A ESCOLA DE DANÇA COMO ESTRATÉGIA SOCIAL DE FORMAÇÃO
COMPLEMENTAR PARA ADULTOS
FUHRMANN, Ivana Vitória Deeke – FURB – [email protected]
EIXO: Sociologia da Educação / n. 15
Agência Financiadora: FURB
INTRODUÇÃO
O texto a seguir apresenta os primeiros resultados de uma pesquisa em
andamento que se propõe a investigar o que predispõe certas pessoas a freqüentarem
uma escola de dança. O estudo tem por objetivo compreender, a partir da construção
social das disposições artísticas, as razões do ingresso na escola de dança, bem como as
relações axiológicas e os sentidos que permeiam esse processo.
A investigação partiu do pressuposto de que a cultura não é um privilégio
natural e a prática cultural não é um dom ou uma questão de sensibilidade inata ligada à
emoção, pois existem condições sociais que predispõem o acesso a esse privilégio.
Entende-se que, uma pessoa não nasce com o talento para a dança, geneticamente pode
apresentar um físico apropriado, entretanto, é necessário aprender, estudar e
desenvolver-se e isto depende de ações estratégicas de apropriação de bens culturais.
Assim, deixando de lado o olhar encantado sobre o próprio dom e fugindo de
explicações fáceis, buscam-se autores da Sociologia da Educação (Pierre Bourdieu,
Émile Durkheim, Peter Berger) e da Dança-Educação (Isabel Marques, Dionísia Nanni)
para entender como fatores sociais e familiares levaram as pessoas a desenvolver seu
“dom”, procurarem uma escola de dança, persistirem e, por vezes, distinguirem-se no
caminho artístico da dança.
EM CENA: UM PLANO DE AÇÃO
Elegeu-se como campo de investigação o Pró-Dança de Blumenau – Escola de
Ballet do Teatro Carlos Gomes, em Blumenau/ SC, fundada em 1987, a qual oferece
aulas de ballet clássico, dança contemporânea, sapateado e alongamento. Considera-se
relevante mencionar que a escola tem uma representação simbólica e ocupa uma
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posição privilegiada no campo artístico e cultural da cidade, oferecendo um tipo de
capital cultural por meio da prática educativa da dança, como também pela apreciação
dos espetáculos nela apresentados.
A pesquisa utiliza como instrumentos e técnicas para a coleta de dados,
questionários com perguntas abertas e fechadas, com uma amostra de alunos
(adolescentes e adultos) e pais das crianças da escola. Para a construção do corpus da
pesquisa, tomou-se conhecimento da estrutura do Pró–Dança obtendo-se dados junto à
secretaria da escola, em junho de 2007. (Quadro 1)
Quadro 1 – Número de turmas e alunos, idade e sexo por modalidade, do Pró-Dança de
Blumenau, SC, em junho de 2007.
Modalidades
Número de
Número de
Idade
Sexo
turmas
alunos
(anos)
Fem. Masc.
Ballet clássico
22
175
3 a 41
175
-
Dança contemporânea
6
56
8 a 50
49
7
Sapateado
16
168
4 a 66
164
4
Alongamento*
1
3
adultos
3
-
Total de alunos: 290**
* A turma de alongamento não é foco de interesse, pois tal modalidade não é dança.
** Vários alunos cursavam mais de uma modalidade ofertada pela escola.
Destarte, foram levados em conta vários critérios na escolha dos 97 alunos
selecionados para responder o questionário, com o intuito de maximizar a
representatividade da amostra. Para tanto, não foi priorizado nenhum estilo de dança e a
seleção aconteceu entre os praticantes das três modalidades, de diferentes níveis
técnicos e distintas faixas etárias. Diversificou-se ainda a seleção dos alunos
considerando alunas que competiam em festivais de dança e prestavam exames da Royal
Academy of Dancing, instituição da qual a escola é credenciada, bem como alunos do
sexo masculino e bolsistas.
A investigação abordou nível de escolaridade, condições econômicas, hábitos,
práticas culturais, transmissão do capital cultural, experiências pessoais e os motivos
para a prática da dança, com a finalidade de abarcar o universo social dos alunos e suas
razões para o ingresso na escola de dança.
A princípio, se elegeu duas hipóteses para as razões do ingresso na escola de
dança. Uma, diz respeito ao interesse pela profissionalização na dança e a outra visa o
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prazer de relacionar-se com a mesma, associado não somente com o ato de dançar por
desejo e lazer, bem como com a inculcação das disposições artísticas para apreciar a
dança como espectador.
Buscou-se, com base no material empírico, compreender as teias de relações que
permeiam o processo e os significados atribuídos pelos alunos às suas escolhas,
utilizando para tanto as noções de campo, espaço social e simbólico e habitus na análise
dos dados.
Neste artigo, serão apresentadas as primeiras análises dos questionários
aplicados, em setembro de 2007, a 33 alunos adultos, dos quais, 30 responderam ao
questionário. Em relação à variável sexo, o grupo é composto por seis homens e 24
mulheres, sendo cinco alunas bolsistas. Quanto à faixa etária, a idade variou entre 18 e
64 anos.
AS PRIMEIRAS LEMBRANÇAS
Indagados sobre o primeiro contato com a dança, os alunos associaram a fatores
como dinâmicas internas das famílias e a influência da escola (ensino fundamental).
Percebe-se que a ação educativa da dança, por vezes é conduzida pela família
tornando-se mais eficiente se a pessoa recebe em casa a predisposição constituída pela
familiaridade proporcionada pelo contato precoce com a arte da dança. Assim vai
desenvolvendo o habitus, conceito desenvolvido por Bourdieu (1996), criando
disposições gerais para agir, pensar, perceber e sentir, formadas pelos traços do sujeito,
sua propriedade, sua maneira de ser, ou seja, inscrições para além do corpo,
internalizadas, incorporadas e socialmente construídas, como se observa nas respostas
dos alunos. “Com cinco anos minha avó paterna me levou para assistir um espetáculo
de dança e isto despertou meu interesse” (Isadora, 64 anos) menciona uma aluna, “[...]
através da minha irmã mais velha que já dançava [...]” (Marta, 22 anos), comenta
outra, ou “[...] com três anos pedia para minha mãe colocar disco de música clássica e
dançava na sala com um tutu que fiz ela comprar” (Cláudia, 29 anos), e, “[...] não
tenho certeza, mas minha família tinha o hábito de assistir muitos filmes, a lembrança é
cinematográfica, daqueles filmes americanos como Cantando na Chuva, já que quando
criança, não conheci nem vi nenhum sapateador” (João, 28 anos), nas palavras de mais
dois alunos.
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Já em relação à escola (ensino fundamental), os dados indicaram que a mesma
pouco contribui para sensibilizar os alunos para arte da dança como menciona uma
aluna, “Meu primeiro contato com a dança foi na escola, mas não tinha técnica
nenhuma e a professora nem sabia o que estava fazendo [...]” (Cristina, 18 anos), e
conforme outra, “[...] foi na escola, mas era uma dança qualquer para apresentar em
festinhas comemorativas” (Joana, 20 anos), “foi na escola, acho que era dança alemã,
não sei ao certo, pois não era explicado, a gente só dançava” (Antônio, 27 anos),
comenta outro aluno. Assim, constata-se que a escola apresenta limitações na produção
dos códigos e mecanismos para compreender com plena fruição as obras de arte da
dança, criando apenas uma estética prática onde a arte não se completa,
impossibilitando a educação para um apreciador ou praticante culto. Pois, segundo
Bourdieu e Darbel (2003, p. 71), “a obra de arte considerada enquanto bem simbólico
não existe como tal a não ser para quem detenha os meios de apropriar-se dela, ou seja,
de decifrá-la”, dessa forma, é necessário desenvolver a familiaridade com os códigos da
dança para compreendê-la. Esta familiaridade, por sua vez não pode ser transmitida por
preceitos ou prescrições, deve ser vivenciada e conquistada.
Quando o aluno apresenta os modos de apreciação e distinção para a dança,
incorporados deste a infância, pela ação da família e/ou escola não existe tensão, o gosto
vai se instalando produzindo as disposições artísticas que são inculcadas de forma
suave. Apreciar é diferenciar e o aluno só pode diferenciar se conhece os códigos do
campo artístico, condição imprescindível para pertencer a esse campo. Conforme
menciona Bourdieu (1990, p. 158), campo é o “lugar de relações de força e de lutas que
visam transformá-las ou conservá-las” e é no interior dos campos que se constrói o
habitus adotado pelos agentes sociais como esquemas de apreensão e percepção e como
esquema de produção de práticas que sempre revelam a “posição social em que foram
construídos”.
A QUESTÃO ECONÔMICA
Os alunos investigados encontram-se no espaço social em diversas camadas
econômicas. Percebe-se que as características econômicas e sociais determinam ou
favorecem a entrada e permanência na Escola de Dança. Os alunos com maior potencial
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aquisitivo entram na dança mais cedo e o contrário acontece com os alunos menos
favorecidos economicamente.
“Quando criança (6, 7 anos) era levada ao dentista no Sindicato do Comércio
(prédio em frente ao Teatro Carlos Gomes) e observava da sala de espera as meninas
subirem as escadarias do teatro para ir ao ballet”. (Eduarda, 32 anos)
Na resposta da aluna, percebe-se a vontade de dançar desde a infância.
Entretanto, só foi possível realizar este desejo no início da fase adulta quando já
trabalhava e passou a apresentar condições financeiras para tal. O mesmo observa-se na
fala de outras alunas, “[...] por volta dos dez anos tinha vontade de fazer dança, mas
não fiz, pois não tinha condições, iniciei somente aos 26 anos” (Margarida, 30 anos),
“sempre quis dançar desde criança, mas meus pais não tinham condição de pagar,
iniciei somente com 34 anos” (Bernadete, 42 anos). Segundo Bourdieu e Darbel (2003,
p. 53),
Na medida em que as aspirações são sempre analisadas de acordo com
as possibilidades objetivas, o acesso à cultura erudita, assim como a
ambição de ter acesso a ela, não pode ser o produto milagroso de uma
conversão cultural, mas, no estado atual, pressupõe uma mudança de
condução econômica e social.
Ou seja, concorda-se com Berger (1986, p. 107) quando menciona que “a
localização social não afeta apenas a nossa conduta; ela afeta também nosso ser”.
OUTRAS PRÁTICAS CULTURAIS
Quando investigados sobre as práticas culturais, percebe-se que a dança é
vivenciada atualmente pelos alunos como uma disposição artística independente de
outras práticas culturais. Concebida, sim, como um capital cultural, não há, entretanto,
investimento substancial em outras áreas culturais na maioria das vezes. Somente seis
alunos investigados praticam, atualmente, alguma outra atividade artística (artes
plásticas, teatro ou música). Em contrapartida, 11 agentes, já praticaram alguma outra
atividade artística durante a infância. A prática cultural da dança está associada à
atividade artística pelo movimento físico, fato demonstrado pelos alunos.
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Todos os 30 alunos investigados salientaram que praticam dança por acharem
importante cultivar uma prática artística como atividade complementar e, ao mesmo
tempo, por estarem fazendo uma atividade física.
OS INCENTIVOS DA FAMÍLIA
Os homens que praticam dança, em sua maioria, afirmaram ter iniciado nesta
atividade somente quando adultos, apenas um iniciou no final da adolescência. Quando
questionados se a família incentiva à prática da dança, as respostas foram bastante
divergentes. “Era um sonho da minha mãe ser bailarina, então ela incentiva” (Fábio,
37 anos) afirma um aluno, “[...] acham interessante, mas incentivar é uma palavra que
remete a ação e o fato de ser homem compromete o incentivo” (João, 28 anos),
sentencia outro. Identificou-se também que nenhum homem pratica o ballet clássico,
somente sapateado ou dança contemporânea.
Já as mulheres, mesmo as que iniciaram na dança na fase adulta, procuram pelos
três estilos oferecidos na escola e relatam contar com o apoio da família das mais
variadas formas: “[...] a família apóia com satisfação a minha escolha” (Maria, 35
anos) declara uma das alunas, “[...] assistindo as apresentações e pagando a
mensalidade” (Rosa, 20 anos) afirma outra, “[...] meu marido me incentiva a fazer
cursos e a seguir a profissão se possível” (Margarida, 30 anos) sentencia uma terceira;
ou ainda: “[...] meu marido reveza nos cuidados com a casa e com as crianças para
que eu possa vir à aula” (Paula, 40 anos), “[...] acham bom que eu pratique dança pelo
exercício e pela saúde” (Beatriz, 28 anos) nas palavras de mais duas alunas.
POR QUE ENTRAR NA ESCOLA DE DANÇA?
Quanto às razões do ingresso na escola de dança foi possível dividir os alunos
em quatro grupos:
•
Sete alunos do sexo feminino que estão na dança desde a infância e buscam a
profissionalização ou já são profissionais da dança (participam de festivais, são
ou pretendem ser professores, prestam exames profissionais);
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•
Seis alunos do sexo feminino que estão na dança desde a infância e permanecem
praticando por gosto e lazer (adquirir coordenação motora, ritmo, flexibilidade,
socialização);
•
Adultos de ambos os sexos, sendo cinco do sexo masculino e nove do sexo
feminino, que não tiveram oportunidade de freqüentar anteriormente uma escola
de dança, iniciando na fase adulta e praticam dança por gosto e lazer (adquirir
coordenação motora, ritmo, flexibilidade, socialização);
•
Adultos de ambos os sexos, sendo um do sexo masculino e dois do sexo
feminino, que não tiveram oportunidade de freqüentar anteriormente uma escola
de dança, iniciando depois de adultos com a intenção de se profissionalizarem na
dança.
ABREM-SE AS CORTINAS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
As primeiras análises indicaram que a predisposição para a prática da dança não
é completamente determinada pelo pertencimento a uma classe social e, portanto, se
encontra associada também a outros fatores como dinâmicas internas das famílias e as
características “pessoais” dos alunos.
As hipóteses de trabalho se confirmam e percebe-se que o ingresso na escola de
dança acontece visando à profissionalização na dança ou o prazer de relacionar-se com
a mesma, agregando a atividade artística com a atividade física.
Pode-se associar a falta de clareza dos adultos que iniciam a prática da dança na
fase adulta e ainda tem o objetivo de profissionalizarem-se com a carência de
conhecimento sobre as disposições artísticas, desvantagem inicial daqueles que, em seu
meio familiar e na escola não encontraram a incitação à prática cultural.
Desta forma, a Escola de Dança é percebida como uma estratégia social,
oferecendo a possibilidade de desenvolver as disposições artísticas, bem como busca
um modo contemporâneo de socialização, pois visa um pólo erudito com instâncias de
produção cultural consagradas, seja por meio da formação de platéia para dança ou da
profissionalização de seus alunos.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERGER, Peter. Perspectivas Sociológicas: uma visão humanística. 7 ed. Petrópolis:
Vozes, 1986.
BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990.
__________. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.
BOURDIEU, Pierre; DARBEL, Alain. O amor pela arte: os museus da arte na Europa
e seu público. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003.
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a escola de dança como estratégia social de formação