E STA D O D E M I N A S 4 ● D O M I N G O , 1 8 D E D E Z E M B R O D E 2 0 1 1 5 BEMVIVER ❚ REPORTAGEM DE CAPA O corpo precisa de descanso JAIR AMARAL/EM/D. A PRESS É tudo o que eu queria! Estou com uma sensação de alívio. Posso acordar na hora que tiver vontade, dormir mais tarde e esquecer um pouco dessa minha vida cronometrada Uma pesquisa recente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), uma das mais antigas e respeitadas associações voltadas à investigação, prevenção e tratamento de estresse do mundo, revelou que 38% dos entrevistados (foram ouvidos 678 profissionais em São Paulo e Porto Alegre) evitam tirar férias. Quase metade deles teme que decisões importantes sejam tomadas na empresa enquanto estiverem fora. Mas não é só isso. Entre os receios estão ainda uma possível mudança de cargo ou responsabilidades, demissões e até que sua ausência não seja notada. O problema é: esquecer das férias sequer podia ser uma opção. Segundo Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pular essa importante e necessária pausa pode desequilibrar as três dimensões contempladas pela fisiologia do comportamento: a fisiológica, a psicológica e a social. Como qualquer máquina, o corpo também precisa de descanso. Segundo Monezi, o ser humano foi programado para viver baseado na luz, com uma fase para a atividade e outra, bem maior, para o descanso. A luz elétrica e o advento da industrialização, contudo, alteraram o relógio biológico e expandiram a temporada de trabalho. As férias, então, ganharam ainda mais importância. Do ponto de vista biológico, garantem o bom funcionamento das complexas e frágeis engrenagens do corpo. Cansadas, as pessoas tendem a ter mais dor de cabeça e nos olhos, problemas gastrointestinais e problemas de pele. Do lado psicológico, começam a aparecer os sintomas do estresse negativo e seus elevados níveis de ansiedade, pensamentos negativos recorrentes e risco de depressão. Pautado no cansaço e na estafa mental, o estresse negativo pode impactar tanto no aspecto orgânico quanto social. “O cansaço muitas vezes é um gatilho para o isolamento social. Não parar, esquecer das férias, pode levar a um efeito bola de neve que pode ter consequências graves.” Diretor comercial de uma indústria de cosméticos, Gleno Márcio da Silva, de 46, viu nas férias sua vida balançar. No início do ano, como de costume, viajou para o litoral com a família, dando uma pausa na extenuante rotina do executivo. Pela primeira vez se propôs a se desligar realmente da empresa, deixando celular e problemasparatrás.Jánavoltaparacasa,fechandoapequenamasprazerosapausa,sofreu uminfartonaestrada.“Éhiláriopensarque exatamente nas férias, quando puxei a tomada,tiveuminfarto.Masoquemelevou a isso foi não me cuidar durante todo o ano.Eraaquelequeomédicochamadepaciente bomba: que come mal, fora de ho- ■ Sílvia Niffinegger, publicitária ANA MARIA ROSSI DOUTORA EM PSICOLOGIA E COMUNICAÇÃO VERBAL E PRESIDENTE DA ISMA-BR 1) 2) 3) Qual é a relação das férias ou da falta delas com o estresse? A princípio, as férias são algo desejável e relaxante, mas existem exceções. Para um workaholic, por exemplo, esse pode ser um período de grande desgaste e tensão. Se uma pessoa que trabalha muito fica um mês inteiro sem fazer nada, possivelmente esse será um tempo demasiado longo e a previsão é que ela acabe voltando antes ao trabalho e estressada. O estresse é qualquer situação que requer adaptação da pessoa, independentemente de ser positiva ou negativa. E como minimizar esse efeito? Para lidar com o estresse, é importante conhecer e saber de seus limites. Cada um tem suas necessidades, sua maneira de reagir. Por isso, é bom saber o que é melhor. Essas pessoasficamestressadasmesmo nas férias por não se sentirem úteis. É importante organizar essa pausa para que seja benéfica.Separaumapessoaémuito difícil ficar sem fazer nada, talvez seja interessante agendar uma atividade diferente docotidiano–umcursodelínguas, informática ou artes – para meio período. Algo que lhe faça perceber aquele momento como útil. De que forma essa pausa produtiva pode evitar ou diminuir o estresse? As férias são um período importante. No dia a dia, as pessoas estão sempre correndo, cominúmerasresponsabilidades e tarefas. É preciso sentir quenãoéprecisocorrerdeum lado para o outro, que é possívelfazerascoisascomautonomia e liberdade, sem precisar cumprir horário. Tudo isso é bom para evitar o estresse e é sim uma oportunidade de recarregar as baterias. O cansaço mental e físico provocado pelafaltadefériaséumaameaça, inclusive para a qualidade do trabalho. As empresas que compramfériasdosfuncionáriossequersedãocontadeque assimestãocontribuindopara diminuir sua produtividade. A s próximas três semanas serão a glória para a publicitária Sílvia Niffinegger, de 39 anos. Desde ontem, a rotina de acordar cedo, levar a filha Isa – de 6 – ao balé, correr para o trabalho, voltar em casa, engolir o almoço, deixar a menina na escola, voltar ao trabalho, resolver mil pepinos, buscar a filha de novo, voltar para casa, preparar um lanche e conferir o dever ficou para trás. Se você perdeu o fôlego só de ler, pode imaginar o que uma rotina como essa faz com a vida de uma mulher. Mas se chegaram as tão sonhadas férias de Sílvia, ela faz questão de deixar tudo isso bem longe do pensamento. A ordem agora é aproveitar. E aproveitar aqui é igual a se permitir. “É tudo o que eu queria! Estou com uma sensação de alívio. Posso acordar na hora que tiver vontade, dormir mais tarde e esquecer um pouco dessa minha vida cronometrada em que qualquer 10 minutos de atraso pode desandar tudo. Geralmente, não tiro o olho do relógio e férias pra mim é não ter compromisso com o horário.” Nesta primeira semana de pernas para o ar, ela quer ir ao cinema e ficar totalmente à toa, alugar um bom DVD e entrar em uma loja sem ser na corrida meia hora de almoço. “Meu sonho de consumo é andar pelo comércio sem ter que conferir as horas.” Sílvia está para lá de certa. Afinal, é para isso que servem as férias. Segundo o professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) João Gabriel Marques Fonseca, férias são a institucionalização de algo que pessoas de tempos remotos viviam no dia a dia. No Renascimento, por exemplo, a vida agrícola exigia a realização de muitas tarefas durante o dia, mas sem as aflições contemporâneas e a cobrança de resultados de nossa época. Uma forma de viver, portanto, com menos impactos nos mecanismos de estresse. Hoje, trabalha-se dia após dia com a mesma coisa e de forma muito intensa, o que leva a um fenômeno biológico chamado estreitamento perceptivo. “É aquela velha história: para quem só tem martelo, tudo o que vê é prego. Para evitar consequências maiores, é necessário algo que recicle, que alargue a percepção. As férias são um fenômeno econômico recente, um período institucionalizado e remunerado em que é possível trocar o trabalho por outras atividades. Indiretamente, isso atenua o estresse que vem desse estreitamento perceptível”, defende. Para o médico, tudo o que fazemos deve ser olhado sob três pontos de vista: se faço o que escolhi, se Sem obrigações As férias devem ser um momento em que se pode escolher o que fazer e de preferência serem prazerosas. O mais importante é a qualidade do recesso ARQUIVO PESSOAL Durante os dias de folga, o advogado Dárcio Lopardi se sente mais leve e volta recarregado, cheio de planos e animação é algo que me dá prazer e se me traz algum retorno. Fazer algo que não dá prazer, não traz retorno e não é uma escolha tem tudo para ser uma atividade desgastante. As férias, então, representam o momento em que se pode escolher o que fazer e provavelmente será algo que dê prazer. Já o ócio, ficar literalmente vendo o tempo passar, nem sempre é fácil. “Viver o ócio exige competência ou pode desencadear uma desorientação, uma sensação de inutilidade. Nem todo mundo é capaz de ficar sem fazer nada.” CORRERIA Bom mesmo, sugere João Gabriel, seria ter uma espécie de férias diárias, um período do dia para fazer algo diferente, que não tivesse o caráter de obrigação. “As pessoas hoje tiram férias e via- jam na sequência, correndo, com milhares de planos. Assim, fica tudo na mesma, só muda o assunto. Não necessariamente as férias formais representam descanso”. Realmente, tudo parece passar por boas e conscientes escolhas. Tudo o que sonha fazer parece bem claro para Sílvia. Mas e a tentação de aproveitar a pausa para resolver os problemas domésticos? “Estou me controlando para não arrumar as apostila antigas da Isa. É algo que preciso fazer, mas vou me organizar para fazer isso em um feriado. Também não quero implicar com minha casa, que preciso pintar, senão vou acabar ralando.” Acostumada a tirar uma semana de férias em julho, só para fazer programas com a filha, a pausa do fim de ano precisa dar a ela alguns mo- mentos de paz e descanso, sozinha. “Para otimizar esses momentos, programo alguns dias nas colônias de férias de salões de festa e já fechei contrato para umas tardes dela na casa da minha mãe”, brinca. Mulheres modernas vivem ainda outra realidade. As férias precisam coincidir com o também merecido descanso das empregadas domésticas. “Algumas tarefas domésticas vão sobrar para mim, mas por outro lado é até gostoso poder fazer o almoço para a minha família, já que eu, minha filha e meu marido estaremos de férias.” Para completar a felicidade, uma semaninha no litoral. “Só vou viajar depois de 10 dias de folga. Nunca consegui arrumar uma mala com tanta calma. Até isso estou comemorando.” Uma ou duas pausas? Um mês ou duas férias de 15 dias? Para alguns profissionais, 30 dias corridos por conta do à toa estão apenas nos sonhos. Para outros, nada melhor que dividir a pausa e descansar duas vezes no ano. Na dúvida sobre o que descansa mais, relaxe: isso varia de pessoa para pessoa e mais importante que a quantidade é a qualidade. Segundo Ricardo Monezi, do ponto de vista do ritmo biológico, diversos artigos já demonstraram que duas temporadas de 15 dias não são tão relaxantes para algumas pessoas que um grande período de férias. “O ideal é provar o que funciona melhor.” Mas a literatura médica alerta: os intervalos de férias devem ser superiores a cinco dias, isso é o mínimo que o corpo precisa para se recuperar. “O importante é que o profissional consiga ter qualidade de vida dentro do seu pequeno ou longo período de férias”, alerta Monezi. O advogado Dárcio Lopardi, de 32, é um dos que não pode tirar um mês inteiro, tendo que aproveitar os recessos jurídicos do fim de ano para descansar duas ou três semanas, quando gosta de viajar, principalmente para a praia, por gostar de mergulhar. No meio do ano, dependendo da situação, consegue uma semaninha, que aproveita para curtir a cidade e fazer passeios próximos. A pausa para ele é sagrada. Tempo de colocar as coisas em ordem, dormir bastante e curtir o ócio. “Com certeza me sinto mais leve, recarregado, tiro as preocupações da cabeça e volto cheio de planos e animação”. Dárcio é daquela geração que já entendeu quão imprescindíveis são as férias para melhorar a produção. EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS TRÊS PERGUNTAS PARA... CAROLINA COTTA PERSONAGEM DA NOTÍCIA GUILHERME BOECHAT 32 ANOS, PUBLICITÁRIO PAULO FILGUEIRAS/EM/D. A PRESS rário, trabalha até tarde e deixa o cuidado em segundo plano.” DEDICAÇÃO A vida pós-infarto é bem di- ferente, com direito a almoço em casa e academia no fim do dia, o que, necessariamente, passa por uma maior dedicação a ele mesmo. “Hoje, tenho horário para tudo, inclusive para parar de trabalhar. Nessa mudança descobri que se eu ficar trabalhando até meia noite sempre vai ter serviço. Se eu for embora não muda nada, tenho é que administrar melhor o meu tempo.” Nas vésperas de tirar novas férias, quer fazer um tira-teima. “Vou fazer a mesma viagem do ano passado. De novo sem celular e desligado do trabalho. Vou aproveitar para ler um bom livro, ver televisão. Só não dá para ficar parado, olhando pro céu. Aí fico doido.” O QUE ELES TEMEM 46% que decisões importantes sejam tomadas na sua ausência 32% que ocorram mudanças de cargo e responsabilidade 19% que sejam demitidos 3% que suas ausências não sejam notadas FONTE: INTERNATIONAL STRESS MANAGEMENT ASSOCIATION - BRASIL (ISMA-BR) Gleno Márcio da Silva foi surpreendido com um infarto na estrada, quando retornava das férias. Agora, ele pensa em administrar melhor o tempo Ano sabático E se a pausa durar semanas, meses, um ano inteiro? Depois de um período difícil, que envolveu problemas de saúde, relacionamento e afetou sua vida profissional, Guilherme Boechat pensou em tentar outra carreira. Mas percebeu também que precisava de um tempo totalmente desligado do que andava fazendo. “Precisava viver uma vida mais saudável, fisica e mentalmente. Foi uma resolução de ano novo. Voltei e me demiti.” Começava ali o ano sabático de Guilherme, suportado por sua reserva de dinheiro, a venda do carro e total apoio de família, amigos, colegas de trabalho e chefia. O período de pernas para o ar durou de fevereiro de 2006 a julho de 2007. A primeira decisão foi fazer um curso de línguas em Salamanca, na Espanha. “Foi na verdade uma desculpa para viajar.” Depois do curso de três meses, Guilherme rodou a Europa e, de volta ao Brasil, viu outras viagens surgirem do nada. Visitou o irmão, que servia Exército em Roraima, na fronteira com a Venezuela, e de lá tomou um ônibus para Manaus e depois um barco para Belém. Foram cinco dias descendo o Amazonas em um barco com mais 250 pessoas, dormindo em redes. “A experiência mais incrível desse período.” Teve também viagem só para assistir a uma partida de futebol em Buenos Aires e Porto Alegre, e outros vários passeios em Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro. “Foi a melhor decisão que já tomei. O mais importante foi o desapego que desenvolvi pelas coisas materiais e pelos obstáculos que eu mesmo me impunha. Para a maioria das pessoas, abrir mão de carro e emprego é impensável. Quando você faz uma coisa dessas e tudo dá certo, ganha confiança para o que quer que esteja por vir na vida.” A volta para o trabalho foi ótimo. A certeza de ter feito tudo o que podia durante o sabático deu a ele energia positiva para encarar uma rotina de trabalho novamente. Melhor: Guilherme conseguiu um emprego melhor do que o que tinha deixado. “Minha carreira não ficou estagnada. Impressiona-me até hoje como as pessoas respeitam o fato de eu ter me afastado de tudo e ter voltado sem perder o rumo profissional.” Para evitar consequências maiores, é necessário algo que recicle, que alargue a percepção ■ João Gabriel Marques Fonseca, professor da UFMG