ADOÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS PELO PROPRIETÁRIO RURAL: UMA ANÁLISE DOS FATORES INFLUENCIADORES NA INOVAÇÃO [email protected] Código de campo alterado Formatado: Cor da fonte: Automática Apresentação Oral-Ciência, Pesquisa e Transferência de Tecnologia ALISSON EDUARDO MAEHLER1; PAULO VANDERLEI CASSANEGO JUNIOR2; MAIQUEL GUSTAVO MAEHLER3. 1.UFRGS, PORTO ALEGRE - RS - BRASIL; 2.UNIPAMPA, SANTANA DO LIVRAMENTO RS - BRASIL; 3.UFSM, SANTA MARIA - RS - BRASIL. Adoção de novas tecnologias pelo proprietário rural: uma análise dos fatores influenciadores na inovação Resumo: A agricultura tem um papel importante na constituição do PIB – Produto Interno Bruto bem como na pauta de exportações brasileira. Altos índices de produtividade, condições climáticas favoráveis e uso de modernas tecnologias tornam o Brasil um expoente no setor. Assim, no presente trabalho, analisou-se o processo de adoção de novas tecnologias e de inovação por agricultores do agronegócio em um município gaúcho que possui forte base agrícola. O objetivo é analisar como se dá o processo de inovação e adoção de novas tecnologias no campo, tal qual em empresas localizadas nas zonas urbanas, e quais fatores possuem maior ou menor impacto. Através de aplicação de questionários com perguntas fechadas, bem como observação in loco em 41 propriedades rurais, chegou-se à conclusão de que há um processo de envelhecimento da população pesquisada, baixa escolaridade e reduzido tamanho das propriedades, muito embora o processo de adoção de novas tecnologias nas propriedades e a busca por inovações sejam relativamente altas. A variável tamanho da propriedade teve o maior impacto no processo de busca de inovação, ao contrário do grau de escolaridade, que não mostrou grande influência. Palavras-chave: Inovação; adoção de tecnologia; agronegócio. Agriculture has an important role in the formation of GDP - Gross Domestic Product and the staff of Brazilian exports. High rates of productivity, favorable weather conditions and use of modern technology make Brazil an exponent in the industry. Thus, this paper analyzes the process of adoption of new technologies and innovation by farmers in the agribusiness in a county that has a strong agricultural base. The objective is to examine how is the process of innovation and adoption of new technologies in the field, as in companies located in urban areas, and what factors have greater or lesser impact. Through application of questionnaires with closed questions, and in situ observation on 41 farms, it was concluded that there is a process of aging of the population studied, low education and small size of the properties, but the process of adoption of new technologies and the search for innovations are relatively high. The variable size of the property had the biggest impact on the search for innovation, unlike the level of training, which has shown no great influence. Key-words: Innovation; technology adoption; agribusiness. 1. Introdução Talvez em nenhuma outra época a inovação e o conhecimento tiveram tamanha importância. Dentro de um cenário de competitividade, a inovação e a diferenciação passaram a ser o cerne da estratégia de muitas empresas. Em um mundo marcado pela velocidade das mudanças, poder da tecnologia e de quebra de paradigmas, onde as condições de acesso à qualidade e a recursos tecnológicos ficam cada vez mais iguais para todas as empresas, uma das poucas estratégias competitivas realmente eficientes é a diferenciação. A busca por uma posição única, “uma posição estratégica exclusiva e valiosa, envolvendo um diferente conjunto de atividades (PORTER, 1999, p. 73)”, passa a ser vital para a sobrevivência das organizações. Segundo Montgomery & Porter (1998), as empresas alcançam vantagem competitiva através de ações de inovação e antecipação do futuro. Elas abordam inovações no seu sentido mais amplo, incluindo tecnologias e novas maneiras de se realizar ações. As organizações, segundo os autores, percebem uma base para competir ou para encontrar melhores formas para alcançar seus objetivos usando métodos inovadores e práticas de diferenciação e exclusividade. Nesse sentido, o trabalho de Kelley e Littman (2001), analisando o caso da IDEO, uma das empresas de Design mais famosas do mundo, mostra como a inovação pode ser uma estratégia interessante e se tornar o centro da cultura empresarial. Na empresa estudada a inovação é a “alma do negócio”. Diversos relatos do mundo dos negócios, como o de Kelley & Littman (2001) ou os descritos por Christensen (1999) concentram sua atenção em casos empresariais. Isso é compreensível, dado o estreitamento do foco dos cursos de Administração. No entanto, será que se poderia utilizar os mesmos conceitos e metodologias de gestão da inovação no agribusiness? Pode-se falar em adoção de novas tecnologias e inovação no agronegócio brasileiro, um dos mais modernos e rentáveis do mundo? Nesse sentido, o objetivo deste artigo é analisar alguns fatores influenciadores na inovação e adoção de novas tecnologias pelo proprietário rural, especialmente o grau de instrução do chefe da família e tamanho da propriedade. O estudo se deu através da análise de propriedades rurais em um município gaúcho de forte base agrícola. É analisada especialmente a cultura da soja, por ser esta umas das commodities brasileiras com maior volume de exportação (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 2008). Na primeira parte do trabalho são apresentados referenciais sobre tecnologia, inovação e agronegócio. Em seguida, é apresentada a metodologia de pesquisa, bem como a análise dos dados. Por fim, apresentam se as conclusões e recomendações do estudo. 2. Inovação e estratégia empresarial O acesso ao conhecimento científico e tecnológico, assim como a capacidade de apreendê-los, acumulá-los e utilizá-los, é visto como definidor do grau de competitividade e desenvolvimento de nações, regiões, setores, empresas e indivíduos (LASTRES, 2000; WANG, CHIEN & KAO, 2007). Para Levitt (1990), na maioria das indústrias, qualquer empresa que não esteja agressivamente alerta às possibilidades de inovação está assumindo um risco competitivo, da qual deveria estar, no mínimo, consciente. A busca de inovação especialmente de novos produtos, em novos atributos do produto e em serviços ao cliente - é parte da orientação de mercado da empresa. No Brasil, particularmente, a abertura econômica iniciada no governo Collor de Mello foi o ponto de partida para que as empresas brasileiras saíssem de uma situação de “apatia” em que se encontravam e partissem para a busca de novos mercados. A antiga dependência à máquina governamental passou a dar lugar a uma brutal competição com empresas multinacionais de todo o mundo, especialmente influenciadas pelo livre mercado e pela globalização. Muitas empresas tiveram que se reinventar, como as do setor calçadista, que, se 2 antes se encontravam em meio à crise, em virtude da concorrência com os baratos calçados chineses, agora alcançam mercados internacionais com a exportação (FERRAZ, 2002). Durante este novo período, as empresas brasileiras iniciaram uma ampla transformação interna, gerencial e tecnológica, necessária para manter os níveis de aporte de capital. Para Ferraz (2002), apesar de as empresas brasileiras terem iniciado essa transformação, falta ainda a inovação, em virtude de as corporações brasileiras conservarem ainda o velho hábito de copiar modelos e produtos de fora, prática esta que, apesar de haver feito sucesso no passado, tende a não funcionar mais com o aprofundamento da globalização. Sobre este ponto, Bethlem (2005) traz uma importante colaboração no intuito de esboçar uma evolução do pensamento estratégico no país, a partir do trabalho de Gluck; Kaufman & Walleck (1982). O autor descreve que na década 90 vivenciava-se no Brasil um sistema de substituição das importações, onde artigos de fora eram apenas copiados. Lima & Teixeira (2001), corroboram com o pensamento de Ferraz (2002). Para os autores, apesar da pressão externa, grande parte das empresas nacionais ainda não demonstra vocação para a inovação dos processos intrafirma, semelhante ao que se observa em países da Ásia. Além disso, os autores afirmam que aspectos como a formação de redes de pesquisa cooperativa e desenvolvimento de produtos e processos interfirmas também apresentam um desempenho fraco, se comparado aos países desenvolvidos. Entre as causas para este atraso citam, entre outros, os baixos investimentos públicos em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), bem como a instabilidade das políticas públicas para esta área, o que se reflete nos baixos indicadores de desenvolvimento científico e tecnológico da indústria brasileira, gerando baixos índices de inovação e diferenciação. Porter (1999), criou um modelo de competição empresarial baseado em três estratégias competitivas (estratégias genéricas) que são: a) vantagem em custos; b) diferenciação e c) enfoque. Grande parte das empresas opta por uma estratégia com ênfase na competitividade por custos ou diferenciação, sendo que esta última só é possível com inovação. Para a inovação são necessárias, entre outros fatores, uma mão-de-obra muito bem qualificada, visão futura e novidade. Assim, a inovação não está limitada a produtos ou a tecnologia, ela também pode surgir em um novo processo, numa nova abordagem do mercado, ou na gestão (FERRAZ, 2002). Porém, ser uma empresa inovadora não depende apenas de recursos e acesso à tecnologia: depende muito da cultura interna da organização, da capacidade de seus membros aceitarem novos paradigmas, de buscaram constantemente o novo e não se contentarem em apenas copiarem o que os outros criam. Ferraz et al. (1997, p. 357), colocam a questão do baixo investimento empresarial em pesquisa e inovação da seguinte forma: [...] investimentos em tecnologia respondem não somente a expectativas positivas de longo prazo, que decorreriam naturalmente da consolidação da estabilidade, mas também e principalmente a mudança no eixo da concorrência no sentido de privilegiar a inovação de vantagens competitivas. A direção de esforços empresariais empreendidos até aqui legou uma herança de inércia nessa área que tornará mais difícil o avanço na direção do efetivo desenvolvimento competitivo, baseado no investimento tecnológico. Assim, para que o Brasil se torne um país competitivo e alcance a posição de liderança no cenário internacional, é necessário que haja, entre outras coisas, uma mudança na cultura empresarial brasileira. Para isso, é necessário que esses passem a ver o valor da pesquisa, da ciência e da busca própria de soluções tecnológicas aos seus problemas. Além disso, é necessário colocar a educação e criação de condições estruturais para o avanço da pesquisa em primeiro lugar. Na agricultura, caso desta pesquisa, a necessidade de inovação e adoção de novas tecnologias também se faz necessário. Isso ocorre porque o aumento da produtividade requer 3 metodologias inovadoras, como novas formas de cultivo, novas variedades de sementes (geneticamente modificadas e resistentes à secas e doenças), defensivos agrícolas mais eficientes e menos agressivos ao meio ambiente, métodos de previsão climática mais eficazes e novas formas de gestão rural, incidindo fortemente na atual forma como lidamos com esta área. Assim como ocorre em muitas empresas, vários fatores podem influenciar no processo de adoção de tecnologia e inovação. Alguns desses são o tamanho e o acesso à informação. No caso do setor rural, propriedades com maior área parecem possuir maior capacidade de produção e consequentemente, de lucratividade. Por outro lado, pequenas propriedades, por possuírem área menor, são compelidas a extraírem a maior produtividade possível nas terras em que dispõe, tornando a adoção de tecnologia um fator crucial. Mendola (2007), analisando pequenas propriedades rurais em Bangladesh, na Ásia, e Minten e Barrett (2008), com trabalho desenvolvido em Madagascar, na África, observam que a adoção de tecnologia por proprietários rurais cumpre um papel importante em termos de redução da pobreza local, aumento da produtividade e redução dos riscos de quebra ou falhas na agricultura. Isso porque além de maior produção, podem ser obtidos melhores preços (em virtude da escolha do melhor momento para a venda) e maior bem estar social, fruto de esforços por tornar o setor agrícola mais competitivo, especialmente em países em desenvolvimento onde esta atividade possui um papel importante na economia. Contudo, para que haja a adoção de novas tecnologias, a informação disponível pelo produtor, aliado à qualificação técnica e profissional, passa a ser importante. Isso pode ser constatado no trabalho de Wolf (2008), ressaltando que a profissionalização do produtor rural, aliado a uma visão de “empreendedor rural” ou “empresário rural”, exerce um papel fundamental no desenvolvimento e no crescimento tanto da propriedade quanto da região onde ele está inserida. Há, neste sentido, uma importância, segundo o autor, de redes sociais de trocas de conhecimento, para que haja a complementaridade de conhecimentos, além da atuação de agentes públicos, muitas vezes limitados em sua atuação. Nesse sentido, pretendese neste espaço identificar como ocorre o processo de inovação e adoção de novas tecnologias no meio rural. A seguir, são descritos conceitos de inovação adotados em organizações empresariais, mas que podem ser transpostos ao setor agrícola, dentro do contexto de “empresa rural” (ainda que muitas vezes de pequeno porte), descrito por Wolf (2008). 2.1 Conceitos de inovação Levitt (1990) e Dacorso & Yu (2004), vêem a inovação não apenas como condição desejada, mas necessária à sobrevivência e ao crescimento de uma empresa. Ainda para Levitt (1990, p. 200), a inovação pode ser vista sob dois ângulos: a) novidade no sentido de que alguma coisa nunca foi feita antes, e b) novidade em que aquilo que não havia sido feito antes pela indústria ou pela empresa que está fazendo aquilo agora. A respeito do conceito de inovação, Dacorso & Yu (2004) a vêem como um processo de criação e desenvolvimento de uma idéia que resulta no lançamento de um novo produto e/ou serviço no mercado ou na modificação de um processo produtivo. Quando bem sucedida, pode representar a sobrevivência ou liderança de uma empresa no mercado, bem como alterar os hábitos de comportamento e consumo de uma sociedade. Semelhante idéia é compartilhada por Bateman & Snell (1997), considerando inovação como uma mudança da tecnologia, um abandono das formas de se fazer às coisas, podendo essas mudanças ser radicais ou incrementais, mudanças nos produtos ou nos processos. 4 Lalkaka (2002), abordando a questão da inovação tecnológica, a coloca como o processo que transforma uma idéia em um produto ou serviço vendável. Contribui para o aumento da produtividade e da competitividade, os motores do crescimento econômico. Colaborando, Dosi (1988) observa que a inovação consiste na pesquisa, descoberta, experimentação, desenvolvimento, imitação e adoção de novos produtos, novos processos produtivos e formas de organizar os recursos. Porém, Schumpeter (1942), cria uma divisão do conceito de inovação, para o autor, a inovação ocorre de cinco formas diferentes: a) introdução de novos métodos de produção; b) introdução de novos produtos; c) abertura de novos mercados; d) conquista de nova fonte de matérias-primas e produtos semimanufaturados e e) introdução de nova organização de um setor industrial. A questão que se propõe nos estudos acadêmicos é como passar de uma idéia a uma inovação, que possa ser comercializada com um lucro atraente e com riscos reduzidos. Parece, analisando a literatura, que esse é o grande desafio das organizações atuais. Ter idéias não parece uma tarefa difícil. Ter idéias que gerem lucros, sim. Cooper (2001), um dos mais influentes pesquisadores do tema inovação, aborda os passos para a transformação de uma idéia em produto. A idéia principal é gerenciar o processo de modo a minimizar riscos e obter alto retorno, em meio a um ambiente de grande incerteza que permeia o lançamento de novos produtos. Cooper (2001) desenvolveu o modelo de Stage-Gate®, ou seja, um roteiro com os fatores críticos de sucesso e melhores práticas que visam a efetividade. Como as incertezas e o risco de se investir em um produto são grandes, a redução da incerteza se faz necessária. Conforme o autor, o processo de lançamento de produtos atravessa vários estágios, e a cada etapa são reunidas informações que permitem decidir se avança ou não no processo. Há etapas (stages) e cancelas (gates) até o lançamento. São cinco cancelas em seu modelo, mais as etapas de lançamento e revisão de pós-lançamento. 3. Agronegócio no Brasil: o caso da soja Talvez um dos setores onde o Brasil tenha sido mais bem sucedido e obtido alto grau de competitividade nos últimos anos seja a agricultura. O setor ocupa parte importante na economia nacional, tendo 23% de participação no PIB (Produto Interno Bruto) nacional, respondendo por 36% das exportações (BOLSA DE MERCADORIAS E FUTUROS BM&F, 2008). Seus índices de produtividade, cada vez maiores em relação aos principais concorrentes internacionais, como EUA e Argentina, e o nível tecnológico em que se encontra, dada a mecanização das lavouras, a utilização de produtos geneticamente modificados e de técnicas modernas de cultivo, reforçam esta afirmação. Este referido sucesso é derivado de uma série de fatores, entre os quais pode-se citar: aumento da demanda e das exportações, como conseqüência dos bons preços; alto grau de inovação e tecnologia aplicada no cultivo e existência de grandes áreas para o plantio, que proporcionam economia de escala e conseqüentemente menores custos de produção (BM&F, 2008). A soja passou a assumir um papel importante na agricultura brasileira a partir dos anos 70. Como observa Ferraz et al. (1997, p.126) “o Brasil foi relativamente bem sucedido na internacionalização do sistema agroalimentar dos anos 70, transformando-se em um dos países líderes do comércio mundial de commodities”. Ainda segundo o autor ( p. 128), “nos anos 70 e 80 o complexo soja tornou-se símbolo da modernização agroindustrial brasileira e em 1980 havia conquistado 43% do mercado mundial de farelo e 35% das exportações de óleo (...)”. A soja é um dos expoentes do agro-negócio nacional, em virtude dos sucessivos recordes de produção que a oleaginosa vem alcançando nos últimos anos, seu grau de 5 mecanização e sua eficiência na produção. Segundo dados da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a soja é responsável por 6,77% do total das exportações brasileiras. A área plantada em 2006/2007 foi de 20,68 milhões de hectares, com uma produção de 58,4 milhões de toneladas e uma produtividade média de 2.823 kg por hectares (EMBRAPA, 2008). A partir deste momento, apesar de algumas crises vividas pelo setor, especialmente durante a década de 1990, seu crescimento, tanto em volume de exportações quanto em termos de valores exportados, tem sido crescente. Em 2002, segundo dados do IBGE, o volume exportado de soja foi de 35.979 mil toneladas, num total de 8,125 bilhões de dólares, contra 15.434 mil toneladas de 1989, e 3,659 bilhões de dólares. O aumento, como verificado, é bastante considerável. Um outro fator que contribui para o aumento da competitividade da soja no Brasil é o alto grau de tecnologia e inovação, gerando modernas técnicas de cultivo, que estimulam o plantio racional e a profissionalização do setor. O país tem nesta área as melhores técnicas de cultivo, plantas altamente produtivas, além da adoção de sementes geneticamente modificadas, que reduzem os custos de produção devido à redução do uso de agrotóxicos e de diesel para o preparo do solo. O setor de pesquisa, altamente desenvolvido neste setor, tem contribuído muito para a melhoria da produtividade e do desenvolvimento de novas técnicas de produção. Dados da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão subordinado ao Ministério da Educação, mostram a existência de 37 cursos de pós-graduação em agronomia, mestrados e doutorados, apenas nos três estados do sul (CAPES, 2008). São programas que pesquisam variedades que melhor se adaptam à sua região de abrangência, melhorando a qualidade das sementes, dos instrumentos de controle de pragas, de cultivo entre outros. A pesquisa, neste setor, é reconhecida inclusive fora do Brasil, a julgar pelo conceito dos cursos e de suas publicações a nível internacional. Aliado a bons programas de pós-graduação, a presença de órgãos públicos de pesquisa de qualidade, como é o caso da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), viabilizam a competitividade da soja brasileira. Este órgão, subordinado ao Ministério da Agricultura, tem por finalidade desenvolver produtos e tecnologias que contribuam para o aumento da eficiência da agricultura. No caso da soja, a EMBRAPA teve um papel fundamental em seu desenvolvimento, particularmente, em sua expansão para a região do Cerrado. Sendo responsável por cerca de 60% da oferta de sementes de soja no mercado nacional, em função das cultivares desenvolvidas (PIMENTA, 2008). Além disso, a EMBRAPA desenvolveu variedades de alta qualidade nutricional, especiais para novas áreas agrícolas, para solos ácidos ou encharcados, e resistentes a doenças e pragas. Surgiram tecnologias de mecanização, de irrigação, de armazenamento, de correção de solo, de rotação de culturas, de adubação e de plantio direto. Também, o zoneamento agroclimático de várias regiões foi elaborado e épocas de semeadura e colheita são definidas com boa segurança. Cerca de 53% da área brasileira semeada com soja utilizam cultivares desenvolvidas com sua participação. A existência de grandes áreas para o cultivo da planta, e de uma fronteira agrícola que ainda está se desenvolvendo, contribui para a produção em larga escala. Para Ferraz et al. (1997, 136), “a plantação de soja é adequada para a produção em larga escala e o deslocamento da fronteira em direção ao Centro-Oeste trouxe incrementos de produtividade de cerca de 15%”. O desenvolvimento tecnológico nesta região permitiu que sua produção de grãos correspondesse a 40% da produção nacional. A soja, típica de clima temperado, teve seu cultivo expandido rumo à região Centro-Oeste, atingindo 5,59 milhões de hectares em 2001. 6 A redução de custos, em virtude da escala de produção, tornou-se um fator de vantagem competitiva. Por todos estes fatores, aumento da demanda e de exportações, uso intensivo de tecnologia e modernas técnicas de plantio, bem como de grandes áreas para cultivo, proporcionando economias de escala, que o Brasil tornou-se um dos maiores e mais competitivos produtores desta oleaginosa no mundo (REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO SUL, 2006). O setor serve de exemplo para outros do país, além de um bom case de sucesso e um bom estímulo para os empresários e empreendedores brasileiros, mostrando que se tem condições plenas de ser bem sucedidos na economia mundial. 4. Aspectos metodológicos A presente seção apresenta os aspectos metodológicos do trabalho. Optou-se por fazer uma divisão em dois temas: um referente ao processo de coleta de dados e outro sobre o caso analisado, a saber, o município de Augusto Pestana - RS. 4.1 Instrumento e coleta de dados Ao delimitar a pesquisa, procurou-se priorizar o perfil das propriedades rurais, o perfil dos agricultores, a adoção de novas tecnologias e de inovações nas propriedades. Para isto foram aplicados questionários a 41 agricultores de soja da cidade de Augusto Pestana - RS. O município foi escolhido por uma questão de facilidade de acesso aos dados e entrevistados pelo pesquisador, bem como pelo fato de o mesmo ser um dos maiores produtores de grãos do Rio Grande do Sul e um dos 5 maiores produtores de leite (PREFEITURA MUNICIPAL DE AUGUSTO PESTANA, 2008). O instrumento de coleta de dados foi um questionário com perguntas fechadas, utilizando escala de Likert. Além de aplicação de questionários foram realizadas visitas in loco nas propriedades rurais participantes da pesquisa, com realização de conversas informais e coleta de imagens dos locais. A amostra analisada não é probabilística, mas por conveniência. Nesse sentido, as conclusões do trabalho não podem ser generalizadas, mas entendidas dentro de um contexto, que é o município e a região em que se insere. Procurou-se analisar propriedades de portes diferentes (áreas de terras) e de localidades diferentes (mais de 5 localidades diferentes dentro do município), para que se constituí-se uma análise mais completa do quadro apresentado. Os dados foram analisados com o uso do Software Sphix® Léxica. 4.2 Descrição do contexto: o município de Augusto Pestana-RS O município de Augusto Pestana foi fundado em 14 de maio de 1965 e está localizado na Mesorregião Noroeste Riograndense, situada no extremo sul do Brasil, a 411 Km da capital Porto Alegre, tem sua origem territorial do município de Ijuí, Santo Ângelo e Cruz Alta e uma área de 347,44 ha (LIMA et al., 2007). Segundo a Prefeitura Municipal (2008), a população de Augusto Pestana é de cerca de 7.273 habitantes, sendo que 60% vive no meio rural. Apresenta um índice de desenvolvimento humano de 0,786, sendo considerado alto em uma escala de 0 a 1. A composição étnica se constitui de 50% de origem alemã 40% de origem italiana e 10% de origem nativa da região da campanha. 7 A economia municipal é baseada na produção primária, com 95% da área mecanizável. A atividade primária se dedica à produção de grãos como soja, trigo e milho, pecuária leiteira e de corte, piscicultura, hortigranjeiros e floricultura. Como forma de incentivo à diversificação e redução da monocultura, estão surgindo as agroindústrias familiares que utilizam a matéria-prima produzida no município como a de cachaça, de vinhos, rapaduras, frutas cristalizadas e geléias, queijos, erva-mate e panificados, que colocam o município em evidencia a nível regional. Destacam-se ainda o comércio, a indústria, o artesanato e prestação de serviços, fábricas de móveis, olarias, ervateiras, empresas de transporte, em especial para as de confecção de vestuário (PREFEITURA MUNICIPAL DE AUGUSTO PESTANA, 2008). Do ponto de vista do Zoneamento Agroclimático, Augusto Pestana pertence à região 8 Missioneira de Santo Ângelo e São Luis, não apresentando importantes limitações climáticas para o desenvolvimento de um conjunto relativamente grande de atividades agropecuárias. O Quadro 01 a seguir apresenta as principais culturas cultivadas no município: Preferencial Alfafa Arroz Fumo Limão SOJA Feijão Milho Trigo Forrageira de Verão Tolerada Cana Laranja Mandioca Pêssego Sorgo Forrageiras de Inverno Marginal Cebola/Alho Batatinha Inapta Videira (Européia) Videira (Americana) Maça Cana Banana Abacaxi Fonte: Lima et al., (2007), citando Plano de Desenvolvimento Regional Rural Região da AMUPLAN. 2003. Quadro 01: Aptidão Climática das Principais Culturas do Município1 O município de Augusto Pestana se caracteriza como um município com pequenas propriedades, ao contrário da cidade de Rio Verde - GO, analisada por Barreto (2007), em trabalho semelhante, onde as propriedades são de grande porte. O Quadro 02 a seguir apresenta a estrutura fundiária do município: ANO 1995 0 a 5 ha 5 a 10 ha 10 a 20 ha 179 278 485 20 a 50 50 a 100 ha ha 426 92 100 a 200 ha 200 a 500 ha 13 10 500 a Mais de TOTA 1000 ha 1000 ha L 1 0 1484 Fonte: Lima et al., (2007). Quadro 02: Estrutura fundiária (número total de estabelecimentos agropecuários) Como se pode perceber pela análise dos dados apresentados, o município possui população reduzida e base econômica sustentada na agricultura familiar. Há uma intensa busca pela diversificação e de alternativas à monocultura e ao êxodo rural. Propriedades de pequeno porte influenciam na pesquisa sobre inovação no agronegócio, como será mostrado 8 adiante, uma vez que a adoção de tecnologia e novos conhecimentos é mais influenciada pelas cooperativas e não tanto por empresas individuais. 5. Análise dos dados Nesta seção optou-se por realizar uma divisão dos temas. Na primeira parte são descritos o perfil das propriedades rurais e dos produtores, como forma de melhor compreender o processo de inovação. Na segunda parte, são tratadas as questões referentes à adoção de novas tecnologias e inovação. 5.1 O perfil das propriedades rurais analisadas Como pôde ser observado no Quadro 02, na seção sobre métodos, a estrutura fundiária do município é caracterizada por pequenas propriedades rurais, de mão-de-obra predominantemente familiar e com base na policultura (cultivo de várias culturas, como soja, trigo, milho e outras). A Figura 01 apresenta e confirma o já descrito, pois percebe-se que 78% das propriedades pesquisadas possuem até 50 Hectares. área de 0-25ha 31,7% de 26ha - 50ha 46,3% de 51ha - 100ha 12,2% de 101ha - 500ha mais de 500ha 7,3% 2,4% Figura 01: Tamanho das propriedades analisadas Em relação à escolaridade, 48,8% dos respondentes possuem ensino fundamental incompleto; 17,1% possuem ensino fundamental completo; 24,4% possuem ensino médio completo e 2,4% ensino médio incompleto. Isso demonstra que, em geral, o grau de escolaridade dos agricultores pesquisados é bastante baixo, apresentando menos de 08 anos de estudo. Não houve respondentes com ensino superior, nem pós-graduação. Além disso, o índice de ensino médio de 24,4% também é reduzido. Com relação ao tempo na atividade, os dados chamaram a atenção. Isso porque, a grande maioria dos entrevistados está na atividade entre 30 e 50 anos. O tempo médio observado foi de 30,75 anos, o que demostra um alto grau de envelhecimento da população rural. O mesmo pode ser explicado em virtude do exôdo rural verificado, uma vez que a população jovem e mais qualificada abandona o campo em busca de oportunidades na cidade. E necessário que este aspecto seja observado, já que pode haver a médio e longo prazo problemas na sucessão das famílias e na produção agrícola. Um dado que confirma o êxodo rural observado é o referente ao número de pessoas envolvidas na atividade rural. A Figura 02 a seguir apresenta as observações : 9 pessoas Menos de 2,00 2,4% De 2,00 a 4,00 De 4,00 a 6,00 78,0% 2,4% De 6,00 a 8,00 9,8% De 8,00 a 10,00 2,4% De 10,00 a 12,00 2,4% 12,00 e mais 2,4% Figura 02: Número de pessoas na envolvidas na atividade Observa-se que a maior parte das propriedades conta com um número que varia de 2 a 4 pessoas, normalmente pai, mãe e um filho ou empregado. Em geral, as propriedades que apresentaram maior número de pessoas são as de grande porte, que envolvem muitas vezes mais de uma família e vários empregados. Como mencionado, em virtude de acentuado exôdo rural e até de redução de população o número de pessoas nas propriedades e na zona rural vem diminuindo nos últimos anos. 5.2 O processo de inovação e adoção de novas tecnologias Quando questionados sobre a atualização, ou seja, se os agricultores buscavam constantemente novidades, notícias, informações sobre seu setor de atuação, dentro de uma ótica de análise de ambiente, as respostas foram positivas, como pode ser observado na Figura 03: atualização Discordo amplamente 2,4% discordo 2,4% indiferente 24,4% concordo concordo amplamente 41,5% 29,3% Figura 03: Busca de atualização sobre novas tecnologias/processos Observou-se pela análise dos dados que aproximadamente 70% dos pesquisados se mantém atualizado a respeito de novas tecnologias que possam melhorar seu trabalho e aumentar sua produtividade. O que não significa de que tais tecnologias serão adotadas. A atualização se dá principalmente por noticiários, dias de campo (visitas a propriedades modelo ou empresas técnicas), palestras ou contato com profissionais ligados à área e que prestam assessoria, como agrônomos. Sobre este aspecto, Llewellyn (2007), ressalva que a informação cumpre importante papel para a decisão de adotar ou não determinada tecnologia, em se tratando do meio rural. Analisando casos de fazendas australianas, o autor observou que índices de adoção lenta de tecnologias, mesmo sendo fonte de lucros, são frequentemente notados e que dois fatores são importantes para a decisão de adotar determinada tecnologia: tempo e capacidade de 10 processar novas informações. Especialmente informações de qualidade são importantes para a tomada de decisão. A participação em grupos, como o de vizinhos, foi observado como importante forma de busca de atualização, tal como estudado por Silva e Rocha (2007). Assim, o indicador apresentado na Figura 03, que mostra um grande percentual de respostas positivas, confirma a importância da informação, embora com o ressaltado por Llewellyn (2007), nem sempre o aceso à informação leva à decisão. Buscou-se ainda saber sobre a participação em seminários, como fonte de informações. Promovidos geralmente por cooperativas ou empresas vendedoras de sementes, fertilizantes ou defensivos agrícolas, são importantes porque apresentam novas variedades de cultivares, novas técnicas rurais bem como aumentam o intercâmbio de conhecimentos. Assim, 56,1% dos pesquisados afirmaram participar destas atividades; 34% se mantiverem indiferentes e 9,7% não participam. Embora se considere boa à participação, o percentual de indiferentes é alto. Quando questionados sobre a busca por atualização de máquinas, equipamentos e ferramentas, como componentes importantes para o processo de inovação no campo, as respostas não foram positivas. Isso porque 43,9 % dos pesquisados se mostrou indiferente (ou incapaz) de atualizar seu parque de máquinas, com plantadeiras, tratores, equipamentos para aragem e pulverização, essenciais para aumento da produtividade, ganhos de escala e incorporação de novas tecnologias na propriedade. Cerca de 40% dos pesquisados disse buscar atualizar o parque de máquinas, embora com alguma dificuldade, enquanto que 14,7% disseram não buscar a atualização por não possuírem condições financeiras. Em geral, nas visitas in loco observou-se que a idade média do maquinário varia entre 20 e 30 anos, embora estejam em boas condições de uso. Este aspecto compromete a produtividade, aumenta gastos com manutenção e reduz a possibilidade de incorporação de novas tecnologias no campo, uma vez que os equipamentos se encontram obsoletos. Em relação à busca e adoção de novas formas de manejo/produção, no contexto que Bateman e Snell (1987) chamam de melhorias incrementais, especialmente melhorias de processo, os resultados são apresentados a seguir: formas de produção Discordo amplamente discordo 2,4% 4,9% indiferente 14,6% concordo 41,5% concordo amplamente 36,6% Figura 04: Busca e adoção de novas formas de manejo / produção Na Figura 04 é possível observar que a busca e adoção de novas formas de produção é uma constante. Isso porque mais de 70% dos pesquisados respondeu afirmativamente à questão, procurando e adotando melhorias nos processos que possibilitem ganhos de produtividade e rentabilidade. Entre as novas formas de manejo de produção destaca-se a adoção de técnicas como plantio direto na palha2, rotação de culturas3, uso de novos tipos de equipamentos, consórcio de cultivares4 e até mesmo uso compartilhado de máquinas e 11 equipamentos. Nesse sentido, há uma preocupação com novas formas de produção, mesmo que sejam pequenas melhorias incrementais nos sistemas existentes. Em relação à adoção de novas tecnologias, que podem advir de várias formas (novas variedades de sementes, novos defensivos mais eficientes, novas máquinas e equipamentos, novos sistemas de previsão do tempo entre outros) os dados foram bastante positivos. Uma exceção ocorre no caso de máquinas e equipamentos, que, como mencionados, já estão em idade média avançada. Procurou-se analisar o termo “tecnologia” dentro do conceito apresentado por Cristhensen (1997) que a entende a mesma como sendo o meio que uma empresa transforma trabalho, capital, materiais e informação em produtos e serviços de maior valor. Os dados estão assim configurados: tecnologias Discordo amplamente 0,0% discordo 4,9% indiferente 14,6% concordo 48,8% concordo amplamente 31,7% Figura 05: Adoção de novas tecnologias Como apresentado na Figura 05, parece haver um esforço por parte dos produtores rurais no sentido de adotarem novas tecnologias. Um exemplo típico é a nova semente de soja transgênica batizada de ˝Inox˝ pela EMBRAPA5, resistente à ferrugem asiática, uma doença altamente contagiosa que ataca a soja. Mesmo a incorporação da soja transgênica foi rápida (de forma ilegal, nos primeiros anos), uma vez que sua produtividade é mais alta. O grande volume de pesquisas e investimentos tanto por parte de empresas privadas quanto públicas facilita este processo. Qualquer ganho de produtividade é buscado, e em geral os agricultores são abertos a novidades. Quando questionados sobre se há uma busca por inovação, por ser inovador, as respostas foram positivas6. A Figura 06 apresenta os resultados: inovar Discordo amplamente 0,0% discordo 2,4% indiferente 36,6% concordo concordo amplamente 39,0% 22,0% Figura 06: Busca por inovação Como apresentado na Figura 06, mais de 60% dos pesquisados observou que procura inovar de alguma forma em sua propriedade. Aqui se utilizou o conceito de Bateman & Snell (1998), considerando inovação como uma mudança da tecnologia, um abandono das formas de se fazer as coisas de forma tradicional. Essas mudanças podem ser radicais ou 12 incrementais, nos produtos ou nos processos. Essa definição faz muito sentido, porque geralmente em propriedades rurais familiares a questão do tradicional, do artesanal se mantém. Assim, certas atividades são realizadas de maneira tradicional, pois quem possui poder de decisão é o patriarca da família, o membro mais velho. Isso dificulta o processo de inovação. O tempo na atividade (descrito no início do item) e o baixo número de pessoas na propriedade limita, mas não impede, a busca da inovação, como pode ser observado. A questão da busca pela inovação foi considerada na presente pesquisa, por se entender, como fazem Kelley e Littman (2001), que tal busca precisa ser um processo constante, continuamente sendo buscado e melhorado. Não basta ser inovador por um tempo, pois o que poderia se tornar uma vantagem competitiva duradoura passaria a ser efêmera Chama atenção o considerável percentual de indiferentes (36,6%) em relação à inovação, o que pode comprometer o processo a médio/longo prazo. A questão que se coloca aqui é: como se comportaram esses números com relação ao tempo? Será que os percentuais serão mantidos nos atuais patamares? Vale lembrar que o termo “inovação” foi explicado ao pesquisado, no momento de preenchimento do questionário pelo pesquisador. Isso porque em muitos casos há um desconhecimento do termo e para que se evitasse um possível viés na pesquisa. 5.2 Cruzamentos Para a análise de fatores que influenciam de forma mais intensa ou mais reduzida na busca pela inovação em propriedades rurais, foram realizados alguns cruzamentos entre as variáveis analisadas. Buscou-se analisar, em um primeiro momento, dois fatores: grau de instrução do chefe da família e tamanho da propriedade. A Figura 7 apresenta o cruzamento do grau de instrução com a busca pela inovação na propriedade: instrução x inovar 20 ensino fundamental incompleto 7 ensino fundamental completo 1 ensino médio incompleto 10 ensino médio completo 0 nível superior Discordo amplamente discordo indiferente concordo concordo amplamente Figura 07: Cruzamento entre grau de instrução e busca pela inovação Na análise da Figura 07, não parece haver maior impacto do grau de instrução na busca da inovação. Interessante até é o fato de que houve um pequeno percentual de discondância em pessoas com nível médio completo, e um alto percentual de respostas positivas nos níveis de instrução mais reduzidos. A Figura 08 apresenta os resultados do cruzamento da variável área (ou tamanho da propriedade) com a busca pela inovação: 13 área x inovar 13 de 0-25ha 19 de 26ha - 50ha 5 de 51ha - 100ha 3 de 101ha - 500ha 1 mais de 500ha Discordo amplamente discordo indiferente concordo concordo amplamente Figura 08: Cruzamento da variável área com a busca pela inovação Em relação ao cruzamento da variável área com a busca pela inovação, parece haver uma influência. Isso porque a resposta “concordo amplamente”, por exemplo, teve maior proporção em extratos com áreas maiores. Além disso, produtores de pequenas propriedades se mostraram mais indiferentes ou até mesmo discordando com a questão da busca da inovação. O percentual de “concordo” teve maior percentual de respostas no extrato com área de 25 a 50 hectares. Tal resultado difere do encontrado por Mendola (2007), estudando propriedades produtoras de arroz em Madagascar. Em seu estudo, Mendola (2007) não encontrou correlação positiva entre índices de escolaridade e de adoção de tecnologias. Também não houve correlação positiva em termos de impacto do tamanho da propriedade e adoção de tecnologia. Contudo, o que o autor afirma impactar, na adoção de tecnologia por produtores rurais no país analisado é a qualidade da terra da propriedade. Como exemplo o autor destaca que áreas que são mais facilmente irrigáveis podem produzir mais e assim gerar maiores retornos para investimentos em tecnologia. Contudo, acredita-se que devido ao fato de as terras no município de Augusto Pestana possuírem qualidades muito semelhantes entre as propriedades, tal conclusão não se aplica no caso aqui pesquisado. 6. Considerações finais Com o objetivo de analisar quais fatores possuem maior ou menor impacto no processo de inovação no agronegócio, especialmente considerando propriedades rurais produtoras de soja, realizou-se pesquisa com agricultores localizados em um município com forte base agrícola, no noroeste do RS. Duas linhas podem ser desenvolvidas na conclusão: uma que analisa as propriedades e seus proprietários rurais e outra que analisa os aspectos referentes à inovação. Com relação à primeira percebe-se que há, no município analisado, uma predominância de pequenas propriedades (minifúndios) que utilizam mão-de-obra predominantemente familiar. O tempo na atividade do chefe da família é alto, cerca de 30 anos e o número de pessoas envolvidas na propriedade é bastante baixo. Também, é reduzido o grau de escolaridade da população analisada, com predominância para ensino fundamental incompleto. Quanto ao processo de inovação, foi observada uma busca por atualização, mas que pode ser melhorada. Observou-se uma baixa atualização das máquinas e equipamentos, talvez tendo em vista o tamanho das propriedades analisadas e períodos de crises/secas no campo. Há uma busca por novas formas de produção e por novas tecnologias, como novas variedades de sementes e defensivos agrícolas, principalmente. A busca por inovação, por realizar tarefas 14 e atividades de forma diferente e inovadora, apresentou resultados razoáveis, já que pouco mais de 1/3 dos respondentes se mostrou indiferente. Os cruzamentos apresentaram dois resultados interessantes: por um lado, o de que o grau de instrução não impactou de forma considerável na busca de inovação pelo produtor rural, como seria de se esperar; por outro lado, o tamanho da propriedade teve impacto considerável. Isso pode se explicado pelo ganho de escala e rentabilidade proporcionado por áreas maiores, que permitem realizar investimentos em novas tecnologias e buscar a inovação, especialmente de forma externa à propriedade. Como limitações, o estudo apresenta o fato de não ter analisado questões como impactos das redes sociais (vizinhos, amigos, vendedores), ou de assistência (agrônomos, entidades do governo e de empresas). O contexto sócio-econômico também sido reduzido, ao contrário do trabalho desenvolvido por Silva e Rocha (2007) em que tais fatores se fazem presentes. Além disso, os resultados não podem ser generalizados, mas entendidos dentro de um contexto, daí a importância da descrição do município em que as propriedades se encontram. Referências AQUINO NETO, Francisco Radler. O quadrante de Ruestap e a anti-ciência, tecnologia e inovação. Revista Quim. Nova, Vol. 28, Suplemento, 2005. BARRETO, Clarissa de Araújo. Agricultura e meio ambiente: percepções e práticas de sojicultores em Rio Verde - GO. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007. BATEMAN, T.S.; SNELL, S.A. Administração: construindo a vantagem competitiva. São Paulo: Atlas, 1997. BETHLEM, A. de S. Evolução do pensamento estratégico no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Atlas, 2003. BOLSA DE MERCADORIAS E FUTUROS – BM&F. Notícias. Disponível na internet em www.bmef.com.br Acesso em 08 de julho de 2008. CAPES - COORDENAÇÃO DE APRFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR. Avaliação dos programas de pós-graduação em ciências rurais no Brasil. Disponível na internet em www.capes.gob.br/avalização. Acesso em 30 de junho de 2008. CHRISTENSEN, Clayton M. The innovator’s dilemma: when new technologies cause great firms to fail. Boston: Harvard Business School Press, 1997. COOPER, Robert G. Winning at new products: accelerating the process from idea to lunch. New York, EUA, Basic Book, 2001. DACORSO, Antônio Luiz R.; YU, Abraham Sin Oih. Inovação e risco na pequena empresa. In: SBRAGIA, Roberto; STAL, Eva (Editores). Tecnologia e inovação: Experiências de gestão na micro e pequena empresa. São Paulo: PGT/USP, 2002. DOSI, G. Technical change and economic theory. London; New York: Pinter Publishers. 1988. EMBRAPA - EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Informações sobre a agricultura brasileira, pesquisas e tecnologias relacionadas à produção de grãos. Disponível na internet em http://www.embrapa.gov.br/soja . Acesso em 11 de abril de 2008. 15 FERRAZ, Eduardo. O motor da inovação. Revista EXAME. São Paulo, n. 20, p. 46-55. 02 de Outubro de 2002. FERRAZ, J. C; KUPFER, D. e HAGUENAUER, L. Made in Brazil: Desafios Competitivos para a Indústria. Rio de Janeiro; Campus, 1997. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4.ed. São Paulo: Atlas, 1995. GLUCK, F.; KAUFMAN, S.; WALLECK, A. S. The four phases of strategic management. Journal of Business Strategy, Winter, n. 2, p. 9-21, 1982. IBGE-INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Informações do setor. Disponível na internet em www.ibge.gov.br . Acesso em 25 de março de 2004. KELLEY, Tom e LITTMAN, Jonathan. The art of innovation: lessons in creativity from IDEO, America`s leading design firm. New York, EUA, Doubleday, 2001. LEWITT, Theodore. Imaginação de marketing. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2000. LIMA, Arlindo J.P.; HENNING, Cristiane De C.; BENETT, João E.F. Plano estratégico de desenvolvimento agrícola do município de Augusto Pestana-RS. Ijuí-RS: UNIJUÍ, 2007. Disponível em CD-ROM. LIMA, Marcos C.; TEIXEIRA, Francisco C. Lima. Inserção de um agente indutor da relação universidade-empresa em sistema de inovação fragmentado. Revista de Administração Contemporânea, n. 2 v. 5, maio/ agosto de 2000. LLEWELLYN, R. S. Information quality and effectiveness for more rapid adoption decisions by farmers. Field Crops Research, N. 104, 2007, p. 148–156. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. Informações do setor. Disponível na internet em www.agricultura.gov.br. Acesso em 25 de março de 2004. MONTGOMERY, C.; PORTER, M. Estratégia: A busca da vantagem competitiva. Rio de Janeiro: Campus, 1998. PIMENTA, Ângela. Sinal amarelo para a EMBRAPA. Anuário Exame Agronegócio 20082009, São Paulo, junho de 2008. PORTER, M. E. Competição: estratégias Competitivas Essências. Rio de Janeiro: Campus, 1999. PREFEITURA MUNICIPAL DE AUGUSTO PESTANA. Dados gerais do município. Disponível em www.pmaugustopestana.com.br Acesso em 16 de junho de 2008. REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO SUL. Indicações técnicas para a cultura da soja no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina 2006/2007. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2006. 237 p. (versão on-line) SCHUMPETER, Joseph. A Teoria do Desenvolvimento Econômico (1912). São Paulo: Ed. Abril, 1982. SILVA, Danille Wagner; ROCHA, C. G. S. Inovações na agricultura familiar: fatores que influenciam no processo de adoção de tecnologias. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE SISTEMAS DE PRODUÇÃO, 2007, Fortaleza. VII CBSP - Agricultura familiar, políticas públicas e inclusão social: novas políticas - novas práticas? 2007. WANG, T. Y.; CHEN, S. C.; KAO, C. The role of technology development in national competitiveness - Evidence from Southeast Asian countries. Technological Forecasting & Social Change, N. 74, 2007. 16 WOLF, Steven A. Professionalization of agriculture and distributed innovation for multifunctional landscapes and territorial development. Agric. Hum. Values, N. 25, 2008, p. 203–207. 17 1 Legenda: Preferencial: Áreas que possuem as melhores condições climáticas para o cultivo; Tolerada: Áreas que possuem um fator negativo para o cultivo; Marginal: Áreas que apresentam dois fatores negativos para o consumo; Inapta: Áreas inadequadas para o cultivo. 2 Metodologia de plantio que não utiliza aragem do solo, nem queimadas. O plantio ocorre sobre a palha da cultura anterior, que foi colhida. O sistema evita erosão do solo e melhora a produtividade. 3 Plantio alternado de culturas em uma mesma área. 4 O plantio simultâneo, de duas ou mais culturas, em uma mesma área, como pastagens em áreas de plantio de eucaliptos. 5 Fonte: AGROLINK - PORTAL DE AGRONEGÓCIO. Notícias. Disponível na internet em www.agrolink.com.br Acesso de 06 de julho de 2008. 6 Há um viés de pesquisa neste ponto. Isso porque dificilmente o respondente irá responder que não é inovador, para com isso se excluir do grupo ou ser “mal visto” pelo pesquisador. Estimulou-se a maior sinceridade possível nas respostas. 18