Desenvolvimento de Dispositivo para Monitoração da Integridade de Bancos de Baterias Estacionárias A.M.Melo, Manaus Energia; R.F.Beck, CPqD; P.E.R.Cardoso, CPqD; M.F.N.C.Rosolem, CPqD; e L.A.Soares, CPqD Resumo: As baterias são elementos vitais na confiabilidade de uma Subestação, pois é através delas que todos os sistemas de comando, proteção, controle, telecomunicação e supervisão são alimentados numa falha de energia. Para tanto, a bateria deve estar sempre em condição de operação adequada, sendo imprescindível conhecer o seu estado de degradação. Mundialmente tem-se estudado a aplicação de métodos como impedância e condutância na avaliação de baterias chumboácidas estacionárias. O CPqD há anos vem estudando metodologias baseadas na medição ôhmica interna da bateria (condutância e impedância) para serem empregadas na avaliação do estado de degradação das baterias chumbo-ácidas ventiladas e reguladas por válvula instaladas em subestações de energia elétrica. Neste projeto de P&D o CPqD, em conjunto com a Manaus Energia, desenvolveu um dispositivo microcontrolado autônomo para a Monitoração da Integridade de Bancos de Bateria, intitulado DIMIBA. Este dispositivo busca também reduzir substancialmente os recursos logísticos, não provocar o aceleramento da perda de vida útil da bateria e obter maior confiabilidade quando comparado com as metodologias tradicionais de avaliação da integridade dos bancos de baterias. Finalizando, este trabalho apresenta a metodologia empregada para medição e análise da resistência interna para permitir a avaliação da condição de integridade dos bancos de bateria. Palavras-chave: Baterias Chumbo-ácidas Estacionárias; Monitoração, Resistência Interna. I. INTRODUÇÃO A bateria chumbo-ácida foi descoberta por Planté em 1860 e, até o momento, continua sendo a solução dominante em aplicações estacionárias, do ponto de vista técnico e financeiro, na utilização como reserva de energia para ocasiões de falha ou transitório no suprimento da energia em corrente alternada, tornando-se elemento vital na confiabilidade e disponibilidade dos sistemas de supervisão e controle e demais equipamentos eletroeletrônicos dos serviços auxiliares existentes nas subestações das empresas de energia elétrica. Até o início da década de 90 o mercado brasileiro era dominado exclusivamente pelas baterias chumbo-ácidas ventiladas. Entre 1995 e 1998 começou a ser introduzida em algumas empresas do setor elétrico a bateria chumbo-ácida regulada por válvula (VRLA - Valve Regulated Lead Acid), a qual possui patente desde 1973 e cuja fabricação comercial iniciou-se em 1980 nos EUA. A bateria chumbo-ácida ventilada é composta por placas positivas de peróxido de chumbo e placas negativas de chumbo metálico, tendo como eletrólito uma solução aquosa de ácido sulfúrico. A bateria chumbo-ácida regulada por válvula (VRLA) possui a mesma composição da bateria ventilada, no entanto o ácido sulfúrico é mantido imobilizado por uma matriz gelificante (tipo gel) ou utilizando entre as placas um separador a base de micro fibra de vidro (tipo absorvido). A manutenção da bateria ventilada é efetuada através da leitura de tensão, temperatura do eletrólito, densidade do ácido e reposição de água. Seu vaso é fabricado com acrílico transparente, possibilitando fácil inspeção visual interna e a imediata identificação de eventuais degradações. O vaso da bateria VRLA é de plástico ABS não transparente e sua tampa incorpora uma válvula reguladora de pressão que abre para permitir o alívio quando uma determinada pressão interna é atingida. Para evitar a entrada de ar (no interior da bateria) que acarreta o desequilíbrio interno do ciclo do oxigênio, podendo levar à oxidação da placa negativa da bateria, não é permitido a retirada desta válvula. Desta forma, na sua manutenção só podem ser efetuadas as leituras de tensão e temperatura externa do vaso, informações estas que não relatam com precisão o verdadeiro estado da bateria. O método tradicional para avaliação de bancos de baterias ventiladas ou reguladas por válvula é o ensaio de capacidade, o qual revela o quanto de reserva energética a bateria possui. O mesmo é conduzido através de uma descarga da bateria durante um tempo não inferior a 3 horas. Durante este período é necessária a desconexão da bateria do sistema de energia, o que, além de deixar todo o sistema de operação e supervisão da subestação sem reserva de energia durante cerca de 24 hs (devido ao tempo necessário para completa recarga das baterias), também contribui para a diminuição da vida útil da bateria. Toda a condução deste ensaio requer o acompanhamento de um técnico. Nos últimos 10 anos, tem-se observado um esforço mundial na busca por outras metodologias que possam avaliar o estado de degradação das baterias num curto período de tempo, sem a necessidade de desconectá-las dos equipamentos consumidores, e também que não contribua para seu envelhecimento precoce. Uma das metodologias que vem sendo muito pesquisada é a avaliação da medição ôhmica interna da bateria. O CPqD há vários anos vêm estudando metodologias baseadas na medição ôhmica interna da bateria (condutância e impedância) para serem empregadas na avaliação do estado de degradação das baterias chumbo-ácidas ventiladas e reguladas por válvula instaladas em subestações. Estas metodologias tem sido implementadas em equipamentos manuais portáteis de medição de condutância ou impedância e seu uso ainda depende da presença de um técnico junto as baterias, além de que a análise destes resultados pode se tornar bastante dispendiosa. Neste cenário, a Manaus Energia, juntamente com o CPqD, desenvolveram um Dispositivo de Monitoração da Integridade de Bancos de Bateria – DIMIBA, cuja função é medir e analisar a resistência interna da bateria inferindo seu estado de degradação e gerando alertas e alarmes quando este parâmetro ultrapassa limites pré-determinados. II. DESENVOLVIMENTO Para a implementação eletrônica do DIMIBA foi seguida a seguinte metodologia: Inicialmente foi estudado o estado da arte na monitoração de baterias chumbo-ácidas estacionárias. Para tanto fez-se uma intensa busca na literatura para se conhecer as novas metodologias e técnicas para a medição da resistência interna de baterias. Paralelamente foi realizado um estudo das características das baterias utilizadas nas subestações da Manaus Energia. Neste estudo foi possível determinar as tecnologias e a faixa de capacidades utilizadas, além das medições da condutância e da impedância de grande parte das baterias instaladas na Manaus Energia. A partir dos estudos do estado da arte na monitoração de bateria e das características das baterias utilizadas pela Manaus Energia foi possível elaborar a especificação inicial do DIMIBA. Partindo destas especificações foram desenvolvidos protótipos de laboratório, finalizando no protótipo de campo apresentado na Figura 1. meio de medição da resistência interna da bateria. Desta forma, o DIMIBA realiza esta medição, analisa por meio de critérios as medições e reporta a condição em que a bateria se encontra, seja boa, em alerta ou em alarme, quando são necessárias ações mais intensas, como a substituição da bateria. Durante o desenvolvimento deste projeto, verificou-se que a melhor forma de monitorar a bateria, para que esta monitoração atendesse os objetivos do projeto, seria obtida dividindo-se o banco de bateria em quatro segmentos e realizando as medições da resistência interna em cada um destes segmentos. Para realizar a medição, a metodologia desenvolvida e implementada é a de medição por corrente senoidal. Esta metodologia está baseada no princípio de que, quando uma corrente elétrica percorre uma bateria, ocorre uma perturbação na tensão entre seus pólos. Desta forma, o DIMIBA faz percorrer uma corrente senoidal, de 10 A pico a pico, com freqüência de 50 Hz, fazendo com que nos pólos da bateria apareça uma perturbação senoidal de tensão, também em 50 Hz, com amplitude proporcional à resistência interna. Semanalmente o DIMIBA realiza uma medição na bateria à qual está conectado, armazena internamente estes resultados e os analisa. A avaliação destes resultados é realizada de três modos, a saber: a) Análise de Referência Neste caso, a última medição realizada é comparada à primeira medição, coletada no momento de instalação do DIMIBA, a qual é tomada como referência. O critério de avaliação verifica qual o percentual que a resistência interna variou, desde a instalação até a última medição coletada. Caso esta variação esteja abaixo de 20% - portanto medições abaixo de 120% do valor de referência - a bateria é considerada boa; caso a variação esteja compreendida entre 20% e 50% - portanto medições entre 120% e 150% do valor de referência - indica que a bateria está na faixa de alerta, quando deverá ser tomada alguma ação corretiva; e caso a variação passe de 50% - ou seja, medições acima de 150% do valor de referência - é um indicativo de que a bateria provavelmente não mais atende os requisitos operacionais, devendo ser substituída. A Figura 2 ilustra esta análise. Análise de Referência Figura 1. Protótipo de Campo do DIMIBA. O protótipo de campo desenvolvido foi instalado na bateria de 48V da subestação V8, onde semanalmente coleta as medidas da resistência interna de cada um dos 4 segmentos, realizando as análises e, no caso de necessidade, reportando ao usuário as condições de alerta ou alarme. III. METODOLOGIA DE MEDIÇÃO E ANÁLISE Para que seja possível realizar a monitoração da integridade da bateria foi feito um estudo que demonstrou que a melhor maneira de se realizar esta monitoração é por Resistência Interna (%) 1,6 1,4 1,2 1 0,8 0,6 0,4 0,2 0 Semana 01 Semana 02 Semana 03 Semana n Semana N Figura 2. Diagrama Ilustrativo da Análise de Referência. b) Análise de Tendência Neste caso, a última medição realizada é comparada à penúltima. Desta forma avalia-se a tendência de variação, de uma semana para a seguinte. O critério de avaliação também verifica qual o percentual que a resistência interna variou. Caso esta variação esteja abaixo de 0,5%, a bateria é considerada boa; caso a variação esteja entre 0,5% e 2% é um indicativo de que a bateria está na faixa de alerta, quando deverá ser tomada alguma ação corretiva; e caso a variação passe de 2% é indicativo do início do processo de fim de vida da bateria. A Figura 3 ilustra esta análise. sob avaliação ultrapassam limites determinados na execução deste projeto. V. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Variação Semanal (%) Análise de Tendência 3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 -0,5 -1 -1,5 -2 -2,5 -3 Artigos em Anais de Conferências (Publicados): [1] Souza, F.S.; Silva, J.R.A. e Rosolem, M.F.N.C. - “Medidas de Impedância como Método de Avaliação de Baterias Chumbo-Ácidas Reguladas por Válvulas”; CININTEL´97 – Fortaleza Semana 01 Semana 02 Semana 03 Semana n Semana N Figura 3. Diagrama Ilustrativo da Análise de Tendência. Nesta avaliação são comparados os segmentos da bateria entre si, a fim de se verificar se algum fenômeno está ocorrendo de forma desigual na bateria. O critério verifica o percentual de variação entre os segmentos que apresentaram o maior e o menor valor de resistência interna. Caso esta variação esteja abaixo de 20%, a bateria é considerada boa; caso a variação esteja entre 20% e 50% a bateria está na faixa de alerta, quando deverá ser tomada alguma ação corretiva; e caso a variação passe de 50% é indicativo de um grande desbalanceamento na bateria que pode levar a uma degradação acentuada, diminuindo a vida útil da bateria. A Figura 4 ilustra esta análise. Análise de Desbalanceamento Resistência Interna (%) [3] Rosolem, M.F.N.C.; Beck, R.F. and Júnior, M.G.R. - “Evaluation Tools for Batteries Employed in Oudoor Cabinets - An Experience of a Brazilian Telecom Company”; INTELEC 2000 - Phoenix/EUA [4] Rosolem, M.F.N.C.; Beck, R.F and Soares, L.A. - “Failure Detection of Stationary Lead-acid Batteries in Service in Various Regions of Brazil”, INTELEC 2002 - Montreal/Canadá c) Análise de Desbalanceamento 1,8 1,6 1,4 1,2 1 0,8 0,6 0,4 0,2 0 [2] Souza, F.S.; Silva, J.R.A. e Rosolem, M.F.N.C. - "Avaliação de Desempenho de Baterias VRLA das Estações Experimentais da Telesp"; CININTEL´98 – Fortaleza [5] Rosolem, M.F.N.C.; Beck, R.F.; Tenório Junior, J.; Roza, P.M. Metodologias Alternativas para Avaliação de Baterias: Uma Experiência na Light; SNPTEE 2003 - Uberlândia, MG; [6] Rosolem,M.F.N.C.; Beck,R.F.; Cardoso,P.E.; Soares,L.A.; Yamaguti,F. - Stationary VRLA Battery Evaluations: Internal Measurements and Capacity Test - an the Claro Celular Mobile Company; BATTCON 2004 Florida, USA; [7] Rosolem,M.F.N.C.; Beck,R.F.; Cardoso,P.E.; Soares,L.A.; Urso,J.E.; Nascimento,V.V.; Soares,R.F.; Tenório Junior,J.; Roza,P M.; Penseti,G.R. Gerenciamento de Baterias Chumbo-ácidas Ventiladas Utilizadas nas Subestações da Light através de Banco de Dados de Medições de Condutância; T&D 2004 - São Paulo, SP; [8] Rosolem,M.F.N.C.; Beck,R.F.; Cardoso,P.E; Soares,L.A. - Evaluation of the Relationship Between Conductance and Capacity Measurements of VRLA Batteries in Brazil; INTELEC 2004 - Chicago, USA; Dissertações e Teses: 50% 20% [9] P.E.R.Cardoso, "Estudo de Correlação de Parâmetros Elétricos Terminais com Características de Desempenho em Baterias" Tese de Mestrado, Departamento de. Eletrônica e Microeletrônica., Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, Unicamp, 2005. Normas: [10] NBR 14198 - Acumulador Chumbo-Ácido Ventilado Estacionário Terminologia, em. setembro 2002 Semana 01 Semana 02 Semana 03 Semana n Semana N [11] NBR 14197 - Acumulador Chumbo-Ácido Ventilado Estacionário Especificação, em. setembro 2002; Figura 4. Diagrama Ilustrativo da Análise de Desbalanceamento. [12] NBR 14199 - Acumulador Chumbo-Ácido Ventilado Estacionário Ensaio, em. setembro 2002. Cabe ressaltar que estas análises avaliam o nível de degradação da bateria à qual o DIMIBA está conectado. Como a vida útil de determinados tipos/modelos de baterias pode chegar a mais de 10 anos, a sinalização de alertas/alarmes do DIMIBA pode levar alguns anos, o que não representa mau funcionamento do protótipo ou da técnica desenvolvida. [13] SDT 240-500-509 – Procedimentos para Ensaio de Tipo para Acumuladores Ácidos Estacionários Regulados por Válvula IV. CONCLUSÃO O projeto de desenvolvimento de um Dispositivo de Monitoração da Integridade de bancos de Baterias DIMIBA - propiciou a aplicação da técnica de medição da resistência interna de baterias para a monitoração da integridade das mesmas. A metodologia de avaliação, implementada eletronicamente, se fez de maneira simples, sem que fosse necessário o tratamento de dados pelo usuário, uma vez que o equipamento se encarrega desta tarefa, apenas sinalizando ao usuário quando os parâmetros [14} NBR 14204 – Acumulador Chumbo-Ácido Estacionário Regulado por Válvula – Especificação, em setembro 2002