“Desejo de memória” e História da
Escola de Enfermagem Alfredo Pinto
O presente paper trata-se de um ensaio com base no rito institucional conhecido como
cerimônia da lâmpada. Este se insere como um dos diversos ritos acadêmicos realizados pela
Enfermagem, pelo que se sabe, implantado pelas enfermeiras norte-americanas, quando se
encontravam no Rio de Janeiro (Br), datado de 1925, por ocasião da formatura da Turma Pioneira,
da Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública (EEDNSP), atual Escola de
Enfermagem Anna Nery (EEAN) (PORTO e SANTOS, 2008) no sentido das tradições inventadas
(HOSBAWN e RANGER, 2008) absorvidas pelas Instituições de Ensino em Enfermagem.
Nesta perspectiva, se utilizou traz a baila uma fotografia do rito institucional referente à
cerimônia da lâmpada, dentre às 1.124 imagens do acervo, das quais se encontram em classificação
do período da gestão da Enfermeira Maria de Castro Pamphiro (1942-1956), totalizando dez
imagens de rito, três de prestação de cuidado, cinco referentes ao espaço físico institucional. As
imagens são oriundas do Arquivo Setorial Enfermeira Maria de Castro Pamphiro, da Escola de
Enfermagem Alfredo Pinto (EEAP), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
(UNIRIO), nas quais se pretende identificar os elementos simbólicos de distinção, entendidos
como assinatura imagética da EEAP, para a contribuição do processo de construção da imagem da
enfermeira brasileira.
Destaca-se que a assinatura imagética se refere às características simbólicas referentes à sua
marca, permitindo sua distinção entre muitas, pois ela identifica algo, representa valores, sejam eles:
social e subjetivo. Estes relacionados aos atributos de qualidade e quantidade, e na forma e
conteúdo para se fazer ver e se fazer crer (PORTO e NETO, 2014).
Desta forma, esta produção é oriunda do grupo de pesquisa Laboratório de História do
Cuidado e Imagem em Enfermagem (LACUIDEN), tendo por fonte imagens em geral, o que não
poderia ser diferente no que se refere investigar os textos imagéticos do Arquivo Setorial Maria de
Castro Pamphiro (ASMCP). O ASMCP foi oficializado na UNIRIO pela Resolução n. 2631, de 18
de outubro de 2005, que “dispõe sobre o desmembramento do Arquivo Setorial do Centro de
Ciências Biológicas e da Saúde – CCBS, criando o Arquivo Setorial Enfermeira Maria de Castro
Pamphiro, da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto”.
O arquivo tem este nome com a finalidade de homenagear a primeira diretora enfermeira
da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Ela (re)organizou a documentação da Instituição de
Ensino com base no Decreto Lei 4.725 de, 2 de setembro de 1942, e, à época, fundiu a seção mista
(com funcionamento no Hospício Nacional de Alienados) e feminina (com funcionamento na
Colônia de Alienadas do Engenho de Dentro), pelo Decreto no. 10.472, de mesma data.
A Enfermeira Maria de Castro Pamphiro se formou na primeira turma da EEDNSP e a
(re)organização da documentação institucional. Revela-se, na leitura de seus relatórios a
preocupação com a administração das atividades na Escola, a participação em eventos religiosos, e
o convívio com as autoridades públicas e políticas para manter o funcionamento da Instituição.
Neste sentido, pode-se depreender o seu desejo de preservação da memória, que segundo o filósofo
Jacques Derrida, trata-se do “desejo de memória”, ou seja, o desejo de preservar tudo aquilo que
determina as figuras, as marcas, os carimbos, as incisões e os registros (Derrida, 2001, p. 9). Isto se
dá, pois ela teve a atitude de reunir e organizar a documentação – escrita e visual – e buscar
estabelecer as impressões visuais, por meio dos símbolos, até hoje presentes na memória da EEAP,
o que, atualmente, conduz e possibilita aos pesquisadores interessados na temática a terem acesso à
memória da EEEAP. Isto implica no entendimento que, o arquivo deve ser compreendido como
um lugar da memória, possibilitando articulação do passado com o presente, mesmo diante do
esquecimento, para a produção de conhecimento sobre a História da Profissão.
Nesta perspectiva, a foto a seguir se refere à ritualística de formatura de 1950, tendo por
micro-ritual o início do rito institucional ou a passagem da lâmpada ou a consagração da titulação
do prêmio “Florence Nightingale”, destinada à
melhor discente da turma.
A fotografia se refere ao conjunto de
pessoas – masculino e feminino - de uma
fotografia
flagrante/instantâneo,
de
autoria
desconhecida e sem informações no verso,
capturada em espaço interno - salão ou auditório
não identificado até o momento -, em plano
Imagem fotográfica n.1: Rito Institucional da
Lâmpada (1950)
fotográfico de conjunto.
O enquadramento é aberto e central, a
fotografia foi realizada em ângulo inclinado a uma
longa mesa, coberta por flores, onde estão sentadas algumas pessoas, de ambos os sexos, que
parecem participar com interesse do acontecimento. A fotografia em tons de cinza, mede
23,9cmx18cm e data de 1950.
Sobre a fotografia, pode-se dizer que é possível se ver no terceiro plano um grupo de
jovens do sexo feminino, trajando uniforme; no segundo plano, sentados, é possível se identificar,
pelo menos dois homens, trajando terno e; no primeiro plano se tem duas mulheres que, se
distinguem pelos trajem ostentados – do lado direito para o esquerdo: uniforme em dois tons de
cinza claro e escuro, o último deixa transparecer se tratar de avental ou de modelagem aproximada e
na cabeça um adereço, conhecido na profissão com touca. A outra pessoa se encontra uniformizada
em representação tecidual na imagem de tom claro e por cima deste uma possível capa em tom
escuro, ostentado na cabeça, também, uma touca.
Destaca-se a touca, apesar do entendimento que, no referencial da modelagem no estudo
em andamento, carecer deste termo, pelo fato de não sustentar/prender, ou seja, sem a função
destinada para os cabelos, mas sim adornar a cabeça como se fosse uma espécie de casquete pela
funcionalidade.
Peter Burke, historiador, em seu livro “Testemunha Ocular – história e imagem”, trata as
imagens como “evidência histórica”. Ele enfatiza o uso de imagens como fonte histórica, e ressalta
que elas não são apenas “meras ilustrações”. Ademais, cita a expressão cunhada por Raphael
Samuel de que, os historiadores eram “visualmente analfabetos” e adverte aos interessados que
pinturas, esculturas, desenhos e tapeçarias ao serem decodificadas traduzem a trajetória das práticas.
Isto implica na assertiva apoiada em outro historiador, Jacob Burckhardt (1818-1897), ao declarar
que os objetos eram “testemunhas de etapas passadas do desenvolvimento do espírito humano”,
considerando que por meio deles “é possível ler as estruturas do pensamento e representação de
uma determinada época” (BURKE, 2001, p. 12-13).
Nesta lógica de pensamento, as imagens trazem, implicitamente, “a tentativa de
surpreender a vida em movimento” e mais uma vez, se reportando a outro historiador, Philippe
Ariès (1914-1982), Peter Burke afirma que as fontes visuais devem ser tratadas como “evidência de
sensibilidade e vida”, igualadas em valor “à literatura e documentos de arquivos”. Isto não deve ser
entendido ao acaso, mas em virtude do uso delas ao focalizar o cotidiano das experiências humanas
pelo olhar de baixo para cima (BURKE, 2001, p. 14-15).
Isto implica na perspectiva da importância dos acervos/arquivos públicos e privados, o que
conduz a Derrida. Ele assinala que não se deve renunciar aos arquivos mesmo que “dissimulados
ou destruídos, interditados, desviados, recalcados” já que “é o próprio inconsciente, a se apropriar
de um poder sobre o documento, sobre sua detenção, retenção ou interpretação”. Dessa forma, o
arquivo é como um “lugar de impressão atual ou virtual”, o “ali, onde” e “nesse lugar”, onde “se
abriga a memória”, mas também “se a esquece” (DERRIDA, 2001, p. 7 e 12).
Assim, este autor explica o sentido que os gregos davam aos arquivos:
O sentido de arquivo, seu único sentido, vem para ele do arkheîon grego:
inicialmente uma casa, um domicílio, um endereço, a residência dos
magistrados superiores, os arcontes, aqueles que comandavam. Aos
cidadãos que detinham e assim denotavam o poder político reconheciase o direito de fazer ou de representar a lei. Levada em conta sua
autoridade publicamente reconhecida, era em seu lar, nesse lugar que era
a casa deles (casa particular, casa de família ou casa funcional) que se
depositavam então os documentos oficiais. Os arcontes foram os seus
primeiros guardiões. Não eram responsáveis apenas pela segurança física
do depósito e do suporte. Cabiam-lhes também o direito e a
competência hermenêuticos. Tinham o poder de interpretar os
arquivos...eram necessários ao mesmo tempo um guardião e uma
localização. (DERRIDA, 2001, p. 12-13).
Ao conduzir o texto para a perspectiva da relevância do arquivo/acervo documentação,
Peter Burke relata que, o passado deve ser estudado, incluindo “não apenas os historiadores, mas
também os arquivistas que organizaram os documentos, os escribas que os escreveram e as
testemunhas cujas palavras foram registradas”, motivo que justifica a inserção na temática
arquivística, pois cabe destacar de onde se fala, neste caso, trata-se de um dos autores como
profissional do Arquivo. Chama-se a atenção para este dado, tendo em vista o olhar deste sobre as
fontes, que para Burke é a possibilidade de uma nova visão, que pode consolidar o uso de tais
documentos imagéticos como “indícios” (BURKE, 2001, p. 15-16).
Além desses aspectos, em que se consideram as fontes visuais, como documentos de
arquivos, eles devem ser preservados em algum “lugar” determinado, e que resultam na memória de
uma instituição ou pessoa. Ressalta-se, ainda, outro aspecto, o da contextualização deles no sentido
de que as identidades - fotógrafos e fotografados – às vezes são desconhecidas, o que conduz a
possível ruptura, momentaneamente, da série documental do projeto original, que pode dificultar a
compreensão imagética (BURKE, 2001, p. 27 e 48).
Esta lógica conduz-se a recorrer a organicidade dos documentos de arquivo e Robert
Henri-Bautier, historiador, em seu texto Les Archives, publicado na Encyclopédie de La Pléiade, cujo
volume intitula-se L’Históire et ses Méthodes, 1961, afirma:
Les documents se déposent au contraire dans les arquives exactement
como se forment les sédiments des couches géologiques,
progressivement, constantmment1. (BAUTIER, 1961, p. 1120).
Ao se articular Bautier e Burke pode-se registrar que, ao se trabalhar com documentos de
arquivos e utilizá-los como vestígios ou indícios, eles se direcionam ao princípio da proveniência,
consagrado pela Arquivologia, segundo o qual “o arquivo produzido por uma entidade coletiva,
pessoa ou família, não deve ser misturado aos de outras entidades produtoras. Também chamado
de “princípio do respeito aos fundos” (DICIONÁRIO DE TERMINOLOGIA ARQUIVÍSTICA,
2005, p. 136). Esta explicação reside no fato de que, os documentos de arquivo são acumulados de
forma orgânica, como camadas geológicas (BAUTIER, 1961). Isto é, conservam relação entre si,
dentro de seu contexto de produção e é o que lhes dá sentido e mantém sua integridade e
compreensão.
Após se digredir sobre a relevância do arquivo, mesmo em ensaio teórico, se pode
depreender pelo exemplo da imagem fotográfica n. 1, a possibilidade de contribuição que ela traz a
construção do conhecimento, em especial, quando quem tem a pena é profissional do arquivo,
neste caso, para a História da Enfermagem ao decodificar as imagens e a lógica arquivística que, elas
podem atribuir à trajetória da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, como proposta de
manutenção pelo “desejo de memória” e dela produzir conhecimento na perspectiva histórica.
1
Tradução aproximada: os documentos se depositam nos arquivos exatamente como se formam os
elementos das camadas geológicas, progressivamente, constantemente.
REFERÊNCIAS
BAUTIER, RH. L’Histoire et ses méthodes. Bruges: Gallimard; 1961.
BURKE, P. Testemunha ocular-história e imagem. São Paulo: EDUSP; 2007.
DERRIDA, J. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará; 2001.
Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional; 2005.
Princípio da Proveniência; p. 136.
HOBSWAM E, RANGER T. A inventada das tradições. São Paulo: Paz e Terra; 2008.
PORTO F, NETO M. Enfermeira na Imprensa Ilustrada Brasileira (1890-1925): assinatura
imagética.Capturado
em
http://pem.assis.unesp.br/index.php/pem/article/view/421/737.
acessado em 2 de abr 2015.
PORTO F, W AMORIN, BARREIRA IA, SANTOS TCF. A enfermeira brasileira na mira do
click fotográfico (1919-1925). Rio de Janeiro: Águia Dourada; 2007.
Autores
Sonia Kaminitz
Doutoranda PPGENFBIO da UNIRIO. Professora Adjunta do Centro de Ciências Humanas da
UNIRIO. Membro do Grupo de Pesquisa LACUIDEN.
Fernando Porto
Doutor em Enfermagem com pós-doutoramento pela USP. Professor da Escola de Enfermagem
Alfredo Pinto, PPGENF, PPGENBIO/UNIRIO. Membro dos grupos de pesquisa LAPHE, LAESHE,
LACENF e líder do LACUIDEN.
Como citar este post (Vancouver adaptado): KAMINITZ S., PORTO F. “Desejo de memória” e
História da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. [internet]. Rio de Janeiro (Br); 2015 [Acesso
em: dia mês (abreviado) ano]. Disponível em: http://www.lacenf.com.br [completar com os dados
da página].
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