O ZERO COMO ESPELHO DO MUNDO: A MATEMÁTICA COMO ORDENADORA DE TODAS AS COISAS RICARDO SILVA KUBRUSLY 1 para Aloisio Teixeira desdisciplinador de universidades Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som, Equilibrou-se no azul, De tonta não mais olhou Para mim, para ninguém! Caiu no álbum de retratos. Murilo Mendes do Zero, o que se diz De maneira análoga ao Zero numeral (neutro da adição) que espelha os inteiros em duas realidades, a positiva e a negativa, olharemos o Zero de cada coisa e de todas as coisas como espelho do mundo. Gerador de uma outra realidade especular onde também habitamos e somos e existimos iguais e diferentes, o Zero como espelho do mundo se deixa perceber pelas versões diferentes de topologia onde imersos acontecemos. Se do outro lado do espelho, um mundo sem bordas escorregando seus dedos infinitos ainda se deixa reconhecer, se somos nós que aqui e lá permanecemos ainda ligados a uma mesma estrutura que se mantém ao se modificar, isso se deve ao que chamaremos aqui de Memória do Zero. Aquilo que fica ao deixar-se ir; um guardador de propriedades, sem matéria ou ilusão de matéria, pura memória adimensional e eterizada. Se o outro lado, como querem alguns poetas matemáticos, é este lado, por vivermos e sermos em uma superfície não orientável, análoga à fita de Möbius cuja topologia reversa garante sua existência como coisa única, em um mundo tridimensional orientável, se trazemos a marca do sujeito impressa na continuidade entre dois opostos que são apenas um, se somos essa não orientabilidade, isso se dá pela presença desse Zero zeloso que recebe e transmite um nada de matéria física, prenhe de acontecimentos, lugar de inexistentes que se nos guiam por caminhos entre futuro e passado, um nada de tempo, um Zero presente que nos articula ao 1 Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia/HCTE da UFRJ. Professor. [email protected]. 2 tudo de que somos feitos. Um só tempo, Zero infinito, onde podemos ser e somos. Se a pretensão que aqui me atrevo, em por em prosa reflexiva e filosófica, por lógicas refeita e revisada, um pensamento antigo e comum e distraído, que se nos percorre nos momentos de ausência de rigor, onde o corpo histórico que trazemos dos ancestrais no mundo, mundo verdadeiro e seus cheiros e seus gostos e texturas, onde o sons e a luzes em conversas iguais com os gases e ranhuras e surpresas, deliberavam os acontecimentos, …, se essa pretensão supera a vaidade e o fascínio pelo que é difícil e se se penetra o pensamento em sua ideia, o amor, mesmo o que dele um poema pode ver e às suas topologias, poderá ser-nos útil, como guia, na construção dos rigores que uma boa teoria requer. O que queremos é perceber que os Zeros que colecionamos em nossos pensamentos guardam histórias que podem e merecem ser lembradas e que esses Zeros, memórias do mundo, contém uma estrutura com topologia específica möbiuseana que, para nós, aqui, caracteriza a pessoa. Ser polissêmico, essa pessoa é o entrelaçamento de diferenças que em nós se faz notar mais forte nos momentos-estados excepcionais, quando nos desdomesticamos, mas que nos formam em todos os possíveis modos com os quais nos apresentamos no mundo. O Mistério que em todo canto fala é (apenas) a surpresa de perceber-se e não é pouco, mas não é em si misterioso. Mobiüs2 de que me vale um amor desgovernado sem par sem perto e longe sem simetria, se teus dois lados somam um só destino, se tua pele descansa esse teu corpo acontecido. um lado apenas nos une e nos separa, um lado, como se um sopro torcesse o espaço entre as esperas como se um sonho reverso unisse o duplo fio dos teus beijos. desordem agora, eis meu destino pleno desordem ao tempo, seus ponteiros, seus mistérios desordem, enfim ao nosso encontro. Como no espelho concreto protegido de vidro transparente, o Zero do mundo é esse estanho delgado que ali se esconde, atrás do brilho do cristal e se nos mira para então estabelecer a continuidade entre o que insiste e o que desiste. Zero do que se pode medir de física e geometria, que espremido e reduzido a um ponto, nada de coisa alguma, sem dimensão ou realidade, ainda assim é tudo e contém todas as coisas que pensamos ou ousamos ser. É esse estanho a conversa que travamos conosco enquanto atento e desatento alguém nos ouve. 2 Sobre o assunto, ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fita_de_M%C3%B6bius. Acesso em 11 de Abr de 2012. 3 Alguém feito de puro reflexo a quem nos atentamos para vermos e ouvirmos a nós mesmos. É esse alguém o Zero que nos possibilita na conversa com o mundo. Toda conversa é psicanalítica e pressupões um Zero, espelho do mundo, mediador das palavras ditas e das não ditas. Zero limite em processo, inatingível e puramente matemático que por não poder atingir seu próprio fim, guarda infinitas cópias de todas as lembranças do que foi e será nesse eterno agora de um universo sem coisas. Nada que a tudo contém em potência e complexidade. Que mistério guarda o estanho que te forma? O que contém do mundo esse Zero espelho do mundo? Defendemos, retornando a faixa de Möbius, que podemos explicar a presença deste Zero de todas as coisas, explicando o Zero em nós, que nos qualifica como humanos fazedores de poesia e teorias, o Zero de todas as coisas e de cada coisa se revela percorrendo sua linha central e geradora da não orientabilidade que a caracteriza. Ainda na faixa que se torce, ali, onde a linha se entorta e se faz curva e se torna faixa, um Zero de mundo se apresenta. O tudo em nada se exemplifica e nos faz esse ser codificante. Por meio de objetos matemáticos cuja existência não se dá em coisa e/ou palavras e que guardam em sua topologia a complexidade do mundo, podemos reconhecer o Zero que, memória de tudo, se nos afigura a vida, a vida como ela é. uma coisa é todas as coisas Comecemos por pedir emprestado um texto inspirador. Ele está no Aleph de J.L.Borges (BORGES, 2008). —Está en el sótano del comedor —explicó, aligerada su dicción por la angustia—. Es mío, es mío: yo lo descubrí en la niñez, antes de la edad escolar. La escalera del sótano es empinada, mis tíos me tenían prohibido el descenso, pero alguien dijo que había un mundo en el sótano. Se refería, lo supe después, a un baúl, pero yo entendí que había un mundo. Bajé secretamente, rodé por la escalera vedada, caí. Al abrir los ojos, vi el Aleph. —¿El Aleph? —repetí. —Sí, el lugar donde están, sin confundirse, todos los lugares del orbe, vistos desde todos los ángulos. A nadie revelé mi descubrimiento, pero volví. ¡El niño no podía comprender que le fuera deparado ese privilegio para que el hombre burilara el poema! 4 Para conversar com a literatura e produzir uma estrutura que permita manter o rigor necessário às aventuras acadêmicas, usaremos a ideia de Análise Não Estândar de A. Robinson, matemático que desenvolve essa teoria na segunda metade do Século XX, introduzindo o conceito de Reais Estendidos, entendendo-se por essa nova estrutura numérica o conjunto dos números Reais tradicionais, com toda a sua complexidade acrescida ainda da dos números não estândares que são, surpreendentemente, menores que qualquer número real e ainda assim, estritamente positivos. Tecnicamente, esses fantasmas numéricos ão gerados pelos cones positivos determinados por cocientes de polinômios, mas o que nos interessa, aqui, é que os números não estândares são formalmente construídos, expandindo assim a estrutura numérica a que nos acostumamos desde o final do século XIX. Na prática, nossos cálculos tradicionais não mudam mas outros surgem nesse novo cenário numérico expandido. Do outro lado dos Reais, onde o infinito se vislumbra os não estândares reaparecem, invertidos, sendo, neste caso, maiores do que qualquer Real positivo e, ainda assim, finitos. Como se uma estrutura análoga a dos números Reais se repetisse entre o Zero e o número e entre eles, os números, e o infinito. A história da Análise Não Estândar e suas invenções pode ser lida, por exemplo, no belo livro de J.W. Dauben, onde a vida do famoso matemático e suas criações são delicadamente descritas (DAUBEN, 1995). Aqui, explorando esse conceito, podemos perceber duas interpretações possíveis para a nossa aventura através dos espelhos: Ou nos colocamos dentro da estrutura dos números não estândares, uma vastidão que capaz de conter mil milhões de mundo jaz espremida entre o Zero e os números Reais que, como sabemos, tudo contém, mas que mesmo assim, tornam-se um simples espelho, Zero do mundo que apenas, realidade que é, reflete os mistérios da vida, mistérios que nesse caso estariam na nova estrutura não estândar. Ou podemos, de um ponto de vista reverso, de dentro da realidade dos Reais, onde vivemos, ou pensamos que vivemos, olhar o Zero re-significado pela adição dos não estândares entre si e o mundo. O Zero, agora seria esse conjunto não estândar do que é menor que qualquer número Real e ainda assim positivo, ou melhor e de outra maneira, do que não cabe, porque some, na realidade. Essa é visão de um Zero gordo de acontecimentos e surpresas, depositário de uma memória potencialmente capaz de existir e explicador matemático de todas as coisas. O que aqui se pretende discutir, do ponto de vista filosófico, permite a analogia e o “enquadramento” teórico pelas duas possibilidades acima e, sem surpresas, se estende para espaço-tempo-matéria e alhures. 5 comprimido de mundo Que sabemos de nadas livre de vazios? Onde existirão senão no complemento do que somos ou conquistamos, senão no nada nada que nos sobra? Aonde não estamos e nunca fomos. O que fazer com um nada vazio de vazios? Como encontrá-los? Como evitá-los? Se cercam o espaço cônico de nossas possibilidades (KUBRUSLY, 2001: 15) O que queremos e encontramos com a estrutura matemática proposta por Robinson é a possibilidade de compressão, esmagamento, redução contínua da realidade ou das coisas do mundo a um ponto, um simples ponto não degenerado, isto é, sem perdas de generalidade e estrutura, como se retirasse do tudo todos os nadas que os formam e livre de vazios existíssemos em um ponto, um ponto que “sabe” sua história, como se trouxesse consigo um relato preciso de como se transformou em ponto e o quanto de “verdade” acumulou durante o processo de contração. O Zero como memória do mundo e espelho de tudo, fica assim, teoricamente possibilitado. Vamos a ele. Em “Do Tempo o que se diz” (KUBRUSLY, 2012) propomos um tempo, filho da morte e irmão dos destinos, que se move rumo ao futuro e ao passado, indistintamente, criando de uma vez saudade e desejo, a partir de um agora, Zero de tempo e devir de acontecimentos. Esse espelho de tempo se nega, no trabalho, a reduzir-se a um ponto, expressando intuitivamente o que se diz do tempo. Sua impossibilidade de partir-se ao meio em suas durações e sua ojeriza à uma algebrização clássica. Neste caso, o tempo do agora, por não se reduzir a um ponto repete-se ad infinitum e diante dos paradoxos de Zenão, que são no texto revistos, propõe e possibilita a descrição de um mundo cinematográfico em um multiverso extático criador, em nós, das ilusões de vida e movimento. Reduzidos a uma estrutura puramente literária, ex-istimos na desistência do ser. pequenas digressões A velha discussão solipsista volta a incomodar, mas em sua veste de gala se manterá mais pela vontade de argumentar do que pelas forças dos argumentos envolvidos. Afinal tudo se reduzirá, se não a um ponto, a uma questão de pressupostos postulares ou, mesmo, à fé, ou melhor, crenças logicamente estruturadas, assim como a de que existe um mundo exterior a nossa mente, que podemos desvendá-lo por meio de nossa razão, posto que ele se apresenta 6 constituído de maneira lógica, de matéria lógica e blablaba... Melhor seria e será que se reduza mesmo a um ponto, esse Zero prenhe e promissor. Poderíamos, o que deixaremos para um trabalho futuro, reescrever o “Do tempo o que se diz” sob uma estrutura não estândar, neste caso, os paradoxos de Zenão seriam, mais uma vez refutados, para, provavelmente, reaparecerem com seus questionamentos mais tarde, quando deles já nada se esperar. Refutados pela possibilidade de uma soma infinita de infinitésimos não estândares, mas do tempo, do tempo mesmo, o que se diz, pouco ou nada se alteraria. poema e teorema Por que insistir em buscar na matemática alguma compreensão ou diretriz para o que sabemos, ou pensamos saber, não ser matemático? Que mistérios guardam as matemáticas? Afinal tempo espaço e matéria são de origem fenomenológica e mais afetos às religiões que às matemáticas. Religiões das quais as físicas importaram não só a tríade de deidades newtonianas como o sonho de um unitrino realizado. Unificar as teorias e edificar uma simetria equidistante e tripartite foi e continua a ser um sonho das ciências físicas que o cristianismo realizou, por decreto, mas com êxito, há mais de mil anos. Por que, alternativamente aos modelos físicos e/ou religiosos, insistir nas matemáticas e não deixar-se levar apenas pelo sabor das poesias, com suas verdades partidas ao meio e sua frouxidão lógica? Afinal, as matemáticas servem e sempre serviram de estrutura para a modelagem física do universo e pode parecer redundante alternar física e matemática, como se trocássemos de mesmos repetidamente. Ora, se queremos sair das físicas para entender o que elas não dão conta de explicar, deveríamos buscar ajuda nas artes, ou mesmos nas religiões e seus mistérios, e não nas matemáticas. Nos parece razoável recorrer aos poemas, como temos feitos para encontrar o que até então não nos fizesse sentido, um outro lado adormecido ou escondido ou pouco iluminado, mas às matemáticas, por quê? As respostas a essas preocupações genuínas se dão pela abrangência de possibilidades das estruturas matemáticas. Não estamos recorrendo ao Cálculo tradicional e suas equações diferenciais, nem mesmo às análises funcionais e seus espaços hilbertianos que modelam as mecânicas quânticas, mas, o que buscamos nas matemáticas que investigamos e o que a elas pedimos, são as possibilidades estruturais que se nos apresentam. Não nos interessam aqui, suas técnicas estabelecidas, mas os fundamentos que nos possibilitam novas invenções e surpresas. Sabemos que os inesperados inesperados, que descrevemos em “Infinitos Lógicas 7 e Transdisciplinaridades”3 ou em “Descalços no Infinito: do Inesperado esperado ao inesperado inesperado” (KUBRUSLY, 2012) existem do corpo ao texto e se apresentam logicamente organizados em vários momentos matemáticos, tais como o surgimento das geometrias não euclideanas4 e o famoso teorema de Gödel5. O que buscamos, aqui, mas matemáticas é mais que a analogia, a confirmação lógica de possibilidades. Ressaltamos também as verdadeiras semelhanças entre poema e teorema, objetos centrais na poesia e na matemática respectivamente, que se assemelham não só na forma minimalista e na pretensão generalista, mas nas suas construções que buscam verdade e beleza como sinônimos de perfeição estrutural. ilusão e repetição topológica Mapear universos dentro de pessoas é a maneira, talvez a única maneira, de compreender o mundo. Poderíamos e podemos dizer que dentro de cada um de nós, mora ou vive um mundo completo, um universo com todas as coisas mais e mais diversas, das estrelas às ideias que se comprimem, se nos atravessam e se abrem para um novo mundo, dentro de nós. Como identificar o exterior ao qual pertencemos com o que produzimos de sensações e ilusões dentro de nós? Qual estrutura física se nos permite tal identificação? Certamente uma estrutura física que seja descrita por uma topologia não orientável, análoga aos espaços projetivos multidimensionais e certamente, contendo uma faixa de Möbius. Essa surpreendente faixa que se torce em si e que produz completa identificação entre fora e dentro, exterior e interior, e que, usada por J. Lacan para modelar matematicamente as relações inconsciente-consciente, será aqui, mais uma vez, utilizada para por em contato permanente os dois universos que existem em e para nós. O exterior e sua imagem delirante interior que o identifica e possibilita. Somos uma faixa de Möbius, ou pelo menos temos uma grudada, topologicamente, em nossas cabeças. É essa estrutura möbiuseana que nos torna humanos, falantes, conscientes de nossa finitude e inventor, consequentemente, de infinitos. Esse ser neurótico e tratável por psicanálises, que se encanta com o amor e a poesia, precisa ser möbiuseano, sob pena de tornar-se esquizofrenicamente cindido em dois mundos, distintos, que não mais se encontram ou conversam: um exterior distante e real e um interior vazio de possibilidades. Em “Um 3 4 5 Disponível em: http://www.im.ufrj.br/~risk/textos.html, acesso em 24-07-2012. Sobre “Geometrias não Euclidianas”, disponível em: http://www.im.ufrj.br/~risk/diversos/gne.html , acesso em 24-07-2012. Ver “Uma viagem Informal ao Teorema de Gödel” , disponível em http://www.im.ufrj.br/~risk/diversos/godel.html, acesso em 24-07-2012. 8 tratamento possível para a psicose”, J. Lacan nos mostra como que a passagem da geometria não euclideana para a euclideana destrói a topologia não orientável do sujeito, tornando-o incapaz de compreender-se, pois sem seu Zero de ligação, separa interior e exterior e se fende inexoravelmente (LACAN, 1977: 179). Um homem não orientável é tudo que temos, é um corpo topologicamente afetado que se transforma na pessoa que somos. Não somos, como pensávamos, um corpo e um espírito separadamente, ou mesmo um só corpo-mente acoplados ou entrelaçados, o que temos é só um corpo e uma estrutura topológica não orientável, e isso nos basta e constitui. universo dentro da pessoa – o ser möbiuseano Levar a faixa ao Zero, reduzí-la a sua linha central e tornar-se com esse Zero de topologia möbiuseana o que somos. Guardar não a geometria, mas a topologia que a faixa encerra. A faixa reduzida ainda sobrevive e retém suas propriedades topológicas. É uma resistência do que desiste e se impões com seu (aparente?) desaparecimento. Assim, o universo é colocado dentro de nossa cabeça, pelo Zero de não orientabilidade que guardando a memória da faixa que se esconde na análise não estândar e que faz do Zero um gerador de universos e identifica, assim, exterior e interior. reflexões cosmológicas Quando o Mundo acontece – História de um formigueiro que inventou o mundo (O Big-Bang visto por detrás do tempo e... os deuses distraídos, bem..., os deuses não tem mesmo nada a ver com isso) Hoje aprendemos nos livros e alguns professores nos ensinam que o mundo, suas histórias de todo o tamanho e verdade, as invenções passageiras, tudo tudo, de estrelas falantes aos sonhos borboletas, tudo tudo teve uma única origem, um início sem perdão ou delicadeza, uma explosão mais que atônita, que em si tão poderosa, inventa o tempo e o movimento. Outros já acham que uma força divina e eterna nos inventou a todos com um verbo soprado pelos infinitos. Outros, outras histórias nos contam... Chovia..., uma lama fina cobria as poucas trilhas e os caminhos iam se escorregando pelas beiradas dos morros. O capim brilhava de dourado e verdes transparentes, os pássaros piavam distantes, invisíveis...Caminhávamos pelas fontes das águas transparentes pés encharcados e o vento bulindo com nossos cabelos. Chegamos pelo planalto liso da chapada à 9 borda vertical dos precipícios. Descemos, nossos corpos rasgando os corpos das pedras, nos sangues das pedras, nosso sangue. Voamos os vales reticentes, deslizamos pelos molhados da terra e escorregando chegamos a um caminho seguro que nos levava à casa de Dona Raquel. La chegando, alguns cachorros latiam e as árvores balançando atentas nos avisavam que ela nos receberia. Dona Raquel cozinhava tranquila, num cheiro de legumes verdadeiros recheados de bananas coloridas. Veio até onde estávamos, curiosa, e perguntou: De onde surgiram essas pessoas tão arrumadinhas? Da cidade respondemos, lá onde as coisas acontecem..., respondemos e ela se riu de brincar divertida e nos ofereceu um café com as histórias que só ela sabia contar.... Dona Raquel passou então a nos contar uma história engraçada sobre formigas e mundos que existiam na floresta. Ela nos disse, sentando-se no tamborete de madeira gasta e polida pelo tempo: Sabem como tudo acontece? E continuou... Ali, daquele monte, onde o pensamento vira coisa, como uma tela iluminada pelas ideias de todas as pessoas, mora o umbigo de todas as coisas. Quando a chuva é muita, vemos por dentro de seus labirintos, nascerem cachoeiras de véus e neblinas. É à noite que tudo acontece, quando dormindo e descontrolados do mundo, não percebemos os movimentos. Nessas horas esquecidas, a noite revela suas aparências. Pintando de verde o verde e de amarelo os raios de sol e as folhas que entre secas e molhadas ainda balançam os ventos. Ali, daquele monte, onde o pensamento vira coisa, à noite, quando ninguém mais espera, saem descalças as formigas trabalhadoras, incansáveis, se transformam, sem que ninguém se dê conta, em todas as coisas que existem. As pedras, no seu silêncio de pedra, na sua dureza cinza de pedra, eram formigas transformadas, os rios e suas águas com as cores dos lápis desenhandinhos, formigas transformadas. As pessoas, ainda não existiam no mundo, nem mesmo eu, Dona Raquel explicava, que aqui já me perco há tantos mil milênios de infinitos, me lembro de existir naquele tempo. E por isso, por não haver gente por perto, os animais aprenderam a falar e falavam e conversavam no escondido da mata, desde antes do primeiro relógio, contavam as histórias da mata, e riam e brincavam e se divertiam enquanto o dia acontecia. À noite, todos dormiam e as formigas trabalhadoras começavam suas criações universais. Era todo tipo de mundo, girando, caindo, voando, rolando pelos barrancos... Os mundos também se divertiam e dizem até que conversavam em uma linguagem de mundos, que ninguém, nem os bichos, entendiam. Ao primeiro sinal de manhã, antes mesmo de a primeira luz atravessar o último pensamento da noite, os mundos se aquietavam e as formigas se recolhiam pelos zumbidos das horas. Desapareciam no umbigo da montanha. 10 Ali, daquele monte, onde o pensamento vira coisa, os mundos eram criados todos os dias. Há quem duvide dessas histórias de formigas noturnas e criadoras, mas há também, aqueles que acreditam. Mas tudo é sempre assim, pra toda coisa que existe, tem aqueles que acreditam e os que desacreditam. E ela me disse, servindo um café bem cheiroso e fumacento: “Eu, não ligo para as coisas, só me interessam as histórias”. No dia seguinte bem cedinho, seguimos o nosso caminho. Ainda estávamos longe e longe de onde nem se pensava ir. 6 Finda a história surge a história oficial, com o Big-Bang sendo gerado de um nada, sem tempo ou destino. Que Zero é esse? Qual formigueiro lhe deu origem? Diferentes Zeros de mundo para um só universo. Um só? Finalmente, antes que os Zeros nos devorem, afirmamos que os dois cenários que formam o tempo e o mundo se refletem : tanto o “agora” é, e precisa ser, mobüisiano, para conter o reverso do tempo perdido e o desejo do tempo desconhecido, quanto o Zero-espelho do mundo, esse nada com tudo dentro, unindo dois mundos em um só ponto que nada é, não se sustenta apenas como ponto matemático, mas como meta-matemico. É o discurso sobre o mundo que é comprimido ao Zero-do-mundo. Somos e vivemos como corpos feitos de versos em vidas meta-biológicas, como nos lembra G. Chaitin onde o conceito de homem-máquina será e é substituído pelo de homem-software que se articula e evolui algoritmicamente (CHAITIN, 2011). A matéria filha do bóson de Higs é, enfim, apenas um nó de luz (KUBRUSLY, 1995), palavras iluminando a realidade, ilusões criados de um Zero atormentado e prenhe de acontecimentos. 6 História do projeto Pajé Marinheiro realizado junto ao SESC/RJ, disponível em : http://www.im.ufrj.br/~risk/pm.html , acesso em 24-07-2012. 11 REFERÊNCIAS BORGES, Jorge Luis. El Aleph. Buenos Aires: Alianza Editorial, 1949. CHAITIN, Gregory J. Proving Darwin: Making Biology Mathematica. New York: Pantheon Books, 2012. DAUBEN, J.W. Abraham Robinson: The creation of Nonstandard Analysis. A personal and mathematical odyssey. NJ: Princeton University Press, 1995. KUBRUSLY, Ricardo S. Distância são caçadoras do nada. In: Livre de Vazios. Rio de Janeiro: Editora Seis, 2011. KUBRUSLY, Ricardo S. Do Tempo o que se diz. In: Calibán - Revista Latino Americana de Psicanálise, 2012 (a ser publicado). KUBRUSLY, Ricardo. Descalço no infinito: do inesperado esperado ao inesperado inesperado. In: 6. Congresso do PPRLB - Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras. Caderno de Resumos. Rio de Janeiro: Real Gabinete Português de Leitura, 2012. Disponível em: http://www.realgabinete.com.br/portalweb/CentrodeEstudos/PolodePesquisaPPRLB/Col %C3%B3quiosdoPPRLB/Atasdo6%C2%BACol %C3%B3quio/CadernodeResumos/tabid/166/language/en-US/Default.aspx , acesso em 24-07-2012. KUBRUSLY, Ricardo S. Nó de Luz. Rio de Janeiro: Impressões do Brasil, 1997. LACAN, Jacques. On a question preliminary to any possible treatment of psychosis. In: Écrits a selection. New York: W.W. NORTON & COMPANY INC, 1977.