Comunicacoes
´ Modernidade, Instituicoes
´
e Historiografia Religiosa no Brasil
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FRAGMENTAÇÃO E DESMEMBRAMENTO: A LÓGICA
DIOCESANA NO ESPAÇO FLUMINENSE
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Ana Carolina Lobo Terra1
Graduanda em Geografia pela UERJ
[email protected]
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Considerações Iniciais
Os estudos atentos a discutir a dinâmica espacial do sagrado vêm crescendo nos
diálogos da ciência geográfica. O sagrado é percebido através das formas,
funções, processos e estruturas através das quais produz, marca, legitima, delimita e
regula o espaço geográfico. A crença, a fé e a prática religiosa permitem ao
homem religioso vivenciar seus espaços sagrados – marcados por um “ponto fixo”
de hierofania e um entorno onde ocorrerão as práticas religiosas – em tempos
sagrados, retirando-se assim de seu cotidiano e religando o mesmo ao
extraordinário (ROSENDAHL: 1996, 1997 e 2003).
Com o intuito do religar-se, o homem religioso adotará uma moral, somada
a um conjunto de normatizações e práticas, intitulando tal sistema de igreja e
tencionando que todos creiam na mesma (DURKHEIM, 1968). Assim teremos a
criação de uma unidade coletiva marcada por uma identidade religiosa.
Cada religião terá em sua gênese estruturas e normas de condutas próprias.
Nesta investida cientifica, trataremos da estrutura da Igreja Católica Apostólica
Romana, objetivando descortinar as territorialidades de sua ação no espaço
fluminense. O ensaio será constituído pelos seguintes momentos: (a) Geografia e
Religião: algumas contribuições, onde serão lidos, com brevitude, estudos sobre a
relação científica entre geografia e religião; (b) Território Religioso Diocesano, neste
momento serão discutidos os territórios religiosos diocesanos propriamente ditos –
de abrangência escalar regional – e como estes detêm identidades socioterritoriais
(c) Mapeamento Diocesano no Espaço Fluminense, visando apresentar a
configuração da rede diocesana no referido recorte de análise; e, por fim, (d)
Apreensões, onde serão impressas as conclusões apreendidas. Passemos então ao
primeiro foco desta contribuição.
1
Bolsista do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura – NEPEC.
Geografia e Religião: algumas contribuições
O mundo atual dinâmico, globalizado, traz em seu escopo transformações
nas diversas esferas da vida humana. Dentre as modificações, perceberemos o
retorno da religião a vida cotidiana e, conseqüentemente, as discussões científicas,
o que desencadeará na busca de metodologias próprias para o estudo desta
temática pelas ciências humanas. Mas como o geógrafo, cientista espacial, lerá a
religião? Dentre as diversas possibilidades de olhares, caberá ao geógrafo, que
estabelece como objeto central de sua análise a religião, encarar o fenômeno sob a
dimensão espacial. Para tal, o geógrafo deverá reconstruir teoricamente o papel do
sagrado na (re) criação do espaço, reconhecendo o sagrado não como simples
aspecto da paisagem, mas como elemento de produção do espaço (ROSENDAHL,
1996).
A geografia da religião ainda é recente em sua trajetória. Pode-se perceber
como marco do início efetivo dessa temática a segunda metade do século XX, mas,
percebemos nas contribuições de Fickeler (1947), Deffontaines (1948), Sorre (1957)
e Sopher (1967) menções a discussão do fenômeno religioso. Cada autor seguirá
uma análise e o confrontar destas idéias permitirá perceber duas etapas. A primeira,
lida como tradicional e demarcada entre os anos de 1940 e 1970, é caracterizada
pelos estudos cernentes a uma realidade religiosa sem a preocupação com
símbolos e demais representações do sagrado no espaço (ROSENDAHL, 2008). Na
segunda etapa, encontraremos a marca dos estudos da corrente humanística.
Assim, gerou-se a necessidade de desvelar as sensações vivenciadas pelo homem e
pelo grupo religioso ao qual ele pertence, com base no seguinte questionamento
“Qual a relação entre o homem e seus deuses e como esta pode ser percebida no
espaço?”. Esta etapa norteou as produções nas décadas seguintes, enfatizando, a
partir da década de 1990, as discussões acerca do sagrado e do profano.
Dentre as possibilidades para o estudo das relações entre geografia e
religião, encontraremos, na geografia da religião brasileira, primeiramente, a
proposta de quatro eixos temáticos. São eles: (a) fé, espaço e tempo: difusão e área
de abrangência (b) centros de convergência e irradiação, (c) religião, território e
territorialidade – aporte metodológico desta pesquisa – e, por fim, (d) espaço e
lugar sagrado: vivência, percepção e simbolismo (ROSENDAHL, 1996). Cabe
evidenciar que na leitura dos estudos da temática, encontraremos a união dos
estudos das dimensões econômicas, políticas e do lugar oriundas da relação
sagrado e profano (ROSENDAHL, 2003).
Remetendo-nos as proposições apresentadas anteriormente, pontuaremos
como primeiro tema à relação entre o fenômeno da fé, o espaço e o tempo, tendo
assim, a interpretação das adaptações ou integrações de religiões a ambientes
estranhos ao longo de dado intervalo histórico.
A difusão da fé poderá ser analisada em outras abordagens. Uma vez que
dado grupo religioso migra para um novo espaço, poderemos observar a existência
2
das práticas de conquista de território da religião que se desloca com ele. Se
observarmos algumas pesquisas apresentadas anteriormente dentro da vertente
geografia da religião, será possível evidenciar práticas religiosas para o controle de
novos grupos e, conseqüentemente, novos territórios (BARBOSA, 2005).
Nas relações espaciais de fixos e fluxos, observaremos a existência de
Centros de Convergência e Irradiação, um possível segundo tema de análise.
Nestes santuários, a demonstração de fé ganha a impressão e marca o espaço.
Peregrinos2 de diferentes partes se deslocam para dado fixo (lugar sagrado) dentro
de uma periodicidade regular. Nesta relação teremos o envolvimento de espaço,
tempo – os lugares sagrados – e fluxos – a peregrinação. As peregrinações são
comuns à maioria das religiões e inserem as mesmas dentro de diferentes contextos
culturais. No catolicismo, teremos como maiores exemplos de centros de
convergência de peregrinos as cidades de Roma, Lourdes e Jerusalém. No Brasil
poderemos citar como exemplo de centro de convergência religiosa Nossa Senhora
de Nazaré, situada no Estado do Pará.
O objetivo dessa pesquisa, contempla no eixo temático “Religião, Território e
Territorialidade”. Baseando-se na apropriação religiosa de dados segmentos do
espaço, poderemos conceber uma análise a partir da base conceitual, visando
ressaltar o equilíbrio entre diferentes religiões ou a busca por conquista de um
mesmo espaço por cada uma delas. Com estas estratégias de controle de pessoas e
coisas, a religião se afirma como instituição – em nosso estudo, a Igreja Católica
Apostólica Romana – e atende a demanda do sagrado. Serão aqui relacionadas às
formas de apropriação afetiva e efetiva de desses territórios e as práticas
desenvolvidas por dado grupo religioso para a proteção e controle dos mesmos.
E, como último elo de análise do papel religioso na geografia, observaremos
a existência do espaço e do lugar sagrado. Como apresentado por Rosendahl
(1996) “A palavra ‘sagrado’ significa separação, e definição, sugere sentido de
ordem, totalidade e força”. O espaço sagrado será um local imbuído de
significação, seja por meio de símbolos, seja por meio de condutas. Caberá ao
homem religioso a responsabilidade de diferi-los dos demais, adotando práticas
diferentes das apresentadas rotineiramente ao inserir-se nele. A secularidade do
lugar atrai para determinado grupo religioso pode ser reconhecida pela
manifestação do poder sagrado que ele possui. Cada lugar sagrado terá um
conjunto de símbolos e ritos próprios da religião e este será aceito por um grupo
religioso específico. Refletirá a crença do grupo religioso podendo ser uma igreja,
uma sinagoga, uma mesquita, um terreiro, um templo budista, entre outros.
O sagrado irrompe sua importância no saber geográfico para a
compreensão do espaço socialmente construído. Em nossa investida científica,
poderemos reconhecer as diferenciações sócio-espaciais percebidas no
planejamento territorial religioso adotado pela instituição religiosa elencada.
2
Vale salientar que nas práticas religiosas católicas a peregrinação, diferente das demais religiões, é
denominada de romaria (ROSENDAHL, 1996).
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Os territórios, lidos como “relações de poder espacialmente delimitadas”
(SOUZA, 2003, p.97) atuam como reguladores e permitem a construção de
identidades, através de símbolos e práticas. Na próxima etapa de construção deste
estudo, discutiremos e relacionaremos como tais territórios religiosos diocesanos
marcam o espaço fluminense e exprimem territorialidade.
Território Religioso Diocesano
O espaço, objeto primaz das análises geográficas, é o futuro imediato e
passado imediato, o presente conclusivo e o inconclusivo e encontra-se sempre em
processo de renovação (CORRÊA, 2003). Sua organização espacial, fruto de
objetos ou formas espaciais, atrela-se às ações humanas e a temporalidade em que
se insere. Tal espaço, ao ser apropriado por ações e práticas de poder, ao ser
regulado por agentes, ao ter escalas e hierarquias, constitui-se como território e,
nesta função, apresenta territorialidades a fim de manter-se e adquirir novos
espaços de controle (SOUZA, 2003).
Os territórios suportarão funções sociais e simbólicas do agente que os gere,
permitindo a legitimação desses grupos e a manutenção de suas identidades
(BONNEMAISON, 1981). De fato, abarcarão a construção das identidades
socioterritorias, derivadas diretamente da necessidade deste espaço como substrato
para implantação de seus símbolos, histórias e manutenção de suas práticas sócioculturais (HAESBAERT, 1999).
Os territórios poderão ser regulados por diferentes agentes. Ao pensar na
regulação desses substratos por um agente religioso, teremos a categoria território
religioso, que “é controlado é, assim, dotado de estruturas específicas, incluindo um
modo de distribuição espacial e de gestão de espaço” (ROSENDAHL, 2005
pp.202). Possuem poder central, chefiado por um profissional religioso
especializado (BOURDIEU, 1987). Apresentando ainda “além do espaço político,
um nítido caráter cultural” (ROSENDAHL, 2005). Os sacerdotes têm jurisdição
sobre as paróquias, os bispos sobre suas dioceses, os arcebispos sobre as
arquidioceses e o Papa, em Roma, exerce o poder central dessa estrutura territorial
religiosa.
A diocese, responsável pelo controle regional, poderá ser compreendida
como “território religioso verdadeiramente presente e atuante no processo de
regulação e religiosidade católica” (ROSENDAHL, 2005 pp.205). Nesta
perspectiva, caberá ao bispo diocesano nomear os párocos ou os administradores
paroquiais, cuja missão é evangelizar e governar os católicos circunscritos dentro
dos limites dos territórios das paróquias relacionadas.
As paróquias, unidade territorial do território diocesano ou arquidiocesano
da religião, “é sempre evocada como território principal da vida das comunidades
locais” (ROSENDAHL, 2005, pp.204). A paróquia deverá ser retratada como “o
território onde se dá o controle do cotidiano, porque ela está na escala de
convivência humana – lugar de aproximação entre o local, o regional e o universal”
(ROSENDAHL, 2005, pp.204).
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A Igreja Católica Apostólica Romana caracteriza-se por ser uma organização
complexa que desenvolveu exemplos notáveis do uso da territorialidade em
diferentes espaços durante o longo tempo de sua história, até os dias de hoje. Na
leitura desta instituição, perceberemos que
“a igreja possui duas naturezas. A primeira constitui um
sistema abstrato de fé e de doutrina, originando a Igreja
invisível; a segunda refere-se às instituições sociais da Igreja.
Compreende seus membros, funcionários, regulamentos e
suas estruturas físicas, definindo a Igreja visível. Edifícios da
Igreja, propriedades, lugares sagrados, paróquias e dioceses
são lugares separados por limites, dentro dos quais a
autoridade e o acesso são controlados, constituindo-se em
territórios” (SACK, 1986, p. 93).
Desde o século IV, a Igreja Católica introduziu o costume de dividir o
território das dioceses em paróquias, mas foi somente a partir do Concílio
Ecumênico de Trento (1545 a 1564) que tal costume recebeu respaldo da Santa Sé.
Toda paróquia criada é autônoma e a responsabilidade por erigir, suprimir e
modificar limites da paróquia são de competência exclusivas do Bispo da Diocese. A
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – fragmenta o território
brasileiro em Conselhos Episcopais Regionais – CONSER – responsáveis por
interligar as dioceses de cada CONSER com dioceses de outras regiões e com a
Santa Sé (CNBB, 2004). Tal medida administrativa torna possível um controle dos
fiéis e dos territórios da Igreja.
A Igreja Católica Apostólica Romana apresenta em sua gestão a criação de
uma rede geográfica objetivando gerir seus territórios religiosos. Dias (2003) propõe
a leitura das redes geográficas como um “instrumento que viabiliza exatamente duas
estratégias: circular e comunicar”; encontramos em Corrêa (2001) as redes
geográficas como “qualquer materialidade social, produtos e condições sociais”
Corrêa (2001), indica as três dimensões de análise da rede geográfica: (a) a
dimensão organizacional, referindo-se a organização interna da própria rede; (b) a
dimensão temporal, referindo-se a duração da rede, bem como a velocidade e a
freqüência da transmissão de fluxos; e, por fim, (c) referindo-se a escala, forma
espacial e conectividade desta rede. Esta dimensão, de cunho espaço-temporal,
acaba por retratar a difusão de dado fenômeno no tempo-espaço. Assim,
objetivando a análise da territorialidade religiosa católica no recorte geográfico
proposto, poderemos ler a existência da rede diocesana – de escala regional e
regulamentada pelas ações do bispo eclesiástico – como a representação espacial
das ações, além de estratégia para o controle e manutenção de territórios religiosos
ao longo do recorte temporal proposto. A rede geográfica da Instituição Religiosa
será conectada através de seus nós, dioceses, e fluxos, informações e ações, a
serem implantados em todo o recorte territorial. Dentre as ações territoriais da
Igreja, poderemos assimilar as redes religiosas locais – responsáveis por integrar as
paróquias, entre si, e com as dioceses –.
5
As territorialidades retratadas – redes diocesanas – configuram a ação visível
à dimensão e materialização da fé católica presente no espaço. Através da leitura
da implantação destes territórios – notadamente marcados através das dioceses –
poderemos perceber os tempos e as ações de territorialidade desta instituição
religiosa, relacionando-as as transformações sócio-espaciais, demográficas e
econômicas, do recorte geográfico e comparando as diferenciações e semelhanças
do mesmo. Tais estratégias seguirão no próximo tópico desta investida científica.
Mapeamento Diocesano no Espaço Fluminense
A compreensão da difusão da rede religiosa no Estado do Rio de Janeiro
apresenta a estratégia territorial da Igreja Católica com uma dinâmica espaço–
temporal ao longo do tempo histórico brasileiro. O geógrafo Santos (1991) clarifica
esta questão ao afirmar que a organização do espaço geográfico é fruto de uma
acumulação desigual de tempo. Torna-se possível perceber neste estudo que os
tempos não são iguais para as diferentes dioceses presentes no referido recorte.
Neste contexto, uma vez que a religião se firma pela política e economia presentes
em cada lócus, a difusão da fé católica é apresentada mediante a elaboração de
tempos de difusão, os quais permitem desvendar a lógica de distribuição espacial
das dioceses.
A Rede Fluminense
Na difusão das dioceses no espaço fluminense, marcado por abruptas
diferenciações tanto no seu quadro físico quanto no socioeconômico que o coloca
em posição singular dentre os estados brasileiros, poderemos reconhecer
diferenciações sócio-espaciais figuradas no planejamento territorial da Igreja
Católica. A lógica de implantação dos territórios religiosos diocesanos no espaço
fluminense funda-se na hierarquia dos lugares centrais (CORRÊA, 2001; e RIBEIRO,
2002) e segue, em primeira importância, a lógica de ocupação populacional deste
Estado. Partindo do litoral ao interior, veremos o desmembramento de dioceses ao
longo do recorte temporal estudado.
Visando compreender esta difusão, criamos uma escala temporal para a
análise. Como centro de difusão,
difusão pontuaremos a diocese primaz do espaço
fluminense; o T1 será a primeira diocese erigida desmembrada do foco inicial; no
T2 serão enquadradas as dioceses desmembradas visando atender a demanda
populacional do Estado; o T3 se remeterá às dioceses construídas no contexto do
pós-guerra e na transformação da Igreja Católica no Brasil (década de 60), quando
a mesma se ausenta de um olhar meramente “elitista” e passa a creditar uma
política de proteção aos “desfavorecidos” socialmente (BARBOSA, 2005); e, por
fim, o T4, que remeter-se-á as dioceses erigidas no final da década de 80, quando
o Estado passa por um novo rearranjo socioeconômico. Tais vislumbres temporais
poderão ser percebidos no mapa a seguir:
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A primeira diocese criada no Estado do Rio de Janeiro impregnou à
população da época uma nova consciência de identidade religiosa e de pertença à
Igreja. Foi implantada em um dos três grandes centros regionais da rede urbana
brasileira da época, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A diocese é
datada de 1676 e reconhecida como Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro,
e deriva da antiga prelazia de São Sebastião – criada à jurisdição espiritual do
Bispo da Bahia em 1575 – e subordinada a Sé de São Salvador da Bahia e à
Diocese de Olinda.
A diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro manteve-se durante um amplo
recorte temporal como única gestora do espaço fluminense. A estagnação para a
difusão de novos territórios se deve ao fato que, tanto no Brasil-Colônia quanto no
Brasil-Império, o Sistema Padroado Vigente, freou, por parte da autoridade civil,
incentivos e interesses em criar novas dioceses. A literatura nos permite refletir que
das estratégias territoriais adotadas pela instituição religiosa católica, neste período,
tem-se a realização de uma função religiosa de abrangência local e, não, regional.
Isto é, o poder paroquial supria a ausência do poder diocesano junto à população
religiosa, sendo este somente restabelecido durante as visitas do Bispo diocesano as
comunidades. Esta realidade começa a modificar-se a partir da Proclamação da
República (1889). Em 1892, o espaço fluminense recebe a Diocese de São
Lourenço de Niterói, situada na cidade portuária de Niterói – cidade de forte
expressão na rede do Estado – e responsável, na época de sua implantação, por
gerir partes do espaço fluminense, além da capitania do Espírito Santo.
A população fluminense teve seu crescimento e, devido a outros movimentos
ocorridos os ciclos econômicos, a interiorização ocorre no contexto político da
época. No contexto surge a demanda por novos desmembramentos diocesanos,
visando atender a demanda da fé. Em novo contexto econômico e político, a
periodização escolhida neste estudo valoriza o desmembramento da Diocese de
São Lourenço de Niterói – atual arquidiocese de Niterói – para a criação da
Diocese de Campos (1922), justificando assim a interiorização e o litoral. A cidade,
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uma das maiores áreas produtoras da cana-de-açúcar durante este ciclo econômico
brasileiro, apresenta-se, atualmente, como sede da microrregião de Campos dos
Goytacazes (MARAFON; RIBEIRO; SILVA; DA SILVA E LIMA, 2005).
Ainda na década de 20 do século XX, teremos, a partir dos
desmembramentos das Dioceses de Niterói e de São Sebastião do Rio de Janeiro, a
criação da Diocese de Valença (1925), responsável por gerir os municípios de:
Comendador Levy Gasparian, Miguel Pereira, Paraíba do Sul, Paty de Alferes, Rio
das Flores, Sapucaia, Três Rios, Valença (cidade-sede) e Vassouras. A cidade de
Valença justifica sua importância como cidade central por ter desempenhado
diferentes funções nos diferentes momentos históricos do Estado do Rio de Janeiro.
A mesma teve sua função central tanto pela ferrovia na época do café – período em
que se implantou a diocese – quanto pelas indústrias alimentares relacionadas à
atividade pecuarista na atualidade.
Na década de 40 do século XX, teremos um novo tempo na difusão dos
territórios diocesanos com a implantação da Diocese de Petrópolis, desmembrada
das Dioceses de Volta Redonda e de Niterói, situada na cidade homônima de
expressivo desenvolvimento econômico e responsável por gerir os municípios da
Região Serrana Fluminense, a saber: Areal, Guapimirim, Magé, Paraíba do Sul,
Petrópolis, São José do Vale do Rio Preto, Teresópolis e Três Rios.
Na década de 60 do século XX, teremos a implantação de três dioceses
situadas em diferentes realidades econômicas fluminense: a) a Diocese de Nova
Friburgo (1960), derivada das Dioceses de Valença, de Niterói e de Campos, que
se situa na cidade de Nova Friburgo na Região Serrana Fluminense. Vale aqui
salientar que o processo de ocupação desta região na dinâmica do espaço
fluminense ocorreu, inicialmente, em função da fixação de “pousos de tropas”,
destinados a servir de abrigo, em fins do século XVIII, a explorados de minerais nas
terras auríferas da região de Cantagalo (MARAFON; RIBEIRO; SILVA; DA SILVA E
LIMA, 2005). Esses núcleos formados por colonos e pioneiros transformaram-se em
povoados e vilas ao longo do século XIX. Tendo, no século XX, sua utilização e
crescimento econômico atrelado ao turismo e ao cultivo de hortifrutigranjeiros. A
cidade de Nova Friburgo configura-se com um centro regional da área e sua
diocese controla as paróquias situadas em municípios que atendem tanto a Região
Serrana como ao Norte e Noroeste Fluminense nos municípios de: Bom Jardim,
Cachoeiras de Macacu, Cantagalo, Carapebus, Carmo, Cassimiro de Abreu,
Conceição de Macabu, Cordeiro, Duas Barras, Itaocara, Macaé, Macuco, Nova
Friburgo, Quissamã, Rio das Ostras, Santa Maria Madalena, São Sebastião do Alto,
Sumidouro e Trajano de Morais; (b) A Diocese de Barra Piraí-Volta Redonda, que
com gênese na união das Dioceses de Barra do Piraí e Volta Redonda,
desmembradas de São Lourenço de Niterói; e, por fim, (c) a Diocese de Nova
Iguaçu, com gênese no desmembramento das Dioceses de Barra Piraí-Volta
Redonda e de Petrópolis. Esta diocese pontua o crescimento da população situada
na Região Metropolitana do Rio de Janeiro além da área limítrofe da cidade de São
Sebastião do Rio de Janeiro. Como últimas dioceses implantadas no espaço
fluminense, encontramos, recentemente, as Dioceses de Itaguaí (1980) –
desmembramento das Dioceses de Nova Iguaçu e de Barra Piraí-Volta Redonda – e
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Duque de Caxias (1980) – desmembramento das Dioceses de Nova Iguaçu e
Petrópolis –, situadas na área de maior concentração econômica e demográfica do
Estado apresentam sua gênese nas cidades homônimas aportada na importância
das mesmas como centros locais do Estado, pela disponibilidade de bens e serviços,
além de seus aumentos populacionais nos últimos anos, que justificam a maior
demanda de assistência religiosa.
As dioceses apresentam pequenos contingentes de paróquias, 17 e 19,
respectivamente, o que proporciona ler nas estratégias da Igreja a necessidade de
controle direto destas áreas. Vale salientar a importância das CEBs – Comunidades
Eclesiais de Base – na diocese de Duque de Caxias. As CEBs configuram novos
territórios religiosos da Igreja Católica Apostólica Romana. Elas permitem que a
organização paroquial se dê através de comunidades menores, onde os membros
devem estabelecer laços comunitários entre si na vivência da religião. Dessa forma,
percebemos territórios fortemente marcados de práticas e rituais religiosas na
comunidade em que se inserem. Entretanto, esta estratégia territorial não será
aprofundada neste estudo por se tratar de uma territorialidade local de poder
paroquial.
Apreensões
A difusão da fé se dá no espaço visando atender sua demanda. A partir do
panorama da difusão da Igreja Católica Apostólica Romana através de seus
territórios diocesanos no espaço fluminense, poderemos perceber que a instituição
religiosa seguiu e segue estratégias que visam atender a demanda da fé de sua
população religiosa existente, bem como atrair novos adeptos à conversão. Com o
aumento populacional, tivemos o rearranjo de áreas e desmembramentos
diocesanos.
A espacialização das dioceses permite ainda conceber a diferenciação das
áreas. Esses territórios religiosos foram implantados em cidades de diferentes
aspectos socioeconômicos, mas, apresentam singularidades geográficas: a
localização em centros urbanos na rede socioeconômica fluminense ocorreu nos
tempos em que se implantaram os territórios diocesanos. Conclui-se que o
crescimento socioeconômico acompanha o desenvolvimento da Igreja Católica no
espaço fluminense.
Por fim, ao pensar na Igreja Católica Apostólica Romana como gestora de
um território religioso, percebemos como a mesma – ainda que em menor
abrangência – apresenta-se na construção da identidade religiosa brasileira
(SANCHIS, 2001). A Igreja difundiu de tal sorte suas práticas em nosso país, que
teremos a feitura de práticas religiosa realizadas como práticas sociais, dentre estas,
casamentos, batizados e outras. Pode-se vislumbrar que a Instituição da Igreja
Católica Apostólica Romana, no Brasil, apresenta um processo longo de
evangelização que se legitima pelas práticas da instituição e da devoção do homem
religioso no lugar que as pratica.
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