Análise de Narrativas como Abordagem Metodológica no Estudo de Subjetividade da Área de P&D Autoria: Dusan Schreiber, Ivan Antônio Pinheiro Resumo O ambiente de mercado cada vez mais competitivo exige das empresas a constituição de diferenciais competitivos. A inovação corporativa, tanto de produtos como de processos, vinculada à gestão de conhecimentos organizacionais, é considerado, atualmente, uma das fontes mais relevantes para a constituição destes diferenciais. O setor de P&D, na maioria das organizações, detém a função de organizar estes conhecimentos e fazê-los convergir para o processo de inovação, com foco em sustentabilidade econômica, via produtos e processos. Apesar de estereotipada pelo senso comum como uma área eminentemente técnica, que fundamenta suas decisões em argumentos racionais e objetivos, existem evidências de subjetividades na área de P&D que podem interferir no processo decisório. Devido a especificidades que caracterizam esta unidade organizacional, entende-se que a pesquisa destas subjetividades exige uma abordagem metodológica inovadora, que constitui o propósito deste ensaio. INTRODUÇÃO O contexto atual, de crescente competitividade, exige das organizações o desenvolvimento de um conjunto de competências para enfrentar a concorrência e permanecer no mercado. Entre estas competências destaca-se a capacidade de inovar produtos e processos com o objetivo de atender as expectativas do mercado consumidor no tocante a design, qualidade, funcionalidade e preço. Além destes atributos considera-se essencial que a organização realize a inovação de produtos em períodos temporais cada vez mais curtos. A referida caracterização do processo de inovação impacta diretamente na capacidade da organização de inovar também em processos de gestão possibilitando a reflexão sobre novas formas de organizar os recursos e tomar decisões à luz da complexidade tanto do ambiente externo como do universo organizacional. Percebe-se que a competência em organizar os recursos de forma inovadora e tomar decisões com vista à otimização dos recursos internos e explorando as oportunidades externas constitui a base para a construção do diferencial competitivo das organizações. Uma das áreas organizacionais diretamente vinculadas à inovação de produtos é a área de P&D - Pesquisa e Desenvolvimento. Com concepção original fundamentada em critérios objetivos, normativos e técnicos, a área de P&D foi estruturada para a realização de atividades operacionais de pesquisa básica e aplicada, mas sempre voltada para a sustentabilidade econômica (WESTWOOD e SEKINE, 1988; STOKES, 2005). Posteriormente a função de P&D foi ampliada, com a inclusão de “uso” ou “utilidade” que transcende a mera viabilidade econômica, pois permite à organização visualizar novos benefícios das atividades vinculadas a P&D (STOKES, 2005; O´CONNOR e AYRES, 2005). Trata-se de novas competências e conhecimentos, decorrentes das atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas na interação com as demais áreas e unidades organizacionais (MCNULTY e WHITTINGTON, 1992) configurando um conceito multidisciplinar da área de P&D, onde cada uma das unidades organizacionais pode contribuir para o desenvolvimento de novos produtos e processos operacionais. Ao mesmo tempo em que a interdisciplinaridade da área de P&D possibilita a construção de um diferencial competitivo ímpar, implica na crescente influência das variáveis subjetivas organizacionais sobre os processos de gestão. A cultura organizacional constituída com base em símbolos, narrativas, linguagem e mitos, entre outros, permeia o tecido da organização e manifesta-se em todas as ações, seja no âmbito individual ou coletivo. Também 1 as relações sociais e de poder contribuem ativamente para construir e reconstruir a realidade organizacional por meio de valores, objetivos e crenças que são compartilhadas por indivíduos que se associam com base em similitude de seus interesses pessoais, alinhados ou não com os interesses organizacionais. Constata-se que a racionalidade e objetividade evidenciadas pela literatura da primeira metade do século passado em áreas eminentemente técnicas, tais como produção e P&D, cede espaço para variáveis mais sutis e subjetivas, de cunho político, social, cognitivo e perceptivo. No entanto, apesar do reconhecimento da subjetividade evidenciada nos ambientes organizacionais das áreas consideradas técnicas maior parte das pesquisas realizadas para identificar e mensurar as variáveis que exercem a influência sobre seu funcionamento opta por métodos de pesquisa de natureza quantitativa, positivista e normativa. Desta forma os resultados obtidos acabam por refletir os pressupostos teóricos e metodológicos e evidenciam aspectos mais objetivos de gestão, contribuindo muito pouco para demonstrar as relações subjetivas que permeiam o tecido organizacional e afetam o gestor nas suas decisões. Entende-se, por esta razão, que se justifica a concepção de uma abordagem de cunho qualitativo que possa facultar a realização de uma análise mais profunda dos processos de decisão dentro da área de P&D. No entanto, dentre as alternativas metodológicas de natureza qualitativa percebe-se que o método que apresenta melhores condições para conduzir a pesquisa da dimensão subjetiva da área de P&D é a etnografia por possibilitar a análise reflexiva e compreensiva desta unidade organizacional constituída de pessoas em permanente interação, compartilhando símbolos, valores e narrativas, que criam e recriam a realidade organizacional percebida. Em face da mediação desta interação social principalmente pela linguagem sugere-se a opção por uma abordagem metodológica inovadora, mas que está mais alinhada com a proposta da pesquisa, ou seja, o estudo por meio de narrativas escritas. Esta sugestão se baseia na constatação de que a linguagem faculta ao pesquisador criar uma realidade aderente à sua visão do mundo, além de contribuir para criar e recriar a sua própria identidade. Além disso, a produção da realidade envolve valores, facultando assim a compreensão das relações entre o autor e os elementos da realidade produzida (RICHARDSON e PIERRE, 2005). 1. CONTEXTO DA ÁREA DE P&D Fazer ou não fazer P&D (pesquisa e desenvolvimento) deixou de ser uma opção para a totalidade das organizações que operam em segmentos industriais como o de tecnologia complexa, de bens de capital, de produtos de alta tecnologia, notadamente em eletroeletrônica, biotecnologia, nanotecnologia, química, mecânica, cerâmica, além de setores que operam com produtos de consumo final que, devido à concorrência cada vez mais acirrada, passam pelo desafio de aumentar a variedade e reduzir o tempo de desenvolvimento e produção. Segundo Schumpeter (1982) a sobrevivência e lucro extraordinário são reservados apenas para o empreendedor inovador, ou seja, para quem inova em produtos ou processos criando assim o diferencial competitivo e assumindo a liderança do segmento onde atua. Como conseqüência desta percepção verificou-se aporte significativo de recursos para o P&D industrial na medida em que esta área organizacional propicia condições para transformar o conhecimento incorporado pela empresa na sua linha de produtos com fins de satisfazer as necessidades de seus clientes atuais ou criam novas necessidades (MORT, 2001). Como uma das fontes mais destacadas de geração do conhecimento, a área de P&D representa o repositório do recurso competitivo de valor agregado mais relevante e oferece a condição ímpar de diferenciação (MADHOK, 1996; LANGLOIS, 2003). No entanto, nos anos setenta a lógica de inovar para vencer a concorrência foi desafiada na sua essência, pois com maioria das organizações investindo em inovação, o ciclo de vida de produtos foi reduzido, o custo de inovar cresceu extraordinariamente e a taxa de inovações 2 viáveis comercialmente baixou, aumentando o risco do empreendedor inovador. Mas como a cultura de inovar já estava institucionalizada inexistia qualquer chance de reverter o processo. Mediante esta constatação as organizações mudaram o foco para inovar da forma certa, em produtos certos, em momentos oportunos e a custo reduzido, ou seja, uma questão de organização. Com o intuito de encontrar a concepção estratégica ideal foram adotados novos métodos de pesquisa, caracterizados pelo maior controle para facilitar o acompanhamento dos processos e acompanhar melhor seus efetivos custos, além de facultar à organização a apropriação de seus resultados. Os pesquisadores se especializaram em procedimentos específicos e processos operacionais foram desenhados de tal forma que os conhecimentos gerados numa etapa pudessem ser combinados com os conhecimentos resultantes das etapas anteriores, ou seja, conhecimento particionado ou modular. Os procedimentos passaram a ser registrados, tanto para preservar a memória de cada uma das linhas de pesquisa, como para reduzir ou evitar retrabalhos, facultando ao gestor maior controle sobre o processo operacional (FELLS, 2000; PEAUCELLE, 2000). Desta forma, integrada ao ambiente organizacional, a área de P&D passou a fazer parte do sistema de significados organizacionais, constituindo um de seus elementos simbólicos e normativos, reforçados por processos regulatórios (SCOTT, 1994). Como resultado deste processo verifica-se a existência de uma realidade complexa e multifacetada da área de P&D que se reflete em processos de gestão, especialmente no processo decisório que procura definir a forma de sua realização (externa, interna ou combinada). Ao mesmo tempo em que são considerados elementos objetivos emergem variáveis subjetivas que podem alterar a percepção da realidade interpretada com base em fatos e evidências aparentemente destituídos de subjetividade. As pessoas, cada uma com sua própria experiência e trajetória, pessoal e profissional, que orientam a sua construção individual de perceber o mundo e a interpretar a realidade contextual, encontram dentro do ambiente organizacional um conjunto de significados que passam a compartilhar com outras pessoas, alterando o seu modo de ver a realidade, tanto interna (organizacional) como externa à organização. Pulaski (1986) afirma que durante o processo de interação é oportunizado às pessoas testar seus conceitos e modos de pensar, sendo que ao final do processo a pessoa retém apenas os modelos mentais validados a partir da interação social. Cook e Brown (1999) evidenciam que os ambientes de convivência entre pessoas representam espaços de construção de novos conhecimentos, a partir da interação conceitual e da comparação de valores cognitivos individuais. No entanto, o choque de diferentes modos de ver o mundo, de conceitos e percepções também pode provocar conflitos e questionamentos. Considerando-se que é o papel do gestor, a priori, na qualidade de líder, de compreender a realidade organizacional, os cenários internos e externos, identificar e interpretar as dimensões subjetivas da organização, e, com base neste entendimento, de tomar decisões, fazer escolhas entre alternativas na aplicação dos recursos organizacionais sob sua gestão, surge a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre como gestor procede e sobre os critérios nos quais ele fundamenta as suas opções. 2. ESTUDO QUALITATIVO Para Rocha (2007) os métodos qualitativos são particularmente úteis em estudos exploratórios, em casos de problemas pouco estudados e conhecidos, permitindo exploração por meio de questões pouco estruturadas. Com base em estudos empíricos pode ser verificar que em organizações os estudos qualitativos possuem melhores aplicações em pesquisas de processos e longitudinais, análise de culturas e sub-culturas. A maior aderência metodológica se percebe em estudos de processos devido ao grande número de fatores intervenientes, em que as relações entre os fatores são de alta complexidade. Dentre os processos destaca-se o 3 processo decisório, pelo envolvimento de diversos indivíduos na organização e de influências culturais. No caso de pesquisa dos processos decisórios organizacionais Rocha (2007) recomenda o estudo de caso e indica a opção pelo método de grupos de foco e as entrevistas em profundidade para o entendimento de processos decisórios individuais. A pesquisa qualitative faculta o enriquecimento do conhecimento acadêmico e gerencial devido ao seu potencial de oferecer uma compreensão exaustiva da dinâmica social. A proximidade do pesquisador dos informantes e a utilização das múltiplas técnicas para a coleta de dados e execução da análise reforçam a oportunidade para assimilar o real comportamento dos atores organizacionais e assim descobrir a real estrutura organizacional e a intrincada rede de relacionamentos sobre os quais a organização está construída (BERTOLOTTI e TAGLIAVENTI, 2007). Segundo Laville (1999) a simples observação dos fatos humanos e sociais possibilita evidenciar problemas que não se encontram em ciências naturais, ou seja, os fatos não podem ser considerados como “coisas” uma vez que os objetos de estudo pensam, agem e reagem, interpretando a situação e agindo a partir da interpretação, da mesma forma como faz o próprio pesquisador, exercendo a influência durante o próprio processo de pesquisa. Ou seja, em ciências humanas o pesquisador é mais do que um observador objetivo: ele é um ator envolvido no processo. Verifica-se, também, que os fenômenos humanos repousam sobre a multicausalidade, ou seja, sobre um encadeamento de fatores, que variam em suas características e que se conjugam e que interagem. É isso que deve ser compreendido pelo pesquisador, para verdadeiramente conhecer os fatos humanos. Os métodos qualitativos, principalmente a observação descritiva e as entrevistas, são tão antigos como a história escrita. As origens de trabalho de campo podem ser encontradas pelos historiadores nos escritos produzidos pelos viajantes e comerciantes como os de Heródoto e o Marco Pólo. No entanto apenas no final do século XIX e durante século XX estes trabalhos foram classificados como estudos qualitativos. Pode-se dizer que o precursor do método é Frederick LePlay que em 1855 produziu um relato sobre famílias e comunidades européias num processo que mais adiante foi caracterizado como observação participante. Já os princípios do processo de pesquisa qualitativa em campo foram estabelecidos por Boas em 1911 e por Malinowski em 1932, sendo que o segundo é considerado o primeiro antropólogo profissional que proporcionou uma descrição do processo investigativo que empregou no seu trabalho (TAYLOR e BOGDAN, 1998; GODOY, 1995) Segundo Golafshani (2003) a pesquisa qualitativa utilize a abordagem naturalista que visa compreender o fenômeno dentro do contexto, ou seja, no mundo real dentro do qual o objeto de pesquisa está inserido e que não é passível de manipulação com fins do estudo pretendido. Desta forma a pesquisa qualitativa pode ser definida como qualquer tipo de pesquisa que produz evidências baseadas em condições do mundo real procurando compreender e a partir daí extrapolar os resultados para situações similarmente construídas. Para Holanda (2006) os métodos qualitativos são métodos das ciências humanas que pesquisam, explicitam, analisam, fenômenos (visíveis ou ocultos) e que não são passíveis de serem medidos. Trata-se, por exemplo, de crenças, uma representação, um estilo pessoal de relação com o outro, uma estratégia face um problema, um procedimento de decisão..., que constituem os “fatos humanos”. O estudo desses fatos humanos se realiza com as técnicas de pesquisa e análise que, escapando a toda codificação e programação sistemáticas, repousam essencialmente sobre a presença humana e a capacidade de empatia, de uma parte, e sobre a inteligência indutiva e generalizante, de outra parte. Segundo Godoy (1995) a pesquisa qualitativa envolve a obtenção de dados descritivos sobre pessoas, lugares e processos interativos pelo contato direto do pesquisador com a situação estudada, procurando compreender os fenômenos segundo a perspectiva dos sujeitos, ou seja, dos participantes da situação em estudo, de forma holística – sem redução do 4 fenômeno observado a variáveis. As expressões “pesquisa de campo” e “pesquisa naturalística” podem ser consideradas como sinônimos da pesquisa qualitativa com o objetivo de evidenciar as características da pesquisa que foca o estudo do sujeito em seu ambiente natural e de forma não intervencionista, visando a compreensão do fenômeno minimizando o papel de pressuposições admitidas a priori. Para atender a finalidade de retratar os fatos sociais entende-se pertinente a utilização de equipamentos de áudio e vídeo, além de anotações em diário de campo, sendo o pesquisador o instrumento mais importante, devido à centralidade ocupada pela comunicação dos resultados – em forma escrita do fenômeno em questão. No entanto é vital destacar que as evidências encontradas durante a pesquisa qualitativa não visam confirmar ou refutar qualquer hipóteses. 3. CONSTRUINDO O OBJETO DE PESQUISA Segundo Stablein (2001) todos os dados são representações, no entanto nem todas as representações são dados. Os dados obtidos dos estudos organizacionais, como representações, sugerem coisas que são representadas, e um processo de representação exigindo exame para separar os dados de outros tipos de representação. Como prática social, os dados organizacionais configuram empreendimentos de diversas naturezas: intelectual, econômica, política e moral. A dimensão subjetiva retratada vem a contrastar com o senso comum e noções estereotipadas que se manifestam de forma recorrente tanto em meio acadêmico, como em meio empresarial, acerca das características da área de P&D e que, consequentemente, deve ser levada em consideração, no processo decisório que visa definir sua a forma (interna, externa ou combinada). Seduzidos pelas facilidades proporcionadas pelas aparências, muitos pesquisadores positivistas apropriaram-se de métodos alinhados com o seu ponto de vista e retrataram o aparente, reproduzindo e recriando derivações das variáveis e fatores visíveis e auto-evidentes, confirmando hipóteses e reforçando posicionamentos destituídos de sentido mais profundo. Ao estudar o processo de pesquisa em ciências sociais Bourdieu (2005) evidenciou situações similares que lhe possibilitaram afirmar que as aparências estão sempre a favor do aparente. Além disso, observou, também, que seguindo a metodologia ortodoxa, é possível, por meio da escolha de uma amostra aleatória, mutilar o objeto que se busca construir. Este é o perigo que se configura para o pesquisador positivista, que substitui a opinião ingênua do senso comum pela opinião igualmente ingênua do senso comum acadêmico. Uma realidade empírica pode ser interpretada como um conjunto de idéias constituídas, desenvolvidas e sustentadas por uma subcomunidade de teóricos em estudos organizacionais. Os dados da pesquisa são produzidos por um processo de representação que é documentado pela suposição de representação da realidade. O fato de que a área de P&D denota características eminentemente técnicas, evidenciadas pela infra-estrutura laboratorial, procedimentos definidos, regras, diretrizes, registros, testes, além de pessoal altamente qualificado e com competência técnica em níveis mais elevados à média organizacional, induz muitos pesquisadores a adotar posicionamentos objetivos, renegando ao segundo plano a evidência de rede de relações sociais, relações de poder, presença de mitos, símbolos, narrativa e interpretações da realidade, que não cabem no modelo positivista de pesquisa. Bourdieu (1996) destaca que a análise e representação dos atos dos agentes sociais envolvidos em eventos só poderão ter a sua plena compreensão apenas se o pesquisador conseguir capturar a origem social das estruturas cognitivas destes agentes. Esta necessidade deriva do fato de que os agentes constroem a realidade social e entram em embate visando impor a sua visão do mundo alinhada com os interesses e objetivos pessoais. Desta forma a definição do método de pesquisa deverá ser fundamentada no conhecimento de que todo objeto propriamente científico é consciente e metodicamente construído. 5 Destarte pode-se afirmar que a ciência se constitui ao construir seu objeto contra o senso comum, ou seja, “nada se opõe mais às evidências do senso comum do que a distinção entre o objeto “real”, pré-construído pela percepção, e o objeto da ciência, como sistema de relações construídas propositalmente” (BOURDIEU, 2004, pg. 46). No processo de construção do objeto constata-se a utilização de denominações que atribuem ao objeto um determinado estatuto ontológico, implicando na sua pré-construção, evidenciando o primeiro grau da ruptura epistemológica (BOURDIEU, 2004). Neste sentido recomenda-se a definição do objeto de pesquisa e sua construção em função de uma problemática teórica que possibilite realizar a sua análise sistemática dos aspectos da realidade delimitados pela questão formulada. Destarte, o embasamento teórico deverá estar presente, no processo de pesquisa teórica, desde a sua concepção até a interpretação dos resultados. Assim pode-se dizer que o método, por si só, não gera nada. Mesmo as escolhas mais elementares na questão de tratamento da informação implicam em escolhas epistemológicas e mesmo uma teoria do objeto (BOURDIEU, 2004). Toda operação, por mais parcial que seja, implica sempre a dialética entre a teoria e verificação. A observação é tanto mais científica quanto mais consciente e mais sistemático for o princípio teórico de que se serve, ou seja, a constatação pressupõe a construção. Na questão de construção de modelos, Bourdieu (1996) entende que os mesmos representam um sistema de relações entre as propriedades selecionadas, abstratas e simplificadas, sendo construído conscientemente com o objetivo de descrever, explicar ou prever. O modelo teórico é essencialmente construção e ruptura pela necessidade de romper com as semelhanças fenomenais para construir as analogias considerando que a ruptura com as relações aparentes pressupõe a construção de novas relações entre as aparências, realizando, também, a depuração formal das relações entre as relações que definem os objetos construídos. Na utilização de analogias Bourdieu (1996) afirma que raciocinar por analogia é formar um raciocínio baseado nas semelhanças ou relações de uma coisa com a outra e considera que a analogia é uma forma legítima de comparação e a intuição, desde que controlada, tem função importante em construir hipóteses e contribuir para o controle epistemológico das outras operações. Bourdieu (2005) observa, também, que construir um objeto científico exige, do pesquisador assumir uma postura ativa e sistemática, além da necessidade do rompimento com a passividade empirista, que apenas busca confirmar as pré-construções do senso comum. Na medida em que constata que os objetos pré-construídos estão por toda parte Bourdieu (2005) considera como a prioridade científica fundamental tomar por objeto de estudo o trabalho social de construção deste objeto pré-construído e destaca a importância da atenção aos detalhes do processo de pesquisa pelo risco de os instrumentos teóricos como habitus, campo e capital serem considerados em si mesmo e por si mesmo, ao invés de serem colocados em ação (BOURDIEU, 2004). Ao analisar o processo decisório que visa definir a forma de realizar P&D percebem-se os riscos que Bourdieu (2005) destacou na condução de pesquisas em ciências sociais. O primeiro deles se refere à pré-construção do objeto, que pode ser induzida tanto pela questão paradigmática do pesquisador como pela linguagem e taxinomia, que implicam na escolha, mesmo inconsciente, da abordagem teórica. Verifica-se, também, a força do pré-construído no mundo social tanto em objetos como nas mentes das pessoas, apresentando-se no formato de auto-evidência e inquestionável. Outro risco que Bourdieu (2005) menciona refere-se à utilização de dados coletados ao abrigo de uma determinada teoria, com fins de confirmar ou refutar hipóteses construídas à luz de outra teoria. Neste sentido até mesmo a busca pela neutralidade ética poderá resultar 6 em erro epistemológico. Bourdieu (1996) destaca, também, a importância da influência do campo político, em especial do campo burocrático, o qual na área de P&D é significativo. Diferentes axiomas e paradigmas estimulam o emprego de métodos de pesquisa que potencializam a possibilidade de cristalizar diferentes percepções e, consequentemente, conclusões, sobre o mesmo tema. Ao construir o objeto estudado com as lentes que diferem em formatos e cores, emerge e se materializa um fenômeno diferente dentro de cada uma das abordagens teóricas, assegurando achados e evidências que terminam por confirmar e reforçar as características pré-concebidas do objeto estudado. Quando se analisam os processos que permeiam a área de P&D verifica-se a existência de um conjunto de aspectos que podem conduzir um pesquisador sem adequado embasamento teórico a interpretações e conclusões simplistas e destituídas de significação, mesmo que ele demonstre a competência na utilização das ferramentas metodológicas. Os achados autoevidentes podem confirmar as aparências, ingenuamente interpretadas e traduzidas em linguagem acadêmica politicamente correta e aceita. Com o fim de facultar a condução do processo de pesquisa da dimensão subjetiva da área de P&D procurou-se, nesta seção, revisar o conjunto de pressupostos teóricos que fundamentam a construção e conseqüente condução do processo de pesquisa social e desta forma abrir novos caminhos em pesquisa do processo decisório na definição da forma de realizar P&D. Nesta perspectiva percebe-se que a etnografia e entrevista etnográfica muito têm a contribuir nesta direção. 4. ETNOGRAFIA E ENTREVISTA ETNOGRÁFICA Apesar do reconhecimento da subjetividade evidenciada nos ambientes organizacionais das áreas consideradas técnicas maior parte das pesquisas realizadas para identificar e mensurar as variáveis que exercem a influência sobre seu funcionamento optou por métodos convencionais de pesquisa, de natureza quantitativa, positivista e normativa. Desta forma os resultados obtidos refletiram os pressupostos teóricos e metodológicos e evidenciaram aspectos mais objetivos de gestão, contribuindo muito pouco para demonstrar as relações subjetivas que permeiam o tecido organizacional e afetam o gestor nas suas decisões. Entende-se que o método mais apropriado para realizar a pesquisa da dimensão subjetiva da área de P&D é a etnografia por possibilitar a análise reflexiva e compreensiva desta unidade organizacional constituída de pessoas em permanente interação, compartilhando símbolos, valores e narrativas, que criam e recriam a realidade organizacional percebida. Stablein (2001) descreve a pesquisa etnográfica como uma “investigação a partir de dentro”, oposta àquela que “parte de fora” e caracteriza-o como interpretativo. A característica que define este tipo de pesquisa é a natureza da realidade empírica que o pesquisador pretende representar, sendo mais apropriado para a descoberta e a comunicação da realidade organizacional no que se refere ao “modus vivendi” dos participantes daquele específico universo organizacional. De acordo com Spradley (1975) a etnografia consiste em descrever a cultura. O objetivo do pesquisador que se utiliza do método etnográfico é de compreender o ponto de vista do “nativo” ou, ainda, do indivíduo ou do grupo, objeto do estudo. Apesar da concepção original pelos antropólogos para estudar culturas exóticas e sociedades primitivas Spradley (1975) entende que se trata de um método apropriado também para compreender como outras pessoas percebem suas próprias experiências e enfatiza que o etnógrafo não estuda as pessoas e sim, aprende com elas. A etnografia não pode ser considerada apenas uma técnica para a produção de novos dados e informações, pois seu foco está centrado em representação destas informações e dados em forma escrita ou visual. Para atingir este objetivo a etnografia combina o desenho 7 de pesquisa, trabalho de campo, além de vários métodos de investigação com o fim de produzir descrições, interpretações e representações situadas historicamente, politicamente e individualmente. Destarte a etnografia é tanto o processo como o produto, o que implica, necessariamente, na imersão do pesquisador no contexto estudado (TEDLOCK, 2003). Hammersley e Atkinson (1994) definem a etnografia como sendo o método de pesquisa em ciências sociais que se fundamenta na experiência próxima e pessoal, com a recomendável participação, não apenas observação, do pesquisador do fenômeno em estudo. O foco da pesquisa etnográfica pode incluir aprendizagem intensiva da linguagem, da cultura, de uma particular área de conhecimento, além de uma combinação dos métodos de pesquisa histórica, observação e entrevistas. Esta combinação metodológica produz a narrativa que faculta a interpretação simbólica pelo pesquisador. A pesquisa etnográfica possibilita aprofundar as percepções iniciais sobre um determinado fenômeno social facultando mudanças nos pontos de vista de gestores sobre as situações e problemas organizacionais, propiciando análises mais ricas ao explorar as sutilezas de natureza de comportamento humano dentro do contexto social. Segundo Mattos (2001) a etnografia pode ser definida como um processo de pesquisa que é centrado no senso questionador do pesquisador, dificultando o estabelecimento de um padrão para as técnicas e procedimentos etnográficos e obrigando o etnógrafo a conceber os procedimentos a partir do trabalho de campo e no contexto social da pesquisa adequando-os à realidade encontrada. Compreende o estudo, pela observação direta e por um período de tempo, das formas de viver de um grupo particular de pessoas vinculadas entre si, em uma unidade social representativa para o estudo. É importante destacar a centralidade das questões propostas pelo pesquisador visto que o “sujeito”, como fazedor da ação social, contribui para significar o universo pesquisado exigindo a imersão reflexiva e estruturante do processo de questionamento do etnógrafo. A etnografia estuda principalmente os padrões mais previsíveis do pensamento e do comportamento humano evidenciados em atividades cotidianas e, também, fatos e eventos ocasionais, dependentes do determinado contexto resultante da interação entre pessoas ou entre grupos. Dentro do processo da etnografia se observam os modos como os grupos sociais ou pessoas conduzem suas vidas, procurando “descobrir” o significado que orienta as pessoas (e grupos) em suas decisões e na sua ação. Neste sentido percebe-se a necessidade de longos períodos de observação para que o pesquisador possa entender e validar o significado das ações dos participantes, de forma que este seja o mais representativo possível do significado que as próprias pessoas pesquisadas dariam a esta ação, evento ou situação interpretada (GEERTZ, 1989; HAMMERSLEY e ATKINSON, 1994). Ao mesmo tempo em que o estudo etnográfico oferece vantagens relevantes, tais como a visão profunda e ao mesmo tempo ampla e integrada de uma unidade social complexa e a possibilidade de gerar conhecimentos multifocais do fenômeno em estudo Spradley (1975) destaca alguns cuidados e limites do método etnográfico: (i) dependência da capacidade, sensibilidade e do preparo do pesquisador; (ii) problemas éticos na questão de seleção de informações convenientes e na revelação de dados, implicando na necessidade de garantia de sigilo aos informantes; (iii) conscientização do pesquisador de que a reconstrução do real feita por ele nunca será a única possível ou a mais correta. Angrosino (2005) também destaca que não é possível reduzir o resultado da pesquisa etnográfica a uma forma única de verdade, representada pela voz do pesquisador. Foley e Valenzuela (2005) vão mais longe ao afirmar que numa sociedade marcada por conflitos de classe, raça e sexo, nenhum produtor do conhecimento é políticamente e ideologicamente neutro. Foley e Valenzuela (2005) constatam que a identificação do pesquisador com os pesquisados pode trazer contribuições relevantes para o processo de pesquisa etnográfica. Desta forma o etnógrafo terá maior facilidade para se ambientar no contexto e interpretar a 8 sua experiência, vivência, além de retratar os eventos presenciados. A forma de comunicar estas experiências etnográficas, entrelaçadas com emoções, segundo Tedlock (2005), é o diário etnográfico e crônica. Hammersley e Atkinson (1994) apresentam três princípios metodológicos que fundamentam a etnografia: naturalismo, compreensão e descoberta. Naturalismo procura captar a naturalidade do comportamento humano o que só pode ser conseguido por meio de contato direto e pessoal, nas suas atividades cotidianas, sem formalismo para evitar a construção artificial de realidade social. Esta forma de proceder não isenta o etnógrafo de descrever em detalhe o contexto, o que poderá viabilizar a generalização. A compreensão se baseia no argumento de que o comportamento humano difere do comportamento averiguado junto a objetos inanimados e de animais, por não se constituir de simples resposta ao estímulo, exigindo a interpretação tanto do estímulo como da resposta construída. Uma vez que for possível explicar as ações do ser humano será possível compreender as perspectivas culturais que as originaram, sendo essencial a análise e compreensão prévia da cultura dos grupos sociais para se compreender a atitude do indivíduo. A descoberta se refere ao entendimento de que o processo etnográfico de pesquisa foca a indução com base em revelações ao invés de testar hipóteses. Esta posição se apóia no argumento de que a formulação prévia de hipóteses poderá “cegar” o pesquisador para aspectos e evidências não alinhadas com as referidas hipóteses pré-concebidas. Os resultados do trabalho de pesquisa etnográfica têm sido apresentados em forma de narrativa, sendo que Tedlock (2005) reconhece três principais gêneros: a biografia ou a “história da vida”, memórias, quando autor remete o leitor para eventos mais significativos da vida pessoal dele e etnografia narrada que consiste de uma evolução dos dois gêneros anteriores, com destaque para a novela etnográfica (além de estórias curtas e peças teatrais) que combina a acurácia textual interna com a acurácia cultural externa. Tedlock (2005) reforça a importância de relatar a caracterização detalhada do grupo de indivíduos pesquisados, além do posicionamento do autor e descrição de como interpreta e constrói os comentários e da sua ausência na interpretação e relato de determinados aspectos observados. Geertz (1989) destaca que a teoria tem importante função no processo de pesquisa etnográfica por auxiliar na geração de questões que conduzem o estudo em campo, permitindo formular questões sobre como a construção da cultura em meio social. Desta forma se verifica que o pesquisador vai para o campo não apenas para aprender como as pessoas vivem, mas para compreender como estas formas particulares de conduzir a vida explicam os processos sociais e culturais dos indivíduos e dos grupos. A formulação das questões, apoiadas em fundamentos teóricos robustos, permitem ao pesquisador construir uma das principais técnicas de coleta de informação - a entrevista semiestruturada. De acordo com Treviños (1987) a entrevista semi-estruturada difere da entrevista estruturada por não ser inteiramente aberta e não ser conduzida por muitas questões préestabelecidas. Baseia-se em apenas uma ou poucas questões/guias, quase sempre abertas, mas durante a realização da entrevista é possível introduzir outras questões que emergem do processo de interação social e contextual. Como pontos fortes da utilização da entrevista semi-estruturada podem ser citados a otimização do tempo disponível, maior aprofundamento temático e como ponto fraco a necessidade de preparo do pesquisador. É possível distinguir diversos tipos de entrevistas semi-estruturadas: entrevista focal, semi-padronizada, centralizada no problema, com especialistas e entrevista etnográfica. A entrevista etnográfica pode ser caracterizada como semi-estruturada que consiste de uma série de conversas cordiais nas quais o pesquisador introduz novos elementos com o intuito de propiciar maior aprodundamento do tema. No entanto é importante destacar a diferenciação das entrevistas etnográficas das conversas cordiais: (i) solicitação específica para refrear a entrevista; (ii) explicações etnográficas, nas quais o entrevistador explica o projeto de 9 pesquisa; (iii) questões etnográficas, ou seja, questões descritivas que procuram evidenciar informações sobre as dimensões de significado que diferenciam objetos e eventos no universo do informante (TREVIÑOS, 1987). Com base no entendimento que a interação social é mediada principalmente pela linguagem sugere-se que o mais adequado dentre os métodos etnográficos seja o estudo por meio de narrativas escritas. Esta constatação deriva do fato de que a linguagem faculta ao pesquisador criar uma realidade aderente à sua visão do mundo, além de contribuir para criar e recriar a sua própria identidade. Além disso, a produção da realidade envolve valores, ou seja, o que produzir, definir a produção, facultando a compreensão das relações entre o autor e os elementos da realidade produzida (RICHARDSON e PIERRE, 2005). 5. A CONTEXTUALIZAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO MÉTODO Desde o século XVII a produção escrita estava segmentada em textos literários, fictícios e subjetivos, e científicos, que visavam apresentar fatos e dados, utilizando a linguagem objetiva e técnica. Mesmo no século XIX os textos literários e científicos continuaram mantidos em domínios separados. A produção textual literária foi alinhada com geração de conhecimento em artes, estética, ética, humanidade e moralidade, passando a utilizar a linguagem metafórica e ambígua. No entanto a exigência da forma de linguagem científica destacava a importância da objetividade, precisão, vedação ao uso de metáforas e termos ambíguos, além da não contextualidade (RICHARDSON e PIERRE, 2005). Foi apenas no século XX que a caracterização de produção literária e científica transcendeu os limites que caracterizavam até então os dois gêneros de produção textual. A separação entre a “ficção” e “fatos”, entre “verdade” e “imaginação” deixou de ser clara e inquestionável. Ao mesmo tempo em que segundo vários autores os textos produzidos devem ser considerados narrativas, independente do gênero, Richardson e Pierre (2005) entendem que ainda persiste um a diferença entre os dois estilos – a finalidade declarada pelo autor à qual o texto se destina devido à diferenciação de público-alvo e do impacto produzido sobre este público e sobre a realidade, sendo que estas diferenças não devem ser nem omitidas e nem minimizadas. No pós-modernismo se reconheceram as limitações situacionais do produtor do conhecimento desobrigando o pesquisador de buscar a neutralidade (ingênua), distanciamento do(s) objeto(s) estudado(s) e também o conhecimento geral atemporal. O pesquisador se situa dentro do contexto e narra a sua percepção da realidade a partir da posição que ocupa e com toda a subjetividade que o caracteriza. Richardson e Pierre (2005) percebem o projeto etnográfico como humanamente situado e sempre filtrado por lentes e percepções do indivíduo, com limitações e forças do sentimento humano. A abordagem pós-estruturalista faculta vincular a linguagem, a subjetividade, organização social e poder, sendo que o eixo central é representado pela linguagem. A linguagem, dentro da visão pós-estruturalista, produz significados e cria a realidade social. A linguagem define como a organização social e o poder são determinados e contestados e o lugar onde a subjetividade do indivíduo é construída. A interpretação da linguagem como discursos que competem para criar significados e organizar o mundo torna a linguagem o local de embate (RICHARDSON e PIERRE, 2005). Percebe-se o alinhamento metodológico com o propósito de estudar as variáveis subjetivas que influenciam os processos de gestão e a tomada de decisões na área de P&D com base na posição que esta unidade ocupa dentro do universo organizacional e sua importância para o processo de inovação, central para a construção de diferencial competitivo. Com orçamento significativo e relativa autonomia na alocação de recursos, a área de P&D participa ativamente do embate organizacional pelo poder e intensa interação social com as demais unidades organizacionais, mediada pela linguagem, a qual, por sua vez, constrói a 10 individualidade do sujeito dentro do contexto histórico e espacial específico. O significado individual depende do discurso do qual este dispõe, ou seja, determina os padrões de aceitabilidade de situações e de posições, da normalidade e de critérios de percepção, análise e decisão. Neste sentido a experiência e a memória estão abertas a interpretações contraditórias sujeitas a interesses sociais e de seus discursos. Desta forma o indivíduo é, ao mesmo tempo, o local e sujeito destes embates discursivos pela construção de sua identidade e sua memória, caracterizando a sua subjetividade como instável e flexível (RICHARDSON e PIERRE, 2005). No entanto a linguagem não pode ser interpretada da forma como se apresenta devido ao significado que contém, da mesma forma como a palavra, o objeto ou o pensamento nunca são idênticos. Esta afirmação se fundamenta na observação de que o significado não é portátil, ou seja, que a linguagem não pode simplesmente transportar o significado de um indivíduo para outro em decorrência da existência de um significado prelinguístico ou ainda, significado puro. Considerando-se a contínua co-criação do sujeito e da ciência social destaca-se a importância do posicionamento reflexivo do pesquisador dentro do contexto histórico, espacial e social pelo fato de que a redação de narrativas é validado como um dos métodos para a produção do conhecimento. A auto-reflexividade traz à consciência alguns dos aspectos ocultos incorporados ao texto, de caráter político e ideológico (RICHARDSON e PIERRE, 2005). Entende-se que a auto-reflexividade estimulada pela pesquisa na área de P&D por meio de narrativas escritas facultará ao pesquisador identificar as variáveis subjetivas que influenciam o processo decisório revelando as relações de poder e pressupostos ideológicos que embasam o referido processo, permitindo ao pesquisador a compreensão do funcionamento cognitivo na construção de valores organizacionais. É possível afirmar que a pesquisa por meio de narrativas escritas consiste de estudo de estórias. As estórias são onipresentes, encontrando-se em recortes históricos, novelas de ficção, contos, autobiografias, além de outros gêneros literários. As estórias se originam de depoimentos das pessoas sobre suas próprias histórias e sobre outras pessoas, fazendo parte de conversas cotidianas. Somados a estes depoimentos espontâneos os pesquisadores de narrativas fomentam estórias orais sobre temas específicos que são transcritas e analisadas. A pesquisa das narrativas é considerada como uma das abordagens de pesquisa social (POLKINGHORNE, 2007). A área de P&D representa eixo central de inovação de produtos dentro de uma organização e caracteriza-se pela intensa interação social com as demais unidades organizacionais contribuindo ativamente para construção da realidade organizacional. A história da área de P&D pode ser interpretada como um tecido complexo de percepções individuais e coletivas acerca do funcionamento organizacional traduzida por meio de narrativas idiossincráticas que se entrelaçam, ao mesmo tempo em que refletem e recriam a realidade e identidade organizacional. A pesquisa por meio de narrativas escritas possibilitará revelar aspectos que afetam o processo decisório da área de P&D reproduzindo as facetas mais relevantes da dimensão subjetiva e que são desconsideradas por outros métodos de pesquisa. A abordagem pós-modernista faculta o surgimento de um novo método de pesquisa etnográfica baseado em práticas de análise criativa que Richardson e Pierre (2005) denominam de CAP (creative analytical processes). Etnografias CAP não são técnicas alternativas e nem experimentais, sendo consideradas, por si, representações válidas da realidade social. Juntamente com demais derivações do método etnográfico esta nova forma de pesquisa do mundo social se caracteriza pela capacidade de adaptação ao contexto da realidade atual – em permanente mudança, instável e incerta (RICHARDSON e PIERRE, 2005). 11 Os etnógrafos CAP apresentam o processo de redação e o produto decorrente do respectivo processo como profundamente entrelaçados, priorizando ambos por entender que o produto não pode ser separado do produtor, do modo de produção e da forma de produzir o conhecimento. Esta posição está alinhada com a linha do pós-modernismo que percebe o ato de escrever como parcial, local e situacional com a presença constante da subjetividade do pesquisador, independente do esforço que este faça para alcançar a neutralidade tão preconizada dentro dos métodos apoiados no paradigma positivista (RICHARDSON e PIERRE, 2005). Segundo Richardson e Pierre (2005) o pesquisador deve definir a sua posição em relação ao gênero e raça devido ao fato de que os dois representam os eixos sobre os quais o mundo simbólico e real são construídos. O pesquisador pós-moderno, em especial, não pode mais pensar em pesquisa como uma forma de fazer sentido e sim averiguar as possibilidades e limites da mudança do significado, sua ascensão e desaparecimento, além de potência de revelar o funcionamento da realidade social. Desta forma o texto escrito passa a atuar ativamente em processo de pesquisa e de construção da realidade, produzindo diferentes conhecimentos e produzindo os conhecimentos de diferentes formas. A separação convencional, positivista e estrutural do processo de escrever em (i) escrever como um método de coleta de dados, por meio de entrevistas e observação e (i) escrever como um método de análise de dados (implicando em indução analítica, comparações, codificação, escolha e categorização dos dados) não faz sentido quando o processo de redação de narrativas é utilizado como um método de pesquisa. A possibilidade que se abre ao pesquisador pós-moderno é a de focar os dados que a priori não são contemplados no processo de coleta, tais como dados referentes aos sonhos, sensualidade, emoções e memória, sem se restringir a categorias pré-concebidas. A análise dos dados também pode ser realizada à medida que as palavras surgem estimulando o processo reflexivo e cognitivo facultando o surgimento de vinculações e ligações entre os tópicos abordados. Destarte os conceitos positivistas se revelam ineficazes e sem sentido (RICHARDSON e PIERRE, 2005). Segundo Polkinghorne (2007) a pesquisa por meio de narrativas se processa através de coleta de evidências e, na seqüência, analisando ou interpretando as evidências. No entanto, como os pesquisadores desta abordagem montam os textos que eles analisam, em busca de significados que contêm, as evidências que os textos apresentam podem diferir das evidências convencionais, decorrentes de observação, por exemplo. Mas é justamente esta diferença que permite a apresentação dos significados da vida ao leitor da narrativa, ou seja, os textos narrados tem sentido como evidência para significados individuais e não como fatos que pontuam a estória narrada. Vale destacar que os estilos de redação não são fixos, nem neutros, por refletir correntes teóricas dominantes, contextualizadas historicamente, de determinados paradigmas ou escolas de pensamento (RICHARDSON e PIERRE, 2005). 6. VALIDAÇÃO A noção geral da validade se refere à crença na afirmação ou no argumento baseado no conhecimento. Validade não é inerente à afirmação, mas é uma característica dada à afirmação pelo destinatário da mensagem. Em muitos casos verifica-se que as pessoas validam uma afirmação com base em autoridade de quem fala. Desta forma pode-se deduzir que o grau de validade ou de confiança da afirmação depende da força ou do poder do argumento usado pelo pesquisador ao leitor do texto. Assim a afirmação ou o conhecimento apresentado não é intrinsecamente válido, pois o processo de validação estaria apoiado sobre julgamento intersubjetivo, decorrente da interação simbólica (POLKINGHORNE, 2007). Diferentemente da pesquisa qualitativa tradicional, que institucionalizou a triangulação como uma prática recomendável, onde o pesquisador se utiliza de diferentes métodos como 12 entrevista, análise de documentos, entre outros, para validar as evidências, é facultado ao pesquisador etnográfico CAP lançar mão de textos literários, artísticos e científicos, mesclando e combinando os elementos presentes em todos os gêneros. Por esta razão a pesquisa CAP rejeita o termo de triangulação, pois a forma geométrica que melhor representa o processo de pesquisa, de construção do conhecimento e de realidade social é o cristal devido ao número de facetas que excede em muito os três lados do triângulo. Cristalização, sem perder a estrutura, permite desconstruir a idéia tradicional de validação em virtude da constatação de que inexiste apenas uma única verdade e que os textos se validam por si. A cristalização faculta a compreensão profunda e complexa do tema pesquisado (RICHARDSON e PIERRE, 2005). Diferentemente do processo de pesquisa convencional em pesquisa social que constitui instrumentos para medir a variação entre participantes com base em construto teórico, na percepção de Polkinghorne (2007) a validação da afirmação inserida dentro da narrativa depende da capacidade do autor de apresentar evidências e argumentos de forma convincente, coerente, facilitando ao leitor a compreensão da situação e do contexto, permitindo-lhe elaboração de suas próprias reflexões e interpretação. Portanto o texto não se limita a ser uma mera descrição ou recapitulação do desempenho do pesquisador. Além disso, o pesquisador não deverá buscar o nível de certeza que está além da capacidade das evidências apresentadas. No entanto as evidências apresentadas em narrativas possuem limitações e ameaças à sua validade e as quais o pesquisador precisa reconhecer. Polkinghorne (2007) destaca como uma das principais ameaças o fato de que as descrições verbais fornecidas pelos pesquisados quanto aos significados de suas experiências não podem ser considerados fiéis reflexos destes significados. Esta constatação se deve à supressão de aspectos mais obscuros da experiência, pelos próprios pesquisados. Além disso, é possível enumerar quatro outras fontes de distorções: (i) os limites naturais da linguagem para retratar a complexidade do significado da experiência; (ii) a dificuldade de trazer aspectos da experiência que estão no inconsciente do pesquisado; (iii) a resistência das pessoas para revelar em plenitude os significados das suas experiências e (iv) a complexidade decorrente do fato de que os textos construídos são coproduzidos com o autor. A validação das narrativas pode ser reforçada pela adoção da prática do processo de interação entre o pesquisador e o pesquisado por meio do qual os textos produzidos são apresentados aos participantes para esclarecimentos adicionais e resposta às questões que emergiram durante a elaboração do texto. Além disso, o pesquisado terá oportunidade para checar o teor dos significados das experiências narradas por ele ao pesquisador (POLKINGHORNE, 2007). Ao proceder à fase de interpretação das narrativas Polkinghorne (2007) recomenda que a interpretação seja um comentário que desvenda e esclarece ao leitor os aspectos dúbios presentes na narrativa. Em alguns casos o autor pode comparar aspectos específicos dentro da narrativa com outros textos, identificar o tipo de trama que se desenrola ou contextualizar a narrativa dentro do ambiente social ou cultural correspondente que exerceu a influência sobre a estória narrada. Este processo não é possível realizar de forma mecânica e procedimental, exigindo do autor a capacidade de reconhecimento de padrões e de similaridades, envolvendo apenas e tão somente os processos cognitivos do pesquisador. Dentro desta perspectiva Polkinghorne (2007) reconhece dois tipos de abordagem: (i) compreensiva, que assegura ao autor a possibilidade de transcender ou quebrar as circunstâncias históricas com fins de reproduzir o significado ou intenção do pesquisado e (ii) hermenêutica filosófica que afirma ser possível interpretar a narrativa como um diálogo de conversação cujo significado é o produto da interação entre o pesquisador e o pesquisado. 13 CONSIDERAÇÕES FINAIS O tecido organizacional é construído com base em relações sociais e de poder que se manifestam por meio de símbolos, valores, mitos e narrativas, entre outros, criando e recriando permanentemente a realidade da organização e contribuindo para definir a identidade individual e coletiva das pessoas que compartilham aquele espaço social. Mesmo em unidades organizacionais percebidas e interpretadas como eminentemente técnica verificase intensa interação entre as pessoas que compartilham percepções acerca do universo organizacional e assumem posições, participando ativamente da construção de valores e da identidade organizacional. Cada indivíduo com base na sua percepção dos eventos organizacionais produz a sua própria narrativa, o seu próprio discurso, do qual ele é autor e personagem. Independente da natureza da tarefa exercida pelo indivíduo ou atividade organizacional atribuída a uma determinada unidade organizacional, toda organização se caracteriza pela a interação social e por narrativas que contribuem para a compreensão da organização, da sua história e do seu funcionamento. A dimensão subjetiva que permeia o ambiente organizacional se manifesta com mesma intensidade em todas as áreas organizacionais, mesmo nas percebidas como eminentemente técnicas, como a P&D e Produção, entre outras. Apesar do reconhecimento da influência das variáveis subjetivas em toda organização, inclusive nas áreas técnicas, muitos autores preferem conduzir as pesquisas no âmbito dos métodos convencionais e ao abrigo de paradigma positivista, seja por segurança, seja pela tecnicidade manifesta das respectivas unidades organizacionais. Entende-se que estas práticas de pesquisa deixam a desejar, tanto em pressupostos teóricos como metodológicos, na questão de compreensão dos processos de gestão, em especial a tomada de decisão. Desta forma procurou-se, no presente ensaio, abordar o método de estudo por meio de narrativas dentro da abordagem etnográfica como a opção metodológica mais aderente aos propósitos da pesquisa do ambiente organizacional da área de P&D, voltada, especialmente, para averiguar as variáveis subjetivas que podem exercer a influência sobre o processo decisório. BIBLIOGRAFIA ANGROSINO, Michael. 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