CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
SONIA REGINA DA SILVA BERTI
“Folhas” desenvolvido através do
curso
do
Programa
de
Desenvolvimento Educacional - PDE,
na área de Educação Física, com o
tema: O Corpo e a Mídia.
Profa. Dra. Orientadora Ana Maria
Pereira.
CAMPUS UNIVERSITÁRIO
FONE: (043)371-4000 PABX
FAX: (043)371-4639
CEP 86055-900
LONDRINA - PARANÁ
PDE – ano letivo 2008
Área: Educação Física
2
LONDRINA – PR
Abril 2008
Autor: Sonia Regina da Silva Berti
Orientadora: Ana Maria Pereira
IES: UEL
NRE: Apucarana
Escola: Colégio Estadual José de Anchieta – Ensino Médio
Disciplina: Educação Física
( X ) Ensino Médio
Disciplina da relação interdisciplinar 1: Sociologia
Disciplina da relação interdisciplinar 2: Arte
Conteúdo Estruturante: Ginástica
Elemento Articulador: O Corpo; A Mídia
BELEZA É FUNDAMENTAL?
“Olha que coisa mais linda mais cheia de graça é ela menina que vem e que
passa num doce balanço a caminho do mar”. A beleza sempre foi exaltada nos
versos, nas músicas e nas pinturas. Vinícius de Moraes autor da música
“Garota de Ipanema” e do poema abaixo, talvez sem intenção, venha a
reforçar aquilo que hoje se tornou obsessão para as pessoas. A busca pelo
corpo ideal.
Receita de Mulher
“As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. É preciso que
haja qualquer coisa de flor em tudo isso (...). Seja bela ou tenha pelo menos
um rosto que lembre um templo e seja leve como um resto de nuvem”
(Vinicius de Moraes)
Você concorda com a música e o poema de Vinícius de Moraes? Qual a
referência de corpo veiculada nos meios de comunicação? Existe padrão de
3
corpo e de beleza ideal? Se existe quem determina esses padrões? Em sua
opinião beleza é mesmo fundamental? E qual a sua concepção de corpo?
Para te ajudar a responder essas e outras questões, convido você a
compartilhar
os
conhecimentos
a
cerca
de
corpo/corporeidade
que
estudaremos nesse Folhas.
VAMOS LÁ?
O corpo/corporeidade vem sendo estudado ao longo do tempo e em
várias áreas do conhecimento tais como: (anatomia, fisiologia, antropologia,
filosofia, psicologia). A Educação Física enquanto área do conhecimento tem
um papel fundamental, de analisar questões referentes à concepção de
corpo/corporeidade.
Por isso, convido você a refletir sobre questões relacionadas à
concepção de corpo presente na sociedade moderna.
O que vemos atualmente é uma proliferação de academias de ginástica,
clínicas de emagrecimento, aparelhos de exercícios ginásticos, etc. Cresce a
cada dia o número dos interessados em fazer exercícios, para tentar alguma
modificação no corpo, para ficar mais forte e, principalmente, emagrecer.
Somos induzidos a perseguir o ideal de corpo magro. A todo o
momento somos bombardeados com propagandas que prometem
um corpo escultural como se fosse proibido ser fisicamente
diferente, daquilo que dita à moda.
PARA REFLETIR
Você já se perguntou a quais interesses estão atrelados a exposição e o uso do corpo
como produto pelos meios de comunicação? E por que querem nos fazer pensar que
só seremos felizes se ficarmos com o corpo igual ao das modelos e artistas que
aparecem nas revistas e na televisão? A quem interessa usar o corpo como
instrumento para vender produtos e serviços como: remédios, shake para emagrecer,
aparelhos de ginástica e ainda, lotar consultórios, clínicas de emagrecimento e
estética?
Que influência tem os apelos publicitários em sua vida, em especial àqueles voltados
para os cuidados com o corpo? Você sabia que o Brasil é o país campeão em cirurgia
4
plástica e na venda de remédios para emagrecer? Quem lucra com tudo isso?
VAMOS VER O QUE OS PROFISSIONAIS E PESQUISADORES DIZEM
SOBRE ESSE ASSUNTO?
A PROPAGANDA E O CORPO
“Está bastante claro o papel representado pela Educação Física em relação às práticas e controles
corporais, anteriormente, esse papel era exercido pelo Estado autoritário; agora invade o cotidiano,
na forma de discursos que pregam o culto ao físico, a exaltação estética.
A indústria cultural mantém relações diretas com a mídia que se responsabiliza em humanizar os
bens materiais, e transformando o corpo em objeto de consumo. Ao anunciar produtos
relacionados à busca da beleza estética, a mídia reforça valores, tornando a beleza o ponto alto
dessa hierarquia, o que pode ocasionar uma competição na busca de ascensão social, profissional
ou mesmo afetiva, e as “armas” para se alcançar isso ficam restritas à aparência física de seus
corpos.
Os meios de divulgação exploram discursos e propagandas, que procuram induzir os
consumidores à compra de produtos de beleza ou de instrumentos voltados à prática de exercícios
físicos prometendo corpos saudáveis e bonitos em pouco tempo.
Procura-se identificar corpos belos e vigorosos, esculpidos em aparelhos de academia de
musculação e bisturis, com saúde. Não raro, tais anúncios têm, por trás, grupos cujos interesses
estão voltados unicamente ao lucro.
Ao mencionar a beleza tais anúncios remetem imediatamente a padrões determinados
principalmente pela moda, não existindo, em relação a eles questionamentos mais profundos
sobre sua origem, quem os determina.
Se a televisão, a publicidade, o cinema, as revistas, os jornais, e agora a internet, defendem as
dietas milagrosas, os músculos torneados e bronzeados, as vitaminas que evitam o
envelhecimento, as clínicas de rejuvenescimento e as academias de ginástica, é porque isso tudo
dá muito dinheiro.
E se muito pouco se fala de afeto e respeito entre as pessoas comuns, não tão lindas e nem tão
elegantes como as modelos, mas que mesmo assim, se sentem felizes, certamente porque isso é
bem menos rentável. Exemplo disso é o que se verifica pouco antes da temporada de verão,
quando estilistas destacados, formadores de opinião, estabelecem à compleição dos corpos, o
corte e a cor dos cabelos, o tipo de tecido e o tamanho do decote ou das saias.
Uma vez definido o padrão, a indústria e o comércio investem na confecção dos produtos que
serão divulgados pela mídia, com propagandas muito bem elaboradas e que induzem a população
a adquirir produtos que, mesmo sendo supérfluos e não adequados ao estilo de determinada
pessoa, acabam sendo adquiridos, pela força da propaganda, que instiga a busca por novidades.
O padrão atual de beleza física, proposto pela publicidade e pela mídia, é o da figura longilínia, tipo
físico das modelos não importando quantas plásticas tenham sido necessárias para que
5
chegassem ao resultado final. Mas o apelo ao corpo perfeito não se restringe apenas às mulheres,
pois o público masculino vem sendo cada vez mais atingido pela propaganda.
A pressão social para se atingir esse ideal é de tal magnitude, que leva milhões de pessoas, no
mundo inteiro, a gastar fortunas em regimes, cosméticos, ou a recorrer à cirurgia plástica como
recurso mágico para eliminar anos ou quilos, ou mesmo realçar as áreas consideradas menos
favorecidas de sua anatomia. Os profissionais de Educação Física têm um longo e árduo trabalho a
realizar.
Através de informação e conhecimento podem conscientizar seus alunos sobre a existência de
outros objetivos além do puramente estético.
Seria desejável que se percebesse que o desenvolvimento do bem-estar físico, psicológico, social,
intelectual e emocional também permite o aflorar de outros tipos de beleza, que transpareceria no
rosto, no gesto e no corpo, sem a necessidade de buscar padrões de beleza externos, e nem fazer
parte de um jogo no qual já se entre como perdedor”. (Anzai, 2000, p. 73-74-75)
ATIVIDADE PARA SER REALIZADA NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA
1ª etapa: Após ler o texto faça uma pesquisa/entrevista em sua escola com seus
colegas e professores sobre o grau de satisfação de cada um em relação a seu
corpo/corporeidade. Vocês podem perguntar: Você está satisfeito com seu corpo?
Você gosta do seu corpo? Gostaria de mudar alguma parte dele? Seria capaz de
recorrer à cirurgia plástica para alcançar o padrão de beleza das modelos e artistas
2ª etapa: Após ter realizado a atividade proposta acima, vamos discutir e analisar os
dados coletados. Quais foram os resultados da pesquisa? E com a leitura e reflexão
do texto acima vamos refletir sobre as seguintes questões: Você sabe o que é
ideologia? Existe ideologia em relação ao nosso corpo. E padrão de beleza existe?
Quem determina os padrões de beleza? Falamos tanto em liberdade, mas, será que
somos realmente livres? Porque nos deixamos aprisionar por modelos e padrões
ditados por outros? E na escola como o corpo é tratado?
3ª etapa: Elabore um texto externando nele suas impressões e opinião.
AMPLIANDO OS CONHECIMENTOS
Historicamente a concepção de corpo foi concebida separada, dividida,
numa perspectiva dualista, ou seja, a separação entre o ser e o pensar, o
corpo da mente.
Visando romper com esse modelo o professor ao abordar a concepção
de corpo/corporeidade nas aulas de Educação Física deve considerar o
educando em todas as suas dimensões, sem dividir ou separar o físico do
mental. Ao ministrar as aulas o professor deve oportunizar a realização de
movimentos considerando o aluno em sua totalidade e complexidade.
6
As aulas devem ser um constante exercício do pensar, do sentir e do
agir, no sentido de buscar a plenitude da globalidade do ser humano, ou seja,
fazer com que você crie e amplie suas possibilidades de movimentar-se num
clima de liberdade, respeitando seus limites e possibilidades.
Por isso, junto com o professor de Educação Física, procure sempre
compreender os aspectos sociais, culturais, políticos dos conteúdos que você
aprende na escola.
Classe
dominante é um
termo utilizado
para designar a
classe social que
controla o processo
econômico e
político.
Especificamente
para a análise
marxista, dentro do
sistema capitalista,
classe dominante
corresponde à
burguesia, ou seja,
refere se
especificamente à
classe social
detentora dos
meios e da
capacidade de
organizar a
produção
capitalista, ainda
que não
necessariamente
tenha o controle
total do processo
de expansão
econômica.
Faça também uma reflexão crítica sobre aquilo que é veiculado nos
jornais, revistas, filmes, pois vivemos numa sociedade em que a
comunicação exerce uma grande influência na vida das pessoas.
O que pode induzir o espectador a pautar suas escolhas, suas
ações tendo como parâmetros aquilo que é divulgado pela mídia
que, normalmente transmite, representa e defende os interesses
(ideologia) da classe dominante.
Você já descobriu o que significa ideologia?
Marilena
Chauí
define assim ”Ideologia é
um
sistema de
representações e normas que nos ensina a conhecer e a agir
segundo aquilo que é determinada por uma minoria. É a ideologia
engendrada pela classe dominante que dita normas e modelos de
comportamento para todos os indivíduos da sociedade”. (Chauí,
1997 p. 3-4)
OBSERVE O TEXTO ABAIXO
Luiz Costa Lima em seu livro Comunicação e Cultura de Massa afirma que: “É assim
que a elite difunde a sua ideologia, disseminando através dos meios de comunicação
(mass media) a "cultura superior". A mídia estando em poder da classe dominante faz
passar a imagem de homogêneo aquilo que na verdade é heterogêneo, sempre
dando uma qualidade inferior às classes mais desfavorecidas. Em um país como o
Brasil, possuidor de uma enorme pluralidade de culturas, seria impossível afirmarmos
que vivemos em uma sociedade homogênea. Mas é essa a idéia que é passada às
pessoas e é assim que estas agem, com os nossos ideais girando em torno do ideal
da elite. A sociedade consumirá aquilo que for promovido pela elite em termos de
7
"saúde, a beleza, a aceitação social, o sucesso sexual - a felicidade em resumo - que
resultarão da posse e do uso de um determinado produto". É a propalação do que é
"o mais correto", "o mais adequado" segundo o conhecimento e o gosto da classe
dominante para manter o seu STATUS e a sociedade estratificada em classes. (Lima
2002 p. 54)
Fica explicito que é preciso fazer uma reflexão crítica daquilo que vemos
e ouvimos, pois de acordo com texto acima somos influenciados por pessoas e
pelas imagens que são projetadas exteriormente. É necessário compreender a
sociedade em que vivemos em seus vários aspectos. E dessa forma
estabelecer
uma
concepção
crítica
das
coisas
como,
por
exemplo,
compreender o assunto desse trabalho que trata sobre corpo, consumo e mídia
e elaborar sua opinião sobre esse tema.
E é no espaço das aulas de Educação Física, que queremos promover
essa reflexão no sentido de romper com “Ações, que visam trabalhar apenas o
“físico”, como um conjunto de ossos e músculos (como um corpo máquina),
que não pensa, não sente, não vive intensamente. Apenas se preocupa em
repetir o que lhe é determinado, para atingir a tão sonhada “forma”, se
limitando em medir biótipo, gordura corporal, marca inicial e final”. (Pereira,
1998, p72)
Você consegue observar a influência das propagandas e programas nas
suas ações cotidianas e principalmente em seu corpo? Somos realmente livres
para fazer escolhas?
Quem determina as condições para as escolhas que fazemos? O que nos
impede de escolher e realizar aquilo que desejamos? Será que é possível
transformar as coisas que nos rodeiam?
E por falar em transformar, fazer escolhas vamos realizar uma
atividade?
ATIVIDADE
A PROPOSTA É A SEGUINTE
1ª etapa: Com a ajuda do professor organize-se e vamos refletir sobre como o corpo
é tratado na escola? Ele é livre ou adestrado.
2ª etapa: Escolha um conteúdo da disciplina de Educação Física para ser
8
tradicionalmente, observe como o corpo é tratado.
3ª etapa: Nas aulas posteriores vivenciem o conteúdo escolhido conforme sua
concepção original, seguindo as regras oficiais, e a forma como ele é praticado
tradicionalmente.
4ª etapa: Separem-se em grupos e com a mediação do seu professor promovam um
debate: O que podemos modificar que adaptações podem ser feitas (regras; número
de jogadores; espaço físico; concepção do jogo) na atividade experimentada? Faça
adaptações no conteúdo/atividade escolhida resignificando-as, recrie, desenvolvam
novas possibilidades para praticar: O que mudar? Para que mudar? Como mudar?
Com base nas observações realizadas nas aulas analise com seu grupo o que Freire,
diz sobre o corpo:
“Quem tem o controle do corpo, tem o controle das idéias e dos
sentimentos. Quem fica confinado em salas apertadas, sentado e
imóvel em carteiras, milhares de horas durante boa parte da vida,
aprendem a ficar sentados nas cadeiras, de onde talvez nunca mais
venha se erguer.” (Freire, 1993, p. 114)
O que Freire quer dizer? Você concorda com as afirmações?
Com a realização dessa atividade, que é pautada em uma nova
concepção
de
Educação
Física
queremos
que
você
compreenda
o
corpo/corporeidade em sua totalidade e complexidade.
Compreendendo que nas aulas como na vida, você não deve aceitar-se
como um corpo máquina, obediente, que só repete gestos e se ajusta às
normas do jogo, da sociedade.
Ao entender os aspectos de dominação que o corpo vem sofrendo ao
longo da história humana, que você possa compreender que cada ser com seu
corpo-próprio é dotados de sentimentos, emoções. E nas aulas ao vivenciar o
exercício do pensar e agir de forma autônoma e consciente é possível
caminhar na direção da realização de projetos e sonhos.
E a partir desse exercício, cada indivíduo possa modificar a realidade em
que vive e possa ainda lutar por aquilo em que acreditam amparados nos
conhecimentos adquiridos, aprendidos, e vivenciados na escola.
Queremos por meio dos conteúdos da Educação Física, ao realizar as
atividades nas aulas, promover o exercício de valores como a solidariedade
construindo, situações nas aulas que contemplem a todos os alunos (alto,
baixo, gordo, magro, fraco, forte, veloz, lento e as pessoas com necessidades
especiais), e não somente àqueles mais aptos.
9
Nessa perspectiva, a Educação Física, não visa buscar o
desenvolvimento de técnica apurada, performances individuais, verificar qual
equipe foi derrotada ou vitoriosa.
Ou ainda observar quem realiza o gesto perfeito, sem admitir os erros
que ocorrem no chute; no arremesso; na cortada; ou no bloqueio do voleibol;
observando apenas movimentos mecânicos e estereotipados. Pois é assim
que, culturalmente, o corpo vai sendo influenciado e modelado, tratado como
objeto, como utensílio, cuja preocupação é somente o rendimento a
produtividade, a performance.
É necessário que você, nas aulas, faça perguntas, questione o porquê e
compreenda que: “Na vida é preciso saber o que desejamos para nós mesmos
e para os outros, é preciso saber quais são os valores, as idéias que nos
orientam, é preciso ouvir e aprender com nossos próprios erros é preciso
aprender a aprender e a criar... é preciso pensar. Talvez devêssemos, então,
refletir sobre como vemos o mundo, e também sobre como pensamos, já que
é o nosso próprio viver que está aqui envolvido”. (Sardi, 2004, p.13)
Compreenda a importância de ser um sujeito crítico: Observe que os
meios de comunicação tentam nos domesticar. Quer impor como nos vestir, e
a nos comportar nas situações vividas.
“Observa-se na sociedade capitalista, que tudo é passível de ser
comercializado e o corpo não fica de fora desta mercantilização.
Nesta dimensão, quando refletimos sobre o corpo, observa-se o
processo de alienação e desumanização, em que o corpo é
tratado como máquina, corpo eficiente e disciplinado a serviço do
acúmulo de bens materiais.
Neste contexto, o homem e a mulher podem
estar sendo manipulados, servindo de objeto e instrumento ideológico, não
sendo sujeitos do próprio corpo, da vida, da história”. (Pereira, 1998, p. 42)
VOCÊ FAZ SUAS ESCOLHAS OU DEIXA QUE OUTROS O FAÇAM?
10
O QUE INFLUÊNCIA NAS SUAS DECISÕES?
Comece a observar as propagandas na televisão, as músicas, as fotos
em revistas, ou seja, tudo aquilo que é veiculado pelos meios de comunicação.
Os seus idealizadores querem nos seduzir, por meio de bonitas imagens, assim
buscam incutir valores e idéias com o objetivo de provocar o desejo e o gosto
pelo consumo.
É importante entender que aquilo que é transmitido pelos meios de
comunicação está a serviço de uma elite, ou seja, os proprietários das grandes
indústrias, as agências de propaganda, enfim os poderosos (classe dominante),
aquela minoria que possui muito poder e dinheiro e que por isso tentam
controlar a grande maioria da população.
REFLITA
Qual o objetivo das propagandas que disseminam a idéia de que para
ser bonito e/ou ter sucesso profissional temos de consumir produtos e serviços,
que a mídia anuncia? Seria o lucro das indústrias? Ou os idealizadores da
propaganda realmente se preocupam com você que é o consumidor?
FIQUE ATENTO!
Existem algumas pessoas que se beneficiam com isso: os poderosos da
classe dominante, que tem como meta transformá-lo em um consumidor
compulsivo.
Você compreende que ao adquirir determinada marca de tênis, roupas de
grife, sem questionar, sobre a sua necessidade, pode estar agindo de forma
alienada em que permite ser manipulado pelos artifícios do marketing e o seu
corpo passa a ser usado como outdoor, um objeto, utilizado para vender
produtos.
11
Como fica o humano, com seu corpo - próprio frente a esses aspectos de
consumo?
Para ajudar nessa reflexão, vamos ler o texto de Carlos Drummond de Andrade e
procurar fazer uma leitura crítica sobre o que é veiculado nas propagandas e
programas de televisão.
Sou aquilo que aparento exteriormente, roupas, jóias, dinheiro ou o que vale é o meu
caráter, meus valores aquilo que sou realmente? Qual a crítica feita pelo autor?
Vamos ler o poema?
“Eu, Etiqueta”, de Carlos Drummond de Andrade (1984, p. 85-7)
“Eu, Etiqueta”
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça até o bico dos sapatos,
são mensagens, letras falantes,
gritos visuais.
Estou, na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade agora sou
anúncio (...)
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher (...).
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio de estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, me recolocam,
objeto pulsante peço que meu nome
retifiquem.
Já não me convém o título de homem,
meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
Observe como o corpo é
descrito no poema abaixo, veja como
o corpo pode ser usado, alienado,
domesticado.
Sabemos que as pessoas
podem
ser
estímulos
influenciadas
externos
propagandas,
as
por
como
as
revistas,
os
programas da televisão e dependendo
desses estímulos, as pessoas podem
tornam-se insatisfeitas com aquilo
que
apresentam
fisicamente.
Atualmente
bombardeados
imagens
principalmente
de
pela
somos
mídia
corpos
com
bonitos,
esteticamente perfeitos, idealizados conforme a concepção de moda do
momento. Com isso, as pessoas comuns acabam por ficar infelizes não
aceitam o próprio corpo como ele é. A conseqüência é uma busca irrefletida
por esse corpo considerado perfeito preocupando-se apenas com os aspectos
externos, esquecendo de “olhar para dentro de si”, a essência do ser.
Então as pessoas se expõem a perigosas dietas, utilizando produtos para
emagrecimento, submetendo-se a perigosas cirurgias, com o objetivo de
12
resolver rapidamente tais questões perseguindo um ideal de beleza que hoje é
representado pela imagem da magreza impossível de ser alcançada por todos.
Observamos um culto ao corpo magro e alto, que discrimina aqueles
indivíduos que não se adequam aos padrões estéticos estabelecidos. O que
pode contribuir para o surgimento dos distúrbios alimentares como: Anorexia e
Bulimia, e ainda no uso de esteróides anabolizantes (comumente chamada
“bomba”) com o objetivo de melhorar a aparência física (aumento da massa
muscular) esses tópicos não serão objeto de estudo neste “folhas”, mas fica
como sugestão para pesquisa.
Repare que: “Vive-se uma espécie de ditadura daqueles que querem
que os fora dos padrões, principalmente os menos magros, sintam culpa de
sua aparência, não pelo fato da gordura não ser benéfica, mas porque
precisam desta culpa para alimentar uma indústria que se beneficia dessa
insegurança. A pessoa que passa o dia na frente do espelho, tendo como meta
única o seu exterior, sente-se como se o seu sucesso pessoal dependesse
unicamente do seu corpo ou da roupa que estiver usando”. (Anzai, 2000, p.74)
Temos que considerar que não somos como robôs, veículos e objetos
que são fabricados em série e saem todos iguais da linha de montagem, temos
emoções e sentimentos, somos diferentes e únicos. Então, por que vivemos
querendo copiar, uniformizar, no nosso modo de agir, falar, nas roupas, nos
gestos, nos gostos?
COMO ERA A CONCEPÇÃO DE CORPO E O PADRÃO DE BELEZA EM
OUTRAS ÉPOCAS?
Veja as pinturas do século XV e XVI. Como as pessoas eram retratadas?
A concepção de corpo mudou ao longo da História?
Podemos afirmar que o “modelo de corpo” corresponde às idéias, ao
pensamento vigente de sua época e carrega consigo as marcas daquilo que
lhe foi determinado. Antigamente possuir uma “gordurinha” era considerado
saudável, como podemos ver nas pinturas dessa época. Rafael Sanzio,
Leonardo da Vinci entre outros retrataram, mulheres roliças, rostos largos,
13
arredondados e com superfícies volumosas, como por exemplo: A Senhora com
Unicórnio (esquerda), A Monalisa (direita). Nessa época séculos XV e XVI,
gordura indicava que a pessoa era saudável, além de diferenciar os ricos dos
pobres.
http://www.allposters.com/galery.asp
ATIVIDADE
Após observar os quadros dos pintores renascentistas e ler o conteúdo da
música abaixo o que podemos constatar? Para saber mais, pesquise sobre a
concepção de corpo ao longo da História? Procure fotos de corpo de outras
épocas e compare, com o das modelos da atualidade. Elabore cartazes e
apresente para a turma.
Coisa Bonita (Roberto Carlos)
Amo você assim e não sei por que tanto
sacrifício. Ginástica dieta não sei pra que
tanto exercício. Olha eu não me
incomodo um quilinho a mais não é
antiestético. Pode até me beijar pode me
lamber que eu sou dietético. Não acho
que é preciso comer de tudo que tem na
mesa. Mas passar fome não contribui em
nada para a beleza.
Já no passado os mestres da arte
diante da formosura. Não dispensava
o charme de uma gordinha em sua
pintura. Gosto de me
encostar nesse seu decote quando te
abraço. De ter onde pegar nessa
maciez enquanto te amasso.
Eu não sou massagista e não entendo
nada de estética. Mas a nossa
14
ginástica é mais gostosa e menos
atlética.
Coisa bonita, coisa gostosa, quem foi
que disse que tem que ser magra pra
ser formosa?
Coisa bonita, coisa
gostosa.
Você é linda é do jeito que eu gosto é
maravilhosa.
Disponível em http:/www.cifras.com
VOCÊ SABIA QUE?
As mulheres não podiam praticar esportes, pois acreditava-se que o
esforço do corpo feminino era uma violação do físico e da estética e que o
esporte poderia masculinizar o corpo feminino. E ainda que as competições
entre as mulheres eram consideradas perniciosas, até mesmo uma tentação,
pois, favorecia a exibição do corpo que na época não eracomo hoje.
Com base na pesquisa realizada sobre a concepção de corpo ao longo da
história (p. 11), você pôde observar que as coisas vão se transformando, a
concepção de corpo, a forma de pensar, os hábitos e os costumes. Mas será
que mudaram para melhor ou para pior? Qual a sua opinião? Será que
há algo que ainda não pensamos, ou que podia ser pensado de modo
diferente? Vamos realizar um debate?
Sugestão: O cantor “Gabriel o Pensador”, conhecido pela sua irreverência, faz uma
crítica interessante quanto à exploração do corpo pela mídia, na música “Nádegas a
Declarar”, você já ouviu? Pesquise essa música e com base na letra, realize um
debate em sua sala aborde temas como: pudor; moral; pornografia; exposição na
mídia; celebridades; dignidade; prostituição, etc. Analise: o que era considerado
pornográfico e o que era permitido? O que é aceito pela sociedade e o que ela
repudia? O corpo feminino ainda é mais exibido do que o masculino? Será mesmo
necessário recorrer a procedimentos cirúrgicos com o objetivo de “melhorar” a
estética do corpo, visando buscar um padrão de beleza pré - determinado?As pessoas
que se submetem a procedimentos cirúrgicos serão felizes após a cirurgia? Ou é
possível conviver harmoniosamente com o corpo que se tem? Disponível em:
www.letrasdemusicas.com.br
15
A CONTRIBUIÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA
Observa-se que as relações humanas constituem-se pelo
corpo/corporeidade, no movimento e no gesto significativo. Entendemos que
só poderá haver o desenvolvimento do indivíduo, se este for sujeito de suas
ações e isso ocorre por meio de sua inserção, suas experiências com seu corpo
próprio no mundo.
O corpo é o meio dessa integração do indivíduo com o meio em que
vive é o lugar em que os conhecimentos adquiridos na escola são colocados
em prática.
A contribuição da Educação Física, dar-se-á, por meio dos conteúdos que
foram produzidos historicamente que devem ampliar os horizontes do aluno.
Portanto, nesse trabalho objetivamos levar você a superar o senso
comum, e amparados nos conhecimentos dessa disciplina, instrumentalizá-lo
para o agir e interagir com as pessoas no seio da sociedade.
A concepção de Educação Física que defendemos aqui é centrada na
condição humana. E entende o conhecimento transmitido na escola como uma
estratégia para a vida, e que as práticas realizadas nas aulas, promovam além
da apropriação dos conteúdos a reflexão e a ação por parte do aluno.
Os conteúdos trabalhados na escola, no âmbito da Educação Física
devem ser significativos desafiadores e contribuir para o seu desenvolvimento
enquanto ser humano completo, que movimenta-se desde seu nascimento até
a sua morte.
Movimento este que, deve ser realizado de forma consciente,
respeitando os limites, as diferenças de cada ser, no sentido de motivar a
realizar as atividades e atingir os objetivos.
Essa perspectiva considera o humano em sua totalidade e complexidade,
e não tem como fim, o domínio dos gestos esportivos e movimentos
mecânicos.
Os movimentos realizados serão utilizados como meio, para promover a
prática consciente das atividades. E que por meio da reflexão realizada nas
16
aulas, será possível desencadear, uma aprendizagem mais significativa, e
assim contribuir para formação de um cidadão crítico e autônomo.
A dança, o esporte, a ginástica, as lutas, os jogos e brincadeiras que
serão estudados nas aulas devem permitir a você, ir além daquilo que você já
sabe.
De maneira que o leve a superar as formas de dominação impostas ao
nosso ser.
Não podemos nos curvar e aceitar as coisas sem realizar
questionamentos, como seres adestrados, submissos e passivos. Temos que
ter clareza e compreender o homem em sua complexidade, e o mundo em que
vivemos com todas as suas formas de controle e dominação.
APÓS ESTUDAR ESSE TEMA CORPO/CORPOREIDADE
QUE TAL PARTICIPAR ATIVAMENTE NAS AULAS, OPINANDO,
PROCURANDO RESPOSTAS PARA SUAS DÚVIDAS E ELABORANDO
NOVAS PERGUNTAS.
MUDE SEUS HÁBITOS, POSTURAS E FORMAS DE PENSAR: ARRISQUESE, OBSERVE O MUNDO COM UM OLHAR CRÍTICO.
E que nesse exercício de pensar o mundo e tudo aquilo que envolve o
humano, você possa ampliar sua compreensão das coisas e do mundo em que
vive.
Acredite na sua capacidade de reelaborar idéias, realizar novos projetos
para que você conviva em paz e feliz consigo mesmo e com os outros no pleno
exercício de sua liberdade, refutando tudo aquilo que tem por objetivo
aprisionar o ser humano.
Não é nosso objetivo oferecer respostas prontas e acabadas aos
questionamentos realizados nesse Folhas. Mas legitimados em um grande
filósofo ousamos afirmar: “Que é possível viver com o corpo que você é, sem
17
ter que seguir padrões, e em suas relações com o mundo – ver, ouvir, cheirar,
saborear, sentir, pensar, observar, perceber, querer, atuar e amar. ( Marx, 1978,
p. 11)
VOCÊ PODE!
Melhorar, modificar, intervir no mundo, com seu corpo/corporeidade,
que é muito mais do que sua mera aparência ou “embalagem”.
Corporeidade é a constituição e configuração material e simbólica do
ser no mundo.
Para concluir citamos o poema “Três Coisas” de Fernando Pessoa que diz:
“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre
começando... A certeza de que é preciso continuar... A certeza de que
seremos interrompidos antes de terminar... Portanto, devemos: fazer
da interrupção um caminho novo ... Da queda um passo de dança ...
Do medo, uma escada ... Do sonho, uma ponte ... Da procura, um
encontro”..
18
Referências Bibliográficas:
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 10ª ed. São Paulo, 1982 Ed. Brasiliense.
DE ANDRADE. Carlos Drummond. O Corpo. Rio de Janeiro, 1984 p. 85-7. Ed. Record
FREIRE, João Batista. De corpo e alma: o discurso da motricidade. São
Paulo : Summus, 1991.
LIMA, Luiz Costa. Comunicação e Cultura de Massa (introdução geral) Teoria da Cultura de Massa, 2002, pág. 54.
MARX, Karl. Manuscritos Econômicos- Filosóficos e textos escolhidos: Seleção
de textos de José A. Giannotti. Tradução José Carlos Bruni. 2. ed. São Paulo: Abril
Cultural, 1978.
PEREIRA, Ana Maria. Concepção de Corpo: a realidade dos professores de
ginástica nas instituições de ensino superior. 1998. Dissertação (Mestrado)
– Universidade Metodista de Piracicaba. Piracicaba.
PEREIRA, Ana Maria. Motricidade Humana: a complexidade e a práxis
educativa. 2006. Dissertação (Doutorado) – Universidade da Beira Interior. Covilhã.
Portugal.
REVISTA Brasileira de Ciências do Esporte. Volume 21. n. 2 e 3.jan a maio
2000. ISSN 0101. 3289. Cadê o (Anzai, 2000, p. 73-74-75)
RODRIGUES, Neidson. Lições do Príncipe e outras lições. São Paulo:
Cortez: Autores Associados, 1985
SARDI, Sérgio. A. Textos para começar a filosofar – Ula Um Diálogo entre
adultos e Crianças. ed. Vozes, 2004.
REVISTA Brasileira de Ciências do Esporte. Volume 21. n. 2 e 3.jan a maio
2000. ISSN 0101. 3289.
SCHMIDT, Mario Furley. Nova história crítica: ensino médio. 1. ed. São Paulo: Nova
Geração, 2005.
SÉRGIO, Manuel. Alguns olhares sobre o corpo. Lisboa: Instituto Piaget, 2003b.
(Colecção Epistemologia e Sociedade)
Documentos consultados online:
19
PESSOA,
Fernando.Três
Coisas
Disponível
em
http//br.groups.yahoo.com/sabedoriadivina/mensages. Acesso em: 12 dez.
2007.
Disponível em: http://www.allposters.com/galery.asp. Acesso em: 11 nov. 2007.
PENSADOR,
Gabriel.
Nádegas
a
declarar.
Disponível
em
http://www.letrasdemusicas.com.br Acesso em: 20 nov. 2007.
CARLOS, Roberto. Coisa Bonita. Disponível em http://www.cifras.com Acessado em
09 dez. 07.
Download

Autor: Sonia Regina da Silva Berti