V.C.05-01221 “... estação de Simoni, pelo engenheiro Francisco Lopes, também pesquisador...” Integra do texto “Rodrigo e seus tempos” do qual este manuscrito é uma parte (a partir do meio do 10° parágrafo). Rodrigo e seus tempos Prefácio para a publicação “Rodrigo e seus tempos” feita pelo SPHAN. Ao contrário do que seria apropriado, não me proponho comentar neste prefácio a contribuição crítica e divulgadora dos textos aqui reunidos, nem tratar a obra “ministerial”, digamos assim, do Rodrigo no sentido da sua incisiva e constante atuação atualizadora da legislação defensiva do nosso patrimônio histórico e artístico, mas tão só relacionar e relembrar as pessoas e personalidades que, no SPHAN, com ele conviveram e atuaram, tendo principalmente a sua querida e singular figura encarada de um ponto de vista estritamente pessoal. Ainda não conhecia o Rodrigo – Rodrigo M. F. de Andrade – quando, certo dia de novembro de 1930, me telefonou solicitando o favor do meu comparecimento ao gabinete do novo Ministério da Educação e Saúde, então instalado na antiga Assembléia, a chamada “Gaiola de Ouro”, palácio projetado e construído quando eu, ainda estudante, trabalhava no Escritório Técnico Heitor de Mello. Com aquele trato cortês que era o seu modo natural de ser, explicou-me o propósito do governo revolucionário de dar nova orientação aos departamentos culturais do Ministério, já tendo neste sentido convidado, entre outros, Rodolfo Garcia e Luciano Gallet, pedindo-me então que aceitasse a direção da ENBA. Inconformado com a minha pronta recusa, levou-me à presença do professor da Politécnica Lino de Sá Pereira, consultor do ministro. Inteligente e cauteloso, mas preciso nas interpelações, a conversa, a princípio difícil, se prolongou, e ele, ponderando que a oportunidade era excepcional, acabou me convencendo que devia aceitar. A reforma fracassou, mas o seu objetivo de reintegrar as artes e adequar a arquitetura à nova tecnologia construtiva concretizou-se na edificação da sede do Ministério e na criação do SPHAN; e foi então que, seis anos depois, nos 1 reencontramos. Não que ele me tivesse incluído no elenco inicial dos seus colaboradores, constituído por Carlos Leão, Paulo Barreto e José Reis, mas porque em fins de 37 me incumbiu de uma tarefa à parte, a de inspecionar e propor o que fazer com as ruínas dos Sete Povos das Missões Jesuíticas no Sul do país. A partir daí passei a assessorá-lo na qualidade de consultor técnico contratado, e nunca passei disso. A orientação, os estudos, as pesquisas foram sempre da iniciativa dele. Mesmo quando reestruturado o Serviço fui pro forma feito diretor da Divisão de Estudos e Tombamento, me tranquilizou: “Ficará tudo na mesma, como você quer.” Assim, a direção efetiva da Divisão continuou, tal como vinha sendo, da alçada do diretor-geral, ou seja, do próprio Rodrigo. Acatando embora o meu conselho, nunca dispensou o confronto dele com a opinião de seus demais colaboradores e seu próprio juízo e discernimento quando, finalmente, optava. Inclusive tomou a importante decisão de confiar a Oscar a elaboração do projeto do hotel para Ouro Preto, só me comunicando depois, por telefone. No início ele tinha uma corte de moças, a começar pela bonita e inteligente Judith Martins, que foi o seu braço direito: além de secretária e colaboradora, discutia de igual para igual todos os problemas da Repartição. Hélcia Dias, Maria de Lourdes Pontual, Nair Batista não se limitavam às tarefas burocráticas normais, procediam a estudos e elaboravam trabalhos sugeridos e orientados pessoalmente por ele. Além dessa plêiade feminina e de Mário de Andrade, parceiro e assíduo colaborador do SPHAN, havia Luis Jardim, cria de Gilberto Freyre, Alcides da Rocha Miranda, puro como pessoa e apurado ao extremo como artista, Joaquim Cardoso, o sábio engenheiro “expulso” de Pernambuco, o consultor jurídico e amigo de sempre Prudente de Morais Neto – Pedro Dantas, o “Prudentinho”. Rodrigo era muito chegado ao uso do diminutivo carinhoso como “Afonsinho”, o primo cujo fecundo destino o tempo consolidou. No edifício NILOMEX, onde primeiro funcionou o Serviço, tive o privilégio de conviver na mesma sala com Prudente, Cardoso e Isaías, o Profeta, moldado de corpo inteiro pelo Tecles, assim como, já no edifício novo do Ministério, o de compartilhar a mesma “baia” do arquivo com Carlos Drummond de Andrade. Apesar do lastro desses colaboradores, havia altos e baixos na dedicação às tarefas. Éramos todos ao mesmo tempo dedicados e relapsos, e o peso maior da 2 carga recaía sempre no diretor, que criou uma espécie de bolsa particular de valores onde registrava, no trato, a cotação periódica de cada um, e era comovente de se ver como, depois de semanas e meses negativos, bastava o mínimo favor de um curto período de interesse e dedicação, e a cotação registrava logo uma espetacular ascensão. Assim, ele passava do maior pessimismo e total descrença a uma generosa e desmedida confiança nas pessoas e suas intenções. Apenas a serena, correta e constante dedicação do confiável Soeiro escapou dessas oscilações, daí a escolha dele para sucedê-lo na direção do Patrimônio, tendo Alda Meneses como secretária. Acontece que fui colhido nos humores desse pendular descompasso quando ele confiou a outrem um estudo da minha afeição e do meu particular interesse. É que, naturalmente, já devia estar saturado de tanta protelação. O primeiro pesquisador, estimulado pelo próprio Rodrigo, foi o sacristão Manuel de Paiva, de Ouro Preto, seguido por Dona Marieta e Carlos Ott, na Bahia; e depois, igualmente em Minas, pelo cônego Raimundo Trindade, diretor do Museu da Inconfidência, restaurado pelo engenheiro Francisco Lopes, também pesquisador, segundo planejamento do Soeiro e ambientação de Simoni. Ali se esconde uma obra-prima arquitetônica concebida por José de Souza Reis que soube, com o mínimo de meios e extrema sensibilidade e apuro, transformar uma simples sala num sóbrio “anti-mausoléu”, digno da memória dos Inconfidentes. Outra valiosa recuperação foi a da arruinada casa de Sabará, hoje Museu do Ouro, cuja instalação Rodrigo confiou ao civilizado bom gosto de Antonio Joaquim de Almeida. Iniciativa seguida pelo restauro do prédio, criminosamente desmantelado, onde agora funciona o bem equipado Museu Regional de São João del-Rei, e pela sucessiva criação dos museus das Bandeiras, na antiga Casa da Câmara de Goiás Velho, e do Diamante, na casa que ostenta o único muxarabi-desacada sobrevivente no país. E ainda, como se já não bastasse, pela providência de salvar o antigo Colégio dos jesuítas destinado ao Museu de Paranaguá, instalado com apuro por José Loureiro Fernandes. Essa notável constelação de museus, iniciada em Petrópolis com o Museu Imperial, seria afinal rematada por sua inteligente e atuante prima Maria do Carmo Nabuco, com a inauguração do Museu da Casa do Padre Toledo em Tiradentes, antiga São José del-Rei. 3 E tudo isso sem descurar dos grandes museus existentes, como o Nacional, o da Quinta e o das Belas-Artes. Inclusive com a reformulação do Salão, decorrente ainda da experiência de 31. Lamentavelmente o seu propósito de organizar um museu de escultura arquitetônica, cedo iniciado com as impecáveis moldagens feitas por mestre Tecles das portadas do Paço do Saldanha e das igrejas do Aleijadinho, acrescidas do medalhão do frontispício de São Francisco de Ouro Preto, frontal do seu altar-mor, púlpitos e lavatórios da sacristia, não foi levado a cabo. E o acervo desgarrou. Na primeira fase de obras herdou da extinta Inspetoria de Monumentos, criada por Gustavo Barroso, o engenheiro Epaminondas de Macedo, muito dedicado, embora um tanto afoito nas suas intervenções. No restauro da talha e pintura contou com a extraordinária disposição e competência de Edson Mota, sendo impressionantes o vulto e a importância das obras empreendidas, entre elas o completo restauro interno da matriz de Sabará. E também com o surpreendente João Afonso, seu discípulo, beneficiado com estágio na Europa, que fez renascer na sua resplendente glória o magnífico retábulo franciscano da antiga Vila Rica, do Aleijadinho, cuja obra, no abalizado dizer de Germain Bazin, foi a derradeira manifestação mundial válida de arte religiosa cristã, até que, depois de mais de um século de aviltamento, renascesse em Ronchamp, acrescento eu. Neste particular, foi decisiva a atuação do Rodrigo no sentido de livrar a imagem de Antonio Francisco Lisboa da emaranhada trama de inverdades e fantasias tecida em torno da sua obra de arquiteto e de escultor que, a partir daí, passou a ser estudada com base na precisão histórica e na competência crítica, sendo esta, sem dúvida, das mais interessantes e apaixonantes tarefas levadas a cabo pelo Patrimônio – a de repor, definitivamente, o Aleijadinho na verdadeira dimensão da portentosa e imortal grandeza do seu gênio. Intelectual e homem de ação, a sua incansável atividade diária era sempre entremeada pela presença na Repartição de personalidades do meio cultural, artístico e político, inclusive notáveis estrangeiros, porque o SPHAN foi órgão inovador em termos internacionais. Daí o respeito que sempre mereceu. Com Rodrigo, o clima no Patrimônio era universitário. Ele orientava, atraía os colaboradores mais qualificados, editava revistas, estimulava vocações. As portas estavam sempre abertas, acolhia a todos, era o reitor – e essa irradiação estendia- 4 se a todo o país. No Norte, através do veterano e dedicadíssimo Ayrton Carvalho e de Godofredo Filho, morgado de Salvador; no Sul, através de Mario de Andrade, desde cedo assessorado por Luis Saia e José Bento, cuidando ele pessoalmente de Minas, sua terra, assistido por Salomão Vasconcellos e seu filho Sílvio, ainda estudante. Além da continuada atuação de conselheiros, como Gilberto Ferrez, tenaz desencavador de documentos e tesouros iconográficos, de mestre Paulo Santos, digno de Robert Smith, de Bazin e de Mario Chicó, e de pioneiros como o “oitocentista” Francisco Marques dos Santos, patrono dos antiquários, Paulo Tedim Barreto, apaixonado de arcaísmos arquitetônicos e verbais – mais tarde beneficiado com a súbita e decisiva presença da culta e competente Lygia Martins Costa – e, ainda, o benemérito beneditino da “Selva Negra”, dom Clemente que, com a ajuda do dedicado Moreira, criou o incipiente arquivo, consolidado por Carlos Drummond e agora confiado aos cuidados de Edson Maia. Com o correr do tempo o número de participantes crescera: Edgard Jacinto, guardião da fidelidade documental, Rusini, brasileiro da Estônia, museólogo, organizador do setor de arqueologia, Augusto Silva Teles, tão integrado no nosso acervo monumental como entrosado com as instituições e os organismos internacionais, assim como o hoje bem informado crítico e erudito divulgador Mario Barata, Ligia Fagundes, organizadora da biblioteca, a serena Belmira, que virou brasiliense, e o casal de arquitetos professores, os queridos Dora e Pedro Alcântara. Sem esquecer o dono do passado, Noronha Santos, meticuloso historiador da cidade, Celso Cunha, anjo da guarda verbal, e o impecável Rafael Carneiro da Rocha, zelador da boa trilha jurídica, presente e futura, nos embates com o município e a igreja. Enquanto isto, na sua Regional, Ayrton prosseguiu no difícil e penoso trabalho de recuperação de preciosos monumentos, assistido pelo competente Ferrão e depois também pelo arquiteto José Luis de Meneses, quando ressurgiu, na pureza da traça original, a minha igreja da Graça desventurada pelo flamengo. Na Bahia, sob a orientação do Godofredo, atuavam então o sóbrio e culto José Valadares, irmão de Clarival do Prado, cuja vivacidade intelectual, curiosa e versátil resultaria fecunda, e o comedido e sempre confiável Diógenes Rebouças, seguidos por Paulo Azevedo, urbanista-arqueólogo, Fernando Leal, aplicado e 5 dedicado restaurador, e, ainda, Rescala, autor de meticuloso inventário em Goiás. Em Minas, avultou primeiro a personalidade marcante de Sílvio Vasconcelos, que o “mau destino” afastou do nosso convívio, ficando como representante do SPHAN no Distrito, primeiro Antonio Veloso, depois o fiel Roberto Lacerda, antigo assistente do Sílvio, atuando em Juiz de Fora; Arcuri, misto de prático e intelectual; e mais os colaboradores eventuais, Perret, responsável pela recuperação do teatro de Sabará, e Ivo Porto de Meneses, que salvou da ruína a preciosa sede da fazenda do Manso, ainda vinculada à tradição das casas ditas “bandeirantes”. Do Sul vinham sempre “manadas” de estudantes a caminho do Norte e de Minas conduzidas por Julio de Curtis, enquanto o escrupuloso Ciro Lira, ligado ao Saia, cuidava do Paraná. Em São Paulo, finalmente, o próprio Luis Saia, herdeiro de Mário e restaurador das casas seiscentistas, revelava-se, por sua abordagem abrangente e pormenorizada dos problemas, figura padrão do Patrimônio em escala nacional, e nos deixaria como continuador o sereno, idôneo e sensível Antonio Luis de Andrade – “Janjão” – assistido sempre pelo veterano Hermann Graeser, excelente fotógrafo. Foram vários os fotógrafos que serviram ao IPHAN: o notável lituano Vosylius, Pinheiro, Benício Dias, Marcel Gautherot, o mais artista, que certa manhã irrompeu Patrimônio adentro sobraçando uma pasta com belas fotos da Acrópole, na companhia de Pierre Verger, que o visgo da Bahia iria pegar para sempre, e o simpático Erich Hess, disposto a voar fosse para onde fosse. Apesar de sua congênita compostura, o Rodrigo se permitia às vezes atitudes meio marotas como ocorreu quando, no auge da hostilidade antigermânica durante a guerra, precisando mandar esse mesmo Erich Hess a Petrópolis para determinado serviço, trocou-lhe o nome no documento de apresentação para “Eurico Eça”. Interpelado por um guarda enquanto fotografava, a coisa resultou na maior confusão. Assim como também se permitia liberdades de expressão como, por exemplo, no conhecido episódio ocorrido quando, à vista de um sério revés, voltouse para dona Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional, dizendo “minha cara...” e, num desalentado suspiro, repetiu o desabafo histórico do rei à rainhamãe, “Senhora, está tudo perdido, salvo a honra” – só que o fez em termos mais democráticos. 6 Amigo por vocação, a sua capacidade de se dar a uma tarefa ou a alguém não tinha limites, e a sua tarimba jornalística inicial – direção e redação – o marcou para sempre. Verdadeiro irmão do idolatrado Manuel Bandeira e empolgado pela força da criatividade poética do Carlos, foi íntimo de Milton Campos, de Sérgio Buarque de Holanda, do “Teixeirão” – do Arquivo Mineiro –, do Luis Camilo e de Gastão Cruls, morador da Tijuca onde às vezes se refugiava, e conviveu de perto com Mario Pedrosa, Gilberto Freyre, Pedro Nava – ainda incubado –, Alceu Amoroso Lima, Murilo Mendes, Aníbal Machado, Vinícius de Moraes, Rubem Braga – cujo contido humor e sensibilidade o encantavam –, Cecília Meireles – como é que pode! –, Josias Leitão, Alexandre Eulálio, Raul Bopp, Miran Latiff, Afonso Taunay, relação que, conquanto longa, é apenas parcial e dá bem idéia do homem que ele era, e essa vivência intelectual servia de contraponto ao seu batente administrativo e lhe apurava este exercício diário. Daí a correção da linguagem, a sujeição à forma escrita sóbria e apropriada que aflorava na redação de seus menores informes, despachos e pareceres. A coisa mal redigida o incomodava como uma ferida no pé. Para ele, a limpeza física e a limpidez verbal eram uma necessidade orgânica. Tudo sem sombra de afetação, mas por vezes temperado, no trato pessoal, com um certo disfarçado sarcasmo que lhe era peculiar. Rodrigo era assim. Ele aliava a seriedade à graça, a prevenção à bonomia, a erudição à singeleza. Visceralmente pessimista, incutia, nos outros, fé nos valores e esperança. Filho e irmão do maior apego e ternura, pai de verdade. Quando é que poderia imaginar que, 18 anos depois de morto, pessoas que nem sequer o conheceram – Lélia Coelho Frota, Teresinha Marinho, José Laurenio de Melo e João de Souza Leite – iriam debruçar-se numa paciente procura à cata de documentação no rastro que ele deixou. Naquele nosso primeiro encontro no Ministério, eu o havia reconhecido como o rapaz que, num ônibus dos anos 20, viajava em circunspecta confabulação amorosa num banco à minha frente, e cuja figura de amante apaixonado me ficou gravada porque no Mourisco, onde a moça saltou, ele se virou para acompanharlhe, insistente, a graciosa figura que sumia na multidão – Graciema. 7