Análise de Narrativas como Abordagem Metodológica no Estudo de Subjetividade
da Área de P&D
Autoria: Dusan Schreiber, Ivan Antônio Pinheiro
Resumo
O ambiente de mercado cada vez mais competitivo exige das empresas a constituição de
diferenciais competitivos. A inovação corporativa, tanto de produtos como de processos,
vinculada à gestão de conhecimentos organizacionais, é considerado, atualmente, uma das
fontes mais relevantes para a constituição destes diferenciais. O setor de P&D, na maioria das
organizações, detém a função de organizar estes conhecimentos e fazê-los convergir para o
processo de inovação, com foco em sustentabilidade econômica, via produtos e processos.
Apesar de estereotipada pelo senso comum como uma área eminentemente técnica, que
fundamenta suas decisões em argumentos racionais e objetivos, existem evidências de
subjetividades na área de P&D que podem interferir no processo decisório. Devido a
especificidades que caracterizam esta unidade organizacional, entende-se que a pesquisa
destas subjetividades exige uma abordagem metodológica inovadora, que constitui o
propósito deste ensaio.
INTRODUÇÃO
O contexto atual, de crescente competitividade, exige das organizações o
desenvolvimento de um conjunto de competências para enfrentar a concorrência e permanecer
no mercado. Entre estas competências destaca-se a capacidade de inovar produtos e processos
com o objetivo de atender as expectativas do mercado consumidor no tocante a design,
qualidade, funcionalidade e preço. Além destes atributos considera-se essencial que a
organização realize a inovação de produtos em períodos temporais cada vez mais curtos.
A referida caracterização do processo de inovação impacta diretamente na capacidade
da organização de inovar também em processos de gestão possibilitando a reflexão sobre
novas formas de organizar os recursos e tomar decisões à luz da complexidade tanto do
ambiente externo como do universo organizacional. Percebe-se que a competência em
organizar os recursos de forma inovadora e tomar decisões com vista à otimização dos
recursos internos e explorando as oportunidades externas constitui a base para a construção do
diferencial competitivo das organizações.
Uma das áreas organizacionais diretamente vinculadas à inovação de produtos é a área
de P&D - Pesquisa e Desenvolvimento. Com concepção original fundamentada em critérios
objetivos, normativos e técnicos, a área de P&D foi estruturada para a realização de atividades
operacionais de pesquisa básica e aplicada, mas sempre voltada para a sustentabilidade
econômica (WESTWOOD e SEKINE, 1988; STOKES, 2005). Posteriormente a função de
P&D foi ampliada, com a inclusão de “uso” ou “utilidade” que transcende a mera viabilidade
econômica, pois permite à organização visualizar novos benefícios das atividades vinculadas
a P&D (STOKES, 2005; O´CONNOR e AYRES, 2005). Trata-se de novas competências e
conhecimentos, decorrentes das atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas na
interação com as demais áreas e unidades organizacionais (MCNULTY e WHITTINGTON,
1992) configurando um conceito multidisciplinar da área de P&D, onde cada uma das
unidades organizacionais pode contribuir para o desenvolvimento de novos produtos e
processos operacionais.
Ao mesmo tempo em que a interdisciplinaridade da área de P&D possibilita a
construção de um diferencial competitivo ímpar, implica na crescente influência das variáveis
subjetivas organizacionais sobre os processos de gestão. A cultura organizacional constituída
com base em símbolos, narrativas, linguagem e mitos, entre outros, permeia o tecido da
organização e manifesta-se em todas as ações, seja no âmbito individual ou coletivo. Também
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as relações sociais e de poder contribuem ativamente para construir e reconstruir a realidade
organizacional por meio de valores, objetivos e crenças que são compartilhadas por
indivíduos que se associam com base em similitude de seus interesses pessoais, alinhados ou
não com os interesses organizacionais. Constata-se que a racionalidade e objetividade
evidenciadas pela literatura da primeira metade do século passado em áreas eminentemente
técnicas, tais como produção e P&D, cede espaço para variáveis mais sutis e subjetivas, de
cunho político, social, cognitivo e perceptivo.
No entanto, apesar do reconhecimento da subjetividade evidenciada nos ambientes
organizacionais das áreas consideradas técnicas maior parte das pesquisas realizadas para
identificar e mensurar as variáveis que exercem a influência sobre seu funcionamento opta por
métodos de pesquisa de natureza quantitativa, positivista e normativa. Desta forma os
resultados obtidos acabam por refletir os pressupostos teóricos e metodológicos e evidenciam
aspectos mais objetivos de gestão, contribuindo muito pouco para demonstrar as relações
subjetivas que permeiam o tecido organizacional e afetam o gestor nas suas decisões.
Entende-se, por esta razão, que se justifica a concepção de uma abordagem de cunho
qualitativo que possa facultar a realização de uma análise mais profunda dos processos de
decisão dentro da área de P&D. No entanto, dentre as alternativas metodológicas de natureza
qualitativa percebe-se que o método que apresenta melhores condições para conduzir a
pesquisa da dimensão subjetiva da área de P&D é a etnografia por possibilitar a análise
reflexiva e compreensiva desta unidade organizacional constituída de pessoas em permanente
interação, compartilhando símbolos, valores e narrativas, que criam e recriam a realidade
organizacional percebida.
Em face da mediação desta interação social principalmente pela linguagem sugere-se a
opção por uma abordagem metodológica inovadora, mas que está mais alinhada com a
proposta da pesquisa, ou seja, o estudo por meio de narrativas escritas. Esta sugestão se baseia
na constatação de que a linguagem faculta ao pesquisador criar uma realidade aderente à sua
visão do mundo, além de contribuir para criar e recriar a sua própria identidade. Além disso, a
produção da realidade envolve valores, facultando assim a compreensão das relações entre o
autor e os elementos da realidade produzida (RICHARDSON e PIERRE, 2005).
1. CONTEXTO DA ÁREA DE P&D
Fazer ou não fazer P&D (pesquisa e desenvolvimento) deixou de ser uma opção para a
totalidade das organizações que operam em segmentos industriais como o de tecnologia
complexa, de bens de capital, de produtos de alta tecnologia, notadamente em eletroeletrônica, biotecnologia, nanotecnologia, química, mecânica, cerâmica, além de setores que
operam com produtos de consumo final que, devido à concorrência cada vez mais acirrada,
passam pelo desafio de aumentar a variedade e reduzir o tempo de desenvolvimento e
produção. Segundo Schumpeter (1982) a sobrevivência e lucro extraordinário são reservados
apenas para o empreendedor inovador, ou seja, para quem inova em produtos ou processos
criando assim o diferencial competitivo e assumindo a liderança do segmento onde atua.
Como conseqüência desta percepção verificou-se aporte significativo de recursos para o
P&D industrial na medida em que esta área organizacional propicia condições para
transformar o conhecimento incorporado pela empresa na sua linha de produtos com fins de
satisfazer as necessidades de seus clientes atuais ou criam novas necessidades (MORT, 2001).
Como uma das fontes mais destacadas de geração do conhecimento, a área de P&D representa
o repositório do recurso competitivo de valor agregado mais relevante e oferece a condição
ímpar de diferenciação (MADHOK, 1996; LANGLOIS, 2003).
No entanto, nos anos setenta a lógica de inovar para vencer a concorrência foi desafiada
na sua essência, pois com maioria das organizações investindo em inovação, o ciclo de vida
de produtos foi reduzido, o custo de inovar cresceu extraordinariamente e a taxa de inovações
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viáveis comercialmente baixou, aumentando o risco do empreendedor inovador. Mas como a
cultura de inovar já estava institucionalizada inexistia qualquer chance de reverter o processo.
Mediante esta constatação as organizações mudaram o foco para inovar da forma certa, em
produtos certos, em momentos oportunos e a custo reduzido, ou seja, uma questão de
organização.
Com o intuito de encontrar a concepção estratégica ideal foram adotados novos métodos
de pesquisa, caracterizados pelo maior controle para facilitar o acompanhamento dos
processos e acompanhar melhor seus efetivos custos, além de facultar à organização a
apropriação de seus resultados. Os pesquisadores se especializaram em procedimentos
específicos e processos operacionais foram desenhados de tal forma que os conhecimentos
gerados numa etapa pudessem ser combinados com os conhecimentos resultantes das etapas
anteriores, ou seja, conhecimento particionado ou modular. Os procedimentos passaram a ser
registrados, tanto para preservar a memória de cada uma das linhas de pesquisa, como para
reduzir ou evitar retrabalhos, facultando ao gestor maior controle sobre o processo
operacional (FELLS, 2000; PEAUCELLE, 2000). Desta forma, integrada ao ambiente
organizacional, a área de P&D passou a fazer parte do sistema de significados
organizacionais, constituindo um de seus elementos simbólicos e normativos, reforçados por
processos regulatórios (SCOTT, 1994).
Como resultado deste processo verifica-se a existência de uma realidade complexa e
multifacetada da área de P&D que se reflete em processos de gestão, especialmente no
processo decisório que procura definir a forma de sua realização (externa, interna ou
combinada). Ao mesmo tempo em que são considerados elementos objetivos emergem
variáveis subjetivas que podem alterar a percepção da realidade interpretada com base em
fatos e evidências aparentemente destituídos de subjetividade. As pessoas, cada uma com sua
própria experiência e trajetória, pessoal e profissional, que orientam a sua construção
individual de perceber o mundo e a interpretar a realidade contextual, encontram dentro do
ambiente organizacional um conjunto de significados que passam a compartilhar com outras
pessoas, alterando o seu modo de ver a realidade, tanto interna (organizacional) como externa
à organização. Pulaski (1986) afirma que durante o processo de interação é oportunizado às
pessoas testar seus conceitos e modos de pensar, sendo que ao final do processo a pessoa
retém apenas os modelos mentais validados a partir da interação social. Cook e Brown (1999)
evidenciam que os ambientes de convivência entre pessoas representam espaços de
construção de novos conhecimentos, a partir da interação conceitual e da comparação de
valores cognitivos individuais.
No entanto, o choque de diferentes modos de ver o mundo, de conceitos e percepções
também pode provocar conflitos e questionamentos. Considerando-se que é o papel do gestor,
a priori, na qualidade de líder, de compreender a realidade organizacional, os cenários
internos e externos, identificar e interpretar as dimensões subjetivas da organização, e, com
base neste entendimento, de tomar decisões, fazer escolhas entre alternativas na aplicação dos
recursos organizacionais sob sua gestão, surge a necessidade de uma reflexão mais profunda
sobre como gestor procede e sobre os critérios nos quais ele fundamenta as suas opções.
2. ESTUDO QUALITATIVO
Para Rocha (2007) os métodos qualitativos são particularmente úteis em estudos
exploratórios, em casos de problemas pouco estudados e conhecidos, permitindo exploração
por meio de questões pouco estruturadas. Com base em estudos empíricos pode ser verificar
que em organizações os estudos qualitativos possuem melhores aplicações em pesquisas de
processos e longitudinais, análise de culturas e sub-culturas. A maior aderência metodológica
se percebe em estudos de processos devido ao grande número de fatores intervenientes, em
que as relações entre os fatores são de alta complexidade. Dentre os processos destaca-se o
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processo decisório, pelo envolvimento de diversos indivíduos na organização e de influências
culturais. No caso de pesquisa dos processos decisórios organizacionais Rocha (2007)
recomenda o estudo de caso e indica a opção pelo método de grupos de foco e as entrevistas
em profundidade para o entendimento de processos decisórios individuais.
A pesquisa qualitative faculta o enriquecimento do conhecimento acadêmico e gerencial
devido ao seu potencial de oferecer uma compreensão exaustiva da dinâmica social. A
proximidade do pesquisador dos informantes e a utilização das múltiplas técnicas para a
coleta de dados e execução da análise reforçam a oportunidade para assimilar o real
comportamento dos atores organizacionais e assim descobrir a real estrutura organizacional e
a intrincada rede de relacionamentos sobre os quais a organização está construída
(BERTOLOTTI e TAGLIAVENTI, 2007).
Segundo Laville (1999) a simples observação dos fatos humanos e sociais possibilita
evidenciar problemas que não se encontram em ciências naturais, ou seja, os fatos não podem
ser considerados como “coisas” uma vez que os objetos de estudo pensam, agem e reagem,
interpretando a situação e agindo a partir da interpretação, da mesma forma como faz o
próprio pesquisador, exercendo a influência durante o próprio processo de pesquisa. Ou seja,
em ciências humanas o pesquisador é mais do que um observador objetivo: ele é um ator
envolvido no processo. Verifica-se, também, que os fenômenos humanos repousam sobre a
multicausalidade, ou seja, sobre um encadeamento de fatores, que variam em suas
características e que se conjugam e que interagem. É isso que deve ser compreendido pelo
pesquisador, para verdadeiramente conhecer os fatos humanos.
Os métodos qualitativos, principalmente a observação descritiva e as entrevistas, são tão
antigos como a história escrita. As origens de trabalho de campo podem ser encontradas pelos
historiadores nos escritos produzidos pelos viajantes e comerciantes como os de Heródoto e o
Marco Pólo. No entanto apenas no final do século XIX e durante século XX estes trabalhos
foram classificados como estudos qualitativos. Pode-se dizer que o precursor do método é
Frederick LePlay que em 1855 produziu um relato sobre famílias e comunidades européias
num processo que mais adiante foi caracterizado como observação participante. Já os
princípios do processo de pesquisa qualitativa em campo foram estabelecidos por Boas em
1911 e por Malinowski em 1932, sendo que o segundo é considerado o primeiro antropólogo
profissional que proporcionou uma descrição do processo investigativo que empregou no seu
trabalho (TAYLOR e BOGDAN, 1998; GODOY, 1995)
Segundo Golafshani (2003) a pesquisa qualitativa utilize a abordagem naturalista que
visa compreender o fenômeno dentro do contexto, ou seja, no mundo real dentro do qual o
objeto de pesquisa está inserido e que não é passível de manipulação com fins do estudo
pretendido. Desta forma a pesquisa qualitativa pode ser definida como qualquer tipo de
pesquisa que produz evidências baseadas em condições do mundo real procurando
compreender e a partir daí extrapolar os resultados para situações similarmente construídas.
Para Holanda (2006) os métodos qualitativos são métodos das ciências humanas que
pesquisam, explicitam, analisam, fenômenos (visíveis ou ocultos) e que não são passíveis de
serem medidos. Trata-se, por exemplo, de crenças, uma representação, um estilo pessoal de
relação com o outro, uma estratégia face um problema, um procedimento de decisão..., que
constituem os “fatos humanos”. O estudo desses fatos humanos se realiza com as técnicas de
pesquisa e análise que, escapando a toda codificação e programação sistemáticas, repousam
essencialmente sobre a presença humana e a capacidade de empatia, de uma parte, e sobre a
inteligência indutiva e generalizante, de outra parte.
Segundo Godoy (1995) a pesquisa qualitativa envolve a obtenção de dados descritivos
sobre pessoas, lugares e processos interativos pelo contato direto do pesquisador com a
situação estudada, procurando compreender os fenômenos segundo a perspectiva dos sujeitos,
ou seja, dos participantes da situação em estudo, de forma holística – sem redução do
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fenômeno observado a variáveis. As expressões “pesquisa de campo” e “pesquisa
naturalística” podem ser consideradas como sinônimos da pesquisa qualitativa com o objetivo
de evidenciar as características da pesquisa que foca o estudo do sujeito em seu ambiente
natural e de forma não intervencionista, visando a compreensão do fenômeno minimizando o
papel de pressuposições admitidas a priori. Para atender a finalidade de retratar os fatos
sociais entende-se pertinente a utilização de equipamentos de áudio e vídeo, além de
anotações em diário de campo, sendo o pesquisador o instrumento mais importante, devido à
centralidade ocupada pela comunicação dos resultados – em forma escrita do fenômeno em
questão. No entanto é vital destacar que as evidências encontradas durante a pesquisa
qualitativa não visam confirmar ou refutar qualquer hipóteses.
3. CONSTRUINDO O OBJETO DE PESQUISA
Segundo Stablein (2001) todos os dados são representações, no entanto nem todas as
representações são dados. Os dados obtidos dos estudos organizacionais, como
representações, sugerem coisas que são representadas, e um processo de representação
exigindo exame para separar os dados de outros tipos de representação. Como prática social,
os dados organizacionais configuram empreendimentos de diversas naturezas: intelectual,
econômica, política e moral.
A dimensão subjetiva retratada vem a contrastar com o senso comum e noções
estereotipadas que se manifestam de forma recorrente tanto em meio acadêmico, como em
meio empresarial, acerca das características da área de P&D e que, consequentemente, deve
ser levada em consideração, no processo decisório que visa definir sua a forma (interna,
externa ou combinada). Seduzidos pelas facilidades proporcionadas pelas aparências, muitos
pesquisadores positivistas apropriaram-se de métodos alinhados com o seu ponto de vista e
retrataram o aparente, reproduzindo e recriando derivações das variáveis e fatores visíveis e
auto-evidentes, confirmando hipóteses e reforçando posicionamentos destituídos de sentido
mais profundo.
Ao estudar o processo de pesquisa em ciências sociais Bourdieu (2005) evidenciou
situações similares que lhe possibilitaram afirmar que as aparências estão sempre a favor do
aparente. Além disso, observou, também, que seguindo a metodologia ortodoxa, é possível,
por meio da escolha de uma amostra aleatória, mutilar o objeto que se busca construir. Este é
o perigo que se configura para o pesquisador positivista, que substitui a opinião ingênua do
senso comum pela opinião igualmente ingênua do senso comum acadêmico.
Uma realidade empírica pode ser interpretada como um conjunto de idéias constituídas,
desenvolvidas e sustentadas por uma subcomunidade de teóricos em estudos organizacionais.
Os dados da pesquisa são produzidos por um processo de representação que é documentado
pela suposição de representação da realidade. O fato de que a área de P&D denota
características eminentemente técnicas, evidenciadas pela infra-estrutura laboratorial,
procedimentos definidos, regras, diretrizes, registros, testes, além de pessoal altamente
qualificado e com competência técnica em níveis mais elevados à média organizacional, induz
muitos pesquisadores a adotar posicionamentos objetivos, renegando ao segundo plano a
evidência de rede de relações sociais, relações de poder, presença de mitos, símbolos,
narrativa e interpretações da realidade, que não cabem no modelo positivista de pesquisa.
Bourdieu (1996) destaca que a análise e representação dos atos dos agentes sociais
envolvidos em eventos só poderão ter a sua plena compreensão apenas se o pesquisador
conseguir capturar a origem social das estruturas cognitivas destes agentes. Esta necessidade
deriva do fato de que os agentes constroem a realidade social e entram em embate visando
impor a sua visão do mundo alinhada com os interesses e objetivos pessoais. Desta forma a
definição do método de pesquisa deverá ser fundamentada no conhecimento de que todo
objeto propriamente científico é consciente e metodicamente construído.
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Destarte pode-se afirmar que a ciência se constitui ao construir seu objeto contra o senso
comum, ou seja, “nada se opõe mais às evidências do senso comum do que a distinção entre o
objeto “real”, pré-construído pela percepção, e o objeto da ciência, como sistema de relações
construídas propositalmente” (BOURDIEU, 2004, pg. 46).
No processo de construção do objeto constata-se a utilização de denominações que
atribuem ao objeto um determinado estatuto ontológico, implicando na sua pré-construção,
evidenciando o primeiro grau da ruptura epistemológica (BOURDIEU, 2004). Neste sentido
recomenda-se a definição do objeto de pesquisa e sua construção em função de uma
problemática teórica que possibilite realizar a sua análise sistemática dos aspectos da
realidade delimitados pela questão formulada. Destarte, o embasamento teórico deverá estar
presente, no processo de pesquisa teórica, desde a sua concepção até a interpretação dos
resultados. Assim pode-se dizer que o método, por si só, não gera nada.
Mesmo as escolhas mais elementares na questão de tratamento da informação implicam
em escolhas epistemológicas e mesmo uma teoria do objeto (BOURDIEU, 2004). Toda
operação, por mais parcial que seja, implica sempre a dialética entre a teoria e verificação. A
observação é tanto mais científica quanto mais consciente e mais sistemático for o princípio
teórico de que se serve, ou seja, a constatação pressupõe a construção.
Na questão de construção de modelos, Bourdieu (1996) entende que os mesmos
representam um sistema de relações entre as propriedades selecionadas, abstratas e
simplificadas, sendo construído conscientemente com o objetivo de descrever, explicar ou
prever. O modelo teórico é essencialmente construção e ruptura pela necessidade de romper
com as semelhanças fenomenais para construir as analogias considerando que a ruptura com
as relações aparentes pressupõe a construção de novas relações entre as aparências,
realizando, também, a depuração formal das relações entre as relações que definem os objetos
construídos.
Na utilização de analogias Bourdieu (1996) afirma que raciocinar por analogia é formar
um raciocínio baseado nas semelhanças ou relações de uma coisa com a outra e considera que
a analogia é uma forma legítima de comparação e a intuição, desde que controlada, tem
função importante em construir hipóteses e contribuir para o controle epistemológico das
outras operações.
Bourdieu (2005) observa, também, que construir um objeto científico exige, do
pesquisador assumir uma postura ativa e sistemática, além da necessidade do rompimento
com a passividade empirista, que apenas busca confirmar as pré-construções do senso
comum. Na medida em que constata que os objetos pré-construídos estão por toda parte
Bourdieu (2005) considera como a prioridade científica fundamental tomar por objeto de
estudo o trabalho social de construção deste objeto pré-construído e destaca a importância da
atenção aos detalhes do processo de pesquisa pelo risco de os instrumentos teóricos como
habitus, campo e capital serem considerados em si mesmo e por si mesmo, ao invés de serem
colocados em ação (BOURDIEU, 2004).
Ao analisar o processo decisório que visa definir a forma de realizar P&D percebem-se
os riscos que Bourdieu (2005) destacou na condução de pesquisas em ciências sociais. O
primeiro deles se refere à pré-construção do objeto, que pode ser induzida tanto pela questão
paradigmática do pesquisador como pela linguagem e taxinomia, que implicam na escolha,
mesmo inconsciente, da abordagem teórica. Verifica-se, também, a força do pré-construído no
mundo social tanto em objetos como nas mentes das pessoas, apresentando-se no formato de
auto-evidência e inquestionável.
Outro risco que Bourdieu (2005) menciona refere-se à utilização de dados coletados ao
abrigo de uma determinada teoria, com fins de confirmar ou refutar hipóteses construídas à
luz de outra teoria. Neste sentido até mesmo a busca pela neutralidade ética poderá resultar
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em erro epistemológico. Bourdieu (1996) destaca, também, a importância da influência do
campo político, em especial do campo burocrático, o qual na área de P&D é significativo.
Diferentes axiomas e paradigmas estimulam o emprego de métodos de pesquisa que
potencializam a possibilidade de cristalizar diferentes percepções e, consequentemente,
conclusões, sobre o mesmo tema. Ao construir o objeto estudado com as lentes que diferem
em formatos e cores, emerge e se materializa um fenômeno diferente dentro de cada uma das
abordagens teóricas, assegurando achados e evidências que terminam por confirmar e reforçar
as características pré-concebidas do objeto estudado.
Quando se analisam os processos que permeiam a área de P&D verifica-se a existência
de um conjunto de aspectos que podem conduzir um pesquisador sem adequado embasamento
teórico a interpretações e conclusões simplistas e destituídas de significação, mesmo que ele
demonstre a competência na utilização das ferramentas metodológicas. Os achados autoevidentes podem confirmar as aparências, ingenuamente interpretadas e traduzidas em
linguagem acadêmica politicamente correta e aceita.
Com o fim de facultar a condução do processo de pesquisa da dimensão subjetiva da
área de P&D procurou-se, nesta seção, revisar o conjunto de pressupostos teóricos que
fundamentam a construção e conseqüente condução do processo de pesquisa social e desta
forma abrir novos caminhos em pesquisa do processo decisório na definição da forma de
realizar P&D. Nesta perspectiva percebe-se que a etnografia e entrevista etnográfica muito
têm a contribuir nesta direção.
4. ETNOGRAFIA E ENTREVISTA ETNOGRÁFICA
Apesar do reconhecimento da subjetividade evidenciada nos ambientes organizacionais
das áreas consideradas técnicas maior parte das pesquisas realizadas para identificar e
mensurar as variáveis que exercem a influência sobre seu funcionamento optou por métodos
convencionais de pesquisa, de natureza quantitativa, positivista e normativa. Desta forma os
resultados obtidos refletiram os pressupostos teóricos e metodológicos e evidenciaram
aspectos mais objetivos de gestão, contribuindo muito pouco para demonstrar as relações
subjetivas que permeiam o tecido organizacional e afetam o gestor nas suas decisões.
Entende-se que o método mais apropriado para realizar a pesquisa da dimensão
subjetiva da área de P&D é a etnografia por possibilitar a análise reflexiva e compreensiva
desta unidade organizacional constituída de pessoas em permanente interação,
compartilhando símbolos, valores e narrativas, que criam e recriam a realidade organizacional
percebida.
Stablein (2001) descreve a pesquisa etnográfica como uma “investigação a partir de
dentro”, oposta àquela que “parte de fora” e caracteriza-o como interpretativo. A
característica que define este tipo de pesquisa é a natureza da realidade empírica que o
pesquisador pretende representar, sendo mais apropriado para a descoberta e a comunicação
da realidade organizacional no que se refere ao “modus vivendi” dos participantes daquele
específico universo organizacional.
De acordo com Spradley (1975) a etnografia consiste em descrever a cultura. O objetivo
do pesquisador que se utiliza do método etnográfico é de compreender o ponto de vista do
“nativo” ou, ainda, do indivíduo ou do grupo, objeto do estudo. Apesar da concepção original
pelos antropólogos para estudar culturas exóticas e sociedades primitivas Spradley (1975)
entende que se trata de um método apropriado também para compreender como outras
pessoas percebem suas próprias experiências e enfatiza que o etnógrafo não estuda as pessoas
e sim, aprende com elas.
A etnografia não pode ser considerada apenas uma técnica para a produção de novos
dados e informações, pois seu foco está centrado em representação destas informações e
dados em forma escrita ou visual. Para atingir este objetivo a etnografia combina o desenho
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de pesquisa, trabalho de campo, além de vários métodos de investigação com o fim de
produzir descrições, interpretações e representações situadas historicamente, politicamente e
individualmente. Destarte a etnografia é tanto o processo como o produto, o que implica,
necessariamente, na imersão do pesquisador no contexto estudado (TEDLOCK, 2003).
Hammersley e Atkinson (1994) definem a etnografia como sendo o método de pesquisa
em ciências sociais que se fundamenta na experiência próxima e pessoal, com a recomendável
participação, não apenas observação, do pesquisador do fenômeno em estudo. O foco da
pesquisa etnográfica pode incluir aprendizagem intensiva da linguagem, da cultura, de uma
particular área de conhecimento, além de uma combinação dos métodos de pesquisa histórica,
observação e entrevistas. Esta combinação metodológica produz a narrativa que faculta a
interpretação simbólica pelo pesquisador. A pesquisa etnográfica possibilita aprofundar as
percepções iniciais sobre um determinado fenômeno social facultando mudanças nos pontos
de vista de gestores sobre as situações e problemas organizacionais, propiciando análises mais
ricas ao explorar as sutilezas de natureza de comportamento humano dentro do contexto
social.
Segundo Mattos (2001) a etnografia pode ser definida como um processo de pesquisa
que é centrado no senso questionador do pesquisador, dificultando o estabelecimento de um
padrão para as técnicas e procedimentos etnográficos e obrigando o etnógrafo a conceber os
procedimentos a partir do trabalho de campo e no contexto social da pesquisa adequando-os à
realidade encontrada. Compreende o estudo, pela observação direta e por um período de
tempo, das formas de viver de um grupo particular de pessoas vinculadas entre si, em uma
unidade social representativa para o estudo. É importante destacar a centralidade das questões
propostas pelo pesquisador visto que o “sujeito”, como fazedor da ação social, contribui para
significar o universo pesquisado exigindo a imersão reflexiva e estruturante do processo de
questionamento do etnógrafo.
A etnografia estuda principalmente os padrões mais previsíveis do pensamento e do
comportamento humano evidenciados em atividades cotidianas e, também, fatos e eventos
ocasionais, dependentes do determinado contexto resultante da interação entre pessoas ou
entre grupos. Dentro do processo da etnografia se observam os modos como os grupos sociais
ou pessoas conduzem suas vidas, procurando “descobrir” o significado que orienta as pessoas
(e grupos) em suas decisões e na sua ação. Neste sentido percebe-se a necessidade de longos
períodos de observação para que o pesquisador possa entender e validar o significado das
ações dos participantes, de forma que este seja o mais representativo possível do significado
que as próprias pessoas pesquisadas dariam a esta ação, evento ou situação interpretada
(GEERTZ, 1989; HAMMERSLEY e ATKINSON, 1994).
Ao mesmo tempo em que o estudo etnográfico oferece vantagens relevantes, tais como a
visão profunda e ao mesmo tempo ampla e integrada de uma unidade social complexa e a
possibilidade de gerar conhecimentos multifocais do fenômeno em estudo Spradley (1975)
destaca alguns cuidados e limites do método etnográfico: (i) dependência da capacidade,
sensibilidade e do preparo do pesquisador; (ii) problemas éticos na questão de seleção de
informações convenientes e na revelação de dados, implicando na necessidade de garantia de
sigilo aos informantes; (iii) conscientização do pesquisador de que a reconstrução do real feita
por ele nunca será a única possível ou a mais correta. Angrosino (2005) também destaca que
não é possível reduzir o resultado da pesquisa etnográfica a uma forma única de verdade,
representada pela voz do pesquisador. Foley e Valenzuela (2005) vão mais longe ao afirmar
que numa sociedade marcada por conflitos de classe, raça e sexo, nenhum produtor do
conhecimento é políticamente e ideologicamente neutro.
Foley e Valenzuela (2005) constatam que a identificação do pesquisador com os
pesquisados pode trazer contribuições relevantes para o processo de pesquisa etnográfica.
Desta forma o etnógrafo terá maior facilidade para se ambientar no contexto e interpretar a
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sua experiência, vivência, além de retratar os eventos presenciados. A forma de comunicar
estas experiências etnográficas, entrelaçadas com emoções, segundo Tedlock (2005), é o
diário etnográfico e crônica.
Hammersley e Atkinson (1994) apresentam três princípios metodológicos que
fundamentam a etnografia: naturalismo, compreensão e descoberta. Naturalismo procura
captar a naturalidade do comportamento humano o que só pode ser conseguido por meio de
contato direto e pessoal, nas suas atividades cotidianas, sem formalismo para evitar a
construção artificial de realidade social. Esta forma de proceder não isenta o etnógrafo de
descrever em detalhe o contexto, o que poderá viabilizar a generalização. A compreensão se
baseia no argumento de que o comportamento humano difere do comportamento averiguado
junto a objetos inanimados e de animais, por não se constituir de simples resposta ao
estímulo, exigindo a interpretação tanto do estímulo como da resposta construída. Uma vez
que for possível explicar as ações do ser humano será possível compreender as perspectivas
culturais que as originaram, sendo essencial a análise e compreensão prévia da cultura dos
grupos sociais para se compreender a atitude do indivíduo. A descoberta se refere ao
entendimento de que o processo etnográfico de pesquisa foca a indução com base em
revelações ao invés de testar hipóteses. Esta posição se apóia no argumento de que a
formulação prévia de hipóteses poderá “cegar” o pesquisador para aspectos e evidências não
alinhadas com as referidas hipóteses pré-concebidas.
Os resultados do trabalho de pesquisa etnográfica têm sido apresentados em forma de
narrativa, sendo que Tedlock (2005) reconhece três principais gêneros: a biografia ou a
“história da vida”, memórias, quando autor remete o leitor para eventos mais significativos da
vida pessoal dele e etnografia narrada que consiste de uma evolução dos dois gêneros
anteriores, com destaque para a novela etnográfica (além de estórias curtas e peças teatrais)
que combina a acurácia textual interna com a acurácia cultural externa. Tedlock (2005)
reforça a importância de relatar a caracterização detalhada do grupo de indivíduos
pesquisados, além do posicionamento do autor e descrição de como interpreta e constrói os
comentários e da sua ausência na interpretação e relato de determinados aspectos observados.
Geertz (1989) destaca que a teoria tem importante função no processo de pesquisa
etnográfica por auxiliar na geração de questões que conduzem o estudo em campo, permitindo
formular questões sobre como a construção da cultura em meio social. Desta forma se verifica
que o pesquisador vai para o campo não apenas para aprender como as pessoas vivem, mas
para compreender como estas formas particulares de conduzir a vida explicam os processos
sociais e culturais dos indivíduos e dos grupos.
A formulação das questões, apoiadas em fundamentos teóricos robustos, permitem ao
pesquisador construir uma das principais técnicas de coleta de informação - a entrevista semiestruturada. De acordo com Treviños (1987) a entrevista semi-estruturada difere da entrevista
estruturada por não ser inteiramente aberta e não ser conduzida por muitas questões préestabelecidas. Baseia-se em apenas uma ou poucas questões/guias, quase sempre abertas, mas
durante a realização da entrevista é possível introduzir outras questões que emergem do
processo de interação social e contextual. Como pontos fortes da utilização da entrevista
semi-estruturada podem ser citados a otimização do tempo disponível, maior aprofundamento
temático e como ponto fraco a necessidade de preparo do pesquisador.
É possível distinguir diversos tipos de entrevistas semi-estruturadas: entrevista focal,
semi-padronizada, centralizada no problema, com especialistas e entrevista etnográfica. A
entrevista etnográfica pode ser caracterizada como semi-estruturada que consiste de uma série
de conversas cordiais nas quais o pesquisador introduz novos elementos com o intuito de
propiciar maior aprodundamento do tema. No entanto é importante destacar a diferenciação
das entrevistas etnográficas das conversas cordiais: (i) solicitação específica para refrear a
entrevista; (ii) explicações etnográficas, nas quais o entrevistador explica o projeto de
9
pesquisa; (iii) questões etnográficas, ou seja, questões descritivas que procuram evidenciar
informações sobre as dimensões de significado que diferenciam objetos e eventos no universo
do informante (TREVIÑOS, 1987).
Com base no entendimento que a interação social é mediada principalmente pela
linguagem sugere-se que o mais adequado dentre os métodos etnográficos seja o estudo por
meio de narrativas escritas. Esta constatação deriva do fato de que a linguagem faculta ao
pesquisador criar uma realidade aderente à sua visão do mundo, além de contribuir para criar
e recriar a sua própria identidade. Além disso, a produção da realidade envolve valores, ou
seja, o que produzir, definir a produção, facultando a compreensão das relações entre o autor e
os elementos da realidade produzida (RICHARDSON e PIERRE, 2005).
5. A CONTEXTUALIZAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO MÉTODO
Desde o século XVII a produção escrita estava segmentada em textos literários, fictícios
e subjetivos, e científicos, que visavam apresentar fatos e dados, utilizando a linguagem
objetiva e técnica. Mesmo no século XIX os textos literários e científicos continuaram
mantidos em domínios separados. A produção textual literária foi alinhada com geração de
conhecimento em artes, estética, ética, humanidade e moralidade, passando a utilizar a
linguagem metafórica e ambígua. No entanto a exigência da forma de linguagem científica
destacava a importância da objetividade, precisão, vedação ao uso de metáforas e termos
ambíguos, além da não contextualidade (RICHARDSON e PIERRE, 2005).
Foi apenas no século XX que a caracterização de produção literária e científica
transcendeu os limites que caracterizavam até então os dois gêneros de produção textual. A
separação entre a “ficção” e “fatos”, entre “verdade” e “imaginação” deixou de ser clara e
inquestionável. Ao mesmo tempo em que segundo vários autores os textos produzidos devem
ser considerados narrativas, independente do gênero, Richardson e Pierre (2005) entendem
que ainda persiste um a diferença entre os dois estilos – a finalidade declarada pelo autor à
qual o texto se destina devido à diferenciação de público-alvo e do impacto produzido sobre
este público e sobre a realidade, sendo que estas diferenças não devem ser nem omitidas e
nem minimizadas.
No pós-modernismo se reconheceram as limitações situacionais do produtor do
conhecimento desobrigando o pesquisador de buscar a neutralidade (ingênua), distanciamento
do(s) objeto(s) estudado(s) e também o conhecimento geral atemporal. O pesquisador se situa
dentro do contexto e narra a sua percepção da realidade a partir da posição que ocupa e com
toda a subjetividade que o caracteriza. Richardson e Pierre (2005) percebem o projeto
etnográfico como humanamente situado e sempre filtrado por lentes e percepções do
indivíduo, com limitações e forças do sentimento humano.
A abordagem pós-estruturalista faculta vincular a linguagem, a subjetividade,
organização social e poder, sendo que o eixo central é representado pela linguagem. A
linguagem, dentro da visão pós-estruturalista, produz significados e cria a realidade social. A
linguagem define como a organização social e o poder são determinados e contestados e o
lugar onde a subjetividade do indivíduo é construída. A interpretação da linguagem como
discursos que competem para criar significados e organizar o mundo torna a linguagem o
local de embate (RICHARDSON e PIERRE, 2005).
Percebe-se o alinhamento metodológico com o propósito de estudar as variáveis
subjetivas que influenciam os processos de gestão e a tomada de decisões na área de P&D
com base na posição que esta unidade ocupa dentro do universo organizacional e sua
importância para o processo de inovação, central para a construção de diferencial competitivo.
Com orçamento significativo e relativa autonomia na alocação de recursos, a área de P&D
participa ativamente do embate organizacional pelo poder e intensa interação social com as
demais unidades organizacionais, mediada pela linguagem, a qual, por sua vez, constrói a
10
individualidade do sujeito dentro do contexto histórico e espacial específico. O significado
individual depende do discurso do qual este dispõe, ou seja, determina os padrões de
aceitabilidade de situações e de posições, da normalidade e de critérios de percepção, análise
e decisão. Neste sentido a experiência e a memória estão abertas a interpretações
contraditórias sujeitas a interesses sociais e de seus discursos. Desta forma o indivíduo é, ao
mesmo tempo, o local e sujeito destes embates discursivos pela construção de sua identidade e
sua memória, caracterizando a sua subjetividade como instável e flexível (RICHARDSON e
PIERRE, 2005).
No entanto a linguagem não pode ser interpretada da forma como se apresenta devido ao
significado que contém, da mesma forma como a palavra, o objeto ou o pensamento nunca
são idênticos. Esta afirmação se fundamenta na observação de que o significado não é portátil,
ou seja, que a linguagem não pode simplesmente transportar o significado de um indivíduo
para outro em decorrência da existência de um significado prelinguístico ou ainda, significado
puro. Considerando-se a contínua co-criação do sujeito e da ciência social destaca-se a
importância do posicionamento reflexivo do pesquisador dentro do contexto histórico,
espacial e social pelo fato de que a redação de narrativas é validado como um dos métodos
para a produção do conhecimento. A auto-reflexividade traz à consciência alguns dos aspectos
ocultos incorporados ao texto, de caráter político e ideológico (RICHARDSON e PIERRE,
2005).
Entende-se que a auto-reflexividade estimulada pela pesquisa na área de P&D por meio
de narrativas escritas facultará ao pesquisador identificar as variáveis subjetivas que
influenciam o processo decisório revelando as relações de poder e pressupostos ideológicos
que embasam o referido processo, permitindo ao pesquisador a compreensão do
funcionamento cognitivo na construção de valores organizacionais.
É possível afirmar que a pesquisa por meio de narrativas escritas consiste de estudo de
estórias. As estórias são onipresentes, encontrando-se em recortes históricos, novelas de
ficção, contos, autobiografias, além de outros gêneros literários. As estórias se originam de
depoimentos das pessoas sobre suas próprias histórias e sobre outras pessoas, fazendo parte de
conversas cotidianas. Somados a estes depoimentos espontâneos os pesquisadores de
narrativas fomentam estórias orais sobre temas específicos que são transcritas e analisadas. A
pesquisa das narrativas é considerada como uma das abordagens de pesquisa social
(POLKINGHORNE, 2007).
A área de P&D representa eixo central de inovação de produtos dentro de uma
organização e caracteriza-se pela intensa interação social com as demais unidades
organizacionais contribuindo ativamente para construção da realidade organizacional. A
história da área de P&D pode ser interpretada como um tecido complexo de percepções
individuais e coletivas acerca do funcionamento organizacional traduzida por meio de
narrativas idiossincráticas que se entrelaçam, ao mesmo tempo em que refletem e recriam a
realidade e identidade organizacional. A pesquisa por meio de narrativas escritas possibilitará
revelar aspectos que afetam o processo decisório da área de P&D reproduzindo as facetas
mais relevantes da dimensão subjetiva e que são desconsideradas por outros métodos de
pesquisa.
A abordagem pós-modernista faculta o surgimento de um novo método de pesquisa
etnográfica baseado em práticas de análise criativa que Richardson e Pierre (2005)
denominam de CAP (creative analytical processes). Etnografias CAP não são técnicas
alternativas e nem experimentais, sendo consideradas, por si, representações válidas da
realidade social. Juntamente com demais derivações do método etnográfico esta nova forma
de pesquisa do mundo social se caracteriza pela capacidade de adaptação ao contexto da
realidade atual – em permanente mudança, instável e incerta (RICHARDSON e PIERRE,
2005).
11
Os etnógrafos CAP apresentam o processo de redação e o produto decorrente do
respectivo processo como profundamente entrelaçados, priorizando ambos por entender que o
produto não pode ser separado do produtor, do modo de produção e da forma de produzir o
conhecimento. Esta posição está alinhada com a linha do pós-modernismo que percebe o ato
de escrever como parcial, local e situacional com a presença constante da subjetividade do
pesquisador, independente do esforço que este faça para alcançar a neutralidade tão
preconizada dentro dos métodos apoiados no paradigma positivista (RICHARDSON e
PIERRE, 2005).
Segundo Richardson e Pierre (2005) o pesquisador deve definir a sua posição em
relação ao gênero e raça devido ao fato de que os dois representam os eixos sobre os quais o
mundo simbólico e real são construídos. O pesquisador pós-moderno, em especial, não pode
mais pensar em pesquisa como uma forma de fazer sentido e sim averiguar as possibilidades e
limites da mudança do significado, sua ascensão e desaparecimento, além de potência de
revelar o funcionamento da realidade social. Desta forma o texto escrito passa a atuar
ativamente em processo de pesquisa e de construção da realidade, produzindo diferentes
conhecimentos e produzindo os conhecimentos de diferentes formas.
A separação convencional, positivista e estrutural do processo de escrever em (i)
escrever como um método de coleta de dados, por meio de entrevistas e observação e (i)
escrever como um método de análise de dados (implicando em indução analítica,
comparações, codificação, escolha e categorização dos dados) não faz sentido quando o
processo de redação de narrativas é utilizado como um método de pesquisa. A possibilidade
que se abre ao pesquisador pós-moderno é a de focar os dados que a priori não são
contemplados no processo de coleta, tais como dados referentes aos sonhos, sensualidade,
emoções e memória, sem se restringir a categorias pré-concebidas. A análise dos dados
também pode ser realizada à medida que as palavras surgem estimulando o processo reflexivo
e cognitivo facultando o surgimento de vinculações e ligações entre os tópicos abordados.
Destarte os conceitos positivistas se revelam ineficazes e sem sentido (RICHARDSON e
PIERRE, 2005).
Segundo Polkinghorne (2007) a pesquisa por meio de narrativas se processa através de
coleta de evidências e, na seqüência, analisando ou interpretando as evidências. No entanto,
como os pesquisadores desta abordagem montam os textos que eles analisam, em busca de
significados que contêm, as evidências que os textos apresentam podem diferir das evidências
convencionais, decorrentes de observação, por exemplo. Mas é justamente esta diferença que
permite a apresentação dos significados da vida ao leitor da narrativa, ou seja, os textos
narrados tem sentido como evidência para significados individuais e não como fatos que
pontuam a estória narrada. Vale destacar que os estilos de redação não são fixos, nem neutros,
por refletir correntes teóricas dominantes, contextualizadas historicamente, de determinados
paradigmas ou escolas de pensamento (RICHARDSON e PIERRE, 2005).
6. VALIDAÇÃO
A noção geral da validade se refere à crença na afirmação ou no argumento baseado no
conhecimento. Validade não é inerente à afirmação, mas é uma característica dada à
afirmação pelo destinatário da mensagem. Em muitos casos verifica-se que as pessoas
validam uma afirmação com base em autoridade de quem fala. Desta forma pode-se deduzir
que o grau de validade ou de confiança da afirmação depende da força ou do poder do
argumento usado pelo pesquisador ao leitor do texto. Assim a afirmação ou o conhecimento
apresentado não é intrinsecamente válido, pois o processo de validação estaria apoiado sobre
julgamento intersubjetivo, decorrente da interação simbólica (POLKINGHORNE, 2007).
Diferentemente da pesquisa qualitativa tradicional, que institucionalizou a triangulação
como uma prática recomendável, onde o pesquisador se utiliza de diferentes métodos como
12
entrevista, análise de documentos, entre outros, para validar as evidências, é facultado ao
pesquisador etnográfico CAP lançar mão de textos literários, artísticos e científicos,
mesclando e combinando os elementos presentes em todos os gêneros. Por esta razão a
pesquisa CAP rejeita o termo de triangulação, pois a forma geométrica que melhor representa
o processo de pesquisa, de construção do conhecimento e de realidade social é o cristal devido
ao número de facetas que excede em muito os três lados do triângulo. Cristalização, sem
perder a estrutura, permite desconstruir a idéia tradicional de validação em virtude da
constatação de que inexiste apenas uma única verdade e que os textos se validam por si. A
cristalização faculta a compreensão profunda e complexa do tema pesquisado
(RICHARDSON e PIERRE, 2005).
Diferentemente do processo de pesquisa convencional em pesquisa social que constitui
instrumentos para medir a variação entre participantes com base em construto teórico, na
percepção de Polkinghorne (2007) a validação da afirmação inserida dentro da narrativa
depende da capacidade do autor de apresentar evidências e argumentos de forma convincente,
coerente, facilitando ao leitor a compreensão da situação e do contexto, permitindo-lhe
elaboração de suas próprias reflexões e interpretação. Portanto o texto não se limita a ser uma
mera descrição ou recapitulação do desempenho do pesquisador. Além disso, o pesquisador
não deverá buscar o nível de certeza que está além da capacidade das evidências apresentadas.
No entanto as evidências apresentadas em narrativas possuem limitações e ameaças à
sua validade e as quais o pesquisador precisa reconhecer. Polkinghorne (2007) destaca como
uma das principais ameaças o fato de que as descrições verbais fornecidas pelos pesquisados
quanto aos significados de suas experiências não podem ser considerados fiéis reflexos destes
significados. Esta constatação se deve à supressão de aspectos mais obscuros da experiência,
pelos próprios pesquisados. Além disso, é possível enumerar quatro outras fontes de
distorções: (i) os limites naturais da linguagem para retratar a complexidade do significado da
experiência; (ii) a dificuldade de trazer aspectos da experiência que estão no inconsciente do
pesquisado; (iii) a resistência das pessoas para revelar em plenitude os significados das suas
experiências e (iv) a complexidade decorrente do fato de que os textos construídos são coproduzidos com o autor.
A validação das narrativas pode ser reforçada pela adoção da prática do processo de
interação entre o pesquisador e o pesquisado por meio do qual os textos produzidos são
apresentados aos participantes para esclarecimentos adicionais e resposta às questões que
emergiram durante a elaboração do texto. Além disso, o pesquisado terá oportunidade para
checar o teor dos significados das experiências narradas por ele ao pesquisador
(POLKINGHORNE, 2007).
Ao proceder à fase de interpretação das narrativas Polkinghorne (2007) recomenda que a
interpretação seja um comentário que desvenda e esclarece ao leitor os aspectos dúbios
presentes na narrativa. Em alguns casos o autor pode comparar aspectos específicos dentro da
narrativa com outros textos, identificar o tipo de trama que se desenrola ou contextualizar a
narrativa dentro do ambiente social ou cultural correspondente que exerceu a influência sobre
a estória narrada. Este processo não é possível realizar de forma mecânica e procedimental,
exigindo do autor a capacidade de reconhecimento de padrões e de similaridades, envolvendo
apenas e tão somente os processos cognitivos do pesquisador.
Dentro desta perspectiva Polkinghorne (2007) reconhece dois tipos de abordagem: (i)
compreensiva, que assegura ao autor a possibilidade de transcender ou quebrar as
circunstâncias históricas com fins de reproduzir o significado ou intenção do pesquisado e (ii)
hermenêutica filosófica que afirma ser possível interpretar a narrativa como um diálogo de
conversação cujo significado é o produto da interação entre o pesquisador e o pesquisado.
13
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O tecido organizacional é construído com base em relações sociais e de poder que se
manifestam por meio de símbolos, valores, mitos e narrativas, entre outros, criando e
recriando permanentemente a realidade da organização e contribuindo para definir a
identidade individual e coletiva das pessoas que compartilham aquele espaço social. Mesmo
em unidades organizacionais percebidas e interpretadas como eminentemente técnica verificase intensa interação entre as pessoas que compartilham percepções acerca do universo
organizacional e assumem posições, participando ativamente da construção de valores e da
identidade organizacional. Cada indivíduo com base na sua percepção dos eventos
organizacionais produz a sua própria narrativa, o seu próprio discurso, do qual ele é autor e
personagem.
Independente da natureza da tarefa exercida pelo indivíduo ou atividade organizacional
atribuída a uma determinada unidade organizacional, toda organização se caracteriza pela a
interação social e por narrativas que contribuem para a compreensão da organização, da sua
história e do seu funcionamento. A dimensão subjetiva que permeia o ambiente
organizacional se manifesta com mesma intensidade em todas as áreas organizacionais,
mesmo nas percebidas como eminentemente técnicas, como a P&D e Produção, entre outras.
Apesar do reconhecimento da influência das variáveis subjetivas em toda organização,
inclusive nas áreas técnicas, muitos autores preferem conduzir as pesquisas no âmbito dos
métodos convencionais e ao abrigo de paradigma positivista, seja por segurança, seja pela
tecnicidade manifesta das respectivas unidades organizacionais. Entende-se que estas práticas
de pesquisa deixam a desejar, tanto em pressupostos teóricos como metodológicos, na questão
de compreensão dos processos de gestão, em especial a tomada de decisão.
Desta forma procurou-se, no presente ensaio, abordar o método de estudo por meio de
narrativas dentro da abordagem etnográfica como a opção metodológica mais aderente aos
propósitos da pesquisa do ambiente organizacional da área de P&D, voltada, especialmente,
para averiguar as variáveis subjetivas que podem exercer a influência sobre o processo
decisório.
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