1 Integração psicossomática: corpo e identidade. Carlos Alberto Plastino O tema proposto para nosso grupo permite um certo número de abordagens diferentes e importantes. Escolho privilegiar a perspectiva que pensa a integração psicossomática e a inserção do self no corpo como uma questão central da abordagem winnicottiana e de sua originalidade. Não apenas porque constitui uma superação do dualismo cartesiano entre corpo e alma, em torno do qual se organizou a abordagem antropológica da modernidade1, mas porque nela se exprimem dois aspectos fundamentais do pensamento de Winnicott. Esses dois aspectos são, de um lado, sua concepção da inserção do homem na natureza, e do outro a compreensão dessa inserção como não determinada, permanentemente exposta às vicissitudes da história específica de cada indivíduo e das modalidades de seus relacionamentos ambientais. Os dois aspectos – inserção na natureza e historicidade – singularizam a abordagem winnicottiana, afastando-a tanto do determinismo ainda presente na obra de Freud quanto da radical ruptura com a natureza representada por outras abordagens pósfreudianas, em particular por Lacán. Esta original articulação entre inserção na natureza e história singular de cada sujeito constitui o primeiro paradoxo –o paradoxo primordial2- paradoxo que permite superar o tradicional dilema entre natureza e cultura. A inserção do homem na natureza –e portanto a legitimidade da referência à “natureza humana”- se exprime no pensamento winnicottiano através do estratégico conceito de “tendências” em cuja atualização se processa a espontaneidade da vida. Convém diferenciar cuidadosamente o conceito de tendência do de determinação. Este último designa uma característica natural cuja realização é inevitável, constituindo-se em algo que transcende à história e a ela se impõe. É o caso da pulsão de morte na formulação de Freud, para quem dita pulsão marcava de maneira insuperável a vida social, sendo responsável pela inevitabilidade do sentimento de culpa e do mal-estar na vida cultural. Ela faria assim parte da essência humana, sendo por isso mesmo não ultrapassável. Confrontada com essa posição teórica, a originalidade da perspectiva winnicottiana é de tal ordem que ela não pode ser pensada teoricamente através das categorias de essência e realização da essência, que organizaram o pensamento ocidental desde a filosofia de Platão. Esta posição teórica, como se sabe, postula a existência de uma realidade transcendente à história, e que funciona para esta como modelo de normatividade. A crítica desta ontologia essencialista, desacompanhada da crítica à epistemologia racionalista, derivou numa ruptura radical com a natureza, reduzindo toda a experiência humana a processos culturais. A grande originalidade de Winnicott –é importante insistir nisto- consiste na capacidade de sua teoria de ultrapassar a referência a essências determinantes, sem no entanto se afastar de qualquer referência à natureza. A teorização winnicottiana se sustenta na sua experiência clínica e 1 “A natureza humana não é uma questão de corpo e mente, e sim uma questão de psique e corpo interrelacionados, que em seu ponto culminante apresentam um ornamento: a mente”. (Natureza Humana, Imago, p. 44) 2 Agradeço a Davy Bogomoletz a idéia de inserir este comentário sobre o paradoxo primordial. 2 nos modos de apreensão que esta permite.3 Ao invés de “essência” e “realização de essência”, o pensamento winnicottiano exige outras categorias, capazes de designar uma concepção ontológica completamente diferente da herdada. O conceito de “virtual”, entendido como aludindo a uma forma de ser da natureza que se exprime como linhas de força sem no entanto constituir-se em determinações, requerendo condições favorecedoras para sua concretização, pode ser aqui uma ferramenta teórica útil. Para a concretização dessa realidade virtual, por sua vez, pode ser utilizado o conceito de “atualização” que, diferentemente do de “realização”, carrega sempre a característica da criação. Assim, o conceito de “verdadeiro self” constitui uma importantíssima linha de força da natureza de cada sujeito, que pode no entanto, em um ambiente desfavorecedor, não ser atualizada. Nem por isso ela deixa de ser real, na medida que sua frustração traz conseqüências tão importantes como provocar a ausência do sentido da vida para quem experimenta essa frustração. Sua concretização, todavia, possível nos casos de um ambiente favorecedor, é sempre uma atualização criativa. O ambiente é favorecedor precisamente por não se impor, por permitir a expressão espontânea do sujeito, que assim se cria a si mesmo, dando sentido à sua experiência de viver. O verdadeiro self não pode ser assim designado pela sua adequação a qualquer modelo transcendente, podendo ser reconhecido apenas através das vicissitudes da vida emocional do sujeito. Nas palavras do poeta, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.4 Na ótica winnicottiana a vida possui uma direção para seu movimento5, um sentido. Mas isso não pode ser apreendido através de modelos teóricos inspirados na concepção mecanicista da natureza. O sentido aludido é diferente do significado. Este é efetivamente tributário da linguagem. O sentido não, ele exprime a inserção do homem na natureza e a ele se refere Winnicott quando fala das falhas no desenvolvimento emocional primitivo (sentido de continuidade da existência, de que a vida vale a pena ser vivida). A frustração do movimento espontâneo da vida origina, para Winnicott, o estado que ele denomina de “doença”, enquanto que sua atualização torna possível falar de “saúde”. Nenhum desses dois estados, entretanto, tem como referência um modelo normativo transcendente. A inserção na natureza é, no pensamento de Winnicott, indissociável da criatividade. Subjaz a esta concepção um radical afastamento da ontologia da modernidade, aproximando a posição do pensador inglês de uma concepção da realidade próxima da elaborada pela física quântica. Cabe à fantasia –diferenciada cuidadosamente do devaneio- um papel fundamental na participação dos sujeitos na construção da realidade. É o que Winnicott sintetiza na sua frase segundo a qual “a fantasia é anterior à realidade”6. Esta afirmação é fundamental. Ela evidencia o afastamento do pensamento winnicottiano das perspectivas deterministas, e a superação do banimento do papel criativo da imaginação operada no pensamento ocidental como 3 Este é um tema fundamental, que no entanto não é possível discutir neste breve trabalho. Convém lembrar, contudo, que esse modo de apreensão supõe processos de conhecimentos não redutíveis aos da ciência moderna. Ao invés de um sujeito que observa um objeto, a modalidade de conhecimento fornecida pela experiência clínica se sustenta numa relação entre sujeitos. Nela cabe um importante papel tanto à participação do psiquismo inconsciente quanto dos afetos. 4 Nas palavras do poeta “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso). 5 Com apoio no pensamento de H. Bergson, poderia se dizer que embora não tenha um fim determinado – posto que é criação- a vida tem uma finalidade. 6 Winnicott, D. “O desenvolvimento emocional primitivo”, Imago, Rio de Janeiro, 2000. 3 conseqüência da hegemonia das concepções essencialistas.7 Caracteriza ainda uma concepção da realidade conhecível como produto da convergência do que é e a atividade imaginativa dos sujeitos. Trata-se de uma reviravolta de enorme significação, não apenas na concepção ontológica quanto na concepção epistemológica. Nesta última, a participação do inconsciente nos processos de apreensão –que já tinha sido enfatizada por Freud- atinge um desenvolvimento fundamental. Como ilustração desse fato convém apontar aqui para as condições em que opera a “preocupação materna primária”, capacidade materna excepcional, ativa durante um período também excepcional. Dita capacidade opera fundamentalmente de maneira inconsciente, permitindo à mãe um nível tal de identificação com seu bebê que torna possível a este realizar a indispensável vivência da “legítima ilusão de onipotência”. A inserção do homem na natureza, como sintetizada acima, torna possível uma compreensão que se desdobra na experiência clínica na possibilidade de apreender a qualidade da experiência, dos sentimentos e emoções que a acompanham, assim como da dimensão imaginária, que não podem assim serem reduzidas às suas dimensões estruturais, reduzindo o pensamento clínico à lógica do significante.8 Esta redução exprime a desvalorização do corpo e dos afetos na tradição ocidental, retomada na modernidade pelo dualismo cartesiano. A natureza humana,9 escreve Winnicott, não é questão de corpo e mente, mas de psique e soma inter-relacionados, cabendo ao psiquismo ocupar-se dos relacionamentos dentro do corpo, com ele e com o mundo externo. O psiquismo emerge da elaboração imaginativa das funções corporais e do acúmulo de memórias, ligando passado, presente e futuro e dando sentido ao sentimento de “eu”. Entretanto, alerta Winnicott, nada disto é automático. Embora exista um fator de crescimento inerente, sua atualização exige a presença de um ambiente adaptado à necessidade do bebê, sendo esta necessidade tão significativa que o fator de crescimento inerente fica encoberto. Isto quer dizer, e Winnicott é enfático ao afirmá-lo, que assim como a integração do eu, sendo uma tendência, não é um dado, a inserção do psiquismo no corpo (personalização) é também algo a ser alcançado. Neste processo o manuseio propiciado pelos cuidados ambientais constitui um fator muito importante como estímulo a uma boa inserção do psiquismo no corpo. Winnicott compara a importância desse manuseio para o processo de personalização com a importância que os modos de segurar o bebê têm para o processo de integração. A experiência de funções e sensações da pele e do erotismo muscular, afirma, fortalecem a coexistência entre o psiquismo e o corpo. Contrariamente, a intensificação de processos intelectuais precoces pode criar dificuldades a essa inserção. Trata-se assim de uma tendência (a personalização) que depende, para sua atualização, das vicissitudes da história singular de indivíduo. Winnicott exprime isso escrevendo que não existe identidade entre o psiquismo e o corpo. Convém se deter sobre o significado desta afirmação. Do ponto de vista do observador, o corpo é fundamental para a existência da psique, que depende do funcionamento cerebral e emerge como produto da elaboração imaginativa das funções corporais. Entretanto, do 7 No mesmo sentido Castoriadis enfatiza a existência de um imaginário radical, cerne da criatividade humana individual e coletiva. Cf. Castoriadis, C. “A instituição imaginária da sociedade”, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1973. 8 Ottavio de Sousa, Aapectos clínicos e metapsicológicos do uso de drogas” in Carlos Plastino, “Transgressões”, Contra-capa, Rio de Janeiro, 2002. 9 Winnicott, W.D. “Natureza Humana”, Imago, Rio de Janeiro, 4 ponto de vista do indivíduo, o self e o corpo não são inerentemente superpostos, embora para haver saúde seja preciso que dita superposição se torne um fato e “o indivíduo possa identificar-se com aquilo que, estritamente falando, não é o self”. No desenvolvimento emocional saudável, escreve Winnicott, isso é alcançado junto com a capacidade de usar o prenome na primeira pessoa, acrescentando que isto nem sempre sucede, e ainda que, após ser alcançado, esse resultado pode ser perdido. A tendência à personalização, como todas as outras, se produz a partir de duas direções, sendo uma pessoal e outra ambiental. Impulsos e sensações da pele, do erotismo muscular e dos instintos, tudo o que se refere aos cuidados do corpo e à satisfação das funções instintivas, integram essas duas direções. Assim, a satisfação das funções instintivas favorece o processo de personalização, enquanto sua frustração pode afrouxar o vínculo entre a psique e o corpo (despersonalização). A frustração provoca um sentimento de desesperança e futilidade num processo que, se exacerbado, pode atingir todos os graus da doença. O desenvolvimento emocional saudável exige que no processo emocional participem tanto os fatores pessoais quanto os ambientais. A personalização pode ser atingida mesmo quando essa participação for desequilibrada, mas a conseqüência disso será a emergência de aspectos doentios na vida emocional. Assim, se o processo de personalização foi impulsionado apenas pelos fatores pessoais, a aglutinação do self será vivenciada pelo sujeito como um ato de hostilidade para com o não-eu, gerando uma expectativa de perseguição. Trata-se de uma disposição paranóide muito precoce, porém não inata, e sim produzida pela história singular de cada indivíduo. No segundo tipo extremo de geração do processo de personalização, os cuidados produzidos pelo ambiente são a causa principal para a aglutinação do self, podendo-se dizer que o self foi obrigado a aglutinar-se. Nesse caso, escreve Winnicott, a falha no desenvolvimento emocional provocará a incapacidade do sujeito para esperar a perseguição, resultando em ingenuidade e numa grande dependência da provisão ambiental. Nos casos favoráveis existe a expectativa de perseguição, mas também a expectativa de um cuidado capaz de protegê-la. O indivíduo pode tornar-se capaz de cuidar-se a si mesmo. A atividade inconsciente não é regida pela lógica identitária. Ele não conhece nem o tempo nem a contradição. Sua forma de ser –processo primário- constitui o cerne da grande descoberta de Freud, descoberta que parte importante da posteridade freudiana teve grande dificuldade em assimilar, ao ponto de ter tentado transformar o inconsciente seja numa maquinaria real, seja numa estrutura lógica.10 Não foi o caso de Winnicott. Reconhecendo a necessidade de aceitar o paradoxo como um elemento central na construção do conhecimento, Winnicott desenvolveu, expandiu e aprofundou a genial descoberta de Freud. É preciso sublinhar a enorme significação desta descoberta11 e daquela expansão e aprofundamento. Tanto quanto as descobertas da física quântica, elas contribuem decisivamente na ultrapassagem dos pressupostos ontológicos e epistemológicos do pensamento tornado hegemônico na modernidade. No contexto desses pressupostos, que postulam a organização identitária da totalidade do 10 Nesse sentido ver Castoriadis ,C, “A Instituição imaginária da sociedade”, Paz e Terra, Rio de Janeiro 1973. 11 Nesse sentido meu trabalho “O quinto rombo: a psicanálise”, in Boaventura de Sousa Santos, “Conhecimento prudente para uma vida decente. Um discurso sobre as ciências revisitado”, Cortez, São Paulo 2004. 5 real, o paradoxo é considerado como sendo um erro do raciocínio. Na perspectiva contemporânea, por sua vez, ele é pensado como um limite da razão, porém não do pensamento. Assim, no pensamento winnicottiano, o paradoxo precisa ser aceito, pois sem ele não é possível lidar com as modalidades de ser do real que não se deixam aprisionar nos limites da lógica racional identitária. È a constatação dessa complexidade ontológica e antropológica que impõe e autoriza experiências de conhecimento que, não se ajustando aos critérios da cientificidade positivista, permitem formular “hipóteses que funcionam”, como gostava de dizer o mestre inglês.