CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS SONIA REGINA DA SILVA BERTI “Folhas” desenvolvido através do curso do Programa de Desenvolvimento Educacional - PDE, na área de Educação Física, com o tema: O Corpo e a Mídia. Profa. Dra. Orientadora Ana Maria Pereira. CAMPUS UNIVERSITÁRIO FONE: (043)371-4000 PABX FAX: (043)371-4639 CEP 86055-900 LONDRINA - PARANÁ PDE – ano letivo 2008 Área: Educação Física 2 LONDRINA – PR Abril 2008 Autor: Sonia Regina da Silva Berti Orientadora: Ana Maria Pereira IES: UEL NRE: Apucarana Escola: Colégio Estadual José de Anchieta – Ensino Médio Disciplina: Educação Física ( X ) Ensino Médio Disciplina da relação interdisciplinar 1: Sociologia Disciplina da relação interdisciplinar 2: Arte Conteúdo Estruturante: Ginástica Elemento Articulador: O Corpo; A Mídia BELEZA É FUNDAMENTAL? “Olha que coisa mais linda mais cheia de graça é ela menina que vem e que passa num doce balanço a caminho do mar”. A beleza sempre foi exaltada nos versos, nas músicas e nas pinturas. Vinícius de Moraes autor da música “Garota de Ipanema” e do poema abaixo, talvez sem intenção, venha a reforçar aquilo que hoje se tornou obsessão para as pessoas. A busca pelo corpo ideal. Receita de Mulher “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso (...). Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e seja leve como um resto de nuvem” (Vinicius de Moraes) Você concorda com a música e o poema de Vinícius de Moraes? Qual a referência de corpo veiculada nos meios de comunicação? Existe padrão de 3 corpo e de beleza ideal? Se existe quem determina esses padrões? Em sua opinião beleza é mesmo fundamental? E qual a sua concepção de corpo? Para te ajudar a responder essas e outras questões, convido você a compartilhar os conhecimentos a cerca de corpo/corporeidade que estudaremos nesse Folhas. VAMOS LÁ? O corpo/corporeidade vem sendo estudado ao longo do tempo e em várias áreas do conhecimento tais como: (anatomia, fisiologia, antropologia, filosofia, psicologia). A Educação Física enquanto área do conhecimento tem um papel fundamental, de analisar questões referentes à concepção de corpo/corporeidade. Por isso, convido você a refletir sobre questões relacionadas à concepção de corpo presente na sociedade moderna. O que vemos atualmente é uma proliferação de academias de ginástica, clínicas de emagrecimento, aparelhos de exercícios ginásticos, etc. Cresce a cada dia o número dos interessados em fazer exercícios, para tentar alguma modificação no corpo, para ficar mais forte e, principalmente, emagrecer. Somos induzidos a perseguir o ideal de corpo magro. A todo o momento somos bombardeados com propagandas que prometem um corpo escultural como se fosse proibido ser fisicamente diferente, daquilo que dita à moda. PARA REFLETIR Você já se perguntou a quais interesses estão atrelados a exposição e o uso do corpo como produto pelos meios de comunicação? E por que querem nos fazer pensar que só seremos felizes se ficarmos com o corpo igual ao das modelos e artistas que aparecem nas revistas e na televisão? A quem interessa usar o corpo como instrumento para vender produtos e serviços como: remédios, shake para emagrecer, aparelhos de ginástica e ainda, lotar consultórios, clínicas de emagrecimento e estética? Que influência tem os apelos publicitários em sua vida, em especial àqueles voltados para os cuidados com o corpo? Você sabia que o Brasil é o país campeão em cirurgia 4 plástica e na venda de remédios para emagrecer? Quem lucra com tudo isso? VAMOS VER O QUE OS PROFISSIONAIS E PESQUISADORES DIZEM SOBRE ESSE ASSUNTO? A PROPAGANDA E O CORPO “Está bastante claro o papel representado pela Educação Física em relação às práticas e controles corporais, anteriormente, esse papel era exercido pelo Estado autoritário; agora invade o cotidiano, na forma de discursos que pregam o culto ao físico, a exaltação estética. A indústria cultural mantém relações diretas com a mídia que se responsabiliza em humanizar os bens materiais, e transformando o corpo em objeto de consumo. Ao anunciar produtos relacionados à busca da beleza estética, a mídia reforça valores, tornando a beleza o ponto alto dessa hierarquia, o que pode ocasionar uma competição na busca de ascensão social, profissional ou mesmo afetiva, e as “armas” para se alcançar isso ficam restritas à aparência física de seus corpos. Os meios de divulgação exploram discursos e propagandas, que procuram induzir os consumidores à compra de produtos de beleza ou de instrumentos voltados à prática de exercícios físicos prometendo corpos saudáveis e bonitos em pouco tempo. Procura-se identificar corpos belos e vigorosos, esculpidos em aparelhos de academia de musculação e bisturis, com saúde. Não raro, tais anúncios têm, por trás, grupos cujos interesses estão voltados unicamente ao lucro. Ao mencionar a beleza tais anúncios remetem imediatamente a padrões determinados principalmente pela moda, não existindo, em relação a eles questionamentos mais profundos sobre sua origem, quem os determina. Se a televisão, a publicidade, o cinema, as revistas, os jornais, e agora a internet, defendem as dietas milagrosas, os músculos torneados e bronzeados, as vitaminas que evitam o envelhecimento, as clínicas de rejuvenescimento e as academias de ginástica, é porque isso tudo dá muito dinheiro. E se muito pouco se fala de afeto e respeito entre as pessoas comuns, não tão lindas e nem tão elegantes como as modelos, mas que mesmo assim, se sentem felizes, certamente porque isso é bem menos rentável. Exemplo disso é o que se verifica pouco antes da temporada de verão, quando estilistas destacados, formadores de opinião, estabelecem à compleição dos corpos, o corte e a cor dos cabelos, o tipo de tecido e o tamanho do decote ou das saias. Uma vez definido o padrão, a indústria e o comércio investem na confecção dos produtos que serão divulgados pela mídia, com propagandas muito bem elaboradas e que induzem a população a adquirir produtos que, mesmo sendo supérfluos e não adequados ao estilo de determinada pessoa, acabam sendo adquiridos, pela força da propaganda, que instiga a busca por novidades. O padrão atual de beleza física, proposto pela publicidade e pela mídia, é o da figura longilínia, tipo físico das modelos não importando quantas plásticas tenham sido necessárias para que 5 chegassem ao resultado final. Mas o apelo ao corpo perfeito não se restringe apenas às mulheres, pois o público masculino vem sendo cada vez mais atingido pela propaganda. A pressão social para se atingir esse ideal é de tal magnitude, que leva milhões de pessoas, no mundo inteiro, a gastar fortunas em regimes, cosméticos, ou a recorrer à cirurgia plástica como recurso mágico para eliminar anos ou quilos, ou mesmo realçar as áreas consideradas menos favorecidas de sua anatomia. Os profissionais de Educação Física têm um longo e árduo trabalho a realizar. Através de informação e conhecimento podem conscientizar seus alunos sobre a existência de outros objetivos além do puramente estético. Seria desejável que se percebesse que o desenvolvimento do bem-estar físico, psicológico, social, intelectual e emocional também permite o aflorar de outros tipos de beleza, que transpareceria no rosto, no gesto e no corpo, sem a necessidade de buscar padrões de beleza externos, e nem fazer parte de um jogo no qual já se entre como perdedor”. (Anzai, 2000, p. 73-74-75) ATIVIDADE PARA SER REALIZADA NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA 1ª etapa: Após ler o texto faça uma pesquisa/entrevista em sua escola com seus colegas e professores sobre o grau de satisfação de cada um em relação a seu corpo/corporeidade. Vocês podem perguntar: Você está satisfeito com seu corpo? Você gosta do seu corpo? Gostaria de mudar alguma parte dele? Seria capaz de recorrer à cirurgia plástica para alcançar o padrão de beleza das modelos e artistas 2ª etapa: Após ter realizado a atividade proposta acima, vamos discutir e analisar os dados coletados. Quais foram os resultados da pesquisa? E com a leitura e reflexão do texto acima vamos refletir sobre as seguintes questões: Você sabe o que é ideologia? Existe ideologia em relação ao nosso corpo. E padrão de beleza existe? Quem determina os padrões de beleza? Falamos tanto em liberdade, mas, será que somos realmente livres? Porque nos deixamos aprisionar por modelos e padrões ditados por outros? E na escola como o corpo é tratado? 3ª etapa: Elabore um texto externando nele suas impressões e opinião. AMPLIANDO OS CONHECIMENTOS Historicamente a concepção de corpo foi concebida separada, dividida, numa perspectiva dualista, ou seja, a separação entre o ser e o pensar, o corpo da mente. Visando romper com esse modelo o professor ao abordar a concepção de corpo/corporeidade nas aulas de Educação Física deve considerar o educando em todas as suas dimensões, sem dividir ou separar o físico do mental. Ao ministrar as aulas o professor deve oportunizar a realização de movimentos considerando o aluno em sua totalidade e complexidade. 6 As aulas devem ser um constante exercício do pensar, do sentir e do agir, no sentido de buscar a plenitude da globalidade do ser humano, ou seja, fazer com que você crie e amplie suas possibilidades de movimentar-se num clima de liberdade, respeitando seus limites e possibilidades. Por isso, junto com o professor de Educação Física, procure sempre compreender os aspectos sociais, culturais, políticos dos conteúdos que você aprende na escola. Classe dominante é um termo utilizado para designar a classe social que controla o processo econômico e político. Especificamente para a análise marxista, dentro do sistema capitalista, classe dominante corresponde à burguesia, ou seja, refere se especificamente à classe social detentora dos meios e da capacidade de organizar a produção capitalista, ainda que não necessariamente tenha o controle total do processo de expansão econômica. Faça também uma reflexão crítica sobre aquilo que é veiculado nos jornais, revistas, filmes, pois vivemos numa sociedade em que a comunicação exerce uma grande influência na vida das pessoas. O que pode induzir o espectador a pautar suas escolhas, suas ações tendo como parâmetros aquilo que é divulgado pela mídia que, normalmente transmite, representa e defende os interesses (ideologia) da classe dominante. Você já descobriu o que significa ideologia? Marilena Chauí define assim ”Ideologia é um sistema de representações e normas que nos ensina a conhecer e a agir segundo aquilo que é determinada por uma minoria. É a ideologia engendrada pela classe dominante que dita normas e modelos de comportamento para todos os indivíduos da sociedade”. (Chauí, 1997 p. 3-4) OBSERVE O TEXTO ABAIXO Luiz Costa Lima em seu livro Comunicação e Cultura de Massa afirma que: “É assim que a elite difunde a sua ideologia, disseminando através dos meios de comunicação (mass media) a "cultura superior". A mídia estando em poder da classe dominante faz passar a imagem de homogêneo aquilo que na verdade é heterogêneo, sempre dando uma qualidade inferior às classes mais desfavorecidas. Em um país como o Brasil, possuidor de uma enorme pluralidade de culturas, seria impossível afirmarmos que vivemos em uma sociedade homogênea. Mas é essa a idéia que é passada às pessoas e é assim que estas agem, com os nossos ideais girando em torno do ideal da elite. A sociedade consumirá aquilo que for promovido pela elite em termos de 7 "saúde, a beleza, a aceitação social, o sucesso sexual - a felicidade em resumo - que resultarão da posse e do uso de um determinado produto". É a propalação do que é "o mais correto", "o mais adequado" segundo o conhecimento e o gosto da classe dominante para manter o seu STATUS e a sociedade estratificada em classes. (Lima 2002 p. 54) Fica explicito que é preciso fazer uma reflexão crítica daquilo que vemos e ouvimos, pois de acordo com texto acima somos influenciados por pessoas e pelas imagens que são projetadas exteriormente. É necessário compreender a sociedade em que vivemos em seus vários aspectos. E dessa forma estabelecer uma concepção crítica das coisas como, por exemplo, compreender o assunto desse trabalho que trata sobre corpo, consumo e mídia e elaborar sua opinião sobre esse tema. E é no espaço das aulas de Educação Física, que queremos promover essa reflexão no sentido de romper com “Ações, que visam trabalhar apenas o “físico”, como um conjunto de ossos e músculos (como um corpo máquina), que não pensa, não sente, não vive intensamente. Apenas se preocupa em repetir o que lhe é determinado, para atingir a tão sonhada “forma”, se limitando em medir biótipo, gordura corporal, marca inicial e final”. (Pereira, 1998, p72) Você consegue observar a influência das propagandas e programas nas suas ações cotidianas e principalmente em seu corpo? Somos realmente livres para fazer escolhas? Quem determina as condições para as escolhas que fazemos? O que nos impede de escolher e realizar aquilo que desejamos? Será que é possível transformar as coisas que nos rodeiam? E por falar em transformar, fazer escolhas vamos realizar uma atividade? ATIVIDADE A PROPOSTA É A SEGUINTE 1ª etapa: Com a ajuda do professor organize-se e vamos refletir sobre como o corpo é tratado na escola? Ele é livre ou adestrado. 2ª etapa: Escolha um conteúdo da disciplina de Educação Física para ser 8 tradicionalmente, observe como o corpo é tratado. 3ª etapa: Nas aulas posteriores vivenciem o conteúdo escolhido conforme sua concepção original, seguindo as regras oficiais, e a forma como ele é praticado tradicionalmente. 4ª etapa: Separem-se em grupos e com a mediação do seu professor promovam um debate: O que podemos modificar que adaptações podem ser feitas (regras; número de jogadores; espaço físico; concepção do jogo) na atividade experimentada? Faça adaptações no conteúdo/atividade escolhida resignificando-as, recrie, desenvolvam novas possibilidades para praticar: O que mudar? Para que mudar? Como mudar? Com base nas observações realizadas nas aulas analise com seu grupo o que Freire, diz sobre o corpo: “Quem tem o controle do corpo, tem o controle das idéias e dos sentimentos. Quem fica confinado em salas apertadas, sentado e imóvel em carteiras, milhares de horas durante boa parte da vida, aprendem a ficar sentados nas cadeiras, de onde talvez nunca mais venha se erguer.” (Freire, 1993, p. 114) O que Freire quer dizer? Você concorda com as afirmações? Com a realização dessa atividade, que é pautada em uma nova concepção de Educação Física queremos que você compreenda o corpo/corporeidade em sua totalidade e complexidade. Compreendendo que nas aulas como na vida, você não deve aceitar-se como um corpo máquina, obediente, que só repete gestos e se ajusta às normas do jogo, da sociedade. Ao entender os aspectos de dominação que o corpo vem sofrendo ao longo da história humana, que você possa compreender que cada ser com seu corpo-próprio é dotados de sentimentos, emoções. E nas aulas ao vivenciar o exercício do pensar e agir de forma autônoma e consciente é possível caminhar na direção da realização de projetos e sonhos. E a partir desse exercício, cada indivíduo possa modificar a realidade em que vive e possa ainda lutar por aquilo em que acreditam amparados nos conhecimentos adquiridos, aprendidos, e vivenciados na escola. Queremos por meio dos conteúdos da Educação Física, ao realizar as atividades nas aulas, promover o exercício de valores como a solidariedade construindo, situações nas aulas que contemplem a todos os alunos (alto, baixo, gordo, magro, fraco, forte, veloz, lento e as pessoas com necessidades especiais), e não somente àqueles mais aptos. 9 Nessa perspectiva, a Educação Física, não visa buscar o desenvolvimento de técnica apurada, performances individuais, verificar qual equipe foi derrotada ou vitoriosa. Ou ainda observar quem realiza o gesto perfeito, sem admitir os erros que ocorrem no chute; no arremesso; na cortada; ou no bloqueio do voleibol; observando apenas movimentos mecânicos e estereotipados. Pois é assim que, culturalmente, o corpo vai sendo influenciado e modelado, tratado como objeto, como utensílio, cuja preocupação é somente o rendimento a produtividade, a performance. É necessário que você, nas aulas, faça perguntas, questione o porquê e compreenda que: “Na vida é preciso saber o que desejamos para nós mesmos e para os outros, é preciso saber quais são os valores, as idéias que nos orientam, é preciso ouvir e aprender com nossos próprios erros é preciso aprender a aprender e a criar... é preciso pensar. Talvez devêssemos, então, refletir sobre como vemos o mundo, e também sobre como pensamos, já que é o nosso próprio viver que está aqui envolvido”. (Sardi, 2004, p.13) Compreenda a importância de ser um sujeito crítico: Observe que os meios de comunicação tentam nos domesticar. Quer impor como nos vestir, e a nos comportar nas situações vividas. “Observa-se na sociedade capitalista, que tudo é passível de ser comercializado e o corpo não fica de fora desta mercantilização. Nesta dimensão, quando refletimos sobre o corpo, observa-se o processo de alienação e desumanização, em que o corpo é tratado como máquina, corpo eficiente e disciplinado a serviço do acúmulo de bens materiais. Neste contexto, o homem e a mulher podem estar sendo manipulados, servindo de objeto e instrumento ideológico, não sendo sujeitos do próprio corpo, da vida, da história”. (Pereira, 1998, p. 42) VOCÊ FAZ SUAS ESCOLHAS OU DEIXA QUE OUTROS O FAÇAM? 10 O QUE INFLUÊNCIA NAS SUAS DECISÕES? Comece a observar as propagandas na televisão, as músicas, as fotos em revistas, ou seja, tudo aquilo que é veiculado pelos meios de comunicação. Os seus idealizadores querem nos seduzir, por meio de bonitas imagens, assim buscam incutir valores e idéias com o objetivo de provocar o desejo e o gosto pelo consumo. É importante entender que aquilo que é transmitido pelos meios de comunicação está a serviço de uma elite, ou seja, os proprietários das grandes indústrias, as agências de propaganda, enfim os poderosos (classe dominante), aquela minoria que possui muito poder e dinheiro e que por isso tentam controlar a grande maioria da população. REFLITA Qual o objetivo das propagandas que disseminam a idéia de que para ser bonito e/ou ter sucesso profissional temos de consumir produtos e serviços, que a mídia anuncia? Seria o lucro das indústrias? Ou os idealizadores da propaganda realmente se preocupam com você que é o consumidor? FIQUE ATENTO! Existem algumas pessoas que se beneficiam com isso: os poderosos da classe dominante, que tem como meta transformá-lo em um consumidor compulsivo. Você compreende que ao adquirir determinada marca de tênis, roupas de grife, sem questionar, sobre a sua necessidade, pode estar agindo de forma alienada em que permite ser manipulado pelos artifícios do marketing e o seu corpo passa a ser usado como outdoor, um objeto, utilizado para vender produtos. 11 Como fica o humano, com seu corpo - próprio frente a esses aspectos de consumo? Para ajudar nessa reflexão, vamos ler o texto de Carlos Drummond de Andrade e procurar fazer uma leitura crítica sobre o que é veiculado nas propagandas e programas de televisão. Sou aquilo que aparento exteriormente, roupas, jóias, dinheiro ou o que vale é o meu caráter, meus valores aquilo que sou realmente? Qual a crítica feita pelo autor? Vamos ler o poema? “Eu, Etiqueta”, de Carlos Drummond de Andrade (1984, p. 85-7) “Eu, Etiqueta” Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório, Em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei. Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, minha meu isso, meu aquilo, desde a cabeça até o bico dos sapatos, são mensagens, letras falantes, gritos visuais. Estou, na moda, ainda que a moda seja negar minha identidade agora sou anúncio (...) Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher (...). Hoje sou costurado, sou tecido, sou gravado de forma universal, saio de estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, me recolocam, objeto pulsante peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem, meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente. Observe como o corpo é descrito no poema abaixo, veja como o corpo pode ser usado, alienado, domesticado. Sabemos que as pessoas podem ser estímulos influenciadas externos propagandas, as por como as revistas, os programas da televisão e dependendo desses estímulos, as pessoas podem tornam-se insatisfeitas com aquilo que apresentam fisicamente. Atualmente bombardeados imagens principalmente de pela somos mídia corpos com bonitos, esteticamente perfeitos, idealizados conforme a concepção de moda do momento. Com isso, as pessoas comuns acabam por ficar infelizes não aceitam o próprio corpo como ele é. A conseqüência é uma busca irrefletida por esse corpo considerado perfeito preocupando-se apenas com os aspectos externos, esquecendo de “olhar para dentro de si”, a essência do ser. Então as pessoas se expõem a perigosas dietas, utilizando produtos para emagrecimento, submetendo-se a perigosas cirurgias, com o objetivo de 12 resolver rapidamente tais questões perseguindo um ideal de beleza que hoje é representado pela imagem da magreza impossível de ser alcançada por todos. Observamos um culto ao corpo magro e alto, que discrimina aqueles indivíduos que não se adequam aos padrões estéticos estabelecidos. O que pode contribuir para o surgimento dos distúrbios alimentares como: Anorexia e Bulimia, e ainda no uso de esteróides anabolizantes (comumente chamada “bomba”) com o objetivo de melhorar a aparência física (aumento da massa muscular) esses tópicos não serão objeto de estudo neste “folhas”, mas fica como sugestão para pesquisa. Repare que: “Vive-se uma espécie de ditadura daqueles que querem que os fora dos padrões, principalmente os menos magros, sintam culpa de sua aparência, não pelo fato da gordura não ser benéfica, mas porque precisam desta culpa para alimentar uma indústria que se beneficia dessa insegurança. A pessoa que passa o dia na frente do espelho, tendo como meta única o seu exterior, sente-se como se o seu sucesso pessoal dependesse unicamente do seu corpo ou da roupa que estiver usando”. (Anzai, 2000, p.74) Temos que considerar que não somos como robôs, veículos e objetos que são fabricados em série e saem todos iguais da linha de montagem, temos emoções e sentimentos, somos diferentes e únicos. Então, por que vivemos querendo copiar, uniformizar, no nosso modo de agir, falar, nas roupas, nos gestos, nos gostos? COMO ERA A CONCEPÇÃO DE CORPO E O PADRÃO DE BELEZA EM OUTRAS ÉPOCAS? Veja as pinturas do século XV e XVI. Como as pessoas eram retratadas? A concepção de corpo mudou ao longo da História? Podemos afirmar que o “modelo de corpo” corresponde às idéias, ao pensamento vigente de sua época e carrega consigo as marcas daquilo que lhe foi determinado. Antigamente possuir uma “gordurinha” era considerado saudável, como podemos ver nas pinturas dessa época. Rafael Sanzio, Leonardo da Vinci entre outros retrataram, mulheres roliças, rostos largos, 13 arredondados e com superfícies volumosas, como por exemplo: A Senhora com Unicórnio (esquerda), A Monalisa (direita). Nessa época séculos XV e XVI, gordura indicava que a pessoa era saudável, além de diferenciar os ricos dos pobres. http://www.allposters.com/galery.asp ATIVIDADE Após observar os quadros dos pintores renascentistas e ler o conteúdo da música abaixo o que podemos constatar? Para saber mais, pesquise sobre a concepção de corpo ao longo da História? Procure fotos de corpo de outras épocas e compare, com o das modelos da atualidade. Elabore cartazes e apresente para a turma. Coisa Bonita (Roberto Carlos) Amo você assim e não sei por que tanto sacrifício. Ginástica dieta não sei pra que tanto exercício. Olha eu não me incomodo um quilinho a mais não é antiestético. Pode até me beijar pode me lamber que eu sou dietético. Não acho que é preciso comer de tudo que tem na mesa. Mas passar fome não contribui em nada para a beleza. Já no passado os mestres da arte diante da formosura. Não dispensava o charme de uma gordinha em sua pintura. Gosto de me encostar nesse seu decote quando te abraço. De ter onde pegar nessa maciez enquanto te amasso. Eu não sou massagista e não entendo nada de estética. Mas a nossa 14 ginástica é mais gostosa e menos atlética. Coisa bonita, coisa gostosa, quem foi que disse que tem que ser magra pra ser formosa? Coisa bonita, coisa gostosa. Você é linda é do jeito que eu gosto é maravilhosa. Disponível em http:/www.cifras.com VOCÊ SABIA QUE? As mulheres não podiam praticar esportes, pois acreditava-se que o esforço do corpo feminino era uma violação do físico e da estética e que o esporte poderia masculinizar o corpo feminino. E ainda que as competições entre as mulheres eram consideradas perniciosas, até mesmo uma tentação, pois, favorecia a exibição do corpo que na época não eracomo hoje. Com base na pesquisa realizada sobre a concepção de corpo ao longo da história (p. 11), você pôde observar que as coisas vão se transformando, a concepção de corpo, a forma de pensar, os hábitos e os costumes. Mas será que mudaram para melhor ou para pior? Qual a sua opinião? Será que há algo que ainda não pensamos, ou que podia ser pensado de modo diferente? Vamos realizar um debate? Sugestão: O cantor “Gabriel o Pensador”, conhecido pela sua irreverência, faz uma crítica interessante quanto à exploração do corpo pela mídia, na música “Nádegas a Declarar”, você já ouviu? Pesquise essa música e com base na letra, realize um debate em sua sala aborde temas como: pudor; moral; pornografia; exposição na mídia; celebridades; dignidade; prostituição, etc. Analise: o que era considerado pornográfico e o que era permitido? O que é aceito pela sociedade e o que ela repudia? O corpo feminino ainda é mais exibido do que o masculino? Será mesmo necessário recorrer a procedimentos cirúrgicos com o objetivo de “melhorar” a estética do corpo, visando buscar um padrão de beleza pré - determinado?As pessoas que se submetem a procedimentos cirúrgicos serão felizes após a cirurgia? Ou é possível conviver harmoniosamente com o corpo que se tem? Disponível em: www.letrasdemusicas.com.br 15 A CONTRIBUIÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA Observa-se que as relações humanas constituem-se pelo corpo/corporeidade, no movimento e no gesto significativo. Entendemos que só poderá haver o desenvolvimento do indivíduo, se este for sujeito de suas ações e isso ocorre por meio de sua inserção, suas experiências com seu corpo próprio no mundo. O corpo é o meio dessa integração do indivíduo com o meio em que vive é o lugar em que os conhecimentos adquiridos na escola são colocados em prática. A contribuição da Educação Física, dar-se-á, por meio dos conteúdos que foram produzidos historicamente que devem ampliar os horizontes do aluno. Portanto, nesse trabalho objetivamos levar você a superar o senso comum, e amparados nos conhecimentos dessa disciplina, instrumentalizá-lo para o agir e interagir com as pessoas no seio da sociedade. A concepção de Educação Física que defendemos aqui é centrada na condição humana. E entende o conhecimento transmitido na escola como uma estratégia para a vida, e que as práticas realizadas nas aulas, promovam além da apropriação dos conteúdos a reflexão e a ação por parte do aluno. Os conteúdos trabalhados na escola, no âmbito da Educação Física devem ser significativos desafiadores e contribuir para o seu desenvolvimento enquanto ser humano completo, que movimenta-se desde seu nascimento até a sua morte. Movimento este que, deve ser realizado de forma consciente, respeitando os limites, as diferenças de cada ser, no sentido de motivar a realizar as atividades e atingir os objetivos. Essa perspectiva considera o humano em sua totalidade e complexidade, e não tem como fim, o domínio dos gestos esportivos e movimentos mecânicos. Os movimentos realizados serão utilizados como meio, para promover a prática consciente das atividades. E que por meio da reflexão realizada nas 16 aulas, será possível desencadear, uma aprendizagem mais significativa, e assim contribuir para formação de um cidadão crítico e autônomo. A dança, o esporte, a ginástica, as lutas, os jogos e brincadeiras que serão estudados nas aulas devem permitir a você, ir além daquilo que você já sabe. De maneira que o leve a superar as formas de dominação impostas ao nosso ser. Não podemos nos curvar e aceitar as coisas sem realizar questionamentos, como seres adestrados, submissos e passivos. Temos que ter clareza e compreender o homem em sua complexidade, e o mundo em que vivemos com todas as suas formas de controle e dominação. APÓS ESTUDAR ESSE TEMA CORPO/CORPOREIDADE QUE TAL PARTICIPAR ATIVAMENTE NAS AULAS, OPINANDO, PROCURANDO RESPOSTAS PARA SUAS DÚVIDAS E ELABORANDO NOVAS PERGUNTAS. MUDE SEUS HÁBITOS, POSTURAS E FORMAS DE PENSAR: ARRISQUESE, OBSERVE O MUNDO COM UM OLHAR CRÍTICO. E que nesse exercício de pensar o mundo e tudo aquilo que envolve o humano, você possa ampliar sua compreensão das coisas e do mundo em que vive. Acredite na sua capacidade de reelaborar idéias, realizar novos projetos para que você conviva em paz e feliz consigo mesmo e com os outros no pleno exercício de sua liberdade, refutando tudo aquilo que tem por objetivo aprisionar o ser humano. Não é nosso objetivo oferecer respostas prontas e acabadas aos questionamentos realizados nesse Folhas. Mas legitimados em um grande filósofo ousamos afirmar: “Que é possível viver com o corpo que você é, sem 17 ter que seguir padrões, e em suas relações com o mundo – ver, ouvir, cheirar, saborear, sentir, pensar, observar, perceber, querer, atuar e amar. ( Marx, 1978, p. 11) VOCÊ PODE! Melhorar, modificar, intervir no mundo, com seu corpo/corporeidade, que é muito mais do que sua mera aparência ou “embalagem”. Corporeidade é a constituição e configuração material e simbólica do ser no mundo. Para concluir citamos o poema “Três Coisas” de Fernando Pessoa que diz: “De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando... A certeza de que é preciso continuar... A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar... Portanto, devemos: fazer da interrupção um caminho novo ... Da queda um passo de dança ... Do medo, uma escada ... Do sonho, uma ponte ... Da procura, um encontro”.. 18 Referências Bibliográficas: CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 10ª ed. São Paulo, 1982 Ed. Brasiliense. DE ANDRADE. Carlos Drummond. O Corpo. Rio de Janeiro, 1984 p. 85-7. Ed. Record FREIRE, João Batista. De corpo e alma: o discurso da motricidade. São Paulo : Summus, 1991. LIMA, Luiz Costa. Comunicação e Cultura de Massa (introdução geral) Teoria da Cultura de Massa, 2002, pág. 54. MARX, Karl. Manuscritos Econômicos- Filosóficos e textos escolhidos: Seleção de textos de José A. Giannotti. Tradução José Carlos Bruni. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. PEREIRA, Ana Maria. Concepção de Corpo: a realidade dos professores de ginástica nas instituições de ensino superior. 1998. Dissertação (Mestrado) – Universidade Metodista de Piracicaba. Piracicaba. PEREIRA, Ana Maria. Motricidade Humana: a complexidade e a práxis educativa. 2006. Dissertação (Doutorado) – Universidade da Beira Interior. Covilhã. Portugal. REVISTA Brasileira de Ciências do Esporte. Volume 21. n. 2 e 3.jan a maio 2000. ISSN 0101. 3289. Cadê o (Anzai, 2000, p. 73-74-75) RODRIGUES, Neidson. Lições do Príncipe e outras lições. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1985 SARDI, Sérgio. A. Textos para começar a filosofar – Ula Um Diálogo entre adultos e Crianças. ed. Vozes, 2004. REVISTA Brasileira de Ciências do Esporte. Volume 21. n. 2 e 3.jan a maio 2000. ISSN 0101. 3289. SCHMIDT, Mario Furley. Nova história crítica: ensino médio. 1. ed. São Paulo: Nova Geração, 2005. SÉRGIO, Manuel. Alguns olhares sobre o corpo. Lisboa: Instituto Piaget, 2003b. (Colecção Epistemologia e Sociedade) Documentos consultados online: 19 PESSOA, Fernando.Três Coisas Disponível em http//br.groups.yahoo.com/sabedoriadivina/mensages. Acesso em: 12 dez. 2007. Disponível em: http://www.allposters.com/galery.asp. Acesso em: 11 nov. 2007. PENSADOR, Gabriel. Nádegas a declarar. Disponível em http://www.letrasdemusicas.com.br Acesso em: 20 nov. 2007. CARLOS, Roberto. Coisa Bonita. Disponível em http://www.cifras.com Acessado em 09 dez. 07.