventários e glossários estão temporariamente velados pela confusão. A suas transmissões do seu saber
e do seu saber fazer sofreu uma interrupção brusca e brutal. É possível uma reconstrução e uma
reaprendizagem das suas disciplinas. A transmissão dos valores não se faz de uma maneira mecânica e
involuntária. É uma questão de vontade e de razão: uma escolha cultural”. (Krier, 1999, p. 181)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
71
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
común en el discurso arquitectónico actual, se trata de un término prestado,
ampliamente utilizado, pero ambiguo e impreciso. El término “materialidad” se suele
aplicar a la superficie de la arquitectura. Los materiales contribuyen a la creación de la
experiencia espacial a través de su aspecto, de la sensación al tacto, su olor y
67
características acústicas. (Haggar, Drexler, Zeumer, 2010, introdução)
Para a presente investigação, na decorrência do próprio tema, considerou-se
relevante, neste capítulo, abordar sumariamente alguns materiais tradicionais mais
comummente utilizados neste tipo de arquitectura. A exposição sobre materiais teve
por base os utilizados casos de estudo. A descrição sucinta destes materiais e
técnicas construtivas, algumas delas ancestrais, comprova a versatilidade dos
mesmos bem como a sua resiliência e adaptabilidade nas respostas arquitectónicas
elaboradas por estes autores contemporâneos.
A decisão de um material, o travertino na Casa Fansworth, com a capacidade de
funcionar no interior e no exterior para traduzir bem a continuidade desse plano
horizontal, é uma decisão também importante. Tal como é importante que todas as
peças sejam iguais, rectangulares, como que sublinhando mais um grau na direcção
desta casa. Com as mesmas medidas no interior e no exterior. Com a mesma
horizontalidade, no interior e no exterior. (Campo Baeza, 2011, p. 59)
Os referidos materiais são essencialmente a terra que construtivamente integra dois
dos casos de estudo: no Burkina Faso e no Bangladesh. O betão utilizado nas
fundações destes no projecto para o Chile. O bambu utilizado tanto como revestimento
na execução de coberturas para ventilação natural, ou em parâmetros verticais como
no caso de estudo na Tailândia. Esta investigação aborda ainda o aço e chapas de
aço nas suas múltiplas aplicações nestes projectos.
Conhecer as propriedades de um determinado material e características construtivas é
fundamental para definir a solução arquitectónica mais eficaz. É entendível a diferença
que existe entre projecto e construção. Os objectos arquitectónicos revelam a
expressividade e sensorialidade dos materiais, a percepção que o sujeito constrói do
binómio formal e espacial do contentor. A arquitectura integra também como essencial
os sistemas construtivos e as soluções técnicas e de conforto adoptadas,
nomeadamente, térmicas e sonoras.
67
A arquitectura é a realização de uma idéia do projecto. A transferência desta ideia para a realidade
construída, assim como o efeito que irá ocorrer no observador, dependerá fundamentalmente da escolha
dos materiais. A diversidade de materiais é extraordinário, mas um bom projecto deve aderir a uma
materialidade necessariamente muito concreta. Mas o que entendemos por materialidade? Como é
comum no discurso arquitetônico actual, esta é um termo comum, amplamente utilizados, mas ambígua e
imprecisa. O termo “materialidade” muitas vezes é aplicado sobre a superfície da arquitectura. Os
materiais contribuem para a criação do espaço experiência através do seu aspecto, da sensação do
toque, cheiro e características acústicas. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
72
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Para mí, proyectar y construir es lo mismo. Me gusta la idea de que la forma sea el
resultado de la construcción y del material, algo concreto. En efecto, considero que
limitarse a esta fórmula sería una reducción mecanicista, pues la configuración de la
forma comporta, voluntariamente o no, una información en sí misma, una intención
sobre sus componentes materiales e constructivos […] Entre ambos se ubica la materia
arquitectónica: como límite y transición entre interior e exterior, aunando en si todas las
68
cualidades arquitectónicas, culturales y atmosféricas que irradian el “espacio”.
(Deplazes, 2010, p. 19)
Os materiais utilizados na construção dos objectos arquitectónicos interagem com o
sujeito, quando este percorre os espaços e se relacionam com a matéria. Quando se
refere a esta questão, aborda-se o valor da matéria em si, a massa, o peso, a
esbeltez, a presença ou ausência da estrutura, a tectónica, a histerotomia, ao limite do
opaco, transparente, translúcido, às superfícies planas e plásticas, assim como nos
referimos à configuração, geométrica, à matemática, à dimensão definida à escala e à
proporção.
Sempre divide a forma construída em dois procedimentos materiais distintos: a
tectónica da rede, onde as distintas partes se conjugam construindo uma única unidade
espacial; a estereotómica, da massa que trabalha a compressão, que quando conforma
um espaço fá-lo por sobreposição de partes iguais. O termo estereotómico provém do
grego stereos, que significa solido, e tomia, que significa cortar […] o tectónico, o
material mais comum ao longo da história foi a madeira, ou os seus equivalentes, como
o bambu, as canas e o trabalho de cestaria. […] O estereotómico, o material mais
usado foi o tijolo, ou materiais que trabalham a compressão de maneira similar ao tijolo,
como a pedra ou o adobe, ou o betão armado. (Campo Baeza, 2011, p. 27)
Relativamente ao espaço a sua percepção consuma-se através da articulação da
luz69, materialidade e cor. O material confere textura rugosa, fina, lisa e fibrosa, tem
cheiro, odor e aroma apelando à vibração dos sentidos. O conforto dos objectos
arquitectónicos é garantido pelos materiais e soluções que visam à protecção do
homem, sejam eles em termos da acústica, de soluções térmicas e dos mais variados
tipos de isolamento.
Investigar os materiais é essencial para desencadear e desenvolver novas técnicas,
no seu campo da sua aplicabilidade.
68
Para mim, projectar e a construir é o mesmo. Eu gosto da idéia de que a forma é o resultado da
construção e material, algo de concreto. Na verdade, limitando-se a esta fórmula seria uma redução
mecanicista, porque a configuração do formulário implica, voluntariamente ou não, a informação em si,
uma intenção construtiva e componentes de materiais [...] entre os dois está localizada no campo da
arquitectura: como limite e a transição entre exterior e interior, a adesão, se todas as qualidades
arquitectónicas, culturais e atmosférica que irradiam o "espaço”. (Tradução Nossa, 2014)
69
“Sempre sugeri que a luz em arquitectura “constrói o tempo” e que a luz é o material capaz de colocar
o homem em relação com a arquitectura. […] A arquitectura histereotómica busca a luz. Perfura as suas
paredes para que, atravessada pelos raios do sol, possa captar a luz no interior. […] Pelo contrário, uma
arquitectura tectónica, pura ossada, precisará de se proteger da luz que a inunda. Se com o aço se tinha
conseguido chegar a um delicado esqueleto no limite da expressão mínima, será o fechamento vertical
acrescentado a ser de mediador entre o espaço interior e a luz do sol que agora o enche completamente.”
(Campo Baeza. 2011, p. 30, 31)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
73
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Construir em terra é uma solução que nos dias de hoje continua a apresentar diversas
vantagens. Estas traduzem-se na : durabilidade, na plasticidade do material e o facto
de ser um material barato pela sua abundancia no solo. É uma solução que utiliza
como matéria-prima a terra. É executada, sem recurso a energias e permite a
autoconstrução [Ilustração 43]. A execução com este material/técnica aumenta a
ajuda e partilha das comunidades e intercâmbio com os arquitectos.
Contrariando a vontade das grandes construtoras será a necessidade dos povos (e do
planeta terra) a recolocar a terra (material de construção) no seu lugar pleno direito.
Todas as características deste material colocavam-no em contradição com o século
que passou: o esbanjamento da energia barata minimizava a sua característica de bom
material térmico e higrométrico, bem como o facto de estar sempre próximo do local
onde é necessário, e a ideia de construções em altura reduzia a sua eficácia nos
planos urbanos de então. A fácil acessibilidade técnica da sua fabricação e
manutenção tornavam-se ainda um material a desvalorizar pelas grandes construtoras.
(Pinto, 2005, p. 16)
Ilustração 43 – “Ateliê Gando”, Burkina Faso. Photo Alberto Pottenghi. (Kéré, 2014)
Os materiais estão em permanente evolução. Apesar desta constatação, verifica-se
ainda a aplicação de todo o tipo de adobes e tijolos mais ou menos sustentáveis e de
fácil execução de obra. Na sua forma mais simples sabemos que os “adobes son
piezas de barro fabricadas artificialmente y cortadas convenientemente que despues
se secan al aire”
70
(Deplazes, 2010, p. 32) os tamanhos variam e adequirem uma
forma prismática. A aplicação em obra faz-se pela sobreposição, das peças de adobe,
assentes com argamassa. As juntas71 podem ser preenchidas com argamassa, tendo
70
Peças Adobe argila são fabricados artificialmente e convenientemente cortado depois que o ar seco.
(Tradução Nossa, 2014)
71
“Se diferencia entre tipos de juntas de mortero: tendeles y largas, que unen y mantienen ligadas,
horizontal y vertical, cada pieza con las demás. En tanto que está compuesta de piezas con las demás
[…] ejemplos para la formación de juntas: a) rehundida (producida con un tubo metal o media cana); b)
enrasada; c) con inclinación (la parte no vista del ladrillo queda parcialmente expuesta a las inclemencias
meteorológicas); d) rehundida y enrasada interiormente (la parte no vista del ladrillo queda parcialmente
expuesta a las inclemencias meteorológicas); e) saliente (el mortero de la junta queda fuertemente
expuesto a las inclemencias meteorológicas.” (Deplazes, 2010, p. 33). A diferença entre os tipos de
argamassa das juntas: juntas de longo prazo, que unem e mantem ligado, horizontais e verticais, cada
peça umas com as outras. Tanto que é composto de peças com os outros [...] exemplos para a formação
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
74
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
como único objectivo manter as peças unidas e resistentes, delimitando os “muros” e
permitindo a obra crescer de forma fácil e eficiente.
Cada obra quando construída em terra funciona como um laboratório72. A sua
execução permite ensinar às pessoas a fazer73 e construir no sítio. O essencial desta
técnica construtiva é que trabalha com a compressão e a resistência mecânica do
material. A essencialidade desta solução está em executar boas fundações e resolver
as coberturas, de modo a garantir a durabilidade deste tipo de construções. Este é um
recurso natural que na arquitectura construída surpreende, uma vez que pode unir
beleza e sustentabilidade74, geradora de harmonia entre o solo e o edificado, bem
como com as pessoas que formam a comunidade [Ilustração 44].
Ilustração 44 – “Ateliê Gando”, Burkina Faso. Photo Alberto Pottenghi. (Kéré, 2014)
de juntas: a) um recesso (produzidas com um tubo metálico ou média cana); (b) lavar; (c) com inclinação
(a parte não vista do tijolo é parcialmente exposto ao clima); (d) e lave um recesso interiormente (a parte
não vista do tijolo é parcialmente exposto ao clima); (e) saída (a argamassa está fortemente exposto ao
tempo). (Tradução Nossa, 2014)
72
“Lembrei-me então de que os antigos tinham construído abobadas sem utilizar cimbres, e pensei em
experimentar fazer o mesmo. Por esta altura pediram-me que fizesse o projecto de uma quinta para a
Sociedade Real da Agricultura, em Bahtim, e apliquei as minhas novas ideias nessas construções.
Expliquei as minhas intenções aos pedreiros e eles tentaram fazer as minhas abóbadas sem utilizar
apoios. As abobadas desabaram num instante. As tentativas repetiram-se sem sucesso. Não havia
dúvidas de que se os Antigos sabiam construir abobadas sem cimbre, o segredo tinha morrido com eles.”
(Fathy, 2009, p. 16)
73
O adobe moldado explicado pela arquitecta Maria Fernandes: “o adobe ou adobo é um material cuja
técnica consiste em moldar, sem compactar, unidades ou módulos em terra, apenas secos ao sol.
Técnica milenar de produção e manufacturada de material para a construção, o adobe moldado é também
uma forma aperfeiçoada, em que a terra é colocada em moldes, na sua maioria de madeira e
paralelepipédicos […] Por todo o mundo adobe significa cumulativamente tijolos secos ao sol e as
alvenarias elevadas nesse material […] Segundo o CRATerre, as proporções ideais de componentes da
matéria-prima terra, para a produção de adobe deverão variar entre: 55 a 75% de areia; 10 a 28% de
siltes; 15 a 18% de argila. Solos com substancial percentagem de finos (areias e siltes) e quantidade
controlada de argila são, à partida, os indicados para a construção de adobe. Para “trabalhar” a terra
dentro de um molde (adobe moldado) ou simplesmente “esculpir” pequenas unidades sem moldes (adobe
manual), a água é um factor essencial na mistura dos componentes e na coesão do produto final. Para a
produção deste material é necessária uma grande quantidade deste recurso. A terra deverá estar no seu
estado plástico com a percentagem de água precisa que garanta a secagem equilibrada do material sem
retracções destrutiva.” (Fernandes, 2005, p. 45, 46)
74
Em entrevista a Anne Heringer, Peter Buchaman diz: ” A sustentabilidade tende a ser considerada algo
que implica a diminuição do consumo energético e contaminação.” Anne: “os recursos locais, materiais e
energia são o futuro, mas aplicados usando o conhecimento global” (Buchanan, 2010, p. 34)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
75
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Temos a sorte de precisar de utilizar o tijolo de terra na habitação rural de grande
escala; a pobreza obriga-nos a utiliza-lo, assim como à cúpula, e a fragilidade natural
da terra enquanto material de construção limita as dimensões da abobada e da cúpula.
Todos os nossos edifícios têm de incluir os mesmos elementos, variando ligeiramente
em tamanho e forma e combinados de maneira diferente, mas todos à escala humana,
todos pertencendo ao mesmo tipo, e em harmonia uns com os outros. Este conjunto de
circunstâncias origina a sua própria solução, que é – talvez felizmente, talvez
inevitavelmente - a beleza. (Fathy, 2009, p. 16)
Comunidades como as do país do arquitecto Diébédo Francis Kéré, no Burkina Faso,
participaram activamente na construção dos objectos arquitectónicos bem como na
execução com este material. Do visionamento de uma das conferências deste
arquitecto, a propósito do trabalho que tem vindo a desenvolver com estas
comunidades, aborda as técnicas tradicionais aplicadas nos seus projectos. Um dos
exemplos da participação das populações que Kéré refere é o alisamento do piso em
terra explicando, que sem recorrer a materiais inovadores, a execução do pavimento é
realizada apenas com paus e pedras que os homens e as mulheres vão batendo
sistematicamente [Ilustração 45 e 46].
Os homens batem de forma ritmada, como se fosse música […] As mulheres batem em
conjunto e a certa altura, sinto-me como um director de orquestra. Eles cheios de
talento e tenho de os dirigir […] eu adoro música, mas o que aprendi com o meu povo
[…] é que é esse ritmo que lhes dá força para continuar. (Design Indaba, 2014)
Ilustração 45 - Alisamento do terreno. Burkina
Faso. (Design Indaba, 2014)
Ilustração 46 - Alisamento do terreno. Burkina Faso. (Design Indaba, 2014)
Toda esta laboração com a terra é conseguida, através de um processo gradual,
[Ilustração 47] tendo como resultado final o enorme orgulho que estas populações
têm relativamente às construções em que participam nos trabalhos de execução. Este
trabalho é realizado em conjunto com “aldeias vizinhas onde todos trabalham para
sobreviver, para desenvolver o país” (Design Indaba, 2014).
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
76
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 47 – Processo gradual do alisamento do piso feito pelas comunidades autóctones. Burkina Faso. (Design Indaba, 2014)
Nestes países o clima é bastante variável, quer ao nível de precipitação quer das
elevadas temperaturas, pelo que é necessário, nestes casos a utilização de sistemas
compósitos que resultam da fusão da terra com outros materiais75 para que a
resistência do edifício não seja posta em causa. Outra técnica utilizada em alguns dos
casos de estudo é a execução de um ensoleiramento em betão e a execução de
coberturas com materiais resistentes que permitem salvaguardar e aumentar a
longevidade das obras.
O betão76 aplicado neste tipo de obras não possui todas as características deste
material como nós o conhecemos, mas trás vantagens77 na sua aplicação pontual
neste tipo de arquitectura. A construção de paredes em betão é um método com
baixos custos de mão-de-obra e uma solução satisfatória em países da América do
Sul. São geralmente processos industrializados e mecanizados que permitem a
produção em série e o fabrico de painéis pré-fabricados com este material. São
sistemas autoportantes, em que as respectivas paredes podem ser pré-moldadas, préfabricadas ou mesmo moldadas in situ. O prazo de execução é rápido e possibilita
uma menor dependência da qualidade e produtividade da mão-de-obra.
75
Um exemplo disso é o revestimento das paredes em terra: ”os revestimentos exteriores de paredes
antigas de terra crua são geralmente constituídos por um sistema de reboco de camadas múltiplas de
argamassa com base em cal aérea, em que a primeira é aplicada directamente sobre a superfície da
parede e as restantes vão sendo aplicadas sucessivamente, após a anterior ter sofrido parte significativa
da sua retracção de secagem […] o sistema é preferencialmente constituído por três camadas (salpisco,
enchimento e acabamento), de modo que a fendilhação que ocorra por retracção nas diferentes
camadas.” (Rodrigues, 2005, p. 68)
76
“O betão veio substituir a alvenaria, de pedra ou de tijolo. Tem pesos da mesma grandeza, mas os
betões são em geral mais resistentes e mais baratos. A resistência ao fogo é boa em qualquer destes
materiais e as despesas de conservação são mínimas em todos eles. O betão apresenta ainda a
vantagem duma maior flexibilidade na forma e nas dimensões.” (Viseu, 1993, p. 29)
77
“Betão é um material da construção civil que se obtém misturando intimamente uma argamassa (por
sua vez mistura de cimento, areia e água) com materiais inertes britados ou rolados, de certas
dimensões, em geral entre 5 e 50mm, e eventualmente adjuvantes. A mistura começa por apresentar um
estado liquido ou pastoso e rapidamente se torna, na aparência e comportamento visível, num sólido (na
realidade um pseudo-solido), já que se alteram as suas propriedades no decurso do tempo. Os inertes
tem de obedecer a certas condições, principalmente a: resistência à compressão elevada, granulometria
conveniente, boa ligação química ao cimento, isenção de substâncias prejudiciais. O ligante (cimento) dito
“Portland” porque semelhante em cor, solidez e durabilidade ao calcário da ilha de Portland – deriva da
moagem do clinquer, e, misturando com água, forma uma parta que faz presa e endurece” (Viseu, 1993,
p. 27)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
77
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O betão é muitas vezes utilizado nas fundações dos edifícios não só para assegurar
as bases sobre as quais assentam outros materiais, como aumentar a resistência
facilitar a criação dos sistemas da rede das infraestruturas. A sua aplicação nestas
situações particulares reforça o seu fácil manuseamento e longa vida. Esta solução
pode ser executada sobre sapatas com barreira de protecção78, apoiada sobre o
terreno ou pontualmente79 criando um intervalo para separação do solo vegetal
[Ilustração 48 e 49].
Ilustração 48 – Exemplo edifício apoio sobre pilares. Desenho
Thomas Wirz. (Deplazes, 2010, p. 184)
Ilustração 49 – Exemplo edifício de apoio em fundações. Desenho
Thomas Wirz. (Deplazes, 2010, p. 184)
Los edificios desnudos de hormigón armado están presentes en la vida diaria de
nuestras ciudades y las dotan de un sello característico. Siempre que es posible, la
industria de la construcción hace uso de este material, pues es económico en
comparación con otros métodos constructivos, eficiente para el progreso del trabajo a
realizar en la propia obra, y no precisa (aparentemente) especialistas muy cualificados
80
para su obra. (Deplazes, 2010, p. 57)
78
“Apoyo del edificio sobre zapatas de cimentación si: a) mayor profundidad de las capas resistentes
del terreno; b) cámara de aire(permite la construcción de la solera sin barrera de protección contra la
humedad) Fondo de la cimentación por zapatas hasta profundidad en que se manifiestan las heladas; con
losa de cimentación se necesita una barrera de protección contra las heladas, cambio de material del
edificio en el aislamiento del perímetro; problema en la base del muro: interrupción del aislamiento
térmico.” (Deplazes, 2010, p. 184) Edifício de apoio em fundações se: (a) a maior profundidade das
camadas de solo resistente; (b) câmara-de-ar (que permite a construção do piso, sem uma barreira
protetora contra humidade) Fundo da fundação por sapatas até a profundidade que se manifesta na
geada; com vergalhões é necessário uma barreira de proteção contra as geadas, a mudança de material
de construção para o isolamento do perímetro; problema na base da parede: interrupção do isolamento
térmico. (Traduçao Nossa, 2014)
79
“Apoyo del edificio sobre pilares, pilotes, puntales, etc. Ventajas arquitectónicas de ligereza,
pragmatismo; por ejemplo, protección frente a la crecida de aguas (véase la casa Farnsworth de Mies Van
der Rohe); fondo de la cimentación hasta la profundidad en que se manifiestan las heladas con relación a
las capas de terreno resistentes (pilotes de perforación); problema en la cabeza de pilote: penetración del
aislamiento térmico; estabilidad lateral según la altura del pilote mediante su sujeción y/o por medio de
riostras.” (Deplazes, 2010, p. 184) Apoiar a construção sobre pilares, estacas, escoras, etc. Vantagens da
leveza arquitetônica, o pragmatismo; por exemplo, a protecção contra o dilúvio das águas (ver Farnsworth
house de Mies van der Rohe); fundo de fundação até à profundidade em que são expressas as geadas
em relação aos níveis de campo resistente (pilhas de perfuração); problema da cabeça do condutor:
penetração do isolamento térmico; estabilidade lateral dependendo da altura do monte o seu objecto e/ou
por meio de suportes". (Tradução Nossa, 2014)
80
Vista desarmada dos prédios de betão armado são presentes no cotidiano de nossas cidades e fornecer
um selo distintivo. Sempre que possível, o sector de construção civil faz uso deste material, pois é
económico em comparação com outros métodos construtivos eficientes, para o progresso do trabalho a
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
78
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A resposta arquitectónica está cada vez mais confrontada com a necessidade de
incorporar questões ecológicas e biológicas. A procura de soluções nesse sentido faz
com que a utilização da madeira ganhe de novo relevância projectual, aliada às
dimensões da sustentabilidade. O facto de ser um material que permite soluções
compactas, múltiplas soluções construtivas e poder ser também revestimento de não
exigir técnicos especializados proporciona liberdade criativa aos arquitectos e uma
fácil execução em obra.
A madeira é um material natural. A sua aplicação exige o conhecimento das suas
propriedades, do tipo de madeiras, classes e características deste material. O facto de
existirem diversas qualidades de madeira, proporciona um campo de acção
diversificado, que vai desde os sistemas de construção estrutural, sistemas de
paredes, ou mesmo decorativos.
Las propiedades físicas fundamentales de la madera dependen de su densidad. Esta
se sitúa, para las diferentes maderas, en una escala que va de los 0,1 a los 1,2g/cm, y
depende básicamente de la estructura anisótropa de la madera, importante en el
interior del tronco […] la madeira resiste extraordinariamente bien los esfuerzos a
tracción en el sentido de las fibras y solo aceptablemente los de compresión. Por el
contrario, su resistencia disminuye considerablemente en el sentido transversal a las
fibras. […] a diferencia del acero o el hormigón, la madera no se encontrar afectada en
un amplio espectro del ph. Su elaboración requiere un bajo consumo energético,
81
debido entre otras cosas a la reutilización del material. (Deplazes, 2010, p. 83-84)
As suas características naturais tornam a madeira num material dúctil, possuindo um
comportamento elástico seguido de um comportamento plástico e que passa pela
rotura. É utilizado como material estrutural82 uma vez que a sua resistência varia
consoante o sentido em que a carga actua, revelando elevados coeficientes de
segurança que causam uma dificuldade acrescida na tensão de cedência. O principal
problema deste material é que perde resistência às variações de temperatura, muito
ser feito no próprio sitio, e não é preciso (aparentemente) muito especialistas qualificados para seu
trabalho. (Tradução Nossa, 2014)
81
As propriedades físicas da madeira dependem da sua densidade. Isto é, para as madeiras diferentes,
em uma escala que varia de 0,1 a 1,2 g/cm, e depende basicamente da estrutura anisotrópica da
madeira, o que é importante no interior do tronco [...] a madeira resiste muito bem os esforços de unidade
no sentido das fibras e apenas aceitável em sistemas de compressão. Pelo contrário, a sua resistência
diminui consideravelmente no sentido transversal às fibras. [...] ao contrário do aço ou do betão, a
madeira não se encontrar afetada pelo espectro de ph. Seu desenvolvimento requer um baixo consumo
de energia, devido nomeadamente à reutilização do material. (Tradução Nossa, 2014)
82
“La madera tiene dos usos bien e diferenciados: el estructural y el de carpintería, […] el uso estructural
se limita a las viguetas o vigas para la construcción de forjados y cubiertas y la formación de dentales
para la ejecución de huecos de puertas y ventanas. Las carpinterías, de concepción muy parte alta das
fachadas.” (Soriano Alfaro, 2006, p. 71). A madeira tem duas aplicações reais distintas: a estrutural e a de
carpintaria [...] o uso estrutural limita-se a vigas estruturais e vigas para a construção de pisos e telhados
e formação de detalhes para a implementação de janelas e portas é limitado. O trabalho de carpintaria em
madeira, muito a base da concepção de fachadas. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
79
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
altas, o que condiciona a sua utilização composta com outros materiais em coberturas
[Ilustração 50 e 51].
Ilustração 50 - Estruturas em madeira. Soe Ker Tie Houses 2009.
Photo Pasi Aalto. (TYINArchitects, 2014)
Ilustração 51 - Estruturas em madeira. Soe Ker Tie
Houses 2009. Photo Pasi Aalto. (TYINArchitects, 2014)
Este material pode ser utilizado em diversas soluções: de projecto, desde execução de
vãos ao revestimento de exteriores e interiores, conferindo uma expressividade própria
aos objectos arquitectónicos. O facto de ser de manuseamento acessível implica, em
muitas situações, a não especialização da mão-de-obra permitindo a interessados
desenvolver técnicas de construção sem necessidade de grandes conhecimentos
técnicos.
A construção é a arte de formar um todo com sentido a partir de muitas partes. Os
edifícios são testemunhos da capacidade humana de construir coisas concretas. O
verdadeiro núcleo de qualquer tarefa arquitectónica encontra-se, no meu entende, no
acto de construir. É aqui, onde os materiais concretos são reunidos e erguidos, que a
arquitectura imaginada se torna parte do mundo real. (Zumthor, 2009, p. 10-11)
Este material, quando aplicado como solução construtiva em projectos de baixos
recursos, viabiliza a capacidade de integrar processos artesanais na sua execução.
Existem diversas formas estruturais para a sua aplicação corrente. Como estrutura
constituída por elementos verticais83 é um método ideal. Verificando-se em alguns dos
83
“El sistema construtivo de madera tradicional, ya apenas se utiliza. Se basa en un módulo básico
relativamente estricto e riostra diagonales. Se trata de un sistema siempre rígido en la superficie,
construido por vigas de madera y que supone uno de los primeros inicios de la prefabricación. La función
portante y divisoria se encuentra unificada en sí mismo plano de pared. La construcción se realiza in situ
ensamblando cada elemento uno a uno y planta a planta. La distancia entre los pies derechos se deriva
de la capacidad portante de la sección de los elementos individuales. […] los ensambles están sometidos
a mínimas solicitaciones y se realizan como puros ensambles de madeira en forma de espigas, encajes e
superposiciones. La transmisión de cargas verticales tiene lugar directamente en los puntos de encuentro
de la madera”. (Deplazes, 2010, p. 97) O sistema construtivo tradicional em madeira, já mal utilizado. Esta
basea-se num módulo básico relativamente rígida e diagonal suporte. Este é um sistema rígido sempre na
superfície, construída com vigas de madeira, que representa um dos primeiros passos da prefabricação.
O papel titular e divisivel e unificado em si mesmo como plano na parede. A construção é realizada in situ,
montando cada elemento um a um e planta a planta. A distância entre os pés direitos deriva da
capacidade de carga do ponto de cada um dos elementos. [...] Os assemtamentos estão sujeitos a um
mínimo e salientam que são realizadas com assemtamentos como pura madeira sob a forma de picos,
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
80
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
casos de estudo, o sistema de ballon frame84 [Ilustração 52]. Este é formado por
elementos verticais direitos, o sistema reticular85, [Ilustração 53] entre outros, simples
e fáceis de execução [Ilustração 54].
Ilustração 52 - Sistema
Ballon Frame. Desenho
Josef kolb. (Deplazes,
2010, p. 97)
Ilustração 53 - Sistema Reticular.
Desenho Josef kolb. (Deplazes,
2010, p. 99)
Ilustração 54 - Sistema
Entramado. Desenho Josef kolb.
(Deplazes, 2010, p. 97)
Um outro material que utiliza também conhecimentos e técnicas ancestrais de
construção é o bambu. Este é um material que, apesar de se assemelhar à madeira na
origem vegetal, as suas propriedades na construção são totalmente diferentes.
O bambu é um material flexível, leve e robusto. É um material que devido a estas
características e ao baixo custo tem sido utilizado na execução de projectos em países
rendas e sobreposições. A transmissão das cargas verticais é efectuada directamente no ponto de
encontro da madeira (Tradução Nossa, 2014)
84
“El sistema ballon frame, de gran difusión en Norteamérica, se compone de pies derechos estrechos,
canteados y de secciones normalizadas, con una medida básica de 2x8 pulgadas (unos 5x20cm) y
dispuestos con una Grand proximidad. […] el entramado formado por pies derechos clavados in situ
discurre en general sobre dos más plantas, que se arriostran diagonalmente por medio de tablazones de
madera maciza o tableros de madera transformadas. La sencillez del sistema, en el que a menudo las
barras suplementarias se clavan as hoc en el entramado formado por pies derechos, permite la rápida
construcción por trabajadores no especializados. […] el sistema se caracteriza también por una gran
libertad de distribución en la plana, el volumen y el tratamiento de los huecos.” (Deplazes, 2010, p. 97) O
sistema ballon de esquadrias, amplamente difundidos na América do Norte, consiste em restringir os pés
direitos, as margens são criadas e padronizadas, com uma medida básica de 2x8 polegadas (cerca de
5x20cm) e preparado com uma grande proximidade. [...] o tecido formado pelo pé direito cravado na in
situ é executado, geralmente em duas ou mais plantas, que é o colocado na diagonal pelo palanque de
madeira maciça ou painéis à base de madeira processada. Simplicidade do sistema, em que muitas
vezes as barras adicionais vão cavar no tecido formado pelo pé direito, permitindo a rápida construção de
não-operários especializados. [...] O sistema também é caracterizado por uma grande liberdade de
distribuição, na planta, o volume e o tratamento do corpo oco. (Tradução Nossa, 2014)
85
“El sistema reticular constituye el sistema más ligero que existe en la construcción con madera. La
estructura portante se compone de barra verticales y horizontales (vigas) o placas (de uno modo análogo
a lo que ocurre con el sistema de placas sustentadas por pilares). La consistencia de las barras verticales
y horizontales (madera canteada o de láminas pegadas) y el tipo de nudos (encuentros) determinan tanto
la dimensión de las luces a salvar como el carácter tectónico de la estructura. Como riostra se emplean
estribos absorben los esfuerzos a tracción o compresión, placas como paredes, unidas sólidamente al
esqueleto, o núcleos macizos a lo largo de todas las plantas de la edificación.” (Deplazes, 2010, p. 97) O
sistema reticular constitui o sistema mais leve que existe na construção com madeira. A estrutura de
apoio é constituída por barras horizontais e verticais (vigas) ou de placas (uma forma análoga ao que
acontece com o sistema da chapa apoiada por colunas). A coerência das barras horizontais e verticais
(madeira ou cana com dois gumes colado) e o tipo de nós (encontros) determina tanto o tamanho das
luzes para salvar a natureza da estrutura tectónica. Como suporte os estribos são usados para absorver
os esforços tração ou compressão, placas, tais como muros, solidamente unidos para o esqueleto, ou
núcleos maciços ao longo de todas as plantas do edifício. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
81
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
pobres. As suas propriedades e características vegetais tornam-no um material
ecológico e sustentável. Este material possui um crescimento rápido e abundante,
permitindo uma vasta utilização. O processo mais demorado na sua execução incide
na forma de protecção com vernizes e pinturas, quando existe preocupação de
garantir a longevidade e aumento da durabilidade das obras.
A sua resistência á compressão é muito reduzida, pelo que é vulgarmente utilizado no
revestimento das estruturas de coberturas, [Ilustração 55] como se pode constatar no
caso de estudo METI. Outra possibilidade é a sua utilização como material na
construção das paredes, através da tecelagem [Ilustração 56] de que é exemplo o
caso de estudo como Soe Ker Tie House. Outras possibilidades na aplicação deste
material são a decoração e a ornamentação de espaços, assim como execução de
superfícies de vãos, dinamizando as entradas de luz conferindo originalidade.
Ilustração 55 - Cobertura do edifício, sistema de ventilação. Photo Kurt Hoerbst.
(Heringer, 2014)
Ilustração 56 - Paredes em Bambu. Photo
Pasi Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014)
Nos casos de estudo eleitos, e em outros destes autores, o aço é um material muito
utilizado para a estrutura de coberturas. A sua leveza e fácil composição, soluciona a
aplicação, com outros materiais como revestimento, resolve o sistema de ventilação
natural86 [Ilustração 57].
Ilustração 57 – Ventilação natural em Makoko Floating School in Lagos. (NLÉ, 2014, p. 20)
86
A utilização de bambu e madeira também é viável para o sistema de ventilação natural.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
82
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O aço é mistura de minério de ferro e carvão. Este é composto por uma mistura
homogénea de carbono, dando origem a uma liga metálica. Sendo o aço um material
mineral, a facilidade deste recurso está no seu baixo custo.
No se puede dejar de pensar en el material en conjunto de la producción
arquitectónica, pero, por otra, los motivos para su uso, sobre todo como fundamento
del proyecto, no encuentran una justificación inmediata. […] El acero empleado en un
edificio no solo es visible durante ese corto período de tiempo en que el edificio se
encuentra todavía en construcción (y con elle no ha de pensarse únicamente en el
87
hierro de la armadura). (Deplazes, 2010, p. 114)
Para além de ser muito útil para sistemas de ventilação natural criando um desvio que
permite passagem do ar que circula livremente por entre as vigas metálicas
[Ilustração 58]. A sua leveza permite soluções combinadas e adaptadas à protecção
das águas pluviais bem como soluções para obviar a climatização natural dos espaços
interiores. Utilizado em perfis composto ou em chapas, [Ilustração 59] este material
contemporâneo adapta-se com vantagens às soluções construtivas ancestrais.
Ilustração 58 – “Secondary School”. Dano, Burkina Faso, 2005. Photo Enrico Cano. (Kéré, 2014)
É uma alternativa economicamente possível de construção e essencial nestes países
que estão sujeitos a temperaturas extremamente elevadas ou níveis de precipitação
também muito elevados.
As opções dos arquitectos no emprego dos materiais mais indicados, para cada um
dos seus projectos, é intencional e adaptada às circunstâncias e possibilidades das
áreas de intervenção, às condições e variações climatéricas, mas sobretudo aos
constrangimentos socioeconómicos inerentes a cada uma destas obras. Cabe ao
87
Não se pode deixar de pensar que o material é como um todo da produção arquitetônica, mas, por
outro lado, as razões para a sua utilização, especialmente como a fundação do projecto, não é uma
justificação imediata. [...] O trabalho com aço num edifício não é visível apenas durante o curto período de
tempo em que o edificio ainda está em construção (e com ele não tem que pensar só no ferro da
estrutura). (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
83
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
arquitecto encontrar a melhor solução formal, espacial e construtiva, procurando na
criatividade a reinvenção destes materiais naturais e as soluções que melhor
respondam às necessidades reais das populações.
Ilustração 59 - “Surgical Clinic and Health Center, Burkina Faso”. Photo Enrico Cano. (Kéré, 2014)
La percepción de la materialidad se basa en criterios personales, individuales, que no
solo ni acertados ni equivocados. Muchos arquitectos notables han desarrollado sus
propios puntos de vista respecto a la materialidad: Alvar Aalto, Tadao Ando, Louis.l.
Kahn, por nombrar solo algunos, han utilizado una selección de materiales propia para
dotar a su arquitectura de un sello distinto perdurable en el tiempo. El tratamiento de
los materiales y el placer experimentar con ellos enriquecen a la arquitectura. En este
sentido, la atracción por la novedad desempeña un papel fundamental, y todo
arquitecto es consciente de ello. Muchos eligen materiales innovadores como recurso
para convertir sus edificios en obras únicas, hecho que ofrece unas posibilidades que,
cada vez con mayor frecuencia, se están transformando en temas centrales de la
arquitectura. Actualmente, los arquitectos utilizan recursos estilísticos tales como la
diversidad material u su transformación, explorando los límites de lo técnicamente
posible, utilizándolos de forma intencionadamente incorrecta, o tomando materiales de
88
ámbito ajeno a la arquitectura. (Haggar, Drexler, Zeumer, 2010, introdução)
As soluções construtivas, que todos os casos de estudo exemplificam, são o resultado
de uma simbiose entre o pensamento arquitectónico, a realidade, os sistemas
construtivos e os materiais mais adequados para a construção no terreno do projecto
com poucos recursos disponíveis.
88
A percepção da materialidade é baseada em critérios pessoais, individuais, que não apenas acertados
ou inequivocos. Muitos notáveis arquitectos desenvolveram os seus próprios pontos de vista em relação à
materialidade: Alvar Aalto, Tadao Ando e Louis.l. Kahn, para citar apenas alguns, ter usado uma selecção
de materiais para dar à sua arquitectura de um marco diferente e duradoure no tempo. O tratamento dos
materiais e a experiência com o prazer que eles enriquecem a arquitectura. Neste sentido, o atractivo da
novidade desempenha um papel crucial, e todo arquitecto está ciente do presente. Muitos preferem
materiais inovadores como um recurso para converter seus edifícios em peças únicas, que oferecem
algumas possibilidades, com uma frequência cada vez maior que estão a ser transformadas em temas
centrais da arquitectura. Actualmente, os arquitectos utilizadam os recursos estilísticos, tais como a
biodiversidade ou a sua transformação material, explorando os limites do que é tecnicamente possível,
utilizando-as de maneira incorreta intencionalmente, ou que materiais de fora da área arquitectura.
(Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
84
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
2.4. DIVERSIDADE DE RESPOSTAS. DO MUNDO GLOBAL AO HOMEM LOCAL
O mundo está cada vez mais global, mais próximo. Assiste-se hoje a uma espiral de
crescimento, desenvolvimento social e inter-relacional, que o torna cada vez mais um
espaço uno para o homem habitar. No entanto, embora exista partilha e interacção
entre os diferentes povos e culturas, continuam a coexistir um mundo ocidental
bastante diferente das restantes realidades onde ainda imperam elevados níveis de
pobreza.
Como já constatámos, num período de meio século tiveram lugar progressos notáveis a
nível mundial no que se ao desenvolvimento, tanto económico como social. Mas nem
por isso o balanço no final dos anos 90 parece muito satisfatório. A distância entre
países ricos e pobres tornou-se maior, fazendo surgir diferenças que, no plano ético e
político, são difíceis de aceitar. Ao longo de toda a década, há relatórios do Banco
Mundial lembrando-nos que mais de um bilião de pessoas vivem com menos de um
dólar por dia e que um número equivalente não tem acesso a água potável. Lembram
igualmente que todos os anos morrem 11 e 12 milhões de crianças com menos de
cinco anos, na maioria parte dos caos vítimas de doenças que poderiam ser facilmente
prevenidas ou tratadas sem grandes custos. (Michailof, 2012, p. 155,156)
No chamado mundo ocidental continua a fomentar-se a investigação de todo o tipo de
tecnologias e inovações que o tornam uma potência. A consciência civilizacional nas
sociedades o ocidentais desperta para as preocupações, a investigação e aplicação
de processos inovadores que colmatem os problemas ecológicos. Continua a
promover níveis de vida e conforto sustentáveis. A explorar os recursos e matérias
naturais ou artificiais que lhe permitam o desenvolvimento e poder económico
promotor de um crescimento que, aparentemente, não parece conhecer limites.
As características intrínsecas a este desenvolvimento promovem um olhar
assistencialista correlacionado com a globalização. Os países desenvolvidos revelam
uma faceta solidária quando se trata de apoiar89 países menos desenvolvidos. No
rescaldo de acidentes naturais como catástrofes provocam a destruição de aldeias
89
“O aspecto altruísta desta operação não deve, finalmente dissimular o facto de estas bolsas de
pobreza, num mundo cada vez mais globalizado, comportarem a prazo riscos políticos não despiciendos.
As desigualdades são cada vez menos suportadas por populações doravante mais informadas e que se
tornam atores políticos de parte inteira, mas que são também frequentemente manipuladas por
movimentos extremistas […] O nosso planeta está actualmente submetido à famosa tragédia dos comuns
que querem que os bens colectivos de um espaço finito, exposto a uma exploração não regulada, estejam
condenados à destruição. Ao nível de uma aldeia, pode tratar-se da água do poço colectivo ou de
recursos das pastagens comunitárias. Ao nível planetário, os bens de tipo semelhante são os chamados
bens públicos mundiais […] A teoria dos bens públicos mundiais propõe a instauração, à escala do
planeta, de políticas e acções susceptíveis de remediarem as insuficiências do mercado e a ausência de
regulação e de assegurarem, assim, a produção dos bens públicos em causa. Estas questões
ultrapassam, bem entendido, o problema das relações Norte-Sul. Mas o peso demográfico e económico
crescente do Sul torna-o um actor maior neste domínio, ao mesmo tempo que não dispõe nem dos
recursos financeiros necessários, nem das competências técnicas, nem por vezes de uma real motivação
para participar num esforço global.” (Michailof, 2012, p. 234, 235)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
85
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
inteiras, em casos de conflitos territoriais e religiosos que envolvam uma parte
significativa dos habitantes. Nestes casos extremos a acção direcciona-se para a
reconstrução de ruas, fábricas, habitações e todos os meios de sobrevivência do
território afectados. É uma ajuda concertada ou pontual, procurando garantir a rápida e
eficaz intervenção, tendo em mira as necessidades reais destas zonas, suprindo a
falta de recursos e meios técnicos destes países na resposta exigida.
Esta “nova ajuda” - mas aqui seria necessário falar antes de parcerias entre países
igualmente interessados no sucesso das acções empreendidas – deve situar-se,
portanto, na encruzilhada onde se encontram interesses do Sul e do Norte, porque
países «doadores» e países «beneficiários» são, na realidade parceiros mutuamente
implicados na resolução dos problemas colocados […] não se situa de maneira alguma
lógica altruísta de caridade pública, mas numa lógica de gestão duradoura de
interesses comuns. Países do Norte e países do Sul têm com efeito, todos eles,
interesse em gerir o problema do aquecimento climático, limitar a poluição atmosférica
[…] é indiscutível, então, que aqui o termo “ajuda” se torna perfeitamente caduco: ao
ajudar os países do Sul, o Norte tenta na realidade, cogerir com o sul certos bens
públicos mundiais, e está, por conseguinte, a ajudar a si próprio. (Michailof, 2012, p.
237)
Os apoios passam, muitas vezes, pelo suprimento das necessidades básicas destes
homens de uma habitação. Propor a habitação condigna é parte da incumbência da
arquitectura. A sua proposição e adaptação às realidades são contingências que
acabam por ser um meio de aproximação entre estes dois mundos. A arquitectura
constitui-se como uma disciplina que abarca uma diversidade multidisciplinar de
conhecimentos e materializa-as nas respostas. O seu posicionamento ético possibilita
a relação entre função e criatividade. A sua manifestação, formal e espacial define
objectos, que permitem a vivência do homem e configura o território, objecto de
intervenção, num local com identidade. A arquitectura possui a enorme capacidade de
transformação dos lugares [Ilustração 60].
A “criatividade”, a qualidade individual, a originalidade dos sítios dos edifícios
tradicionais residem na adaptação de um sistema de formas e de esquemas e
condições locais muito diferentes. (Krier, 1999, p. 183)
Ilustração 60 –“ Alma de Cantaro”. (Kéré, 2014, p. 42)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
86
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O modus operandi dos arquitectos, manifesto pela preocupação em construir
respostas adequadas aos problemas socioeconómicos dos seus próprios países ou de
outros, tem vindo a revelar que as soluções da habitação, estão associadas à
experimentação,
reinvenção
e
reconfiguração
das
suas
próprias
questões
arquitectónicas. As respostas exigidas, integradoras do conhecimento e experiência
terão que incluir novas doses de criatividade e o reconhecimento específico das
características e das regiões a intervir. É um processo mental no qual se articula uma
postura de contemporaneidade na reinvenção de processos ancestrais de construir. É
uma arquitectura comprometida ética e socialmente.
O ciclo projectual destas respostas colige variáveis como lugar, cultura, técnicas
construtivas preexistentes, aliadas com particularidades essenciais como a falta de
recursos ou a escassez de meios, desencadeados do desenvolvimento destas áreas.
Este complexo exercício passa pela adopção intencional de soluções ancoradas em
métodos e sistemas de repetição, sistematização, estandardização, flexibilidade, a
utilização de materiais e sistemas construtivos essenciais de modo a que este
conjunto possa viabilizar uma resposta que aposta na racionalização de espaços
mínimos, que respondam da melhor forma ao maior número de pessoas.
A metodologia projectual adoptada viabiliza configurações singulares deste tipo de
arquitectura e revelam o processo de pensamento dos próprios autores. Os exemplos
arquitectónicos expostos pelos casos de estudo da presente dissertação demonstram
que a maioria dos arquitectos é de origem ocidental. Esta constatação prende-se com
o facto da sua formação e estrutura mental, ser confrontada com estas realidades e
exigências, condicionando-os ao reposicionamento sobre este modo específico de
pensar a arquitectura. Os projectos revelam a conjugação de processos de reinvenção
de estruturas formais e espaciais e uma aberta manipulação do potencial dos
materiais [Ilustração 61]. Aplicam os seus conhecimentos com os poucos recursos a
que tem acesso nos países onde se constroem os seus projectos:
El arquitecto es, en consecuencia, un “diletante profesional” una especie de alquimista
preocupado por la elaboración de una totalidad compleja, una síntesis, a partir de la
valoración específica y del examen de los condicionantes previos más diversos y de las
90
exigencias de urgencia desigual con urgencias desiguales. (Deplazes, 2010, p. 19)
90
O arquitecto, que é, como resultado, um "diletante profissional" uma espécie de alquimista preocupado
com o desenvolvimento de uma complexa totalidade, uma síntese, a partir de uma avaliação específica e
a revisão dos preconceitos e dos mais diversos de demandas de urgência emergência desigual, com
desigual. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
87
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 61 – “Tierra Aparejada”. (BC architects, 2014, p. 33)
Esta postura passa por propor uma arquitectura distinta é um novo desafio a cada
projecto. O arquitecto deve unir o conhecimento da disciplina relacionando-o com a
compreensão das características e necessidades do lugar sobre o qual vai intervir.
Factores decisivos para esta equação são o clima, os materiais e recursos aos quais é
possível ter acesso, o tipo de apoios estatais ou privados, a necessidade de projectar
de forma simples, para que a compreensão seja acessível e torne possível a execução
dos projectos sem a necessidade de mão-de-obra qualificada e assim ensinar novos
ofícios aos autóctones, promovendo a sua formação profissional e pessoal. O
arquitecto que intervém numa lógica global, percebendo a cultura e o contexto
daqueles que mais necessitam, acaba por projectar e construir integrando-se nesse
contexto, relacionando-se directamente com o homem local.
Pensar no desenho e realização de bairros para populações com baixos rendimentos,
considerando perfis de habitabilidade e de infra-estruturação, equipamentos, funções e
potencialidades do espaço publico (muitas vezes inadequado para os usos que nele
realmente acontecem quotidianamente) e de serviços urbanos e sociais, implica uma
panorâmica de âmbito largo, na melhoria das tradições holísticas das abordagens
arquitectónicas: integração de antropológico, social, económico e histórico, não se
focando exclusivamente nos avanços tecnológicos construtivos da engenharia dos
comportamentos energéticos, que obviamente serão integrados, mas numa perspectiva
abrangente de resposta a uma realidade social concreta, e não de importação de
modelos pretensamente universais, estetizantes, meramente conceptuais ou pueris –
nos quais a participação publica é diminuta ou até inexistente. (Viana, 2011, p. 21)
Estes projectos acabam por definir estratégias em que a resposta não corrobora
apenas à necessidade do habitar, mas preocupa-se com identidade e cultura do
espaço, unindo a inventiva a lugares que, na maioria dos casos são também eles
singulares. Estes projectos, enquanto respostas para os países emergentes, pobres
ou em vias de desenvolvimento, são específicos. São concebidos exclusivamente para
aquele local e para mais nenhum, conferindo identidade, caracterizando determinada
cidade, aldeia ou espaço de uma forma singular e simultaneamente criativa
[Ilustração 62].
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
88
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A partir da ecologia, entendida como questão ética, decisiva e central do trabalho do
arquitecto, na preocupação da sustentabilidade, há que procurar posturas que não
centrem o problema nos objectos mas nas estratégias, na construção de um mundo
humano. Os objectos passam a ser entendidos como marcas, como fragmentos, como
elementos relacionáveis, parte de um território, de uma universalidade que ajudem a
compreender e a caracterizar. O todo é a história, e a história é a vida dos homens.
(Manoel, 2012, p. 15)
Ilustração 62 – “Hornos Habitados”. (Kundoo, 2014, p. 49)
Estes projectos, pela especificidade acima exposta e consequente execução em
territórios
com
enormes
carências,
constituem-se
como
protótipos
para
a
demonstração de uma arquitectura sustentável.
A verdade é que, quando falamos de sustentabilidade, da casa, da cidade e do
território, temos de falar de arquitectura. Ora, não é a arquitectura algo diferente da
natureza, que se impõe ela? Mas o que deve entender um arquitecto por
sustentabilidade? […] Mas o que me interessa defender aqui é a sustentabilidade
proporcionada pela lógica, pelo bom senso e pela sobriedade que pode entender-se
como economia de meios, que é a melhor forma de sermos sustentáveis. (Campo
Baeza, 2011, p. 39, 40)
A sustentabilidade é a garantia da eficaz sobrevivência91, no tempo, destes projectos.
A globalização alimenta-se dos progressos técnicos extraordinários destas últimas
décadas e gera numerosas oportunidades, inclusivamente para uma parte importante
da população dos países em vias de desenvolvimento. Mas pressupõe uma
abundancia dos recursos naturais que volta a ser hoje posta em causa. Está também
na origem de tensões crescentes entre as diferentes regiões do mundo, porque facilita
a difusão das grandes crises ambientais, humanitárias, sanitárias, económicas e
financeiras. A necessária congestão destes desafios introduz novos temas de
discussão- e, por vezes, de discórdia – entre os países. (Michailof, 2012, p. 309)
91
Quando falamos do modelo ocidental não sustentável Serge Michailof escreve: “na realidade, a
dificuldade maior reside no facto de o modelo de desenvolvimento económico dos países pobres e
emergentes ter sido decalcado (ou ter sido levado a decalçar-se…) do dos países ricos. Os países em
desenvolvimento orientaram assim a máquina industrial e económica para um objectivo de «nivelamento»
com os países desenvolvidos. Para o fazerem, tem de renovar e aumentar um formidável stock de infraestruturas. Esta extensão será feita, de resto, a um custo muito superior ao suportado pelos países da
OCDE, que superaram a mesma etapa num contexto de abundancia – e, portanto, de preços baixo – da
energia e das matérias-primas” (Michailof, 2012, p. 333)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
89
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A globalização como a sustentabilidade, na opinião arquitecto Pedro Boleo são dois
temas cruciais para o acto de projectar hoje e no futuro próximo. Pensar e fazer uma
arquitectura sustentável é o modo de garantir o futuro e os recursos limitados do
planeta.
A terminologia “Globalização”, poder-se-á considerar o chavão desta década, no
seguimento de um outro, “Sustentabilidade”, muito abordada no final do passado
século. A Globalização deverá ser entendida no mundo dos projectos, como uma
preocupação global da análise e entendimento das questões relacionadas com o
sucesso desses mesmos projectos […] A aplicação de ´Modelos` importados,
sobretudo do Mundo Ocidental, tem vindo a criar uma distorção e uma adulteração em
projectos de bairros habitacionais sobretudo no terceiro Mundo, motivando uma perca
considerável das raízes e vivências muito própria deste conjunto de populações.
(Neves, 2002, p. 71 – 71)
Estas premissas, incluídas no acto de projectar, constituem uma fonte para a
diversidade de respostas que no mundo global são exigidas para o Homem Local
[Ilustração 63].
Ilustração 63 – “Centro de interpretacion, Mapungubwe”. (Rich, 2010, p. 57, 58)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
90
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
3. ARQUITECTURA DE BAIXOS RECURSOS: ENQUADRAMENTO E
PERSPECTIVAS
Arquitectura sem Arquitectos tenta derrubar os nossos limitados conceitos sobre a arte
de construir apresentando o estranho mundo da arquitectura sem pedigree. É tão
pouco conhecida que nem encontramos um nome que lhe seja adequado […] A
necessidade de confinar o crescimento da comunidade não é só bem entendida pelos
construtores anónimos mas, mais ainda, vai de encontro à sua percepção dos limites
da própria arquitectura. (Rudofsky, 2010, p. 511, 513)
Ilustração 64 – “School Library, Gando”. Burkina Faso. Photo Enrico Cano. (Kéré, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
91
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
3.1. O POSICIONAMENTO DOS ARQUITECTOS
Na disciplina de arquitectura92 procurar a resposta, tendo o homem como centro do
problema, é configurar a ideia do arquitecto registando-a nas diversas fases do
projecto. O projecto é reflexo do pensamento, do posicionamento, das convicções93,
dos desejos do seu autor. A resposta arquitectónica integra, na totalidade ou
parcialmente, modelos, geometrias suportadas em regras, princípios invariantes e
variáveis; matéria/materialidade, vivências e realidades lidas no contexto da
intervenção.
A matéria-prima do projecto contemporâneo, que já não deriva de futuros redentores,
não deve deixar-se definhar sob a dependência de sondagens de mercado, por
rigorosas que sejam. A matéria-prima do projecto contemporâneo constrói-se a partir
do conhecimento profundo das contradições do presente, contradições entre a longa
duração da Arquitectura e da cidade e o imediatismo da economia de mercado, entre a
efemeridade do desenho e a perenidade da obra, entre planeamento e desregulação,
entre a manipulação responsável do espaço e o apelo do epidérmico, do cosmético, do
in. (Spencer; Carneiro; Oliveira; Mauricio, 2012, p. 110)
Na mesma linha metodológica a arquitectura construída com baixos recursos procura
concretizar as respostas mais eficazes para as necessidades humanas do habitar.
Este tipo de problema desperta novas exigências e desafios à acção projectual dos
arquitectos, sendo necessária uma constante mediação entre a ideia generativa e todo
o tipo de constrangimentos e carências do local ou da população para os quais são
chamados a responder.
A resposta não se resume à procura de uma solução para o problema mas da
coordenação de factores, intrínsecos e extrínsecos à profissão, numa lógica de
unidade que no topo configura as dimensões formais, espaciais e vivenciais. Os
92
“Referir a centralidade disciplinar da arquitectura pressupõe a existência, mesmo que só no plano
abstracto, de um significado nativo forte, tão forte que possui a sua padronização, embora de contornos
variáveis, não anda muito longe, pelo que diz respeito às funções associadas à profissão, da elaboração
de esquemas, de sistematização e de desenhos com objectivos muito precisos de transformação do
espaço, em função de um determinado programa. Um quadro que estabelece um modo aberto e livre de
pensar e de relacionar as coisas do Mundo, articulando-as entre si de acordo com um equilíbrio que
pouco divergirá da tríplice base vitruviana.” (Bandeirinha, 2012, p. 105)
93
“Por totalidade da vida deve-se aqui entender o conjunto espontâneo do sentir e pensar, no qual o
homem se deixa envolver com todos os seus projectos e inclinações, interesses e esforços, com todos o
seu pensamento e querer. Uma tal totalidade só se encontra duas vezes em toda a existência humana:
uma das vezes, no conjunto colorido, movimentado e indissolúvel da praxis do quotidiano; a outra nas
diversas formas de artes, singulares, homogéneas, reduzidas a um mesmo denominador […] Mesmo a
propósito das coisas mais simples e do quotidiano, a praxis corrente utiliza, muitas vezes, numerosos
conceitos de ordem padrão de valor, que com o tempo se multiplicam, que foi tirar à ideologia dos
diversos sistemas de organização científica, social e tradicional da realidade, que abstraem totalmente
das experiências directas. O material de experiência concreta, heterogénea e dispersa da praxis corrente
mostra vestígios de formas de pensamento abstractas, tipificadas e generalizantes; mantem, no entanto,
a apesar da pressão destes princípios inimigos da vida, a maneira própria, heterogénea e rapsódica da
sua forma original e luta contra a regulamentação e sistematização.” (Hauser, 1973, p. 7)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
92
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
arquitectos, neste tipo de projectos, manifestam o seu comprometimento através das
soluções propostas.
A inevitabilidade de resposta a essa falha estrutural entre a história de repressão
política e o desejo irreprimível da liberdade, entre a privatização selvagem do solo e a
vontade expressiva da colectividade, entre a legalidade isolada da cidade formal e a
ilegalidade partilhada por aglomerados informais, convocam, como em nenhuma outra
parte do globo (América do sul), essa dimensão social e politicamente empenhada dos
arquitectos. (Baptista, 2011, p. 7)
Nestas arquitecturas, para quem trabalha com os mínimos, prevalece o pensamento
do arquitecto concretizado numa ideia construída a qual deve almejar, segundo o
Arquitecto Alberto Campo Baeza 94 os seguintes pressupostos [Ilustração 65] :
A satisfação das necessidades do homem (função), a resposta adequada à paisagem
em que se insere (contexto), a racionalidade da construção (construção) e a
possibilidade de ser colocada ao alcance de todos (economia), devem ser algumas das
qualidades da criação arquitectónica. (Campo Baeza, 2009, p. 25)
Ilustração 65 – “Caja de Granada”. Desenho do autor. (Campo Baeza, 2009, p. 34)
Para os arquitectos a consumação do ciclo projectual gera sempre fascínio, desde o
acto inicial do pensar até ao momento da construção da estrutura formal e espacial
que configura a proposta arquitectónica. A posterior vivência pelos utentes atribui à
obra significados e qualidades. Contextos sociais, culturais e ideológicos são factores
que influenciam o desenvolvimento das várias fases do ciclo projectual. Verifica-se um
fluxo de emanações que interferem com a proposição arquitectónica (edifício ou
estrutura urbana) que se inicia no foro imaginário do seu autor que vai articulando com
as
realidades
presentes
no
contexto
da intervenção
e
os
condicionantes
socioeconómicos do sistema político.
94
Alberto Campo Baeza, arquitecto espanhol, nasceu em Valladolid em1946.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
93
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A matriz do exercício de arquitectura tem como primado a concretização de respostas
que correspondam aos desígnios e realidades veiculadas pelo espírito do seu tempo.
As obras construídas, num determinado período, espelham os paradigmas da
estrutura social, política, económica e técnica vigente.
O exercício dos arquitectos é consequência também da sua formação académica e
profissional. Se a academia forma as bases e o imaginário, o exercício possibilita o
confronto com a realidade. A fase académica e posterior do exercício da actividade
profissional é relevante, pela circunstância dos arquitectos, eleitos nos casos de
estudo nesta investigação, possuírem uma formação e percursos próprios. O processo
de aprendizagem e consolidação está correlacionado com o tipo de problemas com
que cada arquitecto é, ao longo da sua vida profissional, confrontado. As realidades
moldam o acto projectual, reinventando-o.
A pergunta que efectivamente parece estar, então, em debate, será “como se faz
aprender arquitectura?”, exprimindo uma inquietação latente que percorre os tempos e
adquire maior ou menor visibilidade conforme os tempos se apresentam mais ou
menos seguros da razão dos seus suportes culturais, dos seus tratados […] Como
aprender arquitectura é uma pergunta que fazemos, continuamente, desde que a
disciplina encontrou autonomia e, nessa qualidade, foi reconhecida a importância da
sua formação especifica e, logo, da necessária transmissibilidade do conhecimento […]
Saber representar significa, assim, saber pensar, saber colocar e hierarquizar as
questões, encontrar e formular os problemas e as respectivas soluções, construir o
projecto como uma síntese saberes e, finalmente, comunica-lo à obra. Saber
representar significa, neste sentido, saber projectar. (Spencer; Carneiro; Oliveira;
Mauricio, 2012, p. 115, 116, 117)
Nos dias de hoje a actividade de arquitecto já não tem fronteiras definidas. O exercício
da profissão exige respostas para toda e qualquer zona do globo. Os arquitectos
trabalham no mundo globalizado. Esta realidade exige a constante adaptação de
metodologias projectuais. Neste sentido considera-se relevante a exposição sumária
de algumas etapas que marcam o ensino e o consequente exercício da profissão ao
longo da história procurando compreender as alterações que foi sofrendo ao longo da
história desta profissão.
A aprendizagem dos arquitectos95 desde as primeiras academias96 no século XVII foi
sempre um trabalho suportado no tirocínio e alicerçado nos ensinamentos e métodos
95
“La palabra arquitecto es de origen griego y sus componentes – arkhos, “jefe”, y tekton, “constructor” o
“artesano” – indican que, para los griegos, el arquitecto estaba lejos de ser un sacerdote o “el más grande
de los grandes”. Como escribió Platón en Politicus, los arquitectos no eran obreros sino directores de
obreros y, en consecuencia, tenían conocimientos teóricos y praticos” (Montaner, 2007, p. 110) A palavra
arquitecto é de origem grega e seus componentes - arkhos, "cabeça", e Tekton, "construtor" ou "artífice" indicam que, para os gregos, o arquitecto foi longe de ser um sacerdote ou "o maior dos maiores". Como
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
94
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
apreendidos com o mestre. Os arquitectos normalmente eram oriundos de classes
abastadas o que durante gerações condicionou a arquitectura ser uma profissão
exclusiva e pouco diversificada. A necessidade sentida de alteração desde sistema de
ensino e consequente prática verificou-se com o surgimento da Academia de
Arquitectura protagonizada por F.Blondel97. O sistema de ensino proposto promove a
transição do trabalho do arquitecto com o mestre, para um trabalho colectivo na
ideação de projectos e consequente execução.
Esta escola constituiu um dos primeiros métodos pedagógicos direccionados para o
ensino da profissão, nas vertentes do saber fazer arquitectura e do papel do
arquitecto. Esta ideia “é fundamentalmente prática e artesanal, oscilando entre
inconvenientes da submissão ao trabalho do patrão e o da emulação […] para o
virtuosismo da composição e da apresentação gráfica”. (Portas, 2005, p. 354). Este
sistema de ensino possibilitava o grau e a competência para exercer arquitectura e
neste período, passava por uma formação operativa baseada numa aprendizagem,
sem metodologias pré-definidas e assente na reinterpretação dos estilos clássicos98.
No século XIX surge, em Paris, a Escola Central de Obras Publicas, fundada por
Rondelet99 com o objectivo de formar arquitectos e engenheiros civis. Esta escola deu
origem a duas escolas: a École Polytechnique e a École des Beaux-Arts. Esta
separação implicou o divórcio no ensino entre as artes e as ciências. A fusão de um
ensino assente nestes dois saberes foi um combate que muitos travaram com
sucesso, tendo conduzido ao surgimento na Prússia e na Baviera das Bau-Akademie.
Platão escreveu no politicus -, arquitectos não foram os trabalhadores, mas também administração dos
trabalhadores e, em conseqüência, ter conhecimento teórico e prático. (Tradução Nossa, 2014)
96
“En 1671 se fundó la Real Academia de Arquitectura, que se desarrolló durante el siglo XVIII, fue
reorganizada durante la Revolución Francesa bajo el nombre de École des Beaux –Arts, y proporcionó
instrucción arquitectónica a estudiantes de todo el mundo durante el siglo XIX y principios del XX”
(Montaner, 2007, p. 120). Em 1671 foi fundada a Real Academia de arquitectura, que foi desenvolvido
durante o século XVIII, foi reorganizada durante a Revolução Francesa sob o nome de École des Beaux Artes, arquitectura e fornecidas instruções para estudantes de todo o mundo, durante o século XIX e
início do século xx. (Tradução Nossa, 2014)
97
Segundo o arquitecto Nuno Portas: “é curioso notar que J.F.Blondel fundara em 1742 uma escola
particular de arquitectura cuja contribuição mais importante, em reacção à Academia, foi a integração do
trabalho do projecto no curriculum escolar. Desta escola saem, em 1780, arquitectos como C.N.Ledoux,
Boullé, Rondelet e, passados uns anos, é o próprio Blondel que é chamado a reorganizar a Academia.
Um século mais tarde, formar-se-ia em Londres, por iniciativa de Kerr e Gray, a Cooperativa para o
progresso do sistema de estudo da arquitectura” e é mais uma vez uma iniciativa particular que contribui
decisivamente para o progresso da educação dos arquitectos.” (Portas, 2005, p. 354)
98
“ O conceito tão amplo da mimese, que originou na Grécia e alcançou seu máximo desenvolvimento no
classicismo e no neoclassicismo, esteve presente na base de toda a história da arte e da arquitectura.”
(Montaner, 1997, p. 9). “A um mundo complexo e inapreensível corresponde uma arquitectura viva,
entendida como work in progresso […] A capacidade para conciliar contrários, o desenvolvimento de um
pensamento conflituoso e coerente ao mesmo tempo, o ser dialéctico sem cair no dogmatismo, isto é,
sendo não dialéctico ao mesmo tempo, ser metodológico e intuitivo, ser cada vez mais criativo e ao
mesmo tempo mais objectivo em relação às necessidades dos usuários. Isto que uma parte da
arquitectura actual esta tentando desenvolver. “ (Montaner, 1997, p. 21)
99
Jean-Baptiste Rondelet nascido em 1743 em Lyon, Franca e morreu em 1829. Foi um teórico da
arquitectura foi também arquitecto-chefe da igreja de Sainte-Geneviève.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
95
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
No fundo são academias que procuram a interligação entre o ensino artístico a o
ensino politécnico, a prática realizada em obras do estado. As cidades de Munique,
Karlsruhe e Zurique possuíam as referidas academias, algumas das quais na segunda
metade do século XIX100, ganharam categoria universitária – Technischen Hochschule
– e que mantem até a actualidade. Nestas foram formados alguns dos arquitectos
mais relevantes no panorama da arquitectura do século XX, como Schinkel101,
Berlage102 e Gropius103 [Ilustração 66, 67 e 68].
Ilustração 66 - Karl Friedrich Schinkel.
Kupferstichkabinett / Jörg P. Anders 1836
(Staatliche Museen zu Berlin, 2014)
Ilustração 67 - Hendrik Petrus
Berlage. 1914. Zonder plaats
(Nederlands, 2014)
Ilustração 68 - Walter Gropius, 1928
Bauhaus-Archiv Berlin (Bauhaus,
2014)
Apesar da contínua evolução no ensino da arquitectura segundo Nuno Portas,
baseando-se no estudo elaborado por T.Bannister, esta só acontece verdadeiramente
em Inglaterra nos finais do século XIX:
Nenhum destes países, e até aos últimos anos do século, as tradições universitárias
tem qualquer intervenção na preparação arquitectónica que se processa
alternativamente em linhas ou de tradição artística, ou de especialização técnica. A
integração universitária verifica-se em Inglaterra, em Liverpool, apenas no ano de 1894,
quatro anos após o início da Architectural Association. (Portas, 2005, p. 355)
100
“Hacia finales del siglo XIX ya estaba establecido el carácter de la moderna profesion de arquitecto y
empezaba a suscitarse la cuestión de su responsabilidad social, cuestión que ha permanecido irresoluta
desde entonces. Debe el arquitecto asumir una posición activista e intentar reformar la sociedad,
conformar el entorno de arreglo a cómo debería vivir la gente desde el punto de vista del arquitecto? O
bien debe reflejar los valores sociales predominantes y conformar el entorno con arreglo a cómo vive
realmente la gente” (Montaner, 2007, p. 123,124) No final do século xix já estava estabelecido o caráter
da moderna profissão como arquitecto e estava começando a surgir a questão da sua responsabilidade
social, um problema que se manteve hesitante desde então. O arquitecto deve tomar uma posição
militante e tentativa de reforma social, moldando o ambiente em termos de como as pessoas devem viver
do ponto de vista do arquitecto? Ou deve refletir os valores sociais predominantes e moldar o ambiente de
acordo com a forma como as pessoas realmente vivem. (Tradução Nossa, 2014)
101
Karl Friedrich Schinkel nascido em 1781 na Prússia e faleceu em 1841. Arquitecto, urbanista e pintor
Schinkel foi um dos arquitectos mais importantes da Alemanha.
102
Hendrik Petrus Berlage nascido em 1856 na Holanda e faleceu em 1934. Arquitecto.
103
Walter Adolph Georg Gropius nascido em 1883 na Alemanha e faleceu em 1969. Arquitecto
fundador da Escola Bauhaus, juntamente com Ludwig Mies van der Rohe, Le Corbusier e Frank Lloyd
Wright. É considerado como um dos mestres pioneiros da arquitectura moderna.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
96
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Os arquitectos que marcaram a história recente da arquitectura possuíam formações
bastante distintas, influenciados pela transmissão dos ensinamentos recebidos pelos
respectivos mentores. Nesta altura assistia-se ao início de uma transmissão do
conhecimento/ensino que negava a formação ecléctica em voga.
Morris, Mackintosh, Horta foram pupilos em ateliers e o mesmo sucede a Wright,
recém-engenheiro, mas, exceptuadas as relações entre este e Sullivan, é o espírito de
reacção aos patronos que caracteriza as suas ideias. Richardson e Sullivan passam na
École, que já formara Labrouste, Baudot, Perret e Garnier, mas o essencial das suas
horas pouco ficará a dever a essa preparação. Wagner, Loos e Gropius são
politécnicos que, embora não perdendo a formação racional das Hochschule, se
revoltam contra o eclectismo dominante. (Portas, 2005, p. 356)
A formação dos pioneiros do Movimento Moderno104 tinha por base a diversificação do
conhecimento por diversas áreas, como sejam as ciências humanas, a matemática, a
história, a física entre outras. Na consumação do ciclo projectual passa a ser essencial
ter uma percepção integral105, a qual vai desde a concepção e englobando todas as
fases subsequentes. A instituição pioneira que juntou em Weimar arquitectos como,
Peter Behrens106, Hoffman107 e mesmo Van de Velde108 foi a Bauhaus109, [Ilustração
104
“As diferentes formas de ver e representar a imagem visível do mundo foram o motor de uma contínua
evolução. No final do século XIX e princípios do século XX consumou-se a grande transformação
provocada pelo paulatino abandono da mimese da realidade e pela busca de novos tipos de expressão no
mundo da máquina, da geometria, da matéria, da mente e dos sonhos, com o objectivo de romper e diluir
as imagens convencionais do mundo para promover formas totalmente inovadoras. Os recursos básicos
dessa transformação foram os diversos mecanismos gerados pela abstracção para suplantar a mimese
nas artes representativas: invenção, conceituação, simplificação elementarismo, justaposição,
fragmentação, interpretação, simultaneidade, associação ou colagem. O artista moderno, que surge com
o individuo autónomo do romantismo e o criador que não está sujeito às exigências de um cliente, rebelase arrogantemente contra a tirânica subordinação à mimese e contra o princípio de representação. A crise
da visão estabelecida das coisas e a negociação da mimese resultam em uma festa dos sentidos: a nova
arte se dedicará a estimular a relação entre a obra e o receptor a partir do ponto de vista dos mecanismos
da percepção” (Montaner, 1997, p. 9)
105
“E insistia na ideia de que o ensino da arquitectura não se deve limitar à arquitectura propriamente
dita. Mas invadir todos os sectores de cultura que a meu ver se entrelaçam. Daí referir-me à necessidade
do arquitecto – mesmo pela tangente – se informar melhor, ler muito, sentir o mundo que o espera, as
suas mazelas e inquietações. Só assim ele poderá, desinibido, defender seus projectos e numa
linguagem simples e convincente explicar o que com desenhos apenas nunca é bem compreendido. E ter
presente que a arquitectura não se pode limitar aos desejos das classes dominantes, mas atender ao
mais pobres que dela tanto carecem. E ser intransigente na defesa desse mundo sem classes que
desejamos e no qual a arquitectura assumirá, um dia, a sua verdadeira identidade.” (Niemeyer, 1993, p.
31)
106
Peter Behrens nascido em 1868 na Alemanha e faleceu em 1940. Arquitecto e designer foi importante
para o movimento modernista.
107
Josef Hoffmann nascido em 1870 na Áustria e faleceu em 1956, foi um arquitecto e designer.
108
Henry van de Velde, o arquitecto e pioneiro da excelência Art Nouveau, tinha criado o Ducal Escola
Grão de Artes Aplicadas melhores condições para o desenvolvimento da Bauhaus
109
“A escola de arquitectura e arte aplicada que Gropius criou em 1919, e que dirigiu até 1928, é a
conclusão dos esforços desenvolvidos, a partir da 2º metade do século XIX para estabelecer o contacto
entre o mundo da arte e o mundo da produção, para formar uma classe de artífices idealizadores de
formas e para o trabalho artístico no principio da cooperação” […] “A Bauhaus, com a sua rígida
racionalidade, quer criar condições para uma arte sem inspiração, que não deforme poeticamente a
realidade da noção mas que forme, construtivamente a nova realidade.” […] “A Bauhaus foi a primeira
escola democrática. Baseada no princípio da colaboração entre mestres e alunos. Concebida como um
pequeno mas completo organismo social, visava realizar uma unidade perfeita entre o método didáctico e
o sistema produtivo.” (Argan, 1951, p. 20-30-31). “A aproximação entre arte e ciência tem sido alvo de
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
97
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
69] criada em 1918, com objectivo de conferir à arquitectura uma nova teorização e ao
arquitecto um novo papel na sociedade.
Ilustração 69 – “Bauhaus Building Dessau from north-west”. Photo Lucia Moholy, 1926. (Bauhaus, 2014)
Nesta nova formulação de ensino o futuro arquitecto deveria aprender construindo,
não sendo considerado, um artista artesão. O aprendiz de arquitecto tem a
possibilidade de trabalhar em ateliê, de adquirir o domínio da técnica, experimentar
novos
materiais,
artes
diferentes
e
manipular
estruturas
em
intervenções
tecnologicamente evoluídas. O ensino ao longo do século passado foi fazendo o seu
percurso evolutivo. As metodologias de ensino foram integrando disciplinas
complementares ao exercício. Fundaram-se escolas de arquitectura com linhas de
ensino apoiadas num determinado arquitecto ou correntes de pensamento. O ensino
democratizou-se e assiste-se ao aumento do número de arquitectos.
Actualmente continua a prevalecer uma formação e prática assente numa matriz
humanista.110 A praxis do exercício da arquitectura realiza-se ao mesmo tempo que o
sistema global se transforma. A informação veiculada sobre todas as regiões do
planeta altera a percepção da realidade. A variabilidade e incerteza da conjuntura
inúmeras considerações, tanto pelas questões mais fracturantes entre culturas humanista e científica,
como nos relembre C.P.Snow (1961), como por contaminações entre campos disciplinares que vem
acontecendo desde as suas origens. O contexto tecnológico de reprodutibilidade, que motivou grande
parte das experiências formativas da Bauhaus, ocasionou no período curto da sua existência uma
progressiva adaptação do que apelidaremos de princípios. No manifesto de 1919, os princípios de
Gropius para a escola eram claramente guiados por uma ordem original, colectiva e matricial.” (Gil, 2012,
p. 182,183)
110
Base humana inserida no contexto da arquitectura explicada por Maria João Madeira Rodrigues: “ A
arquitectura completa para o Homem o desejo de conquista de um espaço, já que tornando-o habitável o
humaniza”. […] “Na noção de Homem, esta presente a essência, o conhecimento a priori da alteridade do
Outro humano que engendra um mundo humano articulado com o mundo natural. O mundo humano
dependendo de ordenação de valores – liberdade, responsabilidade – constrói um a priori de ideal, no
pressentimento da sua impossibilidade, aquilo que não poderá ser em lugar algum, isto é, o seu lugar
existencial utópico. A natural condição humana move-se como ordem matricial de uma consciência de
valor humano que logo se expressa em outra ordem apriorística, o valor social […] o humano funda o
social, em contrapartida o social cumpre o humano. O social na ordem cognição apriorística obriga a uma
mutação de conteúdos e à apreensão da historicidade do fenómeno.” (Rodrigues, 2002, p. 32-26)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
98
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
económica conduziram os arquitectos a trabalharem num mundo sem fronteiras. O
reconhecimento de realidades diametralmente opostas às que dão corpo à sociedade
ocidental revelou vastas zonas que necessitam ainda de respostas urgentes e
específicas. Esta constatação e consequente acção projectual tende a redefinir a
postura do arquitecto perante estes desafios e por inerência implica a redefinição de
metodologias e estratégias.
Acima de tudo estas realidades emergentes conduzem os arquitectos a repensar o
tipo de resposta em função111 das populações e das contingências dos locais objecto
da sua intervenção. Os programas suportam as respostas, embora seja necessário
níveis constantes de maleabilidade para a sua articulação com às realidades. O
projecto é a ferramenta de aferição de todos os factos que interferem directamente
com a resposta de cada autor. O diálogo permanente e a interacção com os clientes,
privados ou públicos, adquire um papel determinante na consubstanciação das
respostas mais adequadas. Predisposto a argumentar, objectivar e reinterpretar o
programa base, o arquitecto deve veicular no projecto as condicionantes que suportam
a resposta construída.
Vive-se hoje, tempos de mudança para os quais se torna crucial não se fixarem
respostas definitivas. O modus operandi deverá adaptar-se às circunstâncias do
contexto para o qual se projecta. A prática do exercício da arquitectura coloca os
arquitectos perante uma miríade de respostas possíveis. As respostas no mundo
ocidental e nos países emergentes, prevalecendo uma arquitectura de autor. Em
alternativa arquitecturas que procuram outros caminhos formais, espaciais e
construtivos, sejam pela utilização de materiais diversos (como reutilizáveis,
sustentáveis, entre outros) quer pelo trabalho em parceria com diversos colaboradores
de outras áreas (como artesãos, designers, entre outros). Estas arquitecturas
alternativas vão sendo construídas em territórios consolidados e/ou em expansão.
Uma arquitectura com pendor social que se confronta com as necessidades dos mais
desfavorecidos. Nesta categoria inserem-se dois tipos de arquitectos: os que se
dedicam exclusivamente a este tipo de resposta ou arquitectos que designaremos
como globais.
111
Arquitectura dos egos explicado observando a obra: “existem obras que, para além da vantagem
material e da conveniência prática, cumprem a tarefa de contribuir para uma identificação universalizante
do ser, provocam uma emoção que eleva os sujeitos a níveis mais altos de afectividade, comunicam ao
exprimir uma visão do mundo através da consciência estética e motivam um sentimento de harmonia que
reconhecemos como valor.” (Rodrigues, 2002, p. 34)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
99
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Esta distinção decorre da circunstância destes últimos operarem em dois campos
diametralmente opostos. Respondem tanto para o cliente com recursos económicos, e
ao mesmo tempo são colocados perante uma resposta que só é exequível com o
mínimo indispensável. Esta dualidade estimula o pensamento e contamina as
respostas.
Prevalecem ainda, no mundo ocidental, os designados arquitectos autores, que
representam todos aqueles cuja arquitectura construída informa percursos e
tendências da arquitectura High Tech112. Respondem a uma sociedade de consumo,
influenciada pela tecnologia e pela política113. Estes arquitectos transfiguram cidades
colocando em debate o papel da arquitectura na sociedade contemporânea e o papel
do arquitecto nas mudanças, introduzidas pela globalização. A versatilidade presente
de alguns gabinetes em proporem respostas construídas, num âmbito global, potencia
a criação de objectos arquitectónicos icónicos.
112
O enquadramento de uma arquitectura High Tech é alvo da reflexão de Ignasi de Solà Morales: “La
misión que la arquitectura llamada high tech parece haberse propuesto es justamente la de responder
positivamente, con el optimismo de los profetas, a la necesidad de una renovada relación entre nueva
tecnología y nueva arquitectura […] en primer lugar estos arquitectos presentan sus obras al margen de la
crisis que desde Jurgen Habermas a Baudrillard ha sido denominada posmoderna. La suya es una
arquitectura en continuidad con Gaudi, Mies, Le Corbusier y Aalto pero también, sin mayores dificultades,
con Fuller y Archigram. La innovación que pretenden aportar estas arquitecturas no es solo constructiva,
es decir de aplicación de nuevas posibilidades mecánicas, sino sobre todo de comunicación y de gestión.
En todos los arquitectos de esta tendencia el más destacado se pone por una parte en la eficacia con la
que los nuevos artefactos explican sus funciones, exhiben sus objetivos, muestran su lógica técnica. Es el
triunfo de la comunicación a través de las imágenes de una arquitectura de la transparencia y de la
inmaterialidad creciente.” (Solà-Morales, 1995, p. 157). A missão da arquitectura chamada high tech
parece ter sido proposto é precisamente o de se responder positivamente, com o optimismo dos profetas,
para a necessidade de uma renovada relação entre novas tecnologias e uma nova arquitectura [...] em
primeiro lugar estes arquitectos apresentaram as suas obras à margem da crise de Jürgen Habermas
para Baudrillard foi chamado pós-modernidade. A vossa é uma arquitectura em continuidade com Gaudí,
Mies, Le Corbusier e Aalto, mas também sem grandes dificuldades, com Fuller e Archigram. A inovação
que finge levar essas arquitecturas não é só construtiva, ou seja, para a aplicação de novas
possibilidades mecânica, mas acima de tudo comunicação e gestão. Em todos os artífices desta
tendência é mais proeminente em um lado da eficiência com que os novos artefactos explica as suas
funções, expõem os seus objectivos e mostrando sua técnica e lógica. É o triunfo da comunicação por
meio de imagens da arquitectura da transparência da imaterialidade crescente. (Tradução Nossa, 2014)
113
Devido ao papel do arquitecto na política o seu papel acaba por ser determinante na transformação
da arquitectura influenciando assim o crescimento das cidades através do seu proveito, para os
arquitectos Miguel Graça e Tiago Mota Saraiva:“ Foram muitos os momentos da história em que a
arquitectura serviu os interesses da política, embora talvez tenham sido poucos aqueles em que os
arquitectos estiveram na linha da frente da luta social, reclamando questões como a habitação, o direito a
cidade ou ao espaço publicamos” (Graça; Saraiva, 2008, p. 49).
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
100
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 70 - Edifício “Hamilton”. Denver, Colorado. Photo
Bitter Bredt. (Studio Daniel-libeskind, 2014)
Ilustração 71 – “The Modern Wing Chicago” U.S.A. (Renzo Piano
Architects, 2014)
Esta postura na relação dos arquitectos com o pensar e intervir nas cidades
contemporâneas evidencia o efeito de sedução, que na perspectiva de Hubertus
Adam114, está a transformar tecidos urbanos com obras singulares produzidas por
arquitectos nomeados no panorama actual [Ilustração 70 e 71]:
Cada vez mais cidades tentam copiar o efeito Bilbau, especialmente nos Estados
Unidos, onde mais 25 novos museus de arte ou extensões de museus irão ser
realizadas nos próximos anos. Todos estes projectos são concebidos por agentes
globais da arquitectura: Liberskind em Denver, Tadao Ando em Forth Worth, Hadid em
Cincinatti, Piano em Chicago, Foster em Boston, Herzog e De Meuron em São
Francisco ou Minneapolis, OMA em Las Vegas e por ai fora. Numa era dominada por
companhias que actuam a nível global, o papel do arquitecto parece estar limitado à
produção de imagens de marca para as cidades, assim como as empresas. Quanto
maior for o prestigio do gabinete maior sucesso tem a imagem de marca. A arquitectura
de sucesso é uma arquitectura de celebridades. A arquitectura vangloria-se a si
própria. (Lopes, 2002, p. 63)
Uma outra realidade paralela, totalmente diferente, revela uma arquitectura á mercê da
flutuação dos mercados e a falta de encomendas, após anos de excesso, deixaram a
profissão fragilizada. Esta condicionante no acesso à encomendada desencadeou
novas atitudes para a sua angariação. Esta nova realidade espoletou uma série de
novas formas de acesso à profissão. Neste caso particular hoje temos dentro destes
os arquitectos espontâneos115, que em virtude da quebra verificada no investimento na
construção estão a desenvolver um trabalho de índole social, introduzindo novas
competências e modos de operar no mercado e consequentemente indispensáveis
nos tempos que correm [Ilustração 72 e 73].
114
Hubertus Adam historiador de arte de origem Suíça. Desde 2010 ele é o director de arte do Museu de
Arquitectura Suíça, em Basel.
115
Segundo o Jornal Arquitectos nº247, Mariana Pestana considera que o Arquitecto Espontâneo é
aquele que trabalha: “ Num cenário em que os desafios económicos e sociais são cada vez mais
complexos, são também cada vez mais os arquitectos que iniciam a sua prática profissional fora de um
contexto tradicional de encomenda (ex: Os assemble). Quer dizer que iniciam os seus próprios projectos,
angariam fundos para os realizar, renegoceiam lugares para os implementar e encontram legislação que
permite a sua construção” (Pestana, 2013, p. 139). Uma pequena nota : “Assemble é uma plataforma de
colaboração de artistas, designers e fazedores de arquitectura com sede em Londres”. (Pestana, 2013, p.
139).
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
101
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 72 – “Theatre On The Fly”, Photo Jim Stephenson.
(Assemble studio, 2014)
Ilustração 73 - “Theatre On The Fly”, Photo Lewis Jones.
(Assemble studio, 2014)
Estes arquitectos, que muitas vezes são obrigados a mudar de profissão, a emigrar116
ou até mesmo melhorar as suas competências para conseguirem manter-se activos no
mercado. A opção passa por adquirir novos instrumentos de trabalho, e
conhecimentos nas áreas de marketing ou design. Convivendo e partilhando
experiências de trabalhos com arquitectos além-fronteiras. Representam uma
tendência de futuro na valorização pessoal e no alargamento das suas hipóteses no
acesso ao mercado de trabalho.
Um dos perigos que hoje espreitam a cultura arquitectónica é precisamente, o
afastamento de dois polos: o profissional e um outro alternativo. Tal afastamento
reflecte-se numa profissão surda à produção do conhecimento o qual se expande por
diversas áreas de actuação e origina por outro lado, formas de descoberta e
investigação em arquitectura desinteressadas do quotidiano da prática construtiva. “O
desafio é encontrar pontos de contacto entre estes universos e gerar práticas críticas e
analíticas capazes de atravessar fronteiras”. (Pestana, 2013, p. 85) Ateliês e
arquitectos que encontraram alternativas através de diversos campos de arquitectura,
estes são alguns exemplos: Ateliê Bow-wow, Yona Friedman, o ateliê Arteria117 com o
116
Na constatação que muitas vezes os arquitectos são obrigados a trabalhar no estrangeiro surge no
CCB uma exposição que mostra o trabalho dos Portugueses fora de Portugal, a exposição decorreu de 21
de Março a 20 de Julho de 2014, com o nome: Tanto Mar. Tiago Mota Saraiva curador diz: “o trabalho de
Portugueses fora de Portugal, em áreas relacionadas com a arquitectura, começou a ser pensado no
ateliermob, há três anos. Sucediam-se as notícias de arquitectos que se viam forçados a emigrar, e o
acompanhamento desses processos era tema de conversa corrente. Entre as agruras de uma emigração
forçada e as notícias de quem já só trabalhava para o estrangeiro, foi-se constituindo, de uma forma
espontânea, um conjunto de contactos de apoio e partilha de informação sobre experiências de
emigração que rapidamente, se transformou numa rede com interesse disciplinar, de partilha de
conhecimento, metodologias e processos de trabalho.” (Saraiva, 2014, p. 13)
117
“Artéria Arquitectura e Reabilitação Urbana é um ateliê independente e multidisciplinar, fundado em
2011, por Ana Jara, Lucinda Correia e Sara Goulart, que concebe, desenvolve e divulga projectos no
âmbito da reabilitação urbana” (Artéria, 2014) Trabalha em diversas áreas, como reabilitação e
intervenção urbana, de investigação e curadoria unindo a arquitectura a outras áreas artísticas, dá
importância à educação construindo projectos com parceria das escolas e constrói ou reabilita espaços
com o objectivo de responder às necessidades de forma consciente das restrições existentes.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
102
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
projecto da Mouraria118 [Ilustração 74 e 75] ou o ateliê Receitas Urbanas119 com o
projecto Nau de les Arts/Proyectalab 120 [Ilustração 76].
Ilustração 74 - Edifício sem recuperação. (Sobral,
2014).
Ilustração 75 – “Edifício-Manifesto”. Casa Comunitária
Mouraria. Lisboa (Artéria, 2014.)
Ilustração 76 –“Nau de les Arts/Proyectalab”. Benicasim, 2010. (Cirugeda, 2014)
A realidade vigente desencadeou novos desafios à profissão. Um desses desafios foi
o de haver grupos de arquitectos capazes de responder aos mais variados programas
propostos. A estratégia projectual permite-lhes responder com eficácia tanto para
“ricos como para pobres”. Esta capacidade possibilita não apenas adquirir maior
118
O Jornal do Publico lança a noticia antes do projecto: ”o edifício, que do lado de fora parece devoluto,
fica num beco de escadinhas interrompidas por uma parede Filipa bolotinha (à esquerda), Nuno Franco e
Ana Jara, na sala onde decorrerão aulas e outras actividades no pátio agora vazio haverá uma
esplanada. O objectivo é abrir o edifício à população Rui Gaudêncio” (Sobral, 2014)
119
Ateliê criado por Santiago Cirugeda em 2003: “dando continuidade ao desenvolvimento de projectos
subversivos em diferentes áreas da realidade urbana para ajudar a lidar com essa vida social
complicada”. (Cirugeda, 2014).Tem por hábito a apropriação de espaços públicos, a reabilitação de
fachadas, utilização de contentores entre outras “Tudo isso a negociação entre a legalidade e a
ilegalidade, para lembrar o enorme controlo a que estamos sujeitos.” (Cirugeda, 2014)
120
O arquitecto explica o projecto e desta forma a percepção do trabalho deste ateliê: “A Nau de les
Arts /Proyectalab é um espaço multidisciplinar que tem a intenção de abrigar diversas actividades
culturais. Criado com o objectivo de se tornar um local disponível para indivíduos ou grupos que não têm
os recursos necessários, incluindo novos espaços de formação e de produção, incluindo duas residências
hóspedes criadores. Projectos iniciados pela Associação e construídos por Receitas urbanas em
colaboração com estruturas Rehasa, Lucas Construção e apoio de numerosos grupos de Rede
Arquitecturas Group, este espaçam promovido pela cidade de Benicàssim reutilização de 6 módulos de
Saragoça e habitação pertencente ao Caminhões, Autocarros e contentores. O trabalho envolveu a
reabilitação e melhoria de um velho armazém Renfe que se juntaram os recipientes em uma prótese que
lhe permite novos usos. Esse processo de construção colectiva participativa e reutilização de espaços e
materiais obteve uma nova instalação muito rápida e económica. Equipado com diferentes salas de aula,
oficinas, salas de reunião, residências de artistas e armazéns, este espaço tinha de acomodar quase
400m2 através de um modelo de actividades de gestão compartilhada Nau de les Arts durante o inverno e
a fabricação Proyectalab verão possível utilização para usos múltiplos da mesma infra-estrutura.”
(Cirugeda, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
103
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
conhecimento, como aumenta o leque de possibilidades de trabalho, permitindo atingir
novos patamares na inovação na praxis da motivação121. A novidade e a evolução na
pesquisa arquitectónica assente na proposição de novas ideias, são pressupostos
capazes de responder a necessidades particulares e a diferentes indivíduos.
Alguns arquitectos que actuam no mundo122 tanto projectam megas infra-estruturas
como constroem de forma silenciosa pequenas regenerações urbanas, num exercício
de acupunctura123. Estas arquitecturas introduzem princípios de uma convenção
cultural e técnica que ultrapassa fronteiras e diálogos que fundamentam princípios das
ideias transformadoras desses territórios. Estes arquitectos conciliam linguagens,
técnicas e materiais globais com as realidades locais.
A arquitectura, como já referido, tende para que os profissionais exerçam o ofício num
contexto global. Desenvolvem uma arquitectura com condicionantes diferenciadas que
acabam por ser um desafio intelectual, técnico e construtivo. Procuram incorporar nas
respostas construídas soluções para contornar a crise económica, a problemática
associada ao limite dos combustíveis fosseis, das transformações climáticas em
permanente alteração. A racionalização dos recursos e a indução na resposta final
gera alternativas eficazes de conforto no usufruto dos objectos arquitectónicos e
conferem nomeadamente a estes arquitectos, um papel mais activo no campo ético e
social 124.
121
A novidade explicada por Paul Valery, ensaísta e dramaturgo de França: “Novidade. Vontade do novo.
O novo é um veneno excitante que acaba por se tornar mais necessário do que qualquer outro alimento,
daqueles venenos que ao se apropriarem de nós, aumentar-se-á gradualmente a dose para torna-la
mortal. É um pouco estranho vincular-se assim às partes mortais das coisas, depositárias da qualidade de
serem novas. Seria importante instaurarmos um aspecto nobre nas nossas ideias. Não são o produto do
efémero mas amadurecem calmamente; não são fora do comum pois existem há muitos séculos. Não
foram descobertas nem concebidas esta manha, esquecemo-las e voltamos a encontra-las.” (Lusiada,
2008, p. 23)
122
Segundo o el pais semanal : “Norman Foster, cuya firma sede central en Londres construye en todo el
mundo – desde el aeropuerto de Pekin, la mayor obra del planeta, hasta una pequeña escuela en la sierra
Leona -, es un arquitecto global.” (Foster, 2013, p. 47)
123
“Pode-se fazer boa acupunctura urbana com um profundo compromisso de solidariedade? Há
décadas convivemos com as consequências de injustas desigualdades sociais, que acabam
marginalizando parte da população baixa renda nas cidades. A papelada produzida com diagnósticos,
seminários e simpósios sobre esse problema daria para cobrir boa parte das favelas do mundo.” (Lerner,
2005, p. 55)
124
“Arquitectura social, práticas profissionais de arquitectura e planeamento que assentam em
processos participativos ou de autoconstrução, intervenções em contextos de desastre ou a partir de
projectos e programas que provocam um forte impacto social na melhoria de contextos locais. O interesse
por registar e acompanhar estas práticas e estas realidades não resulta apenas do facto de, nos últimos
anos terem passado a estar no centro das mais acutilantes discussões disciplinas sobre o papel da
arquitectura no mundo, mas também por se crer que a exposição destas práticas e o cruzamento de
diferentes processos e abordagens poderão recolocar a arquitectura.” (Saraiva, 2014, p. 13)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
104
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 77 –"O Jurado do Pritzker Alejandro Aravena sobre Shigeru Ban”, Photo
Victor Trans, (Aravena, 2014)
A ilustração 77 coloca em paralelo dois arquitectos com uma visão global e
abrangente do exercício da arquitectura. Esta ilação é cabalmente demonstrada na
declaração proferida por Alejandro Aravena quando, a propósito da atribuição do
prémio Pritzker, refere-se à distinção atribuída ao arquitecto Shigeru Ban :
Shigeru Ban has expanded the field of architecture in unexpected ways. He has proved
that the inspired artist and the skilled designer is not inevitably condemned to work for a
privileged elite, but that innovation can take place while working for the majority,
particularly those historically underserved, forgotten or neglected. In order to do that, he
redefined the approach to deal with difficult, urgent and relevant challenges, replacing
professional charity by professional quality. Ban has shown that no matter how tough
the circumstances or scarce the means, good design far from being an extra cost
carries the added value of sharp efficiency, power of synthesis and an uplifting
125
feeling. (Aravena, 2014)
O próprio arquitecto Aravena é um exemplo assumido de saber pensar e fazer este
tipo de projectos, dá como exemplo o que mais o surpreendeu relativamente ao
trabalho de Shigeru Ban [Ilustração 78]:
125
Shigeru Ban tem ampliado o campo da arquitectura de formas inesperadas. Ele provou que o inspirado
artista e a mão-de-obra especializada design não está inevitavelmente condenado a trabalhar para uma
elite privilegiada, mas que a inovação pode ter lugar durante o trabalho para a maioria, em especial
aqueles historicamente mal servidas, esquecido ou negligenciado. A fim de fazer isso, ele redefiniu a
abordagem para lidar com os difíceis, desafios urgentes e relevantes, substituindo caridade pelo
profissional qualidade profissional. Ban mostrou que não importa o quão difícil as circunstâncias ou
escassos os meios, um bom projecto longe de ser um custo adicional tem o valor acrescentado de uma
forte eficiência, poder de síntese e um nobre sentimento. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
105
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 78 - “Naked House”. Saitama, Japan, 2000. (Shigeru Ban Architects, 2014)
To take just one example, one of the most shocking experiences in front of Ban’s work,
was to witness the way the Naked House was built. Glossy magazines at the time,
showed pictures of a translucent, ethereal, almost soft building, that talked of a state of
the art, high-tech and ultimately expensive construction. It was very impressive to
realize that such a new and cutting edge result was achieved with the most simple and
unexpected materials: A plywood panel structure tightened by modest 1×2” wood
pieces on the edges was externally cladded in clear corrugated plastic. Internally white
fabric was attached to Velcro strips simply stapled to the wood. In between, the 50
centimeters air chamber was filled with protective bubble wrap and plastic sleeves filled
with polystyrene chips aimed to give thermal mass to this layered skin. The material
choices were so nakedly simple that nobody wanted to build it. It was Ban with the help
of the people in his office at the time that had to fill the sleeves with the chips himself,
put them in his station wagon and drive them to the site to be installed. As if all this was
not enough, the house questioned radically the typical domestic program, transforming
the set of rooms that conventionally divides and compartmentalizes a house, into a
series of elements that move freely through space. The result is of an enviable
freshness. It is this approach of a building virtuosity together with an accurate and sharp
creative freedom that Ban has put at the service of the most challenging problems. In
this sense, Ban has made a big favor to all the architects, expanding our field and
chance to influence, and simultaneously contributed with excellence and sophistication
126
to realms that were historically excluded from quality design. (Aravena, 2014)
126
Só para dar um exemplo, um dos mais impressionantes experiências em frente da proibição do
trabalho, foi para testemunhar a forma como o nu House foi construída. Revistas de luxo no momento,
mostrou fotos de um translúcido, etérea, quase soft, que falava de um estado da arte, de alta tecnologia e,
em última análise, caro construção. Foi muito impressionante perceber que, um novo e inovador resultado
foram alcançados com o mais simples e inesperados materiais: um painel de compensado estrutura
apertados pelo modesto 1 × 2 blocos de madeira nas bordas foi revestido externamente em plástico
corrugado. Tecido branco internamente foi anexada a tiras de Velcro simplesmente grampeada à
madeira. Entre eles, a 50 centímetros câmara-de-ar foi preenchido com plástico bolha e mangas de
plástico preenchidos com poliestireno chips destinados a dar massa térmica para esta pele em camadas.
O material nakedly escolhas eram tão simples que ninguém queria para o construir. Ele foi Ban com a
ajuda do povo em seu escritório no momento em que tinham que preencher as mangas com as batatas
fritas, coloque-as na sua station wagon e a unidade-los para o local a ser instalado. Como se tudo isso
não fosse suficiente, a assembleia questionou radicalmente o típico programa nacional, transformando o
conjunto de salas que convencionalmente divide e compartmentalizes uma casa, em uma série de
elementos que se movem livremente através do espaço. O resultado é de uma invejável frescura. Esta é
a abordagem de um edifício notável virtuosismo em conjunto com uma nítida liberdade criativa, essa
proibição tem colocado a serviço dos mais difíceis problemas. Nesse sentido, Ban fez um grande favor a
todos os arquitectos, expandindo nosso campo e possibilidade de influenciar e, em simultâneo, contribuir
com a excelência e sofisticação de reinos que foram historicamente excluídos do projecto de qualidade.
(Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
106
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Os projectos desenvolvidos como respostas estratégicas para uma arquitectura de
baixos recursos atestam o facto de responderem projectualmente as necessidades
mais básicas relacionadas com o habitar. As condicionantes referentes à escassez de
recursos não facilitam o trabalho aumentando a exigência de resposta arquitectónica.
Existe todo um conjunto de arquitectos que se dedicam exclusivamente à reflexão e
proposição projectual que solucione os problemas da construção de uma arquitectura
para pobres. Possuem uma longa tradição de construção informal e são responsáveis
por estruturas edificadas no mundo. São disto, exemplos: Anupama Kundoo127
[Ilustração 80] e Solano Benítez128 [Ilustração 79], TYIN tegnestue129 Anna Heringer
e Diébédo Francis Kéré arquitectos representados nos casos de estudo da presente
dissertação.
Ilustração 79 – “Centro de rehabilitacion in Lambare,
Paraguay.” (Benitez, 2013, p. 32)
Ilustração 80 – “Sangamam”, India, 2003. (Anupama Kundoo
Architects, 2014)
127
Anupama kundoo sobre ela, mesma: “A prática arquitectura começou em 1990 com um forte foco na
pesquisa de materiais com o objectivo de reduzir o impacto ambiental das tecnologias de construção.
Uma abordagem inovadora para a arquitectura que é apoiada por uma intensa pesquisa e
experimentação a partir do desenvolvimento de tecnologias e integração de energia e soluções de infraestrutura eficiente de água de construção para a construção de protótipos que sejam ambientalmente
correctos e socioeconomicamente benéfica.” (Anupama Kundoo Architects, 2014)
128
Solano Benítez a partir do olhar arquitectura y sociedad no congresso onde Solano participou “nasceu
em Assunção, Paraguai, em 1963 e graduou-se na Faculdade de Arquitectura da Universidade Nacional
de Assunção (FAUNA) em 1986. Em 1987, ele fundou Gabinete de Arquitectura, o cargo que actualmente
Divide com Alberto Marinoni e Gloria Cabral. Entre os prémios e distinções que recebeu estão um prémio
Outstanding Juventude dada pela Câmara de Paraguai Júnior para as contribuições para a cultura
nacional (1999); o BSI Swiss, um prémio internacional dado a arquitectos com menos de 50 por sua
contribuição para a arquitectura contemporânea (2008), Menção Honrosa do Congresso Nacional do
Paraguai para as contribuições para o país (2011), o Arquitecto do prémio Bicentenário da Associação
Paraguaia Architects (2011), e um membro honorário do Instituto americano de Arquitectos (2012)”.
(Solchaga Catalán, 2014)
129
TYIN tegnestue Arquitectos, sobre eles, escrito pelos mesmos consiste em: “Yashar Hanstad e
Andreas Grøntvedt Gjertsen. O escritório formado em 2008, enquanto a dupla foi estudar arquitectura na
Universidade de Trondheim - NTNU. A busca de sentido profissional levaria o escritório até os extremos
confins do mundo. O jovem escritório completou uma série de projectos globais, a partir da fronteira entre
Tailândia e Birmânia para as florestas da Sumatra. Nos anos posteriores, TYIN concentraram-se em
projectos no seu solo nativo da Noruega, ao mesmo tempo dando palestras em universidades de todo o
mundo e trabalhando como professores em NTNU. TYIN enfatiza um processo fluido e aberto. Uma
arquitectura de pragmatismo, onde o design e construção andam de mãos dadas. Simplicidade em
detalhes e uma arquitectura que permite a influência do usuário é um valor fundamental do escritório, bem
como o envolvimento do arquitecto através da totalidade do processo de construção”. (TYINArchitects,
2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
107
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Existe no entanto um nome que se destaca na pesquisa persistida que realizou na
procura de soluções para uma arquitectura para pobres Hassan Fathy130. Com referido
na introdução, este arquitecto inspirou a investigação delineada para a presente
dissertação. O seu livro “Arquitectura para os pobres: uma experiencia no Egipto
rural”131, [Ilustração 81] escrito em 1973, foi considerado pelo próprio: “um apelo a
uma nova atitude para a reabilitação rural” (Fathy, 2009, p. 10). O posicionamento de
Fathy face ao desígnio da arquitectura “era articulada através de um ideal faraónico:
uma noção de voltar às bases da cultura egípcia no vernáculo do barro da parte
meridional do país” (Curtis, 2008, p. 381).
Ilustração 81 - Livro “Arquitectura para os pobres”. (Fathy, 2009, capa, p. 73, 103)
Hassan Fathy foi um arquitecto, considerado do povo, por ter introduzido valores
humanos na construção e o aprofundamento dos saberes sobre técnicas e tradições
130
A melhor forma de explicar quem foi Hassan Fathy é transcrever as palavras da Fundação Aga Khan,
tendo em conta que este foi o primeiro arquitecto a ganhar o premio do presidente pela Fundação: “O
primeiro prémio do presidente foi dada em 1980 para Hassan Fathy, um arquitecto egípcio, artista e poeta
em reconhecimento do seu compromisso ao longo da vida para a arquitectura no mundo muçulmano. No
início da sua carreira, ele começou a estudar os sistemas de construção pré-industriais do Egipto para
entender as suas qualidades estéticas, para saber o que eles tinham para ensinar sobre o controlo do
clima e de técnicas de construção económica, para encontrar maneiras de enquadra-los para uso
contemporâneo. Dois desses sistemas dominaram o seu pensamento: as casas climaticamente eficientes
de mameluco e otomano Cairo, engenhosamente sombreado e ventilado por meio de suas salas de dois
andares e pátios; e a construção de tijolos de barro indígena ainda encontrados em áreas rurais. Este
último consiste em arcos e abóbadas inclinadas, construídas sem cofragem, cúpulas construídas ao longo
de quartos quadrados em uma espiral contínua, alcovas semicúpulas e outras formas relacionadas. As
formas de habitação urbana do Cairo não poderiam servir Fathy directamente como fonte replicável por
causa do desaparecimento das tradições de construção que os criaram. Estas casas antigas finam
enriquecidas pela sua imaginação, no entanto, voltariam a ser modelos para o trabalho em grande escala.
As formas de tijolos de barro antigo, ao contrário, estavam a ser produzidas por pedreiros rurais
inalterados. Estimulados pelo que ele tinha aprendido, Fathy tinha o que era então uma ideia
revolucionária. Ele apercebeu-se que uma conexão pode ser feita entre a viabilidade contínua da
construção de tijolos de barro e a necessidade desesperada do Egipto pobre para ser ensinada mais uma
vez para construir abrigo para si. Em vida ele projectou mais de trinta projectos, incluindo várias aldeias
para os pobres. Experimental e pouco ortodoxa como suas ideias foram, mais de dois terços de seus
projectos foram total ou parcialmente realizado. Ainda em uso, e bem cuidada, são uma série de
residências modestas moldadas pela sua profunda compreensão do design vernacular.” (Aga Khan
Development Network, 2014)
131
Em relação ao livro os seus editores explicam: “O livro arquitectura para os pobres correu mundo em
várias línguas, tanto na Europa como na América; sendo uma obra de referência para varias gerações
que procuraram exemplo e fundamento para práticas profissionais alternativas e de uma certa resistência
cultural à assimilação massiva de protótipos e cânones da linguagem arquitectónica de meados do seculo
XX”. (Fathy, 2009, p. 7)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
108
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
de edificação mais sustentável. Foi um homem que tinha uma opinião muito própria
em relação ao modernismo132 e “via o “Estilo Internacional” como apenas mais uma
intromissão estrangeira na cultura já fragmentada e colonizada do seu próprio país“
(Curtis, 2008, p. 381).
O livro de “Hassan Bey” é de uma actualidade surpreendente e acutilante. Além disso,
mantem-se visionário e indica a boa trajectória condicente à produção de uma
verdadeira arquitectura sustentável à medida do homem, das suas culturas
arquitectónicas e construtivas, e dos seus ambientes naturais dramaticamente
ameaçados. (Fathy, 2009, p. 205)
Hassan desde cedo, tomou consciência da realidade, da necessidade e importância
da alteração da consciência dos arquitectos133 perante a dimensão deste problema. A
“sua esperança era o resgate da arquitectura a partir do solo, encorajando os
camponeses a construir por si mesmo, com formas e técnicas que eram baratas”
(Curtis, 2008, p. 381). Os seus métodos almejam a melhoria de vida dos camponeses,
tendo para tal dedicando-se, a ensinar os métodos que permitissem resolver, da
melhor forma possível, as carências que afectam as populações do seu país.
O arquitecto tem o poder único de reavivar a fé do camponês tem na sua própria
cultura. Se como um crítico respeitável, o arquitecto mostrar o que há de admirável nas
formas locais e se ele próprio as chegar a utilizar, então os camponeses começaram de
imediatamente a ter orgulho nos seus produtos. (Fathy, 2009, p. 52)
A arquitectura actua e influencia os paradigmas de uma sociedade. Para os
arquitectos existe, actualmente, um vasto mercado por explorar, diversificar
conhecimentos e actuar. A profissão exercida no mundo global potencia novas
atitudes, novas respostas e acima de tudo um projecto condutor a uma nova
compreensão de alcance social da disciplina nas transformações, que provoca na
melhoria das condições de vida dos povos. Esta tomada de consciência, firmada na
acção, conduz a uma prática levada a cabo em muitos contextos, com resultados
positivos e recompensadores, possibilitando melhoria das condições de habitabilidade
e vivência das populações, com as consequentes transformações na cidade ou no
local da intervenção.
132
“Longe de perceber o “modernismo” como um instrumento para uma liberação universal, críticos como
Fathy o viam como uma força destrutiva que estava reduzindo o mundo todo a uma mesmice vazia”
(Curtis, 2008, p. 381)
133
“Queria evitar uma atitude demasiadas vezes adoptada pelos arquitectos e pelos profissionais que
quando se vêem confrontados com uma comunidade camponesa, tem tendência para pensar que essa
comunidade não tem qualquer valor para as suas considerações profissionais, e que todos os problemas
podem ser resolvidos com a importação de um sofisticado método urbano dos problemas da construção.
Queria transpor o fosso que separa a arquitectura popular da «arquitectura de arquitectos». Queria
estabelecer um laço visível e sólido entre estas duas arquitecturas, sob a forma de traços comuns a
ambos que poderiam colocar à disposição dos aldeões uma fonte familiar de referência que alargasse a
sua compreensão do novo, e que o arquitecto poderia utilizar para verificar a fidelidade do seu próprio
trabalho às pessoas e ao lugar”. (Fathy, 2009, p. 52)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
109
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
3.2. ARQUITECTURA SEM ARQUITECTOS
A arquitectura sem arquitectos continua a ser uma realidade de extensas áreas do
globo. As construções nessas zonas são ainda fruto de uma arquitectura realizada
pelo sujeito anónimo. É uma resposta à necessidade mais imediata e à ausência de
soluções, estatais ou privadas. Quando se faz referência à construção de indivíduos
anónimos essa referência é a complexidade das estruturas de habitar. A habitação é
um direito para todos os indivíduos. A complexidade da resposta adequada a cada um
dos indivíduos ou grupos.
Existe un vasto océano de arquitectura sin arquitectos que se extiende desde los
entornos vernáculos y tradicionales hasta los tapices informales o espontáneos, y en
estos ámbitos existe una poderosa lógica material, funcional y climática que puede
servir de estímulo y ejemplo para muchas obras emblemáticas y no pocos autores de
134
referencia. (Fernandez Galiano, 2013, p. 47)
A realidade de uma arquitectura sem arquitectos coloca-se em processos simples e
sensíveis na consumação de respostas espontâneas ao problema da casa e do
habitar. Este processo, de autoconstrução, procura contornar condicionalismos como a
apropriação e transformação de um determinado lugar. A complexidade, muitas vezes
labiríntica, que se verifica na implantação destas construções, conjuga-se com a
diversidade dos materiais utilizados e os espaços habitados [Ilustração 82].
Ilustração 82 – Casa Tara em Kashid, 2005. Studio mumbai. (Wilson, 2011, p. 38)
A arquitectura mantem na sua praxis uma faceta social. O mundo assistiu e assiste ao
êxodo de populações rumo às grandes cidades. Este fenómeno, em alguns países,
originou uma aglomeração de populações e heterogéneas em terrenos disponíveis.
Estes territórios que se espalharam em mancha, denotam conjuntos edificados que
apenas visam a suprir as necessidades mais imediatas do habitar.
134
Existe um vasto oceano de arquitectura sem arquitectos que se estende do vernáculo tradicional para
ambientes informais e tapeçarias ou espontânea, e nestes domínios, é uma poderosa lógica material,
funcional e as alterações climáticas que podem servir como um estímulo e um exemplo para muitas obras
emblemáticas e não poucos autores de referência. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
110
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
El Tercer Mundo tiene cada día más importancia y sus situaciones – el crecimiento
demográfico, los grandes desplazamientos do población, las grandes ciudades de más
de diez millones de habitantes, las desigualdades y la desintegración de los modelos
de asentamientos – se convierten en los caracteres dominantes del mundo
contemporáneo […] Estos asentamientos serán llamados “marginales”, puesto que
fueron considerados como una franja secundaria de la única ciudad legitima, como las
barracas y los tugurios que siempre existieron, en medida limitada, al margen de las
ciudades industriales de todo el mundo. Pero esta definición ya no se adapta a la
situación actual, puesto que los asentamientos irregulares crecen de forma mucho más
rápida que los regulares; en ellos vive, en muchos países, la mayoría de la populación,
y representan un gigantesco hecho consumado que permanece fuera de las normas
legales, pero que tiene un peso preponderante en la realidad; los planes más
ambiciosos ya no se proponen su reducción, sino simplemente dosificar o estabilizar su
desarrolla precipitado. Las formas de esta discriminación varían segundo los países.
Los barrios irregulares se levantan al lado de los regulares, mezclados en todos los
modos posibles, pero siempre decididamente distintos (el límite es muy claro, nunca
gradual, precisamente por la incompatibilidad de los mecanismos de formación); se
llamam con muchos nombres distintos – ranchos en Venazuela, Barriadas en Peru,
Favelas en Brasil, Bidonvilles en los países de habla francesa, squatters en los países
de habla inglesa, bustees en la India, gourbivelles en África del Norte, gacekondu en
Turquia, ishish en Oriente medio – y forman un paisaje compacto, completarlo y
omnipresente al fondo de la ciudad regular. Las casas, a menudo, son repeticiones de
las cabañas rurales de donde proviene la mayoría de sus habitantes, pero adquieren un
nuevo carácter por su contigüidad y por la falta de espacios libres, como en las
135
primeras aglomeraciones industriales europeas. (Benevolo, 1996, p. 1025 –1027)
Estas conglomerações são o espelho de uma arquitectura realizada sem arquitectos
Os
espaços
são
puramente
apropriados
e
as
construções
disseminam-se
naturalmente sem qualquer tipo de regra. O aparecimento destas estruturas informais,
são de génese espontânea. Os indivíduos que as constroem não possuem
conhecimento de técnicas construtivas, construindo por necessidade de habitar na
proximidade dos centros urbanos, para onde se deslocam diariamente para trabalhar.
135
O Terceiro Mundo é cada dia mais importância e as suas situações - o crescimento da população, o
grande deslocamento das populações, as principais cidades com mais de dez milhões de habitantes, as
desigualdades e a desintegração dos modelos dos colonatos - tornar as características dominantes do
mundo contemporâneo. [...] Esses assentamentos serão chamados de "marginais", porque eles foram
considerados como uma segunda faixa de a única cidade, tais como quartéis, e as favelas que sempre
existiu, embora de forma limitada, à margem das cidades industriais do mundo. Mas esta definição não
está mais adaptado para a situação actual, pois a liquidação irregular cresce muito mais rapidamente do
que a regular e viver com elas, em muitos países, a maioria da população, representam um gigante
perante factos consumados que permanece fora das normas jurídicas, mas que tem um papel dominante
na realidade; os mais ambiciosos planos não são mais propor a redução, mas simplesmente perfilamento
ou estabilizar a sua desenvolve precipitado. As formas de discriminação podem variar segundo os países.
Os bairros irregulares são levantados ao lado da mista regular de todas as formas possíveis, mas sempre
decididamente diferente (o limite é muito claro, não gradual, precisamente por razões de
incompatibilidade dos mecanismos da formação); é chamado com muitos nomes diferentes - fazendas na
Venazuela, municípios no Peru, as favelas no Brasil, bidonvilles em países de língua francesa,
assentados em países de língua inglesa, bustees na Índia, gourbivelles no Norte de África, gacekondu na
Turquia, ishish no Oriente Médio - e forma uma paisagem compacta, preenchê-la, e omnipresente na
parte inferior da cidade regular. As casas são muitas vezes as repetições do meio rural cabanas onde se
trata da maioria dos seus habitantes, mas sim adquirir um novo personagem por sua contigüidade e pela
falta de espaços livres, como em as primeiras aglomerações industriais europeias. (Tradução Nossa,
2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
111
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 83 – “Action in Kibera Slum, General View, Kenya, 28 Millimeters, Women Are Heroes”. 2009.
Photo JR’s (Alabaz, 2012)
Esta realidade [Ilustração 83] pode ser abordada de diversos prismas: revelada na
sua dimensão formal e espacial decorrente da expansão não controlada destes
aglomerados de casas que vão crescendo sem organização e expandindo-se em
todos os sentidos, efeito mancha de óleo. Uma dimensão económica que dita a
importância destes conjuntos, onde habita um estrato populacional com empregos
pouco qualificados e níveis de instrução e alfabetização baixos, trabalho abrindo o
campo para a execução de tarefas informais ou em alternativa, de trabalho
comunitário e de entreajuda.
Existe também uma dimensão social. Esta forma de arquitectura está, quase sempre,
interligada com a falta de condições básicas. Desta ilação é exemplo, de acordo com
os dados incluídos na declaração do Milénio (2000), o facto de 2,6 mil milhões de
indivíduos não terem acesso a saneamento básico, assim como 884 milhões de
indivíduos, não terem ainda acesso a água potável, que são considerados bens
básicos, inexistentes nas suas habitações. Nestes bairros construídos sem arquitectos
a educação136, a saúde137, e a criminalidade138 são um risco permanente. A dimensão
cultural, quando estes bairros acabam por adquirir identidade, vai ganhando estatuto e
tradição. Esta identidade pode acarretar a melhoria das condições básicas nestes
bairros e respectivas habitações. O orgulho dos seus moradores potencia uma maior
divulgação, como aconteceu recentemente, episodicamente ou permanente, sendo
136
Sem acesso á educação as pessoas veem se limitadas na progressão da sua qualidade de vida.
A saúde é abalada com a falta de condições de vida que contribuem para a propagação de doenças,
a falta programas de vacinação internacional ou até mesmo a pouca higiene através da falta de gestão do
lixo.
138
Está muitas vezes associada a estes bairros, relativamente a assaltos, tiroteios, e venda de drogas,
são bairros que relatam insegurança por parte dos que nestes habitam.
137
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
112
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
uma questão em aberto, no Brasil aquando o campeonato do Mundo de Futebol 2014
em que algumas favelas se reinventaram em termos de oferta turística. Sobre esta
realidade em concreto o arquitecto Filipe Balestra139, a trabalhar nas favelas
[Ilustração 84] juntamente com as populações, tem vindo a aprender e ensinar novas
estratégias arquitectónicas para solucionar problemas nestas estruturas habitacionais.
Da sua experiência este revela:
Dentro destas aldeias urbanas, as casas podem ser kacchas ou Puccas. As Kacchas
são estruturas frágeis de caracter temporário, construídos com chapas metálicas, tijolos
de baixa qualidade e outros materiais improvisados. Nelas há falta de iluminação e de
ventilação natural. A atmosfera interior é brutalmente quente durante o dia, sistema que
se inverte durante a noite devido à falta de isolamento térmico numa chapa metálica
que faz simultaneamente de parede e telhado. Estas casas, com cerca de 12 metros
quadrados de implantação, também não têm nem casas de banho, nem água. Mesmo
assim, numa delas, podem morar várias pessoas, apertadas num só compartimento
[…] Famílias sem instalações sanitárias dentro de casa tem que usar “casas de banho
comunitárias” – um edifício com sanitários de senhoras, homens, e um apartamento
para o encarregado de limpeza e sua família. No Netaji Nagar, há pessoas que tomam
duche todos os dias de manha em plana rua, porque não existe nem espaço nem
condições para o tomar em casa. A água é aquecida no fogo, que por sua vez é feito
com ramos secos e lixo. As mulheres cozinham e lavam a roupa no chão frente ás
casas, transformando meras ruelas em espaços intensamente sociais, nos quais
múltiplas funções coexistem. Estas ruas são demasiado estreitas para passar um carro,
mas suficientemente largas para passar um carro, mas suficientemente largas para
passar um rickshaw, uma moto ou uma vaca. A maior parte das pessoas tem empregos
temporários, sem contrato. Ganham para o dia, para a semana ou, mais raramente,
para o mês. Aqui não se sabe o futuro. (Balestra, 2006)
Ilustração 84 - Colagem da estratégia implementada com casas customizadas, perspectiva local. Filipe Balestra. (Balestra, 2006)
Segundo o relatório da UN-Habitat140: estes bairros pobres eram mais de mil milhões
em 2006, acentuando-se a discrepância entre ricos e pobres e que continua a
aumentar.
139
“Filipe Balestra - Arquitecto (Rio de Janeiro, 1981). Mestre pelo Royal Institute of Technology em
Estocolmo, Bacharel pelo Edinburgh College of Art. Depois de ter tido experiência profissional em
Sandellsandberg, Office for Metropolitan Architecture (OMA+AMO), Neutelings-Riedijk, NL architects e
Regino Cruz Arquitectos, Filipe Balestra é co-fundador da empresa Urbanouveau” (Balestra, 2006)
140
“UN-Habitat is the United Nations programme working towards a better urban future. Its mission is to
promote socially and environmentally sustainable human settlements development and the achievement of
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
113
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Esta arquitectura não necessita de arquitectos uma vez que a resposta construída é
consequência do acaso, não se rege por lógicas programáticas ou espaciais não
responde a estilos ou épocas. A sua construção não é condicionada mas sim,
espontânea. Traduz o testemunho da cultura e do saber fazer de cada homem,
manifestando por vezes, pressupostos apreendidos na arquitectura vernacular.
Existem várias designações possíveis para este tipo de arquitecturas: autóctone
quando nasce no lugar original; tradicional quando se rege por modelos oriundos da
arquitectura popular141, ou espontânea142 quando a construção não obedece qualquer
tipo de critérios pré-estabelecidos.
Característica de la arquitectura popular es la expresión personal del hombre que la
ejecuta, ese personaje desconocido, anónimo, que edifica la casa en la que cobijar-se,
y esa arquitectura deja de ser anónima cuando es el arquitecto quien la proyecta:
«arquitectura anónima. Arquitectura sin arquitectos. Arquitectura con amor». Las
condiciones del lugar también deben ser tenidas en cuenta. Desde cuestiones
topográficas o climáticas a la tradición del uso de unos materiales empleados son una
143
sabiduría popular que la aproximan a un racionalismo espontaneo . (Centellas Soler,
2010, p. 165)
adequate shelter for all”. (United Nations Human Settlements Programme, 2014). UN-Habitat é o
programa das Nações Unidas a trabalhar para um melhor futuro urbano. Sua missão é promover o
desenvolvimento dos assentamentos humanos social e ambientalmente sustentável e para a realização
de um abrigo adequado para todos. (Tradução Nossa, 2014)
141
“A arquitectura popular seria assim definida por oposição à arquitectura erudita. Ao contrário desta, a
arquitectura popular não teria autoridade individual: o povo seria o seu autor colectivo. Não seria urbana
mas predominantemente rural. Não teria história, pois tinha-se mantido imóvel e intacta ao longo do
tempo. Poderíamos ainda acrescentar que não seria universal, mas local ou regional.” (Xavier, 2011, p.
139)
142
Ao jornal El país, Luis Galiano diz: “buena parte de la humanidad se aloja en construcciones
espontáneas, levantadas con más ingenio que recursos, y sin otra guía que la estática de la escasez y la
ética de la necesidades. Pero estos dos rasgos distintivos otorgan también una dimensión global a esos
asentamientos informales, que usan materiales locales y geometrías elementares para establecer
patrones compartidos en favelas latinoamericanas, bidonvilles africanas o shanty lowns asiáticas. Al cabo,
lo que tenemos en común resulta ser más importante que las características diferenciales de unos u otros,
y este planeta crecientemente urbanizado se enfrenta a desafíos constructivos o arquitectónicos donde
las demandas genéricas priman sobre los requisitos específicos. La ciudad informal es también global, y
la fertilización cruzada de sus experiencias se beneficia de la movilidad de los arquitectos o los
cooperantes, auténticos agentes polinizadores de un centón de procesos.” (Fernandez Galiano, 2013, p.
4). A maior parte da humanidade está hospedado na espontânea construções, erguidas com mais
ingenuidade que os recursos, e sem outro guia que a estática da escassez e a ética das necessidades.
Mas estas duas características também fornecem uma dimensão global a esses assentamentos informais,
que utilizou materiais locais e padrões elementares geometrias latino-americanas a estabelecerem
compartilhadas em favelas favela africana lowns asiático. Depois de tudo, o que temos em comum é mais
importante que a diferenciação entre recursos de um ou do outro, e este planeta está enfrentando cada
vez mais urbanizado de construtivas ou desafios no que se refere à arquitectura genérica exige ter
precedência sobre as exigências específicas. A cidade informal é também global, e a fertilização cruzada
de experiências os benefícios da mobilidade dos arquitectos ou doadores, autênticos agentes
polinizadores de uma multiplicidade de processos. (Tradução Nossa, 2014)
143
Característica da arquitectura popular é a expressão pessoal do homem que executou, que
desconhecido personagem, anônimo, que construiu a casa em que se endireita, e que a arquitectura
deixa de ser anónimo quando é o arquitecto que planeado: "anonymous arquitectura. Arquitectura sem
arquitectos. Arquitectura com amor". As condições do local também devem ter sidas em conta. Problemas
a partir de Planta topográfica ou as condições climáticas para a tradição do uso de alguns materiais
utilizados são a sabedoria popular que a aproxima-se de um racionalismo espontâneo. (Tradução Nossa,
2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
114
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Estas aglomerações são um conjunto heterogéneo de casas que não foram planeadas
para evoluir estruturadamente. As construções são erguidas em consequência da
carência, potenciando habitações que evoluem por simples acrescento de novos
espaços que respondem ao imediato. Estes bairros são habitados por muitos
indivíduos, crescendo aleatoriamente ou sujeitos a planos conjunturais reorganizandose como consequência de acordo com as necessidades de curto prazo.
Numa reflexão sobre o habitar, na sua forma mais primitiva [Ilustração 85] o
arquitecto Campo Baeza coloca a questão da necessidade resposta do habitar para o
homem de forma simples e clara.
(Caverna, cabana, casa) […] a capacidade do homem construir criar o seu próprio
espaço, sentir uma necessidade e desenvolver uma ideia.
(Caverna) […] a terra, a rocha, o pétreo, o pesado, o obscuro - acolheu o homem nas
suas entranhas. E aquela racionalidade, com toda a sua capacidade de criação, deixou
marcas da sua imaginação, da sua memória.
(Cabana) […] o homem compreendeu ainda que a forma inconsciente, as leis da
gravidade e construi o a cabana. Com troncos e ramos, com pedras ou com blocos de
gelo, emprega mecanismos geométricos. E embora tenha sido apenas para se refugiar
e para se defender pode então, com mais liberdade do que acontecia com a caverna
eleger o sitio e decidir o local e a sua habitação… O homem pode então decidir onde
fixar-se e a forma de arquitectura que mais lhe convinha.
(Casa) […] e o homem, uma vez dominado o espaço, definido pelos planos
correspondentes, concebeu a possibilidade de o controlar. De o proporcionar. E viu,
que com a luz podia tenciona-lo.
[…] Se o homem como animal se refugiou nas cavernas, e como ser racional construiu
a cabana, o homem como ser culto, criador, concebeu a casa como morada para
habitar. (Campo Baeza, 2009, p. 57)
Ilustração 85 – “Cabanas primitivas na origem da arquitectura, segundo Chambers”. (Faria, 2014, p. 75)
Neste capítulo, na sequência do tema, considera-se relevante reflectir sobre os
indivíduos que elaboram estas construções informais. Abordar a condição deste
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
115
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
fenómeno na perspectiva das ciências que o estudam e as populações que nele
intervém. Antropólogos, historiadores, etnógrafos e arqueólogos, são campos das
ciências que tem procurado balizar e esclarecer as fundamentações deste tipo de
arquitectura. As suas investigações centram-se nas razões e motivações dos
indivíduos, dinâmicas sociais, processos construtivos e modos de habitar.
A construção de habitação própria é a manifestação que cada individuo revela sobre o
habitar. Estas habitações reflectem o esforço e as necessidades elementares do
agregado familiar. Os processos construtivos utilizados e os materiais são
manufacturados ou adquiridos. As soluções encontradas são, por vezes, o somatório
do gosto pessoal e da disponibilidade do momento. A configuração final acaba por
manifestar,
inconscientemente,
a
premissa,
“a
forma
segue
a função”.
A
essencialidade deste tipo de construções não abre numa primeira fase qualquer
espaço para ornamentações ou desperdícios supérfluos.
Ilustração 86 – “Women Are Heroes project, Morro da Providência,” Rio de Janeiro, Brazil, 2008, (Architecture for Humanity, 2012, p.
269)
Quem vê de fora, tende a olhar os bairros de lata como uma parte infectada da cidade,
um erro que deve ser apagado com medo de um contágio aparente. O antropólogo
Rahul Srivastava e o urbanista Matias Enchanove explicam este fenómeno em “Mess is
More” constatando que a psicologia humana rejeita o que não consegue compreender.
Só estando no terreno, a ouvir os moradores, conseguimos desenrolar, processar e
compreender todas as camadas de informação justapostas e este contexto de hiperdensidade social. Este compromisso de humildade, amizade e confiança crescente são
as raízes do processo de arquitectura participativa. (Balestra, 2006)
Mas estas não são construções [Ilustração 86] que expressam apenas as
necessidades elementares, são também fruto das condicionantes sociais, económicas
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
116
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
e culturais de determinado país ou território. Desenvolvem-se nos locais mais díspares
e conseguindo algumas delas revelar níveis de originalidade e singularidade
consoante a interpretação do individuo que as constrói. É uma expressão de uma
arquitectura genuína identificando os seus utilizadores, traduz informalidade nos
espaços habitados e na imagem dos alçados. É uma representação do mínimo
essencial e reflecte o momento da vida do individuo.
O desenvolvimento e crescimento urbano, acaba muitas vezes por não ser controlado
por parte das entidades responsáveis pela gestão e planeamento territorial. Nesta
senda assiste-se, desde algumas décadas, ao crescimento exponencial de cidades
cujos limites e dimensões144 são difíceis de quantificar. A falta de estratégias a longo
prazo, potenciam a disseminação destas áreas de construção espontânea. Os homens
por falta de possibilidades ou alternativas, constroem a sua habitação, sem qualquer
regra, muitas vezes sem transportes, equipamentos e serviços que sirvam
convenientemente estas áreas. Na America do Sul a designação destes aglomerados
informais é o termo comummente utilizado: favela. Estas não se distanciam dos
grandes centros, urbanos que presenciam este tipo de envolvimento pela periferia, que
no presente e no futuro revelam elevadas probabilidades de insustentabilidade e
ruptura [Ilustração 87].
Ilustração 87 – “Meter bridge connets the granizal and Santo Domingo. Colombia”. (Architecture for Humanity, 2012, p. 322)
144
No mês de Abril, de 2014 realizou-se na Colômbia um fórum urbano mundial para discutir o futuro das
cidades, Joseph E.Stiglitz diz ao jornal expresso - economia: “Em todo o mundo, as cidades são ao
mesmo tempo o espaço e o foco dos principais debates da sociedade, e por boas razões. Quando as
pessoas vivem em espaços limitados, não tem possibilidade de escapar aos grandes problemas sociais:
desigualdade crescente, degradação ambiental e investimento público insuficiente. O fórum lembrou aos
participantes que as cidades habitáveis exigem planeamento – uma mensagem que contraria as atitudes
predominantes em grande parte do mundo. No entanto se não houver planeamento e investimento
publico em infra-estruturas, transportes públicos e parques e abastecimento de água potável e
saneamento, as cidades não serão habitáveis. E, inevitavelmente, são os pobres quem mais sofre com a
ausência destes serviços públicos”. (Stiglitz, 2014, p. 25)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
117
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Este tipo de construção é a resposta do homem, independentemente da cultura, que
tem vindo a disseminar-se um pouco por vastas regiões do globo. A manifestação
deste fenómeno tem sofrido modificações ao longo da história. É a resposta imediata
às necessidades de habitação e ao devir social. A configuração destas construções
adapta-se, naturalmente, à morfologia e topologia da região e responde às
necessidades do individuo.
Alguns destes aglomerados, com o tempo, acabam por se tornar lugares. Apesar da
sua estrutura caótica, o passar do tempo sedimenta laços de pertença com os seus
habitantes. Estes aglomerados de construção ao espalharem-se pelo território vão
organizando uma rede de serviços para as populações residentes. Estas retirando do
lugar145 elementos que consideram que não lhe pertencem, transformam o espaço em
seu proveito. Quem conhece e cria afinidades com estes lugares são as pessoas que
neles habitam, e os transformam146.
Em sumula, estes conjuntos urbanizados, em autoconstrução de génese ilegal e
precária, concretizadas por populações com baixos recursos económicos. A sua
imagem [Ilustração 88] reflecte construídas com materiais muitas vezes reutilizados
como: cartões, placas de zinco, plásticos e madeiras entre outros, tudo o que permita
a construção do abrigo. No processo construído a comunidade junta-se para a
execução da casa. Estruturalmente pode ser eficaz embora com aparência temporária.
Ilustração 88 – “Woman and child in Nagar” e “The 1.5 meter wide dwelling space”. (Architecture for Humanity, 2012, p. 273, 135)
145
Esta ideia da importância ou não do lugar é justificada por Sandra Xavier: “ […] A ideia de lugar
assenta naquilo que Jacques Derrida designou por metafísica da presença, pela qual se estabelece um
conjunto de oposições hierarquizadas que definem um dos termos como uma origem, presentes em si,
pura e intacta, e o outro, subordinado ao primeiro, como uma derivação e deterioração. O lugar revela a
sua presença quando dele se elimina aquilo que é associado ao segundo termo desta oposição.
Desconstruir essa ideia de lugar não é portanto mais do que mostrar o que dele foi excluído.” (Xavier,
2011, p. 140)
146
“O acto de andar ou as múltiplas e contraditórias práticas espaciais quotidianas seleccionam,
actualizam, afirmam, abandonam, fragmentam, transgridem, destrocem e deslocam os lugares definidos
pela arquitectura.” (Xavier, 2011, p. 140)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
118
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A construção num determinado território, seja por arquitectos ou não arquitectos, está
à partida, condicionada pelos elementos geográficos, climáticos, culturais, políticos e
individuais. A transformação é uma condicionante da expansão das sociedades
humanas o que por vezes esbarra na constatação que os lugares, nos quais individuo
ou o arquitecto intervém, possam não corresponder ao que idealizado.147 Os territórios
vão sendo alvo da acção transformadora de uma arquitectura sem arquitectos,
desenhando grandes extensões de subúrbios, zonas expectantes e híbridas.
Estas
áreas
construídas,
por
surgirem
espontaneamente,
acabam
por
ser
marginalizadas. Acções regeneradoras, em parte ou no todo, são exercícios de
arquitectura social que introduz precisão e interligação de áreas desconectadas. Uma
realidade que trabalha no mínimo dos recursos e nas implementações de respostas
estratégicas para reconfigurar, propor alternativas variáveis para o problema do
habitar, das classes mais desfavorecidas.
Arquitectura de autor sem deixar de ser individual também é colectiva, sem deixar de
ser fabricada também no presente também está em relação com o passado e com o
futuro, sem deixar de ser traçada por arquitectos também o é por não arquitectos, sem
deixar de conectar, desconectar e re-conectar pessoas, tecnologias, materiais e
inscrições numa escala macro ou global também não deixa de o fazer numa escala
micro ou local. (Xavier, 2011, p. 143)
Esta realidade não é um problema do passado recente. Actualmente são visíveis a
expansão destes fenómenos em países em vias de desenvolvimento. As respostas
para uma solução integradora poderão demorar décadas a implementar, pelo que será
necessário reflectir e concertar estratégias com o objectivo de solucionar estas vastas
áreas construídas, por não arquitectos [Ilustração 89].
Ilustração 89 – “Hornos Habitados”. (Kundoo, 2014, p. 51)
147
“As diversas construções modernas nunca foram no decorrer do processo de projecto exclusivamente
traçadas por arquitectos, mas foram sendo definidas em interacção com discursos, representações,
convenções, regras, formas, elementos, imagens e técnicas de não arquitectos como promotores da
obra, o cliente, os políticos, os economistas, sociólogos, engenheiros, geógrafos, topógrafos, construtores
e artistas” (Xavier, 2011, p. 141)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
119
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
3.3. ESTRATÉGIAS E ACTORES
Quando se aborda o pensar e fazer arquitectura sabendo que o trabalho de quem a
produz, acaba sempre por ser resultado de um trabalho em equipa, raramente
individual. É um trabalho de parcerias que incorpora na procura da resposta, diferentes
perspectivas. O posicionamento de cada individuo torna-se fundamental para que as
respostas sejam as mais eficazes e adequadas. Quando a encomenda coloca a
arquitectura perante a necessidade de trabalhar com baixos recursos (económicos e
materiais) as referidas parcerias afiguram-se ainda mais necessárias. Neste caso a
praxis projectual, podendo depender de apoios de entidades solidarias, rege-se pela
incorporação na resposta construída de critérios económicos, políticos, sociais e
arquitectónicos específicos.
No âmbito dos apoios a projectos arquitectónicos que se realizam em países em
desenvolvimento, as parcerias são fundamentais para a concretização no terreno das
propostas.
A participação deve ser um acto voluntário, quando imposta deixa de ser participação
[…] Cultura de participação nas instituições públicas e privadas que trabalham na área
social, envolvendo as pessoas que se encontram em situação de pobreza. (Fundações,
2010, p. 87- 77)
Estas parcerias são fruto da cooperação entre indivíduos implicados directamente ou
indirectamente nos projectos. As parcerias podem envolver os que apenas querem
ajudar, entidades ou empresas que estatuariamente firmam compromissos relativos à
sua responsabilidade social e também as próprias populações que contribuirão para a
concretização do projecto. Qualquer que seja a figura da parceria, a sua acção coloca
em prática um auxílio que, por mínimo que seja, fará diferença na efectiva
concretização do projecto. Estas parcerias tornam-se agentes activos, orientados por
uma vontade esclarecida no seu papel de efectiva responsabilidade e intervenção
assumida perante a comunidade local. Os referidos intervenientes podem ser
empresas, fundações, associações ou mesmo pessoas em nome individual.
É fundamental trabalhar em parceria. Porque é um trabalho integrado, é preciso
partilhar recursos, perspectivas, informações, conhecimentos, dimensões de
integração, etc., e isso só acontece se nós passarmos de uma visão sectorial e
segmentada para uma visão integrada. (Fundações, 2010, p. 65)
A relevância de uma intervenção empenhada e consciente das entidades solidarias
deverá balizar-se por uma linha de conduta que se espelha na afirmação, proferida no
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
120
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
XI Encontro Nacional de Fundações, em Maio de 2010 no Porto, por Rui Vilar148:
”Todos somos responsáveis pela criação de um modelo de sociedade que combata a
pobreza, afirmando a coesão social e a sustentabilidade, assegurando a igualdade de
oportunidades” (Fundações, 2010, p. 60). Neste encontro o papel das fundações foi
discutido numa perspectiva que aponta para a acção em prol de uma sociedade
inclusiva. Esta orientação foi manifestada, através da participação de inúmeros
responsáveis, apelando-se à acção concertada no combate à pobreza como solução
para a consumação de uma sociedade, ou comunidade equitativa.
O papel das empresas tem vindo a alterar-se no que se refere ao seu
comprometimento para a solução de alguns problemas que afectam a vida das
sociedades. Um conjunto alargado de empresas possui uma área que desenvolve um
conjunto de práticas ligadas à responsabilidade social149, baseando a sua acção na
integração de preocupações relacionadas com questões sociais e ambientais. As
intervenções destas organizações visam a contribuir para melhorar a sociedade,
melhor tendo como propósito intervir e minimizar os impactos das diferenças sociais
existentes.
Uma organização empresária cujo compromisso se desenvolva de forma empenhada
e activa norteia a sua intervenção de modo a dar cumprimento aos princípios sociais
pelos quais se rege em prol da comunidade.
Uma organização socialmente responsável tem em consideração, nas decisões que
toma, a comunidade onde se insere e o ambiente onde opera. Há quem defenda que
as organizações, como motor de desenvolvimento económico, tecnológico e humano,
só se realizam plenamente quando consideram na sua actividade o respeito pelos
direitos humanos, o investimento na valorização pessoal, a protecção do ambiente, o
combate à corrupção, o cumprimento das normas sociais e o respeito pelos valores e
princípios éticos da sociedade em que se inserem. (Portugal.AMA, 2014)
As decisões, perante a comunidade onde actua e opera, são regidas por valores éticos
e morais, colaborando de forma positiva e significativa com os agentes receptores.
No que se refere às fundações estas vêm assumindo, ao longo dos tempos, um papel
de destaque como agentes de políticas sociais, não apenas pelo volume de recursos
que disponibilizam, mas também pela sua adesão na gestão deste tipo de políticas
mediante a concretização de projectos.
148
Emílio Rui Vilar nascido no Porto em 1939. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra em
1961, é Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2 de Maio de
2002.
149
Excepção de alguma empresa que ilustre esta questão.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
121
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O papel destacado das fundações reside, na opinião de Maria Orejas-Chantelot150 do
Centro Europeu de Fundações, no modo integrado como estas gerem as suas
actividades ao nível das comunidades e das parcerias que estabelecem com outros
intervenientes:
Parceiros privados e Fundações coordenaram o seu trabalho com redes de empresas,
administrações públicas e meios de comunicação social. A ligação com as empresas
ajudou a promover a responsabilidade das empresas, a economia social e uma boa
política social. (Fundações, 2010, p. 94)
As sistemáticas mudanças que afectam actualmente, sem excepção, todas as zonas
do globo e as alterações ambientais continuam a conduzir êxodo de populações e
consequentemente a níveis de urbanização imparáveis. Em alguns casos atingiram-se
patamares críticos ao nível da própria sustentabilidade urbana. Estes novos factores
implicam uma estratégia concertada com o objectivo de estancar, na origem, as
necessidades habitacionais com que se confrontam a uma série de populações dos
países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos e assim evitar estes êxodos.
A ambição em definir uma solução efectiva para, o problema do habitar doméstico tem
conduzido a adopção de modelos de construção151, os quais por vezes não
correspondem integralmente às necessidades das comunidades a que se destinam. A
deterioração, ou mesmo diluição, dos valores associados às tradições de certas
regiões tem provocado conflitos entre os movimentos de tendência global e as
estruturas governamentais independentes que pretendem preservar populações e
respectivos modos de vida autóctones.
Existe a consciência de que a pobreza é um problema que a todos preocupa resolver.
É reconhecível que as sociedades avançam para um sistema mundializado. Esta
realidade imparável torna fundamental a interacção entre as questões associadas às
transformações oriundas com a globalização e o cruzamento com questões
associadas à solidariedade é sobrevivência de populações que despertam e procuram
satisfazer, nesta fase, necessidades elementares.
Para solucionar os desfasamentos e evitar atropelos neste processo tem sido criadas,
ao longo dos anos, diversas fundações. Estas incorporam como objectivo responder
às necessidades dos mais pobres e facilitar a integração de pessoas de regiões
remotas na comunidade global. Estas instituições aproximam as pessoas da realidade
150
Maria Orejas-Chantelot de origem Belga, é Directora de Redes temáticas do Centro Europeu de
Fundações.
151
Como sistemas modulares ou sistemas de repetição, construção no âmbito de uma arquitectura
vernacular e/ou arquitectura sustentável.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
122
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
veiculando o acesso a bens essenciais num combate à pobreza e à exclusão social. A
sua acção rege-se pela vontade em fornecer ferramentas apropriadas a estas
populações para que possam ser erigiras respostas para as suas necessidades
específicas, ou seja, a consumação dos seus direitos mais elementares (educação,
saúde, habitação).
As fundações,
vocacionadas
para intervenções
estatuariamente
um
privado
carácter
ou
de
público.
âmbito social
O
seu
modus
possuem
operandi
inevitavelmente diferenciado, converge para um objectivo comum, o de : responder às
carências sociais. No decorrer da presente investigação expõem-se alguns arquitectos
cujo nomes e exercício da profissão são recorrentemente associados a projectos que
se desenvolvem e concretizam em regiões e para populações que vivem abaixo do
limiar da pobreza.
Uma outra particularidade reside no facto de se verificar a existência de um
denominador comum: entre todos estes arquitectos, a participação de determinadas
fundações como parceiros, nos trabalhos realizados por estes arquitectos. Constata-se
que um número crescente de fundações cujos objectivos comuns são o de auxiliarem
as comunidades a suprirem, através de acções planeadas e concertadas, as
necessidades
em
termos
habitacionais,
equipamentos
básicos
ou
tão
só
infraestruturas como poços de água ou cozinhas comunitárias. Não pretendendo
abarcar todo o universo de fundações que se dedicam a este tipo de intervenção, o
estudo desta dissertação irá apenas incidir em algumas cujo papel tem sido mais
visível no reconhecimento do papel dos arquitectos e projectos. São também as
fundações que tiveram intervenção directa, de apoio ou divulgação, dos casos de
estudo eleitos nesta dissertação.
FUNDAÇÃO ICO
Ilustração 90 – Logótipo Fundação ICO. (Fundacion ICO, 2014)
A Fundação ICO152 é uma fundação estatal Espanhola com carácter público. Tem
como missão contribuir para o desenvolvimento da sociedade através da promoção da
cultura e de diversas áreas de interesse do conhecimento e da acção social.
152
Instituto de Crédito Oficial (ICO), criado em 1993 em Espanha, considerado um banco publica gerido
pelo ministério da Ciência e Inovação e depende do Ministério de Apoio Economia e Negócios.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
123
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A Fundação ICO organiza eventos, como conferências e workshops, para promover e
incentivar o interesse de todos os intervenientes por esta nova forma de pensar e
actuar dos arquitectos. É uma fundação que se rege por critérios de imparcialidade e
de não discriminação. O seu financiamento é garantido pelo departamento estatal de
contas públicas espanholas.
Ilustração 91 – “The architect is present”. (Fundacion ICO, 2014)
Como exemplo da divulgação conduzida por esta fundação sobre a arquitectura que
responde a problemas actuais destaca-se a exposição que ocorreu no museu do
Fundação ICO153. As conferências e os workshops “The Architect Is Present”,
[Ilustração 91] realizados de 14 de Março de 2014 a 18 de Maio de 2014,
contribuíram para a divulgação do trabalho de cinco ateliês internacionais154. Os de
Francis Kéré que a este propósito refere-se: “la solidaridad no es una opción, sino una
necesidad, una solución” (ICO Fundación, 2014), Os projectos realizados pelos TYIN
tegnestue que consideram que : “El principal activo en nuestros proyectos es la
comunidad local” (ICO Fundación, 2014) e também os de Anna Heringer cuja opinião
sobre este tipo de projectos incide no facto : “Para mí la sostenibilidad es sinónimo de
belleza y de felicidad” (ICO Fundación, 2014). Presentes como estudo de caso na
presente dissertação, estes trabalhos enquadram um exercício de construção no
mundo real, numa lógica em que a praxis é direccionada para construir respostas
estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos.
A exposição "O Arquitecto é o Presente", com curadoria de Luís FernándezGaliano/Arquitectura Viva, apresenta o lado comprometido e inflexível da arquitectura
que cresce em ambientes onde faltam de meios e recursos, mas que acaba por
estimular a gestação e afirmação de respostas estratégicas e responsáveis, nas quais
a participação da comunidade contribui para a materialização das mesmas.
153
Museu da Fundacão ICO, em Madrid no Paseo del Prado.
Francis Diébédo Kéré, TYIN tegnestue Architects (Andreas G. Gjertsen & Yashar Hanstad), Anupama
Kundoo, Solano Benitez e Anna Heringer.
154
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
124
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 92 – “Cartoon. The Architect is Present” (Museo ICO, 2014, p. 4)
El arquitecto y comisario de la muestra, Luis Fernández-Galiano, la resume así: “La
exposición muestra la obra de cinco influyentes estudios internacionales que han hecho
de la austeridad su referente ético y estético. Extendidos por los cinco continentes,
estos jóvenes arquitectos trabajan en entornos de economía precaria, mostrando que la
escasez de recursos puede ser un estímulo para la inventiva técnica y la participación
comunitaria, y el fundamento de una arquitectura responsable donde la vocación de
155
servicio no excluya la belleza y la emoción” . (ICO Fundación, 2014)
HOLCIM FOUNDATION
Ilustração 93 – Lógotipo da Holcim Foundation (Holcim Foundation for
sustainable construction, 2014)
Quando existe referência a fundações ligadas à arquitectura, no apoio ao
desenvolvimento de países em termos das suas necessidades mais primárias é
importante nomear a Holcim Foundation. Esta combina na sua acção, o papel
importante da construção sustentável com a solução arquitectónica mais eficaz de
modo a contribuir fortemente para a melhoria da qualidade de vida. A fundação não
tem restrição nos seus apoios. Trabalha tanto a nível regional, nacional e global,
155
O arquitecto e curador da exposição, Luis Fernández-Galiano, resumiu bem: A exposição mostra o
trabalho de cinco influentes estudios internacionais que tenham feito a sua austeridade ética e estética.
Prorrogado por cinco continentes, esses jovens arquitectos estão trabalhando em ambientes da precária
economia, mostrando que a escassez de recursos pode ser um estímulo para a criatividade e participação
da comunidade técnica, e a fundação de arquitectura responsável onde a vocação de serviço não exclui a
beleza e a emoção. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
125
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
financiando respostas sustentáveis, que visem minimizar ou resolver problemas
socioeconómicos, climáticos ou mesmo culturais. Esta fundação procura promover
inovação na prática arquitectónica, propondo aos arquitectos, que se dedicam a estas
causas, que o objectivo, para além de abrigar os que precisam, é incentivar à inovação
com novos materiais e de soluções criativas que respondam a este tipo de arquitectura
de emergência.
A Holcim Foundation muito antes de ser uma fundação era uma pequena empresa de
cimento e agregados, com origem na Suíça criada em 1912. Esta pequena empresa
num curto espaço de tempo conseguiu expandir-se para a Europa, Oriente Médio,
África, América Latina, Ásia-Pacífico, Central e Europa Oriental. Esta expansão para
todo o mundo aconteceu devido ao facto de ter como o objectivo de equilibrar o uso de
recursos locais ligado a um determinado local. Sempre com responsabilidades
ecológicas onde conserva recursos naturais não renováveis ou mesmo faz a
reciclagem de materiais secundários, responsabilidades económicas e sociais onde
desde sempre adoptou uma perspectiva global, com o objectivo de construir um
negócio com um futuro sustentável e para todos. A empresa é um grupo que detém
interesses majoritários em todos os continentes e emprega cerca de 85.000 pessoas.
A Holcim Foundation for Sustainable Construction foi criado em 2003. Os seus
objectivos são os de aumentar a consciencialização do papel da arquitectura,
engenharia, urbanismo e construção na obtenção de um futuro mais sustentável.
Esta fundação criou um prémio para a promoção e incentivo de arquitecturas
inovadoras e sustentáveis. Estes projectos têm que estar ligados a áreas da
construção como arquitectura, paisagismo, urbanismo, engenharia civil e engenharia
mecânica. A competição é organizada de três em três anos e estende-se por todo
esse tempo, desde o início ao anúncio da conclusão, e tem como prémio monetário
dois milhões de dólares.
Os arquitectos dos quatro casos de estudo aqui apresentados são vencedores desde
prémio. A equipa Elemental venceu em 2008, Diébédo Kéré em 2009, 2011 e 2012
[Ilustração 94], TYIN tegnestue em 2010, e Anna Heringer em 2011. Não são no
entanto os únicos arquitectos com estas preocupações, distinguidos por esta
associação. A Holcim Foundation tem parcerias com universidades promovendo a
discussão académica da construção sustentável através do Fórum Holcim. A cada três
anos, cerca de 300 especialistas de todo o mundo reúnem-se para discutir os desafios
do processo de urbanização no mundo real.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
126
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 94 – “Global Holcim Award 2012 Gold”. (Kéré, 2014)
FUNDAÇÃO AGA KHAN
Ilustração 95 – Logotipo da Fundação Aga Khan.
(Aga Khan Development Network, 2014)
Outro caso significativo é a Fundação Aga Khan. Os seus estatutos e o carácter
privado da sua actividade, apontam para um apoio mais ligado às áreas da cultura
muçulmana. O seu trabalho é desenvolvido através de agências para o crescimento de
cada sector. A sua acção consuma-se na aproximação física aos locais de
intervenção, valorizando e premiando todo o tipo de projectos desenvolvidos de forma
sustentável.
Na participação no XI Congresso Nacional de Fundações, no Porto em 2010, Nicholas
Mckinley156, membro da Fundação Aga Khan explicita o papel integrador deste tipo de
instituições:
Enquanto nos debruçamos sobre comunidades são as próprias que nos vão dar
respostas sobre o modo como se poderão organizar para gerar efeitos positivos e
benefícios nas comunidades … o governo terá sempre um papel importante na
disponibilidade de espaços e recursos… mas é através do papel catalisador que as
fundações podem apoiar o desenvolvimento social, porque as fundações são ONG que
podem chegar as pessoas que se encontram mais vulneráveis. (Fundações, 2010, p.
67)
O apoio prestado a estas comunidades pode ser efectuado por uma comparticipação
monetária, pela cedência de materiais ou através da divulgação e promoção dos
projectos executados. Uma das especificidades do apoio desta instituição pode
também ser efectuado através de mão-de-obra especializada, recorrendo para tal à
156
Nicholas Mckinley de origem Suíça é Director da Sociedade de Iniciativas Cívicas, da Rede Aga
Khan para o desenvolvimento.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
127
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
captação de voluntários ou mesmo trabalhadores que possam participar e ou contribuir
no desenvolvimento dos projectos em execução.
O potencial para novas iniciativas de planeamento e infra-estruturas; a visibilidade de
novos tipos de edifícios; a sustentabilidade alcançada através da promoção de
iniciativas locais com perspectiva de desenvolver um novo desenho estrutural ou a
invenção de novos materiais; a criação de novas comunidades de agentes, através de
colaboradores entre o sector comercial, o Estado, bancos de microcrédito e
organizações não-governamentais, são algumas das formas em que “conceber o que
virá” produz agentes de mudança – individuais ou institucionais – capazes de
inaugurais paradigmas de desenvolvimento social e progresso cultura. (Mostafavi,
2013, p. 338)
Tendo como pressupostos a salvaguarda de valores autóctones foi criada, em 1967, a
Fundação Aga Khan, como entidade privada sem fins lucrativos. A constituição desta
fundação foi patrocinada pelo Príncipe Shah Karim al-Hussaini Aga Khan IV .157. A sua
acção engloba um conjunto diversificado de programas, com o objectivo de melhorar
as condições de vida das populações em países em desenvolvimento. A operação
desta instituição envolve diversas regiões do globo. [Ver anexo D]
A actividade e participação desta entidade abarca diversas áreas, uma das quais a
arquitectura. Neste caso particular a sua intervenção incide na promoção, do
desenvolvimento de novas respostas, mesmo que experimentais, a construir em
regiões desfavorecidas para onde são propostas158.Uma das premissas que rege
estas intervenções implica a efectiva melhoria do ambiente construído para futuras
gerações, bem como a consequente sedentarização das populações nas suas zonas
de origem.
O ideário desta organização define o acto de arquitectura como uma manifestação de
cultura, promotora do desenvolvimento e coesão social159. A fundação tem
direccionado a sua acção e empenho estimulando o discurso sobre a qualidade da
vida humana através de um ambiente construído sustentável. Esta é diligenciada pela
atribuição de prémios aos projectos que incorporam as premissas supracitadas. Este
prémio de arquitectura, nas palavras de Ibai Rigby160: ”é uma entidade independente e
autónoma, como todas as entidades existentes na fundação. Esta entidade considera-
157
Príncipe Shah Karim al-Hussaini, nascido em 1936 de origem Suíça em Genebra, sucedeu a seu
avô Aga Khan III, como imame dos ismaelitas e afirma ser descendente directo do profeta islâmico
Maomé.
158
Como instituições e programas que possam responder, com continuidade, aos desafios das mudanças
sociais, culturais e económicas.
159
Coesão social definida por Emílio Rui Vilar no XI Encontro Nacional de Fundações : ”Ideia de
responsabilidade e partilha de diálogo e interacção permanente entre os diversos actores sociais, que
constituem a sociedade civil na dimensão cultural, económica e política”. (Fundações, 2010, p. 60).
160
Ibai Rigby, Arquitecto Coordenador de projecto da Fundação Aga Khan.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
128
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
se uma rede de agências ou entidades, cada uma focada em diferentes âmbitos”. (Ibai
Rigby, 2014)
O que é mais importante é as actividades de construção no meio rural em que o premio
Aga Khan esta interessado são, na sua maioria, esforços de participação de base que
consideram a comunidade em geral como principal actor […] ele representa uma
tendência positiva de resistência á hegemonia da modernização do planeamento
urbano e rural, significante também um caminho assertivo para a construção.
(Mostafavi, 2013, p. 50)
A Fundação, ao longo dos anos, tem contribuído para a consumação de projectos
arquitectónicos161 interligados com as necessidades específicas de cada zona alvo de
intervenção,
tornando
público,
todo
um
conjunto
de
projectos
socialmente
transformadores. Os referidos projectos são relevantes não apenas pela resposta a
problemas concretos mas sobretudo pela qualidade intrínseca das estruturas formais e
espaciais. Outro ponto destes projectos construídos prende-se com a utilização de
materiais fabricados localmente na sua configuração.
As obras arquitectónicas, na esfera da intervenção desta entidade revelam uma
arquitectura que faz a gestão de todas as condicionantes existentes, funcionando
como estimuladoras deste tipo de respostas em termos figurativos e técnicos. As
referidas condicionantes são consequência dos poucos recursos existentes. Esta
adversidade é o mote para a proposição de projectos exemplares que respondem
satisfatoriamente a todos os seus utilizadores.
A simbiose entre a arquitectura e a vida não se reduz às intenções manifestas no
projecto mas sim ao modo como este é concebido e construído. A estrutura formal e
espacial fornece a base crítica para a respectiva apreciação e avaliação do júri. O
prémio atribuído incide sobre a abordagem projectual na pesquisa de soluções
inovadoras que transcendam normas e práticas locais. (Mostafavi162, 2013, p. 9)
Para a fundação outra perspectiva valorizada da actividade arquitectónica é
preservação de valores culturais e históricos autênticos. As propostas devem reflectir
um planeamento sustentável e a interacção dos projectos com a paisagem. As
propostas arquitectónicas devem assentar os seus princípios ideativos e a
materialização na asserção : “A arquitectura tem a capacidade de transformar a vida”.
(Mostafavi, 2013, p. 9) [Ilustração 96 e 97]
161
Desde 1980 que a fundação atribui de três em três anos, prémios a projectos de arquitectura.
Mohsen Mostafavi arquitecto e pedagogo, director e professor Alexander and Victoria Wiley na
Graduate school of design na universidade de Hatvard, USA.
162
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
129
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 96 – “Islamic Cemetery,
Acltah”, Austria, Prémio 2013. (Aga
Khan Development Network, 2014)
Ilustração 97 – “Islamic Cemetery, Acltah”, Austria, Prémio 2013. (Aga Khan
Development Network, 2014)
A Fundação, de três em três anos, selecciona um conjunto de projectos que
preencham os requisitos supracitados e atribui prémios163. A escolha fundamenta-se
numa leitura crítica, que na opinião do júri, elege os projectos que ”melhor articulem os
múltiplos critérios de excelência projectual com uso adequado e inovador dos
materiais e da construção”. (Mostafavi, 2013, p. 10)
No âmbito da avaliação para a atribuição do prémio a reflexão sobre a vitalidade de
um edifício, de uma paisagem ou de um artefacto está dependente da atribuição
valorativa da sua utilidade. O impacto físico de um projecto no território é
sistematicamente verificado através de sucessivas visitas realizadas ao local. Estas
presenças sistemáticas ajudam a comprovar factualmente, o modo como o projecto
beneficia a população em geral e é utilizado pelos utentes em particular. (Mostafavi,
2013, p. 10)
Os projectos deverão ser também a manifestação da vontade política dos cidadãos na
transformação da comunidade. Esta circunstância implica que a implementação dos
projectos recorra a uma estratégia baseada na necessidade de terem que ser
realizados com recurso aos ofícios tradicionais, procurando incorporar os modos de
construir de cada região.
As respostas arquitectónicas devem, na sua essência, manifestar na obra construída
um conjunto abrangente de pressupostos enunciados com base no livro: “Arquitectura
é Vida” de Mostafavi:
163
“O referido júri avalia o programa, o desenho e os sistemas construtivos subjacente a cada projecto
apresentado. Esta avaliação é também realizada após a sua implementação no terreno, a ferindo a sua
ocupação e as condições de uso. O premio atribuído é apenas um reconhecimento do valor das obras,
não patrocinando, nem financiando nada fora desse âmbito. O premio foi criado para divulgar e potenciar
uma maior consciência para a arquitectura praticada. A sua maior valia prende-se com a
consciencialização das diferentes realidades e necessidades para a identificação e encorajamento da
aplicação de outro tipo de técnicas de construção. As necessidades e aspirações das sociedades em todo
o mundo, elevando as respostas um nível de alta qualidade exigido pelo mundo muçulmano.” (Mostafavi,
2013, p. 20)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
130
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Projectos inovadores no meio da construção, constatando no entanto a
importância dos procedimentos e configurações tradicionais da arquitectura
autóctone.
O desenvolvimento urbano de uma determinada região numa associação
consciente entre arquitectura, o desenho do espaço publico e a consequente
interligação com a paisagem circundante.
Suprir as necessidades sociais e económicas das pessoas, mas também
estimular as suas expectativas culturais.
O projecto deve potenciar as oportunidades económicas, com o objectivo de
aumentar o bem-estar e a segurança das comunidades que se encontrem
vulneráveis.
Os projectos devem incorporar uma vertente adaptativa mantendo a excelência
arquitectónica global. Estes projectos devem aumentar a emergência de postos
de trabalho, de espaço publico, de habitação doméstica, bem como integrar
requisitos de preservação, apropriação e possível reutilização.
(Mostafavi, 2013, p. 34)
O júri da Fundação, na avaliação que faz dos projectos valoriza os seguintes itens:
excelência da arte de projectar, a qualidade do trabalho manual e artesanal, o recurso
sistemático a práticas sustentáveis, a tecnologia aplicada de forma inovadora, a
utilização optimizada de recursos dos locais, o activismo e participação das
comunidades e que estratégia projectual assente numa governação inovadora a qual
terá que congregar a vida dos habitantes. (Mostafavi, 2013, p. 36)
Dois dos arquitectos dos casos de estudo foram já premiados por esta Fundação: Em
2004 o prémio foi atribuído ao arquitecto Francis Kéré com o projecto da Escola
Primaria no Gando, Burkina Faso [Ilustração 98]. Neste caso o júri justifica a
atribuição do prémio no binómio clareza e arquitectura/utilização de materiais locais:
Este projecto recebeu um prémio pela sua elegante clareza arquitectónica, conseguida
com o mais humilde dos meios e materiais, e pelo seu valor de transformação.
Localizado num assentamento remoto no Burkina Faso, a escola é o resultado de uma
visão que foi articulada pela primeira vez pelo arquitecto e, em seguida, abraçada pela
sua comunidade […] A escola primária em Gando inspira orgulho e infunde esperança
na sua comunidade, lançando as bases para o progresso de um povo. (Aga Khan
Development Network, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
131
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O outro prémio referente também a um dos casos de estudo, foi atribuído em 2007 a
arquitecta Anna Heringer, com a escola METI em Rudrapur no Bangladesh [Ilustração
99]. Neste caso a fundamentação para atribuição desta distinção, reside na correcta
utilização de materiais locais:
A elegante escola em Bangladesh rural emergiu uma compreensão profunda de
materiais locais e de uma ligação à comunidade local. A sua inovação reside na
adaptação dos tradicionais métodos e materiais de construção […] um conhecimento
profundo do contexto local e formas de construção fornece claramente um novo modelo
de esperança para a construção sustentável a nível global. O resultado final desse
esforço voluntário heróico é um edifício bonito, significativo e colectivos espaços
humanos para aprender (Aga Khan Development Network, 2014
Ilustração 98 - Escola primaria no Gando projecto de Francis Kéré. Aga
Khan, 2004. (Aga Khan Development Network, 2014)
Ilustração 99 – Escola METI projecto de Anna Heringer.
Aga khan, 2007. (Aga Khan Development Network, 2014)
As obras eleitas revelam soluções maioritariamente pensadas e construídas para
comunidades muçulmanas. Outros exemplos relevantes dos prémios Aga Khan,
atribuídos em 1980,1983,1998 e 2007 [Ilustração 100, 101, 102 e 103].
Ilustração 100 – “Hajj Terminal, Jeddah,in Saudi Arabia”, 1983.
(Aga Khan Development Network, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
Ilustração 101 – “Mughal Sheraton Hotel in India”, 1980.
(Aga Khan Development Network, 2014)
132
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 102 – “Moulmein Rise Residential Building in
Singapore”, 2007. (Aga Khan Development Network, 2014)
Ilustração 103 – “Alhambra Arts Council in Lahore,
Pakistan”. 1998. (Aga Khan Development Network, 2014)
O papel didáctico das Fundações não se esgota no prémio atribuído. As obras
premiadas necessitam de tempo de consubstanciação, em termos de curto e médio
prazo, da sua sustentabilidade e ao mesmo tempo serem objecto de uma
monotorização sistemática no local para uma tomada de consciência por parte dos
responsáveis desta instituição sobre como o problema está a ser revertido.
FUNDAÇÕES - A Procura de respostas:
No mundo ocidentalizado acentua-se a anulação da consciência individual e cultural.
As respostas arquitectónicas constroem lugares singulares, extravagantes, diluindo os
hábitos da vida social local. Alguns dos exemplos da arquitectura contemporânea
construídos em países ocidentais e mesmo emergentes, apelam ao virtuosismo do
autor e do respectivo objecto arquitectónico independente do contexto. Algumas
destas obras reflectem uma lógica do objecto icónico que marca singularmente o
tecido urbano
Como contraponto à arquitectura do star-system164, o exercício da disciplina,
vocacionado para a solução do habitar condigno, fomenta metodologias projectuais
referenciadas à essencialidade da profissão. As necessidades sociais existentes são
posturas de resiliência, na proposição de espaços de habitar, num trabalho
persistente, que por vezes se assemelha à acupunctura.165
164
“De facto, o que caracteriza o star-system no seu período hipermoderno é a sua extensão a todos os
domínios, isto é, não só àqueles onde começou por se instalar – o cinema e, depois, o show-business -,
mas a todas as formas de actividade: a política a religião, a ciência, os negócios, a arte, o design, a moda,
a imprensa, a literatura, a filosofia, o desporto e até a cozinha. Actualmente, já nada escapa ao sistema
do vedetariado. […] Todo o domínio da cultura se transformou numa economia de vedetariado, num
mercado do nome e da fama. A cotação dos artistas e dos arquitectos célebres atinge valores altíssimos”.
(Lipovetsky, 2008, p. 101)
165
“Sabemos que o planeamento é um processo. Por melhor que seja, não consegue gerar
transformações imediatas. Quase sempre é uma centelha que inicia uma acção e a subsequente
propagação desta acção. É o que chamo de uma boa acupunctura. Uma verdadeira acupunctura urbana.
O que se poderia classificar como exemplos de uma boa acupunctura urbana? A reciclagem da Cannery,
em São Francisco. O parque guell, em Barcelona. Às vezes, é uma obra que propicia uma mudança
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
133
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
É fundamental uma postura militante na reinvenção de modelos que revertam o
fenómeno da pobreza, afirmando a coesão social, a sustentabilidade e assegurando a
igualdade de oportunidades entre indivíduos.
A originalidade de obras executadas, com recursos mínimos, configura-se na
criatividade como são resolvidos todos os problemas específicos. As respostas para
solucionar as necessidades mais básicas das populações, obrigam a questionar as
normas existentes bem como o modus operandi destes autores e para atingirem a
resposta mais equilibrada à realidade em confronto.
Comenzó entonces un proceso de busque de socios que aportasen un capital semilla
para apoyar una compañía capaz de fornecer la cadena profesional necesaria para el
aumento efectivo de calidad en la vivienda social. Es cadena, que abarca desde la
arquitectura y el deseno urbano hasta la ingeniería, era la clave para apoyar proyectos
166
que si bien son socialmente relevantes y profesionalmente desafiantes.
(Aravena;
Lacobelli, 2012, p. 46)
O apoio das Fundações demonstra o esforço dos arquitectos em articular tipologias
contemporâneas com os fundamentos de uma arquitectura vernacular. Esta simbiose
é o veículo para a participação de base dos indivíduos, considerando a comunidade
como actor principal.
Encontrar parcerias entre projectistas e Fundações, que resultem na melhor resposta
possível a problemas habitacionais, nem sempre é tarefa fácil. O desenvolvimento
deste tipo de projectos é um acto, de experimentação e constante adaptação à
realidade, como explicita Nicholas Mckinley:
Em 2004 procuramos perceber como poderíamos adaptar as nossas experiências e o
nosso próprio trabalho de anos, em diferentes países em vias de desenvolvimento, a
uma situação europeia urbana […] quando iniciamos o programa de desenvolvimento
em diferentes zonas da asia e da africa, designadamente a ideia de fortalecer a
sociedade civil, de trabalhar com a comunidade, aproveitando a sua visão
multidimensional do problema. (Fundações, 2010, p. 66-72)
O papel das Fundações revela-se no trabalho colectivo, na procura de respostas para
a comunidade onde decorrerá a intervenção.
cultural, como foi o caso do Centro Pompidou, em Paris, do museu de Bilbao, de Frank Gehry, ou ainda a
restauração da Grand Central Station, em Nova York.” (Lerner, 2005, p. 8)
166
Em seguida, começou um processo de busca parceiros que fornecem o capital semente para dar
suporte a uma empresa capaz de fornecer corrente profissional personalizado necessário para o aumento
efetivo da qualidade na habitação social. É corrente, que se estende desde a arquitectura e o design
urbano para a engenharia, foi a chave para o apoio a projectos que, embora eles sejam socialmente
relevantes e profissionalmente desafiador. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
134
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
3.4. ARQUITECTURA COMO PLATAFORMA DE TRANSFORMAÇÃO
A arquitectura tem como princípio matriz promover, o presente e o futuro da
humanidade, sendo importante entende-la como uma plataforma da transformação
dos paradigmas ou das questões do organismo social:
O Mundo está em permanente mudança e as cidades têm contribuído para essa
metamorfose, assistindo a diversos acontecimentos ao longo da história, alguns
despoletados pelas mesmas, outros sem que estas tivessem previsto ou tido controlo
algum. Onde outrora apenas ocorriam trocas comerciais, hoje erguem-se edifícios e
infra-estruturas que dão lugar a uma realidade cheia de vida, movimento e
oportunidades. As cidades são lugares de prosperidade persi ― o lugar onde os seres
humanos encontram satisfação para as suas necessidades básicas e bens públicos
essenciais. Onde vários produtos podem ser encontrados em suficiência e serem
utilizados de forma proveitosa. As cidades são também onde as ambições, aspirações
e outros aspectos imateriais da vida são realizados, proporcionando satisfação e
felicidade, e aumentando as perspectivas de bem-estar individual e colectivo (United
Nations Human Settlements Programme, 2012).
Esta transformação passa pelo reposicionamento dos arquitectos perante o panorama
da arquitectura actual. Um posicionamento que se transpõe, muitas vezes, pela forma
como o arquitecto percepciona o mundo global e pela realidade à qual pertence. O
arquitecto na sua prática reflecte um conjunto de factores, como individuais, sociais,
políticos, culturais e económicos, que na sua envolvente o influenciam não só o
exercício como também em determinadas decisões pessoais. (Design Indaba, 2014)
“Think global, act local”: el lema ecologista, popularizado en los años setenta del siglo
pasado pero que tiene sus raíces en la obra de pioneros como el urbanista Patrick
Geddes o el ingeniero Buckminster Fuller, nos anima a reunir la reflexión sobre el
planeta con el activismo comunitario. Surgido en movimientos alternativos y adoptados
después por las corporaciones, expresa nítidamente la interdependencia de lo próximo
y lo universal. El constructor local debe saber que cada decisión afecta a la salud del
globo, y la empresa global tener en cuenta la singularidad de lo local: de la misma
manera que la intervención en lo inmediato se inscribe en un marco planetario, la
actividad en un mundo sin fronteras debe materializarse de forma diferente en cada
entorno cultural, geográfico y climático. Pensar globalmente y actuar localmente es en
efecto una divisa que puede reclamar para sí tanto la arquitectura crítica como la
167
corporativa. (Fernandez-Galiano, 2014, p. 3)
167
Think global, act local": o lema ecologista, popularizada nos anos setenta do século passado, mas que
tem as suas raízes no trabalho de pioneiros como o planejador urbano Patrick Geddes ou o engenheiro
Buckminster Fuller, encoraja-nos a reunir a reflexão sobre o planeta, com o ativismo comunitário. Em
movimentos alternativos surgiram e adoptou mais tarde pelas corporações, expressa claramente a
interdependência do que está perto e que é universal. O construtor local deve saber que cada decisão
afeta a saúde do mundo, e a empresa global tem em conta a singularidade do local: da mesma forma que
a intervenção no futuro imediato é parte de um quadro planetário, a actividade de um mundo sem
fronteiras deve ser traduzida de modo diferente em cada um dos sectores culturais, geográficas e
climáticas. Pensar globalmente e agir localmente é, com efeito, uma moeda que pode reivindicar tanto a
arquitectura fundamental e corporativa. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
135
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A relevância anteriormente atribuída a evolução das tecnologias, transfere-se nos dias
de hoje, para outros campos das ciências sociais, como a sociologia e a antropologia e
com reflexos consequentes neste tipo de arquitectura de baixos recursos. Os projectos
pensados e construídos com uma vertente social, posicionam a resposta do arquitecto,
para uma dimensão humanitária.
Se a formação do arquitecto tem mudado bastante ao longo dos tempos, tal fica sem
dúvida a dever-se em grande parte aos novos conhecimentos, mas talvez mais ainda
às modificações que se têm verificado quanto ao próprio conceito da profissão. De
facto, a dupla componente do conceber e do fazer está tão intimamente associada à
ideia base da actividade do arquitecto que é demasiado complexa para que sobre ela
possa ser tomada uma posição única e definitiva, ainda que seja justamente este é um
dos aspectos sobre os quais se têm verificado as maiores alterações, com a
acentuação de uma ou outra destas componentes. (Pedreirinho, 1994, p. 25)
Estes arquitectos são promotores de mudanças nas vidas das populações para as
quais respondem. Os projectos reflectem dimensões formais, espaciais e construtivas
sensíveis e um conhecimento das contingências do mundo real para o qual pensam e
executam os seus projectos.
Para além da sua preparação especializada – e porque ele é homem antes de
arquitecto – que ele procure conhecer não apenas os problemas dos seus mais
directos colaboradores, mas os do homem em geral. Que a par de um intenso e
necessário especialismo ele coloque um profundo e indispensável humanismo. Que
seja assim o arquitecto – homem entre os homens – organizador do espaço – criador
da felicidade. (Távora, 1996, p. 74 –75)
Esta plataforma de transformação promovida pelos arquitectos, não seria possível, se
não existissem outros actores de consciência social. O papel destes últimos, entidades
diversas, suporta o desenvolvimento destes projectos através do seu financiamento e
promoção. Apesar da consciência social revelada na praxis profissional dos
arquitectos, a existência destas entidades é fundamental para a construção dos
projectos. Os voluntários, os apoios e os prémios atribuídos são estratégias para que
estes projectos possam ser construídos e divulgados junto do grande público.
Este é mais um passo para a arquitectura se constituir como uma plataforma efectiva
na transformação da construção, dos modos de vida e de habitar das populações para
os quais, estes projectos são concretizados. É também o reconhecimento da
importância do papel da arquitectura na implementação das preocupações
actualmente relacionadas com a sustentabilidade, transformando-a numa plataforma
sólida para o futuro dessas comunidades.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
136
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Esta arquitectura de baixos recursos, com o tempo, tem a capacidade de transformar
aldeias assim como os seus modos de vida. As obras que vão sendo construídas
dentro desta premissa são promotoras de espaços inovadores, trabalhando com a
comunidade local, criam um sistema de relação que estimula a aprendizagem e se
espelha no orgulho na comunidade na realização destes projectos. (Design Indaba,
2014) Estes projectos geram uma plataforma de parcerias entre comunidades,
arquitectos e entidades patrocinadoras que, num processo continuado, terá impacto
real na viabilidade económica e social dessas regiões e populações.
Estes projectos são concebidos através de compromissos e decisões, projectuais ou
económicas e sustentáveis, que se reflectem inequivocamente nas respostas
construídas. Assim como os casos de estudo apresentados, existem muitos outros
casos de arquitectura de baixos recursos, onde os arquitectos e não arquitectos na
concepção de uma resposta construída possibilitam a transformação de arquitectura.
Ilustração 104 – “Los Vilos”.
Chile, 2014. (Elemental, 2014)
Ilustração 105 – “Omicron living
rooms”. India, 2014. (Heringer,
2014)
Ilustração 108 – “Bamboo
Shelter”. Ramsar, Mazandaran,
Iran 2008. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 76)
Ilustração 109 – “Centre
pourle Bien-êtredes Femmes”.
Ouagadougou, Burkina Faso,
Africa, 2007. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 108).
Ilustração 112 – “10x10
Housing Initiatives”. Cape
Town, 2010. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 146)
Ilustração 113 – “Svalbard
Global Seed Vault”,Norway,
2008. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 234)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
Ilustração 106 –
“Barnetraakk. Gran”. 2013.
(TYINArchitects, 2014)
Ilustração 110 – “Tiuna el
Fuerte Cultural Park”. Valle,
Caracas, Venezuela, 2010.
(Architecture for Humanity,
2012, p. 176)
Ilustração 114 – “Favela
Painting Project”. Rio de
Janeiro, 2012. (Architecture for
Humanity, 2012, p. 264)
Ilustração 107 – “Mama
Sarah Obama Legacy”.
Kenya, 2014. (Kéré, 2014)
Ilustração 111 – “Mahiga
Hope High School
Rainwater Court Mahiga”,
Nyeri District, 2010.
(Architecture for Humanity,
2012, p. 222)
Ilustração 115 – “Faces of
Favelas”. Rio de Janeiro. 2012.
(Architecture for Humanity,
2012, p. 268)
137
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
138
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
4. ESTUDOS DE CASO
Ilustração 116 – Pensar com as mãos. Desenho de Campo
Baeza. (Campo Baeza, 2011, p. 10)
Um dos pilares em que deve basear-se um criador quando faz a sua obra, um
arquitecto quando concebe e ergue a sua arquitectura, é olhar para o future e descobrir
o ponto-chave da sua criação. Compreender claramente o tempo em que vivemos, que
é também conhecimento profundo do passado, e com um pé no ar, por vezes os dois,
saltar para o futuro. (Campo Baeza, 2011, p. 33)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
139
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
4.1. ELEMENTAL – CONJUNTO HABITACIONAL EM IQUIQUE, CHILE - 2001
NECESSIDADE - RESPOSTA - EQUIPA ELEMENTAL
A reflexão sobre alguns processos de participação comunitária, na concepção da
própria habitação, é um factor revelador da falta de apoio por parte do Estado quanta à
sua responsabilidade em termos políticos e económicos na concretização de uma
solução eficaz. Este factor revela a existência de um desnível social nos grandes
projectos habitacionais de carácter social.
Na procura de estabelecer respostas diferenciadas e singulares, para o problema
habitacional de uma determinada população desfavorecida tem vindo a surgir, nas
últimas décadas, arquitectos que procuram contornar as dificuldades e constituírem-se
como respostas alternativas dentro da cidade genérica. Esta cidade alberga uma
realidade potencial no campo da investigação, promovendo, no campo da arquitectura,
o estabelecimento de novas metodologias cujos objectivos estão centrados em
procurar respostas projectuais que conduzam a minoração das questões relacionadas
com as transformações urbanas e o deterioramento das condições de vida dos
homens que as cidades afluem, bem como a decorrente segregação social.
Arregimentada com estes propósitos, construir respostas arquitectónicas adequadas e
eficazes para este tipo de problemas, foi criado em 2001, no Chile uma equipa
formada por arquitectos e engenheiros168, tendo como director executivo o arquitecto
Alejandro Aravena169. Este grupo multidisciplinar intitulou-se Elemental170 SA,
[Ilustração 117] tendo para este efeito criado uma empresa associada à companhia
petrolífera COPEC171 e a Pontifícia Universidade Católica do Chile.
168
Elemental começa em Cambridge, quando o Arquitecto Andres Laborelli: ”perguntou, se é certo que a
arquitectura chilena é tão boa, porque é que a vivenda social é tao má?”. (Aravena; Lacobelli, 2012, p.
30). Esta questão deu início á procura três arquitectos Alerandro Aravena, Pablo Allard e Andres
Lacobelli, de uma resposta eficaz que contribuísse para um outro modo de olhar este problema. A Equipa
Elemental é neste momento constituída por Alejandro Aravena como director executivo, Gonzalo Arteaga,
Diego Torres, Victor Oddo, Juan Ignacio Cerda, Cristián Martínez, Suyin Chia, Palmares Thomas, Matías
Magnelli, Janet Bacovich, Rayna Razmilic, Alejandra Lamarca e María Eugenia Morales. (Elemental,
2014)
169
Alejandro Aravena Aquitecto de Origem Chilena, graduado na Universidade Católica de Chile desde
1967.
170
Definição de Elemental é o mesmo que elementar ou fundamental. Segundo a equipa: ”Elemental es
un término que para algunos remite a lo obvio o lo evidente, aunque también se refiere a los elementos o
princípios de una ciência o arte, lo fundamental o primordial de algo. Elemental es aquello que no se
puede seguir descomponiendo, una unidad básica e irreducible.” (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 32)
Elemental é um termo que refere-se para alem do óbvio ou do evidente, embora também se refere aos
elementos ou princípios de uma ciência ou arte, aquilo que é essencial ou primária de alguma coisa.
Elemental é algo que não pode descompor-se é uma unidade básica e irredutível. (Tradução Nossa,
2014)
171
A COPEC mostra ter responsabilidade Social, no apoio sucessivo a problemas sociais adquirindo
confiança dos seus colaboradores.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
140
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 117 - Equipa S.A Elemental, Alejandro Aravena, Víctor Oddó, Gonzalo Arteaga, Fernando García-Huidobro, Diego
Torres, Cristián Martínez, and Juan Cerda. (Ayyüce, 2011)
A associação entre um conjunto de arquitectos e as referidas entidades teve como
objectivo o desenvolvimento de propostas arquitectónicas construídas com baixos
recursos, assentes na inovação e qualidade na elaboração de projectos de interesse
público e com forte impacto social. Estas propostas arquitectónicas incorporam um
conjunto de conhecimentos para o desenvolvimento de iniciativas complexas e
sustentáveis, as quais requerem a coordenação dos diversos actores públicos e
privados, bem como os processos participativos de toda a equipa e das próprias
comunidades.
A equipa Elemental elabora projectos, de pequena escala, para tecidos urbanos
consolidados. As suas propostas visam a integração das famílias no seu lugar original
de residência, planeando e estimulando a integração social através da participação
dos seus habitantes na tomada de decisões gerais. Todo este processo denota uma
visão renovada sobre a problemática da habitação social172.
Desde un comienzo, quisimos cambiar la carga negativa que tiene trabaja en vivienda
social […] una vivienda Elemental, en cambio, es algo a lo que uno debería aspirar
como profesional, incluso teniendo muchos recursos. Un proyecto Elemental distingue
173
lo importante de lo accesorio, deshaciéndose de todo aquello que no es necesario .
(Aravena; Lacobelli, 2012, p. 32)
Operam na cidade com o objectivo de melhorar a qualidade de vida a concretizar nos
projectos de arquitectura que, na sua génese sejam considerados determinantes para
solucionar as carências detectadas. A sua acção projectual abarca a proposição de
172
Uma abordagem similar a esta intervenção, que surge em Portugal em 1974, é o programa SAAL
(Serviço de Apoio Ambulatório Local) que tinha como objectivo o realojamento de populações de
rendimentos baixos. A habitação Social tinha como crença a esperança numa nova sociedade, igualitária,
democrática e participativa. A justificar esta afirmação, apresenta-se a citação de Alexandre Alves Costa
ao J.A. nº 236 Ser Pobre: “Os moradores pobres, sendo protagonistas assumidos desse processo de
construção, tiveram consciência plena de que, para fazerem a cidade deveriam começar pelas casas e
que estas deveriam ser para todos.” (Costa, 2011, p. 11)
173
Desde o início, queríamos alterar a carga negativa que tem as obras de habitação social [...] uma
habitação Elemental, por outro lado, é algo que se deve aspirar como um profissional, mesmo tendo
muitos recursos. O ensino fundamental do projecto distingue o que é importante do acessório, livrando-se
de tudo o que não é necessário. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
141
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
habitação evolutiva e de custos controlados, infraestruturas, equipamentos e também
o desenho de espaços públicos. Esta visão de conjunto gera, pela articulação
integrada, benefícios para a área de intervenção, parte de um tecido urbano, e
desenvolve laços sociais entre os usuários.
No caso específico do presente estudo a leitura crítica incide sobre o projecto
concretizado para o desenvolvimento da Quinta de Monroy. A intervenção da equipa
Elemental inicia-se após terem sido contactados pelo governo do Chile, através de um
novo programa chamado Chile-Bairro, que pretendia oferecer melhores condições de
vida sem necessitar de deslocar as pessoas para a periferia. Este programa em vez de
erradicar as pessoas tinha por objectivo radicar, uma nova solução, nunca antes
criada. (Himawari ∞, 2014)
A equipa na fase inicial procurou compreender os pressupostos do sistema de apoio
Chileno, nomeadamente como abordava o tema da casa para pessoas com escassos
recursos e que sobrevivem com subsídios estatais174. A política governamental, neste
campo, prevê que os subsidiários possam construir uma solução de habitação mínima
condigna, ficando à responsabilidade do proprietário da residência, ampliar ou não a
mesma dentro do conjunto de regras previstas na matriz do projecto. Com estas
premissas prévias a equipa começou um trabalho de investigação e contacto com a
comunidade, essencial para estabelecer a estratégia mais adequada para a área de
intervenção e que pudesse integrar as necessidades habitacionais e vivências.
Com todas as condicionantes e restrições orçamentais a responsabilidade da
eficiência do projecto recai, sobre a Equipa. Neste sentido elaborou um intenso
trabalho de verificação das necessidades e anseios das comunidades de modo a
incorpora-los ao longo das diversas fases de elaboração do projecto. A sua acção e a
arquitectura proposta, são parte de um trabalho conjunto com os futuros usuários, na
procura de identificar as suas principais necessidades e como estes imaginam os
espaços de habitar. As informações obtidas, através de conversas ou de desenhos
[Ilustração 118 e 119] com intenções ou ambições para as habitações eram
fundamentais uma vez que a equipa sabia que neste processo, em que está prédefinida a futura ampliação da casa, era necessário garantir coordenação total entre a
arquitectura proposta e a sua consequente fase evolutiva a construir pelos
proprietários de cada habitação.
174
Este subsídio exigia três particularidades: o solo, a urbanização (redes, águas, luz) e a habitação em
si.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
142
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Segundo o arquitecto Aravena : “Se provavelmente estaremos a usando a capacidade
de autoconstrução das pessoas como um recurso, que em vez de ser visto como um
deterioro das soluções do estado ou do mercado privado, como um processo de
personalização e customização de habitações que em geral não tem essa capacidade
de reagir frente a diversidade social.” (Himawari ∞, 2014)
Este sistema participativo175 permitiu à equipa projectar espaços consequentes com os
modos de habitar característicos desta comunidade. A existência de um trabalho
preliminar de cariz pedagógico permitiu também alcançar um outro objectivo, transmitir
aos futuros usuários as condicionantes e as possibilidades subjacentes à eventual
ampliação das suas habitações.
Ilustração 118 - Participação dos indivíduos no desenvolvimento
do projecto Elemental. (Oldadmin, 2011)
Ilustração 119 - Participação dos indivíduos no desenvolvimento
do projecto Elemental. (Oldadmin, 2011)
Metodologicamente o grupo discutiu, internamente, todas as questões de relevância
social a ter em conta aquando da elaboração do projecto. Este modus operandi visa a
executar projectos competentes para resolver problemas reais, propondo para tal
novos padrões de habitação e de serviços públicos. A concretização do projecto
estabelece uma plataforma construída introduzindo soluções inovadoras nas áreas de
energia, materiais e tecnologia, com o intuito de atingir níveis de igualdade e bemestar social para estas comunidades. O escritório Elemental caracteriza-se pela sua
forma de operar como de um tank176, termo que contrasta com a lógica inglesa
denominada think tank177 ("alimento de ideias”). (Elemental, 2014)
175
”La participación de la comunidad fue clave para definir con precisión este espacio colectivo.
Inicialmente, creamos que disponer la masa construida sobre el perímetro del terreno, dejando un gran
espacio central, era la mejor estrategia.” (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 108). Participação da Comunidade
foi fundamental para definir com precisão o espaço coletivo. Inicialmente, foi criada a massa, que foi
construída sobre o perímetro do terreno, deixando um grande espaço central, foi a melhor estratégia.
(Tradução Nossa, 2014)
176
”Elemental es un do tank. Nuestro campo de acción es la ciudad. La ciudad es un atajo hacia la
equidad. Trabáramos en proyectos concretos de vivienda, espacio público, transporte e infraestructura,
capaces de mejorar de mejorar efectiva y eficiente la calidad de vida y el acceso a las oportunidades de
los más pobres”. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 50). Elemental é um tanque de tarefas. A nossa
preocupação é a cidade. A cidade é um atalho para a igualdade. Trabalhamos em projectos concretos de
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
143
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A diferença fundamental deste programa relativamente a outros em vigor reside no
método aplicado. O projecto de arquitectura é delineado integrando na sua génese
com um plano de sustentabilidade económica e social. Procura-se, por esta via,
produzir uma habitação com dimensões maiores e de melhor qualidade integrada num
cenário urbano.
Lo que hicimos en Elemental fue sustituir un lógica reduccionista (achicar) por un
principio de síntesis. Dijimos: si el dinero no alcanza para más de 40 metros cuadrados,
por qué no consideramos que en vez de una casa chica, éstos pueden ser vistos como
la mitad de una casa buena? […] la pregunta clave es: que mitad hacemos? Nos
pareció que lo más eficiente era hacer aquella mitad de una casa que una familia nunca
178
va poder lograr por cuenta propia. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 17)
No que concerne ao seu papel enquanto autores e ao modo como abordam os
projectos, a opinião dos arquitectos da Elemental, aponta para considerar o seu
trabalho uma aprendizagem sobre uma outra perspectiva de pensar e fazer
arquitectura.
Esta
perspectiva
baseia-se
no
envolvimento
directo
com
as
comunidades, desenvolvendo-a sem qualquer tipo de ambição em obter benefícios
monetários com a mesma. O tónico da sua acção enquanto arquitectos que reflectem
e propõe uma arquitectura de baixos recursos fundamenta-se no estabelecimento de
respostas sustentadas, em todas as dimensões, que correspondem às necessidades
do presente e das populações que as vão habitar. A postura da equipa está
equivocamente expressa no modo como entendem o seu envolvimento, no livro: “Total
Housing“. 179
We are no heroes, nor volunteers, so besides trying to produce appropriate and precise
project, we were looking for funds to pay necessary professional quality chain that was
180
missing because nobody is paying for it.
(Elemental, 2014)
habitação, espaços públicos, transporte e infraestrutura, podemos melhorar a eficiência e melhorar a
eficiência da qualidade de vida e acesso a oportunidades para os mais pobres (Tradução Nossa, 2014)
177
Think Tanks são organizações ou instituições que atuam no campo dos grupos de interesse,
produzindo e difundindo conhecimentos ou assuntos estratégicos, com vista a influenciar transformações
sociais, políticas, económicas ou científicas.
178
O que nós fizemos no Elemental foi o de substituir a lógica reducionista (minimo) por um princípio de
síntese. Já o dissemos: se o dinheiro não chega para mais de 40 metros quadrados, não acreditamos que
em vez de uma casa pequena, estes podem ser vistos como metade de uma boa casa? [ ... ] A pergunta
chave é: qual metade que fazemos? Verificou-se que a mais eficiente foi fazer a metade de uma casa que
a família nunca será capaz de alcançar à sua própria conta. (Tradução Nossa, 2014)
179
Total Housing é uma demonstração das virtudes de alta e média densidade de residências
multifamiliares, e um antídoto para a expansão urbana. Abrange um período que coincide com a altura do
boom imobiliário, experiente na maioria das economias "desenvolvidas " na primeira década do século
XXI.
180
Não somos heróis, nem voluntários, por isso além de tentar contruir um projecto apropriado e preciso,
estávamos a procura de fundos para pagar a necessária cadeia de qualidade profissional que estava em
falta, porque ninguém é pago por isso. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
144
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A Quinta de Monroy em Iquique foi o primeiro projecto realizado no Chile e exemplifica
a aplicação dos critérios anteriormente enunciados. Este projecto é a prova construída
que confirma, após 10 anos da sua construção, um forte aumento do valor material
das habitações e da qualidade de vida no próprio bairro e dos habitantes.
Segundo uma habitante da Quinta de Monroy: “Dez anos atrás essa vivenda nos
custou 171 mil pesos, nos dias de hoje, em 2013, essa habitação tem um custo, para
venda, se for o caso, dentro de 38 a 42 milhões de pesos, ou seja, mil vezes mais do
que poderia ter custado à dez anos atras”. (Himawari ∞, 2014)
Comprovando os resultados da resposta, a equipa Elemental ganhou em 2008, em
Paris, o prémio: Global Award for Sustainable Architecture181. A título individual o
arquitecto Alejandro Aravena já recebeu vários prémios relativamente ao seu trabalho
com a equipa Elemental como o Leão de Prata XI Bienal de Veneza, prémio da XII e
XV Bienal de Santiago e foi finalista do Mies van der Rohe Award em 2000.
O desenvolvimento da actividade projectual desta equipa implicou que outros
trabalhos seus tenham sido seleccionados a fazerem parte de exposições ou outros
eventos para transmitir a filosofia subjacente a este tipo de respostas para uma
arquitectura realizada com baixos recursos sendo disso exemplo a Elemental Casa
Protótipo em Milão, na Triennale Garden, em Itália.
Os fundamentos da equipa são norteados por princípios operativos, que partem de
todo o tipo de contingências e escassez, utilizando-os como matéria no ciclo projectual
para a definição de respostas sustentadas para a habitação social.
Queríamos ampliar el espectro de razones por las cuales ocuparse de vivienda social,
siempre demasiado guiada por motivaciones meramente éticas, morales y/o
humanitarias […] la buena voluntad y las buenas intenciones fueran necesarias pero no
182
suficientes para dar respuesta adecuada al desafío. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 32)
A equipa Elemental projecta tanto para o Chile como para o estrangeiro, contribuindo
da melhor maneira e face às realidades em questão, para a resolução dos problemas
da habitação. Em contextos em que tem que projectar com recursos escassos esta
equipa através de uma dedicação intensa, procura com soluções inovadoras
181
O Prémio Global para Arquitectura Sustentável é gerido pelo Fundo LOCUS. "LOCUS procura
identificar e premiar os arquitectos mais inovadores e envolvidos de todos os cantos do globo em
projectos de renovação urbana participativa nos países em desenvolvimento." (Holcim Foundation For
Sustainable Construction, 2014). O Prémio Global para Arquitectura Sustentável é apoiado pela Fundação
GDF-Suez, e é sob o patrocínio da UNESCO.
182
Nós queríamos expandir o espectro de razões por que tratar a habitação social, sempre guiados por
motivações muito puramente ético, moral e/ou humanitárias [...] a boa vontade e boas intenções foram
necessárias, mas não suficientes para uma resposta adequada ao desafio. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
145
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
interagindo com todos os actores que são parte no apoio à resolução da questão da
habitação de índole social.
CONJUNTO HABITACIONAL – QUINTA MONROY, CHILE - 2001
A zona de intervenção dada à equipa Elemental, era inicialmente um acampamento
ilegal [Ilustração 120]. Um terreno com uma área de cerca 0,5 hectares no centro de
Iquique, uma cidade situada no deserto do Chile. Esta ocupação é resultante da
autoconstrução que 93183 famílias levaram a cabo quando se instalaram nesta zona
durante a década de 60184. Estas famílias viviam precariamente, tendo no entanto
procurado, ao longo dos anos, encontrar uma solução para a melhoria efectiva das
suas condições de vida e habitar, sem no entanto terem tido qualquer sucesso ou
apoios.
Ilustração 120 - “Acampamento Ilegal da Quinta de Monroy anterior á intervenção da equipa Elemental”. (Aravena; Lacobelli, 2012, p.
89)
Quando eu cheguei aqui a quinta de Monroy aqui era conhecido como ”labirintos”,
porque não havia luz, havia luz nas casas mas não havia luz nas ruas ou seja, nos
labirintos que havia, somente transitavam pessoas. Você caminhava 20 metros, se
encontrava com uma porta, tinha de abrir essa porta e caminhar outro labirinto, para
encontrar com quatro ou cinco casas mais. Era algo emblemático, viver no centro de
uma cidade, por os outros nos chamavam, como se fossemos um ponto negro, dentro
só que era social […] se vivia aglomerado, aglomerados grandes […] e havia que se
fazer algo, a desconfiança das pessoas era muito compreensível dentro de tudo, havia
gente que vivia aqui há mais de quarentas anos e sempre haviam prometido que iriam
construir para eles uma casa, nos terrenos que estavam desocupados aqui mesmo em
Iquique (Himawari ∞, 2014)
183
Este número surge no site oficial da equipa Elemental, mas nas restantes fontes de informação o
número das famílias é 100. (Tradução Nossa, 2014)
184
Muitas destas famílias viviam em mas condições sem água potável, sem luz nem ventilação directa.
Cada família ocupava 30m2 de área com habitações de material descartado muitas vezes vindo do porto.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
146
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Em 2001 surge a proposta do governo Chileno à equipa Elemental, para o
desenvolvimento e concretização de um programa cujo princípio operativo desafiante
seria o de alojar as 93 famílias no mesmo local, na mesma área disponível, evitando a
deslocação destas famílias para a periferia (Alto Hospício).185
A intervenção tinha como condicionantes de partida a falta de um apoio substancial
em termos económicos. Este apoio em termos financeiros apenas previa a atribuição
de um subsídio governamental no valor de 7500 dólares por família, o qual estava
definido por um programa específico do Ministério de Habitação, chamado Vivenda
Social Dinâmica sem Divida. Este apoio pecuniário visava auxiliar as classes mais
pobres da população. O montante supracitado englobava o preço do terreno, a
implementação das infraestruturas necessárias e o custo da arquitectura da respectiva
habitação.
Estas contingências impuseram uma confrontação com a realidade. Apenas era viável
construir uma área bruta de 40m2 por habitação unifamiliar isolada, ineficazes em
termos da rentabilização da superfície do terreno da intervenção, e a possibilidade
limitada deste modo, apenas ser possível albergar 30 famílias. Perante estas
dificuldades a alternativa incidiu na hipótese de desenharem habitações recorrendo a
sistemas de agrupamento. Nas primeiras pesquisas a Elemental considerou que as
habitações propostas teriam de possuir a largura do lote pré-definido, mas mesmo
com esta solução, apenas seria viável responder a 66 famílias, tornando a repetição
um acumular excessivo de habitações. Nesta investigação surge uma terceira opção
que apontava para a construção na vertical das habitações, embora também esta
tivesse revelado como consequência imediata o facto de impossibilitar eventuais
ampliações das habitações [Ilustração 121].
Ilustração 121 - Esquema primeiras das soluções propostas pela Equipa Elemental. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 92-96)
185
Localizado na cordilheira costeira com uma altura superior (600 m) no baixo Iquique localizado na
estreita planície costeira de cerca de 4 km, a segregação sócio espacial, tem série de efeitos e problemas
sociais como a pobreza, a marginalização, condições precárias de habitação, a superlotação e altos
níveis de violência.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
147
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Este empreendimento tinha como objectivo inicial atingir uma densidade populacional
suficiente (sem sobrelotação) que tornasse possível a sua implementação e execução.
Em vez de pensar no menor módulo possível, construído com 7500 dólares e
multiplica-lo por cerca 100 vezes sendo este o número de famílias em causa, a equipa
definiu uma outra estratégia suportada numa lógica que pressupunha delinear e
projectar o melhor edifício possível para albergar as 100 famílias e por esta via garantir
possibilidade, em termos de futuro, de serem objecto de ampliações.
“Te sugiero que dejes de pensar de la vivenda como un gasto, sino como una inversión social”.
186
(Garcia-Abril, 2010, p. 30)
Esta afirmação do arquitecto Alejandro Aravena, em entrevista revista Arquitectura
Viva, explicita os conceitos que a equipa Elemental procura integrar nos seus
projectos. Aplicando esta formulação começaram a pensar no projecto como um
possível investimento social e não como um simples problema de habitação. A
dificuldade em estabelecer uma resposta adequada estava, no facto da boa
localização do terreno ser um factor determinante para a criação de mais-valias futuras
para o local e a garantia de que o investimento seria vantajoso. A equipa tinha
consciência, à partida, que a construção em Iquique, seria demasiado dispendiosa.
Esta situação colocava-os perante uma rede de oportunidades a explorar, a cidade
tinha potencial para oferecer a esta comunidade trabalho, equipamentos de saúde e
educação, transportes, e a equipa queria tomar partido e utilizar estas condições
potenciais para implementar o projecto.
A primeira premissa do projecto assentava na necessidade de albergar o número
máximo de famílias e maximizar o subsídio disponibilizado pelo governo. No decorrer
da investigação projectual a equipa ponderou a possibilidade de construir um único
edifício, em altura, tendo chegado á conclusão que as ampliações necessárias apenas
seriam possíveis para os habitantes dos pisos térreos e ao nível da cobertura. Com
este propósito descartado optaram por propor uma estrutura habitacional modular por
família, que tivesse apenas o piso térreo e o último andar, desenvolvendo-a na
horizontal. A equipa designou esta solução projectual de edifício paralelo, em que as
tipologias deveriam permitir alcançar uma densidade considerável, de modo a tornar
possível custear o preço do terreno.
O “edifício paralelo”, como nós o chamamos foi esse edifício que era capaz, de ter uma
casa em baixo, que adquiria o seu potencial de classe média de 80m2, construindo
186
Eu sugiro que se pare de pensar na moradia como um gasto, mas como um investimento social.
(Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
148
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
horizontalmente no terreno, e um departamento duplex em cima, que poderia atingir
seu potencial de classe média de 80m2, construindo no vazio que nós deixamos
disponível. E este esquema de edifício paralelo, com unidades inicialmente pequenas
que era o que os fundos públicos podiam pagar, porem que devido a própria
construção das pessoas poderiam adquirir um potencial de classe media, foi a
estratégia para transformar a escassez de recursos em uma sociedade, em que o
estado ficava responsável por aquilo que as pessoas não poderiam fazer sozinhas, e
as famílias os completavam, o que estruturalmente era entregue com coordenação
profissional e poderiam também personalizar essa unidade conforme a sua
necessidade individual. (HIMAWARI ∞, 2014)
A chave do presente projecto passava então por garantir que a habitação subsidiada,
a que estas famílias tinham acesso, se fosse valorizando de dia para dia, pois este
factor seria um expoente para a maximização da ajuda a estas pessoas. Mais do que
simplesmente protegê-las das intempéries o projecto tinha que se constituir com um
meio que permitissem às famílias superar a pobreza. Um projecto que passasse para
além das necessidades e criasse oportunidades de crescimento económico para estas
famílias pobres, fornecendo oportunidades de crescimento para a cidade e acima de
tudo fortificador da economia familiar, através do espaço físico.
Sabíamos que tener un modelo sustentable en el tempo, no podíamos depender de
donaciones. Es más: para influir de manera efectiva y permanente en un tema como
este, se requería un modelo y una estructura que fuesen económicamente sólidos,
basados en una remuneración justa y competitiva ... comenzó entonces un proceso de
187
busque de socios. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 46)
Ilustração 122 – Habitações modular na fase de construção. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 148)
187
Nós sabíamos que deviamos um modelo de desenvolvimento sustentável com o tempo, não podíamos
contar com doações. É mais: a influência eficaz e permanentemente em um tópico como este, que
precisava de um modelo e de uma estrutura que seria economicamente viável, com base em uma
remuneração justa e competição... Começo, em seguida, um processo de busca parceiros (Tradução
Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
149
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Dada a limitação de custos, a equipa Elemental estabeleceu que a possibilidade de
ampliação das habitações teria que ser executada através de processos de
autoconstrução188, [Ilustração 122] após a conclusão da obra e integralmente
executadas pelos seus proprietários. O projecto na Quinta de Monroy redistribuiu as
93 famílias em quatro comunidades com menos de 20 famílias. Cada uma destas
comunidades está organizada em torno de um espaço público comum189. Um espaço
colectivo, com acesso restrito, potenciador de intercâmbios socializantes entre
moradores, conferindo esta dinâmica novas condições aos indivíduos, com maior
fragilidade, para ultrapassar as suas diferenças ou dificuldades. O espaço público
serve como agregador de inter-relações sociais, sendo também uma das chaves do
êxito de uma estrutura socioeconómica desta natureza.
O edifício principal de cada habitação unifamiliar funciona como uma estrutura de
apoio. Na sua concepção o cálculo estrutural foi dimensionado para resistir aos
frequentes abalos sísmicos que afectam esta região. Em termos arquitectónicos cada
módulo foi desenhado de modo a garantir um acesso directo (por escada) do plano do
piso acima do solo directamente para o espaço público. Outras características
imediatamente salvaguardadas foram
as entradas de iluminação natural e
consequentemente ventilação dos espaços interiores. A sua posição na fachada evita
qualquer tipo de constrangimentos á futura ampliação do módulo. Os módulos
propostos, possuem cerca de 50% do seu volume liberto para poderem ser objecto
dos referidos processos de autoconstrução, embora previamente controlada. Neste
sentido os edifícios são “porosos”, para permitir a cada unidade expandir-se dentro da
estrutura.
Em vez de uma habitação unifamiliar com área bruta da construção reduzida de 40m2,
a proposta previa a construção a uma habitação com uma área bruta média de 80m2,
sabendo-se que o orçamento só chegaria para custear cerca de metade dessa área. A
questão base do projecto estava na opção em definir quais os espaços que eram
essenciais construir na primeira fase. A equipa optou por construir a metade que seria
188
Autoconstrução é um termo utilizado para método de construção do individuo de construir a própria,
normalmente de baixo custo, levada a cabo pelo futuro usuário com seu próprio trabalho e seus próprios
meio.
189
“La vivienda social tiene una estructura binaria. O hay espacio público o hay espacio privado, o hay
calles o hay lotes privados. Nosotros queríamos introducir entre uno y otro, el espacio colectivo: una
propiedad común pero de acceso restringido, donde pudiese tener lugar esa unidad económica peculiar
conocida como familia extensiva.” (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 107). A habitação social tem uma
estrutura binária. Ou há nenhum espaço público ou há espaço privado, ou há ruas ou lotes privados.
Queríamos introduzir um e o outro, o espaço colectivo: a propriedade comum, mais restrita, o que poderia
ocorrer que determinada unidade económica conhecida como família alargada. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
150
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
mais difícil para as famílias, pelo que foram executadas, no seu estado acabado, a
estrutura, as escadas, a zona da cozinha, a instalação sanitária e espaços de átrio.
No Elemental o primeiro que fizemos, foi nos perguntar, se esses 40m2, os quais se
podem pagar os fundos públicos, em vez de serem vistos como uma casa pequena,
podiam ser considerados como a metade dessa casa boa de 80m2 que uma família de
classe média pode viver. (Himawari ∞, 2014)
A outra metade está dependente, como já enunciado ao, processo de autoconstrução
e ao tempo em que este se venha a concretizar, surgindo como uma nova volumetria.
Neste processo foi necessário evitar que os futuros espaços bloqueassem o acesso à
luz e à ventilação dos espaços já existentes, ou seja o não condicionar a circulação,
entre divisões. A ampliação do módulo faz-se com um volume colado na planta
elevada. Neste volume encontram-se dois quartos articulados com a zona de átrio. A
autoconstrução é um processo dinâmico, pelo que foi controlado previamente, não
permitindo a promoção de fenómenos de sobrelotação, a criação de espaços
inabitáveis ou comprometendo a privacidade de cada individuo.
Instalações
sanitárias
Ampliação
40m2
Ilustração 123 - Planta piso 0 das habitações. Elemental. (Aravena; Lacobelli, 2012, p.
113)
Cozinha
Proposta duplex
40m2
Esquema 1- Evolução esquemática
A proposta arquitectónica para a habitação do piso 0, seria construir um lote de 9x9
metros com um volume inicial de 6x6 metros em planta e com 2.5 de altura. Sobre
essa laje projectaram um dúplex de 6x6x5 metros, dos quais só entregaram metade
construído, o que significa uma torre de 3x6x5 metros com um espaço vazio em altura
e com o mesmo programa do piso 0. A distribuição proposta anula zonas de circulação
existindo um espaço de átrio que une todos estes espaços e que pode ser apropriado
de acordo com o usuário. O espaço não construído possibilita a futura ampliação,
marca um ritmo na frente urbana, assim como, promove isolamento acústico e um
contra fogo adequado entre propriedade.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
151
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 124 - Planta piso 1 das habitações. Elemental.
(Aravena; Lacobelli, 2012, p. 113)
Ilustração 125 - Planta piso 2 das habitações. Elemental. (Aravena;
Lacobelli, 2012, p. 113)
Cada proprietário, no âmbito da ampliação da sua casa, é responsável pela
personalização da solução final. Enquanto a primeira etapa é estratégica na definição
dos espaços construídos, concentrando-se nas partes mais sensíveis e inevitáveis do
habitar, [Ilustração 126] a segunda etapa confirma as vantagens da autoconstrução
através da satisfação dos seus proprietários que são quem melhor sabe as
necessidades a cada momento das respectivas vidas [Ilustração 128].
Ilustração 126 – Espaços projectados pela equipa
Elemental. (Elemental, 2014)
Ilustração 127 - Espaços projectados pela equipa Elemental.
(Elemental, 2014)
Ilustração 128 - Espaços construídos pelos usuários. (Elemental, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
152
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O desejo da equipa Elemental é contribuir, com ferramentas arquitectónicas, para a
resolução das questões quotidianas de habitar dos moradores e as necessidades
básicas de um conjunto de edifícios. Este projecto é uma demonstração da
capacidade dos arquitectos de se envolverem em desafios reais num quadro de
restrições muito sérias, procurando minimizar e ultrapassar as duras realidades e
constrangimentos associados aos fenómenos de pobreza.
Ilustração 129 - Alçado Norte. (Aravena; Lacobelli, 2012, p.
115)
Ilustração 130 - Corte BB´. (Aravena; Lacobelli, 2012, p.
115)
A equipa junta o êxito urbano com o tema da produtividade, pondo em acção a
eficiência, tentando olhar para a cidade com as suas necessidades de outra maneira.
De olhos postos na realidade existente na América do Sul, o arquitecto conta que
"Este es el momento en que tengamos confianza en lo que hacemos y
razonablemente escéptica con nuestros planteamientos. Tenemos una idea razonable
de lo que estamos haciendo y es lo que nos da el crédito en nuestras proporciones”190
(Garcia-Abril, 2010, p. 30), mantem “os pés no solo”191 Quando trabalha com a equipa
Elemental.
Ilustração 131 - Exemplos de resposta dos utilitários através de processos de autoconstrução
às possíveis ampliações. (Aravena; Lacobelli, 2012, p. 146 - 156)
190
Este é o momento em que temos confiança no que podemos fazer e somos razoavelmente cépticos
com as nossas aproximações. Temos uma ideia razoável do que estamos a fazer e é o que nos dá crédito
nas nossas proporções. (Tradução Nossa, 2014)
191
Titulo atribuído á entrevista feita pela revista Arquitectura Viva nº 133 ao Arquitecto Alejandro Aravena.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
153
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Em entrevista concedida à revista Arquitectura Viva192 o arquitecto descreve os
projectos da equipa Elemental após o enorme sucesso que a Quinta de Monroy,
sabendo que estes actuam de consciência com a realidade social que os envolve, e
que estes projectos apresentam uma especulação formal e para os quais o factor
humano é a presença constante. Estes projectos dão uma resposta responsável à
questão de partida.
Las cosas no sólo son lo que parecen, para explorar el potencial son, da niveles de la
realidad para resistir la aplicación de los diferentes niveles de complejidad, como las
cuestiones de la política, la economía y las finanzas que se incluyen también la
193
complejidad social y temporal.
(Garcia-Abril, 2010, p. 30)
Estes projectos ao lidarem com um conjunto de premissas e constrangimentos são a
resposta para o construir no mundo real, soluções arquitectónicas, que integram o
homem real [Ilustração 131 e 132].
Ilustração 132 - Evolução do projecto da Elemental, Quinta Monroy. (Elemental, 2010, p. 31)
192
Arquitectura Viva nº133, de 2010.
As coisas não são só o que parecem, explorar o potencial, dá níveis de realidade para resistir a
implementação dos diferentes níveis de complexidade, como questões de política, de economia e de
financiamento onde a complexidade social e temporal também são incluídas. (Tradução Nossa, 2014)
193
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
154
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
4.2. METI- HANDMADE ESCOLA EM RUDRAPUR, BANGLADESH - 2005
METI – DIPSHIKHA – SHANTI – ANNA HERINGER
O primeiro estabelecimento de METI194 surge em 1999 como uma resposta alternativa
para a resolução os problemas subjacentes ao sistema escolar Bengali195. Os
problemas sugiam no facto das escolas públicas possuírem salas de aula superlotadas
e escassez de dinheiro para aquisição de materiais. Devido a situações como estas e
sem possibilidade financeira, METI
196
propõem-se, desenvolver as habilidades e os
interesses dos seus participantes, tendo como ideia motora proporcionar à população
rural uma orientação rumo à educação.
A iniciativa METI, para Rudrapur [Ilustração 133] nasce da parceria entre dois grupos,
a ONG Dipshikha e a Fundação Shanti. A organização não-governamental Dipshikha,
criada em 1983, tem como objectivo promover o desenvolvimento das regiões pobres
do Bangladesh, procurando de soluções para erradicar a pobreza. A sua acção
circunscreve-se ao reconhecimento de aldeias que revelem potencialidades para uma
consciencialização dos seus habitantes relativamente à importância da habitação.
Outra das suas vertentes é a aposta em fornecer a estas regiões um conjunto de
condições básicas essenciais que evitem, ou minimizem, o êxodo para as cidades.
Ilustração 133 – “Rudrapur na parte Norte de Bangladesh, aldeia com 1500 habitantes numa área de 1.485km2.” (Heringer, 2014).
194
METI significa “Educação Moderna e Instituto de Formação
Bengali é uma região onde as taxas de matrícula escolar são muito baixas, a falta de escolas e de
condições, assim como, a fuga escolar tem sido um problema há anos.
196
Educação Moderna e Instituto de Formação, incentiva os seus participantes ao desenvolvimento da
personalidade, de forma motivada e criativa investindo nas habilidades de cada um, melhorando e
desenvolvendo não só o individuo como o ambiente rural. Tendo em conta as diferentes velocidades de
aprendizagem, o método aplicado é de forma livre e aberto, proporcionando uma aprendizagem
individual, a leitura, a escrita e a matemática, bem como as línguas, são exemplos da aplicação desse
método. Meditação e dança também fazem parte da aprendizagem na Escola METI assim como existe
um grupo autocrítico e estudos do comportamento social.
195
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
155
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A Associação Shanti197 é fundada na Suíça, em 2005. É uma organização que garante
o financiamento, o planeamento e a implementação de trabalho no campo educativo.
A sua influência estende-se também pela Alemanha e Áustria, tendo hoje mais de 180
membros. (Kleipaß, 2014)
O contacto estreito entre estes parceiros no Bangladesh, possibilita a concretização
dos objectivos propostos por ambos. A actividade desenvolvida visa não apenas a
criação de postos de trabalho em determinada localidade, bem como noutras
localizadas na proximidade. (Kleipaß, 2014)
A actividade desenvolvida de forma voluntária por pessoas comuns, pretende apoiar
todas as pessoas carenciadas, e tem como objectivo supremo a generosidade e
promoção do bem-estar. (Kleipaß, 2014)
O lema deste conjunto de voluntários é: “ Wir sind eine Gruppe von Menschen, die sich
für bessere Lebensbedingungen der armen Bevölkerung in Bangladesch einsetzen und
198
so etwas gegen die ungerechten Verhältnisse auf der Welt unternehmen wollen”
(Kleipaß, 2014)
Destas parcerias, surge um grupo de quatro estudantes de arquitectura Austríacos:
Tobias Hagleitner, Anna Heringer, Petra Rager e Gunar Wilhelm da universidade de
Linz. Estes estudantes deslocam-se até a aldeia de Rudrapur, no Bangladesh, com o
objectivo de compreender de que modo é que esta comunidade estabelece relações
entre a arquitectura e a vida.
A sua estadia no meio desta comunidade prolongou-se por três meses199. No decorrer
desse tempo foram surgindo uma série de questões relacionadas com o
funcionamento
da
aldeia,
o
entendimento
dos
pressupostos
relativos
ao
relacionamento da arquitectura com a economia local e com a sociedade. Estas foram
o mote para o início de uma procura de respostas que enquadrassem desafios futuros
que pudessem surgir em Rudrapur. Estes poderiam estar relacionados com
exploração das potencialidades em termos da expansão do terreno, ou culturais como
seja resolução de diversas carências sentidas pelos seus habitantes.
197
O trabalho de Shanti, está a implementação de programas de desenvolvimento integrado para a
aldeia educação, saúde, reforço da posição das mulheres na sociedade, nutrição, agricultura e comércio
habilidades. Shanti também fornece apoio em situações de emergência e de programas de intercâmbio e
de voluntariado.
198
Somos um grupo de pessoas que estão empenhados em melhorar as condições de vida dos pobres
”.
em Bangladesh e querem fazer algo contra as condições injustas do mundo
199
O Trabalho destes estudantes teve um tempo total de 9 meses. O trabalho de pesquisa decorreu
durante o semestre de 2002 na Universidade de Arte e Design Industrial de Linz, na Áustria e o trabalho
de campo em Bangladesh: Julho-Setembro 2001. Estes no trabalho em campo tiveram um grande apoio
de PRODIP, o presidente F. Tigga da Dipshikha. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
156
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O trabalho de campo desenvolvido consciencializou este grupo para o facto de o
Bangladesh ser um território sujeito a constantes inundações e possuir um solo
fértil200. Localizado geograficamente no Golfo de Bengala é um país com a maior
densidade populacional do mundo, tendo como média cerca de 1000 habitantes por
quilómetro quadrado. Actualmente cerca de 80% da sua população vive ainda em
áreas consideradas rurais [Ilustração 134].
Este grupo de jovens arquitectos concluiu que na grande maioria das áreas rurais a
construção das habitações é ainda fruto de uma forte componente suportada na
arquitectura vernacular, nos processos construtivos incorporam-se ainda a terra e o
bambu como materiais de construção, a repetição dos sistemas de construção
ancestrais são propício à consumação e perpetuação de determinados erros
construtivos. Apesar de todas estas insuficiências estas tipologias revelam
fundamentos organizados baseados nos modos de habitar destas populações201.
Ilustração 134 - Desenho planta da aldeia. Desenho Anna Heringer & Eike Roswag, 2005. (Colective Cargo, 2014)
200
Padrão de assentamento das áreas rurais de Bangladesh: durante a estação chuvosa,
aproximadamente, 70% do país é inundado. Em geral, as áreas de infraestrutura são construídas sobre
terrenos elevados.
201
É costume, na arquitectura vernacular tradicional Bangladesh, a cozinha, a loja e casa de banho
estarem situadas em estruturas separadas dispostas em torno de um pátio central.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
157
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
As habitações não são os únicos objectos que revelam algum tipo de carências. O
grupo apercebe-se que as funções públicas da aldeia são desenvolvidas sem que
existam locais predefinidos: “[…] Streets for example, are not only for transportation,
they are also squares, playgrounds, drying area of rice or jute”202 (Heringer, 2014). As
habitações são resultado de sistemas de agrupamento espontâneos, não existindo
qualquer tipo de factos urbanos que disciplinem esta disposição casuística.
Nesta aldeia verifica-se um fenómeno típico de perda de identidade. O crescimento
populacional e a falta de uma organização funcional e estrutural, dilui o seu carácter
agrícola dando lugar a uma zona predominantemente residencial. Esta transformação
gradual acarreta como consequência imediata, a diminuição dos índices de produção
agrícola criando por esta via um défice na produção de alimentos, essenciais para a
subsistência deste tipo de populações.
As conclusões do estudo encetado por estes estudantes de arquitectura, apontava
para a necessidade de aumentar as condições de vida nas zonas rurais e voltar a
promover o equilíbrio ecológico. Para que tal seja possível consideram fundamental
agir de acordo com dois tipos de acções:
Uma das acções a implementar passava pelo incentivo ao uso dos materiais
naturais na construção. Esta na opinião destes investigadores, revela: “more
than a rational decision, its application is a matter of prestige, identity and
culture,”203 (Heringer, 2014) bem como o facto, destes serem fundamentais
para as populações, tendo um papel determinante na sustentabilidade de toda
a aldeia.204
A outra acção é o desenvolvimento de apoios vitais dados pelo poder político,
pelas organizações governamentais e não-governamentais. Esta colaboração
tripartida aumenta a capacidade para a construção de edifícios públicos
necessários ao desenvolvimento destas regiões. A relevância destes
equipamentos públicos no desenvolvimento das regiões e das suas
populações, assenta na proposição de estruturas formais e espaciais
202
Ruas por exemplo são não só para o transporte, são também praças, pátios/recreios, área de
secagem de arroz ou de juta. (Tradução Nossa, 2014)
203
Mais do que uma decisão racional, a sua aplicação é uma questão de prestígio, identificação e cultura.
(Tradução Nossa, 2014)
204
Esta reflexão surge no visível e preocupante interesse dos moradores de construir casas de tijolos,
betão ou mesmo chapas de ferro ondulado, uma tendência que poderia ter um sério impacto sobre o meio
ambiente não só porque a fabricação desses materiais requer muita energia e produz emissões nocivas e
subverte a identidade cultural destas comunidades.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
158
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
perfeitamente
adaptadas
às
realidades,
sociais,
culturais
e
mesmo
construtivas.
Ilustração 135 - “Ajuda para a Auto-Ajuda”. Photo Kurt Hoerbst. (Heringer, 2010, p. 66)
La felicidad se entiende realmente el lugar, el estudio de las personas, conocer el
terreno y las aspiraciones y luego con ellos y su creatividad, a encontrar una solución
205
única para cada lugar.
(Buchanan, 2012, p. 34).
ESCOLA EM RUDRAPUR, BANGLADESH – 2005
Ilustração 136 - Desenho da fachada principal. Desenho Anna Heringer & Eike Roswag, (Heringer, 2014)
A consequência do estudo efectuado para a Vila de Rudrapur, distrito de Dinajpur, no
Bangladesh, pelos referidos estudantes de arquitectura, conduziu ao convite dirigido à
arquitecta Anna Heringer206 e Eike Roswag207, em 2005, para elaborar o projecto de
205
A felicidade está em compreender realmente o lugar, estudar as pessoas, conhecer os solos e as suas
aspirações e então junto deles e da sua criatividade, encontrar uma solução única para cada lugar.
(Tradução Nossa, 2014)
206
Anna Heringer de origem Alemã em Laufen, nascida em 1977, arquitecta formada na Estudou
arquitectura na Universidade de Artes e Desenho Industrial em Linz, na Áustria, ganhou os prémios de
Aga Khan Award de Architecture (2007) para a Escola METI. O premio de Bronze para África e Oriente
Médio, Regional Holcim Awards competição de 2011, para o Centro de Treinamento em Marrakesh. E o
Prémio Global para Arquitectura Sustentável (2011).
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
159
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
uma escola [Ilustração 136]. Este projecto tinha como clientes, a METI do
Bangladesh, em cooperação com Dipshikha e Shanti. Esta escola para além dos
espaços de ensino definidos programaticamente tinha como referência incutir nas
crianças, a autoconfiança, a independência e deste modo reforçar o seu sentido de
identidade208.
A estratégia definida com este projecto, não assentava apenas na promoção do
desenvolvimento dos conhecimentos, era também um incentivo à população para
trabalhar no que de melhor sabe fazer, e deste modo usufruir da melhor forma
possível, dos recursos que a região fornece. As próprias técnicas construtivas e os
materiais são desenvolvidos e melhorados, tendo como matriz a arquitectura popular
produzida nestas paragens, com o intuito de promover o desenvolvimento das
aptidões dos indivíduos autóctones e simultaneamente renovar os processos de
construção e a imagem dos objectos arquitectónicos.
O projecto da escola possui uma área bruta de construção 325m2 e uma área de
implantação 275m2. A escola é constituída por um edifício com dois pisos [Ilustração
137]. A sua execução é totalmente realizada com recurso a materiais locais como
palha, argila e bambu, sem a necessidade de recorrer a quaisquer outro tipo de
materiais externos área de intervenção.
Ilustração 137 - Fachada Ocidental, exibe os materiais utilizados. Photo Kurt Hoerbst. (Heringer, 2010, p. 67)
Em termos funcionais a escola desenvolve um piso térreo constituído por três salas
cujos limites são constituídos por paredes de grande espessura, que fazem da planta
207
Eike Roswag de origem alemã em Giessen, nascido em 1969, arquitecto formado na Universidade
Técnica de Berlim, na Alemanha, ganhou os prémios Aga Khan Award de Architecture (2007) para a
escola METI; o Prémio Hans Schaefers em 2007, BDA Berlin (Bund Deutscher Architekten).
208
Estes são alguns dos conceitos e objectivos pelo qual a ONG, Dipshikha actua.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
160
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
inferior um espaço encerrado. Todas as salas possuem as mesmas dimensões, tendo
cada uma acesso individual a um espaço orgânico que remete à memória de um
espaço tipo “caverna” de uma suavidade que leva as crianças á experiência de
diferentes estados pessoais, de reconhecimento, concentração e exploração do
espaço e de si mesmos. Este espaço específico, encontra-se posicionado na parte de
trás de cada uma das salas de aula [Ilustração 138].
Ilustração 138 – Desenho do corte e planta do piso inferior. Desenho Anna Heringer. & Eike Roswag. (Heringer, 2014)
Em termos construtivos a laje do piso térreo é executada com um sistema triplo209 de
camadas de canas bambu. A camada central é disposta perpendicularmente às
referidas camadas superiores e inferiores, permitindo melhorar a estabilidade do
conjunto e materializar um apoio para estabelecer ligação entre as vigas.
As paredes são formadas por uma mistura de terra e palha210. Estes parâmetros em
terra são executados sobre uma parede em alvenaria de tijolo211 com 50 centímetros.
Esta parede de tijolo assenta sobre a fundação em cimento com meio metro de
profundidade [Ilustração 139]. A 65 centímetros de profundidade são distribuídas as
redes de infra-estruturas, tapadas por um enchimento executado numa camada de
cimento. Uma novidade deste projecto é a colocação de uma barreira de vapor, em
dupla camada de polietileno, para a impermeabilização do piso térreo deste edifício.
As paredes exteriores são revestidas com um barramento composto por um reboco de
cimento.
209
Esta técnica é frequentemente utilizada nas lajes de construções europeias quando o material utilizado
.
é a madeira
210
A mistura da palha com a água, foi fabricada com a ajuda de vacas e búfalos.
211
Os tijolos são o produto mais utilizado nos edifícios Bangladesh, como novo material para as técnicas
construtivas. Bangladesh quase não tem reservas naturais de pedra e como alternativa é aproveitada
areia argilosa compactada, é cozida em fornos circulares e transformadas em tijolos.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
161
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 139 – Corte explicativo das fundações, das paredes e das lajes. Desenho Anna Heringer. & Eike Roswag. (Colective Cargo,
2014)
No piso superior são distribuídas mais duas salas de aula. Um destes espaços de
ensino pode ser utilizado como espaço multiuso, isto é, apresenta a possibilidade de
ser divisível [Ilustração 140]. O potencial especial deste piso reside no contraste que
revela relativamente ao piso inferior. O piso térreo é encerrado enquanto o primeiro
piso possui paredes executadas em bambu, as quais oferecem uma entrada matizada
da luz e abre vistas para a vegetação e para a aldeia circundantes. As paredes deste
piso são executadas com uma estrutura de vigas de bambu dispostas em quatro
camadas.
Ilustração 140 – Planta do piso superior. Desenho Anna Heringer. & Eike Roswag. (Colective Cargo, 2014)
Os elementos verticais e diagonais dispostos ao longo da fachada proporcionam aos
espaços interiores diversidade alumínica. Luz e sombra, proporcionadas pela parede
em bambu, são elementos que contrastam, e se sintonizam com os materiais de terra.
Esta dualidade da expressão e textura dos materiais cria um sistema de relação único,
matizado com os coloridos saris colocados nos vãos das portas, também estas
coloridas mas de metal, oferecendo ao espaço cor, funcionando com fundamental para
espaços de ensino de crianças [Ilustração 141].
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
162
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 141 - Interior da sala do piso inferior. Photo Kurt Hoerbst, 2005. (Colective Cargo, 2014)
A cobertura é composta por um conjunto vigas de bambu, destacadas do plano do
tecto das salas fornecendo um sistema que possibilita a ventilação natural e o
acondicionamento térmico. O espaçamento previsto entre dois níveis de cobertura
permite a passagem do ar e o arrefecimento da temperatura, funcionando
simultaneamente como suporte para a execução da cobertura em ferro corrugado.
Estas vigas são cobertas com painéis de madeira dispostos na diagonal. Estes painéis
são projectados de modo proteger os edifícios das chuvas e proporcionar o
escoamento das águas pluviais.
Ilustração 142 – Fachada este da escolar METI. Desenho Anna Heringer & Eike Roswag. (Colective Cargo, 2014)
Uma leitura ao conjunto edificado permite-nos compreender que este é composto por
duas figuras simples, ortogonais, [Ilustração 142] organizado em 2 pisos interligados
por um acesso vertical não fechado. Este acesso aparenta ser menor que as salas
laterais e o facto de ser um espaço de circulação exterior, gera um momento
independente no edifício. Os acabamentos dos paramentos interiores, rebocados, são
acabados com uma pasta argilosa. Esta pasta é posteriormente pintada com uma tinta
à base de cal. No que se refere às zonas das cavernas a superfície das paredes é
revestida com uma pasta constituída por terra e palha, aplicada sobre uma estrutura
de suporte das canas de bambu e coberta com um tratamento à base de terra
vermelha [Ilustração 143].
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
163
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 143 -“Cavernas”. Photo Kurt Hoerbst. (Heringer, 2010, p. 67)
A composição dos alçados [Ilustração 144] denota uma distinção entre fachadas. A
fachada ocidental está posicionada frontalmente para a aldeia, e integra a entrada da
escola. Os vãos de sacada são rasgados com duas dimensões ligeiramente diferentes
e colocadas cinco em cada sala. Estes vãos apresentam como elementos de
encerramento portas de ferro coloridas.
Ilustração 144 - Desenho das Fachadas. Desenho Anna Heringer & Eike Roswag, (Colective Cargo, 2014)
A fachada oriental orientada para os campos e para a zona de árvores é criada para o
pátio/recreio dos alunos. Possui um carácter mais encerrado e a sua cor está mais
enquadrada com a cor da paisagem. No piso inferior os vãos são rasgados ao longo
de toda a fachada, com dimensões distintas e emoldurados por uma faixa branca. No
piso superior, na zona dos acessos verticais existe uma varanda em bambu que
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
164
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
possibilita a visibilidade sobre o espaço exterior. Os vão das salas deste piso possuem
persianas móveis em bambu, permitindo a abertura ou encerramento quando
necessário.
A construção deste projecto foi construído pelos habitantes locais, com recurso à sua
mão-de-obra e comparticipado pelas entidades que apoiaram financeiramente. A fase
de escavação e construção da estrutura de bambu foram realizadas por trabalhadores
locais, já no que se refere às técnicas e sistemas construtivos foram realizados por
arquitectos e artesãos Alemães e Austríacos.
Estes métodos construtivos foram posteriormente transmitidos aos trabalhadores
locais. Os métodos construtivos utilizados consistiram na adaptação dos ensinamentos
provenientes da arquitectura vernacular. Esta escola cruza tecnologias construtivas
tradicionais com a aplicação de elementos mais complexos, os quais consistiram na
aplicação de treliças em bambu pré-fabricadas, embora sem recurso a meios
mecânicos [Ilustração 145].
Ilustração 145 – Treliças pré-fabricadas. (Heringer, 2014)
Ilustração 146 – Ajuda dos alunos da construção.
(Heringer, 2014)
Os próprios alunos ajudaram a construir a sua escola [Ilustração 146]. Esta
participação durante a construção da escola, fazia parte do programa implementado
para estes estudantes locais212.
Lugares, los materiales y los recursos energéticos son el futuro, pero aplicados
213
utilizando el conocimiento global.
(Buchanan, 2012, p. 34)
O período de construção durou cerca de 6 meses de Setembro a Dezembro de 2005,
com uma interrupção devido as chuvas, tendo sido e depois retornado entre Março a
Abril 2006.
212
Os alunos METI ajudavam a construir a sua própria escola, preparando uma verga da porta ou a
secagem da areia e no final, cada aluno escrevia o nome nas portas da frente da escola.
213
Recursos locais, materiais e energia são o futuro, mas aplicados usando o conhecimento global.
(Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
165
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A Escola METI em Rudarpur tem capacidade para 296 alunos de diferentes ciclos
escolares, da pré-primária até o fim do 10 ano de escolaridade [Ilustração 147 e 148].
Além das disciplinas curriculares são também elaborados trabalhos criativos, com
música e dança, actividades integrantes da calendarização escolar. A escola possui
também um jardim no qual as crianças podem cultivar e alimentar-se das frutas e
legumes produzidos [Ilustração 149].
Ilustração 147 - Sala de aula do piso superior. Photo Kurt
Hoerbst. (Heringer, 2010, p. 66)
Ilustração 148 – Sala de aula do piso inferior. Photo Kurt
Hoerbst. (Heringer, 2014)
Este projecto tornou-se um caso modelo para outras localidades e fomentou o
estabelecimento de uma estreita cooperação com o governo local. A METI pretende
melhorar a qualidade do sistema público de ensino, ao mesmo tempo que procura
fornecer aos pais a consciência da importância da educação dos seus filhos. Neste
âmbito são fornecidas bolsas às crianças de famílias extremamente pobres, para
realizar sua formação até a conclusão do 10º ano.
Ilustração 149 – Zona de plantação da escolar METI. (Heringer, 2014)
O projecto foi um sucesso para esta comunidade pelo que, em 2007, é atribuído o
premio Aga Khan. Na opinião do júri o mérito desta escola, para além da sua própria
dimensão arquitectónica:
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
166
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
[...] Surge a partir de um conhecimento profundo do contexto local e as formas de
construção - oferece claramente um novo e modelo de esperança para a construção
sustentável a nível global. O resultado final desse esforço voluntário heróico é um
edifício que cria espaços colectivos bonitos, significativas e humanas para a
aprendizagem, assim enriquecendo a vida das crianças que atende. (Aga Khan
Development Network, 2014)
Segundo a arquitecta autora deste projecto, reflecte que a proposta é o resultado de
um esforço de uma equipa heterogénea:
Learning with joy is the philosophy of the school - the best for me is to see the building
full of energetic children who are very happy to go to school. It is mainly the architecture
that makes something special - it's the people, everyone who worked on it with all the
214
efforts and capabilities and all who live in it and fill the space with an atmosphere.
(Heringer, 2014)
O resultado final é a satisfação dos seus usuários, visível nas imagens apresentadas
em anexo D.
Ilustração 150 – Fachada Principal. Photo Kurt Hoerbst. (Buchanan, 2012, p. 37)
214
Aprendendo com alegria é a filosofia da escola - o melhor para mim é ver o prédio lotado de crianças
enérgico, que são muito feliz de ir para a escola. Não é principalmente a arquitectura que faz algo
especial - é o povo: todo mundo que trabalhou nele com todos os esforços e potencialidades e todos os
que vivem nela e preencher o espaço com uma atmosfera) (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
167
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
4.3. SOE KER TIE HOUSE EM NOH BO TAK, TAILÂNDIA - 2008
POVOS KAREN - BLESSED HOMES - TYIN TEGNESTUE
Este caso de estudo para além de criar laços, que unem os arquitectos ao projecto, a
autoconstrução ao homem ou os materiais ao local, consegue conciliar duas
associações num mesmo objectivo, o de criar habitações para aqueles que mais
precisam, as crianças órfãs Karen.
O projecto das casas Soe Ker Tie surge da necessidade que a associação Blessed
Homes sentiu em abrigar os órfãos do povo Karen215 que, devido aos conflitos na
fronteira da Birmânia216, se refugiam na Tailândia. Nesta zona existem inúmeros
campos de refugiados, que reúnem populações numerosas em pequenos espaços.
Estes servem para proteger e abrigar todos aqueles que foram obrigados a sair do seu
país.
A Blessed Homes é uma associação sem fins lucrativos de carácter católico, criada
pelo Norueguês Ole Jorgen Edna, em 2007. Tem como objectivo abrigar crianças e
jovens, vitimas dos conflitos na Birmânia. A ideia surgiu quando em 2006 Ole Jorgen
Edna deslocou-se à Tailândia para exercer o cargo de professor, onde é convidado,
juntamente como a sua família local, a adoptar três crianças órfãs que tinham fugido
dos conflitos. Nesse mesmo ano o norueguês cria o primeiro orfanato, chamado de
"Ba Vi Gre Hi Doe" mais conhecido por Blessed Home. Hoje em dia o projecto já se
desenvolveu de tal maneira que foram já criados 3 orfanatos, com 103 crianças e 20
funcionários que contribuem para o progresso desta iniciativa solidária. (Edna, 2014)
Ilustração 151 - “The TYIN-crew together with all the workers involved in the building of the Soe Ker Tie Houses”. (TYINArchitects,
2014)
215
O povo Karen, situa-se no sul e no sudeste do Burma (Myanmar). Compõem cerca de 7 por cento da
população birmanesa total, com aproximadamente 5 milhões de pessoas. Maior parte deste povo está
migrado na Tailândia instalaram-se na fronteira entre Tailândia e Karen.
216
O conflito é principalmente liderado pela União Nacional Karen (KNU), e travaram uma guerra pela
independência contra o governo birmanês Central desde o início de 1949. Mas desde 1976, o grupo KNU
exige um sistema federal, em vez de um estado independente.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
168
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Our first orphanage opened in 2007, giving a safe home to over 20 children. In the
years since then, work has grown to accommodate more than 100 wonderful children
supported by over 20 dedicated employees. At the homes, we want each child to grow
217
up in a safe and loving environment with the opportunity for education and play.
(Edna, 2014)
Os três orfanatos estão localizados em pequenas aldeias Karen na Tailândia ao longo
da fronteira com a Birmânia (Myanmar) [Ilustração 152]. Todos possuem escolas nas
imediações, permitindo às crianças o acesso à educação junto de um lar seguro. Para
além da escolaridade dita normal estes têm ainda actividades relacionadas com a
informática, às artes e a música.
“Working with children is not only enjoyable, it is an extremely efficient and foolproof
way to tap into potentials in the community that normally are hidden to practitioners like
218
ourselves.” (Architecture for Humanity, 2012, p. 82)
Ilustração 152 - Orfanato da Aldeia de Noh Bo. Photo Pasi Aalto. (Edna, 2014)
Para poder gerir e desenvolver melhor esta ideia, Ole Edna contacta o ateliê TYIN.
Este, para além de ateliê de arquitectura, é também uma organização sem fins
lucrativos que fomenta a ajuda humanitária actuando com propostas arquitectónicas.
Este ateliê foi formado inicialmente com Andreas Grøntvedt Gjertsen e Yashar
Hanstad que fazem parte da coordenação. Estes dois noruegueses, fizeram o seu
percurso académico em arquitectura na NTNU (Norwegian University of Science and
Technology), tendo posteriormente associado a outros quatro estudantes de
arquitectura, Pasi Aalto, Magnus Henriksen, Line Ramstad e Erlend Bauck Sole. Este
grupo desenvolve projectos, financiados por cerca de 60 empresas norueguesas ou
até mesmo entidades particulares, cuja arquitectura é principalmente destinada para
217
O nosso primeiro orfanato foi inaugurado em 2007, oferecendo um lar seguro para mais de 20
crianças. Desde então, o trabalho tem crescido para acomodar mais de 100 crianças maravilhosas,
apoiados por mais de 20 funcionários dedicados. Nas casas, queremos que cada criança cresça num
ambiente seguro e amoroso com a oportunidade de educação e lazer. (Tradução Nossa, 2014)
218
Trabalhar com as crianças não é apenas agradável, é uma maneira extremamente eficiente e infalível
para aproveitar os potenciais da comunidade, que normalmente ficam ocultos para os profissionais como
nós. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
169
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
os mais necessitados. São arquitectos que, intencionalmente, se focaram num único
objectivo, dar respostas arquitectónicas consentâneas com as necessidades reais do
homem e das comunidades
TYIN tegnestue Architects encarna uma filosofia particular no mundo como pensa e
projecta uma arquitectura que de cariz humanitário e destinada-se a resolver as
necessidades de populações com as mais diversas carências. Com muito trabalho de
campo a equipa acaba por se adaptar às situações articulando no projecto o
conhecimento adquirido sobre o local de intervenção. A sua arquitectura configura
objectos únicos e que espelham uma resposta adaptada às condições vigentes. A sua
pesquisa e consequente conhecimento, permite-lhes projectar para diversos locais, em
todo o mundo, tendo sempre como condição primeira a realização de um trabalho de
campo, efectuado previamente. O reconhecimento do lugar e dos modos de vida da
população são ferramentas essenciais para consubstanciar uma resposta eficaz e
consentânea com as necessidades e aspirações destas populações.
A mais-valia desta equipa passa por trabalhar, numa perspectiva humanitária, para o
homem real. Esta acção directa com o futuro utilizador implementa, no terreno
consequências benéficas para as pessoas que são envolvidas nos seus projectos.
Procuram também utilizar materiais e mão-de-obra local na execução dos projectos,
através do incentivo à autoconstrução. A conjugação destes factores na equação tem
como resultado construir respostas arquitectónicas de futuro e antecipar as
consequências que estas possam acarretar nas comunidades.
Na procura de estabelecer um sentido profissional este ateliê acabou por vocacionar a
sua actividade projectual na pesquisa de soluções adaptadas às contingências dos
países mais pobres. Em 2008, TYIN foi até Noh Bo, uma pequena aldeia na fronteira
entre Birmânia e Tailândia, com a missão de construir um edifício de apoio que
aumentasse a capacidade de alojamento do orfanato.
O conceito do ateliê não se cinge à resposta às necessidades, apostando na
criatividade dos objectos propostos aliando-a com os processos construtivos. Os
projectos são geralmente de fácil construção de modo a garantir o processo de
autoconstrução. Os TYIN tegnestue têm a particularidade de ser um ateliê participativo
e participado apelando para que todos aprendam com os seus projectos. Partilham
toda a documentação projectual, nomeadamente os detalhes de obra assim como os
processos construtivos possibilitando a outros a sua execução. TYIN tegnestue
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
170
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
partilha também um livro de ilustrações de nome “TYIN Architect’s Toolbox”219 onde
explica as suas motivações e práticas projectuais, que segundo a equipa : [Ver Anexo
E]
The TYIN Architect’s Toolbox ™ contains the tools needed to create useful, beautiful
and necessary structures in any circumstance.
TYIN Architect’s Toolbox™ is mobile, sturdy, practical and simple to use.
Your architecture and everyone involved will benefit from the use of TYIN Architect’s
Toolbox™. TYIN Architect’s Toolbox™ contains practical tips on how to proceed with
220
project with tight schedules, small budgets and limited resources.
(TYINArchitects,
2014)
As suas obras reflectem a matriz de uma arquitectura pragmática depurada nos
detalhes, e conseguida através de processos fluidos e abertos. Estas linhas de
orientação projectual constituem marcas identitárias deste grupo e têm proporcionado
que as obras já realizadas tenham sido objecto de diversas distinções internacionais: o
prémio Internacional Sustainability Award, Sustainable Building Silver de 2010 em
Itália, o Internacional Architecture Awards Gold US em 2011, Prémio Europeu de
Arquitectura 2012, entre outros.
Numa abordagem sobre o seu próprio método e acção projectual a equipa salienta:
Solutions to real and fundamental challenges call for an architecture where everything
serves a purpose – an architecture that follows necessity. By involving the local
populace actively in both the design and building of their projects, TYIN are able to
establish a framework for mutual exchange of knowledge and skills. All materials used
221
in TYIN´s projects are collected close to the sites or purchased from local merchants.
(TYINArchitects, 2014)
219
Exposto na integra em Anexo E .
O arquitecto TYIN Toolbox ™ contém as ferramentas necessárias para criar útil, bonito e estruturas
necessários em qualquer circunstância. De TYIN Arquitecto Toolbox ™ é móvel, resistente, prático e
simples de usar. Sua arquitectura Envolva e vai beneficiar a todos, desde o uso de TYIN Arquitecto
Toolbox ™. De TYIN Arquitecto Toolbox ™ contém dicas práticas sobre como proceder com o projetco
com horários apertados, recursos limitados e orçamentos pequenos. (Tradução Nossa, 2014)
221
Soluções para os desafios reais e fundamentais exigem uma arquitectura onde tudo serve a um
propósito - uma arquitectura que segue a necessidade. Ao envolver a população local activamente tanto
na concepção como na construção dos projectos, TYIN são capazes de estabelecer um quadro para a
troca mútua de conhecimentos e habilidades. Todos os materiais utilizados nos projectos TYIN's são
recolhidas perto dos locais ou comprados a comerciantes locais. (Tradução Nossa, 2014)
220
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
171
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
SOE KER TIE HOUSE EM NOH BO TAK, TAILÂNDIA - 2008
Ilustração 153 – A aldeia Noh Bo com o projecto das Soe Ker Tie Houses. Photo Pasi Aalto 2009 (TYINArchitects, 2014)
Soe Ker Tie House são seis pequenas habitações situadas na aldeia Noh Bo, Tak, na
Tailândia. Estão implantadas nas imediações de um pequeno orfanato existente com
capacidade para 24 crianças. Face à necessidade de acolher mais 30 crianças, Ole
Jorgen Edna contactou o ateliê para que estes pudessem auxiliar no aumento de
espaço, para um maior número de crianças. A obra demorou cerca de 4 meses a ser
elaborada (entre projecto e respectiva execução), tendo começado em Novembro
2008 e terminado em Fevereiro de 2009. Esta obra teve um custo de 68 000 NOK que
equivalem a 9.000 Euros. Construída e projectada pela equipa de arquitectos TYIN
Tegnestue, estes tiveram o apoio de trabalhadores locais que se prontificaram a
construir a proposta.
Cada Soe Ker Tie House tem cerca de 12,8 m2 de área bruta e uma capacidade para
seis crianças com idades compreendidas entre 2 e os 16 anos. São seis unidades
dormitório cujo objectivo, para além de abrigar as crianças, proporciona um espaço
que fosse identitário e vivido como lar. Um espaço privado mas ao mesmo tempo
interactivo e animado, acima de tudo um lugar confortável onde se sentissem seguros.
Segundo Gjertsen, um dos arquitectos do projecto: “Building a place helped them build
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
172
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
an identity and connect them to that place,”222 (Architecture for Humanity, 2012, p. 82).
Soe Ker Tie House foi designado pelos trabalhadores como "A Casa da borboleta" em
virtude da respectiva formalização.
Cada habitação assenta sobre fundações e bases sobrelevadas em betão fundidas
com pneus velhos. Esta solução possibilita que as habitações sejam elevadas
relativamente ao solo evitando assim os efeitos da humidade ascendente e o
consequente apodrecimento dos materiais que delimitam os parâmetros verticais. Esta
opção protege também as habitações em termos da pluviosidade como das
enchentes.
Este conjunto de habitações, foram projectadas tendo como linhas orientadoras o
conhecimento abrangente do clima da região assim como dos materiais locais
[Ilustração 154], a madeira e o bambu que é colhido a poucos quilómetros do local.
Uma das singularidades deste projecto é a execução dos parâmetros exteriores com
recurso a técnicas de tecelagem de bambu, [Ilustração 155] unida com parafusos em
aço forjado. Todo o projecto é construído no próprio local o que permite suster e
fortalecer toda a construção e tendo como propósito facilitar a sua elaboração. Esta
técnica é também utilizada na execução das paredes que definem os compartimentos
interiores das habitações.
Ilustração 154 - Fachadas laterais que mostram a tecelagem do bambu. Photo Pasi
Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014)
Ilustração 155 - Tecelagem de bambu.
Photo Pasi Aalto, 2009. (TYINArchitects,
2014)
222
Construir um lugar ajudou construir uma identidade e conectá-los para aquele lugar. (Tradução Nossa,
2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
173
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A cobertura executada com chapas de aço em rampa reforça o referido efeito
borboleta. [Ilustração 156] O desenho e respectivas inclinações destas chapas não só
promovem a ventilação natural no interior das habitações como o mesmo tempo
possibilitam a recolha das águas pluviais para serem utilizadas nos meses de seca,
que afecta esta região.
Ilustração 156 - Soe Ker Tie House. Photo Pasi Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014)
Estas seis unidades habitacionais sintetizam a conjunção de materiais locais, o bambu
e a madeira, e os artificiais, como o betão, o aço e os pneus usados. Esta
combinação, mais do que original, configura singularidade aos objectos e constitui
uma mais-valia na utilização de recursos económicos, reciclando materiais e
permitindo que o dinheiro fosse utilizado na compra dos materiais nas aldeias vizinhas
de Noh Bo, ajudando assim a economia local. O facto de as habitações utilizarem na
construção materiais locais e a sua execução no terreno ter sido efectuada pela
transmissão de conhecimentos construtivos aos trabalhadores Karen acabou por
facilitar todo o processo de implementação do projecto. Permitiu uma maior rapidez na
execução dos trabalhos, contribuindo para a solução duradoura, no conhecimento
adquirido para futuros projectos que possam vir a ser realizados por estes
trabalhadores no desenvolvimento daquela região.
A iluminação dos espaços interiores é maioritariamente natural, obtida pela filtragem
da tecelagem do bambu, ou através de vãos abertos com caixilhos em madeira. Outro
efeito original de luz é conseguido pelos círculos emoldurados, de canas ocas de
diversas dimensões. A articulação de vários tipos de entrada de iluminação natural
potencia jogos de luz, e consequentemente efeitos bastante atraentes e diferenciados
para os seus utilitários, as crianças Karen [Ilustração 157 e 158]. A confirmar estas
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
174
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
subtilezas na iluminação natural dos espaços interiores destacamos Carol Raynor,
uma terapeuta clínica de jovens de Marshall, Missouri, que sobre esta opção refere
que: “Play materials and space to play are extremely important in the relief phase,
when refugees are in shelters.”223 (Architecture for Humanity, 2012, p. 82)
Ilustração 157 - Vãos e paredes que permitem entrada de luz. Photo Pasi Aalto, 2009.
(TYINArchitects, 2014)
Ilustração 158 - Entradas de luz. Photo Pasi
Aalto, 2009. (TYINArchitects, 2014)
Todas as técnicas e materiais usados demonstram que o projecto foi pensado e
construído de modo a garantir a sua própria sustentabilidade económica e ambiental.
A facilidade da sua execução e a reduzida necessidade de recorrer a materiais mais
dispendiosos, ou mesmo de mão-de-obra especializada viabilizam a repetição destas
técnicas. Esta opção, deliberada, tornou viável a construção, reconhecendo ser
impossível aos trabalhadores Karen executar sem apoio, devido á falta de formação e
educação nesta área. Outra variável que o projecto incorpora prende-se com o facto
de nesta região não existir abundância de materiais artificiais, dinheiro e conhecimento
para, no tempo de vida destas habitações, poder garantir a manutenção sistemática e
assim evitar a sua degradação.
Ilustração 159 – Corte de uma Soe Ker Tie House. (TYINArchitects, 2014)
223
Jogar materiais e espaço para como um jogo são extremamente importantes para a fase de socorro,
quando os refugiados estão em abrigos. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
175
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 160 – Planta da aldeia Noh Bo, Soe Ker Tie Houses. (TYINArchitects, 2014)
As habitações têm como função serem apenas dormitórios e espaços privados para
que as crianças sintam que têm um espaço próprio no qual podem dormir e brincar e
considerar como seu [Ilustração 161]. O arquitecto Andreas Gjertsen transmite: “We
imagined that the children would enjoy and benefit from a range of different spaces”.224
(Architecture for Humanity, 2012, p. 82).
Ilustração 161 - Interior Soe Ker Tie Houses. Photo Pasi Aalto. (TYINArchitects, 2014)
Simultaneamente a equipa propôs a construção da Safe Haven Bathhouse, que serve
de apoio sanitário às Soe Ker Tie Houses. Numa lógica mais abrangente fazem parte
deste conjunto a biblioteca Save Haven para auxiliar e complementar na educação
destas crianças. Todo este trabalho tem por orientação, ética e profissional, a
proposição de arquitecturas que solucionem/minimizem as carências destas
populações mais necessitados.
224
Nós imaginamos que as crianças a desfrutar e beneficiar de uma série de diferentes espaços.
(Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
176
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
A acção e empenhamento projectual desta equipa foi reconhecida e galardoada tendo,
Christian K. Narkiewicz-Laine, Presidente do Museu de Chicago Athenaeum afirmado
sobre este tipo de arquitectura:
This young Norwegian firm […] clearly understands the basic needs of the people for
whom architecture must serve. “Serve” is the key word here. This is not a glamorous
architecture, but nonetheless, the most profound and noble in its attributes. Our
institutions are not so interested in the newest skyscrapers gracing the shores of Dubai
or the Champs-Élysées in Paris. The European Prize […] reaffirms our own institution’s
commitment to finding and supporting a more humanistic approach to the practice of
225
architectural design today.
(Rosenfield, 2014)
Este projecto representa uma nova esperança para estas crianças, as quais segundo
Carol: “Children are still reliving the terrors internally, and they need opportunities to
play out the trauma with toys and art materials.”226 (Architecture for Humanity, 2012, p.
82). Através da arquitectura construída em sintonia com a boa vontade de todos os
intervenientes é possível transformar o lugar e consequentemente a vida das pessoas
que habitam este conjunto.
Ilustração 162 - Imagens das Sou Ker Tie Houses. Photo Pasi Aalto. (TYINArchitects, 2014)
225
Esta empresa norueguesa jovem [...] entende claramente as necessidades básicas das pessoas para
quem a arquitectura deve servir. “Servir" é a palavra-chave aqui. Esta não é uma arquitectura fascinante,
mas, no entanto, o mais profundo e nobre em seus atributos. Nossas instituições não estão tão
interessados nos mais novos arranha-céus que enfeitam as margens do Dubai ou o Champs-Élysées, em
Paris. O Prémio Europeu [...] reafirma o compromisso da nossa própria instituição para encontrar e apoiar
uma abordagem mais humanista à prática do projecto arquitectónico hoje. (Tradução Nossa, 2014)
226
As crianças estão silenciosamente a reviver o terror internamente, eles precisam de oportunidades
para acabar com o trauma através dos brinquedos e de materiais de arte. (Tradução Nossa, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
177
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
4.4. CENTRO DE SAÚDE E PROMOÇÃO SOCIAL EM LAONGO, BURKINA
FASO - 2013
IDEIA - GRÜNHELME EV - KÉRÉ ARQUITECTOS
O presente projecto surge de uma ideia, aparentemente bizarra, lançada pelo cineasta
Christoph Schlingensief227 para tornar possível e viável a construção de uma Ópera
num dos países mais pobres do mundo. A sua concretização começa a ganhar
visibilidade quando Christoph Schlingensief consegue convencer o arquitecto Diébédo
Francis Kéré228. Este arquitecto desenvolve uma actividade projectual assente num
conjunto de sistemas, que envolve e “integra” a população e os materiais locais. Este
viria a conseguir fazer com que as pessoas se sentissem envolvidas, participantes
activas na proposta de um projecto de arte. Num país que é um local singular para a
rodagem de filmes e dos teatros Africanos, que possui um forte sentido de orgulho
nacional, o objectivo desta proposta passava pelo envolvimento dos cidadãos de modo
a despertar a identidade cultural de um grupo e ajudar a desenvolver um país que se
reconhece possuir enormes potencialidades.
A chamada para a equipa do arquitecto Diébédo Francis Kéré revelou-se a melhor
opção para a concretização deste projecto. O seu trabalho tem como objectivos
primordiais de encontrar soluções construtivas económicas e sustentáveis para as
situações locais, num processo em que a reflexão sobre a arquitectura passa por
incorporar preocupações locais e globais. Para que este objectivo se cumprisse
equilibradamente o arquitecto, juntamente com uma equipa de outros oito arquitectos·
vindos de todas as partes do mundo, fundam em 2005 o ateliê Kéré Arquitectos. São
um ateliê com sede em Berlim, na Alemanha e com uma filial no Burkina Faso a qual,
por estar no terreno de intervenção facilita o conhecimento integral da condicionante
dos locais destinados às possíveis construções em África.
Para perceber o trabalho desta equipa é preciso saber que o mote de arquitectura
destes é: “Ajuda para ajudar-te” (Moix, 2010, p. 20). Com este lema a equipa
[Ilustração 163] e o próprio arquitecto distinguem-se através de trabalhos inovadores
no recurso ao que é essencial, no uso de materiais locais, com recurso ao mínimo e
revelador de ideias assentes na inovação ou realização de objectos ou materiais.
227
Christoph Maria Schlingensief de origem Alemã em Oberhausen, nascido em 1960 e falecimento a
2010, foi cineasta, director de teatro e actor.
228
Diébédo Francis Kéré natural do Burkina Faso aldeia de Gando, nascido em 1965. Arquitecto formado
na Universidade Técnica de Berlim, fundou um ateliê da arquitectura em Berlim, tornou-se um procurado
conferencista internacional e ganhou uma série de prémios, incluindo o prestigioso Prêmio Aga Khan de
Arquitectura. E para alguns africanos tornou-se um herói, devido ao seu investimento no povo africano.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
178
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Outra vertente fundamental é trabalharem sempre em solidariedade de quem
futuramente irá utilizar o espaço construído.
Ilustração 163 - Equipa Kéré Architects, 2005. (Kéré, 2014)
A filosofia e consequente metodologia projectual delineada por este escritório, radica
na procura de metodologias e sistemas construtivos que possam ser executados
facilmente e consequentemente uma arquitectura construída com poucos recursos. A
arquitectura proposta é o meio para o benefício máximo dos seus utilizadores. Com
esta linha de orientação previamente traçada a equipa e o cineasta conseguem
colocar no terreno a concretização destas ideias.
No presente caso de estudo o primeiro desafio foi a procura de um local adequado
para a implantação da referida Ópera. No decurso desta pesquisa a equipa foi
confrontada, em Agosto de 2009, com temporais que tiveram como consequências
mais visíveis uma série de inundações que devastaram aldeias inteiras em poucas
horas. Perto da capital Ouagadougou, uma pequena aldeia situada na elevação em
Laongo, com vista para a paisagem do Oeste Africano da zona Sahel, desapareceu
literalmente arrastada pelo poder destruidor destas enchentes, deixando os habitantes
que lá viviam sem nada em poucas horas.
Perante a destruição resultante desta catástrofe natural Christoph e o arquitecto
entendem que a Ópera não é uma prioridade e começam a pensar numa forma de
ajudar estas pessoas a reconstruírem suas casas e a recuperar tudo o que tinham
perdido. A proposta, face às circunstâncias, estabelece a concepção de habitações
assentes num sistema modelar adequado às necessidades mais imediatas e também
aos modos de vida desta população. O projecto Remdoogo, que significa “Ópera Vila”,
nasce da necessidade de dar uma resposta eficaz a uma situação de catástrofe.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
179
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 164 – Plano tridimensional do projecto Aldeia da Ópera. 2009. (Kéré, 2014)
O primeiro passo do cineasta para a concretização do projecto foi fundar em 2009 a
Festspielhaus Afrika gGmbH uma organização sem fins lucrativos com sede em
Berlim, que serve de suporte para organizar os procedimentos iniciados com o
projecto Schlingensief "Ópera Vila África", [Ilustração 164] no Burkina Faso. O
objectivo desta associação era fortalecer o intercâmbio cultural entre África e a
Europa.
Mas o seu trabalho não se desenvolve sozinho, estes projectos, normalmente,
necessitam do apoio de muitos voluntários, organizações e fundações. Esta acção
concertada possibilita arrecadar fundos para a realização do sonho que é de todos. No
âmbito das necessidades básicas e de saúde surge o apoio dos Grünhelme
especialmente os membros Giovanni Gabai, Fabian Römer e Dimitri Raaz, que
auxiliaram com todo o tipo de apoios essenciais param o desenvolvimento do centro
de saúde. (Mikat, 2014)
São um Corpo da Paz de jovens alemães - muçulmanos e cristãos que pretendem pôr
mãos à obra, construindo escolas, hospitais entre outros equipamentos. A sua
participação é realizada em parceria com o trabalho voluntarioso de outras pessoas
que pretendam ajudar a construir e concretizar estes projectos humanitários. Esta
associação é financiada através de doações privadas de cidadãos da Alemanha e
doações de outras fundações. A forma de actuação passa pelo recrutamento de
pessoas que tenham uma profissão ligada á construção, como construtores, pedreiros,
engenheiros, arquitectos, que estejam dispostos a colaborar e trabalhar nos projectos
durante um período mínimo de três meses. (Mikat, 2014)
Este projecto desenvolve-se numa área de 14 hectares. O projecto em termos
programáticos prevê edificar, na antiga aldeia de Laongo, uma ópera e teatro, oficinas,
centro médico, residências, bem como escolas. Em termos de infraestruturas básicas
contempla a abertura de um poço e a definição de uma área que será ocupada por
painéis solares.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
180
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Este projecto, depois de integralmente, concluído, proporcionará à comunidade o
acesso a cuidados básicos de saúde, educação e habitação condigna. Outra valência
passará pelo desenvolvimento de acontecimentos culturais. O plano geral, entretanto
proposto estabelece que a construção de qualquer tipo de arquitectura deve ter como
matriz estruturas modulares. Estas apenas devem variar consoante a qualidade e
função do equipamento em questão e do valor que este comporta para a aldeia. A
maioria destes módulos deverá garantir a sua futura ampliação com recurso a
processos de autoconstrução com materiais locais, como argila, tijolos de cimento e a
madeira. (Laberenz, 2014)
A construção iniciou-se em Fevereiro de 2010. No decorrer da obra, em agosto desse
mesmo ano, faleceu com 49 anos Christoph Schlingensief. O arquitecto Francis Kéré
mostrou-se determinado em "concretizar o sonho" do seu amigo. Com este objectivo
consegue angariar mais alguns doadores para o financiamento da obra.229
A ideia motora de dar condições básicas para o arranque de uma nova vida para estas
populações é claramente expressa por Christoph Schlingensief:
Meine Vorstellung von dort Dorf Oper ist immer mit der Hoffnung, dass wir gemeinsam,
mit dem Geld vieler verbunden, die Schaffung eines Organismus, die ein Leben für sich,
230
durch uns und vor allem für die Menschen entwickelt, die sich.
(Laberenz, 2014)
Várias estratégias foram implementadas para tornar a construção mais eficiente e
confortável. Os primeiros módulos construídos, com o intuito de permitirem condições
para a formação, foram as residências destinadas aos professores e á própria escola.
Foram também criadas oficinas e armazéns para a produção de materiais a utilizar nas
construções. Estes materiais, fabricados com recurso a matérias-primas como o barro
e a argila, foram utilizados de forma rentável231 e sem desperdício de energia, o que
torna o projecto orgânico e autónomo assegurando simultaneamente a gestão
sustentável dos recursos naturais.
Desde Setembro de 2011, que o conjunto do Ópera Vila África possui energia eléctrica
pública e uma rede de águas.
229
O Instituto Goethe da Fundação Federal de Cultura do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão e
que lhe dão um 1 milhão de euros em financiamentos públicos.
230
A minha ideia de aldeia ópera está sempre ligada com a esperança de que, juntos podemos, com o
uso e o dinheiro de muitos, criar um organismo que desenvolve uma vida própria, através de nós, e
especialmente pelas pessoas que estão lá (Tradução Nossa, 2014)
231
Devido á fraca resistência da argila em locais onde a chuva é tao abundante Kéré desenvolveu uma
técnica onde estes tijolos possam ser produzidos localmente, misturando a argila, com uma utilização
mínima de energia eléctrica e de água que são tao escassas neste local, usando apenas cerca de 8 por
cento de cimento. Assim, as pessoas podem construir no local.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
181
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Ilustração 165 – Escola Primaria. Photo Marie Kohler. (Laberenz, 2014)
A construção dos principais equipamentos públicos já se encontra concluída, nestes
estão incluídos a escola primária e o centro de saúde. A escola foi inaugurada em
Outubro de 2011, tendo espaços destinados para actividades lectivas bem como
espaços para a aprendizagem das artes, nomeadamente cinematográfica, musical e
cénicas, incentivando o desenvolvimento da criatividade nas crianças [Ilustração
165]. A aldeia elabora mensalmente um programa cultural que se realiza na "Vila
Ópera". Este programa inclui a organização de workshops, concertos, noites de
cinema, e teatro, entre outros eventos.232
Ilustração 166 – Módulos Residenciais. Photo Marie Kohler. (Laberenz, 2014)
Estes eventos reflectem também, a um outro nível, o bom relacionamento existente
entre o Burkina Faso e Mali. Esta relação não se cinge ao intercâmbio cultural entre
estes dois países, completa-se na actuação dos agentes do governo no apoio da crise
232
O Festival Desert Mali que se realiza normalmente em Timbouktou tem tido um número elevado de
espectadores e artistas. Em 2012, mesmo com a aldeia em construção, o festival aconteceu no local, que
futuramente terá infra-estruturas para tal, os habitantes de Mali não só participaram com os espectáculos
como apoiaram com a divulgação do crescimento da nova aldeia.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
182
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
ocorrida no Mali. A ajuda passa também por acolher refugiados proporcionando-lhes
trabalho, mesmo que temporário, na construção destas aldeias.
No que concerne ao andamento e concretização dos trabalhos de construção os
moradores são regularmente informados sobre o progresso dos mesmos. Um projecto
com esta envergadura, não só em termos projectuais como também de interacção e
ambição social, tem sido objecto dos mais variados testemunhos relacionados com os
resultados inerentes à sua concretização.
A este propósito o primeiro-ministro Luc Adolphe Tiao, na sua passagem pela Vila
Ópera registou no livro de visitas o seguinte comentário sobre as consequências
positivas do projecto e o envolvimento dos arquitectos:
Eu vim para expressar o apoio do Governo para o ambicioso projecto "Vila Ópera”. A
originalidade do conceito, tanto arquitectónico e sociocultural e turístico merece o apoio
do Governo e das pessoas de boa vontade ao redor do mundo. Quero expressar minha
admiração por Francis Kéré que é o arquitecto e líder do projecto pela sua visão,
ambição e patriotismo. (Laberenz, 2014)
O próprio primeiro-ministro terá deixado um conjunto de sugestões para a conclusão
bem-sucedida do projecto, incluindo a necessidade de abrir arruamentos que tornem
mais fácil os acessos à Vila Ópera.
Outro testemunho, de Chris Dercon, director da Tate Modern, de Londres refere a
singularidade desta iniciativa, considerando "um dos projectos culturais actualmente
mais interessantes" (Kéré, 2014).
Ilustração 167 - Imagem do projecto no futuro. 1- Ópera /casa cultural; 2- Escola; 3- Restaurante; 4- Centro de saúde; 5Informações/bar; 6- residências. Kéré Architecture, 2009. (Kéré, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
183
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
CENTRO DE SAÚDE DE PROMOÇÃO SOCIAL, LAONGO, BURKINA FASO
Ilustração 168 - Centro de saúde de promoção social. Photo Operndorf Afrika, (Laberenz, 2014)
De todo o conjunto edificado a presente leitura crítica incidirá sobre o Centro de Saúde
de Promoção Social [Ilustração 168]. Trata-se de um equipamento público singular e
relevante para o bem-estar da população que serve. CSPS é o acrónimo para Centro
de Saúde de Promoção Social. Está localizado na aldeia Laongo num local de baixa
altitude.
Este projecto tem como cliente Festspielhaus Afrika gGmbH e como equipa projectista
o ateliê do arquitecto Diébédo Francis Kéré, apoiado por uma empresa de estruturas.
O projecto tem também o apoio da associação Grünhelme eV.
As obras para a construção do Centro de Saúde tiveram início em Janeiro de 2013.
Este equipamento possui uma área bruta de 1340m2 e visa proporcionar cuidados
elementares de saúde à comunidade e ao público em geral233. A construção deste
equipamento foi executada com materiais oriundos da região sendo a mão-de-obra,
maioritariamente, provida pela população. O objecto arquitectónico proposto manifesta
uma reinterpretação contemporânea da arquitectura vernacular234.
Ilustração 169 - Projecto enquadrado com a paisagem. Photo Kéré Architecture, 2005. (Kére, 2014)
233
O objectivo do programa do governo é dar a todos os habitantes o acesso a um CSPS dentro de um
raio de 10,5 km. Os gastos com saúde do governo, neste que é um dos países mais pobres do mundo,
com o montante de apenas 3% do orçamento do Estado, de modo que 6 médicos trabalham por 100.000
habitantes, Segundo dados da UNICEF.
234
“en la mayoría de los casos la tierra para la ejecución de las construcciones proviene del propio
entorno, y es por esta razón por la que el color resultante tiende a confundir arquitectura y paisaje.”
(Soriano Alfaro, 2006, p. 69) na maioria dos casos a terra para a execução de construção vem do próprio
meio ambiente, e por isso a cor resultante tende a confundir arquitectura e paisagem. (Tradução Nossa,
2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
184
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
O intuito primeiro deste equipamento público é proporcionar um ambiente agradável
para a comunidade que o utiliza. Neste sentido os espaços são estrategicamente
organizados em torno de uma sala de espera. Em termos funcionais é dividido em três
áreas para acolher uma unidade de cuidados de saúde geral, uma unidade de
deontologia e uma terceira destinada a consultas de ginecologia e obstetrícia.
Ilustração 170 – Enfermaria interior. Photo Thierry K. Oueda. (Laberenz, 2014)
Para que estas três áreas possam funcionar independentes, com tranquilidade
necessária, Kéré relaciona-as, física e visualmente com dois pátios internos. Organiza
outros dois pátios maiores no centro da estrutura edificada, para possibilitar níveis
maiores de conforto e permanência à sombra. O Centro possui também em termos do
seu programa funcional uma área de recepção, uma farmácia, uma sala de cirurgia e
uma sala de exames [Ilustração 170].
O complexo é envolvido por um limite externo que circunda o perímetro, sendo esta
parede definidora do próprio edifício e limite dos pátios [Ilustração 171].
Ilustração 171 – Pátio exterior. Photo Operndorf Afrika. (Laberenz, 2014)
No interior do centro é possível, médicos e utentes disfrutarem das magníficas
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
185
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
paisagens do deserto Savana. A implantação deste equipamento enquadra-se
perfeitamente sem agredir o local. As aberturas dos vãos na parede da circulação,
segundo o arquitecto, “criam a ilusão de um quadro de imagem e permite aos
pacientes olhar para a beleza natural da sua terra”. (Diébédo Francis Kéré, 2010).
O desenho do alçado e consequente geometria e posicionamento dos vãos revela
também a intenção de garantir uma vista privilegiada aos doentes acamados. Os vãos
emoldurados estão agrupados em três módulos diferentes. A sua posição a diversas
alturas permite ver o exterior ou apropriar a luz canalizando-a para o interior dos
espaços. [Ilustração 172 e 173] No que se refere à sua execução os vãos são
executados em caixilharia metalizada com vidros e rede mosquiteira.
Ilustração 172 – Fachada com as diversas aberturas dos vãos. Photo Kéré Architecture, 2005. (Kéré, 2014)
Tal como com os restantes edifícios, uma das condicionantes era a execução com
recurso a materiais naturais locais, como argila, areia e a pedra aplicada no
pavimento. Esta associação dos recursos naturais autóctones a sistemas construtivos
que os utilizam privilegia a construção tradicional do país. A sua reutilização numa
perspectiva contemporânea conduz ao estabelecimento os novos conceitos
ambientais, viabilizando a sustentabilidade de todo o equipamento.
Ilustração 173 – Exemplo de vãos de diversos tamanhos. Photo Operndorf Afrika, 2014. (Laberenz, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
186
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Os tijolos, fabricados na aldeia, são os elementos constituintes de grande parte das
paredes. Estas são executadas com uma dupla fiada de tijolos de barro compactado,
misturados com água e uma pequena quantidade de cimento. As paredes exteriores
são compostas por uma outra fiada externa composta por tijolos ocos, posteriormente
barrados com argila. Este barramento protege os tijolos da exposição directa ao efeito
das águas pluviais, provenientes das grandes tempestades que assolam estas
regiões235.
As paredes interiores são executadas apenas com uma fiada de tijolos fabricados
manualmente na aldeia. A pedra local é utilizada para revestir todo o pavimento
exterior envolvente dos edifícios [Ilustração 174 e 175].
Ilustração 174 - Parede e laje em construção. Photo Operndorf Afrika.
(Laberenz, 2014)
Ilustração 175 - Parede e laje. Photo Operndorf Afrika.
(Laberenz, 2014)
O principal problema das construções tradicionais em adobe236 reside na sua fraca
resistência á acção continuada da água das chuvas. Necessitam de reparações num
curto espaço de tempo. A solução encontrada para este problema foi a proposta de
uma cobertura executada em estrutura metálica treliçada inclinada que protege o
edifício dos elementos naturais e favorece a ventilação natural.
O projecto estabelece uma relação entre a contemporâneada da linguagem
arquitectónica e a sustentabilidade, revelando harmonia entre materiais, sistemas
construtivos, e a envolvente dos habitantes da comunidade.
235
Com um clima tropical estas regiões tem apenas duas estações do ano uma seca de Novembro a
Março e uma chuvosa de Abril a Outubro.
236
O adobe é um material com uma inercia térmica que permitindo a estabilidade da temperatura no
interior, sendo bastante disponível, flexível em relação ao uso e rendimento
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
187
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
LEGENDA:
1- Quarto dos pacientes
2- Quarto de tratamentos
3- Quarto do Médico
4- Médico Chefe
5- WC do Médico Chefe
6- Sala de parto
7- Sala de espera da sala de
parto
8Gabinete
do
Medico
ginecologista
9- Parteira Chefe
10- WC da parteira Chefe
11- Sala de paciente de
ginecologia
12- Sala de tratamento-dentista
13- Armazém/arrumos
14- Farmácia
15- Recepção
16- Sala de espera
- Pátios interiores
- Pátios exteriores
ENTRADA
Ilustração 176 – Planta do projecto. Photo Kéré Architecture, 2013. (Kéré, 2014)
Ilustração 177 – Cortes AA´ e BB´. Photo Kéré Architecture, 2013. (Kéré, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
188
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Também este projecto tem sido objecto de alguns testemunhos que manifestam e
qualificam o resultado obtido assim Florian Schneider237 resume:
Ich bin sehr mit der Integration von traditioneller afrikanischer und moderner Architektur
im Dorf Oper und der Kombination aus ästhetischen und funktionalen Aspekten
beeindruckt. Aino Laberenz verfolgt die Umsetzung des Projekts mit großer Sensibilität
und Reflexion der historischen und kulturellen Bedingungen an Ort und Stelle, und sie
238
ist sich der enormen sie Verantwortung für das Projekt übernommen.
(Laberenz,
2014)
Ilustração 178 – Resultado do Centro de Saúde com os seus usuários. (Kéré, 2014)
Projectos como este demostram o aparecimento de uma novo modo de pensar e fazer
arquitectura. Uma arquitectura que incorpora o compromisso social e pretende
responder às necessidades de comunidades desfavorecidas. O arquitecto aspira e
estabelece uma nova relação entre a arquitectura e a sociedade. A sua acção
fundamenta-se numa arquitectura mais social e íntegra, conciliando, a sabedoria dos
saberes ancestrais com técnicas construtivas actuais. É um exercício que apela para
uma nova visão de um mundo mais solidário.
237
Florian Schneider de origem Alemã de Düsseldorf, nascido em 1947) é um músico alemão e fundador
do grupo musical Kraftwerk, pioneiro da música electrónica.
238
Estou muito impressionada com a integração da arquitectura tradicional Africano e modernismo na
ópera aldeia e a combinação de aspectos estéticos e funcionais. Aino Laberenz supervisiona a
implementação do projecto com grande sensibilidade e reflexão das condições históricas e culturais no
local, e ela está ciente da enorme responsabilidade que assumiram para o projecto. (Tradução Nossa,
2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
189
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As crises cíclicas, os conflitos existentes ou latentes, as mudanças de paradigma, as
continuas evoluções técnicas e tecnológicas são realidades que reconfiguram a
superfície da terra e a vida dos homens. Hoje o mundo é um lugar globalizado. Esta
realidade, assente numa lógica de progresso sistemático, continua a evidenciar uma
realidade formada por a chamada sociedade ocidental e os países ricos e
simultaneamente pelo conjunto de todos os países com baixos níveis de
desenvolvimento.
Esta diferenciação é portadora de níveis de vida, profundamente distintos, sobre os
quais se organizam as realidades das respectivas populações. Os exercícios
projectuais dos arquitectos balizam-se cada vez mais, entre as nuances destas
realidades.
Fazemos parte de uma sociedade que nas últimas décadas estabeleceu como meta o
progresso social, económico e individual para atingir este fim apostou no crescimento
de megas estruturas urbanas onde estes desígnios seriam concretizados. Este
percurso, na senda do bem-estar, implicou a revisão da arquitectura.
O devir socioeconómico aprofundou o distanciamento entre a riqueza e o bem-estar
das populações dos mais diferentes países. As decalagens aprofundaram-se em
termos planetários. Os países ricos evoluíram os seus sistemas de protecção e
assistência social, promoveram o aumento do poder económico das respectivas
populações com o consequente aumento dos seus padrões de vida. Em contra ciclo
nos países mais pobres o fosso alargou-se gerando todo um conjunto de
desigualdades que hoje se tornam urgentes obviar e solucionar.
No mundo global uma consciência activa e interventiva tem por finalidade solucionar
as dicotomias civilizacionais. Nesta tomada de consciência insere-se também o
exercício da arquitectura assumindo o desígnio ético e social relevante na proposição
de respostas que conduzam à transfiguração dos padrões de vida destas populações.
O mundo real engloba actualmente uma vasta maioria de populações que não
conseguiram ainda concretizar as suas ambições mais básicas, seja o acesso a uma
habitação condigna seja o acesso a cuidados de saúde ou à educação.
Nas sociedades com elevados padrões sociais e económicos continuam a ser
construídas arquitecturas que respondem a novos modos de habitar o espaço
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
doméstico e a tipologias de equipamentos públicos que correspondem aos anseios de
uma sociedade alicerçada no consumo e na inovação. Alguns destes objectos
arquitectónicos afirmam-se pela singularidade formal. Paralelamente, existe uma outra
realidade, em que as necessidades mais básicas (das infraestruturas de águas e
esgotos, à habitação e equipamentos de ensino ou saúde) não foram ainda supridas.
Neste campo, a arquitectura possui, nos dias de hoje, um papel de relevo a
desempenhar. As contingências destas comunidades e respectivas realidades ditam
respostas alternativas, pensadas e construídas com baixos recursos. Estas
condicionantes são indutoras, no ciclo projectual, de princípios operativos traduzidos
na criatividade das respostas construídas e na capacidade transformadora deste tipo
de arquitecturas face às necessidades de populações desfavorecidas.
A investiga do processo mental e consequente configuração projectual nos casos de
estudo, coloca em destaque um conjunto de arquitectos, cujos projectos procuram
solucionar problemas reais das comunidades e, se possível, da sociedade. O Conjunto
Habitacional em Iquique, Chile projectado de Equipa Elemental; a Escola METIHandmade em Rudrapur, da arquitecta Anna Heringer, o Centro de saúde e promoção
social, em Laongo do arquitecto Diébédo Francis Kéré e as Soe Ker Tie House em
Noh Bo Tak na Tailândia dos TYIN tegnestue, são respostas contemporâneas
construídas no mundo real onde continua a imperar elevados níveis de pobreza ou
carências em termos das infraestruturas mais elementares.
A cada vez mais visível divulgação, em revistas e conferências internacionais, tem
vindo a tornar estes casos de estudo paradigmáticos. A sua visibilidade é
demonstrativa de um processo específico do saber fazer e construir uma arquitectura
de baixos recursos, isto é, uma arquitectura para os pobres, como definido por Hassan
Fathy.
A leitura crítica dos quatro casos de estudo evidência os processos operativos e de
compromisso social uma geração de jovens arquitectos. Estes são detentores de uma
formação académica obtida em países ocidentais, embora a sua prática projectual se
direccione, deliberadamente, para a actuação em regiões em que é fundamental
garantir uma resposta arquitectónica a situações como o acesso a uma habitação com
condições mínimas ou o acesso a equipamentos de primeira necessidade como
escolas ou hospitais.
Constituem um grupo de arquitectos que, face às assimetrias decorrentes do
fenómeno de globalização estabeleceram como comprometimento ético e social o
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
192
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
reposicionamento da sua actividade de modo a responderem projectualmente às
realidades de comunidades desfavorecidas.
Ainda hoje é possível verificar a existência de gabinetes de arquitectura cujo exercício
é maioritariamente direccionada para responder a programas de clientes com forte
capacidade
financeira.
Uma
outra
via
é
constituída
por
arquitectos
que,
individualmente ou em associação, se dedicam exclusivamente a desenvolver
respostas estratégicas, arquitecturas de baixos recursos, a construir no mundo real.
Todos os arquitectos cuja actividade e prática profissional abarca esta problemática
formam uma plataforma para a transformação dos modos de vida de populações de
elevados níveis de pobreza. Este tipo de respostas vão contribuindo para a
restruturação do ciclo projectual, nomeadamente a capacidade inventiva, a
manipulação e adequação de programas à realidade e a adequação e transfiguração
na utilização dos materiais locais. Estas respostas trabalhando como os mínimos
recursos, revelam uma configuração objectual contemporânea.
A leitura crítica das obras eleitas denota o enfoque que estes autores dão à
interligação entre o programa e as potencialidades expressivas dos materiais, na
conformação formal e espacial. Estes projectos reflectem como as ideias de uma
imagem contemporânea da arquitectura podem ser figuradas pela reutilização, num
outro contexto, das propriedades dos materiais locais combinados com técnicas ou
materiais actuais.
A aparente simplicidade construtiva destes objectos arquitectónicos tem subjacentes a
complexidade integrada num modo como estes autores vão manipulando todas as
variáveis e variantes deste tipo de arquitectura.
Os casos de estudo constituem respostas específicas para os locais e para as
comunidades. Esta arquitectura de baixos recursos potencia a repetição de soluções
tipificadas. Os projectos revelam o recurso sistemático à reinvenção de soluções
baseadas em pressupostos como, a ventilação natural, a utilização de materiais locais
e sistemas construtivos vernaculares, o programa essencial, o espaço mínimo, a
flexibilidade dos espaços propostos ou dos conjuntos edificados.
Estes projectos são a manifestação de novas posturas sociais, traduzidas em
parcerias estabelecidas entre arquitectos e entidades públicas ou privadas, fundações
ou outros organismos. Estas parcerias têm-se constituído como veículos para a
concretização no terreno, destas respostas. Os seus objectivos têm como alcance
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
193
Construção no mundo real : respostas estratégicas para uma arquitectura de baixos recursos
minimizar e colmatar problemas relacionados com défice de habitacional, a escassez
de infraestruturas de ensino ou de serviços nas regiões e comunidades objectos
destas intervenções.
As Entidades mencionadas na dissertação, são a Fundação Aga Khan, a ICO
Foundation e Holcim Foundation. Estas definiram como missão respostas, o apoio ou
motivação, a um conjunto de arquitectos que tem vindo a construir, para populações
com baixos níveis de desenvolvimento. As divulgações promovidas por estas
entidades traduzem-se em prémios que tornam visível para o grande público as
respostas construídas por estes arquitectos para uma arquitectura de baixos recursos.
Estes prémios não traduzem apenas o reconhecimento exclusivo dos objectos
construídos, tem também como objectivo a monotorização da resiliência dos mesmos
e a efectiva adaptabilidade aos modos de vida das populações.
A arquitectura de baixos recursos têm vindo a adquirir um papel relevante na reflexão
contemporânea sobre a dimensão ética e social desta disciplina. Este exercício de
arquitectura tem vindo a constituir-se como uma via alternativa para o exercício da
profissão, no tempo da globalização e de crises sistémicas.
São respostas do presente e de futuro. Contribuem pela sua especificidade para a
revisão do papel da arquitectura perante a sociedade e estas realidades em concreto.
A sustentabilidade destes projectos, na sua correlação intima com a natureza,
potencia construções em consonância com o meio ambiente e cultural e também com
os recursos disponíveis. São obras que unem o pensar, o projectar, o materializar,
numa lógica social e comunitária, constituindo-se como plataforma para a
transformação do mundo real.
A arquitectura é por inerência um veículo de reconfiguração das sociedades e dos
modos de vida dos sujeitos. A sua matriz ética e social implica que todas estas
respostas de uma arquitectura para pobres sejam portadoras de transformação dos
habitantes em particular e do próprio exercício do pensar e fazer arquitectura.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Anna Heringer apresenta uma série de projectos em que a escolha de materiais e
técnicas de construção tiveram um contributo muito importante na distribuição dos
recursos,
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premiado Diébédo Francis Kéré é conhecido pela sua abordagem transcultural para
arquitectura. Apesar de seu escritório, Kéré Arquitectura, baseia-se em Berlim, muitos
de seus projectos são realizados em sua terra natal Oeste Africano país Burkina Faso,
onde ele é conhecido por incorporar materiais locais e talento em seus projectos.
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Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
210
ANEXOS
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
LISTA DE ANEXOS
Anexo A - Relatório UN- HABITAT- state of the world’s cities 2012/2013.
Anexo B - Sites : Complemento da evolução da temática.
Anexo C - Outros projectos dos arquitectos dos casos de estudo.
Anexo D - Entrevistas dos arquitectos dos casos de estudo.
Anexo E - Resposta estratégica da equipa TYIN tegnestue : TYIN
Architect's Toolbox.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
213
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
214
ANEXO A
Relatório UN- HABITAT- state of the world’s cities 2012/2013
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
217
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
218
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
219
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
220
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
221
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
222
ANEXO B
Sites : Complemento da evolução da temática
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Complementarmente ao texto da presente dissertação considera-se relevante o
conjunto de links subordinados a esta temática. A sua indicação pretende ser um
suplemento para a leitura das questões relacionadas com o papel da arquitectura com
o mundo real e o conjunto de respostas que os arquitectos ou instituições tem vindo a
desenvolver e promover assentes numa arquitectura de Baixos Recursos.
ARCHITECTURE FOR HUMANITY (2014) - Architecture for Humanity [Em Linha]. San
Francisco : architectureforhumanity.org [Consul. 25.Out.2014]. Disponível em WWW :
<URL: http://architectureforhumanity.org/>.
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Holcim Foundation for Sustainable Construction [Consul. 15.Out.2014]. Disponível em
WWW : <URL: http://www.holcimfoundation.org/>.
MASTER OF INTERNATIONAL COOPERATION SUSTAINABLE EMERGENCY
ARCHITECTURE (2014) - Master Of International Cooperation Sustainable Emergency
Architecture [Em Linha]. Barcelona : ESARQ – School of Architecture, UIC [Consul.
5.Out.2014]. Disponível em WWW : <URL: http://masteremergencyarchitecture.com/>.
THE AGA KHAN DEVELOPMENT NETWORK (2014) - Aga Khan Award for
Architecture [Em Linha]. The Aga Khan Development Network [Consul. 15.Out.2014].
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UNITED NATIONS HUMAN SETTLEMENTS PROGRAMME (2010) - UN-Habitat for a
better urban future [Em Linha]. Nairobi : UN- Habitat [Consul. 5.Out.2014]. Disponível
em WWW : <URL: http://unhabitat.org/>.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
225
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
226
ANEXO C
Outros projectos dos arquitectos dos casos de estudo
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
ALEJANDRO ARAVENA
Ilustração 179 – Villa Verde. 484 Viviendas + 3 Sedes Sociales. Chile.2010.
(Elemental, 2014)
Ilustração 180 – Rancagua. 206 Viviendas + Sede Social. Chile. 2010 (Elemental,
2014)
Ilustração 181 – Temuco. 159 Viviendas + Sede Social. Chile. 2009 (Elemental,
2014)
Ilustração 182 - Pi-rehuei-co Lake. House 350m2. Chile 2004. Photo Tadeuz Jalocha,
Fe-lipe Combeau (Elemental, 2014)
Ilustração 183 - La Flo-ri-da. House 120 m2. Chile. 1997. (Elemental, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
229
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
ANNA HERINGER
Ilustração 184 - DESI Trainingcenter, Rudrapur,
Bangladesh 2008. (Heringer, 2014)
Ilustração 185 - Three Hostels in Baoxi, a village in
China. 2014. (Heringer, 2014)
Ilustração 186 - Training Centre for Sustainability,
Morocco.2014. (Heringer, 2014)
Ilustração 187 - Kindergarten for the permaculture
community PORET, Zimbabwe. 2013. (Heringer,
2014)
Ilustração 188 - Majiayao Ceramics Museum. 2014.
(Heringer, 2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
230
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
TYIN tegnestue Architects
.
Ilustração 189 - Safe Haven Library .Ban Tha Song Yang, Thailand. 2009
(TYINArchitects, 2014)
Ilustração 190 - Cassia Co-op Training Centre. Kerinci, Sumatra, Indonesia. 2011
(TYINArchitects, 2014)
Ilustração 191 - Klong Toey Community Lantern. Klong Toey, Bangkok, Thailand.
2011. (TYINArchitects, 2014)
Ilustração 192 - Naust paa Aure. Aure, More og Romsdal, Norway. 2011.
(TYINArchitects, 2014)
Ilustração 193 - Lyset paa Lista. Lista, Farsund, Norway. 2013. (TYINArchitects,
2014)
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
231
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
DIÉBÉDO FRANCIS KÉRÉ
Ilustração 194 – “Primary School Gando”, Burkina
Faso, 2001 (Kéré, 2014)
Ilustração 195 – “Secondary School Gando”. Burkina
Faso, 2011 (Kéré, 2014)
Ilustração 196 – “Teacher's Housing Gando”. Burkina
Faso, 2004. (Kéré, 2014)
.
Ilustração 197 –“School Library Gando”. Burkina
Faso. (Kéré, 2014)
Ilustração 198 – “School Extension Gando”. Burkina
Faso, 2008 (Kéré, 2014).
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
232
ANEXO D
Vídeos explicativos dos casos de estudo
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Vídeos explicativos dos quatro casos de estudo e entrevistas com os quatro
arquitectos dos casos de estudo apresentados reflectem as questões nucleares da
presente dissertação. São conversas em que os autores expõem a sua perspectiva
sobre o papel dos arquitectos nos dias de hoje perante a necessidade de construir
respostas eficazes para os homens do mundo real.
Nestes vídeos está também patente a interacção entre o arquitecto, o projecto e as
comunidades para os quais estes se destinam. São pequenos testemunhos que na
dimensão específica de cada projecto, colocam o exercício como plataforma de
transformação.
Todos estes pequenos excertos de conversas contem as respostas destes autores
sobre uma arquitectura de forte cunho ético e social, configurada em objectos
arquitectónicos em que a dimensão inventiva e construtiva é resultado de respostas
estratégicas
para
uma
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
arquitectura
de
baixos
recursos.
235
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Links por ordem de consulta dos vídeos:
HIMAWARI ∞, realiz. (2014) - Habitação social incremental [Em linha]. São Paulo :
Himawari ∞. [Consult. 10 Nov. 2014]. (Revolução através do design). Episódio piloto
da série produzida pela Himawari8, sobre o primeiro projecto de habitação social do
escritório chileno Elemental, do Arqt. Alejandro Aravena, no conjunto habitacional
Violeta
Parra,
Iquique,
no
Chile.
Disponível
em
WWW:<URL:http://himawari8.com.br/site/portfolio-items/revolucao-atraves-do-designepisodio-piloto/>.
PRES CONSTITUCIÓN, realiz (2010) - Entrevista a Alejandro Aravena (ELEMENTAL)
[Em linha]. Chile : PRES Constitución. [Consult. 10 Nov. 2014]. Entrevista a Alejandro
Aravena (ELEMENTAL) produzido por PRES Constitución, Plan de ReConstruccion
sustentable, sobre os fundamentos do trabalho do Arqt. Alejandro Aravena e a equipa
Elemental.
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Nov. 2014]. Alejandro Aravena + ELEMENTAL produzido por Riley Neal, Michael
Talmon, and Michael O'Connor, sobre o projecto da equipa Elemental em Iquique, no
Chile. Disponível em WWW:<URL: https://www.youtube.com/watch?v=lyssl8dUiyk>.
UNITED NATIONS HUMAN SETTLEMENTS (2014) - Anna Heringer - Handmade
architecture as a catalyst for development [Em linha]. Nairobi : UN-Habitat worldwide.
[Consult. 19 Nov. 2014]. Anna Heringer - Handmade architecture as a catalyst for
development produzido por UN-Habitat worldwide, sobre como a Atqt. Anna Heringer
apresenta uma série de projectos em que a escolha de materiais e técnicas de
construção tiveram um contributo muito importante na distribuição dos recursos,
participação
e
igualdade.
Disponível
em
WWW:<URL:
https://www.youtube.com/watch?v=0KQhbx3e_JM>.
CURRY, Clifford (2011) - 2009 Curry Stone Design Prize Winner Handmade Building
[Em linha]. Nova York : currystonedesign. [Consult. 19 Nov. 2014]. Curry Stone Design
Prize Winner Handmade Building produzido por Clifford Curry, sobre as "artesanais"
escolas das aldeias e unifamiliares casas projetadas por Anna Heringer em
Bangladesh.
Disponível
em
WWW:<URL:
https://www.youtube.com/watch?v=rzntuUCliUE>.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
236
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
BASULTO, David (2014) - AD Interviews: Andreas G. Gjertsen / TYIN tegnestue.
ArchDaily [Em linha]. (12 May 2014). [Consult. 19 Nov. 2014]. AD Interviews: Andreas
G. Gjertsen / TYIN tegnestue produzido por ArchDaily, sobre TYIN tegnestue fundada
em 2008, na Noruega por Andreas G. Gjertsen e Yashar Hanstad, os parceiros são
relativamente jovens, a qualidade de seus projectos ganhou-lhes a distinção
importante de ser reconhecido para o Prémio Europeu for Architecture. Inclui vídeo
com
entrevista
a
Andreas
G.
Gjertsen.
Disponível
em
WWW:<URL:
https://www.youtube.com/watch?v=3Ux0QV3SWH4>.
WATKINS, Katie (2014) - AD Interviews: Diébédo Francis Kéré / Kéré Architecture
ArchDaily [Em linha]. (31 Jul 2014). [Consult. 19 Nov. 2014]. AD Interviews: Diébédo
Francis Kéré / Kéré Architecture produzido por ArchDaily, sobre Arquitecto Africano
premiado Diébédo Francis Kéré é conhecido pela sua abordagem transcultural para
arquitectura. Apesar de seu escritório, Kéré Arquitectura, baseia-se em Berlim, muitos
de seus projectos são realizados em sua terra natal Oeste Africano país Burkina Faso,
onde ele é conhecido por incorporar materiais locais e talento em seus projectos.
Disponível em WWW:<URL: https://www.youtube.com/watch?v=ufyMMMhWWMk>.
DESIGN INDABA (2011) - Francis Kere at Design Indaba 2011 [Em linha]. Cape town :
Design Indaba. [Consult. 19 Nov. 2014]. Francis Kere at Design Indaba 2011
produzido por Design Indaba, sobre conferência do Arqt. Francis Kéré em relação á
arquitectura África precisar adoptar a tecnologia ocidental para se desenvolver.
Disponível em WWW:<URL: https://www.youtube.com/watch?v=jAHeoh4TuCM>.
DAHRENDORF, Sibylle (2013) - Crackle of Time Trailer (Knistern der Zeit) [Em linha].
Burkina Faso : Operndorf Afrika. [Consult. 19 Nov. 2014]. Crackle of Time Trailer
(Knistern der Zeit) produzido por Sibylle Dahrendorf sobre Christoph Schlingensief e
sua
vila
Ópera
no
Burkina
Faso.
Disponível
em
WWW:<URL:
https://www.youtube.com/watch?v=5AzcLzskXlA>.
RICHTER, Eva (2012) - Documentary ECOPIA on the African Opera Village [Em linha].
Burkina Faso : Operndorf Afrika. [Consult. 19 Nov. 2014]. Documentary ECOPIA on
the African Opera Village produzido por Eva Richter, sobre um trecho do documentário
"Ecopia – Edifício inteligente, Vida Sustentável" na Ópera Vila Africana no Burkina
Faso. Disponível em WWW:<URL: https://www.youtube.com/watch?v=0xzoLRl2IlE>.
MUBEEN, Noorun (2011) - Who is the Aga Khan [Em linha]. [S.l.] : Noorun Mubeen
[Consult. 19 Nov. 2014]. Who is the Aga Khan porduzido por Noorun Mubeen sobre
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
237
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Fondation
Aga
Khan.
Disponível
em
WWW:<URL:
https://www.youtube.com/watch?v=jPAU-dxe1ow>.
AGA KHAN FOUNDATION USA (2010) - Our Global Village [Em linha]. [S.l.] : Aga
Khan Foundation USA. [Consult. 19 Nov. 2014]. Our Global Village produzido por Aga
Khan Foundation USA sobre O que é Aga Khan Foundation USA, o que eles fazem? e
como
eles
estão
relacionados
com
a
PartnershipsInAction.
Disponível
em
WWW:<URL: https://www.youtube.com/watch?v=LEqO50HUg48>.
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
238
ANEXO E
Resposta estratégica da equipa TYIN tegnestue : TYIN Architect's Toolbox
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
242
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
243
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
249
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
250
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
254
Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
~
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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Construção no Mundo Real : Respostas estratégicas para uma Arquitectura de Baixos Recursos
Mariana Flor e Almeida e Antunes Alves
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