A aquisição de “letramento” nas transformações dos conteúdos e das práticas
políticas comunitárias com base em uma nova heterogênese do conhecimento e
da informação
Regina Célia Pereira de Moraes
DSc em Engenharia de Sistemas e Computação
COPPE/UFRJ
Supervisora: Professora Doutora Lena Vania Ribeiro Pinheiro
Rio de Janeiro
2010
Rio de Janeiro
Regina Celia Pereira de Moraes
Mestre em Ciência da informação
Doutora em Engenharia de Sistemas e Computação
Dezembro//2010
IBICT - Grupo de pesquisa: Comunicação e Divulgação científica
Professora Doutora Lena Vania Ribeiro Pinheiro
1
1 CONCEITOS.............................................................................................................................................................4
2 INTRODUÇÃO.........................................................................................................................................................9
2.1 OBJETO DO ESTUDO.....................................................................................................................................14
2.1.1 O OBJETO EMPÍRICO: VILA CANOA ................................................................................................... 15
2.2 OBJETIVO GERAL ......................................................................................................................................... 17
2.3 OBJETIVOS ESPECÍFICO..............................................................................................................................17
2.4 DIRETRIZ DA PESQUISA ..............................................................................................................................17
2.5 DIRETRIZES SECUNDÁRIAS.......................................................................................................................17
3 METODOLOGIA..................................................................................................................................................18
4 MARCO TEÓRICO...............................................................................................................................................21
4.1 O CICLO DO CONHECIMENTO FREIRE, BRAGA E CRISTÓVÃO.........................................................21
4.2 YVONNE GEBARA: O PODER E O NÃO PODER DAS MULHERES........................................................24
4.3 MICHEL FOUCAULT – A MICROFÍSICA DO PODER................................................................................25
4.4 ALAIN TOURAINE – O FIM DO SOCIAL E A SOCIEDADE CULTURAL...............................................26
4.5 FEMINIZAÇÃO DO PODER – DENISE PINI ROSALÉM DA FONSECA..................................................27
4.6 LETRAMENTO (LITERACY) NA AQUISIÇÃO DE COMPETËNCIA - MAGDA SOARES...................28
4.7 AÇÃO SOCIAL E SUBJETIVIDADE – A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER..............29
5 APRESENTAÇÃO DOS DADOS DA PESQUISA..............................................................................................32
5.1 ENTREVISTA COM D. Y. – EX-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DA PEDRA
BONITA...................................................................................................................................................................32
5.2. ENTREVISTA COM DONA I. _ ATUAL PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DE
VILA CANOA E PRESIDENTE DA UNIÃO DE MULHERES...........................................................................34
5.3 ENTREVISTA NÃO ESTRUTURADA COM A UNIÃO DE MULHERES DE VILA CANOA – GRUPO E
FOCO COM QUATRO MULHERES E UM HOMEM ........................................................................................... 45
6 CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS À PESQUISA SOBRE A FEMINIZAÇÃO DO PODER ...........................51
6.1 O CICLO INVERTIDO DE AQUISIÇÃO DO CONHECIMENTO...............................................................51
6.2 MAPA DAS LIDERANÇAS FEMININAS EM VILA CANOA.....................................................................54
6.3 OS DOIS CICLOS SE COMPLEMENTAM - UMA COMUNIDADE DE PRÁTICAS (C OP) EM
COMUNIDADE DE EXCLUÍDOS - .....................................................................................................................56
6.4 OS DOIS CICLOS GNOSIOLÓGICOS SE COMPLEMENTAM...................................................................58
6.5 O CUBO DO PODER – PRÁTICAS ORIUNDAS DA ESFERA RELACIONAL – O CICLO INVERTIDO
DA INFORMAÇÃO................................................................................................................................................59
7 DESENVOLVIMENTO A FUTURO....................................................................................................................63
8 CONCLUSÕES.......................................................................................................................................................67
8.1. O QUE FOI QUE CONTRIBUIU PARA O DESENVOLVIMENTO GNOSIOLÓGICO COMUNITÁRIO
E, COMO ELE VEM SE CONSTITUINDO? .........................................................................................................68
82. O QUE ESTIMULOU O DESENVOLVIMENTO DE LIDERANÇAS QUE SE CARACTERIZOU POR
UMA FEMINIZAÇÃO DO PODER?..................................................................................................................... 68
8.2.1 A informação como sinônimo de fato.........................................................................................................69
8.2.2 A Informação como coadjuvante de decisão............................................................................................. 70
8.2.3 A informação é trocada com o mundo exterior, e não meramente recebida.............................................70
8.2.4 A informação tem o efeito de transformar ou reforçar o que é conhecido ou julgado conhecido por um
ser humano..........................................................................................................................................................71
8.2.5 A informação é a liberdade de escolha que se tem ao selecionar uma mensagem: é algo necessário
quando enfrentamos uma escolha. .....................................................................................................................71
8.2.6 A Informação é matéria prima de que deriva o conhecimento e pode ser definida em termos dos seus
efeitos no receptor...............................................................................................................................................72
2
8.3. ESTE NOVO INDIVIDUALISMO ATENDE ÀS NECESSIDADES DE CRESCIMENTO MENTAL,
EMOCIONAL E ESPIRITUAL DA COMUNIDADE?..........................................................................................72
8.4. ESTE FENÔMENO CARACTERIZA O QUE ALAIN TOURAINE CHAMA DE SOCIEDADE
CULTURAL, ANUNCIANDO O FIM DO SOCIAL? ...........................................................................................73
8.5. QUAL É O NOVO PAPEL POLÍTICO DE MULHERES E HOMENS NESTE NOVO CONTEXTO
CULTURAL DE FEMINIZAÇÃO, MAIS ECOLÓGICA DO PODER? ..............................................................74
BIBLIOGRAFIA........................................................................................................................................................76
3
1..........................................................................................................................CONCEITOS
Ação Social – Max Weber (1864 - 1920) afirma que quando nossas ações e reações orientam-se
pelo que os outros fazem ou fizeram, isto se chama “ação social”, porque neste tipo de ação nos
orientamos pelo comportamento dos outros e os outros orientam-se pelos nossos
comportamentos.
Ciclo do conhecimento padrão1 – No ciclo gnosiológico padrão há uma ênfase em uma
circularidade que vai do explícito ao tácito, ou seja as pessoas debatem um assunto, falam sobre
os seus conceitos, contam as suas histórias e ao final há a construção de uma idéia coletiva com a
incorporação dos novos valores que são ali compartilhados; há a aquisição de novos valores de
reflexão crítica, questionamento, inquietação e incerteza, “indispensáveis ao sujeito
cognoscente” (FREIRE, 1997,18). No entanto, na sociedade atual esta socialização tem sido
deficitária, pois não têm sido transmitidos valores e crenças de solidariedade, humanização,
reflexão crítica, incertezas e autocrítica. Há uma ênfase no conhecimento explícito, nas verdades
absolutas e o conhecimento tácito vem refletindo a competição, o individualismo, o
egocentrismo. Neste contexto, as comunidades de baixa renda têm tido poucas oportunidades de
participação das mesas de ensino e aprendizado. Suas formas de pensar, suas propostas de
políticas, seus conteúdos não são considerados. É dentro deste quadro que surge o ciclo invertido
do conhecimento, complementar ao primeiro e que pode trazer soluções para um mundo que vem
se desencantando2.
Ciclo gnosiológico invertido - Próprio de comunidades que estão à margem da socialização da
informação, o ciclo invertido do conhecimento pressupõe a comunidade e grupos voltando-se
sobre si mesmos, compartilhando suas práticas e escrevendo suas próprias narrativas; trata-se de
uma nova fabulação, um outro curso à história da mente na inclusão social. Em sua gênese há o
símbolo do protagonismo na direção dos acontecimentos. O ciclo gnosiológico padrão e o ciclo
gnosiológico invertido devem ser vistos como complementares.
1
2
Segundo Paulo Freire este ciclo chama-se Ciclo Gnosiológico
O termo desencantamento do mundo (Entzauberung) de Max Weber simboliza um
conhecimento cada vez mais ligado à observação empírica e ao método experimental das
ciências
da natureza, cada vez menos dependente da religião, do ritual e da magia.
4
Cognição - É o sentido, a direção que se dá ao que se sabe.
Comunidade de Práticas (CoP) – Comunidade que Aprende – A construção coletiva da
informação, na esfera relacional, produz conhecimento comunitário que se incorpora nas práticas
políticas da Comunidade; por outro lado surge nesse processo o compartilhamento de práticas,
que através da esfera relacional comunitária, cria uma Comunidade que aprende e co-participa.
Conhecimento – é a informação incorporada, que subsidia as práticas, que se traduz na
experiência. É a informação em ação.
Dados – são mensagens, idéias que se integram à realidade individual, pela leitura, pelo diálogo
e se conectam ou não com a bagagem pré-existente na mente.
Feminização do Poder – conceito criado pela Professora Denise Pini Rosalém da Fonseca para
observar o fenômeno que acontece em comunidades como Vila Canoa, Roupa Suja da Rocinha e
Vidigal e mostra que
as políticas comunitárias que fundamentam as tecnologias sociais
desenvolvidas pela comunidade, decorrem das Práticas Oriundas da Esfera
Relacional com
uma presença fortemente feminina.
Informação – Se houver conexão com a própria bagagem, a pessoa que escuta ou lê a
mensagem ou o dado, constrói a informação em sua mente.
Information Literacy –É um processo que denota que para a comunidade usar a Internet ela
precisa existir politicamente coesa e consciente de suas próprias práticas e políticas comunitárias.
A Internet pode ajudar a publicar conteúdos, mas a construção da informação na mente do
sujeito e a produção coletiva de conteúdos
exige uma circularidade que vai do tácito ao
explícito, com a comunidade e os grupos construindo suas próprias narrativas.
Liderança – Aqui nesta pesquisa o fenômeno do desenvolvimento da liderança está sendo
percebido como ação
social, nos moldes propostos por Max Weber (2001). Interessa-nos
apresentar um modelo de como com suas idéias e ações, as mulheres da União de Mulheres de
Vila Canoas se influenciam mutuamente e deflagram ações carregadas de sentido na criação das
práticas e políticas comunitárias. Neste modelo o sentido subjetivo da ação leva em consideração
o comportamento de outros e por ela orienta o seu rumo. O ciclo gnosiológico é invertido e as
pessoas de forma participativa aprendem umas com as outras na esfera relacional, criando e
recriando
5
práticas que são traduzidas e reproduzidas, gerando resultados positivos para a
comunidade; as mulheres em Vila canoa estão escrevendo a história e a liderança deve ser
estudada como ação social, porque acompanha a nova heterogênese do conhecimento e da
informação, que se dá na influência e afluência das idéias e ações. No processo de
compartilhamento das práticas, as habilidades são locais, subjetivas e oriundas da esfera
relacional. O Modelo compreende a seguinte conceituação:
ALFA é a liderança mobilizadora das práticas comunitárias na esfera relacional; representa o
paradigma atual, ou seja o conhecimento que está incorporado nas comunidades e que é por ela
ativado.
BETA é a liderança reflexiva e refletora, é a gênese de um novo paradigma mental comunitário,
deflagra a produção de um novo conhecimento tácito, fundamentado também em práticas
oriundas da esfera relacional. É a pessoa ou grupo de pessoas, que dentro do paradigma atual, é
influenciada por forças ou fenômenos internos à Comunidade e influencia as pessoas com novas
idéias para novas ações. Weber (2004) dizia que a ação social dotada de sentido depende da
localização (apud Kalberg, 2010, 64).
GAMA é a liderança multiplicadora de novas práticas e novos conteúdos, e o que se aprendeu
torna-se agora política comunitária explicitamente escrita; A liderança Gama ajuda a explicitar
métodos, regras, tecnologias sociais; Dentro do conceito de letramento (literacy) o grupo torna-se
ágrafo.
DELTA é a liderança reprodutora das práticas e das políticas comunitárias. É a comunidade e
grupos no entorno reproduzindo, de forma incorporada, as práticas que foram disseminadas.
Letramento (Literacy) – Segundo Magda Soares (1998, 18) letramento é adquirir a tecnologia
do ler e escrever e envolver-se em práticas sociais de leitura e escrita. Tem conseqüências sobre
o indivíduo e altera o seu estado ou condição em aspectos sociais, psíquicos, culturais, políticos e
cognitivos, lingüísticos e até mesmo econômicos. Do ponto de vista social, a introdução da
escrita em um grupo até então ágrafo, tem sobre esse grupo efeitos de natureza social, cultural,
política, econômica, lingüística. É neste sentido que letramento deve anteceder a “information
literacy”.
Vila Canoa é uma comunidade que está vivendo um processo de letramento e o grupo que era
ágrafo está agora escrevendo as novas políticas comunitárias, após terem compartilhado práticas
6
entre si. Na verdade as etapas do ciclo do conhecimento invertido são em espiral e muitas vezes
há um paralelismo entre elas. Isto significa que ao mesmo tempo que vão compartilhando
práticas vão escrevendo os conteúdos das políticas comunitárias. Na frase “há mais que o tempo
no próprio tempo” está simbolizada a distância entre o tácito do explícito; e isto é o que se chama
de letramento.
Sem que a comunidade viva um processo de letramento não tem como “aproveitar”todas as
possibilidades advindas de um processo de “information literacy”.
O novo individualismo - A realidade atual apresenta uma massa de pessoas que não tem
emprego e isto traz um quadro de transformações no trabalho que traz graves conseqüências em
especial, para as pessoas e grupos de moradores de favelas. A Teoria que sustentamos é que
alijadas há tempos de uma socialização do conhecimento, resta-lhes voltarem-se sobre si mesmas
e, neste mergulho compartilharem suas práticas, criarem novas narrativas, produzirem novos
conteúdos, novas políticas comunitárias. O novo individualismo surge da exclusão social,
produz e é produto de uma nova heterogênese do conhecimento e da informação – uma nova
subjetividade, nascida de si mesmo e de suas origens.
Paradigma - Entende-se paradigmas como as variáveis sociais e culturais que dentro do tempo
o qual pertencem, espelham a vanguarda do momento (Alain Touraine).
Poder - Práticas Oriundas da Esfera Relacional. Aqui o poder é um conceito antropológico que
surge da esfera relacional comunitária. Os indivíduos compartilham práticas e aprendem novos
valores de reflexão crítica, questionamento, inquietação e incerteza, “indispensáveis ao sujeito
cognoscente” (FREIRE, Educação para a Mudança, 1997, pág.18), criando novas políticas
escritas e novas tecnologias sociais.
Tecnologias Sociais (TS) - São métodos de construção do conhecimento e informação, métodos
de gerência da informação, administração, organização, sistemas de apoio à educação, à saúde, a
sistemas de segurança. São
procedimentos metodológicos testados, validados na esfera
relacional e com impacto social comprovado, porque foram criados, na esfera comunitária, a
partir de necessidades sociais, com o fim de solucionar um problema social. O conceito
considera as realidades sociais locais e está, de forma geral, associada a formas de organização
coletiva, representando soluções para a inclusão social e melhoria da qualidade de vida
7
(Lassance Jr.; Pedreira, 2004). A partir da construção do conhecimento comunitário criam-se as
ferramentas libertadoras, para o desenvolvimento comunitário, as ferramentas libertadoras
emergem das práticas oriundas da esfera relacional.
8
2 INTRODUÇÃO
Este Relatório traz os dados sobre a aquisição de competência em informação com base
em uma nova heterogênese do conhecimento e da informação e este fenômeno só foi possível
observar a partir da pesquisa sobre Feminização do Poder empreendida em Vila Canoa. No
decorrer do processo fomos acionadas pelas mulheres do Morro do Vidigal e da Roupa Suja da
Rocinha, que estão protagonizando em suas comunidades experiências de união de mulheres,
buscando construir conteúdo e promover novas políticas comunitárias, o que caracteriza novas
formas de pensar, fazer e ser.
O Relatório aqui apresentado de Pós-Doutorado traz os dados de Vila Canoa, uma
comunidade em situação de exclusão sócio-econômica, localizada em São Conrado. Durante a
pesquisa percebeu-se que o processo de Feminização do Poder é decorrente da ação social de
Liderança comunitária em Vila Canoa, onde as mulheres foram influenciadas por D.I. e por sua
vez influenciaram outras mulheres, para a criação de novas práticas e políticas comunitárias.
No decorrer da pesquisa participamos de algumas reuniões entre as mulheres de Vila
Canoa, Roupa Suja da Rocinha e Vidigal, juntas no propósito de uma nova heterogênese da
informação e do conhecimento, denotando a ênfase no ciclo invertido do conhecimento, que se
inicia com o compartilhamento de práticas, num efeito eminentemente tácito.
Mas o que é realmente este fenômeno de aquisição de “competência em informação”
com base em uma nova heterogênese do conhecimento e da informação que foi-nos possível
observar? Na verdade para compreendermos temos que nos valer de Alain Touraine (2007) que
afirma que para compreender as necessidades do mundo de hoje não podemos mais nos valer do
tripé político, econômico e social, da Revolução industrial, mas teremos que entender os novos
valores e novos conflitos com o pensamento social ocupando-se de realidades culturais. Esta
realidade possui uma massa de pessoas que não têm emprego e isto traz um quadro de
transformações do trabalho que traz conseqüências na forma de pensar. A construção da
informação com base numa ampla socialização que envolva a todos não é mais possível, e “o
principal indicador subjetivo e social é a referência a si”(Ehrenberg, 1991; 1995; 1998).
9
A Teoria que sustentamos aqui é que alijadas há tempos de uma história coletiva, resta às
favelas ou comunidades de baixa renda voltar-se sobre si mesmas e buscarem num ciclo
invertido de conhecimento, encontrarem suas próprias soluções, re-inventarem vidas,
protagonizarem histórias, dando um novo sentido às experiências, compartilhando práticas,
fazendo surgir uma nova heterogênese do conhecimento e da informação, e neste mergulho para
dentro de si mesmos, criarem novas narrativas, produzirem novos conteúdos, novas políticas
comunitárias.
Neste contexto surgiu a oportunidade de estudar este processo da nova heterogênese do
conhecimento e da informação em Vila Canoa, uma comunidade em situação de exclusão do
bem estar social e que se mantém afastada do tráfico de drogas, longe das milícias, com algumas
parcerias no atendimento às necessidades dos moradores da comunidade e com uma forte
presença feminina na gestão dos projetos.
Sendo acompanhada pela PUC-Rio desde 2008, esta pesquisa investigou de que forma,
na aquisição de “letramento", o ciclo do conhecimento se inverte em Vila Canoa e percebeu que
isto se dá porque a sociedade atual não mais inclui, pode-se afirmar que o processo de
socialização da informação foi precário. Alijados dos benefícios da Sociedade da Informação,
buscam em si mesmos o conhecimento para recriar as vidas, e criam novas possibilidades e num
processo tácito de compartilhamento de aprendizados seguem o percurso da informação em
direção inversa, mas pretendendo chegar à transformação dos conteúdos e práticas políticas
comunitárias. Manifesta-se em Vila Canoa um fenômeno que possivelmente se repete na Roupa
Suja da Rocinha e no Vidigal: O ciclo da informação vai do tácito ao explícito, perfazendo uma
nova heterogênese do conhecimento e da informação, num efeito que torna possível a produção
de conteúdos capazes de criar tecnologias sociais como ferramentas libertadoras.
Quando esta pesquisa se iniciou seu foco era a criação de information literacy
comunitário. No entanto percebeu-se que information literacy é um processo que denota que para
a comunidade usar a Internet ela precisa existir politicamente coesa e consciente de suas próprias
práticas e políticas comunitárias. A Internet pode ajudar a publicar
informação, mas a
construção desta informação, a produção de conteúdos exige uma circularidade que vai do tácito
ao explícito, com a comunidade construindo suas próprias narrativas.
10
O ciclo do conhecimento invertido foi e é a base do compartilhamento de práticas e
produção de políticas comunitárias em Vila Canoa e foi fundamental esta percepção para
entender o desenvolvimento de lideranças.
Na sequência desse processo cultural, Vila canoa está preparada para viver o fenômeno
da information literacy comunitária, apta a produzir novas ferramentas libertadoras, apta a
protagonizar sua história na Rede, está apta a criar e publicar conteúdos na Internet, compelindo,
com o tempo, jornais e revistas a mudarem suas pautas, ou seja atribuindo relevância à sua
informação.
Num processo social onde uma pequena elite produz a informação que deve ser
consumida por todos, Vila Canoa a partir de um processo de compartilhamento de práticas que se
desdobrou em novas políticas comunitárias, pode agora produzir e postar seus conteúdos a
Internet. Pode também, em Rede, compartilhar suas práticas com a Roupa Suja da Rocinha e
com o Morro do Vidigal, denotando a importância da percepção do ciclo invertido, que vai do
conhecimento tácito ao conhecimento explícito.
A Teoria proposta por esta pesquisa é que a comunidade de baixa renda para ter
computação e Internet
precisa antes, de compartilhar suas práticas, precisa na sequência,
produzir políticas comunitárias e num efeito recursivo sobre si mesma - que vai do tácito ao
explícito - protagonizar uma nova história, porque a atual narrativa não a inclui como produtora
de informação e de conhecimento.
O ciclo do conhecimento invertido denota que é na proximidade, na convivência, na
vivência conjunta, no silêncio da experiência de fazer junto e de passar pelas mesmas
dificuldades que se alavanca a nova jornada infinita do ser humano, em direção à informação e
ao conhecimento.
Em razão destas constatações, a pesquisa investigou:
•
O que foi que contribuiu para esta nova heterogênese do conhecimento e da
informação?
•
O que estimulou o desenvolvimento de lideranças que se caracterizaram por uma
feminização do poder?
11
•
Este novo individualismo atende às necessidades de crescimento mental,
emocional e espiritual da comunidade?
•
Este fenômeno caracteriza o que Alain Touraine chama de sociedade cultural,
anunciando o fim do social?
•
Qual é o novo papel político de mulheres e homens neste novo contexto cultural
de feminização, mais ecológica do poder?
Estas questões estarão apresentadas e analisadas nas Conclusões deste Relatório.
Viu-se na pesquisa, que é na esfera relacional da troca de idéias, do diálogo, da
construção participativa e conjunta da informação, que o indivíduo aprende as novas práticas,
mas na verdade todo este fenômeno não é externo, opera-se no interior da comunidade,
denotando o fenômeno subjetivo e localizado da ação social, conforme conceituado por Max
Weber (2004).
Nas comunidades, nos locais onde só a palavra do vizinho pode cumprir o seu papel de
edificador das relações comunitárias, o fenômeno da construção do conhecimento e da
informação é produzido na vivência, na experiência tácita de ser parte da comunidade, que é a
clinámen do indivíduo (PAIVA, 2005). Segunda Raquel Paiva a comunidade é clinámen 3 do
indivíduo, porque causa o choque que muda a sua trajetória.
Resta saber se este fenômeno é próprio de Vila Canoa ou se é parte do repertório de vida
das comunidades em situação de exclusão sócio-econômica. Na verdade, embora estejamos
vendo fenômeno semelhante na Roupa Suja da Rocinha e no Vidigal, estas comunidades não
fazem parte da pesquisa. Como dissemos antes, fomos procurados por estas comunidades, que
propuseram integrar-se ao projeto de Feminização do Poder.
Talvez Bourdieu (2001, 62 e 67) tenha razão e o fenômeno da nova heterogênese do
conhecimento e da informação possa ser replicado, pois “os movimentos sociais possuem traços
comuns que lhe dão uma aparência de família indivíduos que passam por experiências
semelhantes, reconhecem pressupostos comuns em suas vidas e podem produzir, pouco a pouco,
3
Clinámen – conceito de Epicuro, filósofo e físico pré-socrático que dizia que os átomos na
queda livre, se chocam e mudam as suas trajetórias.
12
respostas coerentes a questões fundamentais, para as quais nem os sindicatos, nem os partidos,
podem propor soluções globais”.
Nesse contexto, parafraseando Foucault (2008, 167-171), há uma genealogia que inscreve
na comunidade novos saberes, um saber local não qualificado pela ciência, mas que se insere nas
práticas oriundas da esfera relacional, e que emerge da própria comunidade, a partir de um
conhecimento tácito, incorporado, a partir do qual as pessoas vem compartilhando práticas e
explicitando novas políticas comunitárias. O interessante é que todo este achado vem
apresentando a mulher numa posição de liderança, protagonizando a nova heterogênese do
conhecimento e da informação contra os efeitos de uma sociedade injusta como a nossa.
Cabe ressaltar que o Grupo de Mulheres está sendo assessorado pela equipe do Projeto
para elaborar o Blog do COMEM – Coletivo de Mulheres que estudam mulheres. Será feita uma
oficina dias 15, 22 e 29 de Janeiro com as mulheres para fazer o blog, numa construção conjunta.
Outros pesquisadores já se engajaram no projeto dando continuidade à pesquisa. Assim, esta
pesquisa termina, mas outra começa, sem solução de continuidade.
Finalmente quer-se sublinhar que a Responsabilidade Social do Ciclo padrão do
conhecimento deve agora aliar-se à Responsabilidade Comunitária do ciclo invertido do
conhecimento, pois que nesta nova fronteira da informação e do conhecimento as comunidades
deverão construir suas próprias estradas, as infovias de inclusão.
Outro dado que está nas entrelinhas desta pesquisa é que foi fundamental o envolvimento
da PUC-Rio e do IBICT no desenvolvimento e inovação como uma alavanca para o letramento,
contribuindo para a ação social empreendida em Vila Canoa.
Enfim...há um ditado antigo que diz “nenhum exército pode deter uma idéia cujo tempo
chegou“!
As mulheres estão reunindo-se agora na igreja e tudo é difícil. Mas o vírus do letramento
impregnou-se em Vila Canoa e a Comunidade está unida à Rocinha e ao Vidigal para esta
construção da autonomia.
Resalte-se que esta pesquisa termina, mas o processo de letramento continua, pois as
cinco mulheres que participaram da pesquisa estão agora imbuídas no processo de
empoderamento das 500 mulheres de Vila Canoa.
13
As palavras que melhor definem o conceito de letramento encontra-se em Paulo Freire
que dizia que “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que
Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse
trabalho”.
As mulheres líderes de Vila Canoa estão compreendendo a posição que ocupam na
comunidade e em sociedade e a partir desta percepção estão fabulando uma nova história de
práticas e usando o ciclo invertido do conhecimento, estão em sua comunidade planejando um
“workshop” sobre liderança e empoderamento feminino com a pesquisadora4 do projeto
Feminização do Poder, Assistente Social formada pela PUC-Rio e moradora da Rocinha.
Complementando o nível de letramento e usando o ciclo gnosiológico padrão Freire,
Braga e Cristóvão estas mulheres estão escrevendo propostas, entrando em contato com
autoridades do Poder Público, para solicitar financiamento junto ao Fundo Brasil de Direitos
Humanos, para captar recursos para seus projetos e políticas comunitárias.
2.1
OBJETO DO ESTUDO
Parte-se do princípio que sem o acesso à informação o sujeito individual e coletivo não
alcança um aumento no grau de sua cidadania, ou seja, não se apropria dos bens da sociedade da
informação, não exercendo individual e coletivamente direitos na sociedade. Percebe-se, no
entanto, que o processo de aquisição de conhecimento é cada vez mais precário e que os
indivíduos e grupos de comunidades de baixa renda, há muito estão alijados de participarem dos
processos de socialização da informação, porque ou não conhecem os códigos, as metáforas
utilizadas ou porque não são convidados a participarem dos espaços de socialização.
Resta a estes grupos voltarem-se sobre si mesmos e num efeito recursivo, invertido,
buscar programar ações voltadas para gerar influências mutuas, deflagrar o compartilhamento de
práticas e desenvolvimento de políticas comunitárias, para na sequência poderem se apropriar de
TIC´s, promovendo por si próprios uma transformação, criando as bases da transformação das
estruturas individuais e sociais, conforme BELKIN e ROBERTSON (1976) afirmam ser o papel
da informação.
Daí propõe-se o seguinte problema:
4
Suely da Conceição Rodrigues
14
“Que ações devem anteceder a implementação de “information literacy” em comunidade
em situação de desvantagem sócio-econômica, tendo em vista o desenvolvimento de sua
competência informacional, mas considerando todo o fenômeno gnosiológico do grupo, o
processo de subjetivação e o seu individualismo?
2.1.1 O OBJETO EMPÍRICO: VILA CANOA
A pesquisa sobre Feminização do Poder, realizada pela PUC-Rio, em Vila Canoa inicouse em 2007 e identificou a existência de 17 instituições em Vila canoa. Cerca de 50% destas são
de caráter comunitário. A presença institucional do Estado no bairro apresenta menos de 20% de
participação. A liderança feminina se fazia sentir a época, na área da Educação e respondia por
mais da metade das direções institucionais de Vila Canoa, fato relativamente recente no bairro,
que tem menos de duas décadas de existência5.
Nesta 1ª. etapa de Estudo Inicial e Contextualização da Comunidade de Vila Canoa a
pesquisa de campo agrupou as 17 instituições de acordo com a variável “tipo de instituição” e
para isto foram estabelecidas três categorias de análise: públicas, privadas e públicas não-estatal
(comunitárias).
Após serem estabelecidos os conceitos para variável “tipo de instituição”, as
pesquisadoras fizeram a opção por estudarem as instituições comunitárias, pois está responde ao
objetivo da pesquisa: saber como estas surgiram, como se deu a chegada ao poder, se houve
eleições ou se existiu indicação, como era e é estruturado seu organograma interno, quem ocupa
as posições de chefia, caso exista dentro destas instituições mulheres ocupando posições de
comando como se exerce suas práticas políticas, entre outras questões.
Nesta 1ª. etapa foram entrevistadas oito mulheres, das seguintes instituições comunitárias
de Vila Canoa: Centro de Integração Comunitária de Vila Canoa, Grupo de Artesãs e Associação
de Moradores. Foram utilizados questionários e entrevista semi-estruturada.
As transcrições das entrevistas realizadas estão arquivadas no Banco de Dados da
pesquisa e aponta inicialmente para as seguintes tendências gerais:
5
Conforme Relatório da pesquisa “Feminização do poder” elaborado pelas alunas Monique
Lomeu e Daniela Pagnoncelli, sob a orientação da Professora Doutora Denise Pini Rosalém da
Fonseca, do departamento de Serviço Social, coordenadora da pesquisa
15
As mulheres têm uma tradição de participação na construção das instituições
comunitárias;
Ocupam as principais posições de poder na área de Educação infantil;
Dominam as posições de gerência e administração, ou seja, elas dominam o campo da
gestão das instituições comunitárias: elas fazem;
A presença feminina é numericamente superior à masculina;
A presença feminina garante a existência das instituições quando não há financiamento,
pois elas se dispõem a realizar trabalho “voluntário”, ou seja: não remunerado;
Nas instituições comunitárias chefiadas por mulheres há uma forte ênfase em atividades
de ordem cultural: dança, arte popular e artesanato, reforço escolar, ensino de idiomas,
alfabetização, direito e cidadania, etc.
Atualmente, porém, o fenômeno da liderança feminina vem adquirindo uma nova
dimensão de ação social, conforme conceituada por Max Weber (2004). Estamos observando em
Vila Canoa as transformações no compartilhamento de práticas e nas formas de aquisição do
conhecimento e construção da informação, Estamos observando que através do saber as pessoas
influenciam-se mutuamente e tecem os laços com a prática social e isto vem dando forma às
novas configurações de poder. Neste contexto podemos parafrasear Latour (1998), destacando
que a qualidade da tecnologia de letramento está nas mãos dos indivíduos e grupos da
comunidade - seus consumidores finais. As qualidades desta tecnologia, portanto, são
conseqüência, e não causa, de uma ação social.
16
2.2
OBJETIVO GERAL
Desenvolver um modelo de referência na aquisição de letramento, permitindo a
propagação em nova escala das práticas e políticas comunitárias.
2.3
OBJETIVOS ESPECÍFICO
Disponibilizar um estudo sobre uma nova heterogênese do conhecimento e da
informação, a partir do ato de conhecimento em ciclo gnosiológico invertido, defendendo a
posição de que estes elementos são anteriores à aquisição de information literacy.
2.4
DIRETRIZ DA PESQUISA
Em comunidades de baixa renda a construção da informação na mente do sujeito social e
individual é decorrente de uma ação social de influências mútuas para o compartilhamento de
práticas e a criação de políticas comunitárias e esta ação, que é o motor do ciclo invertido do
conhecimento, é crucial para implementação futura de “Information Literacy comunitária”, com
base em TIC’s.
2.5
DIRETRIZES SECUNDÁRIAS
O letramento que é a base da Competência informacional viabilizará um novo processo
(modelo de negócios) nos projetos comunitários, aumentando a sua participação, cooperação,
estimulando-os a usar tecnologias para produzir conteúdos e aprenderem os novos modos de
gestão, autogestão e publicação de conteúdos.
17
3 METODOLOGIA
A estratégia metodológica que foi adotada é pesquisa ação participante, pois foi em
conjunto com a comunidade que os objetivos e os próximos passos do estudo e da pesquisa
foram sendo descobertos. A experiência que se viveu é a de que a pesquisa teve uma vida própria
apesar de todo planejamento traçado. Embora fosse crucial entrar em campo com um mapa
estruturado, os achados da pesquisa só aconteceram quando o pesquisador enfraqueceu sua
couraça e abriu mão de seus valores, em prol de um conhecimento mais antropológico.
Dois motivos levaram à escolha de Vila Canoa como objeto empírico na presente
proposta. O primeiro é que já se conta com a possibilidade de acesso à comunidade e o segundo
é que durante o desenvolvimento do projeto pela equipe da PUC-Rio foi possível observar uma
forte e inovadora participação feminina nas instituições da comunidade.
Entrevistas não estruturadas foram realizadas com as mulheres de Vila Canoa e os dados
coletados estão aqui apresentados e analisados.
Dois métodos foram usados: o Método MEDS (Método de Explicitação do Discurso
Subjacente), em inglês UDUM (Underlying Discourse Unveiling Method) e o Grupo de foco. O
MEDS inspira-se no princípio da associação livre e trabalha com o seguinte pressuposto: aquilo
que é importante para alguém a respeito de um determinado tema ou assunto inevitavelmente
aparece no seu discurso espontâneo sobre o mesmo (NICOLACI-DA-COSTA;2007.
Na seleção das amostras destaca-se que o recrutamento foi intencional e objeto de muita
reflexão; o tipo de estratégia adotada foi com base em critérios pré estabelecidos em função dos
objetivos da pesquisa. Estes critérios, no caso desta pesquisa, estão relacionados aos atributos
pessoais de liderança e participação da União de Mulheres de Vila Canoas.
As entrevistas foram individuais, e na transcrição dos depoimentos, as falas dos
entrevistados não foram ser alteradas ou editadas. Todas as entrevista e reuniões foram gravadas
e fazem parte do Banco de Dados da pesquisa “Feminização do Poder”.
18
Por fim, a análise dos depoimentos coletados foi feita apenas após realização de todas as
entrevistas e buscou-se identificar regularidades, padrões e outros aspectos recorrentes nos
depoimentos.
O Grupo de foco foi utilizado na entrevista semi-estruturada com alguns integrantes da
União de Mulheres de Vila Canoas e consistiu em reunir um grupo de pessoas, com
características comuns, que estão participando deste movimento de feminização do poder em
prol de novas práticas e políticas comunitárias. O que se procurou foi enxergar opiniões a partir
de diversos pontos de vista. Para realizar o grupo de foco foi necessário planejar a sessão,
desenvolver as questões e preparar o local onde foi realizada a reunião.
Quer-se ressaltar que durante toda a pesquisa teve-se a preocupação com a validade e
generalização dos resultados, e quanto a veracidade dos depoimentos sublinha-se que “O MEDS
não se preocupa com a verdade , mas sim com a sinceridade dos depoimentos de coleta”
(NICOLACI DA COSTA, 2009, 71). O MEDS trabalha com amostras homogêneas que
respondem aos mesmos roteiros e adota a credibilidade às respostas dadas por diferentes pessoas.
A identificação do leitor com o material pesquisado é outro ponto extraordinário no uso
do Método MEDS, no que se refere ao seu acolhimento quanto a generalizações de pequena
amostra, intencional, homogênea ou heterogênea. Quer se ressaltar que nesta pesquisa os roteiros
foram feitos para dar profundidade à fala dos entrevistados e permitir esta identificação com os
leitores. “A tarefa do pesquisador é oferecer interpretações dos complexos fenômenos sociais e
humanos que estudam” (Taylor, APUD NICOLACI DA COSTA, 2009, 71).
As entrevistas mostram que as mulheres que participaram da pesquisa vivem as mesmas
experiências, e por trás das diferenças pessoais há uma estrutura universal que pode ser
percebida durante as perguntas, pois como já foi sublinhado, buscou-se dar profundidade às
questões usadas nos roteiros. Segundo Maxwell, Taylor e Weiis (APUD NICOLLACI DA
COSTA, 2009, 72) é possível generalizar a partir de amostras pequenas e não randômicas, ou
seja escolhidas pelo critério intencional.
Outras reuniões foram feitas tendo como integrantes mulheres de Vila Canoas, Roupa
Suja da Rocinha e Vidigal, porém os dados destas reuniões de mulheres que estão integrando a
Rede COMEM – Coletivo de Mulheres que Estudam Mulheres não foram coletados, porque
19
fogem ao escopo atual da pesquisa, no entanto todo o conhecimento aqui apresentado vem
também da participação como pesquisadora, nesta Rede COMEM, pois o que foi aprendido com
as mulheres de Vila Canoa em contato com as outras mulheres, pode sim ser generalizado e
inspirar toda a análise de dados que aqui é apresentada.
20
4 MARCO TEÓRICO
4.1
O CICLO DO CONHECIMENTO FREIRE, BRAGA E CRISTÓVÃO
O ciclo padrão do conhecimento que aqui é apresentado na legenda 03 está alicerçado
em Paulo Freire, na questão epistemológica que ele denominou de ciclo gnosiológico (1997, pág.
18) na experiência de tecer e partilhar dentro e entre grupos o conhecimento confinado. Também
está alicerçado na Teoria do Conhecimento desenvolvida pelas professoras Dra Gilda Maria
Braga e Dra Heloisa Cristóvão, quando do desenvolvimento de metodologias para a efetivação
da Socialização e Construção da Informação, no IBICT.
O estudo desenvolvido por Braga e Cristóvão (1998;1999) foi aplicado nas áreas da
Informação e da Saúde (Projeto Integrado de Pesquisa, CNPq 522943/96-9 (NV)), e à época,
houve a oportunidade de participar da pesquisa, vivendo o que Paulo Freire denomina de ciclo
gnosiológico, no fenômeno do processo de aprender.
O ciclo gnosiológico pressupõe a socialização de idéias e a construção da informação na
mente do sujeito cognoscente (BRAGA & CRISTÓVÃO), e na sequência o sujeito cognoscente
produz o novo conhecimento e age e aprende a partir da percepção deflagrada em função do
conhecimento produzido de forma participativa (FREIRE, BRAGA & CRISTÓVÃO).
Em seus estudos Paulo Freire estava convencido de que havia por parte de professores e
pesquisadores a compreensão deficiente do que ele chamava de ciclo gnosiológico e afirmava
que “se observarmos o ciclo do conhecimento, podemos perceber dois momentos, e não mais que
dois, dois momentos que se relacionam dialeticamente. O primeiro momento do ciclo é o
momento da produção de um conhecimento novo, de algo novo. O outro momento é aquele em
que o conhecimento produzido é conhecido ou percebido”. Paulo Freire afirma que neste
segundo momento o sujeito cognoscente desenvolve as qualidades requeridas na produção do
conhecimento: reflexão crítica; curiosidade; questionamento exigente; inquietação; incerteza. Ele
diz que quando isolamos um momento do outro, ou seja o conhecimento explícito do
conhecimento tácito, o ato do conhecimento se transforma em uma mera transferência de
conhecimento.
21
No projeto de desenvolvimento de metodologias para a efetivação da Socialização e
Construção da Informação nas áreas da Informação e da Saúde, BRAGA E CRISTÓVÃO
levaram os alunos a perceberem a importância da Socialização da informação para que as idéias
pudessem ser trocadas. Elas ressaltaram a importância do diálogo, da troca de experiências entre
os membros do grupo, formado pelas comunidades envolvidas, como momento fundador do ato
de conhecimento, da gnose, para apreender novos saberes e descortinar a possibilidade de
conhecer e aprender.
A partir deste momento, o sujeito cognoscente conecta o que ouviu e entendeu com a sua
própria bagagem, constrói em sua mente a informação e neste ato, ele produz um novo
conhecimento, base de suas atitudes e ações. Toda esta discussão acadêmica mostrava a
importância da socialização da informação, num processo que envolvia o tratamento da
hanseníase e grupos de moradores do Morro da Providência, médicos do Hospital do Santo
Cristo, mestrandos e doutorandos do IBICT .
A partir desta base teórica proposta pelos professores por
FREIRE, BRAGA E
CRISTÓVÃO, o ciclo de conhecimento padrão (legenda 03) que é aqui apresentado foi
inspirador na descoberta de um outro ciclo gnosiológico (legenda 04), invertido, numa nova
heterogênese do conhecimento e da informação, no ato gnosiológico de grupos em situação de
desvantagem sócio-econômica, que se adere e complementa o primeiro, num momento
gnosiológico que funda uma nova heterogênese do humano, com a mulher desempenhando um
papel de liderança.
22
1. SOCIALIZAÇÃO DE IDÉIAS – O
CONHECIMENTO TÁCITO SE TORNA
CONHECIMENTO EXPLÍCITO
2. CONSTRUÇÃO DA INFORMAÇÃO –
CONHECIMENTO EXPLÍCITO
O indivíduo, com a sua bagagem, conecta o
que sentiu, percebeu e entendeu, e constrói
claramente a informação em sua mente.
3. PRODUÇÃO DO NOVO
CONHECIMENTO TÁCITO
É a etapa do ciclo em que o indivíduo, adquire novos
valores de reflexão crítica, questionamento,
inquietação e incerteza, “indispensáveis ao sujeito
cognoscente” (FREIRE, 1997,18).
CICLO GNOSIOLÓGICO PADRÃO
É a etapa do ciclo em que se inicia a gênese
de um conhecimento novo, na qual o
indivíduo participa da troca de idéias, do
diálogo, da socialização de experiências e no
grupo, ele ouve outras idéias, experiências
diferentes, explicita o que sabe e amplia seu
quadro de referências.
4
AÇÃO COM BASE NO QUE SABE (A PARTIR
DE SUA PRÓPRIA PERCEPÇÃO) –
CONHECIMENTO TÁCITO (INCORPORADO)
É a etapa do ciclo em que o indivíduo age a partir de um
conhecimento, que é a base de sua própria percepção
.
Legenda 03: Ciclo gnosiológico padrão – Professora Doutora Gilda Maria Braga e Professora
Doutora Heloísa Cristóvão, com base no eminente professor Paulo Freire
23
4.2
YVONNE GEBARA: O PODER E O NÃO PODER DAS MULHERES
Segundo Yvonne Gebara (1991), “o poder não é exterior, ele é interno e é justamente esta
interiorização que permite um passo de realização e um passo de liberdade criativa.A questão da
mudança de poder não é apenas abertura de espaços para a participação mais ampla das
mulheres. Trata-se de uma revolução na compreensão das relações humanas de poder, de uma
reflexão sobre a sua gênese e suas consequências históricas, para enfim recomeçar um outro jeito
de ser mulher e homem diante do mistério insondável do que somos”.
As relações de poder são intencionais e não subjetivas, não resulta da escolha ou da
decisão de um sujeito, individualmente.
O poder masculino não opera a partir do exterior, ela emana a partir de homens e
mulheres, como uma lição aprendida dentro da sociedade. O inédito em Vila Canoa é que no
processo de aquisição do letramento, uma nova organização social vem estimulando a
feminização do poder, num conceito antropológico de empoderamento, onde homens e mulheres
fazem nascer um novo sujeito social, mais feminino, o que pressupõe as seguintes aquisições e
uso efetivo das seguintes qualidades: compaixão, suavidade; prudência; paciência, sensibilidade
da alma; intuição; capacidade inventiva na vida prática; consciência da incapacidade de alcançar
as verdades superiores pelo intelecto; capacidade de ver a vida real e os seres vivos atrás dos
conceitos abstratos; flexibilidade mental e rapidez de compreensão.
Muito se fala em empoderar o pobre, mas o acesso à informação tendo como guia o poder
patriarcal em comunidades de baixa renda, não tem viabilizado ao sujeito individual e coletivo
alcançar um aumento no grau de sua cidadania, ou seja, não tem permitido apropriar-se dos bens
da sociedade da informação, não exercendo individual e coletivamente direitos na sociedade.
Ações voltadas para o desenvolvimento gnosiológico, para o desenvolvimento de novas práticas
políticas comunitárias e apropriação de TIC´s são fundamentais para essa transformação, pois
sem letramento (literacy) é impossível empoderar tecnologicamente as comunidades
(information literacy).
O que se achou no campo é que no processo de aquisição de letramento em Vila Canoa o
poder vem se feminizando, através das práticas oriundas da esfera relacional. Mas não se
enganem, tudo está em seus primórdios; a própria comunidade vive as dificuldades próprias do
24
processo de letramento, que é lento e gradual. Mas não assume posições desesperançadas e as
mulheres comparecem às reuniões, trazendo consigo os seus feixes de conhecimento.
Observando a saga dessa comunidade e o papel do sujeito coletivo na construção desse
conhecimento, pode-se identificar algumas questões:
O poder é um fenômeno que surge no grupo e no processo de letramento as muheres
vivem o empoderamento, embora seja parte do fenômeno um oscilar entre a subalternidade e o
protagonismo, pois o fenômeno de letramento é lento e gradual;
Estudando este processo, achou-se no campo uma nova heterogênese do conhecimento e
da informação , na arte de aquisição do conhecimento. A “ação social”, se caracteriza por
influências mútuas, oriundas da esfera relacional, localizada e todo o fenômeno é inclusivo,
gradual e se dá em um tempo intemporal, mas próximo a Kairós6 do que a Kronus.
4.3
MICHEL FOUCAULT – A MICROFÍSICA DO PODER
Foucault afirma como Gebara que o poder não é subjetivo, mas é intencional e para
entender esta microfísica tem-se que observar a esfera relacional e perceber que há uma
circularidade que deixa evidente que são as práticas oriundas da esfera relacional que
empoderam pessoas. Se hoje temos pessoas destituídas de poder, na sociedade atual é porque
foram intencionalmente desempoderadas. A organização social vigente não considera
determinadas camadas sociais, que se vêem alijadas de participação do processo político. Todo
este processo de desempoderamento de pessoas agrava-se agora com a ruptura do mundo do
trabalho.
Parafraseando Castel (1998), “esta ruptura na organização do trabalho pode criar, para
pior, um homem novo”, mas pode também trazer um novo sujeito político, que surge com novos
saberes a partir de uma microfísica do poder, que evidencia o cultural na representação da
informação, pois saber e poder se implicam mutuamente. O poder necessita de um campo de
saber, assim como o saber constitui novas relações de poder (FOUCAULT,2008).
6
Kairós em grego significa o tempo oportuno, pois o fato só acontece quando o tempo chega, na
verdade
há mais que o tempo no próprio tempo e diferente de Kronus, que é o tempo
cronológico, Kairós é a maturidade do tempo, que chegou!
25
O poder não está situado em um lugar privilegiado e exclusivo. Percebe-se na análise dos
dados da pesquisa, que está em andamento, os conflitos e lutas que estão na gênese deste novo
tipo societal, mais cultural, menos social.
Está certo Foucault (2007), que define que muitas vezes foi fora do Estado que se
instituíram as relações de poder, essenciais para situar a genealogia dos saberes modernos
embora não se possa situar o poder em outro lugar que não o Estado. O poder é uma relação, o
que significa que qualquer luta é sempre resistência dentro da própria rede de poder. É isto que
estamos vivenciando na pesquisa: luta e resistência que podem ser observadas e analisadas no
discurso das mulheres entrevistadas.
4.4
ALAIN TOURAINE – O FIM DO SOCIAL E A SOCIEDADE CULTURAL
De que forma as idéias de Touraine tem a ver com o ciclo gnosiológico invertido, com a
ação social de Weber e com o poder feminino de Yvonne Gebara?
Touraine (2007) tece um conceito de modernidade para compreender as necessidades do
mundo de hoje. Ele afirma que o novo paradigma não se pode mais valer do tripé político,
econômico e social, da Revolução industrial, mas depende de novos valores e novos conflitos
com o pensamento social ocupando-se de realidades culturais. Touraine afirma que a perda da
centralidade das categorias sociais é radicalmente nova, num efeito fascinante e inquietante ao
mesmo tempo, com o pensamento social organizando-se ao redor dos problemas culturais
(Touraine, 2007, 9,10 e 11). Segundo Alain Touraine não se encontra mais sentido nas
instituições políticas e sociais e que este novo paradigma cultural é o único capaz de promover
uma outra concepção de vida política (Touraine, 2007, 25), um novo individualismo.
Touraine (2005, 176) esclarece que o novo modelo pós-social dos direitos culturais se
contrapõe às produções da cultura de massa e à lógica geral do lucro e provoca a inserção das
minorias que se sentem traídas pela imagem que delas é apresentada.
Em Vila canoa há um estado de conhecimento motivado por um movimento cultural, no
qual a mulher tem um papel representativo na construção conjunta e socialização da informação,
pois no diálogo de porta em porta elas preparam as mentes para a nova fronteira, implementando
um processo de letramento na comunidade. Nesta tecitura, cada um por sua vez pode contribuir
com suas influências, e vem parecendo que este fenômeno em Vila Canoa possui características
26
transformadoras e libertadoras, mostrando traços do que Touraine chama de uma nova sociedade
cultural.
Vários processos se inverteram em Vila Canoa: as mulheres conquistaram novos
patamares de influência, ou seja de liderança em seus locais de atuação; o ciclo gnosiológico é
invertido ou seja parte do tácito para o explícito e há uma inversão de características sociais onde
o protecionismo transforma-se em protagonismo. Trazendo também para este contexto Alain
Touraine (2005, 218), percebe-se que em Vila Canoa há uma inversão do modelo social para o
modelo cultural, a partir de uma ação social, onde indivíduos e grupos influenciam-se
mutuamente, permitindo-lhes viver o letramento, que é a base para aquisição de um novo papel
em um novo lugar mais central na nova cultura.
A nova sociedade cultural é um fenômeno global, que surge localizado, a partir do
deslocamento do eixo para um novo paradigma cultural, a partir do qual homens e mulheres
constroem conhecimento para uma economia na qual o letramento é matéria prima para gerar
riquezas.
Mary Parker Follett (1920), cientista política, assistente social nos anos 20 afirmava que
ninguém pode nos dar a democracia, devemos aprender a democracia. Ela dizia que ser
democrata é aprender como viver com outros seres humanos. Follett usava o conceito de grupo
com o significado de associação sob a lei da interpenetração (MORAES, 1999).
O conceito de democracia liga-se profundamente ao conceito de uma nova economia
ecológica, de feminização do poder, de letramento, com a comunidade através da ação social,
tecendo um novo Espaço Público localizado, para a formação de um espírito coletivo cultural e
nacional, pelo auto-reconhecimento dos direitos individuais e coletivos.
4.5
FEMINIZAÇÃO DO PODER – DENISE PINI ROSALÉM DA FONSECA
A feminização do poder é um conceito que reúne em si a participação das mulheres em
suas comunidades para a transformação das práticas e políticas comunitárias. Simboliza a luta
atual por uma liderança mais ecológica com um novo espírito coletivo.
O conceito de Denise Pini trabalha com polaridades que oscilam entre a subalternidade e
a autonomia, num ciclo de aprendizado onde as mulheres aprendem umas com as outras e com as
suas experiências construídas localmente.
27
A cultura da subalternidade está incorporada em grupos em situação de exclusão social,
que aceitam o protecionismo como forma de resolver os problemas sociais. Desincorporar esta
narrativa e criar a narrativa da autonomia do grupo é uma das missões das mulheres na
Feminização do Poder em Vila Canoa, em busca de uma liderança mais ecológica, que
empodera, que ensina, que apóia, que acolhe, que luta e que participa e ensina a participar e a
crescer.
O COMEM – Coletivo de Mulheres que estudam Mulheres surge desse movimento em
Vila Canoa, Vidigal e Roupa Suja da Rocinha e através da Rede de União de Mulheres, cada
uma vem estudando o papel da mulher em suas comunidades e buscando aprender o novo papel
social, local, que pode deflagrar as transformações de conteúdos e práticas políticas
comunitárias.
4.6
LETRAMENTO (LITERACY)
NA AQUISIÇÃO DE COMPETËNCIA
-
MAGDA SOARES
Para explicar o significado de letramento Magda Soares diz (2010, 47) que “alfabetizar e
letrar são duas ações distintas, mas não inseparáveis, ao contrário: o ideal seria alfabetizar,
leirando, ou seja: ensinar a ler e a escrever nos contexto das práticas sociais da leitura e da
escrita, de modo que o indivíduo se tornasse ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado”.
A autora diz que ler e escrever é adquirir uma tecnologia, ou seja, um conhecimento que
permite ler e escrever sobre a experiência vivida. Isto significa traçar relações, ler nas
entrelinhas, perceber o que não foi verbalizado; guarda íntima relação com empoderamento, com
autonomia, com protagonismo.
Segundo Magda Soares (Idem, 18) “o letramento altera a condição ou estado do sujeito
em aspectos sociais, psíquicos, culturais, políticos, cognitivos, lingüísticos e até mesmo
econômicos; do ponto de vista social a introdução da escrita em um grupo até então ágrafo tem
sobre este grupo efeitos de natureza social, cultural, política e econômica. O estado ou condição
que o indivíduo ou grupo social passam a ter, sob o impacto dessas mudanças é que é designado
por literacy”.
É evidente que no processo de empoderamento existem diversos níveis de literacy,
pois a ação social tem um efeito teleológico e depende das múltiplas interações e reações que se
28
estabelecem. O conhecimento ou gnose é em espiral, progressivo, permanente, infinito. “Estudar,
compreender o letramento e avaliar a sua difusão ao longo do tempo é tarefa estratégica, pois
traz dados relevantes para análise e a definição de políticas no mundo em que vivemos hoje”
(GRAFF, 1987a, p.32, Apud Soares, 2010, 114).
4.7
AÇÃO SOCIAL E SUBJETIVIDADE – A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA
DE MAX WEBER
Weber (2004) afirma que quando nossas ações e reações orientam-se pelo que os outros
fazem ou fizeram, isto se chama “ação social”, porque neste tipo de ação nos orientamos pelo
comportamento dos outros, seja este um comportamento passado, presente ou futuro. Indivíduos
ou uma multiplicidade de pessoas influenciam nossa forma de agir. E sucessivamente também
podemos influenciar outras pessoas.
Weber queria entender o sentido subjetivo7 que sustenta as ações das pessoas. A ação
social carrega outros conceitos: subjetividade, influência, ascendência, predomínio, interferência,
atividade de grupo. Isto significa que a pessoa é fortemente influenciada por pessoas e por sua
vez influencia outras pessoas e haverá um predomínio de idéias, haverá uma interferência na
forma de pensar e de agir. Imaginemos agora este fenômeno da ação social em um grupo que se
constrói mutuamente. Que idéias vão prevalecer? Que ações vão prevalecer? Qual será o
resultado final desta ontologia? Qual será o sentido último da ação social como fenômeno
teleológico?
Para responder a esta questão teremos que unificar os conceitos de ação social e
letramento, pois as influências que se estabelecem na esfera relacional local e que deflagram
novas práticas comunitárias formam uma subjetividade que acompanha como uma sombra o
processo de letramento, que por sua vez prepara os atores na esfera da ação social e a renova.
7
O sentido subjetivo tem a ver com os valores que impregnam as idéias e se refletem em
ações. Valores e crenças são transmitidos, ensinados, impostos e levam a pensar e agir desta ou
daquela maneira, influenciando pessoas e sendo por elas influenciado. Quem me influenciou ou
influencia? A quem estou influenciando? Estas discussões deveriam ser um importante objeto da
Sociologia, segundo Max Weber.
29
Weber queria entender os diferentes modos através dos quais as pessoas dão sentido
subjetivo às suas atividades e considerava que a sociologia deveria debruçar-se sobre este estudo,
mesmo que os complexos de sentido lhes parecessem estranhos, curiosos, peculiares.
Dentro deste argumento é que a sociologia de Weber fala em sentido subjetivo e realidade
empírica e concreta, pois é no contexto, é no grupo que as pessoas vão se influenciar umas às
outras e sofrer suas influências, carregando de sentido (ou não) suas ações no grupo.
Para Weber há uma multiplicidade de forças causais determinantes dos contornos do
passado e do presente. São as inúmeras ações e crenças das pessoas e suas influências mútuas e
destas com a realidade, que determinam a história. Não são nem as Leis de Mercado de Adam
Smith, nem a "Luta de Classes" de Karl Marx.
Que respostas então, a sociologia de Weber apresenta à crise da civilização ocidental?
Weber falava de valores que não são indviduais, mas de grupo, como responsabilidade,
personalidade integrada, conduta ética, fraternidade, compaixão, caridade, dedicação a uma
causa e sentimento de honra. Mas ele afirmava que esses valores precisam de sólidos portadores
sociais. Afirmava também que as pessoas só podem desenvolver estes valores quando têm a
necessidade de repetidas vezes tomar decisões por si mesmas. Ensinava que quando a ciência se
institucionaliza completamente, as decisões tomadas por especialistas podem ameaçar o
dinamismo de uma sociedade (KALBERG, 2010,108).
Neste sentido é que não se devem impor tecnologias às comunidades, pois através das
ações sociais locais elas desenvolverão suas tecnologias sociais, produzidas no contexto para
atender às suas necessidades de informação e de produção de conteúdos, verdadeiras ferramentas
libertadoras.
A pesquisa vem mostrando que apesar dos conflitos e lutas, apesar das dificuldades de
espaço, de manter as parcerias, de manter as mulheres engajadas, há um grupo portador das
idéias e valores e é nesta complexidade que a ação social ou ações sociais vem empoderando as
mulheres.
Na sociologia de Weber o poder tem um papel central nas análises das múltiplas causas,
ou seja, de como estas causas socializam novos modelos de ação social e como ativam os
30
sucessivos níveis de desenvolvimento histórico. A ação social para Weber só é relevante quando
acontece dentro de um grupo definido de pessoas.
Feminização do poder, letramento, desenvolvimento comunitário estão na base da
“Compreensão Interpretativa8” do que está acontecendo em Vila canoa. A Sociologia
compreensiva de Weber ajudou a compreender as ações do grupo durante a pesquisa
participante, pois foi possível “reconstruir o ambiente de valores, tradições, interesses e emoções
em que vivem, para daí compreender como se formulam os sentidos subjetivos” (KALBERG,
2010, 134).
Weber refere-se a quatro tipos de ação social e o sentido subjetivo e pode-se dizer que em
Vila Canoa os tipos podem ser identificados e reconhecidos, de forma individualizada, em
determinadas ações, mas também se apresentam entrelaçados muitas vezes numa mesma ação.
A ação social racional referente a fins é aquela em que são levados em conta os fins, os
meios e as consequências. Já a ação social racional referente a valores é inspirada em uma
conduta ética, independentemente das perspectivas de sucesso.
A ação social afetiva é determinada pelo afeto, pelos estados sentimentais do agente,
implica em apelo emocional. Por outro lado a ação social tradicional situa-se na fronteira da ação
dotada de sentido, simbolizando as respostas rotineiras aos estímulos.
Em Vila canoa a observação participante nos levou a perceber que a ação de
empoderamento das mulheres possui os quatro tipos identificados por Weber, pois há portadores
das idéias, mas os sentidos subjetivos formulados pelas mulheres nos levaram a ver a ação como
sendo às vezes inspirada pelos fins, às vezes tomada pelo afeto, outras vezes conduzida por
valores éticos e algumas poucas vezes dominada pela ação tradicional.
É por este motivo que o olhar descrente não será capaz de inspirar-se em Vila Canoa, pois
tudo o que está descrito aqui permanecerá para o cético, em ponto cego.
8
Metodologia proposta por Weber
31
5 APRESENTAÇÃO DOS DADOS DA PESQUISA
Aqui neste Capítulo estão as informações referentes às entrevistas com duas mulheres,
D.Y. a 1ª. Presidente da Associação dos Moradores de Vila Canoa e D.I. a atual Presidente. Entre
elas há mais ou menos um tempo de 20 anos. É por este motivo que em Vila Canoa há mais que
o tempo no próprio tempo.
Foram selecionados trechos das respostas dadas nas entrevistas pelas mulheres e pelas
pessoas que participaram do Grupo de Foco. As entrevistas completas estão gravadas e fazem
parte do Banco de dados da pesquisa Feminização do Poder.
Quer-se ressaltar que nas respostas os erros gramaticais foram registrados devido às
exigências da metodologia MEDS, note-se, no entanto a correta construção política no
pensamento destas mulheres, o que marca a diferença do letramento como tomada de consciência
do seu papel social e político na comunidade e em sociedade.
5.1
ENTREVISTA COM D. Y. – EX-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS
MORADORES DA PEDRA BONITA
Esta entrevista foi realizada na casa de D. Y., moradora da Pedra Bonita em Vila Canoa.
Pedra Bonita é uma localidade em Vila Canoa formada pela doação de terrenos aos funcionários
do Gávea Golf Clube e suas famílias.
Resolveu-se entrevistar D. Y. porque ela fundou a Associação dos Moradores da Pedra
Bonita, foi Presidente da Associação e a partir de determinado momento foi afastada como louca.
Questão Nº.1: Como a senhora chegou a Vila Canoa?
“Nós era de Minas, minha família trabalhava para a família de O. N. e D. A., então nós
veio para o Rio trabalhar no Gávea Golf Clube. Mudamos para Vila Canoa, que é esta
comunidade aqui perto do Crube Gávea Golf ”.
Questão Nº.2: Como a senhora tornou-se Presidente da Associação de
Moradores?
“O Crube Gávea Golf queria acabar com o aumento de casa na Comunidade. Aí, a
adevogada da Pastoral, Dra Eliane, orientou nós no sentido dos morador que trabalhava no
Gávea Golf fazer uma associação e eu ajudei a fundar a Associação dos Moradores de Vila
32
Canoa para resolver o poblema da moradia das família e também a ocupação. Eu era a única
mulher na associação dos morador ”.
Dona Y. foi a primeira presidente da Associação de Moradores de Vila Canoa.
Provavelmente a jornada em direção a uma nova subjetividade tenha se iniciado nesse
momento, com uma mulher na liderança da Associação dos Moradores há 20 anos.
No discurso de Dona y. está implícito que ela foi portadora de novas idéias em Vila
canoa, mas abdicou da liderança e percebe-se que ela deixou-se conduzir pelas circunstâncias e
hoje a família a tem como louca, também a comunidade a vê como louca. Ela neste processo foi
internada no Pinel. Durante a entrevista, porém demonstrou muita lucidez e inclusive atenta
todo tempo aos netos pequenos para que não caíssem das escadas.
A Associação dos moradores surgiu então neste contexto e ela acha que todos os grupos
hoje se ajudam mutuamente. Ela diz que se afastou para cuidar da saúde, no entanto, não
conseguimos saber porque foi internada no Pinel, não conseguimos saber por que foi
considerada louca. Ficamos intrigados em não perceber na entrevista os limites entre a
sanidade e a loucura, da qual ela mesma se diz portadora.
Questão Nº.3: O que a senhora pode dizer para outras mulheres e homens
sobre seu papel de líder? Há diferença na liderança feminina?
“Olha a mulher não pode tomar o lugar do homem, não se deve botar o carro adiante
dos boi. A gente tem que ter muito respeito pelos homem. Eu torço pelas mulher, mas não
podemos tirar o direito dos homem”.
Ficamos com a impressão de que talvez nesta frase esteja o fio que teceu a loucura de
Dona Y., que nos contou também que outras vezes lhe pediram para ser novamente presidente
da Associação, mas ela disse que não queria se indispor com o Gávea Golf. Mas não explicou
por que.
Ela disse que atualmente não quer estar em liderança de nenhum projeto e que ajuda
na igreja em tudo que lhe é pedido. Quer cuidar de sua saúde e de sua família.
33
5.2. ENTREVISTA COM DONA I. _ ATUAL PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS
MORADORES DE VILA CANOA E PRESIDENTE DA UNIÃO DE MULHERES
Questão Nº.
1: Quantas mulheres participam na mobilização de outras
pessoas na Associação dos Moradores?
“Hoje nós é 16 mulheres trabalhando na comunidade para os projetos. As 16 participa
da Associação dos Moradores e da União de Mulheres, forma uma Rede. É tudo junto”.
Formar um Rede social de mulheres neste contexto significa um conjunto de influências
mútuas que se estabelecem umas sobre as outras e quem conhece D.I. percebe que ela quer
empoderar-se e empoderar as mulheres. Esta ação de empoderamento feminino é parte do
letramento e pode-se dizer que Vila Canoa está em um nível ainda inicial de “literacy”. Mas o
germe foi inoculado e há um processo de mudança em andamento. Tudo isto vai ter
conseqüências sobre o indivíduo, com efeitos de natureza social, cultural, política.
Foucault afirma que o poder não existe, existem sim práticas ou relações de poder
(Foucault, 2007, XIV). Ele afirma que as práticas oriundas da esfera relacional estimulam o
exercício do poder, que se desenvolve na inter-subjetividade. No entanto Foucault também
conceitua o poder como intencional, ou seja a intenção permeia a relação e o empoderamento
se dá a partir de uma decisão. E esta decisão é o motor do letramento.
Foi decisão de D.I organizar a União de Mulheres com as mulheres de Vila Canoa, e
surge na inter-subjetividade uma nova estratégia (Idem, XVI) que estimula a resposta e
participação de outras mulheres de Vila Canoa.
Na aprendizagem conjunta do saber e poder as mulheres tecem um saber que se
incorpora nas práticas comunitárias de homens e mulheres que participam das relações de
poder, pois todo saber constitui novas relações de poder (Idem, XXI).
Questão Nº. 2: Quantas mulheres participam do projeto como um todo?
“Nós é 65 mulheres ao todo”.
Este não é um número técnico, mas de acordo com uma das leis da Dialética uma
mudança quantitativa
antecede a uma mudança qualitativa e é na prática das relações
comunitárias que saber e poder se constroem.
34
Através da observação participante e da sociologia compreensiva de Weber pode-se
perceber de forma empírica que a ação social na qual estas mulheres estão envolvidas é
racional em relação a fins, pois há um objetivo final, um meio e conseqüências e também é uma
ação social racional em relação a valores, pois trabalha com uma crença consciente na conduta
ética, independente das perspectivas de sucesso.
Mas não nos enganemos porque também foi possível observar um sentido subjetivo que
determina a ação social como tradicional, com respostas rotineiras aos estímulos, É a partir
desta oscilação que a feminização do poder e o letramento vem acontecendo em Vila canoa.
Questão Nº. 3: Como estas mulheres foram mobilizadas?
“Eu fui de casa em casa, chamando as mulheres. Elas vivia fechada em casa, sem
perspectiva de vida, não via futuro e hoje elas se relaciona, participa, se ajuda umas às outras”.
Para compreender o alcance destas palavras de D.I. tem-se que conhecer Vila Canoa,
penetrar em suas ruelas, conversar e se misturar com a vizinhança e é com este sentido
subjetivo adquirido que se pode interpretar estas palavras. Este apelo conjunto entre as
mulheres pode se explicar como uma forma neo-comunitária para confrontar a escalada da
violência e como um apelo ao nascimento de um novo individualismo, mais ético, mais
solidário, que nasce dentro do grupo.
Cabe aqui trazer
Touraine (2007, 23) que fala no apelo ao sujeito pessoal, para
enfrentar a dessocialização como o declínio do social, que se traduz numa penetração
generalizada da violência e na escalada das reivindicações culturais. A questão que Touraine se
faz é: “donde virá o movimento, qual força deterá a guerra?
Não existem respostas prontas nem padrões a serem seguidos porque os povos estão
enfrentando algo muito novo, um novo paradigma como “construção de defesa, de críticas e
como movimento de libertação” (Touraine, 2007, 13) – formas de resistência que repousam
longe dos atuais princípios sociais de legitimação.
Questão Nº. 4: Quantas mulheres auxiliam na liderança dos projetos?
35
“São 16 mulheres que tanto atua na União de Mulheres como na Associação dos
Moradores. Das 16 mulheres, 4 são mobilizadoras e as outras 12 participa de acordo com as
exigências de suas famílias”.
Percebe-se na trajetória de D.I. em Vila Canoa, e em sua fala, uma comunidade de
experiência, que funda a dimensão prática e política de suas ações, inseridas no conjunto das
ações das mulheres, como feixes que se entrelaçam numa rede. Não há ali um mundo
particular, privado, há um fluxo que garante a existência de uma experiência coletiva.
As experiências vividas isoladamente tecem a experiência coletiva, numa dimensão que
se traduz em um eterno não acabamento, pois há uma abertura num movimento infinito que
suscita sempre novas participações.
A experiência coletiva oferece uma base segura onde as práticas podem ser
compartilhadas pelo sujeito individual, tacitamente, numa escalada em direção a um novo
conceito de gnose e de social, que propõem um novo sentido subjetivo à vida.
Questão Nº. 5: As mulheres que participam dos projetos mudaram sua
maneira de ser por participarem destes projetos?
“A gente se aconselha, a gente conversa, a gente conta as histórias, fala às vezes só
bobagem e rimos muito juntas”.
Para analisar estas experiências é necessário uma nova Hermenêutica para interpretar
os signos, pois há uma forma neo-comunitária que se contrapõe à decomposição do laço social
que não mais envolve, não mais abraça, e que cria uma fronteira não-social entre a cidade e a
favela. A morte anunciada do social por Alain Touraine já bateu à porta dessas pessoas há
muito tempo.
“A organização ameaçada de cima pelo que chamamos de globalização, não pode mais
encontrar nela mesma os meios para reerguer-se. É embaixo, num apelo cada vez mais radical e
apaixonado ao indivíduo e não mais à sociedade, que procuramos a força capaz de resistir às
violências. É neste universo individualista, muito diversificado, que muitos procuram e
encontram um sentido que não encontramos mais nas instituições políticas e sociais – e que é o
único em condições de produzir exigências e esperanças capazes de suscitar uma outra
concepção de vida política”. (TOURAINE, 2007, 25)
36
É um individualismo incomum como fundamento de uma nova Ética e de uma nova
Moral.
Questão Nº. 6: Alguma coisa mudou nas famílias?
“Eu tenho a certeza que muita coisa mudou nas famílias, inclusive na forma como trata
os filho. Eu mesma converso com elas que tem que ter diálogo, não pode ir botando pra fora de
casa. Tem que dar compreensão, amor. Eu mesma era uma pessoa que queria resolver tudo a
ferro e fogo e hoje aprendi a ser mais humana”.
Aqui mais uma vez as leis da Dialética ensinam que a mudança envolve uma Tese, uma
Antítese e uma síntese As mudanças estão acontecendo e neste novo paradigma a sombra é do
tamanho da luz, mas estas mulheres estão descobrindo dentro delas mesmas uma
subjetividade posta em defesa de suas autonomias, uma capacidade de agir contra aquilo que
aliena e que promove o surgimento de uma nova subjetividade e em decorrência promovem
novas instituições comunitárias.
Há um fluxo informacional que funda este saber ecológico, que se enraíza, se distribui e
cresce ao se reproduzir, pois experiência e memória são comuns e estas mulheres não estão
desorientadas, isoladas, elas têm umas às outras na União de Mulheres de Vila Canoa. E esta é
uma gênese de poder.
Questão Nº. 7: O que acha que uma pessoa precisa para ser líder?
“Elas tem que ter paciência, saber ouvir, querer aprender. Eu mesma aprendi com o
tempo, eu era muito raivosa, falava muito alto e não ouvia o outro. Agora eu estou aprendendo
a ser mais calma, minha força é minha paciência, mas as pessoas sabe que quando eu falo eu
cumpro”.
Dá para perceber que estamos diante de uma mulher que tem liderança, adquirida de
muitas práticas, em sua trajetória pessoal. D. I. é aquela que conta, que narra, que interpreta os
signos e transmite um saber que está aberto ao fazer junto, mas não se enganem se for preciso
ela enfrenta o mundo.
A sua presença gera uma força germinativa que cria valores e ações que antecedem ao
saber coletivo que está sendo tecido. Esta força que impulsiona novas subjetividades gera ao
mesmo tempo confiança mútua que se cria e se recria no contexto de Vila Canoa. A ação social
37
com base em uma tradição está nascendo, e se fortalecendo nas regras e práticas aceitas e
reconhecidas e em breve incorporadas pela comunidade.
Em Vila Canoa os moradores estão construindo um perfil de líder, que surge de uma
nova heterogênese do conhecimento e da informação, a partir de um ciclo gnosiológico
invertido que se inicia com o compartilhamento de práticas, para dar um novo sentido e
direção ao conhecimento que sabem.
A narrativa é uma história de conjunto, senão não mobiliza ninguém, tem que ter
veracidade, ancorar-se nas vidas pessoais, possibilitar o compartilhamento de experiências que
na troca ganham semelhança. É um efeito de bricolagem e o papel do líder vai se construindo
com as características de cada um, no compartilhamento de práticas, num movimento em
direção a uma nova subjetividade, novos valores de reflexão crítica, questionamento,
inquietação e incerteza, “indispensáveis ao sujeito cognoscente” (FREIRE, 1997,18), porque o
líder é forjado nas temperaturas onde se forja a informação e o conhecimento.
Questão Nº. 8: Dizem que um líder sempre forma outros líderes. A Sra. já
formou líderes?
“Eu formei líder na Rocinha e lá na Comunidade. Junto com elas nós fez a parceria com
a Light, que trocou todos os marcadores de luz e em troca, cada casa recebeu uma geladeira
nova, na caixa. Foram 480 geladeiras. Hoje nós tem consultório dentário, ginecologista,
psicólogo. Todo mundo é voluntário e as parcerias fomos nós que fizemos”.
Este é o momento da liderança de D.I., ela é portadora de idéias e sabe que suas
práticas geram força e confiança e tudo isto possibilita que a liderança se construa e o poder
possa circular entre as pessoas. Há no ar a esperança e a possibilidade de novos significados
subjetivos de trabalho, de instituições, de vida. Ela junto com estas mulheres e homens vem
dando uma nova direção à vida comunitária. As dificuldades são muitas e os conflitos e lutas
funcionam como um rito de passagem e elas percebem isto, pois reconhecem que cada uma
sozinha é frágil, mas juntas elas podem ser o motor das transformações, por este motivo elas
sabem que tem que empoderar umas às outras.
Estas mulheres formam uma comunidade de experiência, uma comunidade de prática,
que transmite um saber, um conhecimento, um conselho, uma ética,
38
uma moral, um
aprendizado num ciclo que se repete e se repete....Pode ser a gênese de um novo arquétipo de
sociedade, mais cultural, que surge dos escombros do social, como anuncia Touraine. Mas é
uma nova subjetividade que nasce no seio de uma ação social de empoderamento feminino em
comunidades de baixa renda.
Aqui o subjetivo, não é algo inato, não nasce com o sujeito, nasce da esfera relacional e
surge das práticas oriundas desta esfera. A comunidade de prática que funda a experiência
coletiva, cria novos líderes, estimula o saber e o poder e cria novos arquétipos, uma nova
mente, novamente.
Questão Nº. 9: Como você forma um líder?
“Dando responsabilidade, conversando, indo junto quando não sabe, cobrando. Eu faço
o possível pra melhorar a vida das pessoas na Comunidade. O grupo é de mulher, alguns
homens já se interessam, mas a maioria não”.
Há uma múltipla causalidade na formação dos líderes, pois há uma experiência coletiva
que alimenta a ação social, inúmeras variáveis locais que contribuem para o fortalecimento do
espírito e um compartilhamento de práticas. D.I. porta idéias que alimentam o grupo, tecendo
de forma conjunta e participativa o sentido subjetivo e a direção que juntos vão se perfazendo.
A cognição em seus aspectos subjetivos é desenvolvida no contexto, é o local que dá o
sentido e direção ao que se sabe. D.I. neste processo é fundamental, mas diga-se que suas
palavras encontraram eco nas mulheres de Vila Canoa, isto porque as experiências
semelhantes. Um beduíno jamais pode fazer uma tecnologia para o povo da montanha, a não
ser que passe a compartilhar as práticas deste povo.
Questão Nº. 10: Quais são os projetos que vocês estão criando?
“São projetos de alongamento, costura, beleza, bordado, pintura, passeios, informática,
artesanato em geral. Fiz também o projeto da Colônia de férias para as crianças. Eu e minha
equipe, nós cuida da terceira idade. O poder público podia ajudar mais, para melhorar a vida
das pessoas, mas é a própria comunidade que se ajuda. A gente tem amizade umas com as
outras. Hoje a comunidade tem: Clínico geral, dentista, ginecologista, acupuntura”.
Todos os projetos de Vila canoa surgem de suas necessidades de informação. São
tecnologias sociais desenvolvidas por eles para eles. E tudo o que se está vivendo em Vila Canoa
está respaldado na arte de fabular, de narrar, que surge do resgate da experiência, respaldada
39
no contexto. A sociedade capitalista moderna distancia as pessoas e como não há uma
comunidade de vida em comum, não há mais o que fazer ou transmitir como experiência
coletiva, há um distanciamento e uma perda.
Em Vila Canoa há laços entre vida e palavra. Há letramento.
“Esse caráter de comunidade entre vida e palavra apóia-se na organização précapitalista do trabalho, em especial na atividade artesanal. O artesanato permite, devido aos
seus ritmos lentos e orgânicos, em oposição à rapidez do processo do trabalho industrial, e
devido a seu caráter totalizante, em oposição ao trabalho fragmentário do trabalho em cadeia,
por exemplo, uma sedimentação progressiva das diversas experiências e uma palavra
unificadora. O ritmo do trabalho artesanal se inscreve em um tempo mais global, tempo em
que se tinha justamente, tempo para contar, Finalmente, de acordo com Walter Benjamin, os
movimentos precisos do artesão, que respeita a matéria que transforma, têm uma relação
profunda com a atividade narradora: já que esta é também, de certo modo, uma maneira de
dar forma à imensa matéria narrável, participando assim da ligação secular entre a mão e a voz,
entre o gesto e a palavra”. (Gagnebin, Apud Walter Benjamin, 2008, 10 e 11)
Questão Nº. 11: Vocês continuam mobilizando as mulheres?
“Quando falta nós vai saber por que está faltando, para ajudar a resolver, porque o
importante é participar. A gente é mais acolhedora. Os homens são explosivo. Nós é tudo na
vida: faxineira, amiga, lavadeira, esposa, mãe, companheira, não é discriminando o homem,
mas nós mulheres sabemos dar a volta por cima e vamos chegar lá”.
Esta camaradagem que surge em Vila canoa fortalece laços sociais que estão partidos
entre cidade e favela, e dá unicidade entre voz e vida. Gagnebin (2008, 18) diz “que não temos
nenhuma mensagem definitiva para transmitir. Que não existe mais uma totalidade de
sentidos, mas somente trechos de histórias e sonhos. Fragmentos esparsos que falam do fim da
identidade do sujeito e da univocidade da palavra. Indubitavelmente uma ameaça de
destruição, mas também e - ao mesmo tempo - esperança e possibilidade de novas
significações”.
O companheirismo em Vila Canoa abre caminhos à possibilidade política de união das
mulheres e esta camaradagem, de ir saber, de ir buscar, do se importar com a vida do outro,
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está conectada à vida política, pois o contexto tece laços entre gesto, política e palavra, não
permitindo que se desagregue a experiência.
Questão Nº. 12: Afinal, qual o papel da mulher na liderança dos projetos na
comunidade?
“A gente tá se preparando. liderança exige participação política, aprender nas
instituições de onde participa. Nos curso que faz. A mulher tem que se preparar para ser líder.
Quero dar o melhor de mim à comunidade. A gente tem esta disposição”.
Em Vila Canoa as mulheres buscam expressar em suas lideranças a persuasão, a
dimensão do milagre – elas reproduzem o que ainda não é – seu desempenho é a arte do
maestro, uma performance artística. É magia, arte e política em busca do ouro de uma nova
existência.
Um novo paradigma surge em meio a tudo, com o poder das mulheres em meio ao não
poder das mulheres. São novas significações, uma nova identidade do sujeito, individual e
social, esperança e possibilidade que abrem estradas ao desenvolvimento de novos aspectos
subjetivos, mobilizados pelo contexto.
Questão Nº. 13: Qual o papel da União de Mulheres na Comunidade?
“A história da União de Mulheres é dentro da vida da Associação de Moradores. Eu
concorri três vezes à Presidência da Associação e perdi duas vezes. Na verdade eu queria fazer
projetos que não tinha na Associação de Moradores e então quando perdi pela segunda vez,
resolvi fundar a União de Mulheres. Saí pela comunidade chamando as mulheres, para formar a
União de Mulheres. Elas queria trabalhar e eu prometi a elas que nós conseguia fazer o
artesanato para gerar renda, além de juntar o dinheiro para montar outros projetos. Mobilizei
16 mulheres e o nosso primeiro trabalho foi a colcha de retalhos. Hoje destas 16, 4 são as
líderes que me auxilia em tudo. As outras 12 trabalha também, mas não são tão presente como
as outras.
Questão Nº. 14: Pode explicar mais?
“Nós temos outros projetos, um deles é a informática. É difícil, mas nós vai conseguir.
Toda a comunidade se envolve com os projetos. Hoje queremos o melhoramento das moradias,
este foi um dos objetivos de se fundar a Associação de Moradores. Mas não é fácil, tem homem
como presidente que não agüentou e saiu. Nossa luta é grande, antes a Associação era chamada
de Associação de Moradores e Amigos de Vila Canoa. Tiraram o Amigos. A Federação das
Favelas achou justo tirar a palavra Amigos, porque somos nós mesmos que tem a
responsabilidade sobre nós. A gente tem muitos problemas sérios”.
41
D. I conta que queria fazer muitos projetos, mas que se via restringida pela presidência
da Associação de Moradores, ela enxergava diferente e então resolveu fundar a União de
Mulheres Artesãs, para levar adiante tudo aquilo que queria trazer para a comunidade. Sabia
que sozinha seria impossível e então saiu de porta em porta convocando as mulheres a saírem
de suas casas, a enfrentarem a depressão, a ociosidade, a falta de dinheiro e se organizarem em
torno da União de Mulheres. Reuniu 16 mulheres que hoje atuam na Associação. D.I. portava
uma nova narrativa.
Ela diz que liderança comunitária exige força de vontade, determinação, coragem e às
vezes não se obtém ajuda que se precisa. No entanto, ela diz que antes levava tudo a ferro e
fogo e que hoje aprendeu e trabalha de forma diferente.
Sua experiência de mobilização surge da competência em informação que se liga à
cognição e é mobilizada pelo contexto, localmente. A cognição é relacional e subjetiva ao
mesmo tempo, pois a inter-subjetividade antecede a subjetividade (Bahktin), ou seja, é o
contexto que estimula os aspectos cognitivos e as mulheres em Vila Canoa expressam o seu
papel de tecedoras de uma nova ordem de desenvolvimento social.
Na era da informação em que os bens da sociedade atual estão confinados nas mãos de
uma elite não participativa, tem razão Michelle Perrot, que afirma que “os debates relativos a
uma representação paritária das mulheres vem sacudir o conformismo deste fim de século. Na
aurora do terceiro Milênio, estes debates talvez desenhem os epicentros das fraturas, das
frentes de luta e das fronteiras futuras”(PERROT, 1998).
É neste viés que “Feminização do Poder”, subjetividade e cognição se conectam à
letramento (literacy) pois este movimento interativo e iterativo das mulheres estimula o
compartilhamento de práticas que antecede à construção das políticas comunitárias e à criação
de tecnologias sociais como ferramentas libertadoras.
O mais difícil já está sendo tecido: mulheres atuando em suas comunidades em projetos
de compartilhamento de práticas, construção da informação, educação, saúde mental, violência
doméstica, com uma linguagem adquirida na convivência, capaz de criar coletivamente uma
42
nova forma de expressão do poder, mais ecológico, mais feminino, que envolve homens e
mulheres em uma nova história de liderança.
Questão Nº. 15: Quais são os problemas mais sérios?
“Tem coisas sérias na comunidade, como o problema da falta de luz, falta de água. O
pior é que corre o risco de serem despejados pela prefeitura, pelo governo e ainda por cima
ameaça de morte. Nós é vizinho e tem responsabilidade uns com os outros. Nós lutamos muito
para ajudar a comunidade”.
Problemas sérios, lutas, responsabilidades, liderança, todos estes conceitos estão
carregados de significados na fala de D.I. e ela não luta contra moinhos de vento, sua luta é real
e é em meio à luta e por meio dela que vão dando novos contornos subjetivos aos problemas e
às soluções.
Na verdade, a sociedade cultural proposta por Alain Touraine não nasce de uma luta
contra moinhos de ventos, mas em decorrência de propriedades da informação, que constrói
conhecimento na mente do sujeito. O aprendizado é vivenciado na prática cotidiana conjunta,
na luta política e torna inseparáveis conhecimento, subjetividade, política e cognição.
Pode-se e então conceituar a sociedade cultural como a sociedade da cognição, ou seja,
o novo paradigma exige que homens e mulheres, em suas comunidades, dêem um novo
sentido subjetivo ao que vivem e ao que sabem. Eles terão que se voltar para os seus contextos
e inspirarem-se, pois é o local que vai mobilizar suas mentes para recriarem suas vidas. Devem
buscar parcerias e protagonizar a história, pois a sociedade atual não tem o conhecimento
necessário que lhe permitiria compartilhar os bens da sociedade da informação, finando por
usufruir, de forma confinada, o que pertence a todos.
É neste contexto que o ciclo gnosiológico padrão de Freire, Braga e Cristóvão mostram
toda a sua potência, pois para dar respostas aos problemas sérios de Vila Canoa, conforme
apontados por D.I. é preciso que haja um encontro de idéias e ações entre as Instituições
sociais vigentes no país e a inteligência subjetiva da comunidade. A nova heterogênese do
conhecimento e da informação está na base desta nova subjetividade, pois a comunidade tem
que se preparar politicamente para socializar suas idéias, suas propostas de solução.
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É este fenômeno que está na gênese do que está ocorrendo em Vila Canoa. Mas não se
enganem, todo este fenômeno estará velado para aquele que usar o olhar cético para observar
o que está acontecendo na comunidade.
Questão Nº. 15: Que outros projetos vocês estão implantando?
“Ornamentação das fachada das rua da comunidade”
“Curso de teatro pra jovem”
“Aulas de ballet pra criança“
“Aula de alfabetização pra adulto“
“Um salão pra corte de cabelo, embelezamento das unha e massagem corporal”.
“Reativação do consultório dentário”
A questão poderia ter sido: Que outros trabalhos estão acontecendo em Vila Canoa,
conduzidos pela União de Mulheres? Elas precisam de renda e o processo de subjetivação não
precisa passar pela organização tradicional do trabalho, ele nasce de forma autônoma, na
cultura, nos contratos sociais, no tempo livre, e a partir desta autonomia estabelece sua relação
com o capital ou a ele se subordina (Gorz (2005), Negri e Lazzarato (2001) – Apud Bendassoli,
2007, 151). (...) Mas o capital se infiltra radicalmente aí nesse núcleo criativo, identitário,
apropriando-se do próprio ato de subjetivação (BENDASSOLI, 150).
Cada projeto, cada trabalho em Vila Canoa não é mais uma atividade fora do indivíduo,
mas é uma ação que ao mesmo tempo traz desenvolvimento social à Comunidade e dá a luz ao
próprio sujeito. Na verdade estamos observando em Vila Canoa uma nova heterogênese do
conhecimento e da informação no qual a mulher vem engendrando de forma conjunta trabalho
e subjetivação. Na construção do conhecimento e da informação do processo de
compartilhamento de práticas desenvolvem-se os aspectos cognitivos, subjetivos, que dão
direção e um novo sentido à existência dos moradores de Vila Canoa.
Questão Nº. 16: Como é este negócio do Posto Médico?
“O posto médico que foi uma conquista das mulheres de Vila Canoa”
“Nós dormimos na porta do Palácio em Laranjeira, até nós ser recebida. Foi assim que
conseguimos o Posto médico”.
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“A comunidade todo ano faz uma grande festa com muito bolo, doce, dança e prêmio do
melhor dançarino. A festa dura o dia inteiro. Esse ano vocês estão convidadas”.
Aqui o ciclo gnosiológico padrão Freire, Braga e Cristóvão é o motor da
socialização de idéias entre Vila Canoa e o Poder Público, no sentido de viabilizar políticas de
saúde. O Posto Médico é uma tecnologia social pois surge das necessidades da comunidade e
foi por eles criado em conjunto com o Poder Público, o que denota a importância da
comunidade definir políticas para a dimensão comunitária.
A festa representa o laço social fundamental que une o mundo político em Vila Canoa ao
mundo cultural da festa, engendrando em meio a tudo isto o novo individualismo, uma nova
subjetividade, uma sociedade cultural que nasce no seio de uma sociedade onde o social para
incluir precisa do protagonismo das comunidades, produzindo idéias, tecnologias e uma nova
dimensão de parcerias.
5.3
ENTREVISTA NÃO ESTRUTURADA COM A UNIÃO DE MULHERES DE VILA
CANOA – GRUPO E FOCO COM Quatro MULHERES E UM HOMEM
Questão Nº. 1: Em quais projetos vocês estão envolvidos?
“Grupo de alongamento para idoso que é em dois grupos de 20”
“Grupo de construção do conhecimento”
“Grupo de trabalho manual: crochê, tricô, vela, trabalho com retalho de tecido.
Participa 30 pessoas”.
Neste envolvimento com os projetos as mulheres e homens de Vila Canoa compartilham
práticas incorporadas, atualizando o conhecimento tácito e construindo um novo
conhecimento explícito, pois do fenômeno surgem novas idéias a serem compartilhadas. Mas o
que é este construir conhecimento, senão agir a partir de um sentido subjetivo e direção que
foi aprendido coletivamente no debate, no contexto local? Ou seja o conhecimento é
mobilizado para atender o contexto.
Este conhecimento socializado que retorna a cada um, misturado com as idéias do
outro, cria novos aspectos subjetivos que vão ser motor de novas ações sociais. É neste
contexto de experiências que o ciclo invertido do conhecimento destaca o papel do
compartilhamento de práticas, de valores, pois que subjetividade e conhecimento traduzem-se
45
em ferramentas libertadoras, as tecnologias sociais a serviço do desenvolvimento da
comunidade, feitas por quem vive o problema político da informação.
Mais uma vez destaca-se que o compartilhamento de experiências e de práticas que
antecede à construção da informação são anteriores à construção de tecnologias sociais e ao
uso de ferramentas computacionais, ou seja, a construção da informação - que sempre é
coletiva antes de ser individual - é anterior à informática. Produzir e publicar conteúdos exige
letramento, ou seja, exige que o sujeito esteja imerso em práticas sociais que o levem a leitura
e a escrita do que está vivendo. Isto é parte de uma luta política, pois educar é participar e
parafraseando Follett, “ninguém pode nos dar a democracia, devemos aprender a democracia,
pois ser democrata é aprender como viver com outros seres humanos, no grupo”. (Apud
MORAES, 1999).
Questão Nº. 2: O que vocês fazem no projeto?
“Nós trabalhamos. É um trabalho voluntário. Na Capela de Vila Canoa nós atende tanto
a comunidade de Vila Canoa como a Comunidade da Rocinha. Na paróquia, chegamos a
atender semanalmente 100 famílias.
Vila Canoa quer gerar mudança, quer formular novas instituições políticas, morais,
sociais. Mas há uma dessocialização na sociedade, que evidencia uma cidade partida, com uma
linha divisória imaginária que separa a favela da cidade.
Por outro lado vemos em Vila Canoa que há a escalada de uma forma neocomunitária,
que deixa para trás a derrota e busca dar um novo sentido à vida comunitária. Eles buscam uma
auto-referência, para resistir à lógica de mercado e do poder e juntos formularem uma nova
concepção de progresso. Mas não fazem isto sozinhos, isolados, eles tem parcerias com
instituições sociais, mostrando que os ciclos gnosiológicos padrão e invertido são
complementares. Na verdade, alianças estratégicas e protagonismo são os motores desta nova
era comunitária.
A comunidade está construindo de forma conjunta o conhecimento, mas será que não
existem mais em Vila Canoas relações de dominação? É difícil explicar o surgimento da
consciência, mas a história de Vila Canoas vem demonstrando que a mulher vem ocupando um
papel importante na aquisição de um novo modo de pensar, de ser, fazer e existir.
46
Questão Nº. 3: Como foi que vocês entraram para este trabalho?
“D. I. nos chamou”
“Ela falou da União de mulheres”
“Nosso primeiro trabalho foi uma colcha de retalho”
Parafraseando Bertold Brecht, fazer política é penetrar na alma dos outros e ali construir
a sua fala. D.I uniu política, arte e trabalho e invadiu a alma dessas mulheres, mobilizando-as
para algo novo, que é comum a todos os discursos em Vila Canoa, porque tem origem em
experiências semelhantes.
Bendassoli traz
Negri e Lazzarato que defendem que, para compreendermos as
mutações do trabalho na atualidade, é válido usar a chave dada por Marx em sua concepção de
trabalho em seu aspecto duplamente objetivo e subjetivo, ou seja, fonte de valor e identidade,
criatividade. Ele diz que o trabalho continua sendo uma referência para a definição do sujeito e
de sua identidade. De fato quando não há mais um modelo hegemônico de produção, o
processo de subjetivação não tem necessidade de passar pelo capital e o sujeito se torna
autônomo ao mesmo tempo em que é apropriado pelo trabalho em novos circuitos de geração
de valor (2007, 149).
O trabalho é uma realidade importante para estas mulheres e para a comunidade, pois
com a erosão do mundo do trabalho, o artesanato da costura cria pontes para o processo de
subjetivação, no compartilhamento de práticas; na transformação do pano em um novo
modelo surge uma nova forma de pensar, de fazer, de ser, surgem novos circuitos de geração
de valor. Weber que nos perdoe9, mas Marx estava certo, o trabalho continua sendo uma
referência para a definição do sujeito e de sua identidade.
Questão Nº. 4: Mudou alguma coisa em sua vida por estar neste projeto
onde trabalho e desenvolvimento comunitário estão juntos?”
“Mudou dentro da gente”
“A gente vê agora as coisas diferente”
9
Para Weber há uma multiplicidade de forças causais que determinam a história e não são nem
as Leis de Mercado de Adam Smith, nem a "Luta de Classes" de Karl Marx.
47
“Eu acho que mudei. Eu bebia, não bebo mais. D.I. me ajudou a mudar”.
Com a participação nos projetos, essas pessoas sentem que estão mudando. É uma
mudança interna, mas é o início das possibilidades de transformações materiais.
O processo de Feminização do Poder está alavancando mudanças nas pessoas, é o
nascimento de um novo individualismo no qual a comunidade tem que gerir seus próprios
projetos de vida e enfrentar as crises, as rupturas, os fracassos, as perdas.
Na verdade na criação deste novo individualismo cresce o conceito de capital social, e
neste cenário tudo é trabalho: o trabalho voluntário na União de Mulheres; o artesanato
comunitário; as reuniões comunitárias para a construção do conhecimento; o trabalho da
Agência da Família; as aulas no campinho de futebol; as aulas de Matemática pelo aluno mais
adiantado; o clube de leitura das mulheres para formar o leitor.
Em dado momento do Grupo de Foco uma das pesquisadoras da PUC10 perguntou como
lidavam com violência doméstica em Vila canoa. E descobrimos que um trabalho importante na
Comunidade é que lá não se instala a violência doméstica, as mulheres são atuantes quando há
alguma coisa neste sentido: “Nós vai lá e resolve”.
Há um espírito de solidariedade em Vila canoa e é muito importante observar o que está
acontecendo, pois vizinhança, identidade, solidariedade, liderança e subjetividade estão na
base da produção do sujeito, criando novos roteiros, deixando para trás tendências.
Questão Nº. 5: Dos projetos que vocês ainda querem construir quais
os que ajudariam na construção do conhecimento?
“O Núcleo de Informática. O Cinema para construir saber”.
“Tudo é difícil, agora tem a construção do conhecimento com a psicóloga”.
“Mas o computador traz comunicação, traz Internet, traz tudo”.
“Tudo aqui é difícil, nós precisamos de muitas parcerias. Olha só, a incubadora social
da PUC cadastrou 12 costureira, tudo profissional, que por falta de espaço, trabalham em suas
próprias casas”.
Estas mulheres estão reinventando a vida. Juntas estão construindo uma nova
identidade, novos sonhos, querem o que parece impossível às mentes céticas. Mas a
10
Suely Conceição Rodrigues, Assistente Social
48
desinstitucionalização do trabalho é uma sombra que as acompanha e as mulheres juntas
enfrentam a necessidade do desenvolvimento de um novo individualismo.
D.I e as mulheres de Vila Canoa estão criando novas narrativas para estimularem-se
umas às outras com a geração de trabalho e renda calcada no artesanato e o que lança pontes
entre as subjetividades é a construção conjunta do conhecimento. As TIC’s e o cinema estão na
base da construção deste novo conhecimento que dá um sentido subjetivo peculiar às suas
narrativas. “O novo individualismo tem uma individualização com poder micropolítico capaz de
imputar um ato criativo na transformação e na bricolagem de símbolos, significados e valores
passíveis de reinvenção permanente e de experimentação livre” (BECK & BECK-GERNSHEIM E
ALAIN EHRENBERG, Apud BENDASSOLI, 2007, 294).
Questão Nº. 6: Como é este negócio de parceria?
“Nós temos alguns parceiros”
“Os homens também participa, né?”
“Mas nós mulheres, estamos sempre presentes”
Parcerias entre a comunidade e universidades; entre comunidade e indivíduos; entre
comunidade e organizações, entre comunidade e poder público ressaltam a importância
estratégica do ciclo gnosiológico padrão, pois o protagonismo comunitário do ciclo gnosiológico
invertido não libera o Estado de suas obrigações. As novas formas de relações de produção de
identidade, subjetividade e trabalho oriundas deste protagonismo com o ciclo invertido do
conhecimento não são apologia para a construção de um Estado ausente da vida das pessoas
pobres.
Na verdade as grandes narrativas como a do Estado-nação, da etnicidade, da família
tradicional, da classe social, do trabalho para a vida toda, não são mais capazes de determinar a
conduta individual. Os projetos coletivos como o trabalho não são mais garantidos pelo Estado
de Bem Estar Social, desta forma resta aos próprios indivíduos conduzir se projeto de vida
profissional. Diferentes formas de produção e diferentes estilos de vida trazem mudanças nos
relacionamentos e fazem surgir a segunda modernidade, com uma nova ética, uma nova
49
consciência e um novo processo reflexivo de socialização. (BECK & BECK-GERNSHEIM E
ALAIN EHRENBERG, Apud BENDASSOLI, 2007, 201 - 203).
Estes novos modelos segundo Beck & Beck-Gernsheim (Apud BENDASSOLI, 2007,
204) podem produzir um peso muito grande, trazendo angústia e desespero, porque a incerteza é
produzida no próprio ato decisório. No entanto uma outra visão é a de Lena Vania Ribeiro
Pinheiro que cita McGarry e as definições de informação de autores como Jesse Shera, Marshal
McLuhan, George Miller, McKay, Belkin, Shannon e Weaver, e Becker e extrai atributos
(PINHEIRO,1997, p.190) que definem a informação como a liberdade de escolha: é algo
necessário quando enfrentamos uma escolha. É matéria prima de que deriva o conhecimento e
pode ser definida em termos dos seus efeitos no receptor. Com informação, o indivíduo adquire
novos valores de reflexão crítica, questionamento, inquietação e incerteza, “indispensáveis ao
sujeito cognoscente” (FREIRE, 1997,18).
O que é preferível: A liberdade de escolha, a informação, a individualização ou fugir do
risco, da incerteza e permanecer sem construir a informação? A nova heterogênese do
conhecimento e da informação não se dá sem risco, e embora seja uma construção coletiva, pois
a inter-subjetividade é anterior a subjetividade (BAKHTIN), cada indivíduo deverá construir a
sua biografia consciente de que a narrativa na qual ela está inserida, poderá ser atravessada por
outras subjetividades, novas biografias, diferentes histórias, outras narrativas.
50
6 CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS À PESQUISA SOBRE A FEMINIZAÇÃO DO
PODER
6.1
O CICLO INVERTIDO DE AQUISIÇÃO DO CONHECIMENTO
O ciclo gnosiológico Freire, Braga e Cristóvão aborda a importância de haver
socialização da informação para que todos aprendam, para que não haja diferenças
irreconciliáveis
e a sociedade seja uma sociedade que aprende, com as instituições,
comunidades, poder público e pessoas instruindo-se para incorporar novos valores,
como
altruísmo, cooperação, heteroestima, solidariedade, respeito mútuo, consideração. A informação
exclui quando confinada a certos grupos, mas quando socializada ela tece novas fronteiras entre
favela e cidade e permite o desenho de soluções mais abrangentes, porque as pessoas aprenderam
umas com as outras. Este ciclo remete à responsabilidade Social.
No entanto hoje não se vê a comunidade amplamente engajada em participar da
construção de políticas para superar a pobreza, políticas para o trabalho, educação, saúde,
moradia, transporte. Em função disto, o conhecimento comunitário é insuficientemente
incorporado em ferramentas, o que fragiliza o conceito de tecnologias sociais, pois a comunidade
pouco ou nada protagoniza do desenvolvimento conjunto das tecnologias que consome.
O ciclo invertido do conhecimento é um contraponto no empoderamento de grupos
excluidos, para que a partir de suas próprias experiências e práticas eles possam criar soluções
para seus problemas de informação.
Este ciclo invertido do conhecimento corresponde à
responsabilidade Comunitária daqueles que estão à margem da socialização da informação, Sua
gênese se dá quando o grupo, assumindo o papel de protagonista de sua história, resolve voltarse sobre si mesmo, compartilhar suas práticas e escrever suas próprias narrativas, propondo um
outro curso à história da exclusão social. O ciclo gnosiológico padrão e o ciclo gnosiológico
invertido são complementares na elaboração de tecnologia sociais ou tecnologias para libertação.
Mas como se percebeu este ciclo invertido durante a pesquisa? Foi observando a
liderança feminina de Vila canoa, que se iniciou há 20 anos atrás, com D. Y. e se apresenta hoje
numa dimensão mais complexa, que oculta e desvela o protagonismo, mas que oferece nas falas
dos entrevistados uma profundidade que dá autoridade à pesquisa.
51
Durante a pesquisa em Vila Canoa percebeu-se este ciclo gnosiológico invertido
(Legenda 04), com as pessoas desenvolvendo o letramento, no construir, transmitir, redefinir
informação e agir com base no que sabe. Ressalte-se que esta é uma pesquisa relacionada à
liderança feminina e observou-se nestes grupos que o ciclo gnosiológico se inicia quando o
sujeito cognoscente é mobilizado para agir a partir de um conhecimento, que é a base de sua
própria percepção. As mulheres são mobilizadas a partir do conhecimento tácito, das crenças e
valores. Neste modelo de conhecimento o sujeito cognoscente não se inicia no aprendizado
verbalizando, muitas vezes nem sabe ler ou falar, mas é tocado pelo sentido de proximidade, de
vizinhança, é o sentido subjetivo da esperança, da fé em um mundo melhor.
Além dos grupos em situação de desvantagem sócio-econômica, outros grupos vivenciam
o ciclo de criação do conhecimento de forma invertida, como por exemplo, aqueles que passam
por um problema grave. Estas pessoas aprendem sem que haja palavras, como se fosse um
choque. Outro exemplo de ciclo invertido na criação do conhecimento foi o vivenciado por
Helen Keller, a menina que nasceu cega, surda e muda e que foi alfabetizada por Ann Sulivan,
que com seu método despertou crenças e valores adormecidos e contribuiu decisivamente para
que ela se tornasse uma das maiores escritoras do mundo.
No modelo invertido as crenças tecem uma relação de proximidade entre cultura e
produção de um novo conhecimento, crenças como força direta dos sujeitos sociais e individuais.
Temos observado que o feminino tem participado com um novo papel social, emblemático no
ato do conhecimento, nos seus locais de moradia, nas vizinhanças de seus contextos,
mobilizando homens e mulheres. Assim, percebe-se em meio à pesquisa, que o desenvolvimento
de competências informacionais em comunidades de excluídos passa pela compreensão deste ato
gnosiológico invertido, entrelaçado com o papel social das mulheres na criação de uma economia
do conhecimento que pressupõe uma nova heterogênese do conhecimento e da informação. Foi
crucial observar o fenômeno e buscar uma epistemologia que desse conta da profundidade e da
extensão do que estamos vivendo e ao mesmo tempo observando.
52
4. SOCIALIZAÇÃO DE IDÉIAS – O
É a etapa do ciclo em que se inicia a gênese
de um conhecimento novo, na qual o
indivíduo participa da troca de idéias, do
diálogo, da socialização de experiências e no
grupo, ele ouve outras idéias, experiências
diferentes, explicita o que sabe e amplia seu
3. CONSTRUÇÃO DA INFORMAÇÃO –
CONHECIMENTO EXPLÍCITO
O indivíduo, com a sua bagagem,
conecta o que sentiu, percebeu e
entendeu, e constrói claramente a
informação em sua mente.
2. PRODUÇÃO DO NOVO
CONHECIMENTO TÁCITO
Nesta etapa do ciclo, o indivíduo devido à vizinhança e
à semelhança de experiências, constrói de forma
conjunta uma nova narrativa e adquire novos valores
de reflexão crítica, questionamento, inquietação e
incerteza, “indispensáveis ao sujeito cognoscente”
(FREIRE, 1997,18).
CICLO GNOSIOLÓGICO INVERTIDO
CONHECIMENTO TÁCITO SE
TORNA CONHECIMENTO
EXPLÍCITO
1. AÇÃO COM BASE NO QUE SABE (A
PARTIR DE SUA PRÓPRIA
PERCEPÇÃO) – CONHECIMENTO
TÁCITO (INCORPORADO)
É a etapa do ciclo em que o indivíduo age a partir de
um conhecimento, que é a base de sua própria
percepção .
LEGENDA 04: Ciclo gnosiológico invertido – que surge das Práticas Oriundas da
Esfera Relacional
53
6.2
MAPA DAS LIDERANÇAS FEMININAS EM VILA CANOA
INSTITUIÇÃO
UNIÃO DE
MULHERES
ASSOCIAÇÃO
DE MORADORES
DE VILA CANOA
LIDERANÇA
ALFA
LIDERANÇA
BETA
LIDERANÇA
GAMA
LIDERANÇA
DELTA
4
1
16
40
40
4
1
16
D.I. sublinhou durante a pesquisa que como presidente da Associação de Moradores e
também da União de Mulheres, fez uma rede social entre as duas entidades, de tal forma que
hoje as duas instituições são representativas na comunidade, envolvendo os moradores.
Notou-se durante a pesquisa que o processo de desenvolvimento de lideranças e
empoderamento acompanham o ciclo de vida invertido do conhecimento, no desenvolvimento da
autonomia.
Vila Canoa é uma comunidade em busca de uma nova narrativa, e foi fundamental
elaborar um modelo dos tipos de liderança (legenda 05), o que permitiu entender o universo
investigado e analisar as diversas influências. O modelo permitiu mapear as lideranças de acordo
com os seguintes conceitos:
ALFA é uma liderança mobilizadora na esfera relacional; A liderança Alfa nasce no contexto
das experiências conjuntas de uma vida em comum. São indivíduos em instituições comunitárias,
que criam projetos na comunidade. São indivíduos portadores da mentalidade atual vigente na
comunidade. A liderança na Associação dos moradores é liderança Alfa.
BETA é uma liderança reflexiva e refletora que surge como liderança Alfa, mas por um processo
interno, local, transforma-se e é a gênese de um novo paradigma mental comunitário, com o
compartilhamento de práticas e a produção de um novo conhecimento tácito, criando novas
subjetividades na esfera relacional. São indivíduos reflexivos e refletores portadores de novas
idéias, uma nova mentalidade. Na dialética deste processo, o espírito comunitário absorve novos
traços e se renova. Formam-se novas mentes e o indivíduo adquire uma nova mentalidade, que
vai influenciar a comunidade. Participando dos projetos as pessoas vão aprendendo e conquistam
54
novos patamares cognitivos, novas subjetividades e enxergam novas fronteiras, como foi o caso
de D.I. uma líder que enxergou novas fronteiras.
GAMA é a liderança multiplicadora de práticas, e aqui o que se aprendeu é explicitado em
normas, padrões e torna-se agora política comunitária explicitamente escrita;
DELTA é a liderança seguidora das práticas e das políticas comunitárias.
A liderança ALFA é uma liderança comunitária que mobiliza para o desenvolvimento
comunitário dentro dos padrões já consagrados, mas quem dá início ao ciclo invertido do
conhecimento na comunidade e desenvolve as novas narrativas, que mobilizam para o novo
conhecimento é a Liderança BETA, que infunde nas mentes um novo paradigma, incentivando
para novas subjetividades. A Presidente da União de Mulheres era Liderança ALFA, mas
participando da Associação de Moradores, inspirou-se para fundar a União de Mulheres e deu
início a sua trajetória como Liderança BETA. Mobilizou as mulheres da Comunidade, estimulou
o desenvolvimento de Lideranças GAMA, e agora as mulheres estão elaborando as políticas
comunitárias, escrevendo e apresentando projetos para financiamento, implementando
tecnologias sociais. As mulheres que participam dos programas, como consumidoras de serviços,
são Liderança DELTA.
O sistema de lideranças é aberto e alimenta-se das práticas oriundas da esfera relacional e
acompanha o ciclo invertido do conhecimento.
Com o fim do social, como anuncia Alain Touraine, as comunidades que quiserem
superar os problemas sociais terão que debruçar-s sobre si mesmas e compartilhar práticas e no
exercício conjunto destas práticas oriundas da esfera relacional, desenvolver lideranças para
fortalecer os espíritos e preparar para as novas fronteiras do conhecimento que exigem
letramento (literacy), capacitando-se posteriormente à produção e publicação de conteúdos na
web, ou seja, implementando a futuro “information literacy”.
55
6.3
OS DOIS CICLOS SE COMPLEMENTAM - UMA COMUNIDADE DE
PRÁTICAS (Cop) EM COMUNIDADE DE EXCLUÍDOS -
Explícito
Socialização
I
Tácito
Multiplicação
Reflexão
CICLO GNOSIOLÓGICO
FREIRE, BRAGA E
CRISTÓVÃO
Ação
INÍCIO
Socialização
das idéias
Reprodutor
Reprodução
das idéias
Liderança
Delta
Construção
Conjunta da
informação
Multiplicador’
Construção
participativa
de uma idéia
coletiva
(Explicitação
das novas
políticas)
Des. Tec.
Sociais.
SOCIAIS
Liderança
Gama
Produção
do novo
conhecimento
Tácito
Reflexivo e
Refletor
Compartilhamen
to depráticas.
Produção do
Novo
Conhecimento
Tácito
Liderança
Beta
Ação com base no
que sabe
Mobilizador
CICLO GNOSIOLÓGICO
INVERTIDO - cop
Ação com base no que
sabe
INÍCIO
’
Realização de projetos
comunitários
Liderança
Alfa
II
Comunidade – cria a
COp , Fabulação,
narrativa, mito.
Observando o modelo acima pode-se ver que o Ciclo do Conhecimento padrão, conforme
proposto por Freire, Braga & Cristóvão constitui-se em um símbolo do aprender a aprender de
uma sociedade da informação, que tem como pista aprender a viver junto. Mas hoje a realidade
mostra o que Alain Touraine chama de fim de social, porque houve uma ruptura do tecido social:
de um lado os povos de baixa renda e do outro a cidade, usufruindo os bens da sociedade da
informação.
Visto por este ângulo resta às comunidades de baixa renda libertarem-se do clientelismo e
partirem em busca de sua autonomia. Mas isto não se faz sem a participação da comunidade,
56
porque competência em informação tem como base a comunidade inteira revestindo-se de uma
nova axiologia, cujo sentido subjetivo está carregado de equidade, solidariedade e participação.
Esta tomada de consciência vem sendo feita pelas mulheres em Vila Canoa e podemos
afirmar em ”off” que o fenômeno da Feminização do Poder, conforme proposto por Denise Pini
Rosalém da Fonseca, vem também se deflagrando na Roupa Suja da Rocinha e no Vidigal. Da
subalternidade à conquista da autonomia estas mulheres oscilam como seres humanos dispostos a
livrarem-se da cultura do “assistencialismo”, em direção a um novo patamar no ciclo do
conhecimento.
A partir do exposto, esta pesquisa investigou e achou o ciclo invertido do conhecimento,
com a comunidade aprendendo sobre suas próprias práticas, construindo uma nova história,
fabulando novas narrativas a partir de suas experiências. No silêncio do viver junto, a voz lhes
foi negada.
O ciclo invertido do conhecimento é próprio da comunidade que aprende, enquanto o
ciclo padrão é característica da sociedade que aprende a socializar para todos os bens da palavra,
da leitura, da informação. Um não deve eliminar o outro, mas é urgente que os povos de baixa
renda empreendam uma jornada em direção a si mesmos, porque não estão sendo convidados a
participarem das mesas de socialização, restando-lhes, porém o salto às estrelas, ou seja,
lançarem-se na jornada do conhecimento, num ciclo do conhecimento que partindo do tácito,
liberta a voz, o urro contido, para entoar o canto da produção de sentido, da construção de
relevância, levando a todos, sem distinção uma nova história do que seja “viver junto”.
57
6.4
OS DOIS CICLOS GNOSIOLÓGICOS SE COMPLEMENTAM
CICLO GNOSIOLÓGICO FREIRE,
BRAGA
E CRISTÓVÃO
– SOCIEDADE
CICLO
GNOSIOLÓGICO
–BRAGA
DAEINFORMAÇÃO
CRISTÓVÃO ABERTA
CICLO INVERTIDO - CoP –
PRODUÇÃO
DE CONTEÚDOS
CICLO
INVERTIDO
– COp –- E DE
TECNOLOGIAS SOCIAIS
TECNOLOGIAS
SOCIAIS
4
4
REPRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
REPRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
Aqui o indivíduo reproduz o que
Aqui o indivíduo reproduz o que
aprendeu.
aprendeu.
3
EXPLICITAÇÃO DAS NOVAS POLÍTICAS –
3 (CONSTRUÇÃO
EXPLICITAÇÃO
DAS NOVAS
POLÍTICAS––
COLETIVA
DA INFORMAÇÃO
(CONSTRUÇÃO
COLETIVASOCIAIS
DA INFORMAÇÃO
–
NOVAS TECNOLOGIAS
)
NOVAS TECNOLOGIAS SOCIAIS )
O Indivíduo explicita novos pontos de vista
OeIndivíduo
novos
pontos
de vista
com a suaexplicita
bagagem
constrói
de forma
e participativa
com a sua bagagem
constrói
de
forma
a informação em sua mente,
participativa a informação em sua mente,
fala e escreve sobre o assunto .
fala e escreve sobre o assunto .
2. PRODUÇÃO DO NOVO CONHECIMENTO
2.TÁCITO
PRODUÇÃO
DO NOVO CONHECIMENTO
– COMPARTILHAMENTO
DE PRÁTICAS
TÁCITO
–
COMPARTILHAMENTO
DE PRÁTICAS
É a etapa do ciclo em que os indivíduos,
de forma
É a etapa
do ciclo em
que os indivíduos,
de forma
compartilhada,
adquirem
novos valores
de reflexão
compartilhada,
adquirem novos
valores edeincerteza,
reflexão
crítica, questionamento,
inquietação
crítica,
questionamento,
inquietação
e incerteza,
“indispensáveis
ao sujeito
cognoscente”
(FREIRE,
“indispensáveis ao sujeito
cognoscente” (FREIRE,
1997,18).
1997,18).
`1
AÇÃO COM BASE NO QUE SABE
`1
AÇÃO COM BASE NO QUE SABE
O indivíduo envolve-se em projetos na comunidade
O indivíduo envolve-se em projetos na comunidade
..
1
1
SOCIALIZAÇÃO DE IDÉIAS
SOCIALIZAÇÃO DE IDÉIAS
Aqui se inicia a gênese de um
Aqui
se inicia a gênese
dequal
um o
conhecimento
novo, na
conhecimento
novo,
na
qual
indivíduo participa da trocaode idéias,
indivíduo
da etroca
de seu
idéias,
explicitaparticipa
o que sabe
amplia
explicita
o
que
sabe
e
amplia
seu
quadro de referências.
quadro de referências.
2
CONSTRUÇÃO DA
2 INFORMAÇÃO
CONSTRUÇÃO DA
INFORMAÇÃO
Aqui o indivíduo constroi em sua mente
Aqui
o indivíduo constroi em sua mente
a informação.
a informação.
3
PRODUÇÃO DO NOVO
3 CONHECIMENTO
PRODUÇÃO DO
NOVO
TÁCITO
CONHECIMENTO TÁCITO
É a etapa do ciclo em que o indivíduo,
É a etapa
do ciclo
em que
o indivíduo,
adquire
novos
valores
de reflexão
crítica,
adquire
novos
valores
de
reflexão
crítica,
questionamento, inquietação e incerteza,
questionamento,
e incerteza,
“indispensáveisinquietação
ao sujeito cognoscente”
“indispensáveis
ao
sujeito
cognoscente”
(FREIRE1, 1997,18).
(FREIRE1, 1997,18).
4
AÇÃO COM BASE NO QUE
4 SABEAÇÃO COM BASE NO QUE
É a etapaSABE
do ciclo em que o indivíduo age, a partir
É a etapa do ciclo em que o indivíduo age, a partir
de um conhecimento, que é a base de sua própria
de um conhecimento, que é a base de sua própria
percepção .
percepção .
Se observarmos os dois ciclos podemos afirmar que eles se complementam em uma
espiral evolutiva ascendente. Se quisermos encontrar as respostas dos problemas que confrontam
os dilemas morais, éticos e técnicos da Sociedade da Informação teremos que perceber o papel
das mulheres no empoderamento das comunidades. A partir deste fenômeno, passaremos a ver
como um problema técnico e não mais só de cidadania, a questão da inclusão social. Incluir
significa encontrar respostas, soluções, modelos, conteúdos e precisamos de todos para
experimentar o que nos aguarda a nova fronteira de ser homem ou de ser mulher no mundo.
58
6.5
59
O CUBO DO PODER – PRÁTICAS ORIUNDAS DA ESFERA RELACIONAL – O CICLO INVERTIDO DA INFORMAÇÃO
S
ÉI
P
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60
o da
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I
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SO
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No o c be
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A e
qu
Observando o cubo do poder – práticas oriundas da esfera relacional - podemos
ver que os tipos de liderança se desenvolvem na experiência conjunta de viver o ciclo de
vida invertido do conhecimento e como numa espiral evolutiva, as lideranças vão se
construindo e se transformando.
Os papéis sociais estão aderentes a toda esta experiência e o letramento vai se
incorporando nas práticas dos indivíduos que passam pelos diversos papéis de
Mobilizadores, Reflexivos, Multiplicadores e Seguidores.
O cubo mostra a questão técnica do desenvolvimento da liderança que
acompanha o processo de letramento em comunidade de baixa renda, no ciclo invertido
do conhecimento. A comunidade tem que empoderar seus membros para que cada um
possa desenvolver uma cultura ética frente aos dilemas éticos, técnicos, políticos e
morais da conjuntura atual, de forma que em todas as instâncias se reproduza o
conhecimento aprendido.
É na esfera relacional que as práticas são aprendidas. O cubo do poder mostra
um sistema de lideranças aberto, no qual as práticas são o motor do ciclo invertido do
conhecimento para o desenvolvimento de novas políticas comunitárias. Como afirma
Daniel Dennett, os seres humanos são hospedeiros de idéias, que são os memes, os vírus
que inoculam as mentes, causando as epidemias.
O cubo mostra um modelo de aquisição de letramento (literacy), e em Vila
Canoas as práticas oriundas da esfera relacional vem denotando a mulher em um papel
social de aquisição de liderança e poder, e no ciclo invertido a participação conjunta,
incentiva e mobiliza o crescimento moral e político de sua comunidade. Os tipos de
liderança se transformam um no outro pois o sistema é aberto e através do exercício dos
papéis sociais aprende-se a ser um líder.
As cinco mulheres que tem liderança Alfa e Beta (item 6.2 deste relatório) e que
participaram desta pesquisa estão mobilizando hoje as 500 mulheres de Vila Canoas,
para participarem de um Seminário que será oferecido por uma pesquisadora do grupo,
que é Assistente social11, sobre o tema “O empoderamento da mulher”. Liderança é
assim: aprende-se fazendo e copiando práticas e o que antes era disciplina transforma-se
com o tempo em conhecimento incorporado. Em Vila canoa este processo de aquisição
11
Suely Rodrigues
61
de liderança tem um lastro de experi6encias de quase 20 anos, e este não é um numero
técnico, mas a distância entre Dona. Y e Dona I.
Parafraseando Ivone Gebara (1991, página 22) o poder não é uma mercadoria à
venda, mas uma realidade constitutiva do ser humano, um algo sem o qual se deixa de
existir, perde-se a condição de humano. É preciso repensar o poder como realidade
antropológica fundamental, de cujo exercício depende a própria existência da mulher,
sua qualidade de ser e de se situar no mundo e sua capacidade de contribuir com outra
visão, não androcêntrica.
Pode-se observar que distintos tipos de liderança atuam em todo o ciclo
invertido do conhecimento em diferentes papéis sociais para elaborar propostas de
políticas comunitárias e desenvolver tecnologias sociais e participar neste percurso de
uma nova experiência com o capital.
Não é, reafirmo, uma questão de inclusão social ou de cidadania somente. O
Poder Público não tem este poder, pois sem o protagonismo comunitário, sem o
letramento destas redes, a nova sociedade cultural não tem a sua gênese, pois ela surge a
partir de uma visão técnica da Responsabilidade Comunitária. As comunidades em prol
de sua própria causa, assumindo o seu encargo neste caminho de aquisição dos bens da
sociedade da Informação e produzindo conteúdos e subsidiando o poder público com
propostas de políticas comunitárias, capazes de se transformar em tecnologias sociais.
62
7
DESENVOLVIMENTO A FUTURO
Há uma nova hipótese a ser investigada como desdobramento desta pesquisa:
Um Núcleo de Competência em Informação (information literacy comunitário) com
TIC’s como recurso para o aprofundamento da nova subjetividade e mobilização de
valores em prol da criação de novas tecnologias sociais, para revitalizar direitos e
deveres para reconhecimento e realização de si mesmo como ator livre. Mas para
produzir as novas mídias, produzir conteúdos é preciso que a comunidade desperte para
• Programas
esta era da informação, implementando em suas estruturas o letramento. Em Vila
canoa,
culturais
Vidigal e Roupa Suja da Rocinha as mulheres são as fadas madrinhas que acionam
o
• Acesso aos
motor do ciclo invertido do conhecimento.
Direitos de
Estudos recentes apresentam Information Literacy como competência em
Cidadania e TIC´S
informação e também como alfabetização informacional, sendo os principais focos do
• Debate local de
políticas públicas
63
para educação, TIC
´s e trabalho
• Educação
seu desenvolvimento os processos cognitivos, o aprendizado ao longo da vida e as
tecnologias da informação e comunicação - TIC’s.
Neste projeto desenvolvimento a futuro é estudar e pesquisar estratégias para o
desenvolvimento de “Information Literacy” por grupos precarizados, moradores em
comunidades em situação de desvantagem sócio-econômica e para tanto se propõe o
enlace de dois elementos: letramento (estímulo dos processos cognitivos obtido no
compartilhamento e aprendizado em um ciclo invertido do conhecimento); aquisição de
uma nova ética e novas práticas políticas comunitárias.
O conceito de “Information Literacy” pressupõe, dentre outras coisas:
•
Cooperação intragrupo e intergrupos
•
Mobilização comunitária,
•
Socialização da informação
•
Liderança de gênero
•
Capacidade individual e coletiva de dar sustentabilidade a um ambiente
computacional solidário com informação (usabilidade, interação, recepção, troca e
construção de informação) e alta tecnologia (rede, conectividade e mobilidade,) voltada
à pesquisa, ao estudo e à utilização da informação para estimular os projetos já
existentes e para gerar novos conhecimentos.
•
Competência na elaboração, implementação e acompanhamento de
projetos sociotécnicos.
•
Gestão e autogestão dos empreendimentos e no uso efetivo da
informação e na criação de tecnologias sociais.
Information Literacy guarda relações com o conceito de usabilidade e ambos
trazem em si mesmos uma íntima relação com o conceito de ideologia, como conjunto
de idéias construídas pelo sujeito coletivo. Usabilidade na construção da informação
pressupõe a conformação de produto e ambientes reais e virtuais para o uso humano,
adaptado a sua linguagem, à cognição e à cultura do grupo, podendo o sujeito individual
e coletivo a partir do seu contexto, aprender progressivamente e estabelecer uma relação
dialógica com outros grupos. No contexto de usabilidade surge a relação dialógica, que
64
é um processo interativo e iterativo, pois na interação o processo de aprendizagem se
repete diversas vezes para se chegar a um resultado e a cada vez gera um resultado
parcial que será usado na vez seguinte, propiciando novos patamares cognitivos na
construção da informação e de novas Tecnologias sociais.
Michel Serres (1993) em seu livro “Filosofia Mestiça” descreve o processo de
aprendizado como a travessia de um grande rio no qual a transformação vai ocorrendo
nas descobertas e nos enfrentamentos da busca pela outra margem, que a verdadeira
passagem ocorre no meio e que as referências se desvanecem e aquele que atravessa
aprende certamente um segundo mundo, aquele para o qual se dirige, onde se fala outra
língua. Seja um pesquisador, um professor, um advogado, cada um se torna um
aprendiz, transformado, porque se inicia, sobretudo num terceiro mundo, virtual,
simbólico, pelo qual transita, como aprendiz.
“Para ser "information literate", a pessoa deve ser capaz de reconhecer quando a
informação é necessária e ter a habilidade de localizar, avaliar e usar efetivamente a
informação (...) Pessoas "information literate" são aquelas que aprenderam como
aprender. Elas sabem como aprender porque sabem como a informação é organizada,
com o encontrá-la e como usar a informação de forma que os outros também possam
aprender com ela12”.
Mas vale lembrar que uma ferramenta sozinha jamais fornece este tipo de salto
qualitativo, por este motivo é que a implementação de “information literacy” por grupos
em situação de exclusão do bem estar social pressupõe uma fase anterior, com a
comunidade desenvolvendo o letramento – “literacy" e desenvolvendo, de forma
participativa, as novas políticas comunitárias.
A UNESCO define que “alfabetização em informação” abrange conhecimento
das preocupações e necessidades de informação de cada qual e a habilidade de
identificar, localizar, avaliar, organizar e efetivamente criar, usar e comunicar
informação para dar conta de questões ou problemas à mão; é pré-requisito para
12
AMERICAN LIBRARY ASSOCIATION - ALA. Presidential Comittee on Information
Literacy. Final Report. Chicago. 1989. Disponível em:
<http://www.ala.org/acrl/nili/ilit1st.html>. Acesso em: 11 jun. 2001.
65
participar efetivamente na Sociedade da Informação, e é parte do direito humano básico
da aprendizagem ao longo da vida (MARTIN, 2006, p.13).
E isto não se faz sem letramento e Information Literacy que pressupõem
consumir informações e participar como ator nesse espaço que fornece as chaves para a
recriação do Espaço Público e ali se introduzir protagonizando um novo papel na
reconfiguração do poder. É nesse sentido letramento (literacy) e as novas TIC´s serão
necessárias.
Enlaçando estes elementos é que se fala em um Modelo de “Information
Literacy” comunitário, como projeto a futuro, com estudo e pesquisa para o
desenvolvimento de novas subjevidades, alavancando para um novo patamar de
interação, com o indivíduo entrando em campo progressivamente e permanentemente
com um novo conhecimento que é posto novamente em relação.
66
8 CONCLUSÕES
Quer-se ressaltar neste momento que o problema proposto foi investigado: Que
processos devem anteceder a implementação de “information literacy” em comunidade
em situação de desvantagem sócio-econômica, tendo em vista o desenvolvimento de sua
competência informacional, mas considerando todo o fenômeno gnosiológico do grupo,
o processo de subjetivação e o seu individualismo?
A resposta é que as comunidades de baixa renda terão que dar o passo em
direção a sua autonomia, invertendo o ciclo do conhecimento, e num efeito tácito,
invadirem a alma uns dos outros para criar um sujeito coletivo capaz de fabular uma
história de prosperidade. Terão que compartilhar suas práticas e produzir políticas
comunitárias, para num efeito recursivo protagonizar a nova heterogênese do
conhecimento e da informação e participar como produtores e consumidores seletivos
de informação.
O ciclo do conhecimento invertido denota que é na proximidade, na convivência,
na vivência conjunta, no silêncio da experiência de fazer junto e de passar pelas mesmas
dificuldades que se alavanca a nova jornada infinita do ser humano, em direção à
informação e ao conhecimento.
No capítulo de Introdução deste Relatório foram colocadas algumas questões,
que foram investigadas e estão aqui agora apresentadas e analisadas, nos próximos
ítens:
•
O que foi que contribuiu para esta nova heterogênese do conhecimento e
da informação?
•
O que estimulou o desenvolvimento de lideranças que se caracterizaram
por uma feminização do poder?
•
Este novo individualismo atende às necessidades de crescimento mental,
emocional e espiritual da comunidade?
•
Este fenômeno caracteriza o que Alain Touraine chama de sociedade
cultural, anunciando o fim do social?
67
•
Qual é o novo papel político de mulheres e homens neste novo contexto
cultural de feminização, mais ecológica do poder?
8.1.
O QUE FOI QUE CONTRIBUIU PARA O DESENVOLVIMENTO
GNOSIOLÓGICO COMUNITÁRIO E, COMO ELE VEM SE CONSTITUINDO?
Ao final desta pesquisa em Vila Canoa, nota-se que uma das varáveis que vem
contribuindo para a construção do conhecimento comunitário e para o desenvolvimento
de novas subjetividades (novo sentido e direção que estão dando ao que sabem) é a
feminização do poder, com mulheres que fundaram a União de Mulheres e mudaram as
práticas políticas comunitárias.
Observou-se a partir da pesquisa que, numa construção participativa, estas
mulheres criaram um novo modelo de acesso às informações de seu interesse, na sua
linguagem e que a mulher, usando as suas próprias competências, está transformando os
destinos de homens e mulheres, que são causas uns dos outros. Trata-se de uma difusão
de idéias, “mas não uma difusão desincorporada e sim aquela onde a informação se
torna conhecimento, na prática da interação13“.
Este modelo cultural de desenvolvimento comunitário que está sendo observado
em Vila Canoa, que surge das práticas oriundas da esfera relacional para trazer
crescimento à comunidade e aos seus moradores, tem a mulher como protagonista de
uma nova heterogênese da informação e do conhecimento. É a gênese de uma nova
sociedade não social, mais cultural, patrocinada pelo feminino. O Modelo merece ser
estudado a fundo, pois pode ser a alternativa da pós-modernidade para tocar as
transformações sociais necessárias e que podem gerar outras e novas soluções, num
constructo inteiramente novo, no qual as descobertas irão se dando ao longo das
práticas, no processo do ato gnosiológico invertido.
82.
O QUE ESTIMULOU O DESENVOLVIMENTO DE LIDERANÇAS QUE SE
CARACTERIZOU POR UMA FEMINIZAÇÃO DO PODER?
O ciclo gnosiológico invertido privilegia a ação, o compartilhamento de práticas
e se reproduz colado às experiências da comunidade. Ele opera na mente do sujeito
como um complemento de um processo de construção e socialização da informação
13
Guimarães, M.C
68
(ciclo gnosiológico Freire, Braga e Cristóvão) e amplia-se no diálogo indivíduoindivíduo e coletivo-poder público.
O compartilhamento de práticas estimulou o desenvolvimento de lideranças que
se caracterizou por uma feminização do poder e ativou o ciclo invertido do
conhecimento, com Dona I. saindo de porta em porta fabulando uma nova história, a
possibilidade de gerar trabalho e renda e transformar vidas. Dona I e depois outras
mulheres compartilharam práticas e refletiram novas crenças e valores, multiplicando e
reproduzindo a partir de uma nova narrativa que está transformando suas formas de
pensar.
Para se compreender como o compartilhamento de práticas estimulou o
desenvolvimento de lideranças que se caracterizou por uma feminização do poder é
necessário lembrar PINHEIRO (1997, p.190) que cita McGarry e as definições de
informação de autores como Jesse Shera, Marshal McLuhan, George Miller, McKay,
Belkin, Shannon e Weaver, e Becker e extrai os seguintes atributos:
8.2.1 A informação como sinônimo de fato
A informação é a matéria prima do ato de compartilhar práticas, pois se o que
está sendo passado não fizer sentido dentro da narrativa do outro, de nada vale fabular.
Por este motivo aquele que fala só terá eco na alma do outro, se sua fala estiver
carregada das mesmas experiências do outro, este é o ambiente propício para
desenvolver e estimular a capacidade coletiva de interpretar. Daí o parentesco da
informação como sinônimo de fato.
O ciclo invertido do conhecimento como aqui retratado pressupõe um conjunto
de pessoas, com experiências semelhantes, necessidades de informação análogas e um
sentido de relevância, prioridade, decisão, que extrapolam ao indivíduo e que destacam
a interação social entre as pessoas, as maneiras de pensar, agir e sentir, os valores
culturais do grupo, aplicados no crescimento social da comunidade, em estreita
interação uns com os outros.
O ciclo invertido do conhecimento pressupõe o aprendizado em nível tácito, com
a informação utilizada como coadjuvante da decisão, de compartilhar ou não as mesmas
idéias, se elas fizerem sentido entre narrador e ouvinte.
69
8.2.2 A Informação como coadjuvante de decisão
O que imprime confiança na fabulação para uma vida nova é o conjunto de
experiências vividas de forma participativa dia após dia, o que permite vislumbrar que a
decisão individual se aninha na decisão coletiva, porque pressupõe o “eu desdobrandose em nós”, diariamente. A experiência conjunta forma o sujeito social, desenvolve e
estimula a capacidade coletiva de sentir. Este fenômeno subjetivo é informacional e
forma o sujeito individual. Este é um fenômeno que está na base do desenvolvimento de
lideranças, que se caracterizou, em Vila canoa, na Rocinha e no Vidigal por uma
feminização do poder, ou seja, foi a mulher tocando a vida em comum, que produziu o
cadinho e os elementos desta experiência gnosiológica, numa nova heterogênese do
conhecimento e da informação.
8.2.3 A informação é trocada
com o mundo exterior,
e não
meramente recebida
Aqui se evidencia o ciclo gnosiológico Freire, Braga e Cristóvão, pois o sujeito
aprende na troca de idéias, de experiências, não só em sua comunidade, em seu ciclo
familiar, como interagindo no mundo, o que pressupõe uma nova possibilidade de
construção da informação, com uma interação social mais dinâmica, e na troca, partilhase o que se tem e adquire-se o que se necessita para completar o todo. Porém, a
dinâmica do mundo hoje exige que as comunidades se preparem, empoderando uns aos
outros, pois “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se
educam entre si”, mediatizados pelo mundo (Paulo Freire). E isto é letramento, que
significa que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (Paulo Freire).
O ciclo gnosiológico Freire, Braga e Cristóvão demonstra que o confinamento
de idéias é prejudicial à construção moral e ética do ser, pois o todo se completa com a
parte do outro, na experiência da troca. Sempre há falta de algo que se completa na troca
com o mundo. No entanto a Sociedade da Informação tornou-se muito complexa e a
socialização da informação não vem acontecendo e no processo de aprendizado as
comunidades não estão se empoderando. Suas experiências não são ouvidas e se não há
troca, a socialização acaba sendo uma via de mão única, com a noção de que os povos
de baixa renda só tem que aprender e não tem nada para ensinar. Desta forma os novos
valores de reflexão crítica, de inquietação, de questionamento, indispensáveis ao sujeito
cognoscente, não são construídos, pelo menos não da forma que permitiria a todos o
70
desenvolvimento de novas subjetividades. Se isto não ocorreu, é porque o processo de
desenvolvimento gnosiológico foi pobre e não propiciou o desenvolvimento da
cognição, ou seja, não se abstraiu do aprendizado um novo sentido e direção para o que
se aprendeu.
8.2.4 A informação tem o efeito de transformar ou reforçar o que é
conhecido ou julgado conhecido por um ser humano
Para produzir os efeitos da mudança, a informação tem que ser construída,
respeitando-se as suas propriedades, ou seja, na construção da informação há um
conhecimento explícito e um conhecimento tácito de um conhecimento existente, que se
combinam com as novas idéias, que sempre vem carregadas de valores. A partir desta
mistura, é que os indivíduos podem transformar ou reforçar seu ponto de vista e
desenvolver uma visão crítica da vida. Para operacionalizar as questões de um novo
jeito, com novas formas de direcionar o conhecimento novo, o educador ou líder tem
que estar consciente de seu papel de transformador de mentes. Dona I em Vila Canoa e
as mulheres líderes estão desempenhando este papel histórico de formação de pessoas.
O final temporário de um ciclo de aprendizado é a incorporação de valores, de
crenças, de novos pontos de vista. O sujeito que aprende compartilha as novas práticas
que aprendeu e esta é uma propriedade da informação: operar sobre o conhecimento,
produzindo novas subjetividades, preparando para uma vida comunitária carregada de
um novo sentido.
8.2.5 A informação é a liberdade de escolha que se tem ao selecionar
uma mensagem: é algo necessário quando enfrentamos uma escolha.
A liberdade de escolha é aprendida e segundo Moraes (1999) no exercício do
livre-arbítrio se depreende que quem não tem acesso à informação, não constrói
questões, não pode compartilhar idéias, não tem conhecimento, não tem informação
para decidir, não tem alternativas. Não tem liberdade de escolha. Não tem liberdade.
Mas o que é ter acesso à informação? Neste contexto é desenvolver de forma conjunta
uma nova narrativa que dê sentido à luta por uma vida melhor.
O que estimulou em Vila Canoa o desenvolvimento de lideranças que se
caracterizou por uma feminização do poder? Não se pode responder a esta questão sem
71
ter como base os dois ciclos do conhecimento: o ciclo gnosiológico Freire, Braga e
Cristóvão e o Ciclo gnosiológico invertido.
O efeito importante do ciclo gnosiológico Freire, Braga e Cristóvão que aqui
quer-se ressaltar é o aprendizado do sujeito, mas para ele compartilhar o que aprendeu e
estimular a produção de novos símbolos pela comunidade, ele terá que fabular com seus
pares, seus vizinhos na comunidade, invertendo o ciclo e iniciando um percurso em
direção ao conhecimento tácito, para despertar o que está adormecido, abrindo vias para
o exercício da liberdade de escolha para redirecionar caminhos.
Num efeito recursivo, a partir da aceitação e do compartilhamento de práticas, os
indivíduos atuam uns sobre os outros e vão ao mesmo tempo que enfrenta as escolhas,
aprendendo novas práticas, o que também permite socializar os novos valores.
8.2.6 A Informação é matéria prima de que deriva o conhecimento e
pode ser definida em termos dos seus efeitos no receptor
A informação é tecida na mente do sujeito a partir de estímulos externos e Dona
I. foi portadora de idéias que se infiltraram nas mentes e pode-se dizer que ela foi a
causa de algumas mulheres se tornarem líderes. Elas aceitaram as idéias e construíram a
informação em suas mentes. E se tornaram causas umas das outras.
As causas e efeitos da informação em Vila Canoa estimularam a interação social
entre os membros da comunidade e a informação pode derivar conhecimento na
interpenetração das idéias, na troca. No compartilhamento de visões, surgiu uma visão
ampliada capaz de tecer relevância e atualizar o conhecimento, que é local e relacional.
Surgiu uma consciência coletiva, que permitiu às mulheres uma nova posição de
empoderamento frente às práticas políticas comunitárias.
Informação, liderança e poder oriundos da esfera relacional possibilitaram às
mulheres uma feminização do poder comunitário, mais ecológico, mais atento à família
e presente nas instituições comunitárias.
8.3.
ESTE NOVO INDIVIDUALISMO ATENDE ÀS NECESSIDADES DE
CRESCIMENTO MENTAL, EMOCIONAL E ESPIRITUAL DA COMUNIDADE?
Não existem caminhos prontos, nem fórmulas mágicas e como diz a Dona I.
“liderança exige participação política, aprender nas instituições de onde participa, nos
cursos que faz. A mulher tem que se preparar para ser líder”. Fica a compreensão de que
72
letramento não passa por informatizar a sociedade, de forma desvinculada à construção
da informação pelos grupos, e sem que possam atualizar e articular o conhecimento
local, empoderados em seu saber, será impossível desenvolver um novo individualismo
que passa pela fala, pelo gesto, pela oralidade, pela mente como força direta do grupo,
passa pelo feminino.
Sem ser reducionista pode-se observar que a comunidade tem um papel decisivo
na apropriação dos bens da modernidade, e só ela pode protagonizar o florescimento de
um novo espírito coletivo, para uma nova economia ecológica.
“A participação comunitária consiste num micro-cosmo político-social
suficientemente complexo e dinâmico de forma a representar a própria sociedade ou
nação. Quer dizer que a participação das pessoas em nível de sua comunidade é a
melhor preparação para a sua participação como cidadãos em nível de sociedade
global14.”
8.4.
ESTE FENÔMENO CARACTERIZA O QUE ALAIN TOURAINE
CHAMA DE SOCIEDADE CULTURAL, ANUNCIANDO O FIM DO SOCIAL?
Todo este contexto nos leva a Touraine (2007, 62, 212, 215,) que afirma que “o
atual modelo de modernização pode ser chamado de masculino e que este sujeito social
entrou em cada indivíduo, produzindo a sociedade dos homens”. Esta sociedade não
mais inclui, não mais se reproduz como deveria, marcando o fim do social. Algo existe
em lugar deste social para dar conta deste novo momento, mas ainda está em sua
gênese.
A sociedade que inclui não existe mais, a instituições terão que ser repensadas,
pois algo novo, inédito, cultural, próprio dos povos pode surgir. Este é o parto da
modernidade, peculiar, mas pronto para gestar o novo, que é localizado,
contextualizado. Touraine defende a hipótese de que é possível a passagem da
sociedade atual para uma nova sociedade que ele chama de pós-social, porque todas as
categorias que organizam nossa representação e nossa ação já não são propriamente
sociais.
Na verdade, com a Revolução Industrial mudou o modelo, que de político
passou a econômico e social e a estratégia que era de inclusão e reprodução do sistema,
14
DIAZ BORDENAVE J.E., 1992, página 60.
73
mudou. Castel (1998, passim) inclusive ressalta que a grande indústria trouxe consigo
um fenômeno que assusta e que está relacionado com a organização do trabalho e suas
inéditas conseqüências sociais. Populações de trabalhadores são contratadas e logo
demitidas quando não precisam mais delas, abandonando-as sem a menor preocupação.
A nova organização de trabalho, com a grande indústria pode eventualmente trazer
graves consequências sociais e isto pode ser o futuro do mundo. Touraine defende a
mudança de paradigma na nossa representação da vida social e coletiva, que sai de um
modelo em que tudo era expresso em termos sociais e entra num discurso que remete à
ruptura deste modelo, com o fim do social e o advento de um novo tipo de societal, mais
cultural.
8.5.
QUAL É O NOVO PAPEL POLÍTICO DE MULHERES E HOMENS
NESTE NOVO CONTEXTO CULTURAL DE FEMINIZAÇÃO, MAIS ECOLÓGICA
DO PODER?
O novo papel político de mulheres e homens neste novo contexto cultural de
feminização, mais ecológica do poder é mobilizar o contingente de pessoas da
comunidade para uma história de protagonismo social, em um modelo de aquisição de
saberes, onde a informação é construída, torna-se conhecimento, incorporada às práticas
políticas comunitárias e é compartilhada na comunidade e entre comunidades e destas
com a sociedade.
Conforme
aqui apresentado, neste modelo,
há uma
estratégia de
empoderamento das mulheres em Vila Canoa. É que a informação concebida na mente
do sujeito individual deflagra com o ciclo invertido a gênese do sujeito coletivo capaz
de transformar vidas e levar riqueza à comunidade, porque ele habita cada indivíduo.
Este é o resultado do fenômeno do letramento: a gênese de um novo sujeito coletivo e
este efeito tem sido a causa do aprendizado e também sua conseqüência.
Esta pesquisa observou, pesquisou, coletou e analisou os dados sobre uma nova
heterogênese do conhecimento e da informação em Vila Canoa, sob os auspícios da
“Feminização do Poder”e verificou-se que os critérios para se avaliar o êxito ou o
fracasso do processo de letramento devem ser inclusivos e gradualistas. Parafraseando
Santos (2002,72) “a impaciência se apodera com freqüência das mentes pessimistas e
em face de uma hegemonia do capitalismo global é fácil assumir posições
desesperançadas diante de qualquer alternativa gradual e local. Há a necessidade da
74
paciência da utopia e mais, se o único critério de avaliação do êxito desta alternativa de
aprendizado é a transformação radical no curto prazo, com a criação de novas
subjetividades em larga escala e de um novo sistema solidário de produção, então a
alternativa que se apresenta aqui e se discute não valeu a pena”.
75
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