ANAIS III CIMDEPE SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE CIDADES MÉDIAS RIO DE JANEIRO - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO- 27 A 30 DE ABRIL 1 Coordenação WILLIAM RIBEIRO DA SILVA (UFRJ) MARIA ENCARNAÇÃO BELTRÃO SPOSITO (UNESP) MARIA JOSÉ MARTINELLI CALIXTO (UFGD) PAULO PEREIRA DE GUSMÃO (UFRJ) Comitê Científico ARTHUR MAGON WITHACKER (UNESP) BEATRIZ RIBEIRO SOARES (UFU) CARLOS BRANDÃO (UFRJ) CARMEN BELLET SANFELIU (UNIVERSITAT DE LLEIDA) CLEVERSON REOLON (UNESP) CRISTIAN HENRÍQUEZ (PUC/CHILE) DENISE DE SOUZA ELIAS (UECE) DIANA LAN (UCPBA/ARGENTINA) DORALICE SÁTYRO MAIA (UFPB) ELISEU SAVÉRIO SPOSITO (UNESP) EVERALDO SANTOS MELAZZO (UNESP) FEDERICO ARENAS VÁSQUEZ (PUC/CHILE) FLORIANO GODINHO DE OLIVEIRA (UERJ) FREDERIC MONIÉ (UFRJ) GLÁUCIO MARAFON (UERJ) JAN BITOUN (UFPE) JOSÉ ALDEMIR DE OLIVEIRA (UFAM) JOSÉ MARIA LLOP TORNE (CATEDRA UNESCO) JULIA ADÃO BERNARDES (UFRJ) LIA OSORIO MACHADO (UFRJ) MARIA LAURA SILVEIRA (CONICET/ARGENTINA) OSCAR ALFREDO SOBARZO MINO (UFS) OSWALDO BUENO AMORIM (PUC/MG) PAULO PEREIRA DE GUSMÃO (UFRJ) RENATO PEQUENO (UFCE) 2 ROBERTO LOBATO CORRÊA (UFRJ) ROSA MOURA (IPARDES) SAINT-CLAIR CORDEIRO DA TRINDADE JUNIOR (UFPA) TATIANA SCHOR (UFAM) Monitores ANA CAROLINA ALVES CARVALHO DE OLIVEIRA BRUNO BARRETO DOS SANTOS BRUNO PEREIRA DO NASCIMENTO CAIO VITOR VILLARINO CHRISTINA BARBARA GIESEBART CINDY MARTINS RODRIGUES EURIDSON RIBEIRO DA CRUZ GABRIELLE DE SOUZA FRADE HUMBERTO MIRANDA DE CARVALHO JOSÉ BERNARDO DA SILVA JUNIOR LÍVIA MARIA DE SOUZA MAGALHÃES LUANA ALVES LESSA MONIQUE DEISE GUIMARÃES BASTOS NATHAN FERREIRA DA SILVA RAFAELA DETTOGNI DUARTE PAES RENILDO NASCIMENTO SANTOS VIVIAN SANTOS DA SILVA 3 FICHA DE CATOLOGRÁFICA III Simpósio Internacional Cidades Médias, 30 Rio de Janeiro - RJ, 2015 Anais do III Simpósio Internacional Cidades Médias, UFRJ/ReCiMe, 26 à 30 de abril de 2015 / organizado por William Ribeiro da Silva, Maria Encarnação Beltrão Sposito, Maria José Martinelli Calixto e Paulo Pereira de Gusmão. Rio de Janeiro. Tema: ISBN: Cidades Médias, Reestruturação Urbana e Redes. 1. Geografia; 2. Espaço Urbano; 3. Urbanismo. Org. I. SILVA, W.R.; org. II. SPOSITO, M.E.B.; org. III. CALIXTO, M.J.M. e org. IV. GUSMÃO, P.P. Título: Anais do III Simpósio Internacional Cidades Médias. CDU: 4 Índice Autor Pág. Helen Ribeiro Rodrigues ...............................................................................................13 José Queiroz de Miranda Neto ......................................................................................35 Júlio Cláudio da Gama Bentes .......................................................................................56 Leonardo da Silva Galindo .............................................................................................80 Rafaela Dettogni Duarte Paes .......................................................................................103 Ricardo Nagliati Toppan ..............................................................................................123 Cássio Arruda Boechat .................................................................................................139 Elias Mendes Oliveira ...................................................................................................160 5 Apresentação A realização do III CIMDEPE busca propiciar a continuidade do debate acerca da relação entre o desenvolvimento econômico e os novos/velhos problemas da urbanização mundial. O processo da urbanização tem demonstrado novas nuances que atribuem novos papéis às cidades médias em todo o mundo, de tal maneira, que elas passaram a apresentar, por um lado, novos problemas urbanos e, por outro, novas perspectivas de desenvolvimento econômico, por meio de investimentos de grandes empresas (indústrias, redes e franquias comerciais e de serviços) que ampliam suas escalas de ação via cidades médias, como nós de articulação da nova economia mundial. Histórico O I CIMDEPE teve como tema central – “Cidades Médias: Dinâmica econômica e produção do espaço urbano”, o que explica a sigla que lhe nomeia. Ocorreu em Presidente Prudente, na Universidade Estadual Paulista (UNESP), entre 6 e 9 de junho de 2005. O segundo evento desta série – II CIMDEPE – teve lugar em Uberlândia, de 6 a 9 de novembro de 2006, na Universidade Federal de Uberlândia. Desde então a Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias (ReCiMe), responsável pela organização destes encontros científicos, priorizou a apresentação de trabalhos sobre este tema em diversos outros congressos, simpósios e encontros, propondo, somente agora, em 2015, a realização do III CIMDEPE. O III CIMDEPE A realização do III CIMDEPE busca propiciar a continuidade do debate acerca da relação entre o desenvolvimento econômico e os novos/velhos 6 problemas da urbanização mundial. O processo da urbanização tem demonstrado novas nuances que atribuem novos papéis às cidades médias em todo o mundo, de tal maneira, que elas passaram a apresentar, por um lado, novos problemas urbanos e, por outro, novas perspectivas de desenvolvimento econômico, por meio de investimentos de grandes empresas (indústrias, redes e franquias comerciais e de serviços) que ampliam suas escalas de ação via cidades médias, como nós de articulação da nova economia mundial. Assim, as novas estratégias do desenvolvimento econômico passaram a incluir estas cidades como alternativas locacionais às escolhas anteriores que recaíam de modo quase exclusivo sobre as metrópoles, ampliando os limites geográficos da expansão capitalista, o que cria oportunidades de acesso ao consumo e à desconcentração de atividades econômicas, mas também, produz novos problemas urbanos, o que coloca como premente o debate sobre uma urbanização não planejada e o rompimento dos mitos da qualidade de vidas em cidades médias, tidas como “redutos de classe média”, pois se constatam processos de favelização, segregação espacial, degradação de áreas centrais, congestionamentos, elevação dos preços imobiliários e consequente expulsão de populações mais pobres. Os seis eixos principais Nesta perspectiva, convidamos a comunidade acadêmica para participar dos debates que incluirão seis eixos principais, com os seguintes coordenadores: Rede urbana – história, tendências e perspectivas Jan Bitoun (UFPE), Doralice Sátiyro Maia (UFPB), Beatriz Ribeiro Soares (UFU), Marcio Catelan (UNESP), Carmen Bellet (Universitat de Lleida/Espanha). A discussão sobre a constituição da rede urbana brasileira encontra-se desde os estudos clássicos da Geografia Urbana. De rede de cidades à rede urbana, a interligação entre centralidades (cidades de diversos tamanhos, vilas e aglomerados rurais) vai se dando desde os caminhos de passagem, caminhos de gado, ferrovias, percursos fluviais e marítimos, rodovias, e linhas aéreas. Desta forma, as transformações da rede urbana brasileira são representativas 7 do aumento da complexidade da divisão técnica e territorial do trabalho no campo, nas florestas e nas cidades e das permanências presentes na trama de relações entre os centros urbanos e outras centralidades. O espaço, cada vez mais fruto do movimento relacional entre instituições e agentes que atuam em múltiplas escalas, é melhor compreendido a partir desta relação – a coexistência entre as permanências e as transformações contemporâneas. Nesta relação é que se observa a (re) definição dos papéis e das funções das cidades na rede urbana. Esta (re) definição de papéis e de funções ganha relevância nos estudos urbanos sob as perspectivas elaboradas a partir dos centros urbanos, que por um conjunto de variáveis e metodologias convenciona-se chamá-los como cidades médias. Embora estas cidades não componham os níveis mais elevados da hierarquia urbana, ganham importância por exercerem papel cada vez mais importante tanto no que diz respeito à mediação entre campo e cidade; cidades locais e/ou cidades pequenas e metrópoles, etc., bem como porque participam da reprodução do capital e das condições materiais de reprodução da vida conforme são inseridas no âmbito das lógicas da globalização, reunindo lógicas de diferentes escalas, e articulando-as no processo de consolidação de sua centralidade, primeiro regional, e em outros momentos para além desta escala. Neste jogo de escala entende-se um contexto analítico para o debate da reconfiguração da rede urbana que adquiriu conteúdos particulares em sua relação com as cidades médias. Reestruturação produtiva, indústria e cidades médias Eliseu Sposito (UNESP), Cleverson Reolon (UNESP), Diana Lan (UCPBUA/Argentina) As mudanças nas formas de organização da produção industrial, no momento de um regime de acumulação chamado flexível, tem importância não apenas em termos gerais, mas rebatimento importante sobre as cidades médias e seu papel na rede urbana. A maneira como as empresas se organizam (em redes, principalmente), como suas atividades se articulam em diferentes escalas, como tomam decisões e definem padrões de localização e ações que visam ampliar sua competitividade em nível global, são alguns dos aspectos que iremos estudar nesta seção do Workshop. 8 Dinâmicas e lógicas do comércio e dos serviços em cidades médias Maria Encarnação Sposito (UNESP), William Ribeiro (UFRJ), Arthur Withacker (UNESP) O setor de atividades comerciais e de serviços passou por significativo processo de crescimento nas três últimas décadas, em decorrência, inclusive, das dinâmicas relativas à reestruturação produtiva, o que significou maiores articulações com a produção agropecuária e industrial. Tal crescimento foi acompanhado de significativa concentração econômica das empresas, alcançando a escala internacional. Este processo redundou em enorme expansão espacial das redes comerciais e de serviços, com destaque para alguns ramos, como: o de super e hipermercados, o bancário e o de eletrodomésticos. Paralelamente e como parte do mesmo conjunto de mudanças, capitais de diferentes escalas, do internacional ao local, passaram a operar no setor comercial e de serviços, de modo associado, por meio do sistema de franquias, o que também teve como resultado enorme expansão espacial de produtos, serviços e, sobretudo, marcas que se difundiram por diferentes países. Tais dinâmicas trouxeram rebatimentos diretos sobre a organização das redes urbanas, em função da redefinição na divisão interurbana e regional do trabalho e também dos processos e formas de produção das cidades. Se, no período anterior, os grandes capitais do setor terciário atuavam predominantemente nas metrópoles e grandes cidades, a concentração econômica e difusão espacial das redes promoveu uma procura por outros estratos das redes urbanas, o que ampliou os mercados consumidores. Todos estes movimentos podem ser analisados por meio de novas relações entre processos, conteúdos e formas urbanas. O estudo de centralidade em suas múltiplas escalas impõe-se, então, como um desafio. Tendo em vista este quadro geral, que particularidades podem ser notadas nas cidades médias quando analisamos as mudanças do setor comercial e de serviços? De que modo se estruturam seus espaços e se redefinem suas centralidades face às transformações recentes? Em que medida as novas estruturas espaciais refletem velhas e/ou novas formas de segmentação socioespacial? A situação geográfica das cidades médias é fator importante nas escolhas espaciais das empresas? O aumento das possibilidades de 9 transportes e comunicações reforça interações espaciais e isso tem consequências para estas cidades? Como se articulam produção, circulação e consumo nas redes urbanas sob os novos arranjos espaciais? Agronegócio e urbanização Denise Elias (UECE), Gláucio Marafon (UERJ), Mirlei Fachini Vicente Pereira (UFU) O GT objetiva aprofundar os debates sobre os processos e formas inerentes à urbanização da sociedade e do território oriundos da difusão da agricultura capitalista globalizada no Brasil e no mundo, no âmbito das discussões teóricas e metodológicas. Serão aceitos trabalhos que versem sobre os seguintes temas: as novas relações entre o agronegócio, as cidades e a reestruturação regional; a especialização funcional das cidades inerente à difusão do agronegócio; o crescimento do terciário (comércio e serviços) alicerçado no consumo produtivo agrícola; incremento da urbanização, das relações interurbanas e novas regionalizações considerando a organização das redes agroindustriais; as novas relações campo-cidade resultantes dos fluxos de capital, mão de obra, mercadorias, informação, tecnologia etc. inerentes às diferentes atividades industriais, agrícolas, comerciais e de serviços que integram as redes agroindustriais; urbanização corporativa associada ao agronegócio e às redes agroindustriais; reestruturação do centro e formação de novas centralidades nas ‘cidades do agronegócio’; aprofundamento das desigualdades socioespaciais nas ‘cidades do agronegócio’. Desigualdades socioespaciais. Produção de moradia, dinâmica imobiliária e segregação residencial Renato Pequeno (UFCE), Everaldo Melazzo (UNESP), Maria José Martineli Calixto (UFGD) Esta sessão de trabalho dedica-se a analisar os processos gerais, os particulares e os singulares das cidades médias considerando os diferentes agentes da produção da habitação e suas articulações com a política urbana: Estado, mercado imobiliário, movimentos sociais, dentre outros. A dinâmica 10 imobiliária e a produção da moradia são dois eixos analíticos que se complementam e que devem ser tomados em suas dimensões espaciais e que remetem a permanente produção e reprodução de desigualdades socioespaciais. Políticas públicas, governança e desenvolvimento regional – políticas públicas / escalas local e regional Paulo Gusmão (UFRJ), Saint-Clair Trindade (UFPA), Carlos Brandão (UFRJ) O eixo temático volta-se para a discussão das cidades médias, relacionando o atual perfil e dinamismo das mesmas às políticas públicas implementadas pelos diversos níveis de governo – federal, estadual e municipal. Busca-se, dessa forma, enfatizar a dimensão política dessas cidades, considerando o papel das mesmas para o desenvolvimento regional, assim como problematizar elementos relacionados às diversas formas e experiências de governança no contexto geográfico imediato no qual se inserem. OBS: Devido à falta de trabalhos, o EIXO IV - Agronegócio e urbanização, foi condensado ao EIXO III - Dinâmicas e lógicas do comércio e dos serviços em cidades médias. 11 Eixo II: Reestruturação produtiva, indústria e cidades médias. 12 A INFLUÊNCIA DA UTILIZAÇÃO DE UM AEROPORTO NA LOGÍSTICA INDUSTRIAL: A PROPOSTA PARA VARGINHA/MG Helen Ribeiro Rodrigues1 Teresa Cristina de A. Faria2* Resumo Este artigo tem como objetivo apresentar os resultados do estudo desenvolvido, para elaboração de uma proposta de ampliação e adequação do aeroporto Major Brigadeiro Trompowsky, localizado no município de Varginha/MG, desenvolvido no âmbito do Trabalho Final de Graduação, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Viçosa, MG. O objetivo da proposta visa aperfeiçoar a logística das indústrias da cidade de Varginha e região, através da utilização do aeroporto. Dessa forma, pretende-se transformá-lo em aeroporto cargueiro e utilizá-lo como meio de transporte de matéria prima e escoamento da produção industrial e agrícola regional. 1 Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade Federal de Viçosa. E-mail: [email protected] 2 Professora doutora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Viçosa. E-mail: [email protected]; *A autora não apresentou o trabalho e não participou do evento. 13 Palavras-chave: Aeroporto-cidade. Logística de carga. Desenvolvimento regional. 1. INRODUÇÃO A Mesorregião Sul/Sudoeste de Minas Gerais é a segunda em importância econômica no Estado, sendo um dos principais fatores do seu desenvolvimento, a duplicação da Rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo à Belo Horizonte e corta 33 cidades ao longo do seu traçado. Além disso, a região tornou-se uma importante área de progresso devido a sua localização privilegiada – é uma área central entre Rio de Janeiro, São Paulo e o resto do Estado de Minas Gerais. A Rodovia Fernão Dias tem uma importância fundamental na região, pois faz parte do mais relevante eixo rodoviário nacional, aliado à BR-116, interligando os três principais estados do Brasil e da região Sudeste, transformando-se em um corredor de transporte tanto para o mercado interno como para a exportação. Com isso, empresas de grande porte e de vários setores consideram este quesito como um grande atrativo à instalação de unidades na região, como é o caso da Philips-Walita e da Standard (do setor de autopeças) localizadas em Varginha; Danone, Alcoa, e Ferrero Rocher, em Poços de Caldas; Helibrás e Mahle, em Itajubá; Metagal, em Santa Rita do Sapucaí; e Renolds Latasa, Unilever Bestfoods do Brasil e Refinações de Milho Brasil, em Pouso Alegre. Dentro da área estudada, Varginha, que é o foco do estudo em questão e ponto de intervenção da proposta, possui como características uma população de aproximadamente 120 mil habitantes, atividades econômicas voltadas para o setor industrial e de prestação de serviços além da produção agrícola - principalmente cafeeira. Para o crescimento da cidade, alguns fatores contribuem, como a duplicação da Fernão Dias, o porto seco Sul de Minas, a mão-de-obra qualificada e o aeroporto. O aeroporto de Varginha, nomeado Major Brigadeiro Trompowsky, foi construído em 1948 e preparado para prestar informações eficientes à navegação aérea. Em 1959 houve a construção do terminal de passageiros, que foi reformado em 1987. A partir de 1984, com o balizamento do aeroporto (iluminação noturna), a cidade passou também a servir de ponto de convergência e vértice do tráfego aéreo. Em 2012 houve a construção de outro terminal de passageiros em uma área diferente do aeroporto, que atende de forma limitada às necessidades da demanda. Situado a 5 km do centro da 14 cidade na direção sudoeste, o sítio aeroportuário tem como acesso principal a Rodovia BR-491 que liga Varginha ao município de Elói Mendes e localiza-se a 925 m de altitude, em posição estratégica, operando no cruzamento das rotas Rio - Brasília e Belo Horizonte - São Paulo. Sua pista asfaltada possui 2.100 metros de extensão por 30 metros de largura, e nela é possível a operação de aviões do porte Fokker-100, com capacidade para 122 passageiros. No entanto, o governo tem projetos para obras de melhorias. Para o entendimento da problemática foram realizadas consultas aos órgãos públicos e de planejamento, como a Prefeitura de Varginha e as prefeituras dos municípios de onde se estima virem as principais demandas de operação, além de empresas como a Autopista que administra a Rodovia Fernão Dias e indústrias da região, buscando entender suas demandas de transportes. Além disso, também foram feitas consultas às indústrias da região e a realização de entrevistas com o setor responsável pela logística, buscando entender suas demandas logísticas. 2. CONTEXTO: O AEROPORTO E REGIÃO A alta concentração de indústrias no Sul e Sudoeste de Minas Gerais, demanda estratégias de planejamento que visem a otimização da logística de transporte na região. No nosso caso, as indústrias possuem como única alternativa para o escoamento da sua produção o transporte rodoviário através da Rodovia Fernão Dias, que se encontra com sua capacidade saturada. Em 2008, o tráfego diário na rodovia Fernão Dias aumentou vertiginosamente para cerca de 200 mil veículos, sendo 45% veículos comerciais, 55% veículos de passeio (Autopista Fernão Dias). Além disso, 25% da população mineira vivem e trabalham em sua área de influência (ALMEIDA, 2004). Outra situação problemática encontrada é a subutilização do Aeroporto de Varginha, pois atualmente não há uma companhia aérea atuando no aeroporto e fazendo voos regulares para passageiros (a última companhia rescindiu o contrato e atuou até o dia 20 de março deste ano) e se trata de um local privilegiado geograficamente em relação às maiores capitais do Brasil. De acordo com o que foi apresentado anteriormente, a subutilização do aeroporto de Varginha e a saturação da rodovia Fernão Dias são um empecilho para o desenvolvimento regional, uma vez que a adequação do aeroporto para aeroporto cargueiro proporcionaria uma conectividade entre a Rodovia Fernão Dias, o aeroporto e 15 os demais centros de distribuição, favorecendo assim, a logística das indústrias regionais, as potencialidades de desenvolvimento do município de Varginha e da região. Diante do contexto apresentado anteriormente, coloca-se a seguinte questão: de que forma o desenvolvimento do aeroporto de Varginha poderá influenciar na logística industrial da região de Varginha e na conectividade entre o município e o restante do país, contribuindo para o desenvolvimento regional? De acordo com a problemática exposta, a reestruturação do Aeroporto de Varginha para aeroporto de cargas poderá contribuir para o desenvolvimento da região, sendo uma das alternativas para tentar solucionar o fluxo de veículos comerciais na Rodovia Fernão Dias, a melhor utilização do aeroporto citado e a geração de empregos e atrativos para futuras instalações industriais na Mesorregião do Sudoeste/Sul de Minas Gerais, pois o transporte aéreo é uma opção mais rápida e segura para a movimentação de cargas, resultando em uma logística mais eficiente. Varginha possui muitas características que tornam favorável a ampliação e adequação do Aeroporto Major Brigadeiro Trompowsky para aeroporto cargueiro. Dentre elas podemos citar: A equidistância entre Varginha e as seguintes capitais: São Paulo (316 Km), Belo Horizonte (313 Km) e Rio de Janeiro (390 Km) o que favorece a logística industrial, podendo atrair futuros investimentos para a economia da região. O Município possui um Porto Seco, um importante centro de importação e exportação de produtos (matérias primas e máquinas) para as indústrias situadas na região. O entorno de Varginha dispõe de grandes indústrias localizadas em um raio de 100 km de distância, e a cidade possui um condomínio industrial tecnológico próximo ao Aeroporto de Varginha. Este apresenta uma área de 1.300.000m² e é um espaço complementar ao Porto Seco Sul de Minas. A Rodovia Fernão Dias é um importante eixo de distribuição de produtos e equipamentos no eixo São Paulo - Belo Horizonte. Com a duplicação da rodovia, a instalação de indústrias na região e o aumento da produção de mercadorias, houve um aumento considerável de caminhões que realizam o transporte de produtos neste eixo de circulação. 16 3. NOVAS PERSPECTIVAS DE DESENVOLVIMENTO URBANO E REGIONAL Perante o novo cenário da sociedade pós-industrial, compreende-se que o desenvolvimento regional não é somente a instalação de indústrias em determinado local, mas também o importante papel das inovações tecnológicas produzido pela agregação de valor aos produtos e serviços (VASCONCELOS, 2007). De acordo com Vasconcelos (2007), o mundo vive uma nova realidade produtiva e tecnológica que inclui novos fatores de concorrência e determina novas condições de localização das atividades de produção. Consequentemente, esta realidade afetou o pensamento dos indivíduos responsáveis pela formulação de políticas de desenvolvimento regional no Brasil. Sendo assim, “A abordagem recente do planejamento regional brasileiro considera que os projetos devem ser aplicados considerando-se os “eixos de desenvolvimento”, ou seja, as regiões de atuação estão contidas em fronteiras que não mais obedecem aos limites dos estados ou das cinco macrorregiões definidas pelo IBGE. Atendem agora aos critérios de semelhança das potências e dos indicadores socioeconômicos, gerando uma divisão regional diversa daquela até então estabelecida.” (DINIZ, 1995 apud Vasconcelos, 2007, p. 27) No âmbito da infraestrutura de acesso a estes locais, os investimentos em transporte e a diversificação dos modais são válidos, uma vez que a melhoria do transporte poderá gerar um crescimento da região e o desenvolvimento dos municípios ao seu entorno. Neste sentido, o aeroporto como integrante da infraestrutura em transporte (modal rápido e disperso geograficamente por todo o território), é ideal como parceiro das aglomerações industriais. O mesmo pode estimular o crescimento da região oferecendo serviços diferenciados, como é o caso do aeroporto-cidade e ainda suprir as carências de infraestrutura técnica e física da região na qual está inserido. Segundo Vasconcelos (2007), o termo aeroporto-cidade resume o novo perfil aeroportuário do século XXI. O aeroporto é administrado como um negócio com o intuito de desenvolver socioeconomicamente a região na qual está inserido. Ao redor do 17 aeroporto em si são construídos hotéis, shopping centers, parques industriais e tecnológicos, centros de convenções, entre outras edificações, unindo, as atribuições de um terminal aeroportuário com as características de shopping center, com comércio diversificado, restaurantes, áreas de lazer, além de serviços de logística de carga aérea. De acordo com Kasarda (2006), o conceito de aeroporto-cidade nasceu devido a três fenômenos relacionados ao crescimento dos aeroportos e do tráfego aéreo, sendo eles: a obtenção de lucros maiores, referentes a atividades não aeroportuárias; o desenvolvimento de uma marca, atraindo investimentos não ligados à atividade aeroportuária; e o desenvolvimento comercial dentro e nos arredores desses aeroportos gerando crescimento urbano. Segundo MARQUES (2002 apud. CAPPA, 2013), para compreender as relações contemporâneas entre cidades e aeroportos e pensar políticas públicas de gestões aeroportuárias, é necessário aplicar os conceitos de aeroporto-cidade e centros de negócios e serviços. Sendo estas relações formadas pela demanda de: 1. Ampliação e modernização dos terminais aeroportuários; 2. Planejamento urbanístico do entorno dos aeroportos; 3. Estarem integrados à dinâmica urbana e econômica das cidades em que estão localizadas por meio de sistema multimodal de transportes; 4. Suas participações nos processos de desenvolvimento das cidades, regiões e países; e por último, 5. Amenizar impactos ambientais. De acordo com CAPPA (2013), o aeroporto-cidade “...caracteriza-se ainda pela importância que os aeroportos exercem nas áreas do seu entorno, pois centros de negócios são formados devido à presença do aeroporto e às atividades econômicas que tem relações, diretas ou indiretas, com o transporte aéreo, além de serviços aeroportuários como apoio logístico à produção de mercadorias, aeroporto industrial, comércio e serviços diversificados que são importantes na geração de empregos, rendas e tributos tanto para o município onde se localiza o aeroporto, quanto para as cidades localizadas no seu entorno.” (CAPPA, 2013, p. 32) Güller e Güller (2002) afirmam que a acessibilidade do aeroporto também resulta em atratividade para outras atividades não diretamente relacionadas com o 18 aeroporto. Para estes autores, a exploração do transporte aéreo de mercadorias é especialmente atrativa se existe a oportunidade de combiná-lo com o transporte marítimo ou com centros de distribuição e terminais de logística já existentes, transformando as áreas ao entorno do aeroporto em áreas estratégicas para empreendimentos. 3.1 O AEROPORTO NO DESENVOLVIMENTO REGIONAL Em países com ampla dimensão territorial, como o Brasil, o transporte aéreo possui grande importância devido ao fato de ser o único modal com a capacidade de interligar pontos territoriais distantes em um único dia. Além disso, os aeroportos interferem de outras maneiras no desenvolvimento econômico da região na qual estão instalados, ou seja, nas suas áreas de influência. Vasconcelos (2007) afirma que existem dois tipos de impactos econômicos, são eles: Impactos diretos: renda, emprego, investimento de capital, receitas de taxas geradas pela relevante atividade econômica aeroportuária; Impactos indiretos: desenvolvimento do turismo (negócios e lazer), investimentos em armazéns, filiais de empresas de grande porte, melhorias na estética e estrutura da cidade, ou seja, elementos que o autor define como infraestrutura remota. Os aeroportos, além da função de elos de conexão e integração global, são elementos marcantes na infraestrutura de uma cidade devido à dimensão de suas instalações e à demanda de serviços e infraestrutura urbana do local de sua implantação. Com isso, os mesmos tendem a orientar os vetores de crescimento urbano ou consolidar as tendências existentes, como é o caso do aeroporto-cidade. 3.2. LOGÍSTICA DE CARGA AÉREA O termo logística, de acordo com o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, vem do francês logistique e tem como uma de suas definições "a parte da arte da guerra que trata do planejamento e da realização de: projeto e desenvolvimento, obtenção, 19 armazenamento, transporte, distribuição, reparação, manutenção e evacuação de material para fins operativos ou administrativos“. Segundo a entidade americana Council of Logistic Management3, Logística é o processo de planejar, implementar e controlar eficientemente, ao custo correto, o fluxo e a armazenagem de matérias primas, estoque durante a produção e produtos acabados, e as informações relativas a estas atividades, desde o ponto de origem até o ponto de consumo, visando atender aos requisitos do cliente. (Tradução nossa) De acordo com Ballou (1993) os fatores decisivos na escolha do modal de transporte objetivando um processo logístico eficiente são os seguintes: custo do serviço, tempo médio de entrega, tempo de trânsito, perdas e danos. O modal aéreo não possui custos baixos quando comparados aos demais modais, no entanto, o mesmo resulta em menores gastos com embalagens de proteção, o tempo de entrega e trânsito é bem inferior e a possibilidade de perdas e danos também é menor. Além disso, o transporte de carga aérea possibilita a diminuição dos estoques de mercadorias nas empresas ou centros de distribuição, maior competitividade no mercado devido à garantia de entrega rápida e a racionalização das trocas comerciais através do conceito just-in-time4. A importância do transporte aéreo e da logística de carga aérea no desenvolvimento regional surgem a partir do crescimento da economia globalizada através da qual as empresas vão aumentando consideravelmente suas ações no comércio exterior, ou seja, se ramificam em diversas partes do mundo tornando o transporte 3 O Comitê Executivo da entidade americana Council of Logistic Management (Conselho da Gestão Logística – CLM) votou favoravelmente para tornar-se Conselho de Profissionais de Gestão da Cadeia de Suprimentos (CSCMP). A votação foi realizada em 1 º de janeiro de 2005. Disponível em: <http://mhlnews.com/global-supply-chain/council-logistics-management-become-council-supply-chainmanagement-professional> Acesso em: 06 mai. 2014. 4 Também denominado Sistema de Produção Toyota, é traduzido como “produção apenas-a-tempo”, consiste em um sistema de controle de estoques no qual as partes e componentes são produzidas e entregues nas diferentes seções, um pouco antes de serem utilizadas. A definição mais sintética deste sistema seria “a peça certa, no lugar certo, no momento certo.” (DICIONÁRIO DE ADMINISTRAÇÃO E FINANÇAS, 1996, p. 257) 20 marítimo ou aéreo as únicas formas de fornecimento e distribuição de seus produtos, sendo o transporte aéreo o meio mais rápido. O transporte aéreo de cargas é basicamente multimodal uma vez que em poucas situações a movimentação cargueira inicia ou termina no aeroporto. O autor afirma que “a cadeia logística é uma teia cuidadosamente ajustada, integrada e que se apoia em uma estrutura aérea e terrestre sem a qual a eficiência origem-destino seria totalmente comprometida.” (RAVEN, 2002 apud KAUFMANN, 2009, p. 60) Produtos e peças frágeis, de baixo peso e volume, mas de alto valor agregado, como os produtos eletrônicos, e mercadorias com data de entrega rígida ou com caráter de urgência, como documentos, produtos perecíveis e amostras encontram no transporte aéreo o seu principal modal de transporte. Entretanto, o transporte aéreo de cargas pode envolver todo tipo de produto. (TRINDADE, 20--?) No Brasil, a Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária) controla a atividade logística cargueira dos aeroportos administrados pela empresa. Dentre os cinco aeroportos concessionados atualmente (Campinas, Guarulhos, Brasília, Confins e Galeão) apenas os três primeiros estão sob o controle das próprias concessionárias e os aeroportos Galeão e Confins permanecem sob a administração da Infraero até o mês de agosto deste ano. A atividade logística aérea é realizada em 31 terminais de logística de carga conhecidos como rede TECA que estão distribuídos por todo o território, constituindo uma das parcelas mais relevantes da exploração comercial e industrial dos aeroportos. Dentre estes terminais, 27 operam com importação, 23 com exportação, 14 com carga nacional, e dois com Courier5. (INFRAERO) O desenvolvimento do transporte aéreo de cargas no Brasil possui condições bastante favoráveis (Labegalini; Dias; Martins, 2008). De acordo com Théry (2003 apud Labegalini et al, 2008), a dimensão do território brasileiro e a estrutura do povoamento em “arquipélago” resultam em uma demanda de deslocamentos de grandes 5 Documentos ou encomendas internacionais transportadas por via aérea, por empresa de Transporte Expresso Internacional, “porta a porta”. Para que a carga tenha essa denominação, diversos critérios deverão ser cumpridos, como por exemplo, não ter destinação comercial, o valor não ser superior ao permitido pela legislação específica (Instrução Normativa RFB nº 1.073, de 1º de outubro de 2010, que disciplina o despacho aduaneiro de importação e de exportação de Remessas Expressas), não ser bebidas alcoólicas, entre outros. (INFRAERO) 21 distâncias, que encontram no avião a maneira mais eficiente para transportar cargas, administrar o tráfego de negócios e também de pessoas. Kasarda (1998) afirma que a capacidade das indústrias do Brasil para responder aos concorrentes globais dependerá cada vez mais não só de mudanças operacionais internas, mas também da criação da infraestrutura externa, que faz com que novas práticas de cadeia de suprimento globais se tornem possíveis. É cada vez mais claro que essas novas práticas de cadeia de suprimentos vão exigir o desenvolvimento de novas infraestruturas logísticas que reúnem tecnologia da informação e sistemas de transporte multimodal para facilitar a entrega rápida e eficiente de materiais e bens dos fornecedores aos fabricantes e dos fabricantes aos clientes. Para o autor, estamos na era da instantaneidade e a regra fundamental dos negócios imobiliários deixou de ser localização para se tornar acessibilidade. “Existe atualmente uma nova forma de medição: não se trata mais de ‘espaço’, mas de ‘tempo’ e ‘custo’” (KASARDA, 2012). 4. CARACTERIZAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO 4.1. A CIDADE DE VARGINHA O município de Varginha, situado na região sul do estado de Minas Gerais, possui uma área de 396 km², é a terceira mais populosa do Sul de Minas com mais de 123 mil habitantes e seu IDH é 0,778 (IBGE, 2010). A cidade destaca-se por ser um dos principais centros de comércio e produção de café do Brasil e do mundo, e ser polo de exportação de café, escoando a maior parte da produção do Sul de Minas Gerais e comercializando o produto com diversos países. Varginha conta com localização privilegiada e estratégica, situada às margens do Lago de Furnas e equidistante das três principais capitais do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, além de ser próxima de cidades importantes como Campinas, Ribeirão Preto e região do Vale do Paraíba. De acordo com o IBGE, o município de Varginha possui o segundo maior PIB da Região do Sul de Minas e um dos maiores do estado de Minas Gerais. O setor 22 terciário ocupa 53,2% do total da população economicamente ativa, o setor secundário ocupa 34,3% e o setor primário apenas 12,5%. Encontram-se instaladas em Varginha empresas de grande porte como PhilipsWalita, Philips Lighting, CooperStander, Coletek, Plascar, dentre outras, resultando em um total de 5.271 empresas atuantes na cidade. Além disso, o município possui o Porto Seco Sul de Minas, que consiste em uma estação aduaneira do interior (EADI). Na cidade, existem diversas empresas que atuam na área de comércio exterior, e que trabalham diretamente com serviços de importação e exportação, fator que influenciou grandes empresas multinacionais a montarem unidades na cidade e região. Recentemente foi construído em Varginha o CIT - Condomínio Industrial Tecnológico, um parque tecnológico de propriedade do Porto Seco que tem como propósito abrigar empresas de alta tecnologia e centros de distribuição, tendo dentro da área serviços aduaneiros, transporte aéreo e terrestre, escritórios administrativos e incentivos fiscais. O mesmo situa-se ao lado do aeroporto da cidade e conta com uma área de aproximadamente 1.300.000m². 4.2. ASPECTOS DO SETOR INDUSTRIAL Mapa 1 - Microrregiões da Mesorregião Sul/Sudoeste de Minas. Em destaque as microrregiões analisadas neste estudo. Fonte: Acervo pessoal. O setor industrial desta região tornou-se importante devido aos vários fatores apresentados anteriormente, principalmente pela acessibilidade e localização estratégica. Os mesmos geram a atração de empresas que visam à proximidade com os 23 grandes centros além de questões logísticas e de mão de obra qualificada devido à presença de instituições como SENAI, SEBRAE, CEFET e centros de ensino superior. Segundo a FIEMG, em 2013 a mesorregião Sul/Sudoeste de MG gerou cerca de R$1.129.538,70 de ICMS6 além de U$S 3.163.997.000 em exportações e U$S 2.456.529.000 em importações. Ainda de acordo com a FIEMG, a mesorregião possui a seguinte quantidade de empresas: Tabela 1 - Número de empresas e empregados por porte 2012 Nos meses de abril e maio deste ano, algumas das empresas localizadas na área de estudo foram entrevistadas para mensurar as suas demandas logísticas, a qualidade dos transportes rodoviários - a única forma de escoamento da produção e de transporte de matéria prima presente na região - e a utilização de um aeroporto cargueiro como forma de transporte de matéria prima e mercadorias produzidas pelas empresas entrevistadas. Como resultado da entrevista, percebe-se que o modal utilizado encontra-se saturado e os custos tais como diária de motorista, abastecimento, pedágios e o desgaste e manutenção dos veículos geram gastos que se analisados em relação aos benefícios do transporte aéreo como tempo, segurança e menores gastos com embalagens, os mesmo se tornam mais lucrativos. 6 Imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual, intermunicipal e de comunicação. Este imposto é de competência dos Estados e do Distrito Federal. Disponível em: <http://www.portaltributario.com.br/tributos/icms.html>. Acesso em: 17 jun. 2014. 24 “No caso do avião há praticamente apenas um custo quando a carga foi preparada com as documentações e embalagens corretas (KEEDI, 2004). Outra questão logística a ser considerada é a proximidade do aeroporto a fábrica, pois eles normalmente se situam em grandes centros urbanos e também em partes interiores do país, tendo um custo rodoviário menor. Os custos de embalagem também são menores por conta de uma menor manipulação e chegada mais rápida ao destino”. (MONTILHA, 2007, p. 84) Dente as empresas entrevistadas, apenas uma delas possui frota própria de veículos para o transporte e não tem interesse em utilizar um aeroporto cargueiro como modal alternativo. 4.3. A RODOVIA FERNÃO DIAS E SUAS CONEXÕES “Inaugurada em 1960 pelo então Presidente Juscelino Kubitschek (1902/1976), a rodovia Fernão Dias tornou-se, rapidamente, não só um importante eixo rodoviário nacional, mas também a coluna vertebral do desenvolvimento de toda uma região que, após a sua construção, passou a ter um acesso direto tanto ao maior e mais importante centro produtor e consumidor do país - São Paulo - quanto à capital do Estado, Belo Horizonte. Ao mesmo tempo, esta rodovia passou a ser o vetor estruturante de uma região que até então não existia.” (ARANTES, 2001, p. 200) Em 2007, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) realizou um leilão para iniciar o processo de concessão da estrada. A partir de então, a Autopista Fernão Dias do grupo Arteris é a responsável pelos 562,1km que ligam as cidades de Contagem/MG e Guarulhos/SP. A validade desta concessão é de 25 anos. A Rodovia Fernão Dias corta 33 cidades ao longo do trecho e tem um importante papel na rede rodoviária brasileira. Ela integra um dos principais corredores de ligação entre importantes polos econômicos das regiões Sudeste e Sul do Brasil além dos países do MERCOSUL. A rodovia faz parte do mais relevante eixo rodoviário nacional, junto da BR-116, interligando os três maiores estados da federação - Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo - formando um corredor de transporte para abastecer tanto o mercado interno como para exportação. 25 De acordo com a concessionária Autopista, em 2011, o tráfego foi composto por 38% de veículos comerciais, 57% de veículos de passeio e 5% de motocicletas. 4.4 O AEROPORTO DE VARGINHA Imagem 1: Localização do Aeroporto de Varginha, pontos relevantes para o estudo e implantação atual do sítio aeroportuário. O aeroporto Major Brigadeiro Trompowsky, em Varginha, foi Fonte: Elaboração própria a partir de dados dosituado Google Earth. construído no governo Getúlio Vargas e preparado para prestar informações eficientes a navegação aérea em 1948. Suas instalações foram melhoradas em 1959 com a construção do terminal de passageiros que foi reformulado em 1987. Em 2012 foi construído outro terminal de passageiros em uma área diferente do aeroporto. O sítio aeroportuário possui 571.000m² de área documentada mais 229m² de área a ser desapropriada em virtude da ampliação do aeroporto. Situa-se a 5 km do centro da cidade na direção sudoeste, tendo como acesso principal a Rodovia BR-491 que liga Varginha-Elói Mendes. 5. RESULTADOS E ANÁLISES 26 “O transporte aéreo no Brasil, doméstico e internacional, cria benefícios econômicos distintos e seus efeitos são medidos pela sua contribuição ao PIB, empregos e receitas de impostos geradas pelo setor e a sua cadeia de suprimentos.” (CAPPA, 2013, p. 10) No caso do Aeroporto de Varginha, através da recente instalação do Condomínio Industrial Tecnológico (CIT) próximo ao sítio aeroportuário, da construção da cidade universitária do UNIS e da locação de grandes empresas relacionadas com o setor agrícola, principalmente cafeeiro, nota-se que há a intenção de ocupar as áreas próximas ao aeroporto com atividades voltadas para o setor de logística das indústrias e do setor agrícola da região. Além disso, existe a conexão com um polo de ensino, configurando assim, o aeroporto como indutor do desenvolvimento da região e criando base para a implantação do conceito de aeroporto-cidade. Acredita-se que as crescentes atividades relacionadas ao aeroporto em questão promoverão o aumento da geração de empregos e renda, da captação de impostos e da circulação de capital no Município de Varginha e também na região além de se tornar um grande atrativo para futuras instalações industriais no local. Segundo o diretor do Aeroporto de Varginha, Rogério Evaristo, o CIT já possui um centro de distribuição da empresa Polishop operando com 20% da sua capacidade de distribuição sendo que a mesma pretende transferir 100% desta capacidade para este local. Se isto acontecer, segundo Evaristo, Varginha terá o maior VAF do país. Além disso, o SEBRAE, que recentemente mudou sua sede regional para a cidade de Varginha, vem demonstrando bastante interesse neste contexto de desenvolvimento do aeroporto varginhense. No entanto, para que tal desenvolvimento seja viável é necessário realizar intervenções tanto no âmbito arquitetônico, ou seja, na ampliação e adequação do sítio aeroportuário, quanto no âmbito urbanístico, conectando o aeroporto e a cidade de Varginha ao restante da região, através da otimização do acesso à Rodovia Fernão Dias. 5.1. ÁREA DE INTERVENÇÃO ARQUITETÔNICA A área de intervenções arquitetônicas consiste na área do Aeroporto de Varginha. 27 5.2. ÁREA DE INTERVENÇÃO URBANÍSTICA A área de intervenção urbanística é constituída pela área de influência imediata do aeroporto. A mesma consiste no acesso de Varginha à BR-381 e à área compreendida pelo Porto Seco Sul de Minas, CIT, Distritos Industriais, Aeroporto de Varginha, seu acesso e entorno. LEGENDA: Área arquitetônica Área urbanística BR-381 Imagem 2: Área de intervenção arquitetônica e urbanística. Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Google Earth. Figura 3 – Área de intervenção arquitetônica e urbanística. Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Google Earth. O aeroporto Major Brigadeiro Trompowsky, situado em Varginha, foi construído no governo Getúlio Vargas e preparado para prestar informações eficientes a navegação aérea em 1948. Suas instalações foram melhoradas em 1959 com a construção do terminal de passageiros que foi reformulado em 1987. Em 2012 foi construído outro terminal de passageiros em uma área diferente do aeroporto. O sítio aeroportuário possui 571.000m² de área documentada mais 229m² de área a ser desapropriada em virtude da ampliação do aeroporto. Situa-se a 5 km do centro da cidade na direção sudoeste, tendo como acesso principal a Rodovia BR-491 que liga Varginha-Elói Mendes. O aeroporto Major Brigadeiro Trompowsky, situado em Varginha, foi construído no governo Getúlio Vargas e preparado para prestar informações eficientes a navegação aérea em 1948. Suas instalações foram melhoradas em 1959 com a construção do terminal de passageiros que foi reformulado em 1987. Em 2012 foi construído outro terminal de passageiros em uma área diferente do aeroporto. 28 O sítio aeroportuário possui 571.000m² de área documentada mais 229m² de área a ser desapropriada em virtude da ampliação do aeroporto. Situa-se a 5 km do centro da cidade na direção sudoeste, tendo como acesso principal a Rodovia BR-491 que liga Varginha-Elói Mendes. 5.3. INTERVENÇÕES PROPOSTAS 5.3.1. INTERVENÇÕES ARQUITETÔNICAS Para que o Aeroporto de Varginha possa operar de acordo com a demanda de passageiros e cargas encontrada num horizonte de projeto de 15 anos, serão necessárias as seguintes intervenções: Elevação da categoria do aeroporto com o intuito de estar apto a receber aeronaves de grande porte e o terminal de cargas; Ampliação da pista e modernização da mesma com a colocação de papis7 para atender às exigências para a operação de aeronaves cargueiras no aeroporto; Ampliação do terminal de passageiros e seu estacionamento, visando o aumento do fluxo de passageiros que utilizarão a edificação. Incorporação da edificação do Porto Seco Sul de Minas como terminal de cargas, pois o mesmo possui infraestrutura adequada para o funcionamento. Desta forma, é possível adequar a arquitetura existente no local para um novo uso, poupando recursos que seriam gastos na construção de um TECA; Criação de um pátio de manobras para o terminal de cargas com o intuito de aprimorar as atividades logísticas do TECA uma vez que este se encontra do lado oposto ao terminal de passageiros em relação à pista do aeroporto; Construção de hangares para locar e realizar a manutenção das aeronaves cargueiras que operam no aeroporto; 7 PAPI - Indicador de Precisão de Trajetória de Aproximação. Conjunto de 2 ou 4 unidades luminosas que fornecem ao piloto a indicação de sua posição (muito baixa, correta, alta e muito alta) em relação a rampa de descida e ponto de toque. Disponível em: <http://technilux.com.br/site/index.php?option=com_k2&view=item&layout=item&id=94&Itemid=210>. Acesso em 15 jun. 2014. 29 Aumento do PCN (Número de Classificação do Pavimento), ou seja, número que indica a resistência de um pavimento para operações sem restrições. Ampliar a brigada de incêndio com o objetivo de atender tanto passageiros quanto cargas. Ampliação da área do sítio aeroportuário a fim de possuir área suficiente para futuras expansões. 5.3.2. INTERVENÇÕES URBANÍSTICAS Com o objetivo de melhorar a conectividade da região e do Município de Varginha com o aeroporto, são necessárias as seguintes ações: Elaborar o plano diretor do aeroporto, estabelecendo as zonas de proteção aeroportuárias e número de gabaritos máximos das edificações adjacentes, zonas de atração para prestadoras de serviço para o aeroporto e seu entorno, tais como hotéis, restaurantes, centros de distribuição e logística de carga, centros de negócios e parques industriais, além disso, é preciso elaborar diretrizes para minimizar os impactos ambientais relacionados com o sítio aeroportuário; Desenvolver a área de intervenção dentro do conceito de aeroporto-cidade, promovendo maior sinergia entre o Aeroporto de Varginha e a cidade de Varginha. Melhorar e aumentar o número de acessos da cidade ao Aeroporto de Varginha, criando acessos secundários ao aeroporto visando o aumento do fluxo de pessoas e cargas para o local e também duplicar o acesso principal existente, destinado à circulação de passageiros e funcionários do aeroporto e sua área de influência; Duplicar o acesso de Varginha à BR-381, com o objetivo de promover a integração da região com o aeroporto em questão. Além disso, propõe-se a criação de uma alça no acesso à Rodovia Fernão Dias direcionada exclusivamente para os veículos cargueiros, evitando assim que tais veículos circulem dentro da área urbana de Varginha, congestionando o trânsito de determinadas avenidas que são importantes vias de circulação da cidade; Conectar o aeroporto aos distritos industriais de Varginha; 30 Elaborar diretrizes para futuras expansões da área aeroportuária, visando, por exemplo, à criação de um aeroporto-indústria; 6. CONCLUSÕES Desde o princípio da aviação como modal de transporte disseminado, houve a necessidade de realizar o transporte de carga seja, correio, pacotes ou mercadorias, utilizando a flexibilidade e rapidez do meio aéreo como seu principal atrativo. Atualmente o transporte de cargas exerce papel fundamental em relação ao desenvolvimento social e econômico. O aeroporto passou a servir como um ponto de apoio logístico para as empresas produtoras, uma alternativa de expansão de atividades para as companhias aéreas, um canal de operação para os agentes de carga, passando a ser visto como indutor de desenvolvimento para as regiões onde estão inseridos uma vez que a velocidade do serviço de transporte aliada à flexibilidade de destinos é justamente o que torna o transporte aéreo de cargas atrativo. No entanto, a distribuição irregular da malha logística brasileira pode acarretar na saturação do transporte de cargas, gerando estrangulamento dos grandes aeroportos. Tal situação pode se tornar um grande obstáculo para a continuidade do transporte de carga aérea, mas ao mesmo tempo, pode significar uma oportunidade para os aeroportos regionais no futuro. Dessa forma, deve-se verificar se aeroportos secundários podem, por vezes, atender de maneira mais eficiente demandas regionais que são direcionadas aos grandes aeroportos. Portanto, a ampliação e adequação do aeroporto de Varginha como aeroporto cargueiro permite que o mesmo seja capaz de servir como ferramenta logística para as empresas da região além de atrair investimentos para este mesmo local. Transformandoo em um elemento precursor do desenvolvimento regional, impulsionando a geração de empregos e rendas e atraindo outros tipos de investimentos decorrentes de prestações de serviços necessárias ao funcionamento de um aeroporto desse porte. 7. REFERÊNCIAS AEROPORTO de Varginha (2014). Disponível em: <http://blog.voeazul.com.br/ultimas/aeroporto-de-varginha/>. Acesso em: 18 jun. 2014. 31 ALMEIDA, E. S. de. A duplicação da rodovia Fernão Dias: uma análise de equilíbrio geral. In: ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA, 32., 2004, Paraíba. Anais... São Paulo: ESALQ, Universidade de São Paulo, 2004. ARANTES, P. T. L.. Cidades: competitividade, competição e cooperação. 340p. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 2001. AUTOPISTA Fernão Dias (2014). Disponível em: <http://www.autopistafernao.com.br/>. Acesso em: 09 abril 2014. BALLOU, R. H.. Logística empresarial: transportes, administração de materiais e distribuição física. São Paulo: Atlas, 1993 BOLTSHAUSER, M. L.; WASNER, M. E. N.; MOURA, M. I. P. de; SUSSMANN, R.; MELLO, S. de. Aeroportos. Belo Horizonte: Escola de arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, 1961. CAPPA, J.. Cidades e aeroportos no século XXI. Campinas: Alínea, 2013; EVARISTO, R.. Características e situação atual do Aeroporto de Varginha. [Varginha]: 23 mai. 2014. 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Monografia (Graduação em Tecnologia em Logística) – Centro Tecnológico da Zona Leste, São Paulo, SP, 2007; 33 PALHARES, Breno. Panorama atual do Aeroporto de Varginha e a relação de empresas de comércio exterior com o aeroporto. [Varginha]: 23 mai. 2014. Entrevista concedida à Helen Ribeiro Rodrigues. Não publicada. RODRIGUES, H. R.. Ampliação e adequação do aeroporto de Varginha como aeroporto cargueiro. . 2014. 77f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG, 2014; TRINDADE, M. F. F. da. Logística de carga Brasília: conceitos e fluxo operacional. Infraero. Apostila, s/d. VASCONCELOS, L. F. S.. O aeroporto como integrante de um projeto de desenvolvimento regional: a experiência brasileira. 2007. 149p. Dissertação (Mestrado em Transportes) - Universidade de Brasília, Brasília, DF, 2007. 34 MOBILIDADE DO TRABALHO E REESTRUTURAÇÃO URBANA EM CIDADES MÉDIAS: UHE BELO MONTE E AS TRANSFORMAÇÕES NA CIDADE DE ALTAMIRA-PA José Queiroz de Miranda Neto8 Resumo Com este artigo se pretende analisar o processo de mobilidade da força de trabalho e as implicações da reestruturação urbana em cidadesmédias, tendo como recorte metodológico a intensificação das frentes migratórias para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte entre 2010 e 2014 e as transformações urbanas na cidade de Altamira, no Estado do Pará. Para tanto são utilizados dados de admissão do consórcio construtor no período delimitado, bem como informações que tratam das mudanças na dinâmica urbana, como as alterações no quadro habitacional, incremento demográfico e modificações econômicas recentes. Palavras Chave: mobilidade do trabalho, reestruturação urbana, cidade média. 1. INTRODUÇÃO No contexto da crise do regime de acumulação (HARVEY, 2005) e de mudanças na dinâmica urbana do país a partir da década de 1970, algumas cidades com população entre 50 e 500 mil habitantespassaram a responder de forma mais ativa aos interesses do capital, em especial com a expansão da atividade produtiva (SPOSITO e SPOSITO, 2013). Trata-se de um processo de reestruturação urbana que atinge, em níveis variados, a escala nacional e se estabelece como tendência até o presente. Conforme argumenta Sposito (2004, p. 126), as cidades médias “são aquelas que, numa 8 Professor da Universidade Federal do Pará e doutorando em Geografia pela FCT/UNESP – Presidente Prudente, sob a orientação do Prof. Dr. Eliseu Savério Sposito. 35 dada divisão territorial do trabalho, são centros regionais importantes, em função de serem elos de ligação entre as cidades maiores e menores”. Ainda que de modo diferenciado, algumas cidades do Norte do país começam a se destacar como resultado desse processo entre as décadas de 1970 e 1980, como Santarém, Marabá e, mais timidamente, Altamira. Esta última ganha atenção como um dos principais centros urbanos do sudoeste do Pará, polarizando as cidades situadas no interfluxo entre o rio Xingu e a rodovia Transamazônica (BR-230). Atualmente, com a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte a partir de 2010, começa-se a inferir sobre o grau de interferência dos processos relativos à barragem nessa cidade média e seus nexos causais com a dinâmica urbana recente.Entende-se que o processo de construção do complexo hidrelétrico é componente da reestruturação produtiva, uma vez que surge para dar condições à expansão do processo de acumulação de capital no território nacional. De acordo Sposito e Sposito (2013, p. 5) “à medida que se constituem as dinâmicas que consubstanciam uma reestruturação econômica, observamos, pari passu, uma reestruturação urbana que lhe é base e lhe revela”. Com este trabalho se pretende, portanto, analisar de que forma o intenso processo migratório de força de trabalhodecorrente da usina hidrelétrica vem produzindo transformações urbanas da cidade de Altamira, no Estado do Pará. Longe de se estabelecer uma relação mecânica, os processos de mobilidade da força de trabalho e de reestruturação urbana representam uma parte importante da literatura sobre a dinâmica espacial do Brasil, notadamente com intensificação da produção industrial. De um lado, o ciclo de acumulação de capital necessitou explorar os excedentes de mão-de-obra de regiões decadentes e, portanto, com estoque de força de trabalho para a expansão da atividade produtiva. De outro lado, a produção industrial concentrada nas metrópoles também produziu seu próprio estoque de superpopulação relativa: trabalhadores urbanos sub-remunerados do terciário, integralmente aptos para serem absorvidos em novos movimentos de expansão do capital. É necessário, contudo, estudos sobre como as cidades médias se comportam diante do rápido incremento demográfico, especialmente no caso de surtos industrializantes ou de instalações de projetos de grande escala. 36 Adiante, será possível entender como se dá essa dinâmica de reprodução da força de trabalho para as barragens, bem como as implicações urbanas nas áreas em que se instalam,com destaque para as transformações recentes na cidade de Altamira. 2. USINA HIDRELÉTRICA E MOBILIDADE DA FORÇA DE TRABALHO NA AMAZÔNIA Amobilidade da força de trabalho é um tema recorrente no campo das ciências sociais e de grande importância para se entender de que forma o capitalismo consegue deslocar fluxos com vistas à reprodução ampliada do capital. Neste item, pretende-se abordar sobre o papel da migração de trabalhadores relacionada à construção de grandes usinas hidrelétricas, bem como o significado destes deslocamentos nas cidades em que se instalam. Ao longo da história é evidente o papel da migração como um fenômeno determinante para a sobrevivência da espécie humana, porém as populações nunca se deslocaram de forma tal como fazem no modo-de-produção vigente. Mesmo as grandes diásporas ou a saída em massa de populações de regiões ambientalmente precárias e desprovidas de recursos não produziram efeitos tão dinâmicos quanto os processos decorrentes da economia capitalista. O nomadismo cidade-campo, os deslocamentos para as regiões das minas ou as migrações para as áreas de produção industrial montaram um quadro sem precedentes de mobilidade humana. Mas qual seria, então, a razão fundamental para a existência de um intenso fluxo migratório no mundo contemporâneo? Até a década de 1970, a explicação dada a esse fenômeno se repousava em uma perspectiva neoclássica, onde “a decisão de migrar era percebida como decorrente apenas da decisão pessoal e não pressionada ou produzida por forças socioeconômicas exógenas” (BECKER, 1997, p. 323). Os estudos se concentravam em descrever os fluxos de origem/destino, bem como as tipologias de deslocamentosem, contudo, levantar maiores explicações a respeito dos fatores estruturais que determinavam tais movimentos. Porém, alguns se permitiram questionar para além da mera aparência do fenômeno e encontraram na teoria marxista da população um importante ponto de encontro em suas análises. 37 Em sua obra principal, Marxmostrou interesse por esta questão ao tratar da existência de uma superpopulação relativa, ou seja, “uma população trabalhadora adicional relativamente excedente, isto é, excessiva para as necessidadesmédias de valorização do capital e, portanto, supérflua” (MARX, 2013, p. 705). Deste excedente, parte seria aproveitada como um volume de força de trabalho a ser utilizado de acordo com os movimentos cíclicos de expansão/retração do capital. Nenhum trabalhador estaria livre de compor a superpopulação relativa, mesmo que por curtos períodos ou de acordo com as fases da produção industrial. Embora fosse possível considerar as variações desta lei, Marx viu uma estreita relação entre o desenvolvimento econômico e o pauperismo da classe trabalhadora ao afirmar que “Quanto maiores forem a riqueza social, o capital em funcionamento, o volume o vigor de seu crescimento e, portanto, também a grandeza absoluta do proletariado e a força produtiva de seu trabalho, tanto maior será o exército industrial de reserva (...) Mas quanto maior for esse exercito de reserva em relação ao exército ativo de trabalhadores, tanto maior será a massa da superpopulação consolidada, cuja miséria está na razão inversa do martírio de seu trabalho”. (MARX, 2013, p. 719). A partir da lei da superpopulação relativa, têm-se duas importantes afirmações que podem ser relacionadas à questão aqui proposta: a) quanto maior a atividade produtiva do capitalismo, o exército de reserva tende a ser maiore b) quanto maior a quantidade de trabalhadores em reserva em relação aos trabalhadores ativos, as condições de vida dos primeiros tenderão a ser piores. Se for isto correto, em momentos de expansão das atividades industriais, onde se demanda uma grande quantidade de trabalho, estarão os trabalhadores sempre sujeitos aos deslocamentos demandados pela economia de mercado, segundo Becker (1997, p. 334) “o capital pode escolher a força de trabalho onde melhor lhe convier e da forma que lhe for mais rentável, pois crescem de forma assustadora os estoques de população excedente”. As determinações de existência dessa população relativa residem na acumulação de capital, já que este a cria e, dialeticamente, é reproduzido por ela. A acumulação não é somente um crescimento quantitativo de capital, mas também sua alteração qualitativa, isto é, sua composição orgânica. Na medida em que aumentam as forças produtivas do trabalho (com o uso sistemático de máquinas) e se conforma um modo de produção especificamente capitalista, torna-se cada vez mais supérfluo o 38 trabalho vivo, uma vez que este, no capitalismo, é reificado como capital variável, um mero custo de produção. A relação, então, entre as partes variáveis e constantes do capital se modifica (diminuindo o componente variável), produzindo a diminuição da demanda por trabalho vivo pari passo ao aumento do capital total, provocando, por sua vez, maior demanda por trabalho, mas sempre em menor proporção. Nesse sentido, a superpopulação relativa não é somente um produto necessário da acumulação, mas também sua impulsionadora, dado o aumento relativo da demanda por força de trabalho em função da ampliação do capital. Desta feita, é que Marx (2013, p. 707) afirma que a superpopulação relativa se torna condição de existência do capital, pois ela “fornece a suas necessidades variáveis de valorização o material humano sempre pronto para ser explorado”. A razão pela qual a mobilidade existe no capitalismo de forma específica e mais intensa que em outros momentos da história reside na ideia da “liberdade” da força de trabalho, ou seja, a “condição de exercício de sua liberdade de se sujeitar ao capital, de se tornar mercadoria cujo consumo criará o valor e assim produzirá o capital” (GAUDEMAR, 1977, p. 190). O que há, em verdade, é uma decisão entre migrar ou viver de parcos recursos em seu local de origem, sujeito a condições miseráveis de subsistência. São, portanto, as necessidades dos capitais (e não dos indivíduos) que são atendidas com o processo migratório, de acordo com Gaudemar (1977, p. 192) “Se se afirmou que o capitalismo começava com a exploração da força de trabalho, é necessário acrescentar que ele só poderia nascer uma vez que o trabalhador tivesse adquirido esta mobilidade; não no sentido apologético que a teoria clássica reconheceu, do homem inteiramente livre do seu destino, ator de sua própria história, mas no sentido das contrariedades que lhe são impostas por esta procura de emprego. A mobilidade da força de trabalho surge então como uma condição necessária, se não suficiente, da gênese do capitalismo e como um índice de seu desenvolvimento.” No caso do Brasil, a história é marcada por esta mobilidade. De acordo com os ciclos de desenvolvimento e com a divisão territorial instalada, grandes porções do país passaram a constituir áreas de destino da força de trabalho, como a região centro-sul a partir da montagem dos grandes parques industriais, da construção de Brasília e de obras faraônicas de infraestrutura entre as décadas de 1950 e 1970. Para estes 39 empreendimentos, levas de migrantes foram deslocadas da região nordeste para serem utilizados como força de trabalho ativa nas áreas de expansão do capital. A partir da década de 1960, sob a égide do Governo Militar, articula-se outro grande ciclo de mobilização da força de trabalho, desta vez em direção à Amazônia com vistas a ocupar a nova fronteira de expansão nacional através dos programas nacionais de colonização. Esse tipo de migração, que à primeira vista parece ser de cunho rural-rural, adquire diferente conotação ao se consideraro caráter urbano da fronteira amazônica, uma vez que foi articulada tendo como suporte uma rede de cidades e vilas concebidas pelos militares. É, portanto, nesse novo contexto de expansão da capacidade econômica do país que surgem as grandes hidrelétricas, a exemplo de Itaipue de Tucuruí, ambas iniciadasna década de 1970. Estes Projetos de Grande Escala (PGE) estão diretamente ligados ao desenvolvimento capitalista e demandam uma grande quantidade de força de trabalho para sua constituição.Porém, segundo RIBEIRO (1987, p. 5) “Si escierto que los PGE crean una considerable oferta de empleo, tambienlo es que, en general, laspoblacioneslocales y de áreas vecinasson incorporadas enlas posiciones mas bajas del mercado de trabajo, que losproyectosposeenun circuito migratoriopropio y que lacantidad de empleoscreados guarda una proporcion baja conrespecto a losmontos gigantescos de lasinversiones. La dinamicatipica de los PGE termina por replicar ladependenciapoliticoeconómica, sobre todo cuandoestanenjuego relaciones conpaisespoco o no industrializados.“ Tomando-se o exemplo da usina hidrelétrica de Tucuruí, é possível constatar o papel de intervenção de um PGE na mobilização de fluxos migratório para a região Amazônica. Instalada no rio Tocantins entre 1975 e 1985, verifica-se um intenso processo migratório para a área no entorno do lago. Segundo Rocha (2008, p. 150) “é exemplar a intensidade e volume de população que se dirigiu durante a construção da usina hidrelétrica”. O autor aponta que, entre 1970 e 1986, a população da região que abrange os municípios de Itupiranga, Jacundá, Marabá e Tucuruí saltou de 47.486 para 360.791, um crescimento de 760%. No caso específico de Tucuruí, passou de 10.091 habitantes para 182.021, multiplicando 18 vezes (ROCHA, 2008, p. 150). Sobre a atratividade exercida pelas áreas de projetos hidrelétricos, a realidade aponta sempre um 40 deslocamento maior que a capacidade de absorção da mão-de-obra efetiva dos empreendimentos. Para os que não conseguem empregos diretos nas atividades relacionadas à usina, resta a ocupação no comércio local ou em atividades urbanas subremuneradas. Essa tendência produz efeitos críticos sobre as condições de vida nessas áreas urbanas, especialmente com a proliferação de assentamentos irregulares ao longo da cidade. A área urbana do município de Tucuruí se constituiu como o principal ponto de destino da população migrante, gerando em um curto período os seguintes efeitos: a) ampliação da população em vinte vezes na sede municipal; b) crescimento significativo da malha urbana; c) surgimento de novos bairros periféricos decorrentes de assentamentos irregulares; d) aprofundamento das desigualdades espaciais internas; d) alterações na forma urbana, com deslocamento de atividades do centro histórico para novas áreas; d) aumento da densidade populacional na área urbana, com imóveis se multiplicando nos quintais (ROCHA e GOMES, 2002). Embora este quadro seja recorrente em várias outras cidades que absorveram a população migrante ao longo do país, no caso da região amazônica se soma a grande deficiência desses centros urbanos antes da instalação dos empreendimentos, especialmente quanto à ausência de equipamentos urbanos ligados à saúde, educação e assistência social. Trinta anos após a construção da hidrelétrica de Tucuruí, grande parte da legislação brasileira foi alterada. Os estudos para constituição de usinas hidrelétricas se tornaram mais rigorosos, sobretudo por pressão de grupos sociais como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e de organismos internacionais de proteção ao meio ambiente. Não obstante tais iniciativas, as usinas hidrelétricas ainda são as principais fontes de energia do país e,a cada ano,se criam novos projetos de instalação. Na Amazônia estão previstas 20 hidrelétricas para os próximos oito anos e, destas, cinco já estão em processo de construção: Jirau, Teles Pires, Ferreira Gomes, Santo Antônio e Belo Monte. Neste trabalho, aborda-seacerca dos deslocamentos migratórios por ocasião da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, que está em processo de instalação no Rio Xingu, com capacidade de 11.233 MW. Segundo o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), serão gerados no pico das obras (terceiro ano) maisde 18 mil empregos diretos e de 23 mil indiretos (BRASIL, 2009). O município de instalação da usina é Vitória do Xingu (PA) que, apesar de abrigar grande parte do complexo estrutural relacionado à 41 barragem, não é o grade impactado do ponto de vista da densidade populacional, situação que fez de Altamira o principal lócus de absorção dos problemas relacionados à hidrelétrica. Diferente de Tucuruí, que possuía poucos habitantes no início das obras da usina hidrelétrica, Altamira apresenta ao final de 2010 uma população urbana estimada em 76 mil habitantes, ou seja, deverá responder de modo diferenciadoàs intervenções causadas pelo grande incrementopopulacional. Até a conclusão das obras, esta cidade deve passar por grandes mudanças em sua estrutura intraurbana, muitas das quais podemos verificar a seguir. 3. O NÚCLEO URBANO DE ALTAMIRA E SEU PAPEL DE ABSORÇÃO DOS FLUXOS POPULACIONAIS Neste trabalho, considera-se a cidade de Altamira como uma cidade média com importante papel de centralidade no sudoeste paraense. Sua área de influencia compreende os núcleos urbanos de Brasil Novo, Vitória do Xingu, Pacajá, Uruará, Medicilândia, Anapú e Senador José Porfírio. As áreas municipais que abrangem esses núcleos formam a microrregião de Altamira, conforme se pode visualizar na Figura 1. 42 Imagem 1: Mesorregião do Sudoeste paraense. Fonte: Base Cartográfica do IBGE, 2010. Os núcleos urbanos da rede estão situados entre dois eixos de ligação: a rodovia transamazônica (BR-230) e o Rio Xingu. Entre a cidade de Altamira e a cidade de Vitória do Xingu o rio faz uma curva denominada “volta grande do Xingu”, área onde será construída a usina hidrelétrica. Trata-se de um trecho de 100 km povoado por rochas e extensas corredeiras, que tornam impraticável a navegação em embarcações maiores. Por esse motivo, desde o final do Séc. XIX foi criada uma via de ligação por terra entre Altamira (antigo Forte Ambé) e o Porto de Vitória, onde se faria a ligação entre o Rio Tucuruí e o alto Rio Xingu. O declive de 90 metros no trecho da volta grande, que antes seria um obstáculo ao desenvolvimento comercial, torna-se agora uma grande oportunidade de geração de energia por meio da construção da barragem. Os estudos para o aproveitamento hidrelétrico na bacia do rio Xingu começaram em 1975, a partir de quando se poderia aferir a viabilidade técnica de uma usina hidrelétrica naquele curso d’água. Na época, a usina foi denominada de “Kararaô”, que significa “grito de guerra”na línguaKaiapó, nome que seria alterado em 1989 por ser considerado uma afronta aos povos indígenas. Após um longo período de revisões e avaliações, os estudos foram concluídos somente em 2006 através de uma cooperação técnica entre a Eletrobrás e as construtorasAndrade Gutierrez, CamargoCorrea e Norberto Odebrecht (BRASIL, 2009). No ano seguinte os estudos foram repassados ao IBAMA para o licenciamento, que foi concluído somente no final de 2009, diante de vários protestos viabilizados por ONGs e movimentos sociais. Em 1º de fevereiro de 2010 a licença ambiental é publicada e, em abril do mesmo ano, é definida em leilão a empresa responsável pela construção e venda da energia gerada pela usina, a Norte Energia S.A (NESA). A partir de então se iniciam os deslocamentos de trabalhadores para a cidade de Altamira, a começar pelos técnicos responsáveis pelo gerenciamento dos trabalhos. Como ainda não havia sido criada uma área específica para abrigar a população no perímetro do projeto, a cidade de Altamira, localizada a 54 km de Belo Monte, passou a absorver esses migrantes pioneiros. Nesse período, o crescimento do preço dos aluguéis chega a superar a taxade 300% (Portal G1, 2011). Grande parte das residências disponíveis para locação passou a servir ao projeto Belo Monte entre 2010 e 2013, 43 quando ainda não haviam sido concluídas as obras dos alojamentos coletivos e as residências para trabalhadores. O primeiro impacto da imigração é, portanto, a pressão sobre a oferta de bens e serviços na cidade, com destaque para aluguéis e alimentos. De acordo com os documentos ligados à admissão da Norte Energia, entre 2011 e 2014 um número de 45.934 trabalhadores diretos foi admitido, incluindo atividades ligadas às obras e aos escritórios (CCBM, 2014). Os dados incluem todas as admissões diretas no período, sem considerar os desligamentos. Os mapas da Figura 2representam as cidades de origem desses trabalhadores e os feixes de deslocamento, o que demostra a capacidade de recrutamento de uma usina hidrelétrica. Além disso, indicam a desigualdade na distribuição dos trabalhadores pelo país, uma vez que determinadas regiões fornecem profissionais especializados (executivos), outras se destacam em funções intermediárias (escritórios), enquanto que as regiões historicamente mais pobres ofertam trabalhadores ligados às atividades que demandam maior esforço físico (obras). 44 Imagem 2: Deslocamentos de trabalhadores para Belo Monte. Fonte: Elaboração própria com base nos dados de admissão da CCBM, 2014. No que se refere ao deslocamento de executivos, percebe-se o total afastamento dessa categoria de trabalhadores da região de atividade ou mesmo das metrópoles regionais, sendo que os maiores fluxos partem de Belo Horizonte(10) e São Paulo(14). Todas as demais cidades representadas não ofertam mais que três executivos. Em primeira instância, esse dado indicaria a capacidade presente no eixo de maior desenvolvimento do país quanto à oferta de profissionais especializados em função do próprio desenvolvimento técnico-científico dos pontos de origem. Porém, mais do que isso, representa a disposição de comando que emana das “regiões do mandar” em 45 relação às “regiões do fazer”, embora não seja possível dissociar uma coisa da outra, ou seja, a densidade técnica das funções de controle (SANTOS & SILVEIRA, 2001). No que tange aos deslocamentos para cargos de escritório,em Altamira se encontra o maior contingente, de 1.465 admitidos no período. Vale observar que nos estudos de licenciamento havia uma previsão de que a empresa contratasse entre 60% e 70% de trabalhadores locais, o que justifica o maior número de pessoas situadas em Altamira. Na sequência, é possível observar o destaque da capital e demais núcleos de importância, respectivamente Belém-PA (26), Santarém-PA (19), Brasil Novo-PA (18) e Marabá-PA (18), além da capital Porto Velho-RO (18). Somados a estes estão os núcleos de Vitória do Xingu-PA (14), Belo Horizonte-MG (13) e Tucuruí-PA (11), os quais compõem os oito primeiros. Santarém e Marabá se destacam como os subcentros regionais mais próximos, com presença de uma população devidamente qualificada para as atividadesque, em geral, exigem o ensino médio completo ou ensino superior em nível de graduação. Porto Velho, onde estão sendo erguidas as Barragens de Jirau e Santo Antônio, atende ao ciclo das hidrelétricas, onde há pessoas disponíveis para o deslocamento por ocasião do excedente gerado quando se encerra o pico das atividades. Os trabalhadores que se deslocaram para as atividades relacionadas às obras correspondem a mais densa representação, com grande número de cidades ao longo do Brasil e destaque para as regiões norte e nordeste. No total somam 44.019 admissões (95,83%) e se destinam aos sítios Belo Monte e Pimentel (áreas das barragens), além dos diques, canais, portos e acessos e infraestrutura geral. O maior número está registrado na cidade de Altamira (12.141), seguido por Tucuruí-PA (2.619), SantarémPA (1.574), Belém-PA (1.520), São Luiz-MA (1.185), Pinheiro-MA (1.161), Porto Velho-RO (1.095) e Marabá (757), sendo estas os oito primeiras. A lista é extensa e abrange principalmente os municípios dos estados do Pará (114) e Maranhão (178), os quais apresentam também o maior número de admissões, 12.405 e 8.720, respectivamente. Os dados revelam a prevalência dos centros regionais mais próximos, além da manutenção do ciclo das hidrelétricas para o caso dos deslocamentos da capital Porto Velho. Porém, chama a atenção a grande presença de trabalhadores da região nordeste do país, na proporção de 28%, o que indica a presença de um estoque de população excedentedisponível para o deslocamento. Os gráficos a seguir exibem os dados obtidos junto ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e representam o número de admissões e dispensas da construção civil 46 entre janeiro de 2010 e dezembro 2014, onde é possível observar a flutuação para os municípios de Altamira e Vitória do Xingu. Gráfico 1 – Admissões e desligamentos entre 2010 e 2014. Fonte: CAGED/MTE, 2015 O Gráfico 1representa o número de admissões e desligamentos em Altamira e Vitória do Xingu, porém em escalas bem diferentes. No primeiro é possível visualizar um fluxo maior de trabalhadores, enquanto que no segundo as contratações não ultrapassam o número pouco significativo de 1.185 admissões em 2014. Esse quadro reflete o papel de Altamira enquanto cidade-suporte para as atividades de gerenciamento da usina, mesmo que este não seja o local das instalações do complexo estrutural hidroelétrico. No que se refere à Altamira, o gráfico apresenta um crescimento constante nas admissões entre 2010 e 2013 e uma tendência de estabilidade em 2014. Esse dado pode indicar, entre outras questões: a) o período de pico das obras, previsto para o primeiro triêniodo projeto e b) a redução das atividades ligadas ao consórcio construtor (CCBM) e início das atividades vinculadas ao consórcio montador (CMBM), relacionado à estrutura eletromecânica do projeto. Chama atenção, contudo, a alta incidência de desligamentos, superior a 28 mil ao final de 2014, o que demonstra o processo de renovação constante dos canteiros. A esse respeito, Souza (1988, p. 121) argumenta que: “A economia da obra acaba por determinar altíssimos níveis de crescimento demográfico anual, com forte incidência sobretudo nos anos que coincidem 47 com o “pico” dos trabalhos, desde o desvio do rio até o fim da concretagem. Segue-se um período de gradativa desmobilização dos efetivos, uma parte significativa dos quais, sendo subcontratada, acaba por se tornar um “peso morto” na área, carecendo de todo apoio governamental, seja para manter-se no local, seja para retornar à sua área de origem.” Com base nas estimativas apontadas pelo EIA de Belo Monte, a previsão é que “ao todoe ao longo do período de obras,96 mil pessoas cheguem à região,incluindo aquelas que estarãotrabalhando nas obras, o que deverá causar outros impactos” (BRASIL, 2009, p. 85). Nesse caso, o fluxo de trabalhadores diretos é grande, porém não são apenas estes que chegam à região de instalação da usina hidrelétrica, que funciona como um polo de atração populacional para os trabalhadores de todo país, com especial destaque para regiões onde é maior ainsegurança na oferta de emprego. A seguir, veremos como esse processo atinge a principal cidade de destino dos deslocamentos populacionais: o centro urbano de Altamira. 4. BELO MONTEE A REESTRUTURAÇÃO URBANA EM ALTAMIRA-PA Mesmo antes da finalização da rodovia Transamazônica, inaugurada em 1972, Altamira já se apresentava como um polo de atração de migrantes devido à atividade da colonização dirigida. A cidade se destacava como um importante centro comercial e de serviços entre a densa floresta Amazônica, fazendas e assentamentos rurais em instalação. Os núcleos que se desenvolveram ao longo da rodovia começaram a divisar Altamira como um ponto de encontro entre a economia regional e a verticalidade das redes do capitalismo, mediadas pelos sistemas de transporte e telecomunicações, bem como pela instalação de instituições financeiras, comerciais eadministrativas. Ao final de 1980, este núcleo já havia se consolidado como uma cidade média na rede urbana do sudoeste paraense. Porém, ao mesmo tempo, a história da colonização na Amazônia reservou para Altamira um difícil papel de absorção de fluxos populacionais, tanto no que se refere aos deslocamentos inter-regionais como intrarregionais. Com a crise no campo a partir de 1974 eo consequente êxodo rural, houve um forte deslocamento para a área urbana, que se mostrou mais intenso entre 1980 e 1990. Em decorrência desse processo, de acordo com (Becker, 1985, p. 134)“novos bairros surgiram na periferia urbana, habitados por migrantes sem-terra, assalariados urbano48 rurais, bem como, no centro ou próximo a ele, loteamentos espontâneos, ocupados por ex-colonos empregados no setor terciário”. O foco desses migrantes foi a ocupação em áreas próximas aos leitos dos igarapés Altamira e Ambé, muitas das quais sujeitas a alagamentos no período de cheia do Rio Xingu. Segundo Miranda Neto (2014, p. 4) “Tal crescimento esteve acompanhado de uma ocupação urbana sem planejamento, pois muitas famílias fixaram residência em áreas de alagamento próximas aos igarapés Altamira e Ambé. Tais ocupações se deram, em grande parte, a partir da construção de residências em palafitas, com sistemas de saneamento precário ou inexistente, motivando o despejo de esgoto residencial diretamente no rio. Com as crises sucessivas no campo e a consequente migração rural-urbana, outras frentes de migrantes passaram a ocupar a cidade em áreas ainda mais inadequadas, a exemplo da “Invasão dos Padres”. Na medida em que se acentuam os níveis de urbanização e se ampliam os assentamentos espontâneos ao longo da cidade, esta vai ampliando os índices relacionados à precariedade urbana. Proliferam-se moradias precárias, a maioria sem rede de coleta de esgoto e abastecimento de água. De acordo com o IBGE, até 2010 se registra um contingente de mais de nove mil pessoas residindo em aglomerados subnormais na cidade, o que representa 11% da população urbana (IBGE, 2010). É, portanto, nesse quadro de insuficiência de infraestrutura e equipamentos urbanos que começa a se instalar o projeto da usina hidrelétrica de Belo Monte. Em 2011,desembarca em Altamira uma grande quantidade de trabalhadores, tanto de forma conduzida pelo sistema de recrutamento da UHE Belo Monte quanto de forma espontânea, sem qualquer garantia de alojamento e subsistência. Nos primeiros meses, era comum a presença de famílias circulando pela cidade à procura de uma atividade sub-remunerada, apenas para garantir um dia de alimentação. Próximo à rodoviária se instalou um acampamento improvisado de migrantes espontâneos, os quais se abrigavam durante vários dias sob as árvores na esperança de serem absorvidos por um posto de trabalho formal. Essa área chegou a ser nacionalmente conhecida como “hotel calango”, como referência à grande quantidade de redes instaladas entre as árvores. A estimativa do IBGE para a população urbana de Altamira em 2010, de 76 mil habitantes (considerando os situados no perímetro urbano), estaria em muito 49 subestimada nos anos seguintes. Em 2012, a Secretaria de Planejamento do Município avaliou a população total do município em 148.224 mil com base no acesso aos serviços de saúde, o que representaria para área urbana um contingente próximo de 127 mil. A dificuldade em se obter uma estatística oficial reside na própria velocidade nos fluxos de admissões/demissões de trabalhadores, bem como a inexistência de um registro das migrações espontâneas em direção ao núcleo urbano. Sobre esse aspecto, Souza (1988, p. 132) argumenta que: “A pressão do mercado de trabalho aberta com as obras conduz a um processo de crescimento acelerado da população urbana, diante do qual a oferta de serviços públicos jamais é suficiente, tornando-se intensa e precária a urbanização tudo se agrava ainda mais, conforme o tipo de política de mãode-obra adotada pelas empreiteiras e pelas empresas de eletricidade.“ A respeito das consequências desse processo migratório e das transformações estruturais recentes na área urbana de Altamira, é possível elencar algumas tendências verificadas nos três primeiros anos de execução do projeto: a) Acelerado crescimento da população urbana: em 2010 a população urbana de Altamira situada na sede municipal estava em torno de 79.622 (IBGE, 2010). Com o processo migratório, espera-se um crescimento acelerado da população urbana, com predomínio da população masculina. De acordo com o EIA de Belo Monte, “Essas pessoas deverão procurar morar próximo aos alojamentos e às residências dos trabalhadores, podendo formar núcleos sem as condições adequadas” (BRASIL, 2009). Os efeitos desse crescimento começam a ser percebidos de forma mais intensa a partir da desmobilização da mão-de-obra, quando muitos trabalhadores decidem permanecer na região. As consequências para a cidade dizem respeito às alterações na estrutura urbana, especialmente com o crescimento da ocupação desordenada. b) Significativa mudança no quadro habitacional:entre 2010 e 2014 vários assentamentos foram criados pela NESA com vistas à indenização das populações atingidas na área urbana de Altamira e também para abrigar a mão-de-obra vinculada ao projeto, denominados RUC (Reassentamento urbano coletivo). Ao todo, somam-se cinco assentamentos com distância de até 2km da área de origem, designados na sequência com a quantidade de lotes residenciais previstos: Casa Nova (453), São Joaquim (1.041), Jatobá (1.286), Água Azul (775) e Laranjeiras (545). Além destes, 50 dois loteamentos subsidiados pelo programa “minha casa minha vida”, do governo federal: residencial Santa Benedita (958) e Residencial Ilha do Arapujá (1.444). Ressalta-se, também, a forte presença das empresas incorporadoras, com lotes planejados para os segmentos de alta/media renda: Terras de Bonanza (6.615), Cidade Jardim (5.386), Cidade Nova (7.000), Viena (2.458) e São Francisco (709). Apenas no que se refere à presença de lotes planejados, se prevê uma oferta de 28.670 unidades. c) Ampliação da malha urbana: em 2010 a malha urbana de Altamira estava estimada em 2.200 hectares com uma tendência de crescimento já acelerada em decorrência das migrações desde 1980. Com as alterações no quadro habitacional provenientes dos novos assentamentos urbanos e da ação de empresas incorporadoras, se prevê um crescimento próximo de 50% entre 2010 e 2014, conforme se pode visualizar no mapa da Figura 3. Imagem 3 - Evolução da Malha urbana de Altamira Com base na leitura do mapa é possível perceber um grande incremento da malha urbana em várias direções, seguindo o eixo das principais vias da cidade. Percebe-se, também, uma mudança no perímetro urbano da cidade, que passou de 95,235 km² (incluindo partes do rio e da ilha do Arapujá) para 111,229 km². d) Alterações na economia local:sabe-se que as usinas hidrelétricas possuem a capacidade de gerar uma divisão do trabalho estranha ao local em que se instalam. 51 Tanto nos sítios de instalação dos canteiros de obras quanto nas cidades mais próximas percebe-se um circuito de cooperação marcado pela mobilização de diversas empresas e funcionários especializados. Não raro as empresas locais são contratadas para fornecer produtos e serviços exclusivos para atender as necessidades do projeto, especialmente no ramo da alimentação. O comércio se intensifica de forma acelerada, de modo que mercados e lojas de varejo são ampliados de forma improvisada em tendas ou estruturas de madeira com vistas a acompanhar a nova demanda local. Entre 2010 e 2013 já se observa um aumento da transferência de impostos9 na taxa de 470%, sendo que os incrementos anuais não ultrapassavam 30% até 2010 (IDESP, 2014). De modo geral, o ritmo econômico se intensifica, porém parece subsistir com base no fluxo de pessoas e capitais decorrentes da obra, sem garantias de sua real continuidade nos anos subsequentes. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A experiência da construção de hidrelétricas no Brasil permite dizer que não se trata de um tipo de indústria como as outras, especialmente por sua capacidade de mobilização de mão-de-obra e de organização/desorganização das estruturas regionais. Sabe-se, porém, que não é a hidrelétrica, enquanto objeto técnico, que produz as transformações de maior destaque, mas os processos sociais decorrentes de sua construção, o que inclui a instalação de um conjunto de infraestruturas de suporte e obras de mitigação em uma vasta área geográfica. A força de trabalho utilizada em um primeiro momento é cristalizada na forma de um grande artefato técnico, o qual é empregado para a geração da hidroeletricidade, esta sim a verdadeira mercadoria. Poder-se-ia dizer, inclusive, que a energia consumida em megawatts é nada mais que o resultado do trabalho aplicado de milhares de trabalhadores ao longo de cinco anos, que pela tecnologia pode se estender para cem anos ou mais. Nestes termos, a usina hidrelétrica é um grande monumento de trabalho morto, utilizado para vários ciclos de exploração do trabalho vivo. O Brasil se destaca no cenário mundial como um grande construtor de usinas hidrelétricas, com um número invejável de 112 unidades. Mas como se tornariam 9 Referem-se às transferências constitucionais do ICMS, IPI, IPVA, FUNDEB-ICMS e FUNDEB-IPVA. 52 viáveis estes projetos sem os estoques de força de trabalho presentes no território brasileiro? É, portanto, a disponibilidade de trabalhadores “livres” que permite a realização desses empreendimentos em áreas remotas do país, cuja liberdade reside na difícil escolha entre migrar e viver de recursos insuficientes em seu local de origem. Um exemplo é o deslocamento de trabalhadores de Pinheiro-MA, uma cidade de 79 mil habitantes que mobilizou em torno de 1,2% de seus habitantes para Belo Monte. Os mapas apresentados demostram a capacidade de mobilização de uma grande usina hidrelétrica, bem como o cenário desigual de residência dos funcionários. A usina hidrelétrica, como um tipo de indústria, depende de uma grande quantidade de força-de-trabalho para sua instalação, de modo que absorve os excedentes gerados ao longo do país durante curtos períodos. Os trabalhadores são, portanto, inseridos na lógica de controle do empreendedor e depois dispensados para exercerem sua “livre opção”, que basicamente se resume em três escolhas: a) retornar ao local de origem, b) tentar a vida na região em que se estabeleceram e c) serem lançados novamente no chamado “ciclo das barragens”, migrando para outras áreas de instalação. Na outra ponta do fluxo migratório se encontra a região de instalação da usina hidrelétrica e, em especial, o núcleo urbano de Altamira, que mais uma vez aceita o difícil papel de anteparo dos deslocamentos populacionais. Ao mesmo tempo em que sofre impactos diretos relativos à obra, a cidade precisa responder de forma premente à necessidade dos moradores locais, antigos e novos. Com carências estruturais históricas, o núcleo urbano recebe novos assentamentos e lotes urbanizados em uma quantidade sem precedentes, alterando sobremaneira o quadro da habitação. A economia se modifica com vistas a receber os novos moradores e atender as demandas do projeto, de modo que as necessidades locais históricas são desconsideradas em nome de um desenvolvimento que demora a acontecer. As transformações na cidade de Altamira estão em pleno curso e avançam de modo associado aos avanços das instalações de Belo Monte. Espera-se até a conclusão das obras, em 2019, um conjunto de fenômenos novos e também novos indicadores para se compreender as mudanças recentes nessa cidade média amazônica. REFERÊNCIAS 53 BECKER, O. S. Mobilidade espacial da população: conceitos, tipologia, contextos, in: Castro, Iná Elias de et al., Explorações geográficas. Percursos no fim do século, Rio de Janeiro, Bertand, 1997, p. 319-367. BECKER, B. K. Fronteira e urbanização repensadas. Revista Brasileira de Geografia, v. 47, p. 357–371, 1985. BRASIL. MINISTÉRIO DAS MINAS E ENERGIA. Relatório de Impacto ambiental: aproveitamento hidrelétrico Belo Monte. Brasília, 2009. CCBM - CONSÓRCIO CONTRUTOR BELO MONTE. Lista de admissões em relação alfabética. Planilha: Excel, 2014. GAUDEMAR, Jean-Paul de. A mobilidade do trabalho e acumulação do capital. Lisboa:Estampa, 1977. HARVEY, D. A Condição Pós-moderna. São Paulo, Loyola, 2005. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Aglomerados Subnormais: primeiros resultados. Rio de Janeiro: IBGE, 2010b. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Sinopse preliminar do censo demográfico. Rio de Janeiro: IBGE, 2010a. IDESP. 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Essa região é formada por nove municípios, sendo três deles cidades médias: Volta Redonda, Barra Mansa e Resende. Ela vem se reindustrializando, com a instalação de novas fábricas relacionadas principalmente ao setor metalomecânico, que inclui a indústria automobilística. Essas atividades e outras de caráter comercial, residencial e de serviços estão sendoimplantadasno território regional como formas urbanas dispersas. O trabalho tem como objetivo estudar a reestruturação em curso na microrregião, analisando a reindustrialização e as transformações urbanas recentes que envolvem a urbanização dispersa. Palavras-chave: Reindustrialização. Urbanização dispersa. Cidades médias. 1. INTRODUÇÃO A microrregião do Médio Vale Paraíba fluminense, importante região industrial do Estado do Rio de Janeiro, passa por uma intensa reestruturação produtiva e espacial, iniciada na década de 1990-2000, com a atração de novas indústrias – principalmente automotivas. As novas indústrias estãosendo implantadas com formas urbanas desconectadas dos tecidos consolidados (espaço intraurbano), quesão características do processo de dispersão urbana. Essa reestruturação levou a modificações das relações sociais, econômicas e espaciais na microrregião. A rede 10 Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP. Laboratório de Estudos sobre Urbanização, Arquitetura e Preservação - LAP, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAUUSP. 56 rodoviária, como também as redes de comunicação, ganharam maior destaque e são parte do cotidiano regional dos moradores dessa microrregião. A microrregião do Vale do Paraíba fluminense situa-se no terço médio da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul11(Figura 1) e possui localização estratégica, interna ao triângulo cujos vértices são as mais importantes capitais do país – São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, grandes centros consumidores e acumuladores de capital. Essa microrregião possui área de 3.828.702 km2 e população de 680 mil habitantes segundo o Censo de 2010, sendo formada por nove municípios (Figura 2), três deles cidades médias: Volta Redonda, com população de 257,8 mil habitantes em 2010; Barra Mansa, com 177,8 mil; Resende, com 119,7 mil habitantes. Mapa 1: Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (mancha laranja), que ocupa parte dos territórios dosestados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais12. A microrregião do Médio Vale Paraíba fluminense está destacada em vermelho. 11 Esta bacia hidrográfica está localizada no bioma da Mata Atlântica e é conformada ao norte pela Serra da Mantiqueira e ao sul pela Serra do Mar, divisores de águas da bacia. 12 Fonte: CEIVAP – Disponível em: <www.ceivap.org.br>.Acesso em: 10 Mai. 2014. 57 Mapa 2 - Mapa do Estado do Rio de Janeiro com a microrregião do Vale do Paraíba fluminense em destaque. Ao lado, os municípios do Vale do Paraíba fluminense13. Essa microrregião fluminense é atravessada longitudinalmente pela principal rodovia do país, a Presidente Dutra (BR-116), como também pela antiga Estrada de Ferro Central do Brasil. Ambas conectam as metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro. Esta rodovia e seus acessos viários estruturam as formas urbanas dispersas que estão sendo implantadasna região. O trabalho tem como objetivo estudar a reestruturação produtiva e espacial em curso na microrregião do Vale do Paraíba fluminense, analisando sua reindustrialização e as subsequentes transformações urbanas que envolvem atividades e formas dispersas, impactando suas três cidades médias e demais municípios. O Vale do Paraíba fluminensedistingue-sepor seu ciclo industrial, iniciado nos anos 1930-40 na Era Vargas. Esse ciclo – fordista – tem como marco a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), criada em 1941 pelo Estado brasileiro e instalada no então distrito de Volta Redonda (pertencente à Barra Mansa). Essa empresa assegurou em definitivo a industrialização do país. Com a industrialização fordista, essa microrregião teve um forte e acelerado crescimento populacional, urbanizando-se. O conjunto fordista CSN-Volta Redonda era uma verdadeira company-town que polarizava a região e centralizava o seu desenvolvimento. Esse conjunto caracterizava-se espacialmente por suas formas urbanas concentradas. 13 Fonte dos mapas: Wikipédia. 58 A rápida expansão urbana motivada pela industrialização fez com que, ainda nos anos 1960-70, os municípios de Volta Redonda e Barra Mansaultrapassassem,cada, os cem mil habitantes, formando uma conurbação (BENTES, 2008).Resende sóalcançou este número na década de 1990-2000. As duas primeiras cidades médias concentravam a industrialização, além das atividades de comércio e de serviços com melhor qualidade na microrregião. A adoção do modelo neoliberal e de suas medidas de ajuste econômico pelo governo brasileiro, no início dos anos 1990-2000, levou a profundas transformações na economia, nas atividades produtivas e nas relações trabalhistas, com a consequente reestruturação dos espaços urbanos. A CSN foi privatizada em 1993, o que gerou significativos efeitos sobre a microrregião e seu território. Essa região passou por uma forte crise social e econômica pós-privatização, o que levou a demissões em diversas atividades econômicas, além da desarticulação e fechamento dos fornecedores locais da CSN. Como metodologia da pesquisa, o estudo teórico-conceitual e a análise do espaço urbano-regional foram as principais estratégias para identificar e examinar as mudanças em curso e seus rebatimentos espaciais na microrregião. Foram realizados trabalhos de campo para documentar o processo de dispersão urbana. Observaram-seas formas urbanas e atividades dispersas, além da circulação e modos de vida regionais.A reunião e confrontação dos elementos teóricos e empíricos possibilitaram a elaboração de análises para compreensão mais ampla dos fenômenos em curso, com reflexões sobre a reindustrialização e as transformações urbanas recentes, envolvendo o processo de urbanização dispersa. 2. A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E ESPACIAL COM A REINDUSTRIALIZAÇÃO DA MICRORREGIÃO Na década de 1990-2000, teve início a reestruturação produtiva e espacial da microrregião do Vale do Paraíba fluminense, após a privatização e reorganização da CSN. A região começou a se reindustrializar, com a instalação de novas plantas fabris, relacionadas principalmente ao setor metalomecânico, que inclui a indústria automobilística. Os novos empreendimentos foram implantados de maneira dispersa pelo território regional. O processo de dispersão urbana, conforme as definições elaboradas por Reis (2006), ocorre com a formação de áreas cuja urbanização se estende por um vasto 59 território, com núcleos urbanos separados no espaço por vazios intersticiais, mas que mantêm vínculos estreitos entre si, formando um único sistema urbano. A população passa a adotar novos modos de vida, com maior mobilidade, o que possibilita a organização da vida cotidiana na escala metropolitana ou intermetropolitana e regional, abrangendo vários municípios. Ainda segundo esse autor, o modo de vida metropolitano leva ao que este denominou de “regionalização do cotidiano”. Com a urbanização dispersa, em curso nessa microrregião, ocorre o esgaçamento do tecido urbano, com a formação de novos núcleos de diferentes dimensões na região, interligados pelas redes viária e de comunicação. Novos empreendimentos são implantados desarticulados dos tecidos urbanos tradicionais dos municípios (espaços intraurbanos), com infraestrutura e urbanização desconectadas – dispersas no território regional. Em 1994, o governo do Estado do Rio de Janeiro e a Prefeitura de Resende iniciaram negociações com a Volkswagen (VW, atual MAN), que havia anunciado a intenção de instalar no Brasil sua fábrica mundial de ônibus e caminhões. Segundo os sociólogos José Ramalho e Marco Santana (2002), a empresa elaborou um extenso formulário e enviou a diversosmunicípios– num verdadeiro processo seletivo–, primeiro separando 100, depois 40, 15 e,ao final da competição, reduzindo-sea 2 cidades médias: Resende e São Carlos14(SP). No ambiente econômico e político altamente competitivo da época, a instalação da Volkswagen em Resende foi um marco importante para a recuperação da condição industrial do Vale do Paraíba fluminense, possibilitando ao mesmo tempo, segundo Lima (2006), a reinserção dessa região no movimento econômico e produtivo do país. Os fatores decisivos dessa negociação não foram apenas técnicos, mas também políticos. O município de Resende acabou tendo um papel secundário na negociação, cabendo ao governo estadual a negociação política e a oferta de incentivos e benefícios econômicos, que foram articulados com o Governo Federal, como o financiamento pelo BNDES. Os governos estadual e municipal ofereceram à empresa uma série de recursos: incentivos fiscais, com a isenção total de impostos estaduais por dez anos, liberação de impostos municipais por 15 anos e da taxa de água; instalação de infraestrutura viária; melhoria dos portos para exportação; qualificação da mão de obra, 14 Esta cidade paulista recebeu a fábrica de motores da Volkswagen, inaugurada em 1996. 60 entre outros. Além disso, o Grupo Porto Real (privado) propôs doar um terreno de 200 ha sem qualquer contrapartida. Dessa forma, Resende conseguiu vencer a disputa pela fábrica da VW (LIMA, 2006; OLIVEIRA, 2008). Neste ínterim, simultaneamente ao anúncio oficial da instalação da fábrica da VW em Resende, feito pelo estado em 1995, surgiu o movimento pela emancipação do então distrito de Porto Real15. Para o sociológico Raphael Lima (2006), a negociação para a implantação da VW e as possibilidades de crescimento econômico advindas desta indústria tiveram um papel essencial para a separação de Porto Real, com a emancipação fazendo parte do jogo político e dos interesses dos atores regionais. Imagem 1 - Vista aérea da fábrica da Volkswagen em Resende, atual MAN Latin America16. Sem data. A localização da fábrica serviu de “moeda de troca” (RAMALHO; SANTANA, 2002), com a indústria permanecendo no município de Resende desde que fosse aceita a separação de Porto Real. Assim foi feito, trocando-se a fábrica da 15 O desejo de autonomia de Porto Real vem desde a década de 1960-70, quando do primeiro desenvolvimento industrial de Resende, período em que as indústrias químico-farmacêuticas começaram a ser instaladas às margens da Rodovia Presidente Dutra (LIMA, 2006). 16 Fonte: Site BMB Mode Center. Disponível em: <www.modecenter.com.br/fabrica-da-man-em-resende-atingemeio-milhao-de-veiculos-produzidos>. Acesso em: 01 Mai. 2014. 61 Volkswagen pela emancipação17. Dessa forma concretizou-se a separação, alterando-se o perímetro de Porto Real, com o futuro município abrindo mão de parte de seu território, 90 ha, e sendo mantido em Resende o terreno para a instalação da fábrica da VW18. Com sua independência, Porto Real iniciou uma estratégica e agressiva política de atração de investimentos, tornando-se um dos municípios que mais recebe recursos no estado (LIMA, 2006). Isso levou à rápida modernização do seu parque industrial, com a diversificação das atividades. Com isso, alterou-se significativamente o perfil econômico domunicípio, onde predominava a atividade rural até 1996, quando se destacava a pecuária leiteira. A Prefeitura de Porto Real, no seu primeiro ano de funcionamento em 1997, conseguiu a instalação da fábrica da Guardian – grande empresa norte-americana de fabricação de vidros planos –, que também foi implantada de maneira dispersa no território, com a planta industrial inaugurada em 1998. A empresa beneficiou-se de recursos oriundos de fundos de investimentos públicos, além de incentivos fiscais e a doação de terrenos. No mesmo ano, o grupo francês PSA Peugeot-Citroën decidiu instalar sua fábrica no país. Porto Real deflagrou uma “campanha” para a implantação do polo metalomecânico, pois já contava com a base logística instalada para a VW, com a PSA constituindo-se na primeira fábrica de automóveis do Estado do Rio de Janeiro. Os mecanismos de atração dessa indústria foram basicamente os mesmos utilizados com a Volkswagen. Junto com a indústria, foram implantados ao redor da fábrica diversos fornecedores, no chamado Tecnopolo I, que posteriormente foi ampliado com o Tecnopolo II. As instituições municipais e estaduais voltadas para o desenvolvimento econômico atuaram na criação do polo metalomecânico, através de legislações e mecanismos de incentivos a investimentos na região, orientando o crescimento econômico e a geração de empregos. 17 A emancipação foi confirmada em 5 de novembro de 1995, com o novo município sendo estabelecido em 28 de dezembro do mesmo ano. Em 1996 foram realizadas as eleições municipais. 18 O limite original do distrito, que era o Rio Paraíba do Sul (que contorna Porto Real), foi modificado e deslocado para a estrada que separa as plantas industriais da VW (Resende) e posteriormente da PSA Peugeot-Citroën (Porto Real). O município de Porto Real tem uma área de 50,7 km2. 62 Em 1999 foi inaugurada a planta da GalvaSud (atual CSN Porto Real)19, produzindo bobinas de aço galvanizado para abastecer, principalmente, as indústrias automotivas instaladas na microrregião e nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, além do Mercosul. Com a implantação dessas indústrias, a arrecadação de impostos em Porto Real cresceu significativamente, mesmo com todos os incentivos fiscais concedidos às indústrias. Entre 2007 e 2012, o crescimento da arrecadação de ICMS foi de 132%. Entre 2001, início do funcionamento da PSA, e 2003, o crescimento do PIB de Porto Real foi de 1.300%, superior a qualquer município fluminense, segundo Lima (2006). O PIB em 2010 do município foi de 4,82 bilhões de reais, sendo o 6 o maior PIB per capita do país eo maior do Estado do Rio de Janeiro, com 290.834 reais por habitante20. O município de Resende, cidade média que sofreu um grande impacto com as perdas do antigo distrito de Porto Real e dos seus respectivosinvestimentos, buscou atrair novos empreendimentos em diferentes áreas da cidade. A Votorantim Siderurgia (2009)21, instalada no oeste do município, tem sua produção de aços longos22 agregada à da antiga Siderúrgica Barra Mansa, do mesmo grupo empresarial e que localiza-se na cidade média homônima. Foi também instalada a fábrica de automóveis da nipo-francesa Nissan (2014), próxima ao polo de Porto Real (leste), e que tem sua produção associada com a linha de montagem instalada na planta industrial da Renault em São José dos Pinhais (PR). Em Itatiaia, município que também se emancipou de Resende, em 1988, ocorreu a expansão da fábrica de pneus da francesa Michelin (2012), seguida pela instalação da indústria de máquinas pesadas sul-coreana Hyundai (2013), em parceria com a BMC Brasil Máquinas. Essas plantas fabris estão localizadas no polo industrial desse município, entre o tecido intraurbano de Itatiaia e Resende, às margens da Via Dutra e a menos de 20 km da divisa com o Estado de São Paulo. Este é o único poloindustrial da região que tem acesso ferroviário, sendoprevista a construção de um 19 Essa empresa foi criada como uma jointventure entre a CSN e o grupo alemão ThyssenKrupp, sendo totalmente adquirida pela CSN em 2003 (LIMA, 2006). 20 Dados tabulados a partir de informações do IBGE e Fundação CEPERJ (Estado do Rio de Janeiro). Ranking do PIB per capita e avanço do ICMS foram obtidos a partir da reportagem “Porto Real tem o melhor PIB per capita”, do Diário do Vale, publicada em 26 Dez. 2013. Disponível em: <m.diariodovale.com.br/ views/noticiaInterna.asp?cod=82995&codArea=1>. Acesso em: 01 Mai. 2014. 21 As datas entre parênteses referem-se ao ano de inauguração. 22 Produtos voltados principalmente para a construção civil e mecânica: vergalhões, barras, fio-máquinas e perfis. 63 terminal rodoferroviário. Além dessas indústrias, esse polo conta com um centro de logística e distribuição da Procter & Gamble (2010). Em 2013 foi anunciada a construção da indústria de automóveis britânica Jaguar Land Rover em Itatiaia. A concorrência envolveu oito estados, tendo como fatores decisivos para a escolha do município a presença de fornecedores na região e a proximidade dos principais mercados consumidores brasileiros, com a possibilidade de atender a América Latina. As transformações que levaram à reindustrialização do Vale do Paraíba fluminense só foram possíveis a partir da adoção por parte do governo brasileiro da política neoliberal, no início da década de 1990-2000. Foi implementado um conjunto de medidas macroeconômicas, formuladas por organismos internacionais, que tinham como objetivo promover políticas de ajuste econômico e social com a realização de reformas estruturais, justificadas pela necessidade de restabelecer a competitividade e o crescimento do país. Isso resultou em profundas modificações institucionais, com o Estado diminuindo drasticamente sua participação e desregulamentando a economia, retirandose em grande parte do processo produtivo, abrindo o mercado nacional e privatizando empresas – como a CSN. Foram reduzidos os investimentos estatais em desenvolvimento, em especial na infraestrutura, transferindo-os, em sua maioria, para a iniciativa privada, atraindo ainda investimentos estrangeiros. Com isso, alterou-se a organização e a localização da produção no Brasil. Esse fato, associado à globalização – com a ampliação dos mercados consumidores, maior intercâmbio de produtos e serviços entre países, acirramento da concorrência – e aos movimentos de emancipações municipais, a partir da Constituição Federal de 198823, teve como consequência a “guerra fiscal”, com estados e municípios buscando atrair diretamente investimentos externos. Essas alterações influíram no processo de urbanização, com a reestruturação dos espaços urbanos. 23 Essa constituição de caráter municipalista permitiu a criação de diversos municípios durante a década de 19902000, o que fragmentou politicamente o território. Ela possibilitou ainda um maior repasse de verbas do Governo Federal para os municípios, utilizando o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), em que os repasses dos recursos são feitos em patamares conforme o tamanho da população. Assim, com os repasses garantidos do FPM, os municípios podem abrir mão dos impostos, ou parte desses, em troca da instalação dos empreendimentos. 64 Nessa conjuntura foi criado pelo governo brasileiro, em 1994, o “Novo Regime Automotivo”24, que associado ao acirramento da “guerra fiscal” no começo dos anos 1990 2000, possibilitaram o início da reindustrialização do Vale do Paraíba fluminense. Esse regime automotivo possibilitou a reformulação do setor ao longo dessa década25. O mercado nacional foi aberto aos produtos estrangeiros e foram criados incentivos por parte dos governos federal, estaduais e municipais, de maneira a estimular os investimentos fora das áreas que já concentravam tradicionalmente a produção de veículos (RAMALHO; SANTANA, 2002). Assim, teve início no Brasil o redesenho geográfico dos investimentos e plantas industriais automotivas, que passaram a ser instaladas em municípios que, na maioria dos casos, não tinham tradição deste tipo de indústria, gerando a mencionada “guerra” por vantagens para atrair as montadoras (RAMALHO, 2006)26. As indústrias automotivas instaladas no Vale do Paraíba fluminense valeram-se da lógica de incentivos fiscais, buscando isenções de impostos e vantagens logísticas, como observado anteriormente. A “guerra fiscal” ocorreu inclusive entre municípios da mesma região, envolvendo mais diretamente as cidade médias de Volta Redonda e Resende, além dos antigos distritos de Porto Real e Itatiaia. Com isso, cada nova possibilidade de investimento na microrregião, seja privado ou público, cria grandes expectativas de desenvolvimento e provoca a disputa entre os municípios, o que não favorece a integração regional. Foram também decisivos para a reindustrialização da região a preexistência da indústria, com a garantia de fornecimento de aço pela CSN, então recém-privatizada, e de uma cultura industrial. Contribuiu ainda para isto, o início da operação privada da Rodovia Presidente Dutra, através de concessão em 1996. Com o aquecimento da economia e, principalmente, do consumo no Brasil, ocorrido no final da década passada(2000-2010), mais indústrias e empreendimentos dispersos surgiram no Vale do Paraíba fluminense. No caso das indústrias 24 Esse regime, criado com o Plano Real, tinha como objetivos: manter em funcionamento as grandes montadoras existentes no país; reestruturar as empresas brasileiras do setor; atrair novas montadoras e marcas, estimulando a instalação de novas plantas industriais no país; consolidar o Mercosul e reforçar o papel de liderança do Brasil na região (RAMALHO, 2006). 25 Segundo Ramalho e Santana (2006), a reestruturação desse setor deve-se à longa crise e à recessão econômica no mercado interno brasileiro, associada ainda à entrada de concorrentes estrangeiros no país e ao lento abandono da política de substituição das importações, ocorrido no final dos anos 1980-90 e no começo da década seguinte. 26 Anteriormente as montadoras automotivas, presentes no país desde os anos 1950-60, estavam concentradas no Estado de São Paulo - principalmente, nos municípios do ABC Paulista e no Vale do Paraíba paulista. 65 automobilísticas, pesou na decisão de instalação das novas fábricas o estabelecimento pelo Governo Federal de um novo regime automotivo chamado de “Inovar-Auto”, que entrou em vigor no começo de 2013 e valerá até 2017. Esse regime aumentou o IPI27 para veículos importados e com menos de 65% de conteúdo nacional, visando estimular a implantação de fábricas automotivas no Brasil. Com isso, além das novas indústrias destacadas anteriormente, foram anunciados, em 2011, investimentos na ampliação das fábricas da MAN (anteriormente VW)28 e da PSA29, com conclusão até 2016, como também a diversificação das atividades industriais na microrregião. As indústrias instaladas no Vale do Paraíba fluminense a partir da década de 1990-2000 são parte da “nova geografia industrial”, como definida por Castells e Hall (2001). Esses autores entendem que nenhum país pode prosperar sem um certo nível de conexão com as fontes de inovação e produção, eque o impulso para a construção de novos espaços industriais produz uma onda de reindustrialização mundial, que vai contra os mitos do pós-industrialismo. A nova geografia industrial vincula-se à nova economia global e informacional, ao processo de globalização, informatização e comunicação. Na microrregião, as fábricas instaladas configuram um novo espaço industrial – que envolve alterações nos padrões de produção e de localização industrial (como observado anteriormente) –, seguindo a lógica espacial do espaço de fluxos, como conceituado por Manuel Castells (2012). O espaço de fluxos é o suporte material das práticas sociais simultâneas e dominantes na sociedade pós-moderna, que são comunicadas à distância. Ele possui uma nova lógica espacial – dominante –,que está se traduzindo na manifestação espacial do poder que é preponderante na sociedade em rede (contemporânea) e resulta em novas formas espaciais. Como observado por Michael Storper (1990), a substituição do antigo sistema tecnológico e institucional fordista pelo regime de flexibilidade da produção introduz um conjunto de novas realidades. Este conjunto configura o novo desenvolvimento econômico regional e uma nova forma da urbanização, como está sendo observado no Vale do Paraíba fluminense. 27 Imposto sobre Produtos Industrializados. A MAN Latin America adquiriu em 2009 a VW Caminhões e Ônibus e ambas pertencem ao mesmo grupo empresarial. 29 Investimentos de 1 bilhão de reais na MAN e 3,7 bilhões na PSA. 28 66 As novas indústrias instaladas na região, com características do período atual pós-fordista, já foram planejadas e implantadas com base nesses princípios da economia informacional e global, com suas linhas de montagem projetadas no regime de produção flexível, modular, envolvendo processos inovadores de produção e gestão, como o sistema just in time. Nessa forma de produção, são adotados novos vínculos com os fornecedores – instalados dentro da planta industrial e operando diretamente na linha de produção –, alterando-se ainda as relações de trabalho. O processo de flexibilização da produção e das relações de trabalho nas indústrias automotivas da microrregião é simultâneo à reorganização mundial desse setor industrial. A produção flexível e sua lógica de implementação espacial, com base no espaço de fluxos, possibilitam a diminuição da polarização espacial global do desenvolvimento industrial, incentivando a multiplicação de polos de crescimento industrial. De modo concomitante, os meios de inovação industrial de alta tecnologia e dos setores industriais que seguiram em direção à flexibilidade da produção levaram ao ressurgimento do fenômeno dos polos e distritos industriais, segundo Storper (1990). Assim, as novas indústrias implantadas nos municípios de Resende, Porto Real e Itatiaia seguem a tendência de se concentrarem geograficamente em polos industriais, com o objetivo de reduzir custos e gerar maior produtividade.Esse agrupamento de empresas e indústrias facilita o encadeamento com as demais empresas e fornecedores, proporcionando ainda a reunião de mão de obra e de suprimentos. Isso permite maior rotatividade de estoques e de produção, bem como a redução de custos na contratação e treinamento da mão de obra e ainda a socialização dos empregados (STORPER, 1990). As novas fábricas instaladas na microrregião, como também as de seus fornecedores locais, foram e estão sendo implantadas com formas urbanas dispersas no espaço regional, gerando por aglutinação, ao longo do tempo, centralidades com os polos industriais. A concentração e ligação das estruturas industriais urbano-regionais ajudam na maximização do acesso ao contexto cultural e informacional dos sistemas de produção, tendo como características comuns funcionarem como nós, que articulam diferentes redes com intensivas interações: empresariais, de pesquisa, industriais (produção), acadêmicas, entre outras. Essas plantas industriais e os polos em que estão instaladas apresentam características de não-lugares, como definido por Marc Augé (1994), que são pontos de não permanência e transitórios, conectados pela Via Dutra e seus acessos. Caracterizam67 se como espaços abstratos, em que não se criam laços sociais e afetivos profundos e duradouros. O aumento no número de fábricas automotivas na microrregião fez com que o conjunto dos municípios de Resende, Itatiaia e Porto Real fosse apelidado de RIP ou ABC Fluminense, em alusão ao ABC Paulista. O nível de inovação nas indústrias do Vale do Paraíba fluminense é, em sua maioria, secundário, pois os departamentos de pesquisa e projeto presentes nessas fábricas estão conectados globalmente em redes próprias, comandadas por suas matrizes. Nas indústrias da microrregião são realizadas pesquisas para a regionalização de produtos, adequando-os aos mercados brasileiro e latino-americano e, em alguns casos, criando-se produtos regionais. Porém, há exceções, como o “consórcio modular”, implantado pela Volkswagen na sua fábrica de ônibus e caminhões em Resende nos anos 1990-2000. Esta planta industrial foi considerada, à época, uma inovação mundial na forma de organização da produção, com a divisão de trabalho dentro da planta industrial. Nesse modelo de fabricação a flexibilização chegou ao extremo, tornados os fornecedores parceiros no projeto e na construção dos caminhões, com a participação direta na montagem dos veículos e sendo responsáveis pela fabricação. Posteriormente, até o controle de qualidade passou a ser terceirizado. A cadeia de fornecedores sofreu uma mudança radical. Isso inclui, além da divisão de tarefas na montagem dos veículos, a repartição de investimentos, custos, responsabilidades e riscos. Isso alterou também as relações de trabalho, normatizando os padrões de remuneração e benefícios entre os funcionários dos parceiros do consórcio modular. No entanto, a participação dos trabalhadores no funcionamento da fábrica não apresentou inovações com o consórcio modular, diferente do que ocorreu com a organização produtiva. Outro exemplo de inovação foi o projeto da picape Peugeot Hoggar, veículo desenvolvido inteiramente no Brasil, no interior da fábrica da PSA em Porto Real. Esta empresa possui um centro de pesquisa em um edifício à parte, dentro do sítio industrial, e estabeleceu parcerias com universidades fluminenses e paulistas, neste último caso com apoio da FAPESP. As indústrias instaladas na região são integrantes de um sistema global de produção flexível, sendo partes interdependentes dos meios de inovação espalhados por 68 todo o planeta, aumentando ainda mais as sinergias produtivas de maneira a obter maior produtividade e competitividade. Essas fábricas estão articuladas em redes com outros polos industriais mundiais, compartilhando e racionalizando a produção, incluindo as demais fábricas do mesmo grupo empresarial – localizadas no Brasil ou em outros países –, e ainda os fornecedores – instalados localmente no interior ou ao redor das plantas industriais, como também espalhados pelo globo. Já a direção nacional e os departamentos de compras, vendas e marketing dessas empresas industriais estão localizados majoritariamente em São Paulo, e de lá reportam-se às suas matrizes nos países de origem, no caso das multinacionais. Dessa forma, as indústrias dispersas instaladas na microrregião mantêm vínculos estreitos com a metrópole paulista, que no caso brasileiro exerce a função de comando nacional e continental, como observado por Santos (1993) e Spósito (2007). Essas relações de interdependência global podem ser exemplificadas a partir do caso da PSA30, que além da fábrica em Porto Real, possui duas outras na Argentina – em El Palomar (veículos), na Região Metropolitana de Buenos Aires (RMBA), e em Jeppener (motores e componentes), próxima a essa região metropolitana. Os modelos de veículos e motores produzidos no Brasil são diferentes dos fabricados na Argentina, com as linhas de produção sendo complementares. Sua sede latino-americana está localizada na cidade de São Paulo. A mão de obra para as novas indústrias foi recrutada, em sua maioria, na própria região. Como nos revela Ramalho (2006), para a instalação da nova fábrica, a VW realizou uma pesquisa na região para adaptar seus salários aos existentes no Vale do Paraíba fluminense, de modo a não “inflacionar” o mercado. A possibilidade de menores salários e a presença de sindicatos fracos foram considerados também como fatores positivos para a implantação das novas fábricas fora do Estado de São Paulo, pela ação sindical no ABC Paulista ser forte. Com a chegada das novas indústrias, criou-se uma grande expectativa quanto à oferta de empregos. Tanto em Resende quanto em Porto Real, as demandas de trabalho foram crescentes, mas não na quantidade imaginada pela sociedade local e anunciada pelos políticos, então acostumados como o modelo fordista do antigo conjunto CSNVolta Redonda estatal. Como as novas indústrias já surgiram estruturadas pela produção 30 O total de veículos fabricados nas duas plantas é de 253.048, sendo 115.302 na fábrica argentina. Dados de 2013. Fonte: Sites PSA Brasil e Argentina. 69 flexível, não geraram um grande número de empregos diretos, por não necessitarem de mão de obra intensiva. O bom nível de escolaridade na região deve-se àpresença de escolas técnicas profissionalizantesem suas cidades médias. Em Volta Redonda destaca-se a Escola Técnica Pandiá Calógeras (ETPC), fundada em 1944 para a formação dos filhos de operários da siderúrgica e dirigida até hoje pela CSN, e que oferece diversos cursos técnicos em atividades relacionadas com a indústria. Em Resende encontra-se a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Além disso, aumentou-se a oferta dos cursos de nível superior na região, com a instalação de um polo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em Resende, implantado nas edificações da antiga fábrica da Kodak (2001). O Campus Regional de Resende31 está localizado no polo industrial do município e é acessado diretamente pela Via Dutra, desconectado do espaço intraurbano e sendo um exemplo de dispersão urbana não industrial. Em Volta Redonda, o tradicional polo da Escola de Engenharia Metalúrgica da Universidade Federal Fluminense (UFF) foi ampliado, oferecendo diversos cursos32. Os municípios da região contam ainda com muitas universidades particulares33. Os cursos oferecidos estão relacionados, em sua maioria, às necessidades industriais da região. 3 - OUTRAS ATIVIDADES DISPERSAS, MODOS DE VIDA E MOBILIDADE REGIONAL Na reestruturação produtiva e espacial em curso no Vale do Paraíba fluminense, com a reindustrialização e dispersão urbana, os empreendimentos industriais funcionam como catalisadores do processo de ocupação e organização do território regional, como observado anteriormente. Essas indústrias, por atraírem mão de obra qualificada e com salários mais elevados, característicos da atividade industrial, 31 Nesse campus está instalada a Faculdade de Tecnologia (FAT) e são oferecidos os cursos de graduação e pósgraduação em Engenharia de Produção, de acordo com a crescente instalação de indústrias no Vale do Paraíba fluminense. 32 O Polo Universitário de Volta Redonda da UFF possui três unidades: Instituto de Ciências Humanas e Sociais; Escola de Engenharia Industrial e Metalúrgica; Instituto de Ciências Exatas. Nessas unidades são oferecidos curso de graduação em diferentes áreas da Engenharia, além de Física, Matemática, Química, Administração, Ciências Contábeis, Direito e Psicologia; e de pós-graduação em Engenharia Metalúrgica, Modelagem Computacional e Administração. 33 A maioria dos cursos das universidades particulares são noturnos, muito frequentados por trabalhadores industriais, facilmente perceptíveis pelos uniformes de trabalho. 70 possuem o efeito de atração e multiplicação das atividades comerciais, de serviços e residenciais na microrregião, gerando, inclusive, novas centralidades. Essas atividades também são articuladas pela lógica do espaço de fluxos e apresentam características do processo de dispersão urbana. Dessa forma, a reestruturação produtiva da região levou ao aumento da demanda por casas e apartamentos, melhores restaurantes, comércios e serviços espalhados pelo território regional, como shopping centers, hipermercados, hotéis para executivos, centros empresariais e educacionais. Com isso, são gerados também novos empregos nos setores da construção civil e de serviços, inclusive em atividades turísticas. No entanto, os trabalhadores menos qualificados da região são subcontratados ou estão em atividades que não necessitam de especialização. Os novos equipamentos urbanos localizam-se principalmente nas cidades médias, ao longo das redes, em vias e linhas conectoras dos espaços de fluxos, como a Rodovia Presidente Dutra e os acessos viários aos municípios. Eles estão voltados tanto para o atendimento aos moradores do município-sede, quanto aos da região e aos que estão de passagem, com implantações desarticuladas do tecido urbano tradicional (espaço intraurbano). Em Volta Redonda, cidade média mais populosa da microrregião, esses equipamentos foram instalados na área de expansão urbana ao sul de seu território, em seu principal acesso viário (Rodovia dos Metalúrgicos). Há três hipermercados, além de condomínios e loteamentos. Recentemente foi anunciada a construção do Shopping Park Sul, empreendimento comercial de grande porte com múltiplos usos. Esse município já conta com o Sider Shopping (1989), shopping de médio porte localizado na Vila Santa Cecília (antiga Vila Operária da CSN). Em Resende, foi instalado no entroncamento entre a Via Dutra e o principal acesso viário ao município um hipermercado (Spani, 2008) e posteriormente construído o shopping center da rede fluminense PátioMix (2011), de médio porte e com usos múltiplos. Eles formam conjuntamente uma centralidade comercial. A empresa francesa Accor anunciou em 2013 a construção na microrregião de quatro hotéis da bandeira Ibis, rede hoteleira de baixo custo já presente em São Paulo e no Vale do Paraíba paulista. Esses empreendimentos serão construídos nas cidade 71 médias, junto à Rodovia Presidente Dutra ou em acessos viários, o que ajudará a suprir a carência de hotéis na região. Além desses, há diferentes equipamentos urbanos dispersos, como o Hospital da Unimed (2009) em Volta Redonda, que tem médio porte e alta complexidade de atendimentos, e o Hospital Regional do Médio Paraíba, localizado no entroncamento da Via Dutra com o acesso à cidade. Esse hospital está sendo edificado pelo município (com recursos estaduais) e será de alta complexidade, atendendo aos12 municípios (âmbito maior que o da microrregião) que formam o Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paraíba (CISMEPA). Com isso, pretende-se diminuir a lotação dos hospitais existentes no espaço intraurbano de Volta Redonda. Também em Volta Redonda está prevista a construção do Aeroporto Regional do Vale do Aço, articulado com o novo terminal rodoviário interestadual e tendo acesso à Via Dutra. Em Resende, a partir da reindustrialização, teve início uma forte expansão urbana no oeste do município. Surgiram uma série de loteamentos com casas autoconstruídas e conjuntos habitacionais para as classes de renda média-baixa e baixa, na região conhecida como “Grande Alegria”. As áreas de dispersão urbana de baixa renda no oeste desse município estão, em sua maioria, em terrenos planos, enquanto os loteamentos e condomínios voltados para a atendimento das faixas de renda média-alta e alta localizam-se, em grande parte, nas franjas dessas áreas, nas encostas dos morros. Em 2008 foi terminada uma ponte sobre o rio Paraíba do Sul, criando um novo acesso direto à cidade –Acesso Oeste. Com essa conexão direta à Via Dutra e a presença da siderúrgica, a zona oeste do município foi ainda mais ampliada, num processo de dispersão urbana com uso predominantemente residencial, repetindo a malha urbana típica de áreas residenciais. Não há articulação direta do tecido dessa área com o espaço intraurbano do centro da cidade. A contínua expansão urbana no vetor oeste pode, no futuro, levar à conurbação de Resendecom Itatiaia. Os projetos habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida em Volta Redonda e Resende também estão sendo implantados com formas urbanas dispersas, localizados nos extremos dos territórios municipais, próximos às estradas regionais. Recentemente houve o aumento na implantação de loteamentos e condomínios fechados de médio e grande porte em Resende e Volta Redonda, muitos com serviços, 72 clubes de lazer e atividades esportivas.Esses são utilizados como primeira residência e apresentam características que lembram as gated communities norte-americanas. Nessas cidades médias foram instalados os condomínios fechados da “grife” imobiliária Alphaville, com os lotes residenciais e comerciais rapidamente vendidos. No tecido urbano consolidado das cidades médias de Volta Redonda, Resende e, em menor proporção em Barra Mansa, como também nas bordas do espaço intraurbano, está ocorrendo uma intensa verticalização. Os lançamentos imobiliários ocorrem tanto por construtoras locais, quanto pelas de grande porte com atuação nacional, vindas de fora da região. As múltiplas atividades urbanas dispersas pela microrregião são induzidas e estruturadas a partir da Rodovia Presidente Dutra e de seus entroncamentos viários e estradas que dão acesso ao tecido urbano dos municípios. Isso tem levado amodos de vida de grande mobilidade, com características regionais e semelhantes aos existentes nas metrópoles. As relações sociais e os modos de vida, antes organizados basicamente no interior das cidades, tornaram-se dispersos e estruturados regionalmente, orientados de acordo com os interesses globais das novas indústrias, que são estranhas aos elementos preexistentes na microrregião. Para a maioria dos habitantes tornou-se comum morarem num município, trabalharem em outro e estudarem ou se divertirem em um terceiro. No entanto, a localização e acessibilidade dos equipamentos urbanos dispersos e, principalmente, das áreas residenciais dispersas, interferem na qualidade de vida da população. A mobilidade dos mais ricos e a imobilidade dos pobres afeta diretamente os modos de vida e as possibilidades de trabalho e renda (SPÓSITO, 2007). As dinâmicas urbanas e regionais, assim como as formas urbanas, tornaram-se mais complexas, intensificando as inter-relações entre distintas escalas espaciais, internas e externas ao Vale do Paraíba fluminense: intraurbana, regional e extrarregional. A Rodovia Presidente Dutra possui cada vez mais características de via urbana no trecho que atravessa a região, com congestionamentos entre Volta Redonda e Resende durante a semana, pela manhã e no final da tarde (horários de rush), coincidentes com a entrada e saída da maioria dos empregados das indústrias dispersas. Em grande parte desse trecho não há vias marginais, o que faz somar o tráfego rodoviário pesado, principalmente de grandes caminhões, com o urbano. Ao mesmo 73 tempo que a Via Dutra serve ao tráfego urbano-regional, ela é utilizada como principal meio de conexão entre as regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Além do intenso fluxo da Via Dutra, destaca-se a forte movimentação nas rodovias: Lúcio Meira (BR-393) entre Três Rios, na divisa dos estados do Rio e Minas Gerais, e os municípios de Volta Redonda e Barra Mansa, principalmente de cargas; dos Metalúrgicos (VR-001), com o trânsito urbano. Nesta última rodovia, há um grande fluxo de veículos entre o tecido intraurbano de Volta Redonda e os empreendimentos comerciais dispersos. Os limites da dispersão urbana nessa microrregião são definidos pelas distâncias a serem percorridas facilmente pelos automóveis e ônibus fretados, semelhante ao observado por Robert Fishman (1987) em Los Angeles e por Reis (2006) em São Paulo. As divisões político-administrativas dos municípios não são definidoras da dispersão, tendo-se como únicos limitadores a Serra das Araras, a sudeste dessa região, e o pedágio na Via Dutra, a oeste em Itatiaia, próximo à divisa com o Estado de São Paulo34. A reestruturação produtiva e espacial, com a reindustrialização em curso no Vale do Paraíba fluminense, vem provocando transformações nas relações sociais e econômicas, alterando a matriz de desenvolvimento dos municípios da microrregião. Isso pode ser comprovado a partir da análise do Produto Interno Bruto (PIB) da região e dos seus municípios. A partir do estudo do PIB do Vale do Paraíba fluminense no período entre os anos de 1999 e 2010, observou-se que ocorreu uma transição na atividade preponderante, com a maior concentração do PIB nas atividades de comércio e serviços (incluindo a administração pública), seguido pela indústria, que dominava anteriormente. O PIB da região em 2010 foi de 26,66 bilhões de reais, com 44,09% referente ao comércio e serviços e 41,68% à indústria. Examinando os números de 2010 relativos aos municípios da microrregião, percebeu-se que o PIB regional é bastante desigual, com as cidades médias de Volta Redonda concentrando 34,4% e Resende 24%, seguido por Porto Real com 18%, que está à frente de Barra Mansa com 12%. Estes quatro municípios concentram a maior 34 Esse pedágio, alvo de contenda judicial, não é tarifado para os veículos emplacados em Resende, já que separa o centro desse município do seu distrito de Engenheiro Passos. 74 parte do PIB regional, com os outros cinco municípios somados representando apenas 11,4% da microrregião. O crescimento desses quatro municípios ocorreu em ritmos diferentes, com alterações na composição desse indicador da atividade econômica. No período 19992010, nas cidades médias de Volta Redonda e Barra Mansa o PIB das atividades de comércio e serviços ultrapassou o industrial. Os dados de 2010 confirmam essa tendência: Volta Redonda com 46,8% do seu PIB nas atividades de comércio e serviços, incluindo a administração pública, e Barra Mansa com 63%35. Já Resende e Porto Real têm seu PIB concentrado na indústria, respectivamente com 52,3% e 49,6%. Os dados apresentados comprovam não a desindustrialização das cidades médias que,no passado, concentravam as indústrias – Volta Redonda e Barra Mansa, antigas centralizadoras da polarização regional –, mas sim, a transformação dessas em polos de comércio e serviços, com a implantação de atividades dispersas. Volta Redonda continua na liderança do PIB da região, por ter maior diversidade de atividades econômicas e maior população. Este município abriga a planta principal da CSN, maior indústria da microrregião, que, além de ampliar a produção, instalou no interior de sua planta industrial uma fábrica de cimento (2009) para aproveitar a escória siderúrgica e recentemente inaugurou uma instalação para a fabricação de aços longos (2014). A manutenção do desenvolvimento dessa cidade média pode ser confirmada pelos números absolutos de 2010 – o PIB industrial de Volta Redonda foi de 3,53 bilhões de reais, enquanto o de Resende foi menor, com 3,35 bilhões, apesar desse último município ter mais da metade do seu PIB na atividade industrial. Ao mesmo tempo que a microrregião se reindustrializa nesses municípios, incluindo ainda Itatiaia, o comércio e os serviços mais desenvolvidos da microrregião (com maior valor agregado) concentram-se em Volta Redonda. Esta cidade média possui atividades especializadas – centros médicos, universidades, comércio de maior padrão –, atraindo moradores das demais cidades e reforçando o seu caráter de polo regional. 4: CONSIDERAÇÕES FINAIS 35 Mesmo sem contar com a administração pública, o PIB de comércio e serviços desses municípios é maior que o da atividade industrial. 75 Hoje, o Vale do Paraíba fluminense apresenta-se com um conjunto de novas realidades, evidenciando profundas transformações em seus processos sociais. A microrregião caracteriza-se por um novo desenvolvimento econômico-regional e por formas urbanas dispersas, alterando-se a configuração e a escala dos espaços urbanos, com modos cotidianos que se desenvolvem regionalmente. As transformações provenientes da reestruturação produtiva e espacial foram acompanhadas pelo aumento da renda nas cidades que receberam as novas indústrias, mudando-se o perfil dos municípios dessa microrregião. O maior percentual do PIB industrial em Resende e Porto Real demonstra o processo de reindustrialização do Vale do Paraíba fluminense. Os dados apresentados comprovam a reestruturação produtiva da microrregião e as consequentes alterações nas relações econômicas e sociais, que são rebatidas no espaço regional. A reindustrialização dessa microrregião fluminense, iniciada nos anos 19902000, é parte do processo de desconcentração-concentrada da indústria, antes muito concentrada na Região Metropolitana de São Paulo. As indústrias do Vale do Paraíba fluminense possuem estreitas relações com a metrópole paulista e com o capital internacional, como observado anteriormente. No entanto, a reindustrialização dessa microrregião ocorre somente duas décadas depois de iniciada no estado paulista. No trabalho foi evidenciada a conformação e o desenvolvimento do processo de dispersão urbana na microrregião, que ocorre de maneira crescente e abrange as atividades industriais – origem da dispersão –, como também as demais atividades urbanas. Elas são articuladas pela lógica do espaço de fluxos e suas formas urbanas estão dispersas no território regional. Nessa lógica, as hierarquias territoriais e do trabalho podem ser transformadas rapidamente, conforme determinados setores industriais expandem-se mundialmente ou a concorrência entre empresas é intensificada. Essa mesma lógica leva à estruturação de uma hierarquia da inovação e da produção, que são articuladas em redes globais, na qual as indústrias desta região estão inseridas. No entanto, é preciso chamar a atenção para a possibilidade oposta, de retração industrial, que pode acontecer devido às oscilações econômicas, políticas e normativas, tendo como efeito o enfraquecimento de toda a microrregião. 76 As antigas formas urbanas e modos de vida do período industrial fordista, que eram muito presentes na microrregião, modificaram-se com a reestruturação produtiva e espacial, com formas urbanas dispersas e modos de vida que passam a ocorrer na escala regional. A proximidade relativa das formas urbanas concentradas e dispersas na microrregião, essas últimas representativas do período de desenvolvimento atual – pósfordista –, estabelece um forte contraste que torna evidente e denuncia as novas formas de urbanização e industrialização, como também os processos sociais envolvidos. Observa-se que, simultaneamente ao surgimento das novas indústrias, implantadas com formas dispersas, e ao crescente cotidiano regional, o antigo centro polarizador fordista – concentrado na CSN e na conurbação das cidades médias de Volta Redonda e Barra Mansa – foi sendo deixado em segundo plano. Estes municípios passam a receber, em grande parte, os benefícios indiretos e os ônus dessa nova onda de industrialização na microrregião. O município “vencedor” da competição por um determinado empreendimento, como uma grande indústria, recebe os benefícios sociais e econômicos, além do eventual “bônus” político para o administrador que conseguiu o investimento. Contudo, os ônus do novo empreendimento são distribuídos por toda a região e, especialmente, para as cidades médias, pois os trabalhadores – ao terem modos de vida regionais –, vão morar, utilizar a infraestrutura e os equipamentos urbanos principalmente desses municípios. Há cada vez mais uma relação de interdependência entre os municípios da microrregião, que vem ampliando-se ao longo dos anos, mesmo não existindo quase nenhuma articulação institucional entre eles36. Essa interdependênciaé reconhecida pelos gestores municipais, como foi observado por Oliveira (2008). A falta de entendimento entre os municípios dessa região não permite a elaboração de um planejamento regional. As cidades médias de Volta Redonda e Barra Mansa, que são conurbadas, elaboraram seus Planos Diretores de Desenvolvimento Urbano no mesmo período de tempo (em 2006), e ainda assim não houve nenhuma iniciativa formal no sentido de planejar conjuntamente seus territórios e continuidades urbanas. 36 As únicas articulações regionais existentes são: Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paraíba (CISMEPA), criado em 1998 e formado por 12 municípios da região (já mencionado); Consórcio Intermunicipal de Segurança com Cidadania do Médio Vale do Paraíba (CISEGCI), composto por 13 municípios; Comitê da Bacia Hidrográfica do Médio Paraíba do Sul (CBH-MPS), composto pelos municípios e empresas que englobam o terço médio fluminense do Rio Paraíba do Sul. 77 Sem o planejamento urbano e regional, abrem-se lacunas para a ação do mercado imobiliário. Valendo-se das fragilidades institucionais, os promotores imobiliários atuam como planejadores privados, promovendo a dispersão urbana. Este processo é estruturado numa escala mais ampla do que a do território municipal. REFERÊNCIAS AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994. BENTES, Júlio Cláudio da Gama. Dispersão Urbana no Médio Paraíba Fluminense. 2014. 431 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo), USP/FAU, São Paulo,2014. ______. Análise Ambiental-Urbana da Conurbação Volta Redonda-Barra Mansa, no Sul Fluminense-RJ. 2008. 275 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo), UFF/PPGAU, Niterói, 2008. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede.São Paulo: Paz e Terra, 2012. ______.; HALL, Peter. Tecnópolis del Mundo: La formación de los complejos industriales del siglo XXI. Madri: Alianza Editorial, 2001. FISHMAN, Robert. Bourgeois Utopias. The rise ande fall of suburbia. Nova York: Basic Books, 1987. LIMA, Raphael Jonathas da Costa. Empresariado local, indústria automobilística e a construção de Porto Real (RJ). 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Partindo desta premissa, o presente trabalho tem como objetivo analisar como esse processo tem ocorrido em Mossoró/RN, tendo em vista seus efeitos no setor industrial do município. Os procedimentos metodológicos adotados incluema realização de pesquisa bibliográfica, assim como a coleta e análise de dados secundários em órgãos como IBGE e FIERN, os quais serão apresentados na forma de gráficos, quadros e cartogramas. As análises realizadas revelam que se destacam em Mossoró os ramos da indústria vinculados a atividade extrativa (petróleo e sal marinho) e da indústria de transformação, de modo particular o setor de alimentos. A dinamização destes ramos tem corroborado para aumento da interação espacial de Mossoró com outros lugares para além dos limites do RN. Palavras-Chave: Mossoró/RN. Reestruturação Produtiva. Indústria. 1. INTRODUÇÃO Nas últimas décadas do século XX o município de Mossoró passou por várias transformações, dentre as quais se destacam o crescimento acelerado de sua população e 37 Estudante de graduação em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Faz parte do Grupo de Pesquisa Unidade Interdisciplinar de Estudos Sobre a Habitação eEspaço Construído. Este trabalho resulta do desenvolvimento do Programa de Cooperação Acadêmica PROCAD/CASADINHO (UFRN/FCT-UNESP-Presidente Prudente/SP) “A reestruturação produtiva e a dinâmica urbano-regional do Rio Grande do Norte (1990-2010)”, a partir do qual foi elaborado o projeto de pesquisa intitulado: O Desenvolvimento Industrial do Rio Grande Do Norte no Contexto da Reestruturação Produtiva Entre 1990 e 2010. E tem como orientador o Professor Dr. Francisco Fransualdo de Azevedo. 80 a intensificação do processo de urbanização, decorrentes em parte do surgimento de novas atividades econômicas e modernização de outras, que demandaram por sua vez investimentos em infraestruturas e deram novos usos ao território. Nesse sentido, Santos e Silveira (2004, p. 21) observam que “O uso do território pode ser definido pela implantação de infraestruturas, para as quais estamos igualmente utilizando a denominação de sistemas de engenharia, mas também pelo dinamismo da economia e da sociedade.” Dessa forma, destaca-se neste trabalho a importância de compreender os novos usos do território, no contexto do processo de reestruturação produtiva e seus rebatimentos no setor industrial em Mossoró. A partir da coleta de dados secundários e pesquisa bibliográfica ficou evidente que a atividade industrial, especialmente a indústria extrativa é de significativa importância para a economia do referido município, e as mudanças pelas quais têm passado decorrentes do processo de reestruturação produtiva provocaram transformações na configuração do território, na medida em que estimularam a criação de materialidades, muitas delas construídas diretamente pelo Estado, para atender as demandas e exigências impostas pelas atividades econômicas modernas. Mossoró localiza-se no oeste do estado do Rio Grande do Norte (RN) entre as capitais Natal e Fortaleza. Em 2010 sua população era de 259.815 pessoas, das quais 91,31% residiam em área urbana. Em 2012, Mossoró apresentava um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 4.493.958.000,00, equivalente a 11,36% do total do RN. Considerando-se apenas o setor industrial o valor chega a R$ 1.490.121.000,00 equivalente 18,6% da produção industrial do RN, sendo inferior apenas ao registrado pela capital do estado, Natal. (IBGE, 2014). As principais atividades econômicas desenvolvidas em Mossoró estão relacionadas à indústria extrativa (sal marinho e petróleo) além da fruticultura irrigada(Rocha 2005; Elias e Pequeno 2010). Este trabalho se delimita apenas ao setor industrial, compreendendo tanto a atividade extrativa quanto a Indústria de Transformação. Os procedimentos metodológicos utilizados incluem pesquisa bibliográfica, coleta e análise de dados secundários em órgãos como o IBGE e a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN). Os dados coletados junto a FIERN integram o Cadastro Industrial do estado do Rio Grande do Norte (FIERN, 2014), que está em constante atualização, onde 81 se encontram informações a respeito da distribuição dos estabelecimentos industriais e número de empregos por estabelecimento a nível municipal, bem como o endereço e telefone de cada estabelecimento. Os dados serão apresentados em forma de quadros, gráficos e cartogramas. Inicialmente discutiremos a respeito do processo de reestruturação produtiva: como ele tem afetado a indústria extrativa, contribuindo para a instalação de novas materialidades em Mossoró ao estabelecer novas dinâmicas territoriais. Posteriormente discutiremos como esse processo contribuiu para a formação de uma recente indústria da transformação baseada principalmente no setor de alimentos, terminando o texto com breves considerações finais. 2: REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E INDÚSTRIA: A INSERÇÃO DE MOSSORÓ NA ECONOMIA GLOBAL No início do século XX Mossoró tinha como principal atividade econômica a extração de sal marinho, além de setores relacionados ao beneficiamento de gêneros agrícolas, dentre os quais se destacavam a cera de carnaúba e o algodão arbóreo (Elias e Pequeno, 2010, p.110). No final do mesmo século Mossoró passou por várias transformações em sua estrutura econômica, com o fim de algumas dessas atividades (o cultivo e beneficiamento do algodão para a fabricação de óleo, por exemplo) e a modernização de outras como a extração de sal e o surgimento de novos segmentos relacionados à exploração de petróleo e gás natural e a fruticultura irrigada. Pode-se dizer que tais mudanças ocorrem sobre a égide da expansão do sistema capitalista, contexto nos quais diversos lugares tem se articulado ao sistema produtivo global conforme explicitado por Bomtempo (2011, p. 54) “Na atual fase do capitalismo, presenciamos a expansão do capital, sobretudo dos grandes grupos empresarias, na escala global. Esse processo redefine o papel desempenhado pelos lugares, até então articulados à escala local e regional. A instalação de novos equipamentos vinculados à economia mundo permite aos lugares a ampliação de papéis, tanto na divisão territorial do trabalho, como também na rede urbana em que está inserido e que mantém relações.” 82 Nesse contexto, com o surgimento da indústria extrativa, Mossoró amplia sua escala de articulação, anteriormente restrita ao local e regional para a nacional e mesmo internacional. Com isso tem-se como exemplo o sal marinho produzido no município que chegas às indústrias química e de alimentos da região Sudeste e que também é exportado para outros países; máquinas e equipamentos importados de outras áreas do Brasil e do Mundo para a exploração do petróleo; e fora do setor extrativo é exemplo a exportação de frutas tropicais, principalmente o melão e a castanha de caju. Exemplo do aumento dessa articulação que ultrapassa as escalas local e regional pode ser observado no gráfico 1, que apresenta a evolução da exportação e importação de produtos atribuída a Mossoró. Se no ano 2000 a exportação foi inferior a US$ FOB 40 milhões, a partir de 2009 esses valores estão em torno de US$ FOB 80 milhões (embora entre 2005-2008 aproximaram-se ou mesmo ultrapassaram os US$ FOB 100 milhões). Já a importação que não chegou a US$ FOB 10 milhões em 2000 estava em torno de US$ FOB 30 milhões em 2013(MDIC, 2014). O melão se destaca como principal produto exportado em quase todos os anos analisados, mas também é significativo à comercialização da castanha de caju e produtos da atividade extrativa mineral como o sal marinho. Os principais destinos das exportações são Estados Unidos e União Europeia (principalmente Holanda), que absorvem mais de 80% do valor exportado (melão e castanha de caju) seguidos pela Nigéria na África (importa sal marinho) (MDIC, 2014). Dentre os principais produtos importados no período estão: caixas de papel, polietileno, polipropileno e milho. Quanto à origem das importações totais destacamos os Estados Unidos, Argentina, Espanha, Itália, Índia, China e Reino Unido. (MDIC, 2014). Gráfico 1: Mossoró - Evolução da Exportação e Importação - 2000 – 2013 (US$ FOB). 83 É importante lembrar que no Rio Grande do Norte (RN) e especificamente em Mossoró tais mudanças se deram com a atuação direta do Estado na medida em que este foi responsável por dotar o território de infraestruturas tais como portos, melhoramento de rodovias e infraestrutura hídrica (barragens, açudes, perímetros irrigados), de modo que possibilitou acelerar a circulação de fluxos dando novos usos ao território. De acordo com a FIERN (2014) o pessoal ocupado no setor industrial do Rio Grande do Norte em 2012 chegava a 292.000 pessoas, equivalente a 20,3% da população economicamente ativa do estado. Com base nos dados referentes ao número de empregados e estabelecimentos industriais no RN para 2014, observa-se que os setores mais significativos do estado estão relacionados à indústria extrativa e também aos chamados ramos tradicionais da indústria de transformação: alimentos, bebidas, têxtil, artigos de vestuário e de acessórios. Em 2014 a atividade extrativa mineral e a indústria de transformação empregaram formalmente em Mossoró 12.868 pessoas distribuídas 652 estabelecimentos industriais (FIERN, 2014). No que se refere à indústria extrativa estavam sediados no município 33,56% dos estabelecimentos (99) e 47,4% dos empregos (6.669) em relação ao total do RN (cartograma 1). Dentro desse grupo a extração de petróleo e gás natural e atividades de apoio à extração concentravam em Mossoró 36 estabelecimentos (62,07% do total do RN) e 5.036 empregados (73,38%). Em relação à extração e refino de sal marinho eram 55 estabelecimentos (49,11%) e 1.522 funcionários (35,3%) (FIERN, 2014). 84 Cartograma 1: Número de Estabelecimentos e Empregados da Indústria Extrativa Por Município do Rio Grande do Norte (2014). No entanto, até os anos 1960 a exploração de petróleo não estava estabelecida em Mossoró e a extração de sal era uma atividade artesanal. Sendo assim, veremos a seguir como essas atividades se desenvolveram. 2.1. A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E A EXTRAÇÃO DE SAL EM MOSSORÓ Comumente a atividade salineira tem sido desenvolvida em áreas nas quais os elementos geoambientais, dentre os quais se destacam o clima e o relevo, favorecem a ocorrência de elevadas taxas de evaporação, condição essencial para a produção do sal marinho. Em Mossoró a ocorrência e dinamização desta atividade, possui estreita relação com a ocorrência do clima semiárido, o qual se caracteriza dentre outros fatores pelos baixos índices de umidade do ar e precipitação pluviométrica, associadas às altas temperaturas durante todo o ano, além de relevo plano e sujeito a ação das marés nas margens dos rios Carmo e Mossoró (ROCHA, 2005). 85 A exploração do mineral tem início em meados do século XVIII associado às oficinas de carne seca, na medida em que o sal possibilitava a conservação dos alimentos (FELIPE, et al, 2010). Segundo os autores citados, com a comercialização da carne seca para Paraíba, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, também torna-se viável economicamente a exportação do sal in natura (enviado nas mesmas barcaças que a carne seca, barateando consideravelmente o preço do frete) para outras regiões da Colônia. No entanto, como o sal extraído do RN tornou-se mais competitivo em relação ao preço do que o produzido por Portugal, este proibiu a comercialização do sal coletado no RN para outras regiões da Colônia(FELIPE, et al, 2010). Além disso, os autores destacam que o estabelecimento das charqueadas no Rio Grande do Sul, associado à proibição das oficinas de carne seca no RN levou consequentemente a diminuição do consumo do mineral. Com isso, de meados da década de 1790 até 1802, o sal coletado no RN abasteceu somente o mercado local ganhando novo impulso a partir desse último ano devido ao fim do monopólio do sal pela metrópole a abertura dos portos em 1808 (FELIPE, et al, 2010). Para Maia (2011, p. 32) “as indústrias salineiras do estado do RN sucedem o período colonial”, uma vez que o mineral “não era produzido, mas apanhado” (CARVALHO JÚNIOR, 1982, apud MAIA, 2011, p. 31). Nesse sentido, ressalta-se que do início do século XIX até meados dos anos 1960 a extração do sal no RN praticamente não passou por grandes mudanças técnicas, caracterizando-se como uma atividade artesanal, na qual eram empregadas poucas ferramentas como a pá, enxada e carro-de-mão (Maia, 2011). Azevedo (2013, p. 114) entende a reestruturação produtiva como: “um conjunto de transformações de caráter estrutural, organizacional e técnico, fazendo-se refletir no espaço geográfico em sua totalidade. Tais transformações se articulam e se configuram como alternativas de superação das crises cíclicas do sistema capitalista para a ampliação/reprodução do próprio capital, afetando sobretudo o mundo do trabalho, com contornos muito bem definidos, especialmente nos países subdesenvolvidos, onde o Estado do bem-estar-social ainda apresenta sérios problemas, limites e vulnerabilidades.” Nesse sentido, a partir da segunda metade do século XX a produção de sal em Mossoró passa por um processo de modernização, no contexto do processo de 86 industrialização do país, o qual acentuou-se, sobretudo na região Sudeste. O crescimento das indústrias química e de alimentos demandava aumento na produção de sal, o que levou ao Brasil a importar o produto (ROCHA, 2005). A mecanização da produção de sal em Mossoró permitiu o aumento da produtividade e consequentemente da quantidade produzida, que possibilitou reduzir a importação. Com a produção mecanizada, a restruturação do setor salineiro resultou em grande número de demissões, e concentração econômica, na medida em que as pequenas empresas deram lugar a grandes corporações de capital nacional e também internacional. Além disso, tal modernização foi resultado da ação do Estado uma vez foi em parte financiada com recursos da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE (ELIAS; PEQUENO, 2010). Exemplo do processo de concentração econômica pode ser observado no quadro 1 em que apresenta-se as 10 maiores empresas em relação ao número de empregos do setor de extração de sal marinho em Mossoró. Elas respondiam por 68,2% do número de empregados na indústria salineira do município, ao passo que outras 11 empresas não registraram empregos formais e outras 12 tinham entre 1 e 5 funcionários (FIERN, 2014). Em relação a produção, apenas a empresa Salinor responde por 45% do sal produzindo no país. A empresa possui dois estabelecimentos em Mossoró com capacidade de produção de 1,3 milhões de toneladas de sal por ano e outro estabelecimento no município de Macau, cuja capacidade é de 1 milhão de toneladas de sal (SALINOR, 2014). Quadro 1: Maiores Empresas de Extração e Refino de Sal Marinho em Relação ao número de Empregados - Mossoró (2014). EMPRESA 1 N ° DE EMPREGOS FORMAIS SALINOR – SALINAS DO NORDESTE S.A 310 CIMSAL COM E IND DE MOAGEM E REFINAÇÃO STA 2 CECÍLIA LTDA 3 SOCEL SOCIEDADE OESTE LTDA 100 REFIMOSAL REFINAÇÃO E MOAGEM DE SAL SANTA 4 HELENA LTDA. REFINORTE - REFINARIA DE SAL DUNORTE INDUSTRIA& 5 COMERCIO LTDA 6 R DE HOLANDA TERCEIRO 179 81 72 66 87 7 L PRAXEDES GOMES 59 8 R DE HOLANDA NETO 58 9 PROSSAL SALINAS POTIGUAR LTDA 57 10 SALINEIRA SÃO CAMILO LTDA - 56 TOTAL 1.038 Fonte: Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte – FIERN, 2014. A reestruturação não se limitou apenas ao processo produtivo, mas exigiu a construção de novas materialidades de modo a permitir o aumento do fluxo de sal. Nesse sentido dá-se a construção do Porto Ilha de Areia Branca (imagem 1) em alto mar, exclusivamente voltado para o escoamento do sal, e que atende a produção de vários municípios produtores no litoral noroeste do RN (MAIA, 2011). Imagem 1: Porto Ilha de Areia Branca Fonte: Construmac, 2010. De acordo com a Companhia Docas do Rio Grande do Norte (CODERN, 2014), o embarque de sal no porto apresentou variação de aproximadamente 1 a 1,9 milhões de toneladas entre 2008 e 2013. Segundo ROCHA (2005), o porto ilha de Areia Branca recebe principalmente a produção salineira de municípios como Areia Branca, Grossos e Porto do Mangue. Enquanto o escoamento do sal produzido em Mossoró é realizado principalmente por modal rodoviário. No entanto, também são registrado embarques de sal provenientes de Mossoró conforme dados da CODERN (2014), assim como parte da produção de outros municípios é refinada e vendida em Mossoró (GOMES, 2005), o que 88 evidencia como essa atividade articula diversos municípios do RN a outras áreas do Brasil e do mundo. Se por um lado, a reestruturação da produção salineira contribuiu para estabelecer novas interações espaciais, em contrapartida provocou mudanças dentro da própria cidade levando a transferência dos estabelecimentos de refino do sal, antes localizados no centro para as margens das rodovias, conforme observa Gomes (2005): “houve também o descarte de formas edificáveis que estavam, na cidade, a serviço da salinicultura. Grandes depósitos de armazéns abrigavam o sal e seu exército de empregados. Esses depósitos e armazéns foram erguidos principalmente nos bairros ‘Alto da Conceição’, ‘Doze Anos’ e ‘Centro’ [...] Somado a isto, o solo urbano havia se valorizado, tornava-se antieconômico manter essas construções, pois ofertas de compra eram feitas aos seus proprietários, a fim de esses armazéns darem lugar a novas formas e outros conteúdos, pois as funções que desempenhavam não requisitavam mais aquele espaço. Alguns prédios foram totalmente destruídos, outros apenas preservaram a imponente fachada, quando assim a nova função exigia para impressionar. Em seu lugar surgiram: shoppings, lojas, restaurantes, agências bancárias etc. (p. 80, grifo nosso).” Elias e Pequeno (2010) salientam as tensões sociais resultantes do desemprego provocado pela mecanização da extração de sal marinho. Para os autores anteriormente mencionados, o grande número de desempregos do setor foi em parte absorvido pela construção civil, tendo em vista que a atividade estava em crescimento na cidade em função dos projetos de habitação graças aos recursos disponibilizados pelo Sistema Financeiro de Habitação (SFH). Além da ação do Estado, o crescimento da construção civil também estava atrelado a uma série de fatores dentre os quais destacamos a instalação de outra moderna indústria extrativa, desta vez associada à extração de petróleo e gás natural. 2.2. A EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO EM MOSSORÓ/RN NO CONTEXTO DA REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA A extração e petróleo e gás natural tem início no RN em meados da década de 1970 com a produção em mar e posteriormente em terra (ALVES, 2012). Atualmente o mineral é extraído em 15 municípios localizados no oeste do estado e no litoral norte. A 89 produção é realizada pela empresa Petróleo Brasileiro S/A (PETROBRÁS) que possui três subunidades administrativas no RN nos municípios de Natal, Alto do Rodrigues e Mossoró. Neste último a subunidade é responsável pela extração nos municípios de Mossoró, Serra do Mel, Areia Branca, Felipe Guerra, Gov. Dix-Sept Rosado, Caraúbas, Upanema e Apodi. (PETROBRÁS 2012, apud ALVES 2012, p.138). A extração de petróleo no estado pode ser entendida no contexto da reestruturação produtiva em curso a nível mundial, na medida em que se sabia da existência do mineral no RN desde os anos 1950 (ALVES, 2012). Nesse sentido, a mudança na conjuntura internacional com os chamados choques do petróleo na década de 1970 levando ao aumento do preço do produto tornou viável economicamente a extração do mineral no RN. A extração do produto se tornou possível graças ao desenvolvimento tecnológico do setor que possibilitou a extração no mar. A respeito de como esse processo se deu no estado atrelado a indústria petrolífera, Alves (2012, p. 8) observa: “A atividade petrolífera implantou-se no território norte-rio-grandense em um momento marcado pela reestruturação produtiva de diversos segmentos econômicos. O setor petrolífero passou a atuar cada vez mais atrelado às bases científicas e informacionais, tendo em vista o aumento da produtividade. A presença desse circuito demandou ao território, mais especificamente a Mossoró, uma diversa estrutura organizacional que ocorre desde o vasto sistema nacionalmente integrado de corporações comerciais privadas até as pequenas empresas, todas elas relacionando-se diretamente ou indiretamente com a PETROBRAS. Os fluxos entre empresas, cujas sedes localizam-se em estados e mesmo países distantes, têm gerado um movimento contínuo de produtos, pessoas, informações e ideias, o que vem provocando também novas materialidades no território.” Concomitantemente a instalação da Petrobrás em Mossoró, diversas empresas, nacionais e estrangeiras prestadoras de serviços associado à atividade petrolífera também chegam ao município. Assim sendo, para Elias e Pequeno (2010, p.115) “O crescimento e a diversificação das atividades econômicas, cada vez mais presentes nos espaços organizados por Mossoró, reforçam sua condição como cidade média, a qual passa a promover no espaço intraurbano o surgimento de processos que evidenciam o acirramento das desigualdades socioespaciais.” 90 Dentre as características do processo de reestruturação produtiva Bomtempo (2011) destaca mudanças relacionadas ao trabalho com a adoção de estratégia das empresas como as subcontratações e terceirizações. Em Mossoró, isso se reflete na terceirização de atividades associadas à perfuração de poços, transporte, levantamentos geofísicos, etc. (RAPPEL, 2007, Apud ALVES, 2011). Com isso, apesar de comandar a extração de petróleo no RN a Petrobrás não é a maior empregadora (quadro 2) e grande parte dos empregos formais criados no município estão relacionados a atividades de apoio à extração de petróleo, como pode ser percebido analisando dos dados fornecidos pela FIERN (2014). Quadro 2: Mossoró: Maiores Empresas Relacionadas a Extração e Atividades de Apoio a Extração de Petróleo Considerando-se o Número de Empregos Formais (2014) N ° DE EMPREGOS EMPRESA EMPERCOM 1 FORMAIS EMPRESA DE MONTAGEM E SERVICOS GERAIS 1096 LTDA 2 3 PETROLEO BRASILEIRO S A 916 PETROBRAS CLASSIFICAÇÃO EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL ATIVIDADES DE APOIO À SMITH INTERNATIONAL DO BRASIL 485 LTDA EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL ATIVIDADES DE APOIO À 4 PREST PERFURACOES LTDA 431 EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL 5 6 7 8 EMPRESA BRASILEIRA ATIVIDADES DE APOIO À DE 404 SERVICOS E PERFURACAO LTDA GÁS NATURAL ATIVIDADES DE APOIO À ETX SERVICOS DE PERFURACAO E 281 SONDAGEM DE PETROLEO LTDA LUPATECH - PERFURACAO EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL E 232 COMPLETACAO LTDA HALLIBURTON SERVICOS LTDA 192 91 EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL ATIVIDADES DE APOIO À EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL SUPERIOR 9 SERVICOS ENERGY DE SERVICES PETROLEO - ATIVIDADES DE APOIO À DO 171 EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E BRASIL LTDA 10 GÁS NATURAL ATIVIDADES DE APOIO À SAIPEM DO BRASIL SERVICOS DE 131 PETROLEO LTDA. EXTRAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL Fonte: Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte – FIERN, 2014. Organização: Leonardo Galindo. Rocha (2005) e Elias e Pequeno (2010) destacam o surgimento de atividades em Mossoró indiretamente relacionadas ao setor petrolífero tendo em vista que a chegada de milhares de trabalhadores demandou aumento de serviços como hospedagem, alimentação, aluguel de carros, etc. Além disso, mencionam o crescimento da construção civil decorrente da especulação imobiliária causada pela instalação provisória da sede da Petrobrás no bairro Alto de São Manoel e posteriormente com a sede definitiva no bairro Alto do Sumaré. O crescimento acelerado da construção também pode ser explicado pelos altos salários recebido pelos trabalhadores do setor petrolífero (gráfico 2) em comparação às demais atividades, na medida em que a extração de petróleo exige elevada qualificação profissional. Gráfico 2: Salário Médio Mensal (média de salários mínimos) por Setores da Indústria Extrativa do Rio Grande do Norte (2012) 92 Fonte: IBGE, Cadastro Central de Empresas, 2012. Organização: Leonardo Galindo. Embora o dado seja referente ao estado do RN não podemos deixar de considerar que a extração de petróleo e gás natural concentra-se em Mossoró. Percebe-se que o segundo segmento mais bem pago da indústria extrativa corresponde as Atividades de Apoio à Extração, com média de 4,9 salários mínimos por trabalhador (IBGE, 2012). Um dado interessante é que a atividade “extração de outros minerais não metálicos”, na qual está inserida a atividade salineira pagava ao trabalhador formal uma média de 2,2 salários mínimos(IBGE, 2012). Dessa forma, a existência de atividades econômicas que pagam remunerações tão díspares acaba se refletindo na cidade com o aumento das desigualdades socioespaciais (ELIAS; PEQUENO, 2014). Além de contribuir para a dinamização da Construção Civil, a extração de petróleo e gás natural em Mossoró contribui para o setor da Construção como um todo. A Classificação Nacional das Atividades Econômicas (CNAE 2.0) do IBGE divide o setor da Construção em 3 tipos: construção civil, serviços especializados para a construção e obras de infraestrutura. Enquanto em Natal, capital do RN ocorre o predomínio da Construção Civil, em Mossoró predominam os empregos relacionados a Obras de Infraestrutura devido a sua relação com a extração de petróleo. De acordo com dados do Cadastro Industrial do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN, 2014), o município de Natal tinha 1102 estabelecimentos relacionados ao setor da construção, dos quais 707 dedicavam-se à construção civil (gerando 8.260 empregos formais), 345 estabelecimentos voltados para 93 obras de infraestruturas e que empregavam 3.764 pessoas e 50 estabelecimentos relacionados a serviços especializados para a construção com 1.471 empregos. Já em Mossoró, apesar do maior número de estabelecimentos voltados para a construção é nas obras de infraestrutura que se concentram os empregos: mais de 100 estabelecimentos de construção civil no município de Mossoró empregavam 1.341 funcionários, enquanto 28 estabelecimentos de obras de infraestrutura empregavam 2.412 funcionários. Esse número deve-se principalmente a três empresas: Vipetro Construções e Montagens Industriais Ltda. (600 funcionários), Skanska Brasil Ltda. (500 funcionários)e Tenace Engenharia e Consultoria Ltda. (314 funcionários), todas atuando na montagem de instalações industriais e de estruturas metálicas, na cadeia produtiva do petróleo. A Vipetro, por exemplo, atuado na construção de Gasodutos no estado. Mossoró ainda tinha em 2014, 418 funcionários trabalhando no setor de serviços especializados para a construção (FIERN, 2014). Nos últimos anos observou-se a diminuição da produção de petróleo no RN, já que em finais do século XX chagava a aproximadamente 100 mil barris por dia, enquanto em 2012 eram extraídos em torno de 60 mil barris/dia (PETROBRÁS, 1999apud GALVÃO, 2002; SECRETARIA DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E DAS FINANÇAS - SEPLAN, 2014). Dentre os motivos apontados para a redução da produção estão a centralização dos investimentos da PETROBRÁS na extração de petróleo na camada pré-sal, cujas maiores reservas comprovadas localizam-se na porção do Oceano Atlântico na costa dos estados do Sudeste Brasileiro. Desse modo, se no passado, o processo de reestruturação da produção petrolífera levou a dinamização da economia de Mossoró, no presente significou a descoberta e prospecção de novas reservas em outros lugares, causando redução do número de trabalhadores no município Norte-rio-grandense (TRIBUNA DO NORTE, 2014). 2.3. AS DIFERENCIAÇÕES ESPACIAIS E A INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO EM MOSSORÓ/RN De acordo o Cadastro Industrial da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN, 2014), Mossoró apresentava o segundo maior número de estabelecimentos da Indústria de Transformação do RN (inferior a Natal) e era o terceiro em número de empregos formais (inferior a Natal e Parnamirim) (cartograma 2). Eram 94 em 2014 553 estabelecimentos (13,04% do total do RN) e 6.199 empregos formais (corresponde a 9,1% do valor do estado). Cartograma 2: Número de Estabelecimentos e Empregados da Indústria de Transformação por município do Rio Grande do Norte (2014). Apesar do grande número de estabelecimentos, a maior parte dos empregos da indústria de transformação em Mossoró (49,3%) concentra-se em apenas 11 estabelecimentos industriais de 10 empresas (quadro 3). Dos quais 5 estão relacionados ao setor de alimentos e bebidas, 3 na fabricação de produtos de minerais não metálicos (cimento, materiais para uso estrutural na construção, concreto, cal, gesso, etc.); 1 relacionado a atividade petrolífera, 1 a fabricação de embalagens plásticas e outro a fabricação de carrocerias. Enquanto isso, 195 estabelecimentos não tinham registro de empregados (FIERN, 2014). Quadro 3: Maiores estabelecimentos da Indústria de Transformação em Mossoró Quanto ao Número de Empregos Formais (2014). 95 EMPRESA 1 2 3 4 5 6 USIBRAS USINA BRASILEIRA DE OLEOS E CASTANHA LTDA (ALIMENTOS E BEBIDAS) A FERREIRA INDUSTRIA COMERCIO E EXPORTACAO LTDA (ALIMENTOS E BEBIDAS) PORCELLANATI REVESTIMENTOS CERAMICOS S/A (PRODUTOS DE MINEIRAIS NÃO METÁLICOS) ITAPETINGA AGRO INDUSTRIALAS (PRODUTOS DE MINERAIS NÃO METÁLICOS) TRES CORACOES ALIMENTOS S.A. (ALIMENTOS E BEBIDAS) NOV DOWNHOLE COMERCIALIZACAO DE EQUIPAMENTOS PARA PETROLEO (PETRÓLEO) N ° DE EMPREGOS FORMAIS 938 444 315 311 227 172 7 SACOPLAST DO BRASIL LTDA – ME (EMBALAGENS PLÁSTICAS) 169 8 TRES CORACOES ALIMENTOS S.A. (ALIMENTOS E BEBIDAS) 153 9 10 11 MOSSORO INDÚSTRIA E COMERCIO DE PREMOLDADOS LTDA (MINERAIS NÃO METÁLICOS) INDÚSTRIA DE CARROCERIAS SAO PAULO LTDA – EPP (CARROCERIAS) INDÚSTRIA DE TEMPERO REGINA LTDA (ALIMENTOS E BEBIDAS) 117 109 101 Fonte: Federação das indústrias do Estado do Rio Grande do Norte, FIERN, 2014. Organização: Leonardo Galindo. Como se pode observar destaca-se em relação ao número de empregados a empresa Usibrás relacionada ao processamento da castanha de caju. Instalada no município de Mossoró em 1979 atualmente tem outras duas unidades industriais, uma situada no Ceará também voltada para o processamento da castanha, e outra unidade em New Jersey, Estados Unidos, voltada para o beneficiamento de nozes (USIBRÁS, 2014). Conforme destacado anteriormente, a castanha de caju tornou-se um dos principais produtos exportados por Mossoró, principalmente para os Estados Unidos. Além da Castanha de Caju a empresa também beneficia o amendoim comercializando a marca Amendoim Dunorte. Já a empresa A. Ferreira Industria Comércio e Exportação Ltda. (Aficel) também atua no processamento da castanha de caju. Sua produção é vendida para os estados de São Paulo e Rio de Janeiro e exportada principalmente para os Estados Unidos e Canadá. Além da castanha também é produzido o derivado LCC ( Líquido da Casca da Castanha 96 de Caju) que pode ser utilizadosna fabricação de tintas e vernizes. (AFICEL, 2014). A empresa Três Corações Alimentos S/A possui três fábricas no Rio Grande do Norte, sendo dois estabelecimentos industriais em Mossoró, um relacionado à produção de produtos de culinária regional e outro a fabricação de refrescos. A Três Corações também possui estabelecimentos industriais em outras unidades da federação. Elias e Pequeno (2010)destacam que outras atividades associadas à extração do petróleo tais como a confecção de fardamentos. Nesse sentido, no cadastro industrial da FIERN (2014) estavam contabilizados 10 estabelecimentos relacionados à confecção de roupas profissionais, a maioria com não mais do que 10 funcionários. Segundo os autores essas empresas confeccionam fardamento principalmente para a Petrobrás e outras empresas do setor de petróleo.Numerosos também são os estabelecimentos relacionados à fabricação de sabão e detergentes, e adubos e fertilizantes, com número de funcionários formais por estabelecimento variando de 0 a 80. O grande número de estabelecimentos entre 0 e 5 funcionários formais indica que em sua maioria são pequenas empresas e cujos empregados são pessoas de uma mesma família e também alto grau de informalidade. De acordo com a FIERN (2014), dos 292.000 empregados no setor industrial do Rio Grande do Norte em 2012, 49,32% trabalhavam informalmente. No entanto, não encontramos dados relativos à porcentagem de trabalhadores informais apenas do município de Mossoró, por isso não podemos confirmar se o mesmo apresenta índice semelhante ao do RN. Em meados do século XIX Mossoró tinha como principais atividades econômicas a exploração de sal e uma pequena agroindústria associada ao beneficiamento do algodão, da cera de carnaúba e da mamona. Para Elias e Pequeno (2010, p. 172) “tais atividades são determinantes para a expansão da economia de Mossoró, assim como para sua reestruturação urbana.” Esses fatores associados ao assoreamento do porto de Aracati no Ceará fizeram de Mossoró “uma praça comercial emergente” (ELIAS; PEQUENO, 2010, p. 110) do semiárido do RN. Dessa forma, embora o território norte-rio-grandense se caracterizasse como rarefeito quanto a presença de objetos técnicos que permitissem maior fluidez de pessoas, capitais, mercadorias e informações, o estabelecimento das atividades citadas permitiu a Mossoró concentrar uma maior infraestrutura em relação as cidades do entorno, tais como ferrovias, rodovias, terminal aeroviário, etc. Nesse sentido, apesar da cotonicultura e da fabricação de óleos vegetais 97 terem desaparecido em meio ao processo de reestruturação produtiva, tendo em vista as novas matérias-primas utilizadas no processo industrial e a resistência local a adoção de novas tecnologias no processo de produção das mercadorias citadas (ROCHA, 2005), algumas infraestruturas utilizadas no período permanecem como herança. Isso, aliado a permanência de Mossoró como “empório comercial” (ROCHA, 2005, p. 45) foi determinante para a instalação da sede da PETROBRÁS neste município, muito embora o mineral esteja presente em mais de uma dezena de municípios potiguares. Da mesma forma ocorre com a extração e refino de sal, na medida em que parte dos municípios produtores envia parte do sal marinho para ser refinado em Mossoró. Sendo assim, a instalação da indústria extrativa em Mossoró irá reforçar a sua diferenciação em relação às cidades vizinhas, na medida em que estimulam a expansão do comércio, dos serviços e exigem a construção de novas materialidades na cidade. Nesse escopo é importante considerar as observações de Reolon (2013) a respeito da localização dos estabelecimentos industriais da Indústria de Transformação nas cidades médias: “Todavia, se, na comparação com as demais categorias de cidades sugeridas, as cidades médias da Região Sudeste chamam a atenção pela ausência de diferenças significativas quanto aos ganhos de empregos e de estabelecimentos das indústrias de transformação, o outro lado da moeda seria a diferenciação nas regiões que apresentam menor densidade dos sistemas de engenharia, notadamente no Nordeste e no Norte. É nestas regiões que, na ausência das metrópoles, as economias de urbanização das cidades médias realmente despontam como vantagens comparativas à localização das atividades produtivas.” (REOLON, 2013, p. 169. Grifo nosso). Em Mossoró, as materialidades criadas pelo desenvolvimento do comércio e das agroindústrias nos séculos XIX e XX serão reforçadas com o estabelecimento da moderna indústria extrativa. Consequentemente, a diferenciação espacial quanto ao entorno proveniente de um maior desenvolvimento da técnica e existência de infraestruturas aliado a localização geográfica de Mossoró, entre as capitais Natal e Fortaleza, farão do município o lugar privilegiado da localização da emergente indústria de transformação (especialmente relacionada ao setor de alimentos) no semiárido do RN. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS 98 O processo de reestruturação produtiva tem provocado várias transformações em Mossoró, na medida em que foi um dos responsáveis pelo fim de algumas atividades econômicas tais como a cotonicultura e o beneficiamento da mamona e carnaúba. Contudo, algumas atividades se modernizaram e outras surgiram associadas à existência de recursos minerais, de modo que atualmente Mossoró caracteriza-se por um setor industrial baseado na extração de petróleo e gás natural, bem como de sal marinho. Tais setores contribuíram para a aceleração do processo de urbanização na cidade na medida em que demandaram a construção de infraestruturas e o crescimento do setor de serviços. Consequentemente, como resultado do processo de reestruturação produtiva ocorre o “desenvolvimento, por um lado, de concentração e centralização do capital, e por outro, dispersão e interações entre os territórios e as cidades envolvidas em diversos circuitos produtivos”. (BOMTEMPO, 2011, p. 53). Nesse sentido, Mossoró além de exportar produtos como o sal, castanha do caju, melão, dentre outros, para diversos lugares do Brasil e do mundo, também passa a importar insumos, mão-de-obra, e equipamentos necessários a extração de petróleo. Com isso, o município amplia seu papel na rede urbana brasileira e na divisão territorial do trabalho ao estabelecer conexões com outros lugares extrapolando a escola local e regional que extrapolam a escala local e regional. Em contrapartida o desenvolvimento do capitalismo na cidade, atrelado ao processo de reestruturação produtiva tem acentuado o crescimento das desigualdades socioespaciais em Mossoró (ELIAS; PEQUENO, 2010). Nesse sentido a atividade petrolífera se constitui como uma exceção em Mossoró no que se refere à média salarial, pois enquanto sua remuneração média chega a 18 salários mínimos, a extração de sal e a indústria da transformação pouco ultrapassam 2 salários e a construção não chega a 3 (FIERN, 2014). Tais diferenças acabam se refletindo no território, com a diferenciação econômica e social dos bairros na cidade. Por sua vez, a localização geográfica entre duas capitais estaduais, aliada ao desenvolvimento de sua infraestrutura relacionada as heranças de antigas atividades econômicas, provocam um processo de diferenciação espacial e relação as cidades do entorno. Essa diferenciação será reforçada com o estabelecimento da produção de petróleo e da modernização do sal, aliada ao desenvolvimento da fruticultura irrigada, que exigem uma ampliação das materialidades existentes em Mossoró. Consequentemente, a concentração de infraestruturas, técnicas, 99 população, etc., fará surgir na cidade uma indústria de transformação “tradicional” associada principalmente ao setor de alimentos. REFERÊNCIAS A. Ferreira. Indutria comercio e exportação ltda. Produtos AFICEL. Disponível em: <http://www.aficel.com.br/v2/produtos. php>. Acesso em 19 dez. 2014. ALVES, Sandra Priscila. O Circuito Espacial da Produção Petrolífera do Rio Grande do Norte.(Mestrado em Geografia) Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em geografia. Natal, 2012. 205f. AZEVEDO, Francisco Fransualdo de. Reestruturação Produtiva no Rio Grande do Norte. 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Acesso em 10 dez. 2014. 102 A ORGANIZAÇÃO PRODUTIVA DA INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA NO MÉDIO VALE DO PARAÍBA:REDES, ATORES E ESTRATÉGIAS TERRITORIAIS. Rafaela Dettogni Duarte Paes38 Resumo O processo de reestruturação produtiva, iniciado a partir da década de 1990, surgiu como um importante agente modelador da organização do espaço econômico do Brasil e do estado do Rio de Janeiro. Em busca por melhores benefícios à produção, atores econômicos de escala global passaram a se alocar em cidades de pouca expressão econômica no cenário nacional. Atualmente, estas cidades compõem –se como peças estratégicas à organização produtiva e passam por um intenso processo de reorganização territorial. Dessa maneira, pretendemos analisar a atual conjuntura das cidades do Médio Vale do Paraíba fluminense em relação às lógicas de acumulação flexívele as mudanças estabelecidas para e com a inserção de montadoras automotivas na região, buscando tecer uma análise sobre a reorganização do território a partir dessas ações. Palavras chave: Reestruturação produtiva. Médio Vale do Paraíba. Industria automotiva. 1. INTRODUÇÃO A partir da década de 1990, o estado do Rio de Janeiro passou a sofrer significativastransformações em seu espaço produtivo, adequando-se aos padrões de acumulação flexível, iniciados a partir da década de 1970,com advento do período pós 38 Graduanda em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bolsista FAPERJ vinculada ao laboratório de pesquisa GEOPORTOS, coordenado pelo professor Dr. Fréderic Monié. Pesquisa atrelada ao projeto “reestruturação urbana no estado do Rio de Janeiro: Governança e desenvolvimento territorial no Médio Vale do Paraíba”, coordenado pelos professores Doutores Willian Ribeiro, Fredéric Monié e Paulo Gusmão. 103 fordista. Marcada pelo processo de reestruturação produtiva, a estrutura industrial da região do Médio Vale do Paraíba sofreumodificações, passando dos setores tradicionais para o desenvolvimento de uma economia pautada em setores mais modernos. Através de investimentos em tecnologia e infraestruturas de qualidade que modificaram o espaço regionalbuscando torna-lo atraente aos atores econômicos, estimula-se o processo de formação de um novo polo de desenvolvimento metal- mecânico/ automobilísticona região. Em caráter do estudo geográfico, a temática torna-se relevantea partir das perspectivas da geografia econômica, entendidas como fundamentais para compreensão e analiseda lógica espacial dos sistemas econômicos e sua evolução, a fim de apreender as desigualdades sociais e territoriais. (PIRES DO RIO,2012). A análise do espaço econômico pode ser realizada a partir da concepção de agentes que estruturam espaços por meio de suas estratégias, práticas e ações. (PIRES DO RIO, 2012). Segundo Veltz, (1992) e Pires do Rio (2012), a composição dos espaços econômicos regionais podem ser apreendidas no que tange à realização de investimentos, constituição de redes de empresas, regimes institucionais que balizam o comportamento dos agentes econômicos ou nas estratégias e ações das empresas- redes. Dessa maneira, analisar os processos de reestruturação econômica, industrial e urbanas, ocorridas em períodos recentes no Médio Vale do Paraíba Fluminense a partir da inserção de novos atores econômicos, tornam-se essenciais à compreensão das dinâmicas do espaço regional. Uma vez definida a importância de análise dos espaços econômicos, justificamoso objetivo do presente trabalho. Buscaremos uma breve compreensão sobre as lógicas de articulação dos atores econômicos localizados na região do Médio Vale do Paraíba fluminense, em escala regional e global, abordando suas repercussões para a reestruturação do espaço regional. 2. ANÁLISES SOBRE O FORDISMO E A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA. O período fordista, iniciado a partir do ano de 1930modificou significativamente as características da produção mundial de mercadorias, quando Henry Ford implementou uma mudança no ordenamento dos trabalhadores e suas funções atrelando-os a uma esteira produtiva,possuindo como finalidade um drástico aumento de produtividade. A partir desse momento, surge um novo sistema de reprodução do trabalho, pautado no reconhecimento explícito de que produção em 104 massa significava consumo em massa. Altera-se a política de controle e gerência do trabalho, trazendo uma nova estética e uma nova psicologia que causaram significativos reflexos à sociedade, transformando-a em uma sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista. (HARVEY, 1989) Com a expansão da indústria de fabricação em massa no período pós-guerra, o fordismo tornou- se, além de um sistema de produção, um modo de vida, influenciando significativamente na cultura e nos padrões de consumo,uma vez que que o consumo e a estética relacionada a ele, implicava em um processo de massificação cultural. Neste período, a organização da produção era marcada pela contiguidade espacial da indústria. Dessa maneira, todas as etapas da produção estavam localizadas em uma relação estratégica de proximidade, em função da baixa eficiência das redes de transporte e de comunicação, que implicavam na constituição de grandes plantas industriais onde eram realizadas a fabricação todas as peças necessárias aos veículos, direcionando-as para as linhas de montagem e possuindo como etapas finais a estocagem e a distribuição das mercadorias. Com a crise mundial de 1973, o modelo de produção e consumo fordista é abalado. Os mercados já se encontravam saturados dos produtos estandardizados que possuíam um lento tempo de giro de capital devido ao alto grau de durabilidade. Dessa forma, as grandes empresas passaram a redefinir suas estratégias de produção e foram estimuladas à expansão para outros territórios a fim de enfrentar as novas condições da competitividade (HARVEY, 1989). A necessidade de redução de custos e a busca pela competitividade estimularam a transferência dos setores de baixo conteúdo tecnológico para as regiões sem tradição industrial moderna. Os avanços técnicos dos setores de transporte, como o marítimo, e a abertura comercial dos países foram essenciais à viabilização do processo. (MONIÉ e VASCONCELOS, 2012; VELTZ; 1999; STORPER,2004). As mudanças para o alcance de um mercado mais atrativo, atravessam os avanços tecnológicos, pautados na automação.A busca por novas linhas de produtos e nichos de mercado, dispersão geográfica para as zonas de controle mais fácil, fusões e medidas para acelerar o tempo de giro do capital, passaram ao primeiro plano das estratégias corporativas de sobrevivência em condições gerais de deflação. (HARVEY, 1989). O processo de acumulação flexíveldifere-se do fordismo. Este é marcado pela flexibilidade dos processos de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. 105 Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. (HARVEY, 1989). O atual processo de interação entre mercados é possibilitado pela pelo avanço das redes de comunicação via satélite e por tecnologias de transportes, como atravésda implantação do uso de contêineres para a circulação de mercadorias. Dessa maneira a indústria, que tradicionalmente dependia de restrições locais no tocante a fontes de matérias primas e a mercados, pôde tornar-se muito mais independente. (HARVEY,1989). Tabela 1: As grandes fases da industria automobilística. Primórdios do Auge do Fordismo Pós Fordismo. Fordismo 1940/1980 Desde 1970/80s Larga escala Larga escala e 1930/1940 Produção Pequena escala escopo Produtos Bens de luxo Bem estandardizado; Expansão social e longo ciclo de vida geográfica do mercado Consumo Socialmente restrito Consumo em massa Expansão social e nos países centrais geográfica do mercado Fábrica e Redes espacial da fornecedores multilocalizadas; produção próximos unidades de Organização Fábrica montagem Inovação de Taylorismo; linha de Inovação técnica; Informatização; processos montagem lógicas extensivas automação; flexibilidade Escalas de logística Fábrica Fábrica; regional Fábrica; regional; mundial. Fonte: Elaborado por Dettogni e Monié. 106 3. A INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA NO BRASIL Objetivando a obtenção de melhores fatores locacionais à produção que permitissem uma competitividade por custos concomitantemente ao ganho de escala, a reestruturação produtiva implicou na ampliação e reorganização da indústria, levando esta a abranger novas regiões para a localização de suas plantas industriais. A organização dos atores produtivos foram rearticuladas, acarretando na atuação destes em escala global. O processo de integração da produção é viabilizado por eficientes redes,definidas porCurien (1988, p.212) como toda infra-estrutura, que permite o transporte de matéria, de energia ou de informação, e que se inscreve sobre um território onde se caracteriza pela topologia dos seus pontos de acesso ou pontos terminais, seus arcos de transmissão, seus nós de bifurcação ou de comunicação. Dessa maneira, os territórios passam a estar articulados, e é possibilitada a abrangência de novos mercados, aumentando o potencial econômico dos atores produtivos globais a partir da competição por melhoresvantagens locacionais. A reespacialização da indústria automobilística, desde meados dos anos 1980, traduz um movimento agudo de encerramento e enxugamento de plantas produtivas historicamente consolidadas, como no caso de Detroit, nos EUA. Posteriormente a esse período, na década de 1990, observa-se uma orientação para novos investimentos em regiões com pouca ou nenhuma tradição no setor automotivo (DOS SANTOS,2006). No Brasil, até o início da década de 1990, a indústria automobilística concentrava-se em algumas regiões específicas, como no ABC paulista, sob o viés da lógica de contiguidade espacial da produção, típica do período Fordista. O município de São Bernardo do Campo, foi o principal território das montadoras neste período. Junto ao crescimento das plantas produtivas, surgiam em seu entorno um significativo aumento das empresas fornecedoras de autopeças e por extensão, um desenvolvimento vigoroso do sindicalismo na região.(DOS SANTOS, 2006). Na década de 1990, a região do ABC Paulista, tradicional no setor da indústria automobilística no Brasil é marcada por um processo de fuga dos investimentos do setor. Os investidores, que anteriormente concentravam-se de forma expressiva nesta região, passaram a alterar o direcionamento de investimentos para outras regiões do país, devido ao desenvolvimento predatório alcançado no período anterior,responsável pelo aparecimento de uma série de problemas ou desvantagens econômicas, também 107 conceituadas como deseconomias de aglomeração. Estas podem ser entendidas comoconsequências de problemas, tal como:trânsito caótico, enchentes nos períodos de chuvas, os altos custos de movimentação de mercadorias no porto de Santos, escassez e alto preço da água industrial, poluição ambiental, terrenos supervalorizados, entre outros. (LEITE, 2003). Além desses fatores, a presença de um forte sindicalismo que pressionava os produtores da região, atuou de maneira preponderante à expansão das montadoras para outras regiões menos conflituosas. A partir desses novos processos e da abertura econômica brasileira, estratégias políticas do governo de Fernando Henrique Cardoso, foram particularmente benéficas para o estado do Rio de Janeiro em um momento no qual se manifestavam duas ausências chave: de uma política industrial nacional e de políticas regionais de desenvolvimento. A instalação da Volkswagen e da Peugeot-Citroën no Vale do Paraíba Fluminense, a aquisição de recursos para a ampliação e conversão do atual porto de Itaguaí, até então nomeado como porto de Sepetiba, em um hub port internacional, assim como a implementação de um intenso processo de desestatização – que convergia com a agenda privatista federal são exemplos emblemáticos dessa coalizão política conjuntural. (DOS SANTOS, 2006). Dessa forma, verifica-se um processo de reorganização do espaço regional do Médio Vale do Paraíba para a implementação de novos atores produtivos, buscando a obtenção de competitividade da região no contexto nacional e crescimento econômico. Essa nova etapa de investimentos econômicos no país, gerou uma significativa mudança na implantação de parques industriais no Brasil, fomentando guerras ficais entre os estados, mudanças infraestruturais nas regiões cujas indústrias seriam implementadas, calcados na produção enxuta e nas novas tecnologias produtivas. 4. O MÉDIO VALE DO PARAÍBA: INFRAESTRUTURAS PARA A INSTALAÇÃO DO POLO AUTOMOTIVO. Novas estratégias de localização da produção surgiram a partir da década de 1990 no Brasil. Dessa forma, o território passou sofrer consequências dos novos arranjos produtivos. Os recentes movimentos de reorganização dos territórios implicam em novas formas de uso do mesmo. Trata-se da busca por fatores associados ao novos padrões produtivos, que privilegiam fatores como: sistemas de inovações regionais e 108 locais, tecnologias de comunicação, infraestruturas viárias e logísticas que possibilitam a rápida circulação de mercadorias associadas ao baixo custo da produção (OLIVEIRA, 2007) As montadoras passaram a se instalar no país atraídas pelo potencial mercado consumidor brasileiro e sul-americano formado a partir da criação do Mercosul. Os mercados emergentes tornam-se atrativos a partir da consideração dos seguintes fatores: Rápido crescimento do mercado de veículos, unidades de produção em localidades com custos mais baixos,acelerado crescimento das taxas de motorização e privilegiados campos para novos experimentos organizacionais e trabalhistas. (LUNG,2000). Para a realização dos investimentos, foi necessária uma articulação entre as esferas governamentais, do nível Federal ao nível local, que estimularam à capacitação dos territórios à inserção do capital. Segundo Santos (1996) a produtividade espacial pode ser expressa pela guerra dos lugares, onde estes se distinguem pela diferente capacidade de oferecerem rentabilidade aos investimentos. Esta rentabilidade pode ser maior ou menor em função das condições locais de ordem técnica-organizacional. Dessa maneira, na conjuntura do país na década de 1990, surge um intenso processo de competição pela localização dos investimentos por parte dos estados. Nesse contexto, a região sul fluminense foi escolhida como locus de investimentos da indústria automotiva. Como motivações para a escolha da região, foram considerados fatores como a relativa distância da região metropolitana do Rio de Janeiro, buscando o escape da conjuntura das deseconomias de aglomeração. A intensidade dos investimentos econômicos e infra estruturais, que beneficiaram o estado do Rio de Janeiro em relação aos outros estados do país que se encontravam em processo de disputa por investimentos, também foram de extrema relevância para a escolha da região. Nesta nova etapa de desenvolvimento econômico brasileiro, foi relevante o fato das empresas já instaladas no país, especialmente na concentração industrial do ABC paulista, estarem vendo uma oportunidade de se aproveitar das vantagens fiscais oferecidas pelos governos e também escapar da força política do sindicalismo daquela região e dos salários “elevados” pelo poder de barganha desse mesmo movimento sindical(ABREU, 2000), rearticulando os territórios produtivos do país. A Escolha da região do Médio Vale do Paraíba para tornar-se um território produtivo da indústria automobilística não foi aleatória. A região, que anteriormente ao processo de reestruturação produtiva foi marcada por setores industriais tradicionais, 109 com pouco desenvolvimento tecnológico, já apresentava um tecido industrial pré existente, de referência no setor metalúrgico e siderúrgico, muito viabilizado pela presença da Companhia Siderúrgica Nacional, hoje privatizada, no município de Volta Redonda, além de ser o lócus de outras empresas do ramo da siderurgia. Na década de 1990, portanto, diversos incentivos foram concedidosàs montadoras fomentando a guerra fiscal entre estados concorrentes. No caso do Rio de Janeiro, a primeira montadora a ser instalada foi a fábrica de caminhões da Volkswagen, que contou com o apoio estadual como estratégia de suma importância para este processo, resultando em ótimas condições de infraestruturas. Foram investidos um total de US$ 15 milhões, distribuídos da seguinte forma: a) uma estação de força elétrica para a fábrica no valor de US$ 4 milhões; b) uma linha nova de canalização de gás de 14 quilômetros, no valor de US$ 7.3 milhões; c) uma estrada asfaltada de 3,4 quilômetros, no valor de US$ 2.3 milhões; d) recursos para permitir as autoridades municipais a providenciar para a fábrica postes de luz, sinalização, água, esgoto, transporte etc, no valor de US$ 2.1 milhões; e) infraestrutura de telecomunicações com ligações através de fibra ótica (ABREU, 2000). Destacando o processo de articulação governamental para a realização dos investimentos, podemos observar a fala do então secretário de indústria e comércio de Resende, município onde a montadora foi instalada. “O município no processo de instalação de uma empresa desse porte é a última etapa a ser ouvida. Normalmente a coisa começa no governo federal, passa para o governo estadual e cai no município. O município não escolhe, ele é escolhido. E Resende entrou no processo porque tem uma posição estratégica privilegiada, porque tem terreno apropriado, porque é servido pela principal rodovia do país, tem uma infra-estrutura privilegiada, tem facilidade de formação de mão-de-obra. (...) Resende não escolheu.” (Eliel de Assis Queiroz, secretário de Indústria e Comércio de Resende). (ABREU,2000) Além de possuir vantagens comparativas, a escolha da região sul fluminense foi marcada pela proximidade da mesma em relação aos dois maiores centros consumidores do país: as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. A rodovia Presidente Dutra, que no períodoestava em vias de privatização e que estabelece a conexão RioSão Paulo foi um dos pontos chave para a escolha da região. O porto de Sepetiba, atual porto de Itaguaí, que também se encontrava em vias de construçãofoi um atrativo para as montadoras, A concessão de outros incentivos fiscais, a doação de terrenos para as 110 montadoras e para os fornecedores próximos a ela, como no caso da Peugeot/Citroën, localizada no município de Porto Real foram preponderantes à escolha da região. 5. OS PRINCIPAIS INVESTIMENTOS NA REGIÃO DO MÉDIO VALE DO PARAÍBA Segundo Castells (1999), a globalização estimula a regionalização. A internacionalização crescente das atividades econômicas nas regiões tornou-as mais dependentes destes investimentos, que são fomentados através dos impulsos estabelecidos porgovernos e elites empresariais e estruturaram-se para competir na economia global através de redes de cooperação entre as instituições e empresas localizadas na região. Dentro desse raciocínio, o novo espaço industrial se caracterizaria pela capacidade organizacional e tecnológica de separar o processo produtivo em diferentes localidades, ao mesmo tempo em quereintegra sua unidade por meio de conexões de telecomunicações, da flexibilidade e precisão resultante da microeletrônica na fabricação de componentes. (CASTELLS, 1999). A partir dessas afirmações, podemos tecer analises sobre a região do Médio Vale do Paraíba, indicando esta como pertencente auma nova lógica produtiva, pautada nos processos de acumulação flexível que insere os municípios em um contexto globalde circulação de mercadorias. Os municípios portanto, passam a ser permeados por processos políticos e conectados por eficientes redes de transporte e telecomunicação, centros logísticos estratégicos, como os portos secos, que acarretam em uma reorganização do espaço regional e o adequa às dinâmicas econômicas de escala global. Os investimentos nos setores de metalurgia e siderurgia, são predominantes na região analisada. Os municípios que alocaram em seus territórios as plantas das industrias automotivas, Resende e Porto Real, possuem uma organização territorial onde se estabelece um arranjo entre as montadoras automotivas e seus fornecedores. Estes participam do processo de montagem dos veículos em uma relação de proximidade espacial da produção. Esta forma de organização do território pautada na proximidade e aglomeração de atores produtivos em uma mesma região é caracterizada por Veltz (1999) como Território- Zona. O município de Porto Real, que possui a montadora Peugeot- Citroën (PSA)localizada em seu território, e o de Resende com a Volkswagen 111 voltada à produção de ônibus e caminhões, estabelecem esta estratégia como forma de organização espacial da produção em suas respectivas linhas de montagem. A seguinte tabela apresenta os principais investimentos localizados na região do Médio Vale do Paraíba, segmentadas por setor, produtos e o quantitativo de empregos estabelecidos com a presença dos novos atores produtivos nos municípios. Tabela 2. Principais investimentos no médio vale do paraíba 1996-2006. Município Empresa Setor Produto Emprego Barra do Piraí QuimVale Químico Carbonato de cálcio 120 Barra Mansa Sid. B. Mansa- Amp. Siderúrgico Aço - Barra Mansa Sid. B. Mansa-nova Siderúrgico Aço 700 Itatiaia Meyenfreund Bebidas Cerveja 250 Itatiaia Instituto Biochimico Farmacêutico Remédios 90 Itatiaia Michelin Borracha Pneus de automóveis 200 Pinheral CSN (cimento) Minerais não Cimento 330 metálicos Piraí Aloés Piraí Farmacêutico Absorv. e lenços 168 Piraí Aro Metalúrgico Tampinhas/latas de 50 aço Piraí Cervejaria Cintra Bebidas Cerveja 500 Piraí Networking Mat. elét. e de tel. Gabinetes de 500 computador Piraí Pastifício St. Amália Alimentos Snacks 200 Porto Real Cia. F. Refrigerantes Bebidas Refrigerantes 400 Porto Real Copo Autopeças Espuma 10 Porto Real Eurostamp Autopeças Estamparia 200 Porto Real Galvasud I Metalurgico Galvanização de 150 chapas Porto Real Galvasud II Metalurgico Unidade de corte e 130 solda Porto Real Gefco Autopeças Linha de montagem 70 Porto Real Guardian Minerais não Vidros 200 metálicos Porto Real Peugeot Citroën Automotivo Automóveis 2.500 Porto Real Vallourec Autopeças Eixos, rodas e pneus 70 Porto Real Volkswagen Autopeças Caminhões e ônibus - 112 Resende Pernod Ricard Bebidas Destilaria 63 Resende Sagez Alimentos Pães 359 Resende Volkswagen Metal- mecânico Caminhões 1.500 Resende Volkswagen II Automotivo Caminhões 400 Valença Ferreira e luz Confecção Camisas e calças 180 Valença Recap pneus Borracha Pneus remodelados 120 Volta Redonda CSN (alto forno 4) Siderurgia Chapas de aço 600 Volta Redonda Inaí Siderúrgico Distribuição de aço 600 Volta Redonda Tubonal Metalurgico Tubos de aço com 380 costura Volta Redonda MRS Infraestrutura Total Transporte de carga 275 11.045 Fonte: Codin (2007) – Dias da Silva, 2012. 6. O SETOR METAL MECÂNICO NA REGIÃO DO MÉDIO VALE DO PARAÍBA Alguns dos municípios que compõem a região do Médio Vale do Paraíba Fluminensesofreram a partir da década de 1990mudanças significativas no padrão industrial de seus territórios. Nas décadas que antecederam o processo de reestruturação produtiva, setores tradicionais da indústria marcados pelo baixo conteúdo tecnológico, caracterizavam a estrutura produtiva dos municípios. Com o processo de acumulação flexível, a busca por territórios que oferecessem vantagens à produção e a significativa eficiência dos sistemas de transporte e dos meios de comunicação, transformaram o padrão dos setores industriais em alguns municípios da região. Dessa forma, Resende e Porto Real passaram a estar inseridos nas estratégias globais de produção e circulação de mercadorias, alterando significativamente a organização espacial de algumas regiões. A partir desses processos, a indústria automobilística tornou-se o principal agente transformador do espaço regional. No período entre 1996 e 2006, retratados na tabela abaixo, os investimentos nos setores metal- mecânico, traduzidos por uma indústria mais moderna, foram extremamente significativos para a economia do Estado do Rio de Janeiro. Esses investimentos foram realizados principalmente nos municípios de Resende e Porto Real, que apresentaram vantagens comparativas frente aos outros municípios da região e dessa forma passaram a compor uma região marcada pela presença da indústria automobilística, que reorganiza o território produtivo e viabiliza 113 significativos ganhos econômicos, tanto para os municípios em questão, quanto para o Estado do Rio de Janeiro, além da posição de destaque da indústria automotiva no cenário mundial. Tabela 3: Principais investimentos no setor metal-mecânico/ automotivo (1996-2006) Município Empresa Setor Produto Emprego Barra Mansa Sid. Barra Mansa- Amp. Siderúrgico Aço - Barra Mansa Sid. Barra Mansa- Nova Siderúrgico Aço 700 Itatiaia Michelin Borracha Pneus de automóveis 200 Porto Real Copo Autopeças Espuma 10 Porto Real Eurostamp Autopeças Estamparia 200 Porto Real Faurecia Autopeças Bancos/escapamentos 70 Porto Real Galvasud I Metalurgico Galvanização de chapas 150 Porto Real Galvasud II Metalurgico Unidade de corte e solda 130 Porto Real Gefco Autopeças Linha de montagem 70 Porto Real Guardian Minerais não Vidros 200 metálicos Porto Real Peugeot Citroën Automotivo Automóveis 2.500 Porto Real Vallourec Autopeças Eixos, rodas e Pneus 70 Porto Real Volkswagen Autopeças Caminhões e ônibus Resende Volkswagen Metal- Mecânico Caminhões 1500 Resende Volkswagen II Automotivo Caminhões 400 Valença Recap Pneus Borracha Pneus Remodelados 120 Volta Redonda CSN (alto forno 4) Siderurgia Chapas de Aço 600 Volta Redonda Inaí Siderúrgico Distribuição de aço 260 Volta Redonda MRS Infraestrura Transporte de carga 275 Total 7.455 7. AS ESTRATÉGIAS PRODUTIVAS DA PEUGEOT- CITROËN 114 Localizada no município de Porto Real, a montadora Peugeot Citroën deu início a sua produção industrial no ano de 2001. Na planta industrial do município fabrica-se veículos de duas marcas, Peugeot e Citroën, sendo este processo possibilitado pela flexibilidade das linhas de montagem. Na montadora do Sul Fluminense produz-se atualmente os veículos Peugeot 207, 208 e os Citroën C3, C3 Picasso e Aircross. A fábrica possui capacidade de fabricação de 160.000 veículos por ano e em 2012, a unidade produziu 100.000 veículos de ambas as marcas (PSA,2014). Além da fabricação de veículos automotores, a planta conta com um centro de produção onde são fabricados motores voltados à exportação. O centro de produção de Porto Real emprega cerca de 3.200 funcionários e é responsável por gerar empregos indiretos na região. (PSA ,2014). Evidenciados os quantitativos de produção da PSA em Porto real, buscaremos analisar as estratégias territoriais da montadora para a fabricação dos veículos e a produção das autopeças. Segundo Veltz, (1999) duas dinâmicas espaciais explicam as estratégias produtivas dos grandes atores produtivos que operam em escala global: o Território- Zona e o Território- Rede. A estratégia de organização do espaço produtivo sob o víes do território zona evidencia este como os nós das redes e sobretudo, como centro de direção das redes. Esta organização do território é caracterizada por uma significativa relação de proximidade espacial das etapas produtivas, que nos remetem a forma de organização do espaço produtivo do período fordista. O município de Porto real é marcado por essa estratégia produtiva. Ao analisarmos a região, percebemos que a montadora PSA possui uma série de fornecedores que se encontram organizados em uma relação de proximidade à linha de montagem. Os fornecedores localizados próximos a PSA, estão situados em grande parte em uma área denominada como Tecnopolo e possuem uma relação essencial às etapas finais de produção dos veículos automotores. Quando analisamos os determinados produtos fornecidos à linha de produção, conseguimos justificar a presença dessas empresas através da abordagem do território em zona. A empresa Faurecia Automotive do Brasil, fornece os bancos à montadora, que por sua vez são as últimas peças à serem introduzidas nos automóveis. A Guardian, mesmo não estando situada na área do tecnopolo, produz vidros para automóveis, peças que possuem significativa fragilidade e que também são postas nas últimas etapas da linha de produção. A Gefco, fabrica os acessórios veiculares opcionais, que são adquiridos no momento da compra do veículo, a partir da solicitação 115 do cliente e que necessariamente também fazem parte das etapas finais na linha de montagem. A empresa também éresponsável pelo abastecimento da fábrica, com coletas e entregas de peças e pelo desembaraço de importações em portos. No pátio da PSA, a Gefco é responsável pela armazenagem de veículos finalizados, peças e partes; operações de pós-produção e de preparação, que customizam veículos novos, além de realizar auditorias e consertos de avarias. Na ponta da cadeia, a Gefco também é o integrador entre fábrica e pontos de venda, e opera a expedição de veículos até as concessionárias e o embarque para exportação a partir do Porto do Rio. (REVISTA LOGÍSTICA, 2013) Dessa maneira, evidenciamos a organização do território em zona na região do Médio Vale do Paraíba como uma das estratégias produtivas da Peugeot Citroën- PSA. Justifica-se portanto, a doação de terrenos pelos órgãos governamentais tanto para a montadora, quanto para a contemplação de um cinturão de fornecedores em uma relação de proximidade. Esses fornecedores são essenciaisà montagem dos veículos, e estabelecem uma significativa relevância à geração de empregos na região, acarretando em uma reorganização do espaço e crescimento econômico dos municípios em questão. Na tabela abaixo estão relacionados os principais fornecedores da Peugeot- Citroën na região do Médio Vale do Paraíba. Tabela 4. Fornecedores da Peugeot Citroën no MVP Empresa Produto Endereço Copo Industria de Poliuterano Espuma Av. do Brasil Ltda. 6200, Renato Monteiro, B1- Tecnopolo, Porto Real, RJ Faurecia Automotve do Brasil Bancos Av. Renato Monteiro, 6200 Ltda. – Área C, Tecnopolo, Porto Real, RJ. Galvasud Galvanização de chapas Av. Renato Monteiro, 7777, bairro Polo Urb. agro Ind. Porto Real, RJ. 116 Gefco Linha de Montagem Acessórios veiculares, como: Av. Renato Monteiro, adesivos, teto solar, sensores de 6.200, Tecnopolo 1, Área ré, sons e acabamentos F, Porto Real, RJ. especiais. Vallourec do Brasil autopeças Eixos e rodas Av. Renato Monteiro, 6.200, Porto Real, RJ Guardian Vidros para automóveis Rua Fernando Bernadelli, 2000, Porto real [Rua José dos Santos – Google maps] próximo à PSA. Imagem 1: Imagem cinturão de fornecedores psa. Fonte: Google Maps. Concomitantemente à organização dos territórios em zona, Veltz (1999) indica que os territórios devem ser analisados sob o viés das redes, ou seja, um Território-rede, marcado pela descontinuidade e segmentação espacial, unido por múltiplas redes que se superpõem e emaranham o espaço, realizando a conexão entre os territórios que fazem parte da produção em escala global. Esta forma de organização espacial da produção também faz parte das estratégias da montadora PSA em Porto Real, uma vez que esta empresa conta com múltiplos fornecedores que fabricam peças automotivas em diversos territórios de escala global. O processo de reestruturação produtiva instituiu um espaço 117 econômico mundial integrado e interdependente que segundo Veltz, (1999) adquire uma feição de arquipélago, onde os centros mais competitivos são conectados por eficientes redes logísticas que estabelecem umconjunto de interações materiais e imateriais formando oespaço global de fluxos, possibilitando a circulação de mercadorias em distâncias, volumes e velocidades crescentes (CASTELLS, 1999; MONIÉ, VASCONCELOS, 2012). A tabela abaixo relaciona os principais fornecedores da montadora em escala global. Tabela 5: Rede mundial de fornecedores de peças automotivas Peugeot/Citroën. País Argentina Centro de produção Produtos Instalações mecânicas de Bomba de óleo; Records; Tambor; Apoio de Jeppener braço Pivô; Peças de alumínio; motores; volantes; cubos de roda de alumínio; cartão de cilindro; pintura registros; pintura tambor. Brasil Instalações mecânicas de Motores (1.4 e 1.6 l. gasolina e flex)para os Porto Real modelos fabricados localmente; blocos e cabeçotes para motores de 1.6l flex (modelos do Brasil) França Fundação de Sept- Fons Carcaças de cilindro; peças para travões França Sítio de Herimoncourt Motores; cabeçotes; caixas de câmbio França Instalações mecânicas de Transmissões e sistemas de suspensão Caen França Fundição de Charleiville Power train; sistemas de suspensão; Chefões; trilhos laterais, suportes; braços de suspensão; caixas de diferenciais; vibrabrequins e coletores. França Instalações mecânicas de Caixas de velocidade Metz França Instalações mecânicas de Caixas de velocidade; caixas de engrenagem; Valenciennes transmissão manual (5 e 6 velocidades) caixa manual (6 velocidades) 118 França Instalações mecânicas de Peças conexões de aterramento; discos. Mulhouse Tambores; cubos ; Wishbones; conjunto de rodas; trens e trens ½ volta; forjado (beliches e travesseiros); proteção de peças do eixo traseiro. França Française de Mécanique Usinagens e montagens de motores China Sítio produtivo de Motores; BV; conexão de aterramento de Xiangyang motores; caixas de velocidades. Fonte: PSA Homepage. Elaborado por: Rafaela Dettogni. 8. CONCLUSÕES PRELIMINARES A atual fase da globalização, marcada pelas redes de valor agregado, (VELTZ, 2002) que multilocalizam a fabricação e a montagem dos produtos em lugares que ofereçamcondições ideais de produçãoe pela competitividade por mercados atraentes, compõem as dinâmicas produtivas das grandes montadoras de automóveis. O Brasil se insere nesse contexto por apresentar atratividade às montadoras em função de suas condições ideais à produção de veículos e pelo aquecido mercado consumidor de automóveis, que na atual conjuntura do país, possuem o consumo estimulado através das políticas governamentais. A indústria automobilística é marcada historicamente por seu papel relevante para o crescimento econômico das nações.Como consequência desse processo, a organização dos territórios onde se instalam as montadoras é transformada.A partir dessa afirmação, concluímos que a região do Médio Vale do Paraíba fluminense está inserida nas atuais estratégias produtivas das montadoras, que se pautam no processo de acumulação flexível, justificando o reordenamento dos territórios e inserindo os municípios em uma escala global de circulação de mercadorias. O território pode ser compreendido por espaços contíguos e espaços em rede. Segundo Santos, (1996) os processos produtivos são expressados por meio de verticalidades (redes) e horizontalidades (domínio de contiguidades). As horizontalidades seriam definidas como o domínio da contiguidade, dos lugares vizinhos reunidos pela contiguidade territorial. As verticalidades, por sua vez, seriam formadas por pontos distantes um dos outros, ligados por todas as formas e processos sociais. Dessa maneira, evidenciamos as 119 estratégias produtivas da Peugeot Citroën- PSA no território regional do Sul fluminense. O capital corporativo reconhece os territórios buscando novas formas e relações sociais que darão sentido à sua formação. O momento atual traduz a produção do espaço a partir de uma nova forma de organização do trabalho, baseada em novas tecnologias, que buscam nos territórios recursos técnicos, naturais e sociais a fim de prepara-los para utiliza-los e estabelecer nestes uma relação instrumental.(OLIVEIRA, 2007.) Aarticulação entre esferas governamentais e as empresas viabilizam o processo. A conectividade estabelecida por redes de comunicação, transportes eficientes e centros logísticos se tornaram essenciais à produção. Dessa maneira, os municípios que compõem a região do Médio Vale do Paraíba sofrem um processo de reestruturação urbana, econômica e social em função dos recentes investimentos. O jogo de escalas, do regional ao global, explica as estratégias produtivas da montadora PeugeotCitroën-PSA, que por sua vez possui um caráter determinante à reorganização dos territórios e progresso econômico no estado do Rio de Janeiro. REFERÊNCIAS ABREU, P. A. R; RAMALHO, J.R. A indústria automobilística brasileira e a implantação de novos pólos de desenvolvimento regional: o caso do Rio de Janeiro. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. CURRIEN, N. D’ une problématique générale dex réseaux à l’analyse économique du transport des informations. In DURPY, Gabriel. Résseaux térritoriaux. Caen, Paradigme, 1988. DIAS, da Silva, R. Industria e desenvolvimento regional no Rio de Janeiro. FGV,2012 DOS SANTOS, R.S.P. 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Barcelona: Ariel, 1999. 122 DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL EM PEQUENAS E MÉDIAS CIDADES: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE “O PROGRAMA BID” E o APL de BORDADOS DE CAMA, MESA E BANHO DE IBITINGA.39 Ricardo Nagliati Toppan40 Resumo Considerando as implicações da Globalização na elaboração de políticas para o desenvolvimento urbano e regional, o objetivo desse artigo consiste em apresentar o Plano de Melhoria da Competitividade do Estado de São Paulo – “Programa BID”, responsável pela competitividade de alguns Arranjos Produtivos Locais (APL) em cidades e aglomerados urbanos do estado de São Paulo. À guisa compreender a ação dessa política é usado o caso do APL de Bordados de Cama, Mesa e Banho de Ibitinga, no desígnio de tecer uma avaliação do Programa e seu desempenho no referido arranjo. Palavras-chaves: Arranjo Produtivo Local. Desenvolvimento Urbano e Regional. Plano de Melhoria da Competitividade. Keywords: Local Productive Arrangement, Urban and Regional Development, Competitiveness Improvement Plan. 1. INTRODUÇÃO Muito além de um tema apropriado pela Geografia Industrial ouUrbana, desde o início dos anos de 1990 o processo de globalização vem, concomitantemente,promovendo uma série derevisões teóricasem nossa ciência assim como exigindocada vez mais uma reformulação das estratégias de desenvolvimento 39 Esse artigo apresenta um resultado empírico a partir de uma primeira análise do coletiva do Programa BID e das contribuições dos professores do Grupo de pesquisa “Estruturas de Governança e Desenvolvimento Territorial”. 40 Mestrando em Geografia – PPG em Geografia, Universidade Estadual Paulista, campus Rio Claro. Laboratório de Desenvolvimento Territorial. Grupo de Pesquisa CNPq Estruturas de Governança e desenvolvimento Territorial. 123 urbano. Conforme apontado por Benko 2001 e Benko e Pecqueur 2001, aglobalização, em diferentes tempos e intensidades,vem provocando uma recomposição dos espaços suficiente para os autores enxergá-lospor um “mosaico de regiões produtivas especializadas”, capazes de expor tanto processos complexos de crescimento localizado como também dinâmicas de desenvolvimentodependente de outras regiões. Nesse instante, é fundamental pensar essas questões na reorganização das políticas de desenvolvimento econômico das cidades proporcionados pela globalização, sobretudo em cidades médias, concebidas a partir de sua função e centralidade. Nos últimos tempos, várias cidades brasileiras inspiraram-se nas práticas dos distritos marshallianos na Itália e nos sistemas produtivos locais na França para promoverem políticas de desenvolvimentoancoradas na aproximação produtiva, coordenação e cooperação dos atores, constituindo assim em Arranjos Produtivos Locais (APLs). Segundo o governo do Estado de São Paulo, o estado possui 24 APL institucionalizados, sendo 14 deles escolhidos para uma política especial de melhoria da competitividade, amparada pelo Banco de Desenvolvimento Interamericano (BID), denominado “Programa BID”. Tal programa foi firmado em 2008, numa cooperação entre a Secretaria de Desenvolvimento do Estado de S. Paulo, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae-SP) e a Federação das Indústrias do Estado de S. Paulo (FIESP), denominada a Rede Paulista de APL. Dessa forma, considerando as implicações da Globalização na elaboração de políticas de desenvolvimento urbano e regional, o objetivo desse artigo consiste em apresentar esse Plano de Melhoria da Competitividade do Estado de São Paulo– “Programa BID”, responsávelpela competitividade de alguns APLs, especialmente em pequenas e médias cidades e aglomerados urbanos. À guisa de entender melhor a ação dessa política é utilizado o caso do APL de Bordados de Cama, Mesa e Banho de Ibitinga, nodesígnio de tecer uma avaliação do Programa referido. Para arguir a temática central, esse artigofoi organizado em quatro seções, sendo a primeira essa breve introdução. Na segunda seção são apresentadas algumas reflexões acercado “Programa BID”, uma política de desenvolvimento econômico para municípios e/ou aglomerados urbanos de pequeno e médio porte que possuem em seu território um Arranjo Produtivo Local (APL). Na terceira seção, é apresentado o APL de Ibitinga e sua grande influência na dinâmica urbana, visto no elevado grau de especialização do município, e comoo referido programa não vem contribuindo 124 satisfatoriamente para o desenvolvimento do arranjo. Por fim, na última seção são postas considerações acerca das potencialidades e limitações do Programa, a exemplo de Ibitinga. 2. DESENVOLVIMENTO REGIONAL E URBANO NO ESTADO DE SÃO PAULO: OS APLS E O PROGRAMA BID As transformações políticas e econômicas ocorridas desde a crise do petróleo em 1973 e o avanço do neoliberalismo nos EUA, Inglaterra, Sudeste Asiático e América Latina ajudaram a consolidar o processo de globalização caracterizada por uma atuação reduzida do Estado na economia e aceleraram a integração regional entre diferentes países, o que culminou na formação de blocos econômicos e na intensificação dos fluxos financeiros, de mercadorias, informação e pessoas.No Brasil, esse processo intensifica-sea partirda abertura comercial e redução das tarifas alfandegárias no início da década de 1990, das quais foram precedidas pela Constituição de 1988, que realizara uma nova organização política administrativa entre poder central e entes federados, atribuindo-os novas responsabilidades sociais e econômicas. No entanto, essa descentralização do Estado trouxe como resultado inúmeras distorções na questão dos recursos, provocando a dificuldade de manutenção da política fiscal encarada pelas regiões e municípios, suficiente para criar um ambiente de disputa fiscal entre as cidades e os estados federativos. “A descentralização estabelecida no país a partir da Constituição de 1988, elevando o município à categoria de executor da política urbana e ampliando suas condições de autonomia jurídica, política e financeira, conduziu a uma mudança no conteúdo das políticas públicas de desenvolvimento urbano. É neste contexto que as cidades médias ganham importância como centros econômicos”. (MOTTA; MATA, 2009, p 1) Com esse novo cenárioe o avanço das políticas neoliberais, fez-se necessário emergir novas estratégias de desenvolvimento urbano e regional. No momento de estabilização da inflação, estagnação econômica e mudança no papel do Estado, algumas localidades utilizaram-se de novos artifícios no intuito de garantir crescimento econômico, competitividade e autonomia.Novas políticas de caráter endógeno passam a compor a pauta das políticas públicas então. Surgem assimalgumas ações locais que 125 visamorganizar estruturas institucionais e projetos de desenvolvimento a partir de uma rede de atores, recursos e conhecimentos locais. Chega-se, nesse instante, às noções dedesenvolvimento territorial (Pecqueur, 2005; Dallabrida, 2006; Fuini 2011; Pires et al, 2011), reforçadas pela a existência de estruturas de coordenação e cooperaçãodos atores geograficamente próximos, denominada de governança territorial. Essas concepções teóricas ganharam suma significância nos contextos das cidades de pequeno, e principalmente médio porte, dada a sua centralidade e funcionalidade possuída a partir da globalização (num contexto geral) e da formação territorial de cada espaço existente. O interior do estado de São Paulo apresentou nos anos entre 1970 e 1990 um expressivo crescimento econômico derivado principalmente do processo de desconcentração da indústria ocorrida na metrópole paulista; da formação de um arcabouço técnico e recursos humano qualificados com a proliferação de centros de ensino e pesquisa; e dos investimentos em infraestrutura como aeroportos regionais e das rodovias. Nesse caso, as rodovias puderam ser entendidas como verdadeiros eixos dessa desconcentração industrial, uma vez que muitas das cidades com tais características estão localizadas exatamente a margem dessas vias. ParaSelingard-Sampaio (2009), é importante que se concebaessa reorganização espacial industrial e urbana do estado de São Paulo enquanto formação de uma grande aglomeração espacial da indústria. Essa aglomeração propicia envolver os municipios mais industrializados do país e integra-los às principais regiões metropolitanas do estado, como São Paulo, Campinas e São José dos Campos,resultando no multicomplexo territorial industrial (metropolitano/urbano) paulista, que apresentaproduções industriais e agroindustriais diversificadas. Assim, diferente do papel financeiro e global das grandes metrópoles no Brasil, as cidades médias, e mais especificamente as cidades do inteior paulista, sofreram grande impacto das transformações na economia e na política nacional e global. “Tomando-se como referência esses traços é que se considera de fundamental importância a compreensão das dinâmicas por que passam as cidades médias, pois essa análise, longe de se restringir ao plano de suas reestruturações espaciais, permite revelar os elementos da mudança de seus papeis econômicos, frente a tendência de complexificação das relações entre as 126 cidades, decorrentes da sobreposição das lógicas (...) – territorial, competitividade e em rede.” (SPÓSITO, 2001) Sobre as dinâmicas econômicas e a emergência de uma nova lógica espacial das cidades médias na globalização,PINTAUDI (2001) acredita que há uma tendência no aumento dos fluxos das trocas e consequentemente nas relações entre os espaços urbanos, aumentando sua complexidade e interdependência. Diante disso vê-se uma mudança do modelohierárquico de fluxos por um modelo em rede, onde: “A organização territorial é produto da rede de fluxos que se estabelece na cidade e que garante o seu funcionamento interno e suas relações com outros lugares. A cidade combina território e movimento através das redes. O antigo modelo – hierárquico - era pobre em relação entre dominante e dominado. Hoje há reciprocidade e uma nova organização do trabalho. Uma nova organização do trabalho corresponde há uma nova organização territorial. O fordismo apresentava do trabalho uma divisão hierarquizada e que reproduziu um espaço igualmente hierarquizado.” (PINTAUDI, 2001, p 285). Por tudo isso, a autora considera a organização territorial um fator de produção tão estratégico quanto o capital, a terra e o trabalho. O local, no momento que se relaciona com o global, necessita fortalecer suas instituições políticas e administrativas a fim de conseguir abranger toda a complexidade dessas relações em rede. Já segundo Spósito (2001), essas relações em rede são consolidadas por um ambiente de competição e também cooperação. Ao que tudo indica, a institucionalização dessas redes, coordenada com uma política de Estado, têm se mostrando uma importante ferramenta para o fortalecimento das economias dessas cidades ou de um aglomerado de cidades. Já é real a dialética local-mundial, nas bases de uma organização em rede, não mais hierarquizada. É a partir deste par que precisamos pensar as nossas instituições. Uma rede de cooperação entre instituições é um tipo de inovação institucional (a outra é tecnológica) que tem grande importância para o município, porque pode significar um impulso para uma tomada de decisão diante de problemas comuns ou semelhantes entre os integrantes da rede(PNTAUDI, 2001, p 286). 127 Um exemplo dessa articulação em rede posta em várias cidades do país, e também objeto de estudo desse artigo, são os Arranjos Produtivos Locais. No estado paulista são 24 APLs reconhecidos oficialmente pela Rede Paulista de APLs41, do qual o governo se apoia para a promoção de políticas públicas. Para a Rede, os APLs devem partir de uma concentração geográfica significativa de empresas, principalmente pequenas e médias, em comunhão de um mesmo setor ou mesma cadeia produtiva, mantendo algum vínculo de cooperação entre si e com outros agentes públicos e privados (São Paulo, 2014). É importante frisar que tal conceito utilizado é incapaz deabarcar todas as dimensões e articulações territoriais potenciais de um arranjo produtivo42. O Programa de Fortalecimento e Melhoria da Competitividade para empresas localizadas em APLs(PMC), surgiu em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e têm em seu objetivo fomentar a estrutura produtiva e organizacional de uma parcela das aglomerações industriais existentes em APLs do estado, assim como desenvolver a coordenação empresarial e institucional para a adoção de práticas competitivas nos setores dos APLs atendidos pelo Programa (BID/PMC/SDE-SP, 2008). Como plano de fundo, o PMC procura, através dos investimentos setoriais, propiciar o crescimento econômico, o fortalecimento das instituições locais e promover a redução das desigualdades entre as regiões. Para a consolidação do programa com o BID era necessário fortificar os mecanismos de governanças nesses APL, concebida pela formação dos Comitês Gestores, o que na verdade implicaria em fortalecer o próprio arranjo e incentivar a 41 A Rede Paulista de APLs é uma instância interinstitucional criada em 2007 com o objetivo de coordenar as políticas dos APLs no estado, desde a seleção dos setores produtivos com uma determinada aglomeração específica de empresas até a elaboração de projetos e programas para o desenvolvimento econômico dos mesmos. Ela é composta pela Secretaria de Desenvolvimento, coordenadora da rede, além da Federação das Indústrias do Estado de S. Paulo (Fiesp) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado de S. Paulo (SEBRAE/SP). 42 Para a Redesist, os APLs são “aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais - com foco em um conjunto específico de atividades econômicas - que apresentam vínculos mesmo que incipientes. Geralmente envolvem a participação e a interação de empresas - que podem ser desde produtoras de bens e serviços finais até fornecedoras de insumos e equipamentos, prestadoras de consultoria e serviços, comercializadoras, clientes, entre outros - e suas variadas formas de representação e associação”. (Redesist, 2003, p.3) 128 articulação e a cooperação dos atores envolvidos. Essa medida acabou dificultando o avanço dos investimentos do BID, já indicando uma grande fragilidade de articulação e envolvimento desses APLs. Mapa 1: Distribuição dos municípios inseridos no Plano de Melhoria da Competitividade dos APLs. Fonte: Elaborado pelo autor a partir da base da Fundação SEADE. A discussão sobre governança territorial não é um tema novo, sendo discutido com maior vigor desde meado dos anos 1980. Ela seria uma das principais ferramentas para garantir o desenvolvimento e competitividade dos municípios e das regiões, principalmente a partir do período de se evidencia o aumento das trocas comerciais e a formação de uma rede global. Desse modo, “Os conceitos de governança territorial resultam de estratégias dos atores coletivos que se engajam para coordenar ações que permitam resolver problemas locais e regionais oriundos da aglomeração, da especialização ou especificação territorial. Além disso, lançam as seguintes perguntas-chave sobre a regulação social e governança do território: Como os atores lançam 129 mão de determinados meios para construir um padrão de estabilidade social? Como os atores lidam com planos que contemplam opacidades sociais? Como são estabelecidas pelo planejamento as relações entre normas regulatórias, funções operacionais, responsabilidades decisórias e avaliações?” (PIRES &NEDER, 2008, p. 34). Na metodologia adotada pelo BID, os APLs serão reconhecidos a partir deuma determinada concentração geográficas de empresas e de instituições interconectadas numa área de atuação específica, configurando-se a existência de uma governança local. Com esses dois elementos (concentração de empresas e governança) são definidos “estágios de desenvolvimento” de cada arranjo, utilizados como critérios para a seleção do Programa BID – PMC. Os estágios são: - APLs consolidados: importantes para o desenvolvimento local ou para o setor em que estão inseridos, com governança local consolidada. -APLs em desenvolvimento: importantes o desenvolvimento local ou possuem participação expressiva no setor industrial em que estão inseridos, mas ainda não têm uma governança consolidada. - APLs embrionários: concentrações de empresas com pouca representatividade para o setor industrial, mas com potencial para o desenvolvimento da economia local, sem governança consolidada. Diante desse quadro, o APL de Ibitinga é classificado como “em desenvolvimento”, pois embora o setor tenha representatividade industrial, a consolidação dos mecanismos de governança ainda é baixa, instituída apenas por umsindicato patronal. Já sobre a execução governamental inicial do programa orientado pela Rede Paulista, a Secretaria de Desenvolvimento ficou designada pela coordenação técnica e administrativa dos arranjos; o Sebrae-SP concentrou esforços na capacitação dos agentes envolvidos, além de gerenciamento e fomento de projetos; a Fiesp contribui com análises e diagnósticos sobre o panorama econômico nacional e internacional, auxiliando na elaboração dos planos estratégicos e na capacitação e mobilização dos atores; já o BID insere-se com o suporte metodológico e financeiro de US$ 10 milhões. No total, o “Programa BID” disponibilizou U$ 20 milhões, uma vez que o Sebrae-SP ficou responsável pela metade dos recursos adquiridos. A tabela abaixo indica os 14 APL selecionados pelo programa, onde 43% das cidades-sedes dessa política são cidades médias e 36% são cidades pequenas. Se considerada todo o aglomerado urbano de cada APL participante, o Programa conseguiu abarcar 93 cidades em todos o estado. 130 Tabela 1: Arranjos Produtivos Locais comtemplados pelo PMC/SP Setor Calçados Construção Civil Móveis Confecção Plástico Etanol Médico Hosp. Odontológico Município Sede do Aglomerado Jaú, Franca e Birigui Itu, Tatuí, Tambaú e Vargem Grande do Sul São Paulo e Mirassol Cerquilho-Tietê, Americana e Ibitinga Região do ABC – paulista Piracicaba Ribeirão Preto Fonte: Secretaria de Desenvolvimento Econômico de São Paulo Como desenvolvido em estudos anteriores realizados pelo grupo de pesquisa “Estruturas de Governança e Desenvolvimento Territorial (CNPq-Unesp – Rio Claro)” esses municípios e aglomerados, embora compõem um território com estruturas produtivas, comércio e serviço bem desenvolvidos consolidados em uma rede de cidades complexa e especializada, não executam satisfatoriamente o Programa do BID, principalmente pela falta de institucionalização dos atores envolvidos no arranjo, dificultando o avanço da política. Na maioria dos casos estudados (APLs de Birigui, Piracicaba, Jaú, Franca, Cerquilho Tietê e Americana), a articulação entre os atores envolvidos é baixa, e o mecanismo de governança territorial muito incipiente, configurado apenas por um sindicato patronal do setor em questão. Cabe na sequência, avaliar os avanços e impasses desse programa no APL do município de Ibitinga, município com uma dinâmica urbana estritamente relacionada com a indústria de confecções. 3. O PROGRAMA BID E O APL DE BORDADOS DE CAMA, MESA E BANHO DO MUNICÍPIO DE IBITINGA Embora segundo os critérios estatísticos do IBGE Ibitinga seja considerada uma cidade de pequeno porte, a dinâmica urbana e econômica coloca o município em destaque nacional na produção de enxovais de cama, mesa e banho. A cidade possui mais de 54 mil habitantes (2012) e com grau de urbanização de 96%. Têm um PIB de 942,3 milhões de reais, com uma economia calcada na indústria e no comércio. O valor 131 adicionado industrial gira em torno dos 198,65 milhões de reais, correspondendo a 23% do valor total obtido pelo município. A cidade possui uma indústria altamente especializada e estruturada na atividade industrial da qual motivou a formação do APL. Segundo o acervo municipal de Ibitinga, o bordado apareceu na cidade em meados dos anos de 1930 a partir do trabalho artesanal e semi-artesanal de mulheres da época, que buscaram uma complementação da renda familiar. O avanço e a modernização da produção aconteceram com o advento das máquinas elétricas de costura da Escola de Bordados Singer, tornando-se atualmente na principal fonte de desenvolvimento econômico para a cidade. De acordo com os dados de 2010 da CNAE-RAIS, o município possui 525 indústrias, sendo 457 delas ligadas à confecção de vestuários e produtos têxteis, o que representa 88% das empresas do município. Em relação ao número de empregos formais gerados diretamente, a cidade possui mais de 15 mil vínculos ativos, sendo aproximadamente 8,2 mil provenientes da indústria, dentre os quais 87% está vinculado ao ramo produtivo do APL, como visto na tabela 2.43 Em relação ao tamanho das empresas, de acordo com a FIESP, em 2006 apenas 4% eram empresas de médio e grande porte eque correspondiam aproximadamente a 20% do faturamento local; o restante é concentrado em pequenas e micros empresas. Nos últimos anos, o setor vem aumentando o número de postos de trabalho e quantidade de firmas,identificando um crescimento de 20% desde 2006 no número de empresas, e 24% no número de empregos formais. Embora esses dados demonstrem um crescimento da atividade industrial do APL, o setor se desenvolveu basicamente pelo aumento do comércio interno, haja vista que a balança comercial setorial sofreu uma grande queda, passando de U$ 291.141,00 em 2005 para U$ 76.011,00 em 2010, representando um déficit de U$ 456.800. O município também entra em déficit no referido ano atingindo a cifra negativa de U$ -5.511.998,00(dados da Secretaria de Comércio Exterior). 43 Não foi possível identificar a informalidade do setor produtivo em questão, porém, segundo dados do último censo do IBGE, a porcentagem de trabalhadores informais (sem carteira assinada) no município de Ibitinga é de aproximadamente 11,2%. 132 Tabela 2: Número de Estabelecimentos e empregos no APL de Ibitinga, 2010. Estabelecimentos Empregos formais Ramo Total no município Indústria APL 1.816 525 15.017 8.245 do 457 7.177 Fonte: RAIS Todas essas informações vêm atestar a grande especialização produtiva que a cidade possui desde a segunda metade do século XX, não por acaso levando o título de capital nacional no bordado. A história do município de Ibitinga se mistura com o avanço econômico no ramo de confecções e com o trabalho em bordados, concebido hoje como parte da cultura local. Tudo isso indica a necessidade de investir em políticas que fortifiquem a cooperação e coordenação dos atores envolvidos local – empresários e sociedade civil – e o Estado, sempre presente e ativo, numa perspectiva de projeto nessa escala territorial, na tentativa de produzir recursos e ativos territoriais (Pecqueur, 2005), frente aos novos determinantes impostos pela globalização. “Em primeiro lugar, esses recursos só aparecem no momento das combinações das estratégias de atores para resolver um problema inédito. Mais exatamente, a própria formulação do problema ao mesmo tempo que sua solução, são objetos de um processo heurístico, feito de ensaios sucessivos, tateando e repetindo. Em segundo lugar, esses recursos não são mensuráveis, o que significa dizer que não podem ser expressos em preço; portanto não podem ser transferidos de forma alguma. Em terceiro lugar, a natureza parcialmente não mercantil desses recursos não é incompatível com o mercado mas lhe é complementar. Esses recursos resultam de uma longa história, de um acúmulo de memória, de uma aprendizagem cognitiva coletiva.” “Por fim, esses recursos são, em certos casos, produzidos num território, que se torna então “revelado”. A produção desses recursos resulta, pois, de normas, de costumes, de uma cultura que são elaborados num espaço de proximidade geográfica e institucional, a partir de uma forma de troca que não é mercantil: a reciprocidade.” (PECQUEUR, 2005, p.16) A organização que representa as empresas no município é o Sindicato da Indústria e do Comércio de Ibitinga (SINDICOBI) que possui cerca de 90 empresas 133 associadas no município, além de uma empresa em Tabatinga e outra em Itápolis. O aglomerado de empresas não possui um mecanismo de governança territorial instituída, mesmo com a exigência do Programa BID, do qual se previa a governança pela criação de um Conselho Gestor.Embora exista o Sindicato dos Trabalhos nas Indústrias de Confecções e Bordados de Ibitinga e Região (SINTRACOBI), a articulação deste com o SINDICOBI se limita às questões salariais. A prefeitura também não possui um envolvimento com as questões pertinente ao fortalecimento da cooperação e articulação das empresas (seja nas empresas envolvidas inicialmente no chamado “Projeto APL”, seja em todo o aglomerado), excetoem sua atuação na promoção de feiras especiais do bordado, realizada anualmente. As únicas instituições que mantinham acordos e projetos com o APL anterior ao “Programa BID” era o SEBRAE,que atuava no auxílio à gestão empresarial, e o SENAI, através do Programa Menor Aprendiz, destinado à capacitação de mão-de-obra qualificada. Esses acordos compõem o “Projeto APL”, uma ação iniciada há 11 anos, em que 20 empresas foram selecionadas para receber o apoio técnico/logístico dessas instituições mencionadas. O SINDICOBI é a principal organização interlocutora com a Secretaria de Desenvolvimento do Estado e responsável pelo “Programa BID” no aglomerado. O programa foi apresentado em 2009 por uma empresa especializada em competitividade empresarial. A partir de então a proposta demorou a tomar consistência, originando críticas de empresários e sindicato. Além do SEBRAE e SENAI, a FIESP está inserida no programa do BID em Ibitinga através do incentivo a criação do selo de identidade espacial e também por meio de treinamentos e assessorias para algumas empresas na cidade Sobre a proposta do selo, ele foi a primeira proposta do Plano na tentativa de criar uma marca canal44como forma de reconhecimento da qualidade e origem dos produtos fabricados em Ibitinga. Tal proposta apenas foi concretizada no término do ano de 2013.Outra medida financiada pelo PMC foi a criação do Centro de Qualificação de Ibitinga, com o intuito de capacitar mão-de-obra local, proposta similar ao já desenvolvido pelo SENAI anteriormente. Por último, há também a proposta pela prefeitura em criar um projeto de lei municipal que desburocratize a abertura, alteração 44 A proposta de criação de um selo de identificação inspira-se na ideia conceitual de Indicação Geográfica 134 e encerramento de empresas, além de ampliar a venda de produtos do APL para os órgãos públicos municipais. Apesar desses projetos realizados no PMC, e também apoiado nas análises sobre a proposta inicial do programa, poucas propostas foram postas em práticas, adquirindo resultados a baixo do esperado inicialmente. As ações em sua maioria foram pontuais e restringidas apenas as necessidades cotidianas e particulares de determinadas empresa. Não há um projeto de médio e longo prazo para o ramo, com temas e propostas universais para o eixo empresarial, nem para com o envolvimento maior dos trabalhadores. Embora haja um programa de capacitação de mão-de-obra, áreas como desenvolvimento de P&D ainda não se consolidaram dos projetos do Programa BID em Ibitinga. As ações mais visíveis são aquelas ligadas ao marketing, não havendo nenhuma preocupação em fortalecer a rede de empresas locais na cidade e na região. A governança territorial é inexistente, uma vez que apenas o sindicato patronal responde por todo o APL. Não há um comprometimento incisivo dos órgãos públicos, seja municipal ou pela Secretaria de Desenvolvimento, e não há vínculos formados com demais instituições de ensinos, sindicatos trabalhistas e instituições de outras localidades. Também inexiste qualquer programa que incentive a cooperação dos atores envolvidos, sobretudos empresários, muito menos uma agenda para projetos ou fundo local de investimentos conjuntos para inovação de produtos ou na engenharia de produção. Por fim, há um profundo descrédito por parte das lideranças do sindicato patronal e dos empresários locais (assim como também há pouca mobilização da prefeitura) quanto à criação de um conselho gestor, dificultando ainda mais a existência de uma governança forte. Desse modo, é possível constatar a pouca eficiência do Programa BID, começando pela própria governança territorial almejada, fundamental para o funcionamento e crescimento do Arranjo Produtivo Local. A governança territorial torna-se um elemento fulcral na elaboração e sucesso de públicas setoriais (tais como essas propostas feitas pelo Programa BID para dar competitividade ao setor de bordados e, consequentemente, impulsionar o desenvolvimento urbano-regional)assim como na coordenação e cooperação de empresários entre si (resolução de conflitos inéditos, estratégias de arrecadação e atração de investimentos, investimento em P&D) e para com outros atores do território. 135 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O novo ambiente de concorrência dado a partir da abertura comercial dos anos 1990 e o novo cenário político (descentralização do Estado) e fiscal (guerra fiscal) exigem que as cidades e as regiões possuam características e singularidades que as façam garantir vantagens competitivas locais. Para isso, a governança representa uma institucionalização dos atores espacialmente envolvidos capaz de produzir recursos e ativos específicos para tal fim. O Programa de Melhoria da Competitividade dos APLs, ou “Programa BID”, tem um positivo propósito em desenvolver políticas setoriais para as aglomerações urbanas de pequeno e médio porte que possuem uma determinada especialização produtiva, ou meros aglomerados de empresasunidas por mesmo ramo produtivo. Na verdade, esse programa procura potencializar tais aglomerações produtivas no intuito de constituir um verdadeiro arranjo produtivo, com conceitos aspirante aos distritos marshallianos. Porém, a proposta do BID antevê a institucionalização e articulação dos atores territorialmente envolvidos a partir de um mecanismo de governança, algo não desenvolvido e não valorizado pelo APL de Ibitinga, dado ao descrédito a criação do Conselho gestor municipal. Assim, constata-se que as políticas do “Programa BID”, uma vez pontuais e pouco expressivas, surtiram pouco efeito no fortalecimento do ramo produtivo, assim como na aproximação e cooperação dos atores envolvidos, tanto pelos empresários quanto a sociedade civil organizada e ao Estado, cujo papel ativo é fundamental para o desenvolvimento urbano (e territorial) em sua plenitude. REFERÊNCIAS BID, BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO. Programa de Fortalecimento da Competitividade das Empresas Localizadas em Arranjos Produtivos do Estado de São Paulo, 2008. Disponível em www.iadb.org/projectDocument.cfm?id=679159 . Vários Acessos. BENKO, G. A recomposição dos espaços. 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Decreto Nº 53.670, de 10 de novembro de 2008. Dispõe sobre a estrutura organizacional voltada à implementação do Programa de Fortalecimento da Competitividade das Empresas Localizadas em Arranjos Produtivos do Estado de São Paulo e dá providências correlatas. SELINGARDI-SAMPAIO, S. Indústria e território em São Paulo: a estruturação do multicomplexo territorial paulista. 1950-2005. Campinas: Editora Alínea, 2009. SPÓSITO, M.E.B. Novas formas comerciais e redefinição da centralidade intraurbana. In: Spósito, M.E. B. (org.). Textos e contextos para a leitura geográfica de uma cidade média. Editora FCT/UNESP. Presidente Prudente, 2001. PINTAUDI, S. M. Políticas Públicas municipais: entre o local e o mundial. In SPOSITO, M. E. B. Urbanização e Cidades: Perspectivas Geográficas. Presidente Prudente: [s.n], 2001 138 A PRODUÇÃO DO ESPAÇO DOS BAIRROS DE TRABALHADORES RURAIS EM CIDADES DO AGRONEGÓCIO NO ESTADO DE SÃO PAULO Cássio Arruda Boechat45 Resumo Este artigo apresenta uma proposta de interpretação do processo histórico de constituição de bairros de trabalhadores rurais em cidades do agronegócio no estado de São Paulo. Assim, delineia-se uma abordagem igualmente histórica que visa identificar o momento anterior da urbanização, atrelado à expansão da cafeicultura. Nesta passagem do meio natural ao meio técnico, segundo a concepção de Milton Santos, as relações campo-cidade que problematizamos incorrem num processo de territorialização do capital que culmina na formação de áreas hoje consideradas como os centros das referidas cidades. Num segundo momento, traçamos elementos da transformação que levaria à conformação do meio técnico-científico-informacional. Neste contexto, circundamos dois sentidos da produção do espaço desses bairros de trabalhadores rurais. Palavras-chave: Bairros de trabalhadores rurais. Cidades do agronegócio. Produção do espaço. 1. FORMAÇÃO DE CIDADES NA EXPANSÃO CAFEEIRA SOB O PRISMA DO CORONELISMO E DO COLONATO A passagem do meio natural para o meio técnico deu-se de maneiras diversase antecede a consolidação do meio técnico-científico-informacional. No caso da ocupação territorial do estado de São Paulo, houve uma violenta tomada das terras indígenas por posseiros, a maioria oriundos das Minas Gerais, que ali se instalaram46. De nossa parte, 45 Pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ), sob supervisão do Prof. Dr. Sérgio Pereira Leite. Bolsita de PDJ do CNPq. Pesquisador junto ao Grupo de Estudos em Mudanças Sociais, Agronegócio e Políticas Públicas (GEMAP). 46 A discussão se as culturas indígenas constituiram, por si, um meio técnico ou mesmo se essa “frente de expansão” (Martins, 1975) também o fez, pode incorrer em perspectivas classificatórias e civilizatórias, ou tão-somente numa aceitação de um processo longo de constituição do referido meio. M. Santos (2002, 139 achamos por bem, antes de incorrer numa história do povoamento atrelado à cafeicultura, frisar que este se deu como fase final de um processo anterior de territorialização que constitui um capítulo do genocídio indígena, na assim chamada “Guerra dos bárbaros” (Puntoni, 2002). Aquela expansão, articulada à expansão da pecuária pós-colonialismo, não levava necessariamente à constituição de núcleos urbanos, porém certamente um primeiro boom de formação de vilas pelo Oeste Paulista diz respeito à transformação das posses ali consolidadas. Lembremos que Pierre Monbeig caracterzou a frente pioneira do café como uma “sementeira de cidades” (Monbeig, 1998), mas qual a relação aqui buscada? O movimento do povoamento de fins do século XIX até meados do XX guardava relações de complementaridade com a territorialização dos pressupostos da fazenda cafeeira, de modo que os centros antigos das pequenas cidades, geralmente constituídos a partir da doação de patrimônios para a Igreja Católica, respondiam à necessidade de legalização de posses estabelecidas à revelia da legislação em vigor a partir da Lei de Terras de 1850 (Silva, 1996). A constituição de patrimônios era, assim, uma parte do processo de legalização das posses, transformadas, a partir disso, em propriedades privadas, algo que procuramos dar conta analisando o caso de Olímpia-SP (Boechat, 2009). Além disso, o coronelismo, que caracterizou a chamada Primeira República (Nunes Leal, 1979), constituiu, de certa forma, a mediação da divisão territorial em que a cafeicultura se assentou, ao mesmo tempo em que representou uma expansão da infraestrutura do poder estatal, organicamente fundida ao poder particular dos grandes fazendeiros, segundo a maneira como o compreendi (Boechat, 2009 e 2013). O poder do coronel sobre a cidade local era a base do poder estadual num processo de expansão também do Estado, ainda que fusionado ao capital que se territorializava. Pode-se perguntar se a cidade não poderia ser compreendida, até então, como o espaço complementar de materialização tanto do povoamento dos sertões como do coronelismo republicano. cap. 10) parece levar a crer que a noção de meio técnico não se aplicaria a essa primeiras ocupações e usos do meio natural. Discutimos questões relacionadas a essas interpretações em Boechat, 2014. 140 Simultaneamente, a expansão da cafeicultura e do povoamento se articula com aquela das companhias ferroviárias, a ponto de Monbeig concluir sua tese identificando no Oeste Paulista antes a formação de “regiões ferroviárias do que econômicas” (Monbeig, 1998). A efemeridade das relações sociais dinâmicas da frente pioneira não havia permitido, segundo o geógrafo francês, a constituição de gêneros de vida próprios. A ferrovia, no entanto, possibilitava a expansão das lavouras e a mobilidade do capital47 e do trabalho, fomentava o crescimento de algumas cidades e decretava o fim ou a decadência daquelas mais distantes das suas estações. À sua maneira, mecaniza-se o território (Santos, 2008). A expansão e seletividade desse sistema de engenharia se consistia, portanto, num aspecto central do meio técnico, determinando não apenas o sistema de ações da dinâmica cafeeira, como também o sistema de objetos no qual se incluía aspectos da produção do espaço das cidades a ela atrelada. A discussão sobre o caráter constitutivo de uma região, incluindo sua recuperação como conceito fundante de uma geografia regional e objeto de crítica tanto de uma Geografia quantitativa como de uma Geografia autodenominada de crítica48, foi central em nossa pesquisa de mestrado. Nela, tomamos o caminho de compreender a territorialização de relações sociais de produção e de relações particulares de poder do Estado em formação como constituindo uma região do colonato (ver Boechat, 2009). Daí a importância de articular a territorialização do capital com as questões da autonomização de suas categorias (terra, trabalho e capital), pensando particularmente nos casos da contradição encontrada nas figuras do colono, do coronel e da fazenda. Ressaltamos, porém, na abordagem que agora propomos, uma retormada breve de parte desse estudo pelo viés particular da urbanização na modernização dessas condições regionais. Para tanto, propomos aqui pensar ligeiramente na cidade daquela “região do colonato” em comparação com a cidade que se formou a partir da dissolução dessas relações sociais particulares. Cidade esta que pode ser qualificada como “corporativa” 47 Certo é que o capital inglês, que financiava tal expansão, articulava-se com o capital conjugado das principais famílias de cafeicultores (ver Cardoso de Mello, 2009), determinando o direcionamento dessa expansão também pelas relações do coronelismo local e estadual. O coronelismo, desse modo, também representava a mediação que personificava a territorialização do capital financeiro na frente pioneira, algo que Raymundo Faoro (2008) ressaltou à sua maneira. 48 Para uma observação dessas passagens na História do Pensamento Geográfico, ver M. Santos, 2008c. 141 (Santos, 2008c; Elias, 2003; e Elias, 2007) ou mesmo como “cidade do agronegócio” (Elias, 2007). Em suma, pode-se caracterizar um processo de constituição dos centros antigos da maior parte das cidades locais do interior paulista como tributário das relações próprias da expansão dessa cafeicultura. Organizado em torno do patrimônio doado aos bispados da Igreja Católica, o núcleo de povoamento modificava-se rapidamente com a instalação de uma infraestrutura (ou sistema de objetos) decisiva para a ligação das fazendas produtoras com o mercado mundial. Concentrava um comércio de mantimentos e ferramentas, sobretudo para o uso daquelas fazendas, bem como máquinas para o beneficiamento do café e de outras produções agrícolas, como o arroz e o algodão. Ainda, um incipiente setor de serviços (hospitais, farmácias, matadouros, etc.) e de pequenas manufaturas (marcenarias, ferralherias, etc.) completava uma paisagem urbana que também recebia um contingente grande de imigrantes e migrantes mobilizados primordialmente para o trabalho nas fazendas. Estas fazendas eram mais do que meras unidades produtoras de café, sendo também local de moradia de trabalhadores e de muitos dos seus proprietários. Ademais, segundo a fórmula como se organizou o trabalho no sistema do colonato, parte das mesmas fazendas se destinava às plantações e criações dos próprios trabalhadores (Martins, 2000). A cessão parcial dos meios de produção complicava, portanto, a caracterização do colono como simples assalariado, ao mesmo tempo em que tornava a fazenda uma unidade contraditória (Franco, 1984). Realizamos (Boechat, 2013) essa discussão, demonstrando que a contradição do colonato se expressava espacialmente na contraditória constituição espacial da própria fazenda. Entendemos, ainda, o processo de expansão da cafeicultura para o Oeste Paulista como embasado num projeto de modernização que articulou a legislação fundiária com uma política de incentivo à imigração em massa, possibilitando o questionamento efetivo da colonização até então ancorada no escravismo. Este projeto foi denominado de “colonização sistemática” pelo seu teórico, o economista inglês E. G. Wakefield, e visava equacionar a possibilidade de acumulação de capital no contexto de abundância de terras “livres” a potencialmente “desviar” os trabalhadores do trabalho 142 para o capital, levando-os a ocupar meios de produção para si mesmos49. O colonato aparecia, assim, como aplicação particularizada desse projeto, na qual o acesso aos meios de produção no interior das fazendas mediava o trabalho do colono também no cafezal. Por mais que ali se produzisse parte dos meios de vida de quem nela residisse, a fazenda, entretanto, seguia dependendo do suprimento pelo comércio instalado nas cidades próximas de mercadorias complementares, não sendo efetivamente uma unidade autônoma do mercado em geral. Igualmente, por outro lado, sua produção seguia sendo encaminhada para o beneficiamento e a comercialização que se davam, principalmente, nessas cidades locais. A colonização sistemática conduzia, portanto, a uma paralela urbanização, num processo que constitui parte da rede urbana e transforma a vida social. 2. CRISE E MODERNIZAÇÃO NA TRANSFORMAÇÃO DA EXPANSÃO CAFEEIRA E DA URBANIZAÇÃO As crises da cafeicultura como um todo se reiteravam desde princípios do século XX, ganhando proporções agigantadas a partir de 1929. As respostas econômicas a essas crises, materializando um processo de diversificação da produção em direção a certa policultura, passariam a testar tanto a incorporação às fazendas cafeeiras da pecuária e de outras produções agrícolas (entre elas, principalmente: cana, laranja e algodão), assim como surgia como alternativa o parcelamento das grandes propriedades (ver Prado Jr., 1935; Monbeig, 1957; e Milliet, 1982). Paralelamente, as redes de relações que comandavam a urbanização no território paulista faziam com que São Paulo se transformasse em metrópole, cujas relações com a expansão e as crises da cafeicultura nem sempre foram ressaltadas como sendo de complementariedade. Teoricamente encharcada por um pensamento dualista50, a metrópole se apresentaria, cada vez mais, como contraposta às pequenas e médias cidades do interior, 49 Para um resgate da implantação dessas políticas, ver Cirne Lima, 1990, e Costa, 1998; e para uma crítica ao projeto de Wakefield, ver Marx, 1985, cap. 25. Estas questões fundamentaram boa parte de nossas pesquisas até aqui, sendo apresentadas tanto em Boechat (2009) como em Boechat (2013). 50 Ver crítica ao dualismo em Oliveira (2003); porém, a primeira parte do terceiro capítulo de Boechat (2013) procura uma crítica diferenciada ao dualismo. 143 de modo que o desenvolvimentismo (sobretudo a partir do pós-guerra) apontaria seguidamente o “atraso” destas em relação à modernidade materializada naquela. No entanto, também no interior desse locus de modernidade, a segregação da população trabalhadora em cortiços e favelas indicaria semelhante dualismo próprio da metropolização (Seabra, 2004b), numa desigual apropriação da suposta liberdade (contraditória) da cidade. De todo modo, o espraiamento (Elias, 2003) ou a explosão (Seabra, 2004a) da metrópole seria uma marca distintiva desta em comparação com as demais cidades da rede urbana, ao menos até certo período. É de se lembrar, todavia, que a década de 1930 foi marcada por uma recessão também em escala mundial. O rompimento com parte dos fundamentos do complexo cafeeiro se dava, pois, em meio à crise, como movimento de mudança local relacionado a transformações num nível geral da sociedade mundial produtora de mercadorias (Kurz, 2000). Desse modo, se o coronelismo estava sendo “combatido” pela urbanização, pela escolarização e ascensão de camadas médias, bem como pela industrialização e pela centralização política, a modificação interna da fazenda cafeeira contribuía para relativizar a centralidade da cafeicultura na economia nacional também com a adoção de novas lavouras e da pecuária. Tais fazendas, diante dos problemas econômicos e da busca por outros rendimentos, substituíam parte dos seus cafezais por outras plantações ou por pastagens, ou vendiam parte de suas terras para sitiantes. Neste contexto, o loteamento de propriedades rurais para a expansão das cidades podia representar um “retorno” econômico extraordinário face às dificuldades da agropecuária em crise. Como observou Orlando Valverde (2006), a citricultura da Baixada Fluminense se deparava com a transformação de suas terras em “improdutivas” pela sua fragmentação e comercialização de lotes, para suprir a demanda da urbanização daquela metrópole, sobretudo durante a crise da citricultura dos anos 1940-1950. Em ritmo menos avassalador, também em cidades locais e médias do interior paulista, a possibilidade do loteamento urbano se colocava para os proprietários fundiários de terras aos seus arredores. Crise e especulação certamente andaram juntas no crescimento das cidades neste período. O desenvolvimentismo, que positivava a modernidade da metrópole em processo de industrialização, embasaria uma modernização também da agricultura. A passagem da “colonização sistemática” à era da assim chamada Revolução Verde indicaria um processo de industrialização das relações sociais de produção no campo, 144 que se iniciava com a importação de tratores e insumos tidos por modernos. Enquanto essa importação representava uma mitigação da crise de superprodução de economias recém-egressas do pleno emprego promovido pelo conflito mundial (Harvey, 2005), possibilitava também uma expansão intensiva da produção agrícola e uma mudança do esquema de expansão extensiva até então vigente51. Do ponto de vista das fazendas, o uso de maquinário e de insumos permitia transformar as condições de uso de solos antes inadequados para o cultivo do café. A entrada de outros cultivos rentáveis pressionava para a reincorporação de terras cedidas para os trabalhadores52. Máquinas tornavam relativamente menos “necessários” trabalhadores e a existência de um mercado de trabalho alocado nas cidades53 fazia deixar de ser prioridade a manutenção de trabalhadores morando no interior das unidades produtivas, sobretudo com as maiores facilidades de transportes e a redução dos salários (ver Stolcke, 1986; e Graziano da Silva, 1981). Rompia-se, assim, a 51 A própria industrialização nacional, por sua vez, dar-se-ia através da substituição de parte dessas importações (ver Furtado, 2000; e Tavares, 1972). Entre elas, a constituição de uma indústria nacional de tratores e de adubos representaria um primeiro passo para a industrialização da agricultura (Delgado, 1985; e Graziano da Silva, 1981). Entretanto, apenas a partir da sistematização de um Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), em 1965, a generalização do uso desses insumos poderia vir a ocorrer, com o Estado financiando o consumo produtivo dessas mercadorias, que aumentavam a composição orgânica dos capitais agrícolas (ver Boechat, 2013, cap. 3). Assim, a intensificação da produção agropecuária podia ter seus custos de reprodução rebaixados a ponto de se equiparar aos custos e rendimentos provenientes da forma extensiva de uso do solo e do trabalho, até então vigentes. 52 Mudanças na legislação trabalhista, com o Estatuto do Trabalhador Rural, de 1963, e na legislação de parcerias e do uso partilhado da terra, com o Estatuto da Terra, de 1964, completariam um quadro em que o colonato seria radicalmente transformado em seus fundamentos. O questionamento das terras, internas às fazendas, destinadas para uso dos trabalhadores acabaria por inviabilizar o esquema conjugado de reprodução desses. 53 Para o caso de áreas como as da chamada Alta Sorocabana, em torno de municípios como Assis-SP e Presidente Prudente-SP, autores como Brant (1976) e D’Incao (1979) indicariam um processo de transformação em que a crise da cafeicultura, sua substituição pela pecuária e pelo algodão, levavam à migração do campo para as cidades. A ausência de um simultâneo processo de industrialização nessas cidades, porém, fazia com que o engajamento dos trabalhadores mobilizados seguisse se dando, ainda, em atividades rurais ou esporadicamente no comércio e na construção civil. O mercado unificado de trabalho simples se dava, assim, de maneira bastante crítica. 145 unidade contraditória da fazenda, que passaria a se especializar apenas como local de produção, “expulsando” de seu interior as condições de reprodução do trabalhador. Foi nestas condições que se formaram as primeiras turmas de trabalhadores boias-frias, logo coordenadas por turmeiros, que descontavam parte dos ganhos de seus subordinados, agenciados nos bairros periféricos das cidades e levados em ônibus até os pomares (ver Brant, 1976 e Baptistella, 1998). Não tardaria para um mesmo esquema mobilizar trabalhadores em outros estados para o trabalho no agronegócio paulista. Paralelamente, o sistema de financiamento e de incentivo governamental que fomentava a utilização dessas mercadorias nas fazendas facilitava a instalação de indústrias processadoras das mercadorias agropecuárias. A industrialização a montante e a jusante da produção agropecuária se mostrava como uma nova integração entre agricultura e indústria, conformando o que alguns autores teorizaram como um complexo agroindustrial (ver Graziano da Silva, 1981; Delgado, 1985; Paulillo, 2006). A citricultura teria uma integração semelhante, constituindo-se, assim, o complexo agroindustrial citrícola (ver Martinelli Jr., 1987; e Paulillo, 2006). Tem-se, assim, a constituição do meio técnico-científico-informacional, dotando o território de maior fluidez e mecanizando o espaço de maneira que a informação passa a ser variável indispensável na reprodução social. Nele, as cidades adquiriram novos sistemas de objetos, para retomar a terminologia de M. Santos (2002, 2008a, 2008c), culminando numa integração que também pode ser concebida como uma produção de um espaço (Elias, 2007) no qual a reprodução ampliada dos capitais aplicados na produção de mercadorias agroindustriais determina a refuncionalização das cidades, a ponto de poderem ser concebidas, a partir de então, como “cidades corporativas” (Santos, 2008a; Elias, 2003). Diante deste contexto, indicamos a conformação de novas relações campo-cidade. 3. LOTEAMENTOS URBANOS DERIVADOS DA DISSOLUÇÃO DO COLONATO: A URBANIZAÇÃO NA MODERNIZAÇÃO CRÍTICA DA AGRICULTURA DOS ANOS 1970 E 1980 Com o processo de modernização acima recuperado, a cidade, incluindo as pequenas e médias do interior paulista, aparecerá gradativamente mais como o local da infraestrutura, dos bens e dos serviços necessários a esta transformação. 146 Além de centralizar a circulação da mercadoria agrícola, a cidade será onde se concentrará o comércio de maquinários e insumos essenciais para a nova agricultura e suas demandas. Será também o local privilegiado dos bancos que farão a mediação do financiamento dessa modernização e de órgãos estatais de controle, pesquisa e supervisão. Será, ainda, onde se organizará o mercado de trabalho de trabalhadores rurais, agrônomos e técnicos mobilizados para o seu consumo produtivo nas fazendas e sítios. Será, por fim, onde se localizarão as indústrias processadoras dos complexos agroindustriais, modificando as matérias-primas em mercadorias industrializadas ou semi-industrializadas para o mercado interno ou para a sua exportação. A paisagem urbana da metrópole parece articular um “mar de prédios” à sucessão interminável de “laje e bloco” de suas periferias, como sintetiza Seabra (2004a), fazendo-se perder a conexão imediata com a topologia, a hidrografia e a vegetação onde inicialmente a cidade se situou (ver Monbeig, 1957). Por sua vez, as cidades do agronegócio aparecem, em geral, com uma paisagem contraposta em que o centro antigo e os bairros residencias mais recentes, por mais que se diferenciem quanto às suas construções, estão corriqueiramente cercados por imensas plantações, como na “leitura espacial” feita por Maria Ap. de Moraes Silva: “A homogeneidade espacial foi produzida em função da destruição (muitas vezes utilizando-se máquinas) das casas dos ex-colonos, parceiros, sitiantes, dos engenhos e até mesmo de antigas usinas. À “leitura espacial” de antes, seguiu-se uma outra “leitura” definida pelas imensidões dos canaviais entrecortados pelos laranjais, cafezais, algodoais, onde, segundo um antigo morador “até mesmo os pássaros foram embora”, e pelas cidades dos trabalhadores rurais. Estas assemelham-se a cidades fortificadas. Ao invés das pedras, o verde destes produtos constitui-se em suas próprias muralhas, em seus próprios limites”. (Silva, 1993; 31). Porém, Moraes Silva (1993) vai além e distingue três tipos de pequenas cidades de trabalhadores rurais. Numa primeira, haveria a cessão direta de moradia aos trabalhadores pela empresa, formando quase que uma vila de operários cativos, como em Santa Ernestina-SP. Numa segunda, haveria a acima referida divisão entre centro e periferia, como em Altinópolis-SP e Serrana-SP, com os trabalhadores confinados mais às vilas e bairros periféricos. Por fim, haveria aquelas em que, além da distinção acima, estas vilas e bairros apresentariam um processo de favelização, “caracterizadas pela 147 falta de infra-estrutura urbana: rede de esgoto, ruas asfaltadas, etc.” (Silva, 1993; 31), como em Guariba-SP. Trata-se, pois, de uma urbanização que se dá de forma bastante desigual, não apenas na comparação entre diferentes casos de cidades, mas também no interior dessas cidades. A desigual apropriação do espaço urbano e o recente espraiamento dessas cidades permite a constatação de “áreas luminosas” (Elias, 2003) nas quais reluz os sistemas de objetos que cumprem as funções primordiais da reprodução ampliada do capital agroindustrial articuladas àquelas em “opacas” em que se reproduz boa parte de sua população, acionando o circuito inferior da economia (Santos, 2008b). Os bairros de trabalhadores rurais que primeiramente se formaram nos arredores dos centros antigos daquelas cidades, muitas vezes derivaram de loteamentos de sítios e fazendas que aproveitaram o processo de transformação das relações sociais de produção. Foram frutos, portanto, do processo de migração de trabalhadores que deixaram de ser colonos e camaradas das fazendas antes cafeeiras. A infraestrutura desses loteamentos, como indica o trabalho de Silva (1993), variou, embora tenha normalmente sido bastante deficiente, ao menos num primeiro momento. As condições de trabalho e de remuneração que passaram a enfrentar esses moradores também contribuiram para a constituição de moradias precárias e um comércio informal. Deu-se, com isso, uma produção do espaço que, no conjunto, poderia ser compreendida como parte de uma “urbanização crítica” (Damiani, 2004). 4. LOTEAMENTOS ATUAIS NO CONTEXTO DA CRISE E DA FINANCEIRIZAÇÃO DA SOCIEDADE: CRISE DA CITRICULTURA E DO TRABALHO NA URBANIZAÇÃO CRÍTICA Apresentamos nossa compreensão sobre os fundamentos e as expressões da crise do complexo agroindustrial em nossa tese de doutorado (Boechat, 2013). Alguns de seus aspectos podem ser brevemente retomados. Ali, sugerimos uma compreensão do fundamento da crise como oriundo da própria modernização da agricultura. Isto é, retomando o termo de Lencioni (1985), a intensificação do capital na agricultura, a partir dos anos 1960, representou mais do que a proletarização do trabalhador rural, ao que se ateve aquela autora. Indicamos que esse processo condizia com um aumento da composição orgânica dos capitais, em que a 148 parte constante dos mesmos se tornava relativamente superior à variável, aquela que valoriza o valor pelo trabalho não-pago, produzindo mais-valia. Com isso, a tendência seria de se reduzir a base da valorização perante o montante do capital mobilizado, ainda que, contraditoriamente, a quantidade de mercadorias e a massa de lucro pudessem estar aumentando. Desse movimento crítico geral, tinha-se particularmente na história da agroindústria citrícola a observação de um processo de centralização de capitais, sobretudo no setor industrial. Por outro lado, a mecanização e o uso de insumos modernos, aumentavam os custos de reprodução do setor agrícola, ao passo que eliminavam relativamente a necessidade de emprego extensivo de força de trabalho em diversos elos da produção de laranjas. Enfim, o desdobrar de uma tendência de queda da taxa de lucro se contrapunha a diversos mecanismos de monopolização postos em prática e se camuflava perante outros de financeirização e de incentivo estatal. Quase que simultaneamente à derrocada da antiga cafeicultura e de seu sistema de trabalho, a conformação de novas relações sociais de produção apresentava logo um caráter de informalidade e intermitência quanto à contratação dos trabalhadores, algo que se permitia pelas dificuldades de contestação política da época, mas também pela crescente relativização da centralidade da força de trabalho na composição orgânica dos capitais citrícolas. Com isso, uma crise do trabalho se mostrava em gestação, embora a expansão das lavouras e das massas de lucros escamoteasse essa formação como sendo uma fase áurea da citricultura. A crise da citricultura, ainda que tenha se apresentado a partir dos anos 1980, parece ter sido adiada pela constituição de mecanismos de regulação que permitiram uma relativa divisão mais aceitável das massas de lucros entre citricultores e indústrias, num contexto de altos preços internacionais do suco concentrado, em muito ajudado pelas condições de produção paralelas na Flórida-EUA. Nos anos 1990, entretanto, com o diminuição do aporte financeiro do sistema de crédito rural subsidiado e com o acirramento da monopolização industrial54, a crise se expressaria de maneira mais violenta, no que denominamos de “espetáculo da auto54 A monopolização do setor de processamento do suco concentrado também fez por centralizar na mão de poucas empresas as indústrias existentes, levando ao fechamento de inúmeras plantas produtivas. Somente em Bebedouro, a fábrica da Cargill e a packing-house da Cutrale foram definitivamente fechadas, enquanto a da Louis-Dreyfus opera com capacidade reduzida. 149 destruição do complexo citrícola” (Boechat, 2013, cap. 3). Essa concepção catastrófica se deveu muito a um processo de aumento de custos e diminuição de preços finais, controlados pelos monopólios estabelecidos. Assim, desde então, numerosos pequenos sitiantes e mesmo produtores de médio porte têm abandonado a atividade, afetando potencialmente o nível de acumulação de capital do setor. Por sua vez, do ponto de vista do trabalhador, após um primeiro momento de desregulamentação dos contratos de colheita da laranja, delegados a falsas cooperativas de colhedores, durante os anos 1990, teve-se nos anos 2000 um maior controle estatal sobre os termos desses contratos, firmados a partir de então entre citricultores e trabalhadores, organizados geralmente em turmas (ver Baptistella, 1998 e Paulillo, 2006). Por mais que esse controle, feito principalmente pelo Ministério Público do Trabalho, represente a retomada parcial de direitos assegurados pela legislação trabalhista, a decadência de pomares e a saída de fazendeiros e sitiantes da citricultura tem diminuído postos de trabalho e piorado as condições dos que restam. Desse modo, a crise do trabalho parece se apresentar localmente para os trabalhadores antes engajados no complexo agroindustrial citrícola, tendo como agravante, ainda, a intensa mecanização da lavoura canavieira, observada na última década, diminuindo uma potencial alternativa de emprego. Este parece ser, portanto, o cenário de uma urbanização crítica que permeia e à qual se articula a constituição de novos loteamentos e a reprodução social dos antigos bairros de boias-frias e de trabalhadores em geral dessas cidades. Retomando a questão da precariedade dos bairros periféricos formados para abrigar o crescimento populacional de cidades como Bebedouro, o dinamismo da urbanização, no entanto, poderia incorporar áreas inicialmente favelizadas ao chamado “tecido urbano” pelo investimento estatal nessa infraestrutura, como também no fornecimento das próprias moradias tanto pelo extinto Sistema Nacional de Habitação, como pelas Cohabs (Conjuntos Habitacionais) e, recentemente, pelo Programa Minha Casa, Minha Vida. Neste processo, a mediação da política local seria decisiva e remeteria, ao menos em aparência, ao compromisso coronelista de outrora, reproduzindo práticas eleitoreiras. No entanto, o aporte de crédito para financiar tais obras de grande envergadura sugere uma generalização da produção do espaço antes aparentemente restrita ao consumo das classes média e alta da sociedade. No que se refere ao processo de 150 financeirização da economia nacional, Maria da Conceição Tavares (1972) afirmava que a Reforma Bancária e a re-organização da Bolsa de Valores tinham, ainda, ao seu lado a constituição de um sub-sistema voltado para a habitação, com o novo marco legal e a constituição de um Banco Nacional da Habitação. Neste sub-sistema da habitação, à maneira como o capital financeiro especulava com títulos de propriedade de ações, o mercado da habitação tentaria promover a liquidez necessária para uma expansão da construção civil, o que de fato teria ocorrido. Tavares (1972), no entanto, via um mercado imobiliário voltado, principalmente, para o consumo das classes média e alta das grandes e médias cidades. Os mecanismos de crédito não se generalizavam até então e a maioria da população entrava na promoção da urbanização, sobretudo como força de trabalho da construção civil. Não seria de se perguntar se esta produção espacial da periferia de pequenas cidades, atrelada à dívida pública, não seria expressão particular da financeirização da sociedade como um todo? Os próprios loteamentos de sítios e fazendas visando à construção de casas atreladas a tais linhas de crédito não seriam, ainda, expressões de uma reprodução crítica do agronegócio, cujos rendimentos decrescentes tornam-se gradativamente menos interessantes frente à obtenção de rendas fundiárias capitalizadas por meio da venda da terra? 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como justificativa da importância do estudo de cidades médias e locais, em contraposição aos estudos mais disseminados de Geografia Urbana sobre as metrópoles e, recentemente, também sobre as cidades médias (ver Damiani, 2006 e também Sposito, 2006), podemos citar a indicação dada por Pierre Monbeig, para quem: “A geografia urbana não se limita ao estudo das grandes capitais: cidades pequenas apresentam tanto interesse quanto as colmeias urbanas modernas e é quase sempre mais difícil precisar seu mecanismo e o ritmo mais calmo de sua vida, do que analisar as engrenagens bem lubrificadas, correndo a toda velocidade, das metrópoles imponentes. (...) o Brasil (...) tem suas cidades pequenas estreitamente ligadas à vida rural” (Monbeig, 1957; 36). 151 Esta ligação com uma vida rural, aparentemente mais calma e em oposição à modernidade veloz e imponente das metrópoles, é algo a ser repensado para as relações impostas pela modernização da agricultura a essas cidades do agronegócio. Transformadas para abrigar os trabalhadores egressos das fazendas, estas cidades adquiriram espaços periféricos, serviços diversos, pequenas e grandes indústrias e talvez um ritmo de vida semelhante ao observado nas metrópoles, a ponto de Sandra Lencioni concluir: “Essa paisagem urbana modificou-se radicalmente quando a intensificação do capital nas atividades agrárias prevaleceu significando a proletarização do trabalhador rural. Como decorrência, a relação entre agricultura e urbanização se traduziu na formação de periferias.” (Lencioni, 1985; 51). O estudo de bairros de periferia das cidades do agronegócio remete, portanto, à necessidade de entendimento dessa intensificação do capital nas atividades agrárias, conduzindo às mudanças do urbano, mas também a uma compreensão do lugar nesta configuração. Lugar este compreendido como resultado de processos mais amplos de transformação social e, ainda, como a potencial concretização particular de transformações que vão para além dele, modificando o plano geral. Na concepção de Milton Santos: “Num dado momento, o “Mundo” escolhe alguns lugares e rejeita outros e, nesse movimento, modifica o conjunto dos lugares, o espaço como um todo. É o lugar que oferece ao movimento do mundo a possibilidade de sua realização mais eficaz. Para se tornar espaço, o Mundo depende das virtualidades do Lugar. (...) A ordem global busca impor, a todos os lugares, uma única racionalidade. E os lugares respondem ao Mundo segundo os diversos modos de sua própria racionalidade.” (Santos, 2002; 338). Certa particularidade da racionalidade local e de sua conformação segundo a ordem global é, pois, o que se busca ao se enquadrar o caso das cidades locais do agronegócio paulista num estudo como o que aqui apresentamos, de maneira que, enquanto particularidade, representa uma compreensão única da reprodução social a que todos estamos submetidos, ainda que de formas distintas. Assim, o estudo da periferia de cidades não metropolizadas não tem interesse apenas para aqueles que a vivenciam, alçando-se como objeto de pesquisa relevante para toda a Geografia Humana. Parece152 nos, por isso, importante relacionar diferentes escalas de tempo e de espaço entre si, como sugere Sposito (2006). Neste sentido, compreendemos o cotidiano reiterado localmente como alçado à condição de conceito, de modo que a vida cotidiana parece ter emergido do plano das rotinas de maneira cindida, tal qual a forma social derivada do duplo da mercadoria – valor de uso e valor; trabalho concreto e trabalho abstrato (Seabra, 2004b). Assim, o plano concreto do viver nesses bairros, articula-se contraditoriamente com a personificação do trabalho nas lavouras, indústrias e comércio/serviços, e também com a personificação diferenciada do consumidor de mercadorias, motivado por uma indústria cultural, em relações constantemente permeadas por cisões de gênero e por outras diferenciações sociais (Sholz, 2010). Porém, a crise econômica e social que se generaliza, a partir de um fundamento de exclusão do trabalho vivo do processo de valorização do valor (Kurz, 1995), aponta para a constituição cotidiana de uma urbanização crítica, como sintetiza Amélia L. Damiani: “O mundo das massas despossuídas é a urbanização crítica. O mundo de uma economia que se realiza criticamente é a urbanização crítica. O urbano como centralidade de culturas, festas, desejos, encontros, necessidades, que é negado, é a urbanização crítica. O mundo do dinheiro, da equivalência, que, nos seus fundamentos e subterrâneos, move-se como relações de não equivalência, de exploração do trabalho, de expropriação de meios de vida e de produção, de embate entre formas do dinheiro – a do dinheiro como medida de valor e como meio de circulação, sintetizadas na forma do dinheiro como capital – é a urbanização crítica. A tábua rasa da história, o seu varrer, a produção da obsolescência precoce dos produtos vários, incluindo a cidade, para afirmar novos produtos, é a urbanização crítica.” (Damiani, 2004; 39). O drama da vida cotidiana nestas condições, em particular para o caso dos bairros de boias-frias de cidades locais do agronegócio, e não por isso livres da crise social que fundamenta aquela forma de urbanização crítica, motiva a pespectiva crítica desse artigo. Trabalhadores rurais, no caso aqui mais estudado, de uma citricultura em crise, porém mobilizados tanto para um modo de vida urbano, como para seguir em busca da 153 mediação tanto do dinheiro como do trabalho na reprodução de suas vidas; portanto, boias-frias cada vez mais condizentes com a condição social em vias de generalização, a saber, a de serem sujeitos do dinheiro sem dinheiro (Kurz, 2000). A conformação histórica dessa condição, especialmente no lugar enfocado, requer uma abordagem tanto da modernização da agricultura articulada à urbanização, como dos fundamentos e desdobramentos da crise e, com ela, da urbanização crítica também dessas manifestando-se nas pequenas cidades e, por meio delas, expressando-se de modo particular. REFERÊNCIAS BAPTISTELLA, Celma da Silva Lago. Colhedores de laranja na indústria paulista. Mestrado, DG, FFLCH-USP, São Paulo, 1998. BOECHAT, Cássio Arruda. O colono que virou suco: terra, trabalho, Estado e capital na modernização da citricultura paulista. Doutorado. DG, FFLCH-USP, São Paulo, 2013. _______. “O conceito de ‘pioneiro’ na Geografia, na contraposição de estudos sobre a expansão cafeeira e a citrícola”. In: Confins [online], no. 21, 2014. _______. Região do colonato: Mobilização do trabalho e autonomização do capital na área de Olímpia (1857-1964) do Oeste Paulista. Mestrado. DG, FFLCH-USP. São Paulo, 2009. 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Este “deslocamento” das unidades produtivas rumo às periferias visa a maximizar a reprodução dos capitais investidos na atividade secundária e promove uma série de impactos nas estruturas internas das cidades. No pós-guerra e, principalmente, após a década de 1970, muitas cidades médias tornaram-se destinos privilegiados para investimentos industriais de origens exógenas (nacionais e/ou estrangeiros), motivo pelo qual vivenciaram sensíveis alterações em suas dinâmicas socioespaciais. Palavras-chave: Industrialização. Localização industrial. Cidades médias. 1. DINÂMICA LOCACIONAL DAS INDÚSTRIAS - UMA ABORDAGEM MULTIESCALAR: A Geografia Industrial analisa as relações histórica e dialeticamente estabelecidas entre indústria e território (MENDÉZ e CARAVACA, 2008). Uma particularidade dessas relações consiste na vigência de dinâmicas locacionais distintas da indústria, que se diferenciam pela escala de análise (SELINGARDI-SAMPAIO, 2009). Em escala mundial, no pós-guerra, a progressiva internacionalização do capital financeiro e produtivo caracteriza-se pelos vultosos investimentos de firmas estrangeiras 55 Mestre em Geografia. Professor no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, campus de São João da Boa Vista (IFSP-SBV). 160 em regiões periféricas. A abundância de recursos naturais, a presença de mão de obra barata, as ações governamentais de fomento à indústria e as leis ambientais menos restritivas permitem a redução de custos produtivos nos países em desenvolvimento, trazendo melhores condições para reprodução dos capitais investidos (SELINGARDISAMPAIO, 2009). Além disso, a aplicação de recursos financeiros em regiões periféricas constitui estratégia para conter a desvalorização de capital nos países centrais por conta das crises periódicas de superacumulação típicas do capitalismo (HARVEY, 2005). A modernização dos sistemas de transportes e de comunicações é fundamental neste processo, na medida em que potencializa a permuta de materiais, indivíduos, capitais e informações em escala global, ao mesmo tempo em que reforça a disjunção espacial da produção pelas empresas multinacionais. Como consequência, conforma-se uma nova divisão internacional do trabalho com a inserção de novas áreas ao sistema de transformação industrial e a integração dos mercados nacionais, abrindo novas frentes à acumulação capitalista. O Brasil constitui um dos principais destinos para os capitais de origem externa, motivo pelo qual figura como um dos mais importantes Newly Industrialized Countries juntamente com a Índia, a China, o México e a África do Sul. O território de grandes dimensões, rico em recursos naturais; o enorme potencial do mercado consumidor e de trabalho, representado por uma das maiores populações do mundo; e a ação incisiva do Estado (União, Estados e Municípios) na promoção da indústria, justificam o poder de atração do Brasil junto aos investidores internacionais. A entrada maciça de capitais externos na economia brasileira promoveu a diversificação de seu parque industrial, acelerando os processos de urbanização e de integração do território. Contudo, o Brasil aderiu ao sistema mundial de produção como país periférico, porque manteve a dependência financeira e tecnológica aos países centrais. Em escala regional, até a década de 1970, a introdução de capitais externos destinava-se basicamente à Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), principal área de concentração industrial do país. O maior volume e qualidade das economias de aglomeração nesta área influenciaram grande parte das decisões locacionais dos empresários, haja vista seus papéis na redução de custos produtivos (ganhos de escala). 161 A maior atração exercida pela RMSP sobre as indústrias advém do desenvolvimento, da última metade do século XIX até a década de 1930, de relações tipicamente capitalistas no período áureo da produção cafeeira. As inversões de capital agrário na indústria, a expansão do mercado consumidor, o território melhor equipado e a urbanização mais intensa conferiram à capital paulista as melhores condições de acolher e sustentar a atividade industrial no Brasil (CANO, 1975, SELINGARDISAMPAIO, 2009). Com base na diversificação e consolidação de seu parque industrial, historicamente a metrópole paulistana condensou a maior parte da riqueza e de população, assumindo a primazia econômica sobre o território. A concentração das atividades econômicas acentuou os desequilíbrios regionais preexistentes no país, principalmente com a integração do mercado nacional devido à expansão da malha rodoviária (CANO, 1975, LENCIONI, 1991; SELINGARDI-SAMPAIO, 2009). Todavia, o excesso de atividades econômicas e habitantes nessa região manifestou “efeitos indesejáveis” ao funcionamento da indústria, principalmente após a década de 1970. A presença de deseconomias de aglomeração, como a valorização do solo urbano, a poluição ambiental, os congestionamentos da malha viária, a sindicalização da força de trabalho, dentre outras, acabaram por elevar os custos de produção na metrópole paulistana (LENCIONI, 1991; SELINGARDI-SAMPAIO, 2009). Por essa razão, iniciou-se um movimento de desconcentração da indústria no território nacional, quando muitas unidades produtivas se transferiram da RMSP e novos empreendimentos industriais foram implantados em outras cidades paulistas e Estados brasileiros. As cidades médias tornaram-se alvos preferenciais no processo de (re)localização dos estabelecimentos industriais, na medida em que disponibilizaram o suporte urbano (infraestruturas básicas, presença de mão de obra e serviços) necessário ao desenvolvimento da indústria, sem apresentar as deseconomias de aglomeração identificadas nas regiões metropolitanas e nos grandes centros urbanos. Além disso, muitos governos municipais, ansiosos em promover a industrialização local, utilizaramse da criação de distritos industriais e de subvenções fiscais para atrair fábricas (OLIVEIRA, 1976; MENDES e SELINGARDI-SAMPAIO, 1987). 162 Contudo, os impactos da desconcentração regional da indústria não atingiram as cidades médias de modo uniforme. Ao contrário, o que se observa é um maior dinamismo industrial nas cidades do Centro-Sul do país, principalmente naquelas bem localizadas em relação aos principais sistemas logísticos e aos mercados consumidores de maior relevância (DINIZ e CROCCO, 1996). Além disso, as cidades médias que tiveram sua industrialização (re)ativada neste contexto, em sua maioria, acolheram atividades mais padronizadas da produção ou as mais poluentes. A metrópole paulistana, por sua vez, manteve a primazia econômica sobre o território, especializando-se na oferta de serviços sofisticados e abrigando as atividades nucleares (gestão, desenvolvimento de novos produtos, publicidade e propaganda) dos principais grupos empresariais que atuam no país (LENCIONI, 1991). A dinâmica locacional das indústrias em escala regional caracteriza-se, portanto, pela aquisição de novas áreas ao circuito produtivo. Nesse processo, observase maior alcance da atividade industrial no território, com a reestruturação das hierarquias urbanas e a manutenção dos desequilíbrios regionais. Na escala local, intensifica-se a tendência de descentralização da indústria no espaço urbano, nos diferentes tipos de cidades, o que será discutido nos segmentos posteriores deste estudo. Independente da escala de análise, o movimento das indústrias no território tem por finalidade maximizar as condições de acumulação do capital em relação às condições técnicas de produção vigentes a cada contexto histórico (MENDES, 2011). Embora se diferenciem quanto ao alcance espacial, as diferentes dinâmicas locacionais da indústria mantêm entre si relações de reciprocidade, já que os lugares se articulam por meio de eventos com origem e realização nessas diferentes escalas geográficas (SELINGARDI-SAMPAIO, 2009). 2. LOCALIZAÇÃO INTRAURBANA DAS INDÚSTRIAS A principal tendência de localização intraurbana das indústrias consiste na descentralização das unidades produtivas. Este processo caracteriza-se pela realocação ou implantação de fábricas nas periferias ou subúrbios, sinalizando o declínio do centro e de suas adjacências enquanto destino privilegiado nas escolhas locacionais. 163 A descentralização das indústrias em meio urbano fortaleceu-se ao longo do século XX, permanecendo na atualidade. Nos países desenvolvidos, o fenômeno ocorre de forma mais intensa, tanto que existem experiências de “ruralização” da indústria na Europa (MENDES e SELINGARDI-SAMPAIO, 1987). No Brasil, suas principais manifestações consistem na suburbanização dos estabelecimentos em áreas metropolitanas e na periferização destes em cidades de menor porte. Nas cidades médias, Amorim Filho (2005) argumenta que a migração de fábricas das zonas centrais e pericentrais rumo às zonas periféricas e auréolas periurbanas intensifica-se paralelamente ao desenvolvimento urbano e industrial. As causas da descentralização da indústria são várias e despertaram a atenção de diversos estudiosos. Para Gachelin (1977), o processo encontra explicação nas dificuldades encontradas nas áreas centrais para ampliação da capacidade produtiva das indústrias, como a indisponibilidade de terrenos livres, o alto valor do solo urbano e conflitos com a vizinhança devido à produção de dejetos, maus cheiros, ruídos e aumento nos fluxos de tráfego. Para Dézert (1978), o mesmo fenômeno deve ser compreendido à luz das facilidades de se produzir nas áreas periféricas, como a oferta de terrenos amplos e baratos, a proximidade da mão de obra e os incentivos concedidos pelos governos locais para a instalação fora do centro. Para Borde et al (1980), [...] “a expansão das indústrias nas periferias urbanas deve-se, principalmente, às dificuldades crescentes de sua manutenção nas zonas centrais e pericentrais, ou seja, preço alto do terreno, poluição provocada pelas indústrias, dificuldades operacionais resultantes de problemas logísticos, isolamento em relação a complexos industriais localizados em outras partes da cidade, etc”. No Brasil, Mendes e Selingardi-Sampaio (1987, p. 61) consideram que: “o êxodo dos estabelecimentos industriais em direção às periferias urbanas pode ser explicado por inúmeras causas, dentre as quais se destacam: o alto preço dos terrenos nas áreas centrais das cidades, a necessidade de muitas indústrias em ocupar grandes espaços, inexistentes nas áreas centrais, a 164 necessidade de se evitar congestionamentos e poluição, a existência de incentivos para a localização em distritos industriais.” Em síntese, as dificuldades de operacionalização e de ganhos de escala (ampliação ou modernização da capacidade produtiva) dão origem às forças centrífugas que operam sobre os estabelecimentos consolidados nas áreas centrais e afetam as decisões locacionais futuras. Em contrapartida, a menor incidência dessas forças e o contato com economias de aglomeração presentes nas periferias reforçam a tendência geral de descentralização das unidades produtivas. A descentralização da indústria pode ocorrer de modo espontâneo ou induzido (MENDES e SELINGARDI-SAMPAIO, 1987; SAILER, 2010). No primeiro caso, a iniciativa de (re)localização nas periferias parte das empresas, enquanto que, no segundo, o Estado interfere diretamente nas escolhas locacionais. De acordo com Mendéz e Caravaca (2008), as ações estatais podem ser de promoção e/ou de ordenamento da indústria. As primeiras sustentam que a atividade industrial constitui o setor dinâmico por excelência da economia, por seus efeitos multiplicadores de emprego e renda. Desta forma, essas políticas visam à introdução, diversificação ou consolidação da indústria no território. A concessão de incentivos fiscais e creditícios constitui um dos principais instrumentos utilizados para subvencionar a implantação de indústrias nos municípios (SELINGARDI-SAMPAIO e CUSTÓDIO, 1995). Por outro lado, o ordenamento visa a racionalizar as formas de uso e ocupação das cidades. Este tipo de política tem por finalidade mediar conflitos entre as diferentes formas de uso do solo urbano (residencial, comercial, industrial, serviços, circulação, espaços públicos) nas disputas pelas melhores localizações. Para Mendéz e Caravaca (2008, p. 293), “trata-se, [...], de tentar resolver alguns dos problemas e conflitos provocados pelo choque de interesses contraditórios derivados da lógica do sistema capitalista e do livre jogo das forças de mercado”. No caso específico da indústria, as políticas de ordenamento procuram minimizar os efeitos negativos associados à concentração de estabelecimentos em áreas urbanas de ocupação mais densa, como congestionamentos, poluição ambiental e conflitos com o entorno. As normas urbanísticas, como as leis de uso e ocupação do solo, restringem cada vez mais a atividade industrial no centro das cidades. Em países 165 como a Espanha, inclusive, os governos locais institucionalizaram medidas para refuncionalização de conjuntos industriais decadentes do centro em usos residenciais, comerciais ou de serviços (PASCUAL e ANDRÉS, 2006). A criação de distritos industriais constitui a principal estratégia utilizada pela Administração Pública para fomentar e ordenar a indústria no território. Para Oliveira (1976), os distritos industriais são espaços previamente equipados para abrigar ou estimular a (re)instalação das unidades produtivas. Os critérios observados pelo planejamento na implantação de distritos industriais prezam pela racionalização dos sistemas de circulação e de comunicação interna; preparação dos terrenos (terraplenagem, fechamento de lotes); oferta de todo o equipamento de infraestruturas básicas (fornecimento de água e energia elétrica, saneamento básico, limpeza pública); e localização mais adequada em relação ao tecido urbano (MENDES e SELINGARDI-SAMPAIO, 1987). Sobre este último aspecto, convém frisar que a posição estratégica dos distritos industriais é de suma importância para se alcançarem os objetivos de promoção e ordenamento da indústria. Em geral, a implantação desses espaços ocorre nas periferias, junto às principais vias de circulação interurbana, permitindo o acesso facilitado aos fornecedores, clientes e mão de obra. Além disso, a (re)instalação das unidades produtivas nos distritos industriais, quase sempre, é facilitada pela cessão de incentivos fiscais e creditícios às empresas, o que reforça o movimento de periferização da indústria. Mendes e Selingardi-Sampaio (1987, p. 61) sintetizaram as principais vantagens da (re)localização de fábricas nos distritos industriais: [...] “preço do terreno menor do que o existente no centro da cidade, fato que possibilita ampliações futuras e mesmo a realização de reserva financeira; possibilidades de estabelecimento de linkages entre as indústrias concentradas e o desfrute de economias de aglomeração; uso de equipamentos comuns, como bancos, restaurantes, áreas de lazer, etc; benefícios de infraestruturas comuns, tais como serviços de água, energia, telefone, etc.; eliminação de congestionamentos." Apesar da orientação geral de periferização das indústrias, inclusive com o estímulo dos governos locais, o movimento de descentralização não anula de imediato 166 os padrões locacionais de tempos pretéritos, nem as necessidades espaciais específicas de alguns gêneros da indústria. De acordo com Ribeiro e Almeida (1980), muitas indústrias leves e de pequeno porte conseguem manter-se nas áreas centrais porque utilizam pequenas extensões de espaço e não produzem grande quantidade de resíduos. Outras indústrias, como as do gênero editorial e gráfico, priorizam a localização central em função da proximidade ao mercado consumidor mais relevante. Além disso, muitas fábricas com ano de fundação mais antigo permanecem nas áreas centrais por “inércia geográfica”, já que não dispõem de capital suficiente para a relocalização em outro sítio. Desta forma, na maioria das cidades coexistem dois padrões distintos de localização industrial. O primeiro caracteriza-se pela presença de pequenos estabelecimentos, de ramos tradicionais e/ou com ano de fundação mais antigo nas áreas centrais, geralmente próximos às linhas férreas ou principais vias de circulação rodoviária intraurbana. Este padrão denota a influência dos fatores locacionais clássicos (custos de transportes) em outras épocas e da “inércia geográfica”. Demonstra, também, a preferência explícita de muitos governos em atrair grandes indústrias de ramos motrizes aos distritos industriais, como Mendes e Selingardi-Sampaio (1987) observaram em Rio Claro (SP). O segundo padrão é representado pelas unidades produtivas de maior porte, de setores mais dinâmicos e/ou ano de instalação mais recente nas áreas periféricas, inclusive nos distritos industriais. Trata-se de indústrias que consomem grandes parcelas de espaço ou que atuam em setores poluentes, motivo pelo qual evitam a localização nas áreas centrais das cidades. Os dois padrões citados foram identificados em diversos estudos empíricos realizados em cidades do Brasil e do exterior, como será discutido na próxima seção do trabalho. Um aspecto mais recente que convém destacar dentro da dinâmica locacional intraurbana das indústrias incide sobre os impactos da reestruturação produtiva em meio urbano. A reestruturação produtiva surgiu como resposta aos entraves impostos pela crise do fordismo à acumulação capitalista a partir dos anos 1970. As principais estratégias utilizadas são a desintegração vertical das firmas, a “externalização” de fases ou processos produtivos (subcontratação e terceirização), a mecanização das fábricas e o 167 investimento em tecnologias e mercadorias sofisticadas ou inovadoras (MENDES, 2011). Nesse contexto, muitas fábricas não conseguiram se adaptar aos novos requisitos de competitividade associados à abertura dos mercados nacionais desde a década de 1980, e acabaram falindo ou sendo absorvidas por outras empresas. Por outro lado, muitas das indústrias que conseguiram se (re)estruturar aproveitaram a oportunidade para abandonar as áreas centrais, (re)localizando-se nas periferias, distritos industriais ou em parques tecnológicos. Suas novas plantas industriais, em geral, são mais modernas, flexíveis e adaptadas ao atual cenário das trocas econômicas (MENDES, 2011). Independente do motivo, o encerramento de atividades nas áreas centrais ou nos antigos espaços planejados pelo Estado deixa formas industriais obsoletas no espaço urbano, os brownfields. A presença de prédios ou conjuntos industriais desativados traz uma série de problemas às populações do entorno, além da desvalorização imobiliária. De acordo com Hummel e Mendes (2005, p. 6967 – 6968), “o fechamento de fábricas não traz somente o prejuízo do desemprego para os funcionários e do encerramento das atividades. Prédios e terrenos abandonados representam um transtorno para os moradores do entorno, porque muitas vezes são transformados em ponto de esconderijo para a marginalidade, depósito clandestino de lixo e criadouro de insetos. Muitos prédios abandonados são atualmente a causa da desvalorização de áreas centrais e bairros. Há também o problema ambiental presente em muitos brownfields que no passado abrigaram atividades poluentes.” Outro impacto da reestruturação produtiva sobre a dinâmica locacional intraurbana das indústrias consiste na mudança gradativa de conteúdo das políticas locais de fomento à atividade secundária. De acordo com Mendéz e Caravaca (2008), se no século XX almejava-se a implantação de grandes indústrias químicas ou siderúrgicas, atualmente privilegiam-se unidades produtivas intensivas em tecnologia e informação, haja vista seus papéis na promoção do desenvolvimento local/regional, além do menor impacto ambiental. Como resultado, além dos tradicionais distritos industriais, muitos municípios conjugam esforços para a criação de parques tecnológicos, incubadoras de empresas e 168 condomínios industriais, com o intuito de atrair indústrias de alta tecnologia. Políticas promocionais nesse sentido foram identificadas recentemente por Mendes (2007) em Atibaia (SP); por Sailer (2010) em São José dos Campos (SP); e por Mendes (2011) na cidade espanhola de Valladolid. Vale lembrar, por fim, que a sucessão dos padrões de localização intraurbana das indústrias reflete a mutabilidade das estratégias espaciais das firmas. Tais estratégias partem do pressuposto de que a localização mais adequada em meio urbano traz consigo a redução de custos operacionais da indústria ou a inserção mais competitiva no mercado. Para Mendes (2011, p.37), este é o princípio da “[...] racionalidade capitalista que se apropria dos melhores espaços e cria as condições necessárias de sua produção”. A variação nas tendências de localização intraurbana das indústrias, portanto, deve ser compreendida à luz das condições técnicas de produção vigentes em cada contexto histórico, das necessidades espaciais específicas de cada gênero ou tamanho dos estabelecimentos, e do próprio processo de produção do espaço urbano. Por essa razão, reforça-se que a dinâmica locacional intraurbana das indústrias deve ser apreendida de modo dialético. 3. DINÂMICA LOCACIONAL INTRAURBANA DE INDÚSTRIAS EM CIDADES MÉDIAS - ESTUDOS DE CASO: As tendências de localização intraurbana das indústrias suscitaram vários estudos sobre o comportamento espacial da indústria nas cidades médias, tanto no Brasil, quanto no exterior. A natureza empírica deste tipo de trabalho contribui para ratificar, complementar ou refutar o conteúdo das teorias que abordam esta temática, e permitem comparar se os padrões de localização se repetem em diferentes lugares. Na Espanha, Pascual e Andrés (2006) discorreram sobre a evolução do sistema produtivo e seus impactos na reestruturação espacial de Burgos. Esta cidade média desponta como um dos principais centros urbanos e industriais em sua região (Castilla y León), em partes devido à industrialização intensa porque passou entre 1964 e 1973. Nesse período, a cidade foi alvo das políticas de ordenamento territorial empreendidas pelo governo espanhol, as quais tinham como base ações de fomento à indústria. Como resultado, instalaram-se em Burgos grandes estabelecimentos de capitais exógenos, que diversificaram sua estrutura industrial. Aos tradicionais setores têxtil e alimentício, 169 capitalizados por recursos de origem local, somaram-se indústrias dedicadas à produção de peças para automóveis e à transformação de produtos metálicos (PASCUAL e ANDRÉS, 2006). No entanto, a crise dos anos 1980 constitui importante marco na história econômica de Burgos, com reflexos diretos na conformação de seus espaços industriais. As necessidades de modernização do aparelho produtivo no mercado globalizado contrastaram com a obsolescência das antigas unidades produtivas. As maiores indústrias conseguiram reestruturar-se mais rapidamente ao novo cenário. Estas, com o objetivo de racionalizar e ampliar a capacidade produtiva, optaram por se reinstalar nas áreas periféricas, onde existiam terrenos maiores e baratos, bem posicionados aos principais corredores logísticos. Contudo, muitos dos estabelecimentos de menor porte, principalmente de ramos tradicionais, faliram ou foram absorvidos por empresas de origem externa (nacionais ou estrangeiras). O fechamento dessas fábricas deixou brownfields no espaço urbano e todo o tipo de problemas associados às populações do entorno (PASCUAL e ANDRÉS, 2006). É interessante observar que, nesse contexto, a Administração Pública vem atuando diretamente na refuncionalização dos conjuntos industriais decadentes localizados no interior da cidade (Áreas de Transfomación), estimulando a implantação de usos residenciais ou terciários naquelas áreas. Os principais instrumentos utilizados consistem na adoção de normas urbanísticas restritivas à indústria nas áreas centrais e na criação de espaços planejados na periferia, como os parques tecnológicos, a fim de reestruturar o uso do solo e aumentar a competitividade das empresas (PASCUAL e ANDRÉS, 2006). Mendes (2011) também realizou um estudo sobre as consequências da reestruturação produtiva sobre as indústrias instaladas em outra cidade média espanhola: Valladolid. Sua análise recai, basicamente, sobre a readequação dos polígonos industriales ao novo requisito de competitividade concebido pela globalização: produção de mercadorias sofisticadas e inovadoras, intensivas em informação e tecnologia. Os polígonos industriales, assim como os distritos industriais brasileiros, são espaços planejados pelo governo na década de 1960, com o intuito de promover e racionalizar a indústria no território. Naquela época, a implantação dos polígonos industriales constituía importante estratégia para descongestionar as principais áreas 170 metropolitanas do país (Madrid e Barcelona), e desenvolver áreas interioranas na Região de Castilla y León, onde se localiza Valladolid (MENDES, 2011). À semelhança de Burgos, a reestruturação produtiva promoveu a falência ou modernização das atividades produtivas de muitas fábricas situadas nos polígonos industriales de Valladolid. Os interesses especulativos incidiam fortemente sobre os prédios abandonados ou subutilizados, em virtude da posição estratégica dos antigos polígonos industriales em relação às principais vias de circulação intra e interurbana e às áreas centrais da cidade. As principais alternativas empregadas pelo mercado imobiliário para a reutilização de áreas ocupadas pelos polígonos industriales consistiam na refuncionalização dos estabelecimentos por indústrias mais modernas e/ou pelo setor de serviços, ou na implantação de condomínios residenciais de luxo (MENDES, 2011). Mendes (2011) concluiu que a reestruturação produtiva reforçava a tendência de descentralização da indústria em Valladolid. Os antigos polígonos industriales das décadas de 1960/70, devidamente absorvidos pela cidade durante o processo de expansão urbana, perderam a capacidade de suporte e atração junto às atuais e futuras instalações da indústria, respectivamente. Isso ocorreu devido à obsolescência de suas estruturas físicas e aos transtornos relacionados à ocupação do entorno, como congestionamentos, valorização do solo, conflitos de vizinhança e poluição. No Brasil, em Rio Claro (SP), Mendes e Selingardi-Sampaio (1987) avaliaram os principais processos e formas espaciais envolvidos na dinâmica locacional intraurbana das indústrias no município. Os autores identificaram dois padrões de localização que se diferenciam pela fase de industrialização, origem dos capitais investidos, tamanho e gênero a que pertencem os estabelecimentos industriais. O primeiro padrão caracteriza-se pela instalação de unidades produtivas preferencialmente nas áreas centrais da cidade, junto aos terminais de transporte ferroviário ou às principais vias de circulação intraurbana. Esse padrão é típico das duas primeiras fases de industrialização de Rio Claro (SP) propostas por Selingardi-Sampaio (1987): a “pioneira” (1873-1929) e a “tradicional” (1930-1968). As indústrias leves (produtos alimentares, vestuário, editorial e gráfica), de pequeno porte, capitalizadas por recursos locais, são as mais representativas nesse universo de estabelecimentos industriais. A facilidade na aquisição de insumos, a proximidade do principal mercado 171 urbano e da força de trabalho, e a menor demanda por espaço justificam a localização central das indústrias nesses períodos (MENDES e SELINGARDI-SAMPAIO, 1987). A fase denominada “dinâmica” por Selingardi-Sampaio (1987) começou em 1969 e estende-se aos dias atuais. Caracteriza-se pela inserção de grandes volumes de capitais exógenos (nacionais ou estrangeiros) na economia local, consonante aos processos de internacionalização do capital financeiro e produtivo e de desconcentração da indústria paulista. Nesta fase, instalaram-se unidades produtivas de grande porte, representadas por gêneros mais dinâmicos da indústria, como as químicas, metalúrgicas e mecânicas. Enquanto grandes consumidoras de espaço, a localização central destas indústrias é preterida a favor da implantação periférica. A criação do distrito industrial na década de 1970 e a concessão de incentivos fiscais e creditícios pela Administração Pública Municipal reforçaram a tendência de localização dos estabelecimentos na periferia (MENDES e SELINGARDI-SAMPAIO, 1987). Mendes e Selingardi-Sampaio (1987) ressaltaram que os padrões de localização intraurbana das indústrias em Rio Claro (SP) não se anularam na passagem de uma fase de industrialização para outra. Ao contrário, coexistem no espaço urbano indústrias que se mantiveram na área central por “inércia geográfica”, outras que emigraram das áreas centrais e aquelas que se instalaram prontamente na periferia ou no distrito industrial. Em Presidente Prudente (SP), Spósito (1986/87) também analisou os diferentes padrões de localização intraurbana da indústria, com base no ano de fundação, tamanho e gênero industrial dos estabelecimentos. O autor identificou, no município, dois tipos de comportamento espacial das unidades produtivas: as pequenas e médias indústrias, principalmente as de fundação mais antiga, encontram-se localizadas na área central da cidade, junto aos principais eixos de circulação urbana; enquanto os estabelecimentos de maior porte e de instalação mais recente alocaram-se basicamente nas periferias, devido à existência de terrenos amplos e baratos. Em Araraquara (SP), Selingardi-Sampaio e Daltrini (1990) avaliaram as interfaces entre a modernização da agricultura e os processos de industrialização e de crescimento urbano no município. Até a década de 1940, predominavam na cidade pequenos e médios estabelecimentos, associados às inversões de capital agrário na indústria, sobretudo em ramos tradicionais. No entanto, a partir da década de 1940, a modernização da agricultura passou a impulsionar a atividade industrial araraquarense, 172 inclusive com a inserção de grandes somas de capitais exógenos (nacionais e/ou estrangeiros). Nesse momento, fortaleceram-se relações do tipo “indústria para a agricultura” e “agricultura para indústria”, responsáveis pela formação de complexos agroindustriais, com destaque para o setor sucroalcooleiro. Como em outras cidades médias, o crescimento e a diversificação industrial vieram acompanhados de maior complexificação do espaço urbano, visto que, com o maior dinamismo da economia local, intensificaram-se alguns problemas, como a expansão desordenada, a elevação do preço do solo, a segregação urbana, a poluição ambiental, entre outros. Em Bauru (SP), Toledo (2009) visualizou os padrões de localização intraurbana das unidades produtivas nos diferentes períodos de industrialização da cidade. O autor apontou que, até a década de 1960, a instalação das fábricas ocorria preferencialmente junto aos trilhos das ferrovias que cortam o centro da cidade. A partir dessa década, porém, os congestionamentos, a valorização do solo urbano, a poluição ambiental e os conflitos com a vizinhança sinalizaram a tendência de periferização da indústria. É interessante notar que, em Bauru (SP), a criação de distritos industriais data da década de 1960, o que atesta a preocupação precoce do governo municipal em racionalizar a indústria no território e atrair unidades produtivas que começavam a migrar da RMSP (TOLEDO, 2009). Sailer (2010) reconheceu os mesmos padrões de localização intraurbana em São José dos Campos (SP): presença de pequenas e médias indústrias, principalmente daquelas com ano de fundação mais antigo, na área central; e localização periférica daquelas de grande porte e/ou de instalação mais recente, principalmente junto às vias troncais de circulação intraurbana, às margens de rodovias, ou em distritos e condomínios industriais. O diferencial de seu trabalho reside na ênfase sobre as indústrias de alta tecnologia, atraídas pela ampla rede universitária e pela presença de instituições de base tecnológica em São José dos Campos (SP), como a Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A proximidade geográfica entre os estabelecimentos envolvidos na produção de novas tecnologias constitui fator locacional de suma importância, por facilitar a permuta de informações e reforçar as sinergias e cooperação entre as firmas. A criação do Parque Tecnológico de São José dos Campos (SP) teve 173 como objetivo condensar no espaço firmas inovadoras, de modo a fomentar a produção de mercadorias sofisticadas e desenvolver o município (SAILER, 2010). Em Poços de Caldas (MG), Oliveira (2012) constatou que a descentralização das unidades produtivas constitui a tendência predominante nas escolhas locacionais, mas não é capaz de eliminar lógicas pretéritas de localização, nem as necessidades específicas de espaço de alguns gêneros industriais. Por esse motivo, coexistem no espaço urbano dois padrões distintos de localização industrial: pequenos estabelecimentos e de gêneros tradicionais no centro e suas adjacências; e médios e grandes estabelecimentos, de gêneros mais modernos e/ou com ano de fundação mais recente nas periferias. A única ressalva à teoria e aos demais estudos empíricos mencionados anteriormente consiste na implantação de estabelecimentos com ano de fundação relativamente recente nas áreas centrais, ao invés dos mais antigos. Esta característica deve-se basicamente às peculiaridades do processo de produção do espaço urbano local, fortemente marcado pela concentração excessiva e histórica das principais funções urbanas (atrativos turísticos, gestão do território e prestação de bens e serviços nas escalas local e regional) no centro e suas imediações. No mercado imobiliário, o alto valor dos imóveis engendra alta rotatividade entre as formas de uso e ocupação do solo nas referidas áreas, como o demonstra a baixa incidência de bronwnfields no espaço urbano de Poços de Caldas (MG) (OLIVEIRA, 2012). 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS De modo geral, os estudos empíricos validaram a hipótese de que a indústria tende a se descentralizar nas cidades médias. O acúmulo de deseconomias de aglomeração (valorização do solo urbano, poluição ambiental, congestionamentos e conflitos com a vizinhança, dentre outros) e a aprovação de normas urbanísticas restritivas à indústria vêm minimizando a capacidade de sustentação e de atração das áreas centrais junto às fábricas. Por outro lado, a menor incidência destes fatores e a presença de espaços planejados (distritos industriais e, mais recentemente, parques tecnológicos e condomínios industriais) constituem estímulos à implantação industrial nas periferias. Além disso, em todos os exemplos mencionados, as cidades testemunharam diferentes padrões de localização das unidades produtivas, que coexistem no espaço 174 urbano e que deixaram resquícios na paisagem, como os brownfields, os distritos industriais, os parques tecnológicos, etc. Dessa forma, a análise da sucessão das tendências de localização intraurbana das indústrias permite captar a evolução das condições técnicas de produção, bem como seus impactos na dinâmica industrial e no próprio processo de produção do espaço urbano das cidades médias. REFERÊNCIAS AMORIM FILHO, O. B. Um modelo de zoneamento morfológico-funcional do espaço intraurbano das cidades médias de Minas Gerais. In: AMORIM FILHO, O. B.; SENNA FILHO, N. A morfologia das cidades médias. Goiânia: Vieira, 2005. BORDE, J. et al. Les villes françaises. Paris: Masson, 1980. CANO, W. Raízes da concentração industrial em São Paulo. São Paulo: Difel, 1975. DEZÉRT, B. L’amenagément de l’espace industrialisé. In: DERRUAU et al. 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