BNDES 6ª Reunião Extraordinária Comitê de Arranjos Produtivos, Inovação, Desenvolvimento Local, Regional e Socioambiental (CAR-IMA) Perspectivas para o Desenvolvimento da Região Nordeste Nordeste: o de Hoje Está Melhor do que o de Ontem (Exposição Realizada por Otamar de Carvalho, no BNDES, no Rio de Janeiro, no Dia 20.02.2013) 1 ROTEIRO DA PALESTRA INTRODUÇÃO 1. GRANDES QUESTÕES PARA O NORDESTE DO TERCEIRO MILÊNIO; 2. QUESTÕES QUE PERMANECEM EM PAUTA; 3. AGENDA DE TRABALHO; 4. COMENTÁRIOS SOBRE LOGÍSTICA; E 5. A SENHORA DA ÁGUA QUE VAI-E-VOLTA. 2 INTRODUÇÃO Realmente, estou convencido de que o Nordeste está bem melhor hoje do que ontem. Seja o ontem de fins dos anos de 1950 ou de início do terceiro milênio. Por isso, quero começar referindo as Grandes Questões para o Nordeste do Terceiro Milênio, com que fechei, assumindo linhas de cenários razoavelmente específicas, sobre o que poderia continuar sendo feito na década de 2010, em curso. Essas Grandes Questões foram tratadas no dia 05 de abril de 2001, quando tive a oportunidade de participar, na Unicamp, em Campinas-São Paulo, do Seminário Nacional: Regiões e Cidades, Cidades Nas Regiões – A Espacialidade do Desenvolvimento Brasileiro, promovido pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional-ANPUR. Ali, eu fiz palestra sobre o tema “Nordeste: a Falta que o Planejamento Faz”. Pelo que tenho lido, estudado e trabalhado, sou levado a crer que aquelas questões continuam válidas nesta segunda década do milênio em curso. Isto não significa dizer que não temos novos problemas. O que estamos salientando é que muita coisa melhorou. 3 Algumas das grandes questões identificadas no final dos anos de 1950 também continuam em pauta. Milhares de nordestinos padecem de fortes privações em suas necessidades e demandas essenciais. Há questões que tiveram seus determinantes agravados e há questões novas. Estas últimas exigem compreensão compatível com o ritmo dos tempos modernos, competitivos, pois são qualificadas como correspondentes a temas que ou continuam vigorando ou estão entrando em pauta. Neste caso, podem ser incluídas na categoria de problemas novos ou de temas com perspectivas de solução. São novas ou remoçadas questões para o debate. É disso que se tratará aqui, pelo menos, em parte. 4 1. GRANDES QUESTÕES PARA O NORDESTE DO TERCEIRO MILÊNIO a. Produção, Distribuição e Gestão de Recursos Hídricos; b. Novas Formas de Cidadania: da Posse da Terra à Organização Social; c. Nova Institucionalidade; e d. Planejamento do Desenvolvimento Regional Sustentável; e. Pobreza como Privação de Capacidades. 5 2. QUESTÕES QUE PERMANECEM EM PAUTA No que se refere ao Tema da Mesa 4 (Perspectivas para o Uso Eficiente e Sustentável de Água, Energia e Logística no Nordeste), no geral, aquelas questões continuam prevalecendo. De forma específica, mas não exaustivas, serão comentadas aqui as seguintes: 2a. Produção, Distribuição e Gestão de Recursos Hídricos; 2b. Nova Institucionalidade; e 2c. Planejamento do Desenvolvimento Regional Sustentável. A questão 2a é específica de dois dos temas da Mesa: Água e Energia. As questões 2b e 2c são gerais, mas são cruciais para a compreensão de novas bases para o planejamento do desenvolvimento da Região e para a reengenharia das Instituições de abrangência regional (Sudene e DNOCS) e sub-regional (entidade gestora do Projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco para o Nordeste Setentrional-PISF). 6 3. AGENDA DE TRABALHO A Agenda que proponho é de fácil execução. Restrinjo-me, com tranquilidade e franqueza, a desdobrar evidências de que o tema Água para o Nordeste está razoavelmente bem estudado. Daí, creditar-se a conveniência de tomar a produção técnica recente (de 2008 para cá) como base do que deve ser feito para encaminhar soluções para os problemas identificados nesse domínio, exacerbados pela Seca de 2012. De fato, para tratar da questão da água, não será necessário realizar muito esforço para conhecer os caminhos abertos recentemente sobre os problemas, possibilidades e alternativas de uso adequado dos recursos hídricos. De 2008 a 2012, a Agência Nacional de Águas-ANA e o Centro de Gestão de Estudos Estratégicos-CGEE, com a colaboração de uma equipe de mais de 30 profissionais seniores, nas áreas de recursos hídricos, política e desenvolvimento, conceberam e desenvolveram um bem estruturado Estudo sobre essas temáticas e suas relações com domínios subjacentes importantes. 7 A primeira parte do trabalho dos profissionais mobilizados em 2008 esteve afeta à realização de Debates sobre A Questão da Água no Nordeste, tendo por foco a gestão dos recursos hídricos e o desenvolvimento regional, abordados sob várias perspectivas. Os temas então debatidos foram os seguintes: Tema 1. O Clima do Nordeste: Regimes climáticos e seus determinantes. Variabilidade e Mudança Climática. Secas, Impactos, Vulnerabilidade, Respostas. Bacias Hidrográficas. Águas superficiais e Águas subterrâneas. A política de armazenamento de água. Regularização de cursos de água. O caso da Bacia do Rio São Francisco (Regime Climático, Regularização, Disponibilidade). Tema 2. Água e desenvolvimento regional. Disponibilidades e usos da água. Balanço hídrico: situação atual e cenários futuros. Indicadores de Sustentabilidade. Efeitos de possíveis Mudanças Climáticas. O Caso da Bacia do Rio São Francisco. O caso das bacias do Nordeste setentrional (Salgado e Jaguaribe, Apodi, Piranhas-Açu). 8 Tema 3. Degradação Ambiental e Qualidade da Água. Situação por Bacia. Causas e Conseqüências da Degradação: desmatamento, erosão, poluição. Qualidade da água e Saúde Pública. Projetos de Irrigação. Abastecimento Urbano. O caso do Rio São Francisco. Impacto sobre o desenvolvimento regional. Tema 4. Desenvolvimento regional sustentável e a revitalização das bacias hidrográficas. Revitalização Ambiental das Bacias Hidrográficas. O que precisa ser feito. O que está sendo feito. Importância para o desenvolvimento sustentável do Nordeste, a conservação da Caatinga, a preservação da biodiversidade, o combate à desertificação. Revitalização da Bacia do Rio São Francisco. Resultados esperados. Tema 5. Gerenciamento Integrado de Recursos Hídricos. Evolução Institucional no Brasil e nos Estados. Principais Desafios. A importância do gerenciamento dos recursos hídricos para o desenvolvimento do Nordeste O Gerenciamento da Bacia do Rio São Francisco. 9 Tema 6. Superando a limitação do fator água para o desenvolvimento regional. Transferência de Águas entre Bacias. A experiência internacional. A experiência Brasileira. O caso da transferência de águas da Bacia do São Francisco para as Bacias Setentrionais do Nordeste. Impactos Econômicos, Sociais e Ambientais: (a) na bacia doadora, (b) nos canais de transposição; (c) nas bacias receptoras. O Gerenciamento da operação do sistema de transposição e sua sustentabilidade financeira. O gerenciamento das águas nas bacias receptoras. A síntese resultante desse esforço pode ser compreendida a partir do exame do Escopo do Livro “A Questão da Água no Nordeste”, estruturado em 12 capítulos. O livro foi Publicado pela Agência Nacional de Águas-ANA, juntamente com o Centro de Gestão de Estudos Estratégicos-CGEE. Sua Supervisão esteve a cargo de Antonio Carlos Filgueira Galvão, com a Coordenação de Antonio Rocha Magalhães. A Apresentação foi feita por Vicente Andreu Guillo (DiretorPresidente da ANA) e Mariano Francisco Laplane (Diretor-Presidente do CGEE). A Introdução do livro foi preparada por Antonio Rocha Magalhães. São os seguintes os capítulos do livro: 10 Capítulo 1. A Origem das Águas no Nordeste (Paulo Nobre); Capítulo 2. As Secas e seus Impactos (Otamar de Carvalho); Capítulo 3. As Águas do Nordeste e o Balanço Hídrico (Eduardo Sávio Martins, Julien Burte e Robson Franklin Vieira); Capítulo 4. Os Usos da Água e o Desenvolvimento Regional (Ney Maranhão e Sérgio Ayrimoraes); Capítulo 5. O Rio São Francisco: Usos, Balanço, Gerenciamento e Desafios (Joaquim Gondim, Ana Paula Fioreze, Bruna Craveiro de Sá Mendonça, Ciro Garcia Pinto e Márcia Regina Silva Cerqueira Coimbra); Capítulo 6. Águas do Futuro e o Futuro das Águas (Francisco de Assis de Souza Filho); Capítulo 7. A Questão Ambiental e Qualidade da Água nas Bacias Hidrográficas do Nordeste (Walt Disney e Francisco José Coelho Teixeira); Capítulo 8. Recuperação Ambiental e Revitalização de Bacias (Suely Salgueiro Chacon, Antonio Édio Pinheiro Callou, José Yarley de Brito Gonçalves, Cristine Ferreira Gomes Viana e Marcel Bursztyn); 11 Capítulo 9. A Evolução das Políticas Públicas no Nordeste (José Nilson B. Campos); Capítulo 10. Gerenciamento Integrado dos Recursos Hídricos do Nordeste (Francisco Lopes Viana, Rodrigo Flecha Ferreira Alves, Patrick Thomas, Luciano Menezes Cardoso da Silva, Anna Paula Michelano Bubel, João Carlos de Mendonça Nascentes, Flávia Simões Ferreira Rodrigues e José Aguiar de Lima Júnior); Capítulo 11. Integração de Bacias (Luiz Gabriel T. De Azevedo); e Capítulo 12. A Integração da Bacia do São Francisco às do Nordeste Setentrional (Carlos Motta Nunes). BIBLIOGRAFIA ANEXO 1. Série de Debates sobre A QUESTÃO DA ÁGUA NO NORDESTE. As secas e seus impactos, as disponibilidades e a gestão integrada de oferta e demanda da água no Nordeste, no quadro da situação atual e de cenários futuros estão devidamente tratadas no livro referido. O esforço a ser feito a respeito desses problemas terá um bom começo se iniciado pelo estudo das informações e conhecimentos ali organizados. Recomendo essa complementares. trilha sem qualquer propósito de inibir alternativas 12 4. COMENTÁRIOS SOBRE LOGÍSTICA A logística já é tema dos planos de desenvolvimento do Nordeste, sejam eles de abrangência global, como o Plano de Desenvolvimento do Nordeste-PDNE (2004-2007), ou sub-regional, como o Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste-PDSA, de 2005. O PDNE aborda questões a este respeito. Como tal, elas se apresentam referidas à ampliação da presença do setor privado nos investimentos estruturadores de infra-estrutura e logística (projetos que exigem altos investimentos e longo período de maturação), apoiados pelo sistema das PPP – Parceria Público-Privada. Os investimentos a este respeito tendem a se concentrar em regiões de maior desenvolvimento e, portanto, de maior possibilidade de retorno e rentabilidade econômico-financeira. As iniciativas neste sentido estão referidas à Existência de uma Infraestrutura Capaz de Responder ao Aumento da Produção e que podem ou estão sendo estruturadas em torno da Consolidação do Terciário Moderno e de Pólos Dinâmicos de Serviços na Região. 13 O tema também é trabalhado quando se trata de uma das opções estratégicas do Plano, qual seja a da construção da competitividade sistêmica. Essa opção está orientada para a criação de novas condições logísticas, infraestruturais, de capacitação e inovação que permitem a inserção competitiva da economia regional nos mercados nacional e mundial, a diversificação das atividades produtivas, a superação dos pontos de estrangulamento, e a criação de novos padrões produtivos e tecnológicos para a viabilização das empresas do Nordeste nos mercados extra-regionais. O PDSA aborda o assunto na discussão das Apostas e Compromissos do Plano. Isto é feito ao apresentar as ações e intervenções diversas, estruturadas a partir de novos e sistematizados conhecimentos sobre a realidade regional. O Plano inova dando a esses procedimentos a denominação de Diálogos. Como tal, os Diálogos enfocam iniciativas − públicas e privadas − organizadas sob a forma de políticas, programas e projetos. Os Diálogos são realizados com os Recursos Naturais, com a Produção, com a Rede Hídrica, com Outras Redes de Infraestrutura, com as Instâncias Sociais e Culturais, com a Federação e a Sociedade Civil. As iniciativas desdobram-se, no caso: 14 i. Dos Recursos Naturais, em: Combate à Desertificação, Valorização do Bioma Caatinga e Manejo Sustentável dos Recursos Naturais; ii. Da Produção, em: Atividades de Base Local e Atividades Empresariais de Escala (Agronegócio da Irrigação e Exploração Mineral); iii. Da Rede Hídrica, em: Oferta e Demanda de Água no Nordeste Semiárido, Obras de Infraestrutura Hídrica Construídas ou Sendo Ampliadas, Interligação de Bacias (Projeto São Francisco) e Revitalização da Bacia do São Francisco com Uso Múltiplo da Água; iv. De Outras Redes de Infraestrutura, em: Hidrovia do São Francisco, Ferrovia Transnordestina, Rodovias, Acesso a Telefones e Computadores, e Ciência, Tecnologia e Inclusão Digital; v. Das Instâncias Sociais e Culturais, em: Condições de Vida e Pobreza, Pontos Focais da Ação Pública (Trabalho e Emprego; Questões de Gênero; Trabalho Escravo; e Trabalho Infantil), Reforma Agrária, Combate à Fome, Educação e Cultura, Justiça e Segurança, Seguridade Social (Saúde, Assistência Técnica e Previdência Social); e 15 5. A SENHORA DA ÁGUA QUE VAI-E-VOLTA 5.1 Fluxos e Estoques de Água A escassez de água no Nordeste é relativa. Suas disponibilidades hídricas chegam a suscitar possibilidades de aumento de oferta, desde que devidamente ativadas por barragens ou açudes nos locais adequados. De saída, sabe-se que as disponibilidades são limitadas pelo clima e pelo regime de chuvas. Já as demandas são sempre crescentes. Por isso, nem sempre podem ser atendidas integralmente. Para verificar as condições do Semiárido em relação à oferta de água é necessário trabalhar com os seguintes conceitos: potencialidade e disponibilidade de recursos hídricos e capacidade de armazenamento e nível de garantia de suprimento de água. A potencialidade dos recursos hídricos representa o volume dos recursos hídricos encontrados em uma bacia hidrográfica, em seu estado natural. Por sua vez, o potencial de recursos hídricos de uma bacia hidrográfica é constituído pela soma dos escoamentos (de superfície e de base), sendo representado pelo escoamento médio anual. A disponibilidade de recursos hídricos é a parcela da potencialidade, ativada pela ação do homem, por meio de estruturas que armazenem água oriunda dos escoamentos superficiais e de base. A capacidade de armazenamento equivale ao volume nominal das obras de armazenamento de água em açudes, reservatórios, etc. 16 Cartograma 1 17 Não basta dizer que as bacias do Semiárido apresentam uma potencialidade de 207 bilhões de metros cúbicos de água, uma disponibilidade de recursos hídricos superior a 97 bilhões de metros cúbicos e uma capacidade de armazenamento superior a 85 bilhões de metros cúbicos de água, para pensar que ali há água à vontade. Isto porque não se pode comparar estoque (capacidade de armazenamento) com fluxos (disponibilidade de recursos hídricos). São duas medidas distintas. Observe-se que enquanto a potencialidade e a disponibilidade representam medidas de fluxo (por exemplo, hectômetros cúbicos de água por ano, metros cúbicos de água por ano), a de armazenamento é uma medida de capacidade, portanto, estática e de estoque (por exemplo, um açude armazena “x” milhares de metros cúbicos de água). Não se consome capacidade, mas disponibilidade). Neste sentido, os que pensam o contrário não distinguem a disponibilidade da capacidade de armazenamento. Os que são contra a Transposição têm feito essa comparação, de uma forma que lhes leva a daí tirar conclusões equivocadas, de que há água em excesso. Que a solução para o problema da água na região é de gestão. É também de gestão, mas não só de gestão. Reconhece-se, entretanto, que será necessário aprender a usar melhor e a reusar as águas disponíveis. 18 Certo é que leigos e entendidos do assunto, às vezes, se equivocam no tratamento das múltiplas questões envolvidas nas relações entre estoques e fluxos de água. E aqui, como nos domínios da Energia o que, no limite, determina o atendimento das demandas são os fluxos. O balanço entre oferta e demanda de recursos hídricos revela as impossibilidades de atendimento crescente de todos os tipos de demanda, que são inúmeros. Sabe-se que há usuários de alguns tipos de demanda que consomem sempre mais água. Esses precisam ser monitorados de perto. 19 5.2 A Volta da Senhora das Águas A Seca de 2012 mostrou o quanto nos enganamos com as secas. Os efeitos dessa seca se fizeram notar, inclusive, em áreas não semiáridas do Nordeste, como o Agreste e a Zona da Mata. Pelo pouco que choveu em 2012, as reservas hídricas diminuíram expressivamente. Secaram os pequenos e médios açudes e minguou a capacidade de armazenamento dos açudes de maior porte. Esse impacto alcançou expressivo número dos açudes construídos pelo DNOCS e, mesmo, pelos Estados ou pela CHESF (Companhia Hidrelétrica do São Francisco). Em janeiro de 2013, a situação era menos grave para os reservatórios com capacidade de armazenamento de água superior a 100 milhões de metros cúbicos. Neles, a relação entre capacidade de água armazenada e capacidade de água armazenável está variando nos limites de 40 a 50%. É o que ocorre nos grandes açudes do DNOCS localizados no Estado do Ceará, por exemplo. A Seca de 2012 exacerbou a escassez de água que passara a crescer com a Seca de 2010, quando também choveu menos de 50% da média estabelecida pelas Normais Climatológicas. Potencializou os efeitos de redução das disponibilidades de água sobre um bom número de médios açudes. Esse impacto cumulativo da variabilidade climática responde pelas carências acentuadas hoje vislumbradas sertões afora. 20 O atendimento, ainda que parcial, das demandas é precário, tendo exigido grande esforço por parte do governo, especialmente nas áreas de demanda rural difusa. O recurso a soluções não convencionais, como as representadas pela construção de cisternas, com resultados positivos nos anos de chuvas normais, em tais áreas, não funciona nos anos de seca. Sem chuva, as cisternas não podem ser abastecidas. Seu uso como reservatórios de armazenamento ligados às residências do meio rural ficou limitado ao emprego combinado com os carros-pipas – outro sistema não convencional de abastecimento de água nas áreas de demanda rural difusa. É isso o que tem sido possível fazer naquelas áreas até que cheguem as chuvas do “inverno” de 2013. O enfrentamento de uma seca como a de 2012, já considerada como a mais forte dos últimos 30 a 40 anos, só superada, em seus efeitos, pela Seca de 1979-1983, a população já não morre de fome. E é assim por conta de um multifacetado conjunto de iniciativas postas em prática no Nordeste como um todo e no Semiárido em particular. Destacam-se neste sentido as ações que estruturam a Rede de Proteção Social, organizada a partir de instrumentos como o Bolsa Família e o Bolsa Estiagem, de apoio específico às populações afetadas pela seca de 2012. Também assumem relevo as medidas relacionadas à própria expansão da oferta de água para diferentes usos. Esse foi o caminho que viabilizou a construção de uma Rede de Infraestrutura Hídrica capaz de minorar a carência de água para consumo humano nas cidades e no campo. Dá para ver que a resiliência a períodos de seca de maior duração ainda carece de reforço. 21 As medidas de combate aos efeitos de uma seca como a de 2012 exige ações de natureza proativa. Assim deve ser para que governo e sociedade combinem programas de armazenamento de água com iniciativas, como as de emergência, de caráter reativo, a exemplo das expressas pelos Programas do Bolsa Família e do Bolsa Estiagem, dentre outros. Será necessário também fazer um esforço especial para reorganizar e fortalecer as institucionalidades existentes, que tratam ou devem tratar das ações orientadas por uma Política Nacional de Secas. Esta é a linha atual de reflexão e atitudes em relação ao que fazer para conviver com as secas. Trata-se de orientação que já produziu duas Políticas Nacionais de Combate às Secas, uma referente aos Estados Unidos e outra à Austrália. O Brasil está trabalhando essa questão, e sobre ela se manifestará no “High Level Meeting on National Drought Policy”-HMNDP, que será realizado em Genebra, no período de 11 a 15.03.2013, como Evento promovido pela Organização Meteorológica Mundial-WMO e a Secretaria Executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação-UNCCD. 22 O governo brasileiro vai a Genebra, porque acredita poder contribuir com o povo de outros países membros das Nações Unidas. É uma oportunidade importante para também aprender com as experiências proativas que estão sendo praticadas por países que realizam (ou pretendem realizar) o combate às secas sob a ótica do planejamento, gestão, monitoramento e avaliação das ações de combate aos efeitos das secas. Sabe-se que o quadro dos recursos hídricos e das águas utilizáveis no Semiárido tem suas possibilidades e limites comandados por uma senhora bem conhecida dos que vivem na região. Os fatores naturais que produzem as secas não se curvam à política. Podem, entretanto, ter seus efeitos conjuntos minimizados e até prevenidos por intermédio de medidas resultantes da concepção de políticas públicas desdobradas em programas emergenciais e permanentes. Neste caso, dir-se-á que as políticas e as ações postas em prática, devido à ocorrência das secas, têm caráter reativo e proativo, respectivamente. Será sempre mais conveniente que as políticas sejam comandadas por decisões proativas, que aplicadas levarão em conta as ações reativas, destinadas ao atendimento de demandas emergenciais. 23 É por isso que indago: o que se pode fazer para apoiar uma família pobre, carente, cuja capacitação está limitada ao uso de instrumentos de trabalho simples, como a enxada, o facão e o machado? Uma família como a que aparece na foto a seguir agrega pouco valor aos produtos de sua lavra. Se sua produtividade é, histórica e culturalmente, reduzida, seu acesso a novas oportunidades passa a ser ainda mais restrito, especialmente nos anos de seca. De fato, as famílias naquelas condições não podem fazer muito mais do que esperar a minguada ajuda oferecida pelo Estado, por intermédio de iniciativas tipo “Bolsa Família” e “Bolsa Estiagem”. 24 25 5.3 O Projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco para o Nordeste Setentrional-PISF O PISF é um Projeto de múltiplos propósitos, que tem como principal objetivo alavancar o desenvolvimento sustentável da Região Semiárida, ampliando as possibilidades de integração da economia do Nordeste com outras regiões, de dentro e de fora do País. A produção, distribuição e conservação das águas tornadas disponíveis com esse Projeto têm por finalidade resolver o desequilíbrio entre disponibilidades de água (medida de fluxo) e capacidade de armazenamento em açudes, barragens, poços, etc. (medida de estoque). Um dos principais indicadores da inadequação da distribuição de água no Semiárido Nordestino é a concentração espacial das grandes estruturas de armazenamento. O Projeto não vai resolver todos os problemas do Semiárido. Mas vai ajudar a resolvê-los, criando condições para instituir a Gestão Integrada de Oferta e Demanda. 26 Cartograma 2 Áreas de Influência Direta e Indireta do Projeto MI & MCT. Funcate, 2005. 27 De fato, esses problemas são mais agudos nos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Neles é mais intenso o problema logístico do atendimento da demanda por água, especialmente da chamada demanda rural difusa (consumo doméstico e dos animais) e da demanda urbana municipal (consumo doméstico e serviços urbanos). Como iniciativa polêmica, o PISF é tratado segundo teses controversas, como as seguintes: 1ª Tese: A Transposição é condenável em qualquer circunstância, retirando água de um rio que não tem mais o que ceder; 2ª Tese: Descuidou-se da Revitalização; 3ª Tese: Os ribeirinhos estão sendo preteridos; 4ª Tese: O agronegócio será o principal beneficiário do Projeto; 5ª Tese: A integração de bacias vai sufocar e paralisar iniciativas importantes, como o Programa Hum Milhão de Cisternas; e 6ª Tese: O Projeto não considera as obras previstas no Atlas Nordeste de Abastecimento Urbano de Água, elaborado pela ANA. 28 Essas teses não foram provadas. Por conta disso, conviria aprofundar o estudo de temas como os seguintes: i. Ampliação, melhora e conservação das estruturas que conformam a plataforma logística do Semiárido, qualificada pela infraestrutura hídrica e pela infra-estrutura econômica (rodovias, portos, aeroportos e ferrovias), considerados tanto no quadro subssetorial como multimodal; ii. Intensificação dos investimentos em ciência & tecnologia, ou seja, em informação, conhecimento e comunicação; iii. Aproveitamento das fontes de energia alternativa, com ênfase para a eólica e a solar; iv. Ampliação, melhora e conservação dos serviços básicos de educação e saúde; 29 v. Aumento da eficiência e da eficácia das universidades, com interiorização de sucursais de centros consolidados, voltados para a dinamização das atividades do Semiárido, que demandem compatibilização entre tecnologia e meio ambiente; vi. Adequação e melhora da capacidade do Estado, como gestor, regulador e, em certos casos, ainda promotor de investimentos básicos e de apoio ao setor privado; e vii. Estruturação de uma nova institucionalidade para cuidar da gestão dos negócios do Semiárido, no contexto das orientações de uma Política Nacional de Secas – sempre que possível articulada a uma Política Nacional de Combate à Desertificação, da Política Nacional de Desenvolvimento Regional-PNDR e de Planos para o Nordeste e para o Semiárido-PDSA, sob o comando regional de uma Nova Sudene. 30 Cartograma 3. Área de Influência do Projeto Fonte: MI. SDR. Boletim Regional, nº 5. 31 Cartograma 4 Fonte dos dados básicos: ANA (2005), Atlas Nordeste. Elaboração: Claudio A. G. Egler, 2008. AGRADEÇO A ATENÇÃO DE TODOS. [email protected] 33