BE_310 CIÊNCIAS DO AMBIENTE - UNICAMP ESTUDO (Turma 2012) Disponível em: http://www.ib.unicamp.br/dep_biologia_animal/BE310 INFLUÊNCIA DO RIBEIRÃO DAS PEDRAS NA TEMPERATURA E NA UMIDADE DE SUAS VIZINHANÇAS BRUNO RESENDE RODRIGUES, GUILHERME BUENO AQUINO DE OLIVEIRA*, ISABELA DA COSTA CASTANHERA & MARINA WEYL COSTA UNICAMP/ Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) [email protected] RESUMO A temperatura e a umidade são fatores importantes para o conforto térmico das pessoas em um ambiente. Na maioria dos ambientes fechados, busca-se manter uma situação confortável para a maioria das pessoas. Para a determinação dos parâmetros do conforto térmico, utilizam-se, principalmente, as normas ASHRAE. É conhecido que há influência de cursos d’água na temperatura e na umidade do ar das vizinhanças, assim, obtiveram-se medidas para o estudo destes parâmetros nas vizinhanças do Ribeirão das Pedras, em Barão Geraldo, Campinas, São Paulo, Brasil, para regiões com e sem a presença de vegetação. A influência, pequena em todos os pontos de coleta de dados, mostrouse maior na região com vegetação e em horários com temperaturas mais amenas, pela manhã e ao final da tarde. PALAVRAS-CHAVE: Temperatura, umidade, conforto térmico, Ribeirão das Pedras. ABSTRACT Temperature and humidity are important factors to people thermic comfort in a place. At most closed places, it’s desirable to maintain a comfortable situation for most people. The ASHRAE standards used to determine these parameters. It is known that watercourses influenciate temperature and humidity in neighboring areas, therefore, data was collected to study about these parameters at the neighboring areas of Ribeirão das Pedras, at Barão Geraldo, Campinas, Brazil, for regions with and without vegetation presence. The influence, small at all the points of collected data, is a bit bigger at the regions with vegetation and hours with mild temperatures, during the morning and and end of afternoon. KEY WORDS: Temperature, humidity, thermic comfort, Ribeirão das Pedras. INTRODUÇÃO A Bacia Hidrográfica do Ribeirão das Pedras localiza-se na região noroeste do município de Campinas (SP), e drena as águas que passam ou caem no distrito de Barão Geraldo, bem como as águas de seis bairros do norte da cidade, inclusive da Unicamp. O Ribeirão segue seu curso desaguando o Ribeirão das Anhumas, depois no Rio Atibaia, no Rio Piracicaba e termina no Rio Tietê (DAGNINO, 2007). Diversos riscos ambientais são observados e relatados na literatura sobre a Bacia Hidrográfica do Ribeirão das Pedras: cursos de água poluídos, lançamento de esgotos ou efluentes, cursos de água soterrados, zoonoses, animais criados soltos, antenas de telefonia celular, habitações com condições de vida precárias e infra-estrutura deficiente, indústrias de médio e pequeno porte, estabelecimentos comercias, etc (DAGNINO, 2007). Para este trabalho, compararam-se as margens do Ribeirão das Pedras com maior presença de vegetação e aquelas onde há mais construções irregulares. O conforto térmico é uma medida de quão agradável um ambiente encontra-se para a maioria das pessoas. Existem padrões de medidas para a determinação do conforto térmico, especialmente em ambientes fechados, como as normas ASHRAE, americana, e ABNT TB-LR-1945, brasileira (PÉCORA, 2010). Os principais parâmetros para a medição de conforto térmico são umidade relativa do ar, temperatura do ar, razão de umidade, temperatura de orvalho, entalpia do sistema, temperatura de saturação adiabática, volume específico do ar, velocidade do ar e radiação térmica (PÉCORA, 2010). Excessos de umidade e de temperatura impedem uma boa extração do calor pelo suor em humanos e ocorre quando o ar está com a umidade próxima a 100%, pois a evaporação é mais lenta. Essa situação é considerada de desconforto térmico e pode levar à formação de mofos em ambientes fechados. Já valores baixos de umidade do ar estão associados à maior incidência de problemas respiratórios, como asma, irritações e inflamações na garganta e problemas oculares, como irritação, conjuntivite, olho-seco (ARANDA, 2012). A medida da temperatura pode ser feita basicamente por duas maneiras: a temperatura de bulbo seco é a temperatura medida com o bulbo do termômetro diretamente em contato com o ar ambiente; a temperatura de bulbo úmido é medida com o bulbo do termômetro envolta em algum material com capilaridade, como um tecido, para que o bulbo esteja úmido, não molhado. Essa medida é importante por apresentar a menor temperatura atingida apenas pelo efeito da evaporação de água no ar. Quanto menor a umidade relativa do ar, maior o resfriamento alcançado pela evaporação. De acordo com as medidas obtidas, para cada localidade, prédio ou sala analisam-se as técnicas que conferem às pessoas usuárias do ambiente o conforto térmico com o intuito de escolher a técnica mais adequada. Uma das técnicas de condicionamento de ar de sistema passivo, sem componentes não ambientais, se baseia no fato de que espelhos d’água, rios e lagos naturalmente resfriam o ar nas redondezas. Assim, em regiões quentes e secas, espelhos d’água são utilizados para resfriar o ar, o qual é levado para dentro dos ambientes fechados pelo vento, ambientes estes que devem ser projetados para o uso do vento natural como meio de circulação do ar resfriado. É uma técnica de baixo custo de manutenção, comparado a sistemas de ar-condicionado por acionamento elétrico. Entretanto, é extremamente dependente das condições ambientais do lugar da instalação. É um tipo de condicionamento de ar de sistema evaporativo (PÉCORA, 2010). Em Brasília, o lago Paranoá, formado pelo represamento de um ribeirão de mesmo nome, foi planejado para ser uma fonte de água em um processo de refrigeração passiva do ar nos meses de inverno, pois a cidade localiza-se no Planalto Central e caracteriza-se por ter um clima muito seco no inverno e com altos índices de ventanias. (CAVALHEIRO, 2004). Entretanto, não se observa o efeito desejado. Todos os anos os habitantes de Brasília e cidades satélites sofrem com o ar seco. Em 3 de outubro de 2012, Brasília registrou a mais baixa umidade do ar do ano, cerca de 13% (SOUZA, 2012). Para fins comparativos, o deserto do Atacama registra níveis de umidade relativa do ar em cerca de 7% (VEIGA, 2012). Já o deserto do Saara registra média de 10% de umidade relativa do ar (PORTAL TERRA, 2012). Assim, o efeito real de um curso d’água na umidade relativa do ar das áreas vizinhas pode ser muito inferior ao esperado pelo projeto. Um dos fatores é a distância do ponto de medida ao curso d’água. O presente trabalho pretende estudar o efeito do Ribeirão das Pedras na umidade e temperatura do ar nas vizinhanças, entre pontos escolhidos no distrito de Barão Geraldo, Campinas, SP, em locais que respeitam e que não respeitam a lei de uso e ocupação do solo de Campinas, SP. MATERIAIS E MÉTODOS A área estudada abrangeu as três principais avenidas que irradiam da Unicamp, bem como as ruas que passam entre elas. Para facilidade de identificação, as avenidas que serão chamadas por números. A Rua Doutor Romeu Tórtima será considerada como avenida 1, a Av. Atílio Martini, avenida 2 e a Av, Oscar Pedroso Horta, como avenida 3. Foi realizado um mapeamento via Google Maps para verificar quais trechos ao longo do Ribeirão das Pedras possuíam mais ou menos vegetação. As Figuras 1 a 5 apresentam o trecho estudado. As áreas sombreadas de azul são aquelas que possuem mais de 30 metros de margem, as áreas vermelhas são as que contêm menos de 30 metros de margem e nas áreas verdes não foi possível estimar. Foram definidos, por meio de visita, os pontos mais críticos do ribeirão que seriam analisados. Figura 1: Trecho do Ribeirão das Pedras entre as Avenidas 1 e (identificação dos locais de coletas de dados dos pontos 1, 2 e 3). Figura 2: Imagem do trecho do Ribeirão das Pedras depois da Avenida 2. Figura 3: Imagem do trecho do Ribeirão das Pedras posterior à figura 2. Figura 4: Trecho do Ribeirão das Pedras posterior à figura 3. Figura 5: Trecho do Ribeirão das Pedras no entorno da Avenida 3, além da identificação dos locais de coletas de dados dos pontos 4 e 5. O Lago próximo à Unicamp foi identificado abaixo. Para alcançar os objetivos propostos, foram realizados três grupos de medidas de temperatura e umidade relativa em horários diferentes do dia 21 de outubro de 2012, espaçados de quatro horas entre si: 8h, 12h e 16h. Em cada série de medição foram tomados para cada ponto principal quatro pontos espaçados de aproximadamente trinta metros entre si, afastando-se do Ribeirão, sendo os pontos especificados nas figuras 1 e 5. As medições de temperatura e umidade foram realizadas com o auxílio de um psicrômetro, cedido gentilmente pela Dr. Araí Pécora da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp. O funcionamento do aparelho consiste em medições de temperatura de bulbo seco e umidade relativa do ar. Com valores dessas duas variáveis obtêm-se um estimativa do efeito do Ribeirão das Pedras no conforto térmico de quem mora ou transita perto do fluxo de água. Foram retirados do site da CEPAGRI valores de temperatura e umidade relativa com relação à Campinas. Essas medidas foram utilizadas para efeito de comparação com as obtidas durante a aferição feita pelo grupo. RESULTADOS E DISCUSSÕES Utilizando a metodologia descrita anteriormente, foram feitas medidas de temperatura e umidade relativa para todos os pontos de medida escolhidos. Os valores obtidos estão representados na forma de gráficos, na Figura 6. Também foram obtidos os valores de temperatura e umidade relativa medidos pelo CEPAGRI para o dia 21 de Outubro de 2012, quando as medidas de campo foram realizadas. Esses valores estão representados graficamente na Figura 7. Para avaliar o conforto térmico nessas situações, foi utilizado o fator de sensação térmica Y (ASHRAE, 2001), definido como: Onde t é a temperatura em ºC, φ é a umidade relativa e p sat é a pressão de saturação em kPa. O valor da pressão de saturação depende apenas da temperatura, de forma que pode ser obtido facilmente de tabelas de propriedades termodinâmicas; para este trabalho foram utilizadas as tabelas de Moran & Shapiro (2002). O fator de sensação térmica pode ser utilizado para avaliar o conforto térmico utilizando-se a escala ASHRAE de sensação térmica (ASHRAE, 2001), descrita na Tabela 1. Os valores do fator de sensação térmica Y calculados para cada um dos pontos de medida, assim como os valores obtidos para as medidas da CEPAGRI estão representados na Figura 8. Tabela 1: Escala ASHRAE de sensação térmica Conforme o esperado, as medidas mostram que há uma tendência de queda da umidade relativa conforme se afasta do Ribeirão das Pedras. Nos pontos de medida 3 e 4, onde há um pequeno trecho de vegetação preservada próxima ao rio e logo depois uma rua asfaltada, há uma tendência de aumento de temperatura conforme se afasta do rio; enquanto que nos pontos 2 e 5, que são regiões de vegetação mais densa, a temperatura se mantém praticamente constante. No ponto 1, onde não há vegetação ciliar, não há um padrão claro quanto à variação de temperatura. Dessa forma, nota-se que a influência do Ribeirão das Pedras sobre os parâmetros que influenciam conforto térmico em suas proximidades ocorre principalmente sobre a umidade relativa, com leves efeitos sobre a temperatura. Figura 6: Gráficos dos valores de temperatura e umidade relativa aferidos nos diversos pontos de medida. Figura 7: Valores de temperatura (esquerda) e umidade relativa (direita) medidos pelo CEPAGRI em 21 de outubro de 2012 Figura 8: Gráficos dos valores de Y calculados para cada ponto de medida e também para os valores de temperatura e umidade relativa obtidos do CEPAGRI. A comparação em termos de conforto térmico foi feita utilizando-se o fator de sensação térmica (Y). Adotando Y=0, que é a situação neutra, como situação de maior conforto, para as faixas de horários de 8h a 10h e de 16h a 18h, as regiões próximas ao Ribeirão das Pedras apresentam, em geral, um conforto térmico levemente superior ao obtido através dos valores do CEPAGRI. Já nos horários de 12h às 14h, para todas as regiões próximas ao rio os valores de Y calculados, há uma indicação de sensação térmica mais quente, comparada aos valores do CEPAGRI, levando a desconforto térmico. Isso é atribuído à intensa radiação solar nesse horário; como as medidas foram feitas a céu aberto, a radiação solar teve um grande efeito sobre elas. Dessa forma, o Ribeirão das Pedras apresenta uma pequena influência sobre o nível de conforto térmico em seus arredores. Esse efeito é mais notável durante a manhã ou no final da tarde, quando as temperaturas são mais amenas. Quando as temperaturas são mais elevadas, a influência do rio é pequena demais para tornar a sensação térmica agradável. Notavelmente, nos pontos de medida 2 e 5, onde havia mais vegetação, a sensação térmica tende a se manter mais baixa e, portanto, mais agradável. Nos demais pontos de medida, onde há menos vegetação, a sensação térmica é mais alta. Assim sendo, pelas medidas realizadas, o ribeirão tem um efeito maior sobre o conforto térmico quando atua juntamente à vegetação; onde não há vegetação, o efeito é pequeno. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ASHRAE. ASHRAE Handbook, 2001: Fundamentals. ASHRAE, Atlanta , 2001. ARANDA, Fernanda. Como proteger a saúde do ar seco. Disponível em: http://saude.ig.com.br/bemestar/como+proteger+a+saude+do+ar+seco/n1237586402173.html Acessado em 20/10/2012. CAVALHEIRO, F., Urbanização e alterações ambientais. In: TAUK, S.M. (Org.). Análise ambiental: uma visão multidisciplinar. 2004. DAGNINO Ricardo de Sampaio. Riscos ambientais na bacia hidrográfica do Ribeirão das Pedras. Campinas, 2007. MORAN, M. J.; SHAPIRO, H. N. Princípios de termodinâmica para engenharia. LTC, 4ª Edição, Rio de Janeiro, 2000. PÉCORA ,Araí Augusta Bernardez– Apostila de EM 672 – Sistemas Fluidotérmicos I. 2010. SOUZA, Amanda. Brasília registra o dia mais seco do ano, com umidade relativa do ar em 13% Disponível em: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2012/10/03/interna_cidadesdf,325877/ brasilia-registra-o-dia-mais-seco-do-ano-com-umidade-relativa-do-ar-em-13.shtml Acessado em 20/10/2012 TERRA – BEM ESTAR. Baixa umidade do ar exige cuidados com a saúde; veja dicas. Disponível em: http://saude.terra.com.br/bem-estar/baixa-umidade-do-ar-exige-cuidados-com-a-saude-vejadicas,54583f04c2f27310VgnCLD100000bbcceb0aRCRD.html Acessado em 20/10/12 VEIGA, Patrícia Trudes da. Acima das nuvens, deserto do Atacama hipnotiza e surpreende. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/turismo/noticias/ult338u418011.shtml Acessado em 20/10/12