Convivência familiar nas férias
Dario de Araújo Cardoso
Professor assistente de Teologia Pastoral do Centro Presbiteriano de
Pós-Graduação Andrew Jumper.
“Chegaram as férias. E agora?”.
O que fazer com as crianças? Para onde mandá-las? Acampamento? Casa dos avós? Que tal ficar
com elas? Que tal usarmos esse período para promover a convivência em família?
Vamos pensar um pouco sobre isso? Há dois contextos familiares que dão coloridos diferentes a
essa intrincada questão.
O primeiro é o daqueles pais que não conseguem conciliar as férias escolares com as férias
laborais. Os pequenos têm dois períodos de férias no ano, o que em si já estabelece um problema prático.
Mas, além disso, em um mundo em que as relações de trabalho se tornam cada vez mais utilitaristas,
surgem indivíduos que se veem privados até mesmo da ideia de interromper seu fluxo de trabalho para
estar com seus filhos nas férias deles. As chamadas necessidades ou obrigações profissionais assumem
caráter prioritário e sobredeterminam as demais decisões, particularmente a agenda pessoal. Somos
treinados assim. Temos hora para entrar e para sair e esse compromisso está acima de quase todas as
outras obrigações no dia. De certa forma, as férias estão inclusas nesse mecanismo e sofrem as suas
distorções.
A esses pais é preciso ajudar na busca de uma reconfiguração do conceito de trabalho e de
qualidade de vida. Temas que vão bem além de nosso propósito aqui. Basta-nos dizer que cometem um
custoso erro quando se conformam a essa realidade de não poder conviver com os filhos durante as férias,
como poderemos ver adiante. A eles sugiro, pelo menos, o esforço da convivência à noite e nos finais de
semana.
1 Vamos nos dedicar ao segundo contexto. Aquele dos pais que, por privilégio ou por
enfrentamento da realidade dada, vão compartilhar das férias de seus filhos. Mesmo aqui os efeitos
utilitaristas se fazem sentir. Caso contrário, bastaria dizer: faça tudo o que você não conseguiu fazer
durante o ano. Mas que coisas são essas? O pensamento utilitário nos faz pensar nas férias como ausência
do ou no trabalho. Tudo que queremos fazer é não fazer nada. Bom, também queremos passear, de
preferência para um lugar em que não precisamos fazer nada. Mas nossas crianças querem fazer algo, elas
não estão treinadas como nós. Acho que por aí temos um caminho. Pense no que elas querem fazer.
Primeiro, elas, pelo menos as mais novas, parecem querer nossa atenção. Veja a quantidade de
vezes que elas nos chamam. As férias são um excelente momento para quebrar aquela rotina que obriga as
crianças a estarem e a se divertirem sem nós. Elas fazem isso o ano inteiro, assistindo televisão, jogando
videogames e até mesmo brincando com outras crianças. Ok, não precisamos ser radicais nisso, mas é
possível fazer com que as férias sejam um período marcado justamente por essa atenção dos pais.
Aproveite esse período para observar o seu filho, conversar com ele, promover momentos significativos,
mesmo que seja fazendo nada na piscina de um hotel ou na casa dos avós. Deuteronômio fala de um pai
que, andando ou assentado, ao acordar ou ao deitar, tem o seu filho ao lado. Isso parece bem diferente do
mundo em que vivemos, mas quem sabe podemos nos aproximar dele durante as férias.
A segunda questão a se considerar é o que elas precisam. A convivência parece ser o melhor meio
de aprendizado. Na convivência, transmitimos conceitos, valores e práticas para os nossos filhos.
Positivos e negativos, é verdade. O tempo que passamos com nossos filhos deveria ser uma forma de
mostrarmos a eles como se deve viver. Fazemos isso mostrando a eles como vivemos, como conduzimos
nossa vida, como os tratamos e como tratamos as pessoas ao nosso redor. O pai que leva seu filho à
padaria, dá passagem a alguém na porta e diz “bom dia” ao padeiro, antes de pedir os pães, estará
incutindo na criança princípios fundamentais que fazem muita falta em nossos dias. Também fazemos
isso apontando para os nossos filhos os atos de Deus e das pessoas e ensinando-os a refletir sobre isso. Ao
ouvir o canto de um passarinho, a mãe pode destacar a beleza daquele som, a grandeza daquele que criou
os pássaros e a triste realidade de homens que prendem ou matam esses belos animaizinhos. Pode também
ensiná-lo a cuidar para que aquele som continue a ser ouvido.
No tempo que passamos com nossos filhos, podemos observá-los e conhecê-los. Podemos
perceber aquilo em que estão amadurecendo e aquilo em que ainda precisam amadurecer. Nossas férias
podem ser um período de incentivo a atitudes e práticas proveitosas e correção aquelas que se desviam
da vontade de Deus e dos deveres dos homens. Nossos filhos precisam de instrução. Precisam de
instrução bíblica, instrução moral, instrução ética. Somos nós, os pais, os principais responsáveis por isso.
Geralmente, temos pouco tempo para essa longa e complexa empreitada. Que tal fazer das férias esse
tempo de convivência e de seus benefícios?
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