Zero Hora, a voz que une os gaúchos1
Milton Julio FACCIN2
Resumo
Quinto maior jornal do Brasil em circulação, Zero Hora se institucionaliza no Rio Grande
do Sul não apenas como principal meio de informação, mas como dispositivo de
intervenção ativa nos rumos da vida pública gaúcha. O presente artigo dedica-se a
descrever as principais estratégias adotadas por esse veículo desde o seu surgimento, na
década de 60, no sentido de estabelecer o seu lugar de fala como instância
reconhecidamente autorizada a defender os interesses regionais. Assim, as diferentes
práticas discursivas mobilizadas pelo jornal criam permanentemente vínculos simbólicos
com o universo da recepção - formalizados em termos de contrato de leitura - e permitem o
seu reconhecimento no mercado jornalístico local.
Palavras-chave: História do Jornalismo, Imprensa Gaúcha, Interesses Regionais, Zero
Hora.
Levou muito tempo desde a publicação do primeiro jornal, datado de 1º de junho de
1827, para que a comunicação midiática se institucionalizasse e construísse o seu próprio
estatuto simbólico-discursivo em terras gaúchas. Da mesma forma que a academia
científica demorou a tratar este tipo de mediação simbólica que intervém ativamente no
cenário social, fundada em estratégias de captura do público e viabilização do
reconhecimento dos seus discursos. Desse modo, não se pode desvincular os rumos
tomados pelo jornalismo gaúcho e a sua conseqüente configuração empresarial das
condições ditadas pela práxis de cada época da história social. Elas definiram, em grande
medida o establishment sócio-profissional, provido de um grau elevado de credibilidade
social, a transformação do campo jornalístico em dispositivo de mediações simbólicas de
1
Trabalho apresentado no VII Encontro Nacional de História da Mídia. Fortaleza, 19 a 21 de agosto de 2009.
Graduado em Comunicação Social pela UFSM/RS, Mestre e Doutor em Comunicação e Cultura pela
ECO/UFRJ, professor da Universidade Estácio de Sá (RJ). E-mail: [email protected].
2
1
debates e interesses regionais, funcionando como plataforma de lançamento de idéias e foro
de consagração dos protagonistas da vida pública.
Tais condições permitem perceber como o sistema de comunicação midiático do
Rio Grande do Sul configurou-se ao longo dos anos em um espaço público fundamental
para a sobrevivência da própria sociedade. A vida política e social – seus temas, conflitos e
processos – mais do que objeto das práticas discursivas tornou-se uma construção
simbólica, resultado dos diversos embates de sentido em torno dos interesses coletivos. Isto
fez com que a forma de esclarecimento e a racionalização destes interesses coletivos
fossem mediadas, à vista de todos, em grande parte, pelo ritual jornalístico, que converte os
discursos sociais em discursos compreensíveis, através de uma racionalidade que, embora
privada, é construída publicamente.
Soma-se a isso a condição limítrofe do Rio Grande do Sul, as suas peculiaridades
geográficas, o seu processo de povoamento e o desenvolvimento da sociedade civil fizeram
com que, desde cedo, o sistema de comunicação midiático se desenvolvesse com vínculos
locais fortes e profundamente comprometidos com os interesses regionais. Em certa
medida, a proximidade dos interesses de certos grupos econômicos, políticos e jornalísticos
locais acabam definindo e apontando quais são os interesses regionais do Estado gaúcho,
escamoteando, muitas vezes, as contradições sociais características de uma sociedade
baseada na organização capitalista das relações sociais de produção.3
Um rápido olhar sobre o desenvolvimento do sistema de comunicação midiático do
Rio Grande do Sul permite percebê-lo como um dos mais modernos do País e
marcadamente regional. A maioria das empresas de comunicação existente no Estado
propõe-se a trabalhar a comunicação local, em detrimento de uma cobertura jornalística
Os trabalhos do antropólogo Oliven são muito elucidativos nestes aspectos. Em artigo
publicado recentemente (OLIVEN, Ruben George. Velhos e novos regionalismos: o Rio
Grande do Sul e o Brasil. LUGAR COMUM: estudos de mídia, cultura e democracia. Rio de
Janeiro, n. 4, p. 67-95, jan./abr. 1998, p. 67-95) atenta para possíveis usos da reivindicação
regionalista em oposição a outras regiões, através da qual se pressupõe que cada uma
dessas regiões seja internamente homogênea e, portanto, portadora de interesses comuns,
escamoteando assim suas clivagens de natureza social, econômica e cultural.
3
2
nacional. Esse modelo tem como aliado os índices sócio-culturais registrados no Rio
Grande do Sul, que favorecem, do ponto de vista mercadológico, o seu desenvolvimento, à
medida que atuam numa região de melhor qualidade de vida e maior poder aquisitivo do
Brasil.
Em termos de consolidação institucional, pode-se dizer que a imprensa gaúcha só se
constitui, de fato, quando começaram a surgir as fusões de empresas de jornalismo
impresso com as de radiodifusão, provocando o surgimento dos grandes e médios
conglomerados da comunicação midiática. Tais fusões seguiriam o próprio curso do
desenvolvimento da tecnologia da comunicação no mundo, mas também da nova
configuração que a sociedade gaúcha passava a adquirir. O primeiro grande grupo foi o
pertencente aos Diários e Emissoras Associadas, de propriedade do jornalista
pernambucano Assis Chteaubriand que, a partir dos anos 1930 encontrava-se em plena
expansão no território brasileiro, formando a principal cadeia de jornais e emissoras de
rádio do País.4 Antes dele, em Pelotas, em 6 de junho de 1926, surgia a Sociedade Anônima
Rádio Pelotense, seguida por outras emissoras radiofônicas, como a Rádio Gaúcha, em
1927.5
Como pioneiros do modelo empresarial jornalístico no Rio Grande do Sul, os
Diários e Emissoras Associadas foram adquirindo, paulatinamente, a Rádio Sociedade RioGrandense, com sede em Porto Alegre, que foi a terceira rádio de amplitude modulada
fundada no Brasil, em 1924; a Rádio Farroupilha (1943); a Rádio Difusora (1944); o jornal
Diário de Notícias (1930); o jornal A Hora (1955); o jornal A Razão (1941). Esta fusão
permitiu que houvesse um trabalho em parceria com os diferentes veículos do grupo. A
Rádio Farroupilha, por exemplo, passou a atuar em colaboração com os jornais da
empresa, transmitindo seu jornal falado desde a redação do jornal Diário de Notícias, que
nos anos 1950 serviu de modelo para a prática do jornalismo radiofônico no Estado, cuja
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal,
1978.
5
FERRARETTO, Luiz Artur.Radio. O veiculo a historia e a técnica. Porto Alegre: Sagra,
1999.
4
3
atração era a versão local do Repórter Esso. Também a Rádio Difusora, que fazia um
esquema de programação mais popular, lançou um programa de variedades com apelo
jornalístico chamado Atração Difusora. Entre suas seções, destacava-se uma leitura de
cartas de ouvintes e utilidade pública, chamada O Público Reclama.6
Desse modo, o jornalismo radiofônico, aliado aos jornais impressos, assentaria as
bases para o desenvolvimento da televisão no Rio Grande do Sul e, deste modo,
completaria o tripé sobre o qual as empresas de comunicação construiriam o seu
predomínio em termos institucionais. Em 1977, o Brasil contava com 75 emissoras de
televisão, sendo nove do Rio Grande do Sul. Em 1979, o Estado gaúcho superava São
Paulo em termos de canais televisivos, com 13 emissoras contra 11 paulistas.7
Atualmente, a Rede Brasil Sul (RBS) é o maior grupo na área da comunicação
mediática do Sul do Brasil. Criada a partir da compra da Rádio Gaúcha, em 1957, a
empresa lidera o mercado de mídia impressa, de televisão aberta e por assinatura e de rádio
AM e FM do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Além disto, atua também na área de
informática, com a ADP Systems do Brasil e a provedora de acesso à internet Utec, e
aumentou a sua participação no mercado de telecomunicações no final de 1996, ao integrar
o consórcio que associou à estatal gaúcha de telefones Companhia Rio-Grandense de
Telecomunicações. O grupo RBS controla hoje 65 empresas operacionais e é o terceiro
maior grupo de mídia do Brasil. São 18 estações de televisão, 18 de rádio e quatro jornais.
São mais de seis mil funcionários e faturamento superior a US$ 630 milhões ao ano. Seus
produtos e serviços são consumidos por um público de 14 milhões de ouvintes, leitores e
telespectadores no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Brasília8. O jornal Zero Hora é o
BARRETO, Abeillard. Primórdios da imprensa no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Craig,
1986.
7
CAPARELLI, Sérgio. Televisão e capitalismo no Brasil. Porto Alegre: L&PM, 1982, p. 13.
8
Conforme dados apresentados por GUARESCHI, Pedrinho; RAMOS, Roberto. A máquina
capitalista. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 67.
6
4
quinto maior em circulação no Brasil9 e apresenta o maior caderno de anúncios
classificados do País. O jornal Diário Catarinense é o líder de vendas em Santa Catarina.
Junto com o Pioneiro, de Caxias do Sul, o Diário de Santa Maria, de Santa Maria, e o
Jornal de Santa Catarina, de Blumenau, a área da comunicação impressa do grupo RBS
soma mais de 350 mil cópias em cada domingo.10 Alguns trabalhos têm destacado o poder
do monopólio da RBS, como é o caso do livro A Máquina Capitalista, de Guareschi e
Ramos11. Os autores classificaram esse poder como “o fenômeno RBS” e demonstraram
que o jornal Zero Hora possui traços gerais do capitalismo que o torna um modelo
mercadológico para os outros veículos concorrentes.
Embora a RBS esteja numa posição empresarial privilegiada, possuindo o controle
de 80% do mercado publicitário regional e dominando a área televisiva em termos
quantitativos, o grupo divide o mercado com centenas de outros suportes de comunicação
midiática, tendo hegemonia numérica apenas nos canais televisivos. Das 21 emissoras de
televisão existentes no Estado, 12 pertencem à RBS, diferentemente do que acontece no
rádio. Apenas 14 pertencem ao grupo num universo de 329 estações.12 O mesmo acontece
com os veículos impressos. Há no Rio Grande do Sul 174 títulos de jornais membros da
Associação Rio-Grandense de Imprensa, e destes apenas seis são do grupo RBS. Também
há alguns títulos de revista em circulação, mas são inexpressivos no conjunto da
comunicação midiática do Estado. Zero Hora é lido por 1.482.800 leitores, o que representa
42,1% dos leitores de jornais no Estado.13
Zero Hora e a construção do seu lugar social
9
De acordo com pesquisa do Ibope, realizada nas regiões metropolitanas de Porto Alegre, Rio de Janeiro e
São Paulo, Zero Hora (895.100 leitores) está atrás dos jornais O Dia (2.334.600), O Globo (1.857.900), Folha
de São Paulo (1.395.900) e o Estado de São Paulo (1.332.900).
10
Conforme dados publicados na edição especial comemorativa ao Encontro Mundial de Entidades
Jornalísticas pela ZERO HORA, Porto Alegre, 5 de fevereiro de 1997.
11
GUARESCHI, Pedrinho; RAMOS, Roberto. A máquina capitalista. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1988:67
12
Conforme cadastro da ASSOCIAÇÃO RIO-GRANDENSE DE IMPRENSA, de junho de 2002.
13
IBOPE - Pesquisa anual do interior mais pesquisa trimestral na grande Porto Alegre, de 19 a 26 de
novembro de 2001.
5
As primeiras décadas do século XX definiram os rumos da institucionalização do
jornalismo gaúcho, do mesmo modo que marcaram a base da consolidação do jornal
moderno como parte da cultura de massa. Assim, seguindo o curso da própria tendência
nacional, a imprensa gaúcha se institucionaliza e constrói o seu próprio estatuto simbólicodiscursivo. É a partir desta época que o jornalismo brasileiro entra na sua fase moderna,
cuja principal característica é o seu modelo mercadológico e empresarial. Ao lado de uma
organização burocrática mais complexa e de um aprimoramento tecnológico da produção,
percebe-se uma ênfase maior na abrangência da informação e no tratamento técnico das
notícias, em detrimento da expressão de uma opinião definida.
Neste mesmo movimento da lógica do mercado, movidos pela concorrência, os
jornais deixam de atuar, a partir de então, como porta-vozes de grupos restritos - do ponto
de vista político-partidário e passam a reclamar, para si, a função de expressão da opinião
pública regional, como espaço privilegiado para a discussão dos destinos do território
gaúcho. Ao empunhar essas bandeiras, o principal vespertino que circulou no século
passado no Rio Grande do Sul, Folha da Tarde, de propriedade de Breno Alcaraz Caldas,
publicou na sua primeira edição de 27 de abril de 1936:
Aos poucos a boemia vai desaparecendo da vida dos homens de Imprensa. Até
ontem ainda se podia fazer literatura na mesa de bares. E os jornalistas
queimavam as suas melhores energias com o líquido corrosivo dos recantos
barulhentos, na reportagem interminável para entrevistar ‘a mulher que ficou na
taça’. Dizia-se até que a Imprensa fabricava tuberculosos. (...) Entretanto, os
protestos arrebatadores desta hora profundamente humana foram transportando os
trabalhadores do jornal para os problemas da terra, que não se resolvem com
espirais de fumo, nem com o lirismo besta dos copos transbordados de chope. E
nessa matéria, o vespertino é o maior e o mais declarado inimigo da boêmia. Ele
reclama para si toda a vibração do profissional (...)14
Ao lado do jornal Diário de Notícias15, o Correio do Povo, fundado em 1895, por
Breno Alcaraz Caldas, torna-se o primeiro jornal representativo deste novo regime de
14
Crônica de Rivadávia de Souza, publicada na Folha da Tarde, em 27 de abril de 1936. In: GALVANI,
Walter. Olha a Folha: amor, traição e morte de um jornal. Porto Alegre: Sulina, 1996, p. 23.
15
Jornal lançado em 1911 por alguns editores de Porto Alegre. Possuía um moderno maquinário, que
permitia, na época, além do excelente acabamento gráfico, a introdução de novidades como o uso sistemático
de ilustrações e a impressão em cores. Editorialmente, inaugurou a reportagem sobre temas cotidianos,
6
jornalismo. Criado para ser um jornal de assinantes apoiado na concorrência, cujo seu
principal concorrente era o jornal A Opinião Pública, da cidade de Pelotas, sua trajetória
inicial é marcada pelas sucessivas reformas em suas oficinas, com vistas à redução de
custos e aumento da produtividade. Do ponto de vista editorial, a prática jornalística é
marcada pela tentativa de se fazer um jornalismo independente do campo político,
buscando novas modalidades de expressão, dando margem à criatividade e a outros
assuntos da vida social.16
Durante décadas, o Correio do Povo e o Diário de Notícias formaram a vanguarda
do jornalismo gaúcho, seja pelos moldes verdadeiramente capitalistas da sua organização
empresarial, seja pelo novo conceito jornalístico que, respondendo às demandas sociais,
estava se consolidando como tendência em grandes centros urbanos, não apenas na
sociedade gaúcha. No entanto, se esses jornais marcam o início da era moderna do
jornalismo gaúcho, o jornal Zero Hora, desde que foi adquirido pelo então diretorpresidente da Rede Brasil Sul de Comunicações (RBS), Maurício Sirotsky Sobrinho, em
1970, representa um modelo padrão de jornalismo regional. Isso se deve tanto por suas
estratégias empresariais ligadas a uma cultura organizacional da rede, quanto pelas suas
práticas discursivas ligadas ao contexto regional fortemente presentes e auto-referenciadas
no mercado simbólico regional.
Zero Hora surge no mercado gaúcho com uma linha editorial que prioriza a
democracia e a integração regional, conforme prevê seu estatuto. Seu compromisso alinhase aos propósitos do grupo RBS da qual faz parte, criado pelo passo-fundense Maurício
Sirotsky Sobrinho, em 1957, ao comprar a Rádio Gaúcha. Nove anos mais tarde, o
empresário viria a se tornar sócio-diretor do jornal Zero Hora, na época um tablóide
vespertino que se publicava desde 1964 na capital gaúcha em substituição ao jornal Última
comprometendo-se sempre a servir a opinião pública de maneira independente, tratando apenas dos
problemas políticos-sociais atinentes à vida do Rio Grande do Sul. (DIÁRIO DE NOTÍCIAS. Porto Alegre,
15 de junho de 1911. In: RÜDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. Porto Alegre: Editora da
Universidade, 1993, p. 55)
16
GALVANI, Walter. Olha a Folha. Amor, traição e morte de um jornal. Porto Alegre: Sulina,
1996, p. 25.
7
Hora. Este fundado pelo jornalista Samuel Wainer, que possuía ligações com o Partido
Trabalhista Brasileiro e amizade com o então presidente da república Getúlio Vargas.
Ao ser adquirido por novo empresário, o jornal Última Hora mudou de título. A
palavra “última” do seu título foi substituída pela expressão “zero”. Discursivamente, esta
traduz a funcionalidade das novas orientações do jornal no sentido de que todos os esforços
do trabalho jornalístico deveriam convergir para garantir a liderança jornalística no Sul do
Brasil em relação à circulação e em relação ao próprio trabalho jornalístico. Desse modo,
Última Hora passou a se chamar Zero Hora e marcou o início de uma nova fase do jornal,
cuja imagem perante os leitores passou a ser construída especialmente através de um
discurso auto-referente. Tanto que em seu manual de redação, o jornal faz questão de
salientar que “(...) todas as manhãs, a edição de Zero Hora que começou a circular durante a
madrugada é submetida a um minucioso rastreamento dos pecados do dia”.17
Assim, o jornal mostra que está à frente dos demais dispositivos jornalísticos como
revelou, por exemplo, o seguinte enunciado de um de seus editoriais: “(...) empresas fracas
são empresas incapazes de cumprir integralmente sua missão, com independência e
isenção, e de lutar efetivamente por sua liberdade e pela liberdade de expressão” (ZH,
16.12.01). Nesse caso, o jornal posiciona-se no mercado jornalístico local através da
desqualificação dos seus concorrentes quando sentencia: “são incapazes”. Ao contrário de
Zero Hora que através de um operador implícito designa o jornal como uma empresa
“forte” que “cumpre” a sua tarefa jornalística com “seriedade” e “competência” e “luta”
constantemente para a “garantia” da missão jornalística. Esta funcionalidade é reiterada em
vários outros discursos auto-referentes, como revela o trecho de outro editorial:
Apesar das tentativas de intimidação, a RBS assegura a seu público e a seus
colaboradores que seguirá em sua linha editorial de independência jornalística e
empresarial, reafirmando seu projeto de crescimento, como vem fazendo há mais
de quarenta anos.(ZH, 6.11.01)
MANUAL DE REDAÇÃO E ESTILO. Organização de Zero Hora. Porto Alegre: L&PM,1994,
p.7.
17
8
Por essas operações enunciativas, Zero Hora argumenta que não se deixa intimidar,
estabelece uma relação de confiança com seus leitores ao se julgar autorizada a “assegurar”
a seu público, atualiza os seus compromissos de independência jornalística e empresarial e
autoqualifica-se como sendo uma “grande” empresa em “constante” crescimento. Deste
modo, o jornal é possível observar que o jornal mobiliza diferentes estratégias que
reiteradamente comprovam aos seus leitores a sua posição de liderança no mercado
simbólico e, portanto, convergem para a funcionalidade expressa em seu título-nome: Zero
Hora.
Há que se destacar que Zero Hora manteve a tendência local de adotar o formato
tablóide. Apesar de a fase moderna ter introduzido no jornalismo de referência do país o
modelo standard como formato padrão dos jornais ditos “sérios”, a imprensa local não
seguiu o mesmo caminho. Ela teve que se adaptar gradativamente à exigência de um
formato menor – o tablóide – devido à impressionante penetração deste modelo junto ao
universo da recepção gaúcha. Esta opção contrariou a tendência nacional de valorizar
jornalisticamente somente o modelo standard e a desprezar os demais formatos como
produtos da imprensa sensacionalista, associando o tablóide aos ditames da imprensa
marrom.18
Tudo começou com o jornal vespertino da Empresa Jornalística Caldas Júnior,
Folha da Tarde, que obteve êxito desde a sua primeira publicação em 27 de abril de 1936.
Conforme Galvani19, a Folha da Tarde não podia ferir uma cidade provinciana, com
formação cheia de lusitanas e influência de rígidos princípios germânicos embasada, além
disso, na austeridade da vida de fronteira, “(...) onde o conforto e o chique pareceriam
acessórios condenáveis, com um jornalismo sensacionalista”. Era preciso, então, agir no
18
Conforme Galvani (Op. Cit., p.32), a palavra tablóide vem do inglês: um jornal com mais
ou menos a metade de um jornal normal (ou ordinário, comum) contendo notícias
especialmente de natureza sensacional e com muitas ilustrações fotográficas. O dicionário
American Heritage of English Language define: um jornal de pequeno formato, dando
notícias em forma condensada, usualmente com ilustrações e às vezes com material
sensacional. Nota sobre a origem do tablóide.
19
GALVANI, Op. Cit., p. 45-47.
9
estilo dos jornais tablóides argentinos, a exemplo do Crítica, de Buenos Aires, que possuía
até suplemento cultural, o que demonstrava com clareza que não era apenas um
“tabloidezinho sensacionalista”. Desse modo, o tamanho dos jornais modernos do Rio
Grande do Sul passou a ser, por definição, o tablóide, associado à imprensa séria,
independente, objetivo e formadora de opinião.
Zero Hora foi o primeiro jornal diário do Sul do país a adotar a tecnologia off-set de
impressão, em 1969, promovendo uma reforma do seu parque gráfico que tornou
extremamente competitiva a área industrial da empresa. No ano seguinte, o grupo RBS
assumiu o controle do jornal, que sofreria uma série de reformas para modernizar seus
métodos de gestão e adequar sua linha editorial às novas condições do mercado local,
visando à conquista não apenas do público leitor, mas da sua própria faixa de expansão. Em
conseqüência dessa estratégia, tanto quanto da estagnação editorial e mercadológica da
empresa concorrente – a Companhia Jornalística Caldas Júnior - Zero Hora tornou-se só o
jornal de maior leitura no Estado, mas o jornal de maior tiragem, batendo, em 1982, o então
líder do ranking, o Correio do Povo.20
Assim, ser um jornal de vanguarda, moderno, comprometido com a região onde atua
passaram a ser suas principais estratégias de mercado e discursivas. Estas ganharam
ressonância na imagem que a Rede Brasil Sul de Comunicações junto ao público gaúcho,
acostumados com o slogan “RBS, a Rede da Comunidade”. Segundo o diretor-presidente,
jornalista Maurício Sirotsky Sobrinho, o grupo adotou como norma “vincular-se às
comunidades onde atua”. Seu compromisso é, segundo ele, o “permanente aperfeiçoamento
da atividade jornalística, através da defesa de princípios que valorizam o ser humano, a
democracia, a ética, a liberdade de expressão, o uso adequado da tecnologia e a
administração participativa”. Para o jornalista, os veículos da RBS possuem um
“compromisso com as comunidades e com a informação isenta, com opinião responsável e
com a verdade, sendo uma estrada de dupla via que leva a informação, a cultura e o lazer e
20
RÜDIGER, Op. Cit., p. 58-80.
10
ao mesmo tempo traz das comunidades suas opiniões, voz e imagem, projetando os seus
anseios e reclamações na cena regional e nacional”.21
A estratégia de inserção regional de Zero Hora vem ano a ano se consolidando,
tanto em termos empresariais com a implantação de novos jornais22 e instalação de
sucursais no interior do estado quanto em termos mercadológicos com a promoção de
eventos e campanhas publicitárias. A empresa possui sucursais em diferentes cidades do
Rio Grande do Sul que favorecem para uma cobertura jornalística permanente nas cidades e
regiões onde estão instaladas, dando visibilidade, de alguma forma, a estas comunidades.23
Uma estratégia fortemente reconhecida pelo universo da recepção é a vinculação
associativa de Zero Hora ao seu grupo empresarial RBS. É fator determinante no
estabelecimento do grau de adesão e visibilidade desse jornal enquanto sujeito participante
e constituinte das relações sociais e discursivas da região. Pela dimensão do seu complexo
empresarial, a RBS é o grupo que mais se destaca no cenário midiático local. Tanto que
recebeu um comentário favorável, em 1992, do então vice-presidente de operações da Rede
Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que evidenciou o seu enraizamento em solo
gaúcho:
(...) a RBS tem a característica de parecer com uma geradora nacional. Faz
programação local muito boa e conta com uma eficiência de operação que é
acima dos padrões das outras afiliadas. Tanto do ponto de visa operacional
quanto no técnico, especialmente no que se refere à expansão para o interior do
estado. (ZH, 28.6.92)
O grupo RBS tem reforçado seu apelo regionalista desde que iniciou o processo de
interiorização da empresa, com a instalação, inicialmente, da TV Caxias, em 1969 e a
compra da TV Imembui de Santa Maria.24 Em comemoração ao seu 32º aniversário, em
21
ZERO HORA, 5 de fevereiro de 1997, p. 2.
A RBS possui o jornal Pioneiro, Diário Catarinense, o Jornal de Santa Catarina, Diário gaúcho e, mais
recentemente, criou o Diário de Santa Maria.
23
Isto se reflete na quantidade de espaço destinado pelo jornal na cobertura jornalística dos municípios, na
editoria sob a rubrica semântica Pelo Rio Grande, podendo chegar a cinco páginas por edição, com matérias
basicamente informativas.
24
HERTZ, Daniel. O monopólio da RBS. Um problema do Rio Grande do Sul ... e da RBS. Mimeo. XV
Intercom. São Bernardo do Campo, 1992. p. 1.
22
11
1992, a empresa lançou uma campanha publicitária, cujo slogan “RBS TV aqui o Rio
Grande se vê” sintetiza perfeitamente a sua postura em relação aos seus compromissos com
o território gaúcho. No caso da televisão, por exemplo, um dos programas de maior
audiência é o Jornal do Almoço que prima pela participação comunitária, havendo
inserções diárias de matérias produzidas pelas diversas emissoras do grupo, que colocam
em evidência os seus aspectos culturais regionais. Em alguns momentos, especialmente em
comemorações de festas folclóricas ou em eventos que evidenciam o potencial econômico
das comunidades, a empresa desloca sua equipe para o interior do Rio Grande do Sul, de
onde o programa é transmitido ao vivo, cobrindo aspectos da vida sócio-econômica e
cultural daquela localidade.
Através da Fundação Maurício Sirotsky, Zero Hora é signatária das campanhas e
eventos regionais, calcadas em apelos publicitários cada vez mais identificados com
aspectos da identidade regional gaúcha. Uma promoção de cunho regionalista que marcou o
início de uma intensa atividade da RBS voltada para o povo gaúcho foi o evento de
comemoração do sesquicentenário da Revolução Farroupilha, em 1985, conforme já foi
demonstrado por Jackes25 em sua tese de doutoramento. Na época, o evento contou com a
participação do Movimento Tradicionalista Gaúcho e tinha como slogan um enunciado
imperativo: “Vamos construir o Rio Grande dos Farroupilhas”. Com este slogan, foram
montados uma campanha publicitária composta por 14 comerciais, oito anúncios e vários
spots para rádio, através dos quais a temática abordava os aspectos históricos e ideológicos
da Revolução Farroupilha.
A campanha provocou um processo de agendamento da temática farroupilha, do
orgulho gaúcho em todos os veículos da empresa, assim como em outros dispositivos
jornalísticos de empresas concorrentes. Isso porque, além da campanha publicitária, o
grupo RBS promoveu diversos eventos: cavalgada, que percorreu 14 cidades consideradas
farroupilhas; festas denominadas nativistas; além de uma série de palestras sobre a
25
JAKES, Nilda Aparecida. A recepção na querência – estudo da audiência e da identidade cultural gaúcha
como mediação simbólica. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo. 1993, p. 112-121.
12
Revolução Farroupilha nas 20 cidades mais importantes do Estado. Deste modo, a cada
evento, a RBS construía um clima preparatório, com chamadas publicitárias e coberturas
jornalísticas.
De lá para cá, o grupo RBS tem organizado uma série de eventos e campanhas
regionais que provocam um forte impacto na sociedade local.26 Levantamento realizado
entre os anos de 2001 e 200227 sobre os eventos e campanhas promovidas pelo grupo do
jornal Zero Hora revela que as ocorrências voltam-se aos interesses regionais, classificados
em três áreas temáticas: política & cidadania, economia & empreendedorismo e folclore &
tradição, pilares sob os quais a identidade regional gaúcha é construída. Deve-se lembrar
que as instituições políticas e os movimentos sociais têm importante presença no cenário
local. Estes, aliados aos grupos folclóricos de tradição européia e ao Movimento
Tradicionalista Gaúcho, representam fortes instituições capazes de mediar as construções
simbólicas em torno dos interesses regionais.
Outro destaque é a introdução gradativa de cadernos e suplementos especiais no
corpo do jornal, que marca seu compromisso com os interesses regionais. As folhas dos
colonos, os guias sócio-econômicos, os especiais de datas comemorativas, as festas
folclóricas etc são espaços que Zero Hora abre para focalizar as questões regionais, além de
aproveitar, como insumo do seu trabalho, aqueles fenômenos sociais que estejam latentes
no tecido social. Assim, a classificação semântica dos temas abordados pelos jornais
gaúchos aglutina matérias associadas à: Arte & Cultura; Ciência & Educação; Política &
Cidadania; Saúde & Comportamento; Economia & Empreendedorismo; Tecnologia &
26
Entre as ações dirigidas à comunidade, destacam-se, por exemplo: Campanha Educativa de Conscientização
no Trânsito, iniciada em 1998. Alerta sobre as necessidades de se obedecer às leis de trânsito, usando a cabeça
e dirigindo pela vida.Graças à campanha, os acidentes diminuíram. Projeto desenvolvido pelo Jornal Zero
Hora, Bradesco Seguros e Fundação Roberto Marinho, juntamente com a Secretaria do Meio Ambiente de
Porto Alegre. Construção de um teatro totalmente integrado à natureza. Capacidade para 50 mil pessoas.
Apoio editorial na transformação do antigo prédio de Correios e Telégrafos em Memorial do Rio Grande do
Sul. Resultado de um convênio entre o Governo do Estado, RBS, Banco do Brasil e Fundação Roberto
Marinho.
27
FACCIN, Milton Julio. Territórios de Identidades, os jornais gaúchos e as demarcações discursivas da
indentidade regional. Tese de doutorado em Comunicação e Cultura apresentada à Escola de Comunicação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2003.
13
Desenvolvimento Regional; Turismo; Folclore & Tradição; Cotidiano e Esporte & Lazer.28
Tais temas estão associados à vocação e pujança econômica do Estado e ao elevado nível
sócio-culural da sua população.
Em termos de folclore & tradição, por exemplo, há dois aspectos a se observar: de
um lado, as vozes do tradicionalismo gaúcho, e, de outro, as vozes dos grupos imigrantes
que ocuparam algumas regiões do Estado. Há que se observar a existência de um ponto de
vista dominante em termos de discursos que sustenta um tom ufanista em relação às
contribuições culturais tanto dos imigrantes europeus quanto daquelas populações que
habitaram o pampa gaúcho. Aparentemente, quando se fala nas coisas gaúchas o modelo
tradicional está baseado no passado de guerra muito ligado à região da campanha, mas que
em termos de folclore & tradição convive com outros modelos que evocam as
características européias que, até hoje, garantem uma certa hegemonia discursiva no
imaginário coletivo local.
Essa questão se reflete nas políticas editoriais do jornal que aproveita datas
especiais para agendar a oferta de cadernos e suplementos especiais sobre folclore &
tradição. Da mesma forma em que se priorizam fontes daquelas instâncias mediadoras que
representam o folclore & tradição. Assim, o dispositivo jornalístico faz falar a voz da
História (os relatos constantes sobre a Revolução Farroupilha e sobre a origem do homem
gaúcho) e a voz do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Mas também faz falar, do lado dos
gaúchos descendentes de imigrantes, os grupos tradicionais italianos e alemães, através de
seus representantes e de suas manifestações folclóricas.
Os aspectos que envolvem questões sociais, como Política & Cidadania; Economia
& Empreendedorismo; Tecnologia & Desenvolvimento Regional ocupam espaço
igualmente relevante nas práticas discursivas de Zero Hora. No entanto, ao contrário do
núcleo semântico folclore&tradição, percebe-se que os cadernos e suplementos especiais
que cobrem estas áreas da vida social são produzidos sistematicamente durante o ano todo,
não havendo, necessariamente, a ação de um movimento no tecido social no sentido de
28
Idem, Ibdem.
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acionar o dispositivo jornalístico para a cobertura. Estes temas, normalmente, são
agendados previamente pelos dispositivos jornalísticos, seguindo uma política editorial do
próprio jornal.
Não é de estranhar que estes aspectos relativos às questões sociais estejam na ordem
do dia. De um lado, reflete a posição privilegiada do Rio Grande do Sul em relação aos
demais estados brasileiros em termos de índices sociais. De outro, resulta da lógica
comercial que orienta as práticas discursivas em termos de oferta destes pacotes
discursivos, uma vez que os cadernos e suplementos especiais, normalmente, são
patrocinados por empresas bem sucedidas da região. Desse modo, a pujança econômica do
Estado é posta em evidência pelo dispositivo jornalístico na medida em que há condições
financeiras para a realização, mas também porque atende a certa tendência de valorização
do espírito empreendedor, muito característico daquelas populações de colonização
européia. A maioria das cidades do Estado comemora, em algum momento do ano, a sua
principal atividade econômica. E tal comemoração é realizada através de um evento
expõem para os visitantes o potencial econômico do município, com intensa programação
cultural, que, normalmente, são festas, apresentações e concursos expõem as manifestações
folclóricas da localidade. Apesar disso, há que se observar no sentido de produção de
cadernos e suplementos especiais uma anulação quase absoluta do setor primário do
Estado, que não merece nenhuma cobertura sistemática, mesmo sendo o Rio Grande do Sul
um Estado de uma forte economia e tradição agropecuária.
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