E STA D O D E M I N A S
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D O M I N G O ,
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D E Z E M B R O
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BEMVIVER
❚ REPORTAGEM DE CAPA
O corpo precisa
de descanso
JAIR AMARAL/EM/D. A PRESS
É tudo o que eu
queria! Estou
com uma
sensação de
alívio. Posso
acordar na hora
que tiver
vontade,
dormir mais
tarde e
esquecer um
pouco dessa
minha vida
cronometrada
Uma pesquisa recente da International Stress Management Association no
Brasil (Isma-BR), uma das mais antigas e
respeitadas associações voltadas à investigação, prevenção e tratamento de estresse do mundo, revelou que 38% dos
entrevistados (foram ouvidos 678 profissionais em São Paulo e Porto Alegre) evitam tirar férias. Quase metade deles teme que decisões importantes sejam tomadas na empresa enquanto estiverem
fora. Mas não é só isso. Entre os receios
estão ainda uma possível mudança de
cargo ou responsabilidades, demissões e
até que sua ausência não seja notada.
O problema é: esquecer das férias sequer podia ser uma opção. Segundo Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto
de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
pular essa importante e necessária pausa
pode desequilibrar as três dimensões
contempladas pela fisiologia do comportamento: a fisiológica, a psicológica e a
social. Como qualquer máquina, o corpo
também precisa de descanso. Segundo
Monezi, o ser humano foi programado
para viver baseado na luz, com uma fase
para a atividade e outra, bem maior, para o descanso. A luz elétrica e o advento
da industrialização, contudo, alteraram
o relógio biológico e expandiram a temporada de trabalho.
As férias, então, ganharam ainda
mais importância. Do ponto de vista
biológico, garantem o bom funcionamento das complexas e frágeis engrenagens do corpo. Cansadas, as pessoas
tendem a ter mais dor de cabeça e nos
olhos, problemas gastrointestinais e
problemas de pele. Do lado psicológico, começam a aparecer os sintomas
do estresse negativo e seus elevados níveis de ansiedade, pensamentos negativos recorrentes e risco de depressão.
Pautado no cansaço e na estafa mental,
o estresse negativo pode impactar tanto no aspecto orgânico quanto social.
“O cansaço muitas vezes é um gatilho
para o isolamento social. Não parar, esquecer das férias, pode levar a um efeito bola de neve que pode ter consequências graves.”
Diretor comercial de uma indústria de
cosméticos, Gleno Márcio da Silva, de 46,
viu nas férias sua vida balançar. No início
do ano, como de costume, viajou para o litoral com a família, dando uma pausa na
extenuante rotina do executivo. Pela primeira vez se propôs a se desligar realmente da empresa, deixando celular e problemasparatrás.Jánavoltaparacasa,fechandoapequenamasprazerosapausa,sofreu
uminfartonaestrada.“Éhiláriopensarque
exatamente nas férias, quando puxei a tomada,tiveuminfarto.Masoquemelevou
a isso foi não me cuidar durante todo o
ano.Eraaquelequeomédicochamadepaciente bomba: que come mal, fora de ho-
■ Sílvia Niffinegger,
publicitária
ANA MARIA ROSSI
DOUTORA EM PSICOLOGIA E COMUNICAÇÃO
VERBAL E PRESIDENTE DA ISMA-BR
1)
2)
3)
Qual é a relação das férias ou
da falta delas com o estresse?
A princípio, as férias são algo
desejável e relaxante, mas
existem exceções. Para um
workaholic, por exemplo, esse
pode ser um período de grande desgaste e tensão. Se uma
pessoa que trabalha muito fica um mês inteiro sem fazer
nada, possivelmente esse será
um tempo demasiado longo
e a previsão é que ela acabe
voltando antes ao trabalho e
estressada. O estresse é qualquer situação que requer
adaptação da pessoa, independentemente de ser positiva ou negativa.
E como minimizar esse efeito?
Para lidar com o estresse, é importante conhecer e saber de
seus limites. Cada um tem
suas necessidades, sua maneira de reagir. Por isso, é bom saber o que é melhor. Essas pessoasficamestressadasmesmo
nas férias por não se sentirem
úteis. É importante organizar
essa pausa para que seja benéfica.Separaumapessoaémuito difícil ficar sem fazer nada,
talvez seja interessante agendar uma atividade diferente
docotidiano–umcursodelínguas, informática ou artes –
para meio período. Algo que
lhe faça perceber aquele momento como útil.
De que forma essa pausa produtiva pode evitar ou diminuir o estresse?
As férias são um período importante. No dia a dia, as pessoas estão sempre correndo,
cominúmerasresponsabilidades e tarefas. É preciso sentir
quenãoéprecisocorrerdeum
lado para o outro, que é possívelfazerascoisascomautonomia e liberdade, sem precisar
cumprir horário. Tudo isso é
bom para evitar o estresse e é
sim uma oportunidade de recarregar as baterias. O cansaço
mental e físico provocado pelafaltadefériaséumaameaça,
inclusive para a qualidade do
trabalho. As empresas que
compramfériasdosfuncionáriossequersedãocontadeque
assimestãocontribuindopara
diminuir sua produtividade.
A
s próximas três semanas serão a glória para a publicitária Sílvia Niffinegger, de 39 anos. Desde ontem, a
rotina de acordar cedo, levar a filha
Isa – de 6 – ao balé, correr para o trabalho, voltar em casa, engolir o almoço, deixar a menina na escola,
voltar ao trabalho, resolver mil pepinos, buscar a filha de novo, voltar
para casa, preparar um lanche e conferir o dever ficou para trás. Se você
perdeu o fôlego só de ler, pode imaginar o que uma rotina como essa
faz com a vida de uma mulher. Mas
se chegaram as tão sonhadas férias
de Sílvia, ela faz questão de deixar
tudo isso bem longe do pensamento. A ordem agora é aproveitar.
E aproveitar aqui é igual a se permitir. “É tudo o que eu queria! Estou
com uma sensação de alívio. Posso
acordar na hora que tiver vontade,
dormir mais tarde e esquecer um
pouco dessa minha vida cronometrada em que qualquer 10 minutos
de atraso pode desandar tudo. Geralmente, não tiro o olho do relógio e
férias pra mim é não ter compromisso com o horário.” Nesta primeira semana de pernas para o ar, ela quer ir
ao cinema e ficar totalmente à toa,
alugar um bom DVD e entrar em
uma loja sem ser na corrida meia hora de almoço. “Meu sonho de consumo é andar pelo comércio sem ter
que conferir as horas.”
Sílvia está para lá de certa. Afinal, é para isso que servem as férias. Segundo o professor do Departamento de Clínica Médica da
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) João Gabriel Marques Fonseca, férias são a institucionalização de algo que pessoas de tempos
remotos viviam no dia a dia. No
Renascimento, por exemplo, a vida agrícola exigia a realização de
muitas tarefas durante o dia, mas
sem as aflições contemporâneas e
a cobrança de resultados de nossa
época. Uma forma de viver, portanto, com menos impactos nos
mecanismos de estresse.
Hoje, trabalha-se dia após dia
com a mesma coisa e de forma
muito intensa, o que leva a um fenômeno biológico chamado estreitamento perceptivo. “É aquela
velha história: para quem só tem
martelo, tudo o que vê é prego. Para evitar consequências maiores, é
necessário algo que recicle, que
alargue a percepção. As férias são
um fenômeno econômico recente,
um período institucionalizado e
remunerado em que é possível
trocar o trabalho por outras atividades. Indiretamente, isso atenua
o estresse que vem desse estreitamento perceptível”, defende.
Para o médico, tudo o que fazemos deve ser olhado sob três pontos de vista: se faço o que escolhi, se
Sem obrigações
As férias devem ser um momento em que se pode escolher o que fazer e de
preferência serem prazerosas. O mais importante é a qualidade do recesso
ARQUIVO PESSOAL
Durante os dias de folga, o advogado Dárcio Lopardi se sente mais leve e volta recarregado, cheio de planos e animação
é algo que me dá prazer e se me traz
algum retorno. Fazer algo que não
dá prazer, não traz retorno e não é
uma escolha tem tudo para ser
uma atividade desgastante. As férias, então, representam o momento em que se pode escolher o que
fazer e provavelmente será algo
que dê prazer. Já o ócio, ficar literalmente vendo o tempo passar, nem
sempre é fácil. “Viver o ócio exige
competência ou pode desencadear
uma desorientação, uma sensação
de inutilidade. Nem todo mundo é
capaz de ficar sem fazer nada.”
CORRERIA Bom mesmo, sugere
João Gabriel, seria ter uma espécie
de férias diárias, um período do
dia para fazer algo diferente, que
não tivesse o caráter de obrigação.
“As pessoas hoje tiram férias e via-
jam na sequência, correndo, com
milhares de planos. Assim, fica tudo na mesma, só muda o assunto.
Não necessariamente as férias formais representam descanso”. Realmente, tudo parece passar por
boas e conscientes escolhas.
Tudo o que sonha fazer parece
bem claro para Sílvia. Mas e a tentação de aproveitar a pausa para resolver os problemas domésticos?
“Estou me controlando para não arrumar as apostila antigas da Isa. É
algo que preciso fazer, mas vou me
organizar para fazer isso em um feriado. Também não quero implicar
com minha casa, que preciso pintar, senão vou acabar ralando.”
Acostumada a tirar uma semana de
férias em julho, só para fazer programas com a filha, a pausa do fim
de ano precisa dar a ela alguns mo-
mentos de paz e descanso, sozinha.
“Para otimizar esses momentos,
programo alguns dias nas colônias
de férias de salões de festa e já fechei contrato para umas tardes dela na casa da minha mãe”, brinca.
Mulheres modernas vivem ainda outra realidade. As férias precisam coincidir com o também merecido descanso das empregadas
domésticas. “Algumas tarefas domésticas vão sobrar para mim,
mas por outro lado é até gostoso
poder fazer o almoço para a minha família, já que eu, minha filha
e meu marido estaremos de férias.” Para completar a felicidade,
uma semaninha no litoral. “Só
vou viajar depois de 10 dias de folga. Nunca consegui arrumar uma
mala com tanta calma. Até isso estou comemorando.”
Uma ou
duas
pausas?
Um mês ou duas férias de 15 dias?
Para alguns profissionais, 30 dias corridos por conta do à toa estão apenas
nos sonhos. Para outros, nada melhor
que dividir a pausa e descansar duas
vezes no ano. Na dúvida sobre o que
descansa mais, relaxe: isso varia de
pessoa para pessoa e mais importante que a quantidade é a qualidade. Segundo Ricardo Monezi, do ponto de
vista do ritmo biológico, diversos artigos já demonstraram que duas temporadas de 15 dias não são tão relaxantes para algumas pessoas que um
grande período de férias. “O ideal é
provar o que funciona melhor.”
Mas a literatura médica alerta: os
intervalos de férias devem ser superiores a cinco dias, isso é o mínimo
que o corpo precisa para se recuperar. “O importante é que o profissional consiga ter qualidade de vida
dentro do seu pequeno ou longo período de férias”, alerta Monezi. O advogado Dárcio Lopardi, de 32, é um
dos que não pode tirar um mês inteiro, tendo que aproveitar os recessos jurídicos do fim de ano para descansar duas ou três semanas, quando gosta de viajar, principalmente
para a praia, por gostar de mergulhar. No meio do ano, dependendo
da situação, consegue uma semaninha, que aproveita para curtir a cidade e fazer passeios próximos.
A pausa para ele é sagrada. Tempo de colocar as coisas em ordem,
dormir bastante e curtir o ócio. “Com
certeza me sinto mais leve, recarregado, tiro as preocupações da cabeça
e volto cheio de planos e animação”.
Dárcio é daquela geração que já entendeu quão imprescindíveis são as
férias para melhorar a produção.
EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS
TRÊS PERGUNTAS PARA...
CAROLINA COTTA
PERSONAGEM
DA NOTÍCIA
GUILHERME BOECHAT
32 ANOS, PUBLICITÁRIO
PAULO FILGUEIRAS/EM/D. A PRESS
rário, trabalha até tarde e deixa o cuidado
em segundo plano.”
DEDICAÇÃO A vida pós-infarto é bem di-
ferente, com direito a almoço em casa e
academia no fim do dia, o que, necessariamente, passa por uma maior dedicação a ele mesmo. “Hoje, tenho horário para tudo, inclusive para parar de trabalhar.
Nessa mudança descobri que se eu ficar
trabalhando até meia noite sempre vai
ter serviço. Se eu for embora não muda
nada, tenho é que administrar melhor o
meu tempo.”
Nas vésperas de tirar novas férias,
quer fazer um tira-teima. “Vou fazer a
mesma viagem do ano passado. De novo
sem celular e desligado do trabalho. Vou
aproveitar para ler um bom livro, ver televisão. Só não dá para ficar parado,
olhando pro céu. Aí fico doido.”
O QUE ELES TEMEM
46%
que decisões importantes sejam
tomadas na sua ausência
32%
que ocorram mudanças de cargo
e responsabilidade
19%
que sejam demitidos
3%
que suas ausências
não sejam notadas
FONTE: INTERNATIONAL STRESS MANAGEMENT
ASSOCIATION - BRASIL (ISMA-BR)
Gleno Márcio da Silva foi surpreendido
com um infarto na estrada, quando
retornava das férias. Agora, ele pensa
em administrar melhor o tempo
Ano sabático
E se a pausa durar semanas,
meses, um ano inteiro?
Depois de um período difícil,
que envolveu problemas de
saúde, relacionamento e
afetou sua vida profissional,
Guilherme Boechat pensou
em tentar outra carreira. Mas
percebeu também que
precisava de um tempo
totalmente desligado do que
andava fazendo. “Precisava
viver uma vida mais
saudável, fisica e
mentalmente. Foi uma
resolução de ano novo. Voltei
e me demiti.” Começava ali o
ano sabático de Guilherme,
suportado por sua reserva de
dinheiro, a venda do carro e
total apoio de família,
amigos, colegas de trabalho e
chefia. O período de pernas
para o ar durou de fevereiro
de 2006 a julho de 2007. A
primeira decisão foi fazer um
curso de línguas em
Salamanca, na Espanha. “Foi
na verdade uma desculpa
para viajar.” Depois do curso
de três meses, Guilherme
rodou a Europa e, de volta ao
Brasil, viu outras viagens
surgirem do nada. Visitou o
irmão, que servia Exército em
Roraima, na fronteira com a
Venezuela, e de lá tomou um
ônibus para Manaus e depois
um barco para Belém. Foram
cinco dias descendo o
Amazonas em um barco com
mais 250 pessoas, dormindo
em redes. “A experiência
mais incrível desse período.”
Teve também viagem só para
assistir a uma partida de
futebol em Buenos Aires e
Porto Alegre, e outros vários
passeios em Florianópolis,
São Paulo e Rio de Janeiro.
“Foi a melhor decisão que já
tomei. O mais importante foi
o desapego que desenvolvi
pelas coisas materiais e pelos
obstáculos que eu mesmo me
impunha. Para a maioria das
pessoas, abrir mão de carro e
emprego é impensável.
Quando você faz uma coisa
dessas e tudo dá certo, ganha
confiança para o que quer
que esteja por vir na vida.” A
volta para o trabalho foi
ótimo. A certeza de ter feito
tudo o que podia durante o
sabático deu a ele energia
positiva para encarar uma
rotina de trabalho
novamente. Melhor:
Guilherme conseguiu um
emprego melhor do que o
que tinha deixado. “Minha
carreira não ficou estagnada.
Impressiona-me até hoje
como as pessoas respeitam o
fato de eu ter me afastado de
tudo e ter voltado sem perder
o rumo profissional.”
Para evitar consequências
maiores, é necessário algo
que recicle, que alargue
a percepção
■ João Gabriel Marques Fonseca, professor da UFMG
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Parte 2. - ISMA-BR